Você está na página 1de 125

ANÁLISE

Q u e se leia, nestas paginas, e m^smo cm » i i .i % |«< u m » * , um


namento da relação dia língua ccim .1 hitlória n.i mili ni ilt> Hl«
curso. O trabalho da relpgao entin mrmori.i r 1IU1 nr ■> p • ri

t 1 discurso
desde já uma questão poíí»a à Análisr do di»>rurio, si* 1I1 11
efetivamente compreBm er o processo d« consliluiçAo 1I1 um nu
jeitó falante em sujeito ideológico de seu discurso: 1» que
'lem b rar", "esquecer"' e " re p e tir" para um sujeito enuiu iirlur

olítico
considerado no desenvolvimento histórico das prám .is di»i ur»lv
A questão tambéiji é política, no momento em que se inwnlarrt
formas de dom inação legitimadas por uma política sem memm i.i
O historiador Hübl, personagem de O livro d o riso e d o csr/nn i
m en to , de Milan Kundera, lemora-nos:

"Q u an do se q u e r liqu id ar o s p o v o s,
c o m e ç a -s e p o r lh es tirar a m em ória.'1

Jea n -Ja c q u es Courtitu

Prefácio de MichelPêcheux
+ -------------------------- —

ISSN 978-85-7600-160-7

EdUFSCar 9r788576"0016Õ7
EdUFSCar
J e a n -J a c q u es C o u r t in e
R E IT O R Targino de Araújo Filho
Prefácio de Michel Pêcheux
V IC E -R E IT O R Pedro Manoel Galetti Junior

D IR E T O R DA E D U F S C A R Oswaldo Mário Serra Truzzi

Ed U F SC a r - Editora da Universidade Federal de São Carlos

c o n s e l h o e d it o r ia l José Eduardo dos Santos

José Renato C o u ry

Nivaldo Nale

Paulo Reali Nunes

Oswaldo Mário Serra Truzzi (Presidente)

s e c r e t á r ia e x e c u t iv a Maria Cristina Priore

ANÁLISE
DO DISCURSO POLÍTICO
O DISCURSO COMUNISTA ENDEREÇADO AOS CRISTÃOS

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SAO CARLOS


Editora da U niversidade Federal de São C arlo s
V ia W ashington Luís, km 235
13 5 6 5 -9 0 5 - São C arlos, SP, Brasil
T elefax { 16 ) 3 3 5 1 - 8 1 3 7
http://ww w.editora.ufscar.br EdUFSCar
edufscar@ ufscar.br São Carlos, 2009
© 2009, Jean-Jacques Courtine
SUMÁRIO
Capa
Cristina Akemi G. Kim inam i
Projeto gráfico
Vltor M assola Gonzales Lopes APRESENTAÇÃO 7
Preparação e revisão de texto
Priscilla Del Fiori
PREFÁCIO 21
M arcelo Dias Saes Peres
Editoração eletrônica
Patricia dos Santos da Silva INTRODUÇÃO 27

Tradução (Bacharéis em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no âmbito do
Projeto "A Tradução no Instituto de Letras: da teoria à prática”) Pa r t e i
Cristina de Cam pos Velho Birck, D idier M artin, Maria Lúcia Meregalli, M aria Regina Borges CAPÍTULO I
O sório, Sandra Dias Loguércio e Vincent Leclercq
Supervisão da tradução
A noção de "condição de produção do discurso" 45
Patrícia Chittoni Ram os Reuillard
CAPÍTULO II
Revisão técnica
Carlos Piovezani O conceito de formação discursiva 69
M aria Cristina Leandro Ferreira
Vanice Sargentini
Preparação do texto
II
Pa r t e
Luzmara Curcino CAPÍTULO III
Orientações teóricas da pesquisa 99
CAPÍTULO IV
Constituição do corpus da pesquisa 123
Ficha catalográfica elaborada pelo D ePT da Biblioteca Com unitária da U FSCar

Courtine, Jean-Jacques.
Pa r t e III
C864a Anãlise do discurso político : o discurso comunista CAPÍTULO V
endereçado aos cristãos / Jean-Jacques Courtine. — São
Carlos : EdUFSCar, 2009. Elementos para definição da noção de "tema de
250 p.
discurso" 153
ISBN - 978-85-7600-160-7
CAPÍTULO VI
Efeitos discursivos: contradição, real e saber 173
1. Anãlise do discurso. 2. Discurso político. 3. Enunciado
dividido. 4. Memória discursiva. I. Título.

CONCLUSÃO 235
CDD - 401.41 (20*)
CDU - 801

Todos os direitos reservados. N enhum a parte desta obra pode ser reproduzida ou transm itida BIBLIOGRAFIA 241
por qualquer form a e/ou quaisquer meios (eletrônicos ou m ecânicos, incluindo fotocópia e
gravação) ou arquivada em qualquer sistema de banco de dados sem perm issão escrita do
titular do direito autoral.
APRESENTAÇÃO

POLÍTICAS DO SENTIDO, PRÁTICAS DA


EXPRESSÃO E HISTÓRIA DO CORPO.
UMA APRESENTAÇÃO DA OBRA DE JEAN-
JACQUES COURTINE AO LEITOR BRASILEIRO

Ao apresentarmos ao leitor brasileiro a obra de Jean-Jacques Courtine


que ora se traduz e publica-se por aqui se nos impõe, antes de tudo, uma
ressalva. N ão se trata neste caso de prefaciar o texto de Courtine e isso, ao
menos, por uma razão: quando de sua aparição em 1981, na França, a publi­
cação contou com um prefácio de Michel Pêcheux, precursor da Análise do
discurso francesa, interlocutor constante de Courtine e um de seus mestres.
Como rezam gênero e protocolo, o prefácio de Pêcheux consiste num texto
de um autor já célebre em certo domínio, nessa circunstância, na Análise
do discurso e em suas adjacências, que recomenda a leitura de um colega
que ali ainda não desfruta do mesmo reconhecimento. Tamanha é a impor­
tância adquirida entre nós pelo prefácio de Pêcheux, intitulado O estranho
espelho da Análise do discurso, que ele parece não raras vezes ter ganhado
vida própria e autônom a ao ser referido como um dos signos, lançados pelo
próprio fundador desse campo de saber, de uma das profundas inflexões
pelas quais passou a Análise do discurso. Sua relativa autonomia não se
dá, contudo, em detrimento do texto prefaciado, justamente porque é nele
que Pêcheux reconhece o gesto de uma mudança que significa não mais,
como outrora, identificar os traços homogêneos dos discursos políticos de
8 A nálise do discurso político A presentação 9

esquerda, de modo análogo ao que era feito desde o final dos anos 1960 nos tou e continua a freqüentar a América Latina. Desde o envolvimento com
primeiros trabalhos da AD sobre os discursos políticos, com o se cada um estudos da Análise do discurso, campo composto por lingüística e psicaná­
deles brotasse de fonte única, límpida e exclusiva. lise, sob a égide do materialismo histórico, passando pelo estudo das prá­
Tal com o destaca Pêcheux, Courtine faz de certos dados do discurso ticas expressivas do rosto, até a história do corpo, seu trabalho foi sempre
comunista endereçado aos cristãos a ocasião de urdidura de conceitos, marcado pela transdisciplinaridade, sendo constantemente fiel a determi­
desde então tornados capitais para a AD, com o os de “enunciado divi­ nados princípios e permanentemente sensível às metamorfoses de objetos
dido” e de “metpória discursiva”. Na língua e na história, desde M arx, e objetivos. Atualmente, Courtine é Professor de Antropologia cultural da
passando por detratores da fé religiosa, até aqueles que, “com a mão es­ Université de Paris Ul/Sorbonne N ouvelle e seus últimos trabalhos consis­
tendida”, buscavam a conciliação entre o material e o m ístico, a fala cristã tem em investigações históricas que tratam das transformações modernas e
apresentou-se, em diferentes contextos e de distintos modos, com o um contemporâneas do corpo, do olhar e da virilidade.
outro privilegiado do discurso comunista, com o um seu objeto incontor- Já em meados da década de 1980, o foco das pesquisas de C ourtine
nável de m em ória, sendo-lhe, portanto, constitutivo. O discurso com u­ já havia se ampliado consideravelmente e seu interesse recaía sobre as
nista não apenas se dirige aos cristãos, antes, as vozes destes últimos são reflexões “lingüísticas” de George Orw ell, sobre as emergências e m ani­
já parte ambivalente dele próprio, com o fala e silêncio, com o memória e festações da glossolalia, sobre a historiografia lingüística e ainda sobre as
esquecimento. M ais atenta à contradição do que à reprodução, esta últi­ metam orfoses do discurso político contem porâneo. Ante as transform a­
ma tão presente nos escritos mais conhecidos de Althusser, a tese de Cour­ ções do atual discurso político e a abordagem insatisfatória que a Análise
tine faz convergir primorosamente a teoria do discurso com postulados do discurso lhe dispensava, Courtine declarava que “o projeto de uma
da arqueologia de Foucault e demonstra que as form ações discursivas são análise dos discursos que atribua à discursividade sua espessura histórica
freqüentadas por seus outros, entre os quais e não de modo aleatório a não está caduco”, acrescentando, logo em seguida, que “ele deve ser re­
memória tende a eleger um antagonista singular, cuja presença se dá sob pensado em função dos resultados aos quais ele conduziu, das dificulda­
a forma de repetição e de reform ulação, de inscrição duradoura ou de des que ele encontrou, dos impasses aos quais ele chegou”.1
apagamento repentino. Em tom enfático e au tocrítico, Pêcheux diz isso Movido pela observação das mudanças do atual discurso político,
e mais nas páginas que prefaciam o texto de C ourtine; reconhece-lhe o Courtine postula então a necessidade de alargar o enfoque da AD. A cons­
valor, sublinha-lhe o alcance e vaticina uma nova era na AD. Seu prefácio tituição, a formulação e a circulação da discursividade política contem po­
está traduzido e reproduzido nas páginas a seguir. rânea implicavam i) a rápida obsolescência de suas filiações históricas e o
N ão nos cabe, portanto, a redação de outro prefácio, mas somente refluxo de princípios ideológicos; ii) sua manifestação sincrética, rápida e
uma sumária apresentação do autor e de sua obra. Do autor, daremos uma fragmentada, na qual o verbo não poderia mais ser dissociado do corpo,
brevíssima notícia, já da obra, destacaremos a porção menos conhecida pe­ do rosto, dos gestos e das imagens; e iii) sua transmissão em novas e mais
los analistas brasileiros do discurso, que a freqüentam desde a década de velozes mídias. O close sobre a fisionomia expressiva do político, em suas
1980. Com efeito, Jean-Jacques Courtine parece sempre ter sido afetado intervenções televisivas, havia se tornado uma estratégia recorrente e pro­
pela diáspora, em cujo bojo residem a diversidade e a diferença: filho de alto duzia desde então um efeito de transparência dem ocrática. Assim, a com­
funcionário do judiciário francês, Courtine nasceu na Argélia, realizou sua preensão do discurso político passava a exigir um saber sobre o rosto: “Ao
form ação intelectual na França, no decurso da qual participou ativamente
do grupo fundador da AD em torno de M ichel Pêcheux, lecionou durante
1 C o u r t i n e , J- J. Corps et discours. Eléments d'histoire des pratiques langagières et expres-
quinze anos em grandes universidades da Costa Oeste dos EUA, frequen-
sives. (T h èsc d’É ta t). N an tcrre, p. 5 8 , 1989.
10 A nálise do discurso político A presen tação 11

observar as transformações contemporâneas de seu objeto, uma análise do o controle de sua expressão. Depois de se referirem a esse paradoxo moder­
discurso político poderia evitar as questões em torno do rosto?”.2 no, Courtine e H aroche encetam um recenseamento comentado de obras e
Diversas facetas do discurso político de nossos tempos paulatinamen­ autores que, já tornados clássicos em ciências humanas, trataram indireta­
te impuseram a Courtine o exame das relações entre corpo e discurso nas mente desse fenômeno. Entre os pensadores que aí figuram, representando
novas formas da fala pública. Tal apreciação, que inicialmente limitava-se diferentes perspectivas de trabalho, encontram-se N orbert Elias, M ax We-
ao período contem porâneo e ao campo político, transform ou-se, pela pró­ ber, M ichel Foucault, entre outros.
pria historicidade dos objetos ai envolvidos, em um conjunto de pesqui­ O Processo Civilizador, de Elias, e a racionalização dos co m p orta­
sas sobre a expressão das emoções na Era M oderna, em geral, e sobre as m entos práticos, de Weber, referem-se, cada um a seu modo, ao proces­
práticas e representações do rosto, em particular, a partir do século X V I. so de desenvolvimento do individualismo, no interior do qual se situam o
Depois de alguns artigos que trataram preliminarmente do tem a, em 1988 controle de si, o recalcamento das pulsões e a continência dos sentimentos.
veio a lume a H istoire du visage ,J escrito a quatro mãos com Claudine Ha- No que concerne a Foucault, Courtine e Haroche afirmam que o filósofo
roche. Em síntese, a H istória do rosto insere um princípio antropológico francês buscou compreender o controle dos com portam entos individuais
em uma história de duração longa e média na tentativa de compreender mediante a noção de disciplina, isto é, por meio dessa modalidade de exer­
uma ambivalência fundamental em torno da expressividade moderna: a cício do poder cujo fim primordial consiste na vigilância e no domínio dos
injunção a expressar-se e o dever de controlar a expressão. Em diversas corpos e de seus movimentos, gestos e atitudes.4 As disciplinas seriam a
épocas e culturas, reitera-se a ideia de que o rosto fala, de que a face é no transposição de uma antiga forma de poder, qual seja, o “poder pastoral”,
corpo a “janela da alm a”. Em tempos e lugares distintos, porém, a fisiono­ para o espaço político, e buscariam controlar o corpo, penetrar a alma e
mia não se expressa sempre do mesmo modo, tam pouco transmite invaria­ desvelar a interioridade de cada um. Em seguida, os autores da H istória d o
velmente o mesmo conteúdo. Por volta do século X V I, o advento de novas rosto acrescentam que Foucault, entretanto, não tratou das ambivalências
configurações na econom ia, nas artes, nas ciências e nas tecnologias, na em torno do desenvolvimento da expressão individual.5 Tal com o ocorre
religião e na política produziu, a partir de valores burgueses, humanistas, com os demais autores que fundamentam as considerações de Courtine e
antropocèntricos e individualistas, profundas transform ações nas manei­ Haroche sobre a expressividade moderna, Foucault é lido com m e il faut,
ras de agir e pensar dos europeus e, por extensão, instaurou novas formas ou seja, de modo crítico e conseqüente.
de expressão para o homem ocidental moderno: o rosto é capital nas per­ N os anos que se seguiram à publicação da H istória d o rosto, Courtine
cepções de si, nas sensibilidades do outro, seja nos rituais da sociedade civil continuou a se interessar por diferentes campos de saber e por diversos
seja nos protocolos da política. objetos: da análise do discurso às transformações da sensibilidade face às
Houve uma série de lentas metamorfoses nos modos de observar o ros­ deformidades corporais, passando pelas glossolalias, pela cultura e pela
to, por meio de um aumento das sensibilidades individuais que tornaram política am ericana, pela história e crítica da AD e pelas novas formas do
a expressão cada vez mais efêmera e animada. Desde a Idade M oderna, ao
tornar-se indiscernível da expressão singular de seu rosto, o indivíduo é ins­
4 “Esses m étodos que perm item o controle m inucioso das operações do co rp o , que realizam
tado a expressar-se para se constituir como sujeito social. Paradoxalmente, a su jeição co n stan te de suas forças c lhes im põem uma relação de d ocilidadc-u tilidade,
o mesmo movimento que o instiga a exprimir-se impõe, em contrapartida, são o que p odem os cham ar as disciplinas. M uitos processos disciplinares existiam há m ui­
to tem po: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas tam bém . M as as disciplinas se to r n a ­
ram no d ecorrer dos séculos X V II e XVI11 fórm u las gerais de d o m in ação ”. F o u c a u l t , M .
2 Op. c it., p. 82. [1975]. Vigiar e punir : n ascim ento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987. p. 118.
3 Histoire du visage. Exprimer et taire ses ém otions (du XVIe
C o u r t i n e , J .- J .; H a r o c h e , C . 5 “N a análise desses poderes, disciplinares ou individualizantes, os parad oxos constitutivos
siècle au débitt du XIX e siècle). Paris: Payot, 1988. da individualidade estão, inicialm ente, ausentes” (op. c it., p. 11).
14 Análise do discurso político A presen tação 15

dos poderes que se exercem sobre a carne, foi o de ter até a contemporaneidade —incide sobre a exposição dos corpos e sobre o
inscrito definitivamente o corpo no horizonte histórico olhar que os espreita:
da longa duração.’
A história dos monstros é, por conseguinte, tanto aque­
Ao afirmar que Foucault está presente em boa parte dos trabalhos da la dos olhares que foram lançados sobre eles: aquela
H istória d o co rp o , Courtine não deixa, porém, de acrescentar, logo em dos dispositivos materiais que inscreviam os corpos
seguida, que essa presença pode ser “explícita ou im plícita, reivindicada ou monstruosos em um regime particular de visibilidade,
criticad a”. De modo análogo, ao sublinhar que é a Foucault que se deve a aquela ainda dos signos e das ficções que os represen­
inscrição do corpo na história de longa duração, não se deixa de mencio­ tam; quanto aquela das emoções sentidas em face da
nar aqueles que contestam seu modo de pensar o exercício do poder sobre deformidade hum ana."
os corpos. Considerando esse posicionamento de C ourtine frente ao pen­
sam ento foucaultiano, percebemos que sua leitura de Foucault reconhece- Até o final do século X IX , as deformidades humanas eram exibidas
lhe os méritos, mas também identifica pontos passíveis de critica e aspectos publicamente, sem nem sempre despertar maiores constrangimentos ou
de fenômenos por ele tratados sobre os quais é ainda possível avançar. E melindres em seus espectadores: crianças microcéfalas, irmãos siameses,
justamente sob essa forma que Foucault se apresenta naquela que parece mulheres barbadas, homens elefantes eram expostos em feiras populares;
ser a principal intervenção de Courtine na H istória do corp o, o longo ca­ espécimes teratológicos, apresentados em frascos, e patologias sexuais, em
pítulo intitulado “Le corps anormal: Histoire et anthropologie culturelles museus de cera; morfologias exóticas e rituais selvagens eram , enfim, exi­
de la difform ité”. 10 bidos em zoológicos humanos. Além disso, a mise en scène de algumas
Com vistas a escrever uma história dos consecutivos sucessos, declí­ exibições incluía truques e ilusões de óptica, com o decapitados falantes,
nios e desaparecimentos da exibição das deformidades dos corpos humanos, homens-macaco e mulheres-aranha. Depois de apresentar esse quadro,
Courtine concentra-se no período que se estende do começo do século X IX Courtine sublinha o fato de que há menos de um século essas práticas
até o final do século X X . Trata-se, segundo ele, de tentar apreender uma ainda eram comuns, embora pareçam “surgir de um passado bem mais
transformação fundamental do olhar contemporâneo sobre o corpo, con­ distante, de uma idade já há muito encerrada da diversão popular, de um
siderando a extração da diferença corporal do conjunto daqueles que eram exercício arcaico e cruel do olhar curioso. Essas sensibilidades deixaram
antes concebidos como exceções monstruosas e sua inclusão no universo dos de ser as nossas”.12
corpos comuns. Compreender essa metamorfose do olhar é essencial para Na década de 1880, chegou-se ao apogeu da exibição do anorm al no
aqueles que buscam conhecer as formas de constituição da individualidade interior de um dispositivo em que a exposição dos extraordinários, dos
moderna e contemporânea pelo viés da relação entre corpo e identidade. deform ados, dos enfermos e dos mutilados tornou-se uma prática essen­
Para tanto, a história dos “monstros” —conforme a designação da tradição cial das primeiras form as da indústria moderna de diversão de massa.
Tam anhas são a distância e a diferença entre nossa mentalidade contem ­
porânea e a dos espectadores de então que mal conseguimos im aginar o
alcance dessa prática tão corriqueira na cultura visual das cidades eu-
9 Op. c it., p. 9.
ropeias e norte-am ericanas daquele período. Os “m onstros” situavam-se
10 C o u r t in r , J .- J . Le corps an orm al. H istoire et an thropologie culturelles de la d ifform ité.
In: H istoire du corps. v. III. Les m utations du regard. Le X X e siècle. Paris: Seuil, 2006.
p. 2 0 1 -2 6 2 [T rad ução brasileira: O co rp o anorm al. H istó ria e an trop olog ia cultu rais da 11 Op. c it., p. 202.
deform idade. In: História do corpo. v. III. Petrópolis: Vozes, 2 008.]. 12 Op. c it., p. 203.
16 Análise do discurso político A presentação 17

no centro dessa “teatralização do anorm al”, da qual eram a origem e o meios coercitivos para essa pedagogia de massa, ao contrário de um espaço
últim o modelo e para a qual se apresentavam com o um princípio de in­ panóptico e de vigilância do Estado”. Nesse caso, trata-se antes de “uma
teligibilidade. Aqui novamente ouvimos os ecos de Foucault: “O espaço rede flexível e disseminada de estabelecimentos de espetáculo, privados ou
singular que a figura do monstro ocupava então entre os ‘anorm ais’ não públicos, permanentes ou efêmeros, sedentários ou nômades, os prelúdios
escapou a M ichel Foucault”, assevera C ourtine, transcrevendo na seqüên­ e, posteriorm ente, a form ação de uma indústria de diversão de massa que
cia uma passagem de Les anormaux-, “O monstro é o modelo ampliado, distrai e fascina”.15
a form a, desenvolvida pelos próprios jogos da natureza, de todas as pe­ Outra interpretação foucaultiana contra a qual Courtine se posiciona
quenas irregularidades possíveis. E, nesse sentido, podemos dizer que o é aquela que concebe a monstruosidade como exceção, no final do século
m onstro é o grande modelo de todas as pequenas discrepâncias”.13 X IX . Para Foucault, o monstro, fenômeno extremo e raro, viola as leis da
Eis aqui um aparente paradoxo: “O monstro é o grande modelo de natureza e da sociedade. Ele é anôm alo e ilegal. De acordo com Foucault,
todos os pequenos desvios”, mas a exibição das mais graves deformidades “só há monstruosidade onde a desordem da lei natural vem tocar, abalar,
subsume-se à exposição, vigilância e punição das leves diferenças ordinárias. inquietar o direito”. Courtine salienta, entretanto, que a observação cien­
Os criminosos, os libertinos e os degenerados - enfim, os “anormais” — ao tífica sobre os monstros e o posterior reconhecimento de seu caráter hu­
mesmo tempo derivam dos monstros e decretam seu fim. Ao perder a força mano progressivamente suprimiram sua condição de “contra a natureza” e
de uma alteridade radical, o monstro ganha um poder de disseminação que “fora da lei”: “Por essa razão, é difícil seguir inteiramente M ichel Foucault
alcança uma ampla gama de variadas delinquências criminais e de peque­ em sua análise do caráter de exceção irredutível do monstro hum ano”. Em
nas deturpações sexuais: “o anormal é no fundo um monstro cotidiano, um seguida, Courtine acrescenta que
monstro banalizado”.14 Diante da interpretação foucaultiana, Courtine re­
conhece a pertinência de certos aspectos que ela apresenta, mas não sem lhe Foucault, com justeza, observa que a questão do monstro
acrescentar uma perspectiva histórica distinta, que, de certo modo, modifica- aparece em um domínio que ele qualifica de “jurídico-
a sem necessariamente recusá-la por inteiro: a difusão do “poder de norma­ biológico”. [...] Não poderíamos dizer, entretanto, que
lização” sobre as pequenas diferenças não significou o desaparecimento da o desenvolvimento de uma teratologia científica tenha
exibição das grandes deformidades durante o século X IX . Ao contrário, em vindo confirmar a parte “biológica” dessa interpretação:
face do monstro, os menores desvios frequentemente se desvaneciam; na pre­ os princípios sobre os quais ela se baseia estabelecem
sença do “monstro” obliteram-se as demais e menores diferenças. que o monstro, longe de ser “contra a natureza”, obe­
Q uando Foucault analisa a emergência e a extensão do poder de nor­ dece completamente às leis dessa última. Sua lição é cla­
malização que recai sobre as múltiplas figuras do anormal durante o século ra e simples: o corpo monstruoso é um corpo humano.
X IX , seu enfoque privilegia os campos científico e jurídico. Por seu turno, [...] O estabelecimento pela ciência do caráter humano
Courtine sustenta que se a normalização está presente nesses dom ínios, o das monstruosidades iria ter conseqüências fundamen­
estabelecimento da norma se dá principalmente por meio das diversas e ta^ quanto à atribuição de uma personalidade jurídica
corriqueiras ocasiões de exposição popular das anormalidades corporais aos monstros: do mesmo modo como não era “contra a
humanas. Ainda diferentemente de Foucault, Courtine postula que nesse natureza”, o monstro não estava fadado a permanecer
dispositivo de exibição dos monstros não existe “nenhuma necessidade de “fora da lei”. A ciência havia reinstalado o monstro em

13 F o u c a u l t , M . [1975]. Os anorm ais. São Paulo: M artin s Fontes, 2001. p. 70-71.


14 O p. c it., p. 7 1 . 15 C ou rtin e (2006, p. 207).
18 A nálise do discurso político A presentação 19

seu devido lugar na ordem da natureza; o direito o rein­ político, sem jam ais descurar da articulação entre as duas dimensões cons­
tegra à sua ordem da lei.16 titutivas do discurso: a lingüística e a histórica. Ademais, uma sua leitura
atenta proporciona necessariamente a iniciados e iniciantes das ciências
Parece-nos ingênuo e improdutivo buscar a interpretação correta nes­ humanas um maior refinamento em suas interpretações da produção dos
sas distintas reflexões ou atribuir a exclusividade da verdade a Foucault ou sentidos na sociedade. Por outro lado, examinando-a no conjunto da obra
a Courtine. Definitivamente, não é esse nosso propósito, mesmo porque, de Courtine, percebemos que o autor pode ser concebido ainda e sempre
nesse caso, os trabalhos de ambos não com partilham os mesmos escopo com o um analista do discurso político, em sentido amplo e profundo: em
e objeto. A respeito dos “m onstros”, enquanto Foucault enfatiza obliqua­ que pesem as inflexões da trajetória de seu pensamento, Courtine contínua
mente uma sua propriedade — a raridade —, Courtine privilegia explici­ e incessantemente buscou compreender as relações de força e de sentido
tamente um fenômeno que o envolve, qual seja, sua exibição. Enquanto inscritas ora no discurso político, ora nas expressões do rosto moderno,
Foucault sublinha a vontade popular de vê-los suprimidos e a piedade que ora ainda nas deformidades do corpo e no olhar que incide sobre elas.
eles despertam, Courtine ressalta a curiosidade, a inquietação e o fascínio Talvez ainda assim alguém pudesse objetar: a publicação de um anti­
do olhar que os procuram. Foucault investiga a emergência dos anormais go texto francês de Análise do discurso, em tempos em que a AD brasileira
e do poder de norm alização; Courtine, a transform ação das sensibilidades já se encontra tão forte e bem estabelecida, reproduz e reatualiza, uma vez
em face das deformidades do corpo humano. Os diálogos que Courtine mais, o paradigma de colonização europeia do pensamento nacional. A
estabelece com o pensamento de Foucault demonstram com o ele apropria- essa objeção prenhe de ingênua xenofobia responderíamos que nossa in-
se de modo produtivo do pensamento alheio, sendo-lhe fiel, na medida em terlocução com Courtine nos ensinou que —diferentemente de outras prá­
que lhe critica e potencializa seu alcance. ticas acadêmicas estrangeiras que apagam fundadores e que por aqui criam
Autor e obra aludidos, voltemo-nos a uma questão que a publicação nichos de disseminação de sua produção pasteurizada — sua obra e suas
de Análise d o discurso p olítico poderia suscitar: por que razão traduzir e intervenções são estímulos constantes à criatividade de nosso pensamento,
publicar este ano, no Brasil, a versão modificada de uma tese de doutorado por meio de nossa prática imemorial de nutrirmo-nos antropofagicamente
francesa defendida em 1980 e inscrita num dos domínios da lingüística na­ de ideias, em princípio, fora de tempo e lugar. A publicação e a conseqüen­
cional? Antes de tudo, porque se trata de um clássico em Análise do discur­ te leitura de Análise d o discurso político podem, por isso, dar ensejo a um
so e de uma leitura quase obrigatória aos cientistas sociais, cujo acesso es­ antigo desiderato de nossa form ação identitária e intelectual. Vejamo-lo
tava restrito a um pequeno grupo de iniciados. O texto de Courtine apenas em seguida, com vistas a encerrar esta apresentação.
podia ser lido por aqueles que, de posse do material de circulação bastante A consolidação da Análise do discurso no Brasil é parte de um todo
restrita, dominam consideravelmente a língua francesa. Tratava-se, antes que se repete há tempos e expõe novamente nosso melhor e nosso pior: de
desta edição brasileira, de obra muitíssimo conhecida, bastante citada e um lado, a capacidade de bem adaptar, de reelaborar e de desenvolver prá­
efetivamente pouco lida. ticas e pensamentos alheios que nos parecem nunca ter sido inteiram ente
Sua publicação justifica-se ainda pelo fato de que a obra traduzida estranhos; de outro, a banalização de ideias e o desleixo na execução de
tem um estatuto de divisor de águas para os estudos do discurso, à medi­ procedim entos operacionais que deviam ser levados a cabo de modo per­
da que, apoiando-se na arqueologia foucaultiana, demonstra com dados, sistente e rigoroso. Com efeito, a observação e a experiência m ostram que
teoria e método o funcionamento heterogêneo da memória no discurso cada cultura experim enta, absorve, assimila e/ou reprocessa dos legados
de outras tradições de pensamento tão-som ente aquilo que se ajusta e se
ajeita aos seus modos de agir e pensar. A AD nasceu com o o Brasil e talvez
16 Op. c it., p. 2 3 0 -2 3 1 .
20 A nálise do discurso político

também por essa razão tão bem se instalou por aqui: nasceram am bos de PREFÁCIO
um processo que une o distinto e cria um uno diverso em si mesmo. Trata-
se de uma mistura bem e malsucedida de diferenças, dotada no mesmo O ESTRANHO ESPELHO DA ANÁLISE DO
cerne de força e de debilidade. M ovidos pelo desejo de fazer prosperar DISCURSO
ainda mais a prim eira, em detrimento da últim a, damos a ler ao público Michel Pêcheux1
brasileiro uma pequena, mas representativa fração do conjunto da obra
de Jean-Jacques Courtine.

Carlos Piovezani e Vanice Sargentini


“ Estou convencido de que, se não víssemos as pessoas
São Carlos, outono de 2009 m ovimentarem os lábios, não saberíam os quem fala em

uma sociedade, tam pouco saberíam os qual é o objeto

real em uma perfeita sala de espelhos.”

G . C . Lichtenberg

Neste espaço incerto em que a língua e a história se defrontam —e se


enfrentam —mutuamente, o termo Análise do discurso conquistou progres­
sivamente reconhecimento: algumas fachadas institucionais, oferta e procu­
ra, circulação cada vez m aior... Paradoxo de um reconhecimento implanta­
do em uma área marginal: ainda uma cidade construída no campo?
São alguns traços desse paradoxo que eu gostaria de definir aqui, in­
troduzindo a leitura de J.-J. Courtine. O paradoxo da Análise do discurso
encontra-se (por suas vicissitudes, guinadas e derrotas) na prática indis­
sociável da reflexão crítica que ela exerce sobre si mesma sob a pressão
de duas determinações maiores: de um lado, a evolução problem ática das
teorias lingüísticas; e de outro, as transformações no cam po político-histó-
rico. São, portanto, dois estados de crise que se encontram no ponto crítico
da Análise do discurso.
Esse encontro é comprovado pelo fato de que tal disciplina parece ter
experimentado desde suas origens uma tendência irresistível, na França, a

1 C .N .R .S . Université de Paris V II.


22 Análise do discurso político Prefácio 23

eleger com o objeto de estudo os “discursos políticos” (mais frequentemente firmada (tendendo a tratar os nativos da política com o imbecis) que vigora
os de esquerda) para auscultar suas especificidades, alianças e demarcações.2 alternadamente.
Essa inclinação irresistível, porém, tem uma história própria, visto De que afinal se busca proteção nesse jogo de esoelhos em torno de
que é afetada pela história: a análise dos discursos (políticos) surgiu na uma falta cujas posições se refletem e se alternam infinitamente? Que falta
forma de um trabalho político e científico especializado, visando a tom ar e preciso exorcizar por meio dessa laboriosa série de dispositivos artificiais
posição em um campo ideologicamente estruturado (demonstrando/cri­ de leitura, que vai da contagem léxico-estatística dos vocábulos à análise
ticando/justificando este ou aquele discurso, inscrito nesta ou naquela sintática das seqüências, à desconstrução dos mecanismos enunciativos e
posição). Os deslizes e os ressurgimentos que afetam o campo político, das “estratégias argumentativas”?
particularm ente o francês, parecem determinar uma inflexão do trabalho Não se deveria ver em tudo isso o sintoma contraditório de uma dupla
de análise para a explicação das determinações a longo prazo e das cau- impaciência (dupla porque tange ao campo das ciências pelo viés da Lin­
salidades de longa duração: de fato, os discursos políticos, muito além de güística e ao da política), empenhando-se em descobrir o que se esconde
sua função de camuflagem e de autojustificação, constituem tam bém um sem cessar no que se diz?
vestígio, uma rede de indícios para compreender concretam ente com o se Tal impaciência não poderia deixar de encontrar no “discurso comu­
chegou até aqui e, ao mesmo tempo, para reconstruir a memória histórica nista” seu objeto privilegiado, correndo o risco às vezes de se ver presa a ele a
a partir deles, em especial a do movimento operário. ponto de refleti-lo e de reproduzi-lo: tratar-se-ia finalmente de uma questão
Retrospectivamente, a Análise do discurso (político) mostra-se assim de cientistas comunistas dedicados à análise do discurso por meio do discur­
com o veiculadora de uma política (da Análise do discurso), mantendo uma so comunista, compreendido como esse espelho histórico excepcional em
relação fundamentalmente ambígua com o que tomo a liberdade de chamar que precisamente a “ciência” vem supostamente condensar-se na política?
aqui de im becilidade. Simultaneamente, porém, é certo que o questionamento de tal impaciên­
Fazer análise do discurso não seria, de fato, pressupor uma falta (uma cia teórica da Análise do discurso (e o reconhecimento do que fracassou em
deficiência, carência ou paralisia) que afeta a prática “natural” da leitura suas descobertas)4 raramente acontece hoje sem uma interrogação política so­
e da escrita políticas, a qual uma p rótese teórico-técnica, mais ou menos bre a história das práticas comunistas, tais como inscritas na discursividade.
sofisticada, pretenderia preencher? Assim, o questionam ento teórico de toda concepção homogeneizan-
Conform e o lugar que a Análise do discurso atribui para si em relação te da discursividade, classificando-a em tipologias e concebendo-a como
a essa falta, trata-se ou do fantasma da objetividade minuciosa (que con­ a identidade de um mesmo que se repete,5 seria — sobretudo quando se
siste literalm ente em se fazer de imbecil, impedindo-se de pensar no senti­
do sob a textualidade)3 ou daquele da posição partidária cientificamente 4 D e m odo an álo g o à decepção dos historiad ores diante de m ontanh as m etod ológicas que
geram resultados pífios.
5 J .-J. C ou rtin e realiza, a respeito disso, uma releitura das teses de F o u cau lt, p articu larm en te
sobre a n o ção de form ação discursiva, inicialm ente apresentada cm Arqueologia d o saber.
2 B asta percorrer, p o r exem plo, a lista dos núm eros da revista Langages dedicados à p ro­ Em relação às p osições subjacentes à A nálise autom ática do discurso em sua versão origi­
blem ática do discurso. As referências ao discurso estatal-ju ríd ico, bem com o ao discurso nal (1969), que im plicava bru talm ente uma hom ogeneidade do corpus discursivo en quan to
pedagógico c científico, estão presentes, mas (legitim am ente) subordinadas à questão do fundam ento do reproduzivel, tal releitura salienta o fato de que o caráte r reproduzível do
discurso político. T al dualidade (política/ciência), constitutiva da A nálise do discurso, p a­ enunciado, com as conseqüências que disso resultam q u an to ao efeito de identidade de
rece ter quase sem pre co n to rn ad o a especificidade do discurso p olítico de direita, am pla­ sentido associad o à paráfrase, não deve ocu ltar a heterogeneidade estru tural de qualquer
m ente in scrito , porem , na trad ição política francesa. form ação discursiva. Por o u tro lado, perm anecem problem as sobre os critério s de identifi­
3 “A nálise do discurso? É esta disciplina que leva dez anos para estabelecer o que um leitor c ação das form ações discursivas e dos enunciados: essa releitura m antém um a identidade
m edianam ente experiente com preende em dez m inutos?” (provocação espontânea de um da form ação discursiva na form a de: “há uma form ação discursiva com u n ista” . Q u al é o
n ão esp ecialista, que se reconhecerá talvez nessa “co m u n icação o ra l”). estatu to desse “h á ” ?
24 A nálise do discurso político Prefácio 25

escolhe estudar um aspecto do discurso comunista - indissociável de um nhas a questão da relação das direções com as massas populares enquanto
questionam ento político da homogeneidade estratégica sob a qual esse relação com o outro.
discurso se apresenta através de seus órgãos oficiais de expressão? O dis­ J á que se trata de temas religiosos, tomo a liberdade de retomar o
curso de direção do Partido Comunista Francês (PCF), no processo de termo Transubstanciação7 para designar este estranho processo pelo qual,
união-desunião da esquerda, constitui, desse ponto de vista, um sintoma assim com o o pão e o vinho se transformam em corpo e em sangue de
discursivo em que se condensam as táticas de deslocam ento da questão, a Cristo, a vontade popular se transubstancia em poder da classe burgue­
retórica da dupla linguagem e o encobrimento da contradição. sa dominante. De uma maneira análoga (por meio das homologias entre
Se hoje é fácil considerar —ou fingir considerar —esse discurso como o aparelho comunista e o aparelho de Estado burguês com o qual ele se
a realidade do comunismo (seja para seguir seus passos ou jogar essa rea­ contraidentifica), a vontade política daqueles que entram, saem, hesitam,
lidade nas lixeiras da história), uma aposta continua em aberto: manter a circulam na “base” do PCF transubstancia-se em poder de uma direção
existência de um enunciado político que enfrenta a realidade atual, colo­ imutavelmente instalada em seus cálculos estratégicos.
cando ao mesmo tempo em questão a artificialidade dessa homogeneidade Por trás de tudo isso e além das denegações: o medo frente às mas­
do “discurso com unista”. Foi esse caminho teórica e politicam ente incô­ sas, com todos os efeitos de legitim ação dos porta-vozes que resultam
modo que percorreu J.-J. Courtine. inevitavelmente disso.
O resultado repercute, como se verá no texto de J.-J. Courtine, particu­ M edir esse medo é certam ente, do ponto de vista que nos interessa
larmente na forma da noção de enunciado dividido, caracterizando o fato aqui, com eçar a se desprender da inclinação, ainda quase exclusiva, da
de que uma formação discursiva é constitutivamente perseguida por seu ou­ Análise do discurso pelos enunciados legitimados de porta-vozes (textos
tro: a contradição motriz não resulta do choque de “ corpora contrastados”, impressos, declarações oficiais, etc.) e aceitar o confronto com essa “me­
cada um veiculando a homogeneidade dos antagonistas, mas desse efeito mória sob a história”8 que percorre o arquivo não escrito dos discursos sub­
de sobredeterminação pelo qual a alteridade o afeta; foi justamente essa terrâneos sob essas múltiplas formas orais, estudados pelo grupo Revoltes
heterogeneidade que o sujeito “repleto” do discurso comunista recalcou por logiques ou por historiadores marxistas ingleses, como Ralph Samuel.
meio de um uso ritualizado da interrogação, em que a questão só faz sen­ Essa heterogeneidade discursiva, feita de trechos e fragmentos, inte­
tido porque a resposta já é conhecida: o idealismo ventríloquo, mestre na ressa na medida em que nela podem ser determinadas as condições con­
arte de falar no lugar do outro, isto é, por ele, a seu favor e em seu nome. cretas de existência das contradições pelas quais a história se produz, sob
E por esse viés que se impõe a questão teórica do “discurso de alian­ a repetição das memórias “estratégicas”. Tal determinação também impli­
ça ”, característico do discurso político proveniente da Revolução Francesa ca a construção dos meios de análise lingüística e discursiva e supõe uma
e do qual J.-J. Courtine explorou um aspecto específico sob a forma do reflexão sobre o que trabalha na e sob a gram ática, à margem discursiva
“discurso comunista voltado para os cristãos”. Revela-se que tal discurso da língua. N ão se trata, portanto, de uma reinvenção do m ito antilinguís-
não constitui nem uma manobra tática, nem uma real confrontação, mas tico da fala livre, bela selvagem que escapa às regras.
um autêntico diálogo d e surdos entre duas organizações altam ente estrutu­ Do mesmo modo, parece ser crucial afastar a ideia, tanto sedutora
radas do ponto de vista estratégico,6 por trás do qual aparece nas entreli­ quanto falsa, de que as ideologias dominadas, por não serem o simples

6 A estrutura estratégica desses diálogos de surdos é m arcada especialm ente por clivagens 7 O term o é utilizad o na m esm a perspectiva p or L. A lthusser em “C e qui ne peut plus durer
enunciativas do tipo “É X q u e ...N ã o é X q u e ... é Y ”, cu jas recorrên cias J .-J. C ou rtin e es­ dans le parti co m m u niste” (M aspéro, collection . “T h é o rie ”, 1978).
tuda, no m om ento op ortu n o, num cam po discursivo da atualidade: a m em ória estratégica 8 C on form e o recente nu 30 da revista Dialectiques> “Sous P histoire, la m ém oire” , p articu ­
fu nciona por repetição. larm en te a entrevista com R alph Sam uel.
26 A nálise do discurso político

reflexo inverso da ideologia dominante, constituiriam espécies de germes INTRODUÇÃO*


independentes: elas nascem no lugar mesmo da dom inação ideológica na
forma dessas múltiplas falhas e resistências, cujo estudo discursivo concre­
to supõe abranger o efeito do real histórico que, no interdiscurso, funciona
com o causalidade heterogênea, e, ao mesmo tempo, o efeito do real sintá­
“ Tal contradição, longe de ser aparência ou acidente
tico, que condiciona a estrutura internamente contraditória da seqüência
do discurso, longe de ser aquilo de que é preciso li­
intradiscursiva.
berta-lo para que ele libere, enfim, sua verdade aber­
Compreendida entre o real da língua e o real da história, a Análise do
ta, constitui a própria lei de sua existência: é a partir
discurso não pode ceder nem para um, nem para o outro sem cair imedia­
dela que ele emerge, é ao mesmo tem po para traduzi-
tamente na pior das complacências narcísicas.
la e superá- la que ele se põe a falar, é p ara fugir dela
Seria estranho que os analistas do discurso fossem os últimos a saber
enquanto ela renasce sem cessar através dele, que ele
da conjunção existente entre a cegueira quanto à história e a surdez quanto
continua e recomeça indefinidamente, é por ela estar
à língua que diz respeito a seus objetos e a suas práticas.
sempre aquém dele e por ele jam ais poder contorná-la
Já era hora de com eçar a quebrar os espelhos.
inteiramente que ele muda, se m etam orfoseia, escapa

de si mesmo em sua própria continuidade. A contra­

dição funciona, então, ao longo do discurso com o o

principio de sua historicidade.”

M . Foucauh. A A rqueologia do Saber

"A luta do homem contra o poder, é a luta da memória


contra o esquecim ento.”

M . Kundera. O Livro do R iso e d o E squecim ento

1. UM PROJETO PARA A ANÁLISE DO DISCURSO

Na apresentação que J. Dubois dedica a um número recente da revista


Langages sobre a Análise lingüística do discurso jauresiano (C h auveau,

1978), ele lembra alguns dados fundamentais sobre os quais se apoia a

* Síntese da tese de d ou torad o “Alguns problem as teóricos e m etod ológicos em A nálise do


discurso: o discurso com unista endereçado aos cristã o s", defendida em 1980, na Univer-
sité de Paris X/N anterre. Um a versão aproxim ada deste texto foi publicada em francês no
núm ero 62 da revista Langages, cm 1981.
28 Análise do discurso político
In tr o d u ç ã o

Análise do discurso, e isso por meio das diferentes variantes m etodológi­


por hipótese, definem a estrutura do discurso; e essas rc
cas que essa disciplina conheceu desde o momento em que foi inaugurada
lações são aquelas que os termos do texto (palavras, sm
na França, nos anos 1968-1970. A Análise de discurso está submetida aos
tagmas, frases) mantêm entre si” (D ubois , op. cit., p. 3).
seguintes princípios:

O procedimento de determinação de tais relações pode variar, tomar


a) Ela deve realizar o fechamento de um espaço discursivo a forma do reconhecim ento de coocorrências entre elementos do texto,
ou expressá-los em termos de dependências (derivações gram aticais que
A Análise do discurso, para poder operar, supõe enunciados
valem por seqüências de operações). O princípio permanece, entretanto,
terminados, espaços discursivos limitados: isso significa que
inalterado: caso se formule a hipótese de uma estrutura do discurso, re­
se lida com textos naturalmente fechados ou que, por diver­
conhecível na coocorrência e na recorrência de certos elementos, e s s a e s ­
sos artifícios, procede-se explicitamente (por amostragem)
tr u tu r a d e v e s e r g r a m a t i c a l m e n t e c a r a c t e r i z a d a . O discurso, com o objeto,
ou implicitamente (por generalização a partir de fragmen­
conserva uma relação determinada com a língua, e a possibilidade mesmo
tos) a um fechamento do texto (D ubois, 1978, p. 3).
de uma Análise do discurso estabelece-se em tal relação. Qualquer pro
cedimento de Análise do discurso encontra na Lingüística seu cam po di
Essa primeira exigência apresenta à Análise do discurso a questão
validação... e o risco correlato de reduzir o discurso à língua.
da c o n s t i t u i ç ã o d o c o r p u s d i s c u r s i v o : como limitar um espaço discursivo?
Essa questão condensa-se, em Análise do discurso, na caracterização
Com o decidir sobre o fechamento de um c o r p u s discursivo, sobre o per-
do e n u n c i a d o . Se é verdade que, “como toda análise lingüística, a Análise
tencimento deste ou daquele texto a um corpus? Que forma atribuir a um
de discurso fundamenta-se em um certo número de axiom as que tangem
c o r p u s de discurso que não faça deste um simples c o r p u s de língua? Qual
à sinonímia, à paráfrase, à relação predicativa e que possibilitam o fun
a especificidade de um c o r p u s discursivo que o distingue dos conjuntos
cionam ento do enunciado (o u s e j a , e u q u e r o d i z e r q u e . . . ) ' ’ (D u b ois, op.
de objetos empíricos que o fonólogo ou o gram ático manipulam em sua
cit., p. 3), com o atribuir um funcionamento a esse objeto, fora das catego
descrição da língua?
rias lingüísticas (frase, proposição) nas quais, espontaneamente, se tende a
Essas interrogações requerem certamente que se superem as conside­
representá-lo? Que propriedades atribuir ao enunciado, que representação
rações gerais dos princípios empíricos pelos quais a resposta dada apresen­
propor dele em uma ordem do discurso que não seja a simples réplica da
ta-se determinada: “exaustividade”, “representatividade”, “hom ogeneida­
ordem da língua?
de” do c o r p u s , adequação da forma do c o r p u s “às finalidades da pesqui­
A respeito da definição do enunciado, bem com o a respeito da deter
sa”... Seria sem dúvida conveniente dar aos procedimentos de reunião e
minação de um c o r p u s discursivo, o problema está na e s p e c i f i c i d a d e d o
de organização dos dados empíricos em Análise do discurso um estatuto
d i s c u r s i v o em sua relação com o lingüístico.
teórico que lhes falta.

c) Ela produz, no discurso, uma relação do lingüístico com o exterior


b) Ela supõe um procedimento lingüístico de determinação das da língua
relações inerentes ao texto
A interpretação dos resultados obtidos pela análise ilr
“A análise de discurso implica a aplicação de um método
discurso só pode resultar de uma comparação interna
para determinar as relações inerentes ao texto, as quais,
entre dois ou vários enunciados e do estabelecimento de
30 A nálise do discurso político In trodu ção 31

um a co rresp o n d ên cia co m m od elos n ão lin gü ísticos. D e antecipar algumas características gerais do ponto de vista que desenvolve­
fa to , o d iscu rso realizado , independentem ente da variável mos aqui:
“ lín g u a ” , im p lica três sistem as de variáveis: um considera

o locutor, o o u tro, os tem as do en u n ciad o e os ú ltim os, (1) O discurso, com o objeto, deve ser pensado em sua especifici­
enfim , as co nd içõ es de p ro d u ção do p ró p rio en u nciad o dade. A adoção de um ponto de vista especificam ente discursi­
(Dubois, op. cit., p. 4 ). vo deve evitar, se é verdade que no discurso se estabelece uma
determinada relação entre o lingüístico e o ideológico, reduzir
Dessa forma, o discurso é pensado como uma relação, uma corres­ o discurso à análise da língua ou dissolvê-lo no trabalho his­
pondência entre língua e questões que surjam no exterior desta, no que diz tórico sobre as ideologias; porém, deve levar em conta a mate­
respeito a todo discurso concreto: quem fala, qual o sujeito do discurso, e rialidade discursiva como objeto próprio, isto é, produzir a seu
como é possível caracterizar a emergência do sujeito nos discursos? Do que respeito propostas teóricas.
fala o discurso, como identificar dentro dele a existência de temas determi­ (2) Essas propostas teóricas devem conduzir ao estabelecimento de
nados? Em quais condições, enfim, o discurso é produzido, mas também procedim entos que vêm realizar sua montagem instrumental em
compreendido e interpretado? Em que medida tais condições inscrevem-se um campo metodológico. A materialização, sob a forma de pro­
na relação do discurso com a língua? Como o exterior da língua se reflete na cedimentos determinados, de um corpo de propostas teóricas
organização lingüística dos elementos do discurso? que visam ao discurso como “objeto de conhecimento” expõe o
discurso como objeto empírico concreto, ou “objeto real”. E a
condição na qual pode ser empregada1 a expressão “o objeto da
•«« Análise do discurso” ou “o discurso como objeto”.
(3) A etapa a ser seguida deve, em seu conjunto, ser explícita, o que
Esse conjunto de princípios delimita o espaço das questões nas quais é uma condição de sua reprodutibilidade e, talvez, acima de
se inscreve nosso trabalho; tratar-se-á de análise d o discurso p o lític o , já tudo, da possibilidade de ser criticada: desejamos que a descri­
que o corpu s da pesquisa consistirá em um conjunto de discursos do Par­ ção do quadro teórico da pesquisa e dos procedimentos que ele
tido C om unista Francês dirigido aos cristãos, de 1936 a 1976, no âm bito organiza seja suficientemente explícita para abrir um conjunto
de sua “política da mão estendida”. Assim, esse trabalho insere-se na de questões, expondo-se da maneira mais amplamente possível
tradição daqueles que, no cam po da Análise do discurso na França, fize­ à crítica.
ram do discurso político um objeto de estudo privilegiado da relação da
língua com as ideologias. São especialmente essas noções e procedimentos que colocam os à
N o interior dessa problemática coexistem, porém, abordagens dife­ prova neste trabalho (forma de corpus, condições de produção de uma
renciadas do conjunto das questões que o discurso político faz surgir: há seqüência discursiva vs. condições de form ação de um processo discursivo,
algumas preocupações que compartilhamos com este ou aquele tipo de
trabalho, outras que nos são estranhas. Efetuaremos, no decorrer do tra­ 1 A distinção entre “o b jeto de conh ecim ento” (objeto teórico, ab strato, de pensam ento) e
“o b je to real” (ob jeto em pírico concreto) é proveniente dos trabalhos de L. A lthusser (1968,
balho, as distinções que se impõem, situando nossa posição no interior
p. 49 -6 9 ), que situa a con trad ição constitutiva de todo o b jeto científico. O o b je to cien tí­
dessa configuração de questões e de problemas. Já podemos, entretanto, fico im prim e, assim , a form a de uma relação contraditória entre o b je to real e o b je to de
conh ecim ento; a respeito deste últim o, é conveniente acrescentar que ele é “absolutam ente
distinto do o b je to real, (...) do qual procura justam ente o con h ecim en to” (op. c it., p. 46).
32 Análise do discurso político In trodu ção 33

domínio de memória, a definição de diferentes formas de enunciado, uma A noção de autonomia relativa da língua caracteriza a in­

concepção da relação enunciado/enunciação, etc.). Esperam os, igualmen­ dependência de um nível de funcionamento do discurso

te, sem que estejam os, entretanto, sempre certos disso, que a apresentação em relação às formações ideológicas’ que nele se encon­

dessas noções ou procedimentos não imprima um aspecto “com pacto” tram articuladas, nível de funcionamento relativamente

demais e conserve o traço, em suas lacunas e tam bém em suas falhas, das autônomo a partir do qual a Lingüística formula a teoria.

questões que se apresentaram a nós. E que não se veja tam bém , nas pró­ O conceito que permite pensar esse nível de funcionamen­

ximas páginas, um sistema fechado de respostas sobre o discurso, mas um to é o da língua. A autonomia é relativa, pois na produção

questionam ento quanto ao discurso. e na interpretação do que se chama de “seqüências dis­


cursivas”, ou seja, dos discursos “concretos”, as fronteiras
entre o que é do domínio da autonomia relativa da língua
*** e o que é do domínio da determinação desses discursos
“concretos” por formações discursivas, (...) não pode ser

Dessa forma, o quadro teórico que estabelecemos está inscrito em uma a priori determinada.

posição determinada na área da Análise do discurso. Além dos princípios Em outras palavras, afirmamos que todo discurso “con­

teóricos gerais que delimitam a área e que fornecem um quadro à descri­ creto” é duplamente determinado, de um lado, por forma­

ção, esta última integra um conjunto de elementos teóricos, formulados em ções ideológicas que remetem esse discurso a formações

Análise do discurso, em resposta a preocupações de linguistas, filósofos ou discursivas definidas, de outro, pela autonomia relativa da

historiadores, preocupações essas que tratam , no discurso, da relação da língua, mas afirmamos também que não é possível traçar

língua com a história. a priori uma linha de demarcação entre o que é de domí­

Esse conjunto de trabalhos visa ao que se pode cham ar (P ê c h e u x , 1975) nio de uma ou da outra dessas determinações.

de “articulação” da Lingüística e do materialismo histórico com o “ciência


da história das formações sociais e de suas transform ações” e, mais par­ Essa distinção entre base lingüística, relativamente autônom a, e pro­

ticularm ente, a essa parte do materialismo histórico denominada “teoria cessos discursivos/ideológicos que se desenvolvem sobre essa base parece-

das ideologias” na releitura do corpus marxista realizada por L. Althusser. nos fundamental por fazer da relação do lingüístico com o ideológico a

G ostaríam os, assim, de destacar o que nos parece, no desenvolvimen­ materialidade mesma do discurso: só ela pode autorizar a relevância das

to dessa posição em Análise do discurso, constituir uma aquisição teórica relações de contradição, antagonismo, aliança, absorção... entre form a­

im portante: trata-se do conceito de form a çã o discursiva1 e da distinção ções discursivas que pertençam a formações ideológicas diferentes e dar

entre processos discursivos e língua: se os processos discursivos constituem conta, assim, do fato de que, em uma determinada conjuntura da história

a fonte da produção dos efeitos de sentido no discurso, a língua, pensada de uma form ação social, caracterizada por um determinado estado das re­

com o uma instância relativamente autônom a, é o lugar material onde se lações sociais, “sujeitos falantes”, tomados na história, possam concordar

realizam os efeitos de sentido. O que P. Henry (1975, p. 94) formulou da ou discordar sobre o sentido dado às palavras, falar diferentemente, falan­

seguinte maneira: do exatamente a mesma língua.

