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ANDRESSA ALINE VIEIRA

ESTUDO ACERCA DA SEXUALIDADE EM PÓS-TRANSPLANTADOS

Curitiba
2013
ANDRESSA ALINE VIEIRA
ESTUDO ACERCA DA SEXUALIDADE EM PÓS-TRANSPLANTADOS

Trabalho de Conclusão de Curso


(TCC), desenvolvido por acadêmica do
10º período matutino, do Curso de
Psicologia da Faculdade Evangélica
do Paraná (FEPAR), como requisito
para a obtenção do título de psicólogo,
sob orientação da psicóloga e
professora:

Dra. Marilza Mestre

Curitiba
2013
“Desejo que você
Não tenha medo da vida, tenha medo de não vivê-la.
Não há céu sem tempestades, nem caminhos sem acidentes.
Só é digno do pódio quem usa as derrotas para alcançá-lo.
Só é digno da sabedoria quem usa as lágrimas para irrigá-la.
Os frágeis usam a força; os fortes, a inteligência.
Seja um sonhador, mas una seus sonhos com disciplina,
Pois sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas.
Seja um debatedor de ideias. Lute pelo que você ama.”
Augusto Cury
Dedicatória

Aos meus pais, obrigado pelo dom da vida.


Aos meus irmãos pelo carinho.
Aos meus amigos que me ajudaram.
Ao meu esposo que sempre esteve ao meu
lado… NEOQEAV!

Agradecimentos
Chegar até aqui... não foi fácil.
Por isso, agradeço em primeiro lugar a Deus que guiou o meu caminho, me deu
forças para continuar quando eu estava cansada e foi meu ânimo quando eu pensei em
desistir nos momentos difíceis. Sem Deus esta etapa de minha vida estaria incompleta.
Agradeço aos meus pais, Paulo e Eunice, pelo dom da vida. A luz de minha mãe
sempre iluminou os meus passos quando eu me senti sozinha, ela também segurou a minha
mão quando eu tive medo. Parece que foi ontem que você me levou para a escola pela
primeira vez, e em alguns momentos ainda me sinto como aquela menininha assustada com
o mundo imenso a minha volta. Obrigada por estar lá em cada momento que eu precisei de
você. Acredite, você sempre esteve por perto!
A minha irmã pela sua força, coragem, determinação e até mesmo as broncas... que
me fizeram seguir em frente. Obrigado por ter-me “ajudado” com as tarefas de casa! Entrei
na faculdade de psicologia... Você casou com uma pessoa maravilhosa que também me
ajudou neste caminho. Obrigado André pelos livros!. Agora estou me formando e vocês me
deram mais um presente: a Kamile! Um anjo que também me dá forças para seguir em
frente! Obrigada Karine e André, vocês são meus melhores amigos!
Ao meu irmão Paulo, minha eterna cunhadinha Joslaine, meu sobrinho Lucas pelas
horas de descontração que permitiram que eu não enlouquecesse.
Ao meu namorado, noivo e marido, Maicon, meu eterno agradecimento por ter me
esperando tantas noites para me levar para casa, pelas noites em claro, pela compreensão,
apoio, carinho, por ter lutado ao meu lado nestes 5 anos. Obrigado por ter me defendido, até
mesmo quando eu estava errada! Obrigado por ser meu apoio na alegria e na tristeza, na
saúde e na doença e vamos juntos até a eternidade! E é claro... NEOQEAV!
A toda a minha família, pois não daria para colocar todos os nomes aqui, obrigado
por terem compreendido a minha ausência nas reuniões de famílias.
E é claro... não deixaria de fora a minha Super Supervisora Dra. Marilza Mestre, que
foi uma mãe intelectual durante estes anos de faculdade. Você não é apenas um exemplo
de pessoa, de mãe, mulher, psicóloga, professora, é também aquela em que eu tenho
orgulho de dizer que faz parte de minha vida e que eu vou seguir sempre! Obrigado pelos
“puxões de orelha”, pelas vezes que me “colocou de castigo”. Aprendi muito com você. Você
foi testemunha dos meus sorrisos e das minhas lágrimas... Obrigado por tudo! Você
realmente é Super!
SUMÁRIO

Lista de Figuras..................................................................................................................... vii


Lista de Quadros.................................................................................................................... ix
Lista de Siglas......................................................................................................................... x
Lista de Anexos.................................................................................................................... xiii
Resumo................................................................................................................................ xiv
Abstract................................................................................................................................. xv
Apresentação.......................................................................................................................... 1
Introdução............................................................................................................................... 3
Sistema Urinário................................................................................................................ 3
Doença Renal Crônica......................................................................................................5
Sistema Reprodutor Masculino........................................................................................6
Sistema Reprodutor Feminino.........................................................................................7
Sexualidade ao Longo da História...................................................................................8
A Importância do Sexo na Vida dos Brasileiros...........................................................10
Disfunção Sexual em Doentes Crônicos.......................................................................11
Sexualidade Pós-Transplante.........................................................................................12
Objetivos............................................................................................................................... 14
Geral................................................................................................................................. 14
Específico........................................................................................................................ 14
Método.................................................................................................................................. 15
Método Utilizado.............................................................................................................. 15
Participantes.................................................................................................................... 15
Material............................................................................................................................. 16
Ambiente.......................................................................................................................... 19
Procedimento.................................................................................................................. 19
Análise de Resultados....................................................................................................21
Resultados e Discussão........................................................................................................22
Estudo De Caso.................................................................................................................... 65
Participante 1................................................................................................................... 65
Participante 2................................................................................................................... 66
Participante 3................................................................................................................... 68
Participante 4................................................................................................................... 70
Participante 5................................................................................................................... 72
Participante 6................................................................................................................... 74
Participante 7................................................................................................................... 75
Participante 8................................................................................................................... 76
Participante 9................................................................................................................... 78
Participante 10................................................................................................................. 79
Considerações Finais............................................................................................................ 82
Referências Bibliográficas.....................................................................................................86
Anexos.................................................................................................................................. 91
Anexo 1............................................................................................................................ 92
Termo de Consentimento Livre Esclarecido.................................................................92
Anexo 2............................................................................................................................ 94
Carta de Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da FEPAR...............................94
Anexo 3............................................................................................................................ 96
Questionário Sócio-Economico-Cultural.......................................................................96
Anexo 4.......................................................................................................................... 102
Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós-Transplante..............................102
Anexo 5.......................................................................................................................... 104
Cartilha Sobre Sexualidade..........................................................................................104
Lista de Figuras

Figura 1: Estado Civil dos participantes, com cinco opções para escolha.............................23

Figura 2: Amostra dividida por sexo......................................................................................25

Figura 3: Idade dos Participantes..........................................................................................26

Figura 4: Tempo de casamento de cada participante casado...............................................27

Figura 5: Número de participantes com filhos.......................................................................28

Figura 6: Relação entre número de filhos, tempo de casamento e o tempo de descoberta da


DRC...................................................................................................................................... 30

Figura 7: Religiões aos quais os participantes da amostra disseram pertencer....................30

Figura 8: Número de pessoas da amostra que se declararam praticantes ou não de alguma


religião.................................................................................................................................. 31

Figura 9: Tratamentos realizados pela amostra, onde o tratamento medicamentoso,


nutricional e de mudança de hábitos de vida foi ignorado pela totalidade da amostra..........34

Figura 10: Percepção de saúde hoje.....................................................................................35

Figura 11: Tipo de doador, vivo ou falecido..........................................................................39

Figura 12: Hábitos de vida da amostra..................................................................................41

Figura 13: Doenças Pré-Existentes.......................................................................................42

Figura 14: Participantes da amostra que faziam acompanhamento médico para as doenças
pré-existentes....................................................................................................................... 43

Figura 15: Tempo de descoberta da doença renal................................................................44

Figura 16: Diagnóstico Médico..............................................................................................45

Figura 17: Sentimentos acerca da doença renal crônica.......................................................47

Figura 18: O maior sentimento acerca da doença renal crônica...........................................48

vii
Figura 19: Sexualidade após o transplante renal..................................................................50

Figura 20: Satisfação com a sua sexualidade após o transplante renal................................52

Figura 21: Maior dificuldade em homens transplantados durante as relações sexuais.........54

Figura 22: Maior dificuldade em mulheres transplantadas durante as relações sexuais.......56

Figura 23: Resultados obtidos através do Questionário Sobre Sexualidade no Período Pós-
Transplante........................................................................................................................... 63

Figura 24: Notas dadas ao quanto os participantes se sentiram constrangidos em responder


ao estudo.............................................................................................................................. 64

viii
Lista de Quadros

Quadro 1: Correspondência entre valor Likert, letra e pontuação do questionário...............18

Quadro 2: Divisão das habilidades sexuais de acordo com cada resposta e grupo.............19

Quadro 3: Legenda dos escores aplicados nos questionários.............................................19

Quadro 4: dados descritivos dos participantes da amostra-piloto que constituiu (N=10) da


pesquisa, onde OE significa a ordem em que ocorreu a entrevista; PS corresponde a sigla
nomeadora, atribuída ao entrevistado; G refere o gênero do participante, onde M é
masculino e F é feminino; I diz da Idade do participante; EC significando o estado civil; TU
refere o tempo que dura a atual união; NF refere-se ao número de filhos; R é igual religião,
sendo que C refere-se a católica e E para evangélica e P significa alguém que a pratica;
DRC fala do tempo desde o diagnóstico de DRC; TX fala do tempo desde o transplante,
expresso em anos (a) e ou meses (m); TD corresponde ao tipo de doador, sendo V para
doador vivo e F para doador falecido; AD traz opinião da equipe se este fez adesão ao
tratamento e O refere outro dado pertinente.........................................................................22

Quadro 5: Dados descritivos dos participantes da amostra-piloto que constituiu o N da


pesquisa, onde OE traz a ordem da entrevista; PS é o pseudônimo do entrevistado; G refere
gênero, onde M é masculino e F é feminino; I diz da Idade; DRC é tempo desde o
diagnóstico de DRC; TX fala do tempo desde o transplante, expresso em anos (a) e ou
meses (m); F é a nota atribuída à frequência da sexualidade; QL corresponde a qualidade
desta sexualidade e, ADRC corresponde a nota que o participante dava a sua sexualidade
antes da descoberta da DRC................................................................................................35

Quadro 6: Drogas que podem ter repercussão negativa sobre a sexualidade.....................38

Quadro 7: Dados descritivos dos participantes da amostra-piloto, onde OE significa a ordem


em que ocorreu a entrevista; PS corresponde ao pseudônimo atribuído ao entrevistado; G
refere o gênero do participante, onde M é masculino e F é feminino; I diz da Idade do
participante; EC significando o estado civil;; DRC fala do tempo desde o diagnóstico de
DRC; TX fala do tempo desde o transplante,expresso em anos (a) e ou meses (m); TD
corresponde ao tipo de doador, sendo V para doador vivo e F para doador falecido..........39

ix
Lista de Siglas

TX: Transplante

TX-Renal: Transplante Renal

Pré-Tx: Pré-Transplante

Pós-TX: Pós Transplante

DRC: Doença Renal Crônica

IRC: Insuficiência Renal Crônica

GC: Glicocorticóides

MC: Mineralocorticóides

(SDHEA): Sulfato de Dehidroepiandrosterona

HCFMRP-USP: Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da


Universidade de São Paulo

N: Número de pessoas na amostra

HUEC: Hospital Universitário Evangélico de Curitiba

G1: Grupo 1

G2: Grupo 2

HS: Habilidoso Sexualmente

+HS: Mais Habilidoso Sexualmente

+/-HS: Mais ou Menos Habilidoso Sexualmente

-HS: Menos Habilidoso Sexualmente


x
NHS: Não Habilidoso Sexualmente

OMS: Organização Mundial de Saúde

OE: Ordem de Entrevista

PS: Pseudônimo

G: Gênero

I: Idade

EC: Estado Civil

TU: Tempo de União

NF: Número de Filhos

R: Religião

P: Praticante

TD: Tipo de Doador

F: Frequência

QL: Qualidade

ADRC: Antes da descoberta da Doença Renal Crônica

AD: Adesão ao tratamento

O: Observação

IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

HD: Hemodiálise

xi
≠: Diferença em anos

QV: Qualidade de Vida

xii
Lista de Anexos

Anexo 1............................................................................................................................ 89
Termo de Consentimento Livre Esclarecido................................................................. 89
Anexo 2............................................................................................................................ 91
Carta de Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da FEPAR............................... 91
Anexo 3............................................................................................................................ 93
Questionário Sócio-Economico-Cultural....................................................................... 93
Anexo 4............................................................................................................................ 99
Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós-Transplante................................ 99
Anexo 5.......................................................................................................................... 101
Cartilha Sobre Sexualidade.......................................................................................... 101

xiii
Resumo

Doenças crônicas afetam a qualidade de vida das pessoas de forma significativa, quer
sendo causa quer sendo consequência há distorção da percepção acerca da imagem que a
pessoa possui de si mesma, do próprio corpo, afetando assim sua autoestima, sua rotina
diária, memória, sono, ajuste social, entre inúmeros outros campos da existência humana.
Com tudo isso, a vida de pacientes portadores de doenças crônicas pode ficar alterada,
acarretando além dos problemas fisiológicos que ele já apresenta, outros de ordem
psicológica, social e, portanto, existencial. Entre estes fatores que ficam alterados, está
incluída a sexualidade da pessoa. O presente estudo teve por objetivo, fazer um
levantamento da qualidade de vida destes doentes crônicos, com base nas disfunções
sexuais que estes relataram à equipe de psicologia e a considerável mudança em hábitos
de vida e consequente melhora no aspecto do relacionamento afetivo-sexual que
apresentaram após o transplante (no presente caso, o renal). Tal estudo visou possibilitar
uma linha de base para tratamento de outros doentes crônicos, que vivam outros tipos de
transplantes. O método foi de levantamento, com entrevista semi-estruturada (N=10) com
pacientes renais crônicos, transplantados, de ambos os gêneros, adultos a partir de 18 anos
de idade, tendo como instrumentos: TCLE e roteiro de construção própria. O procedimento
iniciou com encaminhamento, da professora orientadora, de casos atendidos por ela no
ambulatório e que referiram queixas de ordem da sexualidade. Foi efetuada entrevista para
coleta de dados e a analise destes aconteceu por avaliação qualitativa (abordagem
cognitivo-comportamental). Os resultados confirmam a existência de ideias irracionais
impeditivas de qualidade na sexualidade; 100% dos participantes tiveram ausência de
informações sobre sexo e sexualidade na adolescência e também antes e após o TX; o
mesmo em relação a distorções em autoimagem corporal e vergonha sobre auto-cuidados.
Nove deles afirmaram que possuem o desejo; mas, entre os seis homens, cinco sentem
algum tipo de dificuldade para desempenho sexual satisfatório. Conclui-se que há uma
melhora na qualidade de vida da pessoa, quando os problemas sexuais relacionados ao
transplante – ideias irracionais – são sanados e, isto aconteceu em praticamente 100% dos
casos atendidos e avaliados empiricamente, ao longo dos anos que a psicologia atende no
ambulatório, além dos casos desta amostra, bem como na de Chorates (2010); e, o
percentual dos casos que deixaram de ter benefícios nesta área, pela terapia focal, foram
encaminhados para a clínica de psicologia do curso da FEPAR e, lá em terapia cognitiva-
comportamental, se obteve exclusão desta queixa.

Palavras Chave: Doenças Crônicas; Transplante; Sexualidade Pós-Transplante.

xiv
Abstract
Chronic diseases affect the people's quality of life significantly with either as a cause or as a
consequence of the distortion of the perception of the image that one has of himself , of his
own body , thus affecting their self-esteem , your daily routine , memory, sleep , social
adjustment , among many other fields of human existence .With all of this difficulties, the life
of patients with chronic diseases can be affected, resulting in addition of physiological
problems that he has , other psychological, social and, therefore, existential problems.
Among these factors that are altered , is including one's sexuality . The present study aimed
to make a survey of the quality of life of chronic patients based on sexual dysfunctions
reported the psychology team, and they considerable change in lifestyle and consequent
improvement in the emotional and sexual relationship that presented after transplantation (in
this case the renal transplantation) . This study aimed to make possible a baseline for the
treatment of other chronic transplanted patients. The method was survey with semi-
structured interviews (N=10) with chronic renal failure patients, transplanted, of both sexes ,
adults from 18 years old , with the instruments: TCLE and script of own construction. The
procedure initiated with the indication of the attended cases, by adviser professor, by her in
the outpatient clinic and that referred complaints of order of the sexuality. An interview was
conducted to collect data and the analysis of this data happened by qualitative assessment
(cognitive-behavioral approach). The results confirm the existence of irrational ideas that
prevent quality in sexuality, 100% of participants hadn't information about sex and sexuality
in adolescence and also before and after the TX; the same for the distortions in one's body
image and shame about self-care. Nine of them claim to have the desire, but among the six
men, five feel some kind of trouble satisfactory sexual performance. The conclusion is that
there is an improvement in the quality of life of the person when sexual problems related to
transplantation - irrational ideas - are remedied, this happened in almost 100% of the cases
seen and evaluated empirically, over the years that psychology attends on the clinic, in
addition to the cases in this sample, as well as in of Chorates (2010), the percentage of
cases that no longer have benefits in this area, by the focal therapy, were referred to clinical
psychology of FEPAR and there with cognitive-behavioral therapy, was obtained deleting this
complaint.

Key Words: Chronic Disease; Transplantation; Sexuality Post Transplant.

xv
1

Apresentação
A sexualidade é uma temática que sempre está em repercussão na sociedade, seja
através das mudanças ocorridas através dos tempos na definição de sexualidade saudável,
ou mesmo sobre os tratamentos para as disfunções sexuais e aumento do prazer em ambos
os sexos.

Mas como fica a sexualidade da pessoa que se descobre portadora de uma doença
crônica? Existe vida sexual pós-transplante? Para entender este aspecto se faz necessário,
antes, compreender qual é o funcionamento sexual dos pacientes e seus parceiros, durante
uma doença crônica, pré-transplante.

Autores como Parolin et. Col. (2009), Torrano-Masetti et. Col. (2000) e Gullo (2000)
afirmam que há muitas dúvidas acerca da sexualidade em doentes crônicos e pós-
transplantados, que podem e devem ser esclarecidas.

Tendo em vista todos os dados apresentados, a acadêmica do 9º período de


psicologia, Andressa Aline Vieira, da Faculdade Evangélica do Paraná, orientada pela
professora e psicóloga Dra. Marilza Mestre, formulou hipóteses para o presente estudo,
tendo como base dados empíricos extraídos dos relatórios clínicos de seis anos de
atendimento neste setor e um estudo piloto, realizado por Chorates (2010):

1. Há inúmeras crenças irracionais acerca da sexualidade em pessoas (pré e pós)


transplantadas que podem levar a disfunções sexuais e consequentes disfunções sociais
(h1)

2. Após o transplante os doentes renais tem a sua função renal normalizada e depois de um
tempo de recuperação e através de um bom esclarecimento pré e pós transplante tais
crenças irracionais desaparecem ou nem a chegam a acontecer (h2);

3. Mesmo fornecendo as informações necessárias ao paciente transplantado as crenças


irracionais permanecem para alguns destes doentes que, então irão requerer processo
psicoterápico para vencer tais dificuldades (H3). ;

4. Crenças irracionais podem ser desencadeadores de processos de mau desempenho


sexual e aceleradores de baixo índice de desempenho nas habilidades sociais;

5. Estes fatores se entrecruzam causando distúrbios na qualidade de vida dos doentes


crônicos.
2

O presente estudo demonstrou relevância principalmente pelo fato da sexualidade


envolver diretamente a autoestima e, portanto, ser um dos constitutivos da autoimagem que
a pessoa possui.

Além disto, através deste pôde ser entendida melhor a temática das crenças
irracionais que as pessoas pós-transplante costumam apresentar e assim desta forma
buscar novos meios para ajudar a sanar suas dúvidas acerca do tema. Contribuindo
também com a comunidade científica com a divulgação de material que ajude a
compreender melhor a sexualidade do transplantado.
3

Introdução
Sistema Urinário

As funções celulares dependem de um conjunto de ações que se resumem a ajudar


ao organismo a adquirir nutrientes que contribuam para o metabolismo ou a eliminação de
produtos finais do metabolismo. Estas ações ocorrem através da urina, suor e do ar
eliminado na respiração. (Cortez e Silva, 2008; Ganong, 2005)

O sistema urinário é um conjunto de órgãos envolvidos na formação,


armazenamento e eliminação da urina, sendo constituído pelos rins, ureteres, bexiga e
uretra. As funções deste sistema vão além de filtrar o sangue, formar e excretar a urina.
Ele também possui a função de manter o equilíbrio acidobásico e efetuar a regulação a
longo prazo da pressão arterial. (Guyton e Hall, 2006)

O rim, um dos órgãos do aparelho urinário, tem a forma de um feijão, apresenta


aproximadamente 11 cm de comprimento, 5 cm de largura e 3 de espessura. Normalmente
se encontram dois rins que ficam localizados na região posterior do abdômen atrás do
peritônio. Existe um rim em cada lado da coluna vertebral, mais ou menos entre as vértebras
T12 e L3. Os rins são formados por várias unidades morfofuncionais chamadas néfrons, que
tem como função a filtragem do sangue que entra pela arteríola aferente, reabsorção de
componentes que não devem ser eliminados e secreção extraglomerular. Os néfrons filtram
o sangue removendo resíduos nitrogenados como ácido úrico e ureia, além de retirar o
excesso de sais minerais do sangue, exercendo assim, função osmorreguladora. (Castro,
1985; Filho, 2006)

(...) O néfron é a unidade morfofuncional do rim, sendo uma estrutura que se estende
desde o córtex até a medula renal. (...) O sangue entra no rim através da artéria
renal, que é um ramo da aorta. No hilo, a artéria renal se divide em um ramo anterior
e um ramo posterior. No interior do rim, estes ramos se dividem e dão origem às
diversas artérias interlobares, que vão formar as artérias arqueadas, que se
ramificam em numerosas artérias interlobulares. No interior do córtex renal, cada
artéria interlobular se desdobra em numerosas arteríolas aferentes e, desta, se
formam os glomérulos. O glomérulo é uma rede de capilares envolvida pela cápsula
de Bowman. (...) O glomérulo é responsável pelo suprimento sanguíneo desta área
(...). (Cortez e Silva, 2008)

Sobre cada rim se aloja uma glândula suprarrenal, que são glândulas muito
irrigadas, sendo que o córtex suprarrenal secreta esteroides, denominados corticosteroides,
como por exemplo os glicocorticoides (GC) que atuam no metabolismo de proteínas,
gorduras e carboidratos. A maioria dos GC é formada pelo cortisol, e em menor quantidade
4

a corticoesterona e a cortisona. O cortisol é um hormônio fundamental à vida, sendo que a


sua produção é aumentada em situações de estresse. Já os mineralocorticoides (MC) têm a
função de manter o volume dos fluidos extracelulares e conservar os íons sódio plasmático.
A aldoesterona é o mais importante mineralocorticoide, pois promove o aumento da
concentração do íon sódio plasmático e a perda do íon potássio na urina. Quando os MC
são secretados em excesso, eles produzem a hipertensão arterial, uma vez que a
aldoesterona pode provocar o aumento da pressão arterial por vasoconstrição, já que age
diretamente sobre os receptores próprios de células musculares arteriais. (Guyton e Hall,
2006 e Cortez e Silva, 2008)

Os androgênios são hormônios, análogos quimicamente, ao hormônio produzido


pelas gônadas masculinas: a testosterona, porém de fraca ação. Nos homens a ação da
testosterona produzida pela suprarrenal é mínima, porém nas mulheres ela assume grande
importância, pois ela supre 60% das necessidades androgênicas, como por exemplo: a
manutenção da pilosidade púbica e axilar. (Cortez e Silva, 2008; Ganong, 2005)

Os androgênios suprarrenais estão ligados à síntese de esteroides sexuais, que


desempenham papel fundamental para a produção de outros hormônios sexuais: a
quantidade de estrogênio e progesterona secretada pela suprarrenal é pequena, porém,
assume grande importância, principalmente em mulheres no período da menopausa,
quando cessa a produção destes hormônios pelos ovários. (Guyton e Hall, 2006; Castro,
1985)

(...) Os androgênios suprarrenais são os derivados da hidroxilação da pregnenolona


da síntese dos três hormônios do córtex. O bloqueio da síntese do cortisol nesse
ponto intermediário comum às vias de síntese sexual pode causar acumulo de 17-
hidroxipregnenolona e 17-hidroxiprogesterona e aumentar a síntese de androgênios.
É importante considerar que estes dois produtos intermediários da síntese de
androgênios são também envolvidos na síntese de hormônios sexuais, isto é, a via
de síntese é a mesma, iniciando pelo colesterol, passando pela hidroxiprogesterona,
podendo a síntese evoluir para produzir progesterona, estrógeno ou testosterona.
Tanto a testosterona quanto o estrogênio têm como base química a progesterona.
(...) (Cortez e Silva, 2008, p. 114)

Além disso, os isômeros 17-cetoesteróides metabolizados pelo fígado e o Sulfato de


Dehidroepiandrosterona (SDHEA) excretado na urina e produzido pela suprarrenal, são
muito utilizados em estudos que envolvem a virilização feminina e/ou infantil. (Cortez e Silva,
2008; Guyton e Hall, 2006; Ganong, 2005)
5

O ureter é um tubo que liga a pelve renal à bexiga, mede em torno de 25 a 30 cm,
através dele a urina é conduzida para a bexiga através de movimentos peristálticos. A
bexiga é um reservatório que armazena temporariamente a urina. Este órgão é
caracterizado por sua grande capacidade de distensão. A contração da musculatura da
bexiga é realizada pelo sistema nervoso parassimpático, que é responsável pela micção. A
uretra é um tubo que liga a bexiga ao meio externo, conduzindo a urina para fora do corpo.
Na mulher ela apresenta cerca de 4 cm de comprimento, já no homem ela é dividida em três
porções: a prostática, a membranosa e a esponjosa, tendo aproximadamente 20 cm de
comprimento. (Cortez e Silva, 2008; Guyton e Hall, 2006; Castro, 1985).

