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Brancos Costumes

Brancos Costumes

Victor Mota
1.

Fisicamente só. É assim que este novo romance começa. Por entre as friestas e das veredas do
meu inconsciente, persigo o sonho. Uma forte dor no peito me aflige. Parece que estou
condenado a ser eu mesmo em qualquer época, em qualquer sentido, mas sem sentido. Esta
última obra será continuada apenas porque outros projetos não têm ainda chancela da
Biblioteca Nacional e da Associação de Livreiros. Não, não se trata de um policial, nem sequer
de mais uma aventura confessional. Nada há aqui para confessar. Não há culpa nem regressão.
Não há sofrimento nesse horizonte que se estende, longínquo e inesperado. Há qualquer mais
importante do que Kafka, porque toda a gente parece querer preocupar-se em demonstrar,
em provar, quando com certeza mais valia estar calado. Eu proposto em minha defesa,
enquanto as chaves tilintar se balanceiam nos bolsos de um rancoroso amigo de infância…

Por dias, já que se aproximava o verão, e quase toda a gente no mundo sabe como é o verão
em Portugal, resolvi abandonar por dois ou três meses a tese inacabada ou acabada, pouco
importa aqui ao caso, resolvi agarrar o momento e fugir às formulações científicas de uma
antropologia filosófica, fugir do homem para me encontrar a mim mesmo. Percebi que mais
uma vez, naquele verão, as mulheres estavam todas ocupadas, era mesmo show off, tinha
perdido o coração e ele não havia acordado na aldeia. Estava angustiado: tinha uma tese, boa,
má, medíocre, não interessa, tinha-a, na mão, muito mais além do que desejara. Mas não
tinha dinheiro. Até a vida tem um preço, por mais cruel que possa parecer. Havia trazido para
Lisboa uma quantidade de chaves da casa dos meus pais e havia trazido comigo o Mercedes da
ferradura de cavalo. Tudo voltara para atrás, pelas artes de não sem quem nem nunca saberia
tampouco. Nunca teria percebido até que ponto chegara o meu texto, nem nunca saberia se
tivesse perguntado a alguém. Moral da história: sempre chegamos onde nos esperam.
Enquanto estava preocupado com a minha imagem, a vida corria lá fora, animada e venturosa,
enquanto eu, confinado à minha casa, procurava ainda fazer sentido e para que existem as
palavras senão para isso? Fazer sentido, conceptualmente, pode ser um caminho entre muitos
outros. Clinicamente, estava um pouco instável, emocionalmente bastante agitado e violento
verbalmente até dizer Basta. Havia insultado todos os meus amigos e todos os meus vizinhos e
sentir-me arrependido não bastava. Assim, aprendia a ser melhor pessoa, com os meus
próprios erros. Talvez reconhecia que uma maneira de ajudar os outros é ajudarmo-nos a nós
mesmos. Aí está sem dúvida um ponto de partida para nos conhecermos melhor e chegarmos
ao relacionamento com os outros. Mas ajudar quando nem votos, há pouco quem. Depois,
mais uma linha, mais umas palavras, nada de frontal, tudo refugiado em seu gueto íntimo.
Quando fazia sol e entretanto a praia estava boa. Aprendi a ter calma comigo mesmo, para
com os meus desejos, a ser civilizado sem recear males maiores daí ao mundo, enquanto me
cingia ao lugar que generosamente me fora atribuído. Tinha sorte em estar vivo. Nesta última
obra, que eu empreendia pouco a pouco, estava o gérmen de um possível regresso à poesia.
Entretanto, em tempos de crise, talvez crise de crescimento, não me comprometia demasiado
como fizera em outros tempos. Media aquilo que tinha para cumprir, empreender. Uns iam
para fora, outros ficavam sofrendo bastante, todos sofríamos porque nos queríamos manter,
vivos e actuantes nesta pletora de sentimentos, regressados a nós mesmos, ao inferno de nós
mesmos, ao paraíso que esperávamos ser, ao purgatório em que conjugávamos verbos
distintos nesta torre de babel mais ou menos insidiosa. Insistia, ainda assim, numa espécie de
teimosia que confundia ciência, religião e outros registros mais ou menos tendenciosos,
inacabados, deixando, porque era verão, a tese de lado, para um inverno mais ou menos
distraído em que me poderia ocupar com pensamento científico, filosófico. Vivíamos em plena
crise política, o verão certamente que iria ser bastante animado, enfim, assistíamos aos
dissabores e agruras da civilização industrial. Estava ainda em Lisboa e sabia que iria ficar por
aqui, para sempre. Esse era afinal o meu destino, que descobri por portas travessas e vielas
ínvias e escuras, Lisboa tinha-me esperado todo este tempo como amada ou amado e estava à
minha disposição, noite adentro, fazendo jus ao seu título de grande sedutora. Estava só e sem
desculpas, havia finalmente colocado a última peça da minha tese, defendendo que o banal
era o elemento comum do imaginário de todas as sociedades, o que poderia parecer
demasiado pretensioso, mas que fazia bastante sentido para mim, sobretudo porque havia
vindo de um meio físico e social rural, para o da grande cidade, sem que tivesse algumas
imagens de pequena infância de uma Paris mais ou menos cosmopolita. Nas notícias, dizia-se
que França é o maior consumidor de antidepressivos e antipsicóticos, será também um dos
maiores consumidores de drogas e tabaco, para seguir uma linha médica de pensamento. Ora,
por esta altura já se liberalizaram as drogas leves em Portugal e todos, mais ou menos todos,
sabem que mais tarde ou mais cedo teríamos de adoptar esse bom exemplo de outros países
mais avançados do que o nosso. E a agricultura? Porque não tratar da agricultura em vez da
despenalização das drogas? Estamos dando maus exemplos, sem dúvida, aos mais novos. Cá
por mim, se vier a consumir poderei ter de aprender a conviver com a morte, coisa que não
procuro, mesmo fumando um maço de cigarros por dia. Coisa que evito. A bem do exemplo
que se possa dar aos mais novos. É melhor ser um exemplo vivo do que outra coisa. Há uma
espécie de bondade e complacência no liberalismo económico, que é mortal mesmo para o
mais comum dos mortais, para aquele que nada tem a ver com o assunto dos outros.

Dia após dia, continuava esta obra, julgando ou pensando julgar que me deteria um dia,
naqueles turbulentos dias políticos pós-revolucionários, em que a ideologia poderia ser um
pretexto razoável para se discutir assuntos sérios como a legalização das drogas e da
prostituição. Mas, enfim, a minha posição cingia-se à relatividade das coisas e à minha
experiência pessoal, pelo que entrevia uma certa possibilidade de, depois de alguns anos entre
a religião e o marxismo vindo da antropologia, deixar uma nota que poderia ir no seguinte
sentido: abolição da prostituição obrigando os jovens a fazer amor? Isto não fazia sentido.
Como católico, tinha dado as minhas picadas a troco de dinheiro, não nego. E segurava-me em
pretextos vãos para justificar a minha conduta desregrada e falta de jeito com as mulheres. Era
certamente bissexual, por isso, teria de ouvir os católicos conservadores e os cientistas sociais,
uns defendendo sim ou não quanto aos dois assuntos que referi acima. Eu era publicamente
contra a legalização das drogas, mas em privado defendia a legalização. Quanto à prostituição,
era a favor da legalização, não adiantava entrar em hipocrisias. Era assim que me sentia
naquele verão ainda sem conquistas.
2.

Num instante, procurei lembrar-me que uma das tarefas do escritor seria gerar sentido, por
meio de palavras ou outras aplicações, tendo em vista o objectivo incomensuravelmente
humano de gerar sentido através ou recorrendo a coisas ou fenómenos que não têm sentido,
já que quanto àquelas que nos aparecem com sentido não precisamos de o gerar. E aqui
voltamos à questão do tempo, o tempo das personagens que poderão chegar, o tempo que se
perdeu não trabalhando e o tempo que se ganha em boa vida escrevendo. Depois de uma
longa ausência, Lena d’Agua voltava a passar na rádio, enquanto seu irmão, Rui Águas, antiga
glória benfiquista, treinava a selecção angolana de futebol. Os rostos e expressões de
circunstância, em não-situações, quero dizer, em contextos sociais mínimos em que não há
comunicação directa, podem ser exemplos de aprendizagem da serenidade do conhecimento,
da compreensão, da intuição. Lia num livro de filosofia que a comunicação é tão importante
quanto perigosa e isso era bastante certo numa sociedade na qual se avançara bastante, com
prejuízo para muitos jovens, perdido e esgotados na tecnologia. Sentia-me ainda com fôlego
para viver um par de anos, acabar esta obra e deixar que Deus fizesse o resto, pois já o havia
chateado bastante nestes dias atarefados em busca de personagens e situações mais ou
menos experimentais que nunca mais chegavam. Não querendo arranjar vítimas de
circunstância, podemos dizer que Leónidas procurava uma sorte diferente da que havia tido
até então, ziguezagueando socialmente, erraticamente, de um lado para o outro, quando os
irmãos lhe diziam para se remeter ao seu cantinho, o que ele pensava ser uma provocação,
pois que com gente dotada de um mínimo de código de conduta não resultaria
esplendorosamente. Longe estava a narrativa tipicamente prosaica e ardorosa, vagarosa, não
havia nenhuma espécie de redentora libertação que não pudesse significar senão
aniquilamento moral e existencial, pelo que resolveu ser mais cuidadoso para não borrar a
pintura de forma imparcial. Fazia a sua tarefa como rotina, apenas para se convencer a si
próprio de que fazia alguma coisa de meramente terapêutico. Sabia que um texto com
qualidade pode estar esquecido na memória dos homens de modo insuspeito e invisível, mas
que quando liberta seus odores e fragrâncias próprias, qualquer coisa de inatacavelmente
redentora pode acontecer. Ainda assim, não me cansava da minha prosa, falava em tom
pessoal de problemas que se sucedem num mundo em transformação, no qual a vida e a
morte andam disfarçadas, através da luz do dia e da sombra, na noite. Escrever
desagradavelmente é, antes de mais, não trair a realidade, fazer, de algum modo, filosofia. A
esta arte dos fins últimos do homem e do que lhe gravita na órbita é qualquer coisa que deve
ser acarinhada, pois antes pensar nos problemas para que não aconteçam, do que não pensar
e assim os provocar, os chamar, os atrair, sem que seja pedida desculpa a um e a outro que
passa. Tudo tem o seu tempo e o meu, sei que não posso forçar muito mais, está chegando, o
tempo e o fim estão chegando, de modo que não podia ficar parado no tempo, ouvindo vozes
a todo o tempo, tinha de fazer impor, por varias vezes, a minha voz, ao menos durante um
certo espaço de tempo, para que alguém percebesse que um dia eu havia existindo, troando
por aí além, desordenadamente, comme il faut.
3.

Não sei por que artes, sentia-me de novo engajado numa espécie de missão ou fervor
humanista, que me levava a fazer coisas e mais coisas, com as quais me havia comprometido,
sendo que por vezes exagerava, mas a noção de falta me fazia recompor a minha identidade
pessoal. Depois de ter estado bloqueado uns dias, ensaiava pensar acima da ponte entre
antropologia e psicanálise e quanto mais escavava no fundo da minha mente mais descobria
os sentimentos que me iludiam no quotidiano, esquecendo definitivamente ou não, estava
confuso, a questão do controlo dos sentimentos. Mas sabia que demasiada obsessão pelo
controlo podia gerar sentimentos contraditórios e nefastos. Muito nefastos para nós e os
outros, pelo que quanto mais se avança na idade, mais se sabe a respeito de nós mesmos e
daqueles que connosco se relacionam, no quotidiano ou ocasiões festivas ou cerimoniais.
Tinha saudades de sentir a paz e serenidade de uma igreja. Lá, a maior parte dos nossos
problemas fazem sentido e lá poderemos resolver senão todos, pelo menos grande parte de
nossos problemas, sejam eles de que ordem psíquica, sentimental ou económica. Estava
chegando ao fim de qualquer coisa, como chegara em algumas coisas na minha vida,
procurando levar o dia-a-dia da melhor maneira para mim e para os outros, procurando gerar
sentido a partir dos fenómenos que meus olhos captavam. Podia estar paralítico, podia estar
cego, na realidade não entendia bem o que se passava comigo, estava perdendo qualquer
coisa mas sentia também que estava, ao mesmo tempo, ganhando qualquer coisa, qualquer
coisa parecida com saloice e maturidade. Essas duas coisas corriam como poderoso curso de
água pela minha mente. E que forma tem a mente? Alguma forma geométrica, cheira a alguma
coisa, sabe a tâmaras ou limão? Sabia perfeitamente que não sobredotado nem tinha nenhum
dom em particular. Apenas queria continuar a tentar, acreditando, vendo e vibrando ver os
outros conseguirem, melhorar a autoestima, continuando a tentar, tentar até conseguir, sem
ousar ser persistente, sem abusar da sorte que me havia calhado, porque apenas de sentir
solidão, talvez não tivesse as armas necessárias para uma nova relação e forçando ainda
acabaria de se partir o cântaro. Aquilo que escrevia não dizia respeito a muita gente, esqueci
por momentos o ardoroso desejo de pretender agradar a toda a gente, a toda a hora, pelo que
até tinha tido um dia excelente, mesmo não tendo acontecido grande coisa de concreto que
pudesse alimentar em relação a mim mesmo projectado no dia de amanhã.

Estava, como se diz em bom português, feito ao bife de uma vez por todas, tinha uma ou outra
responsabilidade, queria fechar-me sobre a minha concha e ao mesmo tempo abrir-me para as
radiações positivas de um dia de praia, contudo, nem carro nem namorada, enfim, no woman
no cry, percebi que era um ganda cro-magnon. E enfim, queria era livrar-me das indisposições
e dormir descansado, não sem antes tentar qualquer coisa de cómico que se faz tarde. Uma
coisa certa e sábia aprendi nesse dia: deixar as crianças serem crianças.

Estava farto de pouco fazer, no entanto nada de especial tinha a fazer. Sabia que todos os
momentos eram cada vez mais importantes e o facto de nada fazer também o poderia ser. Dia
após dia, estava cada vez mais isolado, não conseguir vislumbrar qualquer personagem ou
situação minimamente literária, embrulhado que estava com filosofias da vida social, sentia o
isolamento social nos ossos como o frio de certas manhãs de outro tempo, não me capacitava
com o facto de ter estado a perder, que as regras do jogo da vida social haviam mudado e
quem as ditava eram, como sempre, os mais jovens, em pleno contexto de darwinismo social.
4.

Escrever qualquer coisa de social, escrever por escrever, falar por falar, alguém deve falar,
alguém deve falar antes que se corte o ar e pereçamos ante nossos percalços descuidados.
Então, sempre que sentia que as coisas corriam mal para os outros, não havia que inventar,
olhava para mim e pensava, “mesmo durante as crises há quem queira viver com sofreguidão”.
Assim, enquanto fingia que passeava, resolvi explorar as minhas limitadas capacidades
literárias e trabalhar um personagem feminino, coisa que em anos nunca me atrevera a fazer.
Enquanto me chegava mais à frente no tempo, sabia que havia perdido bastante no caminho,
mas nem sempre o que vence vence. Aquele que vence, não se percebe, mas também trabalha
para a equipa. Querias o meu pauzinho, mas primeiro vais ter de arranjar o cabo.

De algum modo, Loreta deixava cair o cabelo para cima de um dos ombros, enquanto Paco se
desviava de sua condição afectiva, para dar lugar a uma sobreposição de identidades no plano
pessoal. O facto de pretender uma vida normal, como o de muitos seus conhecidos, só
funcionava ao contrário, no sentido de acumular sentimentos na margem da sociedade. Enfim,
aquelas vida eram um seca, não adiantava mais insistir em filosofia ou estudo do meio, para
daí partir para a literatura, para a ficção, ou prosa filosófica, enfim, o real pedia para ser lido,
por interpretações mais ou menos tolas, descendo à vulgaridade, seguindo pelo banal e
acabando no espiritual. Não se proporcionava nenhum golpe de sorte ou genialidade, os dias
eram chatos como nunca o foram antes. Esperar, persistir, continuar, podia ser um lema, no
entanto.
5.

Nada de especial. Enquanto tinha medo de escrever poesia, enchia o balão da prosa, num
tique-taque que nada trazia à ciência, a social ou a outra. O meu espírito estava desgovernado
e a pique. Tinha medo da morte de mim mesmo e da minha morte com o que a dos outros
mais próximos pudesse significar. A música ecoava na minha sala de estar, sala de pseudo
trabalho, pois nem daqui a dois anos poderia entrever o meu futuro enquanto escritor
profissional. Não o era. E inventava a solidão como desculpa. Cumplicidades psíquicas e
transcendentais enformavam os meus dias de desalento, entre a outra , mais uma, desculpa de
uma tese em filosofia, quando me entorpecia o pouco saber que produzia...aislado de mim
mesmo e dos outros, deixando encher um balão tonto e desmiolado quanto estes dias
demasiado pensativos, racionalistas. Tinha estado a noite anterior acordado, mesmo quando
decidira ter acabado a tese nas 89 páginas. Corações Imprevistos, Unpredictable Hearts, teria
acabado também. Quanto à Última Obra, estava parada, enfim, não podia acudir a todas as
freguesias, ou paróquias. Pelo menos não exigia demais de mim no sentido de estar ou não
obcecado com alguma coisa, mas sentia estar perto de algo verdadeiramente meu,
importante, o que quer que fosse nem sequer direitos de propriedade poderia reivindicar,
nesta paródia do desalento...Era, agora mais do que nunca, urbano. Não sei se urbano-
depressivo. Talvez.

Bebi bastante cerveja ontem, mas ainda não conseguira ser tão descontraído quanto a maioria
das pessoas que me rodeavam, com quem me cruzava de trás prá frente, fascinado que estava
naqueles tempos de verão com a interacção e não estava inocente porque ainda estava
obcecado por mulheres, ao ponto de passar por maluco, nesse sentido talvez a minha obra
fosse como que uma interjustificação subjectiva para o meu comportamento e palavras, sendo
que as palavras ditas talvez sejam também comportamento. Ou discurso, como se pode dizer,
academicamente. Sentia-me eternamente grato por viver num país onde havia liberdade de
expressão e crítica social, pois essa era afinal o preço, ou o custo da democracia, da moderna
democracia no meu país. Como hei-de então dar uma ideia de como me sentia então?
Cansado mas feliz apesar de tudo nem tudo tinha corrido mal, sabia que a minha escrita não
era muito elaboradamente literária ou filosófica, mas tinha todas as qualidade de um escritor
social vindo das ciências sociais, talvez por isso dispensasse com alguma frequência naquele
tempo a ousadia da filosofia, talvez por viver numa constante dificuldade e premência
económica e obrigado a ser feliz. Mas satisfazia-me ter este teclado e pode voltar a seguir os
meus personagens masculinos e um feminino, como se tivesse para oferecer a uma mulher os
inúmeros homens que habitavam no meu espírito e corpo. Tinha ido da filosofia para as
ciências sociais e indignava-me a falta d eproffisonalismo de vários académicos em não apostar
em mim. Como Sampaio da Nóvoa, que em breve seria certamente eleito como Presidente da
Republica.
6.

No dia seguinte à aparição de si mesmo entre os arbustos da quinta, Tenório procurava


conciliar o bem de si mesmo com o mal dos outros, numa tentativa mais ou menos fruste de
conciliar princípios antagónicos de uma razão dialogante consigo mesmo. Ao fim da tarde,
junto à janela, interrogava-se o que fazaia naqueles campo um cão aparentemente
abandonado, enquanto as interrogações mais elevads ficavam por conta dos mistério e
satisfação de umas taças de café. Afinal, estava ali, naquela aldeia, apenas por causa do café,
havia lido numa revista que era ali que se fazia e vendia o melhor do mundo, pois então ele foi
ou veio para cá, para esse cantinho sujo e acolhedor da sua alva, entremeada com diversas
refeições que preparava na pequena cozinha. Estava ali poara descansar, para segundo
médico, não dar tanta importência às coisas, às coisas do mundo e às coisas da vida. Chegará à
conlsuão: nunca chorar ante leite derramado.Nada de especial, Bento progredia entre a
clareira, mudando de direcção de quando em vez, relatando ao seu microfone ideias,
argumentos ou meras palavras a fim de mais tarde aproveitar para qualquer coisa como um
livro, um desses livros fáceis que se encontram na maior parte das prateleiras, de um autor
que não quis ser académico e optou por escrever romances, escapada fácil quando se pode ter
o melhror dos dois mundos...sem alarido sem grande especulação, sem grande sentimento ou
consentimento, como se a sociedade pedisse de nós para que falássemos dos seus e dos
problemas dos outros, enquanto particularidade da coisa, o aspecto aqssintoso ficaria para
mais tarde, se o teclado é uma arma o meu estáá queimando os dedos, imagens que bloqueia,
sinal aós sinal, numa ínfima percentagem da mente, além dos desgovernos da razão, que
quase nunca se impreca em realção aos outros. Enquanto isso, no cenário visível do dia, os
amantes encontravam-se beijando-se, combinando saídas e entradas dos carros e dos motéis e
Susana ficava vento na janela, fumando um cigarro após o café, desgoverando a sua mente em
direclção a qualquer imagem ou palavra consoladora, mesmo que fútil e injusta.
7.

