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QUE FAÇO EU AQUI TRANQUILO…

1.

Andou de um lado para o outro na praia, procurando o lugar ideal para se deitar.
Levava um livro de Jack Kerouac. Ainda mantinha essa referência de um amigo, Zappa
Performer Dada. Sabia que Kerouac era bom e não engeitou em comprar a preço de
saldo uma versão trazida à luz por uma editora pouco nobre. Deitou a toalha e pegou no
protector Nivea nível 12. Começou com naturalidade a espalha-lo pelo corpo. Estava um
pouco nervoso depois de ter almoçado num snack de fast-food e ter comido demasiado
gelado de chocolate. Havia fumado um cigarro e sentira uma leve indisposição de
estômago. Depois de espalhado o creme deitou-se de costas e começou a ler o livro: “ a
dor faz-nos ter medo”. Tremia por ter tanta gente à sua volta. Olhava para os rostos e os
corpos que passavam diante dos seus olhos. A tarde estava calma para se poder
recomeçar a vida, de pois de dois dias de tumulto de espírito fechado em casa.
Se tinha medo era por timidez. A sua intimidade estava demasiado reservada.
Pensava: -“O meu desejo sexual é tão grande que me causa dor. Olho para todas as
mulheres e aprecio-as como animais de sexo Sim, porque não tenho jeito para esperar,
para conversar antes da atracção física. Não é que eu seja grande modelo, que não
sou. Mas o meu espírito é insaciável.E o que procuro é o que todos procuram e que
acabam por ter. Por isso sou vulgar. Não tenho as dores dos intelectuais, as suas
preocupações”.
Parecia que esperava, no meio da multidão, um rosto a quem pudesse falar em
revelação. Ou esperava por alguém que se interessasse por ele. Isso sim, seria
interessante. Seria meio caminho andado para uma relação fiel e verdadeira. “Depois,
só preciso de amor”, pensava, quando dois negros se sentavam no banco da paragem do
autocarro. Tinha inveja só de saber que os negros tinham o pénis maior. “Se o meu
desejo não fosse contido, como é traço do meu carácter, certamente cairia nas malhas
de uma doença com certa facilidade”.
Estranhamente, era o sofrimento que o preservava ingénuo e renovava sempre o seu
desejo, contribuindo para uma libido constantemente insatisfeita. Aproximava-se a
realização de um campo de férias onde seria o mais velho. Iria realizar-se perto da terra
de seus pais. Não sabia se ousaria voltar lá. “Só de passagem”, admitia em
pensamentos. Num Sábado foi até ao Colombo. Decidiu montar um dos carros de
karting . A primeira vez foi à experiência. A direcção era muito justa, de modo que foi
ultrapassado duas vezes. À segunda tentativa já não foi assim. Ultrapassou uma vez,
guardando a sua posição. Era uma emoção pública que não partilhava com ninguém.
Sabia que era capaz de certas tarefas audazes quando se encontrava sozinho. Sabia
desenrascar-se. Era isso que os seus familiares precisavam de sentir? Talvez ele próprio
tivesse que o sentir mais do que ninguém.Por detrás da sua habitual imagem de
personagem pensativo, morava também alguém responsável, um homem de acção.
Esse Sábado estava a chegar ao fim e não se previa que acabasse em casa. Um dos
seus sonhos era ser um day sleeper, um homem da noite. Acreditava e confiava que
tinha um ritmo diferente dos outros, como os homens do lixo, como os tipógrafos, como
os guardas noctumos, como os donos de casas da noite. De resto, faltava ter um trabalho
que condissesse com tal aspiração e constatação. De resto, falatava saber se havia de
ficar nesta cidade, se haveria de transitar para outra, para um lugar onde pudesse
trabalhar.

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O calor era-lhe estranho. Mas tinha receio das pessoas do norte. Afinal ia apenas
experimentar ser emigrante. Podia ser que pegasse. Podia ser que se transformasse numa
espécie de embaixador da alegria e paixão mediterrânicas lá no norte da Europa. A
viagem que estivera para fazer um dia à Dinamarca poderia concretizar-se em breve. Se
lhe dessem condições, que se danasse o campo de férias perto de casa. As hipóteses
eram agora maiores que dantes. Estava lúcido e sabia que que o queria era emoção de
viver, aquela mesma que todos procuram e com que muitos são prendados. Procurava o
diálogo. Alguém. Não precisaria de ter passado por tanto sofrimento. Não era
necessário. Será que issso lhe iria fazer descobrir o maravilhoso da vida? Os dias
seguintes poderiam ser a mesma coisa: um conjunto de ciclos de que se teria
inteminavelmente de libertar. Ele sabia que a plena libertação só com a morte,
contraditoriamente, seria conseguida. Podia o seu futuro ser algo de diferente, como a
revelação do maravilhoso da vida que ele esperava e pelo qual se esforçava por
descobrir nos outros? Era de certeza um masoquista. Um masoquista consumista. Mas
agora estava, mais do que nunca, por sua conta e risco e poderia bem ter a solução para
cada passo. Bastava procurar. Alguém.

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2.

Naquela noite a amizade não surgiu num telefonema nem foi pensada
antecipadamente. Nem sequer foi preciso tomar banho. A limpeza do indivíduo surge
depois, ou antes, da loucura - veio dizer o actor na peça representada ao ar livre naquela
noite. Escrevo estas coisas com pouco distanciamento, eu sei. Mas é o que disponho, é a
verdade de que disponho.
O protagonista desta história veio a conhecer algumas mulheres na sua vida. Veio a
reconhecer que lhe era legítimo na sociedade procurar o seu lugar sem que isso
significasse a anulação da sua personalidade múltipla e complexa. Afinal, era também
um homem simples, mas só com a cabeça confusa. Depois era tímido e por isso em
certas ocasiões excedia-se. E não se contendo, ria disparatadamente. O protagonista
deveria estar a dormir, procurando no sono (e no sonho) a duplicação dos seus desejos e
anseios. Mas era tarde para dormir e cedo para estar ao lado de um escritor de emoções.
Por falar em livros, as pessoas que mais amei não me importa voltar a página atrás e ver
como estão. O sofrimento tudo justifica. Tarde ou cedo, o protagonista irá viajar para
um país longe, ser antropólogo sem escrever no campo, sem seguir um método clássico.
Uma ou outra porta se há-de abrir mais tarde.
Uma personagem feminina fazia falta ao protagonista. A falta, o desejo... Devemos,
nós, sociedade e cultura, nós país, servir-mo-nos o melhor que pudermos das
ferramentas de que dispomos e criar, criar até ao infinito? É na criação que ainda se
deve acreditar. Estar atento, mas não deslumbrado. Lívido, nunca boçal, com genica e
dinamismo. Este é o novo ser deste novo personagem que se irá revelar, ao longo de
semanas, ao leitor: o protagonista e os seus encontros e desencontros com a sociedade e
com os outros. A procura do diálogo será um fuga para a frente, desesperada, ansiosa e
batalhadora. Como um filho que custa a nascer e que finalmente, depois da dor, já
alegria a e maravilha a jovem mãe.

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3.

