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UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCAIS


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL
SEMINÁRIOS AVANÇADOS EM PESQUISA DOUTORAL 1
Aluna: Katianne de Sousa Almeida
Resenha do texto
RABINOW, Paul; MARCUS, George; FAUBION, James; REES, Tobias. Designs
for an anthropology of the contemporary. EUA: Duke University Press, 2008.
(Introduction)
Livro publicado pela editora Duke University Press em 2008 produzido pelos
pesquisadores: Paul Rabinow, George E. Marcus, James D. Faubion e Tobias
Rees. Eles todos professores americanos e homens brancos.

Com uma breve biografia dos autores para entender suas ideias no texto
é importante destacar o foco de suas análises, no que eles afirmam em ser a
Antropologia do Contemporâneo. George E. Marcus, por exemplo é um
professor norte-americano de antropologia da Universidade da Califórnia e,
atualmente, concentra seus estudos na antropologia das elites, em que ele aplica
uma abordagem de pesquisa antropológica ao pensamento e aos processos de
tomada de decisão das pessoas na operação de bancos centrais nos Estados
Unidos e na Europa. Na Universidade da Califórnia ele estabeleceu um Centro
de Etnografia, dedicado a experimentos e inovações nesta forma de
investigação.

Já Paul Rabinow é professor de Antropologia na Universidade da


Califórnia (Berkeley). Suas contribuições teóricas fundamentais são sobre a
antropologia do contemporâneo que consiste em um trabalho analítico que ajuda
a desenvolver modos de investigação em relações sub-determinadas,
emergentes e discordantes. Busca desenvolver métodos, práticas e formas de
investigação e narração coerentes e cooperáveis com a compreensão do modo
(ou modos) tomados pelo agenciamento hoje.

James Daniel Faubion é antropólogo americano e educador. Sua


formação é diversa perpassando pelas áreas de antropologia, filosofia, artes.
Atualmente é professor associada da Rice U Houston.

Tobias Rees estudou antropologia e filosofia na Alemanha e neurobiologia


na França. Atualmente é professor em Montreal. A experiência do professor
Rees reside na interseção da antropologia, história da arte, história da ciência e
filosofia da modernidade e diz respeito ao estudo do conhecimento e
pensamento. Mais especificamente, ele está interessado em como as categorias
que ordenam o conhecimento mudam ao longo do tempo - por causa de
humanos, micróbios, caramujos, o clima, inteligência artificial ou outros eventos
- e quais os efeitos dessas mutações nas concepções do humano / real.

O início do texto traz um panorama das teorias antropológicas, assim


como trouxe o texto de Sherry Ortner (Teoria na Antropologia desde os 60), ou
seja, cita os expoentes do evolucionismo como Tyler, Morgan e Frazer, Boas
como relacionado ao particularismo histórico; Durkheim como figura da ontologia
social; Malinowski responsável pela etnografia, quanto ao funcionalismo-
estrutural trouxe como destaque os trabalhos de Radcliffe Brown, Evans-
Pritchard e Meyer Fortes; Lévi-Strauss e sua importância numa virada
antropológica inovadora para a abordagem intelectualista do estruturalismo em
que conectava os conceitos de cultura e personalidade. E, finalmente, Geertz
com sua antropologia interpretativa e simbólica juntamente com Victor Turner e
Marshall Sahlins.

A introdução da obra traz como base um novo paradigma na antropologia


que tem como foco a crítica ao colonialismo e na emergência de etnografias
dialógicas ou polifônicas e como a obra Writing Culture (Escrita da Cultura) de
George Marcus repensou a prática do trabalho de campo e da postura da
disciplina de uma forma analítica e política.

Continuando quanto as contribuições da obra Writing Culture, esta obra


trouxe à tona todo o empreendimento da antropologia, seus métodos, seus
conceitos e até mesmo seu objeto de pesquisa para o centro da discussão. Para
entender o impacto do livro citado é útil voltar no tempo, ou seja, entre 1970 e
1980. Três pontos são importantes destacar: 1. surgimento de uma nova
sensibilidade; 2. surgimento de um novo paradigma antropológico; 3.
disponibilidade de novas ferramentas conceituais.

Quanto ao ponto de destaque nova sensibilidade ressaltou-se uma


recente postura dos antropólogos marcados por uma nova e intensa
sensibilidade às questões de poder e discriminação política. Os cenários para
essas mudanças de postura estão: a. lutas mundiais contra o colonialismo; b.
ascensão do movimento pelos direitos civis; c. advento das ações afirmativas; d.
movimento antiguerra; e. construção de uma nova nação de movimentos
minoritários.