2 E x p o sto e desenvolvido no C ap ítu lo II. 3 D efinido n o C ap ítu lo II.


34 Análise do discurso político In trodu ção 35

Por meio dessa distinção que retomamos aqui, bem com o em vários qual o m arxism o viria, a título social, integrar o cortejo disciplinado das
momentos de nosso trabalho,4 expressa-se a obrigação de nossa pesquisa Ciências Humanas.
para com o conjunto da problemática desenvolvida por M . Pêcheux: é, Não pensamos igualmente que essa intervenção possa se reduzir ao
incontestavelmente, na totalidade de questões que a aplicação do procedi­ projeto voluntarista de uma “teoria do discurso”. A referência a esta última
mento de análise autom ática do discurso propunha a corpora discursivos, expressão denota, no campo da Análise do discurso, uma atitude teoricista
desde 1969, e depois, nos elementos teóricos contidos em Les Vérités de la que consiste em substituir o trabalho necessário de uma contradição pelo
Palice, que se deve situar a origem de nosso trabalho. As páginas seguintes enunciado de sua resolução teórica, em que o marxism o venha novamente,
representam, sob esse ponto de vista, uma tentativa de discussão, redefini­ em uma versão de “esquerda” da interdisciplinaridade, “articular-se” à Lin­
ção, reconfiguração desse conjunto de propostas teóricas e metodológicas güística e a uma teoria freudiana ao sujeito.
- um processo de reprodução do pensamento no interior do pensamento, o Se a Análise do discurso está ligada a objetos atravessados pela luta de
esforço —muitas vezes incerto, sempre difícil - de uma filiação que não seja classes, se, em Análise do discurso político, todo discurso concreto remete
uma repetição pura e simples. a uma posição determinada na luta ideológica de classes, então é bem pos­
Essa questão, a nosso ver essencial, e além das ilusões subjetivas pelas sível que o sentido primeiro de uma intervenção do m aterialismo histórico
quais um “sujeito pensante” concebe a relação de seu pensamento com nesse campo teórico-prático seja o de lhe devolver os princípios, esquecidos
aquele de um outro sujeito, diz respeito à referência comum, que atravessa de maneira diferente pelo sociologismo ou pelo teoricismo, da prim azia da
um conjunto de trabalhos em Análise do discurso, ao m aterialism o histó­ contradição so bre os contrários, bem como do caráter desigual da contra­
rico e dialético. De que maneira o marxismo pode hoje, enquanto ressoa dição-, o que L. Althusser (1975, p. 148) sublinha nestes termos:
de todos os lados o barulho de seu fim ou de sua morte, enquanto o traço
dos erros e dos crimes cometidos em seu nome está inscrito na memória Ora, se posso avançar no que sustentei nos primeiros en­
coletiva, permitir que se pense em uma relação com o real em um campo saios, mas na mesma linha, diria que a contradição, como
científico determinado? Essa “inquietude” quanto à intervenção do mar­ a encontramos em O Capital, apresenta a particularidade
xismo no processo de produção dos conhecimentos científicos no domínio surpreendente de ser desigual, de colocar à prova contrá­
da Análise do discurso - com o em sua intervenção no terreno das lutas rios que não são obtidos afetando o outro do signo oposto
políticas e sociais —constitui, para nós, uma condição incontornável, uma ao primeiro, porque são tomados em uma relação de desi­
questão continuamente apresentada no momento em que nada poderia ser gualdade que reproduz continuamente suas condições de
mais regulado na religião das fórmulas. existência em conseqüência dessa própria contradição...
N o entanto, já que a referência ao marxismo corresponde, em Análise A classe capitalista e a operária não têm a mesma histó­
do discurso, a tentativas contraditórias, gostaríamos de m ostrar que o sen­ ria, o mesmo mundo, os mesmos meios, a mesma luta de
tido de sua intervenção nessa disciplina não se aplica, a nosso ver, a uma classe e, entretanto, confrontam-se e é sem dúvida uma
descrição sociologista da diferenciação lingüística d os “grupos so cia is”, na contradição, na medida em que a relação de seu confron­
to reproduz as condições de seu confronto...

4 N a retom ada, por exem plo, das n oções, determ inantes de nosso p on to de vista, de in- E a partir desse duplo princípio que o recurso ao m arxism o deve
tradiscurso (ou fu ncionam ento de uma seqüência discursiva em relação a ela m esm a) e ser entendido em nosso trabalho; a contradição constitui um princípio
de interdiscurso (com o exterio r específico que determ ina um a form ação discursiva). Ver
C ap ítu lo (I.
teórico que intervém na representação do real histórico, mas tam bém um
36 Análise do discurso político In trodu ção 37

ob jeto d e análise, no sentido em que é a contradição desigual entre for­ implica igualmente, de forma crucial, a redefinição das opera­

mações discursivas antagonistas que é o objeto desse estudo. O tema da ções de constituição de um corpus em AD;

contradição atravessa dessa forma nossa pesquisa, em diferentes níveis, de (2) o desenvolvimento atual de uma problemática da enunciação

maneira recorrente, com insistência; desejamos que nela produza um efei­ em AD constitui a manifestação de uma posição continuísta que

to de conhecim ento que testemunhe a presença do m arxism o com o corpo coloca o discurso na continuidade da língua, acompanha-se de

teórico real e não com o língua d e m adeira. um restabelecim ento psicossocial da relação entre língua e his­
tória e impede de pensar a materialidade específica do discurso.

*** Trabalhar essa problemática, criticar e superar essa posição são tarefas
urgentes para a AD.

G ostaríam os, porém , antes de abordar o corpo desse trabalho, de


encerrar essas observações introdutórias pelo exam e de um ponto pro­
blem ático na definição da Análise do discurso (doravante: AD) com o dis­ 2. A RELAÇÃO DA AD COM A LINGÜÍSTICA
ciplina: a qu estão de sua relação com a Lingüística-, a AD, de fato, cons­
tituiu-se historicam ente em uma relação privilegiada com a Lingüística. Pode parecer uma evidência o fato de as relações entre a Lingüística

Sem detalhar essa form ação histórica,5 pode-se no entanto ressaltar e a AD serem muito estreitas: em uma acepção “am pla” da extensão do

que essa relação de proximidade estreita teve especialmente com o efeito domínio da Lingüística, isso pode até incluir a AD, tornando-a parte cons­

delinear uma configuração epistêmica interna do domínio da AD que to­ tituinte de um dos “ram os” especializados dessa disciplina, a sociolinguís-

mou a forma de uma coexistência entre procedimentos de análise do enun­ tica. M esm o se nos referimos a uma extensão mais “estrita” do domínio

ciado (por uma aplicação dos métodos de análise distribucional em cor- da Lingüística, aquela que delimita seu domínio a partir do corte saussu-

pora discursivos, no quadro da “análise harrisiana am pliada”, inspirada riano, deve-se admitir que os objetos respectivos da Lingüística e da AD (a

no trabalho de H a r r is (1952)) e procedimentos de análise da enunciação língua e o discurso) assim como a posição respectiva dessas duas regiões de

(proveniente da tradição de uma “lingüística da fala”, ilustrada pelos tra­ conhecimento, no recorte universitário do saber e das disciplinas, colocam -

balhos de Benveniste, Jakobson, etc.). nas em uma situação de delimitação recíproca, ou seja, elas constituem a

Se os procedimentos de análise de enunciados constituem um estado fronteira uma da outra.

inaugural da AD, as análises enunciativas tiveram mais recentemente um Por serem estreitas, essas relações não deixam de ser paradoxais,

desenvolvimento crescente. Gostaríam os de antecipar as seguintes teses, fato que os analistas de discurso tendem a esquecer na definição que eles

que desenvolveremos ao longo de nosso trabalho: lhes propõem.

(1) uma teorização especificamente discursiva que tenta afastar-


se dos modelos lingüísticos, da relação enunciado/enunciação, 2.1 As POSIÇÕES DOS ANALISTAS DE DISCURSO SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE

surge como uma questão central para AD e com o um objetivo e AD


L in g ü íst ic a

essencial de nossa pesquisa. A transform ação dessa relação


É o “corte saussuriano” que se encontra em primeiro lugar envolvi­
5 Expusem os, em outra o casião (C o u r t in e , 1980, p. 1 1-45), elem entos gerais de descrição do do: a dicotom ia língua/fala, fundadora da Lingüística, “faz obstáculo” à
ob je to , do âm b ito , do dom ínio disciplinar e da história da AD.
38 A nálise do discurso político In trodu ção 39

constituição de uma AD. A relação da teoria saussuriana com o objeto gua aos de discurso. Esse continuum, que vai da língua ao discurso, encon­
lingüístico geralmente é apresentada sob a metáfora do que encerra, com ­ tra-se repetido pela metaforização da mesma noção, a qual, atuando dessa
prime ou restringe, trate-se de um “espartilho” ( R o b in , 1973, p. 79) que vez no plano epistem ológico, coloca a AD no prolongamento da Lingüís­
é preciso “fazer explodir”, de um “ferrolho” ( G u e s p in , 1971, p. 11) que é tica por intermédio de uma Lingüística do discurso à base de enunciação.
preciso “fazer saltar”, de um “edifício”, onde se respira uma “atm osfera E tal posição que aparece na seguinte formulação de Robin (1973, p. 32),
em pobrecida”, que é preciso “demolir” ( G u e s p in , 1971, p. 1 2 ,1 4 ), ou final­ apesar de uma restrição da autora:
mente de um “velho modelo”, do qual é preciso submeter o “bloqueio” a
uma “ação erosiva” ( G u e s p in , 1976b, p. 47, 48). E, pois, sobre as ruínas do Esta Linguistica do Discurso, que recoloca completamen­
edifício saussuriano que se erguerá a AD (1976a, p. 11). te em questão a distinção operada por SAUSSURE entre
N otem os que o caráter restritivo da com petência chom skiana é, do língua e fala, com a condição de que ela se liberte de um
mesmo m odo, frequentemente ressaltado. Com isso, os analistas de dis­ modelo individualista, centrado numa problemática do
curso entendem indicar a impossibilidade de uma construção da AD que sujeito, pode (...) engrenar numa teoria das ideologias
se efetue no interior dos paradigmas saussurianos ou chom skianos, o (grifo nosso).
que parece perfeitam ente justificado, já que essas duas teorias se con sti­
tuíram rejeitando explicitam ente tal possibilidade.6 O bservem os, porém , Embreagem da língua sobre o discurso, embreagem da Lingüística so­
que na prática dos analistas de discurso, procedim entos oriundos desses bre a AD, embreagem igualmente do discurso sobre seu exterior, isto é, sobre
quadros teóricos (com o os procedimentos distribucionais, as noções de as condições de produção, como destaca Guespin (1976b, p. 50): “ ... será
frase de base ou de transform ação) são norm alm ente utilizados na cons­ útil não esquecer a faculdade do discurso de em brear sobre suas próprias
titu ição de sistem as de representação sem que o estatuto de tal uso tenha condições de produção” (Idem , 1976a, p. 11, grifo nosso).
sido interrogado. A noção de embreagem se encontra, assim, retomada em diferentes
Convém notar igualmente que as referências da AD à Lingüística re­ níveis. Ao perder sua especificidade primeira, parece reencontrar aí, com o
correm, cada vez com maior frequência, às noções produzidas na proble­ o “obstáculo verbal” de Bachelard (1938), uma parte de seu sentido co­
* m ática da enunciação, isto é, no exterior dos quadros teóricos estritamente mum: encontra-se, de fato, tomada na m etáfora de um deslocam en to li­
saussurianos ou chomskianos, na tradição do que chamamos de “lingüística near e contínuo que certamente conhece seus bloqueios, seus freios, suas
u
cr) da fala”/ t) mesmo ocorre com o uso das noções de pressuposição, dêixis, suspensões, mas também suas retomadas, seus recomeços. E sob essa m etá­
£ / X /
índices de pessoa, performativos e embreadores. O papel dessa última no- fora que se expressa principalmente a posição continuísta da relação entre
^ ção, oriunda de Jakobson (1963), parece-nos claramente indicativo da ma­ Lingüística e AD.
neira pela qual os analistas de discurso pensam a relação da Lingüística com A distinção que operam os na Introdução entre base lingüística e
a AD e, mais geralmente, dos fatos de língua com os fatos de discurso. processos discursivos não pode contentar-se com um continuum que,
“Os embreadores {eu, aqui, agora) permitem situar essa presença do apagando intencionalm ente a fronteira entre Lingüística e Análise do
sujeito falante em seu texto” (C o u rd esses, 1971, p. 23); asseguram, por in­ discurso, pode chegar a negar a autonom ia relativa e, ao mesmo tempo,
termédio do sujeito da enunciação (do qual constituem o traço) colocado a especificidade do ob jeto de ambas.^Não nos parece, pois, que as rela­
em uma “situação de discurso” dada, a passagem contínua dos fatos de lín- ções entre AD e Lingüística devam ser explicadas a partir da passagem
i
tD gradual de uma à outra, que se confunde às vezes com a evidência da
6 Sobre isso, pode-se recorrer a Slakta (1971a, p. 86-1 0 3 ); a H aroch e, H enry & Pêcheux
substituição de uma pela outra, mas sob a forma de uma coexistência^
(1971, p. 93-1 0 1 ).
40 Análise do discurso político In trodu ção 41

contraditória que tem sua origem na configuração epistêm ica interna da tica, efetua descrições empíricas e considera com o objeto o indivíduo lin­
Lingüística, o que foi observado por Kuentz (1977, p. 113): güístico “con creto” e “em situação” (sendo estes últimos objetivos bem
próxim os das preocupações clássicas dos procedimentos da AD).
Tudo se passa como se a posição de uma AD, além do pro­ D ito isso, restam duas questões a serem pensadas: qual posição a pro­
cedimento lingüístico, fosse, para esta disciplina, o efeito blemática da enunciação — que situamos como uma questão do trabalho
de uma necessidade interna. Colocando a existência da em AD —ocupa nessa contradição? Que dominância essa contradição ne­
AD como seu além sempre por vir, a Lingüística não bus­ cessariamente desigual manifesta? E uma questão relacionada que nos leva
ca afastar a suspeita de que se trata de um aquém que de volta à AD: em que isso esclarece a configuração epistêmica do domínio
ela nunca pôde neutralizar inteiramente e que funciona da AD em suas relações com a Lingüística?
inconscientemente como seu sempre já lá ? •'Consideraremos a problemática da enunciação com o uma form a pri­
vilegiada de com prom isso entre as tendências logicista e sociologisd ) Ela
combina, de fato, na análise do processo de enunciação no enunciado ao
2.2 " T e n d ê n c ia s " em L in g u I st ic a e em AD mesmo tempo os aspectos formais da relação enunciado/enunciação (rela­
ções entre índices de pessoa, lugar, tempo e modalidades da enunciação)
Alguns trabalhos (P ê c h e u x , 1975; G a det & Pêch eu x, 1977) fizeram o com os efeitos subjetivos do ato de enunciação, ancorado em uma situação
esforço de produzir uma análise da configuração epistêmica da Lingüística de enunciação a cujos protagonistas se pode atribuir um estatuto social.
que desse conta das contradições que opõem as “tendências” as quais se Parece, pois, ocupar no espectro das formas possíveis que conduzem do
pode identificar no centro desta última. E a partir dessa caracterização do logicismo ao sociologism o uma posição central ou transicional que está de
domínio da Lingüística que vamos tentar delimitar a “necessidade interna” acordo com a característica, acima ressaltada, de garantir uma passagem
à qual Kuentz se refere. contínua entre os fatos de língua e os fatos de discurso, de um lado, e a
Dessa form a, Gadet & Pêcheux (1977) tentam descrever a história da Lingüística e a AD, de outro.
Lingüística,7 bem como sua situação atual, a partir de um “tipo de luta A segunda questão diz respeito à dominância que se expressa no
entre duas vias —o logicismo e o sociologism o - que form am os elementos centro da contradição principal que separa a configuração epistêmica da
de uma contradição que assume sucessivamente múltiplas form as desde Lingüística. Em um outro trabalho, Pêcheux (1975, p. 18) caracterizava a
a pré-história da Lingüística até seus aspectos mais m odernos, atuais e tendência logicista como dominante; pode-se ressaltar, por outro lado, que
científicos” (op. cit., p. 11), o que teria como efeito conduzir a uma situa­ a descrição sumária da tendência sociologista que apresentamos anterior­
ção de crise/Pode-se rapidamente opor o logicismo (e sua form a correla­ mente indica que a AD constitui seu prolongamento recente. As petições
ta: o form alism o) ao sociologism o (e sua forma correlata: o historicism o), de princípio antisaussurianas que inauguram inúmeros trabalhos em AD
indicando que o primeiro se preocupa em pesquisar universais lingüísti­ parecem-nos bem a marca do caráter dominante do logicismo no interior
cos, em fundar uma teoria gram atical e em estabelecer a autonom ia do da Lingüística,8 pois é sobre o logicismo que o sociologismo “se apoia mais
lingüístico, enquanto o segundo destaca a variação e a mudança linguís-
£
8 J.-B . M arcellesi, em recente artigo, acaba de confirm ar nestes term os: “N o congresso in ­
7 Esse trabalho foi retomado, reformulado dc modo especial em uma obra desses autores (La tern acion al dos linguistas, em Viena, neste verão, ainda não houve lugar para a Análise
Langue introuvable. Paris: Maspero [tradução brasileira: A língua inatingível. Campinas: do discurso p o lítico, ao m esm o tem po em que todas as outras tendências da lingüística,
Pontes, 2004]). Pode-se desejar que o uso classificatório da categoria de contradição desse incluindo a sem iótica literária, estavam representadas. A Análise do discurso é um a espé­
trabalho tenha sido revisto. cie m ald ita” (1977a, p. 3).
42 Análise do discurso politico

fre q u e n te m e n te (p o r e m p ré stim o s , r e to rn o s , r e a p r o p r ia ç õ e s ...) p a ra d ele


se s e p a r a r ” (P ê c h e u x , 1975, p. 18).
O que responde à segunda questão e conduz à terceira: é sob a forma
de uma inversão d e dom inância que os analistas de discurso geralmente
representam o processo de autonomia do domínio da AD sobre o da Lin­
güística: substituir o formal pelo empírico, o sincrônico e o estrutural pelo
social e histórico, substituir Saussure por Volochinov.
Sustentaremos que tal posição eqüivale, ao contrário, a encerrá-la
certam ente ainda mais no centro da contradição que determina a confi­
guração epistêmica da Lingüística e que tal posição não poderia levar à
autonom ia teórica do domínio da AD: foi a contradição entre logicismo e
sociologism o, essa “necessidade interna” ao domínio da Lingüística, que
produziu a AD com o desenvolvim ento adicion al (F o u ca u lt , 1969, p. 202)
à margem desta última pela inversão dos dois termos da contradição, ou
seja, por sua reprodução em espelho.
Parece-nos que é somente deslocando os termos dessa contradição que
a AD pode conseguir, a o preço de um descentram ento, avançar rumo a uma
autonomia teórica, razão pela qual dispensamos tal projeto no âm bito des­
te trabalho. Gostaríam os simplesmente de indicar o que o torna necessário:
PARTE I
o descentramento que acabamos de mencionar coloca à AD o problema
da redefinição de suas relações com os dois termos da contradição; isto é,
tratar-se-ia na verdade de responder a uma dupla questão: com o pensar as
relações da AD na ordem do em pírico, desconsiderando a maneira com o o
sociologismo lingüístico determina essa questão? E tam bém, com o prever
as relações da AD na ordem do form al sem se deixar fechar no logicismo?
Tentaremos, na primeira parte deste trabalho, que concentra elem en ­
tos críticos (Capítulos I e II), avançar uma resposta à primeira questão,
interrogando os procedim entos d e coleta dos d ad os em píricos em AD, bem
com o as noções que sistematizam esses procedimentos. Esforçar-nos-em os
igualmente nas partes seguintes (Capítulos III e IV da segunda parte; C a­
pítulos V e VI da terceira parte), que expõem as orien tações teóricas da
pesquisa e apresentam a análise d e um processo discursivo, para abordar a
necessidade da representação dos o bjetos discursivos sem decalcá-los dos
modelos utilizados no quadro da análise da língua.
CAPÍTULO I

A NOÇÃO DE "CONDIÇÃO DE PRODUÇÃO


DO DISCURSO"

É pela noção de “condições de produção do discurso” que gostaría­


mos de abordar o exame das dificuldades encontradas pelas tentativas de
teorização e, ao mesmo tempo, pela realização prática dos métodos no
campo da AD. A noção de “condições de produção” (CP), tanto por seu
lugar no sistema conceituai da AD, quanto pela heterogeneidade, muitas
vezes contraditória, das definições de seu conteúdo, parece-nos, de fato,
constituir o lugar e o sintoma de tais dificuldades.1

1. AS ORIGENS DA NOÇÃO

Parecem ser de três ordens. A noção de CP origina-se inicialmente


da análise de con teú do, da maneira como esta se encontra praticada, es­
pecialmente em psicologia social. Na tradição dos trabalhos de Berelson

1 Essa n oção, no en tan to , pou co se prestou à discussão nos trab alhos de A D onde, por ve­
zes, tem -se a im pressão de que é considerada evidente. O s problem as que ela apresenta são
abordados em R obin (1973, p. 2 1 ), Pêcheux-Fuchs (1975, p. 25), M aingueneau (1976, p. 13)
e M aran d in (1978, p. 149); essas diferentes análises parccem -nos, contud o, insuficientes.
46 Análise do discurso politico A n oção de “con dição de produ ção do d iscu rso” 47

(1 9 5 2 ), a análise de conteúdo assume explicitamente com o objeto a análise contrapartida, o termo “situação” correlacionado ao termo “discurso”

das “condições de produção dos textos” (H en ry & M oscovici, 1 9 6 8 ). Não quando se trata de considerar somente as frases de um único discurso

nos deteremos nas críticas formuladas com frequência contra esse tipo de contínuo, ou seja, aquelas que foram pronunciadas ou escritas umas após

abordagem, contentando-nos em destacá-las brevemente. as outras, por uma ou várias pessoas, em uma única “situação”, ou ainda

A noção de CP é, por outro lado, atribuída aos “serviços” que a psico­ quando se trata de determinar a correlação entre as características indivi­

logia social pode prestar à AD, especialmente por Guespin (1971, p. 13) que duais de um enunciado e “as particularidades de personalidade que pro­

acrescenta: “Com essas ofertas de serviço, estamos muito próxim os da so- vém da experiência do indivíduo em situações interpessoais con dicion a­

ciolinguística”. Essa observação parece-nos, na realidade, designar uma se­ das socialm en te” (H a r r is , 1969, p. 10).
gunda origem da noção de CP, a sociolinguística, a respeito da qual convém Notem os inicialmente a insuficiência da elaboração dessa noção de

acrescentar que seu papel é o de uma origem indireta. Se a sociolinguística “situação” que, para um linguista como Harris, ocupa, ao lado das noções

se dá com o objetivo “evidenciar o caráter sistemático da co-variância das de “particularidades de personalidade” e de “experiência do indivíduo”, o

estruturas lingüísticas e sociais e, eventualmente, estabelecer uma relação lugar de um impensado, aquele do “extralinguístico”, especificado apenas

de causa e efeito” (B r ig h t , 1966), ela admitirá com o variáveis sociológi­ por sua exterioridade em relação ao objeto lingüístico.

cas “o estado social do emissor, o estado social do destinatário, as condi­ Observemos, em seguida, a compatibilidade das definições que ele

ções sociais da situação de comunicação (gênero de discurso), os objetivos propõe da “situação” com aquelas que a análise de conteúdo, em psicolo­

do pesquisador (explicações históricas), etc.” (M a rcellesi, 1971a, p. 3-4). gia social, ou a sociolinguística admitem das CP do discurso. Observemos,

Guespin (1971, p. 19) reconhece nisso “variáveis sociolinguísticas, respon­ enfim, que essas formulações (“características individuais de um enun­

sáveis pelas CP do discurso”. ciado”, “situações interpessoais”) designam o que a Lingüística conhece

O caráter de origem indireta que a sociolinguística tem referente à como sujeito da enunciação e situação de enunciação.

noção de CP do discurso parece-nos comprovado pelo fato de que a tradi­ Essas três observações podem conduzir à reconsideração do caráter

ção sociolinguística am ericana, tal com o ilustrada em Bright (1966), ou em original da sociolinguística, a respeito da qual falamos em origem indireta,

Fishman (1968), ou ainda em Pride & Holmes (1972), ignora a AD, con­ e do trabalho de Harris, a respeito do qual falamos em origem implícita.

siderando apenas, a respeito do discurso, os problemas relativos ao bilin- Seguindo F. Gadet (1977), só poderíamos falar acerca da sociolinguística

guismo ou então à etnografia da comunicação. O fato de que parâmetros de origem derivada ou segunda na medida em que essa autora a vê como

sociolinguísticos sejam admitidos como CP do discurso fazem parte, pois, “uma forma refinada de psicologia social da língua”, o que coloca essa

de sua reinterpretação no quadro da “análise sociolinguística francesa do última disciplina com o origem da sociolinguística e pode, pois, explicar a

discurso”, ao mesmo tempo que de sua analogia com as variáveis constitu­ compatibilidade a que nos referimos anteriormente. Q uanto ao trabalho

tivas do plano das CP do discurso, tal como as definem os psicossociólogos de Harris, talvez tivesse sido melhor caracterizá-lo como origem “espontâ­

na prática da análise de conteúdo. nea” ou “involuntária” da noção de CP, no sentido em que a representação

E no texto de Z . H arris (1952), D iscourse Analysis , que se situa a do exterior do objeto lingüístico inscreve-se “espontaneamente” na carac­

terceira origem da noção de CP do discurso. Trata-se aqui de uma origem terização psicossocial de uma situação de comunicação. Esse conjunto de

im plícita: o termo não figura no artigo de H arris, que teve o papel de considerações reforça efetivamente o caráter de origem direta que atribuí­

“m atriz”2 para a AD, conform e algumas opiniões. Encontra-se nele, em mos à psicologia social na formação da noção de CP.
Isso nos permite, por um lado, precisar o modo de articulação da Lin­
güística e, por outro, de certas Ciências Humanas e Sociais na constituição
2 N o sentido de “m odelo geral” que T. S. Kuhn (1970) dá a esse term o.
48 Análise do discurso politico A n oção de “con dição de produ ção do d iscu rso” 49

do discurso como objeto de uma disciplina específica, articulação na qual 2. AS TRANSFORMAÇÕES DA NOÇÃO
a AD frequentemente foi apresentada como constituindo o lugar. O que se
enuncia como multidisciplinaridade necessária à AD e situa o discurso no 2.1 D e f in iç ã o t e ó r ic a v s. d e f in iç ã o e m p ír ic a

campo de uma complementaridade (“tudo o que podem trazer outras disci­


plinas ao estudo de um fato lingüístico” [G uespin , 1 9 7 5 , p. 5 ]) com o cortejo Os estados sucessivos da noção de CP do discurso se dividem em dois
de denegações de que essas posições se acompanham (“a AD não poderia conjuntos: um conjunto de definições que nomeamos d e f i n i ç õ e s e m p í r i c a s ,
ser um cruzamento”..., “não se trata, pois, aqui de justaposição de discipli­ no qual as CP do discurso tendem a se confundir com a definição empírica
nas”... [id e m ]) parece-nos esconder o reconhecimento do fato de que a AD de uma situação de enunciação —essas definições se situam na continuidade
se inaugura sob o signo da a r t i c u l a ç ã o d e d u a s f a l t a s , da qual a noção de C P das origens da noção e um conjunto oposto de d e f i n i ç õ e s t e ó r i c a s , que
constitui o mais certo sintoma: a psicologia social à qual falta a possibili­ aparece desde 1971 em AD com o termo de f o r m a ç ã o d is c u r s iv a ( H a r o ­
dade, ao caracterizar o enunciado, de se sustentar sobre a base material da c h e , H e n ry & P ê c h e u x , 1971, p. 102), proveniente do trabalho de Foucault
língua, o que não falta à Lingüística; a Lingüística, por sua vez, para a qual (1969). Discutiremos mais adiante no Capítulo II essas definições teóricas.
faz falta uma “teoria do sujeito da situação”, ou seja, das C P do discurso,
invoca as disciplinas psicológicas e sociais. “O sentido de um texto, suas CP
1
- que dependem do sujeito falante e do contexto situacional —concernem, 2.2 U ma n o çã o d e c o n t eú d o h e t e r o g ê n e o e in st á v el

mais particularmente, à psicologia e à sociologia” (P ro v o st-C h a u v e a u , 1 9 7 1 ,


p. 8), o que pôde igualmente ser formulado assim: “o modelo de performance a) Uma tentativa de definição empírica geral
(do qual depende o discurso)5 recorre simultaneamente: 1) ao linguista, 2) ao
psicólogo, no que se refere ao sujeito, 3) ao historiador e ao sociólogo, no que A noção de CP conhece sua primeira definição em pírica geral nos
se refere à situação” (Guespin, 1 9 7 1 , p. 9 ).4 O recurso à multidisciplinaridade trabalhos de Pêcheux (1969, p. 16-29). Encontra-se neles definida, no
não contribui, nesse caso, senão para salientar o que ele se dedica a colmatar: quadro do esquema transform acional da com unicação de R . Jakobson
a ausência de uma construção teórica do discurso. (1963, p. 214), a partir de “lugares determinados na estrutura de uma
Tudo isso parece caracterizar, quanto à noção de CP do discurso, um form ação social, lugares cujo feixe de traços objetivos a sociologia pode
estado de partida cujas transformações se trata, agora, de apreciar. descrever” (p. 18). As relações entre esses lugares objetivam ente definí­
veis encontram -se representadas no discurso por uma série de “form ações
im aginárias” que designam o lugar que o remetente e o destinatário atri­
buem a si e ao outro (...).
A relação assim estabelecida entre lugares objetivamente definidos,
em uma form ação dada, e a representação subjetiva desses lugares, em
uma situação concreta de com unicação, propiciaram interpretações nas
3 N ós incluím os os parênteses. quais o e l e m e n t o i m a g i n á r i o d o m i n a o u a p a g a a s d e t e r m i n a ç õ e s o b j e t i v a s
4 Essas pou cas observações sobre o “nascim ento in terdiscip lin ar” de A D parecem poder q u e c a r a c t e r i z a m u m p r o c e s s o d i s c u r s i v o .s
ser aproxim ad as das observações que A lthusser (1975, p. 12) faz sobre o “ n ascim en to” da
p sicanálise: “Q u and o uma jovem ciência n ascc, o círculo fam iliar já está sem pre pronto
para a ad m iração , a ju b ilação e o batism o. H á m uito tem po, toda crian ça, m esm o en con ­
trad a, é reputada filha de um pai e, no caso de uma crian ça prod ígio, os pais disputariam
no guichc, não fosse a m ãe, e o respeito que se deve a c i a .. . ” . 5 Isso foi o b je to de um esclarecim ento em Pêcheux & Fuchs (1975, p. 25).
50 Análise do discurso político A n oção de “co n d ição de produ ção do d iscu rso” 51

Essas interpretações são possíveis, na verdade, por causa das am bi­ miísta ou transicional, referida anteriormente, a partir da qual as proble­
güidades da própria noção: por um lado, o recurso ao esquema da com u­ máticas da enunciação se esforçam para apresentar as relações entre língua
nicação de Jakobson permite compreender as condições (históricas) da i discurso. Notem os igualmente que as determinações propriamente his-
produção de um discurso, como as circunstâncias da produção (no sentido Inricas apagam-se nessa passagem: a caracterização do processo de enun-
psicolinguístico do termo) de uma mensagem por um sujeito falante; por i lação em cada discurso não corresponde ao efeito de uma conjuntura,
outro, essas formulações não são decorrentes da distribuição das tarefas mas às características individuais de cada locutor 6 ou ainda às relações in-
espontaneamente operada em AD, pela qual as CP recebem sua caracteri­ terindividuais que se manifestam no âmago de um grupo (o “caráter” dos
zação da psicologia ou da sociologia. Os termos de “im agem” ou de “for­ sujeitos enunciadores, a “inquietude fundamental” de Blum, a diferença
mação im aginária” poderiam perfeitamente substituir a noção de “papel”, tle formação dos dois líderes, as relações “afetivas” e “passionais” que os
tal com o aquela utilizada nas “teorias do papel”, herdadas da sociologia ligam ao grupo). Os planos histórico, psicossociológico e lingüístico, aos
funcionalista de T. Parsons (1961) ou ainda do interacionism o psicológico quais as CP remetem, são justapostos sem que nenhuma hierarquia nem
de G offm an (1971), Os pares nocionais lugar/formação im aginária, ou si­ ordem de determ inação sejam explicitamente indicadas. " **■ **<
tuação (objetiva)/posição (subjetiva), coincidem estreitamente com os pa­ Tentamos mostrar que a noção de CP do discurso apresenta um con-
res estatuto/papel da sociolinguística de Bernstein (1975, p. 203 e seguintes) icúdo ao mesmo tempo empírico e heterogêneo. Queremos acrescentar que
ou com posição social/papel do funcionalismo e da etnologia (por exem­ esse conteúdo é igualmente instável. Na verdade, tanto no quadro da de­
plo, R a d c l if f e - B r o w n , 1952, p. 11). finição geral proposta por Pêcheux (1969) quanto na realização da noção
A tentativa de definição geral, esboçada em Pêcheux (1969), não é, como hipótese específica em uma pesquisa particular, ficou evidente que na
pois, de uma natureza que possa romper com as origens psicossociológicas ausência de uma hierarquização teórica dos planos de referência da noção,
da noção. o plano psicossociológico (que estabelece como quadro a situação de enun­
ciação, as interações verbais dos locutores nessa situação e as hipóteses ti-
b) Operacionalização da definição empírica das CP pológicas que estão ligadas a ela) domina, de fato, o plano histórico de ca­
racterização das CP. Esse não é sempre o caso (especialmente em diferentes
Se a noção de CP assimilada a um “vetor de form ações im aginárias” trabalhos de J. Guilhaumou, D. Maldidier, J.-B . M arcellesi, R . R o b in ...), o
constitui um quadro geral para a definição das CP do discurso (ou de que tende a confirm ar o caráter de instabilidade da noção.
qualquer discurso), parece-nos necessário distingui-la das CP de um dis­ No que diz respeito ao nosso trabalho, e em razão do quadro geral de
curso ou de vários discursos particulares, com o estas podem encontrar-se definição das relações entre discurso e ideologia que expusemos na Intro­
definidas em um trabalho de AD. dução,'^gostaríamos de nos distinguir da irresistível atração que toda pes­
Dessa forma, no trabalho de Courdesses (1971), que analisa os discur­ quisa, especialmente sobre a enunciação no discurso, parece ter po/'uma
sos de L. Blum e de M . Thorez na conjuntura do Front populaire (em uma definição das CP em que domina a referência a uma situação psicossocio­
perspectiva centrada na diferenciação enunciativa de tipos de discurso), a lógica de comunicação'. O caráter heterogêneo e instável da noção de CP de
classe de hipóteses formuladas a título de CP do discurso garante a pas­ um discurso faz dela, nessa perspectiva, o lugar onde se opera uma psicolo-
sagem contínua da história (a conjuntura e o estado das relações sociais) gização espontânea das determinações propriamente históricas do discurso
ao discurso (enquanto tipologias que nele se manifestam) pela m ediação (o estado das contradições de classe em uma conjuntura determinada, a
d e um a caracterização psicossociológica (as relações do indivíduo com o
grupo) de uma situação de enunciação; isso vem ressaltar a posição conti-
fi O utros elem entos crítico s referentes ao trabalho encontram -se no C apítulo V.
52 Análise do discurso politico A n oção de “con dição de produ ção do d iscu rso” 53

existência de relações de lugar a partir das quais o discurso é considerado, destinatário”, e, entre esses papéis, a pressuposição “pode ser o (papel) mais

no centro de um aparelho, o que remete a situações de classe) que ameaça permanente - na grande comédia da fala” (D u c r o t , 1973, p. 49).

continuamente transform ar essas determinações em simples circunstâncias A segunda metáfora é aquela do com bate. Pode ser vista em uma refor­

em que interajam os “sujeitos do discurso” o que eqüivale tam bém a situar mulação (B achmann , D uro -C ourdesses & L e G uenn ec , 1977) do artigo de L.

no “sujeito do discurso” a fonte de relações de que ele é apenas o porta­ Courdesses (1971). Essa metáfora se refere mais especificamente ao discurso

dor ou o efeito Isso parece necessitar de uma redefinição da noção que a político: o recurso à pragmática leva ao pé da letra a velha metáfora retórica

reordene à análise histórica das contradições ideológicas no conceito de da “justa verbal”. As CP não são mais identificadas a uma cena de teatro, mas

form ação discursiva (o que tentamos no Capítulo II). ao ringue onde acontece uma “luta de boxe” (op. cit., p. 87),^em uma abor­

Para concluir sobre esse ponto, gostaríamos de indicar, a partir dos ob­ dagem psicossocial do “conflito político” como confronto interindividual.

jetivos que fixamos e das observações que precedem, o que seria um impasse
para a nossa pesquisa. Isso consistiria, de um lado, em fazer que o plano de Se considerarmos que todo discurso, e a fortiori todo

definição de CP do discurso coincidisse com a noção de situação de enun­ discurso político, assume uma função essencialmente

ciação, e de outro, em recorrer à pragm ática como análise do jogo das inte­ pragmática, que é meio de ação, o que atrai nossa aten­

rações verbais. Nessa concepção, a língua é assimilada às regras do jogo que ção são seus procedimentos de produção na interação,

instituem as relações entre os indivíduos na linguagem (Ver D u c r o t , 1972; suas finalidades, suas estratégias em função da situação

1973;7 F il l m o r e , 1974; S ea rle , 1972, por exemplo). Esse recurso à pragmá­ dos interlocutores, das forças políticas presentes e dos

tica tende a se generalizar nas análises que têm como quadro os fenômenos objetivos que persegue (op. cit., p. 80).

enunciativos em discurso.8 Este se realiza em duas metáforas: a primeira


apresenta o discurso como um teatro. Assim, para Vigneaux (1974, p. 169), Caberá portanto à AD identificar os protagonistas (L. Blum, M . Pivert),

o plano das CP se reduz a uma “análise circunstancial que permitiria alcan­ decompondo os “movimentos”, mostrando os “alvos” e determinando a “es­

çar uma unidade de conjunto necessária (do discurso), já que a argumen­ tratégia” (op. cit., p. 88) de cada um deles.9

tação é teatralidade”. Encontram-se traços dessa concepção em Maingue- E uma psicologia social da língua que está a serviço dessas duas me­

neau (1976, p. 133-138), mas ela se origina na noção de pressuposição em táforas. Ela tende atualm ente a unificar o campo disperso dos métodos

Ducrot. Para este último, a língua constitui um gênero teatral particular que de tratam ento dos textos em torno da noção de papel, que se encontra

“com porta, como irredutível, todo um catálogo de relações inter-humanas, também em análise estrutural de texto (B r é m o n d , 1973), em pesquisas so­

toda uma gama de papéis que o próprio locutor pode escolher e impor ao bre a argumentação (V ic. n ea u x , 1974), nas “hiperfrases de com unicação”
das gram áticas de texto (C h a ro lles , 1976, p. 138), bem com o na análise
dos fenômenos enunciativos. As metáforas do discurso com o teatro ou
como com bate têm o m érito de designar a lacuna existente entre essas
7 A crítica das concepções de D u crot sobre esse ponto é en contrada em H enry (1977, p. 37
e seguintes) e em Ebel &c Fiala (1974, p. 113-136). perspectivas e aquelas que, em AD, têm por objetivo a articulação teórica
8 O que está em questão aqui é m uito m ais a “filosofia” da p rag m ática, ou ainda a c o n ­
cep ção da h istória que ela pressupõe do que as descrições lingüísticas prop ostas p or ela
que, num certo núm ero de casos, parecem -nos poder ser reinterpretadas em um quadro
discursivo: pensam os, por exem plo, na descrição do fu ncion am ento pragm ático de certos 9 A definição das C P de um discurso, em tal quadro, parece-nos sair, sob a m etáfora do

co necto res usados por D u cro t, que a análise do irttradiscurso de uma seqüência discursiva co m b ate o rató rio co m o na análise psicossocial do conflito com o afron tam en to interindi­

deve levar em co n ta. O utras noções, no entanto, co m o a de pressuposição — fam iliar à vidual, de um simulacro das contradições existentes em uma dada con ju n tu ra h istórica.

pragm ática ou à sem ântica gerativa —são , de um ponto de vista discursivo, sujeitas à cau ­ Essa m etáfora do com b ate, assim com o a da representação teatral, en contra sua origem

ção (voltarem os ao assunto no C apítulo V I). no inrcracionism o psicológico de E. G offm an.


54 Análise do discurso político A n oção de “con dição de produ ção do d iscu rso” 55

da Lingüística com a H istória: é em cam p o fech a d o , na cena do teatro melhor, de um filtro que opera por extrações sucessivas: extração de um cam­
ou entre as cordas do ringue, que se passam as peripécias discursivas, ao po discursivo determinado de um “universal de discurso”, extração ou isola­
abrigo das determ inações da história. mento de seqüências discursivas determinadas, uma vez delimitado o campo
discursivo de referência'''
Convém inicialmente indicar que a própria noção de “universal de
3. CP E CONSTITUIÇÃO DE UM CORPUS DISCURSIVO: O discurso”, que deixa entender que qualquer discurso produzido está susce­
PLANO DE ESTRUTURAÇÃO DE UM CORPUS EM AD tível de entrar em um corpus discursivo e, portanto, suscetível de ser trata­
do em AD, traz um problema: não existe, na realidade, nenhuma “nebulosa
3.1 A COLETA DOS M ATERIAIS discursiva” que reúna a infinidade de discursos produzidos e que espere,
cm uma coexistência plana, que um analista de discurso venha tirá-los
Definiremos um corpus discursivo como um conjunto de seqüências do esquecimento. Há discursos que jamais serão objeto de análise algu­
discursivas, estruturado segundo um plano definido em relação a um certo ma, outros, ao contrário, pelos quais os analistas de discurso são ávidos:
estado das CP do discurso*À constituição de um corpus discursivo é, de i maioria dos corpora discursivos tratados em AD, e o nosso não é uma
fato, uma operação que consiste em realizar, por meio de um dispositivo exceção, são corpora de discursos políticos, extraídos do campo discursivo
material de uma certa forma (isto é, estruturado conforme um certo pla­ singularmente restrito dos discursos produzidos pelos órgãos de impressa
no), hipóteses emitidas na definição dos objetivos de uma pesquisa. ou pelos porta-vozes de partidos políticos franceses e principalm ente por
Isso apresenta inicialmente o problema da coleta de materiais dis­ partidos políticos da esquerda francesa. Será necessário tentar explicar a
cursivos que em seguida serão organizados em vista de um tratam ento de intensidade desse efeito (ver Capítulo IV).
AD. E, pois, por extração, fora do que Dubois (1969a) designou com o um Um campo discursivo restrito, tal como o que acabamos de designar,
“universal de discurso”, de seqüências discursivas de uma certa forma que não nos parece, pois, ser extraído de um “universal de discurso” pelas vir­
inicia essa operação. Se entendemos por “universal de discurso” o conjunto tudes da abstração empírica homogeneizante da definição das CP do dis­
potencial dos discursos que poderiam ser objeto de um tratam ento, consta­ curso, mas, ao contrário, parece preexistir em toda noção de “universal de
tamos que a operação de extração consiste primeiramente em delimitar um discurso” que intervém somente mais tarde.
cam p o discursivo de referência (quer se trate de um tipo de discurso, por E desse campo discursivo restrito que são extraídas as seqüências dis-
exemplo, o discurso político, do discurso que tange a uma fonte particular mrsivas que serão submetidas à análise. Definiremos as seqüências discur­
no interior do campo do discurso político, por exemplo, o discurso polí­ sivas como “sequências orais ou escritas de dimensão superior à frase”: é
tico produzido por tal locutor ou tal formação política, do discurso que preciso aqui indicar que a própria natureza e a forma dos materiais reco­
tange a uma fonte e a um momento histórico determinado, por exemplo, o lhidos são eminentemente variáveis e que a noção de “seqüência discursi­
discurso político produzido por tal formação política, em tal conjuntura, va” é uma noção vaga. Depende, na verdade, dos objetivos conferidos a
etc.), impondo aos materiais uma série sucessiva de restrições que os ho­ um tratam ento particular: a forma das sequências discursivas reunidas em
m ogeneizem *^ definição das CP do discurso garante a legitimidade dessas i nrpus não será a mesma caso se trate de uma análise do processo da enun­
homogeneizações sucessivas que conduzem a uma restrição do campo dis­ ciação ou de uma “análise automática do discurso”, realizada sobre a base
curso de referência.'' ile sequências produzidas em situação experimental; os procedim en tos de
A definição das CP do discurso age, portanto, no que se refere às seqüên­ '■rgmentação, que acabam por atribuir uma forma determinada a uma se-
cias discursivas que-Comporão o corpus discursivo à maneira de um funil, ou qucncia, também são, portanto, variáveis.
/ J K * ir //d A . r.
56 A nálise do discurso politico A n oção de “co n d ição de produção do d iscu rso” 57

Notem os, enfim, a heterogeneidade dos planos de estruturação dos coerência discursiva, mesmo nos tratam entos contrastivos, e porque esse
corpora efetivamente realizados em AD: operaremos, logo após (conforme postulado de homogeneidade constitui um obstáculo a uma perspectiva
subitem 3.3), um levantamento sistemático das form as de corpus, isto é, como aquela que tentamos desenvolver.
das formas de organização das seqüências discursivas na montagem parti­
cular que constitui um corpus determinado.
3 .3 A fo rm a d o co rpu s

3 .2 C r ité r io s de c o n s titu iç ã o d o co rpu s As seqüências discursivas reunidas e que respondem às exigências


expressas anteriorm ente receberão uma organização segundo um plano
Critérios de constituição de um corpus discursivo em AD foram estabe­ estruturado em certo número de dim ensões, o que eqüivale a determinar
lecidos. De fato, em todos os casos, a constituição do corpus deve responder uma form a ao corpus discursivo.
a exigências de “exaustividade, de representatividade e de homogeneidade”, A forma dos corpora efetivamente realizados em AD pode ser repre­
características “que são comandadas pela adequação aos objetivos da pes­ sentada por uma com binação simples ou complexa das seguintes dimensões
quisa” ( G a r d in & M a r c e l l e s i , 1974, p. 240). que representam cada uma a oposição de duas restrições possíveis na série
A exigência de exaustividade prescreve que não se deixe na sombra das homogeneizações sofridas pelo corpus:
nenhum fato discursivo que pertença ao corpus, devendo ele “incomodar
o pesquisador”. A exigência de representatividade indica “que não se deve • C orpus constituído por uma seqüência discursiva/por várias se­
tirar uma lei geral de um fato constatado uma única vez” (op. cit., p. 240). qüências discursivas. O trabalho de Harris (1952) representa um
Esses dois princípios expressam, de fato, restrições às generalizações auto­ exemplo do primeiro tipo de corpus, enquanto a maioria dos tra­
rizadas pela análise de um corpus, em uma trajetória de tipo indutiva. Eles balhos de AD se encontra na segunda possibilidade.
provêm, da mesma forma que o princípio de homogeneidade, das exigên­ • C orpus constituído de seqüências discursivas produzidas por
cias que foram encontradas expressas em lingüística descritiva na ocasião um locutor‘°/por vários locutores. Essa dimensão é relativa ao(s)
da constituição de corpora a partir dos quais se tenta situar fatos de língua: produtor(es) de discurso identificável(eis) em um corpus deter­
é a partir das exigências próprias à análise da língua que os princípios minado. Os corpora do primeiro tipo são mais raros que os do
de exaustividade, de representatividade e de homogeneidade se encontram segundo.
definidos. Isto deixa, pois, em aberto a questão sobre uma apreciação es­ • Corpus constituído de seqüências discursivas produzidas a partir
pecificam ente discursiva desses princípios (em relação a quê se pode avaliar de posições ideológicas homogêneas/heterogêneas. Essa dimensão
uma exaustividade, representatividade e homogeneidade discursivas?). refere-se às análises de discurso político que são, em AD, mais fre­
A respeito do terceiro princípio, aquele da hom ogen eidade, os autores qüentes que qualquer outra. Poder-se-ia falar igualmente de cor­
observam que se trata do con ceito mais difícil de utilizar, pois o estudo pora constituídos de seqüências discursivas que pertencem a uma
d os contrastes discursivos exclui a hom ogen eidade. Nós nos esforçaremos formação discursiva/a várias formações discursivas.
para m ostrar nas páginas finais deste capítulo que se o conceito de h o­ • Corpus constituído de seqüências discursivas produzidas em sin­
mogeneidade de um corpus discursivo é efetivamente difícil de utilizar é cronia/em diacronia. Essa dimensão, relativa à simultaneidade ou
porque a constituição de corpus discursivo em AD, ao contrário, efetua-se
10 Q uer se trate de locutor(es) individual(is) ou coletivo(s), no sentido que Gardin & M arcellesi
na condição de um postulado muito im portante de hom ogen eidade ou de
(1974) dão a esse termo.
58 Análise do discurso politico A n oção de “con dição de produção do d iscu rso” 59

à sequencialidade temporal de produção das sequências discursi­ Figura I Lista das form as de corpus.

vas, determina dois conjuntos de co rp o ra : aqueles da primeira ca­

+ 1 LO C
+ 1 SD

+ 1FD
1 LO C

EXPE
DIAC
SIN C

ARQ
1 FD
1 SD
tegoria, que parecem ser mais abundantes, e aqueles da segunda.
• Corpus constituído a partir de arquivos (ou “corpora pré-existen- + + + + + +
M aldidier 1969
tes”, conforme o termo de G a r d in & M a r c e l l e s i, 1974, p. 241)/ M arcellesi 1969 + + + + +

corpora experimentais (produzidos a partir de pesquisas empíricas H arris 1969 + + + + +


P ro v o st1969 + + + + +
por questionário, por respostas a certas regras...). Essa dimensão
M eleuc 1969 + + + + +
trata da natureza do modo de produção das sequências discursivas
Courdesses 1971 + + + + +
reunidas. Os corpora do segundo tipo são raros em AD. Gayout-Pecheux 1971 + + + + +
• C orpora de dimensões simples/de dimensões complexas. Por M aldidier 1971a + + + + + +
M aldidier 1971b + + + + + +
corpora de dimensões complexas entende-se corpora que com ­
Robin 1971 + + + + +
binam restrições opostas em uma dimensão (ou em várias), por
Slakta 1971a + + + + +
exemplo, corpora constituídos a partir de sequências discursivas Slakta 1971b + + + + +
produzidas em sincronia e, ao mesmo tempo, em diacronia, o M arcellesi 1971a + + + + + +

que não acontece com os corpora de dimensões simples. Pêcheux 1973 + + + + +


Vigneaux 1973 + + + +
Fischer/Véron 1973 + + + + +
Pêcheux-W esselius 1973 + + + + +
3.4 As FORMAS DE CORPORA REALIZADAS EM AD E SEUS DOMINANTES M aldidier/R obin 1974 + + + + +
Licitra 1974a + + + + +
Pêcheux 1974 + + + + +
Representamos na Figura I uma lista sistemática das formas de co r­
C antoklein/ R am ognino 1974 + + + +
pora que foram efetivamente realizadas na ocasião de estudos particulares. + + + +
Verges 1974
Essa lista sistemática da classificação desses trabalhos segundo planos de Palmade 1974 + + + +

estruturação definidos a partir das dimensões precedentes vai nos permitir Pêcheux-Fuchs 1975 + + + + +
Gardin 1976 + + + + +
separar as form as dom inantes de constituição de corpus em AD.
Guespin 1976b + + + + +
Em relação às três primeiras dimensões, parece que os corpora discursi­
M arcellesi 1976 + + + + + +
vos são, em geral, constituídos de várias sequências discursivas, produzidas M aldidier/R obin 1976 + + + + +

por vários locutores (individuais ou coletivos) a partir, mais frequentemente, Cluchague 1976 + + + + +