Não reparei demasiado no seu corpo. Ela surgiu por entre a multidão com umas
vestes compridas. Também não reparei demasiado no seu rosto. Preferia que fosse o de
uma indiana. Falava pausadamente num jardim onde se ouviam alguns regatos. As
pessoas passavam; cada um de nós tinha em sua companhia um livro. Enquanto
conversavamos não os liamos. Não. Apenas estavam ali como uma espécie de Bíblias
nos templos.
Não interessava o passado dela. Ou se trabalhava ou não. Estavamos naquela fase
que se designa de conversa romântica. Passeamos até sua casa. Encontramo-la
desocupada, completamente livre. Finalmente podiamos estar ali, naquela tarde fria. É
claro que fizemos sexo. Nem de outra maneira podia ser. Ou se calhar até podia,
conforme vim a perceber mais tarde...
Deixou-me entrar no seu complexo e estender-me prolongadamente no desejo. Não
foi meu objecto, como algumas mulheres que já conheci (e às quais fiz essa referência).
Houve diálogo, diálogo esse que não consigo reproduzir porque a minha imaginação
não o permite. A dor justifica e impede que isso aconteca. A dor de estar agora longe
dela. Deixei que a esperança de a rever me habitasse e percorresse numa emoção, num
tremor, todo o meu corpo, todo o meu constituinte físico.
De certeza que não era uma mulher portuguesa. Não me estava a fazer de esquisito,
só que nestas coisas de amor existem certas exigências que não têm nada a ver com o
acto sexual, mas sim com a personalidade. Que me importa se não trabalha uma vez que
vive de uma renda e de um subsídio de desemprego? Dali em diante podia ser feliz com
ela e dizer, perante todos, que era a minha amada. Decerto que isso a deixaria
embaraçada... Mas também ninguém diz isso assim na rua. E apetecia-me tanto gritá-lo
a toda a gente, ao mesmo tempo que esperava uma boa recepção da parte de todos. A
acontecer isso já não precisavamos de viver sob o fantasma de ter de ir à Televisão para
viver o nosso amor. E eu jamais poderia perdoar a uma mulher que me exigisse riqueza
e fama. Jamais poderia aceitar que não conhecesse a dignidade, o afecto e o diálogo.
Felicidade tinha mais ou menos a minha idade. Longe ía o fantasma de saber se iría
encontrar uma mulher muito mais nova a quem teria de orientar e dar conselhos. Uma
mulher muito mais velha não era bem vinda por preconceitos familiares, preconceitos
esses que afinal também eu tinha herdado e contra os quais nada podia fazer.
Lutamos, até um certo ponto das nossas forças, numa direcção oposta às nossas
heranças culturais. Até um certo ponto. Depois veio a dor...

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4.

No final daquele Verão Tiago Gomes sabia o que havia de fazer. Haveria de
inscrever-se num novo curso universitário, tirar uma nova licenciatura. Os aspectos a
favor pesavam mais do que o adiamento da sua insersão profissional e social que podia
facilmente ser conseguida através de um emprego fixo. Era tempo de voltar à
Faculdade, rever os corações jovens pulsando pelo saber, trocar experiências, retomar o
contacto com os livros.
Na tarde de 10 de Setembro de 1999, Segunda -Feira, estava pronto para ser
praxado, embora tivesse entrado, cauteloso, somente da parte da tarde. Deixou que lhe
pintassem o rosto, já não borbulhento do acne da juventude, mas cicatrizado, com
buracos à Brian Adams. Passou uns minutos no bar, sorvendo o seu descafeinado
seguido do seu Mariboro. O Camel havia sido uma opção de anos e deixara-a para trás.
Tal como o Peter Stuyvesant, que o iniciou no prazer-dor do tabagismo, desgaste de
energias necessário à actividade intelectual (será que?...). As jovens olhavam os seus
olhos por detrás dos óculos.
-Olá, tudo bem?, disse-lhe um casal que estava para ser atendido junto à caixa
registadora.
-Tudo bem. Estou aver que o pessoal daqui era bem animado. Vocês são de que
curso?- perguntou tentando vencer o seu autismo nevrótico.
-Ela é de Química, eu sou de Filosofia. E tu? -disse a morena.
-Psicologia -disse com um ar ponderado de quem sabia do que que falava. -Isso é
interessante ... e prático. Tem saídas profissionais.
-Pois, a ideia de ter um consultório é cativante. É como se tivesse um supermercado
ou uma empresa; tens a porta aberta a toda a gente.
-Boa e má.- observou a loira.
-Boa e má?
-Sim. Há pesssoas que fazem do psicólogo uma necessidade, quando têm de facto
outras pessoas com quem deveriam conversar.
-Pois .... vamo-nos sentar?
-Sim, não temos muito tempo... Mas a conversa pode ser interessante, não achas
Matilde?
(É claro que não fiz sexo com nenhuma delas. Mas fiquei com o contacto destas duas
novas. Podia começar a pensar que estava a fazer as pazes, depois de muito tempo, com
as mulheres. O espírito humano sempre era generoso e não escolhia idades. Mais tarde
explicarei melhor esta minha observação.)

-Sabes -dizia eu com ar de quem vai ser psicólogo-, o mais importante é conversar.
É como as linhas telefónicas, sejam elas 0641 ou linhas de apoio a problemas
específicos. Falar faz bem, alivia o problema.
-Olha que ele sabe!...
Nisto elas são tiradas da minha presença por um grupo misto que andava a caçar os
novatos. A fazer iniciações, digo eu.
Tudo isto que estou a escrever é resultado de uma amizade periclitante que
mantenho. Das poucas que tenho. Pelo menos é frutífera, como o leitor pode constatar
ao comprar este livro. O pior é que eu não pensei em ganhar nada com tal compra. Nem

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ganhei realmente, diga-se em abono da compensação dos três tempos. O dinheiro não
era muito e eu preparava-me para ter um part-time ou então frequentar de noite as aulas.
Ou então, na pior das hipóteses, fazer umas cadeiritas por exame.

Diriji-me à biblioteca.
-Interessa-lhe alguma coisa em especial?-diz-me a empregada.
Via-se logo que era estudante. Veio-me logo a eminência de poder dormir com elas um
destes dias. Mas como poderia superar a formalidade de eu ser cliente e ela empregada?
Mas bom, isto são pensamentos que tenho agora. Mais tarde não os terei, por força da
idade. Isto se conseguir resistir a este tabaco Ducados, 100% natural...
-Não, estou à procura de alguns autores... De facto não me lembrava de ninguém
para além de Jung e Freud (se tivesse dinheiro comprava a obra completa, se tivesse
tempo e mulher lia a obra completa) e ... Wittgenstein!
-Pois esta não é a biblioteca mais indicada para Filosofia. Terá de ir até à Arco-lris,
aqui perto, na Faculdade de Letras. (Isto é que é uma antropologia da memória, uma
etnogafia da memória. Como o meu espírito tem andado parado!).
Certo. Estava orientado. Fui até à Biblioteca Nacional para fumar um cigarro no
páteo e ver gente a andar de um lado para o outro por causa de livros e não de tijolos,
como me ensinou o meu pai. Como vêm, não vos conto nenhum amor em particular,
nem o estado resultante desse amor. Apenas factos. Factos etnográficos e circunstâncias
para quem lê de outra cultura.
E com isto fechei os olhos aos livros nessa noite...

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5.