A virada antropológica veio após os trabalhos de Geertz, pois a


antropologia estava dividida pelas concepções do ecodesenvolvimento
econômico e político da antropologia americana e por outro lado pelo estrutural-
funcionalismo britânico. Geertz nos colocou a importância em se entender a
cultura como texto e conceituou a cultura como uma teia semiótica. Para além
disso, indicou que o desafio do trabalho de campo era examinar pelos ombros
de um informante e ler o roteiro que orienta a vida nativa. Para a compreensão
da cultura era necessário lançar luz sobre a estrutura do texto e também
apresentar notas na forma de descrições densas (prática textual por ele
trabalhada). A virada filológica de Geertz permitiu que as etnografias fossem
vistas como documentos literários.

Retornando ao livro Writing Culture seu objetivo central era melhorar


analiticamente e politicamente a qualidade das etnografias como textos. Logo,
foi uma crítica política e epistemológica de etnografias como texto.

A partir de 1970 tem o surgimento de novos modelos conceituais de


pensamento inseparáveis e de uma sensibilidade para questões de poder e
discriminação política. Além disso, foi contundente a crítica dos textos
antropológicos que negavam aos nativos colocarem sua própria voz. Tem-se a
partir daí uma fratura entre gerações de uma abordagem antropológica, ou seja,
entre a geração clássica que defende os projetos tradicionais e a geração jovem
que move-se para além do repertório dos conceitos bem experimentados para
encontrar novas formas de praticar a etnografia. Logo, novas formas de produzir
conhecimento antropológico sobre o mundo que habitamos sem orientações
canonizadas.

A produção da obra Writing Culture, na verdade, não foi um fenômeno


isolado. Houveram outros projetos críticos: 1. Antropologia da identidade; 2.
Projeto da cultura pública; 3. Antropologia feminista. Todas essas produções
fervilhavam em 1980. A partir desta década um novo cenário pairava nas
discussões antropológicas: o momento experimental tendo como aspectos: a.
agenciamentos; b. aparatos; c. problematizações.

A partir de todo este cenário apresentado os autores do livro desta


resenha trazem o conceito de uma antropologia do contemporâneo que se
caracteriza por realizar uma revisão quanto ao esquema canônico de Malinowski
que definia o trabalho de campo como uma produção a longo prazo, realizada
por meio da observação participante e centrada em um único local em uma
temporalidade marcada pela lentidão e pela estabilidade, controle do idioma, o
efeito em demonstrar profundidade de conhecimento de outra cultura, o
pesquisador como autoridade etnográfica e conhecedor profundo da cultura
hierarquicamente marcada diante do nativo vivente daquela tradição.

Atualmente George Marcus compreende que uma teoria de uma


antropologia do contemporâneo nasce a partir dos debates das produções
teóricas desde 1990. Ele observou que a Antropologia sofreu desde a década de
1980 com o colapso da divisão convencional do trabalho de campo que atribuiu
à antropologia o terreno do primitivo, do tradicional, e do pré-moderno enquanto
as outras ciências sociais estudavam o moderno.

Para um antropólogo do contemporâneo é necessário: a. identificar; b.


rastrear; c. nomear as alterações. O antropólogo, portanto, precisa encontrar
novos conceitos adequados para os fenômenos particulares cujo significado ele
ou ela deseja explorar. Para Paul Rabinow, a antropologia como é praticada
atualmente é problemática na medida em que se recusa a abandonar os modelos
analíticos que dominaram o pensamento social e cultural no passado. A posição
da antropologia como disciplina social não pode apegar a conceitos e métodos
não mais adequados para entender os problemas contemporâneos.

Ao final da Introdução é indicada como esperança a pedagogia como


ferramenta capaz de revigorar a antropologia como disciplina e como prática.
Entretanto, para George Marcus é importante continuar a manter os conceitos
fundantes como etnografia, trabalho de campo e cultura como pontes entre o
passado e o presente da disciplina.

Porém para Rabinow se agarrar a conceitos clássicos é não permitir que


a estrutura interna da antropologia seja reformada consideravelmente. As
possibilidades do design, no qual possíveis objetivos, conceitos e métodos para
a antropologia do contemporâneo são desenvolvidos, testados, questionados,
melhorados e deixados em seu estado inacabado para outros assumirem.

O livro Projetos (Design) para a Antropologia do Contemporâneo tem


como objetivo pensar de forma dialógica a condição corrente da antropologia
através de vários pontos de vista. A Antropologia deve ser pensada em
movimento, em que se explora conceitualmente os desafios metodológicos do
campo, explorar pontes do passado para o presente – permitindo conectar o
projeto etnográfico tradicional com a estrutura de uma nova antropologia que se
estrutura hoje.

Por fim, a proposta dos autores é desenvolver um conjunto de ferramentas


conceituais – projetos, aos quais chamamos, através da prática, de uma
antropologia do contemporâneo. Eles não pensaram nesse modelo como preso
a um final ou a um modelo único, mas propostas várias entre múltiplos outras
possíveis maneiras de se relacionar e explorar as condições atuais da
antropologia.