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O Papel do Brasil na Nova Ordem Mundial: uma visão desde o MERCOSUL

O Papel do Brasil na Nova Ordem Mundial: uma visão


desde o Mercosul
Lorena Granja (IESP-UERJ / IUPERJ)
lorenagranja@gmail.com

RESUMO: Diante das transformações do sistema mundial é importante


ver o novo papel do Brasil neste contexto de mudanças sistêmicas. Além
disso, também é interessante tentar definir quais são as opções deste país
diante dos novos desafios de “país emergente” para tentar dar conta de
seus problemas internos ainda sem resolver. Para isso, o trabalho
aborda as teorias desenvolvimentistas para dar conta de estes desafios
internos e tentar explicar por que o Brasil ainda é concebido como país
em desenvolvimento, apesar dos esforços por se tornar uma potência
emergente. Por último, consideramos que a inserção externa do Brasil
deve priorizar a região e fazemos um analise do bloco regional mais
antigo, o Mercosul. No decorrer desta última parte, se tenta dar conta
dos desafios que se apresentam ao bloco regional desde a ótica dos
sócios menores.
PALAVRAS-CHAVE: Integração regional; política externa; Mercosul.

ABSTRACT: Facing with the changes in the global system is important


to see the new role of Brazil in this context of systemic
change. Furthermore, it is interesting to try to define the options that this
country has to deal with the new status as "emerging country" and to try
to account for their internal problems still unresolved. To do this, the
paper discusses the developmental theories to account for these
challenges and try to explain why Brazil is still conceived as a
developing country, despite the efforts to becoming an emerging
power. Finally, we consider that Brazil's external integration should
prioritize the region and, in order to that, we make an analysis of the
oldest regional bloc, Mercosur. During this last part, we try to give an
account for all this challenges from the perspective of the smaller
partners.

281
Introdução

O sistema internacional esta atravessando grandes mudanças no


século XXI, fatos como o questionamento à hegemonia dos Estados
Unidos ou a ascensão da China como grande potência no mercado
mundial levam a que alguns acadêmicos considerem que existem as
condições para uma transformação do sistema. Este sistema está
atualmente conformado por uma hegemonia americana que, embora
questionada, tem suas bases fundamentais ainda visíveis e sólidas. Neste
contexto, é importante perguntarmos qual é o papel dos países como
Brasil no novo cenário mundial? O artigo pretende dar resposta a tal
questão desde uma ótica não brasileira, já que consideramos importante
tentar entender a liderança do Brasil desde o contexto regional.
Há autores que consideram que o sistema mundial estaria
novamente ante um império, o americano. Neste sentido, tomam a
concepção de império como una forma específica de poder para assinalar
que os fatos acontecidos em resposta aos ataques do 11 de setembro de
2001 (a brutal invasão do Afeganistão e depois do Iraque pelos Estados
Unidos e seus aliados) são motivos suficientes para iniciar um debate
sobre o retorno ao imperialismo. Por sua parte, Colás (2007) analisa no
último capítulo de seu livro Empire, a pertinência da utilização deste
termo no contexto internacional atual. Com a aparição do conceito de
império pós-moderno1, que dá cabida a um novo tipo de imperialismo
sem fronteiras territoriais com base no controle dos mercados e das
pessoas, o autor considera que este conceito tem sido uma das
ferramentas de análise da realidade atual. Isto não significa que estejamos

1
O conceito foi introduzido no debate acadêmico pelo livro de Hardt e Negri (2000)
Empire, Cambridge, MA, Harvard University Press.

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indiscutidamente ante um novo império (ou tipo de imperialismo), senão


apenas ante uma ferramenta de analise que poderia ser mais bem descrita
como dominação.
Agnew (2005), por sua parte, considera que é melhor a utilização
do conceito de hegemonia estadunidense ao de império, já que permite
descrever melhor as relações entre a sociedade americana e o resto do
mundo. Na sua concepção, não é simplesmente o exercício de uma
dominação por parte do governo de um país, mas também a incorporação
dos demais no exercício de tal poder a través de outro tipo de instituições
(educacionais, culturais, empresariais, etc.).
Por outro lado, há acadêmicos que assinalam que a crise de 2008-
09 constituiu um importante choque à hegemonia estadunidense, já que
deixou em evidência que os países centrais não são capazes de sobrelevar
crises sistêmicas.
Nesse contexto mundial, Brasil entra no cenário globalizado
jogando um papel principal, tanto pela sua liderança regional, quanto por
seu caráter de potência mundial emergente. Este trabalho propõe analisar
qual é o papel de Brasil neste contexto pós-crise. Quais são as
possibilidades de que o Brasil alcance seus objetivos; e quais são as
possíveis conseqüências de que, num contexto otimista, o Mercosul siga
os passos do Brasil.
Em primeiro lugar, o trabalho propõe-se descrever brevemente as
principais características do sistema mundial denominado hegemônico
para situar o contexto no qual o Brasil atua. Posteriormente,
focalizaremo-nos na política brasileira para debater o conceito de neo-
desenvolvimentismo como uma opção válida para o esquema de inserção
internacional do Brasil. Por último, se faz foco no Mercosul e se
enumeram os principais desafios que tem tido nos últimos anos, para dar
283
conta de quais são as possibilidades que se abrem para o bloco depois da
investida internacional de seu principal sócio.

