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Justiça Social

Sumário
1 Status questione
2 Escolástica-tomista
3 Da justiça legal à justiça social
4 Doutrina Social da Igreja
5 Novos enfoques e perspectivas
6 Sistematização
7 Referências bibliográficas
1 Status questione
Ao se adentrar em um tema de tamanha complexidade, nos cabe indagar a possibilidade de
realização da Justiça Social a partir das condições evidenciadas na realidade. As desigualdades
sociais vêm aumentando. Para os defensores de um sistema capitalista neoliberal, a desigualdade
não só é necessária, mas ela está na “essência” deste modelo de sociedade. A forte rejeição do
capitalismo liberal à justiça social é um dado relevante. Ludwig von Mises, um expoente da Escola
Austríaca de economia, justifica a desigualdade social nos seguintes termos: “A desigualdade de
renda e de riqueza é uma característica essencial da economia de mercado. Sua eliminação a
destruiria completamente” (MISES, 2010, p. 347-948).
Friedrich Hayek, um dos principais ícones do pensamento neoliberal, expressa toda sua
aversão ao conceito de justiça social. Primeiro, desclassifica a Igreja:
Parece ter sido abraçada por amplo segmento do clero de todas as
tendências do cristianismo, as quais, à medida que perderam a fé numa
revelação sobrenatural, parecem ter buscado refúgio e consolo numa nova
religião “social” que substitui uma promessa celeste de justiça por outra
temporal, e esperam poder assim prosseguir na sua missão de fazer o bem.
A Igreja Católica Romana, especialmente, fez da meta de “justiça social”
parte de sua doutrina oficial (HAYEK, 1985, p. 84).
Ato seguido, desclassifica seus teóricos:
A expressão “justiça social” não é uma expressão ingênua de pessoas de
boa vontade para com os menos afortunados, tendo, antes, se tornado uma
insinuação desonesta. Para que o debate político seja honesto, é necessário
que as pessoas reconheçam que a expressão é desonrosa do ponto de vista
intelectual, símbolo de demagogia ou do jornalismo barato, que pensadores
responsáveis deveriam envergonhar-se de usar (HAYEK, 1985, p. 118).
A Doutrina Social Igreja (DSI) é reconhecida até pelos seus maiores adversários como
defensora da justiça social. A desigualdade social é intolerável e a humanidade vive uma grave
situação de injustiça social provocada por uma economia que mata. A justiça é um conceito em
torno do qual se estrutura o cristianismo (cf. verbete Fé e Justiça). Não se trata apenas de
distribuição de renda.
Além das formas tradicionais de justiça herdadas do pensamento clássico (legal/geral,
distributiva, corretiva), a DSI apresenta a categoria de justiça social:
 O Magistério social evoca a respeito das formas clássicas da justiça: a
comutativa, a distributiva, a legal. Um relevo cada vez maior no Magistério
tem adquirido a justiça social, que representa um verdadeiro e próprio
desenvolvimento da justiça geral, reguladora das relações sociais com base
no critério da observância da lei. A justiça social, exigência conexa com
a questão social, que hoje se manifesta em uma dimensão mundial, diz
respeito aos aspectos sociais, políticos e econômicos e, sobretudo, à
dimensão estrutural dos problemas e das respectivas soluções. (CDSI,
2005, n. 201)
 2 Escolástica-tomista
O conceito aristotélico-bíblico-patrístico de justiça foi reinterpretado na escolástica. Santo
Tomás de Aquino, no Tratado Da Iustitia, introduziu o termo na teologia e o inseriu no quadro das
virtudes, reformulando assim a justiça legal de Aristóteles (ST II-II qq. 58-122). Seu estudo é
imprescindível para compreender o conteúdo da justiça social. A justiça é a disposição de caráter
que faz as pessoas agirem justamente e desejarem o que é justo. É a virtude que rege as relações
humanas. O homem justo (dikaios) é aquele que respeita as leis (justiça absoluta) e a igualdade
(justiça particular). Ser justo é viver dentro da legalidade e respeitar a igualdade.