É difícil encontrar algo para fazer quando a casa nos prende, gordurosa, quente e
poeirenta. Apenas a limpeza do corpo preocupa Tiago nestes momentos. Espera, lê um
pouco, ouve a Rádio Lights e decide mudar de vida devido ao tabaco. Então, depois de
quase ter entrado no café de sua conveniência, decide mudar-se e comprar tabaco para o
dia seguinte. Resolve sair. A cidade não oferece nada de novo aos seus olhos. Não vê as
pessoas por dentro nem tem pretensão de tal. Vê corpos, alguns de desejo.O seu desejo
está vivo. Basta um pensamento para o levar a uma cavalgada perversa, deturpar três
dos seus dias antes e três depois. Basta um pensamento mais forte para levar à ruína seis
dias. O consumismo é uma distracção a que não se furta, embora o montante a
dispender por mês seja escasso, limitado. Depois da folia, vem a normalidade e alguma
imobilidade do corpo. Imagina como será quando começar a trabalhar. Todos os dias,
todos os dias para o mesmo local. Acredito que não será por muito tempo. Desde que
justifique as suas acções pelo pensamento. Não precisa de dialogar. Assim mata os dias.
Tiago escreveu "Fluidos" e enviou o manuscrito a uma amiga de confiança, ligada
por família a um importante jornal de província. Passaram-se meses sem resposta.
Agora espera até lhe aparecer o desejo de lhe pedir o manuscrito que a amiga desprezou.
Ou será que a carga viral das suas palavras foi tão intensa que resolveu ignorá-lo, não
sendo motivo para esboçar uma resposta? Às tantas...
Cada dia pior do que o outro. Depois dos primeiros dias de entusiasmo, Tiago já não
conseguia viver os dias normalmente. Era demasiado tímido ainda e fechava-se em casa
como um condenado. Assim aconteceu no dia seguinte à recepção na Faculdade. Sabia
que não era fácil ter equilíbrio e que tal anseio só se concretizaria junto de outra pessoa.
Mas o facto de saber demais esta realidade fazia-o olhar cegamente o sexo feminino,
não vendo qualidades e defeitos, não avançando sequer. Era uma situação difícil. Como
poderia ir? Só amanhã. Não havia forças para avançar. Tinha de esperar que o seu corpo
de recomposesse. Depois, tinha também vergonha da sua intimidade distorcida. E um
falsa ideia de si próprio, uma ideia que não era assim tão falsa, mas sobretudo negativa.
Um equilíbrio difícil de conseguir. Em alturas da sua vida o diálogo, a conversa, haviam
sido intensos. Depois perdera tudo das mãos.
Num fim de tarde escrevia umas notas para o seu diário. O pessimismo não sabia do
seu humor. Era a dor de novo. Havia que esperar. A sua vida não regularizara , não
tinha uma vida social. Aparecia às vezes num bar, numa discoteca, entre amigos, mas
logo no dia seguinte se refugiava em casa. Era o contraponto dos bons momentos: os
maus momentos. Mas será que isso não acontece com todos assim?, interrogava-se.
Não. A sua dor era única e exclusiva. E considerar isso é que era o mal. Esta atitude
travava o diálogo. Quando precisava de falar, não o fazia. Não dialogava quando estava
alegre; falava sem ouvir a reacção dos outros. Mas afinal não posso condenar-me assim
tanto! -desabafava no papel. Pois não. Havia que esperar e fazer com que as coisas
mudassem em breve. Se todo o seu passado havia sido a prostração num chão de
espelhos de esquizofrenia, complexidade e egocêntricidade, a sua luta agora era para se
tentar manter de pé. Andar se fosse possível. Correr até. A sua luta seria até ao fim dos
seus dias. Teria de lutar, de se mexer, de reconhecer o sofrimento como parte integrante
da sua vida. Só que tinha de dar uma solução à sua situação física.

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6.

Quando nos tornamos populares num local onde exercemos uma qualquer profissão,
quando nos revelamos no nosso à vontade, é facil embarcar em probemas. O mundo
mental que vivo anda louco. Nem mesmo os sonhos são os mesmos. A noite passada
tive um em que violava uma jovem e ela se deixava violar, consentindo o acto. Foi a
primeira vez que tive pensamentos deste género. Será que qualquer coisa vai ser
transportado para a realidade? Não creio poder ser assim tão violento. Depois iria ter a
uma prisão maior do que esta onde estou. Pelo menos podia ter algum reconhecimento
social, maior do que tenho nesta situação de desempregado, anónimo do social.
Às vezes a gente não precisa de falar, nem precisa de terapia nenhuma. A gente quer
é sexo, acção, ver gente bonita e bem feita, desejar e ser correspondido. O pior é que é
necessário diálogo para sermos correspondidos, isto na melhor das hipóteses. Todos
podemos concordar que diálogo em vão é pura perda de tempo. Por isso os
interlocutores têm sempre alguma intenção em vista. Se a comida não estiver temperada
não há sabor a cultura; é tudo ao natural. Não há nada como um banho de multidão para
nos confundir e fazer a cabeça funcionar. Não se fala com ninguém; deseja-se por
qualquer motivo falar de alguém. Para que se estabeleça uma relação, o dinheiro é
preciso. Sem esta moeda de troca, nada, mas mesmo nada feito. Se quisermos comprar
palavras, comprar sonhos, aí surge o dinheiro. Mas este elemento do relacionamento
entre as pessoas aparece discreto, disfarçado às vezes em cartões. Enfim. Estou a
esqueçer-me do Tiago Gomes. Ele ainda pensava, coitado, em ser psicólogo e montar
um consultório para assediar as suas doentes mais temperãs. Pensamentos que o
deixaram estar na cama, pensativo, por umas horas. Até que o telefone tocou. Não, era a
campainha. O carteiro tinha uma carta para si que o poderia animar. Era tempo de
decidir se iria para Inglaterra ou para a Suiça. Finalmente, sair deste pais de merda. Só
gente indiferente, insensível, que não compreendia os seus problemas de falta de afecto
e adaptação à socieadade. Era tempo de se desenrascar. O tabaco é que lhe tirava algum
vigor. Mas não haveria de ser nada...

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7.
Tiago Gomes persistia em pensar que iria montar o seu consultório. Aos 25 anos
andava no terceiro ano do curso e tudo se encaminhava para que tal se concretizasse.
Tinha um part-time na FNAC, uma loja de livros e som que era o ideal para aquilo que
pensava do mundo. Conheceu Marília no seu trabalho. Ela era estudante de Literatura.
Tiago sempre vivera fascinado pela literatura e emocionava-se quando via
representações na tela de romances, adaptações ou biografias, como a de Shakespeare.
Afinal os americanos podiam não ter tudo, mas sabiam aplicar nos seus filmes um
savoir-faire de ficção que escondiam todos os outros senãos.
O seu dia era simples: de manhã ocupava-se dos afazeres da casa e preparava-se
para saír. De tarde ía às aulas, até às seis e meia. Às sete entrava no Colombo e o mundo
era outro. O conjunto de pessoas procurando livros e discos permitia libertá-lo da
“clausura” disciplinar em que se encontrava pela frequência de um curso de Psicologia.
Ainda não sabia qual dos três ramos escolher como opção no final do curso. As coisas
haviam de ser decididas juntamente com Marília. Tinha a Psicologia Clínica, que não o
atraía demasiado, mas que sera o melhor caminho para fazer terapia. O seu espírito,
mesmo depois de uma noite de discussão académica com alguns dos mais interessados
colegas, não o salvava de um dia seguinte algo frouxo, em que o seu espírito andava
engelhado pela casa fora e o seu corpo ansiando pelo amplexo de Marília. Cada dia era
uma odisseia e nos primeiros tempos a adaptação ao part-time não foi fácil. Mas não,
nunca iria precisar de medicamentos ou psicoterapira. Embora fizesse pressão sobre a
personalidade de Marília, esta continuava a ser a sua maior confidente. E embora
confessasse fraquezas, não se sentia condenado por asserções, observações, nem culpa-
própria. Um traço forte do carácter de Marília era, contudo, pouco animador. Não raro
se dava a autocomiserações e frequentemente se via cheia de ansiedade em estudar, em
saber coisas. Por vezes era iluminada por uma fome de saber incontida, seu apetide
intelectual era voraz como o de uma piranha. Procurava a carne e só com a carne e o
substrato de riqueza e utilidade pessoal do saber se satisfazia. A autocomiseração
parecia funcionar como auto-crítica naquele ser.
-Mila, não me digas que estás no curso errado! - dizia-lhe Tiago com mais
frêquência.
Não raro este se armava em terapêuta. Pelo menos era bom para evitar medicação.
Era só um traço de personalidade, um critério de exigência pessoal da jovem que,
compreendido, não podia ser condenado. Como se procurasse uma justificação para
todos os seus actos, uma razão primordial, existencial. Casar podia até ser uma via para
amenizar as fugas de personalidade de ambos. Até que ponto? É o que iremos saber...