O sistema mundial hegemônico

Embora exista um relativo consenso sobre a hegemonia


estadunidense no mundo, há certos acadêmicos que questionam esta
supremacia. Fiori (2001), por exemplo, considera que estes
questionamentos começam depois da derrota dos Estados Unidos em
Vietnam e continuam durante toda a década dos 80. Na década dos 90,
assistimos à suposta afirmação da tese da estabilidade hegemônica2, no
entanto depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 começam
novamente os questionamentos, diante do ataque direito e da constatação
da vulnerabilidade do império.
De qualquer maneira, Arrighi3 considerava já nos anos 80 que
assistíamos a uma transformação do sistema hegemônico americano,
desde uma hegemonia formal organizada desde o Estado (principalmente,
logo após da finalização da Guerra Fria) para uma hegemonia informal
organizada desde o mercado.
Por sua parte, Fiori (2008) assinala que estes questionamentos não
têm fundamentos suficientes. Seus argumentos baseiam-se em que,
apesar da crise mundial do 2008-09, a hegemonia do dólar ainda persiste;
o poder militar estadunidense é superior ao das outras potências; e a
economia americana continua sendo a mais poderosa do mundo. O

2
Conceito de Keohane “The Theory of Hegemonic Stability and Changes in
International Economic Regimes, 1967-1977” en Holsti et.al. Change in the
International System.
3
Citado em Fiori (2001:11) do livro Arrighi (1982) “The crisis of hegemony” em Amin;
Arrighi; Frank e Wallerstein: Dynamics of Global Crisis, Mac Millan Press, Londres.

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declínio relativo do poder americano em favor da China, não significa


um colapso de seu poder. Pelo contrário, existem evidências históricas
fortes de recuperações depois de crises sistêmicas. O autor utiliza a teoria
do aumento da pressão competitiva4 para apontar que há uma nova
corrida imperial entre as potências (principalmente entre os Estados
Unidos e a China) que daria passo a uma nova expansão do universo
(Fiori, 2008:24) e, conseqüentemente, a uma transformação do sistema.
Apesar desta transformação, Fiori não considera que as potências
emergentes (Brasil, Índia e África do Sul) obtenham um papel relevante
como potências mundiais; pelo contrário, entende que continuarão
desenvolvendo seu papel principal geopolítico nas suas respectivas
regiões. Neste sentido, o autor explica que estamos experimentando um
retorno da geopolítica das nações, marcado pela competição entre as
economias mundiais lideradas por diferentes países em cada região do
planeta e pela incapacidade de ação unilateral por parte dos Estados
Unidos (Fiori, 2007:89-90).
Com relação a isto, é importante destacar a tese de Zakaria (2008)
que avalia as situações destes países no contexto mundial e tem uma
visão diferente do papel dos países emergentes na constituição de uma
nova ordem mundial. Vê à China como potência desafiante, embora
considere que não substituirá aos Estados Unidos como primeira potência
mundial; e à Índia como a principal aliada deste último para
contrabalancear o peso da China.

4
“O aumento da ‘pressão competitiva’ foi provocado –quase sempre– pelo
expansionismo de uma ou várias ‘potências’ líderes, e envolveu também um aumento
do número e da intensidade dos conflitos, entre as outras unidades políticas e
econômicas do sistema. E a ‘explosão expansiva’ que se seguiu projetou o poder destas
unidades o ‘potências’ mais competitivas para fora de si mesmas, ampliando as
fronteiras do próprio ‘universo’”. (Fiori, 2008:22).

285
Esta discussão vai na mesma direção com a que pretendermos
desenvolver neste trabalho, embora consideremos que o Brasil está
aumentando sua importância no contexto mundial, este papel não seria
principal sem uma consolidação da sua liderança e supremacia no nível
regional.
Por ultimo, além do debate existente sobre a suposta perda de
hegemonia norte-americana, o que é indiscutível são as mudanças no
sistema mundial. O fato de que as relações econômicas entre as grandes
regiões do mundo tenham mudado radicalmente, a África e a America
Latina tem um cada vez maior percentagem de comercio com Índia e
China, é interessante dado que estes fluxos comerciais crescentes
provêem das regiões subdesenvolvidas do mundo (desde onde vinha
também o movimento de países não alinhados). Estas transformações
estão evidenciadas a partir de alguns fatos que podem se considerar como
oportunidades para os países emergentes, baixo a condição de estes
lograrem obter as ferramentas suficientes para administrar as mudanças a
seu favor. Neste sentido, parece que o Brasil está tendo certo sucesso.