Na justiça geral, um ato justo é aquele em conformidade com a lei. A lei estabelece como
devidas aquelas ações necessárias para que a comunidade alcance o bem comum e a eudaimonia. O
termo “geral” refere-se à sua abrangência. A justiça particular é pautada pela noção de igualdade e
subdivide-se em justiça distributiva e justiça corretiva. Justiça distributiva se exerce nas
distribuições de honras, riquezas e tudo aquilo que pode ser repartido. Na distribuição, considera-se
a qualidade pessoal do destinatário. Na oligarquia, o critério de distribuição é a riqueza; na
democracia, o cidadão livre; na aristocracia, a virtude. A justiça corretiva visa o restabelecimento do
equilíbrio nas relações privadas, voluntárias (contratos) e involuntárias (ilícitos civis e penais).
Tomás de Aquino dá continuidade à tradição aristotélica, acrescentando-lhe elementos do
Direito Romano, da Patrística e da Sagrada Escritura. Para designar a justiça geral, Tomás utiliza o
termo justiça legal, uma vez que os atos devidos à comunidade para que alcance o bem comum
estão dispostos em lei. Esta justiça diz respeito àquilo que é devido ao outro em comunidade. O
objeto da justiça legal é o bem de todos. A justiça distributiva é aquela que reparte
proporcionalmente o que é comum, trate-se de bens ou encargos, e visa garantir a igualdade na
distribuição dos deveres e direitos. A justiça corretiva aristotélica é denominada comutativa em
Tomás.
 3 Da justiça legal à justiça social
No século XIX os neotomistas recuperam o conceito de justiça legal em nova perspectiva. A
Ilustração, o estado de direito e o liberalismo exigem repensar o conceito de justa distribuição.
Seguindo Charles Taylor (TAYLOR, 2000, p. 242), a base de identificação social nas sociedades
hierárquicas é a noção de honra. A honra é um pré-conceito de cada pessoa em sua condição que
define privilégios e distinções por ocupar uma determinada posição (status). Em sociedades
hierarquizadas, a justiça distributiva será o princípio ordenador da vida social. A regra de
distribuição será: a cada um segundo sua posição social. Na sociedade democrática, na qual todos
possuem a mesma “relevância”, substitui-se a noção de honra pela “noção de dignidade usada em
sentido universalista e igualitário que permite falar de dignidade inerente aos seres humanos (…). A
premissa é que todos partilham desta dignidade” (TAYLOR, 2000, p. 242). Ora, se a igualdade
fundamental não é proporcional, mas absoluta, a justiça distributiva não pode ser o princípio
ordenador da sociedade, mas sim a justiça legal, fundada na igualdade fundamental de todos os
seres humanos. Como todos os membros de uma sociedade são iguais perante a lei, a justiça legal
converte-se em justiça social, aquela em que todos têm o mesmo valor, e todo ato em conformidade
com a lei beneficia a todos. O meio utilizado para alcançar o bem comum é o sujeito do bem
comum – a sociedade em seus membros – justificando a mudança de denominação, de justiça legal
para justiça social.
Neste contexto de transição, Louis Taparelli d’Azeglio (1793-1862), teólogo neotomista da
Universidade Gregoriana, foi o primeiro a utilizar a expressão “justiça social” na obra Saggio
teoretico di diritto naturale. Preocupado com as consequências do liberalismo, da rápida expansão
do capitalismo, através da Revolução Industrial, este autor buscou uma base teológica que
sustentasse a doutrina moral da Igreja. E conseguiu, pois seu pensamento influenciou a elaboração
da Rerum Novarum. Porém, a expressão justiça social suscitou controvérsias entre setores
conservadores da hierarquia e o “catolicismo social europeu”, pois se suspeitava de certa influência
socialista. Esta parece ser a razão pela qual não foi adotada por Leão XIII.
Taparelli parte do pressuposto da existência de dois direitos. O direito individual refere-se a
Deus e a si mesmo. O direito social especifica as relações humanas e deve fundamentar a justiça
social. “A justiça social é a justiça entre homem e homem”. Entre os homens considerados somente
em sua humanidade, sua racionalidade e liberdade, existem “relações de perfeita igualdade, por que
homem e homem aqui não significa senão a humanidade reproduzida duas vezes” (TAPARELLI
d’AZEGLIO, 1840-1843). A justiça social, portanto, em uma sociedade na qual as posições
ocupadas por cada um são consideradas secundárias em matéria de justiça, tem por objeto aquilo
que é devido ao individuo somente pela sua condição humana.