Bachm ann 1977 + + + + +


de posições ideológicas heterogêneas ou contrastadas. De fato, o trabalho de
Ebel/Fiala 1977 + + + + +
Harris (1952) e certos estudos ( V ig n e u a x , 1973; L ic it r a , 1974a; 1974b) pró­
L a b b é 1977 + + + + +
ximos das pesquisas sobre a argumentação são os únicos a adotar uma pers­ M arandin 1979 + + + + +
pectiva intradiscursiva que trata exaustivamente os elementos constituintes SD: seqüência discursiva ; L O C : locutor ; FD : form ação discursiva ; E X P : experim ental;
de uma única seqüência discursiva. Tal perspectiva foi adotada, algumas S IN C : sincrônico ; D IA C : diacrônico ; A R Q : arquivo ; + 1 L O C : vários locutores, etc.
vezes, para fins de exposição de um método de análise particular (P ê c h e u x ,

1969) ou de sua crítica ( F is h e r & V é r o n , 1973). A m aioria das análises iniciadas privilegia, portanto, uma perspec­
tiva contrastiva : trata-se de com parar sequências discursivas produzidas
60 Análise do discurso político A n oção de “con dição de produção do d iscu rso” 61

por um ou vários locutores a partir de posições homogêneas ou hetero­ A predominância do sincrônico constitui, muito frequentemente, a
gêneas. Tal perspectiva se encontra fortem ente representada tanto pelos m aterialização, em um plano de estruturação elaborado para tal estudo
trabalhos efetuados no âm bito da “análise harrisiana am pliada” quanto particular, de uma definição de predom inância psicossociológica das CP
no das análises enunciativas do discurso. E no conjunto do trabalho de do discurso, ao mesmo tempo em que constitui um retorno inesperado de
J.-B . M arcellesi que seus princípios foram mais claram ente definidos. Vol­ uma forma de saussurismo no interior do sociologismo lingüístico.
taremos a isso mais adiante. Duas observações impõem-se mais uma vez. Primeiramente, existem
Constata-se igualmente que os corpora que reúnem seqüências pro­ poucas análises realizadas a partir de corpora experimentais. Somente as
duzidas em sincronia dominam os que procedem a um reagrupamento aplicações da A D D 12 e - não há nisso o menor paradoxo —tentativas pró­
diacrônico. Essa dom inância d o sincrônico apresenta o problema da cons­ ximas da análise de conteúdo clássica ( C a n t o k l e in , 1974; V erg es, 1974;
tituição de um corpus discursivo a respeito do qual se levantam hipóteses Palm a d e, 1974) privilegiam esse tipo de corpus. E, enfim, os corpora de
de natureza histórica; ela tem, com efeito, uma dupla conseqüência: dimensões com plexas constituem a exceção (encontra-se essa preocupação
especialmente em J.-B . M arcellesi, visto que alguns de seus trabalhos com ­
1) Se afirmamos que todo discurso produzido se insere em um binam dimensões sincrônica e diacrônica de produção das seqüências).
processo discursivo que o determina, sob a forma dos elem en ­
tos pré-construídos - isto é, produzidos em outros discursos
anteriores a ele e independentes dele que se reproduzem por 4. FORMAS DE CORPUS E CONCEPÇÃO DAS CONTRADIÇÕES
ele sob a determinação de seu interdiscurso,u pode-se predizer IDEOLÓGICAS
que a constituição de um corpus discursivo, em referência a
um plano sincrônico de definição das CP do discurso, produ­ Gostaríamos, para concluir este capítulo, de relacionar certas form as tí­
zirá um esqu ecim ento d o interdiscurso, sob a modalidade do picas de corpus com a questão recorrente do tratamento da categoria de con­
apagamento do caráter pré-construído de certos elementos tradição em AD. Tomaremos emprestados exemplos dos trabalhos de análise
(sintagmas nominalizados, por exemplo) que todo discurso do discurso político realizados a partir de corpora de arquivos, deixando para
engloba. Esquecimento de que sempre-já há discurso... depois (conforme Capítulo II) a análise dos problemas surgidos nos corpus
2) Em conseqüência, pode-se prever, em tal caso, um risco de apa­ produzidos em situação experimental.
gamento das condições propriamente históricas de produção Destacaremos, de fato, nos trabalhos de AD política, formas de corpus
do discurso em benefício da definição de CP que se confunde que manifestam certa estabilidade na escolha e na organização de suas di­
com as características de uma situação de com unicação, o que mensões. Tomaremos, dentre esse conjunto de trabalhos, três procedimen­
destacamos anteriormente. tos típicos quanto à constituição de um corpus discursivo em AD política:
trata-se de um trabalho recente de D. Labbé (1977), O Discurso Comunista,
Em um estudo recente, Gardin (1976, p. 13) faz um resumo surpreen­ do conjunto dos trabalhos de J.-B . Marcellesi (1 9 6 9 ,1 9 7 1 ,1 9 7 6 e 1977), bem
dente de tal deslizamento: “A relação de com unicação, ou seja, finalm ente como das Pesquisas sobre os discursos x en ófobos de Ebel & Fiala (1977).
as relações sociais” (grifo nosso). Vamos nos esforçar para mostrar a relação implícita que se estabelece
riure essas três formas típicas de constituição de um corpus discursivo com

11 As n oções de “p ré-constru íd o” e “interdiscurso” estão desenvolvidas no C ap ítu lo II. U Análise autom ática do discurso. Pêcheux (1969).
62 Análise do discurso político A n oção de “con dição de p rodução do d iscu rso” 63

referência a um estado determinado das CP do discurso e certas concepções previstas no plano de constituição do c o r p u s . Isso tem como conseqüên­
das c o n t r a d i ç õ e s i d e o l ó g i c a s d e c la s s e , preocupando-nos em destacar que, cia o fato de ser sob a forma de uma a x i o m á t i c a , n ã o c o n t r a d i t ó r i a a e l a
além de um simples dispositivo material, uma forma de c o r p u s determinada m e s m a e g l o b a l m e n t e c o n t r a d i t ó r i a a um exterior discursivo que não foi
em AD política constitui uma representação das contradições entre posições considerado na definição das CP do discurso, que o “discurso com unista”
ideológicas de classe, sob a espécie de uma “teoria” das relações entre conjun­ se encontra representado.
tos de discursos (poder-se-ia aqui falar também em “formação discursiva”) Trata-se, pois, de uma “tradução” de uma concepção das contradições
produzidos a partir de tais posições. Traremos, enfim, tais concepções ao fun­ ideológicas de classe, na qual um termo da contradição encontra-se i s o l a d o
cionamento da categoria marxista de “contradição”. e pensado com o i d ê n t i c o a e l e m e s m o e, ao mesmo tempo, i n t e i r a m e n t e
c o n t r a d i t ó r i o a um exterior não especificado. Se acontece de o autor fazer
alusão a um eventual contato do discurso comunista com o discurso da
4.1 O D is c u r s o C o m u n is t a de D. L a b b é (1977) ideologia burguesa (op. cit., p. 197), ele apresenta o discurso comunista
mais como um bloco monolítico, impermeável e isolado, que encerra no fe­
A partir de contagens estatísticas realizadas sobre a base de unidades chamento de um tipo de “g u la g verbal” aqueles que se reconhecem nele: “o
pivôs, conforme o Laboratório de Lexicologia Política do ENS de Saint- homem aprisionado em sua linguagem fechada não parece capaz de que­
Cloud, esse trabalho de análise lexical se esforça para reconstruir uma te­ brar a lógica desse sistem a” (op. cit., p. 200).
mática do discurso do PCF, em sua permanência e em suas transform ações, Parece-nos que tal concepção das contradições de classe em AD po­
sob a forma de uma lista ordenada de orações mínimas (por exemplo: 1. “o lítica inscreve-se, considerando o discurso comunista, na teoria burguesa
poder atual está nas mãos dos monopólios”; 2. “o poder dos monopólios do c o n t r a - E s t a d o , bem como certamente na “tendência” desta última, a
é a pauperização das massas”, etc.). Essas orações mínimas constituem concepção stalinista da '‘f o r t a l e z a s i t i a d a ” .
as “frases de base” de uma verdadeira “gramática ideológica” que ordena Indicamos, para concluir, que é pela metáfora do “teatro”, analisada
o discurso comunista, cimenta a relação do indivíduo com o grupo (do anteriormente, que essa concepção se realiza: a “dramatização da vida po­
m ilitante com o partido) e produz uma “representação” que “organiza o lítica” ou ainda a “representação do real”, que fornecem a D. Labbé a con­
mundo” (op. cit., p. 100-113). clusão de seu trabalho, sustentam-se somente por meio de uma d e s m a t e r ia -
Sem retomar as críticas que se pode dirigir aos procedimentos de con­ l iz a ç ã o d is c u r s iv a d a h is t ó r ia .

tagens estatísticas (conforme especialmente P êch eu x, 1969), de seleção de


unidades pivôs (conforme especialmente B o r illo , 1976) e de “frase de base”
em AD (conforme especialmente M a ra n d in , 1978), contentar-nos-emos I n d iv id u a çã o e co n tra ste nos tr a ba lh o s d e J.-B. M a r c ellesi

aqui em caracterizar o plano de definição das CP dos discursos analisados:


a forma de c o r p u s considerada organiza seqüências discursivas homogêneas È em “análise sociolinguística do discurso político” que encontraremos
quanto às posições ideológicas a partir das quais são produzidas (trata-se a segunda das formas típicas de constituição de c o r p u s que desejamos men­
somente do discurso comunista) conforme uma dimensão diacrônica. cionar: essas concepções foram desenvolvidas mais ampla e explicitamente
O discurso comunista, portanto, só se dirige a ele mesmo: as relações no conjunto dos trabalhos de J.-B. Marcellesi. Elas se articulam em torno
de antagonismo, de aliança, de recuperação, de sustentação... que ele pode das noções de in d i v id u a ç ã o lin g ü ís t ic a d o s g r u p o s s o c i a i s e de e s t u d o c o n -
estabelecer com outros discursos (com o discurso político da burguesia, tr a s tiv o em AD.

com outros partidos políticos de esquerda, etc.) não são de forma alguma
64 Análise do discurso politico A n oção de “co n d ição de produção do d iscu rso” 65

“Por individuação, entender-se-á o conjunto dos processos pelos mos, porém, logo após, que tal perspectiva não está bem de acordo com a
quais um grupo adquire um ccrto número de particularidades de discurso primazia que a “análise sociolinguística do discurso” dá a uma ótica dife­
que podem permitir reconhecer, exceto por dissimulação ou simulação, um rencial ou contrastiva: nossa posição se afasta daquela expressa nos traba­
membro desse grupo” ( G a r d in & M a r c e l l e s i, 1974, p. 231). E no nível do lhos mencionados no pon to em que a categoria de contradição se separa
léxico e, ao mesmo tempo, da sintaxe (tipos de frases, presença ou ausência da n oção de contraste.
de certas transform ações...) que o estudo de tal individuação deve ser con­ Na verdade, gostaríamos de indicar que não é necessariamente sob a
siderado a partir de discursos “atribuídos às mesmas condições de enuncia­ forma de uma diferenciação discursiva que as contradições ideológicas de
çã o ” e que apresentam “diferenças, no mínimo, parciais” (op. cit., p. 232). classe se inscrevem na esfera dos discursos. O par “individuação/contraste”,
A utilização do método contrastivo é, dessa form a, uma conseqüência assim como o mostra o conjunto dos termos destacados na citação anterior,
do estudo da individuação. privilegia uma aproximação na qual a inscrição discursiva das contradições
é medida pelo estabelecimento de diferenças, de proximidades ou desvios
Os con trastes ressaltarão paralelismos de evolução, as a p r o ­ entre conjunto de discursos cuja individuação é, antes de tudo, postulada
x im a çõ es entre grupos, o maior ou menor d istan ciam en to (“o método contrastivo é uma conseqüência da individuação”). E afirmar
em relação ao sistema inicial. Assim, responder-se-á a ques­ a pré-existência de contrários individuados por sua relação contraditória.
tões como: o discurso dos comunistas, em 1925, está mais Aqui, parece-nos possível adiantar que o uso da categoria de contradição:
p ró x im o ou mais distan te do discurso da M a jo rilé d e Tours
do que o discurso dos socialistas em relação à M a jo rité d e 1) implica a primazia da relação de contradição sobre a individu­
Tours (supondo-se que se conseguiu constituí-los enquanto ação de contrários que a contradição “faz existir” no sentido
discursos diferen tes desde Tours)} Ou então, sendo relativa­ em que ela os une e, ao mesmo tempo, os divide;
mente comum o ponto inicial, qual é o discurso que mais se 2) sublinha a irredutibilidade de tal relação de contradição a uma
afa sta , e como, desse começo? (op. cit., p. 233).13 perspectiva puramente diferencial ou comparativa: a contradi­
ção é uma contradição “desigual”;
Observemos inicialmente que essa concepção do exame contrasti­ 3) lembra que a individuação não é de modo algum um “estado
vo induz à constituição de um c o r p u s discursivo nas CP nas quais esses inicial” e, sim, ela própria, um processo contraditório: os efei­
contrastes discursivos se encontram representados; esta constitui, pois, a tos das contradições ideológicas de classe são identificados no
crítica das visões de D. Labbé anteriormente expostas: “Nosso estudo pa­ próprio interior da “unidade” dos conjuntos de discursos cuja
rece condenar em nossa área qualquer estudo propriamente estrutural que individuação é postulada;
exclua o exame contrastivo (...). Em sociolinguística, de uma forma geral, 4) tem como conseqüência o fato de que todo conjunto do discur­
é preciso, pois, recusar a consideração dos problemas em termos de socie­ so (discurso comunista, discurso socialista...) deve ser pensado
dade global e de contra-sociedade” ( M a r c e l l e s i, 1976, p. 121). como uma unidade dividida numa heterogeneidade em relação
Os objetivos aos quais nos propusemos destacam, com efeito, a ne­ a ele mesmo, cujo traço cabe à AD política identificar. Isso eqüi­
cessidade de articular, em uma forma de c o r p u s , conjuntos de discursos valeria, por exemplo, mais que fazer da presença ou da ausência
produzidos a partir de posições ideológicas contraditórias. Acrescentare­ de uma determinada transformação o sinal de um desvio entre
eles, a mostrar como o funcionamento discursivo de tal opera­
ção lingüística permite a um conjunto de discurso, levantando
13 G rifo s nossos.
66 Análise do discurso político A n oção de “con dição de produ ção do d iscu rso” 67

CP determinadas, integrar elementos que provêm de seu exte­ mente as diferentes condições de produção que determinam efeitos de sen-
rior heterogêneo. ndo diferentes, portanto, mudanças de sentido; são também as condições
ilc circulação dos discursos, seus encontros” (op. cit., p. 10). Os discursos
G ostaríam os, para concluir esse ponto, de m encionar que a adoção xenófobos não são, pois, visados como pontos isolados a partir de CP deter­
de tal procedimento parece-nos ter como suporte observações recentes de minadas, mas tomados na perspectiva transversal do encontro, da mudança
J.-B . M arcellesi (1976, p. 122; 1977b, p. 4) quanto à relação entre contraste ou da “colocação em circulação das fórmulas” no âmago de discursos pro­
e contradição. Assim: duzidos em condições heterogêneas (panfletos, discurso de um “locutor co­
letivo”, cartas de leitores de jornais ou discursos de “locutores individuais”
“O que o movimento dos discursos políticos reflete antes produzidos a partir de posições ideológicas heterogêneas...).
de tudo são as contradições das lutas políticas e sociais, e A noção de “fórm ula” emprestada de J.-P. Faye (1972a, 1972b) desig­
não diretamente os grupos em si” (grifo nosso). na aqui morfemas lexicais (ueberfrem dung e xén ophobie) tendo “conden­
sado em si uma massa considerável de discursos aos quais eles serviam, de
ou ainda, apesar de uma restrição: certo modo, de equivalentes sem ânticos ou paradigm as prim itivos para fa­
mílias parafrásticas de enunciados” (op. cit., p. 14). A noção de “referente
“Está bem entendido que os contrastes na utilização da social” provém da existência de tais “fórm ulas”; atribuir uma “fórm ula”
língua por grupos de diversas ordens são os resultantes ■i um “referente social” eqüivale a designá-la como elemento de um saber
das contradições da sociedade, mas a determinação pode comum a todo locutor de uma dada formação social em uma conjuntu­
ser complexa e passar por diversas mudanças e interações ra determinada: a fórmula x en o fobia pertence, assim, a “uma categoria
de modo que a consciência social pode muito bem não ser semântica comum ao conjunto da form ação social da mesma forma que
idêntica à existência social.” outras fórmulas, mais antigas, com o pátria, neutralidade, independência
nacional, com unism o, lib erd a d e...” ('op. cit., p. 16).
Essas formulações parecem apresentar uma vantagem e, ao mesmo
4 . 3 " R eferen te s o c ia l " e " c ir c u l a ç ã o das fó r m u la s" n o s tr a ba lh o s d e tempo, um risco. Elas têm interesse em lembrar que os discursos produ­
E b e l & F ia la ( 1 9 7 7 ) zidos a partir de posições ideológicas contraditórias não constituem de
modo algum entidades separadas, e sim perm anecem em contato pela cir­
Encontram-se, na terceira das formas típicas de corpus, as Recherches culação e pela troca de “fórm ulas” para as quais im porta definir as condi­
sur les discours xén op h obes de Ebel & Fiala (1977), elementos críticos em ções a partir de uma pluralidade heterogênea de CP.
relação aos dois primeiros: é o postulado de coerência ou de homogeneidade Contudo, convém igualmente mostrar como as mesmas fórmulas po­
discursiva, que articula a definição das CP do discurso em uma forma de cor­ dem imprimir valores contraditórios e é aí que nos parece encontrar-se um
pus determinada tanto em Labbé (“um único discurso para todos”) quanto risco, apesar das precauções tomadas pelos autores. Se, na verdade, estes
na “análise sociolinguística do discurso” (a cada um, seu discurso...) que é adiantam que “a noção de referente social comum numa formação social
aqui visado, através das noções de condições de circulação dos discursos, de não exprime homogeneidade”, ou ainda que “essas fórmulas são sempre
fórm u la e de referente social. objeto de lutas”, ou que “essa batalha sobre as palavras é parte integrante
O estudo dos discursos xenófobos no âmago das “práticas linguagei- da luta de classes” (op. cit., p. 17), o risco parece-nos grande através das no­
ras” da formação social suíça leva os autores a adiantar que “não são unica­ ções de referente social com um , de fórmulas como equivalentes sem ânticos,
68 Análise do discurso político

de categoria sem ântica com um , de chegar a uma con cepção hegem ônica da CAPÍTULO II
circulação das fórmulas no âmago de um “mercado de troca discursiva” que
se confunde com o mercado de troca monetária e no qual as “fórmulas”, O CONCEITO DE FORMAÇÃO DISCURSIVA
com o peças de moeda passando de mão em mão, receberiam o mesmo valor.
Isso pode conduzir à constituição de discursos produzidos a partir de
posições ideológicas dominadas por variantes hegem ônicas do discurso
da ideologia dominante, em uma perspectiva que dissolve as contradições
ideológicas de classe. Talvez seja por esse subterfúgio que o postulado de
homogeneidade, do qual os autores tentam separar-se, volta a introduzir-se
em seu trabalho.
Esse conjunto de observações, que se originam das insuficiências da
noção de CP do discurso, parece-nos exigir sua redefinição. Tentaremos
redefini-la pelo conceito de formação discursiva, a fim de delim itar uma
forma de corpus que preserve, em AD político, a possibilidade de identifi­
car, através das produções e das mudanças discursivas, o efeito inscrito das
contradições ideológicas de classe na materialidade dos discursos.

O termo fo rm a çã o discursiva (doravante FD) aparece em 1969 com a


A rqueologia d o Saber, fora do domínio da AD, nos trabalhos de M . Fou­
cault, neste vasto e fecundo questionamento sobre as condições históricas
c discursivas em que se constituem os sistemas de saber. Um questiona­
mento que se efetua longe dos caminhos muito frequentemente seguidos,
por vias que caracterizo com o “paralelas” (L ec o u r t , 1972), mas que nos
parecem, antes, aproximar-se indefinidamente de objetos com o o discur­
so, o sujeito, a ideologia, sem nunca chegar com pletam ente a isso. Um
questionamento que, por meio da A rqueologia e da O rdem d o discurso,
aparece com o uma prática teórica no sentido forte e que, a meio cam inho
entre a história e a filosofia e, por vezes, também bastante perto da AD,
produz explicações extrem am ente fecundas que Foucault deixa em aber­
to, ao abrigo da verificação experimental. Um trabalho que se realiza à
margem e assim se condena ao paradoxo de só poder falar na condição de
não ser ouvido.
De fato, Foucault foi pouco ouvido pela AD; embora seja do discurso
que fale, ele o faz de outro modo. Será, entretanto, da A rqueologia que
70 Análise do discurso político O con ceito de fo rm ação discursiva 71

M ichel Pêcheux extrairá o termo FD do qual a AD se reapropriará, subme­ desses trabalhos foi essencialmente metodológica. A distância entre teoria e
tendo alguns elementos conceituais a um trabalho específico. método vai inverter-se progressivamente a partir de 1971, sob o efeito, nota-
Em um artigo recente, Pêcheux (1977) desenvolve uma crítica m arxis­ damente, do trabalho de Althusser (1970) de um lado, e da referência teórica
ta da concepção foucaultiana do discurso, conduzida do ponto de vista da ao conceito de FD de outro, mas sem que o trabalho teórico desse conceito
categoria de contradição, e conclui pela necessidade “de uma apropriação tenha acarretado conseqüências para as práticas de reunião e de organiza­
daquilo que o trabalho de Foucault contém de m aterialista”, dele distan­ ção de dados discursivos. Isso vai nos levar a dissociar esses dois planos e a
ciando-se em pontos que elucidaremos. tentar precisar suas relações no estado atual dos trabalhos de Pêcheux.
Isso eqüivale a indicar o sentido do que desejamos empreender aqui.
Trata-se, antes de tudo, de dar conta do uso que é feito do conceito de FD
nos trabalhos de Pêcheux tanto nos desenvolvimentos teóricos quanto na 1 .1 F o r m a ç ã o id e o l ó g ic a e FD

prática concreta de análise que coexistem nesse autor, e em seguida, mos­


trar que na A rqueologia há elementos que superam os obstáculos os quais, E sob a modalidade do que se conhece — na perspectiva das teses al-
nos trabalhos de Pêcheux, como na AD em geral, são encontrados nas ope­ thusserianas sobre a instância ideológica - como o assujeitam ento (ou in­
rações de constituição de um corpus discursivo em CP homogêneas. Isso terpelação) do sujeito com o sujeito ideológico que a instância ideológica
nos conduzirá a definir uma forma geral de corpus que permita, na análise contribui para a reprodução das relações sociais, “de tal sorte que cada um
do discurso político, reduzir a distância que separa atualmente o trabalho seja conduzido, sem perceber e tendo a impressão de exercer sua livre von­
teórico do conceito de FD de sua operacionalização no plano experimental. tade, a tom ar lugar em uma ou noutra das duas classes sociais antagônicas
Essa forma geral se encontrará especificada na constituição do corpus de do modo de produção” (P ê c h e u x & F u c h s , 1975, p. 101).
nossa pesquisa no Capítulo IV. E pela existência de aparelhos ideológicos de Estado que essa reprodu­
ção está materialmente assegurada. Trata-se de realidades complexas que
colocam em jogo práticas associadas a relações de lugares (determinados
1. "FORMAÇÃO DISCURSIVA" NOS TRABALHOS DE M. pelas relações de classes). Trata-se igualmente de realidades contraditórias,
PÊCHEUX na medida em que, em uma dada conjuntura, as relações antagônicas de
classes determinam o afrontam ento, no interior desses aparelhos, de
A problemática de Pêcheux comporta dois aspectos ligados, mas dis­
tintos, e isto desde a publicação em 1969 da Análise autom ática d o discurso. posições políticas e ideológicas que não se devem aos indi­
Esses dois elementos viram suas relações variarem e sua relativa importância víduos, mas que se organizam em formações mantendo en­
inverter-se no decorrer das sucessivas transformações pelas quais passou o tre si relações de antagonismo, de aliança ou de dominação.
conjunto da problemática. Nesses trabalhos, com efeito, um corpus de pro­ Falar-se-á de form ação ideológica para caracterizar um ele­
posições teóricas, ou “teoria do discurso”,1 coexiste com um método de aná­ mento suscetível de intervir, como uma força confrontada
lise do discurso, a AAD. O título da obra de 1969 indica que a primeira fase a outras forças na conjuntura ideológica característica de
uma formação social num dado momento: cada formação
ideológica constitui assim um conjunto complexo de ati­
1 E necessário precisar que a expressão “teoria do discurso” denota aqui a existência de um
pro jeto teórico do qual alguns elem entos com eçaram a ser elaborados, mas em nenhum caso tudes e representações que não são nem individuais nem
uma constru ção acabada. O projeto ao qual remete essa expressão constitui, por outro lado, universais, mas se relacionam mais ou menos diretamente
no cam po da AD, a m anifestação da posição “tcoricista” criticada na introdução.
72 A nálise do discurso político O con ceito de form ação discursiva 73

a posições de classes em con flito um as em relação às outras b) As FD são com ponentes interligados das FI. Isso implica que as
(H a ro ch e et al., 1971, p. 102). FD que constituem a mesma FI possam ser distinguidas umas
das outras (em razão, por exemplo, de sua “especialização”),
E nesse quadro que é considerada a relação das ideologias com o mas sobretudo que as FD que dependem de FI antagônicas, alia­
discurso. Se as ideologias têm uma “existência m aterial”, o discursivo será das, ... mantêm entre si relações contraditórias que se inscrevem
considerado com o um de seus aspectos materiais. Isso eqüivale a dizer que necessariamente na própria materialidade dessas FD, isto é, em
as form ações ideológicas sua m aterialidade lingüística. Se uma FD é o que, em uma dada
FI e em uma conjuntura, determina “o que pode e deve ser dito”
comportam, necessariamente, como um de seus compo­ (o que eqüivale a dizer que as palavras, expressões, proposições
nentes, uma ou várias formações discursivas interligadas recebem seu sentido da FD na qual são produzidas); convém
que determinam o que pode e deve ser dito (articulado sob acrescentar que essa característica não é isolada das relações
a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de contraditórias que uma FD estabelece com outra FD.
um relatório, de um programa, etc.), a partir de uma dada c) É no interior de uma FD que se realiza o “assu jeitam en to” do
posição em uma conjuntura, em outras palavras, em uma sujeito (ideológico) do discurso. Pode-se designar pelo termo de
certa relação de lugares interna a um aparelho ideológico processo discursivo “o sistema de relações de substituição, pa­
e inscrita em uma relação de classes. Diremos assim que ráfrases, sinônimos, etc., funcionando entre elementos lingüísti­
toda formação discursiva diz respeito a condições de pro­ co s” (P ê c h e u x , 1 9 7 5 , p. 146) que aparece como a matriz de cons­
dução específicas, identificáveis a partir do que acabamos tituição do sentido para um sujeito falante no interior de uma
de designar (P êcheu x 8 c F u ch s, 1975, p. 11). FD. Se uma dada FD não é isolável das relações de desigualdade,
de contradição ou de subordinação que marcam sua dependên­
cia em relação ao “todo complexo com dom inante” (ldem) das
1.2 FD E INTERDISCURSO FD, intrincado no complexo da instância ideológica, e se nomea­
mos “ interdiscurso ” esse todo complexo com dominante das FD,
Pode-se tentar extrair, a partir do que precede, as proposições que então é preciso admitir que o estudo de um processo discursivo
articulam a relação das “formações ideológicas” (FI) com as FD. no interior de uma dada FD não é dissociável do estudo da de­
term inação desse processo discursivo por seu interdiscurso. Isso
a) A instância ideológica estabelece, sob a forma de uma contradi­ im plica, notadamente, que o descompasso entre duas FD, de tal
ção desigual no seio de aparelhos, uma com binação complexa modo que a primeira sirva de “matéria prima representacional”
de elementos dos quais cada um é uma FI. As FI têm um caráter (P ê c h e u x &C F u c h s , 1 9 7 5 , p. 13) para a segunda, deve ser neces­
“regional” ou específico e comportam posições de classe. O que sariamente levado em conta tanto em teoria com o em análise do
explica que se possa, a partir de FI antagônicas, falar dos mes­ discurso e que “o próprio de toda FD é dissimular, na transpa­
mos “o bjeto s” (a democracia, a liberdade, o pluralismo, etc.) e rência do sentido que nela se form a, (...) o fato de que ‘isso fala’
deles falar “diferentemente” (“as palavras mudam de sentido em sempre antes, em outro lugar, ou independentemente” (P ê c h e u x ,
função das posições daqueles que as empregam” ( H a r o c h e et al., 1 9 7 5 , p. 1 4 7 ), isto é, sob a dependência do interdiscurso.
1 9 7 1 , p. 8 4 )).
74 Análise do discurso político O con ceito de fo rm ação discursiva 75

1 . 3 P r é - c o n s t r u íd o , a r t ic u l a ç ã o d e en u n c ia d o s e f o r m a - su jetto universal da FD: “O que cada um conhece, pode ver ou compre­


ender” é também “o que pode ser dito”. Se o pré-construído da
A caracterização do interdiscurso de uma FD é, então, um ponto cru­ seus objetos ao sujeito enunciador sob a modalidade da exteriori-
cial da perspectiva desenvolvida por Pêcheux: a partir do interdiscurso as dade e da preexistência, essa modalidade se apaga (ou se esquece)
modalidades do assujeitamento poderão ser analisadas. Com efeito, o in­ no movimento da identificação,
terdiscurso é o lugar no qual se constituem, para um sujeito falante, pro­ b) A articu lação de enunciados. O interdiscurso, enquanto lugar
duzindo uma sequencia discursiva dominada por uma FD determinada, os de constituição do pré-construído, fornece os objetos dos quais
objetos de que esse sujeito enunciador se apropria para deles fazer objetos a enunciação de uma seqüência discursiva se apropria, ao mes­
de seu discurso, assim como as articulações entre esses objetos, pelos quais mo tempo que (ele) atravessa e conecta entre si esses objetos; o
o sujeito enunciador vai dar uma coerência à sua declaração, no que cha­ interdiscurso funciona, assim, como um discurso transverso, a
maremos, depois de Pêcheux (1975), o intradiscurso da seqüência discur­ partir do qual se realiza a articulação com o que o sujeito enun­
siva que ele enuncia. E, então, na relação entre o interdiscurso de uma FD ciador dá coerência “ao fio de seu discurso”: o intradiscurso de
e o intradiscurso de uma seqüência discursiva produzida por um sujeito uma seqüência discursiva aparece nessa perspectiva com o um
enunciador a partir de um lugar inscrito em uma relação de lugares no in­ efeito do interdiscurso sobre si próprio. Se o funcionam ento do
terior dessa FD que se deve situar os processos pelos quais o sujeito falante interdiscurso com o pré-construído foi estudado essencialm en­
é interpelado-assujeitado como sujeito de seu discurso. E igualmente nessa te a partir do encaixe das nominalizações no intradiscurso, seu
relação que se estabelece a articulação do discurso com a língua da qual funcionam ento com o discurso transverso deu lugar a trabalhos
dois aspectos foram estudados até agora: (H e n r y, 1975; P êch eux, 1975) concernentes às orações relati­
vas. O emprego de uma relativa explicativa produz assim, por
a) O pré-construído. Esse termo, introduzido por Paul Henry, desig- expressões tais que “com o nos dissemos/como cada um sabe,
na uma construção anterior, exterior, independente por oposição pode-se ver”, uma lembrança lateral do que se sabe por outro
ao que é construído na enunciação. Ele marca a existência de um lado (um “retorno do saber no pensam ento”, nos termos de
descompasso entre o interdiscurso como lugar de construção do Pêcheux), produzindo um efeito de apoio correlativo à articula­
pré-construído, e o intradiscurso, como lugar da enunciação por ção das orações no intradiscurso.2
um sujeito. Trata-se do efeito discursivo ligado ao encaixe sintá­
tico: um elemento do interdiscurso nominaliza-se e inscreve-se no
intradiscurso sob forma de pré-construído, isto é, com o se esse Pode-se determ in ar nos exem plos (a) e (b) a seguir, extraíd os do jo rn al 1 Humanité, de 28
de dezem bro de 1977, sob a form a dc relativas explicativas incisas, a lem brança lateral de
elemento já se encontrasse ali. O pré-construído remete assim às
um saber que vem , sob a m odalidade do “com o cada um o sabe (no (a)) ou do com o
evidências pelas quais o sujeito se vê atribuir os objetos de seu cada um pode vê-lo” (no (b )), m arcar o traço do interdiscurso en q u an to discurso transver­
discurso: “o que cada um sabe” e simultaneamente “o que cada so no intradiscurso:
(a) Lem bram os do com an d o da C F T —sindicato con trolad o pelos p atrões — que abateu o
um pode ver” em uma dada situação. Isso eqüivale a dizer que se
delegado C G T , Pierrc M aitre.
constitui, no seio de uma FD, um sujeito universal que garante “o (b) D ifícil acred itar que o m inistro do interior, que extrapola ao c o lo ca r m icrofones nas
casas das pessoas h onestas, desconhece a existência de grupos especializados em exp losi­
que cada um conhece, pode ver ou compreender”, e que o assu­
vos p lásticos e na m etralhadora.
jeitam ento do sujeito em sujeito ideológico realiza-se, nos termos D estaca-se, p or ou tro lado, em (b) a presença do interdiscurso en q u an to pré-constru ído

de Pêcheux, pela identificação do sujeito enunciador ao sujeito na n om in alização: a existên cia de grupos (isto é: os grupos especializados em explosivos
plásticos e na m etralhadora existen te, o que cada um sa b e ... salvo o m inistro do interior).
76 A nálise do discurso político O con ceito de form ação discursiva

As concepções desenvolvidas por Pêcheux têm, assim, as seguintes na constituição de c o r p o r a submetidos ao tratamento AAD, a c o n c e p ç ã o
conseqüências: te ó r ic a q u e e le e la b o r o u .

(1) É no interdiscurso como lugar de formação dos pré-construídos


e de articulação dos enunciados que se constitui o e n u n c iá v e l 2. A CONSTITUIÇÃO DE CORPORA DISCURSIVOS EM AAD3
c o m o e x t e r i o r ao sujeito de enunciação.

(2) A interpelação-assujeitamento do sujeito falante com o sujeito 2.1 C orpora d e a r q u iv o v s. c o r p o r a e x p e r im e n t a is

de seu discurso se realiza pela identificação deste último ao su­


jeito universal da FD ; o sujeito enunciador é, nessa perspectiva, Dispõe-se, neste ponto, ao mesmo tempo dos c o r p o r a analisados
produzido com o um efeito das modalidades dessa identifica­ no decorrer de aplicações do método AAD e de princípios discutidos por
ção; é, nos termos de Pêcheux, o domínio da f o r m a - s u j e i t o . “O Pêcheux &C Fuchs (1975, p. 25-30).
pré-construído corresponde ao ‘sempre-já ali’ da interpretação Os c o r p o r a analisados são de dois tipos, conforme mostramos no es­
ideológica que fornece-impõe a realidade de seu ‘sentido’ sob tudo do capítulo precedente sobre as formas de c o r p u s em AD: ou c o r p o r a
a forma da universalidade (‘o mundo das coisas’), enquanto a d e a r q u iv o s (constituídos a partir de materiais preexistentes, com o aqueles

articulação constitui o sujeito na sua relação com o sentido, com os quais, por exemplo, os historiadores são confrontados) ou c o r p o r a
de sorte que ela representa no interdiscurso o que determina a e x p e r i m e n t a is (que eqüivalem à produção de sequências discursivas por lo­

dominação da forma sujeito” (P ê c h e u x , 1975, p. 92). cutores colocados em uma situação experimental definida). Se a prática de
(3) A determ inação das condições de produção de uma seqüência trabalho em c o r p o r a de arquivos é, antes, uma prática de historiador, aquela
discursiva só deveria efetuar-se no quadro de definição que em c o r p u s experimental é comumente adotada pelos psicólogos ou psicos-
constitui o conceito de FD, a partir do interdiscurso da FD sociólogos quando da reunião de seus dados. Os estudos realizados divi­
que domina essa seqüência como “conjunto com plexo imbri- dem-se de maneira quase igual em dois conjuntos: os c o r p o r a de arquivos
cado de FD e de F I”. foram constituídos de maneira clássica a partir da seleção de uma palavra-
polo cujos contextos de frase são sistematicamente levantados num campo
Trata-se, pois, da expressão de uma posição teórica na qual a noção discursivo restrito e submetido ao tratamento AAD (P êch e u x 8c W esseliu s,
de CP de um discurso, cujos pontos fracos salientamos, encontra-se reor- 1973; P ê c h e u x 8c G a y o t, 1971; G a y o t, 1973); os c o r p o r a experimentais são
denada em uma análise que lhe confere uma base teórica que rompe com constituídos de sequências discursivas produzidas em situação experimental
a concepção psicossocial das CP dos discursos com o circunstâncias de um com o respostas a uma questão, a uma instrução, à produção de um curto
ato de comunicação. resumo de te x to ... (P e c h e u x , 1974).
E aqui que deve intervir a análise do vínculo entre essa definição teó­
rica das CP de um discurso —colocadas sob a dependência da relação que
uma FD mantém com a “pluralidade contraditória” de seu interdiscurso
- e as operações de constituição de um c o r p u s discursivo na construção da
AAD, isto é, a projeção no campo experimental dessa definição teórica. Nós
nos esforçaremos em mostrar que a p r á t i c a d e a n á li s e de Pêcheux contradiz,
3 R em etem os, para a exp osição do m étodo, a Pêcheux (1969), H aroch e &C Pêcheux (1972),
Pêcheux & Fuchs (1975).
78 Análise do discurso político O conceito de fo rm ação discursiva 79

2 . 2 A NOÇÃO de " d o m in â n c ia " neira implícita e que somente pode ser resolvido ao preço dos artefatos que
comporta necessariamente toda “mise-en-scène experimental”. O proble­
Nos dois tipos de estudo, os corpora foram reunidos a partir de prin­ ma da segmentação surge de maneira implícita quando, na instrução dada
cípios externos às características técnicas do dispositivo AAD: é a noção de aos “sujeitos experimentais” em uma “situação experimental definida”, se
“dominância por C P estáveis e homogêneas” que “garante” as operações determina que as sequências discursivas a produzir não deverão exceder cer­
de constituição do corpus. N o caso, por exemplo, dos corpora de arquivos ca de quinze linhas, por razões perfeitamente justificadas, no estado atual
tratados em AAD, a noção de “dominância por C P estáveis e homogêneas” do procedimento informático de processamento, que se devem às limitações
recobre a delimitação de um campo discursivo restrito, a definição das di­ de capacidade de memória que o programa permite. Assim se encontra re­
mensões de uma forma de corpus particular e a extração de uma ou várias solvida a questão da dim ensão sintagmática das sequências discursivas.
palavras-polos associadas a seu contexto por uma operação de segmentação Por outro artefato se encontra resolvida a questão de sua unidade te­
das sequências discursivas (como a palavra “circunstância” e seu contexto m ática, suposta pela “dominância por CP estáveis e homogêneas”. E pelo
no estudo de G ayot & P êch eu x (1971), e a palavra “luta” e seu contexto no caráter indutor de uma instrução e da natureza hom ogeneizante de uma
estudo de P êc h eu x & W esselius (1973)). Tal operação sofre críticas gerais situação experim ental que se confunde com a situação escolar que dom i­
que podem ser formuladas em AD quanto ao p ostu lado de coerência sob o nância, estabilidade e homogeneidade são garantidas na experimentação.
qual é pensada a relação do ideológico com o discursivo. O fato de associar Essa dificuldade aparece na experiência M ansholt (P êc h eu x , 1974): trata-
n corpora em um só num tratamento diferencial (P êc h e u x &C F u c h s , 1975, se aqui, em um tratamento “experimental” destinado a revelar a ambigüidade
p. 25) não nos parece tampouco escapar às reservas assinaladas acima, que ideológica de um discurso, de extrair uma passagem do relatório Mansholt,
se podem formular em relação aos tratamentos contrastivos. considerado como típico da obra, e de apresentá-lo sob duas assinaturas di­
ferentes (uma assinatura de esquerda: “extraído do relatório de um grupo de
estudos composto de responsáveis do sindicato C FD T e de militantes de par­
2 . 3 P r o b le m a s d e s e g m e n ta ç ã o e u n id ad e t e m á t i c a d o co rpu s tidos de esquerda”; e uma assinatura de direita: “extraído do relatório de um
grupo Prospectives, grupo de reflexão composto de republicanos giscardianos
De outro lado, a escolha da frase como unidade contextual no inte­ e de outros membros da maioria”) a dois grupos de estagiários de uma recicla­
rior da qual o funcionamento de pivôs é estudado cria um grave problema, gem para administradores técnicos, aos quais se pedia para resumi-lo o mais
salientando a urgência em AD de desenvolver uma perspectiva intradiscur- “completamente” e o mais “objetivamente” possível.
siva. Na ausência de uma teoria da interfrase sobre a qual os critérios de È pela escolha de um extrato determinado do relatório M ansholt
segmentação das sequências discursivas poderiam ser estabelecidos, é por contendo alguns termos que vão desempenhar papel de “palavras-polo”
meio de um a solu ção pragm ática que o problema se encontra “resolvido” (“expansão dem ográfica”, “países em via de desenvolvimento”, “popula­
nas aplicações da AAD: essa solução eqüivale a favorecer a via “experim en­ ção mundial”, “baixa do consum o”) e pela instrução dada - produzir um
ta l” em detrimento da via “arquivista” na constituição de um corpus dis­ “resumo fiel” dele — que é assegurada a unidade temática das sequências
cursivo, porque “o problema da segmentação do discurso não se apresenta discursivas produzidas pelos dois grupos de locutores em “CP estáveis e
[ou é mais facilmente solucionável] no caso da via experim ental” (F uchs & homogêneas”. Como não observar, de outro lado, que as interpretações
P ê c h e u x , 1975, p. 29). parcialmente divergentes produzidas pelos locutores do texto-fonte, sob a
Adiantaremos, ao contrário, que o problem a da segm entação se levan­ forma de uma “leitura de esquerda” e de uma “leitura de direita”, são tan­
ta nos corpora experim entais , ou mais exatamente, que é levantado de ma­ to um efeito do caráter ideologicamente ambíguo do relatório M ansholt
80 A nálise do discurso político O con ceito de form ação discursiva 81

quanto um efeito da própria situação (uma reciclagem em contexto es­ A construção de um plano experimental que organize um campo de ar­
colar): se é verdade que o sujeito é “interpelado” com o sujeito ideológico quivo deverá, enfim, incluir a possibilidade de aceder ao interdiscurso de uma
pelas “práticas” (notadamente discursivas) regradas por rituais no interior FD, o que proíbe o uso da AAD em situação experimental: é nesse sentido que
de aparelhos ideológicos do Estado” (A l t h u sser , 1970), que lhe impõem se pode dizer que o procedimento somente fornece, sob a forma de domínios
a evidência de um sentido, então, a “situação experim ental”, que consiste de paráfrases discursivas, os “traços” do processo discursivo inerente a uma
aqui na reprodução “simulada” das condições de assujeitam ento ideoló­ FD; o interdiscurso, como lugar de construção dos elementos pré-construídos
gico, produzirá com o evidência a coincidência entre o conteúdo do texto- e de articulação desses elementos, estando ausente do plano experimental, só
fonte e a assinatura, isto é, induzirá “espontaneam ente” uma leitura “de pode ser abordado em sua forma de maneira aleatória a partir dos “traços”
direita” ou “de esquerda” do mesmo fragmento, sob a evidência bem esco­ com que ele marca o processo discursivo. Contudo, essa reconstrução do in­
lar do respeito que se deve aos (bons) autores. terdiscurso tem sempre um caráter hipotético pelo fato de que os elementos
Isso eqüivale a destacar o parentesco entre as operações de consti­ que permitiriam marcar o interdiscurso não figuram no corpus discursivo. Os
tuição de um corpus em AAD e aquelas que criticam os no item 2 deste procedimentos de constituição de corpora adotados pela maioria dos traba­
capítulo, no quadro das definições empiristas das C P de um discurso em lhos de AAD eqüivalem, assim, praticamente, a anular algumas das exigên­
AD. O recurso ao “método experimental” a um corpus discursivo que as cias teóricas do procedimento (eliminação da categoria de contradição/aban­
aplicações da AAD privilegiam parece-nos inadequado às exigências teó­ dono de uma definição histórica das CP do discurso). Essa anulação é um
ricas expressas no conceito de F D . Essa inadequação é um dos efeitos do efeito da reinscrição do conjunto da problemática no interior das ideologias
atraso do método sobre desenvolvimentos teóricos e leva necessariamente da neutralidade e da delimitação das situações escolares e das “experimenta­
a fazer caírem “essas práticas instáveis” (P ê c h e u x & F u c h s , 1975, p. 30) no ções psicológicas”, isto é, das ideologias práticas da escola enquanto apare­
lado da psicologia social das situações e do idealismo que lhe é correlato. lho ideológico de Estado, nos termos de Althusser. Estranha destinação que
A experiência anteriormente descrita contribui, pois, antes de tudo, para levanta uma última questão, que deixaremos em aberto: a noção de aparelho
sublinhar (e destacar) o efeito ou o impacto das “relações de lugar” no in­ ideológico de Estado não se fecha em si mesma por uma espécie de necessida­
terior de um aparelho sobre discursos produzidos, a partir desses lugares; e de interna, no fecham ento que indicam os? Algumas de suas “aplicações con­
se fecha, assim, por seu desconhecimento, em uma delim itação m etafórica cretas”, tanto em AD quanto em outras áreas (B audelaut & E sta blet , 1971),
em que “luta de classes” rima com “sala de classe” (P ê c h e u x , 1974). levam a pensar: está mais do que na hora, ao que parece, se ainda convém
Assim, e para concluir sobre esse ponto, enquanto Pêcheux & Fuchs utilizar esta noção, de deslocar ou de desregionalizar os aparelhos ideológicos
(1975, p. 29) propõem considerar que a “forma-arquivo é uma forma d e­ de Estado, a fim de romper seu fechamento.
rivada, adulterada do processo de tratamento que, nessa perpectiva, é de
natureza experim ental”, nós afirmaremos que o problema que se levanta
em AD, no que concerne à realização material de um corpus discursivo que 3 . R e l e r F oucault: d is c u r s o , FD , en un ciad o e s u je it o na "A r q u e o l o g ia "

seja adequado à elaboração teórica do conceito de FD, somente poderá


ser resolvido pelo tratam ento de um cam po de arquivo com o dispositivo J á dissemos anteriorm ente que em geral a AD faz pouco caso do tra­
experim ental. Isso significa afirmar o caráter necessariamente construído balho de Foucault (uma exceção, no entanto, a tese de M arandin, que re­
de uma experim entação como realização de hipóteses teóricas e distinguir define e utiliza noções extraídas da A rqueologia). Expusemos em outro
tal experim entação das “experiências” que colocam em cena “sujeitos con­ trabalho (C o u r t in e , 1980, p. 93-98) algumas precauções que devem ser
cretos” e “situações concretas” com características múltiplas. tomadas para uma releitura que consideramos indispensável. Em resumo,
82 Análise do discurso político O con ceito de fo rm ação discursiva 83

em certo número de pontos, o objetivo e o objeto da AD e da A rqueologia também de coexistência, manutenção, modificação ou
divergem consideravelmente; isso significa que se encontrará na problemá­ desaparecimento) em uma dada distribuição discursiva
tica de Foucault muito mais uma prática teórica exemplar na construção (op. cit., p. 53).
do conceito de FD do que uma bateria de noções aplicáveis im ediatamente
à AD: reler Foucault não é “aplicá-lo” à AD, é trabalhar sua perspectiva A definição de uma FD com o forma de repartição ou ainda sistema
no interior da AD. dc dispersão convida a estabelecer a contradição entre a unidade e a
Outras restrições suscitadas pelas exigências de um trabalho m ateria­ diversidade, entre a coerência e a heterogeneidade no interior das FD,
lista foram expostas (L ec o u r t , 1972; R o b in , 1973; Pêch eu x, 1977); não re­ eqüivale a fazer de sua unidade dividida “a própria lei de sua existên­
tornaremos a isso. Destacam os, em contrapartida, um problema que surge cia” (op. cit., p. 197), o que Foucault explica assim: “Se há unidade, ela
com a leitura da A rqueologia: trata-se da relação entre m aterialidade da não está a bsolu tam en te na coerên cia visível e horizon tal d os elem en tos
língua e m aterialidade do discurso. Se Foucault (1969) tom a muito cuidado form ad os, ela reside bem aquém, no sistema que torna possível sua for­
em separar esses dois elementos como veremos a respeito do enunciado, m ação” (op. cit., p. 95).4
sua articulação não é pensada sob a perspectiva foucaultiana, o que não se O conceito de FD parece então correlacionar contraditoriam ente
dá sem as conseqüências que indicaremos. dois níveis distintos que constituem dois modos de existência do discurso
como objeto:

3.1 O C O N C E IT O DE FD a) O nível de um sistem a de form a çã o dos enunciados, que se si­


tua “aquém da coerência visível e horizontal dos elementos for­
O termo “discurso” não é um termo primitivo, mas um objeto de m ados” no plano das “regularidades pré-term inais” (op. cit.,
construção para a A rqueologia. Essa elaboração o relaciona àquela de FD. p. 100). “Por sistema de formação é preciso entender um feixe
“Cham ar-se-á ‘discurso’ um conjunto de enunciados na medida em que se complexo de relações que funciona com o regra” (op. cit., p. 97).
inscrevem na mesma F D ” (op. cit., p. 153). Designaremos esse nível como nível do enunciado.
A análise do discurso (no sentido de Foucault) passa, assim, por aque­ Se aproximarmos essas formulações daquelas de Pêcheux, evi­
la dos enunciados e das FD: dencia-se que tal sistema de formação funcionando com o regra
refere-se “ao que pode e deve ser dito” por um sujeito falante, a
A análise de uma FD estudaria form as de repartição (...), partir de um lugar determinado e em uma conjuntura no interior
descreveria sistemas de dispersão. Na possibilidade de des­ de uma FD, sob a dependência do interdiscurso desta última. O
crever, entre um certo número de enunciados, um seme­ nível de um “sistema de form ação” faz que a constituição da “ma­
lhante sistema de dispersão, ou de definir entre os objetos, triz do sentido” seja inerente a uma FD determinada no plano dos
tipos de enunciação, conceitos, escolhas temáticas, uma processos históricos de formação, reprodução e transform ação
regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcio­ dos enunciados no campo do arquivo.
namentos, transformações), dir-se-á (...) que se trata de b) O nível d e uma seqüência discursiva concreta, “estado terminal
uma FD. Chamar-se-ão regras de form ação as condições do discurso” (op. cit., p. 100), na medida em que esta manifesta
às quais são submetidos os elementos desta repartição. As
regras de formação são as condições de existência (mas
4 G rifo nosso.
84 A nálise do discurso politico O con ceito de form ação discursiva 85

uma certa “coerência visível e horizontal dos elementos form a­ ele se refere a uma sucessão de frases em uma superfície discursiva, cujos
dos”, ou seja, um intradiscurso. Toda seqüência discursiva, ou modos de encadeamento foram até agora pouco estudados. Inscreve-se,
discurso concreto, existe, portanto, no interior do “feixe com ­ por outro lado, em uma oposição bipolar com a enunciação e denota, neste
plexo de relações” de um sistema de form ação: é, propriamente sentido, o texto acabado e encerrado munido de sua estrutura lingüística,
falando, “um nó em uma rede” (op. cit., p. 34). Cham aremos esse i aracterizável a partir de unidades discretas. Figura às vezes como proposi­
nível de nível da form u lação. ção lógica; na AAD, o enunciado elementar designa um vetor indexado de
Isso implica que toda seqüência discursiva deve ser apreendida categorias morfossintáticas que vem codificar um conteúdo proposicional.
enquanto objeto tomado num processo discursivo de reprodu­ Os enunciados representam, então, “átom os”, “grãos” de discurso,
ção/transformação dos enunciados no interior de uma dada FD: cujas com binações produzem o texto. Enfim, ocorre que se lhe associe um
o estudo d o intradiscurso qu e tal seqü ência m anifesta é indisso­ suplemento pragmático destinado a comutá-lo em discurso.
ciável da consideração d o interdiscurso da FD. Ao contrário das definições precedentes, Foucault situa de saída o
enunciado em uma perspectiva discursiva: o que define o enunciado na Ar­
A aproximação que estabelecemos mais anteriormente entre os níveis queologia é o que o distingue das unidades que articulam os respectivos
de um “sistema de formações dos enunciados” e do “interdiscurso” de um objetos da lógica, da gram ática, ou da Escola Analítica: o enunciado não é
lado, do “estado terminal do discurso” e do “intradiscurso” de outro, nas a proposição, nem a frase, nem o ato de linguagem, “encontram-se enun­
respectivas problemáticas de Foucault e de Pêcheux, não deve levar a crer ciados sem estrutura proposicional legítima; encontram-se enunciados lá
que essas duas abordagens do conceito de FD podem ser traduzidas uma onde não se pode reconhecer frase, encontram-se mais enunciados do que
pela outra. Se os procedimentos manifestam uma isomorfia de descrição se pode isolar speech acts (op. cit., p. 111). Ou ainda: “o enunciado não
dos níveis em jogo em uma FD (na medida em que eles mantêm uma certa existe do mesmo modo que a língua, apesar de ser com posto de signos que
relação de filiação, o conceito de FD proveniente do trabalho de Foucault), somente são definíveis em sua individualidade e no interior de um sistema
eles têm, no entanto, uma especificidade que não poderia ser reduzida:5 lingüístico” (op. cit., p. 114).
isso particularm ente no que diz respeito às definições do enunciado e do A descrição do enunciado na Arqueologia —a “análise enunciativa” —
sujeito na A rqueologia. Antes de chegar a isso, examinemos a noção de põe em jogo a questão central para a AD da relação entre materialidade da
enunciado em AD. língua e materialidade do discurso; assim, encontramos aí a dificuldade que
destacamos anteriormente: esses dois aspectos são cuidadosamente separa­
dos por Foucault, mas não articulados. A tripla distinção que ele opera, pela
3.2 O E N U N C IA D O EM AD negativa que o discurso mantém, indica, entretanto, uma relação privilegia­
da com a estrutura lógica, gramatical ou pragmática do sistema lingüístico
E preciso observar bem a ausência, no campo da AD, de uma concep­ (dando aqui uma ampla acepção a esse termo). Isso ocorre, em nossa opi­
ção especificamente discursiva do enunciado. Essa noção somente recebe, nião, com a maioria dos objetos da Arqueologia: sua utilização necessita de
com efeito, uma acepção vaga ou empírica, que a subordina à problem áti­ uma rearticulação, aquém das distinções que os fundam, a uma problemática
ca da língua. O enunciado em AD muito frequentemente só designa a rea­ de AD. Esse é o sentido da releitura que faremos da definição do enunciado.
lização de uma frase em superfície: na designação “o enunciado seguido”,