O Brasil como país desenvolvimentista?

Quais são as alternativas em termos de política interna para o Brasil


tentar acompanhar essa transformação mundial e a sua ascensão como
potência emergente? Nesta seção pretendemos dar resposta a esta
pergunta e adentrar-nos no debate sobre o neo-desenvolvimentismo como
opção válida para denominar aos governos dos últimos anos.
Nos inícios do século XXI América Latina vem tendo uma virada à
esquerda de alguns dos governos da região, se bem existem muitas
diferenças internas, poderíamos resumir que esta virada vai contra as

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políticas neoliberais implantadas na década dos 90 e propõe um


redirecionamento nas relações com os Estados Unidos, como país reitor
da política e inserção latino-americana no contexto mundial a partir da
segunda guerra mundial. Neste contexto, é interessante ver como se dá
esta virada com o conceito de governos desenvolvimentistas, ou neo-
desenvolvimentistas.
A classificação do governo Lula como desenvolvimentista está
relacionada com algumas metas de crescimento e o impulso de certas
políticas específicas que este tem se proposto. No entanto, o
compromisso com a estabilidade que o governo assumiu (inclusive desde
a campanha eleitoral) e o cuidado por manter os níveis de inflação
controlados, dão a pauta da mudança para uma esquerda responsável
que, embora vendo as políticas neoliberais da década dos 90 como o
principal obstáculo para o crescimento, não renuncia a manter as mesmas
metas macro-econômicas como um dos pontos importantes da agenda de
governo. Contudo, a ênfase no Estado como ator relevante e estruturador
do crescimento econômico (em associação com o setor privado),
principalmente nas áreas caracterizadas por políticas de índole
desenvolvimentista, é uma característica que poderia defini-lo como
tendente à esquerda clássica.
Neste contexto, é importante se perguntar se o neo-
desenvolvimentismo atual tem algo a ver com as políticas
desenvolvimentistas dirigidas na década dos 70. Uma primeira
abordagem nos levaria a dar uma resposta negativa, já que um dos
objetivos daquela época era o crescimento econômico baseado em
políticas de industrialização como via para alcançar o primeiro mundo.
Esta concepção está baseada na idéia de que o desenvolvimento pode se
representar num continuo e que existe um caminho a seguir por parte dos
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países subdesenvolvidos para alcançar um estágio superior. Não
obstante, a política exterior do governo Lula (sobretudo, a desenvolvida
nos últimos tempos) está tocando as portas do primeiro mundo e estas
parecem estar se abrindo. Neste sentido, vale a pena se perguntar se
realmente há um desejo deliberado por parte do governo de integrar o
grupo dos países desenvolvidos por meio da via diplomática que pode se
assemelhar aos intentos da década dos 70.
Há muitas coisas a levar em conta sobre essa afirmação, uma delas
é se realmente existe um grupo de países denominado primeiro mundo ou
mundo desenvolvido ao que seria desejável entrar. A segunda, tem a ver
com a relação entre a política exterior do Brasil (e seu papel central no
cenário mundial atual) com o denominado neo-desenvolvimentismo. Isto
leva-nos a indagar se realmente existe um conceito de neo-
desenvolvimentismo, ou se pelo contrário, é um conceito utilizado nos
últimos tempos que bem poderia substituir-se por governo progressista,
ou esquerda latino-americana. Uma terceira questão é a eventual
existência de um consenso (tanto dentro da esquerda, quanto na
oposição) em torno da política exterior do governo de Lula.
Com respeito à existência de um grupo de países desenvolvidos
(centrais) e outro de países subdesenvolvidos (periféricos) são de
destaque as declarações feitas por Arrighi (1997); o autor leva em conta a
classificação de Wallerstein5 sobre o sistema mundial e questiona a teoria
sistêmica para classificar a economia mundial. Wallerstein assinala que
existem basicamente dois tipos de países, que poderiam se representar

5
Wallerstein (1970): The Capitalist World-Economy, New York: Cambridge University
Press. (1984) The Politics of the World-Economy, New York: Cambridge University
Press. (1985) “The relevance of the concept of the Semi-Periphery to Southern Europe”,
en Arrighi (ed.) Semiperipheral Development: The Politics of Southern Europe in the
Twentieth Century. Beverly Hills, CA: Sage, 531.