Doença Renal Crônica

A Doença Renal Crônica (DRC) é uma doença de elevada mortalidade e sua incidência
e prevalência em estágio terminal têm aumentado muito a cada ano. A DRC é considerada
um problema de saúde pública em todo o mundo. No Brasil, o prognóstico ainda é ruim e os
custos do tratamento da doença são muito altos. (Romão Junior, 2004; Bastos e cols., 2010)

A Doença renal crônica (DRC) consiste em lesão, perda progressiva e irreversível da


função dos rins. Os principais grupos de risco para o desenvolvimento desta patologia são
diabete mellitus, hipertensão arterial e histórico familiar. Além destes, outros fatores
estão relacionados à perda de função renal, como glomerulopatias, doença renal
policística, doenças autoimunes, infecções urinárias de repetição, litíase urinária,
uropatias obstrutivas e neoplasias. Sendo que a presença de dislipidemia, obesidade,
alcoolismo e tabagismo aceleram a progressão da doença. (Cadernos de Atenção Básica,
2006; Gomide, 2011)

O diagnostico da DRC baseia-se num grupo de risco, na presença de alterações de


sedimentos urinários e na redução da filtração glomerular avaliado pelo clearance de
creatina. Os médicos ligados à atenção primária em saúde devem estar atentos para a
identificação precoce de pacientes portadores de disfunções renais para agilizar o
tratamento necessário aos pacientes e fazer o quanto antes a detecção e correção das
causas reversíveis da doença renal. (Chorates, 2010 e Gomide, 2011)

Romão Júnior (2004) classifica a DRC em seis estágios funcionais, para efeitos
clínicos, epidemiológicos, didáticos e conceituais, de acordo com o grau de função renal do
paciente. Estes estágios são:
6

(…) Fase de função renal normal sem lesão renal que inclui pessoas integrantes
dos chamados grupos de risco para o desenvolvimento da doença renal crônica
(hipertensos, diabéticos, parentes de hipertensos, diabéticos e portadores de DRC,
etc), que ainda não desenvolveram lesão renal. Fase de lesão com função renal
normal – corresponde às fases iniciais de lesão renal com filtração glomerular
preservada. Fase de insuficiência renal funcional ou leve - ocorre no início da
perda de função dos rins. Nesta fase, os níveis de uréia e creatinina plasmáticos
ainda são normais, não há sinais ou sintomas clínicos importantes de insuficiência
renal e somente métodos acurados de avaliação da função do rim (métodos de
depuração, por exemplo) irão detectar estas anormalidades. Fase de insuficiência
renal laboratorial ou moderada - nesta fase, embora os sinais e sintomas da
uremia possam estar presentes de maneira discreta, o paciente na maioria das
vezes, apresenta somente sinais e sintomas ligados à causa básica (lupus,
hipertensão arterial, diabetes mellitus, infecções urinárias, etc.). Fase de
insuficiência renal clínica ou severa – O paciente já apresenta sinais e sintomas
marcados de uremia. Dentre estes a anemia, a hipertensão arterial, o edema, a
fraqueza, o mal-estar e os sintomas digestivos são os mais precoces e comuns.
Fase terminal de insuficiência renal crônica – corresponde à faixa de função renal
na qual os rins perderam o controle do meio interno, tornando-se este bastante
alterado para ser incompatível com a vida. Nesta fase, o paciente encontra-se
intensamente sintomático. Suas opções terapêuticas são os métodos de depuração
artificial do sangue (diálise peritoneal ou hemodiálise) ou o transplante renal.
Compreende a um ritmo de filtração glomerular inferior a 15 ml/min/1,73m². (Romão
Junior, 2004, p.2) (…)

Os rins são órgãos fundamentais para a manutenção da homeostase do corpo


humano. Assim, a diminuição progressiva da função renal, implica também no
comprometimento de todos os outros órgãos do corpo humano. (Bastos e cols., 2010).

Sistema Reprodutor Masculino

A vida reprodutiva do homem começa na puberdade, com a liberação dos hormônios


gonadotróficos liberados pela hipófise (testosterona), provocando transformações no corpo
dos meninos, e tendo seu fim com a chegada da andropausa, que ocorre a partir da faixa
etária dos 50 anos, devido à diminuição do tamanho dos testículos e consequente queda da
produção de testosterona. (Cortes e Silva, 2008)

De acordo com Guyton e Hall (2006) as funções do sistema reprodutor masculino


podem se resumir a três: (1) espermatogênese, que é a formação dos espermatozoides,
(2) desempenho do ato sexual masculino, (3) através da ação de vários hormônios, a
regulação das funções reprodutivas.

O sistema reprodutor masculino é formado por: Testículos ou gônadas; vias


espermáticas: epidídimo, canal deferente, uretra; pênis; escroto e glândulas anexas:
próstata, vesículas seminais, glândulas bulbouretrais. (Thibodeau e Patton,2002; Guyton e
7

Hall, 2006; Cortes e Silva, 2008; Castro, 1985) Os testículos são as gônadas masculinas,
onde é produzida a testosterona – como secreção interna – e os espermatozoides – como
secreção externa – , são em numero de dois e ficam no saco ou bolsa escrotal. (Filho,
2006). O epidídimo são tubos enovelados, onde os espermatozoides são armazenados para
maturação, ou seja, é o coletor e excretor dos espermatozoides. O canal deferente é o canal
que conduz o esperma do epidídimo até o ducto ejaculatório. A uretra é o canal que conduz
a urina através do pênis e conduz o sêmen durante a ejaculação. O pênis é o órgão sexual
masculino externo. O escroto armazena os espermatozoides durante a fase de maturação,
mantendo a temperatura corporal neste local cerca de 1º a 3º abaixo da temperatura normal
do corpo humano. As glândulas anexas são compostas por: próstata (é uma massa
glandular exócrina, que durante o ato sexual secreta uma substância alcalina que viabiliza o
caminho através do ambiente ácido vaginal da mulher), vesículas seminais que secretam
um líquido viscoso que participa da constituição do esperma e as glândulas bulbouretrais
que fazem a limpeza e a lubrificação para o trânsito dos espermatozoides pela uretra
masculina, além da lubrificação durante o ato sexual. (Filho, 2006)

Sistema Reprodutor Feminino

O Sistema reprodutor feminino é composto por: um par de ovários, tubas uterinas,


útero e vagina, além da genitália externa. O sistema reprodutor feminino tem a função de
produzir o óvulo, gerar as condições próprias para a fecundação e o desenvolvimento
embrionário-fetal. (Thibordeau e Patton, 2002; Cortez e Silva, 2008; Gomide, 2011)

O ovário é uma glândula par, representa a gônada feminina que produz os óvulos e
possui um parênquima endócrino (secreção interna) que funciona alternadamente durante o
ciclo menstrual pelos folículos e em seguida pelos corpos amarelos que liberam hormônios
distintos (estrogênio e progesterona). (Filho, 2006; Ganong, 2005)

As tubas uterinas é um conduto par, que se estende da extremidade superior do


ovário lateralmente, ao ângulo superior do útero, medialmente. É muscular e revestido por
uma túnica mucosa; sua função é conduzir o óvulo para a cavidade uterina. A tuba é o local
onde ocorre a fecundação do óvulo pelo espermatozoide. O útero é um órgão muscular oco,
piriforme de paredes espessas. As paredes do corpo do útero consistem de três lâminas: o
perimétrio, o miométrio e o endométrio. O útero recebe o óvulo fecundado, abriga o feto
durante a gestação e o expulsa no momento do parto. A vagina é um órgão tubular músculo
membranáceo, que se estende do colo do útero até o vestíbulo da vagina. A vagina serve
8

como um ducto excretor para o líquido menstrual, forma a parte inferior do canal do parto e
recebe o pênis e o conteúdo ejaculado durante a cópula. A genitália externa é composta por:
Lábios maiores do Pudendo (são duas pregas cutâneas alongadas, que constituem uma
moldura para a abertura do pudendo feminino), Lábios Menores do Pudendo (é uma prega
cutaneomucosa localizada entre os lábios maiores; constituem o vestíbulo da vagina, onde
se encontra o óstio externo da uretra e o óstio da vagina) e o clitóris (é um órgão erétil
localizado na porção superior do pudendo. Apresenta uma estrutura semelhante a do pênis.
É um órgão que está intimamente ligado com a excitação e o orgasmo feminino. (Cortez e
Silva, 2008; Gomide, 2011; Filho, 2006, Guyton e Hall, 2006; Castro, 1985)

Sexualidade ao Longo da História

O Filme “A Guerra do Fogo” (1981), com roteiro de Burgess e direção de Annaud e o


sociólogo Giddens (2004) demonstram a transformação que a sexualidade sofreu através
dos tempos; ressaltando o modo como ela passou de um ato de reprodução a um ato de
sensualidade entre o homem e a mulher e, desta forma, questionando as interpretações
correntes a respeito do papel da sexualidade na cultura moderna. Gikovate (2010) procura
relacionar as mudanças ocorridas no comportamento sexual da humanidade com o
comportamento agressivo entre os homens e os comportamentos ditos mais frágeis que
caracterizam as mulheres, os chamando do “o jogo do poder entre os sexos” evidenciando
as transformações ocorridas desde os primeiro hominídeos até o comportamento sexual
moderno.

De acordo com Borges e Cassas (2012) o comportamento, seja ele sexual ou não, é
a relação existente entre a ação de um indivíduo que se comporta e o ambiente no qual está
inserido. Nessas relações, focalizam-se as condições antecedentes que estabelecem a
ocasião para a ocorrência das ações do indivíduo, e as consequências que estas produzem
no ambiente. O ambiente estabelece a ocasião (antecedente) para a ação (resposta) do
indivíduo, verbal ou não verbal, que então produz consequências no ambiente, que
determinam a probabilidade de ocorrência de novas ações do indivíduo.

O ambiente determina as ações dos organismos por meio de três processos:


filogênese, ontogênese e a cultura. A filogênese corresponde à seleção natural definida por
Charles Darwin em 1844, que por meio de variação e seleção, indivíduos mais adaptados ao
ambiente tendem a sobreviver e transmitir seus genes, o que implica numa seleção
genética. A filogênese participa na determinação de comportamentos, produzindo
9

organismos com diferentes estruturas físicas e diferentes graus de sensibilidade nos


eventos ambientais, o que produz efeitos em dois processos de aprendizagem: O operante
que na medida em que é variada a sensibilidade a determinadas consequências; e o
respondente que favorece ou não a ocorrência de determinadas respostas incondicionais
(não aprendidas). (Moreira e Medeiros, 2007; Matos e Tomanari, 2002; Borges e Cassas,
2012)

A ontogênese refere-se à seleção comportamental ao longo da vida do indivíduo. Tal


seleção se dá por meio da interação entre aprendizagem respondente e operante. No
primeiro caso, eventos do ambiente adquirem função eliciadora de respostas do organismo,
a partir da associação (por meio de pareamento pavloviano) com eventos que apresentam a
mesma função como resultada da filogênese. Já o segundo processo de aprendizagem é
denominado operante por referir-se as interações nas quais os indivíduos age (opera) sobre
o ambiente produzindo alterações neste (consequências) que, por sua vez, retroagem sobre
o organismo, alterando sua probabilidade de ação futura. É esse processo, associado à
sensibilidade dos organismos humanos ao reforço de padrões vocais, que permite que um
terceiro nível de seleção atue sobre o comportamento. (Moreira e Medeiros, 2007; Borges e
Cassas, 2012)

Esse terceiro nível é o processo de seleção de práticas culturais. Para Skinner, as


práticas culturais representam casos especiais de aplicação do conceito de comportamento
operante: é o efeito sobre o grupo, não apenas as consequências reforçadoras para
membros individuais, que é responsável pela evolução da cultura. (Rocha, 2012,
comunicação pessoal em aula de Terapia Analítico Comportamental e Borges e Cassas,
2012)

Se baseando nas transformações do comportamento através dos tempos, Lopes e


Vasconcellos (2008) relatam via psicologia evolucionista o que os autores chamam de
“seleção sexual”, em que afirmam que o processo da seleção natural trouxe a humanidade
ao seu estado atual, porém esta foi favorecida pela seleção sexual dos indivíduos mais
aptos para copularem entre si, favorecendo a perpetuação dos mais aptos.

(...) Na seleção sexual, os indivíduos selecionam-se entre si. Eles competem com
outros indivíduos de sua espécie por oportunidades sexuais. Não se trata de seleção
que acarretará em adaptação ao ambiente, mas são os próprios integrantes de um
determinado grupo taxonômico que irão selar o destino de sua espécie. Em outras
palavras, os indivíduos selecionam os seus parceiros sexuais e, se os critérios pelo
qual o fazem são genéticos, logo eles deixarão para sua prole não apenas os
10

critérios para a seleção do parceiro, mas também as próprias características que


foram usadas como critério. (...) (Lopes e Vasconcellos, 2008, p. 127)

Giddens (2004) e Gikovate (2010) elucidam o processo em que homens e mulheres


transformam suas relações sexuais de simples processos reprodutivos e necessidades
fisiológicas, em um ato de prazer. A vida sexual, o sentir prazer no sexo, deixou de ser visto
como algo pecaminoso, para ver visto como algo normal numa relação intima entre duas
pessoas. O sentir prazer passou a ser permitido e passou a ser falado nesta trajetória da
intimidade entre os casais.

A Importância do Sexo na Vida dos Brasileiros

Abdo (2004) apresenta os principais hábitos e disfunções sexuais da população


brasileira. Sua pesquisa teve uma amostra de N=2.835 indivíduos (47% eram homens e 53
% mulheres), maiores de 18 anos. A pesquisa avaliava a importância do sexo na vida das
pessoas, sendo que 56,1% das mulheres consideraram importantíssimo, contra apenas
48,8% dos homens que julgam o sexo como algo importante em suas vidas. Este dado já,
por si, revela mudança cultural, em que a maioria feminina diz ser o sexo importante. Em
meados do século 20 as mulheres ainda deixavam silêncio a este aspecto de suas vidas
(Mestre, 2004).

É comum, aos dois sexos, fazer relato sobre fantasias e sonhos eróticos. No século
21 cada vez mais mulheres sentem-se à vontade em buscar materiais pornográficos que as
estimulem. Essas fantasias sexuais podem ser voluntárias ou involuntárias e nelas a mulher
pensa o que faria e como faria em determinadas situações sexuais inusitadas. Servem até
como forma da mulher superar tradicional repressão à manifestação de sua sexualidade.
(Ballone, 2004; Abdo, 2002, 2004)

Segundo estudos publicados sobre os fatos que contribuem para o desempenho


sexual, as mulheres relataram como fator decisivo para um bom desempenho sexual e o
grau de intimidade, afeto (77,2%); já, entre os homens (73,5%) preferem a atração física.
(Ballone, 2004; Abdo, 2002,2004)

A pesquisa de Abdo (2002, 2004) mostrou também que o maior medo masculino
numa relação sexual foi o medo de não satisfazer a parceira (62,6%). Para mulheres, o
maior medo foi de contaminar-se com DST (54,1%). Este dado é mais um apontando em
mudanças culturais, com o gênero masculino se preocupando com o relacionamento mais
11

do que com o próprio bem-estar. O estudo também apontou que a insatisfação sexual
aumenta com a idade, para ambos os sexos, o que indica necessidade de mais pesquisas
na área.

Disfunção Sexual em Doentes Crônicos

A sexualidade é de suma importância na vida das pessoas, se constituindo em um


dos fatores de mensuração de qualidade de vida. Quando esta é abalada pela descoberta
de uma doença crônica, podendo ter a qualidade e satisfação sexual diminuída, seja por
alterações hormonais, seja pelos efeitos medicamentosos ou mesmo pelo impacto
psicológico que a doença traz à pessoa, ela tem a sua qualidade de vida diminuída, bem
como a sua autoestima abalada e a sua visão sobre o seu corpo. (Neto et. Col., 2009; Hojaij
et. Col. 1995; Castro, 2009; Torrano-Masetti et. Col., 2000; Lira e Lopes, 2010)

Como se pode confirmar através dos estudos de Hojaij et. Col. (1995):

(...) Por imagem corporal compreende-se a forma como nosso corpo é organizado
em nossa vida psíquica. Baseia-se em contatos que o indivíduo tem consigo mesmo
e com o mundo externo, apresentando-se em constante transformação e assumindo
caráter dinâmico. Qualquer modificação na vida do indivíduo será fator provocativo
de alteração da imagem corporal, tal como ocorre no caso de doença orgânica.
(Hojaij Et. Col. 1995. p. 9)

Guilhardi (2002) fala que autoestima é um sentimento que é um produto das


contingências de reforços positivos as quais se está expostos em no ambiente. O autor
evidencia que o uso de reforços positivos aumenta os sentimentos bons, como por exemplo:
satisfação, bem-estar, alegria, autoestima e etc. Pacientes com doenças crônicas como:
hepatopatia crônica avançada, doença renal crônica, diversos tipos de neoplasias e doenças
hematológicas, trazem sérias implicações e restrições físicas, psicológicas,
socioeconômicas para o paciente, causando alterações no sono, na concentração, memória,
ajuste social, autoestima e na sexualidade da pessoa. Isto é o resultado de patologias
multisistemicas, provocada não só pela uremia elevada, como pela hipertensão,
cardiopatias, hipercolesterolêmica, diabetes e iatrogênica medicamentosa; que se pode
então analisar os vários fatores etiopatogenicos responsáveis não só pela disfunção sexual
como pelas perturbações da libido e da fertilidade. (Lira e Lopes, 2010; Parolin et. Col.,
2004; Torrano- Masetti, 2000; Morales Et. Col., 2001; Coelho Et. Col., 2003)
12

Coelho Et. Col. (2003) em sua pesquisa sobre disfunção erétil, afirma que a função
sexual no homem e suas disfunções são dependentes de uma série de fatores
relacionados aos diferentes sistemas orgânicos:

[...] Uma variedade de condições psicológicas e orgânicas, inclusive as doenças


hepáticas crônicas, pode causar disfunção erétil, a qual pode afetar negativamente a
autoestima, a qualidade de vida e o relacionamento interpessoal. Muitos avanços
ocorreram no diagnóstico e tratamento da disfunção erétil. (...) Alterações endócrinas
são comuns, sendo as principais: redução da secreção de gonadotrofina e de
testosterona, hiperprolactinemia e hiperestrogenemia. (Coelho Et. Col., 2003. p. 413)

Sexualidade Pós-Transplante

Parolin Et. Col. (2004, 2009); Coelho et. Col. (2003) e Torrano-Masetti et. Col,
(2000), são concordantes no fato que um transplante bem sucedido não só melhora as
condições médicas-fisiológicas dos pacientes, como também lhes devolve a sexualidade,
a libido e a satisfação sexual, bem como a fertilidade nas receptoras de alguns tipos de
transplantes, além de produzir melhoria de sua qualidade de vida em geral.

Torrano-Masetti et. Col (2000) acompanharam a fase pré e pós transplante de


medula óssea no HCFMRP-USP, concluindo que:

(...) A qualidade de vida dos transplantados sofrerá as implicações do procedimento,


obrigando-os a enfrentar as limitações físicas, o desenvolvimento de Doença do
Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH), a dor, a sensação de distorção da imagem
corporal e as consequências dos efeitos colaterais dos tratamentos: queda de
cabelo, escurecimento da pele, emagrecimento ou edema, além das alterações nos
seus hábitos de vida, tais como a perda ou prejuízo da capacidade produtiva
(trabalho e escola), das funções sexuais e da fertilidade (como efeito colateral de
algumas quimioterapias ou radioterapias), bem como a perda da independência e de
alguns papéis sociais. (Torrano-Masetti et. Col. 2000. p. 161)

Parolin (2004, 2009) também relata que no transplante hepático a maioria das
mulheres em idade fértil reassume os ciclos menstruais poucos meses após o transplante,
tornando possível a ocorrência de gestações, devido ao rápido retorno da libido e da
fertilidade. A maioria das pacientes que participaram de sua pesquisa apresentou vida
sexual ativa (71,4%) e satisfatória (70%) pós TX.

Autores como Gassen et. Col. (2009) e Morales et. Col. (2001) observam que após o
transplante ocorre regularização das funções hormonais que antes estavam alteradas.
13

Com a regularização destas funções as mulheres voltam a ter os ciclos menstruais


normalizados e melhorando as relações hormonais no eixo hipotálamo-hipófise-ovário.
Nos homens Morales et. Col. (2001) faz uma observação que apesar do transplante
melhorar ou até mesmo normalizar a vida sexual do transplantado, aproximadamente 87%
dos homens irão continuar com problemas de disfunção erétil. Rabello (2009) em sua
pesquisa sobre qualidade de vida em pacientes renais crônicos, que possuiu uma amostra
piloto com N=10 pacientes, maiores de 18 anos, alfabetizados; buscou verificar a realidade
do paciente quanto as suas percepções sobre qualidade de vida e hábitos de vida a fim de
entender o comportamento em relação à saúde bem como o processo e desenvolvimento da
doença renal crônica. A autora constatou que pacientes crônicos raramente possuem boa
percepção sobre sua qualidade de vida e como isso afeta a saúde do individuo e que
através de intervenções psicológicas contribui para o melhor desenvolvimento da
autopercepção quanto aos cuidados com a saúde, favorecendo o aumento de repertório
para mudanças efetivas e positivas no quesito relacionado a saúde.
14

Objetivos
Geral
 Investigar a representação social que doentes renais crônicos, adultos e pós
transplantados, possuem sobre sua sexualidade.

Específico
1. Descobrir quais eram as crenças irracionais que permeavam tal sexualidade em
após o transplante renal;
2. Verificar quais eram os sentimentos e pensamentos existentes, relativos a esta
atividade;
3. Analisar qual o domínio que tal pessoa possuía da sua sexualidade.
15

Método

Método Utilizado

Com objetivo exploratório, o estudo utilizou o método de levantamento de dados, e


se resumiu à aplicação de um questionário próprio sobre a sexualidade do transplantado. O
método utilizou entrevistas semi-estruturadas, com amostra-piloto de N=10 pacientes renais,
de ambos os gêneros, adultos a partir de 18 anos de idade, tendo como instrumentos: TCLE
e roteiro de construção própria, constituído de um questionário sócio econômico cultural
(com 32 questões a serem respondidas), e o questionário sobre a sexualidade no período
pós-transplante (ambos em anexo 3 e 4, à páginas 96 e 102).

Participantes

A amostra constituinte desta pesquisa teve como participantes um grupo de N= 10


pacientes com DRC, todos maiores de idade (podendo estar entre 18 a 80 anos) e
diagnosticados a mais de um ano, este critério em função de que tenham convivido com a
doença tempo suficiente para que esta provocasse perdas do ponto de vista sexual e
maiores de idade por se presumir a vida sexual ativa. A população que participou do estudo
foi indicada pela equipe de saúde do TX-Renal do HUEC, pela professora orientadora, ou se
voluntariam a participar da amostra após um breve discurso, chamado de preleção, que era
feito no local.

Além disto, como critério de inclusão, estes deveriam estar no período mínimo de 40
dias pós-transplante, em processo de adaptação a vida social após o transplante renal, que,
uma vez que se faz necessário este tempo mínimo de recuperação após a cirurgia visando o
bem estar dos pacientes, pois os primeiros dez dias constituem o período que exige mais
cuidado e atenção e surgem as maiores dúvidas, ou pacientes já transplantados há mais
tempo, porém, que possuam dúvidas ou queixas sobre sua sexualidade.

Também era um critério que todos deveriam ser adultos e pós-transplantados, estar
lúcidos e capazes de percepção lógica, acerca de si próprios e da situação de DRC que
estavam vivendo.