Os católicos sociais franceses do final do século XIX, principais responsáveis pela difusão do
termo “justiça social” na Europa, também a vincularam à justiça legal. Antoine, em Cours
d’économie sociale (1899), desenvolve uma teoria da justiça, em que reitera os significados de
justiça legal, justiça distributiva e justiça comutativa. A justiça legal é a vontade constante dos
cidadãos de dar à sociedade o que lhe é devido, a disposição habitual para contribuir, sob a direção
da autoridade suprema, ao bem comum, eis o que nós chamamos de justiça legal. Portanto, ela se
identifica com a justiça social, uma vez que há identidade de objeto, o bem comum. A justiça social
consiste na observância de todo o direito, tem o bem comum por objeto e a sociedade civil como
sujeito. A sociedade civil só existe na totalidade dos seus membros e todos eles devem colaborar na
obtenção do bem comum (sujeito da justiça social) e todos devem participar do bem comum (termo
da justiça social).
Em âmbito alemão, onde também há um retorno ao neotomismo, os editores da importante
revista Stimmen aus Maria-Laach, Pesch, Gundlach, Messner, Nell-Breuning e Tischleder adotaram
a expressão justiça social. Este fato foi decisivo para que o termo fosse acolhido pelo Magistério,
pois tais autores colaboraram de forma decisiva na elaboração da encíclica Quadragesimo
anno (1931), de Pio XI. Antes, somente Pio X, na encíclica Iucunda sane (1904), que comemorava
São Gregório Magno, utilizou o termo ao qualificar o santo como defensor da justiça social. O
conceito aparece na encíclica Studiorum Ducem (29 junho 1923), por ocasião do sexto centenário
de canonização de Tomás de Aquino. Nela, Pio XI afirma que nos escritos do Aquinate encontram-
se as refutações das teorias liberais da moral, do direito e da sociologia.
 4 Doutrina social da Igreja
O desenvolvimento do conceito de justiça social a partir da tradição aristotélico-tomista
recebe impulso nas Encíclicas Sociais. O conceito foi introduzido por Pio XI na Quadragesimo
Anno (1931). O termo é citado sete vezes e sempre acompanhado dos adjetivos comutativa,
legal/geral. Trata-se de um conceito que traz exigências precisas, tendo como critério a dignidade
humana, tal como definiu Taparelli.
A economia é seu campo de aplicação mais imediato. Para Pio XI, existe uma lei de justiça
social que deveria reger qualquer modelo econômico:
 É necessário que as riquezas, em contínuo incremento com o progresso da
economia social, sejam repartidas pelos indivíduos ou pelas classes
particulares de tal maneira, que se salve sempre a utilidade comum, de que
falava Leão XIII, ou, por outras palavras, que em nada se prejudique o bem
geral de toda a sociedade. Esta lei de justiça social proíbe que uma classe
seja pela outra excluída da participação dos lucros. (Q A 57)
Aplica-se à esfera econômica com a mesma universalidade da justiça legal. Portanto, “cada
um deve, pois, ter a sua parte nos bens materiais; e deve procurar-se que a sua repartição seja
pautada pelas normas do bem comum e da justiça social” (Q A 58). Também em Santo Tomás de
Aquino a justiça legal ordena o homem imediatamente ao bem comum.
A justiça social considera o ser humano na sua condição de pessoa humana, seus direitos e
deveres como membro da sociedade. Assim como todos têm obrigações, todos têm benefícios, uma
vez que o bem comum realiza-se somente “quando todos e cada um tiverem todos os bens que as
riquezas naturais, a arte técnica, e a boa administração econômica podem proporcionar.” (Q A 75).
Na ordem econômica, a fórmula da justiça social seria: todos os bens necessários para todos.
Ainda na esfera da economia, o mundo do trabalho é o campo principal de aplicação da lei da
justiça social. O salário é um dos seus instrumentos principais. Para valorizar com justiça o
trabalho, deve-se considerar sua dimensão pessoal e social (QA 69). O bem comum exige que se
promovam postos de trabalho como condição de segurança e bem estar. O desemprego é um reflexo
de uma economia injusta. A justiça social deve regular e determinar o salário do operário e de sua
família, dispensando a exploração do trabalho infantil e da mulher (Q A 71).