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8.
Enerva e dá raiva não ter ninguém com quem falar. Falo dos meus passos, tímidos
sempre, para me relacionar com os outros. Já que não sou capaz de dar grande
desenvolvimento à minha personagem, entretanho-me a pensar em mim próprio.
Tolhido fisicamente. De ontem para hoje tudo se desmoronou e sinto falta de calor
humano. Eu sei o que foi. Bastou-me olhar no espelho e ver que não estou bonito,
apresentável, cativante. Pode parecer infantil, mas isso desmotivou-me de tal forma que
pensei logo em ir ver filmes porno. É estranho porque tenho agora uma nova
oportunidade de emprego para Lisboa, que até pode bem ser uma alternativa às aulas.
Mas as aulas são sempre mais entusiásticas, além de que se recebe melhor. E mudar de
cenário, mudar de casa por um ano, só me fazia bem. Enfim, não há nada como uma
sesta para retomar a calma. O pior é imaginar o pénis contra o rabo de uma conhecida...

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9.
Tiago acabara o curso em 1999. Estava um adulto feito, embora sem experiência
nenhuma do mundo do trabalho. Dado o seu pouco à vontade junto dos professores, não
continuou uma carreira de investigação que tinha ao seu alcance. Devido só a esse
factor? Parece que sim, pois estava bem com Marília e planeavam casar dentro de
meses. Partilhavam já uma casa na cidade de Lisboa. Marília conseguira dar aulas no
primeiro ano e os rendimentos eram de certa maneira constantes. Permitiam-lhes
comprar livros sob um critério algo arbitrário, o que dava sempre prazer. Tiago deixou
no final o seu part-time e começou a procurar emprego. A sociedade exigia-lhe agora
uma outra postura, uma dedicação continua, nenhuma distração, pois podia cair num
poço de filosofia intima de que não sairia tão cedo.
O primeiro trabalho chegou. A Casa do Ardina era uma instituição que acolhia
crianças com problemas económicos, falta de formação. Era algo especificamente
português e lisboeta. No primeiro dia apossou-se da sua secretária, posta num gabinete
de uma sala aberta onde se ouviam as vozes das administrativas e outros quadros
superiores. Onde há um psicólogo geralmente há problemas. Mas onde há um psicólogo
também há um sociólogo. Neste caso, uma socióloga. Denise parecia ter o ar empinado
de quem tinha um tipo de saber que questionava a realidade e os outras, mas que nunca
se livrava da sua posição de partida. Além do mais, por estranho que pareça estava há
um ano a cuidar de crianças. A primeira tarefa de Tiago foi entrevistar as crianças, uma
a uma. Só por uma ocsião havia feito entrevistas e não se sentia muito à vontade, de
modo que elaborou um guião. É claro que ficava margem para a linguagem comum.
Não era preciso gravador. Afinal, ele era psicólogo e tinha obrigação de ter boa
memória. E tinha. Encontrou casos muito parecidos. Porém, em todos eles algumas
coisas saltavam à evidência: a violência doméstica estava presente, casos de paternidade
distorcida ou ausente, etc. Alguns eram mesmo filhos de reclusos. Que psicologia fazer?
Ouvir, fazer perguntas, indagar, procurar entrar no mundo daquelas crianças de modo
divertido, à sua maneira. Elas conservavam uma alegria que há pouco Tiago havia
reconquistado, e sentir essa comunhão de espírito foi uma alegria constante nos seus
primeiros dias de trabalho. Os diálogos que mantinha com o staff eram breves, incisivos
e vivos, pelo que não os reproduzimos aqui. Distintos eram os diálogos com as crianças.
Mais demorados, fosse no gabinete fosse no recreio, no intervalo de um jogo de bola ou
no café onde amiúde oferecia sumos aos pequenos.
Porém, o emprego de Marília tinha os seus dias contados. Parecia não se adaptar aos
miúdos da zona oriental de Lisboa. Estes miúdos eram um misto de gaiatos de nivel
social elevado com outros provenientes de bairros de lata, nomeadamente a Curraleira.
Na sua maioria eram cabo-verdianos e angolanos. Havia algo que Marília não conseguia
superar. Era tempo de se virar para a tradução. O terreno era denso e competitivo; uma
pessoa tinha de ser necessariamente boa no que fazia. Ao mesmo tempo, os dois
começam a fazer planos, devido à saúde de Marília e às suas resistências em falar com
miúdos faladores e arrivistas, para se mudarem para o campo. Pelo menos para uma
cidade de província durante alguns anos.
Bom, a vida dos dois correu melhor na província. Ainda não têm filhos, mas
esperam uma situação situação mais favorável para o primeiro rebento.

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10.
O sexo. O amor. Como poderemos fazer diferir estes dois conceitos? Depois de
perder o desejo, estou a liquidar o resto. Não sei o que o futuro me reserva. Dado o meu
carácter pensativo, diria que não vou muito longe. A vida ideal parece estar muito
longe. Será que ao longo da vida alguma vez conseguimos um período de satisfação tal
que não nos preocupemos com o futuro, esquecendo o passado recalcado de ideias
distorcidas e perturbadoras? A própria escrita é morna, sem entusiasmo, um passatempo
obsessivo. Procuro unir a vida à escrita. A escrita deve desligar-se da vida para realizar
um efeito libertador na própria psique de quem escreve. Quem lê as minhas coisas não
fica senão a saber como eu o que são aqueles dias tranquilos, perturbantes e
tormentosos. Depois, limito-me a ler outros autores para ver como posso melhor
transmitir os meus pensamentos, quando deveria limitar-me a transmiti-los e aceitá-los
como novos. Estou no cerne da vida e não me consigo libertar disso. Não me consigo
libertar do pensamento. Toda a minha vida é composta de elementos que eu junto. De
pensamentos, de impressões, de gestos mínimos, de esboços de afectos, de coisas
inacabadas.
Espero por mais inspiração nos próximos dias. Mesmo que não escreva, espero estar
mais liberto do pensamento, mais simpático e intrometido com os outros. A bem da
minha sobrevivência afectiva...

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11.
Diga-se em abono da verdade que não escrevo sobre um promontório, de onde
contemplo os meus cidadãos sem conversar com eles, seu aferir as normas do seu
discurso. Falo de uma cave onde, ao invés de ver para baixo, sou visto. Estas minhas
especulações não irão levar a nada se eu não souber, mais do que distanciar-me,
esquecê-las. Sinto que não vivo numa realidade qualquer. Vivo um tormento qualquer.
Coisas, elementos psíquicos, pousaram sobre mim há perto de dez anos e vieram
distorcer e alterar toda a minha vida, ao ponto de me tirarem a vontade de trabalhar.
Acordo todos os dias de manhã de um sonho e sinto o corpo rígido, alheio a
movimentos bruscos. Sinto necessidade de estar mais um pouco para me preparar para
sair. Depois, lavo-me e saio. Enquanto estou em casa não me lavo. A extrema atenção
prestada aos cuidados do corpo, como se fosse a todo o momento ter relações sexuais e
temesse os meus odores, atormenta-me e persegue-me como um leão a sua presa.
Um sentimento de raiva percorre às vezes o meu espírito, como agora. Mas o maior
sentimento é o de frustração, pois se reconheço que tenho algumas capacidades e não
admito ser ajudado (nem posso ser ajudado), a masturbação prostra-me e dá-me um
amargo e desviado sabor da vida. É como se estivessem a doer as estranhas ou a gente
saber que o tabaco ainda faz pior e continuarmos a fumar. Sinto que sou um indivíduo
que se tornou pouco sociável, apesar de no fundo sempre o ter sido. O problema é que
sempre teve poucas oportunidades e muito azar. Falo do passado porque já não sou
jovem e sei muito bem o que já perdi: o fulgor do espírito inquisidor e o da juventude.
Além da frescura de espírito.
É claro que já não penso nas personagens deste romance. Quero fazer um ensaio de
possibilidades, de especulações, de intimidade. A falta de contacto com as pessoas
gerou este ser, pouco afoito à comunicação, reservado, denso, conglituoso, pouco
engraçado. Depois, se penso que estou sozinho é porque estou mesmo sozinho. E nunca
saio deste ciclo vicioso, até me cansar e sair frustrado, não tendo já forças para
caminhar em direcções alternativas. É claro que eu gostaria que as coisas fossem
diferentes: o trabalho, as minhas relações, a minha escrita. Mas não tenho outra solução
a não ser pegar naquilo que tenho e viver.