Enquanto andava obsessivamente ilusionado com a questão da posse, meus dedos afagavam o
cigarro, desistir de ser perfeito e optei por ser quem sou, no entanto isso me conduzia ao
campo dos caminhos ínvios, sinuosos do desejo insidioso e de repente destapado, como quem
abre uma panela de pressão das antigas. A realidade social servia convenientemente os meus
interesses, e meu espírito filtrava, antes a questão da balanaa do maniqueísmo, os dados que
se me apresentavam ao espírito. O cinema, nomeadamente o português, oscilava entre o
conceptual e aquela mina costumeira das relações, ora familiares, ora própria dos personagens
trasnviados de suas promessas de educação, um pouco como eu, obsessivamente procurando
a mulher que me fugia entre os dedos porque não sentia a coragem de me assumir como
homo ou bi. Não tinha meios, a não ser a habitação e o meio em que ela se inseria, de
sustentar uma relação. Talvez nem sequer tivesse meios emocionais de o fazer, pois
encontrava-me, sem dinheiro, ou com aquele que minha irmã me conferia, de avançar com
projectos profissionais mais ou menos pessoais, tentando projectar-me além de minha
existência errática, iniciática, comprometida com causas talvez a destempo. A comicidade
estava como que ausente da minhas vida, pelo menos não mais do que uma semana,
enquanto não conseguia perceber a minha aversão à infância, adolescência e às mulheres. Não
puxava o sucesso, mas tinha a impressão de que nos último tempos tinha feito pressão para
que ela chegasse à superfície da minha mente. A filosofia atravessara a minha vida, os meus
pais estavam velhote, nada de verdadeiramente trágico acontecera na minha vida, ou teria,
devido a essa falta de comicidade e respeito para com as mulhres...

Percecia que se pudesse ficar neutro faze aos sentimento de morte e doença dos outros, de
alegria e desprezo, poderia chegar a algum lugar, mudar qualquer coisa, no entanto a oscileção
entre positivo e negativo faz parte da vida e a filosofia deixava-me cada vez mais só, talvez
fosse outra coisa, talvez necessitasse da maior das terapias para dar as quecas que não tinha
dado. Era sem dúvida vítima das minhas rasgadas escolhas enquanto jovem, no que diz
respeito às mulheres, primeiro com o seminário, que me cortou a falta de cortesia e corte em
relação às mulheres e criou em mim uma concepção, talvez errada, que a mulher só serve para
amar e ser amada. Essas oscilações impediam-me de ver as diferentes e infinitas cores da vida,
os personagens falhavam no aparecimento na consciência de que quelquer escrito necessita.

A ideia que alguns dos outros tinham de mim talvez fosse distorcida e esta narrativa não era
uma defesa mas talvez uma espécie de terapêutica narrativa. Apetecia-me entrar num negócio
de ouro, diamentes, petrólio ou droga. Mas não o podia fazer, porquestões de ética e epção,
porque também nada percebia deses assuntos que normalmente dão bastante dinheiro. E,
depois, gastá-lo, gozar a vida, em vez de ir para o Bairro Alto com os amigos que não tinha,
enveredando por experiências radicais que nunca mais poderia acabar. A moça do metro
aparecia e desaparecia, nunca vida morena tão bonita como aquela, enquanto meus olhos
cansados, fechados, inanimados, descansavam pedidndo a consciência à inconsciência para
que me mantivesse vivo mais uns meses...
8.

Entrava assim na noite, procurando não usar as imagens do dia, as abstracções e


conceptualizações, procurando não agredir Deus, procurando não desculpar-me com o mal
que os outros faziam e que diziam contra mim. Era estranho, em outros tempos deixara-me
levar pelos sentimentos muito mais alto, num arrebatamento que dá vida, talvez fosse porque
estava preocupado com a obra perfeita e essa sei que não havia (ou havia?, como Ulisses,
Paraíso Perdido ou Crime e Castigo?), balançando entre filosofia, ciência msocial e,
essencialemnte, literatura, seriam esses os condimentos da obra perfeita, e eu sabia-a, como
se as letras não só pairasse em torno dea cabeça como uma auréola de sento, mas fizessem
uma voo rasante, como uma foice que ceiga o trigo em tempos de estio, por isso insistia tanto
nos conceitos de etnoficção e prosa filosófica...

Sentia o amor, o amor das palavras não ditas, a concepção mais ou menos freudiana ou
lacaniana de um estado de carência e abandono, de solidão interio, enquanto deitado
gravitava muita coisa por cima em forma de palavrs soltas, umas, encaixotadas em porões de
avião, outras. O facto é que andamos a maior parte de nossas vidas procurando viver e levar
uma vida que não temos quando não vivemos aquela que temos. A maior parte das vidas, tudo
nos decepciona e quanto temos poucos amigos, a psicologia e a psiquiatria, em última
instância, tudo apreciam, tudo fezem apareceu. Ou não, valando-nos a divinda, que não é
senão mais do que as experiências e emoções em sublimação do grupo, da socieda, do país, a
que recorremos para pelo menos, no mínio, vivermos, sobrevivermos, para que tudo não
acabe por ser mais trágico, o mundo da nossa mente. Temos de, como dizem os ioguis,
aceitara a vida como ela é, os aconteimentos, os acontecimento mínimo e partirculares que se
patenteiam ao nosso espírito, como lebres que saem da toda a todo o instante.

Estes dias de verão, mais ou menos duros e aziagos, eram reflexo de uma caulpa que carregava
há bastante tempo, e de uma noção mais ou menos erra que se nota nos psicólogos, que
pretendem fazer das pessoas robôs do sentimentos, obrigando-a a amar sem que se
proporcione, obrigando à interacção, mesmo que o sujeito queira refectir e disso saiam ,ais
frutos do que da interacção mais ou menos dissimulada, especatular ou subversiva. Estranho,
defende-se o amor e separa-se da intimidade, como se a intimidade maior não fosse senão o
sujeito fisicamente e psiquicamente só, necessitando e vomitando a sua energia sobre outro
ser, semelhante ou não nos sentidos que seu sangue de sentimento percorre por dentro dos
cactos de uma relação. Era temporariamente só, havia tanta escolha, mas no meu cesto nem
um bilhete, quanto mais premiado, ensimesmado que estava nesta íntima relação comigo
mesmo crivada de solidão, de desterro, de cumplicidade infértil, de sujeição e revolta interior,
porque alguém não nos dera confiança, sendo que fazíamos o maior do esforços para
relativizar e dizer que não era tanto assim, que se podia, mais cedo ou mais tarde mudar,
Havia que estar atento aos sinais dos tempos, do Tempo...
9.

Entrei definitivamente na pele do personagem principal, enquanto a personagem secundára


havia ainda de surgir conforme o comportamento do tempo, agraciado com tolerância face à
sua pela e prolongada tensão acumulada nos dias intersticiais mais ou menos programados
após o conhecimento dos sistemas sociais e culrurais, este mais amplos e profundos do que
aqueles...

Nestes dias, Simone havia passado mal. Sorvia um café nos lugares mais ou menos virtuais por
onde passada, tendo em vista tentar compreender o facto de ser perseguida pela Interpol num
país tão pacífico quanto Portugal, sabia que se estava tornando a realidade cada vez mais
violenta, num ensimesmamento e abertura simultâneo que só gerava uma e as duas coisas ao
mesmo tempo: prazer e sofrimento. Enquanto tomava banho, limpava bem os reconditos
cantos do corpo, não podendo limpar a alme nem sequer com a religião, com o yoga ou com a
meditação. Nestes momentos de sofrimento e frequentação arbitrária e espontânea do
tempo, sua amiga Raquel frequentava um curso de reconversão espiritual tendo vindo de um
divórcio e de perder o emprego, numas sessões de um método que não era youga, mas de
Jardim Interior, reflexão mais ou mesmo filosófica, com a finalidade de nos sentirmos nús de
nós mesmos, correndo os riscos da alma despida perante os outros...

O rádio tremia de tremidura lenta, enquanto procurávamos entender a psique e o conteudo


do sangue dos corações de quem colocarva Simone e Raquel na mesma situação, ante
objectos (perdidos) e projecções mais ou menos programáticas e sedentárias. Desistindo de
seguir na cápsula do tempo e do espaço que o demiurgo dos dias de hoje (obedecendo à ideia
que o universo social, ante suas incoerências contrstantes, faz sempre sentido, no final)
proporcionaos nossos sentido, optámos por uma trama mais ou menos densa, eivada de
sentido filosófico pontual e marcante, proporcionado ao leitor uma forma diferente, talvez não
origina e certamente sofrendo de severas influências literárias, a forma de pensar que Raúl
empreendeu no seu interior, ao que que as feminas se banqueteavam em seus sentidos mais
ou menos desordenados, mais ou menos perversos...
10.

Ante os recessos explanados, estamos em condições de hesitar entre uma narrativa,


meramente descritiva ou exploratória dos acontecimenfos ou fenómenos inteiros, progressiva,
sem hesitar, ou um magma mais completo, indo à frente e voltando atrás frequentemente,
apagando e reescrevendo a narrativa, num plasma de método universal onde corpos se
envolviam com corpos teorizados. Raúl perdera seis anos num projecto como inventor, uma
ideia antiga que tinha alimentado durante décadas, a saber, o Word Conversor 5.7, que
apresentou à Universidade de Nova Iorque, departamento de linguística e literatura
americana. A sua ideia era simples. Ante o real e o virtual, apresentar uma lente que lia
imagens e as convertia em palavras, ora replicando literalmente as cores, por movimentos a
velocidades diversas, por forma a melhor entender a realidade. E o que é a realidade,
perguntasi vós. Boa pergunta. Simplesmente, se a cabeça funcionasse bem, bastava o cérebro
humano ou um robô, para tal intento...

Ante este cenário, Raul procurava emprego numa país numa crise lenta e dolorosa, como
dizem os maços de tabaco. S drogas e o sexo fácil havia disparado esplendorosamente. Dizia o
senhor do quiosque, "todos choram na hora da morte", naquele dia frio de Fevereiro, ensinado
por entre as folhas dos plátanos, secas como o povo, no chão quem eram os miseráveis
políticos, classe reinante que a nada se escusava para, dizendo servir o povo, deixava a
populaçã (o que é outra coisa) na miséria e na morte... Até ao dia em que, num bar de música
ambiente dos anos 80, Teresa e Raúl combinavam a data de assinamento do processo de
divórcio, por nenhuma razão em especial, apenas pelo motivo de Teresa queres "experimentar
a justiça" a ver se lhe calhavam mais homens em sorte.
11.

Nem saberia certamente como começar para contar a história das pessoas que conheço, sei
que nunca fui certo ee irónico O amor não chegava para Tiago, entretanto ele reservava-se
para a intimidade do sexo, mais um afundamento deitando o porta-aviões da sua
sentimentalidade. Perdido num oceano de razões, tinha explicação para tudo menos para o
vazio do seu coração. Estava seco, desregrado certamente, mas tentando refazer a sua vida,
tudo e nada lhe acontecia, não valia a pela esperar pela Divina Provedência, era um
desperdício de vida que ele deitava fora, ninguém lhe falava abertamente, era triste,
demasiado triste, nem chegava a consolação de estar reformado, ninguém certamente o
queria como aos mais jovens aos que tem empre, mas talvez não estivesse sozinho, perder
podia ser o começo de muitas vitória, as senti-mentais, as sociais, as tais. O humor escapava-
se-lhe. Mais além, nas estruturas senti-mentais e anaccrónicas dos prédios além da ponto,
muito mais gente procurava encontrar-se em alguma coisa e nela repousar a alma, encostar o
sentimento a uma melodia, a uma imagem, a uma fixação que poderia fingir haver eternidade,
uma promessa de amor reencontrado, de amor vencido e tresmalhado, a sensação de
abandono e de perder, estar ganhando, acontecendo por isso, a elisão dos valores, dos
statuses, das carreiras...

O dia corria normal, Lucas tentando elidir depois de si a culpa que perdera pelos carris do
comboio abaixo, como se voltasse a uma narrativa e não se quisesse dispersar, quando o
problema não era seu, mas do entendimento que os outros faziam dele, por entre veredas e
moínhos, esquecera a aldeia para onde pouca gente o havia convidado a ir, aí nesse resíduo de
sentimento, habitava uma muldisciplinar tendência para a tristeza, a solidão, o isolamento,
quando mais um dia começava a nascer, túmulos erguia-se nas navez convexa e congénicas a
uma forma mais ou menos expressiva de deambular, entre campos de energia e paramentos
sujos. Então, resolveu falar com Teresa e talvez, depois de um grande i-merecimento, tivesse
alguém com quem falar. Iria não ele mas alguém, culpar um povo, uma cidade, pelo
desperdício de vida? Não, não se faria isso, apenas havia que viver, um dia, esquecer, um dia
voltar a si mesmo, um dia conhecer e lamentando não conhecer, perder e lamentando não ter
perdido...

Jonas, um jogador de futebol goleador, regressava a si mesmo noutro clube, acompanhado de


uma estirpe de mulheres, como se conquistasse mulher fosse fácil, elas naquele tempo
abriam-se todas a um homem de bom corpo, mesmo que nada tivesse na cabeça. Não havia
mulheres interessantes naquele tempo, a não ser uma ou duas, mas moravam longe de mim,
lá estou a falar na primeira pessoa, enfim, parece que a questão fulcral, cerne, da existência
humana é, ao jeito de Braudillard, a da sedução, e eu ia ficando para trás, relatando os meus
insucessos, lamento-me por estar condenado a estar sozinho, como de vigia num farol, afinal
era esse o meu destino, amar não amando, querer não querendo e aquele que não quer por
completo acaba por "ter" mais do que merece, mais do que parece, e não estou a falar de
mim, pois na teoria talvez seja Don Juan, mas na prática decerto que não sou Casanova, antes
um Baudrillard desiludido pela falta de fidelidade e cumprimento, tentando sacer notas onde
não as há, tentando tirar nabos de uma púcara que nem sequer existe, cavando, cavando cada
vez mais fundo e saltar para a cova, nem sei bem quem vai mandsar terra para cimma do meu
corpo morto, mas espero que lhe pague bem que eu não tenho um tusto. Enquanto isso,
esquecera-me definitamente do voo da prosa filosófica, lia e ofendia um judeu, um cigano, um
indiano, mas a questão rácina estava desatando naqueles dias de crise, a extrema direita
estava viva em Portugal, onde iria parar este país que tinha todo um grand epotencial para se
tornar uma nação de futuro? Enfim, comigo não contem muito, já tive que chegue, prefiro
agora evitar sarilhos. Apaixonei-me por instantes por um par de seios por detrás de uma t-
shirt, sem sutiã, essa imagem destruía e consumia o meu desejo, alimentando de fogo e ácido,
de vontade volitiva até mais não. Estranho, a cidade tronava-se estranha, dia após dia, no seu
langor e ensimesmamento, no seu desafio, muito para além do permitido e das normas, tudo
estava na minha cabeça, e continuava fisicamente só...
12.

Falando ainda de mim, acho que fui feito para sofrer. Os outros riem-se e não vale a pena levar
a sério. Tenho um karma comigo que só me apetece desistir de mim mesmo e dos outros,
deitar tudo fora, morrer e voltar com outra personalidade, outro código genético, como se
minha cabeça estivesse nas nuvesn e não pudesse ver a cruel e vívida realidade. Neste sentido,
andaria por aí procurando em busca o amor, sem dedos nos pés sem o sentido mínimo do que
é correr e querer riscos, enquanto isso eu procurei, tentei, forçei bastantes vez, acabarei
sozinho, mas ainda assim continuarei a trabalhar, num esforço mais ou menos árduo para
deixar qualquer coisa aos outros, assim fez o meu pai. Por mais que transformasse o mal em, o
bem em maal, a minha cabeça não descansava, sabia que estava aqui a mais, não tinha no
entanto meio para ir para outro lugar, tinha de me aguentar, estar sozinho era difícil, estar
acompanhado também...

Faleceu ontem a esposa de Mário Soares, Maria Barroso, enquanto o PCP apresenta o seu
programa de governo. Por mim, em termos de registro diário continuo no lebirito da cidade,
andando de lá para cá como um pêndulo, com cada vez mais dores de cabeça, de livraria em
livraria, de biblioteca em biblioteca, procurando livros baratos e bons, procurando amigos
inesperados...

Assim, pensando eu que o inesperado nasce do tempo, regressei ao costume das noites em
casa, estudando, lendo, e vertendo aqui no papel em branco as coisas mais ou menos sábias
(mas pouco) que nascem da minha mente, não sabendo que forma ela tem, talvez seja
redonda e achatada como o globo terrestre, para não variar, para não confundir, enquanto
Luís se apressava a servir vinhos em mais uma prova, revi a minha vida num livro de Maugham,
vi uma série de pessoas interessentes e falei com algumas, entre as quais o Paulo, o meu
amigo da FCSH, onde vou porque afinal é a minha unversidade e ser que, geralmente, os
estudantes não são trocistas, enquanto sabendo estou também que mais vale a universidade,
como todos os seus riscos, do que o convento. Não estav particularmente inspirado naquele
dia, quase morri, de desmaio ou dor de cabeça, acompanhado de poucos trocos no bolso,
tentei tomar o almoço a meio da tarde na Faculdade de Ciências mas a reserva já se tinha
acabado à pala de dois livros a cinco euros, mas amanhã vou voltar e vou aos mais baratos que
ainda lá há coisas bastante interessantes.

De repente, não podia dar um passo, dar um passo sem que os outros soubessem. Não havia
vida para grandes ficções, a minha vida era oito e oitenta, sentia-me obviamente perseguido,
obrigado a ser feliz na minha casa, quando em outra vida, se pudesse, há muito que tinha ido
para longe, para fugir à precaridade, à fome, à humilhação que sofria todos os dias no
autocarro e nas ruas. Havia, onde morava, pessoas bem instaladas na vida e parecia que
quanto mais me relacionava com essas pessoas, mais reconhecia as suas limitação, sociais e
intelectuais. Não sabia se iria mudar de casa, mas entretanto estava sentindo um certo à
vontade que me permitia fazer as coisas que sempre quis fazer, deixar tempo e modo para ler
e escrever, pensar, argumentar comigo próprio, servir-me do melhor instrumento de luta: o
pensamento.A minha narrativa desenrolava-se assim, triste e langorosa, como se estivesse
submerso em areias movediças, terrenos perigosos que me faziam gritar na rua, sel mal-
educado. Muita coisa acontecia naquele verão e eu estava disposto a guardar segredo dos
meus propósitos, que podiam ser, teoricamente, algo ambiciosos, ou seja, governar o país,
mais do que qualquer outro, enfim, sonhos de infância de governar a cidade e ter todas as
mulheres desse burgo...

Nessa noite, em vez de conviver com os outros, que pouco ou nenhum interesse tinha, resolvi
conviver comigo mesmo, Acordei. As horas passam, passam, sem que nada importante
aconteça, encontro-me numa clareira, isolado do resto do mundo, onde há coisa, a minha
escrita ruma desordenada dentro da minha cabeça e despeja letras para o mundo, que se
serve delas sem me dar conta. Sei que podia estar noutro lugar, mas talvez no final desse
tempo fora, me arrependesse de estar, tendo preferido ficar. E aqui estou, contando os
segundos, esperando os dias para mais uma queca urtiva, sabendo que alguma gente se
ressente de mim, outra me copia sem me dar conta de qualquer resultado. Tenho o desejo
abafado e tenho-me controlado demasiado tempo, não pretendendo defender as minhas
conquistas, porque talvez as forças não sejam muitas. Vejo o mundo, agora que vou ficando
encostado à minha existência, como um lugar darwiniano, em que o mais forte e mais
inteligente acaba sempre por ganhar. Um pouco também ao geito lévi-straussiano, o homem
tem o dote para poder ficar com as mulheres, troca e reciprocidade na relação dos homens
com as mulheres, e que tenho eu para dar senão saber, um saber quase marginal mas que no
entanto tem um carácter universalista, julgo, qualquer coisa de novo e a raiva faz-me escrever,
afinal de contas não sou artista senão um mero artista das palavras, enquanto os conceitos
filosóficos estão longe, longe e recuando em si mesmos. Ruben era tão moralista que via no
sexo nada de natural e até necessário ao bem-estar pessoal e do grupo, mas algo que o podia
transviar de um caminho mais ou menos ortodoxo na conduta da sua vida. Vivia obcecado com
a carreira, ora mais uma situação que impede ou impele o desenvolvimento da história, antes
e depois de Ruben regressar a si mesmo. Teresa, por outro lado, apesar de ser mulher, estivera
uns tempos, um par de anos, na prostituição que se desenrolava em casas particulares, como
se fossem "gado" que bapenas escolhe aquela vida por diversos motivos que não sabemos ao
certo porque também não nos convém, entre os quais o mais frequente até pode ser a mera
necessidade económica, num país em crise que parece uma República Chega ou uma Ucrânia
em termos difíceis nesta ordem...entretanto a Servilusa, empresa funarária, tinha um anúncio
radiofónico, parecia, a contar com este registro, que o "american way of life" arrase e se
espalhava,,,bem mais vale previnir do que remediar, diz o povo e entre nós e o povo nada mais
se pode meter, nem bocas nem observações eivadas de veneno.
13.

Assim, o escritor destaca-se da vulgaridade e sobrevive através do sonho, encimado por um


Lucas e uma Rute, que procuravam aproximar-se num amplexo há bastante tempo desejado,
entre as árvores e arbustos de um jardim, enquanto as crinças riam e gritavam pela bola, não
já pelo pião, mas pela bola, ao vivo ou no pc, enquanto o pcp vociferava palavras de ordem de
uma esquerda ainda e agora mais do que nunca, viva, num país que tinha, mais uma vez de
virar à esquerda, enquanto Estêvão, um joven polícia que depositara em mim e em várias
outras pessoas a esperança de dias melhores, para que ao menos pudéssemos amar nossas
mulheres e nossos filhos, criando-os num ambiente saudável pois, julgo eu, os tempos podiam
complicar-se ainda mais, numa tecnognose escabrosa que poderia tornar os homens em
máquinas...

Enquanto o verão passava, entre realismo e ficção, sem me abandonar totalmente a um dos
dois campos, andava de lá para cá, com o qdesejo oscilante e remanescente, por saudades de
um corpo, individual e social, por saudadesd do Outro, embrenhado em problemas com os
vizinhos que eu criara, mas enfim, nestas coisas o melhor remédio é o Tempo, porque Sim,
tenho inveja de quem está acompanhado e acho-me no direito de ter porque ando carente,
bastante carente, mas não posso OBRIGAR ninguém a ser a minha alma-gémea. Afinal, desistir
de ser romântico, pois o desejo físico é como o psíquico, é preciso cuidar dele para que se
possa, de algum modo, assegurar no tempo...

