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O Ofício da Escrita

Romance

Victor Mota
O Ofício da Escrita

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O Ofício da Escrita

Prefácio

Antes de nos interrogarmos sobre as relações humanas, sociais ou culturais,


deveríamos pensar todo o tipo de relações que existem no universo, desde as
matemáticas às químicas, às essencialmente orgânicas. Só a partir daí
poderíamos interrogar ou pensar sobre o real papel do homem e não cairíamos
num antropocentrismo evitável. Certo dia um professor disse a um aluno que
não acreditava na natureza humana. O aluno, desde que se conhecia que se
interrogava sobre o domínio do humano, mas também das suas relações com o
supranatural. É evidente que o professor se esquecia do domínio do natural, do
cósmico, e do poder que ele exerce ainda sobre o espírito humano. Estaremos
nós em condições de dizer que podemos prescindir deste domínio para
continuarmos a nossa caminhada como espécie? Não teremos antes de,
confiando nas nossas faculdades do pensar e do aprender com os erros e
sucessos, de considerar vários domínios da esfera de exercício da vida, que não é
o mero pensar nem o mero agir, os domínios natural e sobrenatural e os
domínios animal, vegetal e humano, sabendo ou supondo que o humano pode
ser uma síntese de todos eles? É neste quadro que temos de ver as relações
interpessoais e considerá-las como um dado do ser humano, do ser que tem
vida, nos mais variados contextos em que ela se exerce. Não podemos ceder à
tentação de marxizar ou tornar estritamente religioso o nosso mundo, as nossas
concepções. Porque o mundo, como nos diz a canção, é composto de mudança.
Será esse carácter de devir que define a vida. A vida será mudança ou estatismo,
no sentido em que se via no renascimento o aristotelismo? Por outro lado, se
concebemos um saber provindo da aurora grega como universal, é bom que
admitamos que há outros saberes, que se desenvolveram neste nosso planeta,
uns abafados por não sei quanto tempo, outros preservados intactos por
isolamento e auto recriação. Este livro é dedicado a Jorge Boldt, pai e filho, e a
todos os vermoilenses e habitantes de Riachos

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O Promontório

O que vamos aqui apresentar e debater será não apenas do âmbito da sociologia, que
mais apuradamente tem se debruçado sobre as relações interpessoais, mas também de
outras disciplinas importantes como a psicologia e a antropologia. Enquanto a sociologia se
tem debruçado especialmente sobre as sociedades industrializadas, estamos a falar dos
primórdios do seu surgimento como disciplina científica academicamente instituída (em
França, pela mão de Durkheim, nos EUA por Talcott-Parsons e sobretudo a escola de
Chicago), a psicologia, uma ramo mais antigo das ciências humanas, tende a ver
actualmente o homem em relação, se quisermos utilizar uma expressão actualizada, o
homem relacional. A antropologia, por seu lado, tendo conhecido incremento através da
implementação de sistemas coloniais europeus e mais recentemente americano, debruçou-
se sobre as chamadas sociedades tradicionais, onde se acredita ainda haver um diamante em
bruto para delapidar, de certa maneira. Assim, foi um discípulo de Durkheim, e seu
sobrinho, Marcel Mauss, quem deu vida à moderna antropologia. Actualmente, esta ciência
(alguns chamam-se de arte, o que não é de todo errado se vermos as culturas como textos-
Geertz) debruça-se também sobre contextos urbanos e sociologia e antropologia matem
estreitas relações no âmbito de uma interdisciplinariedade que avança ao ritmo dos tempos.
Os estudos psicológicos desenvolveram bastante nos Estado Unidos, com os testes de
avaliação psicotécnica para o exército durante as guerras mundiais. Foi nesse contexto
também que surgiram, entre as duas guerras mundiais, os principais escritos de Sigmund
Freud. Porém, no campo da sociologia, há que remontar a Karl Marx e Max Weber para
conhecer os seus verdadeiros fundamentos. O capitalismo estava em expansão e com ele o
domínio efectivo de potências coloniais europeias, fora de portas, nomeadamente na Ásia,
Oceânia e África. Muitos dos países latino-americanos, tendo conhecido a madrugadora
visita dos europeus, portugueses e espanhóis primeiro, franceses e holandeses depois
haviam já se constituído em estados independentes (Brasil-1822). Assim, antes de
analisarmos o desenvolvimento da sociologia e antropologia nos últimos 60 anos, vamos
ter um relance sobre o que aconteceu antes, no século XIX e até meados do século XX1. É
objectivo da nossa introdução ter, depois uma ideia do desenvolvimento destas ciências,
nomeadamente a sociologia e antropologia, para finalmente traçarmos uma perspectiva
actual delas. Os primeiros autores a que temos referência de um estudo sistemático do
fenómeno social remontam a Friedrich Engels (1820-1895). Aqui se fundamentam muitas
das teorias marxistas que foram levadas a terreno nos países de Leste e especialmente
comandados pelo exemplo soviético, mas que ainda permanecem, sob formas diversas,
actualmente, em Cuba, na Coreia do Norte, na Albânia e em muita da esquerda mundial.
Avançamos depois para Augusto Comte (1798-1857), francês, chamado o pai da filosofia
positivista, uma forma de proto-sociologia. Este autor postulava o estudo cientifico da
sociedade. Ainda hoje na bandeira do Brasil, com o lema “Ordem e Progresso” se vê
manifestamente a influência deste autor. Temos depois Frederic Le Pay (1806-1882),
também francês, que se interessou pelo modo de vida dos operários de toda a Europa.
Voltando ao nosso assunto de início, podemos dizer que o que nos interessa são as relações
de vida, não as ciências exactas ou matemáticas, que não analisam a vida. Ora devemos
perguntar-nos legitimamente decerto se a vida deve ser analisada. De certo modo não será
matar a vida analisando-a, tendo-a como alvo. Porque o objecto de estudo das ciências
humanas e sociais, mais particularmente, é um objecto e movimento e isso deverá ser tido
em conta na atribuição de verbas à investigação. Mas levanta-se de novo a questão se tais
1
Seguimos neste processo de perto a obra Teorias Sociológicas, de Manuel Braga da Cruz, Fundação Calouste
Gulbenkian, 1989, Vol.I-Os Fundadores e os Clássicos.

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estudos devem ser subsidiados. Decerto que não podemos ver maldade na ciência, porque
ela está aliada à crença, à fé, nunca pode haver rigor científico sem pelo menos acreditar na
eternidade da humanidade.

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DILÚVIO DAS CONSCIÊNCIAS

Havia uma época em que não se conspirava, o dilúvio incendiara a terra conhecida.
Tudo começou com um sopro, um sopro que gerou vida. Depois sobreveio, e estou
danando-me para que gostem da minha escrita. Não espero que me digam “continua”
porque nunca mo disseram face a nenhuma coisa. Tudo foi arrancado a ferros. Também o
será com esta história. Desejo provar que ainda acredito em mim mesmo como escritor e
como pessoa ou actor social. Tudo tem um ar pesado. A adolescência era um sufoco, uma
inquietação. Não havia quem me desse respostas e acho que não gritei demasiado alto para
ser ouvido bem longe, onde queria estar. O sol brilha, é apenas uma observação. Cansei-
me de ser bom demais, preocupado com os demais. Um psicanalista que não recebe
dinheiro. Um psicólogo que não tem rendimentos. Não encontrei conforto na ciência, na
literatura algum, na religião nenhum, perdoem-me os crentes. Aquela voz que me
incomoda, as vozes que me incomodam. É tempo de parar. Estranho, dizem que parar é
morrer. Eu prefiro morrer aos poucos na ponta de um cigarro. Mas parece-me que vou
deixar de ser viciado. Posso não deixar de fumar, mas não serei mais viciado. Já não a
tempo de escrever alguma coisa como Proust, mas isso não me deve preocupar. Nunca
alguém me convidou a publicar, talvez me deva convencer de que não tenho jeito, contudo
não tenho a certeza de não ter jeito, estou numa fase em que o que conta é a transpiração,
porque a inspiração é mínima. E se a transpiração é o que conta, a inspiração sempre se
arranja.

Rosa Maria habitava numa cidade do final do século XX, rodeada de prateleiras de
livros. Seu marido, José Carlos vivia na mesma casa, na mesma cama dormiam, mas há
muito tempo que não se davam como na juventude, quando decidiram casar cedo. A
cidade onde viviam seria Lisboa. A Lisboa dos carros desordenados transitando, das
capelinhas de intelectuais, dos acontecimentos culturais, a Lisboa dos doentes mentais e
dos pobres. Seria de esperar que noutras cidades europeias houvesse mais doentes metais
que em Lisboa. Contudo, a ligação a África parecia intensificar tudo isto. José Carlos era
um português típico: audacioso, hospitaleiro, adaptável a todas e mais algumas situações.
Tinham um filho, Fernando Heitor. Fernando Heitor tinha 15 anos e começara a fumar.
Era fonte das preocupações dos pais, que mimaram o filho com todos os privilégios e isso
parecia não ter chegado. Rosa Maria era professora e parecia que nada podia fazer pelo seu
filho. Contudo, um dia tudo mudou. José Carlos passou fumando cachimbo, pois decidira
não travar mais o fumo. Seria uma opção lógica em nome do filho. A felicidade contínua
não existia em casa e parecia não existir em lado nenhum naquele país do fim do século
XX, porém vislumbrava-se uma esperança de conseguir remontar a tempos idos, a um
passado que se projectava no futuro. Um dia Rosa Maria decidiu-se afastar. Seria um acto
irresponsável se não fosse tudo pensado. Comemoravam-se os cem anos do nascimento de
Agostinho da Silva. O homem que acreditava na consciência após a morte. Mas não valia a
pena. O filho fumaria até não poder mais. Enquanto não mudasse de estilo de vida, não
deixaria o tabaco. Seja como for, havia pecados maiores no mundo e se Françoise Sagan
gostava de carros e fumava, por que não se alistar nesse exército de insatisfeitos? Este é,
pois, um romance para quem já perdeu a esperança a nada mais tem a perder senão a
dignidade. Um fundo moral percorre toda a narrativa, mas trata-se somente de um pano de
fundo para as narrativas, não pretendendo interferir nos desejos e ambições das
personagens. Talvez, decerto que sim, o que o seu autor pretenda fazer não seja mera
provocação, como tem acontecido com uns cartoons publicados no reino da Dinamarca. A
religião é coisa com que não se deve brincar e longe de mim querer sucesso à custa de
bajular a religião dos outros. Acreditei eu um dia em Cristo, ainda acredito num Cristo

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histórico e num Deus que corresponde de alguma maneira à nossa consciência de


humanos. Fernando Heitor seguia as leis da imitação e embora não sendo um ser
profundamente honesto, cultivava uma certa boa disposição nos seus dias, não enjeitando
qualquer possibilidade de se envolver com jovenzinhas da sua idade. O amor ainda não lhe
dizia nada, talvez estivesse esperando pela mulher certa antes de se decidir, contudo não
lhe faltavam oportunidade naquele reino de Portugal onde segundo as últimas estatísticas
60 por cento eram mulheres. Com toda a sua conduta, Fernando Heitor arranjara modo de
ser odiado na sua terra. A sua consciência parecia tremer quando lhe falavam nas
experiências do passado, porém era desse passado que tinha de resgatar-se, de resgatar
todo o seu ser. Contudo, não se podia rever senão na sua infância, porque a adolescência
fora condicionada demais e a juventude fora errante. Podia dizer-se que simplesmente
procurava uma mulher para amar, contudo a questão parecia não se resumir a essa simples
procura. Ou procuraria uma alma gémea a quem confessar toda a sua vida, mesmo
sabendo que Nietzsche fora abandonado por confessar à sua mulher toda a sua vida.
Enigmático e inigualável, assim se assemelhava o filósofo naquele fim de século.

***

Na literatura, há instalado uma certa crença que evolve de um pensamento laico. Ora, é
preciso acreditar, nem que seja na raça humana, no sentido de justiça, acreditar até no erro,
para não incorrermos nele muitas vezes. Contudo, o nosso cérebro é coisa delicada, não o
devemos expor à realidade sob pretexto da liberdade de expressão. Convém-nos apreciar o
belo, mas não nos demorarmos nele, sob pretexto de coincidirmos em falsas consciência
que não nos ditam de modo algum o que fazer no dia seguinte. Convém-nos cultivar uma
certa liberdade se pretendemos dizer alguma coisa sobre o mundo. Contudo, como vão
longe os tempos de juventude, no entanto há que acreditar que a juventude está sobretudo
no espírito. Convém acreditar nisso. Ao lado disso, convém confessar ao caro leitor que o
dom da escrita não nasce connosco, mas cultiva-se, aprende-se, com escrita pois e com
solidão, com o exercício de observar o mundo, o que envolve toda uma gama de emoções
onde não escapa o sofrimento. Convém, pois, que façamos do sofrimento, falo do
sofrimento moral, algo de válido e que seja convertido em alegria. Como? Comunicando,
falando, escrevendo, lendo, conversando. O pior é quando o sofrimento tem algo de
psíquico e sexual. A teoria que escrevemos não pretende emanar pretensiosamente do
corpo como matéria dejecta, mas é uma emanação do espírito, muitas vezes atribulado e só
e que procura na escrita o seu refúgio. Quem sabe para seduzir alguém. Por isso
proponho-me cultivar a fusão ciência-literatura piscando um olho à filosofia.

Fernando Heitor, José Carlos e Rosa Maria tinham vivido na mesma casa até o filho ter
a adolescência garantida. Até aí tudo correra bem, contudo a pouco e pouco os resultados
na escola iam enfraquecendo e o filho preocupava-se mais com damas do que com xadrez.
José Carlos, com 42 anos, decidiu escrever um livro. Tomara a decisão por si próprio, no
entanto falara a alguns amigos da ideia e eles acharam bem, pois ele sempre fora algo
original, um homem da técnica, era engenheiro informático, mas que tinha sempre pronta
a sair da boca uma ideia libertária ou literária, panfletária. José Carlos decidira escrever um
romance geracional, em que interviessem personagens de tempos e geografias distintas,
mas unidas entre si pelo parentesco. Teria de analisar a sua própria família para ter um
contraponto. Não contava ser conhecido como escritor. Faria uma edição de autor para
distribuir por algumas livrarias. Se tivesse receptividade, poderia continuar. Afinal o que há
de melhor para quem escreve do que o contraponto do leitor enquanto é tempo, enquanto
este ainda vive? Agora que Rosa Maria o abandonara, tinha tempo de mágoa para escrever.

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O Ofício da Escrita

Seu filho Fernando Heitor encontrara trabalho numa tipografia. Rosa Maria encontrava-se
com José Carlos ao fim de semana, altura em que discutiam sobre a situação do filho, o
carinho que lhe deviam de dar. O país ia de mal a pior, Portugal conhecia todos os
malefícios do desenvolvimento. Aparentemente, as pessoas tinham mais coisas, uma classe
média parecia estar a formar-se, mas havia pessoas que passavam por grandes dificuldades,
como os desempregados, os estudantes de artes e letras. A par disso, o isolamento de
algumas regiões não facilitava a comunicação. Contudo, cada vez mais pessoas tinham
computador. Será que o sabiam usar. E o computador é qualquer coisa de tão impessoal.
Perdia-se talvez a magia dos momentos face a face. Pedro Vasconcelos habitava numa
aldeia perto da linha do norte, tinha a idade de 35 anos, contudo não tinha emprego nem
grandes perspectivas. Era licenciado mas não podia dar aulas, o ministério não lhe
reconhecia capacidade para tal. O que é que podia fazer?

Noite alta. O sono foi aplacado durante todo o dia. José Carlos vê a sua vida esvair-se
da alma, como um corpo que jaz inerte, exangue, depois de um embate de automóvel. A
religião acabou para este homem, a esperança acabou, extinguiu-se a vontade. Foi ele
próprio que se condenou, como se fosse obrigado a demonstrar alguma coisa. Acabou a
literatura, a ciência, o trabalho. Tudo o que pode fazer é pairar entre as pessoas,
lamentando o seu passado, sem imaginação sequer para inventar o futuro. Um homem
gasto e consumido pelos problemas, os seus e os dos outros. Chamar-lhe-iam um
frustrado. Simplesmente cansava-se das coisas, não havia ideais que o arrebatassem já.
Isolado, com pouca comunicação com os outros, dificilmente iria conseguir alguma coisa
daí para diante. A sua consciência procurava os males que pudesse ter feito e contudo não
encontrava nada. Só a vida lhe percorria ainda as veias, como testemunho de que algo fora,
algo desejara deste mundo.
José Carlos ainda está junto dos seus pais. É Sábado, talvez os outros continuem
tendo a sua vida que ele julga melhor, talvez muitos se tenham perdido pelos caminhos
ínvios da vida. Este tempo de espera é-lhe doloroso e não há muito que possa fazer para o
modificar. Entre livros e música vive. Contudo não parece haver muitas formas de
comunicação com alguém que verdadeiramente o toque e difícil seria encontrar alguém
com uma experiência semelhante à sua.
Na realidade, José Carlos não sonhava com Lisboa. Desejava-a. José Carlos sonhava
acordado com uma Lisboa que havia conhecido intermitentemente. Não a Lisboa dos
espaços fechados, das angústias e da solidão, mas a Lisboa da solidariedade, das pessoas
que se comunicam sem se conhecerem, a Lisboa popular e alegre, dos amigos estranhos
que encontramos na rua. Passara mal naquela cidade, decerto. Os tempos de estudante,
que podiam ter sido os melhores da sua vida, não o foram. Mas agora ainda não era tarde,
estava disposto a mudar, a aceitar a vida da cidade. Era onde tinha ainda poiso. Era onde
iria passar o resto da vida. Nesse tempo ansiava por morrer de facto em Lisboa,
acompanhado de sua nova mulher, Maria do Rosário. Pela primeira vez sentia o fado que
havia em si, a saudade. Naquela manhã de Fevereiro o sol entrava pela sua sala de estar e
ele lia um livro de Ovídio, “A Arte de Amar”. Teria de regressar a um palco, mostrar-se,
revelar-se, não importava o passado, não importava o que lhe tinha acontecido, o que tinha
feito, o que tinha deixado de fazer. Talvez o esperasse uma vida normal na capital
portuguesa. Talvez estivesse ali perdendo o seu tempo, na aldeia. Toda a gente sabia mas
ninguém ousava dizer-lhe. Não precisava de ajudas. A seu tempo saberia viver auto-
suficiente, era esse o seu papel na sociedade se é que isto é papel que se tenha na
sociedade. Certamente que iria passar por muito sofrimento, mas não seria mais atroz que
o esquecimento, a indiferença. Antes sofrer do que ficar indiferente. José Carlos não tinha
carro, contudo lembrava-se do dramatismo de viver quando viajava no banco de trás desde
Coimbra com a irmã grávida conduzindo e a mãe no lugar do morto. Era um sentimento

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de tristeza e melancolia, uma suspensão no tempo, um projecto de filho que tardaria em


realizar-se, o princípio da paz de que necessitava finalmente para começar a trabalhar, a
realizar os seus sonhos. Dava uma boa cena de filme aquela passagem. Um filme passado
na Europa, em Portugal. Depois, lembrava-se de quando tinha 14 anos e recebera uma
carta da primeira namorada. A mãe lera e não gostara, como se fosse ofensiva. José Carlos
tinha levado a mal e tinha ido para o seminário por causa disso. Fugira ao amor, como
fugira agora Rosa Maria. O que levará alguém a fugir do amor? A falta de dinheiro para o
sustentar? Os outros?
Entretanto, Fernando Heitor sentia-se aprisionado com os seus 17 anos. A adolescência
havia sido difícil, só tinha boas recordações da infância, tirando o dia em que ficara deitado
com dores de cabeça. Os pais haviam-lhe facilitado o caminho, os amigos também, mas ele
continuava a exigir de si próprio mais e mais. Seu pai andava pensativo naqueles dias de
Inverno, como se tivesse alguma coisa importante para lhe dizer e que por vergonha ou
simplesmente por receio de que os outros falassem, alguma coisa que lhe atormentava a
alma. Fernando dirigiu-se à garagem onde o seu pai lavava o carro numa manhã, o sol
brilhava num entretempo de chuva. Iniciou uma conversa trivial para lhe sacar o que
realmente o atormentava. A meio da conversa seu pai começou falando em tom
confessional: ”Sabes, não posso guardar para mim um segredo de que eu próprio evito
pensar para não chafurdar na lama. Sim, porque é coisa de lama mesmo. Estou
preocupado que o meu comportamento enquanto jovem influencie o teu futuro, Heitor”.
“Mas porquê, o que fez de tão grave o senhor para me poder influenciar assim tanto?”-
perguntou o filho intrigado. “Não sei como te explicar. Eu cometi o pecado de não amar.
De não amar segundo a religião”. Neste momento Rosa Maria surgiu de carro perto da
garagem. José Carlos parou a narrativa. Ele sabia que Rosa Maria o tinha deixado por ele
ter sido honesto com ela e lhe contado todo o seu passado. Mesmo para uma professora
era difícil de compreender. No entanto, Rosa Maria dirigiu-se ao filho e viu a sua
consternação pelo estado do pai. Afinal ele estava arrependido, mas a culpa consumia-o
cada vez mais, dia após dia. Rosa Maria como que ansiosa como quando se conheceram
interpelou o seu ex-marido dizendo-lhe diante do filho: “José, voltei para ti. Não foi fácil
tomar esta decisão, mas na realidade não encontrei nenhum homem como tu. Voltei, Zé”.
Os olhos de José Carlos conheceram um brilho intenso que seu filho viu, olhou para ele e
em seguida abraçou a mulher.