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esquematicamente por círculos concêntricos, os países do núcleo


orgânico e os países periféricos. Por definição, segundo esta concepção,
não deveria haver demasiados países desenvolvidos porque o centro
mantém seu status graças à existência de uma periferia não desenvolvida.
Nesse esquema, existe um grupo de países que não estão dentro do
núcleo e que também não são considerados tão pobres como os países
periféricos, estes são denominados países semiperiféricos. As relações
desiguais entre ambos dos círculos se vêm reforçadas pela existência
destes últimos países. Esta posição parte da classificação do sistema
mundial da escola estruturalista ou cepalina, desenvolvida
fundamentalmente por Presbich e Furtado nos inícios da década dos 50
que determinou o pensamento latino-americano das décadas posteriores.
Seu principal aporte foi uma forte crítica à leitura neoclássica da
economia mundial. Com uma visão sistêmica do desenvolvimento
desigual do capitalismo, consideravam que existia um centro cíclico
principal da economia mundial (Inglaterra no século XIX, Estados
Unidos no XX) que impôs um patrão de comercio mundial com
intercambio desigual e deu passo, do outro lado, a uma periferia.
Segundo Fiori (2001: 42), esta escola foi a primeira tentativa de
estruturar um pensamento original latino-americano sobre a posição no
esquema mundial capitalista dos países da região.
Por sua parte, Arrighi não considera acertada a teoria sistêmica, em
seu livro A ilusão do desenvolvimento, rejeita a idéia da existência de um
esquema linear mundial baseando-se na hipótese de que os países
semiperiféricos têm que correr rápido para permanecer no mesmo lugar.
Na sua concepção, estes países mesmo tentando alcançar o estado de país
desenvolvido, não conseguem chegar porque os termos de intercambio
entre as três esferas são desiguais e esta é a condição necessária para a
289
existência do sistema (1997:191). Isto se relaciona com a hipótese de
que, na zona semiperiférica, as tendências polarizadoras da economia
mundial foram neutralizadas pela ação estatal. No entanto, o trânsito de
zona não acontece já que a regra se impõe, os países semiperiféricos são
economicamente complementários aos do núcleo orgânico e contribuem
à reprodução desse esquema. Apesar disto, o autor atende à possibilidade
de algum tipo de mudança.
De qualquer maneira, Arrighi entende que esta é uma explicação
baseada em alguns pressupostos questionáveis. Em primeiro lugar, parte
da base de que industrialização é a mesma coisa que desenvolvimento e
que o núcleo orgânico seria a mesma coisa que país industrial
(1997:208). Em segundo, também supõe que a relação entre núcleo
orgânico e periferia é de intercambio desigual e que esta relação consiste
numa rede de comercio e apropriação de excedente (1997:209). O autor
não considera que o intercambio desigual seja a única fonte de
diferenciação entre estes países, já que existem outros mecanismos de
polarização. Entre eles, a apropriação unilateral de mão de obra de um
lado e, do outro, a apropriação unilateral de capital. Todos estes
mecanismos não incluem necessariamente uma rede de comercio, senão
que podem ser apropriados por transferência forçada ou voluntária de
excedente (1997:210).
Em suma, este impasse teórico no qual a existência de diferentes
tipos de países na hierarquia mundial não se explica nem pelo
intercambio desigual, nem pela apropriação de excedente do capital ou
do trabalho, pode ser resolvido de modo simples. É o Estado quem
determina a apropriação de riqueza por parte de alguns grupos e a perda
de outros, em função das diferentes combinações de inovações políticas,

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econômicas e sociais que se dão ao longo da história capitalista. Neste


sentido, Arrighi aponta:
As relações núcleo orgânico-periferia são determinadas não
por combinações específicas de atividades, mas pelo
resultado sistêmico do vendaval perene de destruição
criativa e não tão criativa engendrado pela disputa pelos
benefícios da divisão mundial do trabalho. A alegação
teórica central da análise dos sistemas mundiais a respeito
desse resultado sistêmico é que a capacidade de um Estado
de se apropriar dos benefícios da divisão mundial do
trabalho é determinada principalmente por sua posição, não
numa rede de trocas, mas numa hierarquia de riqueza.
Quanto mais alto na hierarquia de riqueza está um Estado,
melhor posicionados estão seus dirigentes e cidadãos na
disputa por benefícios (Arrighi, 1997:214)

Por outro lado, a teoria da dependência também constitui um


importante acervo teórico que brinda explicações sobre o esquema
mundial capitalista e suas desigualdades estruturais, dependentes e
polarizadas. Na década dos 70, junto a algumas releituras marxistas,
aparece o conceito de desenvolvimento dependente associado. Este
conceito está direitamente vinculado com nosso estúdio já que as
políticas neo-desevolvimentistas atuais têm seu gênesis no pensamento
desenvolvimentista anterior. Com respeito a isto, é importante levar em
conta o desenho institucional de cada país, já que deste dependem tanto o
sucesso das políticas escolhidas, quanto o crescimento econômico
propriamente dito. Desta maneira, Chang no seu livro Chutando a
Escada (2002) considera que os países desenvolvidos alcançaram este
nível de crescimento e desenvolvimento fazendo uso de um sistema
institucional que lhes permitiu crescer e que, agora, consideram obsoleto
e completamente inválido para os países em desenvolvimento. Isto é, as
instituições e políticas protecionistas (e não só as protecionistas) são
consideradas erradas quando são usadas pelos países em