5 Essa observação vale para todas as aproxim ações que indicarem os entre as duas ab ord a­
gens d o co n ceito de FD.
86 Análise do discurso político O con ceito de fo rm ação discursiva 87

3 .3 O ENUNCIADO E O SUJEITO NA ARQUEOLOGIA b. 1 Posição de sujeito

O enunciado encontra-se definido a partir de quatro propriedades que Se o sujeito do enunciado não pode ser concebido com o idêntico ao

delimitam sua “função de existência”, a “função enunciativa”: autor da form ulação é porque o sujeito do enunciado “é uma função vazia
podendo ser preenchida por indivíduos até certo ponto indiferentes, ao

• o enunciado está ligado a um referencial; formularem o enunciado” (op. cit., p. 123). Observemos, para com eçar, que

• o enunciado mantém com um sujeito uma relação determinada; as noções utilizadas aqui, conforme destacamos anteriormente, dividem-se

• o enunciado tem um domínio associado (uma área); em dois planos ou níveis: se o enunciado tem um sujeito, a form ulação é

• o enunciado apresenta uma existência material, distinta daquela aquela de um “indivíduo”, ou de um “autor”.

da enunciação. “Descrever uma formulação enquanto enunciado, não consiste em


analisar as relações entre o autor e o que ele disse ( ...), mas em determinar

a) O enunciado está ligado a um referencial qual a posição que todo indivíduo pode e deve ocupar para ser seu sujeito”
(op. cit., p. 126). Essa função vazia consiste, assim, em uma p osição de

O referencial do enunciado “forma o lugar, a condição, o cam po de sujeito. Um exemplo vem ilustrar essa noção na A rqueologia: num tratado
em ergência, a instância de diferenciação dos indivíduos ou dos objetos, matem ático, no prefácio em que comunica suas intenções, o autor ocupa

dos estados de coisas e das relações que são postas em jogo pelo próprio uma determinada posição (aparece na qualidade de autor, dirige-se ao lei­

enunciado. Ele define as possibilidades de aparecimento e de delimitação tor, agradece tal indivíduo...), em seguida, outra posição no corpo do tra­

daquilo que dá sentido à frase e que dá à oração seu valor de verdade” (op. tado, “posição neutra, indiferente ao tempo, ao espaço, às circunstâncias,

cit., p. 120-121): é no enunciado que se constrói a estabilidade referencial idêntica em qualquer sistema lingüístico” (op. cit., p. 124).

dos elem en tos d o saber.


b.2 Posição de sujeito e desdobram ento da forma-sujeito

b) O enunciado mantém com um sujeito uma relação determinada


O que Foucault enuncia pode-se expressar na problem ática da form a-

O sujeito que está em questão não é o sujeito gramatical, tampouco sujeito, trabalhada por Pêcheux (1975) e depois por Henry (1977). Essa

o sujeito da enunciação. Não será descrito como o indivíduo que realmen­ “função vazia” que a A rqueologia descreve, indiferente aos sujeitos enun-

te teria efetuado operações (...). Portanto, não se deve conceber o sujeito ciadores que vêm preenchê-la, é o lugar do sujeito universal próprio a uma

do enunciado como idêntico ao autor da formulação (...). “A articulação determinada FD, a instância de onde se pode enunciar “todos sabem ou

escrita ou oral de uma frase não é, com efeito, o ponto de partida desse veem que” para todo sujeito enunciador vindo situar-se num lugar de­

fenômeno” (op. cit., p. 124-126). O sujeito, na perspectiva foucaultiana, não terminado, inscrito nessa FD, por ocasião de uma form ulação. Assim, é

pode ser reduzido a uma entidade lingüística nem a uma subjetividade psi­ o ponto onde se ancora a estabilidade referencial dos elementos de um

cológica qualquer. Entre as noções que vêm caracterizá-lo, destacaremos saber. Esse lugar, então, só é vazio na aparência: ele é preenchido de fato

aquela de p osição d e sujeito. pelo sujeito do saber próprio a uma dada FD e existe na identificação pela
qual os sujeitos enunciadores vêm encontrar nela os elementos de saber
(enunciados) pré-construídos de que eles se apropriam com o objetos de
88 A nálise do discurso político O con ceito de fo rm ação discursiva 89

seu discurso, assim com o as articulações entre esses elementos de saber ponto da problem ática da A rqueologia, no fato de que esta última elide, na
que asseguram uma coerência intradiscursiva a suas declarações. verdade, o mecanismo do assujeitam ento.6 O trabalho de Foucault aproxi­
E nesse sentido que se poderia dizer, com Foucault, que o sujeito está ma-se, a propósito do sujeito, da relação da língua com a ideologia, mas
em “descontinuidade consigo mesmo” (op. cit., p. 74): em toda form ulação limita-se a isso para terminar em uma via paralela.
o sujeito enunciador “encontra” o sujeito do saber, sem o seu conhecim en­
to, sob forma de pré-construído e de articulação de enunciados, e as m o­ c) O enunciado tem um domínio associado
dalidades desse encontro variam ao longo da form ulação; assim se pode
reinterpretar o exemplo do tratado matemático informando que o sujeito “De uma maneira geral, pode-se dizer que uma seqüência lingüística
enunciador apaga no prefácio sua relação com o sujeito do saber para de­ somente é um enunciado se ela estiver imersa num campo enunciativo onde
saparecer por detrás o sujeito do saber no corpo do tratado. Estam os aqui ela aparece, então, com o um elemento singular” (op. cit., p. 130). O enun­
no domínio da form a-sujeito, ou mais precisamente, do desdobram en to da ciado apresenta, pois, um “campo enunciativo”, um “cam po adjacente”,
form a sujeito que P. Henry (1977, p. 59) introduz: um “espaço colateral” ou ainda um “domínio associado”: esse domínio
associado, sem a existência do qual a “função enunciativa” não pode ser
Dever-se-ia conceber um processo de desdobramento do exercida, consiste em uma rede de form u lações nas quais o enunciado se
sujeito da enunciação, sendo um dos sujeitos identificado insere e forma elemento.
com o locutor e se encarregando supostamente dos conteú­ Esse domínio associado do enunciado compreende:
dos fornecidos; e o outro, duplo do primeiro, não se iden­
tificando mais com o locutor e assumindo por essa razão 1. As formulações no interior das quais o enunciado se inscreve e
o estatuto de sujeito dito “universal”. Compreender-se-ia, forma um elemento em uma seqüência discursiva. O enunciado
então, que os conteúdos relacionados a esse segundo su­ se encontrará ai definido por sua inscrição em uma p osição de
jeito (pré-construídos) parecem investir-se desta espécie de seqüência horizontal ou intradiscursiva.
evidência que é o atributo do sujeito dito “universal”, sujei­ 2. As formulações “às quais o enunciado se refere (implicitamente
to da ciência, ou do que se estabelece como tal. ou não), seja para repeti-las, seja para modificá-las ou adaptá-
las, seja para se opor a elas, seja, finalmente, para falar delas;
Concebem os, portanto, uma p o siçã o d e sujeito com o uma relação não há enunciado que, de uma maneira ou de outra, não reatua-
determinada que se estabelece em uma form ulação entre um sujeito enun­ lize outros enunciados” (op. cit., p. 130).
ciador e o sujeito do saber de uma dada FD. Essa relação é uma relação 3. “O con jun to das form ulações, as quais o enunciado organi­
de identificação cujas modalidades variam, produzindo diferentes efeitos- za a possibilidade futura e que podem vir depois dele, com o
sujeito no discurso. A descrição das diferentes posições de sujeito no in­ sua conseqüência, sua continuação natural ou sua rép lica”
terior de uma FD e dos efeitos que estão ligados a ela é o dom ínio de (op. cit., p. 130).
descrição da form a-sujeito.
O antissubjetivismo de Foucault o leva aqui, concebendo uma po­ 6 A m esm a elisão da relação de um sujeito enunciador com o sujeito universal é produzida
na n oção de locutor coletivo que G ardin & M arcellesi (1974) utilizam , m as sob a form a
sição de sujeito com o simples interpermutabilidade dos locutores, a ne­ dc uma inversão sim étrica. Longe de ser uma form a vazia, indiferente aos sujeitos enun-
gligenciar os processos de identificação pelos quais um sujeito falante é ciadores, o sujeito do discurso é pensado aí na form a plena de uma ad ição, ou de uma
coleção de tod os os sujeitos enunciadores. O m ito em pirista de um a “fala coletiva” vem
constituído em sujeito ideológico de seu discurso; nós já distinguimos esse
aqui recob rir o m ecanism o de assujeitam ento.
90 Análise do discurso político O con ceito de fo rm ação discursiva 91

O enunciado entra, pois, em uma rede interdiscursiva d e form u la­ ciado do enunciado e a partir do qual se pode determinar o interdiscurso
ção. E é aí, nos parece, que se pode encontrar na A rqueologia elementos de uma FD, sob a forma das relações de repetição, refutação, transform a­
teóricos permitindo conceber procedimentos de reunião e de organização ção, redefinição, etc., que se estabelecem entre enunciados provenientes de
de materiais em píricos que rompem com o postulado de homogeneidade FD distintas a partir de posições ideológicas dadas.
que domina as operações de constituição de corpus em AD, ainda que essa
questão não seja abordada por Foucault, enquanto tal. d) O enunciado apresenta uma existência material, distinta daquela
Observemos, em primeiro lugar, que o enunciado se encontra situado, da enunciação
de um lado, em uma relação horizontal com outras form ulações no interior
do intradiscurso de uma seqüência discursiva; e, de outro, em uma relação Essa propriedade do enunciado conclui a definição que lhe dá a Ar­
vertical com formulações determináveis noutras sequências discursivas no qu eologia. Esta última opõe, com efeito, a materialidade da existência do
interdiscurso de uma FD: a definição do enunciado novamente acentua a enunciado àquela da enunciação: pode-se falar do m esm o enunciado, lá
indissociabilidade dos dois modos de existência do discurso com o objeto. onde há várias enunciações distintas: “A enunciação é um acontecim ento
Por outro lado, nessa rede vertical, ou interdiscursiva, de form ula­ que não se repete. Ela tem uma singularidade situada e datada que não se
ções, um dado enunciado tom ará lugar entre um conjunto de formulações pode reduzir” (op. cit., p. 134).
extraídas de sequências discursivas levantadas de outras CP do discurso, Se neutralizarmos a enunciação, seu tempo e seu lugar, o sujeito que
entre as quais algumas serão heterogêneas. a realiza e as operações que este sujeito utiliza, “o que se destaca, é uma
Com efeito, a seqüência dos termos “referir-se” (implicitamente ou forma que é indefinidam ente repetível e pode dar lugar às mais dispersas
não), “repetir”, “m odificar”, “adaptar”, “opor-se a”, etc. indica que o enunciações” (op. cit., p. 134).7
enunciado insere-se em uma série de formulações entre as quais algumas O par enunciado/enunciação funciona diferentemente na A rqueologia
são dominadas p ela m esm a FD que aquela que domina a seqüência discur­ e na tradição lingüística que a AD retoma: se a noção de enunciação utiliza­
siva de onde ele é extraído (são produzidas em CP homogêneas), ao passo da por Foucault é próxima àquela tomada pela AD (atividade de produção
que outras, às quais o enunciado deve-se opor, referir-se implicitamente, de um discurso por um sujeito enunciador em uma situação de enunciação),
modificar, etc., podem ser produzidas em CP heterogêneas em relação às o enunciado encontra-se, em compensação, ligado à noção de repetição. A
suas, isto é, so b a dom inância de uma ou várias outras FD, m antendo rela­ existência do enunciado é da ordem de uma m aterialidade repetível que “se
ções d e con tradição (antagonismo, aliança, ajuda, cobertura, recuperação, dirige, segundo uma dimensão, de algum modo vertical* às condições de
etc.) com a prim eira. existência dos diferentes conjuntos significantes” (op. cit., p. 143). A opo­
Isso permite dizer que, no plano de constituição de corpus, a inscrição sição enunciado/enunciação permite aqui pensar o discurso na unidade e
de um enunciado num conjunto de formulações —com o “um nó em uma na diversidade, na coerência e na dispersão, na repetição e na variação. Tal
rede” - deverá ser caracterizada a partir de uma pluralidade de pontos, oposição reparte esses modos contraditórios de existência do discurso como
constituindo, ao redor de sequências discursivas tomadas com o ponto de objeto nos dois níveis, o do enunciado e o da formulação, que a descrição
referência, uma rede de formulações extraídas de sequências discursivas, das FD põe em jogo: a existência vertical, interdiscursiva de um sistema de
cujas condições de produção serão, ao mesmo tempo, hom ogên eas e h ete­ formação dos enunciados assegurando ao discurso a permanência estrutural
rogêneas em relação à seqüência discursiva de referência.
C om eçam os a seguir a nos aproximar, em um exemplo, da forma de
um corpus que corresponde ao que Foucault define com o o domínio asso­ 7 G rifo nosso.
8 G rifo nosso.
O con ceito de fo rm ação discursiva 93
92 Análise do discurso político

de uma repetição, corresponde à existência horizontal, intradiscursiva da ele se produziu: o enunciado (1) figura num contexto intradiscursivo de

formulação, onde a enunciação pode produzir uma variação9 conjuntural. form u lação, ou seja (2):
As duas últimas propriedades do enunciado que acabam de ser men­
cionadas apresentam, para nós, um interesse maior do ponto de vista da (2) (Pergunta da entrevista). N o fundo, qual ê a razão da política

definição teórica e da determinação empírica de uma FD. Entretanto, elas dita da m ão estendida? Trata-se de uma tática destinada a au­
criam uma dificuldade que ilustraremos com um exemplo. m entar sua influência política (...)? O Sr. procura um reforço
eleitoral (...)?/(R esposta de G.M .) (1)1 Sobre o que ela repou ­
sa f R epousa no fato de que (...).
4. O NÍVEL DO ENUNCIADO E O NÍVEL DA FORMULAÇÃO:
UM EXEMPLO O enunciado (1) insere-se, pois, no interior da seqüência discursiva
constituída pelo texto da entrevista num contexto intradiscursivo de formu­

Seja (1) um enunciado extraído do corpus da pesquisa:10 lação com o qual mantém uma relação particular (nesse caso (1) é tomado
como efeitos de diálogo, pelo fato de que constitui uma resposta a uma

(1) N ossa política em relação aos cristãos não tem absolutam ente série de perguntas da entrevista...). Trata-se ai de uma relação horizontal,

nada de uma tática de circunstância, é uma política de princípio. referente a uma descrição do intradiscurso.
M as (1) tece outros laços com formulações localizáveis no seio do pro­

Esse enunciado provém de uma seqüência discursiva respondendo cesso discursivo inerente à FD que o domina, nesse caso a FD “com unista”:

a CP determinadas: é extraído de uma entrevista concedida ao jornal La (1) existe igualmente em uma rede discursiva, ou vertical, de formulações

C roix, por Georges M archais, sccretário-geral adjunto do PCF (Partido como (3)-(9):
Comunista Francês), e publicada na edição de quinta-feira, 19 de novem­
bro de 1970. Pode-se, pois, relacioná-lo a um sujeito enunciador, que o (3) De Lille, um pai de família, católico praticante, escreveu, em

enuncia em uma situação d e enunciação determ inada, a partir de um lugar julho de 1936, que tinha dado pouca im portância ao primeiro

definido no seio de um aparelho e isto em uma conjuntura caracterizada apelo que se p odia ficar tentado a acreditar ditado p elo inte­

por um certo estado das relações sociais. resse eleitoral. Ele não hesitava em dar seu assentimento e nos
Esse enunciado constituirá aqui um ponto de referência, escolhido ar­ encorajar comprovando, em seguida, nossa inflexível perseve­

bitrariam ente, a partir do qual queremos mostrar a possibilidade de um tal r a n ç a (M. Thorez, outubro de 1937)
enunciado inscrever-se em uma rede de formulações. (4) Voltou-se contra nós a censura tão pouco original de m an o­

Observemos, de início, que esse enunciado toma lugar, entre outras brar, de enganar, de agir com duplicidade. (M. Thorez, outu­
formulações, no intradiscurso da seqüência discursiva, no interior da qual bro de 1937)
(5) E se, hoje, confirmamos nossa posição de 1937, é que, então,
não se tratava, como alguns assim querem fazer crer, de um en­
gano, de uma tática ocasional, mas sim de uma p osição política
9 É talvez nesse p o n to que Foucault tenha en contrado esp ontaneam ente os term os da dico-
tom ia sistem a/sujeito, fundadora da lingüística estru tural, e os tenha deslocado.
10 A d escrição do corpus será efetuada m ais adiante (ver C ap ítu lo IV ). O bservem os que o
term o enunciado aqui é utilizado à m aneira de Fou cau lt, quando este o define a p artir de
seu “dom ínio a sso ciad o ” . 11 G rifo nosso.
94 Análise do discurso politico O con ceito de form ação discursiva 95

perfeitamente em acordo com nossa doutrina: o marxism o- Se considerarmos mais uma vez o enunciado (1) tom ado com o ponto
leninismo. (W. Rochet, 13 de dezembro de 1944) ilc referência, devemos indicar que a propriedade que ele manifesta, de
(6a) Para nós a união, não é uma tática ocasion al, um a m anobra figurar com o “um nó em uma rede”, não se limita ao conjunto (3)-(9) das
ligada à conjuntura. lormulações pertencentes à FD comunista. As formulações (3)-(9), ex­
(6b) a luta pela união constitui uma constante, um princípio da po­ traídas de sequências discursivas ilustrando um aspecto regional da FD
lítica de nosso partido. comunista — o discurso comunista “endereçado aos cristãos” — somente
(6c) Nosso partido sempre se aplicou com p aix ão e paciência a lêm existência discursiva na contradição que as opõem ao conjunto das
unir os operários, a agrupar em torno deles todas as vítimas formulações (10)-(16), produzidas em CP heterogêneas às suas, em outras
do poder do dinheiro, todas as forças vivas da nação. palavras, a partir de posições de classe antagônicas:
(6d) Propomos às diversas camadas sociais que se unam , não na
con fu são, mas em uma base precisa. (X X I Congresso do PCF, (10) O comunismo é intrinsecam ente perverso, e não se pode admi­
de 24 de outubro de 1974) tir, em nenhum terreno, a colaboração com ele. (Pio X I, 19 de
(7) Os cristãos verificam cada vez mais que a cooperação, a luta março de 1937)
comum que lhes propomos não é uma arm adilha, mas um p ro ­ (11) A Voz (de Thorez) se esforçava em vão, ternamente urgente
cedim en to de princípio. (Princípios da política do PCF, outu­ com o a da camponesa que chama seus bichinhos: “Filhotes!
bro de 1975) Filhotes!” Eu me dizia: “Não, é impossível que eles avancem.
(8) Dizer isso é destacar quanto a política de união é para nós uma (F. M auriac, Le Figaro, 18 de abril de 1937)
p olítica de princípio. (X X II Congresso do PCF, 4 de fevereiro (12) Os cristãos se deixam pegar na arm adilha de uma filosofia vul­
de 1976) gar da história. (R. Aron, o Grande Cisma)
(9) Não, isto não é pela tática m om entânea e na confusão ideológica (13) O católico não pode permanecer ingênuo, nem isolado diante
que procuramos apaixonadam ente fazer que se encontrem, lado da sedução discreta, da im pregnação lenta ou da solicitação
a lado, todos aqueles que querem a libertação do homem —os organizada do comunismo de hoje. (Mons. Fauche, bispo de
comunistas porque é seu ideal socialista, e os cristãos porque é Troyes, fevereiro de 1976)
seu ideal evangélico. (G. Marchais, 10 de junho de 1976) (14) Os católicos são cham ados, numerosos são os que se deixam
prender. (J. Boudarias, L e Figaro, 10 de junho de 1976)
É a uma simples determinação empírica que procedemos para reagru­ (15) Haveria uma ave católica a depenar? (Y. Levai, Europa 1 ,1 1 de
par as formulações (3)-(9): trata-se de uma série cronológica, extraída de dife­ junho de 1976)
rentes sequências discursivas agrupadas em corpus. Uma análise puramente (16) E mesmo se M archais adjurasse sua fé, isso não seria uma das
intuitiva já permite mostrar um conjunto recorrente de elementos (para os astúcias que Lenin aconselhava precisamente? (G. Senchet,
quais os termos grifados podem servir de balizas) que ligam essas formu­ U A urore, 11 de junho de 1976)
lações umas às outras, de tal modo que cada uma delas aparece como uma
reform ulação possível de qualquer formulação pertencente à rede. Uma rede Os termos grifados em (10)-(16) novamente fornecem , uma vez mais,
de formulações tal como essa parece, então, governada por uma forma ou um marcas intuitivas permitindo, na rede de form ulações, extrair a repetibi-
princípio geral. lidade de certos elementos, ao mesmo tempo que um conjunto de varia­
ções; as duas séries conhecem um desenvolvimento paralelo que pode se
96 Análise do discurso político

perceber a partir da recorrência contraditória, no interior do processo


discursivo inerente a cada FD, de elementos de saber opostos e que perm a­
necem estáveis em seu antagonismo, que um enunciado com o (17) poderia
condensar de maneira aproximativa:

(17) A união com os cristãos não é uma artim anha, ê um princípio


da política dos com unistas vs. A política dos com unistas é uma
arm adilha na qual os cristãos não se devem deixar prender.

A formulação (17) constitui uma aproximação dessas “formas inde­


finidamente repetíveis” podendo ocasionar “as enunciações mais disper­
sas” que mostramos nas séries (3)-(9) e (10)-(16): isso eqüivale a dizer que
se trata, nos termos da A rqueologia, de uma relação contraditória entre
dois enunciados. E é aí que se situa uma dificuldade maior da definição do
enunciado: este termo pode designar, na problemática de Foucault, ao m es­
m o tem p o uma expressão como (17) e uma formulação com o (1). Os dois
níveis de descrição de uma FD, distinguidos na relação enunciado/enuncia-
ção, estão confundidos na definição do enunciado a partir de seu domínio
associado.
PARTE II
A definição do enunciado não é, pois, fixada; essa indecisão deve ser
relacionada à concepção descrita anteriormente, de uma posição de su­
jeito com o forma vazia, indiferentemente preenchida por locutores inter-
cambiáveis. Veremos aí os efeitos de retorno das questões cuja elisão a
A rqu eologia produz: aquelas da relação do discurso com a ideologia e da
relação do discurso com a língua. O sujeito do discurso é, de fato, ao mes­
mo tempo sujeito id eológ ico, na sua relação com o sujeito do saber que
assegura o enunciado; e sujeito falante, por poder enunciar os elementos
desse saber na formulação. Parece-nos, assim, crucial, na análise das FD,
distinguir o nível do enunciado e da formulação, assim com o produzir sua
articulação, na qual se constituem o discurso e o sujeito.
CAPÍTULO III

ORIENTAÇÕES TEÓRICAS DA PESQUISA

1. DESCRIÇÃO DO QUADRO TEÓRICO DA PESQUISA:


ENUNCIADO, FORMULAÇÃO, DISCURSO

1.10 NÍVEL DO en u n c ia d o : d e s c r iç ã o d o in t e r d is c u r s o d e u m a FD

a) Interdiscurso e saber. Diremos que é no interdiscurso de uma


FD, com o articu lação contrad itória de FD e de form ações ideológicas,
que se constitui o d om ín io d o saber próprio a esta FD. A contrad ição é
exclusiva, constitutiva das FD : os objetos ou elem entos do saber aí se
formam.
O domínio de saber de uma FD funciona como um princípio de acei­
tabilidade discursiva para um conjunto de formulações (determina “o que
pode e deve ser dito”), assim como um princípio de exclusão (determina “o
que não pode/não deve ser dito”).
Ele realiza, assim, o fecham ento de uma FD, delim itando seu interior
(o conjunto dos elem entos do saber) de seu exterior (o conjunto dos ele­
mentos que não pertencem ao saber da FD ); esse fecham ento, entretanto,
é fundam entalm ente instável: não consiste num limite traçado, de uma
100 Análise do discurso político O rientações teóricas da pesquisa 101

vez por todas, mas se inscreve entre diversas FD com o um a fronteira que mulações dispersas e desniveladas no seio da FD: pode-se assim percorrer
se d e s l o c a em razão dos jogos da luta ideológica, nas transform ações da K |cj a partir de [E] com o um trajeto das reformulações possíveis de [E], In­
conjuntura histórica de uma dada form ação social. versamente, é a partir da reunião de um conjunto de formulações em rede
Para nós, o interdiscurso de uma FD deve ser pensado com o um pro­ i|iic se poderá tentar levantar os elementos do saber próprio a uma FD,
cesso de reconfiguração incessante no qual o saber de uma FD é levado, em nas condições descritas anteriormente na alínea a). O conjunto das R[e]
razão das posições ideológicas que esta FD representa em uma conjuntura no interior de uma FD constitui o processo discursivo inerente a esta FD.
determinada, a incorporar elementos pré-construídos produzidos no exte­ c) A referência e o sujeito universal. E em tais redes de formulações
rior de si mesmo, a depois produzir sua redefinição ou volta; a igualmente i|ue se estabiliza a referência dos elementos do saber: os objetos do discurso
suscitar a lembrança de seus próprios elementos, a organizar sua repetição, nc formam nelas com o pré-construídos, os [E] nelas se articulam.
mas tam bém, eventualmente, a provocar seu apagamento, esquecimento E igualmente nesse nível de constituição do [E] como elemento de sa­
ou mesmo sua denegação. O interdiscurso de uma FD, com o instância de ber, sob a dominação do interdiscurso, que a instância do Sujeito universal
formação/repetição/transformação dos elementos do saber dessa FD, pode (ou sujeito do saber próprio a uma FD, notada SU) deve ser situada, repor­
ser apreendido com o o que regula o deslocamento de suas fronteiras. tando-se ao lugar de onde se pode enunciar: “todos sabem/veem/dizem/com-
b) O enunciado e a reform ulação. Chamamos enunciados (grafado [E]) preendem q u e ...” para todo sujeito enunciador que venha a enunciar uma
os elementos do saber próprio a uma FD. Conceberemos o enunciado como formulação a partir de um lugar inscrito na FD. O saber próprio a uma FD é
uma forma ou um esquema geral2 que governa a repetibilidade no seio de uma .issim formado do conjunto das asserções remetendo ao SU e marca bem que
rede de form ulações (grafado R[e]). o enunciável a í se constitui com o exterior ao sujeito que enuncia?
Uma rede de formulações consiste num conjunto estratificado ou
desnivelado de form ulações, que constituem as form ulações possíveis de
[E]. O que chamamos “estratificação” ou “desnivelamento” das form ula­ 1 .2 O NÍVEL DA f o r m u l a ç ã o : d e s c r iç ã o d o in t r a d is c u r s o d e um a

ções remete à dimensão vertical (ou interdiscursiva) de um [E] com o R[e]. KKQUÊNCIA DISCURSIVA

[E] é, assim, a forma geral, “indefinidamente repetível”, a partir da


qual se pode descrever a constituição em uma rede de um conjunto de for­ Grafaremos [e] uma form u lação, isto é, uma seqüência lingüística (de
dimensão sintagm ática inferior, igual ou superior a uma frase) que é uma
1 A n o çã o de “fro n te ira ” da qual nos servim os aqui a p rop ósito da co n stitu ição do saber reformulação possível de [E] no seio de R[e] e que vem marcar a presença
p ró p rio a um a FD é p ró x im a daquela que utiliza J . M iln e r (1976, p. 195-198) a propósito
dc [E] no intradiscurso de uma seqüência discursiva dominada por uma
da língua na an álise jo g o de palavras e que ela define assim (p. 196): “A d istin ção radi­
c a l, ou fro n teira , é aquela que suponho entre o prim eiro c o n ju n to — aquele das form as, l'D, na qual [E] é um elemento do saber.
atu ais ou virtu ais, que estão na língua ( ...) — e o com p lem entar, aquele das form as que
O intradiscurso de uma seqüência discursiva aparece assim com o
estã o decisivam ente fora da lín gu a” . O interesse dessa n o çã o , tan to no que diz respeito
à língua q u an to no discurso, parece residir no fa to de que ela diz respeito a um uso do o lugar onde se realiza a sequ en cialização dos elem en tos d o saber, onde
p rin cíp io de identidade que põe a co n ju n çã o do idêntico e do c o n tra d itó rio (“estar e 0 desnivelamento interdiscursivo dos [E] está linearizado, colocado em
não e sta r” , “estar no e fora d e” ... ) . A. L ecom pte (1978) em prega na sua definição do
en un ciado co m o “d eslocam en to das fro nteiras de um a classe” um a n o ção sem elh an te à
uma superfície única de [e] articuladas. Essa “h orizontalização” da di­
qual ele prop õe um a representação form al a p a rtir da lógica das classes m ereológ icas de mensão vertical de constituição de [E] é contem porânea da apropriação
Lesniew ski.
2 Essa definição de enunciado deve ser reaproxim ada da concep ção do enunciado-reitor,
que M aran d in (1978) desenvolve na seqüência de Foucault (1969, p. 192), co m o “enuncia­ 1 As n oções de “exterio rid ad e do enunciável” , bem co m o a de “d esniv elam en to” , u tili­
do opetacio n alizand o um a(s) regra(s) da fo rm ação discursiva sob sua form a m ais geral e zada an teriorm en te, são em pregadas em um a co n cep ção sem elh an te p or Borel (1975) e
m ais am plam ente aplicável”. L ecom te (1978).
102 A nálise do discurso político O rientações teóricas da pesquisa 103

por um sujeito enunciador (grafado è>), ocupando um lugar determ inado sujeito da enunciação com o sujeito do saber e com os efeitos discursivos
no seio de uma FD, dos elementos do saber da FD na enunciação do in ­ específicos que estão ligados a ele.
tradiscurso de uma seqüência discursiva, isso em uma situação de enun­ b) No que diz respeito à noção de con dições de produ ção d o discurso,
ciação dada. convirá propor sua redefinição dissociando-a segundo os dois níveis distin-
Esse nível de descrição é aquele ao qual habitualmente nos referimos guidos anteriorm ente: ela opera, de fato, uma confusão das determinações
pelas noções de “fio do discurso”, “coerência textual”, “estratégias argu- específicas aos dois planos de descrição. Será preciso, enfim, tirar as con­
mentativas” ..., e que suscita análises em termos de correferência, temati- clusões dessa redefinição quanto à constituição de um corpus discursivo
zação e progressão temática, inferências pressuposicionais, conexões inter- que materializa, sob a forma de uma montagem determinada, as exigên­
frásticas, etc. Acrescentaremos que se trata, para nós, do lugar onde se ma­ cias teóricas do conceito de FD.
nifesta o im aginário no discursivo, isto é, onde o sujeito enunciador é pro­
duzido na enunciação como interiorização da exterioridade do enunciável.
2. MEMÓRIA E DISCURSO

1 .3 D is c u r s o , e f e it o s d is c u r s iv o s e c o n d iç õ e s d e p r o d u ç ã o d o d is c u r s o Lyon, 10 de junho de 1976... A sala do Palácio dos esportes está lotada.


O esforço de informação e de mobilização empreendido pelo Partido C o­
A distinção operada entre nível do enunciado e nível da form ulação munista Francês para a retomada da “política da mão estendida” produziu
acarreta as seguintes conseqüências: seus efeitos: são 12.000 a esperar no burburinho das interrogações —quantos
cristãos nessa multidão? A sala é ocupada principalmente pelos comunistas?
a) N o que diz respeito aos termos de discurso e de sujeito, para com e­ - a entrada de Georges Marchais. Uma longa ovação. O secretário-geral do
çar, é preciso dizer que eles denotam para nós não objetos dados a priori, partido saúda a platéia. Os aplausos extinguem-se, tornam-se murmúrios.
mas objetos a serem construídos: somente nos autorizaremos a falar de O acontecimento discursivo da reunião pode começar.
discurso ao término da articulação do plano do interdiscurso e daquele “Senhoras, senhoritas, senhores, caros camaradas! N unca, sem dúvi­
do intradiscurso; toda caracterização em termos de funcion am en tos ou de da nosso p a ís ...” “ C redo in unum d e u m ...”. Estupor na assistência. Um
efeitos discursivos envolve assim uma relação do enunciado com a form ula­ canto religioso, um “credo” se eleva do fundo da sala. A multidão hesita,
ção, da dimensão vertical e estratificada onde se elabora o saber de uma FD alguns aplaudem, acreditando em uma manifestação de simpatia. A hesi­
com a dimensão horizontal em que os elementos desse saber se linearizam tação é de curta duração, as aclamações transformam-se em vaias: cerca de
tornando-se objetos de enunciação. cinqüenta cristãos fundamentalistas, comandados por um padre de batina,
O mesmo acontece ao sujeito: se não há, na perspectiva que adota­ cantam em pé. Antes de serem expulsos desdobram uma faixa, lembrando
mos, nenhum “sujeito do discurso”, se percebe, em com pensação, no inte­ a condenação pronunciada por Pio X I: O com unism o é intrinsecam ente
rior de uma FD, diferentes posições d e sujeito que constituem modalida­ perverso. A memória irrompe na atualidade do acontecimento.
des da relação do sujeito universal com o sujeito de enunciação (SU/S), do
sujeito do enunciado com o sujeito da formulação. Cham ar-se-á dom ín io
da form a-su jeito o domínio de descrição da produção do sujeito com o efei­
to no discurso; isso eqüivale descrever o conjunto das diferentes posições
de sujeito em uma FD como modalidades particulares da identificação do
104 A nálise do discurso político O rientações teóricas da pesquisa 105

2 .1 M e m ó r ia e t e m p o h is t ó r ic o Isso retoma algumas preocupações das pesquisas históricas contem­


porâneas acerca da multiplicidade dos tempos: assim, o “acontecimento
Assim, no mesmo momento em que ia ressoar novamente, da boca de discursivo” que tomamos como exemplo inscreve-se num tem po curto “pro­
G. M archais, a formulação de M aurice Thorez de maio de 1936: porcional aos indivíduos, à vida quotidiana, às nossas ilusões, nossas bre­
ves conscientizações - o tempo por excelência do cronista, do jornalista”5
Nós te estendemos a mão, católico, operário, empregado, ( B ra u d f.l , 1969, p. 46). Para o historiador, entretanto, tal acontecim ento
camponês, pois és nosso irmão e és com o nós oprimido “traz testemunho às vezes sobre movimentos muito profundos (...) anexa-se
pelas mesmas preocupações. a um tempo muito superior à sua própria duração. Extensível ao infinito,
liga-se livremente ou não, a toda uma cadeia de acontecimentos, de reali­
ressurge a condenação de Pio X I, que vem opor à retomada da política da dades subjacentes, e im p o s s ív e is , ao que parece, de separar uns dos outros”
mão estendida a recusa desse diálogo por alguns cristãos. M ostram os no ca­ {Idem, p. 45).
pítulo II, em uma primeira exemplificação da noção de rede de formulações, A introdução da noção de “memória discursiva” em AD nos parece,
a formulação de Pio X I entre aquelas em que a contradição entre dois enun­ assim, colocar em jogo a articulação dessa disciplina com as formas con ­
ciados pertencendo respectivamente às FD comunista e cristã se manifestava. temporâneas da pesquisa histórica, que insistem no valor a ser atribuído
O ressurgimento dessa formulação, quarenta anos mais tarde, chama à longa duração. Apenas situaremos aqui essa problemática teórica, sem
a atenção para o fato de que toda produção discursiva que se efetua nas pretender absolutamente esgotá-la, ainda mais na medida em que nosso
condições determinadas de uma conjuntura movimenta —faz circular —for­ próprio estudo situa-se na duração do tem po m édio de um ciclo (1936-
mulações anteriores, já enunciadas: interpretamos assim a “manifestação 1976). Entretanto, tentaremos a seguir esclarecer essa noção.
discursiva” desse grupo de fundamentalistas, vindo romper por meio da
lembrança de uma fórmula o ritual que preside à enunciação de um discurso
político, como um efeito de m em ória na atualidade de um acontecimento, 2 .2 A p r o p ó s it o d a n o çã o d e " m e m ó r ia d is c u r s iv a "

sob a forma de um retorno da contradição nas formas do diálogo.


Introduzimos assim a noção de m em ória discursiva na problemática da Comecemos, antes de mais nada, distinguindo-a. O que entendemos
análise do discurso político. Essa noção nos parece subjacente à análise das pelo termo “memória discursiva” é distinto de toda memorização psicológi­
FD que a A rqueologia d o saber efetua: toda formulação apresenta em seu ca do tipo daquela cuja medida cronométrica os psicolinguistas se dedicam
“domínio associado” outras formulações que ela repete, refuta, transforma, a produzir (assim, para utilizar um exemplo recente, o trabalho de Kintsch
d en ega...,4 isto é, em relação às quais ela produz efeitos de memória espe­ & Van Dijk (1975) sobre os processos cognitivos implicados na memória dos
cíficos; mas toda formulação mantém igualmente com formulações com as textos). A noção de memória discursiva diz respeito à existência histórica do
quais coexiste (seu “campo de concom itância”, diria Foucault) ou que lhe
sucedem (seu “campo de antecipação”) relações cuja análise inscreve neces­ 5 As p ráticas discursivas (editorial, rep o rtag em ...) ligadas ao fu ncion am ento do aparelho
de in form ação geralm ente são tom ad as na instância do aco n tecim en to do tem po curto.
sariamente a questão da duração e da pluralidade dos tem pos históricos no O registro m etafó rico qu e elas utilizam para traduzir a “atu alid ade p olítica” c retirado
interior dos problemas que a utilização do conceito de FD levanta. frequentem ente das figuras da mtse-en-scène (o “ teatro ”, os “ bastid ores” , os “ato res” da
vida p o lític a ...) ou do afron tam en to (o “com b ate p olítico” onde “tod os os golpes são
p erm itid os”, “onde se perde uma b a ta lh a ” para “se ganhar a g u e r r a . o que tính am os
já percebido em certas definições de ca rá te r psicossocio lógico das C P do discurso (ver,
C apítulo I). Nesses dois casos, as m etáforas se assem elham às figuras privilegiadas que
4 Ver Fou cau lt (1 9 6 9 , p. 130). dissolvem a m em ória na atualidade.
106 Análise do discurso político O rientações teóricas da pesquisa 107

enunciado no interior de práticas discursivas regradas por aparelhos ideo­ 3. REDEFINIÇÃO DA NOÇÃO DE CP DO DISCURSO
lógicos; ela visa o que Foucault (1971, p. 24) levanta a propósito dos textos
religiosos, jurídicos, literários, científicos, “discursos que originam um certo A hipótese geral que levantamos a seguir sobre a definição de uma for­
número de novos atos, de palavras que os retomam, os transformam ou fa­ ma de corpus não constitui de modo algum um esquema prescritivo visando
lam deles, enfim, os discursos que indefinidamente, para além de sua formu­ a regrar as operações de constituição de um corpus discursivo que poderia
lação, são ditos, permanecem ditos e estão ainda a dizer”. aplicar-se cegamente a toda AD, quaisquer que sejam a natureza de seus
O mesmo acontece com os discursos políticos, a propósito dos quais dados e a definição de seus objetivos. Isso significa que essa tentativa de
a existência de uma memória discursiva remete a questões familiares à prá­ definição geral das operações que presidem ao agrupamento de dados dis­
tica política, com o esta que veremos a seguir: do que nos lembramos e cursivos e à constituição de um corpus discursivo em AD política somente
com o nos lembramos, na luta ideológica, do que convém dizer e não dizer, tem sentido em razão do objetivo que atribuímos a nosso próprio trabalho.
a partir de uma determinada posição em uma conjuntura dada, ao escrever Ela responde, então, a objetivos precisos:
um panfleto, uma moção, uma tomada de posição? Em outras palavras:
com o o trabalho de uma memória coletiva permite; no interior de uma FD, • operacionalização em AD do conceito de FD, pensado a partir
a lem brança, a repetição, a refutação, mas também o esquecimento desses das categorias de contradição e de processo;
elementos de saber que são os enunciados? Enfim, sobre que modo m ate­ • redefinição da noção de CP do discurso;
rial existe uma memória discursiva? • necessidade de formular uma concepção especificamente discur­
Forneceremos posteriormente6 alguns elementos de resposta a tais siva da constituição de um corpus.
perguntas a propósito da FD comunista. Queremos destacar, para concluir
esta preliminar, que a existência de uma FD como “memória discursiva” e O bedece, por outro lado, ao seguinte princípio geral: a constituição
a caracterização “de efeitos de memória” em discursos produzidos em tal num corpus discursivo de um campo de arquivos deverá ser realizada em
conjuntura histórica devem ser articuladas aos dois níveis de descrição de uma forma de corpus que preveja:
uma FD que destacamos anteriormente, assim como às observações que
acabam de ser feitas quanto à pluralidade dos tempos históricos: os objetos (1) a determ inação das condições de produ ção de uma seqüência
que chamam os “enunciados”, na formação dos quais se constitui o saber discursiva de referência;
próprio a uma FD, existem no tem po longo d e uma m em ória, ao passo que (2) a determ inação das con dições de fo rm açã o de um processo
as “form ulações” são tomadas no tem po curto da atualidade de um a enun­ discursivo no interior de uma FD de referência;
ciação. E então, exatamente, a relação entre interdiscurso e intradiscurso (3) a articulação das alíneas (1) e (2) acima.
que se representa neste particular efeito discursivo, por ocasião do qual
uma formulação-origem retorna na atualidade de uma “conjuntura discur­
siva”, e que designamos como efeito de memória. 3.1 A DETERMINAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DE UMA SEQÜÊNCIA
DISCURSIVA DE REFERÊNCIA

Convém, para começar, determinar a escolha de uma seqüência discur­


siva como ponto de referência, a partir do qual o conjunto dos elementos

6 C ap ítu lo IV e C on clu são.


108 Análise do discurso político O rientações teóricas da pesquisa 109

do corpus receberá sua organização; nomearemos tal seqüência discursiva: 3.2 A DETERMINAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE FORMAÇÃO DE UM PROCESSO
seqüência discursiva de referência (sdr). DISCURSIVO NO INTERIOR DE UMA FD DE REFERÊNCIA
A sdr será relacionada a um sujeito de enunciação com o a uma situa­
ção d e enunciação determináveis em relação a certo número de coordenadas A sequencialização das formulações no intradiscurso da sdr se realiza
espaço-temporais e mais geralmente circunstanciais (tempo da enunciação, sob a dependência do processo discursivo da FD que a domina, ou fo rm a ­
lugar da enunciação, circunstâncias da enunciação, que incluem a presença ção discursiva de referência (FDR).
de alocutários determ inados...).7 Tentamos mostrar anteriormente que tal processo discursivo, ou pro­
Sujeito de enunciação e situação de enunciação podem ser referidos cesso material e histórico de form ação, reprodução e transform ação dos
a um. lugar determinado, tomado em uma relação de lugares no interior enunciados, estava submetido a condições específicas: é, com efeito, sob a
de um aparelho: isso eqüivale a atribuir ao ato de enunciação de uma sdr dependência do interdiscurso que se constitui o saber próprio a uma FD
a regularidade de um a prática, assim como a caracterizar os rituais que a nas redes estratifícadas de formulações, em que os enunciados se formam,
regulam. redes que constituem precisamente o processo discursivo.
Essas relações de lugar remetem a relações de classe, isto é, a um dado Se por interdiscurso da FD R entendemos uma articulação contraditó­
estado das contradições ideológicas de classe em uma conjuntura histórica. ria de FD referente a formações ideológicas antagônicas, convém caracte­
Escolher uma seqüência discursiva de referência eqüivale assim a determi­ rizar as con dições interdiscursivas que dominam o processo discursivo de
nar a pertinência histórica de tal conjuntura, a situar a produção dessa formação/reprodução/transformação dos enunciados no interior da FD R.
seqüência na circulação de formulações trazidas por sequências discursivas Doravante designaremos tais condições pelo termo simplificado de
que se opõem, se respondem, se cita m ..., a descrever, enfim, o âm bito ins­ condições de fo rm a çã o da fo rm a ção discursiva de referência (CF(FDR)).*
titucional e as circunstâncias enunciativas dessa produção. As CF do processo discursivo de uma FD R deverão necessariamente,
A escolha de uma seqüência discursiva como sdr deverá ser efetuada a num plano de constituição de corpus em AD política, estar ao mesmo tem­
partir dos elementos supramencionados, que designaremos doravante como po dissociadas das cp(sdr) e articuladas às cp(sdr).
as con d ições d e produ ção da seqüência discursiva de referência (cp(sdr))." A dissociação do plano de caracterização das CF da FD R permiti­
E nessas condições que se conceberão as determinações específicas da rá a apreensão específica da constituição dos enunciados na estratificação
formulação. vertical das redes de formulações. A articulação dos respectivos planos de
determinação das C F(FD R) e das cp(sdr) autorizará apreender as relações
entre interdiscurso e intradiscurso, enunciado e formulação, sujeito do sa­
ber próprio à FD R e sujeito enunciador, memória e atualidade.
Essa dissociação/articulação obedece às seguintes modalidades:

(1) A dissociação do plano de determinação das CF de uma FD R


realizar-se-á no fato de que a caracterização das CF faz ne­
cessariamente intervir diversas FD contraditoriam ente ligadas
7 Podem os dar um a representação dessas diferentes coordenad as no “d om ín io das lettres
bouclées ” [fonte estilizada] co m o o fazem Sim onin -G rum bach (1975) e M aran d in (1979)
na seqüência de C u lioli (1973), na descrição do intrad iscu rso de um a seqü ência discursi­ 8 R epresentam os em letras maiúsculas os elem entos que se reportam ao p lan o de descrição
va: seja S = su jeito da en u n ciação; 3 = tem po da en u n ciação ; £ = lugar da en u n ciação , S do interdiscurso e em letras minúsculas os que concernem ao plano de d escrição do in tra­
it 6 = situ ação de en u n ciação ; § ’= a lo cu tá rio ... discurso [intrad/IN TERD , [c]/[E], cp (sd r)/ C F (F D R )...j.
110 Análise do discurso politico O rientações teóricas da pesquisa 111

no interior de um processo: essa operação consistirá em deli­ • domínio de memória (DM em);
m itar uma “pluralidade contraditória” de seqüências discur­ • domínio de atualidade (DAct);
sivas: entre este conjunto de seqüências discursivas, algumas • domínio de antecipação (DAnt).9
serão dominadas pela FD R , ao passo que outras terão sido
produzidas em condições heterogêneas, no sentido em que Aqui parece necessário precisar, a fim de evitar toda interpretação
serão dominadas por FD contraditoriam ente ligadas à FD R fixista das noções de domínio de m emória, dom ínio de atualidade e do­
por relações de antagonismo, de apoio, de aliança, de reco- mínio de antecipação, que estas noções são relativas à escolha de uma
brim ento, etc. Essa “pluralidade contraditoria” de sequencias icquência discursiva dada com o sdr: não se trata, portanto, de “dom í­
discursivas se definirá, então, pela variação sistem ática das cp nios de o b jeto s” cuja existência poderia ser estabelecida de uma vez por
das seqüências discursivas no plano de caracterização das CF iodas, mas de conjuntos de objetos em píricos cuja configuração e limites
(variações de sujeito de enunciação, de situação de enuncia­ lomente encontram sua definição em relação à determ inação das cp de
ção, de relações de lugares, de con ju n tu ra... no interior da uma sdr no interior de um corpus discursivo dado. Esses dom ínios não
FD R a o m esm o tem po que em outras FD). i;lo dados por antecipação, mas devem ser construídos.
(2) A articulação do plano de determinação das CF de uma FD R Tampouco não parece inútil, para que evitemos uma interpretação
e do plano de caracterização das cp de uma sdr se realizará de hegem ônica ou uniclassista de tais objetos, esclarecer que esses domínios
maneira que é a o redor da sdr e em relação a ela (em outras comportam posições (ideológicas) de classe na contradição desigual nas
palavras, em relação à definição de suas cp) que essa plura­ (|uais as cp da sdr aparecem como um elemento singular.
lidade contraditória” de seqüências discursivas receberá uma Indiquemos, enfim, contra toda interpretação cronologista, que se os
organização na forma de corpus, à maneira de um conjunto de objetos que compõem esses domínios podem neles figurar com o pontos
pontos sistem aticam ente dispersos ou distribuídos em torno d.itáveis e referenciais a um sujeito enunciador, sua sucessão cronológica
de um ponto de referência. v atravessada pela dim ensão tem poral específica a um processo cujo de-
srnvolvimento contraditorio não conhece sujeito, nem origem, nem fim.
A dispersão sistemática das seqüências discursivas em torno da sdr Não se trata, pois, de ir procurar na sequencialidade de um domínio de
será comandada por formas de repartição combinando as sequencias dis­ mcmoria, de um domínio de atualidade e de um domínio de antecipação
cursivas retidas em dom ínios de o b jeto s , ou conjuntos diferenciados de ii scquencia “natural” do antes, do agora, e do depois, mas sim, de nele
seqüências discursivas” a partir dos quais será possível formular a hipótese i .iracterizar as repetições, as rupturas, os limites e as transform ações de
de que a natureza contraditória do processo discursivo da FD R , assim como um tempo processual.

o modo de determinação, poderão ser apreendidos.


■i) O domínio de memória

3 . 3 D o m ín io s d e m e m ó r ia , d e a tu a lid a d e , d e a n tecipa çã o E constituído por um conjunto de seqüências discursivas que pré-


i Kistcm a sdr, no sentido em que algumas form ulações determináveis
A d ia n ta re m o s q u e as fo rm a s de r e p a r tiç ã o p e rm itin d o a tin g ir ta l o b ­ n.i scquencialização intradiscursiva que a sdr realiza (que nomearemos
je tiv o e x ig e m a o r g a n iz a ç ã o d as se q u e n c ia s d iscu rsiv as em t o r n o d a sd r em
'< Kncontram os os term os de “dom ínio dc m em ó ria”, “dom ínio de atu alid ad e”, “cam p o de
d o m ín io s d e o b je to s q u e n o m e a re m o s:
iintccipação ’ na Arqueologia. D em os a eles aqui um valor sensivelm ente diferente.
112 A nálise do discurso político O rientações teóricas da pesquisa 113

“form ulações de referência”) entram com form ulações que aparecem nas uma resultante do desenvolvimento processual dos efeitos de memória que
sequências discursivas do domínio de memória, em redes de form ulações a irrupção do acontecim ento, no interior de uma conjuntura, reatualiza (o
a partir das quais serão analisados os efeitos que a enunciação de uma que tentam os mostrar anteriormente).
sdr determinada produz no interior de um processo discursivo (efeitos
de lem branças, de redefinição, de transform ação, mas tam bém efeitos de c) O domínio de antecipação
esquecim ento, de ruptura, de denegação do já dito).
E a partir do domínio de memória que poderemos apreender os fun­ Compreende um conjunto de sequências discursivas que sucedem à
cionam entos discursivos de encaixe do pré-construído e de articulação sdr, no sentido em que certas formulações que esta última organiza em seu
de enunciados (no sentido dado a estes termos): isso eqüivale a dizer que intradiscurso entretêm, em relação a formulações determinadas no domí­
o domínio de memória representa, num plano de organização de corpus nio de antecipação, relações interpretáveis com o efeitos de antecipação.
discursivo, o interdiscurso como instância de constituição de um discurso A constituição de um domínio de antecipação na forma de um corpus
transverso que regula para um sujeito enunciador, produzindo uma sdr em discursivo responde às seguintes preocupações:
cp determinadas, o modo de doação dos objetos de que fala o discurso,
assim com o o modo de articulação desses objetos: é a partir do domínio de (1) acentuar o caráter necessariamente aberto da relação que uma
memória que se poderá aproximar os processos que garantem a referência sdr produzida em cp determinadas mantém com seu exterior
dos nomes por um sujeito enunciador e autorizam, assim, a predicação e a no seio de um processo. Se existe um sem pre-jâ do discurso,
correferencialidade. pode-se acrescentar que se terá aí um sem pre-ainda ;
Notemos, enfim, no interior do domínio de memória, a possibilidade (2) não marcar assim o término pelo processo discursivo;
de delimitar um domínio das form ulações-origem . O domínio das formu- (3) preservar a possibilidade, deixando em branco o domínio de
lações-origem não atribui, de modo algum, um “com eço” ao processo dis­ antecipação num plano de constituição de corpus discursivo,
cursivo, mas constitui o lugar onde se pode determinar, no desenvolvimento de fazer da construção de um corpus a finalidade de uma AD;
do processo discursivo, o surgimento de enunciados que figuram com o ele­ assim, poder-se-á tentar, a partir dos resultados obtidos no
mentos do saber próprio a uma FD. trabalho de análise da relação de uma sdr com seu domínio de
memória, visar à construção de um domínio de antecipação
b) O domínio de atualidade (voltaremos a esse ponto no § 4.2).

