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Células-Tronco

Sumário
1 O que são células-tronco?
1.1 Células-tronco totipotentes
1.2 Células-tronco pluripotentes
1.3 Células-tronco multipotentes
2 Células-tronco embrionárias e a questão ética
3 Células-tronco adultas
4 Clonagem
5 Células-tronco na América Latina
6 Conclusão
7 Referências bibliográficas
1 O que são células-tronco?
Atualmente, ao falar de células-tronco, torna-se quase impossível ter acesso a tudo o que se
escreveu e se escreve sobre elas. E quando se fala em pesquisas com tais células entra-se em um
campo extremamente complexo. No entanto, ao definir o que sejam, há bastante consenso. Por isso,
pode-se dizer que as células-tronco são células indiferenciadas, isto é, não especializadas e que
apresentam duas características:
1) a capacidade de autorrenovação ilimitada ou prolongada, isto é, de
reproduzir-se por muito tempo sem diferenciar-se; e 2) a capacidade de
originar células progenitoras de trânsito, com capacidade proliferadora
limitada, das quais descendem populações de células altamente
diferenciadas (nervosas, musculares, hemáticas etc.). (LEONE;
PRIVITERA, 2004, p.165)
Podem ser definidas, também, com outras palavras: “células-tronco são células que têm a
capacidade de se autorrenovarem (self renewing) e de se dividirem (self replicate)
indefinidamente, in vivo ou in vitro, dando origem a células especializadas” (BARTH, 2006, p.26).
Portanto, a autorrenovação é a capacidade que as células-tronco têm de proliferar, gerando células
idênticas à original (outras células-tronco). E o potencial de diferenciação é a capacidade que elas
têm de, em condições favoráveis, gerar células especializadas e de diferentes tecidos.
De acordo com seu potencial de diferenciação, as células-tronco são classificadas em três
níveis: células totipotentes, pluripotentes e multipotentes.
1.1 Células-tronco totipotentes
Células-tronco totipotentes são o único tipo capaz de originar um organismo completo, uma
vez que têm a capacidade de gerar todos os tipos de células e tecidos do corpo, incluindo tecidos
embrionários e extraembrionários (como a placenta, por exemplo). Os únicos exemplos de células-
tronco totipotentes são o óvulo fecundado (zigoto) e as primeiras células provenientes do zigoto, até
a fase de 16 células da mórula inicial, um estágio bem precoce do desenvolvimento embrionário,
antes do estágio de blastocisto.
 1.2 Células-tronco pluripotentes
As células-tronco pluripotentes têm a capacidade de gerar células dos três folhetos
embrionários (tecidos primordiais do estágio inicial do desenvolvimento embrionário, que darão
origem a todos os outros tecidos do organismo. São chamados de ectoderma, mesoderma e
endoderma). Em oposição às células-tronco totipotentes, as células pluripotentes não podem
originar um indivíduo como um todo, porque não conseguem gerar tecidos extraembrionários. O
maior exemplo de células-tronco pluripotentes são as células da massa celular interna do
blastocisto, as chamadas células-tronco embrionárias.
Recentemente, cientistas desenvolveram uma técnica para reprogramar geneticamente células
adultas – diferenciadas – para um estado pluripotente. As células geradas por essa técnica são
chamadas de células-tronco de pluripotência induzida (iPS, da sigla em inglês induced pluripotent
stem cells) e apresentam características muito parecidas com as células-tronco pluripotentes
extraídas de embriões.
 1.3 Células-tronco multipotentes
As células-tronco multipotentes têm a capacidade de gerar um número limitado de células
especializadas. Elas são encontradas em quase todo o corpo, sendo capazes de gerar células dos
tecidos de que são provenientes. São responsáveis, também, pela constante renovação celular que
ocorre em nossos órgãos. As células da medula óssea, as células-tronco neurais do cérebro, as
células do sangue do cordão umbilical e as células mesenquimais são exemplos de células-tronco
multipotentes.
2 Células-tronco embrionárias e a questão ética
As células-tronco embrionárias são retiradas do próprio embrião para serem usadas em
pesquisa. O fato de o embrião, até o 14º dia, se dividido em partes, poder dar origem a indivíduos
geneticamente iguais, levou um bom número de cientistas a adotar o termo pré-embrião,
justificando que não estamos diante de um ser humano e sim de um aglomerado de células, e,
portanto, nesse caso, pode-se usá-lo como fonte de pesquisa.