A justiça social não se aplica somente ao campo econômico. Também “as instituições públicas
devem adaptar o conjunto da sociedade às exigências do bem comum, isto é, às regras da justiça
social” (Q A 110). Os seres humanos, considerados como pessoas, são iguais e, portanto, toda
desigualdade em aspectos constitutivos da pessoa, como é o caso das suas necessidades materiais
básicas, deve ser eliminada. Não basta apelar à moralidade nas relações entre empresários e
trabalhadores, pois o sistema de produção se desenvolve no interior de uma estrutura social. A
justiça social inspira a reforma das instituições. O Estado tem um papel insubstituível na aplicação
desta lei (Q A 79), sempre em colaboração entre Estado, empresa e sociedade: “É preciso que esta
justiça penetre completamente as instituições dos povos e toda a vida da sociedade. Em defender e
reivindicar eficazmente esta ordem jurídica e social deve insistir a autoridade pública” (Q A 88).
O Concílio Vaticano, na Gaudium et spes, confere duas fundamentações teológicas decisivas.
A primeira é a dignidade da pessoa humana criada à imagem e semelhança de Deus:
 A igualdade fundamental entre todos os homens deve ser cada vez mais
reconhecida, uma vez que, dotados de alma racional e criados à imagem de
Deus, todos têm a mesma natureza e origem; e, remidos por Cristo, todos
têm a mesma vocação e destino divinos. Mas deve superar-se e eliminar-se,
como contrária à vontade de Deus, qualquer forma social ou cultural de
discriminação, quanto aos direitos fundamentais da pessoa, por razão do
sexo, raça, cor, condição social, língua ou religião (…) Com efeito, as
excessivas desigualdades econômicas e sociais entre os membros e povos
da única família humana provocam o escândalo e são obstáculo à justiça
social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e, finalmente, à paz social
e internacional (GS 29).
A segunda fundamentação encontra-se na referência “à criação de algum organismo da Igreja
incumbido de estimular a comunidade católica na promoção do progresso das regiões necessitadas e
da justiça social entre as nações” (GS 90). A justiça social como exigência da dignidade humana
tem alcance global e encontra sua fundamentação teológica no principio do destino universal dos
bens: “Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos; de
modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos, segundo a justiça,
secundada pela caridade” (GS 69). Paulo VI, seguindo esta orientação do Concílio, cria a Comissão
de Justiça e Paz (Motu próprio Catholicam Christi Ecclesiam, 6 janeiro1967).
João Paulo II mantém a justiça social como um eixo da doutrina social da Igreja. Para ele, a
“questão social” é identificada como questão de justiça social em cuja origem se encontram as
estruturas de pecado e os mecanismos perversos (Sollicitudo rei socialis). Ao situar o trabalho
humano como chave da questão social, o compromisso com a justiça se concretiza, em primeiro
lugar na luta pelos direitos trabalhistas (Laborem exercens). A prioridade do trabalho sobre o capital
é uma das exigências de justiça social e os sindicatos são os expoentes desta luta (LE 8). Bento
XVI, em Caritas in veritate, recorda que a doutrina social nunca deixou de pôr em evidência a
importância que têm a justiça distributiva e a justiça social para a própria economia de mercado,
não só porque integrada nas malhas de um contexto social e político mais vasto, mas também pela
teia das relações em que se realiza (CiV 35).
Caberá ao papa Francisco ampliar o conceito de justiça social (TORNIELLI e GALEAZZI,
2016; FRANCISCO, 2016). Na Evangelii Gaudium, o pontífice recorda que “ninguém deveria dizer
que se mantém longe dos pobres, pois ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos
pobres e pela justiça social” (EG 201). E destaca que a justiça social deve estar na pauta do diálogo
entre as religiões: o diálogo inter-religioso, fundado na atitude de abertura na verdade e no amor,
deve procurar a paz e a justiça social, é um compromisso ético que cria novas condições sociais
(cf. EG 250).
Na Laudato sí, o pontífice insere a justiça social no paradigma do cuidado da casa comum:
muitas vezes falta uma consciência clara dos problemas que afetam
particularmente os excluídos. Estes são a maioria do planeta, milhares de
milhões de pessoas (…) Uma verdadeira abordagem ecológica sempre se
torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o
meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos
pobres (LS 49).