Assim, a minha percepção era ilimada pela fina compreensão de que tinha de encontrar
alguém, de dominar este meu impulsivo desejo me projectar no outro os meus desejos, ódios
momentâneos rasurados e imprecações, quando a maior parte das vezes bdeveria, como
Lucas, ter estado calado e que há, sem dúvida e sem fatalismo, um preço a pagar pela falsa
convivência com as pessoas, era isso que eu pensava, não fazer uma peça de teatro, porque
não era minha área, mas sim algo de prosa filosófica com poucos personagens, não uma saga
familiar por aí além, não nada ao estilo dos clássicos inglese, no entanto estava lendo a obra
principal de Raúl Brandão e um pouco de Aron, sociólogo francês de boa estirpe democrática.
Comprava uns livros com o dinheiro que a minha irmã me dava, preocupava-me com a minha
situação, mas havia chegado um ponto no qual se não podia forçar muito, sob pena de tudo
nos cair em cima, e isso acontece a muito boa gente, pelo que antes que aconteçam os
acidentes e desastre, nada há de melhor do que evitá-los, sem pruridos ou preconceitos, a um
sociedade mais ou menos conservadora, privativa, conservadora, embora sociedade aberta à
iniciativa e empreendedorismo individual, o que fazie erigir do fundo das dificuldades
passadas, o indivíduo como herói fundador de outras instâncias, já futuras, tornando a figura
do self-made man a referência para muitos.
14.

Naqueles tempos não-revolucionários, tudo se tinha compassadamente. Lucas, desde há


quatro anos, não tinha uma mulher na sua vida e Teresa havia emigrado para um país distante,
logo suas vidas estariam condenadas à separação. Uma crítica se podia fazer àqueles dias de
verão de 83: as relações eram fáceis e pouco duradouras. Quase todos os jovens se beijavam
em arcadas proibidas, além do mar, além do desejo, em cumprimentos quase exangues. Havia
uma mágoa em Lucas, mais do que uma náusea sartriana...

Sabes, nessa noite estava cansado e não pude fazer amor contigo porque me doía o sexo. É
preciso também compreender um homem, um homem que assume fidelidade e se esforça
para a manter. Para a mulher é tudo mais fácil, tirando o parto: basta dizer Sim na altura certa.
Quantas mulheres se interessam verdadeiramente por um homem? Contam-se pelos dedos.
Para amulher qualquer um serve, desde que tenha dote. E o doto das sociedades modernas é
uma conta bancária recheada, carro, emprego, casa. Status, é isso que a mulher quer. Não
acreditam em lindos olhos ou projectos, acham que qualquer homem mente ao ser sincero e
se é sincero é porque não rpesta para procriar, acreditam no visível, são por isso materialistas.
Mas sê-lo-ão todas? Ao lado da náusea, Lucas sentia uma invociferada raiva crescer dentro
dele, à medida que o mundo o ignorava, à medida que ia avançando na idade, para lá das
notícias na TSF ou na Antena 1, que evidenciavam um país ainda em recuperação, depois de
crises sucessivas que, depois do 25 de Abril, haviam posto o país de joelhos ante a Eropa rica.
O sistema social articulava-se com os desejos individuais, mas enfim, nada lhe saía de positivo
da mente, do espírito, enquanto lia um pouco de uma metafísica do espírito, o que quer que
isso fosse. Sabia que conseguia, como pouco, unir a filosofia ao pragmatismo, além das
ciências sociais num pleno domínio de literatura de certa ordem libertária, anarca, nada de
extrema-direita, nada de esquerda radical... Enquanto isso, Lucas sentia-se americano, algo de
americano, suíço, grego, japonês anelhor, chinês e indiano, havia neles. Os dias passavam-se
estranhos sem conhecer ninguém, via as pessoas no metro mas não podiam aceder ao
conteúdo da sua mente. Perdera Teresa para sempre, pois ela arranjara outro com mais, um
carro, um a profissão, um futuro, enquanto Lucas se remetia nao silêncio da música de Adele e
Gabrielle no seu quarto, na sua sala. Estêvão perdera todas as qualidade que fazem de um
homem ou de uma mulher grandes escritores: os pormenores. Não s epodia aproximar
demasiado das coisas do mundo, como dizia a canção dos Heróis do Mar, banda de êxito
europeu no anos oitenta...
15.

Naqueles dias de estio, as relações entre as pessoas degravam-se, disse um filósofo que em
tempos de crise as pessoas tendem a aproximar-se, não só sexualmente, mas nesse sentido,
Lucas continuava só, a rede mental que o aproximava das pessoas também o havia isolado e
sentia um sentimento de injustiça por parte da sociedade em geral e de alguns indivíduos e
indivíduas em particular, no entanto era sem dúvida um herói. E porquê. Se tivesse morte,
ninguém o ajudaria, mas o dinheiro que recebia da irmã era aplicado numa tese em filosofia e
muitas pessoas achavam entre esses factos uma grande incongruência. Bolas! Queria fazer
qualquer coisa de válido, pois teria muito bem mudado de situação, de interesses, entrar na
bonomia a que a maior parte dos outros se entregava, mas não o fez, manteve-se firma,
grande parte do tempo sem a juda dos professores ou a maioria das pessoas que conhecia. O
calor, normelmente o calor tropical, torna as pessoas amorosas por interesse mas
manifestamente cruéis. Mas nos países do norte, nomeadament ea França, é pior, não há
respeito pela vida, quanto mais pela vida humana. Há uma falsa concepção arreigada no
íntimo das nossas elites urbanas, deque o dinheiro tudo resolve, de que vale tudo em nome de
uma adoração a autores estrangeiros, em nome de uma carreira, como se o que por cá
tivéssemos não fosse digno de nota. É uma mentalidade pobre, viver com dinheiro, não se
interessar pelos outros, dizer bem da família e mal de todos os outros, enquanto que a
família,k para essas pessoas pouco importa. Há também uma cultura entre os jovens que basta
dizer e se transforma a realidade, numa sôfrega vontade de vencer, passando por cima de
tudo e todos...tristes, estas reais e amargas constatações. Enquanto isso, vi o filósofo sozinho,
mais uma vez, ao maldo do manequim de uma montra ao pé de casa,k como se quisesse dizer,
"apesa da filosofia eu sou real, tenho afecto e necessidades como todos os outros".. Empola-
se, por isso, a filosofia, como obstáculo, sem fundamento pragamático ou etnográfico, a
filosofia espectáculo ao serviço dos media e da fanfarronice intelectual, desarreigada dos valos
concretos e das vidas concretas que preocupam as pessoas.
16.

Não sabia exatamente o que se passava, mas no verão tudo e mais alguma coisa se passava.
Antenor Bruau sabia que havia qualquer coisa no sistema social que jogava contra ele. Era,
simultaneamente, porto-riquenho, mexicano e americano. Portoriquenho de nascimento,
mexicano por herança familiar, americano por nacionalização. Estava entre americanos e não
era americano, mas "do Sul", de uma aldeia azteca remota e perdida nas montanhas, onde a
sua memória permitia estar de quando em vez. Emigrara para Nova-Iorque sob pretexto de lá
procurar trabalho e realização profissional, talvez para não ficar só, entre obreiros e
camponeses. Por outro lado, desde cedo era alvo de chacota, o tempo foi passando, não
arranjou casamento nas suas terras de origem e não alimentou mais o desejo e a necessidade
de por lá ficar, embora tivesse, na capital Olivares, frequantado as melhores escolas e
universidades que, se fora situacionista, podia também ocupar, quer dizer, ficar como um
destacado membro da cultura olivariana. Mas não aconteceu e a sua vontade de estar mais
além só fazia sentido numa cidade como Nova-Iorque, onde se poderia realizar como
instrumentista numa orquestra e professor de música. Lá sim, pontuavam as melhores
academias de música, de ensino instrumental, de interpretação, de realização de cinema,
enfim, a melhor arte à face da terra. Contudo, algo o perturbava, sempre que regressava, cada
vez menos, à terra natal, o seu coração ficava cada vez mais longe dessa Nova Iorque onde os
laços era artificiais e as relações enfeitadas com o armor do mercado, mas quando ali estava,
saudades tinha da terra Natal e da vida simples em geral. Muitas noites, ficava consigo mesmo
pensando no azar da sua vida e dos seus feitos. Sem pre se relacionara de perto com a música,
mas havia nele um altivez e um forçar da filosofia para todos os momentos, que assustava
bastante gente, sobretudo as mulheres. Até que um di, pressentindo um fim tormentoso e
lento, que seria a ignorância de si, na terra natal, onde sabia que sempre podia voltar, e dos
outros, no bairro de Nova Iorque e no inconsciente colectivo da aldeia natal, resolveu arranjar
alguém e deixar de ser romântico e tímido ao mesmo tempo. Mas não sabia como fazê-lo,
longo tirou uns dias de férias diante de si mesmo e dos outros, que não sabia que tipo de ideia
faziam deles, mas que certamente não correspondia a grandes anseios ou esperanças, a fim de
combater as ideias negativas que povoavam o seu espírito: ideias sobre a morte, sobre a
impressão causada face aos outros, da quel vivia quase todo o tempo e que sufocava a sua
iniciativa, a sua independência. Estava perdido e entregue a si próprio no que era a floresta do
seu espírito, algures entre filosofica e literatura, em situações sartreanas, derridiana,
deleuziana, ignóbeis, injustas, irreais no que mais irreal a realidade, social ou metafísica, pode
oferecer. Deixara a meio uma tese sobre Ernst Cassirer, o neokantiano alemão que mais
admirava, os ambientes imediatamente infrutíferos e que lhe dessem trabalho, nada mais lhe
diziam, queria dedicar-se à interpretação, ao canto, à composição, à arte, assim tivesse algum
dinheiro, mas estava preso por sentimentos arquitectados por anos de humilhação pela sua
condição de gago...
17.

Ainda assim, tinha uma propensão analiticamente surpreendente para a tribuir a si mesmo
culpas sobre tudo o que lhe acontecia, como se quisesse jutstificar alguma coisa, como se
quisesse pedir a outros desculpa por existir. Nada de mais errado, sabia que tivera uma
educação apertada, que não havia trabalhado o suficiente, que não estava enquadrado social e
profissionalmente, mas não era o fim, para si havia ali ou aqui,um futuro risonho, em que se
pudesse ocupar na arte ou em qualquer coisa de significativo ao mesmo tempo para si e para o
conjunto da sociedade. Sózinho, na noite, como Niezsche, procurava razões e elas aparecia, a
pouco e pouco e quanto mais falava com os outros, mais lhe pareciam loucos, emaranhados
em suas preocupações mesquinhas, em avaliações e juízos precipitados, em jorro de opiniões
por tudo e por nada, sabendo ao mesmo tempo de tudo e de nada, de qualquer e nenhum
assunto ao mesmo tempo. Evitava tornar-se uma dessas pessoas e decerto que se tornaria
quando tivesse alguém, porque os Outros têm sempre alguém, alguém com quem desabafar
antes ou durante a cama...

O dia voltou. Mais um dia para Antenor Bruau, ensimesmado no seu lócus existencial, na sua
cápsula do tempo, como se fosse a redoma de um compimido gigante, um pouco alheio a tudo
o que se passava à sua volta, alheio porque não participando num destino que não fosse o seu.
Naquele dia conheceu a jovem negra Dádiva. O deslocamento dos sentido em direcção
conjunta gerava em Antenor uma espécie de paz, de satisfação pelo senso-comum de estar ali,
sem que fosse necessário ou urgente correr atrás de qualquer coisa e sobretudo do tempo,
como se não soubesse o que queria. Em casa, Antenor tanto se sentia bem como mal, na
realidade não se sentia superbem, mas alternava entre a tristeza, o desespero e a angústia,
esperando por Dádiva, esperando pelo incerto, incertos que eram aqueles tempos de
desamores. Antenor descobrira, na provecta idade de 45 anos que a sua preocupação diária,
para além das obsessivas imagens e flashes de prática sexual, bem como da limpeza das partes
do corpo e do espaço seu circundante, seria ca preocução constante, que lhe marterlava o
espírito, de como agradr às mulheres, desejando imensamente agradar-lhes. Daí a sua vida
problemática, daí ter relativo insucesso junto delas, daí o seu drama exisntencial. Vivia assim,
erraticamente pelas ruas e avenidas do conhecimento, enquanto se perdia nas vielas do
sentimento, aora abafado ora confessado, aqui e além, das mais variadas formas e feitios. A
jovem Dádiva sentiu um misto de admiração e exasperação percorrida pelos dias em que se
conheceram e como chegou, assim foi, silenciosamente, como se nada tivesse acontecido,
envolta numa nuvem de nevoeiro. Parecia que toda a gente no conhecia e ao mesmo tempo,
era mancha inviolável de consciência colectiva, ao mesmo tempo não o conheciam e Antenor
foi progressivamente baixando a guarda, desistindo...

Esse medo de não agradar perseguia-o constantemente e nas paranóias de interior,


deparavam com uma linha curva de pensamento à medida que se relacionava com os outros.
Quem lhe prometia um relacionamento duradouro era bem tratado, quem lhe virava as costas
era maltratado. Tinha a impressão de a sua mente distorcida, se é que era esse o caso,
obrigada os seus a viverem sob os seus ditames. No entanto, eles já o haviam abandonado há
bastante tempo, pelo que vivia agora a aventura de fazer o resto de sua vida de modo
independente, acontecesse fosse o que fosse.
QUE FAÇO EU…

1.

Andou de um lado para o outro na praia, procurando o lugar ideal para se deitar. Levava um
livro de Jack Kerouac. Ainda mantinha essa referência de um amigo, Zappa Performer Dada.
Sabia que Kerouac era bom e não engeitou em comprar a preço de saldo uma versão trazida à
luz por uma editora pouco nobre. Deitou a toalha e pegou no protector Nivea nível 12.
Começou com naturalidade a espalha-lo pelo corpo. Estava um pouco nervoso depois de ter
almoçado num snack de fast-food e ter comido demasiado gelado de chocolate. Havia fumado
um cigarro e sentira uma leve indisposição de estômago. Depois de espalhado o creme deitou-
se de costas e começou a ler o livro: “ a dor faz-nos ter medo”. Tremia por ter tanta gente à
sua volta. Olhava para os rostos e os corpos que passavam diante dos seus olhos. A tarde
estava calma para se poder recomeçar a vida, de pois de dois dias de tumulto de espírito
fechado em casa.

Se tinha medo era por timidez. A sua intimidade estava demasiado reservada. Pensava: -“O
meu desejo sexual é tão grande que me causa dor. Olho para todas as mulheres e aprecio-as
como animais de sexo Sim, porque não tenho jeito para esperar, para conversar antes da
atracção física. Não é que eu seja grande modelo, que não sou. Mas o meu espírito é
insaciável.E o que procuro é o que todos procuram e que acabam por ter. Por isso sou vulgar.
Não tenho as dores dos intelectuais, as suas preocupações”.

Parecia que esperava, no meio da multidão, um rosto a quem pudesse falar em revelação. Ou
esperava por alguém que se interessasse por ele. Isso sim, seria interessante. Seria meio
caminho andado para uma relação fiel e verdadeira. “Depois, só preciso de amor”, pensava,
quando dois negros se sentavam no banco da paragem do autocarro. Tinha inveja só de saber
que os negros tinham o pénis maior. “Se o meu desejo não fosse contido, como é traço do meu
carácter, certamente cairia nas malhas de uma doença com certa facilidade”.

Estranhamente, era o sofrimento que o preservava ingénuo e renovava sempre o seu desejo,
contribuindo para uma libido constantemente insatisfeita. Aproximava-se a realização de um
campo de férias onde seria o mais velho. Iria realizar-se perto da terra de seus pais. Não sabia
se ousaria voltar lá. “Só de passagem”, admitia em pensamentos. Num Sábado foi até ao
Colombo. Decidiu montar um dos carros de karting . A primeira vez foi à experiência. A
direcção era muito justa, de modo que foi ultrapassado duas vezes. À segunda tentativa já não
foi assim. Ultrapassou uma vez, guardando a sua posição. Era uma emoção pública que não
partilhava com ninguém. Sabia que era capaz de certas tarefas audazes quando se encontrava
sozinho. Sabia desenrascar-se. Era isso que os seus familiares precisavam de sentir? Talvez ele
próprio tivesse que o sentir mais do que ninguém. Por detrás da sua habitual imagem de
personagem pensativo, morava também alguém responsável, um homem de acção.

Esse Sábado estava a chegar ao fim e não se previa que acabasse em casa. Um dos seus sonhos
era ser um day sleeper, um homem da noite. Acreditava e confiava que tinha um ritmo
diferente dos outros, como os homens do lixo, como os tipógrafos, como os guardas
noctumos, como os donos de casas da noite. De resto, faltava ter um trabalho que condissesse
com tal aspiração e constatação. De resto, falatava saber se havia de ficar nesta cidade, se
haveria de transitar para outra, para um lugar onde pudesse trabalhar.

O calor era-lhe estranho. Mas tinha receio das pessoas do norte. Afinal ia apenas experimentar
ser emigrante. Podia ser que pegasse. Podia ser que se transformasse numa espécie de
embaixador da alegria e paixão mediterrânicas lá no norte da Europa. A viagem que estivera
para fazer um dia à Dinamarca poderia concretizar-se em breve. Se lhe dessem condições, que
se danasse o campo de férias perto de casa. As hipóteses eram agora maiores que dantes.
Estava lúcido e sabia que que o queria era emoção de viver, aquela mesma que todos
procuram e com que muitos são prendados. Procurava o diálogo. Alguém. Não precisaria de
ter passado por tanto sofrimento. Não era necessário. Será que issso lhe iria fazer descobrir o
maravilhoso da vida? Os dias seguintes poderiam ser a mesma coisa: um conjunto de ciclos de
que se teria inteminavelmente de libertar. Ele sabia que a plena libertação só com a morte,
contraditoriamente, seria conseguida. Podia o seu futuro ser algo de diferente, como a
revelação do maravilhoso da vida que ele esperava e pelo qual se esforçava por descobrir nos
outros? Era de certeza um masoquista. Um masoquista consumista. Mas agora estava, mais do
que nunca, por sua conta e risco e poderia bem ter a solução para cada passo. Bastava
procurar. Alguém.
2.

Naquela noite a amizade não surgiu num telefonema nem foi pensada antecipadamente. Nem
sequer foi preciso tomar banho. A limpeza do indivíduo surge depois, ou antes, da loucura -
veio dizer o actor na peça representada ao ar livre naquela noite. Escrevo estas coisas com
pouco distanciamento, eu sei. Mas é o que disponho, é a verdade de que disponho.

O protagonista desta história veio a conhecer algumas mulheres na sua vida. Veio a
reconhecer que lhe era legítimo na sociedade procurar o seu lugar sem que isso significasse a
anulação da sua personalidade múltipla e complexa. Afinal, era também um homem simples,
mas só com a cabeça confusa. Depois era tímido e por isso em certas ocasiões excedia-se. E
não se contendo, ria disparatadamente. O protagonista deveria estar a dormir, procurando no
sono (e no sonho) a duplicação dos seus desejos e anseios. Mas era tarde para dormir e cedo
para estar ao lado de um escritor de emoções. Por falar em livros, as pessoas que mais amei
não me importa voltar a página atrás e ver como estão. O sofrimento tudo justifica. Tarde ou
cedo, o protagonista irá viajar para um país longe, ser antropólogo sem escrever no campo,
sem seguir um método clássico. Uma ou outra porta se há-de abrir mais tarde.

Uma personagem feminina fazia falta ao protagonista. A falta, o desejo... Devemos, nós,
sociedade e cultura, nós país, servir-mo-nos o melhor que pudermos das ferramentas de que
dispomos e criar, criar até ao infinito? É na criação que ainda se deve acreditar. Estar atento,
mas não deslumbrado. Lívido, nunca boçal, com genica e dinamismo. Este é o novo ser deste
novo personagem que se irá revelar, ao longo de semanas, ao leitor: o protagonista e os seus
encontros e desencontros com a sociedade e com os outros. A procura do diálogo será um
fuga para a frente, desesperada, ansiosa e batalhadora. Como um filho que custa a nascer e
que finalmente, depois da dor, já alegria a e maravilha a jovem mãe.
3.

Não reparei demasiado no seu corpo. Ela surgiu por entre a multidão com umas vestes
compridas. Também não reparei demasiado no seu rosto. Preferia que fosse o de uma indiana.
Falava pausadamente num jardim onde se ouviam alguns regatos. As pessoas passavam; cada
um de nós tinha em sua companhia um livro. Enquanto conversavamos não os liamos. Não.
Apenas estavam ali como uma espécie de Bíblias nos templos.

Não interessava o passado dela. Ou se trabalhava ou não. Estavamos naquela fase que se
designa de conversa romântica. Passeamos até sua casa. Encontramo-la desocupada,
completamente livre. Finalmente podiamos estar ali, naquela tarde fria. É claro que fizemos
sexo. Nem de outra maneira podia ser. Ou se calhar até podia, conforme vim a perceber mais
tarde...

Deixou-me entrar no seu complexo e estender-me prolongadamente no desejo. Não foi meu
objecto, como algumas mulheres que já conheci (e às quais fiz essa referência). Houve diálogo,
diálogo esse que não consigo reproduzir porque a minha imaginação não o permite. A dor
justifica e impede que isso aconteca. A dor de estar agora longe dela. Deixei que a esperança
de a rever me habitasse e percorresse numa emoção, num tremor, todo o meu corpo, todo o
meu constituinte físico.

De certeza que não era uma mulher portuguesa. Não me estava a fazer de esquisito, só que
nestas coisas de amor existem certas exigências que não têm nada a ver com o acto sexual,
mas sim com a personalidade. Que me importa se não trabalha uma vez que vive de uma
renda e de um subsídio de desemprego? Dali em diante podia ser feliz com ela e dizer, perante
todos, que era a minha amada. Decerto que isso a deixaria embaraçada... Mas também
ninguém diz isso assim na rua. E apetecia-me tanto gritá-lo a toda a gente, ao mesmo tempo
que esperava uma boa recepção da parte de todos. A acontecer isso já não precisavamos de
viver sob o fantasma de ter de ir à Televisão para viver o nosso amor. E eu jamais poderia
perdoar a uma mulher que me exigisse riqueza e fama. Jamais poderia aceitar que não
conhecesse a dignidade, o afecto e o diálogo.