13
12.
Vou agora contar alguns factos que me perturbam. Um deles é o de não estar a
beneficiar de nada daquilo com que sonhei e estar num mundo de dúvidas, medos e
impressões incertas e inconvenientes. O que estou a escrever está a desvirtuar toda a
quinta essência do que tinha em mente levar por diante, mas a vida é feita destas coisas.
Já passou a fase do romance, da especulação. Agora é o tempo do desabafo. Se eu não
fumasse sentir-me-ia e não chateava ninguém. Agora estou escrevo simplesmente para
me tentar libertar das coisas, sobretudo deste mundo abafado em que vivo há cerca de
dez anos. É um grito de dor e revolta que provalvelmente ninguém vai ouvir. É meu mal
julgar assim. Mas a escrita exerce essa magia de serenar o espírito, como se libertasse o
esperma. Enfim, só espero que alguém leia isto, nem que seja um filho. Já não peço
tanto; um sobrinho. Sobretudo depois de eu estar bem morto e podre.

Tirei a minha licenciatura e pareço não despertar o interesse de ninguém. Pois de


hoje em diante vou ser menos paciente, mesmo com as mulheres! Quando vir uma
preconceituosa, uma púdica, não me furtarei a ofendê-la. Mesmo que seja a minha
mulher. As verdades são para serem ditas. É assim que o mundo pula e avança. Enfim,
coisas concretas. As coisas no domínio da Antropologia continuam a acontecer e eu sem
vida para as a acompanhar. Nem sequer tenho emprego, quanto mais ... Não é tempo de
fazer investigação; correria um risco muito grande. Sei bem que se tal acontecesse,
estaria a debitar as minhas bizarrias psíquicas para o papel em forma pomposa de tese
(?!). Sei que preciso, acima de tudo, viver. Talvez em velho me dedique mais à escrita e
à extroversão dos meus pensamentos. Mas para já preciso de esquecer que existem
certas pessoas, mesmo que isso me custe. Poderei reencontrá-las mais tarde. Falo de
alguns antigos colegas e de alguns professores (além de algumas outras pessoas). Não
vale a pena citar nomes. Mas eu sei bem quem são para o meu coração. Se não tivesse
passado por certas perturbações psicológicas talvez não sentisse tanta raiva do mundo.
Pena é que não consiga direccionar essa raiva a certas pessoas, pois decerto que
ganharia poder com isso. E motivação. Agora ando aqui de um lado para o outro,
pensando que o diálogo se faz por uma chave que se imagina e que eu estou à procura
de uma chave para cada pessoa. E enquanto cada chave não surgir no meu pensamento
não entro em contacto com as pessoas. Mas também estou farto de ligar para os outros.
Digo, por telefone. Já foi tempo... Agora é altura de ser sincero e implacável, exigir dos
outros que tenham tanta preocupação como eu tenho com as coisas. Se sim, sim; se não,
sopas e meia volta. Porque pessoas há muitas e temos de bater a várias portas antes de
descobrir uma névoa interessante em pessoas interessantes.

14
13.
E eu que tinha uma visão sagrada sobre o meu destino e sonhei que haveria de casar
com uma mulher e tê-la para toda a vida. Agora é tarde demais. Que adianta justificar-
me com as prostitutas? Que importa se continuo a sentir um desejo incontrolado por
qualquer mulher? Depois, a atracção sexual ainda funciona da minha parte. É porque
não ligo mesmo nada ao aspecto afectivo ou espiritual das coisa, às coisas da alma!
Procuro, na minha mente, um diálogo por descobrir e não chega nada. Preciso de mais
dados, de conversar com pessoas, de ler dados etnográficos. Os dados psicológicos não
me interessam. Já chegam as minhas derivações psíquicas. Preciso de qualquer coisa
mais sólida. O pior é que preciso de atenção. Mas ao mesmo tempo não consigo sair de
mim mesmo, transcender-me, ultrapassar-me. Bem, também não é necessário tanto.
Basta-me viver o dia-a-dia. Mas eu não quero ser uma pessoa vulgar. E esse é que o
problema. Quero comunicar, transmitir aos outros coisas que vou descobrindo. Por isso
é que queria ser antropólogo. Por isso continuo obcecado pela escrita autobiográfica. É
um meio de me exprimir, como a música ou a pintura, se tivesse tido outra formação.
Sob nenhuma ciência física me poderia exprimir, pois falta-me o interesse. Mas acho
que seria conveniente começar a pensar nisso, a bem do meu bem-estar material. Só falo
em mulheres, em arranjar mulher, e não tenho nenhum projecto sobre a vida. Já passou
a idade dos projectos. Os que tive foram sublimes e irrealizáveis. Não chega já?

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14.
Eram quatro da manhã e eu não estava a conseguir dormir naquela abafada noite de
Verão. A rádio Vox ainda se fazia sentir baixinho no seu rádio de cabeceira. Lá fora há
já duas horas que tinham passado os homens do lixo. Não os ouvira, mas isso não
importa. Espero um pouco na paragem, a poucos metros da sua porta. Há que tempos
que não comunicava com ninguém.
No centro da cidade grupos de jovens saiam das discotecas. Aparte isso, a cidade
mantinha uma certa vida através de alguns dos seus mais nobres trabalhadores: os
tipógrafos, os deambulantes, os sem-abrigo, os mendigos. Enfim, os homens da noite...
Os deambulantes, por exemplo, eram seres aparentemente pouco interessantes: uma
espécie de filósofos cinzentos da cidade, sem destino certo. Homens (e mulheres) de
poucas relações, a maior parte deles desempregados ou com profissões incertas. No
entanto, eram eles que asseguravam a continuação da noite para o dia e cabia-lhes a
tarefa de acordarem todos aqueles que, bem cedo, tinham de ir para os seus empregos
certos. A Câmara pagava-lhes para isso, a meias com os interessados. Cada pessoa tinha
o seu deambulante com quem conversar logo pela manhã, com quem comentar as
primeiras noticias sob um naco de pão e uns ovos estrelados. Estes seres cinzentos
opunham-se aos seres coloridos até nas roupas. Dormiam quando tinham sono em
albergues estrategicamente localizados na periferia da cidade.
Era assim a vida pós-moderna em Speranza. Guido DeSilva sofria de anomalias
mentais inexplicáveis. Tinha o cabelo alto, aloirado e uns olhos azuis grandes, de
infinito. No dia 16 de Julho de 1999 dirigia-se, pelas sete da manhã, para uns pólos
residenciais, uma espécie de urbanização de nivel médio-superior composta, na sua
maioria, por artistas e profissionais liberais: médicos, advogados, psicólogos,
sociólogos, etc. Naquela manhã a sua função era acordar Jaime Tinoco, um músico de
alguma fama no país.
-Então o que temos hoje de interessante?
-Casos de crimes sem solução... A matéria cultural é ínfima, como sempre.
-Come qualquer coisa, Guido. Como tens passado estes dias? Pergunto isso porque
afinal de contas só falamos dos outros...
-Tenho feito umas coisas aqui e acolá... Uns recados. Nem sei em que é que estou a
contribuir para o meu futuro... Não vejo grandes alternativas a não ser continuar no
mesmo.
-Pois... Para voçês é dificil encontrar emprego na “Sociedade Normalizada”. Nem
eu posso fazer grande coisa por ti.
-Pensei em mudar de aspecto e, já agora, de cidade também. Pode ser que noutro
lugar me dêem mais hipóteses...
-Pensa bem.
-Pensar... É o que nós fazemos melhor. E nem sequer somos violentos. Porque é que
o presidente da Câmara não toma medidas e encara o nosso problema de frente?
-Sabes, quem não se insere, quem não trabalha “normalizado”, tem sempre poucas
hipóteses de aspirar a certas coisas. Sobretudo a bens materiais.
-É melhor mexeres-te...
-Pois, adiante. Hoje tens de Ir a Window Park apresentar-te na segunda parte de
James Spader.
-Pois é! Tenho de falar com ele antes... Procura-me o telefone.