291
desenvolvimento. Noutras palavras, os países desenvolvidos chutam a
escada (composta por um conjunto de instituições e políticas específicas)
a través da qual conseguiram seu nível de desenvolvimento e preconizam
que os países em desenvolvimento adotem políticas diferentes.
Até que ponto Brasil adotou estas políticas? Em primeiro lugar, é
acertado dizer que na década dos 90 o Brasil adotou as receitas
neoliberais do Consenso de Washington ao pé da letra. No entanto, na
atualidade constitui um desafio teórico muito grande afirmá-lo com tanta
determinação. Mesmo assim, Chang (2002) entende que a
institucionalização nos países em desenvolvimento não deve seguir os
patrões do século passado, nem as exigências que atualmente se impõem
em termos de prazos, já que se parte de cenários diferentes dos que
partiram os países desenvolvidos. Neste ponto é aonde começa a ter
especial relevância a dependência de trajetória e as instituições criadas
pelo Brasil na sua época desenvolvimentista.
Neste sentido, Kohli (2004) estuda ao Estado como ator econômico
e suas capacidades de intervir na economia para promover a
industrialização. Sua hipótese central é que a criação de Estados
interventores efetivos nos países em desenvolvimento ajuda à emergência
de economias industrializadas. Em primeiro lugar, vale esclarecer que o
autor não considera que o desenvolvimento implique unicamente
crescimento econômico, nem que este se alcance pela única via da
industrialização. Mas toma estas trajetórias como ponto de partida de sua
análise e aponta que o Brasil dá dois passos para frente e um para trás.
Por um lado, cria instituições estatais que lhe permitem industrializar-se
relativamente cedo; mas, mesmo assim, é incapaz de sair do patrão de
desenvolvimento dependente.

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Ainda que o conceito de neo-desenvolvimentismo gere algumas


dúvidas, é importante explicitar que têm alguns fundamentos político-
metodológicos para utilizá-lo. Um deles é a ênfase em políticas de
desenvolvimento dado pelos governos de esquerda Latino-americana e,
em especial, pelo governo Lula. A aliança entre o Estado e o setor
privado para desenvolver políticas de crescimento está baseada, segundo
Diniz e Boschi (2007:18), numa certa aprendizagem institucional do
Brasil a respeito a seu período desenvolvimentista anterior. As
instituições criadas naquele período são as bases fundamentais da relação
Estado-Mercado na atualidade. Para estes autores, os desafios da nova
esquerda latino-americana de adotar uma agenda denominada neo-
desenvolvimentista estão relacionados com a capacidade de coordenar
políticas que atinjam ao crescimento econômico, procurem reduzir as
desigualdades sociais e erradiquem a pobreza; conjugadas com uma
aposta à estabilidade macro-econômica e à redução da inflação; além de
uma redefinição da inserção internacional. Este último ponto é o que
pretendermos desenvolver daqui por diante, tentaremos ver se os desafios
da agenda externa do governo Lula têm relação com as metas
características de um governo neo-desenvolvimentista ou, a nosso
entender, melhor denominado como progressista. Além disso, no marco
do novo rol do Brasil no contexto internacional, é importante também
saber quais são suas perspectivas para o Mercosul e a agenda de inserção
regional que este governo tem. Porque disto depende, em última
instância, o futuro do bloco regional.
Neste sentido, Boschi e Gaitan (2008:181) colocam um conceito de
governo desenvolvimentista diferente ao clássico estrutural cepalino.
Ambos dos autores consideram que o atual discurso neo-
desenvolvimentista tem certas continuidades com o modelo
293
desenvolvimentista tradicional, no entanto também tem algumas
diferenças importantes que são características do novo discurso. Uma
delas é a combinação da intervenção estatal com a valorização e o
respeito pela estabilidade monetária. Outra é a promoção da integração
total aos circuitos financeiros e comerciais globais. Desta forma, os
autores propõem um novo método para indicar a existência de políticas
desenvolvimentistas: o melhor não é utilizar unicamente o crescimento
econômico, mas optar por indicadores que priorizem as capacidades
institucionais. Analisam então três indicadores que dão conta do viés para
o desenvolvimentismo e formam parte de uma agenda política pós-
neoliberal. O primeiro é a capacidade do país de gerar e expandir o uso
da tecnologia; o segundo, o patrão de seu sistema produtivo
(fundamentalmente, o comércio exterior); e por último, a capacidade de
estender os frutos do crescimento à sociedade (2008:189).
Na agenda atual dos governos de esquerda da América Latina a
questão social tem primordial importância. Embora a aposta neo-
desenvolvimentista seja só uma característica mais destes governos,
como bem o explicitam Boschi e Gaitan (2008:200), tem certas
continuidades e rupturas com o desenvolvimentismo clássico. Mas,
subretudo, tem a ver com a transformação da esquerda latino-americana
que apresenta um neo-desenvolvimentismo híbrido de coordenação
macro-econômica centralizada no mercado ou capitalismo social.
Por sua parte, Sicsú et.al. (2005) consideram que não existe um
neo-desenvolvimentismo único, senão que podem existir diferentes
estratégias de políticas desenvolvimentistas. Propõem quatro condições
sem as quais não existiria uma verdadeira aposta neo-desenvolvimentista
que, resumidamente, procuram o estabelecimento de um Estado forte que
estimule o florescimento de um mercado, também forte.