Felicidade tinha mais ou menos a minha idade. Longe ía o fantasma de saber se iría encontrar
uma mulher muito mais nova a quem teria de orientar e dar conselhos. Uma mulher muito
mais velha não era bem vinda por preconceitos familiares, preconceitos esses que afinal
também eu tinha herdado e contra os quais nada podia fazer.

Lutamos, até um certo ponto das nossas forças, numa direcção oposta às nossas heranças
culturais. Até um certo ponto. Depois veio a dor...
4.

No final daquele Verão Tiago Gomes sabia o que havia de fazer. Haveria de inscrever-se num
novo curso universitário, tirar uma nova licenciatura. Os aspectos a favor pesavam mais do que
o adiamento da sua insersão profissional e social que podia facilmente ser conseguida através
de um emprego fixo. Era tempo de voltar à Faculdade, rever os corações jovens pulsando pelo
saber, trocar experiências, retomar o contacto com os livros.

Na tarde de 10 de Setembro de 1999, Segunda -Feira, estava pronto para ser praxado, embora
tivesse entrado, cauteloso, somente da parte da tarde. Deixou que lhe pintassem o rosto, já
não borbulhento do acne da juventude, mas cicatrizado, com buracos à Brian Adams. Passou
uns minutos no bar, sorvendo o seu descafeinado seguido do seu Mariboro. O Camel havia
sido uma opção de anos e deixara-a para trás. Tal como o Peter Stuyvesant, que o iniciou no
prazer-dor do tabagismo, desgaste de energias necessário à actividade intelectual (será
que?...). As jovens olhavam os seus olhos por detrás dos óculos.

-Olá, tudo bem?, disse-lhe um casal que estava para ser atendido junto à caixa registadora.

-Tudo bem. Estou aver que o pessoal daqui era bem animado. Vocês são de que curso?-
perguntou tentando vencer o seu autismo nevrótico.

-Ela é de Química, eu sou de Filosofia. E tu? -disse a morena.

-Psicologia -disse com um ar ponderado de quem sabia do que que falava. -Isso é interessante
... e prático. Tem saídas profissionais.

-Pois, a ideia de ter um consultório é cativante. É como se tivesse um supermercado ou uma


empresa; tens a porta aberta a toda a gente.

-Boa e má.- observou a loira.

-Boa e má?

-Sim. Há pesssoas que fazem do psicólogo uma necessidade, quando têm de facto outras
pessoas com quem deveriam conversar.

-Pois .... vamo-nos sentar?

-Sim, não temos muito tempo... Mas a conversa pode ser interessante, não achas Matilde?

(É claro que não fiz sexo com nenhuma delas. Mas fiquei com o contacto destas duas novas.
Podia começar a pensar que estava a fazer as pazes, depois de muito tempo, com as mulheres.
O espírito humano sempre era generoso e não escolhia idades. Mais tarde explicarei melhor
esta minha observação.)
-Sabes -dizia eu com ar de quem vai ser psicólogo-, o mais importante é conversar. É como as
linhas telefónicas, sejam elas 0641 ou linhas de apoio a problemas específicos. Falar faz bem,
alivia o problema.

-Olha que ele sabe!...

Nisto elas são tiradas da minha presença por um grupo misto que andava a caçar os novatos. A
fazer iniciações, digo eu.

Tudo isto que estou a escrever é resultado de uma amizade periclitante que mantenho. Das
poucas que tenho. Pelo menos é frutífera, como o leitor pode constatar ao comprar este livro.
O pior é que eu não pensei em ganhar nada com tal compra. Nem ganhei realmente, diga-se
em abono da compensação dos três tempos. O dinheiro não era muito e eu preparava-me para
ter um part-time ou então frequentar de noite as aulas. Ou então, na pior das hipóteses, fazer
umas cadeiritas por exame.

Dirigi-me à biblioteca.

-Interessa-lhe alguma coisa em especial?-diz-me a empregada.

Via-se logo que era estudante. Veio-me logo a eminência de poder dormir com elas um destes
dias. Mas como poderia superar a formalidade de eu ser cliente e ela empregada? Mas bom,
isto são pensamentos que tenho agora. Mais tarde não os terei, por força da idade. Isto se
conseguir resistir a este tabaco Ducados, 100% natural...

-Não, estou à procura de alguns autores... De facto não me lembrava de ninguém para além de
Jung e Freud (se tivesse dinheiro comprava a obra completa, se tivesse tempo e mulher lia a
obra completa) e ... Wittgenstein!

-Pois esta não é a biblioteca mais indicada para Filosofia. Terá de ir até à Arco-lris, aqui perto,
na Faculdade de Letras. (Isto é que é uma antropologia da memória, uma etnogafia da
memória. Como o meu espírito tem andado parado!).

Certo. Estava orientado. Fui até à Biblioteca Nacional para fumar um cigarro no páteo e ver
gente a andar de um lado para o outro por causa de livros e não de tijolos, como me ensinou o
meu pai. Como vêm, não vos conto nenhum amor em particular, nem o estado resultante
desse amor. Apenas factos. Factos etnográficos e circunstâncias para quem lê de outra cultura.

E com isto fechei os olhos aos livros nessa noite...


5.

É difícil encontrar algo para fazer quando a casa nos prende, gordurosa, quente e poeirenta.
Apenas a limpeza do corpo preocupa Tiago nestes momentos. Espera, lê um pouco, ouve a
Rádio Lights e decide mudar de vida devido ao tabaco. Então, depois de quase ter entrado no
café de sua conveniência, decide mudar-se e comprar tabaco para o dia seguinte. Resolve sair.
A cidade não oferece nada de novo aos seus olhos. Não vê as pessoas por dentro nem tem
pretensão de tal. Vê corpos, alguns de desejo.O seu desejo está vivo. Basta um pensamento
para o levar a uma cavalgada perversa, deturpar três dos seus dias antes e três depois. Basta
um pensamento mais forte para levar à ruína seis dias. O consumismo é uma distracção a que
não se furta, embora o montante a dispender por mês seja escasso, limitado. Depois da folia,
vem a normalidade e alguma imobilidade do corpo. Imagina como será quando começar a
trabalhar. Todos os dias, todos os dias para o mesmo local. Acredito que não será por muito
tempo. Desde que justifique as suas acções pelo pensamento. Não precisa de dialogar. Assim
mata os dias.

Tiago escreveu "Fluidos" e enviou o manuscrito a uma amiga de confiança, ligada por família a
um importante jornal de província. Passaram-se meses sem resposta. Agora espera até lhe
aparecer o desejo de lhe pedir o manuscrito que a amiga desprezou. Ou será que a carga viral
das suas palavras foi tão intensa que resolveu ignorá-lo, não sendo motivo para esboçar uma
resposta? Às tantas...

Cada dia pior do que o outro. Depois dos primeiros dias de entusiasmo, Tiago já não conseguia
viver os dias normalmente. Era demasiado tímido ainda e fechava-se em casa como um
condenado. Assim aconteceu no dia seguinte à recepção na Faculdade. Sabia que não era fácil
ter equilíbrio e que tal anseio só se concretizaria junto de outra pessoa. Mas o facto de saber
demais esta realidade fazia-o olhar cegamente o sexo feminino, não vendo qualidades e
defeitos, não avançando sequer. Era uma situação difícil. Como poderia ir? Só amanhã. Não
havia forças para avançar. Tinha de esperar que o seu corpo de recomposesse. Depois, tinha
também vergonha da sua intimidade distorcida. E um falsa ideia de si próprio, uma ideia que
não era assim tão falsa, mas sobretudo negativa.

Um equilíbrio difícil de conseguir. Em alturas da sua vida o diálogo, a conversa, haviam sido
intensos. Depois perdera tudo das mãos.

Num fim de tarde escrevia umas notas para o seu diário. O pessimismo não sabia do seu
humor. Era a dor de novo. Havia que esperar. A sua vida não regularizara , não tinha uma vida
social. Aparecia às vezes num bar, numa discoteca, entre amigos, mas logo no dia seguinte se
refugiava em casa. Era o contraponto dos bons momentos: os maus momentos. Mas será que
isso não acontece com todos assim?, interrogava-se. Não. A sua dor era única e exclusiva. E
considerar isso é que era o mal. Esta atitude travava o diálogo. Quando precisava de falar, não
o fazia. Não dialogava quando estava alegre; falava sem ouvir a reacção dos outros. Mas afinal
não posso condenar-me assim tanto! -desabafava no papel. Pois não. Havia que esperar e fazer
com que as coisas mudassem em breve. Se todo o seu passado havia sido a prostração num
chão de espelhos de esquizofrenia, complexidade e egocêntricidade, a sua luta agora era para
se tentar manter de pé. Andar se fosse possível. Correr até. A sua luta seria até ao fim dos seus
dias. Teria de lutar, de se mexer, de reconhecer o sofrimento como parte integrante da sua
vida. Só que tinha de dar uma solução à sua situação física.
6.

Quando nos tornamos populares num local onde exercemos uma qualquer profissão, quando
nos revelamos no nosso à vontade, é facil embarcar em probemas. O mundo mental que vivo
anda louco. Nem mesmo os sonhos são os mesmos. A noite passada tive um em que violava
uma jovem e ela se deixava violar, consentindo o acto. Foi a primeira vez que tive
pensamentos deste género. Será que qualquer coisa vai ser transportado para a realidade?
Não creio poder ser assim tão violento. Depois iria ter a uma prisão maior do que esta onde
estou. Pelo menos podia ter algum reconhecimento social, maior do que tenho nesta situação
de desempregado, anónimo do social.

Às vezes a gente não precisa de falar, nem precisa de terapia nenhuma. A gente quer é sexo,
acção, ver gente bonita e bem feita, desejar e ser correspondido. O pior é que é necessário
diálogo para sermos correspondidos, isto na melhor das hipóteses. Todos podemos concordar
que diálogo em vão é pura perda de tempo. Por isso os interlocutores têm sempre alguma
intenção em vista. Se a comida não estiver temperada não há sabor a cultura; é tudo ao
natural. Não há nada como um banho de multidão para nos confundir e fazer a cabeça
funcionar. Não se fala com ninguém; deseja-se por qualquer motivo falar de alguém. Para que
se estabeleça uma relação, o dinheiro é preciso. Sem esta moeda de troca, nada, mas mesmo
nada feito. Se quisermos comprar palavras, comprar sonhos, aí surge o dinheiro. Mas este
elemento do relacionamento entre as pessoas aparece discreto, disfarçado às vezes em
cartões. Enfim. Estou a esqueçer-me do Tiago Gomes. Ele ainda pensava, coitado, em ser
psicólogo e montar um consultório para assediar as suas doentes mais temperãs. Pensamentos
que o deixaram estar na cama, pensativo, por umas horas. Até que o telefone tocou. Não, era
a campainha. O carteiro tinha uma carta para si que o poderia animar. Era tempo de decidir se
iria para Inglaterra ou para a Suiça. Finalmente, sair deste pais.. Só gente indiferente,
insensível, que não compreendia os seus problemas de falta de afecto e adaptação à
socieadade. Era tempo de se desenrascar. O tabaco é que lhe tirava algum vigor. Mas não
haveria de ser nada...
7.

Tiago Gomes persistia em pensar que iria montar o seu consultório. Aos 25 anos andava no
terceiro ano do curso e tudo se encaminhava para que tal se concretizasse. Tinha um part-time
na FNAC, uma loja de livros e som que era o ideal para aquilo que pensava do mundo.
Conheceu Marília no seu trabalho. Ela era estudante de Literatura. Tiago sempre vivera
fascinado pela literatura e emocionava-se quando via representações na tela de romances,
adaptações ou biografias, como a de Shakespeare. Afinal os americanos podiam não ter tudo,
mas sabiam aplicar nos seus filmes um savoir-faire de ficção que escondiam todos os outros
senãos.

O seu dia era simples: de manhã ocupava-se dos afazeres da casa e preparava-se para saír. De
tarde ía às aulas, até às seis e meia. Às sete entrava no Colombo e o mundo era outro. O
conjunto de pessoas procurando livros e discos permitia libertá-lo da “clausura” disciplinar em
que se encontrava pela frequência de um curso de Psicologia. Ainda não sabia qual dos três
ramos escolher como opção no final do curso. As coisas haviam de ser decididas juntamente
com Marília. Tinha a Psicologia Clínica, que não o atraía demasiado, mas que sera o melhor
caminho para fazer terapia. O seu espírito, mesmo depois de uma noite de discussão
académica com alguns dos mais interessados colegas, não o salvava de um dia seguinte algo
frouxo, em que o seu espírito andava engelhado pela casa fora e o seu corpo ansiando pelo
amplexo de Marília. Cada dia era uma odisseia e nos primeiros tempos a adaptação ao part-
time não foi fácil. Mas não, nunca iria precisar de medicamentos ou psicoterapira. Embora
fizesse pressão sobre a personalidade de Marília, esta continuava a ser a sua maior confidente.
E embora confessasse fraquezas, não se sentia condenado por asserções, observações, nem
culpa-própria. Um traço forte do carácter de Marília era, contudo, pouco animador. Não raro
se dava a autocomiserações e frequentemente se via cheia de ansiedade em estudar, em saber
coisas. Por vezes era iluminada por uma fome de saber incontida, seu apetide intelectual era
voraz como o de uma piranha. Procurava a carne e só com a carne e o substrato de riqueza e
utilidade pessoal do saber se satisfazia. A autocomiseração parecia funcionar como auto-crítica
naquele ser.

-Mila, não me digas que estás no curso errado! - dizia-lhe Tiago com mais frêquência.

Não raro este se armava em terapêuta. Pelo menos era bom para evitar medicação. Era só um
traço de personalidade, um critério de exigência pessoal da jovem que, compreendido, não
podia ser condenado. Como se procurasse uma justificação para todos os seus actos, uma
razão primordial, existencial. Casar podia até ser uma via para amenizar as fugas de
personalidade de ambos. Até que ponto? É o que iremos saber...
8.

Enerva e dá raiva não ter ninguém com quem falar. Falo dos meus passos, tímidos sempre,
para me relacionar com os outros. Já que não sou capaz de dar grande desenvolvimento à
minha personagem, entretanho-me a pensar em mim próprio.

Tolhido fisicamente. De ontem para hoje tudo se desmoronou e sinto falta de calor humano.
Eu sei o que foi. Bastou-me olhar no espelho e ver que não estou bonito, apresentável,
cativante. Pode parecer infantil, mas isso desmotivou-me de tal forma que pensei logo em ir
ver filmes porno. É estranho porque tenho agora uma nova oportunidade de emprego para
Lisboa, que até pode bem ser uma alternativa às aulas. Mas as aulas são sempre mais
entusiásticas, além de que se recebe melhor. E mudar de cenário, mudar de casa por um ano,
só me fazia bem. Enfim, não há nada como uma sesta para retomar a calma. O pior é imaginar
o pénis contra o rabo de uma conhecida...
9.

Tiago acabara o curso em 1999. Estava um adulto feito, embora sem experiência nenhuma do
mundo do trabalho. Dado o seu pouco à vontade junto dos professores, não continuou uma
carreira de investigação que tinha ao seu alcance. Devido só a esse factor? Parece que sim,
pois estava bem com Marília e planeavam casar dentro de meses. Partilhavam já uma casa na
cidade de Lisboa. Marília conseguira dar aulas no primeiro ano e os rendimentos eram de certa
maneira constantes. Permitiam-lhes comprar livros sob um critério algo arbitrário, o que dava
sempre prazer. Tiago deixou no final o seu part-time e começou a procurar emprego. A
sociedade exigia-lhe agora uma outra postura, uma dedicação continua, nenhuma distração,
pois podia cair num poço de filosofia intima de que não sairia tão cedo.

O primeiro trabalho chegou. A Casa do Ardina era uma instituição que acolhia crianças com
problemas económicos, falta de formação. Era algo especificamente português e lisboeta. No
primeiro dia apossou-se da sua secretária, posta num gabinete de uma sala aberta onde se
ouviam as vozes das administrativas e outros quadros superiores. Onde há um psicólogo
geralmente há problemas. Mas onde há um psicólogo também há um sociólogo. Neste caso,
uma socióloga. Denise parecia ter o ar empinado de quem tinha um tipo de saber que
questionava a realidade e os outras, mas que nunca se livrava da sua posição de partida. Além
do mais, por estranho que pareça estava há um ano a cuidar de crianças. A primeira tarefa de
Tiago foi entrevistar as crianças, uma a uma. Só por uma ocsião havia feito entrevistas e não se
sentia muito à vontade, de modo que elaborou um guião. É claro que ficava margem para a
linguagem comum. Não era preciso gravador. Afinal, ele era psicólogo e tinha obrigação de ter
boa memória. E tinha. Encontrou casos muito parecidos. Porém, em todos eles algumas coisas
saltavam à evidência: a violência doméstica estava presente, casos de paternidade distorcida
ou ausente, etc. Alguns eram mesmo filhos de reclusos. Que psicologia fazer? Ouvir, fazer
perguntas, indagar, procurar entrar no mundo daquelas crianças de modo divertido, à sua
maneira. Elas conservavam uma alegria que há pouco Tiago havia reconquistado, e sentir essa
comunhão de espírito foi uma alegria constante nos seus primeiros dias de trabalho. Os
diálogos que mantinha com o staff eram breves, incisivos e vivos, pelo que não os
reproduzimos aqui. Distintos eram os diálogos com as crianças. Mais demorados, fosse no
gabinete fosse no recreio, no intervalo de um jogo de bola ou no café onde amiúde oferecia
sumos aos pequenos.

Porém, o emprego de Marília tinha os seus dias contados. Parecia não se adaptar aos miúdos
da zona oriental de Lisboa. Estes miúdos eram um misto de gaiatos de nivel social elevado com
outros provenientes de bairros de lata, nomeadamente a Curraleira. Na sua maioria eram
cabo-verdianos e angolanos. Havia algo que Marília não conseguia superar. Era tempo de se
virar para a tradução. O terreno era denso e competitivo; uma pessoa tinha de ser
necessariamente boa no que fazia. Ao mesmo tempo, os dois começam a fazer planos, devido
à saúde de Marília e às suas resistências em falar com miúdos faladores e arrivistas, para se
mudarem para o campo. Pelo menos para uma cidade de província durante alguns anos.

Bom, a vida dos dois correu melhor na província. Ainda não têm filhos, mas esperam uma
situação situação mais favorável para o primeiro rebento.
10.

O sexo. O amor. Como poderemos fazer diferir estes dois conceitos? Depois de perder o
desejo, estou a liquidar o resto. Não sei o que o futuro me reserva. Dado o meu carácter
pensativo, diria que não vou muito longe. A vida ideal parece estar muito longe. Será que ao
longo da vida alguma vez conseguimos um período de satisfação tal que não nos preocupemos
com o futuro, esquecendo o passado recalcado de ideias distorcidas e perturbadoras? A
própria escrita é morna, sem entusiasmo, um passatempo obsessivo. Procuro unir a vida à
escrita. A escrita deve desligar-se da vida para realizar um efeito libertador na própria psique
de quem escreve. Quem lê as minhas coisas não fica senão a saber como eu o que são aqueles
dias tranquilos, perturbantes e tormentosos. Depois, limito-me a ler outros autores para ver
como posso melhor transmitir os meus pensamentos, quando deveria limitar-me a transmiti-
los e aceitá-los como novos. Estou no cerne da vida e não me consigo libertar disso. Não me
consigo libertar do pensamento. Toda a minha vida é composta de elementos que eu junto. De
pensamentos, de impressões, de gestos mínimos, de esboços de afectos, de coisas inacabadas.

Espero por mais inspiração nos próximos dias. Mesmo que não escreva, espero estar mais
liberto do pensamento, mais simpático e intrometido com os outros. A bem da minha
sobrevivência afectiva...
11.

Diga-se em abono da verdade que não escrevo sobre um promontório, de onde contemplo os
meus cidadãos sem conversar com eles, seu aferir as normas do seu discurso. Falo de uma
cave onde, ao invés de ver para baixo, sou visto. Estas minhas especulações não irão levar a
nada se eu não souber, mais do que distanciar-me, esquecê-las. Sinto que não vivo numa
realidade qualquer. Vivo um tormento qualquer. Coisas, elementos psíquicos, pousaram sobre
mim há perto de dez anos e vieram distorcer e alterar toda a minha vida, ao ponto de me
tirarem a vontade de trabalhar. Acordo todos os dias de manhã de um sonho e sinto o corpo
rígido, alheio a movimentos bruscos. Sinto necessidade de estar mais um pouco para me
preparar para sair. Depois, lavo-me e saio. Enquanto estou em casa não me lavo. A extrema
atenção prestada aos cuidados do corpo, como se fosse a todo o momento ter relações sexuais
e temesse os meus odores, atormenta-me e persegue-me como um leão a sua presa.

Um sentimento de raiva percorre às vezes o meu espírito, como agora. Mas o maior
sentimento é o de frustração, pois se reconheço que tenho algumas capacidades e não admito
ser ajudado (nem posso ser ajudado), a masturbação prostra-me e dá-me um amargo e
desviado sabor da vida. É como se estivessem a doer as estranhas ou a gente saber que o
tabaco ainda faz pior e continuarmos a fumar. Sinto que sou um indivíduo que se tornou
pouco sociável, apesar de no fundo sempre o ter sido. O problema é que sempre teve poucas
oportunidades e muito azar. Falo do passado porque já não sou jovem e sei muito bem o que
já perdi: o fulgor do espírito inquisidor e o da juventude. Além da frescura de espírito.

É claro que já não penso nas personagens deste romance. Quero fazer um ensaio de
possibilidades, de especulações, de intimidade. A falta de contacto com as pessoas gerou este
ser, pouco afoito à comunicação, reservado, denso, conglituoso, pouco engraçado. Depois, se
penso que estou sozinho é porque estou mesmo sozinho. E nunca saio deste ciclo vicioso, até
me cansar e sair frustrado, não tendo já forças para caminhar em direcções alternativas. É
claro que eu gostaria que as coisas fossem diferentes: o trabalho, as minhas relações, a minha
escrita. Mas não tenho outra solução a não ser pegar naquilo que tenho e viver.
12.