Questões socioeconômicas e culturais não foram privilegiadas, assim os pacientes


puderam pertencer a qualquer grupo de gêneros, cultural e aquisitivo.
16

Material

Os Instrumentos utilizados foram:

1) Termo de consentimento Livre e Esclarecido – TCLE (anexo 1, página 92);


2) Questionário sócio-economico-cultural (anexo 3, página 96): Entrevista Clínica
através de um roteiro que permitiu uma entrevista clinica semi-estruturada, para a obtenção
dos dados focados nos objetivos da pesquisa. Isto é, primeiro foi aplicado um questionário
sócio-econômico-cultural, contendo 32 questões, que buscava avaliar o histórico de vida do
doente renal e o percurso de sua DRC, relativos a quanto tempo levou para descobri-la,
tratá-la e etc.
3) Questionário sobre a sexualidade no período pós-transplante (anexo 4, página 102):
O presente estudo seguiu o modelo do Protocolo de Avaliação Para Doadores Renais,
desenvolvido por Codagnone (2009) e, foi criado, com o objetivo de avaliar as crenças
irracionais que permeiam tal sexualidade no período pós o transplante renal; além dos
sentimentos e pensamentos que existiam, relativos a esta atividade; bem como qual o
domínio que tal pessoa possuía da sua sexualidade. Este contém 15 questões com temas
que já haviam sido falados pelos pacientes do ambulatório e analisados pelos estagiários do
setor, quando relatados em terapia focal, aos alunos e a professora supervisora do local.
Estes foram divididas em três grupos: Ideias irracionais sobre o enxerto (7 questões),
ideias irracionais acerca da imagem corporal (3 questões), ideias irracionais sobre a
vida sexual pós transplantes (5 questões), totalizando 15 questões analisadas.
A pontuação das afirmações foram medidas em escala Likert atribuindo uma
pontuação de 1 a 5, de acordo com cada uma das respostas, pois assim a pessoa poderia
mensurar o quanto ela concordava com determinada frase, levando em consideração o
grupo ao qual ela pertencia. As respostas poderiam variar entre: não ou nunca
correspondendo ao número 1, um pouco (2), às vezes (3), em geral ou muito (4),
praticamente sempre ou inteiramente (5).

Apesar das frases terem sido construídas pensando em três categorias distintas,
para critérios de correção e pontuação, havia apenas dois grupos: uma que fornece uma
pontuação maior para quem acredita menos na afirmação, sendo que a medida que a
pessoa mais acredita em determinada ideia irracional, sua pontuação diminui (questões 1,
2, 3, 4, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15).

Por exemplo: Na questão 1: “Penso que durante a relação sexual o rim pode sair
do lugar e eu posso vir a ter problemas.”, quanto menos a pessoa acreditar nesta frase,
17

dando uma resposta como: “Não” – “Nunca” ou “Um pouco”, mais pontos ela irá ganhar,
pois isso indica que ela discorda da frase. Porém a medida que ela passa a dar respostas
como “Às vezes”, “Em geral” ou “Muito” e “Praticamente Sempre”, sua pontuação diminui,
ela receberá menos pontos, indicando que ela possui ideias irracionais acerca da
pergunta, sendo uma questão a ser trabalhada e desenvolvida com a pessoa.

Já para o outro grupo que é atribuído uma pontuação maior a quem mais acredita na
afirmação, uma vez que a pontuação diminui de acordo com o quanto ela não confirma a
frase.
Por exemplo, na questão 5: “Tenho vontade de fazer sexo com meu parceiro”, ou
seja, se a pessoa responder “Não” – “Nunca” ou “Um pouco”, menos pontos ela ganha,
pois isso indica que ela concorda com a frase, demonstrando que ela possui algum
problema (ou disfunção) de ordem sexual ou comportamental que devem ser
desenvolvidas e trabalhadas. Porém a medida que ela passa a dar respostas como “Às
vezes”, “Em geral” ou “Muito” e “Praticamente Sempre”, sua pontuação aumenta, ela
receberá mais pontos, indicando que ela possui uma Boa Habilidade Sexual, termo
utilizado por autores como Alberti e Emmons (2008), além de outros autores, para indicar
quando o indivíduo possui as habilidades sociais relacionadas à sua sexualidade.
Após a aplicação dos questionários, apenas para fins de correção, a escala Likert
usada no Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós-Transplante, tendo os seus
valores de 1à 5, foi convertido para letras do alfabeto (A, B, C, D, E), sendo que no primeiro
grupo (G1) quando o participante respondia o valor 1, este foi convertido para a letra A, que
equivalia a 5 pontos, ou seja, a correspondência no primeiro grupo ficou da seguinte forma:

Quadro 1: Correspondência entre valor Likert, letra e pontuação do questionário.

Grupo 1 Valor Likert Correspondência da Letra Pontuação


(G1) 1 A 5
18

2 B 4
3 C 3
4 D 2
5 E 1
1 A 1
2 B 2
Grupo 2
3 C 3
(G2)
4 D 4
5 E 5
Fonte: Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós-Transplante, aplicado entre os dias 09 de
agosto de 2013 à 19 de agosto de 2013. (Anexo 4).

Desta forma, seguindo também o modelo do Protocolo de Avaliação Para


Doadores Renais, desenvolvido por Codagnone e Mestre (2009) a cada resposta que o
participante fornecia, era possível identificar se a pessoa possuía habilidade sexual (HS)
ou não, e com isso, se poderia desenvolver esta área.

O quadro 2, mostra a divisão dos grupos de perguntas de acordo com os critérios de


correção, junto com classificação que cada resposta recebe. Considerando também que
cada resposta indica a um tipo de habilidade sexual, sendo HS – É habilidoso
sexualmente, +HS – Mais Habilidoso Sexualmente, +/- HS – Mais ou Menos Habilidoso
Sexualmente, -HS – Menos Habilidoso Sexualmente, e, NHS – Não Habilidoso
Sexualmente.

Quadro 2: Divisão das habilidades sexuais de acordo com cada resposta e grupo.

Grupo
Perguntas Análise
G1 1, 2, 3, 4,  A B   D E
6, 7, 8,
         
9,10, 11,
12, 13, 14, é HS + HS    - HS Não HS
19

    C    
15          
 A B +/- HS  D E
G2 5          
Não HS - HS   + HS é HS
Fonte: Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós-Transplante, aplicado entre os dias 09 de
agosto de 2013 à 19 de agosto de 2013. (Anexo 4).

Após as respostas terem sido anotadas e pontuadas, também seguindo o modelo do


Protocolo de Avaliação Para Doadores Renais, desenvolvido por Codagnone e Mestre
(2009), chegou-se a pontuação dos questionários, descrito no quadro 3.

Quadro 3: Legenda dos escores aplicados nos questionários.


Legenda dos escores QTO > VALOR + HS

NHS Não Habilidoso Sexualmente 1-19


20-39
- HS Menos Habilidoso Sexualmente
40-59
+-
HS Mais ou menos Habilidoso Sexualmente
60-79
+ HS Mais Habilidoso Sexualmente
80 A 100
HS É Habilidoso Sexualmente
Fonte: Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós-Transplante, aplicado entre os dias 09 de
agosto de 2013 à 19 de agosto de 2013. (Anexo 4).

Ambiente
O local de aplicação desta pesquisa foi o ambulatório de TX-Renal do HUEC, sito à
Rua Sete de setembro, nº4713, centro de Curitiba/PR.

Procedimento

Após análise de dados empíricos, obtidos ao longo de seis anos em estágio prático no
setor e aplicação de pesquisa com amostra-piloto com os pacientes atendidos por Chorates
(2010), em terapia focal, com queixas sexuais, percebeu-se a necessidade de questões
sexuais serem abordadas e esclarecidas aos transplantados. Foi conversado com a
professora supervisora do local Dra. Marilza Mestre que confirmou a validade da pesquisa
com a médica responsável pelo setor Dra. Fabiana L. C. Contieri e a enfermeira Vera Lúcia
Bertoldi.

A pesquisa, então, seguiu os princípios éticos estabelecidos pela Faculdade Evangélica


do Paraná, e o projeto foi submetido à avaliação do Comitê de Ética e Pesquisa, e após a
20

sua aprovação deu-se inicio a coleta de dados.

As pessoas que participaram da amostra poderiam vir por: indicação de casos atendidos
pela professora orientadora e que já haviam sido indicados para terapia na clínica de
psicologia, indicação de pessoas pela equipe de saúde, multiprofissional, no ambulatório, e
pelo pedido de pessoas que, após a preleção da psicologia, se voluntariaram a participar da
pesquisa. Todos os participantes indicados referiram queixas de ordem da sexualidade. Tal
‘preleção’ ocorre na sala de espera do ambulatório do TX-Renal (os pacientes ficam
aguardando a consulta médica) e trata de assuntos gerais sobre a realidade da DRC e as
dificuldades que os doentes mencionam na questão de qualidade de vida, inclusive a dos
relacionamentos amorosos, por conta da dificuldade de desempenho sexual.

Após o indivíduo concordar em participar da amostra da pesquisa, este era conduzido a


consultório, no próprio setor de transplantes renal do Ambulatório do HUEC, e lhe era
explicado sobre a pesquisa e o Termo De Consentimento Livre Esclarecido (TCLE). Após a
assinatura do termo, os participantes respondiam primeiramente ao Questionário Sócio-
Economico-Cultural, seguido do Questionário Sobre a Sexualidade no período Pós
Transplante. A aplicação destes instrumentos foi realizada de forma verbal, através de uma
entrevista semi-estruturada, em uma linguagem simples, que permitia a compreensão do
entrevistado independente de sua escolaridade. Os questionários foram aplicados de forma
individual, preservando o sigilo do participante. O tempo médio de duração das entrevistas
foi de aproximadamente 50 minutos.

Os critérios de exclusão dos participantes na pesquisa foram:

a) Não ter ainda realizado o transplante renal.

b) Ser transplantado renal, mas este ter sido realizado em menos de 40 dias.

c) Ser menor de 18 anos.

d) Ainda não ter iniciado vida sexual.

Análise de Resultados

A análise de Dados encontrados aconteceu por avaliação qualitativa do conteúdo,


tendo como referencial teórico a abordagem cognitivo-comportamental. O questionário
aplicado permitiu analisar sujeito a sujeito, podendo também ser realizado um estudo de
cada caso e desta forma observar as particularidades de cada história.
21
22

Resultados e Discussão
A análise dos dados obtidos pelo questionário sócio-economico-cultural contou com
uma amostra de N=10 participantes, sendo 6 homens e 4 mulheres. Sete casados, um
viúvo, um divorciado e uma se declarou separada. Nove destas pessoas possuíam filhos. A
faixa etária variou de 30 anos a 62 anos, o que enquadra a população estudada no adulto
maduro, segundo a OMS (1994). O quadro 4 apresenta os dados de suas características.

Quadro 4: dados descritivos dos participantes da amostra-piloto que constituiu


(N=10) da pesquisa, onde OE significa a ordem em que ocorreu a
entrevista; PS corresponde a sigla nomeadora, atribuída ao entrevistado;
G refere o gênero do participante, onde M é masculino e F é feminino; I
diz da Idade do participante; EC significando o estado civil; TU refere o
tempo que dura a atual união; NF refere-se ao número de filhos; R é igual
religião, sendo que C refere-se a católica e E para evangélica e P significa
alguém que a pratica; DRC fala do tempo desde o diagnóstico de DRC;
TX fala do tempo desde o transplante, expresso em anos (a) e ou meses
(m); TD corresponde ao tipo de doador, sendo V para doador vivo e F
para doador falecido; AD traz opinião da equipe se este fez adesão ao
tratamento e O refere outro dado pertinente.

OE Os G I E.C TU NF R/P DRC TX TD AD O


Sente-se muito fraco e possui
1 C. M 47 Casado 25 a 1 E/p 10 a 5m V Sim
muitos tremores.
5 filhos falecidos, logo após o
2 S. F 60 Casada 42 a 8 C/p 20 a 2m F Sim
nascimento.
3 J. M 53 Divorciado   4 C 8a 4a V Sim  
4 JM. M 62 Viúvo 38 a 4 C 23 a 17 a F Sim Viúvo há 9 anos.
Não sabia o diagnóstico de
5 A M 43 Casado 22 a 3 C/p 2a 2m F Não
sua doença.
6 CS. M 47 Casado 23 a 2 C 16 a 16 a V Sim  
7 AJ. F 37 Casada 20 a 3 E/p 4a 4m F Não Alimentação irregular.
Sua esposa está com
8 V. M 30 Casado 3a 0 C 6a 6a V Sim
depressão.
Há 4 anos sem sexo e 7 anos
9 R F 49 Casada 34 a 2 E/p 14 a 11 a V Sim
antes tolerava marido.
1º (8 a)
Teve 2 uniões consensuais,
10 E. F 41 Separada 3 E/p 11 a 4a V Sim mas no momento está
2º(15 a) sozinha. É obesa e ansiosa.
 
Fonte: transcrição das entrevistas realizadas com pacientes pós-TX, no ambulatório de TX do HUEC, no período entre 02 e 19
de agosto de 2013.
23

A escolha dos participantes, para compor esta amostra, foi aleatória e ocorreu por
procura deles à psicologia, após a preleção sobre a doença renal. Esta é realizada de modo
informal e em linguagem casual, de fácil compreensão para os usuários do ambulatório e
seguida de explicação sobre a pesquisa e convite para aqueles que desejassem participar.
Os próprios pacientes se voluntariavam para serem integrantes do estudo, vindo solicitar
atendimento. Com isso, obteve-se 70% dos participantes casados. Um dos participantes se
declarou separado, possuindo filhos, e já havia tido duas uniões estáveis, sendo que estas
ocorreram de modo informal; e outro participante declarou ser divorciado legalmente. A
figura 1 mostra o estado civil dos participantes.

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de


agosto de 2013.

Figura 1: Estado Civil dos participantes, com cinco opções para escolha.

São muitas as dificuldades que o DRC encontra. Suas perdas biopsicossociais,


seriam suficientes para dificultar ou impedir relacionamento sexual, pois perdas remetem à
depressão e esta tem como característica interferir com os hormônios sexuais, além de
dificultar ou impedir outras atividades prazerosas (Rangé, 2008). A DRC, pela dificuldade de
filtragem do sangue deposita, na corrente sanguínea, altas taxas de componentes tóxicos
que produzem: coceira, mal estar fisiológico e irritação. Todas estas situações funcionando
como estimulação aversiva suficiente para concorrer com o focar em atividades de prazer.
Sem falar do cansaço extremo que o passar pela hemodiálise costuma provocar (Barbosa,
2009). Assim, toda esta gama de situações sendo altamente competitivas de desejo sexual
(Sidman, 2005). Além disto, há outras causas deste baixo desempenho.
24

Na fase pré-TX há relato, na literatura, de dificuldades ou ausência de desejo sexual,


isto por conta da má alimentação vascular dos órgãos genitais. Há dificuldades relatadas,
também, na obtenção da ereção (e ou lubrificação no caso feminino) pela mesma razão, isto
é, há falta de irrigação nos órgãos sexuais, pois a artéria que alimenta os rins é a mesma
que conduz sangue arterial para os órgãos genitais (Coelho et. col., 2003; Marques, 2006;
Morales, et. col. 2001).

Na fase pós-TX, há necessidade de medicação que provoca supressão de imunidade


e assim evita-se a rejeição do enxerto. No entanto, os imunossupressores (no gênero
masculino) podem causar dificuldade na ereção, por competição medicamentosa com a
produção de testosterona (Mendes e Almeida, 2013). Portanto, se pode esperar um tatear 1
diferente para homens e mulheres com DRC, pré e pós-TX. Após o TX elas retomam (ou,
em muitos casos, iniciam) vida sexual ativa e prazerosa. Eles demoram mais ater ou
perceber a vida sexual como satisfatória.

Apesar de, o senso comum, dizer que os homens se sentem menos à vontade que as
mulheres, para falar sobre suas dificuldades sexuais, pois a sociedade passa uma
mensagem de que os “verdadeiros homens” não possuem ou não podem ter dificuldades
sexuais, esta pesquisa mostrou que foram eles quem mais se interessaram pelo assunto e
estiveram mais disponíveis para falar sobre o tema. Os dados encontrados corroborando os
revelados pela experiência de atendimento no ambulatório de TX-Renal ao longo de seis
anos e, pela amostra de Chorates (2010).

Havendo plateia não punitiva o falante revela seus mandos e tateia queixas que
poderiam provocar vergonha e ou culpa (Sidman, 2005 e Skinner, 1998). Ou, ainda, se
poderia pensar que os dados desta amostra possam estar demonstrando que talvez a
sociedade esteja mudando seus padrões de conduta, quebrando as crenças de que: homem
não chora, homem não falha no sexo, etc. O dado confirmou vivencia percebida, nos anos
de contato da psicologia no ambulatório, onde a maioria dos casos com queixa de
desempenho sexual vem sendo masculina, uma vez que eles procuraram participar deste
estudo mais que as mulheres.

1
Tactear, para Skinner (1978), significa relatar, descrever a percepção que se tem das contingências vividas.
Este e o Mando – que trata de emissão de pedidos, ordens ou queixas – compõem o comportamento verbal,
necessária à comunicação humana.
25

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto de 2013.

Figura 2: Amostra dividida por sexo.

A realidade do universo de pacientes do TX-Renal (demonstrada de forma empírica


ou pelos resultados das amostras de outras pesquisas já realizadas naquele local: Barbosa;
Rabello e Codagnone, (todas de 2009) revela que a doença renal trás homens e mulheres
proporcionalmente distribuídos. Isto é interessante se for levado em conta que, na
população em geral, há mais mulheres em idade adulta que homens. Uma pergunta a se
fazer é se homens adoecem mais que as mulheres de doença renal crônica. Os dados de
Rabello (2009) apontam para esta hipótese.

A análise clinica qualitativa, obtida empiricamente nestes anos de atendimento no


TX-Renal (desde 2007), vem demonstrando que os homens se queixam de baixo
desempenho sexual mais que as mulheres e apresentam mais consequentes danos à sua
qualidade de vida. Esta poderia ser uma explicação para mais homens procurarem,
espontaneamente, a equipe com tal queixa, a cada vez que termina a preleção. Sempre que
a psicologia fala sobre o que pode ocorrer em relação ao desempenho sexual, e de como a
psicologia poderia ajudar, durante a doença, um ou mais pacientes (ou seus cônjuges)
solicitam atendimento com tal queixa. A amostra confirmou o dado empírico. Na presente
amostra a diferença também ocorreu, mas ainda assim o N precisaria ser aumentado para
confirmar esta possibilidade.

A figura 3 mostra a idade de cada participante da amostra e quando analisado este


critério foi possível avaliar que esta contou com participantes com idades variantes de 30 a
62 anos, se encaixando no perfil de adultos maduros (maturidade pela OMS, 1994). Para
26

pesquisas futuras, fica sugerido que se faça um grupo que inclua adolescentes e adultos
jovens para que se possam comparar os resultados obtidos entre essas amostras futuras.

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de


agosto de 2013.

Figura 3: Idade dos Participantes.

A figura 4 mostra o tempo de casados de cada participante que declarou seu estado
civil como sendo ‘casado (a)’. Lembrando que dentro destas considerações, obteve-se um
percentual de 70% da amostra, sendo que o tempo de casamento apresentou uma média de
20 anos e 7 meses de casados, sendo que o participante 8 possuía o menor tempo de
casado (3 anos) e o participante 9 o maior tempo (34 anos).

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto


de 2013.
27

Figura 4: Tempo de casamento de cada participante casado.

O tempo médio de casamento da amostra difere com a realidade atual do índice de


casamentos no Brasil, de acordo com os dados do IBGE (2011). A média de duração dos
casamentos no Brasil é de 15 anos, contra 20 anos e 7 meses da amostra. De acordo com
os dados do IBGE a maioria dos casais (56,5%) está se divorciando antes de completar 15
anos de união, apontam as Estatísticas do Registro Civil 2011, e, 41,6% deles não
completam uma década. Ainda de acordo com os dados do IBGE (2011) foram
contabilizados 1.026.736 casamentos de pessoas com 15 anos ou mais de idade. Porém, na
década de 70, esta taxa era maior: 13 casamentos por mil habitantes. Alguns padrões e
signos permanecem os mesmos na sociedade, com intensidade diferente para cada grupo
de pessoas, e o casamento nos anos 70 era visto como uma regra social. As pessoas eram
ensinadas de que o casamento era eterno, e mesmo com dificuldades deveria prevalecer.
(Jornal Valor Econômico, 17/12/2012. Acesso em: 10/10/2013. Disponível em:
http://www.valor.com.br e Mestre, 2004)

Observando a realidade contextual da presente amostra e, pelo tempo em que estão


casados, a relação deles foi constituída por volta da década de 1970. Uma hipótese a ser
levantada é que a educação de que o casamento seria ‘eterno’, tenha ajudado a manter o
casamento nos períodos mais críticos da doença renal, em que muitos dos participantes
revelaram que não tinham contato sexual com seus parceiros, mas que seus parceiros
estavam presentes na rotina diária deles, nos cuidados com a diálise peritoneal,
hemodiálise, nos cuidados com a casa, os ajudando a superar as dificuldades da DRC.
Como afirma o participante 1, com o pseudônimo de C.:

“Estamos juntos há muito tempo. Há outras coisas que mantém o casamento” (SIC).
Fonte: Transcrição das entrevistas realizadas com pacientes pós-TX, no ambulatório de TX do HUEC, no período
entre 02 e 19 de agosto de 2013.

Dentre os 10 participantes da amostra, 9 declararam que possuíam filhos. Dentre


eles destaca-se o participante 2 que possuía 8 filhos (3 filhos vivos e 5 filhos falecidos) e o
participante 1 que possuía apenas um filho. Sendo que este (participante 1) é transplantado
há 5 meses e aquele (participante 2) há 2 meses. Tendo a idade cronológica de 60 anos
(participante 2) e 47 anos (participante 1). A figura 5 mostra estes dados.
28

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto de 2013.
(Anexo 3)

Figura 5: Número de participantes com filhos.

Somando o numero total de filhos da amostra, tem-se 25 filhos vivos e 5 falecidos.


Sendo que 12 filhos possuem idades acima de 19 anos, 2 filhos com 18 anos, 1 filhos entre
13 anos e 17 anos, 2 filhos menores de 12 anos, e 8 filhos que os participantes não
informaram as suas idades. Com isso é possível perceber, pelas idades dos filhos, pois a
maioria são maiores de idade, corrobora com o tempo médio de casamento dos
participantes (20 anos e 7 meses – isto é, por volta da década de 70), sendo que o tempo de
descoberta da DRC é inferior ao tempo de casamento. Com isso, é compreensível que a
amostra tenha este numero de filhos (ação passada), pois eles também consideram que a
vida sexual deles antes da DRC era muito boa, pois possuíam vida sexual mais ativa, tanto
que permitiu a eles procriarem.

Nesta amostra, o tempo da descoberta da doença renal é inferior ao tempo de


casamento, ou seja, quando a DRC foi descoberta, eles já possuíam os filhos, confirmando
novamente a ideia de que antes da doença renal a vida sexual era boa, pois estava ligada a
continuação da espécie, a transformação do casal em família, as primeiras experiências
com os filhos e a transformação do casal em pais. Tudo isso ajuda a relacionar o sexo a
experiências boas e gratificantes, ou seja, o sexo estava ligado a situações reforçadoras,
quando o DRC faz a analise das experiências sexuais antes da descoberta da doença renal,
ele faz associação a estas experiências ditas como sendo “boas”. O alto tempo médio de
29

casamento da amostra (20 anos e 7 meses), o fato da maior parte destes filhos terem acima
de 18 anos, e o tempo de descoberta da doença renal ser menor a tudo isso (tempo de
casamento e idade dos filhos), confirma a fala dos entrevistados quando todos os
participantes da amostra afirmam que o sexo antes da descoberta da DRC era bom, pois
após a descoberta da doença, muito deles no período de hemodiálise ou diálise ficaram em
abstinência sexual, possuíam baixa autoestima quanto ao autoconceito e a autoimagem de
seus corpos, além de falta de libido e outras disfunções sexuais. Uma hipótese a ser
pensada é que as falsas memórias (Mestre, 2004) induzam a pensar a vida sexual antes da
DRC, bem antes, remetendo para o inicio da vida conjugal. Em uma próxima amostra esta
questão precisa ser mais bem investigada.

A Figura 6 mostra a relação entre o numero de filhos, o tempo de casamento em


relação ao tempo de descoberta da doença renal crônica, sendo que no critério tempo de
descoberta da DRC, foram somados o tempo que a pessoa levou para descobrir que era
doente renal, mais o tempo de hemodiálise ou diálise peritoneal e somado há quanto tempo
a pessoa já realizou o transplante, pois desta forma se tem uma previsão aproximada da
idade cronológica dos filhos durante a evolução da doença do transplantado renal.

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto de 2013.

Figura 6: Relação entre número de filhos, tempo de casamento e o tempo de


descoberta da DRC.

Considerando que a religião do participante pode interferir no modo como ele lida
com a sua sexualidade, este fator foi também considerado ao ser feita as perguntas. Como
resultado observou-se que seis participantes se declararam católicos e quatro evangélicos
(figura 7).
30

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19


de agosto de 2013.

Figura 7: Religiões aos quais os participantes da amostra disseram pertencer.

Também foi perguntado se eram praticantes da religião que declararam, sendo que
dentre os participantes que se declararam evangélicos (N=4), todos disseram que são
praticantes e atuantes na igreja; já entre os católicos (N=6), 3 se declararam como católicos
não praticantes – sendo 3 homens – e 3 como católicos praticantes – sendo 1 mulher e 2
homens. A amostra que se declarou evangélica praticante era composta de 1 homem e 3
mulheres. Para fins de análise, a figura 8 traz dois grupos: praticantes de qualquer religião
(N=6) e não praticantes da religião (N=4).