Naqueles dias, ficara em casa praticamente uma semana. Recusava-se a ver alguém,
como se tivesse vergonha de si próprio. José Carlos perdera o emprego mas tinha consigo
Rosa Maria, que começava a estranhar o comportamento do seu marido. Era estranho
como a sua presença não fizera efeito quase nenhum na sua situação. Era um homem
rendido, sem coragem para lutar dia-a-dia como os tempos pediam que se lutasse. Rosa
Maria trazia o sustento para a casa. Até que um dia, uns meses depois de se terem
reconciliado, José Carlos encontrara um novo emprego. Não qualquer coisa de definitivo,
mas pelo menos dava para ele se realizar.
Um novo dia nasceu, glorioso, cheio de promessas para a família de Fernando Heitor.
Nos seus vinte anos contemplava já o seu futuro e havia de ser arquitecto ou desenhador
de casas, nenhuma das ocupações do pai pretendia seguir, aliás, José Carlos não era
exemplo para ele de como escolher uma profissão. O pai de José Carlos fora construtor
civil e quisera que os filhos seguissem o mesmo destino, tirando a menina Filomena. No
entanto, José Carlos seguira um destino particular. Atento aos apelos do mundo, fizera
estudos em ciências sociais e embora não tivesse exercido nada de relevante, continuava a
ler umas coisas, cada vez mais preocupado com o andamento das coisas do mundo.
Passara-se uma geração e no entanto que salto de nível qualitativo, mesmo que não fosse
real. José Carlos era um ser personalíssimo, especial, que remava contra a maré onde quer

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que estivesse. Nas cidades mais próximas, Leiria e Coimbra, contando também com
Pombal, a maioria conseguia empregos por favorecimento político ou por conhecimentos.
Mas por esta razão ou por outras, José Carlos não tinha quem lhe valesse. Por isso
deslocava-se frequentemente à biblioteca da cidade mais próxima para ler jornais e ver
sobretudo as ofertas de emprego. Mas como fazer, agora que Maria da Conceição estava
grávida e que a sua ex-mulher se reconciliara com ele? Mas estava farto da cidade mais
próximas e de todas as cidades próximas. Tudo o que evitara durante os aos anteriores
resumia-se agora a uma palavra: dinheiro. Tudo o que interessava às pessoas era dinheiro,
era tudo uma questão de dinheiro. Era este o elemento perverso das relações sociais.
Entretanto, a pequena Patrícia nascera, numa tarde de Julho, em pleno verão
português. José Carlos estava aflito com o dinheiro. Com o dinheiro que não tinha.
Escrevera uma novela onde contava episódios que se passaram com ele, em parte
ficcionados, em parte realidade pura. Precisava que alguém visse o original, alguém que ele
não conhecesse. Como recebia alguns currículos na morada que tinha em Lisboa em nome
de uma editora fantasma que criara, resolveu contactar uma dessas pessoas. Era uma jovem
que parecia ter mais de profissional do que simpático. Tinha tirado um curso na área, é
certo, mas, com os seus 27 anos, como poderia ela algum dia avaliar o conteúdo da obra de
José Carlos? Como lhe podia dar uma opinião, subjectiva ou objectiva, mas que fosse uma
opinião. Nesse tempo, José Carlos era simplesmente um autor, depois de tantos anos a
escrever, que procurava ser publicado. Não entrara no circuito comercial das obras
literárias. Sabia que o que se publica em grande número imediatamente após a feitura não é
o melhor. É o que as pessoas querem. Simplesmente não é o melhor. Para a jovem que ele
contactara, José Carlos era mais um homem, mais um editor tentando ganhar a sua vida. E
certamente que tinha muito dinheiro. Antes de se comprometer, José Carlos ainda pensou
em rever ele a obra, mas parecia-lhe atrair o abismo de ver uma obra publicada e
simplesmente, cheio de dívidas, estava arranjando mais uma. Deviam-lhe dinheiro, ele
devia dinheiro. Havia que regularizar as coisas. Seja como for, iria pagar a revisão da obra.
Lembrou-se de dar o telefone da pessoa que lhe devia dinheiro a quem devia dinheiro, a
essa jovem e eles que se entendesse. Preferia ficar a sofrer, sem dinheiro para o dia-a-dia
do que honrar os seus compromissos. Era assim nas coisas pequenas, seria assim nas
coisas grandes. Seja como for, depois daquilo tudo voltaria à sua condição permanente de
pobre e trabalharia por conta de outrem. O que mais o revoltava seria a possibilidade de
encontros amorosos que os outros poderiam ter através da literatura. Ele não ousava subir
a um palco e talvez não fosse esse o seu objectivo. Fosse como fosse, iria calmamente a
Lisboa no dia seguinte e talvez adiantasse algum dinheiro à jovem sob compromisso de ver
o seu trabalho e depois lhe pagar o resto. Não fora a Lisboa, o que iria pensar a jovem
revisora? Simplesmente podia imaginar que José Carlos era um caloteiro, alguém que não
honra compromissos. Mas a coisa não era assim tão simples para José Carlos. Não
importava nada mais. Não tinha de fazer diferente de seu pai, por espírito de contradição.
O saber viria ao seu encontro um dia destes, mais tarde ou mais cedo, não adiantava correr
atrás dele.
Patrícia decidira enveredar pelas artes. Seu pai avisava-a que bem podia vir a encontrar
legiões de pipis e fifis mas não lhe servia de nada. Quando somos jovens não gostamos
que nos dêem dicas, sobretudo os adultos, pois José Carlos irei deixar caminhar a filha
como ela pretende, sem fazer grandes imposições, comigo também não o fizeram. Apenas
lhe metia confusão ver a filha metida com pipis e fifis que fazem dinheiro com o seu
corpo. Nesse sentido, as prostitutas são mais honestas. Mas se queremos algo de mais
refinado estilo Catherine Millet e se queremos algo que nos renda dinheiro, investimos na
arte. É a plena exploração do cérebro humano. José Carlos nunca ambicionara estar
ocupando um lugar institucional, preferia ver as coisas de fora. Naqueles tempos, o mundo
retinha tudo o que ele tinha feito e não se lembrava de que ele estava mais vivo do que

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O Ofício da Escrita

nunca. Esquecera os tempos de seminário, de privação física do contacto com miúdas, da


privação nos tempos de faculdade. Eram os tempos da livre iniciativa, que poderia ter
feito? Que culpa tinha que as colegas não quisessem ir com ele para o seu apartamento?
Não podia pensar mais nisso, o melhor seria esquecer. Mas como esquecer todo o
sofrimento por que tinha passado? Será que alguém tinha de pagar por isso? Essa é que era
a questão. O facto de se ter convencido das ilusões que lhe incutiram e de isso ter afectado
a sua vida. No meio desta confusão, o que pensar do destino da pequena Patrícia? Iria
saber ela como a fidelidade amorosa é caminho difícil e ínvio, que iria ser assediada por
todos e mais alguns para dormir e depois fazer sucesso com isso? As pessoas simplesmente
não tinham nada na cabeça. Nada havia de coerente, nada de profundamente pensado.
Talvez fosse melhor para José Carlos continuar assim, ao sabor do vento, sem grandes
pressões, com dignidade no porte e no andar, com coragem mais uma vez para seguir uma
lógica qualquer, seguir um caminho. Agora a questão seria: com Rosa Maria ou com Maria
da Conceição? O pior de toda esta situação é que José Carlos tinha um problema de tabaco
e, aos trinta e seis anos, de disfunção eréctil. Como iria desejar uma das mulheres, aquela
que escolhesse e aquela que o escolhesse a ele? O amor, o desejo, eram coisas que já não
faziam sentido para ele. Começara aos 25 anos a sua vida sexual, sem que no entanto tenha
tido possibilidade de partilhar a sua sexualidade antes, não que não tivesse tido hipóteses,
mas talvez não estivesse preparado. Agora, escolher Rosa Maria ou Maria da Conceição,
esta mais nova que a primeira, de quem tinha filhos, seria para ele difícil. Poderia viver em
bigamia, será que elas permitiriam? Mas ele próprio não conseguia viver nesse estado, o seu
amor tinha de se concentrar numa só pessoa. Seria Rosa Maria, o seu primeiro amor, que o
ignorara e voltara para ele sem condições, ou seria Maria da Conceição, a jovem mãe da
pequena Patrícia?
Se há algum direito em vermos o mundo com os nossos olhos, o mundo não é como
o vemos, no entanto temos direito a olhar o mundo com os nossos olhos. E não temos
direito em tudo desculpar, tudo permitir, pois no dia seguinte o que será feito do nosso
juízo sobre o mundo e as coisas que nos levam a acreditar? Nesse Domingo desejava estar
contido numa praia, ter um carro para te levar a passear. Podíamos falar sobre nossas
vidas, sobre nossos planos como se fossemos dois jovens inconscientes. Podíamos, ainda
era tempo e eu não estava já totalmente derrotado. Podíamos dizer mal dos outros e entrar
novamente em lugares de poesia das nossas mentes. Podíamos beijar-nos e tu dizias-me
para não fumar. Viverias comigo e sempre que sentisse necessidade de fumar tu dizias-me
para não o fazer e eu obedeceria. Mas não, nesse domingo eu estava impotente em casa,
sem bens próprios, derrotado da vida, contorcendo-me com dores numa cama,
levantando-me para fumar. Havia acreditado em tudo nesta vida, na religião, na ciência.
Deixara de acreditar nas coisas boas em virtude de existir mal no mundo. Mas tu podias
finalmente mudar tudo isso. Mas não estavas comigo. Eu, que convencido era que só em
Lisboa havia mulheres interessantes, não pensava que na minha terra podia encontrar
alguém com quem passar os dias. Faltavam-me forças, era a realidade, estava fraco e
cansado de procurar emprego. No silêncio da noite, entrecortado por uma moto que passa
é alguém que faz um turno da noite, os meus pensamentos repartem-se desiguais na
insónia branca do papel electrónico. Na verdade, as minhas personagens encontram-se
suspensas enquanto a vida decorre numa pequena aldeia onde não trabalho aparentemente
e me contorço na cama com dores de alma. A minha mãe tem razão ao dizer que primeiro
vem o trabalho depois a namorada, as mulheres. Eu nunca aceitei isso. Talvez por isso viva
na mais absoluta pobreza e o meu espírito, embora algo divertido ainda, esteja fraco. Oiço
Jorge Palma e deixo-me rir ou sorrir no meio da noite, entre estas palavras parcas, em
sentimento de que algo se perdeu, uma sensação contudo de tranquilidade do espírito
inquisitivo e da pessoa pobre. Antes pobre e feliz do que endinheirado e com problemas.
Logo mais vou aperaltar-me e ter com ela, fazer a barba, ajeitar a pêra, pôr gel no cabelo,

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O Ofício da Escrita

vestir a melhor roupa para ir vê-la e convidá-la para sair, beber um café, pedir o número de
telefone. É psicóloga, talvez queira tratar os meus males de amor. Citou-me curiosidade o
facto de dizer que estava de luto de uma relação quebrada. Achei piada. Eu também estou
de luto. Estas são as observações de um autor que procura inspiração nos desejos dos
homens, os mais honestos, sinceros e talvez os mais nobres como o prazer e a reprodução.
E o que é feito do dia seguinte, como poderemos garantir sobrevivência no dia seguinte.
Não me importa o que já tenha feito, talvez muitas mais asneiras vá ainda fazer. Mas isso
nada tem a ver com o que sinto por ela, esta necessidade de simplesmente trabalhar, viver
junto, ter filhos. Penso na minha mãe e imagino que posição tem ela ao dormir junto de
meu pai, aqui na casa ao lado. Dormem o sono dos justos, como ainda dois apaixonados
que se conheceram em Paris. Quem pode conhecer melhor lugar para amar? Para
namorar? Contudo, o amor pode não estar longe de mim. Basta-me que tenha finalmente
uma ocupação, um emprego remunerado, de resto posso fazer tudo o que quiser, sinto-me
livre como um pássaro, um escritor em cima de um enorme pássaro. Minha alma voa, há
dias que não sonho, mas a minha alma continua sobrevivente, o corpo cheio de tabaco,
pois tenho nos últimos dias fumado dois maços por dia, é sinal de que algo de importante
está a acontecer. Estarei decerto a transformar-me mais uma vez e os meus escritos não
dizem nada sobre que não conheço, que são os Outros, mas dizem algo sobre quem
conheço, que sou eu, sem no entanto me conhecer verdadeiramente. Tenho saudades de
estar bêbado, conscientemente bêbado, no entanto sei que nunca mais voltará esse tempo
e nem é preciso, sinto-me ébrio com a vida, nos meus 36 anos. E o que será dos
personagens deste livro? Sinto saudades da festa do Avante, de ver a Margarida passar e o
Jorge Palma, pequenote e fininho, com o seu cigarro na boca.
Deveria saber desde o princípio para não me meter em trabalhos. Embrenhado nos
pensamentos, fui egocentrista e carrego uma culpa por actos que fiz e não fiz. O Sr. Carlos
caiu da bicicleta perto da minha casa e eu nem me apercebi. Só hoje é que o vi todo ferido
no café. Será esta uma boa altura para deixar de ser indiferente? Porque é que temos de ir
ao rabo uns dos outros para provarmos que existimos? Porque é que nos embebedamos
para engatar as miúdas? Sinto que nada fiz ainda, que andei transviado grande parte da
minha vida e que tenho obrigação de fazer muito mais de hoje em diante. Não adianta de
nada ficar preocupado. Quando a desgraça me bater à porta talvez não já me aperceba. Ou
de tanto errar pode ser que acerte uma vez na vida.
Realmente, escrever no meio de uma tempestade de emoções não me parece tarefa
nada fácil. Era o que vivia José Carlos, contudo a diferença para com outros romances é
que José Carlos era o autor e vivia de facto uma situação difícil. Sem dinheiro, sem
emprego, sem namorada e fraco, procurava algum sentido para a sua vida. No meio de
tudo isto só lhe importava salvar duas pessoas: a sua mãe e a sua irmã, aquelas que de perto
tinham vivido o seu problema. José Carlos não era casado nem tinha relações amorosas.
Era tudo fictício, no entanto verdadeiro na mente do autor. Se por acaso José Carlos
quisesse somente sexo já mais cedo que se tinha entregue à prostituição masculina, mas
não ele estava numa idade em que o desejo sexual diminui e queria uma mulher a sério
para casar. Tinha tentado de todas as maneiras. Como não tinha carro, deslocava-se a
Coimbra, Leiria e Pombal, de comboio ou de autocarro. Estava nas lonas e nos últimos
cinco dias fumava dois maços de tabaco por dia. A situação estava insustentável e ele
estava de facto a fazer qualquer coisa. Certo ou errado o tempo iria dizê-lo. Mas bastava de
estar sem trabalhar há tanto tempo, escrevendo um romance que nunca ninguém iria ler. A
irmã admoestava-o para não massacrar a pobre mãe que estava já entrando em depressão
com todos os problemas do filho. Era este o cenário num Portugal do ano 2006, tempo de
crise, de falta de emprego, onde tudo se conseguia com cunha e para José Carlos
simplesmente o tempo das cunhas tinha passado. Estava só. Com a sua família. Ainda. Mas
não iria cometer nenhuma loucura.