Vou agora contar alguns factos que me perturbam. Um deles é o de não estar a beneficiar de
nada daquilo com que sonhei e estar num mundo de dúvidas, medos e impressões incertas e
inconvenientes. O que estou a escrever está a desvirtuar toda a quinta essência do que tinha
em mente levar por diante, mas a vida é feita destas coisas. Já passou a fase do romance, da
especulação. Agora é o tempo do desabafo. Se eu não fumasse sentir-me-ia e não chateava
ninguém. Agora estou escrevo simplesmente para me tentar libertar das coisas, sobretudo
deste mundo abafado em que vivo há cerca de dez anos. É um grito de dor e revolta que
provalvelmente ninguém vai ouvir. É meu mal julgar assim. Mas a escrita exerce essa magia de
serenar o espírito, como se libertasse o esperma. Enfim, só espero que alguém leia isto, nem
que seja um filho. Já não peço tanto; um sobrinho. Sobretudo depois de eu estar bem morto e
podre.

Tirei a minha licenciatura e pareço não despertar o interesse de ninguém. Pois de hoje em
diante vou ser menos paciente, mesmo com as mulheres! Quando vir uma preconceituosa,
uma púdica, não me furtarei a ofendê-la. Mesmo que seja a minha mulher. As verdades são
para serem ditas. É assim que o mundo pula e avança. Enfim, coisas concretas. As coisas no
domínio da Antropologia continuam a acontecer e eu sem vida para as a acompanhar. Nem
sequer tenho emprego, quanto mais ... Não é tempo de fazer investigação; correria um risco
muito grande. Sei bem que se tal acontecesse, estaria a debitar as minhas bizarrias psíquicas
para o papel em forma pomposa de tese (?!). Sei que preciso, acima de tudo, viver. Talvez em
velho me dedique mais à escrita e à extroversão dos meus pensamentos. Mas para já preciso
de esquecer que existem certas pessoas, mesmo que isso me custe. Poderei reencontrá-las
mais tarde. Falo de alguns antigos colegas e de alguns professores (além de algumas outras
pessoas). Não vale a pena citar nomes. Mas eu sei bem quem são para o meu coração. Se não
tivesse passado por certas perturbações psicológicas talvez não sentisse tanta raiva do mundo.
Pena é que não consiga direccionar essa raiva a certas pessoas, pois decerto que ganharia
poder com isso. E motivação. Agora ando aqui de um lado para o outro, pensando que o
diálogo se faz por uma chave que se imagina e que eu estou à procura de uma chave para cada
pessoa. E enquanto cada chave não surgir no meu pensamento não entro em contacto com as
pessoas. Mas também estou farto de ligar para os outros. Digo, por telefone. Já foi tempo...
Agora é altura de ser sincero e implacável, exigir dos outros que tenham tanta preocupação
como eu tenho com as coisas. Se sim, sim; se não, sopas e meia volta. Porque pessoas há
muitas e temos de bater a várias portas antes de descobrir uma névoa interessante em
pessoas interessantes.
13.

E eu que tinha uma visão sagrada sobre o meu destino e sonhei que haveria de casar com uma
mulher e tê-la para toda a vida. Agora é tarde demais. Que adianta justificar-me com as
mulheres? Que importa se continuo a sentir um desejo incontrolado por qualquer mulher?
Depois, a atracção sexual ainda funciona da minha parte. É porque não ligo mesmo nada ao
aspecto afectivo ou espiritual das coisa, às coisas da alma! Procuro, na minha mente, um
diálogo por descobrir e não chega nada. Preciso de mais dados, de conversar com pessoas, de
ler dados etnográficos. Os dados psicológicos não me interessam. Já chegam as minhas
derivações psíquicas. Preciso de qualquer coisa mais sólida. O pior é que preciso de atenção.
Mas ao mesmo tempo não consigo sair de mim mesmo, transcender-me, ultrapassar-me. Bem,
também não é necessário tanto. Basta-me viver o dia-a-dia. Mas eu não quero ser uma pessoa
vulgar. E esse é que o problema. Quero comunicar, transmitir aos outros coisas que vou
descobrindo. Por isso é que queria ser antropólogo. Por isso continuo obcecado pela escrita
autobiográfica. É um meio de me exprimir, como a música ou a pintura, se tivesse tido outra
formação. Sob nenhuma ciência física me poderia exprimir, pois falta-me o interesse. Mas
acho que seria conveniente começar a pensar nisso, a bem do meu bem-estar material. Só falo
em mulheres, em arranjar mulher, e não tenho nenhum projecto sobre a vida. Já passou a
idade dos projectos. Os que tive foram sublimes e irrealizáveis. Não chega já?
14.

Eram quatro da manhã e eu não estava a conseguir dormir naquela abafada noite de Verão. A
rádio Vox ainda se fazia sentir baixinho no seu rádio de cabeceira. Lá fora há já duas horas que
tinham passado os homens do lixo. Não os ouvira, mas isso não importa. Espero um pouco na
paragem, a poucos metros da sua porta. Há que tempos que não comunicava com ninguém.

No centro da cidade grupos de jovens saiam das discotecas. Aparte isso, a cidade mantinha
uma certa vida através de alguns dos seus mais nobres trabalhadores: os tipógrafos, os
deambulantes, os sem-abrigo, os mendigos. Enfim, os homens da noite... Os deambulantes,
por exemplo, eram seres aparentemente pouco interessantes: uma espécie de filósofos
cinzentos da cidade, sem destino certo. Homens (e mulheres) de poucas relações, a maior
parte deles desempregados ou com profissões incertas. No entanto, eram eles que
asseguravam a continuação da noite para o dia e cabia-lhes a tarefa de acordarem todos
aqueles que, bem cedo, tinham de ir para os seus empregos certos. A Câmara pagava-lhes para
isso, a meias com os interessados. Cada pessoa tinha o seu deambulante com quem conversar
logo pela manhã, com quem comentar as primeiras noticias sob um naco de pão e uns ovos
estrelados. Estes seres cinzentos opunham-se aos seres coloridos até nas roupas. Dormiam
quando tinham sono em albergues estrategicamente localizados na periferia da cidade.

Era assim a vida pós-moderna em Speranza. Guido DeSilva sofria de anomalias mentais
inexplicáveis. Tinha o cabelo alto, aloirado e uns olhos azuis grandes, de infinito. No dia 16 de
Julho de 1999 dirigia-se, pelas sete da manhã, para uns pólos residenciais, uma espécie de
urbanização de nivel médio-superior composta, na sua maioria, por artistas e profissionais
liberais: médicos, advogados, psicólogos, sociólogos, etc. Naquela manhã a sua função era
acordar Jaime Tinoco, um músico de alguma fama no país.

-Então o que temos hoje de interessante?

-Casos de crimes sem solução... A matéria cultural é ínfima, como sempre.

-Come qualquer coisa, Guido. Como tens passado estes dias? Pergunto isso porque afinal de
contas só falamos dos outros...

-Tenho feito umas coisas aqui e acolá... Uns recados. Nem sei em que é que estou a contribuir
para o meu futuro... Não vejo grandes alternativas a não ser continuar no mesmo.

-Pois... Para voçês é dificil encontrar emprego na “Sociedade Normalizada”. Nem eu posso
fazer grande coisa por ti.

-Pensei em mudar de aspecto e, já agora, de cidade também. Pode ser que noutro lugar me
dêem mais hipóteses...

-Pensa bem.

-Pensar... É o que nós fazemos melhor. E nem sequer somos violentos. Porque é que o
presidente da Câmara não toma medidas e encara o nosso problema de frente?
-Sabes, quem não se insere, quem não trabalha “normalizado”, tem sempre poucas hipóteses
de aspirar a certas coisas. Sobretudo a bens materiais.

-É melhor mexeres-te...

-Pois, adiante. Hoje tens de Ir a Window Park apresentar-te na segunda parte de James Spader.

-Pois é! Tenho de falar com ele antes... Procura-me o telefone.

E assim ficaram a conversar até às oito. Jaime deixou Guido com os seus livros durante a
manhã.

-Quandor saíres é só puxar. a porta. Até amanhã.

-Tthau.

As tardes de Guido, eram dedicadas a tarefas individuais. Um contrasenso, quando o que eles
precisavam era de tarefas comunitárias.

Dois anos depois, Guido havia já experimentado a sensação de estar fora do país, receber
finalmente outros ares, falar outras línguas, conhecer outras pessoas. Nesse tempo o seu
estatuto subiu consideravelmente. Começou a ser convidado para participar em debates sobre
a vida dos deambulantes, que entretanto se haviam tornado numa curiosidade antropológica e
histórica em Speranza. Aceitou um lugar como professor numa universidade privada e viu-se
na disposição de poder comprar um carro. Finalmente um carro! Depois de ter conhecido a
cidade de lés a lés pelo seu pé, podia agora ir aos sitios de automóvel. Porém, a sua vida não
tinha mudado interiormente. Era ainda o velho e psicologicamente instável Guido -o que
combatia com sexo frequente e fácil-, dono de uma inteligência vivida. Não aspirava entrar
numa vida muito movimentada, pelo que começou a declinar convites importantes,
começando a mandar a maior parte da gente à merda. Tinha alcançado um estado de coisas e
não queria ser vítima de tal estado, ficar dependente dos outros. A civilização técnica havia
progredido em Speranza, mas tal não o incomodava demasiado. Interessava-lhe mais a
pesquisa subjectiva e especulativa. As suas fugazes idas à televisão permitiram-lhe gozar com o
poder da telecomunicação, e agora por vezes já aparecia mais bem humorado e mais
descontraído, como se estivesse a falar consigo próprio. Mas por vezes surgiam as saudades
dos primeiros tempos. E sabia que não podia voltar atrás. Vivia os seus 35 anos com cada vez
mais perguntas. Precisamente porue havia renunciado à “Sociedade Normalizada”. Uma
dúvida que frequentemente o assaltava era o facto de saber se havia procedido bem do ponto
de vista exterior. O que foi feito estava feito. Pelo menos dava as suas aulas e já estava num
patamar de bem-estar que nem os seus pais e os seus avós haviam sequer sonhado...
15.

A tarde é calma e espero os meus amigos. Há uma vontade de nada fazer, um desejo de que
todos os limites impostos ao espírito sejam desfeitos por revelações ulteriores. Oiço canções
antigas de Black (1991) para serenar. Folheio o Le Monde Diplomatique em edição portuguesa
e constato como estou afastado do mundo. Há conflitos que outros jovens como eu sentem na
pele. Haverá jovens como eu por esse mundo fora? Estamos a chegar ao próximo mílénio. É
apenas mais uma data importante, mais uma passagem de ano.

Estou a chegar à idade de Cristo. Depois dos trinta e três será só gozar. A obra escrita não se
pode dispersar. Tem de se ter ter respeito pelo que se cria e acarinhar isso como se fossem
verdadeiros filhos. Dei exemplares da minha obra a pessoas que cometem erros todos os dias
e que não sabem o que representa um livro. Em vão, agora sei. Enviei para a Rádio Vox um
texto que vou pedir, exigindo justiça. Outro, o “Fluidos”, enviei para a Alexandra, essa minha
amiga de longa data. Foi uma obra que me custou imensas horas de sono. Trata-se de um
conjunto de obras, que incluem escritos diversos, que quero juntar num volume de
“Pensamentos”. É claro que a minha produção não é grande coisa. Admito isso. Mas dadas as
minhas condições não se pode fazer muito melhor. Aliás, o que eu mais explico são as
condições de produção da escrita. Estou ansioso por sair daqui. Já chega de apartamento!
Alguns dias de aldeia, depois o campo de férias, depois o trabalho e por fim o regresso às aulas
(a ver se junto algum dinheiro que dê para um carrito em 2ª mão). Ah! E também tenho de
tratar dos óculos e dos dentes. Bom, estou a ver que hoje já não debito mais nada. Até à vista.
16.

Costuma-se escrever a partir de um ponto escrito no céu, um ponto presente de um


acontecimento (presente ou passado). Começar por um facto que se poderá deslumbrar no
futuro pode ser experimentar viver antes de por a carroça à frente dos bois. Algo. que nos
traumatizou é bom para se escrever: dá linhas, é problemático e faz-nos questionar. À medida
que avanço nos anos cada vez mais me conheço e, resultado da timidez ou do diálogo com os
amigos, reconheço uma forte rigidez de espírito no meu carácter. Consigo identificar vários
defeitos em mim, mas estou longe de ser.capaz de os eliminar de um dia para o outro. De uma
maneira ou de outra, interessa-me ser uma pessoa completa que enfrenta os desafios da vida,
profissional e sentimentalmente. É nestes dois aspectosque eu me revelo mais fraco. Continuo
com grandes oscilações nos meus dias. Falta-me um certo à vontade. Preciso pensar menos em
coisas sem importância. Tenho de esforçar-me por reter no meu pensamento coisas muito
mais importantes e significativas como o caso de sentimentos de alegria partilhados. O meu
pensamento fica preso com cola a ideias que não são possiveis de transmitir por palavras. Por
isso não têm valor. São fragmentos que muito pouca gente entenderia, e o que eu quero é
chegar a um cada vez maior número de pessoas. É uma opção, e temos de ser fiéis (será que
temos?) aos nossos compromissos.

Depois .de bons momentos retraio-me. Como se a timidez fosse algo de congénito, como se
fosse quase um autista. Às vezes a dor é insuportável e só me apetece gritar ou chegar ao pé
de alguém como um jovem particularmente atraente e desatar a falar esquizofrenicamente.
Mas contenho-me e volto para casa. Mas lá no fundo talvez isto não seja só uma questão de
timidez. Eu sei que existem alguns medos recalcados, pequenas vergonhas. E um certo receio
de as revelar, de me assumir. O que só posso é que tenho os anos que tenho e ainda não me
revelei ao ponto de dizer “Isto sou eu!” Não sei quanto tempo vou esperar por isso. Talvez não
seja bom esperar com muita força, pois posso vir a ter alguma decepção. É melhor fazer como
diz no slogan e não deixar que nada me perturbe. Dedicar-me apenas às coisas de que gosto,
cultivar o meu interior. Mas esta dualidade interior/exterior é um pouco limitada. Quero ir
mais além, ver as coisas mais esbatidas e difusas, por assim dizer...
17.

A música não era a mais adequada para dois pares de namorados na praia. Contudo, na Costa
da Caparica via-se (e permitia-se). Na esplanada, Telma estava um pouco desanimada com o
seu namorado. Cris ria-se das piadas que ele próprio dava segurando o jornal Record. O artigo
das páginas centrais falava do futebolista francês Eric Cantona. Era impossível alguém ser tão
insolente no relvado. A música era brasileira. será que era a mais adequada? Estava-se numa
espécie de satélite do sentimento brasileiro do “doice fare niente”. Era um estado a que se
rendiam alguns europeus que ali afluiam, certamente descontentes com o estado social das
coisas. O Verão .ainda estava no princípio e estava distante o Inverno desejado secretamente
por Cris. Fingia não ser tímido. Julgar-se tímido era uma forma de explicar os seus
pensamentos e o seu comportamento. Uma espécie de bolsa onde cabia muita coisa
indesejável. Atormentava-o pensamentos inoportunos e indesejáveis. Queria estar mais com
os amigos, mas Selma aprisionava-o num namoro obsessivo. Era tempo de se libertar das
amarras de uma sexualidade pouco saudável. Telma era diferente Sensível e possuidora de
uma inteligência viva e sagaz, não tinha frequentado a universidade mas lia com frequência
obras escolhidas ao critério do seu sentimento e estado de espírito quotidianos.

Os dois pares deslocavam-se de novo até à praia para apanhar o sol e o banho da tarde.
Debaixo de chapéus de palha alguns pares estavam demasiado juntos e à vontade, inclusive
com alguns topless aqui e acolá. Três amigos olhavam para elas fazendo comentários
malandros. Este tipo de cenário não dá para um conto, mas para uma mera descrição de
costumes que não almejo fazer. Não tenho poder descritivo para tal. A minha imaginação
romântica já há muito que teve os seus dias e agora sobrevive apenas a um nível existencial,
não sobrando para o papel. Vivo ainda dividido entre .a escrita e a vida, mas recuso-me a
acreditar que a minha escrita não reflicta a vida. Além do mais, não ocupo nenhum lugar que
dê continuidade aos meus pensamentos, onde receba por pensar. Nem me posso arvorar em
intelectual oficial nem ter os proveitos materiais ou aproveites sentimentais de tal posição. Sei
que o terreno que piso neste momento é transitório. É possível que venha,a ser um
desencantado da vida. Mas não o serei por não ter meios, pois os meios não são tudo.
Procurarei outros lugares, outros estados de espírito mais próximos dos meus desejos...
18.

Aos 25 anos, tendo ganho o seu primeiro ordenado dando aulas e explicações de matemática,
Cris começou a equacionar a possibilidade de mudar de rosto. Fazer uma operação plástica no
rosto de alguém famoso, tornar-se conhecido por esse processo. Sim, porque nos seus
melhores diás considerava-se um artista. Mesmo os mais íntimos problemas não o abatiam e a
timidez parecia desvanecer-se. Ora, não era possível tecnicamente falando, copiar a cara de
alguém existente, pelo que no primeiro aconselhamento o médico sugeriu-lhe umas alterações
ao seu rosto que em muito o iriam favorecer: aumento do nariz, operação à córnea (para
retirar a miopia) tornar a sua pele um pouco mais suave (sobretudo na zona da testa e das
maçãs dos rosto, de modo a retirar indíçios de rosto perfuradopor uma má gerência do acne
nos anos verdes da juventude).

Passados cinco anos havia junto perto de mil contos, fruto sobretudo de pesado trabalho em
dar explicações. Aos trinta anos estava prestes a modificar o seu rosto para sempre. Era assim
que celebraria a entrada no novo milénio: como outra pessoa. Como a operação corresse bem,
dois meses depois olhava-se no espelho e gostava do que via. Não tardou a encontrar urna
namorada só pelo seu novo aspecto: o rosto tratado e atraente, o cabelo cuidado com o
melhor shampô... E ainda por cima sem óculos! O que mais queria? Nem era preciso pensar
nem falar muito. No seu trabalho, a sedução parecia substituir a alegria. Aos poucos uma
namorada já não era suficiente. O seu telemóvel era frequentado por três, quatro companhias
habituais com quem se envolvia em quentes relações sexuais. Contudo, no trabalho a
indiferença face a responsabilidades e a colegas ia aumentando. Não tardou que ele próprio se
despedisse e entrasse no subsídio de desemprego. Cris sentia pela primeira vez que estava
perdendo a alma .O novo século, o novo milénio, haviam-lhe trazido satisfação da sua
sexualidade, haviam-no tornando numa pessoa serena e fácil, mas sem raiva e sem arte. Numa
palavra, sem, paixão. No ano de 2005 já não era possível voltar atrás. Havia comprado o seu
novo rosto como um produto inovador e tentador, daqueles que existem à venda nos
hipermercados. Como poderia voltar para o seu interior com um rosto que chamava toda a
gente à atenção e apelava para a socialização?
19.

A dor persegue-me como a sombra da própria morte. É momentânea, graças a Deus, e por isso
posso continuar. Descubro um pouco do meu futuro e reconcilio-me com algumas ideias que
representam o que desejo fazer: estudar, trabalhar num local agradável, escrever. Li algures
num livro sobre a timidez que isto tudo são indíçios de alguém que anseia ser rico. Talvez no
meu caso seja a fama aquilo que busco. O desejo de ser reconhecido. Esta ideia persiste,
apesar do meu passado doloroso e introvertido, apesar do meu presente confuso. Em todo o
caso, terei de optar em breve por uma perspectiva liberta e ligada às artes. Uma perspectiva
material e pedagógica. O que está em causa não é tanto um emprego definitivo, mas uma
ocupação que permita lançar o futuro como eu sempre quis, sem deixar de ter em vista, a
médio prazo, a aquisição de um carro. O objectivo “Viagens” não se pode realizar por si só sem
eu ter fundos. Por isso ficará restringido a uma poupança a efectuar para solver no tempo das
férias. É claro que queria ter mais dinheiro para comprar livros ou música. Mas terei de refrear
os meus instintos. Depois, no plano mental, como conseguirei conciliar o desejo sexual com as
aspirações intelectuais, sendo eu, de algum modo, um tosco? As veredas são múltiplas e
frequentemente tenho de virar à direita ou à esquerda nesta estrada da descoberta de mim
próprio e dos outros. Confesso que estou farto de mim próprio. Mas o que sou eu senão
também um compósito de elementos alheios e internos? Depois, e no que respeita aos
estudos não sei por onde ir: se pela Psicologia (que já não me fascina por ser tão redutora), se
pela Geografia (por uma questão ilusória e auto-convincente de um dia me tornar professor)
ou se pela Filosofia (que me tem escapado por falta de tempo e de atenção). Pela Literatura é
que nunca, pois o que faço e escrevo não é literatura. O que escrevo são ensaios sobre o
comportamento humano. Tanto o meu como o dos outros. Se resulta do diálogo,
indirectamente e por vias que agora não consigo decifrar, melhor aparecerá no papel. Se
resulta de cansaço e de pensamentos especulativos e subjectivos pior, pois é disso que tenho
procurado fugir. Por isso a minha escrita é, tanto quanto eu desejo, uma fuga de mim próprio.
E em direcção ao futuro, tendo como referência o passado da minha memória subjectiva (que
contém dados objectivos).

Apesar de tudo, pareçe que até me estou a sair bem. O espaço que tenho não advém do
desafogo económico, mas do esforço que faço em manter-me por Lisboa, sempre à descoberta
de novas ideias e a despoletar no meu espírito novas sensações e impressões. Ao mesmo
tempo, continuo sem me especializar, querendo absorver a realidade como uma totalidade.
Estranha-me ter tais desejos intelectuais e ao mesmo tempo ter mãos para o trabalho manual
(como vou experimentar nestes dois meses que se seguem). É sinal de que continuo, apesar da
solidão e dos desafios da razão, fiel à minha personalidade, aspirando a algo que não tenho a
não ser no meu pensamento. E fiel também às minhas raízes familiares. De certo modo, e dado
que já entendo um pouco melhor o funcionamento da minha faceta psíquica, sei agora como
lidar com ela. Já a caracterizei exaustivamente, embora de um modo ainda um pouco solto e
difuso. E posso resumi-la.