No Brasil, em 24 de março de 2005 o Senado Federal aprovou a lei de número 11.105, que no
seu artigo 5º afirma que “é permitida, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco
embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e não utilizados no
respectivo procedimento” (Lei de Biossegurança). A lei afirma que devem ser embriões inviáveis,
congelados há três anos ou mais. É necessário, ainda, o consentimento dos genitores e as pesquisas
com células-tronco embrionárias humanas devem submeter seus projetos aos comitês de ética em
pesquisa. Essa posição do Senado brasileiro nasce da visão reducionista que afirma que até o 14º dia
não existe vida humana no embrião e isso torna “possível a sua utilização em pesquisa e na
derivação de células-tronco” (BARTH, 2006, p.167). Atualmente, no mundo, são muitos os países
que aceitam e legitimam a pesquisa com células-tronco embrionárias.
No entanto “a tentativa de estabelecer este termo e esta fase de desenvolvimento para o
embrião recebeu tal crítica que hoje poucos ainda utilizam este termo” (BARTH, 2006, p.157). Com
isso, fica claro que “nenhum manual moderno de embriologia humana fala de pré-embrião”
(CIPRIANI, 2007, p.29).
Para a biologia, atualmente, é consenso que “logo após a fecundação, no genoma daquelas
poucas células existe o programa de um indivíduo humano no início de sua viagem extraordinária
intra e extrauterina que o tornará um indivíduo adulto” (CIPRIANI, 2007, p.29).
Na compreensão da Igreja, está definido que após a fecundação não se está diante de uma
pessoa, pois tornar-se pessoa acontece mais tarde. No entanto, se está diante de um ser humano. É
neste sentido que a Igreja afirma que “desde o momento da concepção, a vida de todo o ser humano
deve ser respeitada de modo absoluto, porque o homem é, na terra, a única criatura que Deus ‘quis
por si mesma’” (CDF, 1987, n.5, p.14). E o mesmo documento, mais adiante, afirma que “o ser
humano deve ser respeitado como pessoa, desde o primeiro instante de sua existência” (n. I, 1,
p.16), destacando que no zigoto, que é constituído da fusão dos núcleos dos gametas masculino e
feminino, “derivante da fecundação já está constituída a identidade biológica de um novo indivíduo
humano” (n. I, 1, p.17). Há os que afirmam que o fruto da concepção, pelo menos até certo número
de dias, não pode ainda ser considerado uma vida humana pessoal. Na realidade, porém, “a partir do
momento em que o óvulo é fecundado, inaugura-se uma nova vida que não é a do pai nem a da mãe,
mas sim a de um novo ser humano que se desenvolve por conta própria”. (JOÃO PAULO II, 1995,
n.60)
 Neste sentido pode-se afirmar que
o organismo humano não é só um amontoado de células, mas um conjunto
auto-organizado de células que tem a capacidade de se desenvolver, e
manifestar plenamente o ser humano que está presente a partir da
fecundação. Este princípio interno faz com que este embrião atinja a sua
maturidade humana. A vida pré-natal é vida plenamente humana em todas
as fases do seu desenvolvimento. A lei ontogenética impõe uma gradual
diferenciação e organização, mas existe uma unicidade que garante ser
sempre o mesmo ser humano que se desenvolve, desde a concepção,
passando por diversos estágios, até chegar à maturidade de pessoa humana.
(BARTH, 2006, p.163)
Por isso, do ponto de vista ético, na posição da Igreja Católica, qualquer intervenção que visa
produzir ou utilizar embriões humanos para preparação e utilização de células-tronco, lesionando
“grave e irremediavelmente o embrião humano, interrompendo a sua evolução, é um
ato gravemente imoral e, portanto, gravemente ilícito” (PONTIFÍCIA ACADEMIA PRO VITA,
2000, p.15). A Igreja deixa clara a sua posição em relação ao embrião quando afirma que “o ser
humano deve ser respeitado e tratado como pessoa desde a sua concepção e, por isso, desde aquele
mesmo momento devem ser-lhe reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais, antes de tudo, o
direito inviolável de cada ser humano inocente à vida” (CDF, 1987, n. I, 1, p.18).