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto de


2013.
31

Figura 8: Número de pessoas da amostra que se declararam praticantes ou não de


alguma religião.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Datafolha, 95% dos brasileiros possuem


alguma religião, culto ou serviço religiosos. Desses, 31% costumam frequentar mais de uma
vez por semana, 27% uma vez por semana, 9% uma vez a cada quinze dias, 16% uma vez
por mês, 5% uma vez a cada seis meses, 5% uma vez por ano e 3% menos de uma vez por
ano. Ou seja, a amostra também reflete a realidade brasileira no quesito religiosidade, uma
vez que todos os participantes da amostra declararam pertencer a alguma religião, e a
maioria (N=6) disseram ser praticantes desta religião, corroborando com estes dados.
(Fonte: Instituto de Pesquisa Datafolha. Disponível em: http://datafolha.folha.uol.com.br. Acesso em: 10/10/2013)

Sendo que ambas as religiões declaradas – católica e evangélica – pregam que seus
adeptos casem virgens (principalmente para as mulheres), algumas pessoas cumprem os
ensinamentos da igreja sem questionar, outras reconhecem a importância da religião, mas
não permitem que ela interfira na sua sexualidade. Nos relatos de duas participantes
podemos perceber claramente isso: No caso de R. 49 anos, evangélica, relata que não
sabia nada sobre sexualidade, e que “os irmãos da igreja” (sic) é que lhe ensinaram o que
ela precisava saber. R. revelou que fez sexo por obrigação com seu marido por 7 anos e já
não possui contato corporal com ele há 4 anos. O que torna evidente em seu relato a
influencia que a religião tem sobre ela e na decisão de manter o casamento desta forma. Já
AJ. 37 anos, casada, evangélica, falou que gosta de receber do marido mensagens eróticas
por telefone, contou ser adepta do sexo oral e da masturbação, falou que considera
importante saber sobre seu corpo. Estes dez anos de diferença na idade de ambas indicam
a possibilidade apontada por Mestre (2004) quando a autora refere a influencia do contexto
histórico na mudança de valores. R pertence a uma geração em que o sexo era algo
obrigatório para procriação, dez anos depois este dado aparece veiculado nas revistas e
mídia em geral, como um direito adquirido pelo gênero de poder ter prazer com seu próprio
corpo.

Quanto à religião católica no discurso de S. 60 anos, mesma faixa etária de R.,


casada, também é possível perceber a influencia da religião:

“Sabe como é... Homem tem as suas necessidades, e eu sou esposa, tenho que
cumprir o meu dever.” (SIC) - Fonte: Transcrição das entrevistas realizadas com pacientes pós-TX, no ambulatório
de TX do HUEC, no período entre 02 e 19 de agosto de 2013.
32

Dambros et. Col. (2008) lembra que, por muito tempo o corpo humano foi visto- e
ainda é para algumas religiões – como objeto de pecado pela igreja – principalmente no
período medieval – em especial o corpo feminino, uma vez que ele estaria ligado ao ‘pecado
de Eva’, por isso qualquer coisa que desse prazer era condenada, pois o corpo era visto
como a ‘prisão da alma’, a virgindade passou a ter grande valor. A autora também descreve
como deveria ser o sexo permitido pela igreja citando Franco Júnior (2001):

(...) Franco Junior (2001) diz ainda que a prática sexual deveria ser apenas vaginal,
ficando a mulher debaixo do homem e no escuro, para evitar a visão da nudez. O
sexo oral ou sodomita, as bruxarias para seduzir alguém, práticas anticoncepcionais
e abortivas e as relações incestuosas ou adúlteras eram vistas como pecado e
castigadas, com pena de seis a quinze anos de jejum e excomunhão, acompanhados
geralmente de interdição perpétua de qualquer relação sexual e de casamento.
(Dambros et. Col. 2008) (...)

Os dados obtidos na amostra de Chorates, 2009, trouxeram dados semelhantes aos


aqui encontrados. Alguns depoentes daquela amostra só se queixaram em relação ao sexo
após estarem fazendo tratamento psicológico, com aquela autora, para depressão. No
processo psicoterápico descobriram que podiam sentir prazer sexual mesmo sem procriação
e que sexo não era pecado (ideia irracional presente em religiões judaico-cristãs). Outro
fator religioso vem interligado ao sacrifício como necessidade de ‘pagar’ pecados. A
ausência de prazer sendo encarado como se fosse natural. Para alguns as dores e perdas
sofridas durante o tratamento também sendo encarado como fonte de expiação.

Considerando que toda pessoa deve ser considerada como um ser biopsicossocial-
espiritual ao analisar os participantes da amostra se deve considerar a influencia do lado
espiritual sobre também o corpo biológico da pessoa e o modo como ela se relaciona com o
meio ao qual ela está ligada, uma vez que este aspecto vai ter reflexos na sua saúde física.
A figura 9 mostra dados sobre a pergunta feita aos integrantes sobre quais tratamentos eles
realizaram para a doença renal crônica e 100% da amostra relatou o transplante renal como
forma de combater a doença e esta era uma das condições de inclusão na amostra. Porém,
a pergunta visava verificar se foram direto para este ou se teriam passado por outras formas
de tratamento, 80% da amostra antes de realizar o transplante fez hemodiálise, 20% dos
participantes fez diálise peritoneal. Ou seja, 100% deles passaram por tratamento dialítico,
mesmo tendo doadores potenciais na família.

Os participantes parecem desconsiderar o tratamento medicamentoso feito antes e


após o transplante como sendo tratamento, uma vez que este deixou de ser mencionado e o
33

mesmo se aplica a cuidados nutricionais e mudanças de hábitos de vida, tão necessários


para a obtenção de qualidade no viver e, altamente indicativos de adesão ao tratamento do
TX.

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de


agosto de 2013.

Figura 9: Tratamentos realizados pela amostra, onde o tratamento medicamentoso,


nutricional e de mudança de hábitos de vida foi ignorado pela totalidade da
amostra.

Este dado, de longa permanência em diálise (HD ou peritoneal) se faz importante.


Quanto maior o tempo de demora para o TX, maior agravamento de intercorrências de
outros órgãos do corpo. Pois este funciona como um sistema integrado e se um falha, outros
irão falhar e interferir no psicológico, consequentemente no social. (Gomide, 2011). O que
inicia como uma perda física, logo se transforma em perdas psicossociais (Barbosa, 2009)
e, acaba interferindo na sua autoimagem (Rabello, 2009).

Após o transplante a vida do doente renal crônico passa por muitas mudanças e,
uma delas ocorre na percepção do quanto eles passam a ser mais atentos aos cuidados
com a saúde e procuram ter uma melhor qualidade de vida, uma vez que todos os
integrantes da amostra (N=10) relataram que cuidam muito mais da saúde hoje, do que
antes da doença renal. Porém, a percepção sobre a própria saúde, em geral variou de
acordo com cada participante. Sendo que 5 participantes a descreveram como sendo ‘Muito
34

Boa’, 3 apenas como ‘Boa’ e 2 participantes disseram que está ‘razoável’. A figura 10
exprime estes resultados.

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto de 2013.

Figura 10: Percepção de saúde hoje.

O interessante é que para estes participantes, ao contrário da amostra de Rabello


(2009) que julgavam sua vida pós TX e ou dentro de tratamento como sendo seu estado de
saúde ruim ou muito ruim e que após terapia focal modificaram 100% tal percepção e
passaram a se julgar ‘abençoados’ pela possibilidade de tratar-se, principalmente quanto a
ter feito o TX, na presente amostra se perceba que, mesmo sabedores de que a DRC é
incurável e irão conviver com ela de forma vitalícia, as respostas ‘ruim’ e ‘muito ruim’ ficaram
ausentes e para 100% dela julgavam a qualidade de vida como boa; mesmo antes de
passar pela psicologia, sua queixa atual se remetendo exclusivamente à sexualidade.

Na amostra anterior ainda não se tinha estes dados acerca da sexualidade e, na


preleção, este dado ficava omisso. Pode-se levantar a hipótese de que após a psicologia
iniciar a fala sobre tal probabilidade ocorrer os pacientes tenham se motivado a procurar a
equipe para falar de sua queixa. Vale ressaltar que esta é relatada no ambulatório, nas
consultas individuais, cada vez com mais frequência.
35

Quadro 5: Dados descritivos dos participantes da amostra-piloto que constituiu o N da


pesquisa, onde OE traz a ordem da entrevista; PS é o pseudônimo do
entrevistado; G refere gênero, onde M é masculino e F é feminino; I diz da Idade;
DRC é tempo desde o diagnóstico de DRC; TX fala do tempo desde o
transplante, expresso em anos (a) e ou meses (m); F é a nota atribuída à
frequência da sexualidade; QL corresponde a qualidade desta sexualidade e,
ADRC corresponde a nota que o participante dava a sua sexualidade antes da
descoberta da DRC.

OE PS G I DRC TX F QL ADRC
1 C. M 47 10 a 5m 0 4 9
2 S. F 60 20 a 2m 10 1-3 10
3 J. M 53 8a 4a 1-3 6 10
4 JM. M 62 23 a 17 a 0 6 8
5 A M 43 2a 2m 4 4 8
6 CS. M 47 16 a 16 a 8 8 9
7 AJ. F 37 4a 4m 10 8 10
8 V. M 30 6a 6a 5 7 8
9 R. F 49 14 a 11 a 0 6 10
10 E. F 41 11 a 4a 6 2 7
Fonte: transcrição das entrevistas realizadas com pacientes pós-TX, no ambulatório de TX do HUEC, no período entre 02 e 19
de agosto de 2013.

Ao analisar este quadro e confrontando os dados entre os sujeitos 3 (J. 53 anos) e


10 (E. 41 anos), que possuem o mesmo tempo de transplante, se pode perceber que a
participante 10 possui uma frequência maior quando o assunto é sexualidade, mostrando
que a recuperação em mulheres acontece de forma muito mais rápida do que em homens,
mas a qualidade desta sexualidade ainda é menor, ou seja ela está insatisfeita com alguns
aspectos em sua sexualidade, corroborando os dados de Chorates (2010) e da amostra
empírica, encontrada nos relatórios de atendimento psicológico no ambulatório de TX-Renal
do HUEC. Um destes aspectos de insatisfação da paciente E, é que ela não está em
relacionamento amoroso algum no momento. Ela se masturba, mas gostaria de estar em um
envolvimento amoroso que a satisfizesse sexualmente. Também deve ser levado em
consideração que o tempo em que E. é doente renal é superior ao de J., ou seja, ela
permaneceu em um tempo maior de privação em alguns aspectos em sua vida que o
participante 3, ou seja, pode ter feito mais associações de estímulos aversivos relacionados
à sexualidade que o outro integrante da amostra e com isso houve o prejuízo da qualidade
de sua sexualidade, porém sua frequência é quase a mesma que a de antes da descoberta
da doença renal.
36

Se analisado os dados da participante R. (49 anos), ela possui problemas conjugais,


além de queixas sexuais. Considerando que casais podem ter problemas conjugais e a crise
sexual do casal pode ser apenas uma consequência de outras crises relacionadas ao casal,
ou seja, há outras variáveis que influenciam na sexualidade do casal e nem sempre a
terapia sexual (focal) poderá resolver todos os problemas deles; nestes casos o indicado é a
psicoterapia do casal. Segundo Cavalcanti e Cavalcanti (2006, p. 146) “Quando se trata de
casais, a terapia sexual só será aplicável se cada elemento do par desejar encontrar, além
da adequação intrapessoal, a adequação interpessoal com aquele parceiro específico”. Mas
R. está satisfeita com sua frequência sexual estando em zero, seus problemas conjugais a
mantém afastada deste aspecto.

As outras participantes do sexo feminino – S. e AF. (mulheres) – que, estão há 2


meses e 4 meses, respectivamente, transplantadas, trazem dados em que é possível
observar que esta frequência de atividade sexual já se encontra igual a sexualidade antes
da descoberta da doença renal. Quando comparado estes dados com o participante C.
(masculino) que está transplantado há 5 meses e discrimina a sua sexualidade com
frequência zero e qualidade 4, sendo que antes da descoberta da DRC atribuía uma nota 9
a ela, as participantes do sexo feminino demonstram uma melhora muito superior a amostra
masculina em geral. Isso torna possível corroborar os estudos de Rodrigues et. al. (2011),
quando fala que os aspectos físicos, relacionados com todo o histórico da DRC, e os
aspectos emocionais – os sentimentos que teve acerca da DRC – podem acarretar em
disfunções sexuais importantes, principalmente nos homens:

(...) Os aspectos físicos e emocionais estão intimamente ligados. Essa situação


tende a causar um verdadeiro círculo vicioso: as sessões de hemodiálise provocam
cansaço/fadiga, o tratamento impõe um impacto emocional nos indivíduos, que
podem interferir no desempenho sexual, acarretando disfunções sexuais
importantes. A disfunção erétil é uma condição que leva à incapacidade de obter
e/ou manter uma ereção suficiente para um desempenho sexual satisfatório,
considerada multifatorial, sendo causada por inúmeros fatores de ordem física, social
e emocional. (Rodrigues et. al. 2011, p. 7)

Também se pode levantar a hipótese da influencia da medicação no desempenho


sexual, principalmente nos participantes masculinos, com maior tempo de transplante.
Imaginava-se que eles estariam mais adaptados ao transplante e por consequência
deveriam ter menos queixas sexuais, porém percebeu-se que independente do tempo de
transplante ou do sexo do participante, as queixas existem e são persistentes, mostrando
que a sexualidade do transplantado renal deve ser mais bem considerada pela equipe que
37

assiste ao doente renal, uma vez que a sexualidade integra o contexto de qualidade de vida
da pessoa, conforme Marques (2006) cita:

(...) No que se refere ao uso de drogas - aqui incluídas as medicações e drogas


lícitas e ilícitas - pode-se dizer, de forma geral, que somente analgésicos de uso livre
e antibióticos não interferem com o desempenho sexual. As drogas que são
utilizadas no manejo de doenças crônicas potencialmente podem gerar disfunções
sexuais. (Marques, 2006. p. 23) (...) [grifo da autora]

Marques (2006) também fez um estudo investigando quais seriam as principais


drogas medicamentosas que estariam ligadas as disfunções sexuais, chegando a uma
conclusão de que antidepressivos, anti-hipertensivos, diuréticos e hormônios podem
influir negativamente na sexualidade. A tabela 1, copiada de sua tese de mestrado,
informa quais medicações são passíveis de causar comprometimento na resposta sexual.

Quadro 6: Drogas que podem ter repercussão negativa sobre a sexualidade.

Fase da resposta sexual com


Drogas
possível comprometimento
Tricíclicos
Inibidores da recaptação de serotonina
Antidepressivos Inibidores da mono-amino-oxilase
Desejo, excitação e orgasmo
Carbonato de Lítio
De ação central
(metildopa, reserpina e demais)
Desejo
Anti-
hipertensivos Alfa e beta-bloqueadores
(clonidina, propranolol e outros)
Desejo e orgasmo

Espironolactona Desejo e excitação


Diuréticos
Tiazídicos Excitação

Corticosteroides Desejo, excitação e orgasmo

Hormônios
Seu papel na sexualidade depende da
Drogas que promovem hiperprolactinemia
relação prolactina/testosterona.
(metoclopramida, sulpirida e demais)
De modo geral inibe o desejo.
Fonte: Marques (2006) Qualidade de Vida e Sexualidade de Mulheres em Diálise. Porto Alegre/RS. Dissertação de Mestrado
entregue a PUC-RS, p.24.

Na amostra analisada (lembrando que a escolha dos participantes ocorreu de forma


aleatória) se verificou que 6 participantes obtiveram o enxerto com doadores vivos, sendo
estes foram parentes próximos ao receptor: 5 foram irmãos e 1 foi o pai do paciente que fez
a doação, e, os outros 4 receberam o órgão de doadores falecidos. A figura 11 exprime
estes dados.
38

Fonte: Questionário Sócio-Econômico-Cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de


agosto de 2013. (Anexo 3)

Figura 11: Tipo de doador, vivo ou falecido.

Ao observar o quadro 7 e se comparar a diferença entre o tempo de descoberta da


DRC e o tempo decorrido para TX, com doador vivo (parente) há um vácuo de alguns anos.
Fica a pergunta de o que ocorreu? Por que razão este doente ficou sofrendo por tantos
anos e comprometendo toda uma vida – física e relacional – uma vez que o doador provável
estava entre seus próximos?

Quadro 7: Dados descritivos dos participantes da amostra-piloto, onde OE significa a


ordem em que ocorreu a entrevista; PS corresponde ao pseudônimo
atribuído ao entrevistado; G refere o gênero do participante, onde M é
masculino e F é feminino; I diz da Idade do participante; EC significando o
estado civil; DRC fala do tempo desde o diagnóstico de DRC; TX fala do
tempo desde o transplante,expresso em anos (a) e ou meses (m); ≠ diferença
de tempo entre a descoberta da DRC e o transplante; TD corresponde ao
tipo de doador, sendo V para doador vivo e F para doador falecido.
OE PS G DRC TX ≠ TD AD
1 C. M 10 a 5m 9 a 6m V Sim
2 S. F 20 a 2m 19a 10m F Sim
3 J. M 8a 4a 4a V Sim
4 JM. M 23 a 17 a 6a F Sim
5 A M 2a 2m 1a 10m F Não
6 CS. M 16 a 16 a 0 V Sim
7 AJ. F 4a 4m 3a 8m F Não
8 V. M 6a 6 a  0 V Sim
9 R F 14 a 11 a 3a V Sim
10 E. F 11 a 4a 7a V Sim
Fonte: transcrição das entrevistas realizadas com pacientes pós-TX, no ambulatório de TX do HUEC, no período entre 02 e 19
de agosto de 2013.

A diferença de tempo de tratamento dialítico significando a perda das funções renais


e o tratamento por TX, via de regra, foi muito longo. Para os que receberam do doador
39

falecido poderia ser explicável, afinal este têm que esperar pela probabilidade de encontrar
alguém compatível. Mas, e para aqueles que tinham o doador dentro da própria família? Os
dados clínicos encontrados nos relatórios de atendimento em psicologia, desde 2008,
apontam para razões que vão desde a não ter sido listado pelas unidades de dialisação,
comprovadamente, para entrarem na concorrência a rim de doador falecido. (Marilza
Mestre, e Vera Lúcia Bertoldi, 2013, comunicação pessoal)

Embora tais pacientes desconheçam a razão para o fato, trazem ideias irracionais
como razão para não quererem o TX, desde medo de prejudicar o parente, se este fizesse a
doação; ignorância do processo de transplante à ignorância do dano geral que se causa ao
organismo como um todo pelo tempo demorado em diálise 2. Quando uma informação é
adquirida, pode funcionar, erroneamente, como uma regra que serve como estimulação
discriminativa e ou estar servindo como operação estabelecedora de comportamentos,
mesmo disfuncionais. Isto explicaria a força de controle das ideias irracionais no repertório
das pessoas. (Matos, 2001).

A figura 12 mostra os resultados obtidos da amostra N=10, sobre os hábitos de vida


dos pacientes antes de começar a fazer o tratamento para a doença renal, e 14% da
amostra declarou inexistência de busca por tratamento continuo para doenças pré-
existentes, como a hipertensão, diabetes; 18% evitavam ou fugiam de acompanhamento
médico contínuo; 11% ignoraram os primeiros sinais e sintomas da doença renal; 16%
afirmaram que possuíam uma alimentação inadequada, com ingestão de açúcar em
excesso e alimentos – principalmente carnes – gordurosos; 14% assumiram que ingeriam
álcool regularmente; 11% relataram que possuíam uma vida sedentária e 16% eram
fumantes e após o transplantes deixaram de fumar.

2
A hemodiálise requer um desgaste importante ao sistema cardíaco, uma vez que o processo natural de
bombeamento sanguíneo de filtragem decorre ao longo de 24 horas de trabalho/dia e, passa para 4 horas de
trabalho/dia na filtragem pela máquina. Na diálise peritoneal este dano se minimiza para 8 horas de
trabalho/dia. Mas, ainda assim há esforço maior que no natural. (Matos e Lopes,2009 )
40

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto


de 2013.

Figura 12: Hábitos de vida da amostra.

Estes dados confirmam os resultados de Rabello (2009), que já correlacionava os


hábitos de vida, de sua amostra, ao desenvolvimento da doença renal e posteriormente a
definição e redefinição do que seria qualidade de vida antes e depois do transplante.
Uma vez que há uma tendência cultural a acreditar que a felicidade está ligada á
crenças, muitas vezes irracionais, do que seria qualidade de vida, pois para muitos
depoentes estaria ligada ao consumo de bebidas alcoólicas e alimentos gordurosos, o que
ocorria antes do diagnóstico. Após a descoberta da DRC, o doente aprende os hábitos
corretos de vida, melhorando a qualidade dela e a sua percepção sobre o que é saúde e o
autocuidado que possui consigo mesmo. Tais hábitos como o uso de álcool, cigarros e
sedentarismo sendo compatíveis com perda da função renal tanto quanto baixo
desempenho sexual para homens e mulheres. Conforme cita Cuker e Fragnani (2010):

(...) Apesar de todos os avanços da tecnologia médica, os pacientes renais precisam


se adaptar às mudanças decorrentes da doença renal crônica. O trabalho
multidisciplinar e humanizado pode auxiliar nesse processo, principalmente nas
diferentes fases do desenvolvimento, pois cada ser humano precisa ser trabalhado
de acordo com suas características próprias, as crianças, os adolescentes, os
adultos e os idosos possuem diferenças de adesão e tratamento. As mudanças na
vida do sujeito podem ser de fundo social, psicológico e fisiológico, trazendo tristeza
aos sujeitos e a seus familiares. As crianças sentem melancolia por não poderem
exercer as atividades normais de sua idade, o adulto, inutilidade por precisar deixar
de trabalhar, e os idosos sofrem com o envelhecimento corporal. (Cuker e Fragnani,
2010). (...)
41

A figura 13 mostra as doenças pré-existentes que os pacientes possuíam antes do


diagnóstico da DRC, uma vez que cada pessoa da amostra poderia apresentar mais de uma
doença, chegou-se a conclusão de que 39% da amostra tinha hipertensão antes da DRC,
5% lúpus, 6% eram tinham obesidade, 17% infecção urinária de repetição, 22%
declararam que possuíam outras doenças como: pneumonia, hérnia no testículo,
endocardite, hipotensão; e apenas 11% da amostra declararam desconhecer a existência de
alguma doença pré-existente. Neste N ficou ausente relato de preexistência de diabetes e
dislipidemia.

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de


agosto de 2013.

Figura 13: Doenças Pré-Existentes.

A figura 14 mostra que entre as pessoas que declararam que possuíam uma doença
pré-existente, apenas três faziam acompanhamento de forma regular e sete declararam
deixar de fazer acompanhamento médico para estas, mesmo que já tendo sido
diagnosticadas por alguma especialidade médica. A justificativa destes participantes por não
fazer o acompanhamento médico adequado é a de que não entendiam a gravidade e as
consequências da doença, acreditavam que se apenas tomassem remédios – mesmo fora
de horário, estariam tratando as doenças pré-existentes. Segundo Romão Junior (2004) a
detecção precoce feita pelos médicos de base e o tratamento médico adequado pode
reduzir o sofrimento dos pacientes e os custos financeiros associados à DRC, e o autor vai
mais além:

(...) Como as duas principais causas de insuficiência renal crônica são a hipertensão
arterial e o diabetes mellitus, são os médicos clínicos gerais que trabalham na área
42

de atenção básica à saúde que cuidam destes pacientes. Ao mesmo tempo, os


portadores de disfunção renal leve apresentam quase sempre evolução progressiva,
insidiosa e assintomática, dificultando o diagnóstico precoce da disfunção renal.
Assim, a capacitação, a conscientização e vigilância do médico de cuidados
primários à saúde são essenciais para o diagnóstico e encaminhamento precoce ao
nefrologista e a instituição de diretrizes apropriadas para retardar a progressão da
DRC, prevenir suas complicações, modificar comorbidades presentes e preparo
adequado a uma terapia de substituição renal. (Romão Junior, 2004, p.1) (...)

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto


de 2013.

Figura 14: Participantes da amostra que faziam acompanhamento médico para as


doenças pré-existentes.

A figura 15 revela o tempo que cada participante levou para descobrir a doença
renal crônica. Os participantes poderiam escolher entre as seguintes opções: Menos de 6
meses, 1 ano, 2 anos, mais de 2 anos. Os resultados apontam que 8 participantes levaram
mais de dois anos para descobrir a doença, e apenas 2 obtiveram o diagnóstico com menos
de 6 meses. Com isso, é possível perceber que a demora no diagnóstico da DRC, trás
complicações na vida de modo em geral e na sexualidade de modo específico, pois como o
funcionamento indevido de um órgão (ou sistema) pode vir a comprometer outras funções
do organismo, além de afetar o relacionamento interpessoal e a sua autoimagem; conforme
aponta os estudos de Basson (2011):

(...) Os fatores biológicos podem influenciar a excitabilidade. Eles abrangem


depressão, medicamentos que incluem antidepressivos sinérgicos à serotonina,
doenças crônicas debilitantes, como a falência renal crônica e flutuações do nível de
açúcar no sangue em diabéticos, e, menos comumente, hiperprolactinemia ou
43

hipo/hipertireoidismo. Perda da atividade androgênica devido à remoção de ambos


os ovários, falência ovariana prematura devido a quimioterapia, doença renal,
doença pituitária ou hipotalâmica e a administração prolongada de altas doses de
cortisol podem influenciar negativamente a excitabilidade. (Basson, 2011, p.34)

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto


de 2013.

Figura 15: Tempo de descoberta da doença renal.