O cuidado da casa comum aponta para a justiça intergeracional:
 Se a terra nos é dada, não podemos pensar apenas a partir dum critério
utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual. Não estamos
a falar duma atitude opcional, mas duma questão essencial de justiça, pois a
terra que recebemos pertence também àqueles que virão (LS 159).
 5 Novos enfoques e perspectivas
Na Conferência de Medellín (1968), o CELAM dedicou um documento inteiro ao tema da
justiça. Nele, se denuncia que “a miséria marginaliza grandes grupos humanos em nossos povos.
Essa miséria, como fato coletivo, é qualificada de injustiça que clama aos céus”. E proclamava a
força libertadora do cristianismo: “Cremos que o amor a Cristo e a nossos irmãos será não somente
a grande força libertadora da injustiça e da opressão, mas também e principalmente a inspiradora da
justiça social” (DM, Justiça, 1).
Em Puebla (1979), os bispos contemplaram a justiça social como um direito social que integra
o processo de evangelização. “Os povos deste continente têm direito à educação, à associação, ao
trabalho, à moradia, à saúde, ao lazer, ao desenvolvimento, ao bom governo, à liberdade e justiça
social, à participação nas decisões que concernem ao povo e às nações” (DP 1272).
Em Aparecida, o conceito foi ampliado de forma notável. “Reino de Deus, justiça social e
caridade cristã” é o título do primeiro item do capítulo 8. A justiça social se insere no amplo
contexto do anúncio do Reino de Deus e da promoção da dignidade humana. Primeiramente,
recorda que as obras de misericórdia estejam acompanhadas pela busca de uma verdadeira justiça
social (DAp 385).
Em seguida, destaca que os novos pobres que emergem na atualidade transcendem a dimensão
socioeconômica da justiça social:
 os migrantes, as vítimas da violência, os deslocados e refugiados, as
vítimas do tráfico de pessoas e sequestros, os desaparecidos, os enfermos
de HIV e de enfermidades endêmicas, os toxicodependentes, idosos,
meninos e meninas que são vítimas da prostituição, pornografia e violência
ou do trabalho infantil, mulheres maltratadas, vítimas da violência, da
exclusão e do tráfico para a exploração sexual, pessoas com capacidades
diferentes, grandes grupos de desempregados (as), os excluídos pelo
analfabetismo tecnológico, as pessoas que vivem na rua das grandes
cidades, os indígenas e afro-americanos, agricultores sem terra e os
mineiros. (DAp 402).
A justiça social não se reduz a políticas de distribuição mais equitativa da renda e riqueza. Um
novo tipo de demanda articula a equidade econômica ao reconhecimento de grupos discriminados.
A Igreja reconhece a partir da fé as sementes do Verbo presentes nas tradições e culturas dos povos
indígenas e originários no fortalecimento de suas identidades e organizações próprias (cf. DAp 529-
530). Também apoia “o diálogo entre cultura negra e fé cristã e suas lutas pela justiça social” (DAp
533).
Entidades e movimentos organizados em torno da etnia, do povo, do gênero e da sexualidade,
da profissão lutam para que suas identidades sejam reconhecidas. A reivindicação é ser
“reconhecido” como ser humano em sua constituição plena” (HONNETH, 2003). A injustiça social
também se expressa em formas de  discriminação cultural. As injustiças de natureza simbólica
decorrente de modelos sociais de representação excluem o “outro” através de seus códigos de
interpretação e de valores morais. Em muitos casos, a injustiça econômica é ampliada por este tipo
de injustiça. As duas formas se reforçam. O pobre não é apenas pobre econômico, mas também é
negro, é indígena, é mulher, é gay, é transexual etc. A superação da injustiça cultural está no
reconhecimento das diversidades das identidades e seus modelos sociais de representação. Política
de reconhecimento e política de redistribuição integram o conceito de justiça social. Ao combate à
desigualdade socioeconômica somam-se as lutas pelo fim das discriminações. Uma ampla justiça
social visa responder às duas reivindicações. O campo da justiça social é, simultaneamente, a
redistribuição e o reconhecimento (FRASER, 2001).