12
O Ofício da Escrita

Mas não conte o leitor que este novelo será coisa de se ficar por aqui. Da teoria à
prática vai uma distância, mas não é de todo impossível percorrê-la. José Carlos fumara já
o seu último cigarro. Há algum tempo, uma questão de dois anos, provara-se ou chegara a
notícia a Portugal que o tabaco provoca impotência, diminuição da qualidade do esperma,
esterilidade. Quando começaram a sair anúncios nos maços de tabaco indicando tal
consequência, José Carlos não lhe deu a devida importância. Passaram-se cinco, seis anos.
Até que um dia sentiu-se impotente. Toda a sua sexualidade havia sido transformada pela
toma de medicamentos antidepressivos e antipsicóticos, desde 1994, como se fosse um
criminoso cuja falta seria falar. Mas o problema começara mais cedo, quando não se havia
enamorado aos 19 anos de Lucília, enquanto estudava à noite. Simplesmente havia perdido
três anos num seminário na força da vida, na altura em que começamos a querer descobrir
as moças. Ninguém lho havia dito para o fazer, mas na sua ânsia de perfeição talvez
quisesse evitar contacto com o mundo, estas coisas não se explicam, talvez tivesse tanto
medo de encarar uma relação física com uma moça concreta que tivesse evitado abordar o
assunto. Tudo isto era irreal. Contudo, nesse dia, decidiu não fumar mais e fazer tudo para
não fumar. Simplesmente porque se via atingido na sua virilidade. Não era por causa do
cancro, da vida, dos outros, o que estava em causa era não já o simples facto de existir
como pessoa, mas como homem, a sua virilidade. E isso ele não queria perder. Por isso,
José Carlos ia ganhando consciência destas coisas que com ele sucediam.
Quando vives numa aldeia e descobres a possibilidade de poder ser gay ou bissexual, já
que queres esventrar as entranhas da vida e do ser, tudo se pode tornar mais difícil.
Precisas de um médico e não tens dinheiro, tens de trabalhar para conquistar saúde e não
tens saúde para trabalhar. Se juntares a isso a possibilidade de poderes vir a ter um filho
que cuja educação não podes garantir porque ninguém te ajuda. Então aí sim, aí tens
verdadeiros problemas. E se fizeste sexo desprotegido com uma desconhecida e corres o
risco de contrair Sida, então tens verdadeiros problemas sobre a tua pele. Mas vives numa
resignação incrível, aceitando todos os males do mundo como Cristo, tudo o que se passa
de mal com os outros tu entendes, és compassivo. Mas ninguém te pode tirar o
sofrimento, moral e mental de todas estas coisas, estas possibilidades ou realidades. Aí está
o verdadeiro problema. Quando passar a tarde a dormir tentando compreender e ninguém
te telefona para perguntar como estás, então estás com problemas. Quando aos 36 anos
não tens um pé-de-meia para nada, não tens dinheiro para sair e te divertir, dependes da
tua mãe e do teu pai só porque quiseste descobrir quem és, a tua identidade, tens um
problema. E quando descobres que tudo isto resulta da falta de convivência com os outros
e que estás há cinco dias em casa, aí tens um grande problema. Quando descobres que não
estás sozinho e que tens pais que embora não falam te compreendem tens alguma
consolação. Porque de certeza que se estivesses em Nova Iorque ou Londres estarias
sofrendo sozinho a um canto, abandonado.
Lisboa estava longe da vista, mas perto no coração de quem visitava a aldeia onde José
Carlos vivia. Agora estava empenhado a ser como uma interpretação sua de Raymond
Carver, fazendo de tudo um pouco e talvez dar algum nome de literatura ao que poderia
escrever. Não se considerava um escritor falhado, só porque não pudera publicar em
grande dimensão para o público de língua portuguesa. Os dias corriam, um atrás do outro,
fumava um pouco menos, mas tomava ainda a medicação para a neurose que o
atormentava. Longe, porém, de ser uma pessoa essencialmente sofrida. Respeitava o
tempo e aprendei a respeitar-se a si próprio melhor. Compreendia que através do seu
comportamento sexual e da imagética que incutiu ao seu espírito na pobreza, podia ainda
ser escritor, porque sentia que tinha esse senso e reconhecimento. Contudo, longe dele
voltar para a vida religiosa, seria como que trair a sua natureza humana tão afirmada por
Cristo e Saramago e Katzantzakis (e já agora Mel Gibson). O que havia nestes tempos é
que se aproveitava o passado para fazer uma súmula de eficácia para o presente. Era o

13
O Ofício da Escrita

marketing pessoal e empresarial em todo o seu esplendor. Queria tentar fazer alguma coisa
que fosse compatível com o seu percurso pessoal, com uma aventura que ainda não tinha
sido partilhada. Andava nesses dias a remoer não ter vivido um amor de juventude. Fora
culpa dele ou simplesmente o destino? E para quê continuar a alimentar um sonho de
literatura quando ninguém lhe dava crédito? Alguma auto-confiança e força perdera, seja
como for era injusto não ter trabalho. Tirara o dia para fazer pesquisas na Internet sobre
trabalho voluntário na Índia, Bangladesh ou Sri Lanka. Espantava-se o antigo Ceilão não
ter uma representação diplomática portuguesa. A de Nova Deli servia de apoio. Contudo,
o seu grande problema era não ter dinheiro para viagens, para nada. Tinha 185 euros por
mês que agora apenas podia gastar em viagens entre Pombal e Leiria num part-time que
supostamente iria arranjar. Por enquanto era o que podia fazer, porque não tinha carro
próprio nem dinheiro para comer fora. Tinha de esticar esses 185 euros. Não sabia como
fazer dinheiro fácil, talvez mesmo que soubesse não era essa a sua intenção. Mas mesmo
tendo passado o dia na cama, não era nessa situação que queria continuar. Queria sair do
país, não para Angola ou Moçambique, não para França ou Noruega, mas para bem longe,
para a Ásia. E morrer por lá. Não queria herança nenhuma, não planeava. Seu amigo
Estevão não se apercebia simplesmente que ele estava ficando sexualmente impotente e
queria ter filhos. Não compreendia. Nem valia a pena ter essa conversa com ele. No
entanto, se surgisse um filho, seria uma complicação para José Carlos. Por isso queria ir
para longe, esquecer o futuro que não tinha em Portugal e o passado que nunca tivera e
acabar os dias por lá. Ainda que como português. Talvez Timor-Leste fosse uma opção.
Mas como ultrapassar todas as formalidades do Ministério dos Negócios Estrangeiros que
escolhera a dedo 60 professores que provavelmente queriam fazer carreira, procurar uma
experiência diferente. Não, José Carlos queria auto-exilar-se numa terra desconhecida,
esquecer que existia, abandonar a família, morrer longe. Queria ser professor de português
ou trabalhar como voluntário ou não todo o resto da sua vida, construir vida noutro local.
E queria sobretudo fazer essa longa viagem até à Ásia. Se tivesse garantia de apoio para a
viagem e contactos no terreno, podia muito bem preparar essa empresa. Era o que ia fazer
daquele dia em diante. Contactos, promessas de que pagaria a viagem com trabalho,
simples trabalho. Queria acordar e passar a noite na Ásia, bem longe de Portugal, das suas
referências, queria perder as referências, ser um ilustre desconhecido. Mas como sabemos
tal não é possível. Temos, onde quer que estejamos, de ser conhecidos por alguma coisa,
origem, história, feitos, proveniência. Todos os seus esforços seriam orientados nesse
sentido. Sob o mesmo ecrã sobre o qual passaram imagens pornográficas, gerava-se agora
um novo tipo de linguagem, ajudar o Outro ir para junto dos que precisam. Seria uma
forma de expiação, de compensação psíquica ou moral. Ao mesmo tempo tinha de
telefonar já à mulher que com ele fizera amor. A noite passou quase em branco. Lá para as
duas da manhã acordara e assim ficou pensando nos seus sonhos. Pior eram os que se
haviam de seguir. Sonhava com o seu irmão recriminando-o de se ter quase masturbado,
até que pelas 6 da manhã acordou de novo e começou a especular sobre si próprio? Seria
gay? Queria saber a verdade. Tinha medo de sair de casa, todos o gozariam. Qual seria a
verdade? Hetero, bi ou gay? Tudo isto lhe tirava concentração para trabalhar, o terreno que
pisava estava minado, não queremos pintar um quadro mais negro do que ele é, mas José
Carlos sofria como um cão atropelado, contorcendo-se sobre o seu próprio ser. Agora
dormia de dia e fazia vigílias de noite. Talvez precisasse de ajuda, agora mais do que nunca.
E dinheiro? Não tinha dinheiro senão para um maço de tabaco por dia. E queria ele ir para
longe! Nunca mais sairia do buraco onde se metera. Ficaria preso aos seus pensamentos,
sem nunca falar realmente do que interessava com ninguém, preso a casa. Seria a suposta
homossexualidade uma doença, uma construção social, uma perversão? O que é certo é
que andava em crise de identidade pela já citada sexualidade mal vivida devido a
medicamentos e abuso de tabaco. Jurou não ir mais ao café da aldeia, que o gozariam, mas

14
O Ofício da Escrita

depois pensou que tinha de assumir tudo o que fosse, que isto tratava-se de uma
descoberta pessoal e que as pessoas tinham de o aceitar como quer que ele fosse. Não se
iria esconder por ser diferente. Não faria questão de dizer a toda a gente nem o esconder
de toda a gente. Viveria aquilo como o vício do tabaco, que já não lhe dava prazer, só dor.
E que raio de romance daqui nasceria. Não se fala aqui de famílias, de sucessões, de
heranças, de amores feitos e desfeitos, fala-se do terror de um personagem em existir, com
medo de sair de casa. Foram terríveis realmente para José Carlos aqueles dias. Até que
resolveu telefonar a Rosa Maria, num Domingo. Rosa estava ocupada de manhã, mas à
tarde podia conversar com ele. Foram até à beira-mar, coisa que não faziam desde
namorados e conversaram, José Carlos falou dos seus problemas de identidade. Encontrar
em Rosa Maria uma pessoa que compreendia tudo o que ele dizia era reconfortante, uma
pessoa que o aceitava e todas as suas dificuldades. Não era como Maria da Conceição que,
mais nova, ainda não entendia certas coisas. José Carlos, pelo passeio à beira-mar, parecia
um cego conduzido pela mão de Rosa Maria. Tens de ter coragem, dizia ela, sai mais de
casa, procura de novo trabalhar, deixa essa escrita em espiral que te põe maluco, faz coisas,
mesmo que disparates. Assim nunca te arrependerás de ter ficado parado. Parado no
tempo. Mas não, o passeio à beira mar fora apenas a coisa positiva com que José Carlos
conseguira sonhar nos últimos dias. Não havia quem lhe desse uma palavra. Com 36 anos
ele tinha de descobrir por si próprio, provar o sabor amargo da realidade. Levantava-se e
agradecia a Deus por lhe permitir ver a realidade mais uma vez, depois de tantas tormentas
de espírito. Tinha medo, medo de ser ferido pelos seus pensamentos. Iria ele descobrir
alguma coisa naquele lugar? A par disso, José Carlos não podia receber o rendimento
mínimo, nem subsídio de desemprego, porque morava com os pais. Nunca tivera um
emprego fixo. Como podia estar numa situação tão miserável? Fora ele próprio que se
colocara, como vítima, naquela posição, ou fora a sociedade que o conduzira àquela
situação? Como um jovem podia gerar expectativas se a sociedade não lhe dava, nunca lhe
dera nada? Como podia ter motivação se recebia 185 euros de uma renda há anos como
único rendimento? E mesmo assim devia dinheiro. A toma de medicamentos, o tabaco, a
falta de exercício, o não ter simplesmente dinheiro para sair de casa, punha-o realmente na
situação de um cidadão do terceiro mundo, do Bangladesh. Não habitava em Portugal, mas
no Bangladesh. Há já muito tempo. Mesmo assim, não exercia violência para consigo
próprio. Se deixasse de fumar talvez pudesse ir até Pombal ou Leiria, expor o caso na
Segurança Social. Quando recebesse algum dinheiro que lhe deviam podia pedir a amigo
para aguentar mais um pouco até ele trabalhar, arranjar um trabalho minimamente decente
e seguro. Para que ao menos conseguisse amealhar algum dinheiro para as viagens e
almoçar fora. Com tudo isto, no sonho de ontem vira-se longe, fazendo um testamento
que deixava a sua herança aos seus irmãos legítimos, não admitindo que tivesse filhos. Se
os tivesse, alguém por morte do pai ou da mãe viria reclamar herança. Queria, por isso,
esquecer o presente, o passado, morrer longe. Talvez não estivesse de facto a enfrentar os
problemas. Talvez não fosse tão razoável quanto pensava. Ali, naquele lugar, ninguém o
iria ajudar. Tinha de se mexer.

José Carlos olhava para o seu passado como que debruçado sobre o seu pénis. Pensava
nos tempos de faculdade e como a falta de sexualidade o tinha levado à morte moral.
Ainda se lembra da televisão, do quarto grande onde uma noite acordara sobressaltado
suspirando por Susana e de como a coisa não funcionou porque talvez o problema fosse
ele mesmo: não estava preparado. Com seu amigo Estêvão falava de como nessa altura
frequentávamos todos os lugares da noite, na capital e na terra e de como éramos
orgulhosos e não permitíamos um diálogo espontâneo com as raparigas. Talvez
estivéssemos seleccionando naquela altura, talvez fossemos demasiado idealistas. O que é
certo é que José Carlos passava dias ocupado com o seu pénis. Trouxera um dia para o

15
O Ofício da Escrita

apartamento Paula e Margarida, mas não fizera nada com elas. Paula estava ferida com a
morte da mãe e reagiu mal aos afectos de José Carlos. Margarida era frágil, conhecera-a no
refeitório das Químicas, despedira-se dela quando fora para Itália e depois vira-a uma vez
na sua faculdade mas nessa altura já andava de cabeça perdida. Portanto, o curso de
amores correu muito mal. Como podia correr bem nos estudos? Essa memória do tempo
perdido sozinho, anos a fio, masturbando-se violentamente, não largava a sua consciência.
Quem tinha permitido tal coisa? Consentido, visto, tolerado? Mesmo assim, o culpado só
podia ser José Carlos. Virava a sua agressividade contra ele próprio, mutilando-se. Em
tudo isto a televisão e a pornografia distanciaram-no da realidade. Sentira bem esse
distanciamento quando saia para o fim-de-semana com o saco às costas “estou perdido”,
dali em diante nunca mais se encontrou, seria ilusão pensar que sim. Aqueles rituais
repetiam-se às quartas, aos fins-de-semana durante quatro anos, tornando a sua vida num
inferno. Como podia ter motivação, como podia ter esperança, como poderia ter trabalho?
Depois, compraram casa em Lisboa. Ainda ela não estava pronto a habitar já ele se
masturbava por todo o lado. Foram mais dez anos de sofrimento, de falta, de carência. As
mulheres que tinha conhecido tinham pena dele e faziam-lhe favores sexuais. Muitas vezes
pagou para ter sexo. De modo que estamos muito longe de uma infância ou juventude
realizada. É claro que não havia guerra, grandes dificuldades económicas. No seu silêncio,
José Carlos ia resistindo, crescendo com dificuldade, tudo lhe parecia uma crise de
crescimento. Tudo porque aos 14 anos fugira do seu amor para um seminário. E perdera,
ah! Como perdera, o contacto com um mundo de mulheres, de desejo, de encantamento,
na aurora da vida. Essa memória atormentava-o mais que a guerra e as fomes de África. A
inutilidade desse tempo, de que não se conseguia libertar, atormentavam-nos como as
tentações de Santo Antão, de Jeronimus Bosh. Em tudo isto e, citando Woody Allen em
Annie Hall, havia qualquer coisa de anal. Isto está explicado algures nalgum lugar, na
cabeça de alguma pessoa. Não adiantava evitar o assunto. Reflectira o suficiente sobre isso.
Contudo, talvez estivesse arriscando demasiado e pensar assim a sua identidade, pobre e
fraco como estava, com o desejo sexual no mínimo, envelhecendo. A vida não havia sido
fácil e bela, nem sequer a vida de José Carlos dava para um filme como outras. E se alguém
compreendesse como alguém pôde fazer tão mal a si próprio, ignorando o mundo de tal
maneira que era auto-centrado ao ponto máxima. Contudo, ainda compreendia os outros.
Tinha a impressão que fazia de psiquiatra sem receber honorários a algumas pessoas. Não
tivera formação em medicina, de modo que era um leigo, apenas podia falar do que ouvia e
da sua experiência pessoal. De modo que na escrita José Carlos encontrava maneira de
partilhar as suas mentalidades, os seus porquês, explicar-se, como se a vida, epifenómeno
natural, pudesse ser explicada por palavras. Não escrevera um grande romance, uma
novela que entusiasmasse multidões, nem escrevera músicas ou melodias, apenas escrevera
qualquer coisa ignota no tempo até que mais tarde alguém viesse a descobrir algumas
belezas nessas coisas e ideias, envolvendo muito sofrimento, alguma alegria
despropositada, alguma coisa que se pudesse chamar vida. Pois se não fosse em nome da
vida, o que animava ainda José Carlos? Talvez a última música de Tim, na Primavera de
2006, em Riachos.
No dia seguinte, tudo acordou calmo. José Carlos foi ao café cm cinco euros dados
pela mãe e comprou um maço de tabaco. Nada há para fazer. Está-se na força da
juventude e nada aparece para fazer, simplesmente porque não há dinheiro. Há o suficiente
para ir até Pombal e voltar com a irmã de carro. Esta situação vai arrastar-se por três
semanas ainda, até que receba a renda. Não poderá José Carlos começar a trabalhar
enquanto não tiver esse dinheiro para as viagens, mesmo assim não dará para comer fora.
Consome-se o tempo num cigarro. Não há nenhuma revolta, nenhuma injustiça, apenas se
ocupa um lugar, envelhecendo. Como poderá haver inspiração neste lugar para grandes
personagens, de que deve falar o autor, repetidamente das personagens da terra, da aldeia,

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O Ofício da Escrita

que não reproduz na tela da escrita ou de si próprio, cansado está de olhar o mundo com
os seus olhos? Não há nada de literatura em tudo isto, a vida não é literatura. A vida é uma
consumição contínua a meus olhos, o perder, o morrer aos poucos, o perder a vitalidade.
Porque na juventude das paixões desordenadas não sabemos o que fazer com a força que
temos e quando sabemos por experiência já não temos a força que tínhamos. São estes os
contra-sensos da vida, é afinal de contas por isto tudo que somos mortais, fracos,
vulneráveis. Bebemos, fumamos, matamo-nos na estrada, estamos permanentemente em
risco, em risco de vida, somos lírios no campo atravessado pelo vento que uma praga pode
dizimar. No entanto, há poços de esperança. Os mais jovens crescem para a maturidade,
alguns desordenadamente, outros mais certinhos. A vida renova-se neles e algum deles
haverá parecido com José Carlos, que se sinta retratado nos seus temas. Poderá ser um
discípulo, um admirador. Mas nessa altura já não poderá falar com José Carlos porque este
terá partido. Mas José Carlos observará a sua atenção ao ler as palavras que deixou e
permitirá que o discípulo erre para aprender, que conheça sucessos e fracassos, que
conheça alguém que o faça ver os sonhos um pouco mais perto do que na sua consciência.
Porque no tempo presente, para José Carlos já nada importa, tudo é passageiro, já nada
importa.
Como reconstruir uma vida de modo a dar conta de qualquer coisa que não
desapareceu mas se tornou invisível. Assim José Carlos tentava pensar como podia ainda
transmitir a alguém, enquanto professor de alguma coisa, conhecimentos que ele próprio
tinha anulado. Estava decerto em desvantagem em relação a outros. Perdera a linguagem
poética e ler um livro de filosofia já não era a mesma coisa que dantes, já não fazia sentido,
as palavras encadeadas já não se colavam à mente nem se entrelaçavam mas amontoavam-
se desordenadamente. Poderia de novo ser educado para a literatura, a ciência, a arte a que
pensava dedicar o resto da sua vida? Arranjar um trabalho significava ter autonomia,
esforçar-se fisicamente, pois que era já avesso ao esforço intelectual por preguiça natural,
contudo tinha ainda agilidade de pensamento, naqueles dias loucos de primavera de 2006
em Riachos, já fumava dois maços de tabaco por dia há uma semana e pedia dinheiro à
mãe e à irmã que não lhe podiam, não podia ser, não lhe podiam dar mais. Tinha de
arranjar depressa um emprego, uma reforma antecipada, gerir melhor os 185 euros que
recebia. Mas ainda gostava de ler, era possível uma recuperação daquilo que tinha visto,
não há como voltar atrás, o caminho era para diante, não havia que ter medo. Ele quebrara
as coerências do espírito que o mantinham agarrado à realidade. Disso tinha a certeza.
Agora tinha somente pequenos fragmentos de vida, frescos da sua vida passada que o iam
aguentando e um projecto de uma escrita difícil, pouco arrojada, sofrida. Valeria isto ainda
alguma coisa naqueles dias? Procurar arduamente por meio de um labor intelectual, as
palavras certas, valeria ainda alguma coisa, não seria lutar contra moinhos de vento?
Surge no dia seguinte a possibilidade de efectuar voluntariado no Sri Lanka. Como seria
bom viajar para longe, fazendo qualquer coisa, estando longe de tudo, da sua própria vida,
suspendendo a sua vida particular a que dava demasiada importância! Oxalá conseguisse ir.
Teria de pedir autorização ao médico psiquiatra, levar medicamentos para se aguentar
psicologicamente. Quem sabe se não era uma hipótese!? Antes ir que ficar patinando anos
e anos, dias e dias, a fio entre as paredes de uma casa, ousando inventar literatura. Seria
bom para José Carlos. Procuremos segui-lo nesta sua nova esperança. Entretanto,
Fernando Heitor tinha 19 anos. O tempo passava devagar naquela época. Quanto a Lily, ia
já nos dois anos. Como poderia José Carlos, na situação em que se encontrava, dar
sustento aos filhos? Normalmente, com expedientes de trabalho temporário manual com o
seu pai, mas este também se reformara e não tinha com ele os mesmos trabalhadores de
sempre, tinha um ou dois mais fiéis, como o Simas e o Custódio, que passavam lá por casa
manhãzinha para ver como eram as coisas de trabalho para aquele dia. Como poderia José
Carlos fazer o seu voluntariado nos Médicos do Mundo e dar a educação a Lily? Lily era a