A figura 16 aponta para os dados da pergunta sobre qual o diagnóstico que lhe foi
dado sobre a sua doença renal, 3 participantes ignoravam o nome da doença que levou a
perda renal, 1 atribuiu à cálculos renais, 3 a nefrite, 1 infecção renal e 2 relataram atrofia do
rim.
44

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto de


2013.

Figura 16: Diagnóstico Médico.

Sendo que este dado corresponde aos relatos empíricos encontrados nos relatórios
de atendimento psicológico ao longo destes anos (2008-2013) no ambulatório de TX-Renal.
A doença renal crônica é uma doença silenciosa que quando manifesta os sintomas de
falência renal já vem se instalando ao longo de anos. O fato de o doente ou seu familiar
desconhecer a causa de sua doença revela o quanto o ser humano desconhece de si
mesmo. No caso, se o próprio doente desconhece, também revela ausência de cuidados
preventivos e até mesmo preservativos após diagnóstico.

Também foi possível avaliar quais seriam os maiores sentimentos acerca da


doença renal, levando em consideram que são pessoas que já passaram pela fase do
transplante, e agora podem fazer uma avaliação do percurso da doença e os sentimentos
que eles experimentaram, esta pergunta visava explorar quais os sentimentos que os
participantes experimentaram durante este processo da DRC. Conforme cita Ismael (2005)
apud Rabello (2009): “As perdas reais e imaginárias em torno da doença, associadas ao
risco de morte, suscitam sentimentos de impotência e desamparo frente a esta situação.
Neste contexto, observa-se a emergência de inúmeros conflitos e dificuldades psicológicas”.
Diante disso, é importante conhecer quais são os sentimentos que o participante consegue
detectar em si mesmo e qual a intensidade, para assim direcionar melhor as futuras
intervenções psicológicas. Uma vez que ideias irracionais podem servir de estímulos
discriminativos falsos que podem conduzir a escolhas erradas, como descrito por Chorates
(2010).
45

Havia como opções de resposta: nenhum, culpa, raiva, tristeza, desespero, sem
poder, não estou doente, alegria, abençoado, abandonado, vergonha, e a opção
“outros”, cujo participante poderia escrever qual foi o sentimento que teve. Tais opções
tendo sido criadas a partir de dados obtidos empiricamente nas várias entrevistas de terapia
focal com pacientes e familiares do TX-Renal, desde 2007 até 2013 e que já haviam se
queixado de dificuldades sexuais durante a doença renal. O participante poderia apontar
mais de uma opção.

A figura 17 mostra que 7% dos participantes (N=4) relataram sentir culpa, 5% (N=3)
raiva, 14% (N=8) tristeza, 11% (N=6) desespero, 14% (N=8) se sentiram “sem poder”,
principalmente pelo fato das dificuldades para exercer o trabalho até conseguirem fazer o
transplante renal e também ao fato de depender de outras pessoas, 5% (N=3) declararam
que negaram a doença por um tempo, marcando a opção “Eu não estou doente”, 5%
(N=3) sentiram alegria com a doença renal, pois melhoraram suas qualidades de vida,
16% (N=9) afirmaram ser “abençoados” com a doença renal crônica, principalmente por
terem conseguido fazer o transplante renal, 11% (N=6) sentiram vergonha, esta
abrangendo vários aspectos: depender de outras pessoas por um tempo, vergonha das
cicatrizes, da fistula, cateter, transplante, entre outros; 5% (N=3) relataram que se sentiram
abandonados com a descoberta da doença renal crônica, principalmente pela família,
alguns participantes relataram que os familiares se afastaram por medo de que fosse pedido
pelo doente, para que o familiar fizesse o teste de compatibilidade, e talvez, ser seu doador.
7% da amostra relataram ter experimentado outros sentimentos, tais como: medo (N=3) e
mágoa (N=1).
46

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto


de 2013.

Figura 17: Sentimentos acerca da doença renal crônica.

Esta gama de sentimentos indicadores de contingências das perdas que a DRC


acarreta (Barbosa, 2009) aponta para a importância do diagnóstico na construção de ideias
irracionais (Beck, 1960). O trabalho de Chorates (2010) já havia correlacionado às ideias
recorrentes em DRC com o baixo desempenho sexual e, mais ainda, com a percepção de
perda de qualidade de vida. Como antes do diagnóstico não tinham a percepção de sua
doença como incurável, irreversível, se pode pensar que uma cadeia de comportamentos
cognitivos (irracionais) passasse a atuar como desencadeador de baixo desempenho
sexual.

Também foi analisado dentre todos os sentimentos relatados acima, qual deles o
participante experimentou com maior intensidade. Uma vez que cada participante, devido
a sua história de vida, experimentou a DRC de uma forma, e esta também influenciou na
sua recuperação pós-TX e na adesão que este teve ao tratamento, por isso saber qual o
sentimento que ele tem sobre todo o processo da doença renal, desde a sua descoberta até
a realização do transplante, faz-se importante, pois pode direcionar melhor o atendimento
aos pacientes que ainda farão o transplante, e desta forma a equipe que o assiste pode
aprimorar suas práticas de atenção e cuidados aos pacientes.

Tendo em vista isso: três participantes consideraram o ‘abençoado’ como sendo o


maior sentimento acerca da DRC; 2 trouxeram o medo e outros 2 integrantes da pesquisa
47

disseram ser a tristeza. Sentimentos como abandono, desespero e sem poder, obtiveram
um voto, cada uma, de outros 3 participantes. A figura 18 mostra em números estes
resultados.

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto


de 2013.

Figura 18: O maior sentimento acerca da doença renal crônica.

Com esta gama de sentimentos ditos negativos (culpa, raiva, medo, etc.) que foi se
instalando no repertório do doente e afetando suas inter-relações, parece claro que sua vida
sexual deveria estar afetada muito antes de este perceber. Esperava-se que aqueles com
maior tempo de TX estivessem com melhor qualidade de vida sexual e geral. Eles falam
desta percepção em relação ao corpo e à sua vida comum, mas continuam se queixando da
sexualidade. Principalmente são os homens da amostra que se queixam, conforme os
dados empíricos já demonstravam, e com razão. Afinal, se todo o resto melhorou e na
sexualidade masculina houve uma piora, é natural e compreensível a ênfase dada a este
aspecto.

Este dado que reaparece, comparado aos achados empíricos nestes anos de TX-
Renal, é de que os participantes se dizem sentir mais ‘abençoados’, o que pode refletir uma
característica particular do transplantado, uma vez que todos, desta amostra, já haviam
realizado o TX-Renal e estavam sendo acompanhados pelo setor, melhoraram suas
qualidades de vidas, ou seja, estavam despreocupados quanto ao aspecto de conseguir um
doador e valorizavam o fato de terem conseguido realizar o transplante renal.
48

Quando analisado especificamente sobre a sexualidade, todos os entrevistados


relataram que antes da descoberta da doença renal, consideravam a vida sexual como
sendo muito boa. Sete (7) participantes declararam que tinham alguma doença pré-
existente e ausência de acompanhamento médico contínuo, mesmo tendo condição cultural
e financeira para isso, os doentes mantiveram a resposta de que a vida sexual era muito
boa antes da descoberta da doença. Uma vez que devido a média do tempo de casamento
ser de 20 anos e 7 meses, a vida sexual antes da doença renal esteve ligada a
transformação do casal em família, a chegada dos filhos, gerando com isso um reforço
positivo de que as relações sexuais seriam boas, pois no discurso dos participantes há uma
ausência de fatos aversivos nas relações sexuais antes da descoberta da DRC.

Conforme fala Cavalcanti e Cavalcanti (2006, p.33): “Quando um comportamento


emitido é reforçado pelas consequências que determina o ambiente, aumenta a
probabilidade de sua ocorrência futura, passando a ser controlado pela condição
reforçadora”. Ou seja, o fato dos filhos estarem ligados as relações sexuais passadas,
reforça a ideia de que, para eles, estas eram boas. Já as relações sexuais ligadas a todo o
percurso da DRC, ou seja, ao período de hemodiálise ou diálise peritoneal, trazem
lembranças aversivas, conforme Skinner (1998, p.188) fala:

(...) O tipo de estímulo que geralmente é denominado desagradável, irritante, ou mais


tecnicamente, aversivo, não se distingue por determinadas especificações físicas.
Estímulos muito fortes são com frequência aversivos, mas alguns estímulos fracos
são aversivos também. Muitos estímulos aversivos lesam os tecidos ou ameaçam de
alguma forma o bem-estar do indivíduo, mas isso nem sempre é verdade. Os
estímulos dolorosos geralmente são aversivos, mas não necessariamente como o
demonstram os repulsivos. (...) Diz-se que um estímulo é aversivo apenas quando a
sua remoção for reforçadora. (...) Definimos tanto os reforçadores positivos quanto os
negativos em termos de fortalecimento de uma resposta (...).

A figura 19 mostra que a percepção sobre a sexualidade do transplantado no


momento da entrevista evidencia que apenas 4 deles consideram sua sexualidade como
sendo muito boa quando comparada ao período em que eles faziam hemodiálise ou diálise
peritoneal; período em que muitos não mantinham relações sexuais ou as tinham com
pouca frequência. Com a mesma justificativa anterior, 4 participantes veem sua sexualidade
como sendo apenas boa; ou seja, oito deles possuem a falsa percepção de bom
desempenho sexual, apesar de apresentar queixas. Pode-se pensar em mistificação de
memória, segundo Mestre (2004), algo frequente em pessoas diante do luto. Dois
participantes percebem a atividade sexual como sendo pouca, no sentido de insuficiente,
também relatando que no período de diálise peritoneal ou hemodiálise a consideravam
49

pouca, insuficiente ou inexistente. De acordo com Basson (2011) ao avaliar as respostas


sexuais deve-se considerar também mudanças de medicação, tratamentos para disfunções
do humor, o funcionamento da glândula tireoide, como está o relacionamento do casal,
aspectos religiosos, a autoimagem e autoconceito, e qual a concepção do que seria sexo
“normal” para ele. E através disso fazer uma avaliação geral do que pode estar interferindo
no ato sexual em si. Se pode perceber na fala de A. (43 anos) que não sentia vontade de
fazer sexo com sua esposa, pois se sentia cansado e tinha vergonha de seu corpo.

(...) Achava a fístula muito feia, mas depois me acostumei com ela. (SIC - Fonte:
Transcrição das entrevistas realizadas com pacientes pós-TX, no ambulatório de TX do HUEC, no período entre 02 e 19 de
agosto de 2013).

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto de


2013.

Figura 19: Sexualidade após o transplante renal.

A figura 20 mostra o quanto esta sexualidade classificada na figura 19 (como o


participante classificava a sua sexualidade no momento da entrevista), tendo como opções
de resposta: pouco, médio ou muito, satisfazia o entrevistado. Encontrou-se 4 participantes
que estão pouco satisfeitos com a sua sexualidade após o transplante renal e desejam
mudar alguns aspectos, como por exemplo: demoram para ter uma ereção, a ejaculação
está muito rápida ou dor no canal vaginal. Outros 3 consideram que estão meio (ou médio)
satisfeitos, tendo alguns aspectos para melhorar, apenas 2 estão plenamente satisfeitos
com a sexualidade após o transplante e 1 entrevistado, transplantado há 5 meses, não está
satisfeito com a sua sexualidade. Sendo que entre estes dois participantes que disseram
50

estarem plenamente satisfeitos sexualmente, um deles acredita que apesar de ter alguns
problemas sexuais, espera que isso se resolva com o tratamento adequado – embora ainda
não o tenha procurado – e a outra participante afirma estar satisfeita porque não tem mais
relações sexuais com o marido, com o qual tem conflitos conjugais, e desta forma ela está
satisfeita. Esta participante fez sexo por obrigação com seu marido por 7 anos, ela relata
que neste período (após o transplante) já não sentia mais desejo sexual:

“Depois do transplante, fiquei gelada” (SIC - Fonte: Transcrição das entrevistas realizadas com
pacientes pós-TX, no ambulatório de TX do HUEC, no período entre 02 e 19 de agosto de 2013).

Basson (2011) fala que a preocupação por ter baixo desejo sexual está em 30% a
40% das mulheres. A autora acredita que ao debater o tema sobre a falta de desejo sexual
em mulheres pode ajudar a outras mulheres a buscar ajuda, uma vez que a mulher por
muito tempo foi punida ao pensar em sexo ou manifestar a sua sexualidade e isso reflete no
comportamento sexual de muitas delas.

(...) Evidências empíricas, qualitativas e clínicas deixam claro que o desejo sexual que
se manifesta através da fantasia sexual, desejo e expectativa de ter experiências
sexuais, e pensar “espontaneamente” sobre sexo de forma positiva têm uma ampla
gama de frequência entre as mulheres, e que o desejo explícito não é frequente em
muitas mulheres funcionalmente satisfeitas sexualmente – em especial aquelas que
estão em relacionamentos firmes. (Basson, 2011, p. 24) (...)

A figura 20 ilustra a percepção com satisfação sexual, dos participantes.

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto


de 2013.

Figura 20: Satisfação com a sua sexualidade após o transplante renal.


51

Com isso, deve-se lembrar de que os participantes levaram em conta para responder
esta pergunta a avaliação pessoal que faziam das relações sexuais que tinham no período
de diálise peritoneal ou hemodiálise comparando com o período atual. Quando apenas
considerado este aspecto eles reconheciam que tinham problemas na vida sexual, mas
que quando comparados as dificuldades sexuais no período de diálise peritoneal ou
hemodiálise, as da atualidade eram consideradas pequenas e poderiam ser superadas,
desde que eles procurassem ajuda.

Também se deve considerar casos de participantes em específico, como por


exemplo: a participante 9 (R. 49 anos) casada há 34 anos, transplantada há 11 anos, sendo
que há 4 anos não possui vida sexual com seu marido devido a problemas conjugais. R.
revelou que fez sexo por obrigação com seu marido por 7 anos, agora considera que estão:

“separados de corpos” (SIC) - Fonte: Transcrição das entrevistas realizadas com pacientes pós-TX, no
ambulatório de TX do HUEC, no período entre 02 e 19 de agosto de 2013).

Isto é, com separação de corpos. Esta declarou desprazer nas relações sexuais,
principalmente após o transplante, mas como ela tem outros problemas com o seu
marido, o fato dela não ter relações sexuais a satisfaz plenamente, pois ela não quer mais
envolvimento físico com seu esposo.

Também há o caso de JM, 62 anos, viúvo há 9 anos, realizou o transplante renal há


17 anos. Tinha dificuldades nas suas relações sexuais com a esposa por acreditar que o
rim poderia sair do lugar. Hoje, por ser viúvo há 9 anos e desde então não ter vida sexual
ativa, considera que atualmente a sua vida sexual está boa, pois está sozinho no momento
(sem envolvimento amoroso), ou seja, as dificuldades que possui, não o atrapalham. O
relato de cada caso pode ser acompanhado na página 69 (p. 69).

Ao ser focado apenas nas dificuldades durante as relações sexuais dos


participantes, foi necessário separar os resultados de acordo com o gênero dos
participantes (homens e mulheres).

Ao ser analisado este item, se escolheu fazer a pergunta de modo aberto, pois
assim, os participantes da amostra poderiam falar livremente sobre as dificuldades
sexuais que possuíam, e também poderia ser falado mais de um item na resposta, ou seja,
a pessoa poderia falar sobre vários problemas que ela sentia durante as relações sexuais
e dessa forma, pode-se explorar melhor o tema.
52

Lembrando que os participantes poderiam dar mais de uma resposta, entre os


homens houve prevalência de 5 tipos de problemas: Dificuldade em manter o pênis ereto
(2), ejaculam muito rápido – logo após o pênis penetrar a vagina – (3), demora para
ejacular (1), não conseguem ter ereção (1), dor no testículo (1) (Figura 21). Mendes e
Almeida (2013) discutem que a disfunção erétil pode ser um problema para alguns
receptores de órgãos; devido mais aos aspectos emocionais da doença crônica e também
ao uso de medicamentos contínuos que interferem na ereção ou ejaculação. Corroborando
com os resultados encontrados, as autoras também afirmam que para alguns transplantados
pode ser difícil manter ou obter uma ereção, mas que este fato é comum estar relacionado à
presença de fadiga e estresse, o que também se confirma na amostra uma vez que no
estudo de cada caso, foi possível perceber a interferência de aspectos emocionais que
atrapalhavam as relações sexuais. Estes problemas relatados pelos DRC já transplantados
são também dificuldades relatadas pela população masculina em consultório de psicologia.
Resta a pergunta se são disfunções causadas pela doença ou seriam comorbidades
existentes independentes da DRC e ou do TX. Talvez uma pesquisa com um numere maior
de participantes pudesse esclarecer este dado.

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de


agosto de 2013.

Figura 21: Maior dificuldade em homens transplantados durante as relações sexuais.

De acordo com Morales et. Col. (2001) a prevalência das disfunções sexuais em
doentes com insuficiência renal crônica (IRC) pode chegar a 70% nos doentes em
hemodiálise. A disfunção ocorre pelas altas taxas uremicas associadas a hipertensão,
cardiopatias, hipercolesterolêmica, diabetes e iatrogenia medicamentosa. Contudo, o autor
53

relata que após o transplante renal, o doente pode melhorar, ou seja, o autor acredita que
para a maioria dos casos o transplante ajuda a resolver os problemas de disfunção
erétil, mas não todos. Para Morales et. Col. (2001) os aspectos psicológicos são fatores
determinantes na relação sexual, uma vez que a percepção da qualidade de vida muda e a
pessoa necessita se ajustar a ela, pois a pessoa pode sentir dificuldade em se adaptar a
nova dieta – livre de sódio – e estar dependente de medicações e de tratamentos para
sobreviver reduzem a sensação de segurança e o senso de liberdade.

Porém, esta amostra, assim como a de Rabello (2009), já possui uma visão de que
após o transplante a qualidade de vida (QV) melhorou, o que indica que o trabalho dos
alunos estagiários no setor, atua na garantia de uma melhor percepção da QV.

Entre as mulheres, houve as respostas: 2 participantes relataram estar “Sem desejo”


de ter relações sexuais após o TX, 1 falou que sente “dores no canal vaginal” do tipo
“agulhada”, e 1 disse que sente muitas “dores durante as relações sexuais” (Figura 22).
A sensação de dor vai ao encontro do artigo de Mendes e Almeida (2013) que alerta que as
receptoras de transplantes podem ter problemas como secura vaginal – que daria a
sensação de dor no canal vaginal do tipo agulhada, e também dor durante o intercurso
sexual – pois alguns medicamentos podem levar a secura vaginal e algumas doenças
podem causar uma variedade de problemas vaginais que levam a falta de lubrificação,
estreitamento, úlceras e infecções, e essas mudanças podem levar a dor durante a relação
sexual. A dor tem impacto na autoestima e no desejo pela atividade sexual dos pacientes.
Ensinar o paciente algumas técnicas de relaxamento pode ajudar a diminuir o desconforto e
ajudá-los a voltar a ter mais interesse por sexo. O uso de técnicas de relaxamento tem sido
amplamente utilizado em casos de insônia, em parturientes, em casos de fobias e
ansiedade – uma vez que a ansiedade está intimamente ligada ao sexo, pois ela é uma
resposta a um evento que irá acontecer, e a iminência deste evento faz com que a
ansiedade no indivíduo aumente atrapalhando o desempenho sexual da pessoa ou
impedindo que ele tenha uma resposta sexual satisfatória. Sobre a ansiedade, Guilhardi
(2002, p.2) fala:

(...) Assim, por exemplo, quando uma pessoa está ansiosa, ela tem alterações no
ritmo de batimentos cardíacos, na frequência respiratória, na pressão sanguínea etc.
Da mesma forma, na alegria há mudanças no funcionamento do corpo: os
batimentos cardíacos, a sudorese, o ritmo respiratório etc. também se alteram.
54

O uso do relaxamento faz com que a pessoa se sinta mais confortável para enfrentar
a situação e assuma o controle de suas emoções, como cita Rangé (2008, p. 482):

(...) No que diz respeito ao relaxamento muscular progressivo (Jacobson, 1938)


deve-se apenas fazer o exercício no paciente, chamando a atenção dele para a
concentração necessária para discriminar a diferença entre graus variados de tensão
nos diversos músculos do corpo. É importante também destacar a importância que o
relaxamento muscular tem para produzir um relaxamento periférico que, por sua vez,
induz um estado de relaxamento mais central, representado pela ativação do sistema
parassimpático. É importante acrescentar sugestões, como são feitas no treinamento
autógeno (Luthe, 1969) e incentivar a visualização de cenas tranquilizadoras, como
uma praia deserta ou a relva de uma montanha, com seus odores e brisas (...).

Sobre a diminuição do desejo e do interesse em atividades sexuais, Mendes e


Almeida (2013), consideram algo comum, pois quando o paciente não está se sentindo bem
fisicamente, se sentindo cansado, com dor ou algum desconforto, somado a problemas
emocionais, isto irá reduzir ainda mais o desejo do paciente para ter relações sexuais.

Fonte: Questionário sócio-economico-cultural, aplicado entre os dias 09 de agosto de 2013 à 19 de agosto


de 2013.

Figura 22: Maior dificuldade em mulheres transplantadas durante as relações


sexuais.

Sendo que a vida sexual, também, será um reflexo das contingências pelas quais a
pessoa foi exposta, se durante o período da hemodiálise ou diálise peritoneal as relações
sexuais foram marcadas por estímulos aversivos (Catania, 1999) como por exemplo: a dor,
um odor mais forte ou mesmo um desconforto, a pessoa pode associar o sexo como sendo
algo ruim para ela, e quando esta crença é vista como irrelevante na recuperação do doente
renal crônico, ele pode fazer – mesmo após o transplante – a generalização do estímulo
55

aversivo e passar a considerar as relações sexuais como algo que vai lhe causar dor,
desconforto, gerando ansiedade mesmo sem estar na presença do evento ou na iminência
dele, e isso também pode atrapalhar uma geração de resposta sexual satisfatória no
indivíduo. Pois, a conduta sexual não é um fato isolado do repertório comportamental do
indivíduo, mas algo que, de alguma forma, envolve a comunicação interpessoal, a
elaboração cognitiva, os comportamentos biológicos e o comportamento emocional da
pessoa. (Cavalcanti e Cavalcanti, 2006)

Analisando o conjunto de respostas dadas ao inventário desta pesquisa, (na qual as


ideias irracionais acerca do enxerto eram questões de números: 1, 4, 6, 7, 9, 12 e 13) foi
possível perceber que na questão de numero 1: “Penso que durante a relação sexual o
rim pode sair do lugar e eu posso vir a ter problemas”, 6 entrevistados disseram que
nunca haviam pensado desta forma ao contrário do que ocorreu na amostra de Chorates
(2010), onde esta foi uma ideia recorrente; 2 pessoas responderam que pensam em geral
ou muito nesta frase, 1 afirmou que às vezes pensa nesta frase e 1 concordou inteiramente
com esta frase. Mas considerando-se que na presente amostra esta ideia aparece para um
dos depoentes e que não é a mesma pessoa da amostra anterior, o dado revela que isto
pode aparecer no imaginário dos transplantados, o que por si mereceria ser alertada a
equipe de saúde para o fato.

Já na questão 4: “O fato de ser homem/mulher e ter recebido um rim de um


homem/mulher atrapalha a minha vida sexual”, 100% dos participantes disseram que
nunca pensaram desta forma. Este dado também suscita discrepância com a mostra de
Chorates (2010) onde tal ideia apareceu e com os dados empíricos do TX, uma vez que
esta ideia costuma aparecer nos relatórios de atividade de estágio. Tais relatórios são
semanais e em média são atendidos uns trinta pacientes/mês, e esta ideia aparece ano
após ano em pelo menos 40% do universo atendido em diferentes contextos da terapia focal
e nas mais diversas queixas em relação ao transplante (Marilza Mestre, e Vera Lúcia
Bertoldi, 2013, comunicação pessoal).

Na sexta frase 6: “Acredito que a opção sexual do doador pode alterar a minha
própria opção sexual”, 7 dos participantes revelaram que nunca pensaram desta forma, 2
pensaram um pouco sobre este tema e 1 disse que já pensaram nesta hipótese algumas
vezes. O que confirma a hipótese de Chorates (2010) e os dados empíricos obtidos por
Mestre ao longo dos anos de atendimento no TX, em que ambas relatam tal crença
distorcida aparecendo nos tactos dos pacientes. Então, como há três pessoas nesta
56

amostra que já pensaram assim e na amostra de Chorates, (2009), que era um estudo
qualitativo, dos oito pacientes em terapia focal, três deles se queixavam de problemas
eréteis, justificando maior investigação sobre este dado.

Na questão 7: “Não tenho paciência em fazer preliminares, pois se não for


rápido o suficiente o rim pode sair do lugar”, 7 dos entrevistados responderam que não
pensam e nunca pensaram desta forma, e às vezes, em geral muito, e, praticamente
sempre, tiveram 1 voto cada uma das respostas. Ao confrontar as respostas dos 3
participantes que responderam: às vezes, em geral muito, e, praticamente sempre, desta
questão com a frase numero 1, é possível verificar que apenas um participante confirmou a
resposta dada na primeira questão, os outros dois integrantes da amostra negaram.
Acredita-se na hipótese de que na questão 1 ela está exposta de forma mais explicita:
“Penso que durante a relação sexual o rim pode sair do lugar e eu posso vir a ter
problemas”, a questão 7 ela aparece de forma mais velada, com o intuito de analisar as
ideias irracionais acerca do enxerto.