E form ado por um conjunto de sequências discursivas que coexistem As noções introduzidas anteriormente o foram de maneira puramente
com a sdr em uma conjuntura histórica determinada: as sequências discur­ definitória. O capítulo IV será consagrado à sua exemplificação, por oca­
sivas agrupadas num domínio de atualidade se inscrevem na instância do sião da constituição do domínio de memória do corpus da pesquisa. Essas
acon tecim ento. A inscrição do acontecimento dos enunciados confere a noções, por outro lado, não têm outro estatuto senão o em pírico: elas só
suas relações o efeito de uma lembrança ou de uma refutação imediatas de pretendem fornecer quadro empírico que permita mostrar, num corpus dis­
formulações presentes em sequências discursivas que se respondem. cursivo, o interdiscurso com o instância de constituição do enunciado em
O aspecto “dialogado” da constituição num domínio de atualidade de redes de formulações empiricamente determináveis.
sequências discursivas que se citam, se respondem ou se refutam, não deve Restará elaborar teoricamente a articulação que todo processo dis­
deixar esquecer que a produção de efeitos de atualidade é ao mesmo tempo cursivo entretém com uma memória, uma atualidade e uma antecipação.
114 A nálise do discurso político O rientações teóricas da pesquisa 115

Essa elaboração nos parece uma questão im portante para a AD, tanto no de memória, domínio de atualidade, domínio de antecipação
estudo que ela pode pretender dos processos ideológicos que o discurso {D M em , DAct, DAnt}.
político manifesta com o naquele do processo de produção dos conheci­
mentos científicos: o que representa em uma conjuntura histórica, em que Se marcarmos com o sinal “o ” essa operação de com posição, podere-
se encontra posta a questão que persegue a história das ciências — aquela iims então representar um corpus discursivo (CD) sob a seguinte forma da
da caracterização de um corte ep istem ológico —é, com efeito, uma tensão expressão geral:
determinada no seio de um processo discursivo entre memória e antecipa­
ção, irrupção da mudança com o ruptura na repetição deste. O estudo das CD = cp(sdr) o CF(FD R) {D M em , DAct, DAnt}
formas discursivas nas quais tais transformações históricas intervém nos
parece o objeto, em uma AD, da articulação da história com a lingüística. Assim, resta-nos caracterizar mais precisamente, de uma parte, a ope-
i ação de com posição dos dois planos de determinação; e, de outra, realizar
.i especificação dessa experiência geral no campo empírico dos dados dis-
4. REDEFINIÇÃO DA NOÇÃO DE CORPUS DISCURSIVO i ursivos de nossa pesquisa.

4.1 E x p r e s s ã o geral

‘1.2 A c o m p o s iç ã o d o s d o is p la n o s : m o d a lid a d e s g e r a is d e d e f in iç ã o d e
Partimos de uma definição do corpus discursivo com o “conjunto de IIM TRABALHO SOBRE CORPUS
seqüências discursivas, estruturado segundo um plano definido com refe­
rência a um certo estado das condições de produção do discurso”. A noção de corpus discursivo que desenvolvemos anteriorm ente —sob
Introduzimos a noção de “forma de corpus ” com o princípio de es­ .i expressão geral que figura acima — é uma concepção estática-, ela se li­
truturação de um corpus discursivo; da mesma forma criticam os e depois mita à caracterização de dois planos de determinação. Precisar o modo de
redefinimos a noção de “condições de produção do discurso”. i omposição desses dois planos requer uma concepção dinâm ica do traba­
Se entendemos por form a de corpus o princípio geral da estrutura­ lho sobre corpus.
ção e da operacionalização de uma montagem m aterial num cam po ex­ Tal concepção não considerará um corpus discursivo como um conjun­
perimental/empírico, respondendo a objetivos definidos, e se nomeamos to fechado de dados dependente de uma certa organização; fará, ao contrá­
corpus discursivo à realização de um tal dispositivo, será então necessário rio, do corpus discursivo um conjunto aberto de articulações cuja constru-
conceber um corpus discursivo como “conjunto de seqüências discursivas, t,-.io não é efetuada de uma vez por todas no início do procedimento de análi-
estruturado segundo a articulação, o cruzamento, ou a com p osição de dois »c: conceberemos aqui um procedimento de AD como um procedimento de
planos de determ inação”: interrogação regulado por dados discursivos, que prevê as etapas sucessivas
ile um trabalho sobre corpus a o longo d o próprio procedimento. Isso impli-
• o plano de determinação das condições de produção de uma i ii que a construção de um corpus discursivo só possa estar perfeitamente
seqüência discursiva de referência (cp(sdr)); .k .ibada ao final do procedimento. A adoção de tal perspectiva parece-nos
• o plano de determinação das condições de form ação de um demandar:
processo discursivo no seio de uma formação discursiva de
referência (CF(FD R)), caracterizável pelas noções de domínio
116 A nálise do discurso político O rientações teóricas da pesquisa 117

(1) a necessidade de prever as etapas e as modalidades de um tra­ Intrad (sdr) = e1.e2.eJ.e4.eJ.e<.e7.e,.e,.e10...e n

balho sobre corpus no interior da definição geral de uma forma


de corpus, o que eqüivale prever as etapas e as modalidades do
I I I
............ er..............
I
er,.............er
2 n
que nomeamos composição dos dois planos de determinação:
é, parece-nos, uma das particularidades que fazem o interesse
da noção de forma de corpus ; l>) Constituição de um corpus de formulações de referência
(2) que uma tal previsão inclua a possibilidade, a cada etapa do
procedim ento, de um retorno sobre a totalidade, ou sobre As formulações de referência extraídas pela filtragem precedente do

determinado plano do corpus-, intradiscurso da sdr tom arão lugar em uma lista indexada segundo a ordem
'•mtagmática de sua ocorrência na sdr.
(3) que os domínios do objeto, que são os domínios de memória,
atualidade e antecipação, sejam considerados como classes aber­ Este índice das [er], ou corpus das form u lações de referência, indicará

tas que podem, portanto, ser “enriquecidas” nesta ou naquela ii contexto intradiscursivo esquerdo e direito de cada uma entre elas.
Seja (2):
etapa do procedimento, em razão dos resultados já obtidos nas
fases precedentes, como objetivos a serem atingidos.
ÍN D IC E (er) = l.e verr es

4 . 3 D e f in iç ã o d a s eta p a s d e um t r a b a l h o s o b r e corp u s

A definição das etapas de um trabalho sobre corpus discursivo tomará c) Varredura dos domínios que constituem o interdiscurso da FDR
a forma da seqüência regrada das seguintes operações:
Essa operação consiste em varrer o conjunto das sequências discur­

a) Determinação das formulações de referência no intradiscurso da sdr sivas pertencente aos domínios de memória, atualidade e antecipação, a
fim de localizar o conjunto das formulações, figurando nos respectivos in-

Tal determinação exige a definição de critérios que permitam situar tradiscursos dessas sequências discursivas, que podem entrar nas redes de

em um conjunto de pontos na superfície da sdr a presença de form u lações formulação na qual cada uma das [er] é um elemento, isto é, constituem aí

de referência {e r}. A definição desses critérios está submetida ao conjunto uma formulação possível. Essas formulações serão extraídas - com o traço

dos objetivos que uma pesquisa estabelece e à natureza das hipóteses que de seus contextos intradiscursivos respectivos - das sequências discursivas

ela formula a respeito do corpus discursivo; a localização das {er} deve reunidas no plano de caracterização do interdiscurso da FD R .

efetuar-se, além do mais, na base de critérios formais, isto é, lingüísticos, Isso eqüivale a dar uma representação empírica do processo discursivo

que possam permitir uma determinação unívoca e justificar a segmentação inerente a uma F D R , sob a forma de um corpus de redes de form u lações.

da sdr que se opera necessariamente durante essa localização. Seja (3)

Essa primeira etapa consiste, portanto, se representamos o intradis­


curso da sdr com o seqüência de formulações concatenadas, em localizar e
depois extrair de tal sdr o conjunto das [er] entre as [e].
Seja, então, a operação (1):
118 A nálise do discurso politico O rientações teóricas da pesquisa 119

IN T E R D (FDR) = ex_,.ex,.ex+, sdx (DMem) Cd, = {er + e (DM em )}


l-ej-erj-e,

V i-V S + l
sdr

s d y (D A c t)
i
Cd2 = {cd, + e (DAct)}
sdz (DAnt)
4
sd Cd, = {cd, + cdz + e (DAnt)}

Notem os que essa varredura dos domínios dos objetos pode tom ar d) Constituição do enunciado [E]
a forma —isto em razão dos objetivos estabelecidos para um determinado
trabalho sobre c o r p u s discursivo - de uma v a r r e d u r a e s c a l o n a d a . Isso leva­ A identificação e a extração fora dos domínios de memória, de atuali­
ria, a partir das hipóteses dirigidas à organização do plano das C F(FD R ), dade e de antecipação de certas formulações resultam de uma com paração
à cisão do c o r p u s discursivo em s u b c o r p o r a reunindo as [er] de um lado e, regrada entre o c o r p u s [er] e as je] inscritas nos domínios dos objetos. Essa
de outro, as [e] extraídas do domínio de atualidade, enfim, aquelas prove­ operação emprega uma concepção do enunciado no sentido que definimos
nientes do domínio de antecipação. como forma geral governando a repetição no seio de uma R [e]. Defende­
Se designarmos por {cd,, cd2... cdn} o c o r p u s discursivo (CD) como remos que a i n t u i ç ã o d e u m a r e p e t i b i l i d a d e que preside o reagrupamento
conjunto de s u b c o r p o r a (cd), e se cada s u b c o r p u s compreende as formula­ das [e] em R[e] (a propriedade para um R[e] de “fazer enunciado”) pode
ções de referência mais as formulações extraídas respectivamente dos do­ permitir, uma vez constituídas as R [e], aceder a esses esquemas gerais que
mínios de memória, atualidade e antecipação, seja (3 bis): ordenam o processo discursivo, que são as [e]. Isso conduz, portanto, a
induzir de R[e] a forma possível de [E],
CD = {cd,, cd2 ... cdn} Seja (4)

E ,= ex, E2 = ex.

r Dmen 'v er, er.

cd (i..n) = { « + e K Dact J*)} eYi ey 2


v D ant J
ez, ez.
Então o que chamamos v a r r e d u r a e s c a l o n a d a do c o r p u s poderá cons­
tituir um enriquecimento progressivo das redes de formulações a partir dos 'nl
domínios dos objetos.10
Seja (3 er): e) Retomo ao intradiscurso da Sdr

Convirá, enfim, retornar ao intradiscurso da sdr a fim de realizar a ar­


10 O tratam en to ao qual procedem os consiste na prim eira etapa de tal co n stru ção : as redes
ticulação dos dois planos de caracterização do discurso, operando sua com ­
de fo rm u lação que constru ím os agrupam as [er] com as [e] extraíd as de um d om ín io de
m em ória. A co n stitu içã o de um dom ínio de atualidade e de um d om ín io de an tecip ação posição sob a forma de um cruzamento do interdiscurso e do intradiscurso.
pode, assim , ser considerada co m o finalidade do tratam ento.
120 A nálise do discurso político O rientações teóricas da pesquisa 121

A estratificação vertical das [e] determinadas no plano do interdiscurso, Este recorte não deveria prejudicar a compreensão do trabalho. Gos-
em que se constitui o enunciado, verá estabelecida sua relação - em torno de mríamos, entretanto, de indicar que as R[e] foram construídas sob a forma
uma {er} funcionando como ponto nodal —com a sequencialização que o ilc classes de paráfrase discursiva, realizadas manualmente na base de prin­
intradiscurso da sdr realiza. cípios de construção semelhantes àqueles definidos em Chauveau (1978).
Seja (5):

Intrad (sdr) - e . ' e2 ' e3 ' er. ‘ e5 'V e7 ' e ,2 c •c 10 ... cn


IN T E R (FDR)

"e

ou ainda:

Intrad (sdr)

IN T E R (FDR) = eI.e1.e,.E 1.eJ.e4.e7.E2.e9.e10 ...e n

Enfim, algumas indicações sobre a apresentação dessas fases diferentes.


Em razão do recorte que é preciso dar aqui ao nosso trabalho, somen­
te detalharemos algumas dessas etapas; mais precisamente:

• a fase (1) de localização das [er], no capítulo V;


• as fases (4) de constituição do enunciado, e (5) de retorno ao
intradiscurso da sdr, no capítulo VI.

Desenvolvemos em outro texto (C o u r tin e , 19 8 0 ) as outras operações;


sejam:

• a fase (2) de segmentação contextual e de constituição de um cor­


pus das (er) (op. cit., respectivamente p. 215-220 e p. X III-X V III);
• a fase (3) de constituição do corpus das R[e] (op. cit., p. 281-315).
CAPÍTULO IV

CONSTITUIÇÃO DO CORPUS DA PESQUISA

Encontrarem os aqui, na constituição do corpus da pesquisa, a especi­


ficação das hipóteses gerais sobre uma forma de corpus em AD que acabam
de ser propostas. O corpus consiste em um conjunto de discursos dirigidos
aos cristãos pelo Partido Comunista Francês no período de 1936 a 1976.
Tratar-se-á de determinar as condições de produção, assim com o as
condições de form ação de tais discursos; de formular hipóteses específicas
relativas ao corpu s ; e, depois, de descrevê-lo, apresentá-lo e organizá-lo. 1
Faremos algum as observações preliminares, entretanto, a respeito
de expressões com o “o discurso político ” ou ainda “o discurso com u­
nista”, que utilizam os com o se fossem evidentes. Essas observações con ­
cernem , em particular, à relação entre práticas de análise do discurso e
prática política.
1 24 A nálise do discurso político C onstitu ição do co rp u s da pesquisa 125

1. OBSERVAÇÕES PRELIMINARES Reencontra-se a mesma argumentação em Guespin (1975, p. 7; 1976a,


p. 8) e em Maingueneau (1976, p. 19), que precisa: o discurso político é o
1 . 1 A n á l ise d o d is c u r s o p o u fn c o e p o l ít ic a d a A n á l is e do D is c u r s o
“discurso mais apropriado a uma leitura em termos de ideologia”.
Aqui, portanto, a relação do discurso político com a instância ideoló­
Anteriorm ente havíamos salientado, no cam po da AD, a presença de gica não é de maneira alguma afastada; não o é tampouco na definição geral
um e f e i t o m a c i ç o : a maioria dos c o r p o r a analisados desde a fundação dessa dada por J.-B. M arcellesi (1977a, p. 1): “Definimos o discurso político como
disciplina são c o r p o r a de discurso político e, mais precisamente, c o r p o r a discurso proferido pela hegemonia, por um intelectual coletivo”.
de discurso político que manifestam uma predileção pelos discursos pro­ Ao contrário, o que quase não aparece nesses trabalhos é a r e l a ç ã o d a s
feridos, em diferentes conjunturas da história da form ação social francesa p r á t i c a s d e a n á l i s e d o d i s c u r s o p o l í t i c o c o m a p r á t i c a p o l í t i c a : encontra-se
(Congresso de Tours, Frente Popular, Resistência, Guerra da A rgélia...) a expressão desse tipo de relação em Ebel-Fiala (1977), assim com o em
pelos p a r t i d o s d e e s q u e r d a , mais particularm ente enfim pela SF IO 1, que se Pêcheux (1977, p. 2). Este último autor avança, a propósito dos procedi­
tornou depois o Partido Socialista, assim com o pelo Partido C om unista.2 mentos de AD política, a tese da determinação política dos trabalhos que
O c o r p u s de nossa pesquisa não escapa à regra do gênero: por isso, utilizam tais procedimentos:
parece-nos melhor, mesmo que seja somente a nossos olhos, tentar explicar
0 caráter maciço desse efeito. Encontram-se, em diversos trabalhos da AD Não se trata de intervenções meramente técnicas: uma
política, razões que são propostas nesse sentido. certa maneira de tratar os textos está inextricavelmente
Se fizermos abstração de uma c o n c e p ç ã o in g ê n u a e negativista da ideo­ ligada a uma certa maneira de fazer política (...). Não
logia que apresenta o discurso político como uma mensagem qualquer, trans­ se pode pretender falar do discurso político sem tomar
mitindo uma informação (“Nosso objeto de estudo é o discurso político, isto simultaneamente posição na luta de classes, pois, na rea­
é, uma seqüência ordenada de palavras e de frases que procura transmitir lidade, essa tomada de posição determina, na verdade, a
uma (umas) informação(ões) por meio da linguagem. L ic itr a , 1974b, p. 151), maneira de conceber as formas materiais concretas sob as
observamos explicações centradas sobre o caráter de “ o b j e t o c ô m o d o ” do quais as “ideias” entram em luta na história.
discurso político.
Assim, Guespin (1971, p. 22-23), salientando a modéstia dos conheci­ Haveria assim uma p o l í t i c a d a A n á l i s e d o d is c u r s o , ou, pelo menos,
mentos no campo, convida os analistas a voltar-se para os textos m u it o e s p e ­ efeitos políticos identificáveis no campo da AD.
c ia is . “Textos cujas regras discursivas sejam o menos caprichosas possíveis”, A fim de lim itar a eventualidade de tais efeitos, deve-se passar pela
acrescentando que, em relação a isso, “o enunciado político é particularmen­ conjuntura política da form ação social francesa nos últimos dez anos, pe­
te satisfatório”. A AD política apresenta uma última vantagem: “a tipologia ríodo no qual a AD política emerge. De fato, essa conjuntura é dominada
do discurso político parece particularmente fácil” (op. cit.).3

aparelhos ideológicos que asseguram sua estabilidade. Q u an to à asserção segundo a qual


1 Seção francesa da Intern acio nal operária: Partido So cialista. (N. de T.) seria fácil produzir sua tip ologia, parccc-nos que ela pressupõe um recobrim ento/super-
2 E especialm ente o caso dos trabalhos de J.-B . M arcellesi, L. Courdesses, G. Provost-Chau- p osição a priori da divisão do cam po p olítico em forças políticas organizad as, que são
veau, L. G uespin. N o en tan to , observem os que determ inados trab alh os, que se servem da os partid o s, e da divisão do cam p o do discurso p olítico em uma tipologia “de org an iza­
A D - esp ecialm ente os de J . G uilhaum ou, D. M ald id ier e R . R ob in - , escolheram outros ções discursivas” , conform e o princípio já m encionado: “a cada um sua linguagem ” . .. ou
o b je to s históricos.
ainda: “digas-m e o que tu dizes, que eu direi quem tu és” , segundo um a fórm u la de R .
3 Seria ainda conveniente perguntar-se p or quê? Se o discurso p o lítico m anifesta tão p ou ­ R obin (1977). E n con trarem os no trabalho de M arandin (1978) um a crítica pertin en te das
cos “cap rich o s”, é pelo fa to de sua existência com o prática discursiva enquadrada por
tipologias elaborad as cm AD.
126 Análise do discurso político C onstitu ição do co rp u s da pesquisa 127

pela aliança política estabelecida pelos partidos da União da Esquerda, que emergência, no campo da AD, de efeitos ligados a uma transform ação des­
conduz, em 1972, a um im portante acontecim en to discursivo : a assinatura sa conjuntura.
de um programa comum de governo. Nesse sentido, gostaríam os de indicar que se nos afastam os aqui da
Como não perceber que, na própria conjuntura em que o Partido Socia­ perspectiva de uma separação/diferenciação das formações discursivas
lista e o Partido Comunista confundem seus discursos em uma “linguagem para tentar entender, por meio do jogo de suas contradições, o princípio
comum”, mesmo que fosse somente durante um programa comum, apare­ de sua form ação, se enfatizamos a noção de “memória discursiva”, se as
ce justamente, no campo da AD política, um grande número de trabalhos enunciações produzidas e as formulações trocadas nos parecerem carregar
que se propõem a efetuar a análise contrastiva do discurso comunista e do o peso de sua história, convém também ver aí a marca dos efeitos de uma
discurso socialista, empenhando-se em localizar, em seu léxico ou nas ope­ transformação recente da conjuntura política francesa, que torna cadu-
rações lingüísticas que eles utilizam, as marcas d e sua individuação, salien­ cos, ao mesmo tempo, no fim das eleições legislativas de março de 1978, o
tando as proximidades, avaliando as diferenças, ordenando-as em tipologias “programa com um ” e a união dos partidos de esquerda que esse programa
que opõem suas características (“discurso político polêmico/discurso políti­ firmava. Isso nos parece abrir, no campo da AD política, um conjunto de
co didático”, “discurso em ew/discurso em nós”,...)? perguntas, entre as quais a da natureza e das form as d o discurso de aliança
O aparecimento maciço em AD política de trabalhos contrastivos, das organizações políticas d o m ovim ento op erário ; a escolha do corpus de
cujo objetivo é a caracterização diferencial do “discurso socialista” e do nossa pesquisa procede dessa questão.
“discurso com unista”, produz, portanto, na “conjuntura científica” da­
quele período, um efeito de contraponto em relação ao “acontecim ento
discursivo” capital que acontece no seio da conjuntura política. Veremos 1.2 A RESPEITO DO "D ISC U R SO COMUNISTA"

nesse efeito de contraponto o efeito diretam ente político, no cam po da AD,


das contradições que caracterizavam, sob a “linguagem com um ” de um Parece-nos igualmente que a expressão “o discurso com unista” (ou
programa, a aliança das principais forças da esquerda francesa: de fato, a ainda “o discurso socialista”, “sindical”, “patronal” ...) envolve um cará­
natureza contraditória dessa aliança produziu, como um dos “efeitos dis­ ter problem ático se ela denotar um bloco de imobilidade, rígido com uma
cursivos” ligados a essa conjuntura, a oscilação incessante entre a referên­ axiom ática ossificada, com o no trabalho de Labbe (1977) ou, ainda, um
cia ao sentido comum das palavras e a interpretação divergente que cada tipo de prática discursiva que não teria outra característica senão dife­
um podia fazer a seu respeito. rencial, com o nos trabalhos de análise contrastiva. Portanto, a utilização
Todavia, não pretendemos que, na problemática da AD política, tudo dessa expressão, ou ainda a de “FD com unista”, não se referirá aqui à
se restrinja apenas aos efeitos diretamente políticos: as preocupações de di­ existência de um “mundo discursivo” fechado, nem àquela de mundos se­
ferenciação lingüística dos grupos sociais próprias do sociologismo lingüís­ parados, mas sim à existência de “dois mundos em um só” : um trabalho a
tico, a existência de uma “tradição nacional” de reflexão marxista sobre a partir da categoria de contradição considerará a FD comunista com o uma
língua, que se encontra, por exemplo, em P. Lafargue (isso é enfatizado por unidade dividida; de fato, o caráter desigual de tal contradição orienta o
M arcellesi (1977a, p. 4 )) apresentam-se igualmente como fatores a serem trabalho sobre os objetos que as FD são, na perspectiva de uma caracteri­
considerados. zação das modalidades discursivas do contato entre form ações ideológicas
Também não pretendemos ter, sobre o conjunto das questões que aca­ dominantes e dominadas: o que está em jogo aqui é a relação do interior
bam de ser evocadas, “o ponto de vista de Sirius”; muito pelo contrário, de uma FD dom inada, do saber que nela se forma, com seu exterior espe­
parece-nos im portante situar a posição de nosso trabalho em relação à cífico, isto é, seu interdiscurso.
128 Análise do discurso político Constitu ição do co rp u s da pesquisa 129

O tipo de corpus reunido é o resultado de tal orientação: muito diferente (...) Sim, haverá novidade” [M. Gremetz em 1’H um anité de
25 de maio de 1976]), sua repercussão fora do Partido Comunista, a impor­
(1) Tratar-se-á, como na tradição dos trabalhos de AD política, de tância da preparação de que foi objeto e a conjuntura particular na qual foi
um discurso de aparelho. produzido compõem os fatores que determinaram sua escolha.
(2) M as vai tratar-se também de discurso de aliança, isto é, de De fato, o Apelo de Lyon acontece em um contexto político marcado
uma região do discurso de aparelho em que se encontra regu­ pela agravação da crise econôm ica, o crescimento das forças de União da
lada a relação com o outro, com o exterior, com o que não é Esquerda, assim com o por dificuldades encontradas pela direita no poder,
ele mesmo, em vista da constituição de uma aliança ou de uma sancionadas por nítidos recuos no decorrer das pesquisas eleitorais do ano
colaboração política. de 1976.
(3) Por isso, voltam o-nos para o discurso com unista dirigido aos Assim, os com entaristas políticos notam, em março de 1976, “um pro­
cristãos. A escolha desse aspecto regional da FD com unista fundo mal-estar social” marcado pelo agravamento do desemprego, das
provém do fato de que uma contrad ição entre form ações desordens e dos confrontos no Sul, de grandes manifestações de estudantes
ideológicas antagonistas exibe-se aí de m aneira m anifesta, e professores contra a reforma do segundo ciclo dos estudos universitários
no sentido de que a existência da contrad ição constitui o em toda a França. As eleições cantonais4 dos dias 7 e 14 de m arço apresen­
o b jeto ou o próprio tema do discurso. tam um nítido recuo dos partidos de direita, do qual a União da Esquerda
(4) Isso não é específico do discurso dirigido aos cristãos, mas con­ e, em seu interior, o Partido Socialista são os principais beneficiários: o
cerne ao conjunto do discurso de aliança do Partido Comunis­ Partido Socialista ganha 200 novas cadeiras de conselheiros gerais, enquan­
ta. N o entanto, no caso dos discursos escolhidos, dispomos, no to o Partido Com unista, 80. Quinze presidências de conselhos gerais pas­
período de 1936 a 1976, de um conjunto que se inscreve na tra­ sam, no dia 17 de março, da maioria situacionista para a oposição (entre as
d ição d e um diálogo organizado entre as duas FD, o que contri­ quais 10 vão para o PS).

buiu para facilitar a constituição de um domínio de memória. Enquanto o Presidente da República anuncia, durante um pronun­
ciam ento na televisão no dia 24 de março, que a situação vai opor um
“projeto único” ao “programa com um” da esquerda, as contradições que
1.2.1 O Apelo de Lyon (10 de junho de 1976): determinação a dividem estão cada vez mais flagrantes e rumores de mudança na com ­
das condições de produção da seqüência discursiva de posição ministerial ou mesmo de eleições legislativas antecipadas circulam
referência (sdr) abundantemente.
A degradação do clima social continuará até junho, com a “greve ge­
1.2.1.1 Descrição da conjuntura ral das universidades”, proclamada no dia 10 de abril pelos delegados estu­
dantis dos comitês de greve, com a falência de LIP/ no dia 3 de maio, e com
A seqüência discursiva escolhida como sdr consiste no A pelo dirigido cerca de 20 atentados na Córsega, no dia 5 de maio.
aos cristãos por Georges Marchais em Lyon, no dia 10 de junho de 1976. Nós
o encontramos em Communistes et Chrétiens, Ed. Sociales, Paris, 1976.
O caráter de evento nacional desse apelo, seu caráter de acontecim en­ 4 E leições dos representantes dos “can ton s” , ou seja, de distritos que são subdivisões te rri­
to histórico de retomada da política da “mão estendida” (“E preciso retor­ toriais das regiões francesas. (N. de T.)
5 Fábrica de relógios, peças de arm am ento e aparelhos de m edicina que, em pregando 1.500
nar a 1936 para encontrar um precedente dessa amplitude (...) Este será pessoas, representava a fonte principal de trabalho na cidade de Besançon . (N. de T.)
130 Análise do discurso político C onstitu ição do co rp u s da pesquisa 131

Em um contexto em que se agravam as contradições econôm icas e iiin.i reunião política consecutiva à liberação de Leonid Pliouchtch, fato
sociais e em que a questão da tomada do poder do Estado está posta, o i|iir será severamente criticado pela agência TASS.
Partido Comunista empreende uma importante mudança: trata-se, primei­ Assim, a questão da tomada do poder, da união e da abertura forma os
ramente, na ocasião de seu XXII Congresso (4-8 de fevereiro), do aban­ npcctos principais da linha política do Partido Comunista, também mar-
dono da “ditadura do proletariado” e da afirmação de uma via socialista ■.ida por uma proliferação d o discurso de aliança nesse tipo de conjuntura.
especificamente francesa. Essa afirmação recebe uma confirm ação no dia Ao mesmo tempo, a hierarquia católica fica politicam ente muda, em
25 de fevereiro, quando o X X V Congresso d o P.C.U.S. é dominado pelo posição de espera; a não ser por duas ocasiões, o tempo de dar um golpe
debate entre comunistas do Leste e do Oeste: G. M archais não assiste a ii.i esquerda (o episcopado italiano ameaça de sanções os católicos que se
ele. Isso ocorre imediatamente depois de um conjunto de reservas e críticas .ipresentarem nas listas eleitorais do P.C.I.) e outro na direita (suspensão a
formuladas dentro do Partido a respeito do “socialismo soviético”. Enfim, é ilivinis de M onsenhor Lefevre).
publicada, no final de maio, uma “declaração das liberdades”, assim como
acontece uma reunião de cúpula com o Partido Comunista Italiano, que
manifesta “importantes convergências” entre os dois partidos. 1.2.1.2 Produção, difusão e circulação discursivas na instância do
D o ponto de vista do debate no seio da esquerda, todo o período ca­ ■icontecimento
racteriza-se pelo que se pôde chamar então de dinâm ica da união.
O Congresso do Partido Socialista, reunido em D ijon nos dias 15 e 16 É nas condições descritas anteriormente que a sdr é produzida. Sua
de maio, e o Com itê Central do Partido Comunista, congregado em Paris produção é, entretanto, indissociável da difusão e da circulação de todo
no inicio de junho, pronunciam-se ambos pela assinatura de um acordo um conjunto de textos, de natureza e proveniência diversas, que a prece­
eleitoral, tendo em vista o período das eleições municipais de m arço de dem e a preparam, e da qual ela constitui o ponto culm inante, que lhe su-
1977. A conclusão desse acordo acontecerá no dia 28 de junho. tedem imediatamente e lhe respondem, formando o domínio de atualidade
Esse conjunto de elementos salienta o fato de que a conjuntura está do acontecimento discursivo que ela representa.
posta pelo Partido Comunista Francês sob o signo da abertura-, é o sen­ Não trabalharemos neste estudo a relação da sdr com esse domínio de
tido que convém dar ao Apelo de Lyon, que constitui uma das primeiras .itualidade (encontrar-se-ão algumas indicações sobre esse ponto em C our-
grandes ilustrações públicas sobre um problema preciso da linha definida m n e, 1980, p. 144-145). N o entanto, convém salientar o que a situação do
pelo X X II Congresso: prioridade para a palavra de ordem de “União do Apelo de Lyon enfatiza na instância do acontecimento é que a produção de
povo da França”, ênfase na questão das liberdades, definição de “um so­ uma seqüência discursiva, a partir de um lugar no seio de um aparelho, a
cialism o com as cores da França”, distanciamento em relação ao mode­ inscreve em uma rede de difusão 7 dos discursos que regula a circulação das
lo soviético. Essa italianização manifesta da linha do Partido Comunista
exprimir-se-á de novo no dia 25 de junho na R .D .A ., durante a conferência
7 R ecentem ente, a n o ção de “rede de d ifusão” foi trabalhada por D ésirat & H ord é (1977)
dos PCs da Europa. N ela, será reclamado o reconhecim ento do direito a a propósito da fo rm ação do discurso pedagógico; procurando estabelecer “as form ações
de trocas entre discursos heterogêneos, entre discursos e práticas so ciais” , eles acabam
escolher diversas vias para conduzir ao socialism o, enquanto a noção de
“descrevendo redes discursivas (regime de publicações dos textos, exten são de sua difusão,
eu rocom u n ism o tenderá a ser mais amplamente com partilhada. Por fim, condições de sua le itu r a ...), linguisticam ente n ão definidas, que fu ncion am de form a co m ­

no dia 21 de outubro, Pierre Juquin com parecerá na M utualité6 durante petitiva em quad ros institu cion ais m antidos ab ertos, pontos de convergência e de diver­
gência de textos de origens e destinações d iv ersa s...” (op. c it., p. 4). As im plicações dessa
posição em relação à definição das CP do discurso ou à con stitu ição de um corpus dis­
cursivo nos parecem b astan te próxim as de nosso pon to de vista. O trab alho de D ésirat &
6 Serviço so cial francês de saúde. (N. de T.) H ordé co ntém , além disso, um a crítica p ertinente do procedim ento da AAD. N o en tan to,
1 32 Análise do discurso político C onstitu ição do co rp u s da pesquisa 133

formulações no interior da FD e a troca das formulações com o exterior da Uma história e uma semiologia desses “procedimentos de controle e

FD: o trabalho de uma FD como memória discursiva deverá necessariamente iIr delimitação do discurso” (F o u ca u lt, 1971, p. 10) dessas práticas não dis-

levar em conta as condições de difusão e de circulação do arquivo. i ursivas indissociáveis da fala política ainda estão por ser feitas no que diz
irapeito às formações ideológicas ligadas ao movimento operário; uma his-
inria e uma semiologia que analisariam a relação complexa (de rejeição, mas

1.2.1.3 Situação de enunciação, ritual e memória i.inibém de fascínio; de reprodução invertida...) que associa o movimento
nperário a práticas semelhantes que se constituíram historicamente no apa-

A sdr encontra-se enunciada a partir de um lugar determinado: o do irlho de estado capitalista, na escola, no pretório ou no púlpito, nas figuras

Secretário Geral do Partido Comunista. Seus alocutários são os “cristãos”; ilc porta-voz do patrão, do procurador ou do pregador.

pouco im porta o número efetivo de cristãos presentes entre as 12.000 pes­


soas que assistem à reunião, algo que será, no entanto, bastante debatido
nas diferentes coberturas do evento pela imprensa. O essencial no que diz 2. AS CONDIÇÕES DE FORMAÇÃO DO DISCURSO
respeito à caracterização das circunstâncias enunciativas é notar que o por- COMUNISTA DIRIGIDO AOS CRISTÃOS
ta-voz é o secretário geral do Partido, que se dirige a um alocu tário coletivo
exterior d o Partido na forma de uma fala que é aquela do com ício político. 2 .1 A pa n h a d o d a s t r a n s f o r m a ç õ e s d a d o u t r in a so c ia l d a I g r e ja

Esse tipo de fala efetua-se em um conjunto de rituais determinados


que fazem parte das circunstâncias enunciativas dessa produção, no sen­ Amem seus patrões, amem-se uns aos outros. Nas horas

tido de que esse conjunto produz a representação im aginária, a partir da em que o peso de seus rudes labores for mais intenso sobre

qual se concebe a fala para os sujeitos concretos que vivem a situação. seus braços cansados, fortifiquem sua coragem olhando

Tocam os aqui num dos aspectos da existência material de uma form a­ em direção ao céu.

ção discursiva com o memória; o da conservação, da reprodução imutável (Leão XIII, Discurso para os operários franceses, 8 de outu­

dos rituais não verbais que acompanham o discurso, do conjunto dos sig­ bro de 1898).

nos ligados aos lugares inscritos em uma FD por meio dos quais se agen­
ciam os gestos, os com portam entos, as circunstâncias, a distribuição dos Faremos aqui um esboço geral daquilo que desenvolvemos de forma

“papéis”, que a metáfora pragmática da encenação registra: teatralidade mais completa em outro trabalho ( C o u r t in e , 1980, p. 147-164). A apre­

do com ício político ou do congresso, com seu cenário fixado e seus papéis sentação ficará esquem ática, centrada sobre alguns temas do discurso do

convenientes," cerimonial do relatório, com tom e duração definidos, que aparelho da Igreja. A complexidade do “discurso católico” não poderia se

abre a reunião da célula ou a da retomada das cartas, conjunto de signos reduzir a isso.

de reconhecimento que cercam o porta-voz...


a) A doutrina social da Igreja depois do Concilio Vaticano 1

Uma data pode servir de chave para o período que estudamos: em


m anifesta, em seu recurso à “situ ação co n cre ta ” ou ao “p rag m ático”, a m arca de uma setembro de 1965, encerra-se em Roma o concilio Vaticano II, que marca
deriva em pirista a partir do projeto arqueológico de Foucault.
8 “O s d is c u r s o s r e lig i o s o s , ju d i c i á r i o s , te r a p ê u t ic o s e t a m b é m , p o r u m a p a r t e , p o l í t i c o s , s ã o
uma mutação im portante nas tomadas de posição da Igreja nos planos
p o u c o d is s o c iá v e is d e s s a i m p l e m e n t a ç ã o d e u m r it u a l q u e d e t e r m i n a p a r a o s s u je i t o s f a l a n ­ econôm ico, social e político; trata-se na verdade de uma atualização ou de
t e s , a o m e s m o t e m p o , p r o p r ie d a d e s s in g u la r e s c p a p e is c o m b i n a d o s ” ( F o u c a u l t , 1971, p . 41).
1 34 A nálise do discurso político Constitu ição do co rp u s da pesquisa 135

um rem an ejam ento do conjunto das regras teológicas, políticas ou eclesiais manterem mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas pre­
elaboradas pelo Concilio Vaticano I em 1870, que, aos poucos, haviam sido cisam uma da outra de forma imperiosa: não pode haver
questionadas pela prática social e política. capital sem trabalho e trabalho sem capital. O acordo
Uma centena de anos antes do Vaticano II, o Vaticano I havia, de fato, gera a ordem e a beleza; ao contrário, de um conflito
estabelecido certo número de preceitos que fixam então as posições da perpétuo, só pode resultar confusão e lutas selvagens
Igreja quanto às questões sociais: centralização monárquica do catolicis­ (Leão X III, op. cit.).
mo, infalibilidade de um papa que resume em si toda a tradição. O Vati­
cano I é tam bém o Concilio da condenação do Estado laico, da liberdade Sendo assim, resta à Igreja chamar de volta, a seus deveres morais res­
de imprensa ou de consciência, assim como dos anátem as pronunciados pectivos, patrões e empregados —de um lado, caridade, de outro, obediência
contra o socialism o e o comunismo. -p a r a preservar a harmonia do corpo social:
Particularm ente, o comunismo, “doutrina” execrável, destrutiva até
do direito natural (Pio IX , Qui pluribus, 9 de novembro de 1846), “seita Deus quis que houvesse, na comunidade humana, com a
bárbara”, incluído nas sociedades clandestinas no Syllabus (8 de dezem­ desigualdade das classes, certa igualdade entre elas, resul­
bro de 1864), “peste mortal que, se inserindo nos membros da sociedade tando de um acordo amigável: dessa forma, os operários
humana, não a deixa descansar e lhe prepara novas revoluções e funestas não devem de maneira nenhuma faltar com respeito ou
catástrofes” (Leão X III, inscrutabili , 21 de abril de 1878), inscreve-se no re­ fidelidade a seus patrões, nem estes agirem sem bondade,
gistro m etafórico do contágio m ortal, dando assim o tom dos julgam entos justiça e cuidados preventivos. Tais são os pontos prin­
que, mais tarde, serão proferidos, porém, com atenuações notáveis depois cipais do Bem Comum, que é necessário buscar realizar
do Vaticano II. (Leão XIII. Carta ao Msr. Gossen e aos bispos da Bélgica,
Socialismo e comunismo aparecem assim com o princípios contra a 10 de julho de 1895).
natureza: o direito à propriedade privada é de fato sancionado pelo direito
natural, assim com o a hierarquização das classes sociais, submetida à auto­ No plano prático, enfim, a resolução da contradição capital/trabalho
ridade de um Estado governado por príncipes com direito divino. é pregada na doutrina social da Igreja, que se elabora especialmente depois
E no próprio princípio dessas “doutrinas funestas”, na luta de clas­ do Rerum N ovarum , por meio da criação de “associações de m assa” cató­
ses, que se situa a aberração. Em uma concepção organicista da sociedade licas que têm por objetivo a organização da caridade (obras e d o açõ es...).
com o “corpo social” em que as classes sociais (as “ricas” e as “pobres”)
participam da harm onia do todo, tal como se completam os membros do b) Vaticano D eo "aggiomamento" da política social da Igreja
corpo humano, a luta de classes é concebida como o mal fundamental:
No entanto, a doutrina proveniente do Vaticano I vai ser particular­
Pois assim como, no corpo humano, os membros, ape­ mente m altratada pela evolução das relações sociais desde 1870, que faz
sar de sua diversidade, adaptam-se maravilhosamente surgir, no início do século X X , numerosos fatores de m udança: a extensão
um ao outro, de maneira a formar um todo exatamen­ do capitalismo de monopólio, ligado ao desenvolvimento das forças produ­
te proporcional e que poderia ser chamado simétrico, tivas e destruição das antigas relações sociais; o desenvolvimento e a orga­
também, na sociedade, são as duas classes destinadas nização das lutas da classe operária e a existência —desde outubro de 1917
pela natureza a se unirem de forma harmoniosa e a se - de um campo socialista; a difusão do ateísmo, especialmente no interior
136 A nálise do discurso político C onstitu ição do co rp u s da pesquisa 137

da classe operária. É então que os efeitos das lutas de classes se fazem sentir tas que as ideologias do capitalismo liberal trazem, nos anos 60-70, aos
no próprio coração da Igreja: o conteúdo da fé tende a se transform ar para movimentos de massas. N o entanto, isto é acompanhado, no que respeita
massas cada vez maiores de trabalhadores (por exemplo, pela revalorização aos avanços do Concilio, pelo reconhecimento dos sindicatos e do direito
do Cristo fraternal dos pobres), polêmicas aparecem a respeito da interpre­ de greve, “meio necessário, apesar de ser o último, para defesa dos próprios
tação das Escrituras. direitos e realização das justas aspirações dos trabalhadores”.
E nesse contexto que o Vaticano II vai figurar com o um “aggiorna- Um fato im portante deve agora ser salientado: os textos do período
m ento” realizando um acordo entre os valores e a ordem antiga herda­ pré-conciliar e conciliar abandonam os anátemas que caracterizam o anti­
dos do precedente concilio e a pressão das exigências contem porâneas, em go anticomunismo de cruzada. Embora o Papa lembre que “entre o comu­
textos “com dupla face”, segundo a expressão do pastor L. Vischer (apud nismo e o cristianismo, a oposição é radical” (João X X III, M ater e M agies-
C asan o v a, 1977, p. 15). tra, 15 de maio de 1961), doravante, a porta está aberta para o diálogo entre
Todavia, a política do Vaticano II realiza certos progressos no campo cristãos e comunistas:
da laicidade do Estado (põe fim à desconfiança em relação à dem ocracia,
reconhece o pluralism o...) e da paz (condenação das armas nucleares). No Se, tendo em vista realizações seculares, os crentes relacio­
que diz respeito à doutrina social, os avanços são lim itados; se a proprie­ nam-se com homens cujas concepções errôneas impedem
dade privada dos meios de produção não poderia ser questionada (e isso de crer ou de ter uma fé completa, esses contatos podem
apesar do lembrete do princípio da destinação universal dos bens) e se a ser a oportunidade ou o estímulo para um movimento que
luta de classes sempre gangrena o corpo social, os remédios para os con­ leve esses homens à verdade (João X X III, Pacem in Terris,
flitos sociais são concebidos graças à associação d o capital ao trabalho: 11 de abril de 1963).

Nos empreendimentos econômicos, as pessoas estão as­ M esm o que o diálogo entre crentes e não crentes se torne possível, não
sociadas entre si, isto é, seres livres e autônomos criados deverá, porém, ser conduzido cegamente: a abertura realizada pelos textos
à imagem de Deus. Assim, levando em consideração as do período conciliar será atenuada por certo número de restrições.
funções de uns e outros, proprietários, empregadores, E no plano teórico que situa a reticência essencial. N ão há possível
administradores, operários, e salvaguardando a neces­ conciliação doutrinai com o materialismo histórico e dialético, “erro fun­
sária unidade de direção, é preciso promover, conforme dam ental”, “sistema de pensamento negador de Deus e perseguidor da
modalidades a serem determinadas da melhor forma Igreja”, segundo os termos de Paulo VI. A argumentação do Papa baseia-
possível, a participação ativa de todos na gestão dos se nas perseguições que sofreram as Igrejas nos Países do Leste, “Igrejas
empreendimentos (Constituição Conciliar “Gaudium e do Silêncio” que apenas expressavam-se pelo sofrim ento personificado na
Spes”, 7 de dezembro de 1965). figura do mártir: “Na realidade, nossa queixa é mais gemido de vítimas do
que sentença de juizes”.
De um lado, negação da existência de relações sociais de produção, de Por outro lado, a abertura da era do diálogo é acom panhada pela re­
outro, elaboração de uma doutrina participativa com o soluções aos con­ organização do aparelho político do Vaticano: a criação, sob a forma de se­
flitos do trabalho, a doutrina social da Igreja reajusta-se “às exigências cretariado para os não crentes, de um setor especializado para este último
de nosso tem po”, esforçando-se para elim inar a defasagem id eológica que perm itirá à Igreja orientar e controlar a prática de um “diálogo frutuoso”.
marca o atraso da estrutura doutrinai do Vaticano I em relação às respos­
138 A nálise do discurso político C onstitu ição do co rp u s da pesquisa 139

Dessa form a, o Vaticano II marca uma mutação im portante da dou­ interior, de um “cristianismo horizontal”, muito presente na base militante
trina social da Igreja cm relação ao “ateísmo m arxista”: a concepção sa­ de certas organizações católicas implementadas no mundo do trabalho (JEC
tânica do comunismo e a política fóbica em relação à luta de classes, con­ - Juventudes Comunistas, J O C - Juventude Operária Cristã, ACO - Associa­
tem porâneas do Vaticano I, dão lugar a uma dupla resposta realista: de ção Comunista O p erária...), que propõem uma visão comunitária e demo­
um lado, recusa do comunismo ao mesmo tempo com o sistema teórico e crática da Igreja e provocam uma crise de obediência que acaba atingindo
com o regime político, de outro, adoção de um diálogo cauteloso e contro­ certos padres. As vezes, a autoridade hierárquica do magistério da Igreja é
lado com o forma prática de luta; a reabsorção da defasagem ideológica, questionada: “ ... Um único rebanho, com um único pastor, mas não mais
que as posições do Vaticano I manifestavam, ordena que, doravante, a luta considerados como ovelhas__ ” (conforme a palavra do Cardeal Heenan
ideológica engajada pela Igreja contra o “ateísmo m arxista” seja levada apud C asanova et al., op. cit., p. 64). Os efeitos das lutas de classes atraves­
so b a fo rm a d e diálogo. sam assim a Igreja, multiplicando os pontos de atrito entre as concepções de­
fendidas pela hierarquia e aquelas de um grande número de católicos: assim,
c) Evolução das posições da Igreja no período pós-conciliar as Escrituras e os textos conciliares do Vaticano I tornam-se o ponto nodal
de leituras contraditórias que refletem as posições de classe dos crentes.
Esse conjunto de novas orientações será confirm ado pelas posições E nesse contexto de crise que o Papa, de novo, se posiciona sobre as
contidas nos textos produzidos no período pós-conciliar (Sínodo dos bis­ questões sociais na Carta apostólica de m aio de 1971. Observando a atra­
pos em Roma em 1969, 1971; Assembleia plenária do episcopado francês ção de certos cristãos pelas “correntes socialistas e suas diversas evoluções”,
em Lourdes em 1970,1972; Carta apostólica de Paulo VI ao cardeal Rey em o texto enfatiza o perigo que há de “entrar na prática da luta de classes e de
maio de 1971), que devem levar em conta a evolução da prática social glo­ sua interpretação m arxista, dificultando perceber o tipo de sociedade tota­
bal nos países da Europa capitalista, nos anos 1965-1975, principalmente litária e violenta à qual esse processo conduz”. Os textos da hierarquia ca­
na França. Tendo com o pano de fundo a crise do capitalism o e as convul­ tólica produzidos nessa conjuntura tornam -se, de maneira ampla, o eco de
sões sociais, o processo de transformação das relações sociais de produ­ argumentos que insistem sobre a natureza totalitária do m arxism o erigido
ção conhece então uma aceleração notável: desaparecimento ou redução em sistema político e, ao mesmo tempo, marcam um sensível retraim ento
de todo um conjunto de camadas sociais (artesãos, camponeses, pequenos na prática d o diálogo:
produtores au tô n o m os...); concentração ampliada dósTfeipnopólios capi­
talistas em detrimento da pequena e média indústria; inchaço m aciço das Sejam quais forem as intenções daqueles que a ele aderem,
cam adas intermediárias assalariadas; agravamento do desemprego; etc. o Marxismo provoca, dentro de sua própria lógica, um
Esses fatores não deixam de ter efeitos no interior da Igreja: com bi­ coletivismo destruidor dos direitos e das liberdades indi­
nados com os progressos das ciências e das técnicas, eles contribuem, com viduais e gerador de um totalitarismo. Os gritos de um
efeito, para fornecer uma base para uma evolução da consciência social de Soljenitsin ou de um Sakharof testemunham isso (Carta
grandes massas de trabalhadores que tendem a se voltar para uma “visão do episcopado francês à assembleia dos cristãos críticos.
mais racional, mais lúcida e cujo conteúdo anticapitalista vai crescendo fora Lyon, novembro de 1973).
do próprio proletariado” ( C a sa n o v a et al., 1972, p. 81). Isso tem por conse­
qüência um aumento do ateísmo e uma grande evasão de cristãos que, silen­ Em certa medida, esses textos constituem o reflexo de uma tendência
ciosamente, deixam a Igreja. Esta última deve enfrentar ao mesmo tempo contraditória que se manifesta nas tomadas de posição de numerosos cris­
essas desafeições e as tensões internas ligadas ao desenvolvimento, em seu tãos: de fato, nessa conjuntura pós-conciliar, em camadas sociais em que,
140 Análise do discurso político C onstitu ição do co rp u s da pesquisa 141

além disso, se desenvolve uma inegável tomada de consciência da nocividade cipação” ou de “nova sociedade”, e deve reconciliar, no am or evangélico,
do sistema capitalista, assiste-se ao crescimento de interrogações cada vez os homens e as classes na perspectiva do “bem comum”:
mais imperiosas a respeito do caráter “socialista” do Socialismo existente.
Em um trabalho histórico sobre a questão que nos ocupa e ao qual Promover novos estilos democráticos, suscitar uma divisão
nos referimos anteriorm ente, Casanova, Leroy 8c M oine (1972) observam real das responsabilidades na vida local e nacional, nos pa­
essa tendência contraditória (aspirações à mudança/reticência à colabora­ recem ser, atualmente, uma tarefa urgente. Diante do cres­
ção com os comunistas) em camadas sociais, que no entanto são vítimas cimento das lutas de interesses e dos impasses ideológicos,
em diversos graus da política do capitalismo, e lhe atribuem certas opaci- temos que reconciliar os homens, crentes ou não, tendo
dades específicas: em vista seu destino comum (Le Marxisme, 1’H om m e et
la Foi chrétienne. Declaração do Conselho Permanente do
Ideologicamente, esta aspiração à mudança é profunda, Episcopado. 1m Croix, 8 de julho de 1977).
mas permanece em si mesma hesitante e contraditória.
Isso ocorre por razões objetivas (por exemplo, o lugar Para concluir essa reflexão, mais uma palavra sobre o caráter esque-
das camadas intermediárias nas relações de produção) e m ático da exposição que antecede: a atenção que damos ao “diálogo” entre
subjetivas antigas (a herança ideológica tradicional) ou discursos de aparelhos, com o objeto deste estudo, apresenta o risco de dar
novas (o peso, na luta de classes, das ideias reformistas, à complexidade de uma FD a imagem de um discurso univoco, produzido
das iluminações esquerdistas e dos temas burgueses). a partir de um sujeito que funciona com o centro ; sendo assim, é preciso
Isso mostra bem que, no estágio espontâneo, essa aspi­ lembrar que o “discurso católico” não se reduz ao discurso da hierarquia
ração à mudança é frequentemente acompanhada por católica, mas que se trata de um discurso plural e contraditório, discurso
anticomunismo e ilusões reformistas (op. cit., p. 90). que o magistério da Igreja domina apenas de modo parcial.