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1)Não haverá mercado forte sem um Estado forte; 2) não


haverá crescimento sustentado a taxas elevadas sem o
fortalecimento dessas duas instituições (Estado e mercado)
e sem a implementação de políticas macroeconômicas
adequadas; 3) mercado e Estado fortes somente serão
construídos por um projeto nacional de desenvolvimento
que compatibilize crescimento econômico sustentado com
equidade social; e 4) não é possível atingir o objetivo da
redução da desigualdade social sem crescimento a taxas
elevadas e continuadas (Siscú et.al., 2005:XXXV).

Embora algumas destas teses sejam questionáveis, principalmente a


última6, é importante ver como o neo-desenvolvimentismo é concebido
academicamente como vinculado ao crescimento econômico com
distribuição social da riqueza e, conseqüentemente, com a diminuição da
desigualdade. Este é um viés diferente do desenvolvimentismo clássico,
já que aquele só procurava o desenvolvimento pela via da
industrialização e não tinha, ao menos não geralmente, no discurso um
objetivo de redução da desigualdade ou de distribuição da renda.
Por outro lado, o projeto de inserção internacional do Brasil tem a
ver direitamente com sua política de desenvolvimento. Neste sentido, o
pensamento globalizante é anti-nacionalista, no entanto o neo-
desenvolvimentismo deveria brindar uma alternativa que permita
conjugar ambas as coisas. Este é o caminho que os países como Brasil
dispõem-se a fazer. Em primeiro lugar, estes governos devem conjugar
seus mercados locais com os mundiais, trata-se de fomentar um projeto
que permita uma inserção soberana nestes mercados. Com relação a isto,
novas oportunidades aparecem para as regiões subdesenvolvidas, em
especial, para Ásia (tanto no G20 quanto no G4, apesar do período de
crise que estão passando os âmbitos governamentais multilaterais).

6
Já que não é preciso esperar a engrandecer o bolo para depois repartir.

295
Em segundo lugar, a política exterior brasileira já tem um longo
desenvolvimento como área estratégica da política local. A partir da
década dos 60, o Brasil tem feito grandes esforços por desenvolver uma
política exterior autônoma apesar do alinhamento com os Estados
Unidos. O maior passo neste sentido se deu a partir do ano 2002, quando
a integração sul-americana foi definida como ação prioritária da política
exterior brasileira.
Na América Latina, o Brasil é considerado um dos países que mais
tem tirado proveito das últimas mudanças no nível político-estratégico.
Embora este fato gere também certas reticências, sobretudo de parte da
Argentina e Venezuela. Contudo, a idéia de que o Brasil é o líder nato da
América Latina, ainda que generalizada (não unicamente na região) não
implica um consenso. A este respeito, Coutinho (2008:275) explica que
não existe uma liderança natural, senão que esta deve ser construída.
Além disso, a existência de um líder supõe também a de liderados que
demandam certas vantagens em troca. Neste sentido, o governo Lula teve
uma política externa mais ativa que seu antecessor, sobretudo no segundo
governo se fez mais evidente uma mudança de foco desde o Mercosul
para a América Latina em geral.
Além disso, o Brasil está dentro dos países emergentes
denominados BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Este
grupo de países que lideram suas respectivas regiões enquanto ao
tamanho tanto da economia, quanto do território, tem um grande desafio
se querem se consolidar como uma alternativa geopolítica válida para
lidar com os países desenvolvidos nos organismos internacionais. Este
desafio é tentar ter uma agenda política comum que supere as enormes
diferenças e conflitos de interesses que tem cada um deles dentro da sua
própria região e no contexto mundial, e que esta coligação consiga

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traspassar a barreira de mero nexo econômico-comercial para se


converter numa agenda estratégica comum.

Mercosul: uma longa agonia?