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O Ofício da Escrita

filha que a família mais desejara. Uma menina no meio de três rapazes de outros três
irmãos. Cabelinho castanho, olhos verdes, era uma beleza portuguesa. Ria e pulava no
jardim da avó Berta para seu encanto. Era o centro das atenções e finalmente José Carlos
conseguira-se por no centro das atenções da família enquanto pai de uma menina. Seu
amigo Estêvão confidenciava-lhe que também queria ir para longe fazer voluntariado. Mas
para que precisavam os médicos, habituados a situações de emergência e calamidade, de
um antropólogo. Podia um antropólogo fazer alguma coisa no meio de tantos destroços
humanos? A resposta, para José Carlos era clara: claro que sim, vai, se eles te chamarem é
porque podes fazer alguma coisa, nem que seja servir de moço de recados ou ajudar a fazer
registos populacionais. Um antropólogo é útil em qualquer parte do mundo, quanto mais
não seja no Sri Lanka ou em Timor-Leste. Tinha conhecimentos de línguas, de
informática, tinha alguma experiência de dar aulas, podia fazer sessões de esclarecimento
sobre a Sida ou qualquer outra coisa, em inglês ou em português. Havia motivação da parte
de José Carlos e Estêvão estava naqueles dias entusiasmado em ir, estudando o clima da
região, preparando a roupa. E finalmente, para José Carlos, viajar podia ser o princípio do
fim do tabaco na sua vida. Não que se fosse converter ao hinduísmo, mas sentia que
precisava de um revigoramento espiritual desde há muitos anos. Preparava-se
verdadeiramente para deixar Portugal, não se sabe por quanto tempo, mas queria estar
longe o tempo bastante para regressar não como um homem inútil, mas como um homem
maduro, cheio de sabedoria, alegre, feliz pela vida que tinha conseguido endireitar.
No dia seguinte, José Carlos estava sentado em frente a um médico e começou a conversa:
-Doutor, fale-me acerca de androginia…

Era Inverno e José Carlos recebe a notícia de que a sua nova namorada, Maria do
Rosário, está grávida. É ela própria que lho comunica do seu trabalho. Trata-se de uma
menina. Havia uma epidemia de rapazes na aldeia, como se secretamente se fizesse uma
selecção, deixando os casais terem apenas rapazes em detrimento de meninas. Estranho. O
país não precisava de ser reforçado nas suas forças armadas. Além do mais, as moças
também podiam entrar nas forças de defesa e a estratégia de defesa orientava-se em forma
de cooperação. Portugal via aumentar os crimes violentos. Como podia escapar aos males
de civilização que outros países tinham conhecido? Era isso o desenvolvimento, o custo do
desenvolvimento? A partir daquele momento, José Carlos deixou de pensar em termos de
satisfação dos seus desejos sexuais. Havia finalmente alguém que importava e o curso da
sua vida seguia de modo a garantir um futuro a alguém do seu sangue. Se pai continuava
indiferente, em casa evitava-se falar da sua vida, dos seus projectos, como houvesse um
pacto de silêncio, como se José Carlos tivesse sido esquecido a pouco e pouco e tivesse
perdido importância para os seus. No entanto, deixara de pensar em termos de desejo
sexual. Importavam-lhe agora outras coisas: assegurar um futuro para a sua filha, já que
não podia contar com o seu pai para nada. Como iria ele receber a criança? Pressentia que
tinha de se mudar em breve para algum lugar e Lisboa podia ser uma boa opção. Teria,
como todos os outros, de escolher um ambiente onde sua filha Lili vivesse e crescesse
saudavelmente, em todos os aspectos. Seja como for, não iria ficar mais à espera de alguma
reacção de seu pai. Na aldeia talvez falassem dele pelas costas, ele pressentia-o, sabia-o,
desconfiava. Talvez que não. Talvez as pessoas estivessem ocupadas com as suas próprias
vidas. A pouco e pouco, José Carlos sentia o isolamento como o frio cortante nas mãos
das noites de Inverno. Não se relacionava com nenhuma elite intelectual ou com escritores
e isso fazia-o desesperar, fumar mais, pensar que a sua vida estava sendo em vão. Sei filho,
Fernando Heitor, tinha já 18 anos. Era altura de se decidir se queria trabalhar se queria
frequentar a universidade. Ninguém escreve sobre estudantes, porque contar alguma coisa
da sua vida académica? A universidade naquele tempo em Portugal atravessava momentos
de transformação. Os cursos diminuíam de duração segundo um tratado de Bolonha.

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O Ofício da Escrita

Entretanto, José Carlos, com 42 anos, estava já desde há muito tempo inscrito em
filosofia na Universidade Clássica de Lisboa. Estava numa encruzilhada quanto ao seu
futuro. Nunca é tarde para se escolher que profissão ter. Se o seu curso de Ciências Sociais
não lhe tinha dado sorte, se não se distinguira, alguma coisa podia fazer ainda. Ser
professor de Filosofia era uma delas. Só precisava de um trabalho para pagar o curso.
Pensara em Psicologia, não pensava mais em seguir a vida académica como sua mulher
Rosa Maria, que nessa altura era professora assistente na Universidade do Porto em
biotecnologia. A questão podia ser dramática, porque José Carlos podia ter dado um bom
filósofo, mas tal não acontecera devido a não ter controlado o seu desejo. Era esse o seu
único mal. Tinha sufocado o desejo entre lençóis mesmo com a presença de Rosa Maria.
Mas agora era diferente. Deixara de pensar em termos de desejo sexual e isso podia ser um
bom caminho para uma segunda etapa da sua vida mais feliz, dando alguma felicidade à
sua filha. Mostrando o bem pelo mal. A vida não lhe correra até àquela altura como ele
sonhara, talvez não tivesse estofo para ser feliz, talvez muita gente não quisesse que ele o
fosse, mas fora sempre seu intento a felicidade, antes do dinheiro e do poder. Porque não
fora um homem poderoso e endinheirado até àquela idade já não o iria ser na segunda
etapa da sua vida. Restava-lhe trabalhar e envelhecer com a maior dignidade possível. Essa
dignidade não era incompatível com o facto de ter dois filhos, ambos promissores a nível
profissional, um com 18 anos outro com poucos meses, num país em crise onde era um
grande problema encontrar um jardim de infância para crianças. Seja como for, naquele
ano de 2006 vivia-se. O sol continuaria a nascer, senão para todos, pelo menos para uma
grande parte de nós. E se alguma preocupação com o futuro do país havia, se a sina havia
sido o sofrimento e o isolamento moral e sexual, que se danasse, dali em diante podia ser
bem melhor, pois se ajuntava mais gente ao caso e um país à beira-mar plantado podia
sonhar com melhores dias. Nem todos conseguimos o que desejamos, por vezes nem
sequer sabemos o que desejamos, tudo depende um pouco da informação que temos. E se
em jovens temos ideais e insistimos até longe idade em sonhar e lutar pelos nossos sonhos
de adolescente, não temos culpa disso. A insistência transforma-se em persistência, a
persistência em fatalidade para sermos finalmente felizes, pois que não dá mais para sofrer,
que não somos povo masoquista. José Carlos era um pouco feito à imagem do seu país.
Era português e tinha orgulho nisso, porque não dizê-lo a toda a gente. Não era só o
passado como povo que importava mas a consciência de que a realização dos seus amigos
na vida contava também alguma coisa e era razão para se sentir feliz. Ele afinal não falhara.
Percorrera um caminho inverso aos outros, o seu próprio caminho, espinhoso. Mas dava
por si aos 42 anos como um homem feliz e realizado, mesmo que no dia seguinte não
tivesse local de trabalho nem subsídio de desemprego e já acordasse cansado.

19
O Ofício da Escrita

O AMOR RECONQUISTADO

1. A Descoberta do Manuscrito

“Quando olhamos para a Península Escandinava, o mar entre Oslo e Reikyavik assemelha-
se a um jovem artista com guitarra na mão cansado de mais um concerto. Seria Jazz, Bossa
Nova. Não parece. Ou talvez pareça. A ilusão de uma audiência atravessa-me os dias,
procuro satisfação fácil mas fico desapontado, tenho numa noite mais sabedoria do que
quase todo o resto da minha vida. Estudar, estugar, parece-me tarefa minuciosa para
traduzir a minha rendição ao amor. Na verdade o meu clique já se deu aos 18 anos quando
numa loja de electrodomésticos ouvi uma canção. Trouxemos aquela mesma televisão, dias
depois passou um filme de Lynch e eu pela primeira vez aventurei-me a ficar acordado até
tarde. Dias depois Frei Faria… Frei Faria, onde estará ele agora…velho trôpego, na
verdade talvez não procure um argumento, talvez não tenha um argumento. A verdade é
que a equipa de mergulho naquele dia não encontrou nada, nem um resto de civilização
escondida no fundo do atlântico”. (primeira página do manuscrito de Alonso Menir,
descoberto na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo narrador).

Enormemente, o pesadelo repete-se e jogamos nosso desejo contra um ecrã volátil,


que nada nos transmite senão desejos comercializados nesta sociedade do consumo
imediato. Regresso ao fundo de minhas cores e noto que a música é matemática, a pintura e
escultura são matemática, tudo o que encerra o corpo é matemática e ficarei livre após o
momento em que meu corpo desça à terra servindo de alimento a outros seres. Por
enquanto, desejo intimamente sozinho conjurar e revolucionar um mundo que desculpa
minha falta de engenho para servir seus propósitos ditatoriais. Esse homem que vedes
esteve vivo um dia e sua alma adormeceu num sono redentor, despoletando mil substâncias
sob meu corpo jazente morto e abandonado, a partir do momento em que vires minha face
esquálida, minha alma volverá a um “réseau” original, gritando por libertação, ou seja,
gozar das propriedades da terra, do ar e do fogo, intrometendo-se em ardências e
consciências interiores e exteriores ao tempo dos outros. Passarei, assim, a dominar
dialectos de paragens longínquas e cumprir uma sentença inaudita mas pressentida,
inesperada mas agradável. Acometido de uma tendência estranha para a depressão, enviei
para aquele dia todos os meus propósitos de projectos futuros mas nada demais aconteceu,
mas estive, como convém a todo o autor, perto da morte, preço do que dizem ser a
genialidade. Nesses dias conheci Octávio Pelha, um jovem complexo e determinado, que
sofria de uma patologia e mesmo assim exercia psiquiatria e, enfim, estava envolto na
retórica psiquiátrica e psicanalítica. Era mais uma retórica pseudo-científica que explicava o
comportamento e interrogo se há alguma coisa a explicar no comportamento, pois se o
comportamento é dado o que há a explicar, como já disse uma vez, humanos que explicam
humanos é remexer na porcaria, parece-me. Sexo, poder e dinheiro, os ingredientes que
tarde descobri dominar e que poderiam trazer-me a fama. Apesar, além-disso venho
argumentar de razões metafísicas que os sacerdotes católicos deveriam casar. Nenhuma
ligação tenho à Igreja nem pretendo ter, mas afirmo esta tese em defesa de futuros jovens,
como se a minha vida dependesse disso. Na verdade, nunca tive vocação para ser
sacerdote, os votos faziam-me confusão e se a liberdade individual tem de ser constrangida
por três condicionantes, prefiro a liberdade do artista. Há qualquer coisa de mal nisto do
celibato, que é a negação da perversidade do celibato. Afinal, a reprodução social de que
falava um mestre de antropologia social é bem verdade. O celibato nega o acto sexual,
aumentando a tensão social e individual, ligado à reprodução e na verdade a Igreja parece
ligar a “jouissance” ao acto, ao passo que a cultura protestante o parece banalizar. Será o
celibato algo de tão fortemente identitário do que é ser católico? Na verdade, quem manda

20
O Ofício da Escrita

não sabe o que é amar com o corpo, pois quem ama não proíbe. Quem respeita a lei devia
ser mais tolerante. Olho com mágoa para a minha sexualidade e vejo que a Igreja me usou,
eu também usei a Igreja para crescer intelectualmente, mas o meu testemunho é
descomprometido, pois não tenho ligações com a Igreja. Nunca poderei ser sacerdote pois
há uma contradição ontológica entre o acreditar e o acto, entre teoria e prática que nos faz
estar muito próximos do Corão. E se o que importa é a coesão social, vou de novo ser um
daqueles que há-de morrer sem acreditar, porque a prática me desiludiu. A mensagem é
esta: eduquem-me moralmente as pessoas e depois elas que se desenrasquem na prática, o
mundo não é dado, entre a mensagem da antropologia e da teologia, nada há de inovativo,
ambas dizem que há regras para cumprir, só que uma defende que as regras podem ser
quebradas. Na realidade nem a antropologia nem a religião me confundiram. No entanto,
tudo continua na mesma no espírito dos defensores de uma e de outra. Uma defendendo o
espírito científico, outra entendendo-se com a primeira a fim de se tornar mais consentânea
com a prática. Ora, parece que as experiências subjectivas não se transmitem a não ser
pelas artes. Perderia o catolicismo em voltar à ausência do celibato? Não é caminho para
mim, pois no fundo sei que mexi com uma ordem essencial que também é o meu fundo de
civilização. O celibato é já algo de essencialmente incutido no espírito moderno sob a
forma de solidão. Entrego-me pois a essa solidão, amando à distância, amando qualquer
coisa de belo que está para além de mim. E, na verdade, não teria sido a Jesus não só
possível como altamente provável amar Madalena? E por que nos pedem para imitar
Cristo? E se nos pedem, porque dizem que era ela prostituta? Na verdade, o próprio
garante da transmissão da fé são os corpos, os corpos que se unem, que se amam e quanto
à corporeidade da Igreja tem bastante a considerar, não que não haja já algo de dado na sua
herança cultural. Não, não serei um dia sacerdote, pois que minhas mãos manchadas de
sangue feminino não permitem que pegue no cálice de que nunca beberei vinho. Seria
aportar e carregar uma tensão demasiada e, de algum modo, estragar a pintura do que
tenho projectado para a minha existência. O que dou testemunho é que se é impossível um
homem não sentir desejo e amiudadas vezes não lhe dar sequência é porque é
evidentemente incrível que a castidade seja cumprida dentro dos limites da sanidade,
podemos admitir que no contexto actual a Igreja deva admitir o celibato como opção. E
porque estão os três votos relacionados com algo de essencial relacionado com a escrita e
nomeadamente com o êxito do romance actual e diria mesmo da filmografia actual? Porque
pobreza, castidade e obediência se articulam com os seus antagónicos que são sexo, poder e
dinheiro. Elementar. Aqui chegados, admitir o fim da obrigatoriedade do celibato é algo
que deverá ser visto como o resultado da experiência social da Igreja, da experiência secular
da Igreja. E os mais poderosos dentro da Igreja não abdicam do que mesmo não abdica o
poder psiquiátrico: o poder simbólico, o poder transcendente. Assim, colocamos religião e
psiquiatria no mesmo saco: ambas jogam com algo que é marcante e ontológico nas
sociedades: o poder simbólico, o poder do transcendente sob os humanos. Estarei a ir
muito depressa? Dizia, os mais poderosos católicos sabem que a partir do momento em
que admitissem a falibilidade do celibato e legislassem em vista do seu carácter de opção
para o sacerdócio, se geraria pressão a fim de que os outros votos também se tornassem
opcionais. E que teríamos depois? Uma sociedade cada vez mais arbitrária e especulativa,
um papel menorizado do estado junto da sociedade civil, teríamos o reino daquilo que
caracteriza o romance actual que vende muito bem: sexo, poder, dinheiro. Quem foi
responsável pela legislação do casamento homossexual? Pois bem, quem nada tinha a ver
com o assunto, quem secretamente desejava a mulher da sua vida e nada nem ninguém se
importava, pois bem, neste país liberal quem menos tinha a obrigação de lutar pelos
direitos homossexuais, fê-lo e, muito mais do que as hierarquias políticas, jogando com o
inconsciente colectivo, consegui-o, muito para além de qualquer tese de doutoramento ou
pós-doutoramento em ciências social, muito mais para além disso. Quem é essa pessoa,

21
O Ofício da Escrita

podeis perguntar. Essa pessoa teve de filiar-se na ILGA para o fazer. Vejam lá: associado
nº1042. Heterossexual, defendeu os direitos de uma minoria, nada que lhe dissesse respeito.
Porque o fez? Porque a diferença está na cabeça das pessoas, não no corpo. Em todo o
caso, essas preocupações altruístas de nada valiam à minha condição no meu país. Sentia-
me profundamente português, capaz de oito e oitenta, pois tal era a condição que
enfrentava. Não me vou queixar do meu país, mas senti uma vez mais necessidade de sair,
para Espanha ou para França. Faria tudo para deixar Portugal naqueles dias. Não por ódio
à minha família, ao meu país, mas com uma vontade entranhada de regressar às origens.
Sentia que o tempo estava escasseando para re-conhecer Paris. Desistia do meu
doutoramento em Lisboa, em Filosofia, e tinha a perspectiva de estudar psicanálise em
Paris ou, caso não me aguentasse por lá, professorado em Barcelona. Se a minha negação
psiquiátrica era suportável, a negação da minha condição socio-economica era atroz:
encontrava-me estatisticamente inválido mas, para todos os efeitos, era antropólogo ou
filósofo. Não o escondo mais: havia sido colocado no doutoramento e sabia que não era o
que diziam as estatísticas. Que país poderia aguentar semelhante atrocidade para com um
indivíduo? Seja como for, não era tempo de me armar em vítima. Tinha de agir. E tal
passava por afundar-me com o barco. Fosse como fosse, parecia estar sozinho no barco. O
silêncio do meu pai dizia tudo: queria que eu agisse. E agir naquele país significava ir para
sul, para Lisboa, entrosar-me no polvo, no sistema. Duvidava das minhas apetências para
tal e metia-me nojo fazê-lo. Estava cheio de dívidas que contraíra ao longo dos anos, para
com alguns bancos. As prestações mensais e os juros pesavam-me nos ossos e obrigavam-
me a trabalhar, a correr com o vento contra, a ir em busca do prejuízo. O que não sabem é
que contraíra tais dívidas comprando livros e para despesas do dia-a-dia, a fim de deixar
minha irmã respirar. Como poderia recuperar de tal revés? Num instante, via-me emigrado,
fazendo todo o tipo de trabalho para melhorar a minha condição económica no meu país.
Entretanto, não havia ainda entrado no mercado de trabalho, ou seja, não havia aceite
nenhum trabalho remunerado por parte do estado. Não sabia o que era feito com os meus
colegas de faculdade. Olhava para Lisboa bastante desiludido. Era a cidade negra mais
europeia, a cidade europeia mais negra. O país estava numa crise económica e de
governação bastante considerável, acompanhando a da Grécia. Eu sentia pressões para
virar à direita mas, entre apelos diversos para me manter na esquerda, via que meu corpo
morto seria reclamado como o de um cristão resistente. Não me confortava um dia vir a
ser um santo, fosse da direita, fosse da esquerda. Enquanto isso, desvinculei-me do Bloco
de Esquerda e do Partido Socialista, com quem mantive demoradas relações, logo após ter
ido para Lisboa estudar. Como dizia, Lisboa para mim não era uma terra de oportunidades,
mas sim de desilusões. Não se vencia com mérito. Não havia oportunidades para mim na
terra do meu pai, onde passara a minha infância e para onde ia regularmente. Minha
situação económica era frágil e pensei seguir uma oportunidade política a nível local. Mas
em tudo o que fazia ou pensava fazer assaltava-me a ideia do polvo, de modo que comecei
a acreditar e alimentar a esperança de passar os Pirenéus e ver no que dava. Queria passar
um fim de semana em Paris e mesmo que por lá não ficasse muito tempo, tinha,
regressando, a satisfação de lá ter estado. Naquele tempo, eu acreditava que os meus actos
seriam, de alguma maneira, reversíveis, algo que praticasse podia ser revertido, mas estava
enganado, via-me aos 40 anos no meio de uma profunda desilusão para com o mundo, só
que não queria admitir. Os meus planos para sair do país eram interrompidos com o
sentimento de culpa da situação que por cá vivia. Como é que conseguiria de novo
trabalhar, quando meus índices de confiança estavam tão em baixo e me sentia, não só
subjectivamente, mas imanentemente, em baixo. A este ponto da trama, confundia o que era
realidade, ficção ou especulação. Via-me um pouco na pele de um Heidegger sem cátedra.
O meu país, um pequeno país de poetas, terra de gente dócil, assistia a uma pilhagem sob o
nome de esquerda. Por outro lado, as vantagens do 25 de Abril não eram compensadas