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E assim ficaram a conversar até às oito. Jaime deixou Guido com os seus livros
durante a manhã.
-Quandor saíres é só puxar. a porta. Até amanhã.
-Tthau.

As tardes de Guido, eram dedicadas a tarefas individuais. Um contrasenso, quando o


que eles precisavam era de tarefas comunitárias.
Dois anos depois, Guido havia já experimentado a sensação de estar fora do país,
receber finalmente outros ares, falar outras línguas, conhecer outras pessoas. Nesse
tempo o seu estatuto subiu consideravelmente. Começou a ser convidado para participar
em debates sobre a vida dos deambulantes, que entretanto se haviam tornado numa
curiosidade antropológica e histórica em Speranza. Aceitou um lugar como professor
numa universidade privada e viu-se na disposição de poder comprar um carro.
Finalmente um carro! Depois de ter conhecido a cidade de lés a lés pelo seu pé, podia
agora ir aos sitios de automóvel. Porém, a sua vida não tinha mudado interiormente. Era
ainda o velho e psicologicamente instável Guido -o que combatia com sexo frequente e
fácil-, dono de uma inteligência vivida. Não aspirava entrar numa vida muito
movimentada, pelo que começou a declinar convites importantes, começando a mandar
a maior parte da gente à merda. Tinha alcançado um estado de coisas e não queria ser
vítima de tal estado, ficar dependente dos outros. A civilização técnica havia progredido
em Speranza, mas tal não o incomodava demasiado. Interessava-lhe mais a pesquisa
subjectiva e especulativa. As suas fugazes idas à televisão permitiram-lhe gozar com o
poder da telecomunicação, e agora por vezes já aparecia mais bem humorado e mais
descontraído, como se estivesse a falar consigo próprio. Mas por vezes surgiam as
saudades dos primeiros tempos. E sabia que não podia voltar atrás. Vivia os seus 35
anos com cada vez mais perguntas. Precisamente porue havia renunciado à “Sociedade
Normalizada”. Uma dúvida que frequentemente o assaltava era o facto de saber se havia
procedido bem do ponto de vista exterior. O que foi feito estava feito. Pelo menos dava
as suas aulas e já estava num patamar de bem-estar que nem os seus pais e os seus avós
haviam sequer sonhado...

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15.
A tarde é calma e espero os meus amigos. Há uma vontade de nada fazer, um desejo
de que todos os limites impostos ao espírito sejam desfeitos por revelações ulteriores.
Oiço canções antigas de Black (1991) para serenar. Folheio o Le Monde Diplomatique
em edição portuguesa e constato como estou afastado do mundo. Há conflitos que
outros jovens como eu sentem na pele. Haverá jovens como eu por esse mundo fora?
Estamos a chegar ao próximo mílénio. É apenas mais uma data importante, mais uma
passagem de ano.
Estou a chegar à idade de Cristo. Depois dos trinta e três será só gozar. A obra
escrita não se pode dispersar. Tem de se ter ter respeito pelo que se cria e acarinhar isso
como se fossem verdadeiros filhos. Dei exemplares da minha obra a pessoas que
cometem erros todos os dias e que não sabem o que representa um livro. Em vão, agora
sei. Enviei para a Rádio Vox um texto que vou pedir, exigindo justiça. Outro, o
“Fluidos”, enviei para a Alexandra, essa minha amiga de longa data. Foi uma obra que
me custou imensas horas de sono. Trata-se de um conjunto de obras, que incluem
escritos diversos, que quero juntar num volume de “Pensamentos”. É claro que a
minha produção não é grande coisa. Admito isso. Mas dadas as minhas condições não
se pode fazer muito melhor. Aliás, o que eu mais explico são as condições de produção
da escrita. Estou ansioso por sair daqui. Já chega de apartamento! Alguns dias de aldeia,
depois o campo de férias, depois o trabalho e por fim o regresso às aulas (a ver se junto
algum dinheiro que dê para um carrito em 2ª mão). Ah! E também tenho de tratar dos
óculos e dos dentes. Bom, estou a ver que hoje já não debito mais nada. Até à vista.

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16.
Costuma-se escrever a partir de um ponto escrito no céu, um ponto presente de um
acontecimento (presente ou passado). Começar por um facto que se poderá deslumbrar
no futuro pode ser experimentar viver antes de por a carroça à frente dos bois. Algo. que
nos traumatizou é bom para se escrever: dá linhas, é problemático e faz-nos questionar.
À medida que avanço nos anos cada vez mais me conheço e, resultado da timidez ou do
diálogo com os amigos, reconheço uma forte rigidez de espírito no meu carácter.
Consigo identificar vários defeitos em mim, mas estou longe de ser.capaz de os eliminar
de um dia para o outro. De uma maneira ou de outra, interessa-me ser uma pessoa
completa que enfrenta os desafios da vida, profissional e sentimentalmente. É nestes
dois aspectosque eu me revelo mais fraco. Continuo com grandes oscilações nos meus
dias. Falta-me um certo à vontade. Preciso pensar menos em coisas sem importância.
Tenho de esforçar-me por reter no meu pensamento coisas muito mais importantes e
significativas como o caso de sentimentos de alegria partilhados. O meu pensamento
fica preso com cola a ideias que não são possiveis de transmitir por palavras. Por isso
não têm valor. São fragmentos que muito pouca gente entenderia, e o que eu quero é
chegar a um cada vez maior número de pessoas. É uma opção, e temos de ser fiéis (será
que temos?) aos nossos compromissos.
Depois .de bons momentos retraio-me. Como se a timidez fosse algo de congénito,
como se fosse quase um autista. Às vezes a dor é insuportável e só me apetece gritar ou
chegar ao pé de alguém como um jovem particularmente atraente e desatar a falar
esquizofrenicamente. Mas contenho-me e volto para casa. Mas lá no fundo talvez isto
não seja só uma questão de timidez. Eu sei que existem alguns medos recalcados,
pequenas vergonhas. E um certo receio de as revelar, de me assumir. O que só posso é
que tenho os anos que tenho e ainda não me revelei ao ponto de dizer “Isto sou eu!”
Não sei quanto tempo vou esperar por isso. Talvez não seja bom esperar com muita
força, pois posso vir a ter alguma decepção. É melhor fazer como diz no slogan e não
deixar que nada me perturbe. Dedicar-me apenas às coisas de que gosto, cultivar o meu
interior. Mas esta dualidade interior/exterior é um pouco limitada. Quero ir mais além,
ver as coisas mais esbatidas e difusas, por assim dizer...