No início de 2008, no Brasil, a discussão sobre o assunto tornou-se acirrada por causa da ação
de inconstitucionalidade da Lei de Biossegurança, que permitia a pesquisa com células-tronco
embrionárias. A votação realizada no STF (Supremo Tribunal Federal) deu ganho de causa à
continuação com tais pesquisas.
Os partidários de tais pesquisas afirmam que o embrião não é vida humana. Segundo eles,
depois de três anos de congelamento tais embriões são inviáveis, podendo ser usados em pesquisa, e
tal procedimento se justifica porque estas células podem ser fonte de possível cura de muitas
doenças degenerativas do ser humano. O uso das células-tronco embrionárias requer a sua retirada
em embriões com poucos dias de vida, sacrificando-os. Esse procedimento cria uma situação
extremamente delicada e difícil do ponto de vista ético.
Ora, tanto os tratados de biologia, quanto os de medicina, afirmam que a vida humana começa
a partir da fecundação, e, a seguir, o crescimento do embrião é autônomo, constante e progressivo.
Do ponto de vista filosófico, afirmar que a vida humana começa a partir de certo número de
dias é uma posição arbitrária estabelecida a partir de razões subjetivas. É preciso partir do critério
de fundamento, fato objetivo que afirma que a vida humana inicia com a fecundação. Neste sentido,
é importante ter presente que “o início da vida humana não pode ser fixado por uma convenção num
certo estágio do desenvolvimento do embrião; na realidade, ela começa já no primeiro estágio do
desenvolvimento do próprio embrião” (PONTIFÍCIA ACADEMIA PRO VITA, 2001, p.4). Por isso,
ao se trabalhar com o embrião entendido como ser humano, é preciso conceder-lhe
um status moralmente relevante assegurando-lhe direitos individuais que impedem que seja
destruído ou que seja posto em risco. Na verdade, o fato de pertencer à espécie humana envolve por
si só um direito particular à proteção que transcende o aplicado aos animais. Quem não respeita os
embriões individualmente, mas os protege como material biológico especial que merece respeito em
função do seu uso para pesquisa, viola
o status moralmente relevante de um ser humano. Mas não será o problema
mais amplo? A Igreja Católica sustenta que um embrião tem de ser tratado
“como uma pessoa”. Esta formulação é bem cuidadosa, pois não afirma
simplesmente que os embriões sejam idênticos a pessoas. A Igreja alega que
não podemos distinguir “seres humanos” de “pessoas” atribuindo-lhes dois
níveis diferentes, porque o desenvolvimento de um ser humano é um
processo contínuo e unificado. Podem-se estabelecer diferenciações nesse
processo, mas não decompô-lo em diferentes fases. Com efeito, seriam
imprevisíveis as consequências para a sociedade humana da distinção entre
seres humanos com base no estágio de desenvolvimento. A inseparabilidade
dos seres humanos vem também da reflexão que, nessa condição, não
podemos definir os outros como humanos ou não se eles existem como tal.
A consequência da inseparabilidade de um ser humano e de seu
desenvolvimento é um status moralmente relevante que garante ao embrião
uma proteção plenamente válida da vida. Isso não permite que sejam
usados para pesquisa, que os trata como matéria prima. Se esse status é
respeitado, a vida, como o direito mais fundamental, não pode ser
ponderada em comparação com outros bens de elevado status. (MIETH,
2003, p.173)
Portanto, segundo a ética, especialmente a ética cristã, não se pode aceitar a pesquisa com
células-tronco embrionárias, porque os fins não justificam os meios, e nesse caso, o bem que se
quer atingir, que é a cura de doenças de pessoas adultas, passa pela eliminação de seres humanos.
Por isso, “um fim bom não faz boa uma ação que, em si mesma, é má” (PONTIFÍCIA ACADEMIA
PRO VITA, 2000, p.15).
Ao mesmo tempo, não se pode desconsiderar o fato que a ciência evolui continuamente, e nos
últimos anos houve grande avanço no trato com o embrião humano. Existem diversas pesquisas
publicadas mostrando que, hoje, é tecnicamente possível extrair apenas uma célula do embrião
humano e a partir dela começar a sua multiplicação indefinidamente. A grande vantagem desta
técnica, do ponto de vista ético, é que o embrião não é destruído. Citemos a notícia que afirma:
“uma empresa americana de Massachusetts disse ter desenvolvido uma forma de produzir células-
tronco embrionárias humanas sem danificar o embrião original, numa descoberta que poderia
eliminar as objeções éticas a esse tipo promissor de pesquisa” (O GLOBO ON-LINE, 24/08/2006).