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O Ofício da Escrita

com desenvolvimento económico e estrutural. Falava-se em fazer a linha do comboio TGV


e não nos púnhamos em acordo sobre se avançar se melhor distribuir a riqueza. O Papa
viria dali a dias a Portugal e havia alguma curiosidade e mobilização, mas como em tudo,
poucos diziam que a visita do Papa faria bem ao país. Muitos falavam em melhor
distribuição da riqueza quando poucos estavam dispostos a dar e eu, naqueles dias, não
podia mesmo dar, sob condição de ir parar à sarjeta. Muitos haviam ficado pelo caminho,
muitos haviam sobrevivido sem nada fazer por isso, vá-se lá saber, a lei da sobrevivência, é
o que Deus quer e o Homem pode. Muitos afirmavam-se contra os destinos da Igreja. Por
minha parte, tentava manter-me a uma distância considerável dos acontecimentos, via as
notícias e o mundo era para mim algo de confuso e esquizofrénico. Lia Slavoj Zizec e
parecia-me não ter estrutura a sua análise. Mesmo assim, com falta de reconhecimento
social, avançava dia após dia, caindo e levantando-me, voltando a andar. Sabia não ser dono
do meu destino, mas alguma coisa podia fazer e tal seria manter-me economicamente
autónomo, não sabia exactamente como o fazer. Depois de ter ganho de novo a confiança
de meu pai, um rude golpe de minha parte quebrou essa confiança, e tive de voltar para
onde não queria estar, mas servia entretanto de refúgio, Lisboa. Despedi-me de minha mãe
e vi-a chorar abundantemente. Podia ter olhado profundamente nos seus olhos e gostaria
de lhe ter dito que tudo iria ficar bem, mas não disse, porque na verdade não sabia como as
coisas iriam desenrolar-se. Desloquei-me à estação de comboios e entrei quando chegou o
regional, até ao Entroncamento. Vim no comboio regional até Lisboa, acompanhado por
um casal de jovens que não paravam de falar. Cheguei a casa exausto e dormi um pouco.
Pensava em como queria levar a vida e como estava ela acontecendo para mim naqueles
dias. Não me podia encostar, contudo sentia uma forte impotência face aos
acontecimentos, sentia que não podia controlar a minha mente e pela primeira vez senti
vergonha, não de mim próprio mas dos meus actos. Havia deitado tudo a perder com o
meu comportamento. Gostaria de refazer tudo, de emendar, contudo era já tarde, havia a
pressão para me tornar autónomo de minha irmã, de minha família e tal pressão era
insuportável mas não encontrava eco no estado económico do país. Quando as relações de
amizade e conhecidos mais valiam, eu não era forte nesse aspecto. Refugiava-me na solidão
e pensava para mim mesmo que meu destino começava a ser o de ser abandonado por
todos como Nietzsche, sendo meu último reduto uma possibilidade para me redimir por
meu comportamento por meio da escrita. Era uma maneira de ver as coisas. Minha mãe
dizia-me “arranja um emprego”, “os escritores morrem todos na miséria”. Eu ainda
acreditava na minha obra, mas faltava-me o reconhecimento e começava a acreditar que se
as coisas não acontecessem em breve, só depois de minha morte viria a ser escutado. O que
significava que a morte estava próximo. Em verdade, havia chegado a essa conclusão em
sonhos e se o meu sonho era sempre real, quando sonhava acordado era extremamente
ambicioso, pelo que resolvi ser mais modesto. Se meu comportamento desafiava a fé de
minha mãe e eu comprazia-me nisso, cheguei a um ponto em que não a podia ver sofrer
mais, pelo que a situação estava insustentável e eu não sabia o que fazer. Pela primeira vez
Lisboa pareceu-me uma cidade estranha, uma selva, muito mais do que Paris, Madrid ou
Londres. A meia verdade em que poderia acreditar seria redimir-me pela escrita. Sentia que
era verdadeiramente minha vocação e bem lá no fundo Deus não me tinha abandonado.
Era eu um dos poucos que clamara pelos Seus sinais desde cedo e agora no fim, não iria
vacilar, teria um esgar de fé por último que permitiria salvar a minha obra. E entendi o
quanto vão havia sido até então, negando Deus a torto e a direito. A tarefa que me havia
sido confiada era a de poucos, manter a fé em momentos difíceis, manter a fá num mundo
desordenado onde só havia obscenidades e violência. Deus era si Alguém em que
podíamos confiar e o remorso de estar fazendo sofrer minha mãe, de estar matando-a a
pouco e pouco com meu comportamento licencioso e maligno, o remorso roía-me o
estômago, doía-me como um potente murro no estômago, quando não contava com isso.

23
O Ofício da Escrita

O caminho de negação de uma patologia psiquiátrica havia sido prático, havia dado os seus
resultados. Eu sabia que não tinha nenhuma patologia, mas que meu coração vivia imerso
em pensamentos malfazejos e congratulava o meu espírito com o obsceno. Percebi então
que era um ser de outras épocas. Lia por aquele tempo, “Ser e Tempo”, de Heidegger. Bem
como Nietzsche. Depois de ter vivido durante mais de uma década como um
contemporâneo, meus pés de barro que caracterizavam minha atitude começavam a vacilar
e em breve mergulharia no passado clássico, no conforto do passado clássico. Depois de
ter negado a minha experiência religiosa, neguei também o marxismo e encontrava-me
pobre demais para me dar ao luxo de naqueles tempos me tornar filósofo. Seria fácil
apregoar tal mérito, contudo suponha que ninguém me iria ouvir, que seria mais um Dom
Quixote dos tempos modernos. O passo seguinte, contemporizar, iria ser dado? Talvez
não. Decidi então viver como um monge no meio da sociedade moderna. Tinha de me
demarcar do que estava acontecendo naqueles tempos à sociedade portuguesa.
Compreendia que estrategicamente, quanto mais perto da religião pudesse estar, mais perto
do bem económico estaria. O atentado contra Bento XVI funcionaria como um lenitivo ao
Holocausto, um simples acto político. Para mim era de uma morte simbólica que se tratava.
Por isso, estava entre contemporizar e deixar-me mergulhar no passado. Sentia mais uma
vez estar no meio de areias movediças: quanto mais fizesse para me salvar, mais em perigo
me colocava. Comecei portanto a odiar solenemente muitas pessoas, enquanto minha
consideração por meu pai e minha mãe aumentavam. Preparava-me para fazer algo
naqueles dias de importante, que muito mais tarde se saberia. Era um dos poucos que
teriam ousado entregar-se à religião em tempos em que a religião não contava para nada e
quando o marxismo nada contava, me havia entregue a ele com o mesmo empenho que me
entregara a Deus. Era tempo de ponderar, de seguir o meio-termo, que para mim era a
filosofia. Contudo, precisava de me alimentar, mais do que alimentar o meu corpo,
alimentar o meu espírito. Vivia, assim, como um monge, um eremita no meio da cidade.
Tornava-se difícil o intercurso com os meus contemporâneos, como sempre fora. Eu havia
negado as relações sociais, havia estudado e um quadro teórico demorava tempo a aplicar.
Desconfiava que era tarefa árdua e não compensatória para um só indivíduo, pelo que, ao
jeito de Onfray, resolvi-me tornar monge dos tempos modernos. Minha sede de
transcendente aumentava. Aumentava com a idade. Começava a acreditar que tudo não
teria sido senão um pesadelo, que havia alguma forma de esperança, alguma forma de
contornar as dificuldades, enfrentando-as como um forcado enfrenta o touro. Ali estava eu,
portanto, imaginando vidas possíveis a minha, vidas prováveis, investindo mais em mim
próprio e nos meus pensamentos, filósofo num tempo de crise. Tal tarefa, bem como a de
ser um monge dos tempos modernos, sabia eu ser muito difícil, apenas reservada aos
primeiros cristãos. Não havia cruzada a alimentar, mas uma fé a defender. Contra a
evidência do arbitrário, da desrazão, as palavras, o papel em branco que foge, as palavras
com que se tenta construir um argumento, as ideias que aparecem no espírito e as ideias
que fogem entre os dedos, como areia. Nunca mais voltaria a Riachos, talvez fosse morto,
mas acreditava que a aldeia estava maldita para mim. Como Euclides, desperdiçara uma
oportunidade para ser feliz. Nada mais me prendia. Contudo, estranhamente não me sentia
livre.
O presente ângulo das coisas não se prestava a devaneios, mas prosseguíamos
sonhando, misturando estilos, cores, cheiros e sabores. A tarefa afigurava-se-nos ao mesmo
tempo simples mas complexa, e nunca ninguém a havia tentado: tirar sentido de uma lógica
estranha, tirar lógica onde não havia sentido. Podíamos tudo resumir a uma tarefa
voluntária de desocultação dos desejos exteriores, tarefa que existia já vulgarmente no
nosso contexto cultura. Assim avançávamos entre a narrativa e a teoria social, como na
selva, esquartejando pequenos animais para nos alimentarmos, colhendo frutos suculentos
para nos fortificarmos. Prosseguíamos então nos domínios fronteiriços da prosa filosófica e

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O Ofício da Escrita

da etnoficção, acreditando que a realidade social não podia ser assim tão cruel que nos
negasse uma leitura pelos sentidos, já que o olhar, dito o mais apurado deles, nos teria
desiludido. Acreditar, ter fé, assemelhava-se uma tarefa hercúlea e em certo sentido
ingénua, mesmo estúpida. Quando todos avançavam em direcção ao lucro, assegurando
assim a perpetuação da sua raça, o desígnio humano avançava por outras vias,
experimentando na visão dos seios algum deleite materno que nos segurasse a algo de
materno, terno e primordial. Aprendíamos assim a olhar para o que os filósofos chamam
de natureza e os cientistas sociais de mundo, ou realidade, de uma forma menos exigente e
ao mesmo tempo menos indigente, pelo que se havia de jogar as regras daquele tempo. Se
se vendiam produtos diversos que tinham uma embalagem e um conteúdo, pensámos
numa trama que nos levaria a efectuar tal produto. Pensámos assim numa trama onde
orbitassem a partir da natureza humana sexo, poder, dinheiro. As outras qualidades da
actual sociedade viriam juntar-se a essas essenciais e na verdade tudo o que os filósofos
diziam acerca da natureza humana daqueles tempos podia resumir-se a esses três itens,
sexo, poder e dinheiro. Ora, onde ficariam as crianças e os mais velhos? Era uma classe que
sempre estava no poder e que eu não percebia, o melhor pensamento que acerca deles fazia
era de que actuavam para se Auto perpetuar neste mundo e que, havendo outro, eles não
seriam tido nem achados na sua elaboração. Havia naqueles tempos um hiato considerável
entre o que deve e o que deve ser, entre o que é e o que vai ser, entre este mundo e o
outro. Esta descontinuidade antropológica intrigava-me imenso, não só em termos de
experiência subjectiva, mas verdadeiramente em termos científicos e metafísicos pois queria
acreditar que a filosofia era um discurso não para os homens mas a partir dos homens e
que tal descontinuidade, preocupação talvez desnecessária por minha parte, deveria conter
algum elemento de mistério e validade para a qualidade da vida que todos levávamos neste
mundo. Não fiz, confesso, um esforço de sistematização desta matéria, deste assunto,
talvez influenciado pelo lema “morre e deixa viver” daqueles tempo confusos de voragem
erotico-económica. Tinha de lado alguma obra de Georges Bataille para consultar. De
modo que naqueles dias eu sabia que meu ânimo dependia da qualidade das relações que
entabulasse com as pessoas, a joaninha apontava dois anos, sentia-se vulnerável, meu
espírito fragmentado (daí a falta de sistematização de que falava anteriormente) mas
confiante na tarefa que tinha pela frente, sondar, viver uma vida o menos difícil possível
para viver pela escrita. Essa trama que projectava depois de anos de análise da sociedade
portuguesa algum reconhecimento me poderia trazer e então pensava isso, preparava isso,
sabendo que, de uma maneira ou de outra, seria conduzido a uma espécie de redenção que
me resgatasse do atroz sofrimento psicológico em que estava envolto o meu ser. O
presente não podia ser tão fraco, tão mau, alguma coisa de bom se poderia tirar do tutano
daqueles dias de crise económica. Pensei então, por uma vez, que talvez fosse melhor
concentrar-me nas coisas boas e esquecer as más –o sexo, o poder e o dinheiro talvez não
fossem argumentos que dominasse, talvez fosse melhor fazer aquilo que sabia melhor
fazer, como dizia o desenho animado que o meu sobrinho via. E o que eu melhor sabia
fazer, seriam ligações fictícias entre as ciências e os modos de narrativa. Tinha formação em
filosofia e antropologia, pelo que projectei aplicar-me do que designei prosa filosófica e
etnoficção. Pouca gente trabalhava nessa área e eu via um terreno aberto nesse contexto,
nessas fronteiras entre ciência, filosofia e literatura. Sabia com consciência que o que
escrevia não era ensaio, não era prosa propriamente dita, mas também não era estritamente
filosofia ou estritamente ciência social. Era de tudo isto um pouco, pelo que depois desta
análise conclui que era uma das poucas pessoas trabalhando em Portugal na área da prosa
filosófica e da etnoficção, pelo que me assumi porta-estandarte destes domínios
fronteiriços. Resolvi, então, finalmente pegar a vida pelas mãos, esquecendo que teria um
transtorno psiquiátrico e no final teria vencido, não havia desculpas, depois de resolver a
minha situação económica, viveria como um livre-pensador e não daria contas a ninguém

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O Ofício da Escrita

senão à minha consciência. Seria possível viver assim, como um monge na cidade,
entrevendo contactos insólitos e experimentais para com o próximo, julgando estar
procedendo da melhor maneira? Uma fronteira teria de franquear e tal era a dificuldade em
ganhar meu sustento. Bem vistas as coisas, não poderia ser monge dado que um monge
tem o seu mosteiro e seu sustento. Não poderia então ser filósofo? Teria habilidade para
aumentar o âmbito do objecto de estudo à minha vida interior? Não teria dificuldade, uma
vez mais, em entabular intercurso com os meus contemporâneos, os meus concidadãos?
Fosse como fosse, o meu estilo de vida, sorumbático, misantrópico e apegado aos livros,
tinha de ser sustentado. A pouco e pouco tornava-me crente de que estava numa espécie
de, não digo peregrinação, mas expiação, sim, o meu papel era o de expiar a ousadia de me
tornar um livre pensador, mais do que um peregrino andarilho, um pensarilho. Havia pago
caro essa ousadia para com meus contemporâneos.

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O Ofício da Escrita

2. Implicações do Manuscrito na Minha Vida

A pouco e pouco, a minha escrita ia-se tornando uma demanda em busca de um filão,
tinha todos os ingredientes, bastava procurá-los e doseá-los na medida certa. Tinha-me
feito escritor à custa de muitos erros de linguística e comportamentalmente falando. O meu
quadro de personalidade estava traçado, tinha uma patologia, vontade de trabalhar em
trabalhos que se adequassem ao meu perfil (sim, porque as pessoas ditas “normais” não
procuram tudo e mais alguma coisa como eu!). Porque é que hei-de portanto aceitar
qualquer tipo de trabalho? Não largo, pois, a escrita, pois sei que ela me promete um
caminho de redenção, um caminho que poucos percorrem até ao fim e eu estava, mesmo
apesar do meu pessimismo, estava disposto a aperfeiçoar esta arte para que fora dotado e
que aperfeiçoara ao longo dos tempos. Olho para a minha imagem no espelho e vejo por
ela o desnorte da sociedade contemporânea, pós-moderna. No turbilhão dos dias
apressados, talvez terei excessivamente investido na escrita, em detrimento de outros items
que contribuiriam para o aumento da minha auto-estima. O caminho do escritor é isolado,
nada lhe pode valer, à semelhança de Descartes, temos uma dúvida metódica para com a
realidade que aceitamos exista. Pois vejo a minha imagem ao espelho e um fundo de
moralidade vai dos meus olhos aos cabelos brancos que se desenrolam frente ao espelho e
vejo o sinal dos tempo que passam, sempre entre a imagem e o conteúdo, um esforço que
se faz todos os dias, prescindo de ter internet para preservar algum ritmo de trabalho,
entretanto, outros personagens surgem na minha cabeça, depois de Madalena, Alonso
Menir, minha cabeça dispara setas em todo o sentido e conservo algumas das ideias que
visitam a minha mente, reparo que finalmente, felizmente ou não decido escrever sobre
mim próprio. Os problemas aumentam com a minha vontade de escrever, numa toada
apreciável depois de infligir um ritmo diário de duas páginas sem espaços. Percebo que, ou
entro no ritmo da vida diária e esqueço a escrita, tornando-se esta despropositada e
abrupta, ou me entrego totalmente, o que vejo não ser possível, ou ainda ensaio um
compromisso com a realidade e com a pessoa que me assegura sustento, a minha irmã.
Nenhum dos caminhos vai ser seguido, mas mais adiante, diga-me o leitor, se será
necessário desenrolar expectativas quanto a esta questão. A questão da imagem e do
conteúdo é sem dúvida uma questão, mais do que filosófica ou meramente ontológica, de
civilização. A música de Tchaikovsky que oiço expande-se na minha área de trabalho e
penso na querela dos personagens que tenho para debitar, ao mesmo tempo que penso no
seu poder potencialmente redentor para a minha tarefa. Copio exemplo, não levo uma vida
verdadeiramente desprendida, e penso neste Papa teólogo que nos vem visitar e no modo
como tenho encarado as grandes e as pequenas coisas da nossa existência, que ocupam a
mente de muitos homens ainda preocupados com a origem e distribuição dos atributos
sobrenaturais das pessoas e dos deuses que se fizeram pessoa. Penso em minha mãe e
telefono, justifico o facto de estar aqui e ter a felicidade de dissertar, bom título, a felicidade
de dissertar, bem como outro de que agora não me lembro, por uma vez ou outra
preocupo-me com o meu futuro, não na medida em que tenho directamente filhos para
cuidar, mas na questão que vejo atormentar Alonso Menir. Homem duro, severo e velho,
fusão entre a practicidade e profundidade, habituado a desilusões amorosas, saiu da escola
cedo para trabalhar na construção. No seu tempo não havia baba de caracol nem
tratamentos anti-acne, mas sabia que pelo seu aspecto muitas pessoas secretamente, sem
lhe dizerem, havima de dispensá-lo do trabalho, numa sociedade feita de uma esquisita e
estranha fé. Pois com 42 anos seria obrigado a saltar de emprego em emprego e segundo
rezam seus diários, que consultámos na Biblioteca Nacional, o seu emprego de dotes
artísticos virara-se para a classe operária e nessa medida elegeu a classe operária para
defender, quando fácil seria alinhar pelos patrões e ser bafejado pela sorte. Pois, em
pequeno, Tiago Menir tinha um aspecto deslumbrante e, ainda que fugisse dos beijos das