Junto à agonia das teses neoliberais da década dos 90, surge a


pergunta do que acontecerá com o Mercosul, filho daquela concepção
liberal de mercados integrados, liberalização comercial e desregulação, é
preciso que a longa agonia na que se encontra o bloco regional seja
recomposta num esquema de integração maior. Por isso, é de muita
relevância saber se as novas redefinições políticas que os governos de
esquerda estão impondo ao Mercosul servirão para sua sobrevivência,
isto depende direitamente das decisões que tome Brasil.
Brasil tem tido sempre um papel protagonista na América Latina,
claro está que não só por causa de seu tamanho, mas porque tem sido
historicamente identificado com todo o continente. Neste sentido, a frase
“aonde vai o Brasil, vai América Latina” 7 tem mais vigência que nunca.
Apesar disso, as elites internas não sempre foram cientes com respeito a
tal papel, posto que durante boa parte do século XX estiveram voltadas
de costas à América Latina e olharam para o Atlântico. Recentemente,
América Latina tem se convertido para Brasil na fonte de seu crescente
desenvolvimento, já que muitas das indústrias de ponta encontram na
região o destino final para suas mercadorias (regionalismo estrutural). A
maior expectativa com respeito ao papel do Brasil no cenário mundial
não deve perder de vista sua centralidade regional. Com respeito desta
ultima afirmação, há alguns aspectos a levar em consideração: em

7
Declaração feita por o Presidente dos Estados Unidos da época, Richard Nixon em
1971.

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primeiro lugar, as relações históricas entre Brasil e os países da América
Latina. Como já tem se assinalado, alguns consideram que o Brasil tem
sido historicamente protagonista na região; no entanto, também existem
teses que apontam que o Brasil apenas está ocupando o lugar que os
Estados Unidos lhe deixara, antes ocupado pela Espanha e Inglaterra
(Coutinho, 2009). Hirst, por sua parte, considera que há uma perda de
liderança dos Estados Unidos que já não tem forças para lidar com as
turbulências periféricas, fato que abre passo à consolidação do Brasil
como potência regional. Historicamente estas relações entre vizinhos não
tem evadido certas desconfianças, seja por questões culturais, de língua e
ate por determinações históricas derivadas das diferentes trajetórias, o
resto dos países da América Latina tem olhado ao Brasil como uma
ameaça imperialista no continente. Se bem esta trajetória de pais
imperialista não tem muitos fundamentos, já que desde 1870 o Brasil tem
mantido relações pacíficas com o resto dos países, existem algumas
visões que consideram a Brasil o sócio auxiliar da hegemonia americana
na região (Fiori, 2007:104).
Segundo Hirst (2009) existem quatro fatores que estão
determinando a política exterior brasileira com respeito a seus vizinhos:
em primeiro lugar, a projeção que a região tem sobre a estabilidade
democrática brasileira; em segundo, sua relação direta com os interesses
econômicos locais; em terceiro, a afirmação do Brasil como um poder
regional a escala mundial e, por último, as especificidades de cada
relação bilateral. A interação específica destes quatro fatores na
conjuntura marca o signo da política exterior brasileira. A autora
identifica, ademais, dois momentos da sua política exterior para a região.
O primeiro está caracterizado pelas variáveis brandas do poder, com uma
política marcada pela Presidência da União de diálogo político e de

298 Revista Política Hoje, Vol. 19, n. 2, 2010


O Papel do Brasil na Nova Ordem Mundial: uma visão desde o MERCOSUL

agenda múltipla. Enquanto o segundo momento tem a ver com a adoção


de assuntos mais duros, por exemplo, a questão da segurança continental.
Com respeito ao Mercosul, existem muitos desafios que o bloco
está enfrentando. Um deles tem a ver com a virada da política brasileira
com relação a sua priorização do âmbito multilateral para conseguir a
cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, assim como
também a consolidação da Unasul. Ambos os assuntos têm deixado atrás
o Mercosul como política de integração prioritária brasileira. Este fato
constitui um desafio maior para os países sócios do Brasil já que deverão
redefinir suas políticas de integração regional voltando-se para a Unasul
se não querem perder o trem em que Brasil está embarcado.
Além disso, a aceitação do Brasil na sua função como ator mundial
depende da capacidade que este país tenha para levar junto a ele aos
demais sócios do Mercosul, principalmente à Argentina. Se isto não
acontecer o Mercosul atuaria como um obstáculo ao relacionamento
mundial do Brasil, ao menos nos âmbitos multilaterais. Por isso, é
importante que o Mercosul tenha a capacidade de conseguir espaços
conjuntos de negociação nos foros mundiais. A este respeito, é
importante o fato da Argentina ter aceitado a candidatura brasileira ao
Conselho de Segurança da ONU. No que diz respeito à política brasileira
sobre a ONU, é de destacar a constituição do G-4 em 2004, integrado
pela Alemanha, Brasil, Índia e Japão, o grupo procurava consolidar suas
estratégias de revisão da institucionalidade da ONU. Para o Brasil é
importantíssimo contar com o apoio de seus sócios do bloco regional
para consolidar sua meta. Se não fosse assim, se converteria num jogo de
tire e solta demasiado perigoso tanto para as negociações intra-bloco
com fins a consolidar o Mercosul, quanto para sua própria sobrevivência.