Nos nos afastaremos dos autores citados pelo fato de que, para nós,
figura entre as opacidades mencionadas, como razões objetivas, a própria 2.2 A POLÍTICA DA MÃO ESTENDIDA: O PARTIDO COMUNISTA E OS CRISTÃOS

natureza d o Socialism o existente. E essa concepção do-Socialismo existente (1936-1976)


com o p arâm etro, que não pode ser contabilizada de forma séria levando
apenas em conta o peso da ideologia dominante, mas que se alimenta da Muitas vezes, começo a comparar aos construtores de
realidade objetiva dos sistemas políticos incrim inados, constitui um dos catedrais, animados pela fé ardente que levanta monta­
fatores essenciais de opacidade e contribui assim para facilitar a busca, nos nhas e permite as grandes realizações, os stalchanovistas,’
textos da Igreja, de uma terceira via que opõe capitalism o tecnocrático e os construtores da nova sociedade socialista, os heróis do
socialism o burocrático, e situa-se em algum lugar entre a “selva capitalis­ trabalho que fazem surgir sobre o solo livre da União So­
ta ” e o “gulag coletivista”. viética as usinas gigantes, as cidades inteiras e também
Essa política de terceira via, discretamente indicada nas conclusões da os grandiosos monumentos pelos quais se afirma hoje o
maioria dos textos recentes da hierarquia católica que concernem às ques­
tões que aqui nos ocupam, permanece, na linha do reformismo com base 9 O stakhanovism o foi um m ovim ento operário socialista que nasceu na U nião Soviética,
em “participação com unitária”, próxima dos temas capitalistas de “parti­ co m a iniciativa do m ineiro A lexei Stakhanov e que pregava o aum ento da produtividade
op erária, com base na própria força dc vontade dos trabalhadores. (N. de T.)
142 A nálise do discurso político C onstitu ição do co rp u s da pesquisa 143

elã entusiasta do comunismo (M. Thorez, Discours à la progressos da im plantação da Juventude Operária Cristã levantam local­
Mutualité, 26/10/1937). mente a questão de suas relações com as juventudes comunistas.
A política da mão estendida inaugura-se com uma tripla característi­
a) A formação do discurso comunista dirigido aos cristãos: 1934-1937 ca: ela é unilateral e seletiva, e, ao mesmo tempo, não específica. Unilateral
pelo fato de que a hostilidade da hierarquia da igreja não poderia, em um
A política da mão estendida não data do fam oso apelo pronunciado primeiro m omento, colocar-se com o diálogo. Portanto, ela é seletiva, ela
nas ondas da Radio-Paris no dia 17 de abril de 1936. Desde junho de 1934, “seleciona seus cristãos”, dirige-se aos trabalhadores cristãos sobrepondo-
quando H itler já está há um ano no poder, quando os riscos de guerra se se à hierarquia católica, ao mesmo tempo em que se propõe a lutar contra
precisam e os sangrentos dias 6 e 9 de fevereiro demonstram a realidade “o bando clerical”.11 M as ela é também não específica aos cristãos: a mão
do perigo fascista, M aurice Thorez, durante uma conferência nacional do estendida dirige-se também aos “Cruz de Fogo, aos Voluntários nacionais,12
Partido ocorrida em Ivry, aborda o problema das relações entre comunistas entre os quais, muitos desejam sinceramente, assim com o nós, uma França
e cristãos. No C om itê Central de outubro de 1935, a questão é de novo forte e feliz, com governos honestos e limpos” (M. Thorez, discurso duran­
evocada e a consignação dada para “lutar contra o alto clero e desenvolver te uma recepção da imprensa francesa e estrangeira em 6 de maio de 1936),
a política da mão estendida aos operários cristãos”. O tema é retomado em uma ampla política de união nacional, de “união do povo da França” (a
em dezembro por meio de uma série de cartazes da juventude comunista expressão figura especialmente em um folheto editado em julho de 1936).
dirigidos aos jovens operários. Em janeiro, em um relatório do Congres­ As grandes articulações do discurso comunista dirigido aos cristãos
so de Villeurbanne, M . Thorez cita Lênin a respeito disso: “A unidade da formam-se nos textos desse período, e isso numa relação particular com o
classe oprimida para criar um paraíso na terra é mais im portante do que campo das form u lações-origem que as análises de M arx, Engels ou Lênin
a unidade de opinião dos operários sobre o paraíso do céu” e acrescenta: representam sobre a religião.
“M as nada da política de dar as costas aos operários cristãos ou aos jovens N elas, a incom patibilidade do m aterialismo dialético e da fé cristã
operários católicos”.10 Isso levaria à declaração difundida no rádio que po­ é enfatizada e o m arxism o é situado na filiação do racionalism o carte-
pularizou a política do Partido em relação aos cristãos. siano e dos m aterialistas franceses do século X V III. M as os “clássicos do
Essa preocupação faz parte de uma vasta política de união visando a m arxism o” são solicitados de duas maneiras: são citados M arx , Engels,
aliar e a reunir, contra o fascismo, as forças da classe^operária e das clas­ Lênin com o apoio a uma crítica m aterialista d o anticlericalism o. A frase
ses médias assim com o as organizações políticas ou sindicais a elas liga­ de Lênin: “Proclam ar a guerra à religião, como tarefa política do Partido
das; essa política terá como resultado a constituição da Frente Popular. Operário, é somente uma frase anarquista” aparecerá, desde então, na
M as esse apelo à “união fraternal” e à “colaboração confiante” responde quase-totalidade das sequências discursivas pertencendo a esse aspecto re­
tam bém a uma nova situação criada pela ameaça fascista: as perseguições gional da FD com unista. Ao contrário, certos elementos fundamentais da
sofridas pela Igreja Católica na Alemanha suscitam uma viva em oção nos crítica m arxista da religião são atenuados ou desaparecem. Essa dissimu­
meios católicos franceses preocupados com a agitação das ligas no solo lação diz respeito, em particular, às formulações da Introdução à crítica
nacional. Por outro lado, a crise econôm ica e social faz surgirem zonas do direito de H egel: “A crítica da religião é a condição prelim inar de toda
de convergência entre comunistas e cristãos: às vezes, os comitês de ajuda
mútua aos empregados e deserdados reúnem uns aos outros, enquanto os
11 T h orez, M ., Fils du peuple. Livro segundo, tom o IX . Paris: Editions Socialies, 1932. p. 181.
12 O rgan ização d os jovens das Cruzes de Fogo, outra organização francesa de ex-com b aten -
10 Isto é relatado por J . Fauvet (1977, p. 164). tes que foi fundada cm 1927 por M au ricc H an ou t e extinta em ju n h o de 1936. (N. de T.)
144 A nálise do discurso político C onstitu ição do co rp u s da pesquisa 145

crítica” ... assim com o: “A religião é o ópio do povo”.1J Os textos desse iihlc" ou ainda da “Federação M undial da Juventude D em ocrática”). O
período de form ação do discurso comunista dirigido aos cristãos insistem IVmido esforça-se da mesma maneira para manter o contato com os m o­
sobre o respeito às liberdades religiosas, assim com o sobre a existência vimentos católicos, em particular com os de jovens.
de aspirações comuns que unem uns aos outros: solidariedade, justiça, Observa-se, nos discursos dirigidos aos cristãos nesse período, uma
caridade, patriotism o, devoção, espírito de sacrifício, desenvolvimento da lliiiude estabilidade dos temas em relação às articulações que se desenha­
personalidade, esse conjunto de valores morais que fazem do com unism o vam antes da guerra: a oposição radical no plano filosófico do m arxismo
um “verdadeiro hum anism o” (M. Thorez, 26 de outubro de 1937). Isso . d.i fé cristã é relembrada, mas também o respeito às liberdades religio-
abre a possibilidade de uma colaboração dentro do respeito mútuo e de *.i«i os comunistas se opõem a qualquer perseguição religiosa e deles não
ações comuns para a paz e a defesa contra o fascismo. i preciso temer nem coibição, nem violência. As garantias que oferecem
*,io como aquelas previstas no artigo 124 da constituição da URSS sobre a
b) A guerra e a liberação: retomada da política da mão estendida liberdade de cu lto.14 A colaboração com os cristãos baseia-se na existência
dr uma solidariedade material e de aspirações comuns:
Durante o período da guerra, enquanto outras preocupações políticas
substituem o discurso sobre a mão estendida, o diálogo entre com unistas “Portanto, comunistas e cristãos podem se unir, porque uns
e cristãos vai se realizar na prática: a experiência comum da luta contra o e outros têm amor por seus semelhantes e aspiram a uma
invasor, a participação de cristãos em certos órgãos de resistência, com o vida melhor para todos os homens” (Waldeck-Rochet.
a Frente N acional, dirigida pelos comunistas, e a fraternidade do sangue Conferência pronunciada a convite da Associação dos ju­
aproximam uns dos outros e vão instalar a problemática da colaboração ristas comunistas em 13 de dezembro de 1944).
e das ações comuns em novas condições. E tudo isso acentuado pelo fato
de que o Partido partilha o poder, que ele saiu fortalecido da guerra, en­ O princípio de uma escola pública em um estado laico é estabelecido,
quanto, ao contrário, a hierarquia católica comprometeu-se na sustentação .i supressão das subvenções acordadas à escola particular é solicitada.
ativa ou na complacência em relação ao regime de Vichy,
De novo, com o na conjuntura de 1935-1937, a questão da união e a da c) Gelo e degelo: da Guerra Fria à união da esquerda
participação no poder se encontram colocadas pelo partido nesses anos
1944-1947, no entanto com diferenças notáveis. E, de novo, é produzido Os anos que sucedem ao pós-guerra marcam um grande recuo nos
um conjunto de discursos que vem reatualizar a política da m ão estendida contatos entre comunistas e cristãos: é um período de relativo silêncio do
aos cristãos. Nisso, as organizações de juventude e de educação popular Partido Comunista sobre essa questão. Os discursos comunistas dirigidos
constituem uma chave im portante: elas são, para o partido, logo após a aos cristãos são raros, de pouca extensão, esporádicos. Para o Partido, é
guerra, um lugar de encontro com os não comunistas, ocasiões de pregar um período de dificuldade e isolamento: lembremos, de form a muito es-
a unidade (no interior da “União Patriótica das Organizações de Juven- quemática, que é, antes de tudo, o período da Guerra Fria em que se vê o
Partido defender, de maneira incondicional, o conjunto das teses políticas
13 O parágrafo do texto de M a rx do qual essa form ulação constitui a últim a frase é cita d o fre­ c culturais pregadas por Stalin. Seu jdanovismo científico ou artístico vai
quentem ente, sendo om itida a últim a frase: “A aHição religiosa é, de um lado, a expressão
contribuir para apartá-lo de um grande número de intelectuais cristãos,
da aflição real c , de outro, o protesto contra a aflição real. A religião é o suspiro da criatu ra
o prim ida, a alm a de um mundo sem co ração , com o é o espírito de cond ições so ciais de que
o esp írito é excluído. Ela é o ópio do povo” ( M arx, K. Introdução à c rítica do d ireito de 14 As referências à U nião Soviética com o m odelo de dem ocracia dim inuem , p ou co a pou co,
H cgel. In: M arx, K .; E n g e i .s , F. Sobre a religião. Paris: Éditions Sociales, 1972. p. 42). a partir dos an os 1960, para desaparecer, nos anos 1970, do discurso dirigido aos cristãos.
146 A nálise do discurso político C onstitu ição do co rp u s da pesquisa 147

para os quais, no entanto, depois da liberação, a questão da adesão ou do Nós desejamos que se desenvolva o diálogo entre comu­
companheirismo havia se tornado “um demônio fam iliar” (É. M ounier). nistas e cristãos e, a respeito disso, é inegável que os esfor­
As revelações do “relatório atribuído ao companheiro Krouchtchev” sobre ços despendidos por Roger Garaudy para desenvolver esse
a extensão dos crimes cometidos por Stalin, os distúrbios políticos que agi­ diálogo tiveram na França, e em outros países, uma grande
tam o campo socialista na Polônia e na Hungria, o esm agamento da revol­ repercussão e resultados positivos para colaboração entre
ta húngara pelos tanques do Exército soviético em Budapeste acentuam o comunistas e católicos (Waldeckt-Rochet. Discurso no
isolamento do Partido Comunista e fazem recuar, de maneira considerável, Comitê Central de Argenteuil sobre os problemas ideoló­
as possibilidades de colaboração entre comunistas e cristãos nos anos de gicos e culturais, 11 de março de 1966).
1950: por isso, a ação do Partido no interior das organizações de massa que
constituem o lugar desses encontros será paralisada. O início da Guerra da Argenteuil constitui uma etapa im portante na definição pelo Partido
Argélia e a chegada ao poder de De Gaulle confirm arão imediatamente, Comunista das formas e dos objetivos da política da mão estendida: pa­
depois desses anos difíceis, essa tendência ao retraimento. radoxalmente, esse acontecimento vai ser seguido por um recuo unitário,
No início dos anos 1960, enfraquecido pelo fracasso eleitoral do provocado pelos acontecimentos de maio de 1968 na França e pela inva­
gaullismo, o Partido Comunista manifesta a vontade de “sair do gueto”. A são da Tchecoslováquia pelos exércitos do Pacto de Varsóvia no dia 21 de
unidade das forças de esquerda é relançada em 1962 através de contatos e agosto de 1968. Isso terá com o resultado novas tensões entre o partido e
acordos pontuais com os socialistas, que levam a uma progressão de toda seus aliados, assim com o dissensões no interior do próprio partido. Roger
esquerda nas eleições legislativas de 1962 e, mais ainda, nas de 1967, como Garaudy será excluído no fim do X IX Congresso, em fevereiro de 1970, em
nas presidenciais de 1965. Os anos 1965-1967 são aqueles da construção da razão de seu desacordo sobre a questão checa, mas acusado, além disso, de
união, marcados, no que nos concerne, por um fato importante: uma cessão ter estabelecido com os cristãos um diálogo no limite do sincretismo:
inteira do Comitê Central é dedicada, em março de 1966, em Argenteuil, aos
problem as id eológicos e culturais (o que não havia acontecido desde 1937). Assim, conforme nossa política de mão estendida aos
Essa reatualização da política da mão estendida, se podemos aí en­ cristãos, não pretendemos escolher no lugar dos cristãos
contrar o conjunto da temática que os discursos produzidos nas duas con­ como devem ser cristãos, não pretendemos escolher em
junturas observadas até aqui apresentavam, distingue-Se por dois fatos no­ seu lugar nem no campo ideológico nem no da liturgia.
vos: para começar, o aparecimento do termo diálogo, pela primeira vez, Ao contrário de Roger Garaudy, não escolhemos uma
no discurso comunista dirigido aos cristãos. A presença desse termo, que parte dos cristãos contra os outros. E ao conjunto da
o discurso comunista retoma por conta própria, realiza uma tom ada ao grande massa dos cristãos que propomos a ação comum
p é da letra de posições expressas recentemente pelo magistério da Igreja, (Roland Leroy. Comentário sobre a adoção da tese n“ 30
nas encíclicas Facem in Terris (11 de abril de 1963) e Ecclesiam Suam (6 de do X IX Congresso, Nanterre, fevereiro de 1970).
agosto de 1964), no âm bito da linha “realista” promovida por Jo ã o X X III.
Em segundo lugar, observa-se o desaparecimento da referência Desta vez, o retraimento será de curta duração. Desde 1970, G. M ar­
obrigatória à União Soviética com o modelo de garantia das liberdades chais relança a política de aliança em uma entrevista para o jornal La
religiosas. Enfim, destaca-se a homenagem insistente feita por W aldeck- Croix, qualificada de histórica, abrindo assim a conjuntura que levará, sob
Rochet a Roger Garaudy, encarregado, no Bureau político, das relações os auspícios do programa comum de governo assinado em 1972, ao Apelo
entre com unistas e cristãos: de Lyon de junho de 1976.
148 Análise do discurso político C onstitu ição do co rp u s da pesquisa 149

3. HIPÓTESES ESPECÍFICAS AO CORPUS REUNIDO 4 .2 O rg a n iz a ç ã o d o d o m ín io d e m e m ó r ia

H ipótese 1. Os enunciados que constituem o saber próprio ao aspecto a) Forma de corpus com dominante ou dissimétrico
regional da FD comunista do “discurso dirigido aos cristãos” (“o que pode
e deve ser dito a respeito disso”) formam-se na contradição com os enun­ O corpus reúne seqüências discursivas dominadas pela FD comunista,
ciados de FDs ligadas a formações ideológicas dominantes, e, especialmen­ escolhida com o FD de referência: reúne também um conjunto de seqüên­
te, com os enunciados elementos do saber da FD católica. cias discursivas que pertencem à FD católica ( C o u r t in e , op. cit., p. 178);
O dom ínio de saber de uma FD dominada constitui-se em uma for­ esse conjunto de textos não desaparece do plano de constituição do cor­
ma determinada de dom inação ideológica que atribui às form ulações pus, mas as formulações que dele serão extraídas só figurarão no corpus no
determinados tem as (“aquilo de que elas falam ”) e articu lações (“com o momento da determinação da forma dos enunciados. Assim, o trabalho de
falam disso”). constituição das redes de formulação somente será feito no interior da FD
H ipótese 2. O tema do “diálogo” entre comunistas e cristãos resulta comunista, em uma form a dissim étrica de corpus.
da inscrição de uma tal contradição ideológica nos cam pos de saber pró­ Dessa forma, escolher uma seqüência discursiva como ponto de refe­
prios a cada uma das FD. Acrescentaremos, no que diz respeito à FD com u­ rência e reconstituir o processo discursivo inerente à FD que domina essa
nista tomada aqui com o FD de referência, que, nela, o tema do “diálogo” seqüência eqüivale a dar uma dom inante ao corpus discursivo: nesse corpus
funciona com o uma representação imaginária na qual o caráter desigual estão presentes as duas (ou, eventualmente, várias) FDs que formam os po-
da contradição desaparece nas formas da troca, da reversibilidade, da reci­ los de uma contradição, mas não são representadas de maneira simétrica.
procidade e da simetria entre os participantes do diálogo. O corpus não apresenta o desenvolvimento paralelo de dois (ou vários) pro­
cessos discursivos, mas um processo discursivo determinado (de referência)
nas condições de form ação, no qual uma contradição é representada.
APRESENTAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DO DOMÍNIO DE
4. Assim, a adoção de uma forma dissimétrica de corpus vem m ateriali­
MEMÓRIA zar, na montagem de um corpus determinado, uma relação entre produ ção
de formulações no interior de uma FD e circulação das formulações entre
4 .1 L is t a d a s se q ü ê n c ia s d isc u r siv a s q u e p e r t e n c e m a o d o m ín io d e diferentes FD, que evita reabsorver a produção de formulações a partir de
M EM ÓRIA posições ideológicas determinadas na troca generalizada das formulações.
O corpus discursivo inclui, portanto, a título de elementos variantes
O quadro das 24 seqüências discursivas que compõem a área de me­ no seu plano de constituição, posições ideológicas contraditórias.
mória da sdr é detalhado ao final da Bibliografia.
b) Invaiiantes e variações no domínio da memória

Assim, a estruturação do domínio de memória faz aparecer, a par­


tir da determ inação das CPs da sdr, ao mesmo tempo, um conjunto de
elementos invariantes e uma variação sistemática das CPs das seqüências
discursivas selecionadas no plano das CFs do processo discursivo.
Invariantes-. discurso de aparelho/aspecto regional da FD comunista.
Análise do discurso político

Variação das CPs (sdr) no plano dos CFs (FDR)

• variação d e conjunturas (1936-1937/1944-1945/1963-1967/1970-


1976);
• variação d e lugar d o sujeito enunciador (discursos de secretários
gerais do Partido Comunista/folhetos de propaganda/entrevistas
de secretários gerais/resolução de congresso/manual da escola do
partido/artigos de jornalistas com u nistas...);
• variação d o próprio sujeito enunciador (M. Thorez/Waldeckt-
Rochet/G. M arch ais...);
• variação do alocu tor (discurso ao “povo de França”/a um grupo
de jornalistas franceses e estrangeiros/a líderes comunistas/à base
do partido/aos delegados no congresso/a juristas comunistas/a
leitores de jornais católicos/a leitores de jornais co m u n istas...);
• variação das circunstâncias enunciativas (discursos veiculados por

PARTE III
emissoras de rádio/conferência de imprensa/comício político/con­
gresso do Partido/seção do Comitê Central/situação de entrevista/
situação “escolar” da leitura ou da utilização de um manual da
escola do Partido/resposta de um jornal a um texto da Ig reja...).
CAPÍTULO V

ELEMENTOS PARA DEFINIÇÃO DA NOÇÃO


DE "TEMA DE DISCURSO"

1. OS PROBLEMAS LIGADOS À DEFINIÇÃO DAS ENTRADAS


DE UM TRATAMENTO DISCURSIVO

Tratarem os, neste capítulo, das operações que nos permitiram locali­
zar e, em seguida, extrair da sdr um conjunto de formulações de referência.
Escolhem os extrair da sdr as formulações nas quais se pode identificar
a ocorrência, presente na superfície, de estruturas sintáticas determinadas
que correspondem às estruturas de frase C ’E S T ...Q U (E ...Q U E ), assim
como a certas formas sintáticas a elas relacionadas.
Desse modo, nosso procedimento distancia-se das análises de tipo
“harrissiano am pliado”, assim com o das análises do processo de enuncia­
ção em discurso: não é, com efeito, uma lista de termos-pivô, nem uma
grade de “marcas enunciativas” que vai constituir a entrada do tratam ento
discursivo propriamente dito, mas um conjunto de pares associando, numa
formulação, uma forma sintática determinada e um conteúdo léxico-se-
mântico dado.
154 Análise do discurso político Elem entos para definição da n o ção de “tem a de d iscu rso” 155

Essa decisão levanta duas questões: e afrontamento discursivo em 1776: os grandes editos de Turgot e as exor­
tações do Parlamento de Paris’), o corpus consiste numa lista de frases, com
(1) Por que escolher, com o modo de identificação das [er], a pre­ os termos-pivô liberdade, regulam ento (...) , em posição de sujeito gram ati­
sença de estruturas sintáticas determinadas? cal. É impossível ignorar que a seleção desses termos apoia-se em um saber
(2) Por que escolher tal estrutura sintática (e não outra) como histórico” (op. cit., p. 10). O corpus obtido após uma norm alização das
base dessa identificação? frases efetuada com base em equivalencias sintáticas é, assim, constituído
da classe de respostas a um conjunto restrito de questões que o analista
Adiantar uma resposta à primeira questão vai nos conduzir, a seguir, a estabelece no campo de arquivos que ele examina. Essa operação resulta
fazer o inventário de um certo número de dificuldades encontradas em AD, em depreender o que M arandin (op. cit., p. 36) denomina tópico discursivo
quando dos procedimentos de definição das entradas de um tratamento (ou tem a de discurso), segundo a definição de Keenan & Schieffelin (1976):
discursivo que concernem a uma relação que as análises de tipo harrissia- “proposição ou conjunto de proposições que exprimem um interesse do lo­
no, bem com o as análises enunciativas, estabelecem entre forma sintática cutor”, formalmente definido pela “proposição ou conjunto de proposições
do discurso e conteúdo semântico do discurso. pressupostas por uma questão e conservadas pela resposta a essa questão”.
A resposta à segunda questão necessita do exame de certas proprie­ Ilustremos essa noção com o auxiiio do exemplo precedente:
dades das estruturas apreendidas. Essas propriedades parecem-nos efeti­
vamente — no âm bito das hipóteses gerais sobre o objeto “form ação dis­ Questão: O que é a LIBERDADE? (nos editos de Turgot ou ainda o SO CIA ­
cursiva” e das hipóteses específicas sobre o corpus da pesquisa que formu­ LISM O nos discursos de Jaurès, etc.).
lamos — apropriadas para fornecer uma base satisfatória de identificação Tema de discurso: A LIBERDADE é alguma coisa
empírica das [er], a partir das quais as redes de form ulação e os enunciados Corpus:
poderão ser constituídos.

A liberdade e \ (frases de base)


X ... )
1.1 OS PRO BLEM AS LEVANTADOS PELA ESCOLHA DE T E R M O S-PIV Ô EM ANÁLISE

HARRISSIANA
A seleção sob a forma de um termo-pivò de um tema de discurso é, por­
tanto, de fato, uma questão que visa a identificar no discurso um elemen­
Esses problemas, levantados por Pêcheux (1969) e J.-C . Gardin (1976),
to determinado com base em um saber definido a priori. O procedimento
foram mais recentemente acentuados por Guilhaumou & M aldidier
corre o risco, assim, de encerrar-se na circularidade: “A análise responde à
(1979), na seqüência da argumentação desenvolvida por M arandin (1979);
questão do analista, mas, apresentando essa resposta com o estrutura bási­
esta pode assim se resumir: a seleção de termos-pivô e a constituição de
ca de um texto, o analista encontra-se no limite em que seu interesse e o que
um corpus de frases de base que resulta dessa seleção são procedim en tos
é o discurso se confundem ” ( M a r a n d in , 1979, p. 37). Desse modo, o corpus
m anufaturados.
construído torna-se m od elo do discurso e o conjunto das frases de base
A seleção de termos-pivô repousa, de fato, nos a priori do analista, o
extraídas a partir dos temas de discurso (que refletem os pressupostos das
que Guilhaumou & M aldidier chamam de “julgamentos de saber”: “Em
questões do analista) induz a uma configuração do conteúdo do discurso,
‘Polém ique idéologiqu e et affrontem ent discursif en 1776: les grands édits
sob a forma de uma certa organização lexical interpretada em termos de
de Turgot et les rem ontrances du Parlement d e Paris’ (‘Polêmica ideológica
configuração ideologica: o que os procedimentos de seleção de termos-pivô
156 A nálise do discurso político Elem entos para definição da n oção de “tem a de d iscu rso” 157

recobrem e uma interferencia não controlada entre julgamentos de saber Existe A LG U ÉM que p o d e tem er um tal avanço das liberdades.
do analista e elementos de saber próprios a uma form ação discursiva dada.
Assinalaremos, por outro lado, que os procedimentos de constituição (3) a resposta identifica um elemento determinado com o o tema
de um corpus experimental, familiares aos usuários da Análise Automática de discurso pressuposto pela pergunta:
do Discurso, fundamentam-se num princípio semelhante: trata-se ainda
aí de induzir, sob a evidência de uma pergunta ingênua, uma resposta que Este alguém p o d e tem er um tal avanço das liberdades E A ARISTOCRACIA
virá “espontaneam ente” recobrir o pressuposto da pergunta. que tem m edo da liberdade DO DINHEIRO.

Portanto, se o recurso à experimentação nada resolve e apenas contri­


bui para m ascarar essa dificuldade, ele pode ser uma solução que mereça
1 .2 A lg um as p r e d iç õ e s in tu itiv a s a r e s p e it o d a s f o r m a s e m " é . . . q u e"
ser considerada: tal solução, que colocam os à prova em nosso trabalho,
consistiria, em primeiro lugar, em substituir a questão (1), feita pelo ana­
lista a um campo de arquivos, pela questão (2): Esse exemplo orienta nossa intuição a proposito das formas sintaticas
de tipo:
(1) O que e X ? (onde X = um lexema determinado, escolhido a
priori como termo-pivo, aparecendo com o tema de discurso É X QUE P

no pressuposto da questão).
(2) C om o, no p róp rio discurso e p elo p ró p rio discurso, um ele­ e de estruturas que lhes são semelhantes de tipo:

m ento determinado pode ser caracterizado com o tema de


discurso? (como, isto é: pela presença de quais estruturas, sob O QUE P É X
que forma lingüística?). X É O QUE P

Se nos detivermos, com efeito, na noção de tema de discurso, que foi Parece-nos possível avançar que essas formas de frase, numerosas no

extraída acima, poderemos identificar, no intradiscurso de uma seqüência intradiscurso das sequências discursivas dominadas pela FD com unista,

discursiva determinada, a presença de estruturas sintáticas cujo efeito, no constituem uma base satisfatória para uma identificação formal dos te­

próprio discurso, é localizar um tem a de discurso e identificá-lo. É o caso, por mas de discurso e podem assim perm itir a localização e a extração das

exemplo, de sequências pergunta/resposta, como a seguinte, extraída da sdr: [er]. Se essa predição for correta, será, então, possível construir as redes de
form ulação, constituindo o processo discursivo inerente a FD de referen­

Q uem p o d e tem er um tal avanço das liberdades? É a aristocra­ cia, a partir das [er] localizadas e extraídas; poderemos, enfim, apreender

cia d o dinheiro que tem m ed o da liberdade. dos R[e] assim construídos os elementos de saber próprios à FD, ou enun­
ciados [E], formas gerais que governam a repetibilidade no seio das R [e].
na qual: Definimos a noção de tem a de discurso de maneira vaga; ela será pre­
cisada mais adiante. De maneira intuitiva, essa noção designa, por ora:

(1) uma pergunta é formulada;


(2) a existencia de um tema de discurso e localizada pelo pressu­
posto da pergunta:
158 A nálise do discurso político Elem entos para definição da n oção de “tem a de d iscu rso” 159

• um elemento que figura no intradiscurso de uma seqüência cuja 1 . 3 D e f in iç ã o d e c r it é r io s f o r m a is d e d et er m in a ç ã o d o s t e m a s d e

im portância é acentuada, marcada na cadeia. Um tema de dis­ d is c u r s o

curso carrega assim uma marca de ên fase ;


• um elemento (segundo a definição de K eenan & S chieffelin , op. A descrição de algumas propriedades lingüísticas das estruturas apre­
cit.) que pode ser objeto de uma pergunta, que é localizável no pres­ endidas virá mais adiante apoiar a escolha feita. G ostaríam os, antes de
suposto da pergunta e é conservado na resposta a esta. Acrescen­ chegar a isso, de dar sentido ao nosso procedimento; este último consiste,
taremos que é possível tratar-se seja de uma pergunta efetivamente efetivamente, em fazer intervir critérios form ais (lingüísticos) nos p rocedi­
formulada no intradiscurso, seja de uma pergunta virtual (isto é, m entos de seleção das entradas de um tratam ento discursivo.
pressuposta pela presença de uma forma sintática de resposta no Essa posição parece-nos ter como interesse:
intradiscurso);
• e ainda um elemento que é identificado enquanto tal pelo próprio (1) introduzir entre o analista do discurso e seu objeto um descom­
discurso. A presença de um tema de discurso em uma seqüência passo próprio para quebrar a circularidade que se estabelece
supõe um efeito de sentido do tipo: “naturalm ente” entre “perguntas” do analista e “respostas” do
corpus nas operações clássicas de escolha de termos-pivô;
“E disso - e não de outra coisa - que falo; é isso - e não outra (2) favorecer uma determinação unívoca das [er] no corpus que se
coisa —que é o objeto de meu discurso.. . ” baseia nas propriedades de autonomia relativa da língua;
(3) estabelecer a relação entre intradiscurso (como lugar de deter­
mas, igualmente: minação das [er]) e interdiscurso (como lugar de construção
dos [E] efetuada a partir dessa determ inação);
“É isso que quero dizer quando emprego esse term o; essa pala­ (4) evitar separar m aterialidade da língua (um ou vários funcio­
vra de meu discurso significa is s o ...” namentos formais determinados) e m aterialidade d o discurso
(um conjunto de processos identificáveis no corpus discursi­
ou seja: identificação de um elemento com o elemento do discur­ vo), ao passo que uma tal separação é amplamente difundida
so, mas igualmente identificação de um elemento do discurso em AD, sob a forma de uma dissociação forma do discurso/
com um outro. conteúdo do discurso;
(5) adotar, assim, a perspectiva do funcionam ento de uma estru­
Efeitos de sentido de ênfase e de identificação, inscrição em uma for­ tura de língua, em discurso, como base de definição das en­
ma dialógica: essas propriedades atribuídas à noção de tema de discurso tradas de um tratam ento em AD. Essa perspectiva parece-nos
conduzem-nos a fazer disso uma base privilegiada da determ inação dos preferível à posição que consiste numa determ inação estatís­
elementos de saber de uma FD. tica com o critério de seleção dos temas de discurso. Todo le­
vantamento estatístico, por mais cuidadoso que seja, não pode
evitar fazer da definição das entradas de um tratam ento uma
fase de dem ografia discursiva que ignora toda consideração do
funcionamento do discurso.
1 60 A nálise do discurso político Elem entos para definição da n oção de “tem a de d iscu rso” 161

Dessa form a, a abundância de estruturas do tipo: É X QUE P/O QUE 2. O TRATAMENTO DAS FRASES EM "É...QUE" EM AD: UM
P E X/X E O QUE P nas sequências discursivas dominadas pela FD de EXEMPLO DA DISSOCIAÇÃO ENTRE FORMA DO DISCURSO E
referência poderá ser considerada como um argumento suplementar, não CONTEÚDO DO DISCURSO
com o um argumento decisivo, justificando sua escolha.
Tal posição com porta, entretanto, um risco: este eqüivaleria a ceder à 2.1 Em a n á l ise d e t ip o h arrissla n a

ilusão d e um a transparência do discurso, isto é, a considerar que os discur­


sos “falam por si próprios” e dão espontaneamente, em sua forma lingüís­ A manipulação transformacional das frases em língua natural que

tica, as chaves para sua interpretação pelo tipo de operações lingüísticas contém um termo-pivô vai levar o analista, segundo os princípios estabele­

que empregam (em virtude de um princípio do tipo: a tal estrutura sintá­ cidos por Dubois (1969a), a suprimir as formas em E QUE.
tica, tal efeito de sentido). A AD seria, nesse caso, tomada ela própria nos Essa operação fundamenta-se nos seguintes pressupostos:
efeitos ideológicos ligados à leitura de um texto.
Convém assim lembrar, por um lado, que a existência da am bigü idade (1) O conteúdo léxico-semântico dos enunciados pode ser teori­

semântica ligada ao funcionamento de certas estruturas sintáticas (é o caso camente separado de sua forma sintática. As transformações

das frases em E ...Q U E ) previne contra a ilusão de uma transparência; por sintáticas consideradas só constituem um acréscimo facultativo

outro lado, que as hipóteses propriamente históricas, formuladas na o ca­ que não afeta fundamentalmente o significado do enunciado;

sião da determ inação das condições de produção e das condições de for­ (2) Certas formas sintáticas podem, assim, ser suprimidas num

m ação, não poderiam ser subordinadas às considerações lingüísticas que acesso regulado ao conteúdo léxico-sem ântico dos enunciados,

presidem aqui mesmo a determinação dos temas de discurso. no qual a AD deverá produzir uma organização (constituição

Ao contrário, é a hipótese segundo a qual o domínio de saber da FD de classes de equivalências distribucionais).

comunista constitui-se sob uma forma determinada de dom inação ideo­


lógica que conduz a buscar as formas nas quais os temas desse “diálogo” O discurso ver-se-á, portanto, representado no modelo de um dicio­

inscrevem-se na materialidade lingüística das sequências discursivas domi­ nário, cujas entradas são constituídas de temas de discurso arbitrariam en­
nadas pela FD comunista. te escolhidos e que funciona com base em uma sintaxe reduzida.

A ordem do discurso não subordina a ideologia à língua, nem a língua à Outra conseqüência desse procedimento: a distribuição, no discurso,

ideologia; o discurso materializa o contato entre o ideológico e o lingüístico, da relação entre conteúdo léxico-sem ântico e forma sintatica e aqui tratada

na medida em que ele “representa, no interior do funcionamento da língua, implicitamente com o uma distribuição aleatória: ela tende para uma p o si­

os efeitos da luta ideológica (e em que), inversamente, manifesta a existência ção lexicalista que implica a indiferença d o conteúdo léxico-sem ântico das
da materialidade lingüística no interior da ideologia” (P ê c h e u x , 1979, p. 4). form u lações à form a sintática dessas m esm as form ulações.

2.2 Em a n á l ise d o p r o c e s s o d e en un ciação

Os dois tipos de análise opõem-se, nos termos de Dubois (1969a, p. 123),


como uma perspectiva estática opõe-se a uma perspectiva dinâmica. A análise
enunciativa substitui a representação estática, “cartografia” do discurso, que
162 A nálise do discurso político E lem entos para definição da n oção de “tem a de d iscu rso” 163

as análises de enunciados estabelecem sob a forma de um quadro de classes Surgem numerosas objeções a tal análise:1 a noção de transform ação
de equivalências, por uma representação dinâmica, indicando “a ordem das sintática, principalm ente, é afetada por um conteúdo psicológico; o que se
transformações operadas numa frase tipo, estabelecidas pela operação pre­ encontra manipulado no trabalho de Courdesses não são tanto as regras de
cedente e permitindo explicar as transformações pela decisão tom ada pelo uma gram ática quanto as operações de um sujeito. A noção de regra gra­
sujeito” (grifo nosso). matical é tom ada aqui conforme o mal-entendido para o qual Chomsky,
A citação precedente permite precisar a relação entre análise de enun­ a partir de Aspects de la théorie syntaxique (1965, p. 19-20) chamava a
ciados (harrissiana) e análise da enunciação que se estabelece em AD: a atenção dos linguistas:
análise de enunciados é anterior à análise enunciativa; ela constitui um
m o d elo d e recon hecim ento que, a partir de um corpus e de uma lista de Para evitar o que foi um perpétuo mal-entendido, talvez
termos-pivô, constrói, pela supressão de marcas sintáticas, um dicionário seja útil repetir que uma gramática gerativa não é um
de equivalências semânticas entre frases tipo. Inversamente, a análise enun­ m odelo do falante ou do ouvinte. Ela tenta caracterizar,
ciativa é p osterior à primeira; ela constitui um m od elo de p rodu ção que, da maneira mais neutra, o conhecimento da língua que
a partir de frases de base obtidas pela aplicação da análise de enunciados, fornece sua base à atuação efetiva da linguagem pelo
explica a produção do texto pelos atos, escolhas, decisões do sujeito enun­ falante-ouvinte. Quando dizemos que uma gramática
ciador que modaliza o enunciado, principalmente pela ordem das regras engendra uma frase provida de uma certa descrição es­
que impõe a derivação de uma frase. trutural, compreendemos simplesmente que a gramáti­
G ostaríam os, agora, de salientar certas conseqüências ligadas à opera- ca atribui essa descrição estrutural à frase. Quando di­
cionalização das análises do processo de enunciação em análise do discurso zemos que uma frase tem uma certa derivação do ponto
político. de vista de uma gramática gerativa particular, nada di­
Desse modo, a análise efetuada por Courdesses (1971): procedendo zem os sobre a maneira como um falante ou um ouvinte
a uma decomposição comparativa das marcas do processo de enunciação
nos discursos de Blum e Thorez, se ela não considerar nenhuma forma
de ênfase ou de tem atização, chega, em compensação, no que concerne
1 Além das ob jeções relativas à constitu ição do corpus m encionadas n o C ap ítu lo I, podería­
ao levantamento das transformações negativas, numerosas no discurso de mos acrescentar:
Blum, a conclusões tão diversas quanto estas: C om o sc justifica a cscolha dc uma form a lingüística mais do que outra nas form as levantadas
(senão pela confusão entre uma interpretação psicológica do m odelo gram atical de Syntactic
struetures - e principalm ente a noção de transform ação facultativa - e o p róp rio discurso)?
Em todos os casos, as transformações negativas expli­ Q ue significação conced er a um levantam ento estatístico em discurso q ue n ão tenha co m o
co n d ição prévia o estudo do fu ncion am ento discursivo das form as recenseadas?
cam sua percepção permanente dos outros na seqüência
C om o interpretar, em term os de relação entre as form ações discursivas socialista e c o ­
de seu enunciado e a percepção permanente de si pró­ m unista, as diferenças estatísticas levantadas, senão n os term os da o p o sição psicológica
prio, que lhe faz questionar incessantemente seus pen­ entre duas “p ersonalid ad es” ou pela reinscrição das medidas efetuadas nas concepções
ideológicas m ais esp on tâneas do “que são os socialistas” e do “que sã o os com u n istas” ? É
samentos e julgamentos, numa flutuação contínua que
interessante n o tar acerca disso que a op osição discurso de Blum/discurso de T h o rez reco­
encontraremos na utilização complexa das formas ver­ bre esp ontaneam ente as categorias de código elaborado e código restrito, caracterizan d o,
na sociolin gu ística de Bernstein (1975), o discurso da classe média/da classe o p erária. São
bais. Elas revelam, no plano psicológico, sua inquietude
as m esm as form as ideológicas (discurso valorizando o indivíduo nas cam ad as m édias e
fundamental (op. cit., p. 26). a burguesia/discurso negando o indivíduo na classe operária) que estão operand o nesses
dois tipos de trabalh o s; fizem os sua crítica em ou tro lugar, conform e C o u rtin e & G ad et
(1977), Classes sociales et égalité des chances linguistiques.
1 64 A nálise do discurso político Elem entos para definição da n oção de “tem a de d iscu rso” 165

poderia proceder, de um modo prático ou eficaz, para É a CLASSE O PERÁ RIA que garante a produ ção dos bens
construir tal derivação (grifo nosso). materiais.
E a CLASSE O PERÁ RIA que está situada no cerne d o m eca­
Além disso, a posição desenvolvida por Courdesses eqüivale, no que nism o de exploração.
concerne ao tratam ento da relação entre forma e conteúdo do discurso em E a CLASSE O PERÁ RIA que produz a mais-valia.
AD, a estabelecer o princípio da indiferença da form a sintática das fo rm u ­ E a CLASSE O PER Á R IA que sofre mais diretam ente a ex p lo ­
lações a o con teú d o léxico-sem ântico das form u lações: são as decisões do ração.
sujeito enunciador - e somente elas - que virão justificar o aparecimento G. M archais (10/06/76):
de tal forma sintática neste ou naquele lugar do texto. E a CLASSE O PERÁ RIA que é a m ais explorada.
A análise do tipo harrissiano e a análise enunciativa revelam-se, as­
sim, com o figuras gêm eas (elas operam uma mesma dissociação form a do • C ertos elementos de saber (por exemplo: a violência vem dos
discurso/conteúdo do discurso), ao mesmo tempo em que com plem entares comunistas) serão combinados, em FD antagonistas, a formas
(distribuem complementarm ente os dois termos da relação assim estabe­ sintáticas semelhantes (presença de E ...Q U E ) e, ao mesmo tem ­
lecida). O discurso só pode numa tal alternativa receber, com o modelo, o po, opostas (afirmação/negação). Podemos observar, assim, nos
dicion ário ou o sujeito. textos da Igreja:

E dos com unistas que vem a violência.


2.3 A NÃO INDIFERENÇA DA FORM A DO D ISCURSO AO CONTEÚDO DO D ISCURSO

E V IC E -V E R SA : ALGUNS ARGUMENTOS EM PÍRICOS e, em contraponto, G. M archais (10/06/76):

G ostaríam os, para concluir este ponto, de trazer alguns argumentos A violência, não é de nós que ela vem.
em píricos, extraídos do corpus, com o apoio da tese subjacente às críti­
cas que acabam de ser formuladas: a forma sintática do discurso não é Encontraremos, na descrição das formas em E . . .QUE no discurso, fei-
indiferente aos conteúdos léxico-sem ânticos do discurso e vice-versa. Se a i .ino Capítulo V I, numerosos exemplos de coincidência entre determinado
dissociação forma/conteúdo não é admissível em AD, é porque ela tende a conteúdo de saber e determinada forma sintática de formulação.
separar con teú d o de um saber e form a sintática de uma form u lação. É a p o sição de um elemento determinado no saber de uma FD (isto
Dessa form a, as frases em E ...Q U E não se distribuem aleatoriam en­ r, também na contradição entre saberes opostos) que vem, conform e vere­
te nas seqüências discursivas, mas dependem de uma FD determinada (os mos, explicar essa coincidência. £ por isso, tam bém, que podemos esperar,
exemplos seguintes são extraídos do corpus): i om base em uma determ inação de certas formas sintáticas no intradiscur-
«i> de uma seqüência, caracterizar a posição no saber da FD que domina
• Existe uma classe de lexemas, como classe operária (mas também rssa seqüência de elementos, da qual esta ou aquela form ulação constitui
poder, dem ocracia, liberd ad e...), que aparecem frequentemente uma reformulação sintaticamente marcada.
em posição X em E X QUE P, ao passo que outros podem jamais
aparecer nessa posição.
Exem plo: X X I Congresso do PCF:
166 Análise do discurso político Elem entos p ara definição da n oção de “tem a de d iscu rso” 167

3. ELEMENTOS DE DESCRIÇÃO LINGÜÍSTICA DE FRASES EM 3 .2 D e s c r iç ã o s in t á t ic a d a a m b ig ü id a d e

"É...QUE"
a) O tratamento do efeito contrastivo
Efetuamos em outro texto ( C o u r t in e , 1980, p. 192-214) uma descrição
sintática completa das frases em É ...Q U E , ao mesmo tempo que fizemos a Gross (1977) propõe relacionar as frases clivadas em E . . . QUE como (2)
crítica das noções (tópico/comentário, tema/rema, dado/novo...), por meio a frases com dois membros (eventualmente ligados por mas ou e) como (2a):
das quais são geralmente tratados os efeitos de sentido relacionados. Nós nos
limitaremos aqui a algumas indicações, pela lembrança de certas proprieda­ (2) E a aristocracia d o dinheiro que tem m edo da liberdade.
des dessas frases e de certas soluções avançadas em seu tratamento sintático. (2a) E a aristocracia d o dinheiro que tem m edo da liberd ad e{e/
m as} não a classe operária (que tem m edo da liberdade).

3 .1 A lg u m a s p r o p r ie d a d e s d a s f r a s e s e m " é . . . qu e" Gross vê, nas frases do tipo (2a):

Essas propriedades são bem conhecidas (deslocamento e focaliza- P, = É X QUE P {{e/m as}) P2 = NÃO É Y QUE P
ção do constituinte enquadrado por E ...Q U E ; inscrição em uma relação
pergunta/resposta cuja especificidade encontra-se marcada pela corres­ a base formal geral a partir da qual a noção intuitiva de efeito contrastivo
pondência entre o pronome Q U E ... da pergunta e o elem ento-central da pode receber uma representação. O contraste tem sua origem na conjunção
resposta em É ...Q U E , etc.). As frases em É ...Q U E são, da mesma forma, de duas frases P ,e P2; essas duas frases apenas apresentam uma diferença:
frases am bíguas, e é sobre essa propriedade que insistiremos aqui.
Uma frase com o (1) pode, efetivamente, receber uma interpretação P, = X A Y / P 2 = X B Y
contrastiva, parafraseada em (la ), dêitica (ou designativa) em (lb ), e cons-
tativa em (lc ):2 B está, então, em contraste com A.
Uma única negação é obrigatória em um ou em outro membro, quando
(1 ) E a dem ocracia qu e querem os para a França. a negação está na origem do contraste: ela é de forma contrastiva em não,
(la) E a dem ocracia —e nada mais —que qu erem os... como em (2b), que provém de (2a) por redução de um segundo membro de
(lb) Esta dem ocracia é a dem ocracia que querem os, é bem esta duas frases conjuntas, seguida de uma permuta que aproxima os dois termos
a dem ocracia que querem os, eis a dem ocracia q u e... do contraste:
(lc) H á a dem ocracia, e eventualm ente outras coisas, qu e qu e­
rem os... (2b) É a aristocracia do dinheiro, (não) a classe operária, que
tem m edo da liberdade.
D iferenças de paráfrase permitem, assim, distinguir os diversos va­
lores de E ...Q U E , mas a caracterização de interpretações diferentes com A análise de Gross fornece um critério que permite o reconhecimento
base em critérios estritamente formais é problem ática, com o veremos. em superfície da interpretação contrastiva das frases clivadas, isso no caso
de frases contrastivas com dois membros. Q uanto às frases com um mem­
2 O b servam o s, tam b ém , às vezes, uma interpretação exclamativa ( B a l l y , 1951, p. 2 6 2 ), da bro, com o (1) ou (2), Gross considera-as tipos degenerados que devem ser
q ual n ão tratarem o s a q u i, na m edida cm que não aparece em nosso corpus.
168 Análise do discurso político E lem entos para definição da n oção de “tem a de d iscu rso” 169

interpretados a partir da forma de base geral contrastiva. E é nesse ponto 3.3 A IDENTIFICAÇÃO NAS FRASES EM " É X QUE p”/"0 QUE P É X "/ "X É O QUE P "

que surge uma dificuldade: com base em que tipo de intuição ou de saber
- pois de forma alguma se trata aqui de intuição ou de saber gramaticais - a) Frases de identificação equativas
podemos, no discurso, autorizar-nos a proceder a essa reconstrução?
A propriedade de frase de identificação é a que resulta da possibili­
b) Análise de interpretações contrastiva vs. dêitica dade para toda frase predicativa de ser transformada em frase clivada de
form a equativa. As frases equativas são frases de forma SN, E SN 2, em que
A descrição anterior não permite explicar as ambigüidades levantadas. Ê deve ser interpretado com o “deve ser identificado a ”. Distinguem-se das
Dubois &C D ubois-Charlier (1970, p. 185-186) esforçam -se, em compensa­ frases copulativas, em geral, pelo fato de sua reversibilidade (sua cópula é
ção, para tratar da distinção entre as interpretações contrastiva e dêitica.3 dita equativa).
Assim, (3) proviria de (3a) e de (3b), frases clivadas, consideradas fra­ Se SN , É SN , - SN 2 É SN ,, então SN, É SN2 é uma frase equativa
ses transformadas que resultam do encaixe de uma frase relativizada em como (4):
uma outra.
(4) O program a com um é a base de nossa ação — A base de
(3) E o socialism o que nós p rop om os a o pais. nossa açã o é o program a com um .
(3a) N ós p rop om os algo a o país.
(3b) Este algo é o socialism o. Encontram os em Halliday (1967) um estudo exaustivo de frases de
identificação. Ele indica nesse estudo que toda frase predicativa com o (5)
(3a) encaixando-se em (3b) por relativização. pode transformar-se em frase de identificação equativa pela nominalização
A ambigüidade resultaria do possível encaixe da relativa, seja no SN (em O QUE P) de um conjunto de seus elementos, seja (6):
contendo a proforma nominal (este algo), seja no SN contendo o socialism o.
Veremos, mais adiante, que os problemas levantados a propósito da (5) Q uerem os a união dos trabalhadores.
análise de Gross permanecem igualmente aqui. Nós nos lim itarem os, no (6) O qu e querem os é a união dos trabalhadores.
momento, a salientar que a forma atribuída à frase m attiz (3b) explica uma
outra intuição relativa às frases clivadas: estas são frases de identificação (o A propriedade de reversibilidade das frases equativas faz que (6) possa
tratam ento proposto consiste, dessa forma, em fazer provirem as frases em converter-se em (7):
É ...Q U E do encaixe de uma relativa em uma frase de identificação).
(7) A união dos trabalhadores é o que querem os.

Essas frases, ditas pseudoclivada e pseudoclivada invertida , caracteri­


zam-se pelas propriedades seguintes:

(1) Em uma frase copulativa reversível de tipo SN , E SN 2 - SN 2 É


3 O tratam en to da interpretação constativa geralm ente é ignorado. D esse m odo, C u lioli SN ,, elas estabelecem uma relação entre dois elementos defini­
(1974) distingue tem atizaçào forte (em É ...Q U E ) e fraca (em H Á ...Q U E ); m as não especi­ dos por sua relação de identificação:
fica que É ...Q U E em superfície pode, às vezes, ser interpretado co m o tem atizaçào fraca.
170 A nálise do discurso politico Elem entos para definição da n oção de “tem a de d iscu rso” 171

Identificado — cópula equativa — identificante, que representaremos Esse conjunto de observações quanto às propriedades lingüísticas das
por: IDado G IDante frases em É X QUE P/O QUE P É X/X É O QUE P4 vem especificar algumas
das intuições que nos fizeram escolhê-las como base de determinação dos
(2) Se a forma sintática dessas frases é reversível, a relação de temas de discurso e das formulações de referência.
identificação é orientada (no sentido: “elemento a identificar- Elas constituem exatam ente um meio privilegiado que associa focali-
elemento identificante”). zação e identificação de um elemento do discurso. As modalidades dessa
(3) A orientação da relação de identificação é determinável: o identificação variam nos diferentes funcionamentos de E ...Q U E , corres­
identificante é sempre o constituinte que corresponde ao pro­ pondendo às ambigüidades que descrevemos; por outro lado, as frases em
nome QUE da pergunta pressuposta pela frase; esse elemento O QUE P É X/X É O QUE P produzem efeitos de sentidos específicos.
é o núcleo da frase. Voltaremos, mais adiante, à descrição dessas frases no intradiscurso da sdr.
(4) Em uma frase clivada de identificação equativa, o elemento O Denominaremos, ao término desse desenvolvimento, tem a de discur­
QUE P é sempre o identificado; o identificante é reduzido a um so todo constituinte focalizado de uma frase clivada de identificação ou de
único elemento. uma frase em É ...Q U E (o constituinte X em: O QUE P É X/X É O QUE
(5) As frases desse tipo especificam, como as frases predicativas, P/É X QUE P).
um processo e seus participantes, mas acrescentam a inform a­ Cham aremos de frases introdutórias de tem as de discurso as frases
ção, segundo Halliday (op. cit., p. 233), de “que um dos parti­ que respondem a essas formas sintáticas.
cipantes pode definir-se como participante do processo”.
(6) Elas podem originar efeitos contrastivos.

b) Frases com tema predicado e tema de discurso

Halliday distingue, nas frases em É ...Q U E , às quais denomina frases


com tem a predicado, as frases quase-sinônimas das frases clivadas de iden­
tificação equativa. Assim, ele exprime a diferença semântica entre as duas
estruturas:

Estruturalmente, a predicação condensa as funções de


tema e de identificante, dando ao tema uma ênfase ex­
plícita por exclusão (“É de X e de ninguém mais que se
trata”). H á, entretanto, uma diferença entre uma frase
com um tema predicado e uma frase de identificação, no
efeito de ênfase que ela implica. Na identificação, a ênfase 4 En con tram os n o corpus O Q U E P É X/X É O Q U E P. A presença de O p arece-n os co rres­
ponder a um reforço da identificação por um vínculo correferencial suplem entar. [N. de
é cognitiva: “X —e ninguém mais —fez isto”, ao passo que
T.: em fran cês, C E Q U P C ’E S T X/X C ’E S T C E Q U E P apresenta o pronom e d em on stra­
na predicação, é temática: “X —e ninguém mais —é o tema tivo n eutro (C ’ = C E ) com o sujeito aparente; quando associado ao verbo être co lo ca em
evidência um elem ento da frase, com o nas frases m encionadas. B e s c h e r e l l e . La gratnmai-
desta frase” ( H a l l id a y , 1967, p. 233).
re pottr tous. Paris: H atier, 1990. p. 231-232.]
CAPÍTULO VI

EFEITOS DISCURSIVOS: CONTRADIÇÃO,


REAL E SABER

1. DESCRIÇÃO DAS FRASES INTRODUTÓRIAS DE TEMA DE


DISCURSO NO CORPUS DAS FORMULAÇÕES DE REFERÊNCIA

A descrição das frases introdutórias de tema de discurso levanta diversos


problemas: nós limitar-nos-emos a considerar a questão de sua am bigüidade,
assim como os efeitos discursivos que acompanham sua ocorrência no intra­
discurso da sdr. Duas perguntas são subjacentes aos problemas considerados:

• Por que determinado constituinte, ao invés de outro, ocupa uma


posição de “tema de discurso” nas estruturas escolhidas?
• Como explicar, numa perspectiva discursiva, efeitos vinculados a
essas estruturas nas interpretações contrastiva, constativa e dêitica
que elas autorizam?