Sobre a frase 9: “Tenho problemas em sentir prazer nas relações sexuais devido
ao fato do rim que recebi não ser do sexo oposto ao que é o meu”, 9 dos participantes
responderam “não ou nunca” e apenas 1 afirmou que às vezes pensa desta forma.

Quando analisado a questão 12: “Tenho problemas nas relações sexuais, pois,
acho (ou sei) que o rim que recebi é igual ao do meu sexo”, 100% dos participantes
responderam que nunca pensaram desta forma. Esta resposta confirma as respostas dadas
na questão 4 e desmistifica a questão 6.

Na questão 13: “Procuro não me mexer muito durante a relação sexual para
assim evitar que o rim saia do lugar”, 7 responderam que nunca tiveram este
pensamento, 2 disseram que pensavam desta forma praticamente sempre e 1 falaram
que acreditavam em geral ou muito nesta afirmação. Esta questão parece apontar para a
validade da questão 7 que buscava analisar se o participante correlacionava o tempo antes
do ato sexual (as “preliminares”) com o medo de que o rim saísse do lugar, corrobora com o
dado que apareceu em Chorates (2010) o qual também investigou o medo que os pacientes
transplantados tinham de que o rim saísse do lugar durante uma relação sexual.

Já as ideias irracionais acerca da imagem corporal eram composta por 3


afirmações (questão: 2, 10 e 14), neste grupo de afirmações se desejava verificar qual a
57

imagem corporal que o participante tinha de si mesmo, ou seja, se devido as marcas e


cicatrizes se o participante se achava bonito (a) ou feio (a). Uma vez que os receptores de
transplantes podem apresentar alterações na imagem corporal devido à doença e seus
efeitos secundários, tais como o ganho ou perda de peso, queda de cabelo, cicatrizes.
Quando a mudança é repentina, pode gerar sentimentos de desconforto, vergonha,
constrangimento, inferioridade e até mesmo raiva. E, no seu relato individual é frequente a
queixa de baixa autoestima em relação ao seu corpo e a sua estima e competência pessoal.

Ao ser analisada a questão 2, foi possível perceber que apenas 5 integrantes da


amostra discordam da afirmação: “Sinto-me feio (a) para o meu parceiro (a) sexual
devido às marcas da cirurgia”, 2 responderam que algumas vezes já pensaram desta
forma, também 2 disseram que concordam muito com esta frase e 1 pessoas respondeu
que concorda inteiramente com esta afirmação. Ou seja, 5 participantes da amostra N=10,
sentem problemas quanto a aparência física devido as marcas da cirurgia, fistula, cateter.

A imagem corporal que se tem reflete sobre as percepções, aos pensamentos e


aos sentimentos sobre a própria pessoa, sua autoestima, o autoconceito que possui sobre
si, além de as imagens corporais, como relata Barros (2005) é determinado socialmente, na
interação com as outras pessoas e grupos sociais. O fato de o DRC ter essas marcar e dele
ter vergonha delas, prejudica a sua socialização com os demais. Se o doente se vê como
uma “pessoa feia” para os padrões da sociedade, isso também irá influenciar o modo como
ele se relaciona com a sociedade e com as pessoas a sua volta. Por isso, os receptores de
transplantes devem sempre ser incentivados a falar sobre as alterações em sua imagem
pessoal e como está sendo para ele enfrentar esta mudança, seja ela boa ou ruim.

Conforme Skinner (1998, p.326) afirma o comportamento social “surge por que um
organismo é importante para o outro como parte de seu ambiente.”, ou seja, o ser humano
está interligado em ações e interações com o meio e o reforço social é a melhor forma de se
moldar os comportamentos de uma pessoa, ou seja, incentivar o doente renal a falar sobre
si, sobre seus sentimentos é algo que traz benefícios a sua recuperação, Skinner (1998 p.
327) afirma: “No campo do comportamento social dá-se importância especial ao reforço
como atenção, aprovação, afeição e submissão. Esses importantes reforçadores
generalizados são sociais por que o processo de generalização geralmente requer a
mediação de outro organismo”.
58

Guilhardi (2002) também afirma que quando a pessoa aprende a gostar de si como
ela é, ela passa a ter autoestima e muda o autoconceito, uma vez que autoestima é o
produto de contingências de reforçamento positivo de origem social no meio ambiente ao
qual se está ligado. Ao passar a gostar mais de si, o doente renal crônico passa a
desenvolver práticas reforçadoras que ajudam a melhorar a sua qualidade de vida e a
adesão ao tratamento.

(...) O reconhecimento do outro não desenvolve, como se poderia imaginar,


dependência na pessoa que foi elogiada. Pelo contrário, sentindo-se amada pelo
outro, ela aprenderá a amar a si mesma, e, a partir deste processo de vivência
comportamental, vai se diferenciando das outras pessoas e se tornando
independente: ela se ama, aprende que é bom ser amada pelo outro, mas não
precisa ser amada por ninguém em particular (pois se precisasse, então, existiria a
dependência). A pessoa com boa autoestima aprende a exercitar o auto-
reconhecimento: discrimina que é capaz de emitir comportamentos e que é capaz de
produzir consequências reforçadoras para ela. (Guilhardi, 2002, p.8)

Na questão 10: “Tenho certeza de que meu corpo é feio devido às marcas e
cicatrizes”, 6 participantes responderam que não concordam com esta afirmação e que
nunca pensaram desta forma, 2 revelaram que pensam um pouco desta forma e outros 2
concordam inteiramente com ela. Com esta pergunta buscava confirmar a questão 2, porém
houve a diferença de resposta de 1 participante. Com isso é possível levantar a hipótese de
que a pessoa sente vergonha de suas marcas e cicatrizes no âmbito social e, isto, faz parte
de suas queixas frequentes em ambulatório, principalmente entre os mais jovens, e quando
se avaliou a questão sexual há a confirmação da questão anterior.

A questão 14: “Não me acho bonito (a) devido as cicatrizes das cirurgias
(transplante, fistula, cateter)”, obteve-se 6 pessoas doentes renais dizendo que não
concordam com a afirmação, 2 pensam um pouco desta forma, 1 pensa em geral ou muito
assim e também 1 pensa desta forma praticamente sempre e concordam inteiramente com
a afirmação. Com isso, confirmam-se as hipóteses levantadas na questão 10 de que os
participantes no meio social sentem menos vergonha de seus corpos do que quando estão
buscando alguma intimidade com seus parceiros. Barros (2005) levanta 7 pontos que
interferem na autoimagem das pessoas:

(...) 1. Imagem corporal refere-se às percepções, aos pensamentos e aos


sentimentos sobre o corpo e suas experiências. Ela é uma experiência subjetiva. 2.
Imagens corporais são multifacetadas. Suas mudanças podem ocorrer em muitas
dimensões. 3. As experiências da imagem corporal são permeadas por sentimentos
sobre nós mesmos. O modo como percebemos e vivenciamos nossos corpos relata
como percebemos a nós mesmos. 4. Imagens corporais são determinadas
59

socialmente. Essas influências sociais prolongam-se por toda a vida. 5. Imagens


corporais não são fixas ou estáticas. Aspectos de nossa experiência corporal são
constantemente modificados. 6. As imagens corporais influenciam o processamento
de informações, sugestionando-nos a ver o que esperamos ver. A maneira como
sentimos e pensamos o nosso corpo influencia o modo como percebemos o mundo.
7. As imagens corporais influenciam o comportamento, particularmente as relações
interpessoais. (Barros, 2005, p.552)

Quando analisado as ideias irracionais sobre a vida sexual pós transplantes,


composto por 5 afirmações (questões 3, 5, 8, 11 e 15), desejava-se analisar quais eram as
crenças e pensamentos errôneos que a amostra tinha sobre a vida sexual após o
transplante, para serem corrigidas logo após que cada participante respondesse a questão.

Na questão 3: “Penso que minha vida sexual não vai mais voltar ao normal”, 4
participantes responderam que às vezes pensa desta forma, também 4 disseram que em
geral ou muito pensam assim e 2 responderam que concordam inteiramente com a frase.
Sendo que estes dois participantes também falam que “em geral” e “praticamente sempre”
possuem dificuldades em sentir orgasmos. Com isso, praticamente todos os participantes
da amostra acreditam em maior ou menor grau nesta questão. Apesar de eles
reconhecerem que a qualidade de vida melhorou, ainda permanece a crença de que a vida
não vai mais voltar ao normal, seja pelo uso de medicamentos ou das dificuldades sexuais
já mencionadas.

A questão: 5 “Tenho vontade de fazer sexo com o meu parceiro”, 2 participantes


responderam que não possuem vontade de fazer sexo, 2 sente pouca vontade de ter
relações sexuais com o parceiro,1 falou que às vezes sentem vontade, 2 responderam em
geral ou muito e apenas 3 pessoas da amostra concordaram inteiramente com esta
resposta, ou seja, metade das pessoas da amostra possui alguma disfunção - em maior ou
menor grau – quanto ao desejo sexual que sentem pelo parceiro. Sendo que as três
pessoas que afirmaram concordar inteiramente com a resposta, relataram que sentem a
vontade de fazer sexo, apesar das dificuldades que possuem, como por exemplo:
dificuldade em manter o pênis ereto, ejaculação precoce, dor no testículo. Estes
participantes afirmam que possuem o desejo, mas frente a estas dificuldades, não
conseguem ter um desempenho sexual satisfatório. De acordo com Basson (2011) a
disfunção do desejo ou interesse sexual é:

(...) Ausência ou diminuição de sensações de interesse ou desejo sexual, ausência


de pensamentos ou fantasias sexuais e falta de desejo responsivo. As motivações
(aqui definidas como razões/incentivos) para tentar se excitar sexualmente são
60

poucas ou inexistentes. A falta de interesse é considerada como estando além da


diminuição normativa do ciclo de vida e da duração do relacionamento. (Basson,
2011, p. 26) (...)

Na questão 8: “Faço sexo por obrigação com o meu parceiro”, 4 pessoas da


amostra responderam que não fazem sexo por obrigação, 3 responderam que fazem um
pouco, 1 participante relatou que faz às vezes e 2 responderam que fazem sexo por
obrigação praticamente sempre, sendo que os participantes que responderam desta forma,
são mulheres, com convicções religiosas muito fortes. Possuem uma característica em
comum que é o casamento longo (34 anos e 42 anos), ambas casaram ainda adolescentes
(15 anos e 18 anos), e, também, casaram na década de 70, onde as convicções sobre
casamento, filhos, eram muito fortes e determinavam quais mulheres eram as mulheres
ditas “direitas”, conforme Mestre (2004, p.35) em que “moças de família” eram ensinadas a
achar sexo pecado e errado fora do casamento e dentro deste a função deveria ser para
procriação. As DRC são orientadas a não engravidarem, portanto esta função do sexo fica
impedida, acrescendo que elas já estão em idade acima do recomendado para gravidez.
Parece natural que tenham a ideia de que não ‘precisam’ mais fazer sexo e menos ainda
terem prazer nele.

A questão 11 “Sinto prazer nas relações sexuais, porém nunca senti um


orgasmo”, 3 participantes da amostra responderam que ‘nunca’ discordando da frase, pois
reconhecem que já sentiram um orgasmo, 2 responderam ‘um pouco’, pois achavam que já
sentiram alguma vez, 2 responderam que às vezes sentem o orgasmo, 2 em geral ou muito,
indicando que possuem problemas para sentir o orgasmo durante a relação, sendo que,
ambas são mulheres, casadas, com 49 anos e 60 anos de idade, ambas com filhos, porém
uma sem vida sexual ativa já há 4 anos e a outra com vida sexual ativa. Apenas 1
participante respondeu ‘praticamente sempre’. Este participante é do sexo masculino, tem
30 anos e está casado há 3 anos. Relatou que sente dor nos testículos e que não consegue
ter ereção com sua esposa, porém tem uma ereção e ejaculação normal ao se masturbar.
Sua primeira relação sexual foi aos 21 anos. V. é muito tímido e não conversa com sua
esposa sobre sexo. Ele possuía muitas dúvidas sobre sua sexualidade e acreditava que sua
vida sexual não iria voltar ao normal. Após o transplante levou 1 ano para voltar a ter
relações sexuais, conta que também demorou para aprender a se masturbar, por ter
vergonha de tocar o próprio corpo. Tendo em vista todo o seu historio, é plenamente
compreensível que ele assuma que nunca teve um orgasmo, pois a educação quanto a sua
sexualidade foi muito falha e lhe impedia de desfrutar plenamente dela. Além disto, a sua
resposta corrobora a necessidade de ser trabalhado este tema com os pacientes de
61

ambulatórios de doenças crônicas como parte de plano terapêutico de obtenção e ou


recuperação de qualidade de vida e reinserção social.

Finalizando este grupo de afirmações, na questão 15: “Penso que minha vida
sexual não vai ser boa depois do transplante”, 1 participante respondeu não ou nunca,
dizendo que acredita que sua vida sexual vai voltar ao normal, que as dificuldade que possui
podem ser trabalhadas e superadas, 4 responderam que pensam um pouco desta forma, 1
pensa às vezes desta forma, 1 em geral ou muito e 3 participantes concordam inteiramente
com esta afirmação, sendo que dois participantes são do sexo masculino e acreditam que
os remédios podem afetar a vida sexual, atribuindo a isso a insatisfação futura quanto ao
sexo. A terceira pessoa que acredita 100% nesta informação é uma mulher com problemas
conjugais, que não deseja mais ter contato físico com seu marido, porém ela diz que sua
vida sem relações sexuais está boa. O conjunto de afirmações tende para a crença
irracional de que o TX facilitou sua vida em geral, mas a sexualidade foi afetada para
sempre. Mais um dado apontando para a importância do psicólogo na equipe
interdisciplinar, trabalhando tais ideias, completamente errôneas e os sentimentos colaterais
redundantes de tantas contingências aversivas.

Após a correção de todos os Questionários Sobre a Sexualidade no Período Pós


Transplante, foi possível fazer um levantamento dos resultados encontrados na amostra. A
figura 23 aponta que após a análise das questões, possibilitou inferir que 6 participantes da
amostra foram classificados como ’mais habilidosos sexualmente’, 3 como sendo ‘mais ou
menos habilidoso sexualmente’ e 1 como sendo “menos habilidoso sexualmente. Porém
todos reconheciam que tinham dúvidas, em maior ou menor grau, sobre sexualidade, e que
precisavam ser trabalhadas e desenvolvidas, além de dificuldades sexuais, crenças
irracionais acerca do transplante renal.
62

Fonte: Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós-Transplante, aplicado entre os dias 09 de agosto
de 2013 à 19 de agosto de 2013.

Figura 23: Resultados obtidos através do Questionário Sobre Sexualidade no


Período Pós-Transplante.

Também foi analisado sobre o constrangimento que poderia ser causado aos
participantes (questionamento efetuado pelo parecerista do comitê de ética e que foi motivo
de reanálise do projeto inicial). A pesquisadora e sua orientadora entendiam que não iria
ocorrer este dado, em função da experiência de anos no ambulatório e serem os próprios
pacientes e/ou seus companheiros que procuravam atendimento com tal queixa. Assim,
para atender a preocupação ética se acrescentou uma questão. Quando a pessoa que
estava sendo entrevistada acabava de responder as questões, lhe era pedido para que ela
falasse em uma escala de 0 a 10 – sendo zero referente a nada, 5 um pouco, e, 10 muito –
o quanto ela se sentiu constrangida em responder a este estudo. Com isso, 4
participantes da amostra responderam “nada constrangido”, atribuindo a nota zero, os outros
4 atribuíram notas equivalentes a “muito pouco” e “bem pouco”, e 2 integrantes da amostra
atribuíram apenas “um pouco”. A Figura 24 exprime a nota dada de cada participante na
escala de 0 à 10.
63

Fonte: Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós-Transplante, aplicado entre os dias 09 de agosto
de 2013 à 19 de agosto de 2013.

Figura 24: Notas dadas ao quanto os participantes se sentiram constrangidos em


responder ao estudo.

Em acordo com as respostas foi ainda questionado, visando ampliar a informação,


sobre o que o constrangia. As respostas foram em acordo com o previsto no projeto inicial e
nos dados empíricos até aqui obtidos. Ou seja, o que constrangia era sofrer calado de um
problema e poder contar com ajuda era um alivio, portanto conforme se pensava participar e
responder ao estudo não causou constrangimento.
64

Estudo De Caso

Participante 1
C. tem 47 anos, é do sexo masculino, casado há 25 anos, possui uma filha na faixa
etária do adulto jovem. Está no segundo transplante renal. C. teve dois doadores da própria
família, sendo que o primeiro ocorreu em 2005, cujo doador foi o seu irmão. O primeiro rim
não durou muito tempo e C. teve que voltar a fazer diálise peritoneal. O segundo transplante
ocorreu em abril de 2013, cujo doador foi a sua irmã.
C. era pedreiro, descobriu a doença renal há 10 anos, quando recebeu o diagnóstico
de nefrite crônica, desde então realiza acompanhamento médico para controlar a doença. O
primeiro tratamento que fez para tentar controlar a doença renal crônica foi diálise
peritoneal, e depois os dois transplantes, não possuía nenhum tipo de doença pré-existente,
e, não fazia acompanhamento médico contínuo. Possuía uma alimentação inadequada,
fazia uso de álcool e era fumante. C. não via esses hábitos como algo que poderia ter
causado a doença renal. Culpa-se por esta não ter sido descoberta mais cedo, quando
ainda há outras possibilidades de tratamento, como a mudança alimentar, mudança nos
hábitos de vida e etc.
C. considera que hoje a sua saúde é boa, atribuiu uma nota 7 a sua saúde –
poderia dar uma nota de 0 a 10 – fala que se cuida muito mais hoje, pois parou de fumar,
ingerir álcool e procura ter uma boa qualidade de vida. C. relata que quando pensa em todo
o seu histórico acerca da doença renal crônica sente muita tristeza e vergonha. A tristeza
C. atribui ao fato de não poder trabalhar mais com o que gosta, e vergonha de seu
corpo, marcas, cicatrizes, além de também sentir vergonha por não ter procurado o
médico com uma antecedência maior, não ter dado importância aos primeiros sinais e
sintomas da doença, sendo que entre a tristeza e a vergonha, o sentimento que ele tem
como maior é a tristeza, atribuindo a ela uma nota 5, numa escala de 0 a 10. Porém, depois
do transplante C. também diz ser abençoado, pois teve a oportunidade de mudar de vida
e melhorar como pessoa, também reconhece que nem todas as pessoas conseguem fazer o
transplante ou ter um doador disponível na família, C. encontrou dois doadores na família e
se sente abençoado por isso.
Quando perguntado a C. se ele possuía alguma limitação física em decorrência da
doença renal crônica, C. falou que se sente muito “fraco por causa dos remédios” (SIC) e
possui um tremor nos membros que C. também atribui aos medicamentos. O participante 1
relata que este tremor significativo lhe impede de fazer algumas coisa que gosta, e por ter a
profissão de pedreiro, se questiona se conseguirá voltar a ter a coordenação motora fina
como tinha antes da descoberta da DRC (doença renal crônica).
65

Sobre a sexualidade C. diz que neste momento sua vida sexual é muito pouca,
pois ainda está com sonda e relata que o tremor que sente lhe deixa desconfortável diante
de sua esposa. C. relata que possui dificuldades em manter o pênis ereto, observa que
durante a ereção o pênis “sobe muito devagar” (SIC). C. fala que já comentou com o médico
sua percepção sobre sua sexualidade, porém C. atribui este evento aos remédios que está
tomando. O participante não está preocupando neste momento com estes sintomas, pois
fala que sua esposa é compreensiva e os médicos lhe “disseram que sua situação deve
normalizar com o tempo” (SIC).
C. conta que casou virgem, sua primeira relação sexual foi com a esposa. Relata
que seus pais nunca conversaram com ele sobre sexualidade, fala que “sabia algumas
coisas” (SIC) por ouvir primos e amigos comentando, mas não teve preparo nenhum para o
inicio de sua vida sexual. Conta também que ninguém lhe ensinou nada sobre
masturbação, começou a se masturbar sem saber direito o que estava fazendo, mas não
vê o seu histórico de vida como um problema que se reflita na vida sexual dele com sua
esposa. C. relata que ela também casou virgem e que levaram um tempo para consumar o
casamento, mas conta que quando aconteceu foi muito bom para o casal.
Ao responder o Questionário Sobre Sexualidade no Período Pós-Transplante falou
que se sente feio pelas marcas do transplante. C. também acredita que a sua vida sexual
não vai voltar ao normal e acha que depois do transplante sua vida sexual não será boa,
revelou que algumas vezes faz sexo por obrigação com sua esposa. Neste mesmo
questionário, C. atingiu um total de 53 pontos, sendo considerado “Mais ou Menos
Habilidoso Sexualmente”, tendo algumas áreas a ser desenvolvidas.
Atualmente C. está a dois meses sendo acompanhado pelos alunos de psicologia da
FEPAR, sendo que, a professora e supervisora do estágio no ambulatório de transplante
renal do HUEC, Dra. Marilza Mestre, relatou que C. apresenta melhoras consideráveis em
seu comportamento.

Participante 2

S. tem 60 anos, é do sexo feminino, casada há 42 anos, teve 8 filhos, porém 5


morreram logo após o nascimento, tendo apenas 3 filhos vivos. S. era agricultora, aprendeu
a ler e escrever com a ajuda de amigos, porém nunca frequentou uma escola. Relata que
seu pai não acreditava que seria importante estudar. Seu pai também era agricultor e
precisava de ajuda nos trabalhos da lavoura, por isso ensinou os filhos a trabalhar com a
terra.
66

S. conta que casou muito cedo, aos 18 anos. Relata que sempre teve muitas
infecções urinárias e a partir dos 40 anos recebeu o diagnóstico de que era hipertensa e
passou a fazer exames e consultas com frequência. Após os 40 anos teve pneumonia e
uma ameaça de infarto, e há dois anos descobriu a doença renal, sendo que na
descoberta da DRC, já iniciou o tratamento de hemodiálise. Tendo realizado o transplante
renal há cerca de um mês – na época da entrevista – de um doador falecido.
Sobre os hábitos de vida de S. relata que possuía uma alimentação inadequada.
Rica em gorduras e sal, mesmo sendo hipertensa, assume que ingeria estes dois
alimentos em excesso. S. acredita que o fato de conviver com um fumante pode também
ter contribuído para prejudicar a sua saúde.
S. fala que cuida muito de sua saúde, porém se descreveu como sendo: “Sou um
pouco nervosa. Sei lá... Guardo muita mágoa dos outros Isso não faz bem, né?.” (SIC).
Também fala que quando pensa na doença renal crônica sente muita raiva, tristeza,
desespero, sem poder – pois não pode fazer mais muitas coisas das quais gostava e
sentiu que a vida mudou e ela não poderia fazer nada. Mas S. diz que se sente abençoada
por ter conseguido um transplante com doador falecido, pois não havia doador compatível
com ela em sua família.
S. fala que dentre todos os sentimentos que sentiu o maior deles foi o desespero,
pois se sentia desta forma quando pensava que não tinha um doador na família. S. também
conta que sentia desespero ao pensar que talvez pudesse depender da hemodiálise por
tempo indeterminado e ela não queira isso.
Quando perguntado sobre sua vida sexual S. contou que casou virgem. Fala que
seu marido não era. Conta que não sabia muito sobre sexo, pois sua mãe nunca
conversou com ela – mesmo após o casamento – sobre o assunto. Relata que quando teve
a primeira menstruação já sabia o que era por que tinha irmã e primas mais velhas que ela e
por isso, sabia o que era. S. apenas informou o ocorrido a sua mãe, que lhe ensinou sobre
como lavar “os paninhos íntimos” (não utilizava absorvente) e que ninguém deveria vê-la
fazendo isso. S. conta que após o casamento seu marido foi lhe ensinando sobre sua
sexualidade e antes de descobrir a doença renal crônica, conta que sua vida sexual era
muito boa, porém quando começou a fazer hemodiálise parou de ter relações sexuais,
fala que não sentiu mais vontade ter alguma intimidade com o seu marido, confirmando
que fazia sexo por obrigação com ele: “Sabe como é... Homem tem as suas
necessidades, e eu sou esposa tenho que cumprir o meu dever.” (SIC). S. acreditava que
sua vida sexual não voltaria mais ao normal depois do transplante. Também disse que tinha
medo que o rim saísse do lugar caso a relação sexual não fosse rápida. S. também conta
67

que ela e seu parceiro não tinham o costume de fazer “preliminares”, e que ela achava que
sua vida sexual antes da DRC era muito boa, porém ela fala que nunca sentiu um
orgasmo.
S. fala que se sente feia devido as marcas da cirurgia, além da fístula que procura
esconder.
S. atingiu 52 pontos no Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós-
Transplante, indicando que ela seria mais ou menos habilidosa sexualmente, tendo algumas
áreas para serem desenvolvidas, porém em outras ela demonstrou ter um bom domínio
como, por exemplo: sabia que a opção sexual do doador não iria interferir na sua vida. S.
relatou que não se sentiu constrangida em responder a pesquisa, pois acredita que
devemos sempre conversar sobre o tema da pesquisa (sexo) para esclarecer as dúvidas
que possam existir nas pessoas.