27
O Ofício da Escrita

namoradas de escola, entrou na adolescência de face ferida e adentrou na idade adulta com
essas feridas de uma adolescência e juventude conturbadas em que não conhecia mulher e
nesse artifício de simulação comprou baba de caracol e ficou aos 42 anos mais bonito do
que efectivamente era e um dia acordou velho, porque a faculdade do pensamento lhe
faltara, pois se Deus criou o homem também criou a mulher e se criou a mulher um
argumento podia ser que se terá Deus criado a mulher à luz do Homem, tirando dele parte
conhecida, terá também feito o Mundo, pois que apenas ao olhar e entendimento do
Homem se colocava tal equívoca questão. Acordou, portanto, sem juízo, com tantas
mulheres que o perseguiram nesses anos ficou sem tino e sem inteligência, enquanto
Ferdinando Baco manteve sua fisionomia e dela não tirou proveito, nem em termos
passionais nem profissionais e manteve a sua opinião de que na natureza, como diriam os
antigos gregos, nada muda. Estamos portanto entre uma filosofia do devir e uma outra do
estatismo, Heraclito e Parménides contra Aristóteles, pelo que manteve Ferdinando na
probabilidade de usar o misterioso líquido uma dúvida metódica, pois que destrinça esta, a
escrita avança sem bloqueios nesta nossa narrativa sobre o memorial da face de dois
homens e acabando de contar, Ferdinando manteve a sua cara original e manteve mulher
até velho, não perdendo a razão, enquanto Tiago passava indiferente no meio da multidão e
todas as mulheres o queriam, todos os negócios e contactos o solicitavam e, ainda que rico,
acordou velho e enrugado, pelo que bastou um só dia para cair todo o edifício de que era
face, literalmente. O próprio autor deste registo fez uma pausa depois de ler os relatos de
Tiago Menir, em favor de uma escrita melhor, bebendo, uma escrita mais fluida. Sendo
uma imagem ao fundo, no espelho, diziam-me que as emoções não se vêm, contudo,
assinalo eu que as pessoas só acreditam no que vêm, as pessoas só acreditam na beleza e
não acreditam na fealdade, contudo a Alonso e Ferdinando nada se lhes pode tirar do que a
sua objectividade, a questão relembra pormenores antigos sobre a visibilidade ou não da
obra do Divino e também ninguém pode tirar aqui ao narrador a sua distância em relação
ao que é aqui escrito nem a riqueza interior, que é a verdadeira beleza, e suas palavras, ainda
que tenham tocado um número ínfimo de pessoas, terão valido a pela serem vistas e
escritas e reservo ao leitor a subjectividade que o caracteriza neste ziguezaguear de uma
lógica que reflecte o tempo em que o autor viveu, pois não queremos incorrer no erro
filosófico das razões últimas, quando também não negamos ao Homem a capacidade de se
abstrair. De entre as muitas ideias passíveis de serem aqui debitadas, podemos justificar
alguma coisa referente à nossa biografia? Que de um estado de demência lembrado pelos
risos adolescentes de adversários à desrazão de não saber o que fazer, não ter em que
acreditar, não ter amigos e a obrigação de procurar trabalho mental e manual, quando
dizem que estamos doidos e a sociedade joga-nos na cara tudo e mais alguma coisa e nunca
uma explicação cabível naquele íntimo de nós que, mais do que Descartes, duvida daquilo
que verdadeiramente vale a pena e se em situação estamos de debitar palavras, justificando-
as numa ambição classista de que tal será melhor contributo do que o trabalho que aliena,
pois que vários especialistas dizemos terão razão é que nossa impossibilidade para o
trabalho será coisa a justificar ao Estado Europeu e se dará mais trabalho justificar do que
trabalhar, porque o fazemos? Primeiro, dizemos claramente que queremos trabalhar e
combatendo algum receio de sermos contestado, cada um que se meta na sua vida, pois
vivo franco-espanhol num país que não reconhece esforço intelectual, governado por
pouco escrupulosos tecnocratas, sejam de esquerda e de direita, que dizem que acreditam a
Deus quando sua juventude e inocência nunca lhes foi roubada, pois que Alonso Menir
encarava estas questões quando falávamos com sua mãe empregada intocável num bar
lisboeta, onde o autor dizia que se cansara de perpétuas faltas de respeito, pois não se pode
agradar a todos e virá um dia em que se fará justiça a seu nome, dizia ele no seu diário que
na aldeia onde passou infância havia agora um busto de Eça de Queirós, tramas e mais
tramas, é do cheiro podre a sentimentos que o público leitor mais gosta, permita-se

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O Ofício da Escrita

ressalvar o leitor atento, pois não tive como o escritor meu conterrâneo coragem para
intitular “Maledicción eterna a quien lea estas páginas”….fosse como fosse, um elemento
estranho no cérebro ocupava-me naqueles dias, rodopiando na memória, escondendo
desejos errantes, exalações que se libertavam do meu corpo morto, peguei uma vez mais na
manivela da caixa de ler periódicos e lá encontrei, se já agora a vida é um inferno, como
espanhol como seria, se lá estarei mal, como português, pois como é com os outros, não
encontro nada que diga Não nem Sim e aí está o mistério, entre o Estado das coisas e as
coisas do Estado, a iniciativa individual, não depende de nada ser mal interpretado, não
depende do conteúdo ser este relato lido por muita gente, ajo como que por fé exalando
perfume do meu corpo para as palavras, plasmando estes momentos, esta resiliência
infame, este estado de estar inválido e ver outro, afinal de contas com menos capacidade
passarem à frente numa corrida em que Só interessa chegar ao fim e alguma pontinha de
frustração me Vedes, quando tenho em mente aquela memória da deriva, a memória é uma
palavra etnográfica, uma palavra histórica que deitamos pela sanita abaixo quando não nos
convém mostrar, mostramos outra coisa como o bem público, um desses dias nos relatos
de Alonso Menir, descobertos por mim na Biblioteca Nacional, a colega da mãe de Alonso
Menir, Apúlia, fora violada numa noite em que fazia limpeza e então, dizia o relato, o
violador não fora encontrado e como soi dizer-se nesta Republica de que todos dizemos
mal e ninguém acerta porque de facto ninguém é daqui, são de todo o mundo e pretender
todos provar uns aos outros porque hão-de ser portugueses, talvez porque Deus seja em
algum momento português porque ao abandono psicótico da solidão marinha, deveria
também entregar-me como Alonso Menir ao ser uma pedra no meio de um barco, que o
sustenta em águas revoltosas e tarefeiras, pois tal moça Apúlia, tendo sido consagrada
àquele ambiente pouco recomendável do BaBar terá sido surpreendida na cozinha por um
exército de homens desejosos e que terá sucedido para ela não ter dado queixa, e tratou do
assunto Helena, mão do próprio Alonso Menir, que relata tais coisas no seu diário e
ficaram por várias jornadas confusos em terra quando foram dar com eles numa ilha dos
Açores com cabeças espetadas em varapaus, bem lá no cimo, servindo de repasto deliciosos
a comedores de cérebros entre os quais se contavam moscas, moscardos e abutres, que
tomaram por sua vez formas diversas que melhor descreveria Zizek, trabalha este de
prosear filósofos, enfim, alguém tem de o fazer, tal como o trabalho dos intocáveis, sim, o
edifício que construímos está agora sem limites visíveis ruindo, porque um homem por
acaso, por mero acaso, descobriu no seu trabalho as narrativas diarísticas de um outro seu
antepassado, quando queria fazer uma história de transmissão de saber profissional. Apúlia
permanecera em terra, quando os perpetradores haviam-se exilado para as ilhas e o que terá
motivado sua execução reserva-se para mais adiante, o que nos disse Menir foi que a jovem
se terá refugiado num local isolado, tendo vivido o resto de seus dias não em tratamentos
psiquiátricos porque para tal não tinha dinheiro, mas em todo o caso, há sempre alguém
que vem recolher o dinheiro e “um dia, qualquer dia, como o senhor humorista diz, virá
alguém recolher o dinheiro”, pois que precisará dele para sustento ou pavoneio, ou
meramente para obter favor de mulheres.
Como um quadro da pintora Bia Canosa continua portanto nosso relato, melhor
dizendo, o relato encontrado por Alonso Menir, que nos relatou sua vida cruzada com a de
Ferdinando Baco, bloqueios para quem se pretende justificar há muitos anos e depois nos
culpabilizamos pelos erros de outros, desde que a amostra seja representativa terás sucesso
e um dia terá visto que mais tarde não vai valer a pena, pois afinal de contas, depois de
saberes o que pensam de ti, poderás então ter uma escrita livre e morrerás com ou sem dor
numa casa soterrada ou num acidente de viação ou mesmo de ataque, que é o que mais
convém, virão encontrar-se morto e serás lamentado por não te teres feito ao mar quando
tua alma sabias era continental, desvias o caminho do pensamento, experimentando o
mesmo ardor da mente inquieta, o barulho da mente que crava apotegmas na tua face e te

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O Ofício da Escrita

faz uma homem cicatrizado da vida e das agruras que por culpa dos outros infligias a ti
próprio por uma certa relação de verdade está entre a consciência e o destino dos sonhos e
neste relato nada encontrarás mais do que cada leitor encontra de relatos semelhantes, um
esforço de imaginação pois o Mar nada é mais senão volúpia e ressentimento da natureza
contra um sentido que não está muito bem de saúde mas que se vai aguentando. Neste meu
relato evidencia também a relação que veio da unir Ferdinando Baco e Alonso Menir, num
dia primaveril em que a repressão de seus sentimentos se encontrava anulada. Foram
acorrer à jovem Apúlia e fazer queixa do perpetrador que se lançou ao mar esperando que
este lhe desse o que a terra lhe negara, ou seja guarida, sob a forma de um barco artesanal
de pesca, mas de nada valeu pois a jovem estava ferida e outros crimes aconteceram em
Alfena naqueles tempo, em crescendo, numa espiral de violência que terá a sua explicação
mas que não queremos saber, pois tais crimes, como o roubo e a violação deveriam ser
manifestamente punidos para dar exemplo, pelo que o seu autor deveria fazer serviço
comunitário, pago pelo Estado, de forma a poder retribuir o sinal de desconfiança social
que havia criado. E falando da relação dos dois protagonista, podemos dizer que também
em alto mar seu destino se cruzou. Eram os dois filhos de pescadores, embora não
exercessem pescaria por aqueles tempos, encontravam-se numa embarcação que se
destinava a rebocar barcos de alto mar.

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O Ofício da Escrita

DE COMO OS VIVOS SABEM DOS MORTOS

Primeiro Capítulo
De como a nossa personagem se dá conta da sua condição

Quanto a um certo sentido das coisas, o mundo corria à pressa, sem ter em conta os
destinos individuais. Naquele tempo e naquele país não adiantava de nada fazer silêncio
revoltado ou gritar a todo o instante dizendo que se era vítima de uma qualquer forma de
justiça. Pelas oito da noite, após um dia de trabalho, Josué Calisto, preparava-se para ver o
noticiário pela sua televisão, eis que é seu espanto ver anunciado a abrir o jornal a notícia
de que Josué Calisto estaria morto. A partir daquele dia tentou provar por todos os meios
possíveis e impossíveis que afinal estava vivo. A conta do banco foi cancelada, ficando o
banco com o dinheiro, na verdade Josué não deixara para os seus familiares nada da
fortuna pessoal que amealhara nos anos produtivos da sua existência. Num dia que
mostrava o sol numa beleza cintilante, Josué procurava essa beleza incandescente para o
seu espírito. Sonho pouco e dormiu menos ainda, procurando num cigarro a descrição a
explicação para o que lhe aflorava ao espírito. Atordoado pela notícia que ouvira às oito da
noite do dia anterior, Josué não sabia bem explicar o que sentia naquela época, talvez um
misto de pensamentos incontroláveis e outros algo sensatos, mas como é apanágio de
espíritos inquietos, o de Josué mais tinha de coisas inconvenientes pensadas, o que era
incómodo bastante para fazer alguma coisa durante dia. De modo que rumou para a cidade
capital deixando para trás a aldeia iluminada pelo sol da manhã, como um cenário retirado
de uma película realista mas ao mesmo tempo idílica. No entanto, o concreto da vida de
Josué não se alterara nos últimos tempos. Era um desses jovens com qualificações que se
encontrava no meio o drama do desemprego. Por vezes não queria acreditar no que lhe
estava acontecendo: depois de ter acabado uma licenciatura de rastos, se amigos para a
vida, teve um recesso psicológico desses que não se compreendem bem por que acontecem
mas que alguém sempre lhes dá uma explicação profissional. Não bastava ficar sem amigos
como ter ainda de ficar desempregado, também sem um apoio sentimental. Contudo, à luz
dos tempos presentes, Josué Calisto recebia essa luz que é a força de esquecer todos os
dramas do passado, incluindo os dias embrulhados uns nos outros, sem lógica, sem
consequência, dias esses a que faltava a devida tranquilidade e estabilidade para exerce uma
qualquer profissão. Na verdade, a este respeito, podia acreditar que cedo se faz longe e que
na medida e que começasse depressa investindo no seu futuro ainda ia a tempo. Por isso
cada ida a Lisboa convertia-se num grito e liberdade e num clamor por justiça. Josué não
sabia se estava anda assim, longe ou certo de encontrar um emprego que não fosse em
marketing telefónico ou vendedor e uma marca de plásticos, tecidos ou computadores.
Cada ida a Lisboa era um tempo ara respirar com alguma liberdade, talvez o único lugar
onde esperava viver uma vida minimamente arejada, onde contudo, não havia ainda assim
amigos à sua espera, mas onde podia ser um desses famosos anónimos que vivem a vida
diária de uma grande cidade sem esperar sem reconhecido por alguém forçosamente,
limitando-se a ser testemunha de acontecimentos, rotinas, notícias. Pois depois daquele
fatídico dia de Inverno, Josué Calisto teria de provar, a amigos e inimigos, conhecidos ou
desconhecidos, sendo que uns e outros lhe poderiam ver o rosto e o semblante e que
aqueles não lhe poderiam sequer chegar a vislumbrar a sombra, sendo que e todos os casos
a nossa personagem principal estava sempre à mercê de ser vista por alguém também
famoso anónimo, que o poderia vir a encontrar num desses das de rotina num transporte
público, num café, numa esplanada. De acordo com o sentimento e pressentimento
daquele dia após a notícia, Josué acreditava poder provar que não estava morto, que
somente não havia gritado por si mesmo e pela sua pessoa e pelo seus porque não

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O Ofício da Escrita

esperava, segundo muitos e jovens dizem desencantados enquanto velhos que não se pode
mudar o mundo então se não se pode mudar talvez seja melhor calarmo-nos e viver uma
vida decente, sem grande estardalhaço, quero dizer, alarido. Josué Calisto estaria ainda com
forças suficientes e mais do que isso, as forças necessárias, para provar a mundo que não
estava morto? Enquanto vivera e a partir do dia em que nascera, não se havia preocupado
em mostrar que estava vivo, simplesmente ele e as pessoas suas conhecidas aceitavam o
facto como o mesmo de eles próprios existirem. Encaremos de frente a questão que se
coloca diante deste nosso Josué Calisto, antes de mais teria de tirar o bilhete de
identificação. Tomou o comboio para a localidade onde pensava que trabalhava, chegou lá
por volta das nove e meia da manhã. Quando chegou ao que pensava ser o seu local de
trabalho, uma escola, dirigiu-se ao conselho executivo e apresentou-se. Porém, nem a si
próprio podia ajudar já que não tinha ficado com documentos de identificação nem tão
pouco se lembrava do seu nome. Aos olhos de toda a gente, Josué Calisto não existia. Na
verdade nem para com ele próprio ele existia. Teria sido uma mera impressão da sua
memória ter-se lembrado onde trabalhava? E trabalharia ali, de facto, como professor
naquela escola? Ao longo do dia, não encontrou ninguém que o reconhecesse, pelo que
resolveu voltar a casa de comboio. Estava praticamente incontactável naquela noite.
Perdera tudo, desde o telemóvel aos documentos de identificação e como iria para casa se
não sabia onde vivia? Andou naquela noite de um lado para o outro em Faro e ao fim do
dia resolveu meter-se num comboio para Lisboa. Decerto que encontraria por lá alguém
que lhe fizesse lembrar alguém, alguma coisa que lhe fizesse lembrar alguma coisa.
Resolveu por isso apresentar-se na Polícia Judiciária, a fim de que, tinha esperança, alguém
o viesse a reconhecer pela sua fisionomia. Se não fosse a própria polícia através do se
arquivo de identificação, decerto que poderia aquela instituição desencadear os meios para
divulgar publicamente o seu retrato. O desafio de Josué Calisto seria a partir daquele dia
procurar saber que homem era aquele que tinha o corpo que ele tinha, que alma era a sua e
que hábitos teria esta até então anexado ao seu comportamento. Num misto de má
memória, ou melhor, de uma memória fragmentada, via-se na circunstância de nada saber
dele próprio. Já que não poderia voltar a seu antigo trabalho, por se ter esquecido dos
conhecimentos eu havia adquirido para exercer a sua profissão de professor, teria de
procurar novo trabalho. Foi assim que se viu no Centro de Emprego, oferecendo-se como
candidato a emprego. Mas como não tivesse nenhuma identificação, teve de voltar à polícia
Judiciária a fim de lhe emitirem o documento de identificação provisório. Assim, dispunha
a partir daquele da de uma guia que lhe permitia viajar dentro do país sem ser incomodado
quanto à sua identidade. De um momento para outro, este homem encontrava-se na
circunstância de ter um lapso quanto à sua identidade, na medida em que ninguém se
lembrava de quem ele era, pior, nem ele próprio se lembrava de quem era. Sabia que
deixara a sua casa sabendo que estava morto, se não legalmente, pelo menos socialmente.
Para todos os efeitos, Josué Calisto não existia, estava morto. Depois do primeiro dia nesta
nova condição, Josué Calisto tratou de arranjar roupas para se vestir. A sua morada havia
sido fixada num albergue da misericórdia de Lisboa, na freguesia dos Anjos, na almirante
Reis. Ali sabia que teria comida e dormida por algum tempo, pelo menos até ganhar algum
dinheiro, pelo menos até pode retomar uma vida normal. Mas o que era a seus olhos uma
vida normal? O que era aos olhos dos vivos uma vida normal? Talvez fosse ter uma casa ou
um apartamento, um emprego, uma companhia, um carro, perspectivas de futuro. Não lhe
interessava por enquanto nenhuma dessas coisas excepto o emprego, pois com algum
dinheiro poderia necessariamente reconstruir a sua vida anterior, isto é, passar do mundo
dos mortos para o mundo dos vivos.
Tendo saído manhãzinha para procurar emprego, viu-se novamente jogado na confusão
de uma grande cidade. Chegou à noite a casa e antes de a mãe lhe colocar o jantar, pensava
o quanto lhe sabia bem ao fim de tanto tempo, ter alguma razão. Desde o princípio,