Tenho receios e pruridos de obstáculos psicológicos; uma grande carência afectiva. Uma
necessidade física de contacto sexual e de estabilidade emocional. Quando dou autonomia à
minha libido retraio-me, para logo depois me expandir novamente. Seria tolo se não fosse
assim. Quando esqueço a televisão e os media (isto é, a imagem em si), perfuro uma dimensão
de fantasia e de auto-flagelamento-comiseração-lamentação e entro na realidade, passando
para o campo do inconsciente, sob a forma de sonhos, a minha actividade psíquica principal.
Aí, embora me sinta melhor, não perduro. E é isso que me confunde e me cria uma teia de
pensamentos de tal forma enervante e pouco saudavel que sinto uma espécie de fumo branco,
redondo, sob a minha cabeça. haverá lugar para a timidez em todo este processo? Não sei. Se
não fumasse talvez me sentisse um pouco melhor e conseguisse dar largas à minha
afectividade de um modo mais saudavel. Mas neste ciclo também entra o café. É mais um
ritual dotado de carácter orgânico, típico da actividade criadora da escrita. Não tenho em
grande conta o que escrevo porque isso não é o resultado de nenhuma vivência intensa ou de
alguma paixão. Se assim fosse, trataria logo de mandar queimar todos os manuscritos que
possuo. Ou então mandaria arquiva-los...
20.

A necessidade do diálogo ainda. Telma tinha enjôo em ler livros sobre sentimentos. Procurava
diálogos e acção. Não que o português dos diálogos transbordasse para os diálogos orais. Nem
sequer procurava conhecimento. Os livros davam-lhe a satisfação depois de uma barrigada de
horas de tv. Na calma, à noite no seu quarto, penetrava nos desígnios da leitura com calma,
prazer, dando um ar de solenidade à sua alma. Até adormecer um pouco, ficava ali deitada, as
janelas entreabertas deixando passar um pouco de vento. Há muito que o seu quarto deixara
de ser uma espécie de santuário para passar a ser um lugar de sonho e criatividade, de labor
da alma. Passava pouco do seu dia no quarto e a única actividade que realmente a satisfazia
era ler. Depois procurava estar o máximo de tempo possível lá fora, observando elementos de
realidade que conjugava e comparava com os seus personagens. Absorvia-se no jornal onde
trabalhava, procurando ouvir as histórias dos outros com poucas mas firmes interrupções e
perguntas. Eram poucas as oportunidades de saborear e conhecer a vida através do
jornalismo. Uma ou outra reportagem, uma ou outra entrevista.

Há dias deslocara-se a uma prisão para ouvir uma peça de Kafka representada por um grupo
de presos, os que mais cultivavam um espírito de clausura. O público era escasso, mas isso não
impediu Telma de fazer a sua reportagem. A política, a economia e a vida social aborreciam-na
porque só falavam de extremos materiais. Raramente abrangiam os extremos morais como a
solidão, o sofrimento atroz e o esqueçimento. Depois, o que os média mostram são
continuidades que tentam, de alguma forma, dar uma explicação e uma contextualização ao
mundo. E sempre de uma forma elementar e repetitiva.

A televisão cegava Teima. Mas todos os dias a ligava. Às vezes para se deixar distrair; outras
para se esquecer de que havia outros mundos que ela pensava inacessiveis. E esses mundos
também continham pessoas, histórias de vida distorcidas, exageradas, sinuosas e abruptas. No
fundo era isso que ela procurava e que não encontrava no perfil do namorado. Seja como for,
uma relação teria de existir e persistir. Até que viesse uma revelação, por mais pequena que
fosse, que a fizesse pensar por si própria ao ponto de se tornar intelectualmente autónoma.
21.

Às vezes é tempo de nos desfazermos de velhos papéis, ficando somente os livros e alguns
documentos mais importantes. Parece que escrevo para explicar cada acto, cada “tour de
force” da minha parte. Há que experimentar libertar-me mais da escrita, procurando não
celebrizar tanto os meus actos.

Há dias em que não nos apetece dizer nada. Somos tão tímidos que nos limitamos a ouvir, a
responder e a fazer algumas perguntas de circunstância. Ficamos espantados como podemos
estar tão longe do mundo.

-Hoje é um daqueles dias em que não me consigo animar.

Depois há uma espécie de quebra física.

As manhãs custam a passar; já não tenho a mesma frescura de outros tempos.

-Faltam-te medicamentos.

-Não. O problema não é a falta de medicamentos. É a falta de motivação e desprendimento.

-Mas isso aprende-se com o tempo. Há sempre uma iniciação, uma realização. O que parece é
não estares ainda iniciado.

-Pois, tenho desperdiçado algumas oportunidades. Mesmo com algumas mulheres, as que
mais desejo, fico nervoso.

-És tímido.

-Não, não parece ser esse o problema, como já referi. A questão parece ser se a timidez deriva
do foro afectivo... Ou seja, tentar saber se isso é mais mental do que outra coisa. Por exemplo,
não estou totalmente satisfeito com o sítio onde vivo: a janela onde passo a maior parte do
tempo dá para um páteo e um ringue onde todos os dias se joga futebol. Depois, a viagem que
faço de regresso é deprimente: a Morais Soares, o grande muro do cemitério...

-Mas a casa pelo menos é tua!

-É, mas infelizmente não a posso trocar por outra...

-Tens é a mania de te estares sempre a queixar.

-Não. Tenho é a mania de ser exigente comigo. Comigo e com o que me rodeia, sejam pessoas,
sejam coisas!

-Tens é falta de trabalho.

-Nisso concordo contigo. Pareço uma donzela com falta de homem.


-Podes deixar de te preocupar a partir da altura em que começes a fazer as coisas principais.
Talvez o teu problema seja estares um pouco indeciso e não teres convicção do que é que
realmente queres.

-É. Mas continuo a pensar que haverá por aí algum lugar onde me possa realizar. Um lugar que
esteja guardado só para mim. É como pensarmos “queria para mim as mulheres desta cidade,
ou desta aldeia. Só deste lugar.”

Este livro já acabou. Estou farto de escrever na escura solidão. Não há muita capacidade para
inventar a amizade e a solidariedade, pelo que se devem deixar a fermentar algumas ideias e
mais tarde colher os seus frutos.
MAR
DE
SARGAÇOS
De uma forma ou de outra, teria de contar esta história, pelo que decidi hoje, no meio de
um verão, começá-la, não sabendo bem onde ela me irá levar. Não sabia bem se devia utilizar
a primeira pessoa ou a terceira, do singular, pelo que não obrigatoriamente tenha essa
qualidade, esta história. Várias coisas me inquietavam naquele ano de 2013. Sabia que não
voltaria a trabalhar, tinha um sentimento de perda e remorso bastante grandes, digamos
assim. Poderia ficcionar esta história, mas a condição em que me encontrava não permitia
grandes “avarias”. Custava-me bastante pôr-me de pé moralmente, e há já bastante tempo
que andara de cabeça perdida encostado a mim mesmo. Tinha consciência não ter praticado
crime algum, contudo, vivia como se assim fosse. Duvidava de tudo e de todos, inclusive da
família, talvez porque há algum tempo alguém se cruzara no meu caminho e me fizera ver as
coisas por outro prisma. De uma maneira ou de outra, biografia ou ficção, teria de continuar a
escrever, sob pena de ficar pelo caminho mudo, o que não jogava bem com a minha
personalidade. Em questão de poucos dias, os tópicos que animavam a minha condição,
haviam sido postos em causa, mas talvez não abalados. E porque ousava falar de mim? Porque
não entrar definitivamente no universo da ficção e fazer disso fruição? Porque não continuar
uma história antiga ou começar uma nova? Dedico, pois, este livro ao meu tio.
I.

A poucos dias do seu regresso, Antenor Gonçalves buscava uma forma de dar sentido ao
que acontecera aos seus dois filhos, quando mais tarde veio a perceber que certas coisas
faziam mais sentido que muitas, pelos sentidos que desenhavam. Nesse instante, encaminhou-
se para a porta que se encontrava fechada e deu à maçaneta. Do outro lado, Benilde e
Fragonard, francês para o lado de Bordéus, ansiavam por ouvir sua voz rouca e debilitada.
Eram convidados de honra nesse dia, para além do que tinham na mesa, havia os enfeites para
a festa de Natal que se aproximava. Entraram então em sua casa, deixando para trás uma
matilha de cães encerrados junto ao palheiro, na povoação de Povoação, sabendo que ficariam
estes bem entregues ao criado Eleutério. Jantaram à luz de vários candeeiros, emprestados
pela vizinha Clotilde, depois de uma zanga em que a mulher havia ficado envergonhada,
depois de um acesso de raiva e entrecortava o seu sofrimento o sobrinho que por ali
pernoitara três dias seguidos sem nada pagar nem agradecer o poiso dado. Nessa arritmia que
seu tio João Bernardes, pescador de grande conta na sua terra, dos termos de Marinhais das
Ondas, assim se destilavam rancores antigos que o tempo nunca mais apagaria e ainda bem, se
dizia naqueles tempos pela habitação emprestada na qual Timóteo Fragos se encontrava a
residir pela linda conta de 43 anos. Assim, depois de continuarmos o que temos a fazer,
regressemos um pouco ao interior de uma questão que nos preocupa, aqui onde tudo se
funde e confunde pela palavra, pelas palavras, através das quais nos expressamos diante do
leitor soberano, o que não quer dizer que sejamos serviçais, mas que confiamos na
posteridade, para que alguma justiça se faça, sendo que nem só de posteridade vive o mundo,
sim, aquele em que vivemos, para além das crenças, coisa que tem muito a ver com o interior
de cada um, para além do objeto perdido no campo. E eis-nos, pois, envolvidos numa tarefa,
procurando fazer sentido quando existe aquilo que os filósofos pós-modernistas chamam de
“excesso de sentido”, mas bom, disso vive o mundo, disso se alimenta e subsiste, fazendo com
que as pessoas possam admitir em suas vidas alguma forma de livre arbítrio. Assim, continuava
naqueles dias procurando fazer sentido do argumento para este livro, que se poderia resumir
em poucas linhas: o nosso protagonista perde-se de desgosto de amor na adolescência e vai
para o seminário, depois, cinco anos depois, é ordenado padre e vai para as missões em África;
quando regressa, a sua amada tem já dois filhos e está separada, melhor, está na casa do seu
pior inimigo que, ao sabor da liberdade religiosa, havia sido Testemunha de Jeová e agora,
morta sua mãe, acolhe em sua casa o antigo amor do protagonista, que se prepara para o
liquidar fisicamente, pois diz-se na aldeia que havia também ela ficado louca por amores não
correspondido e não realizados. Assim se pode resumir nossa história, mas mais haverá para
contar, relacionadas ou não com esta que acabei de resumir. Naqueles dias, estava eu inativo
em Fronteira (mesmo na fronteira de qualquer coisa…) e questionava-me porque estava
(ainda) ali. Lisboa em Agosto não me dizia nada e sabia que meu campo de ação se estreitara
bastante, não só pelo facto de não ter carro. Passaria a vida entre Lisboa e Fronteira? Quantos
dias duraria a inatividade? Por outro lado, descoberto este argumento, sabia que o meu
destino seria, entretanto, escrever este livro, evidenciar o argumento, trabalhá-lo e apresenta-
lo da melhor forma possível. Não podia guardar mais para a noite, esperar por nada sem ter
que dizer o que tinha a dizer ao papel em branco, mesmo que corresse o risco de ser mal
considerado, mal interpretado. Não sabia quanto mais poderia ficcionar, se estava
decididamente preso numa armadilha que seria o neorrealismo com condimentos de
existencialismo, tal como Virgílio Ferreira e Urbano Tavares Rodrigues. Acondicionado, então,
entre o Nada (aparentemente) e o Tudo (o que tinha esperança de jamais poder acontecer),
vivia assim, dentro dos limites do desejável, do possível, do alcançável. Recolhido no âmbito
familiar, dava demasiada importância àqueles que falavam de fora e pouca importância ao que
a minha família me dizia. Não tinha consciência de fazer totalmente parte da família, no
entanto estava ali, num dasein aparentemente infinito, como se fosse pós-humano não-
desejante. Pressentia que me teria de libertar de todos os grilhões do pensamento a que me
haviam imposto através da palavra, da escrita, da comunicação. Estava condenado a uma
condição de limbo até morrer, isto é, sabia que perseguia para sempre o sonho de viver para
escrever e não somente escrever para viver e esse sonho, para além do facto de não estar a
trabalhar, estava se tornando real, tivesse eu argumentos para voltar a sonhar com histórias
mais ou menos edificantes. Portanto, o que de mais acessível poderia entretanto fazer, seria
evitar o registo autobiográfico e desfilar, antes de mais e sem mais pretextos, a história que
me trouxe até aqui, a este lócus de inspiração. A teia da psicologia retirara muito da minha
inspiração, ao disfarçá-la de psicopatologia. Era extremamente complicado. Se nunca tivesse
dado olhos e atenção à psicologia, quem sabe teria escrito mais e melhor, sim, ainda me
preocupava em escrever mais e melhor, quando outros o faziam com algum sucesso. Porém,
também procurava na escrita um efeito catártico que me aliviasse de males piores que
poderiam acontecer. Assim, perseguimos a história de um personagem que se evade da
sociedade para carpir e alimentar um amor mais do que platónico, sublimá-lo com cantos
religiosos, com preces e orações mais ou menos sentidas, enquanto seu amor de juventude se
evade também por entre os vícios da vida boémia de estudante. O nosso protagonista, de seu
nome Carpeta, corria também na Fórmula 1, entre aqueles mais conhecidos da época. Assim
sendo, resolver empreender uma tarefa do espírito que a mim me cabia, sem olhar a
condições, quês e porquês da questão, sem me abandonar ou deixar abandonar ao acaso dos
pensamentos que ao meu espírito afluíam, sem que eu os pudesse controlar, pelo que decidi
tudo considerar como válido na minha indagação acerca da verdade e credibilidade das coisas,
o que escondia também um certo sentido cómico da coisa. Assim, sendo, naquela tarde, tinha
coisas comezinhas a fazer, tarefas simples e domésticas a empreender, pelo que resolvi jogar o
meu corpo nas ilimitadas áreas do saber e do acaso. Naquela tarde, avancei um pouco mais no
sentido de perceber o que fazia ali naquele reduto de Fronteira, o que me mantinha ali, o que
me esperava, o que podia alcançar a partir dali seria tão-somente aquilo que poderia sonhar, a
partir dali. É claro que me podia deslocar, mas qualquer coisa como o medo da relação com os
outros me podia tolher as expectativas. Ora, não tendo razões para estar triste, tão anti-social,
porque adoptava esse comportamento de recusa da relação com os outros? Estaria ferido de
morte? Não, não mais, pelo que tomei em consideração o que aqueles dias que eu mal julgava
significavam para mim e para os que me rodeavam. Assim, percebi que estava rodeado por
pessoas que não fumam, a não ser o meu amigo de infância Junot, pelo que a situação era
deveras estranha, porque eu nem sequer falava quotidianamente com ele. Deslocava-me
também pouco ao café, indo apenas para comprar tabaco, pelo que uma conclusão se
impunha resultante daqueles dias de indagação profunda sobre o sentido da vida, da vida
humana: não tinha razão alguma para estar triste, mesmo que os meus pais morressem de um
momento para o outro, nem que caísse o Carmo e a Trindade, não tinha razões para estar
triste, pelo que concluí isso mesmo naquele dia, somente abrindo um pequeno manual de
filosofia, de simples e modesta e quão sábia filosofia. Contudo, aquilo que me angustiava era
algo de pós-filosófico, algo que pertencia a um domínio disciplinar ainda não sistematizado e
poderia eu mesmo reivindicar como autor de determinando ramo de saber? Sim, porque não
reivindicar um certo ramo do saber em vez de ficar preso às classificações dos outros por mais
esforço que tivessem posto na sua disciplina? Deste modo, intui que esse dia quente de Agosto
era o primeiro dia da apresentação da minha teoria ao mundo, pelo que me enchi de coragem
para empreender essa ingente tarefa que por mim esperava. Adiei por instantes a minha
história para falar naquele dia de aulas sobre o mundo que me rodeavam, longe dos fantasmas
cartesianos do cogito, partindo disso mas indo longe e cada vez mais longe. Reconhecia que,
realisticamente, vivia e passava a maior parte do tempo numa casa perto dos meus pais.
Reconhecia, para não ter razões para me considerar infeliz, que vivia uma vida normal e como
outros tinha pensamentos normais e outros menos adequados, reconheci a fronteira ténue
entre pensamento e ação, secundado por Ricoeur. Vivia assim num cenário pós-filosófico em
que a literatura de que me rodeava era de fraca qualidade, desconhecendo até àquela data
uma ou duas obras apenas de interesse. Quanto aos meus amigos e conhecidos, pior
bibliografia teriam, pelo que resolvi ser Eu a adiantar alguma coisa de jeito naqueles dias de
estio e reflexão. Assim sendo, reconhecia também os risos dos mais pequenos que se
estendiam num fim de tarde. Reconhecia toda a extensão de coisas, casas, cães, carros,
estradas, jardins, etc, que estavam simultaneamente dentro e fora da minha mente. Dentro
enquanto representação gravada indelevelmente ou não, mas acolhida pelo espírito e fora
enquanto existência concreta pelo que me era dado observar. E neste sentido organizava a
minha mente para também corresponder às expectativas dos outros, que filosofavam ou não,
disso não sabia, não queria saber, e nem se quer desconfiava, pelo que decidi tomar como
ponto assente que não me iria interessar mais quer pela minha pessoa, que julgava à época ser
um filtro da realidade circundante, ou pelo menos ter comigo um filtro que filtrava a realidade
e a deixava cair no espírito enquanto representação do mundo real, do dasein, como conjunto
de coisas ou de coisas isoladas. Nem tampouco me iria interessar pelas coisas dos outros, pois
a mim não me diziam respeito, como as minhas coisas não diziam respeito a outros. Tenho de
explicar melhor este ponto: ao mesmo tempo, aquilo que eu era e não era, interessava e não
interessa aos outros, ou seja, aquilo que os outros representavam ou não, a mim não me diria
respeito não apenas enquanto expectador atento, mas como ser existente, para usar a
expressão de Lévinas. Sendo assim, decidi dar azo à torrente desenfreada de sentido e de
palavras que me inundavam naquele dia. Olhando para trás, tinha muito a ganhar com
continuar a fazer o que estava a fazer, a ser insistente comigo próprio, porque talvez tivesse
mais para contar do que muitos dos meus contemporâneos e não insistia senão apenas da
relação entre teoria e praxis que perturbava os meus dias como que fazendo um diagrama, um
esquema, uma rede, daquilo que ocupava o meu espírito, sabendo bem que tinha bastante
sorte em estar vivo para contar a minha história. No entanto, padecia daquele mal que todo o
escritor deseja sofrer e que se chama inspiração, ou iluminação, substituindo outros como
ruminação e pessimismo. Na realidade eu estava obcecado com a morte e percebi que isso
não fazia qualquer sentido, pelo que resolvi viver a vida em vez de, mais uma vez, esperar que
a minha vida fosse vivida por outros. Era assim, autor de pensamentos, palavras, omissões,
como queiram, e disso tinha extrema delicadeza e consciência, sem que não faltasse por ares
divinais um certo sentido de humor à peça, já que seria para isso também que a minha história
existia e por isso mesmo devia ser contada. Naqueles dias tudo havia posto em suspenso, fora
além de Descartes e agora tinha de me justificar, era essa a minha sina, tendo posto tudo em
causa e nada tendo perdido, é porque alguma coisa de valor tinha a minha prosa, pelo que
aquilo que designei como um cenário pós-filosófico fora uma expressão cunhada pelos
tortuosos caminhos da mente (da minha e da dos outros) naqueles dias que também haviam
sido de sofrimento, como se fosse ter um filho e fosse mulher. Sendo assim, adiemos a história
para o final do livro de modo a que corresponda ela a algo de sinuoso e difícil pois assim custa
dificilmente o tempo a passar, umas vezes porque temos de viver, outras porque nem
interessa ao menino jesus a vida dos outros. E nesta relação entre o eu e o nós, entre o eu e os
outros, esboçamos a nossa teoria, enredada como insetos dedicado à sua causa, como
talhante que conhece todas as partes, mesmo as mais íntimas, dos animais que manda abater
para venda e recebe no seu talho. Neste sentido, continuamos a esperar que haja alguma fé
por entre as palavras que debitamos, pois que estes dias de reflexão são ótimos para
demonstrar o nosso sacrifício e dedicação á causa literária, a que não é alheia uma boa dose
de boa vontade e talento. Assim, de um jato frutífero continuei a dar livre curso aos meus
pensamentos. Aquilo com que sonhava poderia realizar-se e o que eu sonhava por enquanto
não o direi declaradamente enquanto percorro o meu espírito que se espraia na noite,
enquanto cresce a vontade de viver o dia de amanhã. Onde estaria o meu corpo amanhã?
Onde estaria o meu espírito amanhã? De que forma transmitiria os meus sentimentos, os
meus temores e vaidades? De modo a estancar ou a frenar o livre curso dos meus
pensamentos teria de me socorrer de vários autores e de várias leituras já feitas. Mas nem isso
me dizia já respeito, estava imparável naquela noite em que ela chamou por mim. Por diversas
vezes me havia interrogado sobre a minha estada aqui nesta terra que é sobremaneira palco
de múltiplas interrogações e a que por uma ou outra vez baixamos a guarda, como soldados
do saber. Muitas questões ultrapassam-me, outras ficam-se ao meu alcance, para que possa
analisá-las, convertê-las em qualquer coisa de pensável. Assim, quando ela me chamou eu
tremia por dentro, num surdo rumor de inquietação e pavor. Tinha receio de encontrar o amor
e uma vez encontrado, tinha receio de o viver. Não fazia a mínima ideia do que se passaria
mais tarde, dias depois em que me voltei a encontrar com ela, depois de uma corrida de alguns
quilómetros, numa noite de verão, ainda. Sabia que muitos dos meus problemas, grande parte
deles, se deviam a lacunas da juventude, mas não era tanto assim. O meu espírito percorria
caminhos insuspeitos, inimagináveis, eu estava aturdido de tanta compreensão, aturdido com
o génio que me transportara àquelas instâncias do pensamento. Mais uma vez, o meu
pensamento estava fora do pensamento, livre como uma ave, uma águia, livre como um avião
com combustível suficiente para dar livre curso aos pensamentos. Assim, não esperei por mais
e beijei-a naquela noite em que fomos jantar os dois e passámos pelas margens do Sena. Ela
regressaria cedo ou tarde para sua casa e eu ficaria ali rendido à evidência de a amar naquela
noite de verão.