Participante 3
J. tem 53 anos, é divorciado, tem quatro filhos e há dois meses está namorando.
Descobriu a doença renal crônica aos 45 anos. Relata que lembra perfeitamente o dia em
que se sentiu mal e foi para o hospital. Relata que estava bem, reunido com a família num
churrasco, quando uma de suas filhas lhe chamou para almoçar e ele disse que já estava
indo, apenas iria terminar de fumar um cigarro. Quando terminou, ao se levantar, sentiu as
‘pernas moles’, caiu no chão e só voltou a ter a consciência plena do que estava
acontecendo a sua volta quando já estava no hospital. J. disse que se sentia inchado, mas
como na época trabalhava, não foi ao médico. Sabia também que era hipertenso e não
fazia tratamento algum. Era sedentário, fazia uso de álcool e tabaco.

J. fez por 5 anos hemodiálise e o transplante renal há 4 anos, relata que parou de
fumar e ingerir álcool, conta que após o transplante os cuidados com a saúde
melhoraram muito. Passou a cuidar do que come, a tomar os remédios de forma correta e
mantém a pressão arterial sempre controlada.

J. fala que no começo da doença renal sentiu muita raiva por não ter se cuidado da
forma adequada, tristeza por ter que parar a sua vida por causa da doença renal, se sentiu
sem poder, pois teve que parar de trabalhar, e dependeu da ajuda de outras pessoas por
algum tempo. J. fala que depender de outras pessoas também lhe deixou com vergonha,
pois sempre cuidou-se sozinho. J. sentiu vergonha de não ter procurado o médico antes e
68

de não ter se importado com os sinais e sintomas da doença. Dentre todos esses
sentimentos,J. acredita que o maior deles foi se sentir sem poder, pois queria levar a sua
vida de forma normal, mas não conseguia devido a doença renal crônica, pois antes do
transplante fazia hemodiálise três vezes por semana e quando voltava se sentia muito mal.

Sobre sua vida sexual, conta que teve a primeira relação sexual antes dos 15 anos
com uma prima. Seu pai nunca conversou com ele sobre sexo, nem o orientou sobre
masturbação, uso de camisinha, doenças sexualmente transmissíveis e etc. J. relata que
apenas começou a ter relações e foi descobrindo as informações que precisava com
amigos, primos e outras pessoas.

J. fala que após o transplante ficou com dificuldades de manter o pênis ereto e
está demorando muito para ejacular, isso tem lhe trazido alguns problemas, pois sua
parceira cansa e algumas vezes eles terminam a relação sem ele ter ejaculado. Contou que
sente muita vontade de ter relações sexuais com a sua namorada, mas diz que sente o
prazer durante a relação sexual de forma muito fraca, e nas últimas relações sexuais
sente que não conseguiu satisfazer a sua parceira. Além disso, J. relatou que está com
alguns problemas familiares e sente que quando está na cama com sua namorada, também
está pensando nos problemas e no medo de demorar muito para ejacular e ela se cansar.

No questionário sobre a sexualidade no período pós-transplante, J. atingiu 72 pontos,


indicando ser mais habilidoso sexualmente. Tendo poucas áreas para serem desenvolvidas,
como por exemplo: J. respondeu que nunca sentiu um orgasmo e sente pouco prazer nas
relações sexuais. J. também não contou a sua parceira sobre as suas dificuldades
sexuais devido a grande diferença de idade entre eles. Disse que não conversa com ela
sobre sexo, pois sente vergonha de falar isso com ela. Porém, J. quando avaliado as ideias
irracionais acerca do enxerto, J. mostrou que possui bons conhecimentos sobre seu corpo,
demonstrando ótimo conhecimento sobre o transplante e o rim, tinha toda convicção de que
o rim não sai do lugar durante uma relação sexual, sabia que a vida sexual do doador não
interfere na vida dele e etc. Quanto as ideias irracionais acerca da imagem corporal J.
também atingiu a pontuação máxima, pois está numa fase em que sente-se bonito, pois está
namorando há dois meses uma mulher mais jovem. J. Possui algumas ideias irracionais
sobre sua vida sexual, pois tem alguns problemas nas relações sexuais, mas estas são
derivadas de outros fatores que não estão ligados a imagem pessoal ou ao enxerto.
69

Participante 4

JM. homem, tem 62 anos, é viúvo desde 2004, possui 4 filhos, sendo 1 adotado.
Realizou o transplante renal há 17 anos e fez por 3 anos diálise peritoneal, ou seja, é doente
renal crônico há 21 anos. Não soube falar qual foi a doença que acometeu o seu rim,
apenas relatou que ele foi atrofiando e parou. JM. recebeu o rim de um doador falecido.
JM. conta que hoje está aposentado, mas que já trabalhou na construção de
estradas, pontes, em rodovias do estado. Contou que muitas vezes trabalhava embaixo de
chuva, dentro de rios, para fazer as pontes, e atribui a isso, o fato de ter muitas infecções
urinárias. É hipertenso, e teve também hérnia no testículo e orquite pós-caxumba. JM.
fazia acompanhamento médico contínuo para todas essas doenças. Relata que quando
começou a sentir os primeiros sinais e sintomas da doença (inchaço, hipertensão que não
diminuía nem com o uso de medicamentos), procurou um médico e perguntou se ele não
poderia estar com algum problema renal, e segundo o seu relato o próprio médico disse a
ele que não poderia ser problema renal porque “doença do rim só ataca velho” (SIC), e na
época JM. estava com 41 anos. Devido a insistência de JM. o médico pediu uma
ultrassonografia, que mostrou que seu rim já estava atrofiado. JM. conta que o médico se
surpreendeu com o resultado do exame dele e imediatamente ele começou a fazer a diálise
peritoneal.
Embora JM. fosse ao médico com certa frequência, ele acredita que não cuidava
adequadamente de seu corpo, pois mesmo tendo esses cuidados, acabou tendo a falência
renal. JM. também assume que possuía uma alimentação muito inadequada e bebia
água imprópria para consumo, pois lembra que nos locais onde trabalhava não havia uma
água de boa qualidade para beber, mas JM. pensava que deveria beber muita água para
tentar evitar as infecções urinárias de repetição que tinha.
Hoje diz que se sente culpado por não ter cuidado melhor de sua saúde. Conta
que sentiu muita tristeza ao descobrir a DRC, sentiu desespero ao ficar sozinho durante o
período de internação do transplante. Porém sentiu-se abençoado ao conseguir um doador
falecido, pois conta que seus irmãos não queriam ser doador, e também conta que não
queriam que ele fizesse o transplante: “Falavam pra mim, JM. se é louco! Sabe lá de
quem era este rim. Você vai morrer. Essa coisa não dá certo.” (SIC). JM. conta que sua
esposa foi fundamental para ele, pois o apoiou e o encorajou muito durante este período de
incertezas.
JM. conta que casou aos 24 anos com sua falecida esposa. Mas revela que sempre
gostou de namorar. Contou que aos 16 anos engravidou uma moça da sua região, porém
não casou com ela. Só descobriu este fato muito tempo depois do ocorrido. JM. relata que
70

seus pais nunca conversaram com ele sobre sexo, mas que uma prima de 15 anos lhe
ensinou algumas coisas quando ele era criança. JM. fala que sobre sexo não se conversava
em sua casa, era um assunto proibido.
Atualmente, JM. descreveu a sua sexualidade com sendo igual a música de Velho
Milongueiro, “Tô ficando velho” (1983). E citou a seguinte parte da música:

Tô ficando velho, tô ficando fraco.


Já não sou o mesmo, estou virado em caco.
Tô mais encolhido do que gato em saco.
Fui madeira boa que virou cavaco.
Quando eu era moço novo para tudo era capaz, fazia certas proezas que hoje pouca
gente faz.
A velhice foi chegando fui ficando para trás.
Certa coisa que eu fazia, nem com simpatia hoje não faço mais! (SIC)
Fonte: O Velho Milongueiro, álbum: Tanto a Pé Como a Cavalo, 1983, faixa 2, lado B)

JM. contou que desde o falecimento de sua esposa, não teve mais vontade de ter
relações sexuais. Revela que tinha medo de ter relações sexuais com a esposa e o rim
sair do lugar. Conta que procurava se mexer pouco com medo de que o rim saísse do
lugar, ficava imaginando ele solto dentro dele, e como não queria que algo acontecesse com
ele, evitava se mexer. Foi trabalhado com JM. esta questão, de que o rim não sai do lugar
durante as relações sexuais, que então comentou: “Puxa vida! Agora que a minha esposa
já morreu eu descubro isso!” (SIC).
JM. fala que sempre sentiu prazer nas relações sexuais, porem só atingiu o orgasmo
algumas vezes. J. Também acredita que a sua vida sexual não vai mais ser boa, fala que
está como a música que citou e não tem vontade nem de se masturbar. Fala que agora tem
outras prioridades na vida e a sua sexualidade está em segundo plano. Mesmo tendo
algumas ideias errôneas sobre a sexualidade e o enxerto, JM. atingiu 62 pontos no
Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós Transplante, indicando que ele é mais
habilidoso sexualmente, porém há algumas áreas a serem desenvolvidas.

Participante 5

A. tem 43 anos, é do sexo masculino, casado há 22 anos, possui três filhas e um


neto, trabalhava como pedreiro. Não sabia o nome da doença que o levou a ter perda renal.
Conta que levou menos de 6 meses para descobrir a doença renal crônica. Logo em
seguida da descoberta da doença já iniciou o tratamento com a hemodiálise, este o fez por 2
71

anos, e há 56 dias – na época da entrevista – havia realizado transplante renal, tendo


recebido o rim de um doador falecido.
A. conta que era hipertenso, e tomava regularmente os remédios para o controle da
pressão, mas não ia com frequência ao médico. Assume que fazia o uso de álcool, possuía
uma alimentação inadequada, foi fumante por 30 anos e agora parou de fumar. A. fala que
sempre foi sedentário. Apesar disso tudo, A. acredita que cuidava bem de sua saúde, devido
ao fato de manter a pressão sempre regulada.
A. conta que quando descobriu a doença renal crônica e que precisaria fazer um
transplante, o primeiro sentimento que teve foi o da negação. A. pensava que não estava
doente, pois se sentia bem. Quando começou a entender melhor a DRC, e com o avanço da
hemodiálise, A. passou a se sentir sem poder diante da doença e relata que sentiu muito o
abandono dos irmãos por medo de que A. pedisse para que algum deles doasse o rim para
ele. A. conta que sempre procurou ajudar aos seus irmãos e quando ele mais precisou
deles, seus irmãos se afastaram por isso A. também sente muita mágoa deles, mas sabe
que com o tempo esta mágoa vai passar.
A. fala que quando soube que havia um doador falecido para ele, ficou muito alegre e
se sentiu abençoado, pois não tinha muitas esperanças de conseguir um doador:

“Se dentro da família já estava difícil, imagina fora!” (SIC).

Após o transplante A. passou a cuidar mais de sua saúde, controlar melhor a sua
alimentação:
“Vivo melhor agora do que antes!” (SIC).

Sobre sua vida sexual conta que seus pais não conversavam sobre sexo em casa,
mas que ele tinha um tio que fazia muitas brincadeiras sobre o assunto. A. conta que ele
mesmo foi aprender sozinho, ouvindo a amigos, pois em casa não se falava sobre o
assunto. Quando casou aos 21 anos de idade sua esposa era virgem, ele não. Mas sabia
que teria que ter paciência com ela:

“pois para a mulher é mais difícil!” (SIC).

A. relata que antes da descoberta da DRC a sua vida sexual com sua esposa era
muito boa, agora atribui uma nota 4 – numa escala de 0 a 10 – a sua sexualidade. A. fala
que esta ejaculando muito rápido, e, isso o está deixando preocupado. Pois, durante o
72

período de hemodiálise, A. fala que não sentia vontade de fazer sexo, se sentia
cansado e achava a fistula muito feia, mas depois se acostumou com ela. A. achava que
logo após o transplante já ia voltar a ter uma sexual normal. Foi então lhe explicado que no
mês do transplante o organismo ainda está se adaptando ao enxerto, que no começo é
normal se sentir inchado, sensação do abdômen estar mais apertado ou sem espaço, pois
os órgãos estão se adaptando ao novo rim, sendo que neste momento da adaptação o
funcionamento dos órgãos sexuais pode demorar um pouco para voltar a sua totalidade,
mas depois de um período de três meses esta situação já deve estar melhor e no prazo de
um ano esta situação já se normalizou, pois o organismo já estará adaptado a medicação,
ao novo rim.
Mas A. foi também encorajado a contar ao médico sobre suas dúvidas, uma vez que
algumas medicações podem também interferir com o funcionamento dos órgãos sexuais.
A. contou que antes e até mesmo depois da doença renal crônica o que mais lhe
excita numa relação sexual são mulheres grandes:
“Mulher muito magra, não tem a onde a gente pega!” (SIC).

Além de gostar também de carícias no pênis – não masturbá-lo, mas sim acariciá-lo.
A. fala que revistas e filmes pornográficos, que mostrem explicitamente as mulheres não lhe
excitam. Mas que a foto de uma mulher “grande” de vestido e salto alto lhe deixa muito
excitado. A. relatou que gosta muito que a sua esposa utilize vestidos.
A. contou que o que lhe tira a excitação é o humor da esposa. Fala que gosta de
dar carinho para a esposa, mas quando ele chega perto dela, a toca, e ela reage de modo
agressivo, fala que:
“perde o tesão” (SIC) na mesma hora.

No Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós-Transplante, A. atingiu 71


pontos, indicando que ele seja mais habilidoso sexualmente, tendo poucas áreas para
serem trabalhadas, como por exemplo: o fato dele acreditar que sua vida sexual não irá
mais voltar ao normal e dele pensar que sua vida sexual não será melhor depois do
transplante. Após a aplicação deste estudo estas questões foram abordadas, para que A.
tivesse uma melhor orientação sobre a sua sexualidade num futuro próximo.

Participante 6
CS. é do sexo masculino, tem 47 anos, casado há 23 anos, possui dois filhos. É
transplantado renal há 16 anos tendo recebido o rim de seu irmão. CS. não sabia ao certo o
73

que o levou a falência renal, apenas sabe que seu rim “secou” (SIC) e atribui isso ao fato de
ser hipertenso.
Descobriu a falência renal em menos de 6 meses, fez apenas 6 meses de
hemodiálise e já realizou o transplante. CS. assume que era relapso nos cuidados com a
hipertensão, não fazia tratamento contínuo, nem se importou com os primeiros sinais e
sintomas da doença renal, lembra também que fazia o uso do álcool.
CS. conta que quando descobriu a DRC passou por várias fases: primeiro se sentiu
culpado por não ter cuidado melhor de sua saúde, depois ficou triste por estar doente, por
fim sentiu-se desesperado e sem poder, pois queria ter uma vida normal, trabalhar e não
podia, pois fazia hemodiálise 3 vezes por semana. CS. também relata que sentiu muita
vergonha de ser doente renal, pois “a doença deixa marcas” (SIC). CS. nesta fala se refere
as marcas da fistula e da cirurgia.
Com o transplante CS. se sente uma pessoa abençoada, pois conseguiu o doador
na própria família e o transplante aconteceu muito rápido. CS. fala que seus irmãos assim
que souberam que ele estava doente já se prontificaram a doar o rim para ele, CS. ficou
muito feliz de sua família se dispor a ajudá-lo, mas após o transplante CS. conta que agora
convive com o sentimento do medo do rim que recebeu do irmão também parar, por isso,
procura manter bons hábitos de vida.
Atualmente. CS. considera que cuida muito mais de sua saúde do que antes da
descoberta da doença renal, porém acha que a sua saúde está razoável, pois durante as
relações sexuais sente que ejacula muito rápido e não consegue satisfazer a sua
parceira.
CS. contou que seu pai faleceu quando ele tinha 5 anos de idade, e sua mãe não
casou novamente, por isso quando ficou adolescente não tinha quem lhe ensinasse
sobre sexo em sua casa. CS. conta que sua mãe nunca conversou com ele sobre sexo e ele
foi descobrindo sobre sexualidade sozinho, e, conversando com os amigos. CS. conta que
teve seu primeiro relacionamento sexual aos 16 anos com uma amiga. Comentou que não
sabia bem como fazer, mas achou muito bom o envolvimento amoroso que os dois tiveram.
CS. Atribui hoje a ejaculação precoce aos medicamentos que toma para não ter a
rejeição ao enxerto, e como a medicação é de uso contínuo, acredita que a sua situação
não irá mudar. CS. revelou que não conversa sobre sexo com a esposa, e nem sobre
suas dúvidas acerca de estar ou não a satisfazendo nas relações sexuais, fala que sente
vergonha de falar sobre este assunto com ela.
Sobre o que lhe excitava antes da descoberta da DRC CS. fala que gostava muito de
decotes em blusas e vestidos curtos. Revela que material pornográfico explicito (revistas,
74

filmes) nunca lhe atraíram. Hoje, acha mais excitante carinhos e carícias bem feitos e nos
“locais certos” (SIC) (pescoço, pênis, nas costas). Sobre o que lhe tira a excitação CS. fala
que o humor de sua esposa lhe tira a excitação, se ela não está bem humorada, recusa que
ele se aproxime, recusa seu toque e isso lhe tira a excitação, porém CS. já sabe pelo modo
como ela se veste quando ela está de bom humor e disponível para o sexo, com isso a
aproximação deles fica mais fácil.
Na aplicação do questionário sobre a sexualidade no período pós-transplante CS.
atingiu 55 pontos, podendo ser classificado como mais ou menos habilidoso sexualmente,
tendo algumas áreas a serem desenvolvidas, como por exemplo: o fato dele acreditar que
sua vida sexual não será boa após o transplante e achar que sua sexual não vai mais voltar
ao normal. CS. fala que sente prazer nas relações sexuais, porém só sentiu orgasmo
algumas vezes. CS. também pensa muito que se mexer muito durante as relações sexuais o
rim poderá sair do lugar.
Após a aplicação do questionário essas crenças foram trabalhadas e CS. foi
encorajado a conversar com a equipe médica sobre a ejaculação precoce.

Participante 7

AJ. é do sexo feminino tem 37 anos, casada há 20 anos, possui três filhos. É transplantada
renal há quatro meses, tendo recebido o rim de um doador falecido. A. acredita que o que
levou a falência renal foram os inúmeros cálculos renais que teve. Descobriu a DRC ha
três anos, tendo realizado a hemodiálise por um ano e quatro meses. Sendo que no começo
de sua doença foram apenas utilizado mudanças de hábitos de vida.
Não possuía nenhum tipo de doença preexistente, mas também não realizava
acompanhamento medico continuo, possuía alimentação inadequada e era sedentária,
fumante – parou com a descoberta DRC – e não se importou com os primeiros sinais e
sintomas da doença.
AJ. relata que quando descobriu a doença renal crônica sentiu-se sem poder,
principalmente pelo fato de não poder trabalhar devido à sessão de hemodiálise três vezes
por semana. Mas, AJ. também se sente abençoada, devido ao fato de ter conseguido o rim
de um doador falecido.
AJ. fala que sua vida sexual melhorou muito depois do transplante, pois perdeu 18
quilos em dois meses, porém há um mês sente dores (do tipo agulhada no canal vaginal).
AJ. conta que apesar de ser da religião evangélica e a sua família, principalmente sua mãe,
não lhe ensinar sobre sexo, ela sempre se interessou pelo assunto e buscava informações
75

com pessoas em que ela confiava (amigas, primas, médicos). AJ. conta que casou virgem
e que demorou a começar a gostar de ter relações sexuais com seu marido, mas hoje conta
que conversa com ele sobre o assunto, onde gosta de ser tocada, e procura ‘sair da
rotina’ com ele. Conta que sempre gostou e ainda gosta de brincadeiras de cunho sexual,
de que o marido lhe mande mensagens de celular eróticas, porém não gosta que ele seja
muito direto, pois isso lhe tira a excitação.
Devido às dores que AJ. sente no canal vaginal, às vezes ela não sente vontade
fazer sexo com seu marido, e também pensou, algumas vezes, que o rim poderia sair do
lugar durante a relação sexual, sente um pouco de medo de sua vida sexual não voltar ao
normal, mas revelou que gosta de variar as posições quando tem relações sexuais com seu
marido.
Na aplicação do questionário sobre a sexualidade no período pôs transplante AJ.
atingiu 67 pontos podendo ser classificada como mais habilidosa sexualmente, tendo
algumas áreas para serem trabalhadas, como por exemplo, o fato de ela não se sentir
segura com o seu corpo devido às cicatrizes da cirurgia, porém o fato dela ter perdido 18
quilos em pouco tempo tem ajudado sua autoestima.
Após a aplicação do questionário as ideias irracionais foram desmistificadas e AJ. foi
encorajada a conversar com a equipe medica sobre a dor que sente no canal vaginal.

Participante 8
V. é do sexo masculino, tem 30 anos de idade, casado há três anos, não possui
filhos. V. fala que possui nefrite crônica e que isso levou a falência renal. Recebeu o rim de
seu pai há seis anos, fez dez meses de hemodiálise.
V. conta que levou dois meses do diagnostico da DRC ate iniciar o tratamento. V.
conta que era hipertenso, mas não buscava tratamento continuo e acompanhamento
médico adequado. V. relata que não se importava com os primeiros sinais e sintomas da
doença. Fazia o uso de álcool e era fumante, parou com ambos quando descobriu a DRC.
V. conta que o primeiro sentimento que teve ao descobrir a DRC foi a tristeza
seguido do desespero: ‘tanta gente ruim, por que eu’ (SIC). Depois conta que se sentiu
sem poder, pois teve que parar de trabalhar. Hoje, V. conta que sente vergonha por não
ter cuidado melhor da sua saúde, mas também se sente muito abençoado por ter
conseguido realizar o transplante renal.
V. conta que não consegue ter ereção com sua esposa, mas quando se masturba
consegue tê-la, porém nota que o pênis sobre devagar. V. fala que sente dores no
testículo, conta também que tem preferência por cuecas apertadas. Foi lhe orientado a
76

utilizar cuecas mais largas que ajudem a deixar os testículos mais soltos, sem pressão, e
auxiliando também na regulação de uma melhor temperatura para os testículos.
V. conta que por ser muito tímido, nunca conversou com ninguém sobre sexo, nem
com parentes ou familiares. Sua primeira relação sexual foi aos 21 anos com uma namorada
em um relacionamento curto. V. fala que também demorou a aprender a se masturbar, disse
que sentia vergonha e medo de se tocar.
V. relata que antes da doença renal gostava de revistas eróticas, porem não de sexo
explicito, também gosta de revistas que mostrem mulheres ‘com bundas grandes’ (SIC) e
calças apertadas, ressaltando a panturrilha. Hoje, após a DRC, gosta também de ver
mulheres com shorts curtos, roupas curtas e apertadas. Conta que quando vê mulheres
desta forma se sente excitado. V. conta que o que lhe tira a excitação são: mulheres gordas,
estrias e celulites.
Na aplicação do questionário sobre a sexualidade no período pós-transplante V.
atingiu 62 pontos podendo ser classificado como mais habilidoso sexualmente, tendo
algumas áreas referentes à sua sexualidade para serem trabalhadas, como por exemplo, o
fato de ele achar que sua vida sexual não será mais normal após o transplante. V. também
contou que sente prazer nas relações sexuais, porem nunca atingiu um orgasmo. V. relata
que já chegou a pensar, algumas vezes, que possui problemas nas relações sexuais devido
ao fato do rim que recebeu não ser do sexo oposto ao dele.
Após a aplicação do questionário foi conversado com V. sobre suas crenças
irracionais, e ele foi encorajado a conversar com a equipe medica sobre a dor que sente
no testículo e também com sua esposa sobre seus medos e dificuldade sexuais, pois V.
não conversa com ela sobre sexo. V. também foi encorajado a buscar meios em que ele e a
esposa se sintam excitados juntos, troquem caricias e fortaleçam a intimidade do casal, pois
V. também possui dificuldade nessa área.