32
O Ofício da Escrita

sempre julgara que não estaria errado, mas como não fosse conseguindo fazer as mesmas
coisas que outros seus amigos faziam, guardava-se e com ele a raiva de ter sido injustiçado.
Tudo é muito bonito quando somos jovens e a vida os parece doce e previsível. Pensamos
que vamos encontrar a jovem dos nossos sonhos e ter um emprego mas tudo isso se perde
na volúpia da sociedade de consumo. Tarde nos apercebemos de como poderíamos ter
vivido vida e na solidão nada nos consola, talvez mesmo somente a solidão que aceitamos
como um castigo, porque nada, nada mesmo, nos poderá fazer acreditar que “ainda é
tempo”, simplesmente deixamos de acreditar e mesmo assim achamos que temos razão,
porque esse Deus em nome de quem hipotecámos a adolescência e juventude nos foi
silenciando a vontade, mas enfim, nada podemos fazer, porque um dia acordamos sós mais
uma vez e achamos que somos tolos por nos saírem lágrimas do rosto, esse Deus a quem
fazíamos promessas está menos presente do que a mãe ou o pai que nos deu a vida e
sucumbimos sob o peso geral das evidências, que estamos a meio da vida e já vimos tudo,
que temos que chegue desta vida e pela primeira vez pensamos seriamente como será a
vida do outro lado, que nessa ainda acreditamos. Josué Calixto apercebe-se de que a mãe
fez tortilha e pensamos há qualquer coisa de certo ou sentimental nisso, como o facto de
vermos o nosso sobrinho chorando no chão, deitado fazendo-se dormir no chão e apesar
de tudo o mais importante são os nossos pensamentos, aquilo que supostamente seria a
nossa libertação, a psicologia, é a nossa prisão e compreendemos perfeitamente que o outro
lado é somente ausência de consciência, ou admirável e surpreendentemente, a total
consciência de tudo. Em todo o caso, não podemos exagerar, porque outros há que não
vivem tanto tempo, outros há que não têm a oportunidade que vamos tendo, ou seja, o
pensamento nos dias que correm é um luxo. Não sei se será luxo ou pena, pura fatalidade.
Quando o mínimo pensamento incomoda ficamos pensando se o conhecimento será
infinito, como o universo, ficamos pensando esta nossa tarefa de descrever a afoitada
personagem em questão será qualquer coisa passageira e se alguma forma de conhecimento
as relações humanas poderá ser científica ou não, se será arte, não creio, a não ser que seja
um arte de enganar. Olhamos para uma criança e não no aproximamos dela porque temos
um pensamento intrusivo. A criança está ali, à nossa frente tudo o que temos de fazer é
sorrir e abrir os braços e não conseguimos fazer, depois olhamos para trás e não sabemos
como teria sido a nossa vida se não tivéssemos enveredado pelas letras ou pelas ciências
humanas, afinal nunca se pode descrever uma emoção, um pensamento, quando s próprios
pensamentos nos são arrancados da alma. Olhamos para o nosso terapeuta e pensamos,
isto hoje está a correr bem, estou inspirado e cada momento dói e não conseguimos falar
porque não somos violentos e não queremos fazer mal a ninguém e mesmo assim nada nos
salva, nem um livro por publicar, nem uma coisa nem outra, nada nos salva, porque a
grande derrota aconteceu anos antes, quando pensaste que estarias derrotado porque os
outros deixaram de investir sentimentos e afectos em ti. Olhas em redor e tudo te parece
estranho e quando tens a impressão de que tudo te é familiar, e repente ficas com uma
enormidade de pensamentos que te dizem tu não estás a viver, isto não é real. Regressas a
casa depois de mais um dia em que o que fizeste foi tentar compreender como deves
proceder para te relacionares com os outros e pensas, isto é altamente frustrante, aos trinta
e tal anos ainda tenho de me preparar para viver e nenhum pensamento te reconforta e
pensas, isso é o verdadeiro inferno, não está estás só, muitos estão contigo, principalmente
os mortos, talvez devesses preocupar-te mais com eles e mas com os vivos, talvez devesse
preparar-me para saber lidar com os mortos. De repente, vai com um amigo no comboio e
sentes que os pensamentos vêm ter contigo e será isto algum patologia grave, decerto que
é, pois uma estudante de psicologia a teu lado lê uns textos em inglês, e pensas eu quero lá
saber dessa palavras de especialistas que me ensinaram a respeitar e a tomar como minhas
porque afinal aquilo sou eu, olhas e a realidade dói-te e pensas, final isto é, como dizia a
outra tola, apenas um estado de espírito e o que é que me importa isso passados tantos

33
O Ofício da Escrita

anos e te desgostas de todos os escritores que vendem livros e nunca se sabe nada dessas
almas ou sabe-se tudo, acredita-se naquilo que escrevem acerca de si próprios, dos outros,
da mera do mundo e pensas quando as pessoas são tão simpáticas contigo isto é alguma
encenação, mas talvez não seja assim tão importante aquilo que pensas, diz tua irmã para te
ajudar Olhas para mesmo e vês-te feliz ainda assim por estar em casa, por poderes
finalmente olhar para o teu sobrinho e abraçá-lo e rezar para que tenhas bons
pensamentos, bons sentimentos enquanto seguras e olhas para a letras escritas e talvez
penses, isto será uma qualquer forma d egoísmo, de show off, de bluff, depois pensas tu que
sempre acreditaste no poder transformador ou duplicador das palavras e vês-te de repente
sem palavras, simplesmente porque não acreditas que elas diga como te sentes e ainda
assim continuas acreditando nelas, nas palavras e na mulheres e olhas para o teu sinuoso
percurso e dói-te a consciência. Pensas que tudo está preparado para ser simpático contigo
e como se fosses também simpático com toda a gente e começas a estranhar, acontece de
seres tão simpático alguém rebenta contra ti como tu poderias rebentar contra alguém, e
chegas a casa e a tua fria sala de estar pensas que irá continuar sozinho a não ser que o
mundo dê uma grande volta e não te sentes por aí além abençoado particularmente porque
afinal nada tens nada tens senão o tu pensamento e esse os outros, sim, os outros, pensam
que o tens roubado quando se aproveitam para escrever livros e com isso vive à custa
disso, ter sucesso entre as mulheres, dormir com elas e pensas talvez eu tenha sorte afinal
estou aqui sofrendo para alguma coisa e meu logo vês que estás sofrendo há muito tempo
sem razão, sem finalidade, talvez tenham lançado um ma u olhado contra si mesmo e
pensas, alto lá, talvez a bruxa que consultaste tivesse razão, porque esta luta que tens todos
os dias com a tua mente, essa forma de policiamento que estás tendo é o teu alter ego a
funcionar e outros virão mais tarde como abutres, interessar-se pelos teus pensamentos e
dizes para contigo ainda bem, que a ciência lucre ao menos com isso e vês meu as palavras
que deitas para fora talvez venham a ter alguma forma de paliativo ou utilidade para outros
e pensas passarei assim toda a minha vida tentando imortalizar-me? Afinal procuro eu a
palavra certa, a frase certa, a expressão certa que isto não tem fim e afina somos pequenos,
porque o que somos é de facto uma pequena parcela do que alguma vez poderemos sentir
e julgas eu não nasci par interpretar o pensamento social se escrevo prosa é porque é
demasiado simples, se escrevo teoria social é porque não há lá sentimento e afinal ponderas
e afirmas onde é que estão as fronteiras, porque não te dizem a verdade e estás com os teus
pensamento e dizes para com o teu coração, isto é o que sou, cada um tem o que merece e
estranhas mesmo assim alguém ser violento verbalmente contra ti, quando sabes que as
críticas não são a tua especialidade, nunca te caíram bem e julgas será alguma dia que os
outros irão olhar para o que deixas no computador e reconfortas-te na tua cela solitária
acreditando que algum dia alguém te fará alguma espécie de justiças e até pensas que os
outros se irão lembra r de ti a propósito de alguma coisa e desistes de escrever porque já
não te dá prazer, já sabes tudo, já tens a tua conta de aborrecimento e pensas que ninguém
é reconhecido por muito bem que escreva, por muito bom que seja o teu material, não é
pelo acto de ser bom que irás se conhecido para pelo facto de dizer o que convém às
pessoas que digas, talvez nunca tivesses sido importante para alguém, senão não estarias só
e sentes-te solidário com todos aqueles seres que morreram, de sida ou cancro, porque
afinal há outros como tu, talvez mesmo pior e sentes a cabeça pesada e fumas um último
cigarro antes de ter deitares só na tua cama de casal. Passam dias e à tua volta vês pessoas
conhecidas estás longe do mundo, longe de tudo e consideras que nunca tiveste
acompanhado nesta vida, estás na tua sala fria e vazia e ouves a voz do teu sobrinho, mas
estás longe, longe de qualquer sucesso e vês-te enlouquecer lentamente, como se fosse um
castigo da sociedade, como se a sociedade te tivesse dado uma sentença, contudo não vês
razão de invocar os outros, aquilo que designas confortavelmente de sociedade, talvez
porque te queiras desculpar de alguma coisa que não tiveste o sucesso de fazer. Não, não

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O Ofício da Escrita

estás já doente, porque nesta imensa tristeza vês-te agora impotente para arranjar um
trabalho, não vês assim nenhum sentido às coisas, talvez não tenhas de lutar, talvez apenas
queiras morrer docemente e paz, já que para os outros estás com certeza morto. Assim
escolhes falar de um lugar que é a tua solidão para alguém que nunca irás conhecer, mas
que te ficará a conhecer no futuro porque deixaste algumas palavras escritas, talvez tenha
sido a forma que arranjaste de ter filhos, pois que sentes nunca ter amado, tu que sempre
procuraste saídas fáceis, tu que sempre acreditaste nas razões do espírito e da razão,
quando tudo à tua volta te parecia uma corrida desenfreada pela sobrevivência, talvez não
te tivesses apercebido a tempo que se confessas um sentimento todos perdem a
credibilidade em ti, porque nos tempos que correm não se pode ter sentimentos, porque
fica mal, porque se deixa de ser homem. Passa um dia, passa outro dia e vais ficando, no
teu país, tendo uma vida totalmente inútil onde te apercebes que vegetas e ainda vês na
televisão alguma espécie de esperança, quando há muito tempo todos se estão borrifando
para ti, tu que abriste a tua vida a toda a gente que foste conhecendo e que nada lucraste
com isso, só ódios e ressentimentos, como aquele que te corrói o interior dos teus
sentimentos. Assim, pouco e pouco vais-te rendendo, vais encontrando no vazio do
pensamento razões para a tua descrença, nem dizes justificando o teu crime nem acusas o
próprio Deus de te ter abandonado e, mesmo que por instantes tenhas confiado a alguém
os teus escritos, deste por mal empregue a possibilidade de esperar alguma coisa dos teus
contemporâneos, dos vivos. Não, não, não viste ainda a face da morte, porque nesse dia
gritarás como uma criança, simplesmente o mundo está acabando para ti tu que esperaste
tanto de ti e dos outros que foste tão exigente e insistente que acabaste por não ter
nenhuma vida para contar a teus netos, no teu caso, a teus sobrinhos. Seja como for, deixa
de alimentar a ideia de que um dia te ouvirão com interesse, pois que jamais falarão de ti
aos seus amigos, porque ninguém perguntará por ti. Agora que o frio se instala na casa que
dizes ser tua, alimentaste do teu coração gélido, inventas razões para ainda esperar o sol
pela manhã, uma vez mais, outra vez mais. Seja como for, admites a tua lugubridade, a
noite do teu espírito, porque te cansaste de suster a respiração e que para poderes receber
algum ar desse ambiente tóxico e insuportável, tinhas de reconhecer alguma derrota, tinhas
de dar a mão à palmatória e ainda que te tenhas de novo em boa conta e penses que não
foste derrotado, a questão é que não pensas já em termos de vitória nem derrota, apenas
sentes que a vida só agora começou que a grande vida estás tu para a viver a partir do dia
em que te roubarem o espírito da superfície da terra. E com todas estas palavras não deixas
nenhuma forma especial de literatura, já que raramente terão lido com atenção ou bom
espírito as tuas palavras. Assim, vais-te negando a viver em sociedade, consideras como
bons todos os momentos que tens com os teus e uma forma de ressentimento especial
alimentas em relação aos outros que, por uma razão ou outra não te terão dado atenção.
Durante estes anos de tua travessia nesta terra, sempre disseste para ti próprio que valeria
sempre estar e espírito aberto para com a vida e o amanhã, talvez não tomando o pulso ao
teu quotidiano, à realidade que te foi a pouco e pouco abafando a respiração. Se tivesses
desde logo rendido a guarda, se te tivesses desde logo entregue ao teu inimigo, decerto que
terias sob o teu algoz um resto de vida possivelmente mais descansado, contudo não foste
capaz desse gesto, sempre te consideraste invencível, inacessível. E porque passando os
dias te encontraste numa situação em que não seria mas suportável pensares na tua pessoa,
alimentado de egoísmo e temeridade, julgaste tua vida vivida em vão, acometida das mais
ignominiosas provas sobre o bem e o mal dos homens, sobre as qualidades diversamente
infinitas da divindade, sobre os propósitos e demandas do teu corpo, o certo é que teu
espírito nunca esteve contente com o corpo que o alojara temporariamente, sempre teu
espírito fugia demasiado entre o desgosto, a dor ou a luxúria e o desprendimento, em
jornadas infindas demandando alguma forma de conhecimento que ajudasse aos homens
que viessem de um lugar chamado futuro e que a eles servisse de adiantamento de

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O Ofício da Escrita

confortáveis esperanças e receios. Ainda que teu corpo esteja ficando mais e mais
condicionado a rotinas que nunca compreendeste mas das quais nunca te conseguiste livrar,
continuas só e só pensando em ti e talvez não acredites no dizer do teu povo que te refere
que cada um tem o que merece, olhas para ti e vês, ouves, sentes por meio de um sentido
que nunca usaste bem, que nada tens e como pode uma pessoa ter tão pouco quando tanto
deu, é sem dúvida uma explicação que encontras para os teus dias restantes, que não te
reservam o amor de uma mulher mas talvez alguma expectativa para o espírito que dá vida
a teu corpo. E se entre os homens bons que conheceste não encontras nenhum que avalize
os teus créditos junto de instituições divinas ou humanas, dás por mal empregue o tempo
que perdeste com estas explicações. Assim, avanças cautelosamente para uma forma
singular de literatura que consiste em anular o próprio desejo de que tua mente está prenhe
a fim de que tua existência conheça, de uma forma ou outra, alguma espécie de serenidade.
Depois de um dia em negro, em que sentia que estaria para sempre condenado à tristeza e
solidão, viu-se na circunstância de ter de sair de casa, simplesmente por sair, pois não se
pode julgar que um dia não faz grande diferença, para o bem ou para o mal.

Capítulo Segundo
De como se ensaia a possibilidade de, invocando a vontade e as demais energias,
de vir a encontrar melhores disposições de espírito

Com um ou outro pensamento negativo, entrou no comboio depois de ter almoçado


meio à pressa e ter tido em conta que mais tarde ou mais cedo seria confrontado com
imagens absolutamente desnecessárias para a sua tarefa diária mas que utilizou por
curiosidade e em todo o tempo andava com estas coisas na cabeça, sem julgar que tal coisa
não tinha obviamente grade peso na consideração de actividades quotidianas com falar com
os outros, estar com os outros. Retomara para si mesmo o direito de encontra alguém que
lhe fosse sentimentalmente importante. O seu pequeno mundo, povoado de giestas e
silvedos, árvores mais ferozes umas dos que as outras, onde se colhia o necessário para
manter a forma, não pensando de certa maneira entrar em competição com quem
encontrasse numa prova popular, o certo é que apesar de manter o vício de fumador,
entranhara na sua mente o vício das coisas físicas, entre as quais a corrida, como se crê ter
já falado desse prazer, mas por outro lado e em outra medida vinha ao de cima a esperança
inquieta de encontrar uma presença feminina deambulando suspensa ao longo dos
afanados dias em que, entre Coimbra e Lisboa, tinha ocasião de testemunhar simplesmente
à vista do rosto que sendo uma janela para a alma, parecia em muitos casos depender e
circunstâncias absolutamente irreais, ou sobrenaturais. Andava então José Calisto entre a
religião e a tentação, a carne à qual tentamos resistir mas que sempre, mais cedo ou mais
tarde será uma possibilidade inesperada e surpreendente com que teria a nossa personagem
o gosto de viver.

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O Ofício da Escrita

Capítulo Terceiro
De como se prevê a necessidade de novas personagens no curso da trama

Para Bernardo Luvas-Pretas a questão que se colocava diante dos seus olhos era simples:
havia um complô, porventura em relação à sua pessoa. Havia dias em que se preocupava
imenso com esse obstáculo que o impedia de viver regularmente com os outros, ter hábitos
relativamente sociais. Em Trigais, vizinha povoação de Riachos, em que vivia Bernardo, a
vida continuava aparentemente sem grandes sobressaltos. Na época festiva do final no
longo ano de 2006 não poderíamos a este propósito dizer que se poderia sintetizar o
sentimento desses dias a fim de deixarmos espaço livre para uma narrativa mais
desenvolvida ao sabor daquelas inspiradas dos outros autores de outros tempos. Pois se
esses dias haviam sido de expectativa e de algum repouso mental, a convivência com a
família havia sido bastante prazerosa, não fosse o espírito de Bernardo se ver de novo
confrontado com imagens mentais que sabia nunca mais o abandonariam, pois que lutando
contra elas não conseguisse evitar que aparecem à cortina do seu espírito, que mais parecia
uma máquina de pensar do que propriamente algum lugar relativamente pacífico. E nesses
dias geria também Bernardo a sua vontade de escrever e mesmo sentindo que tinha
inspiração e bom material de pensamento, não estava disposto a mais sacrificar a sua vida à
vida dos seus personagens, como se esperasse algum dia pela reacção de alguém aos seus
escritos. Não que tivesse a certeza de ser inteiramente original, mesmo que o fosse
contextualmente em termos de espaço e tempo em si mesmo. Em todos esses anos de
secreta escrita que parecia ser votada ao esquecimento, Bernardo Luvas-Pretas consentia
para si próprio alguma tristeza nocturna, antes de deitar o seu corpo no silêncio da alma
sonhando. Em todos esses anos aprendera que a escrita era qualquer coisa de infinitamente
relativa, que podia ao mesmo tempo dizer muito ou não dizer nada quando não fosse lida,
efectivamente sabia ou suspeitava por exercício de si mesmo que essa escrita lhe dizia
bastante e desse modo poderia dizer também bastante a alguém. Simplesmente, o facto de
não ter sido publicado não demovia Bernardo e pensar por palavras, de desejar por
palavras, de sentir emoções que traduzia imediatamente por palavras, esse facto que era
mais verdadeiro que a sua própria escrita. Fosse como fosse, não era ser reconhecido em
vida que alimentava as expectativas e sonhos de Bernardo, mas talvez essa mesma vontade
de ler e ser lido e que esse tempo e essa vontade não fossem apagados pelo passar dos dias.
Estes nossos dois personagens, Josué Calisto, que vira a sua própria morte em directo pela
televisão e Bernardo Luvas-Pretas, o relativo homem do se tempo e do seu contexto,
continuavam esperançosos quanto à possibilidade de encontrarem ao longo da seguinte
trama algum desempenho que correspondesse de alguma maneira ou de outra à realidade
em que ambos estavam mergulhados. E como se quiséssemos evitar que estas duas
personagens preenchessem de si toda a tela, favorecemos a sua vida com a possibilidade de
virem a encontrar neste curso de águas pouco profundas mais alguns pescadores fluviais
que sempre gostariam de ter tido uma verdadeira vida de pescadores de alto mar, como
aqueles que em épocas parecidas com esta se aventuram no mar do norte em busca de
bacalhau que vem de uma vez definitiva para a nossa mesa de portugueses. Assim,
deixaríamos a Josué Calisto que procurasse na pescaria a sua sobrevivência e a dos seus,
bem dizendo os seus filhos e sua esposa, bem como dos seus velhotes pai e mãe ainda
atentos aos sóis das manhãs naquele espaço de terra à beira-rio. Encontrava-se assim
também Bernardo Luvas-Pretas numa condição relativamente parecida à do outro
personagem, mas com um pé na grande cidade, aonde se deslocava diariamente para seu
labor. E se quiséssemos entrincheirar a nossa personagem num qualquer rótulo destinado a
vender como produto no mercado da ilusões literárias ou sociais, poderíamos dizer que o
sucesso não era coisa que preocupasse os nossos papéis, como já afirmámos convictamente
e agora reiteramos com vincada acentuação que se fosse assim já teríamos conhecido os