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17.
A música não era a mais adequada para dois pares de namorados na praia. Contudo,
na Costa da Caparica via-se (e permitia-se). Na esplanada, Telma estava um pouco
desanimada com o seu namorado. Cris ria-se das piadas que ele próprio dava segurando
o jornal Record. O artigo das páginas centrais falava do futebolista francês Eric
Cantona. Era impossível alguém ser tão insolente no relvado. A música era brasileira.
será que era a mais adequada? Estava-se numa espécie de satélite do sentimento
brasileiro do “doice fare niente”. Era um estado a que se rendiam alguns europeus que
ali afluiam, certamente descontentes com o estado social das coisas. O Verão .ainda
estava no princípio e estava distante o Inverno desejado secretamente por Cris. Fingia
não ser tímido. Julgar-se tímido era uma forma de explicar os seus pensamentos e o seu
comportamento. Uma espécie de bolsa onde cabia muita coisa indesejável.
Atormentava-o pensamentos inoportunos e indesejáveis. Queria estar mais com os
amigos, mas Selma aprisionava-o num namoro obsessivo. Era tempo de se libertar das
amarras de uma sexualidade pouco saudável. Telma era diferente Sensível e possuidora
de uma inteligência viva e sagaz, não tinha frequentado a universidade mas lia com
frequência obras escolhidas ao critério do seu sentimento e estado de espírito
quotidianos.
Os dois pares deslocavam-se de novo até à praia para apanhar o sol e o banho da
tarde. Debaixo de chapéus de palha alguns pares estavam demasiado juntos e à vontade,
inclusive com alguns topless aqui e acolá. Três amigos olhavam para elas fazendo
comentários malandros. Este tipo de cenário não dá para um conto, mas para uma mera
descrição de costumes que não almejo fazer. Não tenho poder descritivo para tal. A
minha imaginação romântica já há muito que teve os seus dias e agora sobrevive apenas
a um nível existencial, não sobrando para o papel. Vivo ainda dividido entre .a escrita e
a vida, mas recuso-me a acreditar que a minha escrita não reflicta a vida. Além do mais,
não ocupo nenhum lugar que dê continuidade aos meus pensamentos, onde receba por
pensar. Nem me posso arvorar em intelectual oficial nem ter os proveitos materiais ou
aproveites sentimentais de tal posição. Sei que o terreno que piso neste momento é
transitório. É possível que venha,a ser um desencantado da vida. Mas não o serei por
não ter meios, pois os meios não são tudo. Procurarei outros lugares, outros estados de
espírito mais próximos dos meus desejos...

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18.
Aos 25 anos, tendo ganho o seu primeiro ordenado dando aulas e explicações de
matemática, Cris começou a equacionar a possibilidade de mudar de rosto. Fazer uma
operação plástica no rosto de alguém famoso, tornar-se conhecido por esse processo.
Sim, porque nos seus melhores diás considerava-se um artista. Mesmo os mais íntimos
problemas não o abatiam e a timidez parecia desvanecer-se. Ora, não era possível
tecnicamente falando, copiar a cara de alguém existente, pelo que no primeiro
aconselhamento o médico sugeriu-lhe umas alterações ao seu rosto que em muito o
iriam favorecer: aumento do nariz, operação à córnea (para retirar a miopia) tornar a sua
pele um pouco mais suave (sobretudo na zona da testa e das maçãs dos rosto, de modo a
retirar indíçios de rosto perfuradopor uma má gerência do acne nos anos verdes da
juventude).
Passados cinco anos havia junto perto de mil contos, fruto sobretudo de pesado
trabalho em dar explicações. Aos trinta anos estava prestes a modificar o seu rosto para
sempre. Era assim que celebraria a entrada no novo milénio: como outra pessoa. Como
a operação corresse bem, dois meses depois olhava-se no espelho e gostava do que via.
Não tardou a encontrar urna namorada só pelo seu novo aspecto: o rosto tratado e
atraente, o cabelo cuidado com o melhor shampô... E ainda por cima sem óculos! O que
mais queria? Nem era preciso pensar nem falar muito. No seu trabalho, a sedução
parecia substituir a alegria. Aos poucos uma namorada já não era suficiente. O seu
telemóvel era frequentado por três, quatro companhias habituais com quem se envolvia
em quentes relações sexuais. Contudo, no trabalho a indiferença face a
responsabilidades e a colegas ia aumentando. Não tardou que ele próprio se despedisse e
entrasse no subsídio de desemprego. Cris sentia pela primeira vez que estava perdendo a
alma .O novo século, o novo milénio, haviam-lhe trazido satisfação da sua sexualidade,
haviam-no tornando numa pessoa serena e fácil, mas sem raiva e sem arte. Numa
palavra, sem, paixão. No ano de 2005 já não era possível voltar atrás. Havia comprado o
seu novo rosto como um produto inovador e tentador, daqueles que existem à venda nos
hipermercados. Como poderia voltar para o seu interior com um rosto que chamava toda
a gente à atenção e apelava para a socialização?

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19.
A dor persegue-me como a sombra da própria morte. É momentânea, graças a Deus,
e por isso posso continuar. Descubro um pouco do meu futuro e reconcilio-me com
algumas ideias que representam o que desejo fazer: estudar, trabalhar num local
agradável, escrever. Li algures num livro sobre a timidez que isto tudo são indíçios de
alguém que anseia ser rico. Talvez no meu caso seja a fama aquilo que busco. O desejo
de ser reconhecido. Esta ideia persiste, apesar do meu passado doloroso e introvertido,
apesar do meu presente confuso. Em todo o caso, terei de optar em breve por uma
perspectiva liberta e ligada às artes. Uma perspectiva material e pedagógica. O que está
em causa não é tanto um emprego definitivo, mas uma ocupação que permita lançar o
futuro como eu sempre quis, sem deixar de ter em vista, a médio prazo, a aquisição de
um carro. O objectivo “Viagens” não se pode realizar por si só sem eu ter fundos. Por
isso ficará restringido a uma poupança a efectuar para solver no tempo das férias. É
claro que queria ter mais dinheiro para comprar livros ou música. Mas terei de refrear os
meus instintos. Depois, no plano mental, como conseguirei conciliar o desejo sexual
com as aspirações intelectuais, sendo eu, de algum modo, um tosco? As veredas são
múltiplas e frequentemente tenho de virar à direita ou à esquerda nesta estrada da
descoberta de mim próprio e dos outros. Confesso que estou farto de mim próprio. Mas
o que sou eu senão também um compósito de elementos alheios e internos? Depois, e
no que respeita aos estudos não sei por onde ir: se pela Psicologia (que já não me
fascina por ser tão redutora), se pela Geografia (por uma questão ilusória e auto-
convincente de um dia me tornar professor) ou se pela Filosofia (que me tem escapado
por falta de tempo e de atenção). Pela Literatura é que nunca, pois o que faço e escrevo
não é literatura. O que escrevo são ensaios sobre o comportamento humano. Tanto o
meu como o dos outros. Se resulta do diálogo, indirectamente e por vias que agora não
consigo decifrar, melhor aparecerá no papel. Se resulta de cansaço e de pensamentos
especulativos e subjectivos pior, pois é disso que tenho procurado fugir. Por isso a
minha escrita é, tanto quanto eu desejo, uma fuga de mim próprio. E em direcção ao
futuro, tendo como referência o passado da minha memória subjectiva (que contém
dados objectivos).
Apesar de tudo, pareçe que até me estou a sair bem. O espaço que tenho não advém
do desafogo económico, mas do esforço que faço em manter-me por Lisboa, sempre à
descoberta de novas ideias e a despoletar no meu espírito novas sensações e impressões.
Ao mesmo tempo, continuo sem me especializar, querendo absorver a realidade como
uma totalidade. Estranha-me ter tais desejos intelectuais e ao mesmo tempo ter mãos
para o trabalho manual (como vou experimentar nestes dois meses que se seguem). É
sinal de que continuo, apesar da solidão e dos desafios da razão, fiel à minha
personalidade, aspirando a algo que não tenho a não ser no meu pensamento. E fiel
também às minhas raízes familiares. De certo modo, e dado que já entendo um pouco
melhor o funcionamento da minha faceta psíquica, sei agora como lidar com ela. Já a
caracterizei exaustivamente, embora de um modo ainda um pouco solto e difuso. E
posso resumi-la.
Tenho receios e pruridos de obstáculos psicológicos; uma grande carência afectiva.
Uma necessidade física de contacto sexual e de estabilidade emocional. Quando dou
autonomia à minha libido retraio-me, para logo depois me expandir novamente. Seria
tolo se não fosse assim. Quando esqueço a televisão e os media (isto é, a imagem em