Participante 9

R. é do sexo feminino, tem 49 anos, é casada há 34 anos, possui dois filhos e dois
netos. Realizou o primeiro transplante há 13 anos, tendo feito hemodiálise por um ano antes
disso, recebendo o rim de um doador falecido, este transplante durou apenas 24 horas. R.
voltou a fazer hemodiálise por mais um ano, conseguindo então realizar o segundo
transplante, tendo como doador seu irmão.
R. conta que não possuía nenhum tipo de doença preexistente, por isso não ia ao
médico com frequência. R. não se importou muito com os primeiros sinas e sintomas
77

da doença, possuía alimentação inadequada, era sedentária, fumava e revelou que era
viciada em café. Atualmente possui bons hábitos de vida e cuida de sua saúde.
R. revela que em relação a DRC, quando descobriu a doença sentiu-se culpada por
não ter cuidado melhor de sua saúde. Depois sentiu tristeza, desespero, sem poder,
abandonada. Também passou por uma fase em que negou a doença, conta que no
começo não se sentia doente, mas depois com a hemodiálise percebeu a gravidade de sua
doença. Hoje entende que o transplante é mais uma forma de tratamento, por isso
procura cuidar muito bem de sua saúde par não perder o enxerto. R. revela que agora se
sente abençoada com o transplante, mas que sente muito medo de seu irmão – que doou o
rim para ela – também vir a desenvolver DRC e precisar de um rim. Sendo este o seu maior
medo.
R. fala que está sem relação sexual há quatro anos, pois parou de sentir desejo
e prazer nas relações sexuais após o transplante:
‘depois do transplante, fiquei gelada’ (SIC).
Conta que passou a sentir nojo, raiva de seu marido, como consequência passou a
ter dores nas relações sexuais. Mas, R. revela que por sete anos fez sexo por obrigação
com seu marido. Atualmente, dormem em quartos separados e não possuem mais contato
físico.
R. conta que casou virgem aos 15 anos de idade. Sua mãe não conversava com
ela sobre sexo, menstruação, masturbação e período fértil. R. reforça que não sabia
absolutamente nada sobre sexualidade e não sabe como teve apenas dois filhos. Aprendeu
algumas coisas relacionadas à sexualidade com pessoas de sua igreja (evangélica –
Testemunha de Jeová) que perceberam que ela precisava de instrução nessa área.
Antes da doença renal R. revela que o que mais lhe excitava eram caricias e
carinhos de seu marido, porém hoje não considera mais nada excitante e considera muito
aversivo o cheiro de bebida alcoólica.
Na aplicação do questionário sobre a sexualidade no período pós-transplante R.
contou que sempre teve certeza de que se ela se mexesse muito durante as relações
sexuais com seu marido o rim sairia do lugar, por isso não tinha paciências para fazer
‘preliminares’. R. também contou que nunca sentiu um orgasmo, se acha feia devido as
cicatrizes do transplante e tem certeza que sua vida sexual não será boa após o transplante.
R. atingiu 33 pontos podendo ser classificada como menos habilidosa sexualmente.
Após a aplicação do questionário foi explicado a R. que o enxerto é muito bem fixado
em seu corpo e não irá soltar em relações sexuais. Foi lhe mostrado alguns desenhos do
corpo humano, feminino e masculino, o local da penetração (canal vaginal), a onde estaria o
78

enxerto e reforçado que o rim está muito bem fixo em seu corpo e não ira soltar em relações
sexuais. R. agradeceu as explicações e consegui atribuir sua falta de desejo sexual ao
medo do irmão precisar um dia de um transplante, mesmo a saúde dele sendo perfeita, e
ele fazendo regularmente o acompanhamento médico no setor de transplantes renal do
HUEC, porem R. fala que não quer mais ter relações sexuais com o seu marido, e contou
que ele é alcoolista, por isso não se aproxima mais dele. R. concordou em participar da
pesquisa, porém não quis acompanhamento psicológico.

Participante 10

E. é do sexo feminino, tem 41 anos, é solteira, mas já manteve união estável em


dois relacionamentos. No primeiro relacionamento teve duas filhas e no segundo teve um
filho. Sendo que na gravidez do filho já havia descoberto a DRC e fazia hemodiálise todos
os dias. E. possui nefrite crônica tendo realizado o transplante há quatro anos, o doador foi
o seu irmão. Realizou hemodiálise por sete anos.
E. descobriu a doença renal, mas não começou a fazer o tratamento para a doença
logo em seguida, pois descobriu a DRC durante os exames pré-natais na gestação de sua
segunda filha. E. conta que quando o médico lhe falou, ela sentiu medo, foi embora e não
voltou mais no médico, achou que a doença se normalizaria após o parto.
E. era hipertensa, tem lúpus, esta obesa, sempre teve infecção urinaria de
repetição e endocardite. Fazia tratamento para algumas dessas doenças, porem E. não
sabia que deveria fazer acompanhamento médico para o rim também. E. assume que
mesmo sabendo de suas doenças pré-existentes não buscava tratamento e nem
acompanhamento médico contínuo, apenas tomava os remédios para hipertensão quando
se sentia mal. Assume que possuía uma alimentação inadequada, fazia uso de álcool,
era fumante e sedentária.
E. conta que ao descobrir a doença renal sentiu culpa por não ter voltado ao médico
após a gestação de sua segunda filha. Sentiu raiva, tristeza, desespero, sem poder,
sentiu-se abandonada, e negou que estava doente. Após o transplante sentiu-se
abençoada e alegre por ter conseguido. Hoje conta que sente medo de morrer, pois tem
medo de perder o rim e não ter outro doador em sua família.
E. revela que se pudesse mudaria sua aparência física, pois sente muita vergonha
das marcas que possui em seu corpo. Ela sofreu um estupro aos 13 anos de idade, não
contou aos seus pais por medo deles não acreditarem nela, e acreditou por muito tempo
que sua DRC estava ligada ao estupro.
79

E. lembra que seus pais não possuíam boas praticas parentais, sendo o seu pai uma
pessoa agressiva, alcoolista e machista; sua mãe sempre foi submissa ao marido, e de certa
forma, sendo conivente com esta situação. E. saiu de casa aos 15 anos para trabalhar de
babá. Nesta época conheceu o seu primeiro marido que era viciado em álcool e drogas;
ficou com ele por nove anos, quando ele faleceu.
E. fala que nunca teve espaço em sua família para conversar sobre sexo ou
sexualidade: “descobri as coisas na prática e da pior forma” (SIC). Hoje por querer algo
diferente para seus filhos procura manter um dialogo aberto sobre todos os assuntos.
Quando começou a relacionar-se com seu segundo parceiro – que também faz uso
de álcool – E. já era doente renal, mas sabia que seu parceiro queria muito um filho,
portanto, decidiu engravidar. E. fez hemodiálise todos os dias de sua gestação, seu filho
nasceu prematuro – atribui isso as crises de hipertensão – porém hoje esta sendo
diagnosticado com hidrocefalia leve. Relata também, que ele é uma criança muito esperta e
ativa, ela não está mais morando com o pai da criança.
E. relata que após o transplante começou a ter mais desejo do que antes, conta
que fica mais excitada quando toca os seios e o pescoço, revela que o cheiro de bebida
alcoólica lhe tira a excitação.
Na aplicação do questionário sobre a sexualidade no período pós-transplante E.
atingiu 62 pontos podendo ser classificada como mais habilidosa sexualmente. E. está em
acompanhamento psicológico trabalhando alguns pontos que puderam ser melhor
observados com a aplicação do questionário, como por exemplo o fato dela se achar feia
devido as marcas e cicatrizes do transplante. Foi incentivada a tocar o seu corpo para que
descobrisse quais partes lhe davam mais prazer ao serem tocadas, e após fazer isso relatou
em seção psicoterápica que sentiu “a calcinha molhada” (SIC) e pensou que tivesse urinado.
Foi lhe explicado sobre o que é e como é a excitação feminina, a importância de ela
conhecer seu próprio corpo e esta sendo trabalhado o autoconceito que ela possui de si
mesma e sobre sua autoimagem.
80

Considerações Finais
A pesquisa buscou fazer um levantamento de dados acerca da sexualidade do
transplantado renal de acordo com as crenças que ele adquiriu durante a sua história de
vida, na descoberta da DRC, no período pré e pós transplante e ao tomar ciência delas,
desmitificá-las ao paciente, melhorando sua vida sexual e por consequência a sua qualidade
de vida.

As crenças irracionais acerca da imagem corporal, sobre o enxerto, e a sexualidade


após o transplante renal podem afetar a vida do doente renal e ocasionar em disfunções
sexuais, hipótese levantada e confirmada pelos resultados deste estudo. Porém, quando
estas crenças são relatas por eles, desmistificadas pelo psicólogo, estas ideias são
desfeitas e por consequência a vida social e sexual do indivíduo melhora. Ou seja, é muito
importante a presença do psicólogo no setor de transplante, para verificar se há dúvidas ou
ideias irracionais acerca do transplante, e desta forma ele poderá atuar para desfazê-las,
seja encaminhando para psicoterapia ou realizando breves esclarecimentos sobre a
sexualidade, trazendo uma maior qualidade de vida a todos, pois estará atuando na
prevenção e promoção da saúde. Uma vez que crenças ou ideias irracionais quando não
trabalhadas podem ser desencadeadoras de mau desempenho sexual, ocasionando em
distúrbios nas relações inter e intrapessoal dos sujeitos.

Com este estudo foi possível entender melhor sobre as crenças que pós-TX renal
apresentam e confirmar que a amostra tinha além de crenças irracionais em torno do
transplante, também possuíam crenças acerca da sexualidade. Todos os participantes da
amostra foram desprovidos de informações sobre sexo e sexualidade em suas famílias, ou
mesmo na escola, o acesso a estas informações mostrou-se escasso ou foi realizado
através de informações errôneas, que refletiam sobre o modo em como vivam suas vidas,
os princípios religiosos que possuíam. Muitos deles, independente da religião – católica ou
evangélica – falaram que não conversavam sobre sexo com suas famílias devido ao fato
deste assunto estar relacionado ao pecado, por isso o acesso as informações no período
onde mais acontecem mudanças no corpo do homem e da mulher – a adolescência – a
amostra relatou que estas mudanças não eram conversadas, faladas pelos pais ou
responsáveis, simplesmente aconteciam e não se conversava sobre o assunto. Da mesma
forma, as primeiras relações sexuais também ocorreram, sem informação e sem uma
preparação para o ato sexual.
81

Se apenas se olhasse para este lado da história, já poderia ser considerado um


grupo de risco para se ter uma disfunção sexual, porém a maioria dos participantes teve as
primeiras relações sexuais com pessoas as quais eles possuíam mais afinidades (maridos,
esposas, namoradas, namorados) e isso ajudou a relacionar o ato sexual a um estímulo
positivo. O fato de 9 dos 10 participantes terem filhos, também é possível inferir que o ato
sexual estava relacionado ao casamento (seja por união estável ou civil/religioso), ao inicio
da vida adulta e a chegada dos filhos, que transformou o casal em família, e o marido e a
esposa em pais. Tudo isso são associação positivas ao sexo. Por isso se torna
compreensível a fala dos participantes de que o sexo antes da doença renal era ‘Bom’. Ele
esteve ligado a estímulos reforçadores positivos na história de vida de cada um deles.

Com a descoberta da doença renal a vida sexual deles diminuiu de qualidade e em


muitos casos no período de hemodiálise ou diálise se tornou inexistente. A DRC, conforme
expresso neste trabalho e confirmados pela fala de vários autores, trás muitas mudanças na
vida da pessoa e exige que eles mudem seus hábitos. Há neste período muitas perdas
biopsicossociais-espirituais, em que eles possuem baixa autoestima devido as mudanças
que ocorrem na autoimagem deles. Com isso, muitos após o transplante lembram deste
período com muitas lembranças aversivas.

A psicologia entrou no Ambulatório do HUEC, no setor de transplante renal em 2008


e desde então vem desenvolvendo pesquisas que são absorvidas pela equipe
multidisciplinar, provocando mudanças positivas no atendimento aos pacientes. A preleção
tem mostrado o seu efeito, pois a adesão ao tratamento, a percepção que eles possuem de
que a qualidade de vida melhora após o transplante e a disponibilidade com que eles se
mostraram ao participar da presente pesquisa, confirma esta percepção.

Esta pesquisa buscou dar um espaço – isento de pré-conceitos ou pré-julgamentos –


para que o doente renal falasse sobre sua sexualidade, suas crenças irracionais acerca do
transplante, os medos que tinham que de certa forma estavam ligados com a sexualidade e
qual o impacto disso tudo em suas vidas. Foi também possível identificar quais sentimentos
mais estavam ligados a DRC e mais marcaram suas vidas. Através destas informações se
soube também qual era o domínio que a pessoa tinha de sua sexualidade e como era
possível ajudá-la.

Sobre o modo como a DRC influencia na vida sexual dos participantes ficou evidente
ao ser analisada cada questão. Como por exemplo: “Tenho certeza de que meu corpo é
82

feio devido às marcas e cicatrizes”, foi possível verificar que em maior ou menor grau, os
participantes concordaram com ela, levantando a hipótese de que a pessoa sente vergonha
de suas marcas e cicatrizes durante as interações sociais e, isto, faz parte de suas queixas
frequentes em ambulatório, principalmente entre os mais jovens. Esta ‘vergonha’ não
influencia apenas a vida social do doente – que muitas vezes procura esconder as marcas e
cicatrizes, para assim evitar responder a perguntas que lhe deixem desconfortáveis – mas
também se reflete na vida sexual da pessoa, que conforme esta pesquisa mostrou, em
algumas situações de intimidade com o parceiro, sente vergonha de se mostrar ‘nu’. Mas,
também ficou claro com este estudo que, ao confirmar este item sugere que a qualidade de
vida destes pacientes poderia melhorar se tais problemas forem sanados. Mostrando mais
uma vez a importância da psicologia no setor, que se mostra disponível e capaz para
resolver estes problemas.

Outro dado que se mostrou relevante foi na crença de que os participantes


mostraram de que suas vidas sexuais não voltaram mais ao normal, ou que a vida sexual
não vai ser boa após o transplante, e também no fato da amostra relatar de dificuldades em
atingir o orgasmo, uma vez que todos os participantes concordaram em maior ou menor
grau com estas afirmações. Ora atribuindo esta crença aos remédios, ora as dificuldades
sexuais que eles julgam não ter solução ou até mesmo aos problemas conjugais
influenciados pela história de vida de cada participante. Isto mais uma vez mostra a
importância do trabalho do psicólogo no setor ao dar espaço para que estas crenças sejam
manifestadas, trabalhadas e desfeitas facilitando a promoção de comportamentos mais
adequados e que trazem uma maior qualidade de vida.

Como projeto para pesquisas futuras há a necessidade de corroborar os dados


encontrados com as habilidades sociais dos sujeitos, ou seja, além da aplicação de um
questionário que avalie o desempenho sexual dos participantes, aplicar-se também o IHS
(Inventário de Habilidades Sociais) de Del Prette e Del Prette (2009). Para, desta forma,
verificar se as pessoas que possuem menor índice no questionário sobre a sexualidade no
período pós transplante também apresentam menor escore no IHS.

Tendo também em vista que, o conhecimento cientifico aqui produzido não deve ficar
restrito ao âmbito acadêmico, foi criado uma cartilha (anexo 5), escrita em linguagem
informal, com o intuito de que as informações aqui descritas cheguem aos doentes renais,
atuando como uma medida preventiva, para que as ideias irracionais acerca do enxerto,
83

sobre a imagem corporal, ou sobre a sexualidade após o transplante, sejam desmistificadas


antes mesmo de trazer algum prejuízo a vida deles.
84

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88

Anexos
89

Anexo 1

Termo de Consentimento Livre Esclarecido


90

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

Vimos por meio deste material convidar sua participação na pesquisa: “ESTUDO ACERCA DA
SEXUALIDADE EM PÓS TRANSPLANTADOS”.

Este trabalho tem como orientador responsável a psicóloga e professora da Faculdade Evangélica do
Paraná, Dra. Marilza Mestre (08/ 777) e como colaboradora a aluna dos últimos períodos da graduação do curso
de psicologia da FEPAR.

A sua participação consiste em responder a uma entrevista de aproximadamente uma hora de duração,
com dois questionários, um com vinte e oito perguntas e outro com quinze perguntas. A mesma será efetuada na
data, horário e local combinados previamente. Todos os dados de identificação do participante permanecerão em
sigilo e as informações fornecidas servirão para fins de aprendizagem cientifica e a serviço da ética, para tanto o
presente documento requer sua autorização identificada.

Neste tipo de pesquisa não há qualquer desconforto ou risco físico para os participantes. Podendo ser
interrompido a qualquer momento, se assim o desejar, bastando para isso comunicar aos responsáveis pela
pesquisa, pelo fone: (041) 84160984, sem qualquer prejuízo a você. Também, o trabalho não implica em custos
ou ganhos financeiros aos investigados.

DECLARAÇÃO

Eu________________________________, portador do Registro Geral (RG)

____________________________, estou ciente das informações acima descritas e desta forma autorizo a
divulgação de dados por mim relatados, bem como autorizo a utilização destes para construção de a trabalhos
acadêmicos. Afirmo, ainda, ter sido alertado(a) sobre os procedimentos adotados e o fim desejado pela pesquisa,
em acordo com a resolução no 196/96 do Conselho Nacional de Saúde sobre pesquisas com seres humanos.
Concordo, voluntariamente, em participar da mesma

Curitiba, de 2013.
____________________________
Ass. Responsável
_________________________________ / _____________________________
Nome e Ass. do aluno entrevistador

__________________________________________
Professora, psicóloga, Doutora Marilza Mestre (CRP-08-0777)
91

Anexo 2

Carta de Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da FEPAR


92
93

Anexo 3

Questionário Sócio-Economico-Cultural
94

Questionário sócio-econômico-cultural
Ambulatório de transplante renal – HUEC

Número do prontuário: ________________________ Entrevista número:


______

1. Nome: ______________________________________________2. Idade: _____


Tempo de TX:____________ Religião:_______________ Praticante:___________
3. Sexo: ( ) Feminino ( ) Masculino
4. Escolaridade: ( ) Fundamental ( ) Secundário

( ) Técnico ( ) Superior ( ) Outros: _____

5. Estado Civil: ( ) Solteiro ( ) Casado ( ) Separado


( ) Viúvo(a) ( ) Outros: ___________________
6. Filhos: ( ) Sim ( ) Não
7. Profissão: ___________________
8. Primeira consulta PSICOLOGIA: ( ) Sim ( ) Não. Quanto tempo de
tratamento: ____________

9. Diagnóstico médico principal:


________________________________________________________________

10. Há quanto tempo descobriu a doença?

( ) Menos de seis meses ( ) 1ano ( ) 2 anos ( ) Mais de 2 anos

11. Tratamento já realizado:


( ) Medicação ( ) Diálise Peritoneal ( ) Hemodiálise ( ) Transplante

12. Realiza o tratamento desde o momento do diagnóstico da doença renal (DR)?


1. ( ) Sim 2. ( ) Não

13a. Apresentava algum tipo de doença crônica antes do diagnóstico de DR como:


( ) Diabetes ( ) Hipertensão ( ) Lúpus ( ) Obesidade
( ) Infecção urinária repetida ( ) Dislipidemia ( ) Outros _____________

13b. Você fez tratamento para esta doença antes de descobrir a doença renal?
95

1. ( ) Sim 2. ( ) Não
13c. Se sim, foi dito a você que deveria fazer um tratamento para os rins junto com o
tratamento da outra doença?
1. ( ) Sim 2. ( ) Não

13d. Se sim, quem o indicou?


( ) Médico ( ) Enfermeiro ( ) Parente ( ) Amigo ( ) Outro: ____________

14. Você realizava acompanhamento médico para o tratamento dessas doenças?


Nada= 0; Pouco= 1-3; Médio = 4-7; Muito= 7-10

( ) Nada ( ) Pouco ( ) Médio ( ) Muito

15a. Hábitos de vida que contribuíram para o desenvolvimento da DR: (Você pode
assinalar mais de uma resposta).

( ) Não buscava tratamento contínuo para as doenças existentes


( ) Não realizava acompanhamento médico contínuo
( ) Não me importava com sinais e sintomas das doenças
( ) Alimentação inadequada
( ) Uso de álcool

( ) Sedentarismo

( ) Tabagismo

16. Atualmente como você poderia pontuar seus cuidados com a saúde?
Nada= 0; Pouco= 1-3; Médio = 4-7; Muito= 7-10
( ) Nada ( ) Pouco ( ) Médio ( ) Muito

18. Considera que tenha algumas limitações físicas em decorrência da DR?


1. ( ) Não 2. ( ) Sim

18b. Qual:
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
96

19. Como você acha que está a sua saúde hoje?

Muito Ruim = 0; Ruim= 1-3; Razoável= 4-6; Boa=7-9; Muito Boa= 10

( ) Muito Ruim ( ) Ruim ( ) Razoável ( ) Boa ( ) Muito Boa

20. Quais os sentimentos em relação a sua doença renal? Se quiser, marque mais de um:
( ) Nenhum ( ) Culpa ( ) Raiva ( ) Tristeza
( ) Desespero ( ) Sem poder ( ) Não estou doente ( ) Alegria
( ) Abençoado ( ) Abandonado ( ) vergonha
( ) Outros, quais?: __________________________________________________

21. Dos sentimentos marcados na pergunta 20, qual deles é o maior?


_____________________________________________________________

Dê um valor para o quanto ele aparece:


Nada = 0; Pouco = 1-3; Médio = 4-7; Muito = 7-10
( ) Nada ( ) Pouco ( ) Médio ( ) Muito

22. Como está sua sexualidade, atualmente, em número?


Dê um valor para o quanto (número de vezes) ela aparece:
Nada= 0; Pouco= 1-3; Médio = 4-7; Muito= 7-10
( ) Nada ( ) Pouco ( ) Médio ( ) Muito

23)Dê um valor para o quanto te satisfaz:


Nada= 0; Pouco= 1-3; Médio = 4-7; Muito= 7-10
( ) Nada ( ) Pouco ( ) Médio ( ) Muito

24) Há alguma coisa que você mudaria nas suas relações sexuais, hoje em
dia? ( ) Não. ( )SIM. O que?

___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
97

___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
_______________________________________________________________

25) Como está sua sexualidade, atualmente. Dê um valor para o quanto ela
aparece: Nada= 0; Pouco= 1-3; Médio = 4-7; Muito= 7-10

( ) Nada ( ) Pouco ( ) Médio ( ) Muito

26) E antes da doença renal? Dê um valor para o quanto ele aparece:


Nada= 0; Pouco= 1-3; Médio = 4-7; Muito= 7-10
( ) Nada ( ) Pouco ( ) Médio ( ) Muito

27) E no futuro com a doença renal? Dê um valor para o quanto ele aparece:
Nada= 0; Pouco= 1-3; Médio = 4-7; Muito= 7-10
( ) Nada ( ) Pouco ( ) Médio ( ) Muito

28) Antes da doença renal, o que mais lhe excitava numa relação sexual?
___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
__________________________________________________________________

29) Hoje, o que você considera excitante numa relação sexual?


___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
_________________________________________________________________

30) E o que lhe tira a excitação?


___________________________________________________________________
___________________________________________________________________
_________________________________________________________________

31) Até qual ano escolar você e o membro familiar que mais contribui
financeiramente na sua casa estudou? Marque com “X” a resposta correta:

Chefe de
Situação Educacional Você
família

Analfabeto/ 1º ciclo do fundamental incompleto


98

1º ciclo do fundamental completo/ 2º ciclo do fundamental incompleto


2º ciclo do fundamental completo/Ens. Médio incompleto

Ens. Médio completo/ Superior incompleto

Superior completo

32) As informações abaixo servem apenas para fins de classificação estatística das pessoas
que estão respondendo a esta pesquisa. Marque com “X” a resposta correta:
4 ou
Nenhum 1 2 3
Quantos destes você possui em casa? +
Televisão em cores          
Vídeo cassete e/ou DVD          
Rádio (menos o do carro)          
Banheiro (inclusive lavabo e de empregada)          
Automóvel de passeio próprio          
Empregados mensalistas          
Aspirador de pó elétrico          
Geladeira sem freezer          
Geladeira duplex ou freezer          
99

Anexo 4

Questionário Sobre a Sexualidade no Período Pós-Transplante


100

QUESTIONÁRIO SOBRE A SEXUALIDADE NO PERÍDO PÓS-TRANSPLANTE

Reserve alguns minutos para responder às perguntas. Alguns enunciados não


se aplicam à sua vida, mas não tem problema. Marque com um círculo no número
que o descreve melhor.

1. Não ou nunca;
2. Um pouco;
3. Às vezes;
4. Em geral ou muito;
5. Praticamente sempre ou inteiramente.

1. Penso que durante a relação sexual o rim pode sair do lugar e eu


1 2 3 4 5
posso vir a ter problemas.
2. Sinto-me feio (a) para o meu parceiro (a) sexual devido às marcas
1 2 3 4 5
da cirurgia.
3. Penso que minha vida sexual não vai mais voltar ao normal. 1 2 3 4 5
4. O fato de ser homem/mulher e ter recebido um rim de um
1 2 3 4 5
homem/mulher atrapalha a minha vida sexual.
5. Tenho vontade de fazer sexo com meu parceiro 1 2 3 4 5
6. Acredito que a opção sexual do doador pode alterar a minha própria
1 2 3 4 5
opção sexual.
7. Não tenho paciência em fazer “preliminares”, pois, se não for rápido
1 2 3 4 5
o suficiente o rim pode sair do lugar.
8. Faço sexo por obrigação com o meu parceiro. 1 2 3 4 5
9. Tenho problemas em sentir prazer nas relações sexuais devido ao
1 2 3 4 5
fato do rim que recebi não ser do sexo oposto ao que é o meu.
10. Tenho a certeza de que meu corpo feio é devido às marcas e
1 2 3 4 5
cicatrizes.
11. Sinto prazer nas relações sexuais, porém, nunca senti um
1 2 3 4 5
orgasmo.
12. Tenho problemas nas relações sexuais, pois,acho (ou sei) que o
1 2 3 4 5
rim que recebi é igual ao do meu sexo.
13. Procuro não me mexer muito durante a relação sexual para assim
1 2 3 4 5
evitar que o rim saia do lugar.
14. Não me acho bonita (o) devido às cicatrizes das cirurgias
1 2 3 4 5
(transplante, fistula, cateter)
15. Penso que minha vida sexual não vai ser boa depois do
1 2 3 4 5
transplante.
101

Anexo 5

Cartilha Sobre Sexualidade