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O Ofício da Escrita

mecanismos de marketing a serviço da escrita e já teríamos perdido a qualidade daquilo que


se vai assentando ao leitor como um livro de assentos, pois, isso mesmo, como um livro de
assentos daqueles eu até há bem poucos dias se viam nas mercearias do nosso Portugal. E
mesmo que um dia viesse Bernardo a conhecer a edição dos seus escritos, talvez se servisse
como a outros, na medida em que se viesse a confrontar com as sugestões dos leitores e
com isso pudesse de alguma maneira rentabilizar os seu pensamentos, o que seria bastante
vantajoso para quem, como Bernardo Luvas-Pretas, até agora havia sido um pescador de
águas pouco profundas ou um caçador de caça miúda. Enquanto Josué se preocupava em
demonstrar aos seus conhecidos que afinal, ao contrário do que dissera naquele dia a têvê,
não havia padecido, por uma razão ou por outra, Bernardo aventurava-se finalmente a
pescar e m águas profundas e caçar presas de maior porte, a que se chama de caça grossa.
Pretendendo assim esclarecer os passos das nossas personagens, poderíamos dizer que
naquele dia Josué Calisto se deslocou ao Registo Civil da sua cidade para tratar das efectivas
diligências com vista a poder ter em seu poder um documento de identificação emitido
pelas autoridades do país que vira nascer aquele jornalista que se interessara por divulgar a
notícia da sua morte. Na verdade, a morte de Josué fora um dos muitos assuntos
desastrosos daquele noticiário que não guardara sequer uma prova para se poder defender.
Assim, depois de ter tratado do assunto relativo à sua identificação principal, iria deslocar-
se pessoalmente aos estúdios da difusora de notícias responsável pela emissão daquela
noite. O que intrigara Josué fora o facto de ao lado da notícia do seu desaparecimento, ter
sido veiculado um assunto relativo a uma notícia divulgada por uma estação de televisão a
Bélgica que consistia sumariamente numa declaração de independência da Flandres. Mais,
um dia depois disso, Josué fora surpreendido pela notícia de jornal de que um indivíduo de
cidadania brasileira havia testemunhado, à distância de muitos quilómetros reais através
desse meio que encurta drasticamente as distâncias e os tempos, a Internet, ao assalto da
sua própria casa. Tivera o cidadão o tempo de alertar a tempo a polícia local que prendeu
os respectivos usurpadores. Na verdade algo de estranhamente anormal se passara desde
que Josué Calisto havia dado a importância ao noticiário da noite. Era como se visse a
realidade pela lente daquele noticiário que, dia após dia, debitava notícias cada vez mais
surpreendentes aos olhos de um cidadão que apenas procura trabalhar o tempo necessário
para ter uma vida relativamente tranquila a respeito de surpresas e tal não acontecia
naqueles últimos dias. Josué teria de provar ao seu antigo patrão de que efectivamente
trabalhava naquela empresa e que os boatos, si porque não passavam de boatos a seu
respeito, fossem devidamente desmentidos. Ora, esperava Josué Calisto igual benfeitoria
mediática no reino de Portugal, ou seja, que se comunicasse algo de verdadeiramente
importante utilizando a televisão como instrumento de transformação social. Sim, porque o
eu estava em causa a propósito destas invectivas destes dois personagens no mundo da
ficção realista ou da realidade ficcionada era o bem-estar e qualidade de vida de um reino
da Península Ibérica, mas não somente isso, mas também que se equacionasse o
levantamento moral e económico dos povos do sul da Europa e de África. Ora tal intento
podia facilmente entender-se como pretensão enganadora de fama e prodígio dos nossos
personagens a propósito dos seus futuros e ainda assim vidas nesta trama aqui deitada. E
tal se explica porque o que afecta os nossos personagens poderá ser uma espécie de “mal
de montano”, um “mal de Montaigne” a respeito da tida em conta vida e relações entre
personagens, uns que aqui se descrevem, outros que se subentendem, coisa que
infelizmente não gostamos de fazer a respeito de nada. Tarde concluímos que o que
estudávamos não eram as relações humanas nem uma ciência particular, nem valeria a pena
dizê-lo, não, não precisávamos dizer a sete ventos, a sete mares, que estudávamos a partir
de uma ciência que a si própria se interrogava se era ciência e arte e por isso pagámos
muito incompreensão e até esquecimento, muita fome, sono, cansaço e dor de cabeça e que
chegamos a um tempo em que o que queremos simplesmente será viver, viver mas, porque

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O Ofício da Escrita

nos apaixonamos irremediavelmente pelos outros, por nós, pela vida, pelos nosso corpo
em movimento e tarde ou talvez não chegámos à conclusão de que somos aquilo que
vemos, somos aquilo que estudamos, somos o que comemos, o que falamos, o que
vivemos, os amigos que temos, enfim, tudo se relaciona quando temos pensamento
positivo e chegamos finalmente a uma circunstância da vida de nós mesmos e dos nossos
que estamos finalmente podendo viver alguma paz de espírito, podemos finalmente ter
consciência da inspiração, coisa que deixámos abandonada há muito no caminho, este que
se faz dia após dia, na mente ou fisicamente. Outra conclusão que tiramos das muitas que
já chegámos a tirar e daquelas muitas que esperamos vir a tirar daqui para a frente que não
nos inflama um falso orgulho de estarmos sob certas circunstâncias, é que estas
observações em nada retiram à vida que o leitor deve ter, pois provavelmente o pior que se
pode fazer a um leitor é sufocá-lo, intoxicá-lo com nossos problemas e pensamentos. Deste
modo, a literatura, o caminho, assa a ser qualquer coisa de positivo e não estamos
preocupados em defender nem atacar este ou aquele que nos detestam simplesmente
porque existimos. Mas o que guardamos como segredo é que este nosso relato não poderá
ser visto enquanto não quisermos, por isso o protegemos com palavra passe, por isso ficará
este escrito guardado até então e toma o autor a decisão de se guardar, de se conter em
relação ao que tenha escrito, pois que muito perdeu em ter sido gratuitamente sincero para
com gente do meio e outra gente que não interessa a ninguém. Mas o que não podemos
evitar é que a vida das nossas personagens não irá ficar por aqui. Tenhamos desde já em
conta que Josué, depois de ter tirado fotos tipo passe no Registo, depois de ter sido medida
a sua altura, depois de ter dado a morada do centro de acolhimento, na Almirante Reis,
podia esperar para ver se não havia algum problema com a sua identidade, sim porque ter
um bilhete de identidade é algo mais do que sabermos que são nossos pais, irmãos, é
qualquer coisa que temos connosco, para bem e para mal. Mesmo assim, nossos
personagens serão testemunhas e porta-vozes de acontecimentos que muito devem à alma
de globetrotter do seu autor, coisa que não se pretende bajuladora ou pretensiosa, mas que diz
respeito sem mais nem menos a uma alma indigente de vida, uma alma que dá e recebe
gratuitamente, uma alma proveniente de um espírito de reciprocidade que não é nosso, que
não é dos nossos pais em exclusivo, é algo que vem detrás e se projecta violentamente no
futuro como se quisesse simplesmente dizer “aqui estou”. Algumas características Josué
Calisto terá herdado do Narciso da novela Curvas Apertadas e isso mesmo terá sido uma
forma de vida e afirmação algo selvagem que tem o seu preço e que por amo à literatura ou
a alguma forma de ciência, se situa na fronteira, nunca definitivamente portuguesa nem
definitivamente francesa ou espanhola, mas as três as coisa numa só pessoa que domina o
inglês, como Josué Calisto, que terá resolvido sair do país assim que tivesse tratado dos
seus papéis de identificação. Sim, porque frequentemente Josué terá imaginado a sua vida,
o que seria a sua vida se estivesse vivendo nos cenários que observava pelo seu ecrã, sim,
talvez tivesse mesmo visto demasiada televisão, talvez um dia ou outro se tenha deixado
ficar em casa, terá pensado em desistir da luta, talvez essa ideia de que estivesse morto seria
ficção. Teria então de contactar o autor da peça televisiva que se referia ao que ele julgava
ser ele próprio, Josué Calisto, 34 anos de idade, professor numa escola estatal,
aparentemente vítima de uma forma rara de patologia, que terá resultado da inconsideração
de uma situação real e das forças contraditórias do seu pensamento. Porque na realidade
esta nossa personagem não auferia de rendimentos que lhe permitissem ter uma vida social
mesmo assim tinha mesmo de tê-la, deste modo era simplesmente um actor, um actor
social, ou mesmo só um actor, como muitos outros. De ter em conta que este sentimento
de originalidade se podia ter como indício de que alguma coisa havia de ser escrita. Era este
o sentimento do nosso segundo personagem, Bernardo Luvas-Pretas. Tal como Josué,
tinha não ainda meia-idade, procurava uma forma de afirmação e não estava preocupado
com a sua performance, nem com os rastos do seu esforço, mas em certa medida ia

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O Ofício da Escrita

tomando pulso finalmente à energia que despendia, por ter sido demasiado generoso a
respeito de sentimentos. O que se passava verdadeiramente com estes dois personagens
que vos apresentamos é que terão sido dois actores frustrados. Começaram algo cedo, nos
teatros de aldeia, sem nunca terem passado muito para além do domínio restrito de
algumas aldeias, e algumas pessoas, mas ambos estavam devidamente preocupados com o
seu papel na sociedade e talvez por isso lutavam esforçadamente no palco da sociedade
como qualquer actor luta, no bom sentido, com a sua personagem, com investe a sua
energia nessa personagem. Certamente que algo se perdera nesses anos, mas a caminhada
que terão empreendido é mesmo feita disso, de energia que se perde, se transforma, se
verte, se recebe, enfim, todo um processo. Não, Josué não sonhava sequer que um dia
alguém lhe estava preparando um desmentido. Não podia sonhar que alguém, depois de
tanto tempo, ainda se lembrasse na aldeia de Trigais, ali ao lado de Riachos. Talvez terá
sido espontâneo uma vez ou outra e terá transparecido a alguém a sua fisionomia, o seu
halo, a sua aura. Certamente que fora espontâneo com os seus filhos, certamente que fora
espontâneo com sua mulher, ao fim de doze anos de vida em comum, ou até no seu círculo
de amigos e de que serve dizer que com um desconhecido terá sido como qualquer outra
pessoa, uma personagem, um indivíduo na paisagem humana, um humano entre outros
numa paisagem natural. E para que não fique por ora por dizer, Josué teria conhecido ou
feito amizade com algum sem-abrigo, algum marginalizado e face a estas vidas bem mais
complicadas terá dito a si próprio, não posso estar com cenas porque afinal de contas
muitos nem sequer sobreviveram para contar a sua história. Esta consciência, esta
relatividade de condições, preenchia a suas esperanças de vir a ser de novo reconhecido por
alguma coisa de bom que terá feito, porque todo o acto de contrição que residia em si
mesmo não era recurso de última hora para escritores aflitos, mas uma forma de transmitir
algo que se sentia vocacionado a testemunhar.

Capítulo Quarto
De como as personagens até aqui reveladas se questionam e se debatem com
estranhas forças

Uma forma bizarra de sentimento se apossou de Bernardo logo que tentou da uma
reviravolta na sua condição económica. Nada o consolava. Sabia que naqueles dias de
tristeza, melancolia, saudade e abandono para não dizer também melancolia, os seus passos
remetiam para foras estranhas ao viver humano, ou seja, forças que somente poderiam
fazer parte de um mundo inumano, animal ou sobrenatural. Nada parecia consolar
Bernardo. Aparentemente saudável e socialmente aceite, debatia-se com raivas e ódios
antigos mal resolvidos, com impressões de tal modo inquietantes que não compreendia
como tivera alimentado tanto tempo de ódio contra alguém. Na verdade, poderia concluir
que também ele era humano, que a raiva que sentira por alguns colegas de escola poderia
muito bem te sido resolvida à pancada no recreio e certamente que teria sido melhor assim,
com a versão de sangue, que ter contido como aconteceu por tanto tempo dentro de
sonhos e subconsciente essa raiva que sentira. Na verdade, apesar de não ter cometido
aparentemente nenhuma falta par com a lei ou o próximo, Bernardo Luvas-Pretas
pressentia no seu espírito uma luta entre forças contrárias, dir-se-ia forças do bem contra
forças do mal, se quisermos diabolizar o estado de coisas. Na verdade, a prosa deste autor
estava tremendamente dependente do passado, mas muito mais ainda do futuro. Dir-se-ia
que os seus escritos aguardariam a prova da leitura a fim de terem o imprimatur de alguma
editora ou entidade. Assim como este autor havia sido honesto para com os seus leitores,
não podia saber como e que seriam os seus leitores como pessoas. Não, não tinha havido
razão para se fustigar com pessimistas ideias, mas nunca como agora tinha a certeza de que,

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O Ofício da Escrita

apesar desse peso, o peso das mágoas alheias, iria vingar mais cedo ou mais tarde. E que
melhor satisfação poderia ele ter que ver disseminada a sua prosa? Talvez fosse um futuro
sentimento de justiça, esse de saber que alguém, embora com outros olhos e com outra
experiência, viria a deitar olhos sobre suas palavras. Assim sendo, tanto Bernardo Luvas-
Pretas como Josué Calixto aguardavam somente que se aglomerasse nos seus bolsos
dinheiro suficiente para estar algum tempo fora de território nacional. Razões? Que razões
têm aqueles que permanecem na circunscrição espacial de origem fase a outros que
igualmente mas longe não pensam no mundo para alem da sua aldeia? Para Josué e
Bernardo, o mundo era ainda Trigais e Riachos. Josué teria de deixar Trigais para se
deslocar à sede da estação televisiva e encontrar Amândio Neves, o autor da peça que lhe
ditar a mediática morte. Algumas interrogações de certa maneira incomodativas impediam-
no de se sentir preparado para um trabalho, teria assim de se inscrever na segurança social a
fim de que pudesse, apesar de tudo, pensar em ter alguma mínima compensação sobre o
seu esforço laboral que teria também de provar. Era claro que necessitava em todos os
casos de afirmação da sua presença neste mundo, necessitava de testemunhas, antes de
mais teria também de procurar a sua família, de apelido Calisto, conforme ainda se
lembrava que era. Assim, depois de ter tratado do bilhete de identificação, teria de procurar
também os seus familiares, se é que os tinha. Na verdade, ao considerar a sua condição,
Josué sabia que teria de procurar a origem do seu nome e que lugar melhor para o fazer de
que a mesma estação televisiva que lhe havia dado, a si e ao mundo, a notícia da sua trágica
morte. Alimentava, assim, sem o ter revelado a alguma pessoa, o desejo secreto de fazer um
desmentido em directo. Mas entre estes desejos de se retratar em directo e todo esse
trabalho de BackOffice para reconstruir a sua identidade social, forças ingentes coarctavam
Bernardo de viver uma vida livremente, sem as rédeas que o amordaçavam a urtigas e silvas
que lhe doíam no corpo descarnado.

Capítulo Quinto
De como novas personagens adensam a intriga e reafirmam a necessidade do
reconhecimento social

Tanto as nossas personagens como outras que adiante mostraremos procuravam


necessariamente uma coisa, a que podemos chamar de reconhecimento social. Esta ideia
não é nova, mas o modo como aqui a consideramos pode ter algo de original e
independente. Na verdade, Bernardo Luvas-Pretas e Josué Calixto procuravam qualquer
coisa como o reconhecimento das suas identidades e personalidades junto de um conjunto
mais vasto de pessoas, que envolve tanto entidades públicas quanto privadas. Junto a estas
questões, Luciano das Febres procurava um local onde pudesse assentar todas as suas
preocupações relativas ao paradeiro de sua mulher, que havia desaparecido no mar, durante
um dos turnos em que anormalmente, acompanhou o marido, ao contrário do que
acontece com a maior parte das pessoas, sabe-se de certeza que maior parte delas
permanece em terra com exacerbada ou até justificada preocupação, que foi coisa eu nunca
se entende bem nem os governos se preocuparam devidamente com estas questões. Temos
portanto, o caso de Josué Calixto, que procurava uma nova identidade, o caso de Bernardo
Luvas-Pretas e o caso de Luciano das Febres, um armador de mar que em noite de
temporal perdeu sua mulher.

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O Ofício da Escrita

Capítulo Sexto
De como os mortos se tornam vivos e regozijam por estar entre eles

Não fossem as nossas personagens até então apresentadas, diríamos que nesse país na
orla mais ocidental, bem perto, mais perto do que se pensa, do norte de África, tudo
andaria louco, se não tentássemos continuamente fazer sentido de coisas aparentemente
não relacionadas. O que Josué não sentira ainda fora aquele calafrio de instantes em que
todo o passado seria aplacado, toda aquela vontade de não permanecer em casa, toda
aquela vontade de estar com os colegas, todo aquele caminho calcorreado sozinho fora em
vão qualquer coisa de absolutamente desnecessário, por vezes, conseguia compreender
tudo e partir para outro dia de cabeça levantada e partia assim para mais um pouco de
essência de vida à sua espera. Em tempos idos, o próprio José Calixto prometera mundos
e fundos tudo só concentrado na atenção à palavras, na esperança de que um dia alguém, se
possível muita gente, toda a gente do mundo, compreendesse o quanto ele se sentia digno
por estar entre humanos comuns, a honra que tinha de estar na companhia dos homens,
das mulheres, das crianças e que a indecisão verídica que sentira por momentos mais que
infinitos, fora qualquer coisa que faz parte de algo maior que simplesmente está depois de
nós mas que nos esforçamos por tentar adivinhar, ou seja, tudo se resume a questões há já
muito tempo formuladas e que os nossos personagens somente irão calcorrear como
outros personagens de outras narrativas o fariam, tudo se resume às questões fundamentais
“quem somos nós”, “para onde vamos”, por aí em diante. E nestas coisas pensando, Josué
alimentava um desejo imenso de voltar a ver teatro, de voltar a aplaudir o fim de um acto,
pena é que estivesse parco de dinheiro, mas teria assim mesmo de esperar melhores dias.
Todavia guardava consigo alguma retracção de suas convicções em entender-se com os
outros, mas na medida em que fosse conseguindo entabular conexões certamente que
chegaria à conclusão de que há situações que não exigem explicações, simplesmente
existem para nós e por si mesmas. E por ter visto inúmeras coisas do mundo, muitas delas
desnecessárias mas que é assim a curiosidade residual que sempre comporta o
comportamento, sentia cada vez mais curiosidade em conhecer tais coisas do mundo.
Também Luciano Febres sentia saudades da sua mulher, do quente do seu corpo e do seu
silêncio, a única mulher que havia tido verdadeiramente e eu perdera na loucura de uma
noite de tempestade em que o barco debando sobre as ondas como louco, jogando o seu
corpo pelo mar dentro, para o ver perder-se, aquele corpo que em tempos amou e afagou
com o seu calor, esse corpo que nada já dizia do seu próprio, que nada mais contava das
bem-aventuranças que haviam juntos vivido.

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O Ofício da Escrita

ÍNDICE

O Promontório ----------------------------------------------------------------------- 4
Dilúvio das Consciências ----------------------------------------------------------- 6
O Amor Reconquistado ----------------------------------------------------------- 20
De Como os Vivos Sabem dos Mortos --------------------------------------- 31

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Nome do ficheiro: O Ofício da Escrita (Revisto)
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Modelo: C:\Users\Vitor
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Título:
Assunto:
Autor: Victor Mota
Palavras-chave:
Comentários:
Data de criação: 23-01-2011 17:32:00
Número da alteração: 28
Guardado pela última vez em: 05-03-2013 00:27:00
Guardado pela última vez por: Vitor Mota
Tempo total de edição: 124 Minutos
Última impressão: 05-03-2013 00:27:00
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