Não vamos, aqui, entrar em detalhes das questões técnicas deste tipo de procedimento, que
resolveria as questões éticas levantadas pelas pesquisas com embriões humanos.
3 Células-tronco adultas
As células-tronco adultas são retiradas de determinado tecido do organismo do ser humano,
para aproveitamento no próprio indivíduo ou em outros. Até há alguns anos atrás, se sabia que essas
células existem em muitos tecidos adultos e são capazes de dar origem somente a células desse
mesmo tecido. No entanto, a ciência avançou muito na pesquisa com estas células e recentemente
“descobriram-se, também, em vários tecidos humanos células estaminais pluripotenciais, isto é,
células capazes de dar origem a outros tipos de células, na sua maioria hemáticas, musculares e
nervosas” (PONTIFÍCIA ACADEMIA PRO VITA, 2000, p.9-10). Por causa disso, recentemente
diversos cientistas que fazem pesquisas com células-tronco embrionárias mudaram de posição,
porque duas descobertas mostraram que é possível reprogramar células adultas para que sejam
pluripotentes.
Ora, o progresso e os resultados alcançados com células-tronco adultas, além de sua
plasticidade, apresentam “uma ampla possibilidade de prestações, presumivelmente não distintas
das utilizações das células estaminais embrionárias, visto que a plasticidade depende em grande
parte de uma informação genética, que pode ser reprogramada” (PONTIFÍCIA ACADEMIA PRO
VITA, 2000, p.12).
No entanto, não se pode ser ingênuo e acreditar que a questão ética pese tanto a ponto de as
pesquisas com células-tronco embrionárias serem abandonadas. O que realmente está acontecendo é
uma espécie de guerra econômica. Já foi investido muito dinheiro na construção de laboratórios
para pesquisa com células-tronco embrionárias e não se volta atrás, mesmo porque este tipo de
pesquisa é mais complexo e requer uma tecnologia mais apurada. É preciso ter presente que “as
empresas não produzem altruisticamente linhas celulares para doá-las para pesquisas ou para fins
terapêuticos. Tudo é patenteado e vendido” (BARTH, 2006, 242). Fala-se que, em um futuro não
muito distante, a utilização das células-tronco adultas será um procedimento bastante acessível,
exigindo uma tecnologia menos complexa e, portanto, com menor custo. Este tipo de procedimento
não interessa aos grandes laboratórios que detêm a alta tecnologia. Eles investem grande capital
com o objetivo de manter o monopólio das pesquisas e, também, obter grandes lucros.
As pesquisas com células-tronco adultas têm dado bons resultados e não apresentam
problemas éticos, pois não requerem a eliminação da vida humana e são encorajadas pela Igreja.
4 Clonagem
Outra área da pesquisa com células-tronco que se abre para a ciência é a produção de
embriões pelo método da clonagem. A vantagem da clonagem, segundo os cientistas, é o fato de
evitar o problema da rejeição, pois o clone é produzido a partir de células retiradas do próprio
indivíduo. Ao falar em clonagem, estamos diante de duas possibilidades: a chamada clonagem
terapêutica, que visa produzir clones para retirar as células-tronco em função de usá-las em terapia
com o próprio indivíduo, e a chamada clonagem reprodutiva, que teria como objetivo produzir
clones para se desenvolverem como seres humanos. Este segundo tipo de clonagem encontra grande
resistência da maioria dos cientistas, pois seria apenas uma curiosidade científica e uma
monstruosidade. Nesse sentido, é importante que se diga que a clonagem humana é, “no seu
método, a mais despótica e, ao mesmo tempo, na finalidade, a mais escravizadora forma de
manipulação genética” (JONAS, 1997, p.136). Um moralista brasileiro, que também é formado em
zootecnia, afirma que “a clonagem humana reprodutiva tornou-se uma das formas mais radicais de
manipulação genética; insere-se no projeto do eugenismo e, portanto, está sujeita a todas as
observações éticas e jurídicas que a condenam amplamente” (COELHO, 2015, p.50). Certamente
este é o melhor livro em português que trata da questão da manipulação genética humana e suas
implicações ético-sociais. A clonagem terapêutica tem a aceitação de grande número de cientistas.