 6 Justiça socioambiental
A distribuição dos bens, as taxas e responsabilidade pelo cuidado são o foco da justiça
ambiental. As questões que envolvem a ecologia e a desigualdade social entrelaçam-se no conceito
de justiça socioambiental. A definição clássica de justiça: “dar a cada um o que lhe corresponde”
aplica-se também aos recursos naturais, não apenas aos direitos econômicos e sociais. A natureza é
um bem público que todos os seres humanos devem desfrutar. A justiça social é um dos quatro
tópicos da Carta da Terra: respeitar e cuidar da comunidade de vida; integridade ecológica; justiça
social e econômica; democracia, violência e paz. As atividades e instituições econômicas em todos
os níveis deveriam promover, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente
natural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual.
Eliminar a discriminação em todas as suas formas, como as baseadas em raça, cor, gênero,
orientação sexual, religião, idioma e origem nacional, étnica ou social.
A quem pertencem as reservas de petróleo, os rios, as florestas, a atmosfera? Existem, em
linhas gerais, os seguintes enfoques (IBANEZ, 2012): na justiça climática, os pobres são vistos
como as principais vítimas da crise ambiental provocada pelos ricos. Portanto, os principais
culpados pela crise devem pagar por ela; a justiça ambiental entende que o lixo tóxico e a sucata são
depositados nos territórios mais pobres e nas periferias, afetando grupos específicos:
afrodescendentes (racismo ambiental), pobres (classismo ambiental), mulheres (sexismo ambiental).
Esta visão propõe uma distribuição mais justa dos recursos naturais de tal forma que nenhum grupo
social possa ser prejudicado; os defensores da justiça ecológica incluem os animais não humanos na
distribuição; a justiça socioambiental intergeracional contempla as gerações futuras como
destinatárias da justiça.
7 Sistematização
O bem comum é o conteúdo da justiça social. A justiça social regula as relações do indivíduo
com a comunidade na sua condição de membros da comunidade. Na justiça social, visa-se
diretamente o bem comum e, indiretamente, o bem deste ou daquele individuo particular. O ser
humano é considerado em comunidade.
O reconhecimento é a atividade própria da justiça social. Ela visa regular a prática social de
considerar o outro como sujeito de direito (ou pessoa), como um ser que é “fim em si mesmo e
possui uma dignidade” (Kant). Um sujeito de direito somente se constitui como tal se for
reconhecido por outro sujeito de direito. A justiça social diz respeito a esta prática de mútuo
reconhecimento no interior de uma comunidade. Ela suprime toda a sorte de privilégios, no sentido
de uma desigualdade de direitos. Cada um só possui os direitos que aceita para os outros. Na
medida em que os demais membros não reconhecem os direitos de alguém, este fica desobrigado de
reconhecer os direitos dos demais. O sujeito da justiça social é a alteridade.
A pessoa humana é um ser concreto existente. Tem uma natureza humana, um todo em si
mesmo, não podendo ser reduzida a uma parte de um todo maior. A ela são devidos todos os bens
necessários para sua realização nas dimensões concreta, individual, racional e cultural. A igualdade
básica de cada pessoa é a igualdade nesta dignidade como conceito fundador da experiência
jurídico-política contemporânea.
Mesmo que a justiça distributiva, aplicando critérios pertinentes, como a
“cada um segundo sua contribuição” e “a cada um segundo sua
necessidade”, esteja presente na partilha dos bens produzidos, ainda assim,
o sistema econômico pode ser injusto do ponto de vista da justiça social, se
viola a dignidade da pessoa humana (Mater et magistra 82).
Para determinar o que é devido em um caso concreto, em termos de justiça social, não basta
seguir os cânones de igualdade proporcional da justiça distributiva, mas faz-se necessário atentar
para os bens de que o ser humano é merecedor em virtude da sua condição humana. A justiça social
contempla as seguintes dimensões: socioeconômica, jurídico-político-institucional, sociocultural,
moral/subjetiva.
A justiça social é a sistematização, em termos da teoria da justiça, do valor da dignidade da
pessoa humana presente no desenvolvimento da civilização: age de tal maneira que uses a
humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente
como fim e nunca simplesmente como meio (Kant). “Como quereis que os outros vos façam, fazei
também vós a eles” (Lc 6, 31).
 Élio Gasda, SJ. Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Belo Horizonte). Texto original
português.
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