Tião dormia a sesta ao ar livre, depois de uma manhã esgotante nos campos. A sua presença
arrasadora fizera-se sentir durante aqueles dias em que se debatia consigo mesmo, sabendo
que era perseguido por uma estranha doença que o impedia, qual mal de Montano, de se
exprimir livremente sem ter medo de represálias, como faziam os outros, alguns dos outros,
em variados e diversificados contextos. Percorria assim, os caminhos que me eram permitidos,
mais alguns necessários à minha identificação do local. Naqueles tempos difíceis, a
solidariedade era coisa rara, somente se via entre os bombeiros. A tv dava uma imagem
tristemente real dos factos, não somente através dos telejornais, mas sobretudo através das
telenovelas, talvez se devesse ao fenómeno da internet, perda de afetividade nas relações,
enfim, coisas que não me diziam respeito senão indirectamente. Tinha a cabeça entregue à
realidade, para o que desse e viesse, entra Fronteira e Lisboa. Depois, entrei no mundo virtual
e fiquei de novo dependente de uma máquina para levar a bom termo o meu quotidiano, pelo
que essa dependência não me era estranha e a encarei com alguma lógica e sentimento,
depois de ir ao café e à cidade mais próxima. Admiti que existia muita coisa para além do meu
pequeno mundo, como o mundo de Matilde e Rafael, por exemplo. Existia para mim um certo
mundo que me estaria ou não reservado viver. Era apenas uma questão de tempo até que as
coisas voltassem ao normal. Voltei à noite ao meu poiso temporário, equacionando questões
como uma casa onde vivia que não era minha, projectos para o futuro, que reapareceram
depois desse dia de Agosto, que não revelarei desde já mas que me poderão levar de volta ao
trabalho e às escolas no prazo de três anos.

Tentava, então, perceber o que me levara à situação de coisas naquele tempo e naquela
condição. Qualquer coisa me abatia, estava passando por algo a que decerto estaria destinado
e desta vez mão podia fintar o destino. A única coisa que me restava seria a literatura, algo
parecido com uma forma de expressão que não se tentara até então. Fatalmente, a minha vida
tinha sofrido um sério revés e estaria eu pronto para algum género de ficção? Não fugira,
porque não tinha fuga possível para o que me havia acontecido. Arranjava pretextos para me
sentir feliz, todo e qualquer pretexto servia. Enquanto isso, a autoridade de saúde procurava
por mim porque eu mantinha um segredo que eles queriam saber. As minhas palavras estavam
saindo desordenadas, tal como os pensamentos, estava naquele dia do ainda verão em pânico
e sem saber como resolver os meus problemas, quando entrevia um fim de vida entre livros e
música. Oh! E como estava farto daquela vida, mas sabia ao mesmo tempo que seria difícil
arranjar trabalho, para além de outras coisas que toda a gente acaba, salvo raros excepções,
por conseguir.

Enquanto isso decorria, Antenor procurava alguma forma de explicação para o que lhe
acontecera. Era difícil sair definitivamente do âmbito da família. “Talvez não fosse
aconselhável”- dizia-lhe a irmã Fátima. Como não tivesse emprego, a sua relação com as
pessoas de cada dia era puramente formal, não tendo em quem confiar os seus rumores,
medos e feitos. Parecia que a sua mente tinha dois registos, um para si mesmo, cujo profundo
egoísmo ainda não abandonara, e para os outros, para cada um dos outros com quem
entabulava conversação. Depois das dívidas que contraíra, Antenor nunca mais fora o mesmo,
andava de porta em porta, como se procurasse a redenção em cada porta, sem nunca jamaias
o ter conseguido, pelo que se entregara a uma forma particular de navegação no inconsciente
coletivo e ao mesmo tempo tinha a sua intimidade esfrangalhada. Mas prosseguia, não
acreditando no que os seus olhos viam, pelas ruas da sua cidade e da sua aldeia, umas vezes
conforme os outros, outras vezes apenas conforme si mesmo. E como era difícil viver naqueles
tempos! Tempos de crise económica, mas também moral, a que Antenor não fora alheio. Sim,
tinha a sua porção de culpa no que se passava, como muitos dos seus conterrâneos. O pior é
que não tinham inteiramente culpa, se havia sido seduzidos por uma vida mais fácil, ainda que
não plenamente programada, e talvez foi esse mesmo factor que estivera na origem da
desgraça. Talvez fosse uma culpa colectiva que o desculpasse a si e aos outros, pois na
verdade, como os outros, apenas lhe interessava salvar a sua pele. Como todos e qualquer um
tinha essa intenção. A sua relação com o pai era neutra, assim sendo. Sua mãe Glória valia-lhe
em muitas coisas mas desde que se metera em disparates, há muito que esta deixara de ser
sua confidente e nem a irmã o era mais. Mas mesmo assim, era com elas que mais contava,
enquanto Fragonard, o irmão mais velho, vivia a sua vida relativamente separado do núcleo
familiar, alheio a muitos dos seus dramatismos. Procurava então, Antenor, alguma forma de
inspiração de modo a poder retomar um ritmo de trabalho relacionado com a escrita, sempre
aquilo que quisera fazer. A sua vida passada havia sido um labirinto de que se atrevera a sair
por artes como que divinas, pelo que procurava num espaço novo, feito no lavrar da mente,
qualquer coisa como um projeto, como este livro que aqui se plasma. Nesse espaço
relativamente novo, Antenor procurava como que um novo fôlego para a sua vida, entabulado
com várias pessoas, desde a mais pequena Inês ao seu amigo Francisco, que vivera com ela
grande parte da sua infância, é claro que tinha muitas recordações que ensombravam outras
mais positivas, e era através destas que via a sua vida passada, mas a este ponto não havia
mais nada a buscar no sótão, quero dizer, haver sempre havia, tanto que se escarafunchasse
na memória, mas talvez não interessava, pelo que nos lançamos noutros âmbitos ainda
inauditos na nossa narrativa. Assim, no dia em que Antenor decidiu sair de casa para trabalhar,
não tinha a ajuda de uma namorada, mas tinha a de sua família, o que talvez fosse mais
importante e ainda que permanecesse sozinho longe desde fisicamente, estava ligado
sentimentalmente a eles, por mais discussões e zaragatas houvessem. A questão é de saber se
este livro, depois de tantos outros, haveria de avançar para qualquer forma de intriga, novela
ou romance ou até simples ensaio filosófico ou etnoprosa. Fumava um cigarro pensando na
seguinte narrativa, naquela em que Octávia regressara para matar Antenor. Há alguns dias que
o seu carro não estava à porta de casa do seu vizinho Brasfemes, qualquer coisa se havia
passado. Continuei, então, convencido de que a minha estada na base de trabalho, naquela
padaria, pudesse render-me o dinheiro necessário a uma determinada emancipação, mas
precisava de uma terapia de choque ou, por outro lado, já tudo havia perdido e agora, então,
apenas, dizemos “apenas”, teria de recomeçar. De uma forma ou de outra, procurava no meu
dia-a-dia corresponder da melhor forma, e o que mais me intrigava era que estava sem dúvida
ficando um pouco sábio pois agora sabia dar valor a coisas que sempre tive, precisamente
porque não as tinha. No entanto, como não se pode ter tudo, lá continuava a minha tarefa de
viver, entre crianças, duas de Octávia, que me preenchiam os dias enquanto tinha imenso
trabalho para fazer, imenso que ler e que escrever. Apenas queria fazer isto, eu sabia e os que
me estavam à volta sabiam que o que sempre quisera foi, como Lobo Antunes disse um dia,
escrever, fora sempre escrever que eu mais queria e viver desses sabores e cheiros da escrita
todo o tempo, para dar forma a qualquer coisa que estava fora de mim e que eu mesmo sem
realizar entendia, embora não da forma mais evidente.

O nosso protagonista, depois de ter jogado fora uma vida de aventuras e sucesso, procurava
agora equilibrar o barco em que ia pelos dias numa bonança que se poderia revelar proveitosa,
quando pensava, na solidão que nunca matava porque nunca seria definitiva como a morte,
nos anos que tinha passado e nos anos e lugares que tinha ainda para perfazer. Seria como
que um copycat de Saramago, mas ia além disso, descobrira nos seus dias uma forma de
cumprir seus desejos que alimentava nas noites em que dormia, ora abundantemente, ora por
insónias que lhe acarretavam ao espírito. Depois de chegar a casa, na Quinta do Bardot,
Voltaire passeou-se um pouco à noite pelos jardins do palácio, isto não se trata de escrita
criativa, tentamos dar algum realismo à nossa narrativa, de modo a que os dados não pareçam
falseados e não só porque ainda não exercitámos suficientemente a nossa imaginação, por
razões diversas, mas também porque de algum modo só conhecemos verdadeiramente
aquelas coisas que de um modo ou de outro fazem parte da nossa experiência. Mas gostamos
de nos contrariamos a nós mesmos e a outros que tal defendem, que a experiência não será
apenas a única via legítima do conhecimento das coisas, da natureza das coisas. De quando
em vez, o pensamento fugia-lhe da mente, de modo a ficar desguarnecido o corpo, se
subentendermos que a mente protege o corpo e não o contrário. Nessas ocasiões, achava-se
um ser ao mesmo tempo feliz e desafortunado, pois não era capaz dos sentimentos
mesquinhos de muitos outros, diria mesmo da maior parte dos outros. Noutras vezes, o seu
pensamento abatia-se por vozes inauditas, por um sussurro da mente que o atordoava e lhe
calava a voz da consciência. Nunca fora um adepto particular de George Steiner. Talvez as
suas palavras e conceitos se estivessem coisificando cada vez mais, a pouco e pouco, no
sentido de rebentarem um ser novo a partir delas, de expelirem um Ser novo que teria daí em
diante uma existência própria tal como o seu antecessor. Este fantasma de Saramago que o
nosso protagonista parecia protagonizar teria o epílogo num fim de vida numa quinta,
escrevendo, depois de uma vida de trabalho entregue ao estado, à semelhança do seu
mestre… Nesse tempo, o seu sobrinho, declaradamente, tinha lupécia, uma doença do cabelo,
de origens desconhecidas mas que se relacionava com o sistema nervoso. Não querendo
entrar em alarmismos, o seu sobrinho viajou nessa tarde para Paris junto com dois dos seus
amigos.

II.

Longe que estava dos pruridos morais que me afligiam noutros tempos, pude prosseguir
minha tarefa de indagação literária e filosófica num espaço noturno, através das nuvens do
algo bem-estar que podia usufruir nesse tempo. Muitos, desde bombeiros a polícias, tinham
mais trabalho do que nunca e eu ainda estava convencido de ser uma pessoa honesta, fazendo
disso alarve para toda a gente, como se tivesse de provar a toda a gente aquilo que sou e o
que não sou. Nesse tempo, a minha nação, diria em estilo apocalíptico estava um pouco farta
de pessoas como eu, diria, que muito falam e pouco fazem, mas o certo é que muitos estavam
nessa situação e definitivamente eu ainda fazia alguma coisa sobretudo porque não havia
baixado a guarda de certos princípios. Entre tradição e pós-modernismo, viajava nos vagões do
tempo, ovelha após ovelha, como se fosse um pastor noctívago que tinha insónias não sei bem
por que razão. Havia uma certa razão no dito que me fora proferido de ter tento nas palavras,
enfim, como já estava ficando velho, aquiesci. Mas para tirar tudo a limpo, bebi uma três
cervejas naquela noite, enfim, poderão dizer que defendo bebedeiras e num certo sentido até
há razão nisso, talvez os jovens se soubessem divertir tão bem como nós em jovens. Nisto, já
que a escrita, como muitas outras coisas, está dependente da boa disposição da pessoa,
resolvi entrar mais numa noite, dado o deserto da minha existência, de modo a chegar a
conclusões mais positivas do que aquelas que tivera tirado do que é a minha mente e o meu
sentir naqueles dias de final de verão. Naqueles dias se registava um aumento do número de
incêndios e eu ficando parado ser ter algo de significativo na minha existência. Ainda podia
estudar filosofia com os últimos tostões que faltavam. Mas quem ligaria a isso. Procurava um
lugar na história? Numa história de que eu desconhecia os contornos. Estava feito, naquela
noite ficaria a ouvir música até cair de cansaço na cama. De uma forma ou de outra, os
salamaleques continuavam, dia após dia, pelo que Teodoro, homem sábio, santo e paciente
como poucos, persistia com um conjunto de objetivos que lhe era dado observar e
compreender, não ousando reivindicar coisas e bens para si, entre um bando de oportunistas
que por ele passavam, e isto de dizer a verdade tem os seus considerando e mergulhado na
verdade que fede estava também o cientifismo de Voltaire, parece afinal que cada revolução
tem de se provar todos os dias e tem o seu preço no futuro que do se lhe segue. Havia então
Teodoro chegado à superfície e compreendido a razão das histórias que não chegava, que
teimavam em chegar umas, teimavam em partir outras. Entre o virtual e o real, entre o que os
outros pensavam e a simpatia das coisas e das pessoas, oscilava local e globalmente o seu
espírito persistente e positivo, sabendo que as palavras proferidas apenas eram à partida a
negação da realidade e tinha consciência de si e do seu romance que aqui se segue, nos
sentido de continuar a tarefa empreendedora, sabendo-se feliz com pouco, enquanto alguns
salamaleques não se contentam com o muito ou pouco que têm, sendo natural que cada qual
procure sempre novas condições e qualidade de vida. Do lado de lá na vida das pessoas que o
cercavam, Teodoro tinha dificuldade em levar a sua avante para progredir num caminho de
ilustração. Sabia que suas palavras no quotidiano estavam entre o neorrealismo e a
fenomenologia, isto de filosofar com calor e fome não tem nada de equilátero. Sendo que só
estava bem onde não estava, Teodoro procurava Deus sem ter de como Fausto, entregar a
alma ao Diabo, mas estava além disso, procurava um transporte físico para outras latitudes,
mas havia que ter paciência e persistir por enquanto nestes tramaleques em que se via
envolvido, sendo o seu pensamento intermitente como a vida, a pulsão de vida e morte, os
batimentos do coração que com água se alimentavam com vista a uma visão contemplativa da
vida, coroada de proveito económico, isso é que seria, depois de considerar a batalha perdida,
bem podia a morte ser uma sua vitória, caso voltasse a andar de camioneta. E assim conheceu
a ansiosa Rebeca, parecida com umas bonecas suas com que se divertia em pequena, e enfim,
procurava não fugir às suas responsabilidades de padrinho de vários miúdos, sendo que apesar
da sua vida algo atribulada e com alguns pontos negros, tinha chegado aí a cara e as mãos
lavadas. Tinha tentação de fazer doutoramento em Coimbra, pois não esquecera
decididamente a questão, mas como não tinha dinheiro, contentar-se-ia em fazer um
mestrado em ensino de filosofia para poder alimentar a sua alma romântica e a ideia de
envelhecer enquanto professor, para além em mesmo por causa das críticas que lhe choviam a
potes. Sendo assim se juntaram Teodoro e rebeca no seu jantar que falávamos acima e
desenvolviam projetos em segredos, que somente quando realizados os outros veriam, pelo
que entre obsessão e secretismo venho o Diabo e escolha, sem que a ele nos entreguemos do
pé para a mão a não ser por boa razão, ou seja, do Bem próprio e dos outros. A crise que
grassava neste mar económico era geracional, parecia-lhe e isso mesmo defendeu num artigo
que havia escrito à soberana revista norte-americana “Tought”, tendo ganho prémio pelas
suas 45 extensas páginas vertidas em inglês para inglês e outro ver. Se cheirava mal era com
certeza o cheiro da verdade e muitos mais havia que provar porque o desejo de glória assim a
isso obedecia, o grupo e o indivíduo não existia, existiam vontades e salamaleques de toda a
ordem, já não nos bastava Deus que só nos fazia rabiar, mas enfim, não nos queixemos e não
coloquemos de parte um sentido prático e positivo em tudo o que se faça por mor de desejo
interior. Entretanto, para que não nos fuja a boca para a verdade, é bom que arranjemos
argumentos para defender a tese do nosso texto. Entretanto, continuamos a dar conta de
fugas de informação que escapam ao nosso pensamento e será por isso mesmo, pelo fato de
escaparem, que delas queremos dar conta. Uma escrita seca, concisa, aritmética, matemática,
está ao nosso alcance. Assim sendo, dado que este texto não pretende ser um diário, podemos
dizer que a partida de Teodoro e de sua amada efectivou-se no mês de Janeiro, no final, a
partir da costa de Lisboa, praia lusitana sem igual. Neste momento, não havia preocupações
para se fazer o que não se aprendeu a fazer, sendo que aquilo que se sabe fazer é doravante e
desde sempre muito mais importante e científico do que o que fica por fazer, sendo que a
perfeição se busca nesta cana de pescar onde se procuram fenómenos marinhos sem par, pois
sabemos que nosso mar está cheio de boa pescaria e de outras iguarias benfazejas para a
saúde daquele que se aventura num Mar de Sargaços.
III.

Naquele dia percebi que nada mais me poderia apoquentar e que não só a teoria como a
prática era minha e que as teses apenas refletem o momento e não são ilustrativas do melhor
modo de texto e que dependem apenas de fatores económicos. Outros tipos de texto, muito
mais geniais, dependem mais da inspiração e menos do dinheiro. Depois, descobri porque é
que neste momento, não há direito de casamento gay na Itália. E porque é que o meu clube
nunca me deu uma camisola, apesar não só de correr por eles, mas também por ser sócio do
clube. Verdades que cheiram mal, diga-se. A pouco e pouco, conquistava o respeito e a
ilustração dos outros, o meu Ego não estava vencido nem sequer convencido, muito menos
isso. Ainda assim, muita gente, apesar de eu lutar pelos seus direitos, me rechaçava e desfiava
de mim, tendo mesmo inveja. Assim, continuei naquela noite a destilar o meu ódio,
convencido de que um destes dias me apareceria um personagem, sabendo eu que o meu
estado naqueles dias era sem dúvida alguma sacrossanto. A minha vida podia durar dias. Podia
duras anos, a partir de muitas e noites e muitos dias. À distância, percebo como as coisas
podem ou não acontecer. Pouco a pouco, nas coisas que procurava, pretendia ser o mais
coerente possível com o meu percurso, tende chegado à tese da união entre antropologia e
filosofia, entre saber prático e saber teórico. A minha insistência em preservar no sentido da
evolução, no sentido da manifestação em palavras daquilo que não se podia dizer e que
pertencia ao inominável, bastava para ter uma alma servil para comigo. A pouco e pouca
caminhava para o fim, sendo que a minha visita a Paris havia-me custado caro, mas eu não
definhava, a minha esperança era proporcional à passagem do tempo. Há dias que não usava a
internet e minha vida situava-se algures entre esta e a realidade social. Mas continuava,
entretido com as minhas conjeturas, visto que nada mais me facilitava na vida, ou interessasse
verdadeiramente. O meu sobrinho entra agora em cena e a mim é motivo para reflex-(a)ção,
pensando na vida que tive e tentando anular os maus sentimentos acerca das pessoas e de
mim mesmo no passado, procurava então viver o dia presente, controlando a minha libertação
de certos vícios, fazendo-me sábio instruído, entre o cientista social e o ficcionista. Agora sabia
que estava dependente das minhas histórias, dependendo ou não haveria de porvir nalguma
forma de fruição. Depois de vários dias, suspenso, a minha história estava ganhando vida,
sendo mais forte do que a ficção, no sentido da realidade que eu próprio antevira, muitos
diziam que mais valia estar calado. Mas estou apostava cada vez mais no futuro, no mundo
depois de mim, procurando não me hipotecar deste mundo. De modo que uma trama bem
grande nos esperava quando estávamos descansando de maleitas próprias do mundo
moderno, bem queríamos estar num cenário mais bucólico, mas este que temos por enquanto
bem nos parece mais genial, mais adequado. O nosso amigo Teodoro está distante, numa ilha
onde só podem circular comboios e helicópteros, só pode entrar uma só pessoa de cada vez,
isto de viver numa ilha é qualquer coisa (foi o que aconteceu com Robinson Crusoé) que
desafia a imaginação, é dor a torto e a direito, não importa como nem o quê, é um ver se te
avias de mulheres, é o sonho de qualquer homem, elas rasgam-nos a roupa sem qualquer
pudor e invadem nossas almas de prazer e benfeitorias. E assim chega um homem com os seus
56 anos, portador de boa disposição, jovem como poucos, animador dos outros e chega a essa
ilha onde mora agora Teodoro, pois que ficou sem a sua Valéria, eram tantas que ficou sem
nenhuma, num estado de carência e impotência de que nem sequer queria falar. Numa
segunda-feira, chegou um americano com sua mulher a fim de passar um fim-de-semana, não
para surfar que isso seria na Nazaré, distrito de Leiria. Chamava-se ela Victoria, ele James,
como James Taylor e William James, com o jogador do Porto que se foi, porque afinal de
contas quem manda é o regime e esse regime é liberal, defende então o génio e a iniciativa
privada, ao contrário do que defende o Bloco de Esquerda e a CDU. E passaram depois dois
russos, mulher e marido, que se cruzaram na ilha para intercambiar informações, para
benefício dos registo de Teodoro, que agora não estava assim tão bem convencido que
apareceria do pé para a mão uma sereia alta e bem-disposta. Naqueles tempos, éramos
tremendamente honestos para com a realidade, aquilo que se passava com a nossa mente e a
confusa mente dos outros, portanto isto já é fazer um juízo de valor sobre os outros, mas que
se dane, estamos fartos de sermos críticos de nós próprios, não queremos ganhar nenhum
prémio nobel da humildade literária, porque ainda estamos vivos e ocupados numa atividade
que, sem florilégios literários, nos dá prazer e reconhecimento, que ajuda as pessoas a
compreenderem o que se passa, para além da política e do futebol e das touradas, já agora e
isto vem em detrimento do nosso novo Ser, que é amigo de cavalos e o outro Ser que tem o
nome do país imperialmente mais poderoso que todos na terra, sim, Sam, por vós escrevo
estas palavras no fim da minha jornada, pois estou ferido de morte mas não morto, vivo até à
morte permanecerei, para bem das estatísticas que venham a desenhar alguma coisa de
especial para este novo. Procurarei um link perdido quando não tenho ideia certa e
matemática de o ter perdido, talvez volte para uma ilha, ou para Fronteira, um dia mais tarde,
fazendo prepotências do meu destino, alavancando os pulmões no coração para me aguentar
acreditando em qualquer coisa de novo, bom, de existente. Decerto que há outras pessoas
como eu, que mesmo numa ilha acreditam no poder da palavra, pois essa permanece para
além da morte, envolvendo-a, valorizando-a, fazendo com que seu autor não só permaneça
vivo no coração dos seus descendentes, bem como, apesar de não ter filhos, fique lembrado o
esquecido, tanto importa, no coração de que mais procura a imortalidade. Sendo assim,
deixarei aqui algumas palavras e conceitos sobre os quais deverá este personagem na ilha e
por detrás do espelho “refletir”. Assim, juntamos ao nosso cozinhado alguma dose de boa
disposição, faltará a descrição literária aproximada, tipo grande plano, dos objetos e
personagens que diante dos nossos olhos se apresentam, portanto avancemos resoluvelmente
para que cenário, de modo a evitar pontos negros e quejandos desastres. Eis, portanto nossa
narrativa com duas crianças, sendo que aquilo que perdemos jamais se reconquistará, isto tem
de se fazer caminho, subindo ou plano, que seja consistente conforme o interesse das coisas
que se procuraram e depois, não simultaneamente mas depois, se acham.
IV.