Há quem afirme que precisamos “usufruir os potenciais de aplicações médicas da clonagem
terapêutica. Vamos utilizar de forma responsável os novos poderes da clonagem, com fins
exclusivamente terapêuticos” (PEREIRA, 2007, p.88). No entanto, com a clonagem humana “não
se controla somente o processo, mas todo o patrimônio genético do indivíduo clonado é selecionado
e decidido por artesãos humanos. Um grande passo para a eugenia que não acontece pela
causalidade da natureza, mas por uma deliberada decisão e manipulação humana” (COELHO, 2015,
p.51-52).
Os que defendem a clonagem terapêutica afirmam que se trata de produzir, de uma célula,
várias outras células, isto é, uma simples multiplicação celular. Na verdade, “a partir do momento
em que qualquer célula passa a dar origem a uma ‘unidade vital auto-organizada’, estamos na
presença de uma nova individualidade biológica” (BARTH, 2006, p.105). Portanto, também a
clonagem terapêutica, do ponto de vista ético, cai no mesmo problema, isto é, produzir embriões
como fonte de células-tronco que depois são destruídos e eliminados.
5 A pesquisa sobre células-tronco na América Latina
Considerando-se o tema das pesquisas com células-tronco e o seu uso na busca da cura de
doenças, pode-se dizer que não só na América Latina, mas em todo o mundo, as questões que se
levantam são praticamente as mesmas. Isto tanto do ponto de vista ético, quanto terapêutico e
social.  Mesmo porque tudo o que se faz em qualquer parte do mundo, especialmente o que surge de
novidade, é imediatamente publicado e amplamente divulgado. Devemos destacar, mais uma vez,
que os melhores resultados em pesquisa com células-tronco e sua aplicação terapêutica em humanos
têm sido alcançados com o uso das células-tronco adultas. As notícias que surgem nos mostram
isso, como é o caso da reportagem que afirma que
milhões de diabéticos poderão esquecer em breve a injeção de insulina se
for confirmado o resultado bem-sucedido do primeiro implante de células-
tronco no pâncreas, feito por médicos argentinos que se dedicam à procura
de uma cura para a doença. Trata-se de um método inédito livre de riscos de
rejeição, sem intermediação prolongada e que pode ser realizado por
qualquer especialista médico com destreza e experiência em cateterismos,
explicou o cardiologista argentino Roberto Fernández Viña. (AVALOS,
AFP, 21/01/205)
 Podemos indicar também esta outra notícia, que afirma:
na Colômbia, paraplégico volta a andar após transplante de células-tronco.
O senador colombiano Jairo Clopatofsky, 44 anos e paraplégico há 24,
disse nesta terça-feira que começou a dar seus primeiros passos ao lado de
seu filho de oito meses. Há um ano, o político se submeteu a um transplante
de células-tronco. (Efe, Bogotá, 18/07/2006)
Existem textos publicados no Brasil e que também estão disponíveis, on-line, em revistas
latino-americanas. Indicamos o artigo “Implicações bioéticas na pesquisa com células-tronco
embrionárias” (BARBOSA et al., 2013). Recomendamos, também, conhecer a pesquisa do Dr.
Bratt, professor do programa de terapia com células-tronco da Universidade Federal de Zulia
(Venezuela) e pioneiro na América Latina na utilização da terapia com células-tronco autólogas da
medula óssea no tratamento de doenças degenerativas como Parkinson, diabetes, artrose e
traumatismo raquimedular.
Em relação à legislação, comparando-se a lei de biossegurança brasileira com  a dos países
vizinhos, pode-se dizer que o Uruguai é o país que mais se aproxima da legislação do Brasil.
Naquele país existe permissão para pesquisa, porém não determina nenhuma restrição em relação
aos embriões excedentes. A Argentina, mesmo tendo uma bioética muito avançada, também não tem
legislação sobre a destruição dos embriões excedentes. O Paraguai não tem legislação (cf.
BARROS, 2011, p.270-275, livro on-line).