Em um grande número de casos, é difícil, e às vezes impossível, distin­


guir entre essas interpretações. Tais dificuldades já despontavam nas análises
lingüísticas dessas frases propostas por Gross, Dubois e Dubois-Charlier, ou
ainda Halliday: com o, por exemplo, decidir a possibilidade de dar à frase
174 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 175

(1) deste exemplo de Dubois &C Dubois-Charlier (1970) a interpretação (la) Como esse elemento exterior determina o tipo de interpretação que essas
preferentemente à (lb)? frases recebem, ele remete, no primeiro caso, à posição de um constituinte
tomado numa form ulação determinada no interior de um domínio de saber.
(1) É a secretária que vi. Estabelecer uma tal interpretação (“desambiguizar” a formulação)
(la) É a secretária - e não o diretor —que vi. exige, dessa form a, que seja especificada sua posição em uma relação inter­
(lb ) Esta secretária é a secretária que vi. discursiva ou numa intersequência dada.
No caso de (lb ), a interpretação dêitica parece supor uma relação da
Vimos anteriormente a solução adotada por Dubois na descrição da formulação com o contexto intrassequência (ou situacional) como elemento
ambigüidade. exterior ao funcionamento da língua exigido para atribuição de um efeito.
Esse critério aplicado às frases do corpus parece pouco explicativo. A análise dos efeitos de sentido torna assim necessárias, simultanea­
A proposição feita por Gross (1977) de reconstruir um segundo membro mente, a consideração do funcionamento sintático das formas em E ...Q U E
contrastivo das frases em E X QUE P choca-se com as mesmas dificuldades: que ocorrem nas formulações de referência e a inscrição dessas formula­
com o decidir aqui sobre a possibilidade dessa reconstituição ou ali sobre ções em relações intra e interdiscursivas, isto é, sua determinação por FDs.
o tipo de encaixe? Essa exigência encontra-se expressa nos trabalhos anteriores (P ê c h e u x ,
No caso de uma frase como (1), parece impossível decidir entre uma in­ 1975; H en r y , 1975) que, em vista disso, utilizaram, na análise do funciona­
terpretação contrastiva ou dêitica da frase com base em critérios unicamente mento discursivo da nominalização ou das relativas, a noção de paráfrase
formais. As paráfrases (la) e (lb) supõem, na verdade, condições de emprego discursiva, distinta daquela de paráfrase lingüística:
diferentes de (1).
(la) responderia, efetivamente, a uma pergunta como: “Quem viste?”; Se o discurso fosse inteiramente determinado sob o
a fim de que um efeito contrastivo pudesse ser produzido na frase de identi­ ponto de vista de sua produção e de sua interpretação
ficação que responde a essa pergunta, seria necessário que o morfema QUE pela língua, não haveria lugar para a noção de pará­
da pergunta e o constituinte enquadrado por E ...Q U E na resposta (“a secre­ frase discursiva (...). A paráfrase discursiva (é) consti­
tária”) fizessem referência a um saber no qual os objetos “secretária” e “dire­ tutiva dos efeitos de sentido. Podemos, então, explicar
to r” ocupassem uma posição em que não devem ser confundidos (um saber que formulações diferentes quanto à sua materialidade
no qual “um gato é um gato”, “uma secretária é uma secretária”, “um diretor possam estar vinculadas a um mesmo efeito de sentido,
é um diretor”, e em que “ter visto a secretária” não é “ter visto o diretor”...). sem que, apesar disso, essas diferentes formulações pos­
(lb ) responderia, em compensação, a uma pergunta com o: “Quem sam ser consideradas mantendo, umas com as outras,
é?” , o efeito dêitico resultando da correspondência entre o morfema relações que dependeriam da autonomia relativa da lín­
Q U EM da pergunta, o constituinte enquadrado por E ...Q U E na resposta e gua (como o que denominamos «paráfrase» no sentido
um objeto presente no con texto situacional (sob a forma de uma referência lingüístico do termo). É preciso ser claro quanto a esse
externa a “essa secretária que vemos” ...) e/ou discursivo (sob a forma de aspecto, a noção de paráfrase discursiva é uma noção
uma correferência a “essa secretária da qual tratam os” ...). “contextual”, no sentido em que as paráfrases discur­
Em ambos os casos, a frase estabelece uma relação de identificação sivas dependem das condições de produção e de inter­
cuja interpretação evoca um elem ento exterior ao funcionamento sintático pretação, isto é, das formações discursivas diversas, às
das frases do tipo (1) definido no âmbito da autonomia relativa da língua.
176 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 177

q u ais o d iscu rso p o d e ser re la c io n a d o p a ra p ro d u z ir o [er]40 /FORAM os grandes d o m undo de outrora QUE en co ­
s en tid o (H en ry , 1975, p. 95). m endaram castelos e catedrais, mas EO R A M os ancestrais dos
operários de hoje QUE os construíram./
Descrevemos, a seguir, as diferentes realizações das frases em E X QUE
P/O QUE P É X/X É O QUE P levantadas no corpus das [er]; tentamos, igual­ - frases com um membro, com uma negação constrastiva, do tipo:
mente, a análise nos itens 2 e 3 deste capítulo de alguns efeitos de sentido
vinculados à sua ocorrência, no quadro teórico que acaba de ser delineado. NÃO É X QUE P

por exemplo, em:


1 .1 F r a s e s em " é x q u e p”

[er]|9//\ violência, NÃO E de nós QUE ela v e m ..J


a) Interpretação contrastiva
Nas frases contrastivas com um membro do tipo E X QUE P, a recons­
A interpretação contrastiva de certas frases em E ...Q U E do corpus trução de um segundo membro (adotando aqui o princípio de reconheci­
das [er] não levanta problemas. Essas frases são: mento dessas frases cm superfície definido por Gross (1977)) permite, na
maioria dos casos, suprimir a ambigüidade.
- frases com dois membros, do tipo:

- A presença à direita de “E ” de um modiíicador do tipo precisam ente,


som ente, unicam ente vem, em certos casos, facilitar a interpretação con­
E X QUE P | Wí,s| NÂO E Y QUE P
trastiva, por exemplo, em:

[er]29 w / M as E precisamente p o r isso, E precisamente porqu e


por exemplo, em:
som os m aterialistas QUE.../

[er]34 /NÃO E contra eles, mas tam bém para eles QUE lutamos. /
- Nesse tipo de funcionam ento, só encontramos, em geral, um constituin­
te enquadrado por E ...Q U E ; quando ha vários deles, é uma relação de
- ou frases com dois membros, cujo contraste é marcado pela antoním ia
equivalência de tipo isto é que os vincula (por supressão de uma relativa
entre duas relações predicativas ligadas por um articulador de oposição
explicativa), por exemplo, em:
(mas, a o contrário):

[er]21 /E p o r esse cam inho, p or uma luta calm a, unida, respon­


É X QUE P,, mas É Y QUE P2
sável QUE a classe operária, nosso povo, tm porão transform a­
ções d em ocráticas.../
por exemplo, em:

- Destacam os igualmente combinações das formas: deslocam ento à es­


querda + pronom inalização e E ...Q U E , como em:
178 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 179

[cr]^/ a violência, NÃO É de nós QUE ela vem e QUE jam ais - Encontram os frequentemente diversos constituintes enquadrados por
virá. / E ...Q U E apresentando-se sob a forma de uma enum eração, cujos termos
podem estar ligados por e tam bém , de tipo:
Subsistem ambigüidades, entretanto, na interpretação de certas for­
mulações: nos casos litigiosos ou dificilmente solucionáveis (mesmo insolú­
| SN^ (e tam bém ) SN 2! (e tam bém ) SN ^ .-.Q U E P
veis), com base em que critérios atribuir determinado tipo de interpretação
a determinada estrutura? Por exemplo, se interpretarmos, no exemplo an­
terior, [er]^ de maneira contrastiva:
como em:

E p o r esse cam inho (isto é) p o r um a luta calm a, unida, respon­


[er], !E, en tão, ao sair do trabalho, E o am on toam en to nos
sável —e por nenhuma outra via —QUE a classe o p erá ria ...
m eios de transporte, as más con dições de h ab ita ção , as m il e
uma p reocu pações das fam ílias QUE vêm aum entar o cansa­
ao invés da maneira dêitica:
ço, a irritação./

Este cam inho é o cam inho p elo qual a classe o p erá ria...
- Os elementos em posição X nas frases de interpretação constativa levan­
tados no corpus das [er] são SN (ainda que figurassem com o constituintes
com o explicar a intuição de leitura que fundamenta essa interpretação?
enquadrados no caso anterior dos SN sujeito, SN objeto, Sprep ou seus
equivalentes e frequentemente nominalizações como em [er]s, dada ante­
b) Interpretação constativa
riormente com o exemplo).

As frases em E X QUE P que recebem uma interpretação constativa


c) Interpretação dêitica
diferenciam-se das precedentes em que:

As frases de interpretação dêitica caracterizam-se pelos traços seguintes:


- E X QUE P pode ser parafraseado por HA X QUE P, com o em:

- E X QUE P pode ser parafraseado por


[er]tf./ERA a assem bleia plenária d o ep isco p ad o francês QUE
declarava há quatro a n o s.../
J EIS X QUE P

- Um modificador do tipo de tam bém pode figurar à direita de “É ”, por [e st e x é o x q u e p

exemplo, em:
com o em:
[er]4Ç/ E também a imagem do casal (...) QUE se acha altera­
d a .../ [er]J7/É tudo isso QUE nos leva a con siderar.../

- X é um SN ou Sprep anafórico, de tipo:


180 Análise do discurso político F.fcitos discursivos: co n trad ição , real e saber 181

pronome demonstrativo tica desempenha o papel de elemento identificador, apresentam, no corpus

Í Det + Nome genérico


das [er] as seguintes particularidades:

- X é um pré-construído nominalizado
(essas qu estões capitais, este, a isto, aquela realidade, um fa to , os elem en ­
tos d ecisiv os...), correferindo a um constituinte de S"1, a S"\ a um parágrafo
por exemplo, em:
ou eventualmente a toda a parte de seqüência à esquerda de E X QUE P.

[er],,/ ... O QUE é preciso h oje É uma m udança política, uma


- H á, ao menos, um elemento pré-construído no campo da anáfora, por
m udança d e sociedade. /
exemplo:
[er],2/... O QUE caracteriza o estado de espírito de m ilhões de
trabalhadores (...) E a aspiração à justiça, à fratern id ad e.../
[er], [... realizar a m udança necessária / E a essas qu estões ca­
pitais Q U E .../ ...]
- Encontram os as dificuldades anteriormente mencionadas para atribuir
[er]H[ ... fazer avançar a dem ocracia, a liberdade /E o QUE pro­
uma interpretação a essas formas. A presença de negação contrastiva no
p o m o s .../...]
contexto, de um conector de tipo mas ou ao con trário , pode, entretanto,
[er],, [... transform ação da so cied a d e.../ E a isto QUE nosso
no caso de [er]^, por exemplo, fundar uma interpretação contrastiva; a
partido se con sag ra.../...}
presença de uma enumeração de constituintes em posição X perm ite, em
[er]17[... linha divisória decisiva.. J E aquela realidade Q U E .../...]
compensação, marcar a ligação entre essa forma e a frase em É X QUE P
de interpretação constativa.
- Essas frases podem ser ligadas a seu contexto de esquerda por um arti-
culador de tipo e.
b) XÉ O QUE P

Por exemplo:
1 .2 F ra ses em "o q u e p é x "/" x é o q u e p "

[er]26/ 0 povo (...) SÃO aqueles e aquelas QUE fizeram de nosso


a) O QUE PÉ X país o que ele é . . J

Por exemplo:
Reagrupamos sob essa forma dois tipos de realizações:

[er],,,/ Ao contrário, O QUE p ro p o m os a o s franceses E uni-


- frases nas quais X É O QUE P se realiza em SN, É SN 2 QUE P em que SN,
rem -se.../
é um pré-construído e em que

Essas frases de identificação reversíveis, nas quais a nominalização em

Í
Pronome demonstrativo
O Q UE P ocupa a posição de tema de frase e a de “elemento a identificar”
na estrutura de identificação, e onde o tema de discurso X em posição remá- Determinante + Nome genérico J
182 A nálise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 183

com o em: a classe m edia, a m aior parte de nosso povo QUE os m alefícios
da política atual atingem duramente. /
[er]K/íi origem dos males (...) É este sistem a QUE vê o grande
capital exercer sua dom in ação, sua hegem onia (...)/ o conjunto dos SN 2 constituiria uma lista especificando SN j (a união do
povo da França) que funciona então como um lexema vazio catafórico.

ou ainda Nos dois tipos de realizações levantadas sob a forma de X É O QUE P,


o elemento em posição X deve ser identificado (ou especificado) na rela­
[er],( la linha divisória decisiva É A QUE (...) se situa entre, de ção de identificação, o que distingue essas frases do caso geral considerado
um lad o pequena casta que dom ina a econ om ia e o Estado e, mais anteriormente por Halliday, para o qual o elemento X em X É O QUE

d e outro, a im ensa m assa dos que traba lh am .../ P exercia função de identificador.
As frases de tipo X E O QUE P invertem, portanto, a ordem dos cons­
O contexto de formulação permite caracterizar essas duas realizações tituintes das frases de tipo O QUE P F X , mas conservam a orientação da

com o contrastivas. relação de identificação.

- frases nas quais X E O QUE P se realiza em


2. PARÁFRASE DISCURSIVA, ENUNCIADO, REFERÊNCIA E
SN, E SN '2, SN2, SN\ ... QUE P REFORMULAÇÃO NO FUNCIONAMENTO CONTRASTIVO

em que SN, é um pré-construído, no qual 2.1 P a rá fra se d is c u r s iv a e e f e it o s c o n t r a st iv o s

{ S N '2,S N 2, S N ',} ... é uma enumeração a) Análise do efeito de sentido contrastivo

e nas quais a relativa QUE P, tendendo a um funcionam ento apositivo, Seja, na [er]|9, a frase/a violência, não ê de nós que ela v em .../. Essa
pode ser suprim ida em certos casos. Esse tipo de realização aproxim a- frase em N Ã O E X QUE P é, nos termos de Gross (op. cit.), “uma frase con­
se, por essas características, das frases em E X Q UE P de interp retação trastiva com um membro” cuja parte suprimida é fácil reconstruir. Encon­
constativa ou descritiva. Correspondem , por outro lado, às frases copu- traremos, de fato, nas sequências discursivas dominadas pela FD comunista:
lativas esp ecificacion ais, descritas por M arandin (1978, p. 60) em seu
trabalho de descrição do D iscours français sur la C hine. A interpretação N Ã O E dos com unistas (tam pouco dos trabalhadores, p role­
especificacional de uma frase está vinculada à existência de relações es­ tários, d o p o v o ...) QUE vem a violência, E d o capital (mas
pecificas entre os sintagm as que form am os term os da relação especifica­ tam bém da grande burguesia, dos m on opólios, da aristocracia
cional: no caso de uma form ulação com o [er]2: d o d in h eiro...) QUE ela vem.

/ . . . a união d o povo da França, SÃO os em pregados, os ca m p o­ Essa form ulação tem as seguintes características:
neses, os engenheiros e os técnicos, os professores e os artistas.
184 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 185

• antagonismo de dois termos (e de seus respectivos substitutos si- [e],= Í P x l


nonímicos) no saber da FD comunista (com unistas, trabalhadores, [e]2 = | P Y j

proletários vs. Capital, burguesia, aristocracia d o din heiro...);


• uso contrastivo da cópula de identificação (é/não é); em que
• possível supressão de um dos dois membros da frase contrastiva;
• aplicação de uma transformação de deslocam ento + possível • [e],e [e]2representam duas formulações pertencentes a FD anta­
pronom inalização do membro restante. gônicas;
• P representa um contexto de formulação comum;
Se “varrermos” o interdiscurso da FD com unista, no qual fizemos fi­ • I ? I representam dois valores antagônicos atribuídos a um lugar
gurar um certo número de sequências discursivas dominadas pela FD cató ­ m
determinado do esquema sintático dessas formulações, que pode
lica, poderemos aí encontrar sem esforço um conjunto de form ulações1 em
desencadear, no intradiscurso das sequências discursivas dom i­
rede, com as quais a formulação de referência mantém uma relação inter­
nadas por essas FD, uma m odalidade contrastiva de identificação
discursiva. Condensando seu princípio: A violência vem dos com unistas.
realizada sintaticamente por uma frase em É X QUE P de inter­
D eterm inam os, assim, no interdiscurso, uma oposição entre dois ele­
pretação contrastiva.
mentos: A violência vem d os com unistas vs. A violência vem d o grande
capital, manifestando a contradição entre dois domínios de saber de FD
Isso eqüivale a transform ar cada uma das duas form ulações em frase
antagônicas. Encontram o-nos aqui, na verdade, diante de uma configura­
de identificação equitativa, na qual:
ção particular de paráfrase discursiva, na qual duas formulações, de forma
sintática determinada (N, V de N,) atribuem valores semelhantes (a vio­
• os constituintes com valor antagônico virão colocar-se em posição
lência, vir de) a certos lugares dessa estrutura e dois valores antagônicos a
de identificador e receberão assim a interpretação tema de discurso ;
p elo m enos um lugar (aqui: N „ que toma dois valores antagônicos j na • a cópula de identificação equitativa se desdobrará em op erador
f 1 ^
ocorrência Com unistas , de identificação contrastiva , representado J —
[ G rande capital \ le
• os constituintes com um valor constante figurarão na nominali-
É a presença, no interdiscurso, de uma configuração d e paráfrase dis­
zação em O QUE P, ocupando a posição de elemento a identifi­
cursiva de tipo:
car, na frase de identificação;
• a correspondência entre valores opostos do operador de identifi­
cação e do constituinte identificante será invertida em cada uma
das formulações, seja:X
1 N ão co nstituím os essas redes para caracterizar o p rocesso discursivo inerente à F D cató lica
em razâo do prin cípio de co nstitu ição de unia form a de corpus d o m in ante ou d issim étrica;
essas redes seriam , so b este aspecto, facilm ente constituiveis; algum as form u laçõ es para
ju lgá-las: . ..N ada existe que o comunism o não ouse, nada que ele respeite: ali on de tomou
( l) O Q U E p j? J
o poder, mostra-se selvagem e inumano (Q uadragésim o Anno). A luta d e classesy com seus
ódios e suas destruições (...) deve aniquilar com o inimigos do gênero hum ano todas as
forças que se opõem às suas violências sistemáticas (Divini R ed em ptoris). Eis porque os
defensores dessa doutrina, ali onde se tornam os donos d o poder, atacam a religião com « oquep I;} $
violência (V atican II).
186 A nálise do discurso politico 187
Efeitos discursivos: co n trad içao , real e saber

seja, no interior de cada um dos processos discursivos tom ados como de interpretação contrastiva. M ais adiante, faremos distinções entre essas
exemplo: três form as, a propósito das variações que podem introduzir na produção
ou na interpretação de um efeito de sentido determinado (Consideramos,
|de nós.\ no momento, o caso de É X QUE P/NÃO E X QUE P.).
e
m■ J\é
(1) D o qu e (de quem ) vem a violência \dos comunistas\ Esse tipo de análise, que recorre ao interdiscurso com o elemento exte­
nãoé
d o grande capital. rior ao funcionam ento da língua, parece-nos responder, numa perspectiva
discursiva, às perguntas que levantamos anteriormente quanto à escolha
|do grande capital.\ de um constituinte determinado como tema de discurso e à atribuição de

(2) D o qu e (de quem ) vem a violência ,< |dos comunistas.\ uma interpretação contrastiva a esse tipo de frases.
|ni
de nós. E efetivamente possível, de ora em diante, avançar que:

Desenvolvendo (2) de maneira simplificada (1) Poderemos caracterizar a ocorrência, em uma form ulação que
surge no intradiscurso de uma seqüência discursiva dominada
por deslocamento de <—l 1— 1 por uma FD determinada, de uma forma de frase E X QUE P
U J 1x1
com o contrastiva se for possível determinar e reconstruir, no
interdiscurso dessa FD, uma configuração de paráfrase discur­

É \ \do srande capital 1 ... siva particular do tipo P j ^ j anteriormente definido.


< ><-------------------------- (•que vem a violência
|N<zoé| l de nós J
(2) Nessa condição, igualmente, os constituintes que ocupam as

- por linearização posições X e Y em P j-^j e referem-se a valores antagônicos

no cerne dos processos discursivos na contradição, dos quais


N ão é d e nós que vem a violência (mas) ê d o grande capital
se constitui o interdiscurso dessa FD, poderão vir a ocupar o
qu e vem a violência.
lugar ( ) em

- por supressão do segundo membro


É ( ) QUE P/(NÃO É ( ) QUE P)

N ão é d e nós que vem a violência.


e receber, dessa forma, a interpretação tem a de discurso.

- por deslocamento + pronominalização


A noção de paráfrase discursiva é empregada de maneira im plícita em
numerosos trabalhos de AD e foi explicitada no uso discursivo que dela se
A violência, não é de nós que ela vem.
fez, exigindo, entretanto, algumas precisões.

A análise anterior parece-nos generalizável ao conjunto das form ula­


ções levantadas, contendo formas É X QUE P/O QUE P É X/X É O QUE P
188 A nálise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 189

b) Paráfrase discursiva, identidade e contradição (1) As substituições “simétricas": considerando dois substituíveis |a,
b| (morfemas, sintagmas 0 1 1 formulações) num contexto P deter­
A noção de parafrase discursiva funciona de maneira im plícita em nu­ minado; se a —» b (a é contextualmente sinônimo de b, a mantém
merosos trabalhos de AD c foi explicitada no uso que M . Pêcheux2 fez dela; com b uma relação de equivalência semântica de tipo dicionário;
essa noção ocupa um lugar central na problemática deste último, tanto na a é uma metáfora adequada de b e reciprocamente), então a rela­
construção teórica (uma FD é um espaço de “reform ulação-paráfrase”, que ção de substituição é dita “simétrica” e representada:
consiste num sistema de reformulações, paráfrases e sinônim os” [P ê c h e u x ,

1975, p. 173]) com o no interior do dispositivo experimental da AAD: os


domínios sem ânticos” obtidos em seguida à aplicação do procedimento
AAD a um conjunto de discursos são classes de paráfrase discursiva.
Consistem, de fato, na construção de classes de equivalência distribu-
cional que estabelecem a relação de substituição de n segmentos discursi­
(2) As substituições “orientadas": considerando dois substituíveis
vos em um contexto estabelecido como equivalente. O exemplo seguinte,
|a, b| num contexto P; se a —>b (a e b não são equivalentes, mas
tom ado de Pêcheux & Fuchs (1975, p. 72), vem ilustrar essa noção:
podemos passar de um ao outro, deduzir um do outro, estabe­
lecer uma relação de tipo metonímico entre um e outro), então

x í dar a relação de substituição é dita “orientada” e representada:


[assegurar um m ínimo vital
o E stado assegura

A concepção da paráfrase discursiva desenvolvida por Pêcheux liga pa-


rafrase, substitutibilidade e sinoním ia: a possível substituição de elementos
em um contexto discursivo determinado funda uma relação de sinonímia
A questão da orientação dos substituíveis no interior dos domínios
entre esses elementos (ser substituível — ter o mesmo sentioo no processo
sem ânticos levanta um problema central para o procedimento AAD: o da
discursivo considerado). O vínculo de paráfrase entre duas formulações,
definição de critérios permitindo determinar as “orientações” entre comu-
interpretado em termo de sinonímia, baseia, assim, a noção de paráfrase
táveis, que Pêcheux & Fuchs (1975, p. 75) colocam nestes termos:
discursiva na identidade sem ântica de duas formulações (... “repetição do
id ên tico ... mesmo sistema de representações”... Pêch eux, 1969, p. 320).
Sabemos que o princípio dessa determinação consiste na
Essa identidade semântica não se reduz, entretanto, em todos os ca­
procura de construções ligando os comutaveis por uma
sos, a uma equivalencia pura e simples, o que levou a destacar dois tipos
sintagmatização de algum modo perpendicular ao eixo
fundamentais de substituição nos domínios semânticos:
das sequências em comutação; (...) Resta que a realiza­
ção concreta dessa determinação choca-se com o obs­
táculo das fronteiras do corpus: nada prova (...) que o
tipo de informação seja discursiuamente hom ogêneo a
2 Ver, nesse assunto, Pccheux & Fuchs (1975, p. 58-80) e M aran d in (1978, p. 3 7 -4 4 ), para
zona em que se estabelecem as comutações. Essa questão
uma crítica dessas concepções.
1 90 A nálise do discurso politico Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 191

reconduz-nos, assim, a um problema teórico, que é o da


p ]2^_1 não pode, dessa forma, reduzir-se às substituições “simétri-
relação de um processo discursivo com o interdiscurso,
lY j
isto é, o conjunto dos outros processos que nele intervém cas” e “orientadas” introduzidas por Pêcheux, pois o que caracteriza a
para constituí-lo (...).
classe P I — i no contexto P é a não com u labilid ad e dos elementos em
^YJ
posição X e Y no contexto dc form ulação P (que representamos pela barra
A configuração particular de paráfrase discursiva P j — J íí ue determ i­
que separa X de Y).
namos na análise do funcionamento contrastivo das estruturas escolhidas
parece-nos de natureza a produzir as conseqüências seguintes, se a relacio­
narm os a definição geral da paráfrase discursiva avançada por Pêcheux:
2 .2 E n u n c ia d o e sa ber

(1) E certo que a definição dc critérios que permitem determinar, na a) Posição de um elemento no saber e fronteira de um saber
problemática definida por Pêcheux, a orientação entre comutá-
veis numa classe parafrástica determinada deve apelar para “um Até aqui, tratam os das noções de “domínio de saber” de uma FD e de
tipo de inform ação” que não seja discursivamente hom ogên eo “elementos do saber”, ou enunciados, de maneira puramente definicional
ao processo discursivo estudado. Essa é a razão, em nosso tra­ no Capítulo III); ali definimos o enunciado com o “forma ou esquema geral
balho, da construção de uma forma de corpus que permita a governando a repetibilidade no interior de uma rede de form ulações”.
correlação de “zonas discursivamente heterogêneas”, isto é, de O dom ín io de saber de uma FD figurava, no mesmo desenvolvimento,
processos discursivos inerentes a FD antagônicas. como conjunto de elementos do saber e “princípio de aceitabilidade discur­
(2) M as parece igualmente, nesse caso, que a articulação de pro­ siva para um conjunto de formulações”, vindo operar a divisória entre o
cessos discursivos no interdiscurso vindo determinar, enquan­ que pode e deve ser d ito” e “o que não pode/não deve ser dito”, atribuindo
to elemento exterior específico, a configuração de paráfrase
a uma FD uma fronteira determinada.
discursiva no interior de um processo dado, não poderia satis­ É da construção das noções de enunciado e de saber que vamos tratar
fazer-se com uma concepção da paráfrase discursiva fundada agora. G ostaríam os, entretanto, de tentar, em primeiro lugar, tornar mais
num puro principio de identidade.
explícita nossa intuição a respeito das estruturas E X QUE P/O QUE P E
X/X E O QUE P com o “bases satisfatórias de determinação dos temas de
A caracterização da configuração P | ~ j Parece-nos, ao contrário, di­ discurso” , devendo permitir a extração das [er] e a constituição de redes
zer respeito a um uso do principio de identidade que estabelece a conjunção de formulações cujos enunciados seriam destacados. E isso evidenciando,
do idêntico e do contraditório (como era o caso na noção de “fronteira” no plano das formulações extraídas da sdr e apresentando ocorrências de
formas sintáticas E X QUE P de interpretação contrastiva, um modo parti­
retromencionada): P j ~ j provém, efetivamente, da correlação de duas for­
cular de contato entre o ideológico e o lingüístico na ordem do discursivo,
mulações extraídas de processos discursivos heterogêneos um em relação isto é, na ordem da relação entre o enunciado e a form u lação.
ao outro, mas de forma sintatica determinada, que atribuem valores seme­ O discursivo representa exatamente no interior d o funcion am en to da
lhantes e outros antagônicos a lugares determinados dessa estrutura. língua os efeitos da luta ideológica.
192 A nálise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 193

É a existencia de contradições ideológicas de classe que delineia, no in­ - Assim, as formulações em que aparecem as estruturas sintáticas que aca­

terdiscurso, configurações do tipo P j—


-Jconsiderado anteriorm ente, em bam de ser mencionadas têm por efeito, no intradiscurso de uma seqüência
discursiva, pela identificação contrastiva de elementos de saber antagôni­
condições formais de distribuição, num contexto de form ulação P deter­
cos que elas operam, apontar, designar essa fronteira , exibi-la com o regra
minado, constituintes que surgem em [X , Y]; estes ocupam uma posição
para todo sujeito que deve enunciar ou interpretar tal formulação.
determinada nos domínios de saber das FD, em cujo antagonism o essas
contradições se materializam.
Temos, desse modo, mais condições agora de precisar nossa intuição
- Configurações de uma tal forma coexistem com a presença, no conjun­
inicial, a qual estabelecia que a análise do funcionamento em discurso de
to de sequências discursivas pertencentes ao domínio de memória das FD
algumas das estruturas lingüísticas da identificação poderia levar à deter­
consideradas, de formulações que manifestam uma certa regularidade lexi­
minação dos elementos do saber de uma FD. Uma form ulação com o [er]17
cal e sintatica: os constituintes vindo ocupar as posições [X , YP] em P / — l
t lY j £ a aristocracia do dinheiro que tem m edo da liberdade
sao recorrentes nessas formulações; podemos igualmente aí determinar a
ocorrência de formas sintáticas como
deve ser interpretada, em seu funcionamento contrastivo, como:

É X QUE P M AS NÀO É Y QUE P


E a aristocracia do dinheiro —não os trabalhadores, o p o v o ...
É X QUE P, M AS É Y QUE P2
—qu e tem m edo da liberdade.
N ÃOÉYQUEP
É X QUE P isto é:

e outras formas sintáticas contrastivas. E a aristocracia do dinheiro e apenas ela - n ão os trabalh ad o­


res, o p o v o ... - que é o tema de meu discurso qu an do digo que

f j — | coexiste, assim, com uma zona de repetibilidade determinada alguém tem m edo da liberdade

no interior dos processos discursivos considerados (recorrência de certos


ou ainda:
elementos lexicais/de certas formas sintáticas).
O discursivo manifesta, ao contrário, a existência da m aterialidade
Deve-se dizer que a aristocracia do dinheiro tem m ed o da li­
lingüística no interior da ideologia:
berdade. / N ão se deve dizer que os trabalhadores, o p ov o, têm
m edo da liberdade.
—Dessa forma, a expressão P | ~ -J vem, no interdiscurso, m aterializar a

fronteira dos domínios de saber proprios a FD antagônicas, indicar, pela não í A aristocracia do dinheiro tem \ ^ ^ h h erd ad \
! Os trabalhadores não têm J J
substitutibilidade dos constituintes que ela correlaciona em condições for­
mais de funcionamento da lingua, a linha divisória entre o formulavel e o
não formulavel para cada um dos processos discursivos em cuja articulação
3 O que H alliday bem observou, m arcando o caráter de “ ênfase tem ática das frases de tem a
contraditória essa fronteira se materializa. predicado” .
194 Análise do discurso politico Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 195

é um elemento de saber, ou, enfim, por generalização: Condição 1: que os conjuntos de elementos que vêm ocupar as po­
sições [X , Y, P] sejam recorrentes e coocorren tes em um conjunto de for­

P 1 — l é um enunciado, isto é [El = P I —


IY J lYj
mulações no interior do processo discursivo. Se a construção de P j~J ^°'
possível no exemplo desenvolvido anteriormente (p. 194), é que se podiam

D enominaremos esse tipo de enunciado, em razão de sua estrutura, destacar, da recorrência de certos elementos (violência, vir de, com unis­

enunciado dividido. tas...) e de sua coocorrência em uma estrutura determinada, formas de


invariância que se repetem no processo discursivo.
Assim,
b) Forma do enunciado no funcionamento contrastivo

N ( V de N 2
D am os, assim, ao enunciado, na zona de funcionam ento discursivo
V IO LÊN C IA V IR DE COM U N ISTA S
que nos retém em primeiro lugar, a forma geral P |— 1> característica do

enunciado dividido, cuja construção foi descrita anteriormente. Essa for­ Denominarem os essa forma de invariância base de form u lação (re­
ma geral apresenta as seguintes características: presentada: B [e]). A noção de base de formulação remete à existência de
elementos pré-construidos ao discurso.
(1) [X , Y] representam aqui p osições referenciais , no contexto [PX/PY] representam duas bases de formulação, cuja correlação pro­
de form ulação P; ocupadas, no interior de um dado processo duz um enunciado: o enunciado pode, assim, ser definido com o form a de
discursivo (e/ou em dois —ou eventualmente vários —proces­ articulação de elem entos pré-construidos do discurso.
sos discursivos), por dois conjuntos de elementos que assu­
Condição 2: que P |— j se)a uma con dição de ocorrên cia de formu­
mem um valor antagônico no interior do processo discursivo
(e/ou em dois - ou vários —processos discursivos ligados con- lações de forma É X QUE P/O QUE P Ê X/X É O QUE P, e outras formas

traditoriam ente). sintáticas marcando o contraste, no intradiscurso de seqüências discursi­

vas dominadas pela FD onde P J l i i é um elemento de saber, assim como


lY j
Seja uma con dição de interpretação dos efeitos de sentido relacionados ao fun­
[ Y = f, g, h, i.. cionam ento contrastivo dessas formas.

X (4) A existência de P j — J determina condições de reform ulação


(2) P |— 1 recebe, dessa forma, a interpretação: “Os elementos (mor-
lY j
no interior do processo discursivo e aí inscreve uma zona de
femas, sintagmas, formulações) em posição referencial [X , Y] no
repetibilidade. Denominaremos zona de repetibilidade, em
contexto de formulação P não são comutáveis”.
um processo discursivo, as formulações ou seqüências de for­
(3) Para que P 1 — 1 constitua um enunciado, isto é, uma “forma mulações em que podemos determinar os efeitos da existência
lY J
indefinidamente repetível”, podendo ocasionar enunciações
de P |— |’ ’sto onde as condições 1 e 2 são preenchidas.
dispersas no meio de um processo discursivo, é preciso:
Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 197
196 A nálise do discurso político

E se acontece de o rei da França e calvo aí aparecer, pouco importam


(5) P inscreve-se numa relação determinada entre interdiscur­ a existência desse rei e o estado de sua calvície: basta que a form ulação se
so e intradiscurso no processo discursivo inerente a uma FD; inscreva numa posição referencial, seja então formulada, para assumir um
essa relação funciona com o regra para o processo discursivo. “valor de verdade” no interior do processo discursivo.
N ão é nem com o “sentido”, nem com a “referência”, no sentido lógi­
A essa regra podemos dar a forma de uma im plicação recíproca, que co desses term os, dos objetos do discurso que a AD se preocupa, mas com
explica a forma de coexistência dos objetos que figuram no plano do inter­ suas formas de coexistência m aterial nos processos em que se constitui o
discurso (enunciados) e do intradiscurso (formulações), seja saber das FD.
A série de denegações que acaba de ser formulada designa, entretanto,
a existência do enunciado como um lugar problemático de nosso proce­
P {y } ^ ^ x ^ ue P/N^ ° é Y QUE P
dimento. Elas têm sua razão em nossa intenção de dar um estatuto espe­
cifico a objetos (FD, enunciado, form ulações...) que os faça existirem
(6) Essa regra (no sentido de regularidade existente no corpus)
fora das representações lingüísticas ou lógicas, nas quais espontaneamente
realiza, para a zona de repetibilidade que nos interessa aqui, a
eles ocorrem . Via hesitante, marcada de empirismo, que tom a daqui e dali,
divisão entre o formulável e o não formulável, fixa os limites
condenada a manipular somente objetos concreto-abstratos, produtos de
da aceitabilidade discursiva”, no sentido dessa noção ante­
generalizações a partir de observações empíricas.
riorm ente definido, assegura, assim, o encerram ento de um
domínio de saber. Se for preciso, entretanto, dar a uma forma como P j^rj umestat:uto en'

quanto expressão, atribuiremos a esse esquema geral a qualidade de uma ge­


Algumas considerações, finalmente, sobre o que o enunciado não é\ neralização das condições de existência discurswa de uma formulação como:
Um esquema geral como P j ^ - j n^° poderia ser assimilado a uma for­
[er]19 A violência, não é de nós que ela vem
ma de base na qual poderiam ser derivadas as estruturas de superfície das
frases em E X QUE P de interpretação contrastiva; o interdiscurso não po­
que a fazem existir simultaneamente nas relações interdiscursivas, cujo
deria desempenhar, diante do intradiscurso, o papel de uma estrutura pro­
funda (nem de uma “macroestrutura textual”) a partir do qual poderíamos enunciado:

considerar a geração do intradiscurso como “texto”. Da mesma maneira, a


regularidade representada anteriormente não é uma regra de geração. . . ,. I dos comunistas I
A vio ncia vem <—----------------------- - >
[d o grande capital J
Se a existencia do enunciado e distinta daquela da frase ou do texto,

ela o e tambem daquela de uma proposição lógica. Uma forma como P 1— 1


vem dar uma certa expressão, sob a forma de uma m aterialidade repetível
1 YJ
nao e um axioma ou um objeto abstrato a partir do qual poderiam ser apli­ num processo discursivo, assim como em relações intradiscursivas no seio
cadas regras de dedução. Estabelecer, por outro lado, que [X , Y] são posi­ de uma seqüência: é a inscrição simultanea de uma expressão lingüística
ções referenciais não nos leva a interrogar-nos sobre o valor de verdade das numa estratificação interdiscursiva e numa linearidade intradiscursiva que
expressões que podem aí figurar. a torna um elemento de discurso, dá-lhe o estatuto de form ulação e não
198 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 199

somente de frase (mesmo que aconteça que uma form ulação possa corres­ Podemos aí determinar, na parte predicativa das formulações agru­
ponder à existência lingüística de uma frase). padas em rede, duas listas de substitutivos sinonímicos, globalm ente con­
traditórios entre si: vemos nisso funcionar um efeito da existência de uma
contradição ideológica na construção da referência de certas expressões no
2 .3 D esc r iç ã o d e e f e it o s c o n t r a siiv o s na r e f e r ê n c ia e na r e f o r m u l a ç ã o : interior de um processo discursivo. Tal contradição produz, com o efeito,
CONTRADIÇÃO E DOMINAÇÃO IDEOLÓGICA uma form a antoním ica de constituição da referência (já determinada no
nível lexical em AD política pelo funcionamento da prefixação anti-).
Afirmávamos anteriorm ente, entre as hipóteses específicas ou corpus
Se, portanto, [X , Y] de P j ^ J são posições referenciais inscritas na
discursivo, a tese seguinte:
forma geral do enunciado, são indissociáveis da recorrência dos elementos
que, em determinadas formulações, ocupam essas posições. Seja no exem­
(1) os enunciados que constituem o saber próprio à FD comunista
formam-se na contradição com os enunciados elementos de plo escolhido:

saber de FD dominantes, principalmente com os enunciados


da FD católica; A política dos com unistas em relação aos cristãos é
(2) o domínio de saber de uma FD dominada constitui-se, assim,
numa forma determinada de dominação ideológica que atri­
bui às formulações temas (“aquilo de que falam ”) e articula­ em que
ções (“como falam disso”) dados. X = (arm adilha, astúcia, artim anha, tática ocasional, tática de circunstân­
cia, truque eleitoral, ceticism o , confusão, m anobra, ecletism o, oportunis­
Ilustram os, a seguir, essa tese a partir da observação da construção da m o, idealism o...)
referência de certas expressões no processo discursivo e de diferentes tipos Y = (posição política de acordo com nossa doutrina, política de princípio,
de reformulações no funcionamento contrastivo de É X QUE P. procedim en to de princípio, atitude de princípio, expressão clara e franca
de posições, fran qu eza ...) 4
a) A construção da referência
Vemos, assim, que uma formulação como [er]w:
Os enunciados divididos formam-se como mostramos no caso de
[er]19>na contradição que liga os processos discursivos inerentes a duas FD N ão é p o r tática, nem na con fu são id eo lóg ica, qu e bu sca­
antagônicas, com o a comunista e a cristã. A partir de duas B[e] induzidas m os ap a ix o n a d a m en te... (unir com unistas e cristãos), mas
da rede de formulações dada como exemplo anteriormente (no Capítulo II), p orqu e (...)
poderiamos, igualmente, destacar uma forma geral de repetibilidade de tipo

de P i — l, seja o enunciado: produz um efeito de referência, no sentido em que sua forma sintática tem
1Yj
por efeito a identificação contrastiva de substitutos sinonímicos pertencentes
A política dos com unistas í uma constante, um procedim ento de princípio \
em relação aos cristãos ê \uma artim anha, uma tática, uma arm adilha... J
4 Essas classes foram constituídas a partir das form ulações do d om ín io de m em ória inscri­
tas na zona de repetibilidade governada pelo enunciado dividido to m ad o co m o exem plo.
200 A nálise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 201

a duas classes referenciais antônimas. O funcionamento metadiscursivo desse governa, deve ser considerada uma possível reformulação desse enunciado.
tipo de forma encontra-se aqui confirmado. JX l
Podemos, assim, percorrer R[e] a partir de [E] — P j^ T j com o um trajeto
Essa observação é generalizável sobre a totalidade do processo dis­
das reformulações possíveis de [E],
cursivo: os elementos colocados em posições referencialmente contraditó­
Até aqui só levamos em conta o plano da formulação, isto é, o do
rias no enunciado ligado à [er]|9 (em que X = [grande capital, burguesia,
intradiscurso da sdr no corpus constituído como “ponto de apoio” de um
aristocracia d o d in h eiro ...], e Y = [com unistas, trabalhadores, p roletá­
acesso ao interdiscurso: suas [er] foram empiricamente segmentadas e ex­
rio s...]) entram em outros tipos de regularidade recorrentes no processo
traídas; isso levou a determinar a forma de certos enunciados; uma forma
discursivo. Assim, por exemplo, as formulações em que aparecem verbos
de coexistência foi estabelecida para o processo discursivo entre enunciados
da classe V* = [oprimir, chocar, explorar, espoliar, p ô r em perigo, dom inar,
divididos e formulações que manifestam a presença de formas sintáticas È
a b a te r ...] são todas construídas segundo a estrutura NXj V N Y2.
X QUE P/O QUE P É X/X É O QUE P de interpretação contrastiva.
Podemos, com base nesse exemplo, tornar mais precisa a noção de
Trata-se, agora, de refletir sobre o intradiscurso da sdr, a fim de nele
enunciado como “forma indefinidamente repetível” ou com o “forma geral
observar a maneira como os elementos do saber de uma FD que são os enun­
que governa a repetibilidade no seio de uma rede de form ulação”: se um
ciados tornam-se objetos de enunciação : se o intradiscurso de uma seqüência
determinado enunciado regula exatamente a existência de uma zona de re­
discursiva constituir exatamente o lugar de uma apropriação por um sujeito
petibilidade a partir da qual uma rede de formulações poderá ser construí­
enunciador dos elementos do saber de uma FD, convirá determinar as dife­
da, o esquema geral P j — J cruza 0 conjunto do processo discursivo, isto é, rentes modalidades dessa apropriação; a sequencialização dos elementos do
nesse caso, o conjunto dos R [e], cuja repetibilidade encontra-se governada saber produz aí, de fato, diferentes efeitos discursivos resultantes desse ou
por enunciados divididos, constitui uma con d ição geral de repetibilidade daquele modo de linearização dos enunciados no intradiscurso.
no interior do processo da FD considerada. N o que concerne à zona de funcionamento discursivo pela qual nos
interessamos aqui, os efeitos que determinamos entram no registro do fun­
b) A reformulação cionam ento p o lêm ico do discurso político, que foi abundantemente descri­
to em AD ; ele aí constitui uma base de construção de tipologias discursivas
Teremos encontrado, nos desenvolvimentos precedentes, um certo nú­ (discurso polêm ico, discurso didático). Todas as análises do funcionam en­
mero de elementos em apoio à primeira parte da tese enunciada anterior­ to polêmico do discurso político insistem na presença desse tipo de dis­
mente: os enunciados obtidos a partir das [er])9J9 revelam-se exatam ente curso de “marcas de rejeição” (G ardin & M arcf. llesi , 1 9 7 4 , entre outros)

com o objetos que a existência de uma contradição específica entre duas e principalmente de transformações negativas (geralmente apresentadas
FD antagônicas “faz existir” enquanto tais; tentamos m ostrá-lo na própria com o negação/rejeição pelo sujeito enunciador de uma form ulação ante­
forma do enunciado, no fato de que regula a constituição, no domínio de rior do discurso do “outro”), isto é, de formas lingüísticas da refutação.
saber, da referência das expressões que aí se inscrevem em posição [X , Y]: Descrevemos, a seguir, diferentes efeitos discursivos ligados à refor­
essa contradição é anterior à existência desses objetos. mulação de enunciados divididos no intradiscurso da sdr.' N o âm bito de
G ostaríam os, a seguir, de precisar as modalidades de presença dis­
cursiva de uma contradição ideológica no plano da form u lação. De fato,
5 Lim itar-nos-em os à observação das form ulações cujas form as sintáticas são aparentadas a E
em conformidade com o que havíamos indicado anteriorm ente, cada for­ X Q U E P, ainda que h aja outras form as sintáticas de contraste (conexões interfrásticas em
m ulação que entra num R[e], cuja repetibilidade um enunciado dividido mas, presença de orações concessivas, diferentes tipos de negação contrastiv a...) nas zonas de
repetibilidade cm que se vc a ocorrência dc form as E X Q U E P dc interpretação contrastiva.
202 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 203

interpretação delineado pela segunda parte da tese afirmada anterior­ (2) As formas da refutação
mente, o dominio de saber de uma FD dominada constitui-se numa for­
ma determinada de dominação ideológica, que faz dessa FD uma unidade Os tipos de reformulação da [El = P j^ -J que podemos encontrar no
dividida, em cujo interior podemos determinar os efeitos da dom inação
intradiscurso da sdr foram levantados anteriormente e uma análise sucinta
ideológica.
de seu funcionam ento foi proposta. Essas reformulações resultam de dife­
rentes modos de linearização do enunciado dividido no intradiscurso da
(1) Sujeito universal e posição de sujeito
sdr; realizam-se em diversas formas de refutação âs quais o funcionamento
polêmico do discurso está ligado; determinamos as seguintes formas de
D o conjunto do desenvolvimento precedente, podemos extrair, quan­
refutação no corpus das [er]:
to à questão do sujeito, as seguintes conseqüências: P j — J representa aqui

exatam ente, enquanto elemento do saber, uma expressão remetendo ao su-


{*) Formas completas (ou explícitas) de refutação. Essas reformulações cons­
tituem formas completas (ou explícitas) de refutação, no sentido em que o
jeito universal da FD ; o enunciado vem dar uma forma determinada ao que
designamos como a exterioridade do enunciável. conjunto dos elementos presentes no enunciado encontra-se linearizado no
intradiscurso. Correspondem às “frases com dois membros” estudadas por
Essa forma tem a particularidade, no caso de P i 2^.1, de mariifestar a
Gross (op. cit.) e são de forma:
lYj
relação entre dois sujeitos de saber antagônicos, que poderíamos represen-

í SUi l
tar, por analogia com a forma do enunciado: i -------} no sentido em que PX É X QUE P P, j 6 1 É Y QUE P2, como em:
is u j l mas |
é uma expressão remetendo a SU t e PY uma expressão remetendo a SU2.
Se uma p o siçã o d e sujeito se define como uma relação de identificação
[er]J4 N ão é contra eles (os trabalhadores) m as p o r eles tam ­
do sujeito enunciador com o sujeito universal de uma FD, a especificidade
bém que lutamos'.6
da posição de sujeito no funcionamento polêmico de discurso deve-se ao
fato de que essa identificação, pela qual um sujeito falante é interpelado/
ou então de forma:
constituido em sujeito ideológico, efetua-se em um lugár dividido por uma
contradição.
j, 1 ,
E se o domínio da forma-sujeito constitui exatam ente o domínio da E X QUE P Á i E Y QUE P2, como em:
[m as)
descrição do sujeito com o efeito no discurso, através das diferentes posi­
ções de sujeito determináveis numa FD, poderemos representar
[er]17É a aristocracia d o dinheiro que tem m edo da liberdade.

SU. Os trabalhadores, ao contrário, precisam de liberd ad e...


1
l y <-> S
suJ
6 Vem os bem nesse exem plo com o vários efeitos de sentido podem sob recarreg ar um a de­
a posição de sujeito “polêm ico” como elemento de descrição da form a su­ term inad a form u lação: a copresença de um efeito contrastivo ( não é...m as), de um efeito
jeito na FD de referência. constativo sobre o segundo m em bro da frase ( tam bém ) e de um efeito exclam ativo, m ar­
cado pela p on tu ação (c a única m arca exclam ativa que figura em um a [er] do corpus).
204 Análise do discurso politico Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 205

N o caso de [er]34, poderíamos reconstruir no intradiscurso um enun- interdiscurso enquanto pré-construído (linearização dos dois membros da
ÍX l identificação contrastiva, articulação dos dois membros linearizados por
ciado de forma P < >
1Y j mas ou a o contrário).
Vemos bem, nesse exemplo, como os funcionamentos discursivos
Os com unistas lutam -j 1 os trabalhadores. de pré-construído e de articulação descritos por Pêcheux (1975) e Henry
[a favorj
(1975) são efeitos determinados materialmente pela própria estrutura do
interdiscurso. Em qual sentido, igualmente, podemos dizer que o interdis­
que vem marcar, nesse exemplo, a exterioridade do enunciável sob a forma de
curso, com o “coerência textual” ou “fio do discurso” do sujeito, é estri­
uma expressão que manifesta a contradição entre dois saberes antagônicos.
tamente um efeito do interdiscurso sobre si próprio, “uma inferioridade
A enunciação por um S de uma formulação com o a [er]34efetua-se por
inteiramente determinada com o tal do exterior” (P ê c h e u x , op. cit., p. 152).
uma passagem à asserção, na qual:
As formas completas de refutação parecem, assim, manifestações
quase-explícitas da existência de uma contradição ideológica no intradis­
• ocorre uma determinação do sujeito do enunciado em relação ao
curso de uma sequencia discursiva.
sujeito da enunciação (S = §>, ou seja, nós); e
Entretanto, isso ocorre quando formas com dois membros contêm
• produz-se, ao término da análise proposta anteriormente, uma se-
uma negação contrastiva, com o em [er]M,ou uma relação antoním ica entre
fv l
quencialização do conjunto dos elementos contidos em P i ' l, em os predicados de dois m em bros (ter m edo da liberdade!precisar da liber­
m dade) com o [er]1?. Se essas formulações funcionam bem “na contradição”,
que um elemento X é identificado como elemento do saber da FD
[er]1(|,de forma E X QUE P^m as É Y QUE P2:
no contexto P, ao passo que um elemento Y é o objeto de uma refu­
tação (isto é, de uma identificação negativa) no que denominamos
Foram os grandes do m undo de outrora que encom endaram
“modalidade de identiticação contrastiva”.
castelos e catedrais, mas foram os ancestrais dos operários de
h oje que os construíram
As formas completas (ou explícitas) de refutação são aquelas nas
quais a estrutura do interdiscurso aparece mais claramente: “os elementos
manifesta uma relação de complementaridade entre as relações predicati-
do intradiscurso que constituem, no discurso do sujeito, o que o determ i­
vas dos dois membros da frase (encom en dar castelos e catedrais!construí-
na, são reinscritos no discurso do próprio sujeito” (P ê c h e u x , 1975, p. 148).
los) que produz um efeito diferente, dc simples contraste.7
O interdiscurso aparece aqui, efetivamente, enquanto pré-construído,
sob a forma de evidências nas quais, em cada uma das duas FD antagônicas,
encontra-se representada “a luta dos comunistas”. 7 O s term os “fu ncion am ento contrastivo” c “efeitos contrastivos”, com base nos quais des­

crevem os as reform ulações de [E] = P 1— 1. foram -nos sugeridos pela análise de G ross (op.
Iy J
Os comunistas lutam pelos trabalhadores, pelo povo, pela liber­ c it.). São , certam ente, m uito gerais para poderem aplicar-se ao m esm o tem po a um efeito
dade vs. Os comunistas querem a divisão do povo, levam a classe discursivo co m o o presente em [er] 17> em que a m odalidade contrastiva de identificação
colo ca bem os term os aristocracia do dinheiro/trabalhadores numa relação con trad itó ria, e
operária, os trabalhadores, à miséria, são contra a liberd ad e... o resultante de [er]^,, cu jo s term os que entram , entretanto, nas classes de su b stitu ição sin o-
n ím icas de aristocracia d o dinheiro/trabalhadores, no caso: grandes d o mundo de outrora!
ancestrais dos operários de hoje são sim plesm ente colocad os num a relação que é, ao m es­
Porém o interdiscurso figura, igualmente, na form ulação enquanto
m o tem p o, contrastiva e com plem entar, tudo isso numa p olítica que destaca no prim eiro
discurso transverso : cruza e conecta entre si os elementos constituídos pelo caso o afron tam en to dc classes e, n o segundo, o com prom isso h istórico.
206 A nálise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 207

(*■*) R efutação por dencgação, refutação por inversão. A inscrição do in­ [er])sO coletivism o que desejaria nivelar as consciências, o re­
terdiscurso só se efetua, entretanto, cm regra geral, de maneira também gim e no qual um pequeno número pensa p o r todos, é b o je que
manifesta no caso dessas formas completas de refutação. O que caracteri­ existe em nosso país.
za efetivamente a forma sujeito, enquanto visa ao mecanismo pelo qual o
sujeito enunciador identifica-se ao sujeito do saber da FD que o assujeita isto e:
(isto é, a descrição de uma posição de sujeito), é que ela tende a m ascarar a
determ inação do intradiscurso pelo interdiscurso, e até a inverter essa de­ O coletivism o (...) é h oje que existe em nosso país, n ão am a­
term inação: os elementos pré-construidos do interdiscurso são incorpora­ nhã (...)
dos ou absorvidos pelo intradiscurso; mas essa incorporação é, ao mesmo
tempo, o objeto de uma dissim ulação (ver Pêch eu x, 1975, p. 152). E ncon­ Se tivéssemos de propor um enunciado dividido que desse conta da
tram os, nas formas de refutação por denegação e por inversão, a ilustração interpretação contrastiva de [er]^ , esse poderia ter a forma:
desse mecanismo.
A forma de refutação p o r denegação pode ser obtida pela supressão de O coletivism o j existe [j h oje 1 I nos países socialistas.
um membro de uma forma completa de refutação; c conservado o membro {não existe J l amanhã) { em nosso país.
que com porta a negação contrastiva, no qual o pré-construído elemento
de saber de uma FD antagônica é marcado por uma identificação negativa. O pré-construído (nominalizável), elemento de saber de uma FD
Tivem os, em [er]19 ,9 , exemplos desse funcionamento. As refutações por antagônica:
denegação obedecem , assim, à forma:

. . . I h o je \ J nos países socialistas [ , . . .