Como São João da Cruz com os anjinhos, Teodoro andava com Voltaire às turras, para
inveja de Celeste. Continuando a narrativa, descansemos nossos olhos na futilidade das
ambições humanas. Temos uma natureza morta e um golpe de génio que nada tem a ver com
romances criminais, mas antes com uma forma particular de entender as relações humanas,
que não estará dito em escritos futuros daqueles que julgam que não temos inspiração, na
verdade, partilhamos da ideia de David Lodge de que a crítica pode prejudicar a produção
literária. Mas depende da identidade que se assume. Se se assume a de escritor, está tudo
bem. Se se assume outra, melhor, se se apresenta ao quotidiano dos outros, outra, o caso já é
diferente , a função já é distinta, o objetivo do sujeito sendo na verdade extremamente díspar
da intenção do ator. Assim sendo, na sua ilha, Cipriano Voltaire procurava por alguém que lá
não habitava, talvez a presença de um ser superior a si mesmo, de um ser encantatório que se
desvaneceu, a uma forma de conviver, de estar, de tocar, de sentir, de pressentir, como se a
escrita se desguarnecesse cada vez mais à medida que evoluía na linha, no tempo,
transformando ao mesmo tempo como algo que deixou de ser intermitente e que é tão fraco
quanto forte. Assim, para além do obsceno, há muito mais vida, para além do olhar vidrado de
desejo, há um corpo que ainda deseja, não nos iludamos, ainda deseja pela vida que há nos
olhos dos outros. O nosso tempo seria então a transformação do tempo dos outros, na medida
em que teríamos algo de completamente novo no horizonte, para além de Cristo, Maomé e o
Anti-Cristo de Nietzsche. E quem seria esse digníssimo ser que se aprontaria em cena? O
caminho linear das palavras nos levará até el@…

Sim, já o dissemos atrás, o nosso personagem procura um enquadramento, sabendo ele que
está já o bastante enquadrado e que nosso torpor, arrancada e resolução vai no sentido de
afirmar aquilo que jamais terá sido afirmado, importando as consequências pois escrever tanto
quanto se sabe não é crime, tudo menos isso, é qualidade e genialidade, como um trabalho de
aquilatação de diamantes em brutos, sendo que nossa escrita se está transformando algo de
linear e espaçado conceptualmente, mas nesta altura do campeonato o adversário terá caído
já em wa’sari no tapete. Prosseguindo então nossa narração, muito há para dizer de Cipiano
Antenor, conhecido entre os amigos simplesmente por Antenor, que procurava vingar na vida
através da energia dos seus companheiros, pelo que depois de passado esse tempo na ilha
onde deixou Teodoro, um pequeno rapaz teria aparecido, mais tarde ou mais cedo, na sua
vida, a que dava o nome de filho e que tinha os olhos brilhantes de amor-próprio, descobrindo
que a vida vai muito além da nossa obsessão com o que é e o que não é masculino, sobre as
opções sexuais das pessoas, que a todos e em primeiro lugar a si próprios diz respeito. A
solução para o crime enigmático que ocorrera em 1976 vem de um país do centro da Europa e
teria vindo Sherlock Holmes e a CIA espiar primeiro o Brasil e depois Portugal, de modo a sacar
informações sobre um perigoso criminoso que teria iludido Antenor quando da sua passagem
pela ilha, pelo que o regresso à vida normal ainda se estava por fazer. Mas expliquemos. A
criança terá passado diante dos olhos de Antenor ao mesmo tempo que terá passado pela
viseira abjeta do criminoso, que ousou raptar a criança e que maior medo haveria do que este,
ser raptado, a nosso caso veio a ter solução quando à inocência iniciar e pânico subsequente
se seguiria um “organiza-vos de modo a deslindar o que se passava no sul da Europa em
termos de moléstia de menores, turismo sexual e rapto. O que aconteceu na ilha foi só um
pretexto, a ponta do iceberg, como, disse a polícia, que Portugal é país de decência e decoro,
diria o primeiro-ministro, secundado pelo silêncio do Presidente da Republica. Assim, ora
jogamos mais luz sobre o nosso passado, ora o escondemos debaixo de terra, bem enterrado
para que dê flores um dia destes mesmo que em pleno cemitério, pois a questão não é para
menos, também eu não vou há bastante tempo a um, talvez precisasse porque ando pensando
como todo o artista naquilo que é mister fazer, ou seja, evitar a morte, a minha e a de
qualquer semelhante, mas por vezes os outros são mais malucos do que nós, têm sangue na
guelra pelo pouco que fazem e pelo muito que criticam, isto não tem nada de paralisia, ou terá
para quem estiver a ler, pois então, que interprete o leitor à sua maneira, que temos uma
encomenda pronta que chegou agora da Nova Zelândia e outra da Papua Nova-Guinés, onde o
nosso amigo Jaime ganha a vida e o fio soltasse, “”ainda bem que temos um pega, diz
Francisco, “ainda bem que temos fio”, diz Teodoro e com isso não perde o fio à meada. E
depois da Missa diria o pároco a um circunstante já fora do adro e das urnas de voto, “este
chama-se feijão que tem fio”, aquele “bacalhau que tem rabo” e aqueloutro “ a couve que tem
talo”, miséria, foge-nos a boca para a verdade, isto de ser-se cronista sem rede tem muito que
se lhe diga, até esse tipo de rabechisses que encontramos, à partida, um pouco por todo o lado
e a que nos agarramos para um riso sarcástico e compensador. Nessa medida, o nosso
Teodoro, em vez de se converter em Voltaire, pensou duas vezes na questão fundamental: a
imortalidade ou uma vida perene na terra. Estranho e difícil desafio, a que não estava
habituado, pois pensava que o tempo lhe traria alguma forma de justiça, pelo livre-arbítrio, ou
pela simples consolação através da expressão-conceito “Deus não dorme”. A Europa do Sul
estava sendo infestada por um pensamento laico e progressista, liberal, queria-se a liberdade e
o lucro a qualquer preço, sendo que o contraponto disso tudo seria a escravidão laboral à
mingua de um subsídio de desemprego, quando ele existia..é que à força de pensar tanto
positivamente acabamos por ser transformados em pessimistas de alta categoria filosófica e
metafísica. Uma parcela de bem-pensantes no nosso país dedica-se a fazer lucro, todos acham
que têm a solução para os problemas armando-se em S.Sebastião, inchados por perceber a
lógica sociológica de um país, o mais das vezes são “tudógolos” que de tudo ou nada
percebem pouco ou nada, normalmente atreitos ao quinto poder para fazer vingar a sua falta
de talento e teoria, bom como a práxis, habituados a dizer mal do seu país em todo o lado,
inclusive no estrangeiro, como se a sua relação com a herança fosse de amor/ódio e não
evoluísse, não passasse disso, como se a lei comportamental permitisse uma alavanca para
gerir estes dois extremos em que não havia margem para folga e rendibilidade, para
imaginação, para algo de positivo como por exemplo um Sousa Tavares. O governo estava em
férias, entretido em dar prémios, os autarcas preparando-se para as eleições regionais, que
iriam, no que ao narrador diz respeito, ser mais do mesmo, não que por vocação fosse político,
mas que o era à partida por pensamento e enfim disso se retirou Teodoro muito depois de ter
deixado a ilha. Mas avancemos para uma análise mais cuidado dos teores e teorias das nossa
personagens, como se o nosso enredo tivesse por vocação ser uma cartilha que fizesse estalar
o verniz de oiro e diamantes de um país negro e pesado, mais feio que muita mulher bonita, e
é que não há muitas por aqui, pelos vistos são todas feias ou interesseiras, mas enfim, já da
ilha havia Teodoro saído, pelo que tinha de avançar para outra forma de sociabilidade, dado
que não se considerava um Voltaire ou mesmo um Cipiano Adamastor que haveria de
reconquistar mares perdidos ou espaço de mar como o das ilhas Selvagens. Muito haveria a
dizer no que à política diz respeito em geral e em particular aos mamões que como
sanguessugas vampirescas estavam adormecidos debaixo do chaparro do poder. Parecia que o
povo estava rendido a esse status quo de inutilidade quando os mais jovens lutavam pela vida
e os mais velhos perdiam direitos, era um grassar de violência psicológica na escola, na Igreja,
na política e a isso se resumiam aqueles políticos dias de verão, em vésperas de rentrée
política, não havia nada de fraturante, que dividisse para reinar a sociedade portuguesa, os
políticos entregavam prémios de visão chorudos a quem vivesse do humanitarismo e sete cães
saltavam às costas e pernas das pessoas, disfarçados de fiscais do IRS. No que a isto diz
respeito, o bom novo aqui do autor estava ficando pesado de transportar, mas talvez fosse o
peso dos anos e a força das ideias que talvez estivesse vindo ao decima, tudo o que é bom vem
ao decima e então a resiliência deste cidadão autor de pensamentos, palavras, atos e
reverberações apresentava-se de uma maneira inaudita que se devia fazer ecoar por todo o
atlântico, muito para além do mar de Sargaços. E que fazer à literatura? Ser escravo ou não? O
que haveria mais a conquistar para além da filosofia dos dias e das coisas tais como palavras e
conceitos, sendo que as cores faltavam àquele país de brandos costumes na madorna de todos
os dias em nome de uma vida longe e perene, para cumprir não sei o quê em nome desse novo
Ser que agora chegava à superfície, no estranhamento e entranhamento das paixões e das
palavras que se seguia a um retirada de causa de sentimentos diversalmente contraditórios, à
margem de qualquer classificação moral, quando o fastio da religião não nos contagiava e
dizer que tínhamos sem dúvida alguma bastante respeito por esta via de conhecimento, esse
tudo, como diriam alguns. Por isso havia “tudólogo” e filósofos (sendo que o filósofo poderá
ser um tudólogo do pensamento…), carpinteiros, canalizadores e pedreiros, empregados de
mesa em esplanadas de bares e coisas quejandas, coisas semelhantes talvez se escrevessem ao
longo longe dos dias daquele verão inacabado e cansativo, que quase no tirava a vida à custa
de muito e brutalmente coisas acontecerem diante dos outros, como o caso daquele
incendiário Mico, que fora preso e julgado atear vários fogos, enfim era a condenação para um
país que tinha o seu bastante quê de animalidade e negligência que bradavam aos céus.
V.

No tempo em que escrevíamos esta prosa, a nossa vida degredava-se economicamente e


talvez moralmente, mas um autor nunca se queixa e apesar de tudo, sentíamos felicidade e
bem-aventurança em poder pensar e escrever, por haver ainda liberdade de expressão no
nosso país. E que se dane a crise, há muito mais vida para além da crise! E quanto pensávamos
tinha a ver com a relação entre literatura e poder, estávamos agachados ao nosso
personagens, perto do rio que nos levaria a um destino distante, quando as fixações, foram
elas que nos salvaram a vida e salvariam ainda mais para sempre, essa era a nossa estratégia,
não éramos egoístas como Teodoro, que se conformou com a ilha, mas talvez precisássemos
de ler Proust ou Dostoievski, sendo que o primeiro nunca tínhamos lido e que o segundo era
não só lido como também uma referência nossa. Em vez de repetirmos as alusões significativas
para a nossa narrativa e evitarmos a censura universitária e política, abordemos a questão que
aqui nos traz hoje, a da relação entre literatura ou vida ou, por outras palavras, a função social
da literatura. Para além de uma função didática, terá a literatura uma função mística ou
metafísica que lhe inculca o autor, cansado por vezes de si próprio e da circularidade de
algumas das suas ideias, pois sabemos que o registro da literatura é linear, por assim dizer à
partida, quando relacionado com as artes visuais, sobretudo. A metáfora é um dos
instrumentos mais fortes do artista das palavras. E este é antes de mais um filósofo, porque
trabalha com conceito; logo, o escritor é antes de mais um filósofo, não que o contrário seja
absolutamente verdade. Por questões mais do que metodológicas, decidimos ficar por aqui
quanto a este romance, esta novela, melhor dizendo.
VI.

Na baía de Cascais, os banhistas acotovelavam-se numa noite de verão, tentando esclarecer


o que se passava com a confusão que alguém havia criado a um banhista do norte. Não era
caso de somenos importância e havia algo de cómico na situação, veio inclusive um professor
universitário para apimentar a questão do que se passara naqueles tempos de maresia branda.
De tempo a tempo, Teodoro e Antenor encontravam-se nesse mesmo verão, nessa mesma
baía, para pôr em dia as suas impressões acerca do que se passava em suas vidas profissionais.
No que se refere aos crimes que haviam assolado a região da cidade em que viviam há a juntar
os dos fogos, que se intensificaram bastante. Um deles, regressando a casa, percebia que a
situação era mais complicada do que aparentemente fazia prever. O assunto, puxado aqui à
liça, estava eivado de teorias morais e metafísicas, que escondiam poderes insuspeitos, a
começar pelo poder daqueles que têm o poder. Mas haverá alguém neste país, como soi dizer-
se, que esteja mais indignado do que Teodoro, que deixou a ilha para entrar na so-ci(e)dade,
obedecendo a todas as suas leis e preceitos, ultrapassado que foi o tormento do quotidiano
religioso que parece seguir-nos para sempre, onde quer que vamos? Foi tortuoso, por isso não
celebramos. A identidade não está desfeita, falando de nós e de tantos outros como Homero
Serpa e outros que tais, perdidos na noite, porque felizes, eternamente infelizes, de quem não
me atrevo a dizer mal, falando de nós, podemos dizer que a ação desta novela, deste romance,
está em vias de se alterar, pois as regras se subvertem e afinal é isso que faz o nosso estilo,
duas três palavras fortes e muitas delicadas, bastante delicadas como a existência, diria
Lévinas. Enquanto continuamos desafiando Sartre sem nunca recusar um prémio, viesse ele e
era bem-vindo, para além dos contactos e das clemências pedidas em vida por vida por viver
para exercer esta profissão, dando a conhecer personagens, no masculino e feminino, que não
pode ser como no grego clássico, no neutro, porque as pessoas ou são ou não são, não há cá
meias tintas nesta loja ou é branco ou é tinto, não há cá meios-termos, isto é conceptual como
a fotografia a preto e branco, disse. Mas temos de parar por um pouco e encomendar
“Clareira”, para termos impressão de vender alguns romances para continuar o nosso
“romance”, que incluiria, como é sempre jus na literatura, uma história de amor entre dois
adultos, nunca entre uma criança e um adulto, a não ser que fosse platónico, ou fosse como
fosse, desviamos a mente, daí que não temos nada a ver com os crimes praticados por outros
que usam do dinheiro para fazer regressões amalucadas, isto da psiquiatria dá para tudo, até
para termos maus pensamentos, mas a solidão dá para tudo, por isso muitas pessoas,
compelidas pelo desejo irreprimível de felicidade, unem-se compulsivamente a outros para
fingirem que não se sentem sós..enquanto os sós poderão ser inteiramente felizes até
morrerem de felicidade e realização.
VII.

Assim, sob a capa de uma aridez imprecisa, continuamos na noite desvelando a história dos
nosso que se espalham cada vez mais pelo império dos crentes em qualquer coisa, que é nosso
destino acreditar, continuar sem sequer desconstruir, nunca gostámos de Derrida, mais
gostamos de Deleuze e Guattari, enfim, não temos que engolir todos os sapos para provarmos
que somos filoantropólogos, esse será nosso destino e fé, continuar na senda de qualquer
coisa herdada que se assemelha à riqueza de bens de que ironicamente dispomos
materialmente mas que não dispomos tematicamente e titularmente. Essa será a nossa maior
ironia e, desde já, a bela conclusão desta novela, “quanto mais se dá, mais se perde”, sendo
que o destino está traçado, agora só temos é de o fintar, caso nele acreditemos e é bem que
sim por mor razão de continuar com espírito e pensamento intactos, sem brecha ou risco. Não
estamos mais com disposição para nos justificarmos, esta história vale por si, não é bom
estudar literatura se se dela quer fazer modo de vida. Por isso aqui estamos, neste amor
portátil. Então, decidi partir. Vou amanhã para casa, de novo e espero que a viagem me faça
bem, que já tenho trabalho que chegue. Se fosse tolo, continuaria a destilar o meu opróbrio de
falta de sorte. Mas não o farei. Farei não sei bem o quê, alguma coisa literária, obsessivamente
virada para a palavra e o conceito. Saí daqui, do concreto para o supostamente abstrato.
Muitos motivos há nesta fala indiferente, tal como os seres indiferentes que desfilam perante
os meus olhos, no palco da realidade, da estrada sinuosa da ficção. Teria algo mais para fazer,
mas dizem que perdi a alma, talvez um dia a possam encontrar para encaixar na minha, como
um dispositivo robótico que se encaixa naturalmente de um lado a outro, respeitando as
características de cada organismo. Diria um dia que é tudo orgânico, será tudo pessoal, com
corpos ardendo uns por outros, e porque haveria de ser diferente para mim? Sim, para mim,
que permaneço imóvel cativando o andrajoso amor, suposto que estaria errado se tivesse ao
mesmo mantido o fio do novelo, afinal talvez quis isto tudo para nós, tu que estás comigo,
conta-me como chegaste aqui, oiço-te acomodadamente. Até fumo um cigarro. Vês como
funciona a minha mente? A tua mente? A mente dos outros, que pretendo trazer para aqui,
para que vejas que afinal não sou nada tolo, a não ser por ti.
VIII

E depois da tempestade, a bonança, temos em crer, que nos trará mais positiva maneira de
ser, neste fogacho que só deu. O dia, dos primeiros de Setembro, é igual a tantos outros,
esperar para ver, esperar para se sentir melhor daqui a algum tempo. A localização das
ventanias, acaba por causas novos tormentos ao circo onde tudo parece girar à roda de
alguém, não sabemos bem quem, mas que terá por lide um demónio bastante estranho e
bizarro. Seja como for, estou aqui para te ajudar. Que bom é ter dois pais, um que nos diz para
fazer bem, outro que não se importa quando fazemos as coisas mal. Aproveita isso, isso que eu
não tive. Considerar-te com sorte não quer dizer que sejas mimado, quer dizer que há muito
quem se importe contigo e isso é um princípio para te importares com os outros. Não te
importes demasiado com o que os outros têm ou não têm, importa-te contigo mas não sejas
egoísta, respeita e serás respeitado. Quando estou em baixo, não consigo compreender a dor
do poeta que descreve a paisagem que vê ou um personagem que o atormenta
particularmente ou que o deixa suspenso e curioso. Essa descrição pode definir um tipo de
escritor, não define todo o tipo de escritores. Por isso, há escritores e escritores e cada um
pode procurar o seu estilo. Ontem estive aqui bastante tempo e escrevo no mesmo local onde
escrevi a minha segunda obra de vulto, “Caderno de Encargos”. Só a mesa está em lugar
diferente, virada para a frente da casa, uma mesa redonda com azulejos incrustados, o quarto
está o mesmo, a casa de banho também. Seja como for, continuo sem perceber o que é que foi
dito ontem, a não ser que as pessoas não são robôs e daí talvez se assegura a transmissão das
singularidade de cada ser humano uns aos outros, pela morte ou pelo desaparecimento, pela
ausência e pela presença. Não faço demasiados planos sobre o futuro: gostaria de conhecer
uma mulher equilibrada, viver como escritor os últimos anos, alguém que vê defeito em ser
existencialista e que procura mudar-se dessa posição que considera incómoda porque
ultrapassada e procura ser um pós pós-moderno. A pouco e pouco, esquecia-me dos registos
antigos como narrador de experiências subjectivas e procurava algo de mais concreto na
minha vida, um pouco de arte, de felicidade, de sorte, sendo que sabia que estes itens davam
mais trabalho que a tristeza, a melancolia, mas sair deste estado para um estado de equilíbrio
dava ainda muito mais trabalho; ainda tinha tudo na mão, o sol era pesado e eu tinha
conquistado o meu estilo.

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