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si), perfuro uma dimensão de fantasia e de auto-flagelamento-comiseração-lamentação e
entro na realidade, passando para o campo do inconsciente, sob a forma de sonhos, a
minha actividade psíquica principal. Aí, embora me sinta melhor, não perduro. E é isso
que me confunde e me cria uma teia de pensamentos de tal forma enervante e pouco
saudavel que sinto uma espécie de fumo branco, redondo, sob a minha cabeça. haverá
lugar para a timidez em todo este processo? Não sei. Se não fumasse talvez me sentisse
um pouco melhor e conseguisse dar largas à minha afectividade de um modo mais
saudavel. Mas neste ciclo também entra o café. É mais um ritual dotado de carácter
orgânico, típico da actividade criadora da escrita. Não tenho em grande conta o que
escrevo porque isso não é o resultado de nenhuma vivência intensa ou de alguma
paixão. Se assim fosse, trataria logo de mandar queimar todos os manuscritos que
possuo. Ou então mandaria arquiva-los...

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20.
A necessidade do diálogo ainda. Telma tinha enjôo em ler livros sobre sentimentos.
Procurava diálogos e acção. Não que o português dos diálogos transbordasse para os
diálogos orais. Nem sequer procurava conhecimento. Os livros davam-lhe a satisfação
depois de uma barrigada de horas de tv. Na calma, à noite no seu quarto, penetrava nos
desígnios da leitura com calma, prazer, dando um ar de solenidade à sua alma. Até
adormecer um pouco, ficava ali deitada, as janelas entreabertas deixando passar um
pouco de vento. Há muito que o seu quarto deixara de ser uma espécie de santuário para
passar a ser um lugar de sonho e criatividade, de labor da alma. Passava pouco do seu
dia no quarto e a única actividade que realmente a satisfazia era ler. Depois procurava
estar o máximo de tempo possível lá fora, observando elementos de realidade que
conjugava e comparava com os seus personagens. Absorvia-se no jornal onde
trabalhava, procurando ouvir as histórias dos outros com poucas mas firmes
interrupções e perguntas. Eram poucas as oportunidades de saborear e conhecer a vida
através do jornalismo. Uma ou outra reportagem, uma ou outra entrevista.
Há dias deslocara-se a uma prisão para ouvir uma peça de Kafka representada por
um grupo de presos, os que mais cultivavam um espírito de clausura. O público era
escasso, mas isso não impediu Telma de fazer a sua reportagem. A política, a economia
e a vida social aborreciam-na porque só falavam de extremos materiais. Raramente
abrangiam os extremos morais como a solidão, o sofrimento atroz e o esqueçimento.
Depois, o que os média mostram são continuidades que tentam, de alguma forma, dar
uma explicação e uma contextualização ao mundo. E sempre de uma forma elementar e
repetitiva.
A televisão cegava Teima. Mas todos os dias a ligava. Às vezes para se deixar
distrair; outras para se esquecer de que havia outros mundos que ela pensava
inacessiveis. E esses mundos também continham pessoas, histórias de vida distorcidas,
exageradas, sinuosas e abruptas. No fundo era isso que ela procurava e que não
encontrava no perfil do namorado. Seja como for, uma relação teria de existir e persistir.
Até que viesse uma revelação, por mais pequena que fosse, que a fizesse pensar por si
própria ao ponto de se tornar intelectualmente autónoma.

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21.
Às vezes é tempo de nos desfazermos de velhos papéis, ficando somente os livros e
alguns documentos mais importantes. Parece que escrevo para explicar cada acto, cada
“tour de force” da minha parte. Há que experimentar libertar-me mais da escrita,
procurando não celebrizar tanto os meus actos.

Há dias em que não nos apetece dizer nada. Somos tão tímidos que nos limitamos a
ouvir, a responder e a fazer algumas perguntas de circunstância. Ficamos espantados
como podemos estar tão longe do mundo.
-Hoje é um daqueles dias em que não me consigo animar.
Depois há uma espécie de quebra física.
As manhãs custam a passar; já não tenho a mesma frescura de outros tempos.
-Faltam-te medicamentos.
-Não. O problema não é a falta de medicamentos. É a falta de motivação e
desprendimento.
-Mas isso aprende-se com o tempo. Há sempre uma iniciação, uma realização. O
que parece é não estares ainda iniciado.
-Pois, tenho desperdiçado algumas oportunidades. Mesmo com algumas mulheres,
as que mais desejo, fico nervoso.
-És tímido.
-Não, não parece ser esse o problema, como já referi. A questão parece ser se a
timidez deriva do foro afectivo... Ou seja, tentar saber se isso é mais mental do que
outra coisa. Por exemplo, não estou totalmente satisfeito com o sítio onde vivo: a janela
onde passo a maior parte do tempo dá para um páteo e um ringue onde todos os dias se
joga futebol. Depois, a viagem que faço de regresso é deprimente: a Morais Soares, o
grande muro do cemitério...
-Mas a casa pelo menos é tua!
-É, mas infelizmente não a posso trocar por outra...
-Tens é a mania de te estares sempre a queixar.
-Não. Tenho é a mania de ser exigente comigo. Comigo e com o que me rodeia,
sejam pessoas, sejam coisas!
-Tens é falta de trabalho.
-Nisso concordo contigo. Pareço uma donzela com falta de homem.
-Podes deixar de te preocupar a partir da altura em que começes a fazer as coisas
principais. Talvez o teu problema seja estares um pouco indeciso e não teres convicção
do que é que realmente queres.
-É. Mas continuo a pensar que haverá por aí algum lugar onde me possa realizar.
Um lugar que esteja guardado só para mim. É como pensarmos “queria para mim as
mulheres desta cidade, ou desta aldeia. Só deste lugar.”
Este livro já acabou. Estou farto de escrever na escura solidão. Não há muita
capacidade para inventar a amizade e a solidariedade, pelo que se devem deixar a
fermentar algumas ideias e mais tarde colher os seus frutos.

23 de Julho de 1999

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-Mas tens uma aspiração legítima.
-Pois. Uma aspiração de poder.
-A questão do poder é que tens de reconhece-lo e lidar com ele. Controla-lo. O que
não quer dizer que o tenhas de usar, se não quiseres.
-Usar o poder é ser professor, por exemplo. Exerces poder sobre os teus alunos
porque és, supostamente, portador de um conhecimento que deves transmitir.
-Mas eu queimei-me.
-Como?
-A morder-me e a atormentar-me, a maior parte dos dias, por aquilo que não fiz e pelo
que não sou.

A pornografia é um olhar honesto. Mas que ganho eu em ser honesto? Sou antiquado,
obsessivo e platónico. Sou também impulsivo, o que não quer dizer que seja violento. A
violência vai-se perdendo quando se perdem as forças e a confiança. Depois vivo como
se o meu único objectivo na vida fosse conhecer mulheres e fazer sexo com elas, quando
estou certo de que existem coisas bem mais interessantes para se fazer. O pior é que não
surge nada que se cole ao meu pensamento e me apaixone.
Já chega de diário por agora...

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