5 Conclusão
Podemos concluir que toda vez que uma sociedade aceita que a vida humana seja negociada,
comprada, vendida ou destruída, tal sociedade marcha perigosamente para a discriminação de seus
membros, abrindo uma perspectiva eugênica. Dar poder jurídico a quem tem mais poder é deixar
que tais sujeitos decidam quem deve viver e quem deve morrer. Além do mais, a lei e o direito
surgiram para organizar as relações na sociedade, e em função de quem tem menos poder e menos
condições, de quem é mais vulnerável. A lei surgiu para defender os mais fracos, e nesse caso o
embrião é o mais indefeso e vulnerável dos seres humanos. A perspectiva jurídica é um dos aspectos
da sociedade, que é composta por outras áreas como a antropologia, a sociologia, a filosofia etc., e
especialmente a bioética, que também tem uma palavra a dizer sobre a vida humana. É preciso
“revitalizar a linguagem originária da bioética, que não é predominantemente a do direito, do que se
exige dos outros, mas a do dever, do que se cumpre em relação aos outros: ‘que devo fazer?’ é a
interrogação que inaugura a bioética em face do ‘que posso fazer?’ a que a tecnociência responde”
(NEVES, 2000, p.218).
Para o ser humano que é ético, a sua vida tem um valor que está acima dos demais seres da
natureza, e para o cristão, além do valor ético, o homem (varão e mulher) foi criado à imagem e
semelhança de Deus e, portanto, a vida deve sempre ser respeitada desde a sua origem até o seu
final, e nunca ser usada como um meio a ser destruído em benefício de outrem, quem quer que seja.

Referências bibliográficas
BARBOSA, A. S. et al. Acta bioethica. Santiago,  v.19, n.1 jun. 2013. Disponível 
em: http://dx.doi.org/10.4067/S1726-569X2013000100009. Acesso em: 15 mai 2018.
BARROS, R. F. Destino dos embriões excedentes: um estudo dessa problemática nos países
do Mercosul. Livro On-line, 2011.
BARTH, W. L. Células-tronco e bioética, o progresso biomédico e os desafios éticos. Porto
Alegre: Edipucrs, 2006.
CIPRIANI, G. O embrião humano, na fecundação o marco da vida. São Paulo: Paulinas, 2007.
COELHO, M. M. Aparecida, SP: Editora Santuário, 2015.
CONGREGAÇÃO DA DOUTRINA DA FÉ. Donum vitae. Sobre o respeito à vida humana
nascente e a dignidade da procriação. Petrópolis: Vozes, 1987.
JOÃO PAULO II. Evangelium vitae, sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana. São
Paulo: Paulinas, 1995.
JONAS, H. Cloniamo un uomo: dall’eugenetica all’ingegneria genetica. In: ______. Tecnica,
medicina ed etica. Torino: G. Einaudi, 1997 p. 122-154.
LEONE, S.; PRIVITERA, S. Nuovo dizionario di bioética. Roma: Cittá Nuova Editrice, 2004.
MIETH, D. Células-tronco: os problemas éticos do uso de embriões para pesquisa. In:
GARRAFA, V.; PESSINI, L. (orgs). Bioética: poder e injustiça. São Paulo: Centro Universitário
São Camilo; Edições Loyola; Sociedade Brasileira de Bioética, 2003. p. 171-178.
NEVES, M. C. P. A bioética e a sua evolução. O Mundo da Saúde, ano 24, mai/jun, 2000. p.
211-222.
PEREIRA, L. V. Clonagem, da ovelha Dolly às células-tronco. 2.ed. São Paulo: Moderna,
2007.
PONTIFÍCIA ACADEMIA PRO VITA. Declaração sobre a produção e o uso científico e
terapêutico das células estaminais embrionárias humanas. Cittá del Vaticano: Libreria Editrice
Vaticana, 2000.
______. Por ocasião da recente publicação de um artigo sobre a indústria da clonagem.
L’Osservatore Romano (edição em Português), 8 dez 2001, p.4.
Sites consultados:
AVALOS, S. Disponível
em: http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2005/01/21/ult34u115802.jhtm
EFE em Bogotá. Disponível
em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u14875.shtml
O GLOBO ON-LINE, Disponível em:
https://esclerosemultipla.wordpress.com/2006/08/24/celulas-tronco-sem-destruir-embrioes/
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, Lei de Biossegurança, lei n. 11.105. Disponível
em: www.planalto.ov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/…/lei/11105.htm