299
As dificuldades para concretizar as metas econômicas de integração
de mercados dentro do Mercosul abrem um novo desafio nos inícios do
século XXI, a necessidade de fechar acordos que atinjam a América
Latina toda. Neste sentido, a constituição da Comunidade Sul-americana
de Nações (União Sul-americana de Nações) constitui uma tentativa por
dar-lhe uma nova dimensão política à integração regional,
fundamentalmente a través da abertura de novos processos de
institucionalização.
Por outro lado, no que diz respeito aos assuntos militares, são
surpreendentes as cifras citadas por Vágner e Heye (2008) nas que o
Brasil gasta 71% dos gastos militares da América Latina desde 1990 a
2006. Esta cifra é ainda mais surpreendente se compararmos com o gasto
da Colômbia (7%) e Venezuela (4,1%) do gasto militar da região. As
notícias da compra de armamento e das investigações nucleares do Brasil
não deveriam nos surpreender, levando em conta estes dados. Além
disso, segundo estes autores: No ano corrente [2008] o Presidente Luis
Inácio Lula Da Silva propôs um orçamento de defesa 53% maior do que
o de 2007. Com gastos, nos últimos 15 anos, 10 vezes maior do que o
segundo colocado, a Colômbia, o Brasil não conta com rival na região
nesse quesito.8 No entanto, os autores não consideram que esteja
acontecendo efetivamente uma corrida armamentista na América Latina
(como a imprensa vem alardeando nos últimos anos, em especial, diante
das compras militares feitas pela Venezuela) pelo contrário, consideram
que é devido a uma mudança natural de material bélico aproveitando o
aumento nos preços dos commodities.

8
Vágner, C. y Heye, T., 2008:3.

300 Revista Política Hoje, Vol. 19, n. 2, 2010


O Papel do Brasil na Nova Ordem Mundial: uma visão desde o MERCOSUL

Além do mais, no governo Lula evidenciam-se algumas mudanças


a respeito da política externa e seu papel na agenda política nacional.
Tem acontecido uma mudança no tratamento da política exterior,
anteriormente considerada um assunto privativo dos diplomáticos,
atualmente constitui um tema de notório tratamento tanto pela imprensa,
quanto pela sociedade. E, exceto a proximidade das eleições que brindam
um justo motivo à oposição para criar discórdias em torno da política
exterior, esta não tem tido maiores rejeições.

Conclusões

Brazil takes off. O editorial do The Economist de 12 de novembro


de 2009 falava da economia brasileira e da arrogância (ou soberba) com
que o Brasil pareceria atuar. Embora não escondesse o encanto mundial
pelo presidente Lula da Silva, apelidava-o de arrogante e de não
reconhecer muitos dos problemas que o Brasil ainda enfrenta. No
entanto, o editorial intitulava-se Brasil decola e assinalava os sucessos
econômicos que este país tem obtido, em oposição a seus colegas de
acrônimo (Rússia, Índia e China). Este trabalho tentou dar resposta ao
que se desprende do editorial, se o Brasil está pisando forte no contexto
mundial, quais são suas conseqüências para a região e que necessita
cuidar o Brasil para alcançar seus objetivos.
Em primeiro lugar, pareceria importante fazer um ajuste de tom na
afirmação de que Brasil está pisando forte na arena mundial. Se bem é
verdade que a política exterior do governo brasileiro tem sido muito mais
exigente respeito à reforma institucional da ONU e sobre o
protecionismo que os países ricos impuseram na rodada de Doha. O
Brasil não está disputando sozinho esse lugar predominante, está
301
acompanhado de perto por outros países em similares circunstancias (e
inclusive melhores, como a China e Índia).
Apesar disso, sim, existe uma mudança de rumo na política exterior
brasileira a respeito à região, assumindo sua liderança (que não deixa de
ser disputada em forma direta pela Venezuela, e, mais indiretamente,
pelos Estados Unidos) com a intenção deliberada de não deixá-la atrás;
um exemplo é a intervenção na crise hondurenha do ano 2009 e suas
conseqüências a nível regional.
Neste contexto, o Mercosul está passando por um período de
estabilidade e letargia perigoso com muitas idas e voltas em torno de
temas já conhecidos e inclusive de raiz administrativa (embora a
aprovação da entrada da Venezuela por parte do Congresso brasileiro
possa ter sacudido o bloco). No entanto, é de esperar que o Brasil não
deixe de lado o Mercosul como política de inserção regional primordial
já que continua sendo uma peça chave como instrumento de negociação
no contexto multilateral.

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