A existencia \ >\------ ------------------------ > d o co letiv ism o 8
{am a n n a } | em n osso pais J
NÃO É Y QUE P (] " \ É X QUE P).
( mas i
poderia ser refutado pelas denegações seguintes:
O elemento exterior ao saber da FD (elemento do discurso do “outro”)
acha-se incorporado no processo discursivo inerente a essa FD com a con­ , J h oie } I nos países socialistas i , . .
N ao e ------ =— ^ 7 f i ------------------------;------ f que o coletivism o existe.
dição de aí ser marcado negativamente. A fronteira entre dois domínios de I a m a n h ai ( em nosso pais |
saber é bem determinada nas formas da identificação negativa.
As formas de refutação p o r inversão são fundadas num outro modo que viriam marcar a fronteira entre formulável e não formulável no interior
de absorção do interdiscurso pelo intradiscurso. São form ulações de tipo: do processo discursivo.
C onstatam os, em vez disso, que onde a refutação por denegação pro­
\e 1 - , cede à incorporação de um elemento “estranho” e antagônico do saber da
E X QUE ?(•; > NAO E Y QUE P), com o em:
1mas j FD no processo discursivo inerente a essa FD, designando-o (pelo N Ã O E . ..

8 Ver an teriorm en te a c ita ç ã o extraíd a de um a carta do episcopad o fran cês de novem bro
de 1973.
208 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 209

QUE) com o elemento de saber antagônico, a refutação por inversão opera, A descrição precedente mostra, efetivamente, que a refutação por dene­
ao contrário, um trabalho no interior d o processo discursivo antagônico. gação m arca, na reformulação, a fronteira entre dois processos discursivos
Esse trabalho acaba, no caso tratado, por trazer de volta o sentido antagônicos, ao passo que a refutação por inversão atua sobre essa fronteira.
do elemento pré-construído, invertendo a correspondência entre os comu- E encontram os, assim, imbricados na existência histórica dos proces­
táveis no interior das classes de paráfrase discursiva próprias ao processo sos discursivos com o objeto de uma AD, o lingüístico e o ideológico: esses
discursivo antagônico; dois modos de reformulação do enunciado dividido, linguisticamente des-
critíveis, vêm m aterializar em discurso as formas nas quais a luta ideológi­
hoje -5— —— ► nos países socialistas ca se manifesta na luta política: como guerra ideológica de p osição, onde
sc>a l|am anha
/ ♦ em nosso pais a refutação faz-se “por denegação” (imitar as palavras do outro, opor suas
palavras às do outro, lutar palavra por palavra, como se avança passo a
o que pode, em seguida, ser o objeto de uma identificação contrastiva: E passo numa guerra de trincheiras); ou como guerra ideológica de m ovi­
h o je qu e o coletivism o existe em nosso país (...)> onde é suprimido o mem­ m ento, na qual os efeitos polêmicos se produzem “ao inverso” (apoderar-se
bro no qual a negação contrastiva incide. de palavras do adversário, delas fazer suas próprias palavras e devolvê-las
Na inversão, a subversão do funcionamento de um processo discursivo contra ele, lutar tomando o outro ao pé da letra ...).
de uma FD dominante no próprio interior desse processo discursivo consti­ A descrição do funcionamento da refutação na reformulação no inte­
tui a condição na qual um elemento do saber pré-construído dessa FD pode rior da FD comunista mostra, por outro lado, que não temos, a partir de
ser absorvido pelo processo discursivo de uma FD dominada, e isso como uma posição dominada em uma contradição desigual, a escolha das armas
se fosse um elemento de saber próprio a esta última: é a razão pela qual o ou, mais exatam ente, a escolha das palavras: quer se trate de refutação por
elemento sobre o qual a inversão foi efetuada se acha enquadrado por E ... denegação ou inversão, os elementos a refutar impõem-se à refutação devi­
QUE na formulação e recebe, assim, a interpretação “tema de discurso”. O do às posições ideológicas hegemônicas a partir das quais são produzidos.
efeito de referência próprio ao funcionamento metadiscursivo de E X QUE Por esse motivo, a caracterização em termos de “marcas de rejeição”
P coloca-o, dessa forma, em posição referencial X no saber da FD em que o das formas lingüísticas que estudamos só se mantém numa óptica diferen­
pré-construído se acha incorporado. cial e fundamentalmente não dialética; ao contrário, o que o estudo do
Poderíamos, assim, ter igualmente funcionamento das formas de refutação numa FD indica é que estas são
igualmente o traço material da presença do outro, do exterior ao interior de
E em nosso país (não nos países socialistas) qu e o coletivism o si e que marca com uma rejeição ou uma recusa do outro (na constituição
existe hoje. de sua “individuação”); as FD que são os objetos não têm outra existência
senão a de uma unidade dividida; e se devemos atribuir-lhes uma fronteira,
c) Dominação ideológica, existência de uma FD e fronteira entre FD convém logo precisar que essa fronteira passa no interior delas próprias.
O conjunto das descrições anteriores vem, assim, justificar a segunda
As formas materiais de existência dos efeitos polêmicos no discurso parte da tese lembrada anteriormente; o domínio de saber de uma FD do­
que são a denegação ou a inversão levantam, cada uma à sua maneira, a minada constitui-se em uma forma determinada de dom inação ideológica
questão da existência de uma FD no seio de uma contradição ideológica que atribui temas às formulações (a existência d o coletivism o, a política
determinada, isto é, a questão da atribuição de uma fronteira entre esses dos com unistas co m o artim anha, violência, a m udança co m o perigo, o
objetos que são as FD.
210 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 211

m aterialism o co m o d iv isão...) e a r tic u la ç õ e s (as fo r m a s d ife re n te s d e re fu ­ A ordem de sintagm atização dos elementos no intradiscurso de uma

t a ç ã o c o m o r e fo r m u la ç õ e s de u m d a d o e n u n c ia d o P 1 — 1). seqüência discursiva aparece, portanto, de novo, nos exemplos acima,


1YJ como regulada pela própria estrutura do interdiscurso: o fato para este ou
Podemos, aliás, destacar, na estrutura sintática das formulações que aquele elemento aparecer em primeiro lugar (como “tema de frase” nos
vêm reformular um enunciado dividido no intradiscurso de uma seqüência exemplos que acabam de ser dados) não depende, de forma alguma, dos
discursiva, outros traços, no interior de uma FD dom inada, do caráter de­ atos, escolhas ou decisões de um sujeito enunciador, mas exatam ente de
sigual da contradição ideológica na qual se situa. Por exemplo: uma configuração determinada de saber no interdiscurso, na instância do
que denominamos “a exterioridade do enunciável”.
(1) nas formas completas de refutação, a anterioridade do mem­ Essa é a razão pela qual a adoção de uma perspectiva estritamente in­
bro no qual figura a negação contrastiva sobre o membro sem tradiscursiva tal como a que certas análises de discurso, as gramáticas de
negação, produzindo o efeito de uma réplica im ediata em um textos, certas pesquisas pragmáticas e sobre a argumentação privilegiam,
diálogo simulado:’ parece-nos inadmissível no âmbito de uma análise de discurso que seguisse
os caminhos teóricos que esboçamos. Ela só viria, efetivamente, registrar o
Você diz que lutam os contra os trabalhadores? Claro qu e não! que designamos com o o plano em que se desenrola o imaginário no discurso,
N ão é contra eles, m as p or eles tam bém que lu tam os... isto é, onde a forma-sujeito realiza a incorporação/dissimulação de elemen­
tos pré-construídos a partir de uma estrutura de enunciado determinada no
(2) a recorrência nas formulações de interpretação contrastiva de interdiscurso: todo um conjunto de noções geralmente utilizadas em análise
estruturas sintáticas de tipo deslocamento + pronom inaliza- do discurso ou em lingüística na descrição do “fio do discurso”, e que são
ção, cujo constituinte extracolocado provém de um elemento todas fundamentadas na ordem de aparecimento e de sucessão dos elemen­
pré-construído de saber antagônico que se impõe à form ula­ tos na cadeia, seja no interior da frase (como as noções de “tema de frase”,
ção pelo efeito da dominação ideológica, em uma espécie de ou de “tópico” em algumas de suas acepções), seja no enunciado contínuo
tom ada pela palavra obrigatória, em eco: (como a oposição “dado/novo” introduzida por Halliday, ou, ainda, o fun­
cionamento da correferência nas relações interfrases) devem, assim, ser con­
A violência (já que é preciso falar d ela, já q u e você aca b a de sideradas como os traços lingüísticos da produção do sujeito com o efeito na
falar n ela...), não é de nós que ela vem (...) formulação, e não como elementos primeiros a partir dos quais um sujeito
enunciador viria compor sua palavra.
ou ainda: Um outro exemplo disso é dado pela utilização, em certos casos,10 da
noção de pressuposição na descrição lingüística ou, ainda, em tentativas
O coletivism o (já que você fala nele, já que a qu estão não p od e recentes que visam a dar à análise do discurso uma base pragm ática; por
ser evitada), é h o je que ele existe em n osso país. exemplo, na análise que Kiefer (1974) faz disso, uma frase em E ...Q U E de
interpretação contrastiva como (1) só seria descritível a partir do conjunto
de suas pressuposições (la )-(lc ) comportando uma “pergunta” (lb ) e uma
“resposta negativa” (lc):
9 R eexam in arem o s, na conclusão, a questão do diálogo com o form a im aginária da co n ­
tra d içã o entre duas FD. Na zona de funcionam ento discursivo que estudam os aqui, não 10 A qui, fazem os alusão à pressuposição ligada ao fu ncionam ento sin tá tico da frase, e n ão à
podem os d eixar de co n sta ta r que o “d iálogo” funciona co m o “d iálogo de surdos” . p ressuposição lexical.
212 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 213

(1) É o socialism o que querem os para a França. \ líHilTOS DE REAL E DE SABER NAS IORMULAÇÕES DE
(la) Q uerem os algo para a França. INITÍRPRETAÇÃO CONSTATIVA E DÊITICA
(lb ) O qu e qu erem os para a França?
(lc) N ão é a barbárie que qu erem os para a França. 11.1 O FUNCIONAMENTO CONSTA1TVO: EFEITO DE REAL E APELO A UM SA BER

O ra, revela-se, ao fim das análises realizadas quanto às reformulações Considerando apenas por ora as formulações em E X QUE P, atri­

possíveis de [E] = P |— 1 no intradiscurso de uma seqüência discursiva buímos uma interpretação constativa a certas [er] a partir dos critérios

^^ ^ — fX 1 »cnuintes:
dominada por uma FD em que [E] — P j — | é um elemento de saber, que

o conjunto de reformulações (l)-(lc ) vem manifestar diversos modos de • p a rá fr a s e p o ssív el de É X QUE P p o r HA X QUE P;
incorporação/dissimulação de elementos pré-construídos no intradiscurso. • p re se n ç a ou in s e r ç ã o p o ssív el de tam bém à d ire ita de E;
Assim, (la) e (lb ) realizam, sob as modalidades da asserção e da interroga­ • presença eventual (ou inserção possível) de uma seqüência de
ção, a supressão da antonímia {so cia lism o /b a rb á rie} , isto é, o esvaziam en­ constituintes em posição X .
to do lugar ocupado pelos elementos referencialmente contraditórios no
ou nos domínios de saber em questão." (1) e (lc) constituem dois modos A fo rm u la ç ã o
de dissimulação, a partir da forma de refutação completa (ld ):
[er]1t Era a assem bleia plenária d o ep iscop ad o que declarava
(ld) E o socialism o, não a barbárie, que querem os para a França. há quatro anos: (inserção de discurso citado)

do interdiscurso no intradiscurso, por supressão sintática de um ou de outro atend e a o s d o is p rim e iro s c rité r io s p ro p o s to s. A v arre d u ra d o in te rd is c u r­
membro da forma completa. O que Kiefer caracterizava com o pressuposi­ so, c o n s titu íd o em d o m ín io de m e m ó ria , leva à c o n s tr u ç ã o a p a r tir d e [e r]36
ção (enquanto condição de possibilidade semântica de uma frase com o (1)) da rede de fo rm u la ç õ e s R [ c j : c u ja d e s c riç ã o d e ta lh a d a fa z e m o s em o u tr o
aparece, assim, em nossa perspectiva como um efeito vinculado á supressão te x to (C o u r tin e , 1980, p. 300-306).
sintática d e elem entos pré-construídos na linearização de um enunciado. As configurações de paráfrase discursiva que se podem destacar a par­
Fazer de (lc) uma pressuposição de (1) eqüivale, assim, a colocar um
tir de tais tipos de R [e] diferem da forma P j — ! observada no caso do fun-
efeito im aginário em posição de causa real, isto é, a produzir a teoria im a­ 1Y J
cionamento contrastivo, uma vez que:
ginária de um efeito subjetivo, repetindo o imaginário no imaginário.

• as fo r m u la ç õ e s q u e n elas fig u ram n ã o têm fo r m u la ç ã o a n ta g o ­


n is ta d ir e ta m e n te c o rre sp o n d e n te em um p ro c e ss o d iscu rsiv o
c o n tr a d itó r io : e la s m a n ife sta m o acréscim o d o s e le m e n to s de um
s a b e r e n ã o a c o n tr a d iç ã o e n tre e le m e n to s de s a b e r;
• correlativamente, os elementos que nelas se inscrevem em posi­
ção X não são de forma alguma antônimos mas, ao contrário,
11 R eexam in am o s mais adiante, a prop ósito das form as em O Q U E P É X , as n oções de compatíveis, adicionais, cumuláveis e sobretudo enum eráveis.
anulação ou de esvaziamento de elem entos de um saber.
214 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 2 15

a) Forma do enunciado e posição de sujeito é uma condição de ocorrência e de interpretação das formulações de forma:

Afirmaremos que se pode caracterizar uma forma em E X QUE P


i F l X QUE P
com o constativa no intradiscurso de uma seqüência discursiva dominada HÁ
pela FD de referência, se for possível localizar e reconstruir, no interdiscur­
so dessa FD, um enunciado de forma
de tal modo que se pode destacar a regularidade generalizável dentro do
processo discursivo:
X,

i X,
X2 >1 ■ « M X ! (e tam bém X 2) QUE P
[h a J
X2
O enunciado apresenta as características seguintes:

(4) Essa regra opera, na zona de repetibilidade que ela rege no seio do proces­
(D { X , , X 2}
so discursivo, a lembrança e o acúmulo dos elem entos do saber próprio da FD.
(5) A especificidade da posição do sujeito que está ligada a esse tipo de
nele figuram com o posições referenciais, na base de formulação P, ocupadas
funcionamento do enunciado é devida ao fato de que o sujeito do saber
dentro de um processo discursivo dado por um conjunto X de elementos
próprio de uma FD se relaciona ao sujeito enunciador da form ulação pela
compatíveis e enumeráveis.
enumeração dos elementos pré-construídos específicos ao saber dessa FD ;
Seja X = {a ,b ,c ,d ,e ,f,...} de tal modo que {a —> b} {b —» c . .. }
com efeito, P X , e P X 2 constituem de fato duas expressões remetendo a SU,
de tal modo que se poderia anotar tal posição do sujeito da seguinte forma:
X,

(2) P i SU
X, i
SU

recebe assim a interpretação: “Os elementos (morfemas, sintagmas, for­


mulações) em posição referencial {X ,, X 2} na base de form ulação P são Ela se caracteriza pelo fato de que a interpelação do sujeito enunciador
enumeráveis” . pelo sujeito do saber que produz a lembrança e a enumeração dos elemen­
tos do saber está oculta, no intradiscurso, por um efeito de descrição ou
X, constatação do real pelo sujeito enunciador:

(3) P i
(Eu con stato que) j é \^a,e tam bém b que fazem A, e tam bém c,
X2
\bá) d, que fazem B ...
216 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 217

Chamaremos de p osição constativa d e sujeito o que acaba de ser des­ ciai (eventualmente sublinhado por precisamente, som ente, unicam ente...)
crito. A posição constativa de sujeito figura, ao lado da posição polêmica de que se liga ao elemento aparecendo em posição enquadrada por E ... QUE.
sujeito, com o elemento de descrição da forma sujeito na FD de referência.
- Em uma form ulação como:
b) A constituição da referência no funcionamento constativo: coleção
e enumeração dos elementos de um saber [er], E depois, ao sair do trabalho, é o am on toam en to nos
m eios de transporte, são as más condições de m oradia, as mil
(1) M odo antoním ico vs. m etoním ico de constituição da referência e um a preocu pações das fam ílias que vêm aum entar o cansa­
ço, o nervosism o.
O funcionamento constativo das formas em E X QUE P opõe-se assim
ao funcionam ento contrastivo descrito anteriormente. os constituintes enquadrados por E . . . QUE na formulação figuram em po­
sição referencial no enunciado, na medida em que pertencem a uma classe
- Em uma form ulação como: referencial X cujas propriedades observamos ao indicar que os elementos
que a compõem, sem ser equivalentes, são “compatíveis” e “enumeráveis”.
[er]]í( A violência, não é de nós que ela vem. Em oposição ao caso precedente, poder-se-ia caracterizar o funciona­
mento de uma form ulação de tipo [er], com o funcionam ento intensional :
os constituintes que aparecem em posição de tema de discurso estão em na perspectiva de Quine (op. cit.), a interpretação intensional de um enun­
posição referencial no enunciado, no sentido em que constituem os ele­ ciado implica que a com utação dos nomes em uma posição determinada
mentos de uma classe referencial X que coexiste no processo discursivo de de argumento (neste caso: o am on toam en to nos m eios de transporte...)
referência com uma classe referencial Y cujos elementos são antagonistas não leva a uma distribuição diferente dos “valores de verdade”, mas à
aos elementos de X . produção de um enunciado diferente e, não por isso, contraditório com o
Poder-se-ia falar assim, nos termos de Quine (1960), de um funciona­ enunciado de partida (referência oblíqua nos termos de Frege). Poder-se-ia
mento extensional de uma formulação como [er] sabe-se que, de maneira dizer que o predicado em P está distribuído nos valores de X (é “verdadei­
geral, a extensionalidade define-se por meio do critério de-substitutibilidade. ro” para X , mas tam bém para X 2, X v .. X J .
Um enunciado declarativo simples é extensional na medida em que ele é sus­ A forma
cetível de receber um “valor de verdade” e que, quando se troca o argumento,
essa substituição implica, conforme os nomes pertencerem ou não à mesma X,
classe, uma não modificação ou, ao contrário, uma modificação do valor de 1
verdade. Poder-se-ia dizer ainda, na terminologia de Frege, que eles referem
X2
de maneira direta.
Isso remete, portanto, ao que caracterizamos como um modo antoní­
registra assim um outro modo de constituição da referência das expressões
m ico de constituição da referência no processo discursivo. Essa particulari­
no processo discursivo inerente à FD: designaremos esse tipo de construção
dade, ligada à forma do enunciado, vem explicar a presença da modalidade
com o modo m etoním ico de constituição da referência das expressões.
contrastiva de identificação na formulação (que já apresentamos sob a forma

do operador 1 — >mencionado anteriormente) e o efeito de unicidade referen­


218 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 219

É o fato de uma expressão determinada (morfema, sintagm a, form u­ i) x ,y , Z ...}


lação) pertencer a uma classe referencial de tipo X que determina a pos­ ii) X ,Y ,Z ...}
sibilidade de tal expressão aparecer em posição de tema de discurso, em
uma form ulação apresentando uma modalidade descritiva (ou constativa) “Há x que fazem X . Fazem Y. Há y que fazem X . . . ” (op. cit., p. 61-62).
de identificação. O operador de identificação (E) toma então um valor di­ H á, entre essa perspectiva e a nossa, numerosos pontos de convergên­
ferente, que anotarem os por e e l , interpretável da seguinte forma: cia: um conjunto de elementos criticos no que diz respeito a certas noções
ou certos procedimentos em AD, uma referência comum à A rqueologia do
é tam bém saber e ao trabalho de M . Pêcheux, uma isomorfia dos níveis de descrição
X e el P = • •x • ■que faz P observados; um acordo sobre os objetivos dc uma análise do discurso...
há entre outros Quanto a certas noções utilizadas, as duas problemáticas fornecem certa­
mente variantes (aceitabilidade discursiva aqui mesmo/noção de co-pos-
sibilidade em {Z, £ ’}...)• O que as distingue parece ser uma inversão de
Isso mostra o efeito de não um ctdade referencial (que pode ser subli­
dom inância na perspectiva: nossa pesquisa é de dom inante interdiscursiva,
nhado pela presença de tam bém ) carregado pelo elemento enquadrado por
centrada nas condições de form ação dos elementos do saber de uma FD,
É ... QUE nas formulações de interpretação constativa, e justifica o caráter
dando a primazia às contradições ideológicas constitutivas do interdiscur­
m etommico (X está ligado a, contíguo a outros elementos) atribuído à re­
so em que os enunciados se formam, enquanto tais preocupações são teori­
ferência desse tipo de expressão.
camente possíveis, mas praticamente ausentes do quadro de descrição ado­
tado por M arandin. Daí uma insuficiência da caracterização do enunciado.
(2) Classes referenciais com o coleções e enunciado no trabalho de J.-M.
Ao invés, todo o interesse de sua tentativa aparece na descrição do
Marandin
sistema das O F (operações de form ulação), concebido como um sistema de
conexões S , , S 2, S , , S4 organizando um conjunto de enunciados co-possí-
Notem os enfim que se encontra no trabalho de J.-M . M arandin (1978)
veis em um efeito-subjetividade e determinando assim um quadro global
uma concepção do enunciado que se deve aproxim ar do caso que acaba­
de interpretação entre frases: o trabalho dc M arandin manifesta uma d o ­
mos de observar. Ele concebe, com efeito, sua noção de “maneira de falar”
minante intradiscursiva; essa dimensão é teoricamente presente, mas de
sob a forma de tres sistemas de conexões de frases, cujo primeiro consiste
fato secundária em nossa própria pesquisa. O que reduz o plano do intra­
em um conjunto {Z, £ ’} d e enunciados co-posstveis, não equivalentes e
discurso a consistir apenas na ocorrência pontual de um enunciado sob a
interconectados, que definem o saber próprio de uma FD.
forma de uma reformulação que, muitas vezes, limita-se a uma frase: essa
O autor precisa da seguinte forma: “o conjunto de enunciados co-
insuficiência de definição da noção de form u lação não nos parece consti­
possíveis define-se através de um duplo conjunto de ‘ocorrentes’ e de ‘exis­
tuir um defeito a ser reparado em nosso procedimento e será o objeto de
tentes ( .. .) ’ , isto é, duas coleções de termos que não constituem um para­
desenvolvimentos ulteriores.
digma, mas uma lista (um vocabulario) na qual são construídas seqüências
A forma geral (há x que fazem X . .. J que M arandin da ao enunciado
discursivas. O que caracteriza esses elementos é o fato de que a relação
está próxim a das glosas que nós mesmos temos proposto, na forma
pertinente que os une define-se pelo fato de pertencer a essa coleção, sem
que esse pertencer faça apelo a sua definição lexical ou a modifique. Es-
quematicamente:
220 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 221

X, Essa omissão do enunciado dividido é correlativa do esquecimento das


contradições constitutivas do interdiscurso formando o elemento externo
i
específico do “discurso francês sobre a C hina”: o discurso pró-chinês for­
X,
mou-se em op o siçã o ao discurso pró-soviético.

A definição que ele dá a partir da existência de uma dupla lista de — A noção de “coleção de ocorrentes e de existentes” abrange, por outro
ocorrentes e existentes como coleções d e term os, caracterizados pelo fato lado, na zona estudada de funcionamento discursivo (em que aparecem
de que a relação que os une está definida como pertencer a essa coleção, r, \
formulações em < y > X QUE P), dois tipos distintos de classes referen-
vem ao encontro da propriedade de com p atibilidade dos elementos em
|HAJ
uma classe referencial a partir da qual nos aproximam os da questão da ciais, que se podem diferenciar a partir da propriedade de enum erabilidade
constituição da referência no caso das formulações constativas. dos elementos dessas classes, que acoplamos com a de compatibilidade.
Essa caracterização da forma geral de um enunciado nos parece, con­
tudo, insuficiente; com efeito Isso pode ser apreciado a partir das características das enumerações
íÉ ]
de constituintes em posição X nas reformulações em •! VX QUE P.
- Ela faz da definição em termos de coleção de ocorrentes e existentes a
propriedade da forma geral de tod o enunciado; omite assim a possibilidade
I HÁ J
Em [er]33, por exemplo:
de outras formas de enunciado, com o P j ^ ! caracterizada mais anterior-
1YJ Pois são hom ens e mulheres, trabalhadores, pessoas sim ples
mente, que, porém, parece estar de acordo com a repetibilidade dentro do
que sentem esse desespero e essa aspiração.
processo discursivo inerente à(s) FD(s) que dominam a “maneira de falar
M accioch i”:12
os constituintes enquadrados por E ...Q U E são enumerados na form ula­
ção em uma ordem indeterminada, que pode ser mudada. Os constituintes
A revolução cultural é uma estratégia do desenvolvimento
enumerados podem ser conectados por e tam bém .
na área econômica, ainda não é o desenvolvimento (...)
Em contrapartida, em [er],:
Os chineses vêem na tecnologia não o fascinante “fruto
proibido”, mas uma nova barbárie (...)
E depois, ao sair do trabalho, é o am on toam en to nos m eios
E isso, o desafio chinês. Não é a agressão ou a guerra (...)
de transporte, são as más condições de m oradia, as m il e uma
A ditadura do proletariado não é um período idílico. Refe-
p reocu p ações das fam ílias que vêm aum entar o can saço, o
rimo-nos em Lênin: “A ditadura do proletariado é a guerra
n ervosism o.
mais heróica (...)”
E de acordo com esse ensinamento que os chineses colo­
os constituintes em posição de tema de discurso são enumerados em uma
cam a batalha ideológica em primeiro plano (...)
ordem determ inada, a do desenvolvimento temporal de um processo, que
não pode ser mudada sem que se perca o “sentido” da enumeração. Os
constituintes enumerados podem, nesse caso, ser conectados por e depois

12 Ver M a ran d in (1978, p. 57-73).


ou por e em seguida.
222 A nálise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 223

Podemos afirmar que tais diferenças na reformulação, diferenças que são em que { X j, X 2} são ocupados por elementos pertencendo à classe referen­
generalizáveis no conjunto do corpus discursivo, implicam necessariamente, cial X , de tal modo que X = a, b, c, d ... e que se possa ter:
no nível do enunciado, a existência de classes referenciais distintas e de rela­
ções distintas entre as posições referenciais { X p X } , o que tem abrangido até {aíbeced,..}
então a forma geral
mas também
X,

i {b e c e a e d ...}
{b e a e d ...}
X,
{d e c}
{b}
que aplicamos ao enunciado no funcionamento constativo.
Chamaremos de enum erações-coleções as classes referenciais de que são
extraídos os elementos enumerados em [er]„ e de enum erações ordenadas as
—Propriedades das reformulações das enumerações-coleções:
classes referenciais das quais são extraídos os elementos enumerados em [er]r.
Isso nos leva a cindir em duas formas de enunciado próxim as uma da
As reformulações em
outra, mas operando a distinção que acaba de ser feita, a forma única até
então proposta.13
X,
E
X QUE P de [El = P e
X, [ há
X,
i
X,
apresentam enumerações de constituintes em posição X que têm as pro­
priedades seguintes:
c) Enumerações-coleções e enumerações ordenadas
1) a presença dos elementos na enumeração é determinada ape­
(1) Enum erações-coleções nas a partir da propriedade: “compatibilidade do elem ento na
co leção ”;
— Forma do enunciado:
2) a enumeração é não limitada;
3) podem-se acrescentar ou tirar elementos; pode-se igualmente
X, inverter a ordem de aparição dos elementos na enumeração;
[Ê] - P e 4) elas podem comportar, a título de elementos de coleção, partes

X2 de enumerações ordenadas (no sentido definido a seguir);


5) a coordenação entre os elementos da coleção é um acréscimo
13 As ca ra cterística s gerais da form a do enunciado no fu ncion am ento constativo se m antêm , simples de tipo e tam bém .
tod avia, nessas duas form as.
224 A nálise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 2 25

- Exem plo de enumeração-coleção: clica; a recente encíclica; o papa Jo ã o XX1I1; J o ã o X X Ill; os


bispos; a Federação Protestante da França; um núm ero cres­
Encontrar-se-á no R [e]3# ( C o u r t i n e , op. cit., p. 300-306) um exemplo cente de cristãos; a Igreja da França; o docu m en to assinado
de tal enum eração-coleção. Os elementos que entram nela estão em posi­ p o r D om H elder C âm ara; a declaração final d o en co n tro...}
ção de SN sujeito em uma base de formulação:
Tal classe, constituída a partir de formulações extraídas do conjun­
citação to das seqüências discursivas do domínio de m emória, não é uma clas­
seqüência em discurso indireto se am orfa. O que cham am os de compatibilidade entre os elementos da
SN , + V delocutivo +
nominalização classe consiste aqui para cada um deles em entrar na coleção dos nomes
para + V inf que, no discurso de aliança do Partido Com unista, remetem ao conjun­
to dos indivíduos, porta-voz, escritos de fonte e natureza diversas através
dos quais volta ao sujeito enunciador, com o em um espelho, o eco de sua
que introduz nas seqüências discursivas dominadas pela FD comunista,
própria fala: todo o conjunto das declarações relatadas introduzidas no
sob forma de citações, sequencias em discurso indireto, nom inalizações de
intradiscurso das seqüências discursivas por esse tipo de form ulação é de
form u laçõ es..., as palavras relatadas do alocutário não comunista ao qual
o discurso de aliança é dirigido. declarações favoráveis, como testemunho da repercussão da política da
mão estendida” para quem essa política se dirige.
Seja, portanto, a enumeração-coleção das SN ,, extraída de R [e]w:
E em primeiro lugar para os cristãos. Não vamos fazer nestas paginas a
análise detalhada, por meio das redes de formulações representando o pro­
X = {o vigário de lvry; o jorn al “O sservatore R o m a n o ”; m ui­
cesso, das condições históricas de formulação e transform ação dos elemen­
tos católicos; centenas de hom ens e de m ulheres católicos;
tos que compõem esse processo: as redes que temos constituído servirão
qu ase tod os os catolicos; alguns de nossos correspondentes,
de base a desenvolvimentos ulteriores de nosso trabalho nessa perspectiva.
tal co m o esse p ai de fam ília de Lille; num erosos padres; o es-
Queremos, entretanto, sublinhar a estabilidade, por meio do conjun­
m oler d e um a escola livre de N ice; o sen hor padre de lvry;
to do processo discursivo, da representação dos católicos inscrita no do­
centenas d e católicos, entre os quais num erosos padres; uns,
mínio de memória da FD comunista. Uma leitura rápida, no seio da classe
outros; um pai d e fam ília, católico praticante; um jovem p a ­
acim a, do conjunto dos determinantes que acompanham os N [+ catolico],
dre; um velho vigário de província; tod os ou qu ase tod os os
vem precisar a estruturação da coleção X .
diários ou sem anais; num erosas revistas; L éon Blum; o cid a­
Os cristãos aos quais se faz referência são numerosos (m uitos catoli­
d ã o Henri Guernut, radical so cia lista ...; “l ’Ère n ou velle”, jo r ­
cos, centenas de hom ens e de mulheres catolicos, quase tod os os catolicos,
nal dirigido p o r radicais; a enciclica “Rerum N ovaru m ”..., a
num erosos p a d res...) e diversos: são determinados por um conjunto de ca­
ultim a encíclica; o R. P. D ucatillon; um padre católico; um
racterizações opostas que atestam sua diversidade; são membros da classe
católico, M arc Scherer; a m aioria dos católicos qu e encontra­
eclesiástica (o vigário de lvry, num erosos padres, os bispos, o p a p a ...) mas
m os; M . P. C haillet, diretor de “T ém oignage ch rétien ”; o papa
também cristãos laicos (m uitos católicos); são homens, mas tam bem mu­
Pio X/, o escritor catolico J. .VIaritain; o R. P. P.hilippe, m em ­
lheres (centenas de hom ens e de mulheres católicos); diversidade de sexos,
bro da A ssem bleia consultativa; o jorn al católico d a região
e também diversidade de idades {um jovem padre/um velho vigário de p ro­
d o L o t “La vie quercyn oise” do -2 de dezem bro de 1944; a voz
víncia); vêm de todos os cantos da França, tanto da cidade com o do campo,
autorizada d o p ap a; a encíclica; o docu m en to; o p a p a ; a encí-
226 A nálise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 227

tanto dos subúrbios operários como da França rural (o vigário de Ivry/um (2) Enum erações ordenadas
velho vigário d e província), e até das duas extremidades do pais (um pai
de fam ília d e Lille/o esm oler de uma escola livre de Nice)-, atendem enfim a X,
um nom e, signo irredutível de diversidade (o R.P. D ucatillon; um católico, Forma do enunciado: E = P i •
M arc Scherer; M. P. C haillet; o escritor ]. M aritain. . .).
A estrutura de uma classe referencial desse tipo mostra a produção
x,

dos efeitos de real na formulação: uma reformulação em •:


ÍÉ 1
> X QUE cm que { X j, X 2} são ocupados por elementos pertencendo à classe referen­
lh á J
cial X de tal modo que X = {a, b, c, d }, mas também:
P consiste assim na extração de um elemento determinado da classe dos
X e em sua identificação enquanto elemento pertencendo à coleção, entre
os demais objetos da coleção (que podem eventualmente ser enumerados). {oa .b >c
{«a -> uc }
Esse efeito de real é contemporâneo de um modo de interpelação do
sujeito enunciador pelo sujeito do saber da FD que o coloca em p osição (oa - »
{a}
de testemunha-, o mundo, na pluralidade e diversidade de seus objetos,
oferece-se à vista “dos que têm olhos para ver”. O saber, presente nesse
- Propriedades das reformulações das enumerações ordenadas:
efeito com o coleção de expressões entrando no enunciado, apaga-se dian­
te da “realidade” com o coleção de objetos, que se exibe por si mesma.
As reformulações em
E se encontra assim, na análise de processos ideológicos determinados,
a vocação de um saber a abranger a diversidade do real, particularizar a
percepção deste, fornecer a lista deste como se se tratasse de um catálogo ÍÉ i
de objetos calculáveis e enumeráveis, e ao mesmo tempo a dissipar-se atrás <1 , S > X Q U E P d e E = P i
LHAJ
“do que cada um pode ver”: os efeitos ideológicos observáveis no tipo de X2
funcionam ento discursivo que acaba de ser descrito inscrevem no discurso
comunista as figuras conjugadas do em p in sm o e do nóm inalism o. apresentam enumerações de constituintes em posição X que têm as pro­
Ao mesmo tempo, talvez, que a própria estrutura desse saber como priedades seguintes:
coleção, na estruturação particular da classe referencial X dos N [+ cató ­
lico], vem marcar um modo de contato mais discreto entre FD dominante (1) elas são tais que se pode sempre determinar uma posição para
e FD dominadas: afinal, as características desses católicos que atendem à um elemento da enumeração;
chamada dos comunistas não correspondem, traço por traço, à definição (2) elas são limitadas, isto é, compreendidas entre um elemento de
jurídica d o indivíduo nas categorias do estado civil (ter um nome, um sexo, origem (de posição: 0) e um elemento limite (de posição: UJ).
uma idade, um d om icílio...) do direito burguês? Os limites podem ser linguisticamente marcados;
(3) podem-se apagar e acrescentar elementos na enumeração, à
condição de que ocupem sua posição;
(4) a inversão dos elementos, a princípio, é impossível;
228 Análise do discurso politico Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 229

(5) tais enumerações têm um sentido, uma direção: efetuam um ...{^ eco n ô m ic o] [social] 2[p olítico] 3[id eológ ico] u[m oral ] };
percurso por elementos ocupando posições determinadas. A { . . . 0[classe operária] [em pregados] J cam pon eses ] 3[enge­
interpretação da conexão entre os elementos depende do sen­ nheiros e técnicos] 4[docentes e artistas] w[classe m édia]} (in­
tido do percurso efetuado. terpretação: hierarquização das instâncias de uma tópica).

— Exemplos de enumerações ordenadas: (2) M arcação do elem ento-origem e do elem ento-lim ite

A presença de enumerações ordenadas de um certo tipo no intradis­ Os elementos de posição 0 e de posição U), que abrem e fecham a estru­
curso das sequências discursivas dominadas pela FD comunista nos parece tura de ordem que constitui a enumeração ordenada, podem ser marcados:
uma característica im portante do “discurso com unista”. Tais enumerações
funcionam , com efeito, como signo de reconhecim ento maior desse tipo de - por extraposição
discurso. Podem-se encontrar enumerações ordenadas de SN, SV e Sprep e
equivalentes no intradiscurso da sdr. Com a classe operária, a União do Povo da França são os em ­
Elas têm as características seguintes: pregados, os cam poneses (...)

(1) Percurso determinado por uma ordem e interpretação da enum eração —ou por uma forma sintática de contraste

Por exemplo, percurso sobre a ordem das etapas do desenvolvimento Esta crise não é som ente econôm ica, é tam bém social, p o lí­
de um processo: tica (...)

. . . { 0[as am eaças ] J a violação dos direitos sindicais) ,[a re­ para o elemento-origem. Q uanto ao elementq-limite, trata-se muitas vezes
pressão] T[as sanções]} J o s problem as] J a s dificulda­ de um elemento recapitulativo, abrangendo a enumeração (o conjunto dos
des] u[o so frim en to ]}... (interpretação: sucessão temporal e trabalhadores).
agravamento); S As enumerações-coleções e as enumerações ordenadas aparecem assim
... {0[o protesto] greve] u)[<j luta sob todos os seus aspectos]} como dois modos complementares de constituição da referência das expres­
(interpretação: agravamento e generalização); sões pelas quais uma FD mostra a “realidade” e o “mundo das coisas”: nas
. . . { B[um sistem a escolar arcaico] t[a segm entação social] w[o enumerações-coleções se reflete no saber de uma FD a pluralidade e a diversi­
d esem p reg o]...} (interpretação: sucessão temporal e desenca- dade dos objetos do mundo; nas enumerações ordenadas, a FD de referência
deamento das conseqüências); coloca esses objetos em ordem, organiza o mundo através do cúmulo e da or­
...{ [ s a i r d o trabalho] [am on toam en to nos m eios de transpor­ ganização dos elementos pré-construídos de seu saber. Se, no primeiro caso,
te] Jjn á s con dições de m oradia] J^mil e um a p reocu p ações das ela tem por vocação abranger a totalidade do real, tende, no segundo caso, a
fa m ília s]} ... (interpretação: sucessão temporal e mudança de ordená-lo.
localização).

Por exemplo, percurso sobre uma tópica:


230 A nálise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 231

3.2 F u n c io n a m e n t o d ê i t i c o e c o e r ê n c ia i n t r a d is c u r s iv a
De fato, a partir de um enunciado [E] — P j ^ J P °^ er_se' ' a sum aria­

N ão vamos entrar aqui no detalhe da análise do funcionam ento dêiti­ mente descrever esse mecanismo assim (essa descrição vem com pletar a

co de E X QUE P, na medida em que este, ao contrário dos funcionam en­ i|ue foi iniciada anteriorm ente; ela visa mais precisamente o “desencadea-

tos contrastivos e constativos estudados anteriorm ente, m arcados por uma mento” de uma frase clivada de identificação equativa a partir de P j ^ i j .
dominante interdiscursiva, parece-nos um procedim en to intradiscursivo,
Seja, no interdiscurso, o enunciado dividido:
da ordem da reformulação, pelo qual o sujeito enunciador liga uns com os
outros, no “fio de seu discurso”, os elementos pré-construídos do interdis­
[£] = p |X_j como elemento do saber da FD:
curso: o funcionamento dêitico reforça a coerência textual colocando em
posição de tema de discurso um elemento anafórico tendo em seu campo
um pré-construído. f x
1) Esvaziamento de um lugar determinado de P |— , isto e, anu-

lação de um saber:
3.3 “o q u e f É x/x, É o que f " : e f e it o s d id á t ic o e d e f i n i o o n a l

OQUEP
Essas formas são reformulações particulares das formas contrastivas e P( ) = • mas tam bém
constativas do enunciado, como as formulações em E X QUE P nas quais a [ O QUE P?
atenção tem sido centrada até agora. Mesmo que não provenham de um enun­
ciado diferente, dão testemunho, entretanto, no intradiscurso das seqüências
2) Preenchimento do lugar esvaziado, isto é, retorno de um saber
discursivas dominadas pela FD comunista, de modalidades diferentes da rela­
mediante uma modalidade contrastiva de identificação:
ção de identificação e estão na origem de efeitos discursivos específicos.

a) O QUE P É X P( )

Nessas formulações, a relação de identificação se realiza em uma for­


ma sintática que coloca com o tema de frase a nom inalização em O QUE O Q U E p j 1' u m i
In à o é J m y J
P, com o elemento a ser identificado, e um pré-construído em posição X de
tema de discurso focalizado.
Descrevemos anteriorm ente a relação de identificação com o uma mas também
relação orientada, Idado e Idante, originando-se a partir de um lugar
sem anticam ente vazio que se encontra “preenchido” por um operador de
O QUE P?? j É l - ( —1
identificação (a respeito do qual mostramos que podia abranger valores \n ã o é í g I y J
diferentes nos funcionam entos contrastivos e constativos das form as de
identificação) que coloca esse lugar vazio em correspondência com um
elemento identificador.
232 Análise do discurso político Efeitos discursivos: co n trad ição , real e saber 233

A form a O QUE P É X , com o, aliás, a seqüência pergunta/resposta, capitalismo que chegou a sua última fase, ao imperialis­
torna m anifesta no intradiscurso a estrutura da identificação (que está mo? Não, ela foi extraída da encíclica “Quadragésimo
menos “visível” no caso de E X QUE P, por causa do deslocam ento de Anno", promulgada em 1931 pelo papa Pio XI.
M . Thorez, 26/10/1937.
{ t } { f } noi"ído1-
Na seqüência pergunta/resposta, como na reformulação em O QUE b) X É O QUE P
P E X , estamos em presença, nesse tipo de reformulação pelo qual um
elemento de saber está apresentado como anulado, vazio, objeto de inter­ Essa forma de reformulação (descrita anteriormente) é o suporte de
rogação, para ser imediatamente “preenchido” por um retorno do saber, um efeito definicional, em que um pré-construído em posição X está iden­
de um mecanismo fundamental do efeito p ed a g ó g ico ; desse efeito que, na tificado mediante uma nominalização ou uma enumeração funcionando
anulação que ele produz de um saber que preexiste e domina a produção como sua definição. Os pré-construídos figuram nela como conceitos e o
do efeito, coloca o outro, o interlocutor, na posição de não saber, isto é, de discurso com o dicionário, assegurando na definição de suas palavras o en­
ter de aprender; que situa o alocutário no não saber, na ignorância; que si­ cerramento de seu saber.
mula sua ingenuidade, ou muitas vezes apenas pressupõe sua imbecilidade.
Isso chama duas observações:

(1) A seqüência pergunta/resposta, bem com o a forma O QUE P É


X , são realmente efeitos imaginários ligados a um modo de li-
nearização de um saber. Esse efeito, que constitui um dos prin­
cipais mecanismos do funcionamento pedagógico do discurso,
consiste em ocultar, pela anterioridade de uma pergunta atri­
buída ao outro, o fato de que o saber, supostamente anulado,
é anterior com o resposta à pergunta que ele suscita.
(2) Esse tipo de funcionamento discursivo na FD comunista mani­
festa a presença, em uma formação ideológica dominada, das
form as d e sujeição próprias do aparelho id eoló g ico escolar;
as formas de propaganda política reduzem-se ao diálogo fictí­
cio do professor e do aluno e se sustentam na ilusão do outro
com o ponto vazio, lacuna semântica, ingenuidade absoluta.
Para dar apenas um exemplo, entre muitos outros:

Escutem isto: (segue uma longa citação). De quem é essa


página, em que se encontram sublinhadas as tendências
ao fascismo e à guerra do capitalismo m oderno? De L ê­
nin, que analisa de form a tão genial a decom posição do
CONCLUSÃO

1. CONTRADIÇÃO E TIPOLOGIA

O conjunto de descrições que precede, quer se trate da constituição


de um corpus discursivo, de uma definição do enunciado ou das formas de
apropriação subjetiva dos elementos de um saber na formulação, decorre
em última instância do seguinte postulado: adotar uma perspectiva esp e­
cificam ente discursiva em análise do discurso é o mesmo que reconhecer
no discurso, com o objeto, a im bricação de dois reais: o da língua, em sua
autonom ia relativa, e o da história, apreendido a partir da contradição das
forças m ateriais que nele se afrontam.
Se é válido, esse postulado implica que não se pode mais ver nos obje­
tos que são as FD, nos quais se materializa a imbricação do real lingüístico
e do real ideológico, a manifestação da individualização lingüística de gru­
pos históricos ou sociais, mas que se aceite colocar a categoria da contradi­
ção “no âmago de sua existência”. Disso resulta então uma transform ação
da noção de FD, que deixa de ser um bloco homogêneo, separada de outras
FD por uma fronteira topográfica, como se apenas mantivesse com essas
últimas relações de distância ou proximidade; resulta enfim a necessidade
236 A nálise do discurso político C onclu são 237

de deixar de pensar uma FD com o repetição na categoria d o m esm o (ou do não com o um “lapso atribuído ao camarada Thorez” (estará no original
diferente) e de colocar em evidência todas as formas de alteridade consti­ do discurso? Será um erro devido a uma co rreção ?...), e que foi objeto de
tutivas de sua existência. múltiplas reimpressões, de dezenas de milhares de exemplares, cada vez
Essa transformação da noção de FD, que confere o primado ao inter­ que o discurso em questão foi reproduzido, não é, no entanto, uma simples
discurso, implica, portanto, uma transform ação que se volta para a própria falha tipográfica, mas um lapso “sintático” que “incita o discurso ao seu
pratica da AD; torna-se então primordial, se se aceita a hipótese que sustenta fim”; que abole a fronteira entre os dois polos da identificação eu/tu e que
este trabalho, definir a relação interna que uma FD estabelece com seu exte­ mantém a ambivalência especular entre o locutor e o alocutário, no imagi­
rior discursivo específico, isto é, “determinar as invasões constitutivas pelas nário do diálogo; tu e eu são apenas um.
quais uma pluralidade contraditoria, desigual e internamente subordinada
dc FDs se organiza em função dos interesses que a luta ideológica das classes Em Nice, em um grande comício que reuniu 10.000 ouvin­
coloca em jogo, em dado momento de seu desenvolvimento em uma forma­ tes, um jovem padre veio, segundo seus próprios termos,
ção social dada” (P ê c h e u x , 1977, p. 15). Enquanto esse trabalho não avançar “apertar com alegria a mão que nós estendíamos aos ca­
suficientemente, parece-nos inutil produzir tipologias discursivas. tólicos” (grifos nossos).

G ostaríam os, enfim, para encerrar este trabalho, de voltar à questão


2. O DIÁLOGO COMO FORMA IMAGINÁRIA DE UMA recorrente da relação entre o discurso com a memória histórica, e indi­
CONTRADIÇÃO car em que sentido esse ponto pode ser desenvolvido (ver principalmente
C o u r t in e , 1979).
Avançamos acima a hipótese de que o tema do diálogo funcionava na
FD comunista como representação imaginária na qual o caráter desigual
de uma contradição se apaga sob as formas da troca, da reversibilidade, da 3. MEMÓRIA E DISCURSO: REPETIÇÃO E COMEMORAÇÃO
reciprocidade, da simetria entre os participantes do diálogo.
N ão desenvolvemos de outra forma esse aspecto (exceto a respeito A referência à relação entre memória e discurso, introduzida nesta
do efeito pedagógico ligado ao funcionamento catequéfico da seqüência exposição, permaneceu um pouco vaga. Gostaríam os de indicar, de forma
pergunta/resposta), que nos parece fundamental, da representação do alo- ainda muito program ática, dois caminhos que nos parecem obrigatórios,
cutario no discurso de aliança no interior da FD com unista.1 Nós nos li­ distintos, mas indissociáveis, e que podem ser seguidos no estudo da rela­
mitaremos a sublinhar essa realidade assinalando o sintom a, sob a forma ção entre memória e discurso no interior da FD comunista.
de um lap so, que surge na reedição de um discurso de M . Thorez (extraído
do Discurso aos com unistas, de 26 de outubro de 1937, na M utualité de a) A repetição. O primeiro desses dois caminhos leva a interrogar as moda­
Paris, para C om unistas e cristãos, Ed. Sociales, 1976, p. 58, linha 12); esse lidades da constituição, no interdiscurso, das redes de formulações; a me­
lapso, ao qual praticamente não podemos caracterizar de outra forma se­ mória discursiva tom ará a forma da repetição: como um espaço de repeti­
ção se inscreve em um conjunto estratificado ou desnivelado de superfícies
discursivas? E quais são as modalidades lingüísticas dessa constituição?
1 Esse co n stitu i, com efeito, um dos desenvolvim entos desta pesquisa, sobre o qual traba­
lham os atu alm ente, com um corpus am pliado do discurso de aliança do PC F (discurso aos A resposta a tais perguntas supõe que se levem em conta todas as formas
cristão s, mas tam bém aos socialistas, ao s p atrio tas, d em ocratas, republicanos sinceros,
de discursos relatados por meio dos quais se materializam as remissões de
aos sin d icato s, etc.), dc 1936 a 1978.
238 Análise do discurso politico C onclusão 239

superfície discursiva para superfície discursiva, principalmente a citação e a que a atravessa: uma FD é, como já vimos, um produto da história real; e,
relação ao texto primeiro, às formulações-origem do domínio de memória. A ao mesmo tempo, a produ ção de uma história fictícia.
FD comunista fornece uma espessura estratificada de citações e remissões, me­ Isso pode ser apreendido, por exemplo, nos rituais verbais da comemo­
diante a qual as formulações-origem derivam em um trajeto, ao longo do qual ração, que produzem um recorte do tempo, ligando o tempo da enunciação
elas se transformam, desaparecendo para ressurgir mais adiante, ou então se ao domínio de memória em uma anulação imaginária do processo historico,
esfumam (assim a religião como “opio do povo” cede lugar à religião como em sua duração e suas contradições. Encontram-se, por exemplo, formula­
suspiro da criatura oprimida”). A citação, mas também a retom ada palavra ções comemorativas que introduzem, em um uso performativo da remissão,
por palavra de formulações, que apaga com o desaparecimento das marcas a formulação de M . Thorez que deu origem à política da mão estendida:
sintaticas do discurso relatado o traço de todo desnivelamento interdiscursivo,
inscreve o discurso comunista na prática escolar da recitação. Convirá estudar Já há cerca de quarenta anos, M. Thorez declarava: [cita­
igualmente a form ação do pré-construído na estratificação interdiscursiva, na ção] (G. M a rch ais, 1973, Le défi dém ocratique).
medida em que ela fornece a base de constituição das redes de formulações;
mas também a form ação do enunciado na articulação dos pré-construídos, Essa relação imaginária com o tempo encontra seu recorte no calen­
quer se trate de enunciado dividido, de enumeração-coleção, de enumeração dário e não conhece nenhuma outra escansão além daquela do aniversá­
ordenada ou de outras formas de enunciado a serem construídas. O que está rio, nesse efeito de memória particular instaurado pela repetição de um
em jogo aqui é o trabalho da noção de paráfrase discursiva; sobre esse ponto, momento primeiro, no interior de um discurso cujos dias estão contados.
o essencial ainda está por ser feito. Observa-se igualmente o que chamaremos de rituais discursivos da
As formas de repetição às quais acabamos de fazer alusão correspon­ continuidade1 na repetição de formulações que inscrevem, no intradiscurso
dem a um modo definido de determinação de uma FD por seu “exterior de uma seqüência discursiva dada, a continuidade linear de uma sucessão
específico ou interdiscurso: o interdiscurso funciona ali com o preenchi­ temporal passado-presente-futuro (uma sintagmatização da duração por
m ento, produção de um efeito de consistência no cerne de uma rede de meio da sucessão das marcas temporais carregadas pelas retomadas de um
formulações, repetição na ordem de uma m em ória plena. M ostram os, em mesmo verbo, o uso de advérbios de tempo que indicam a repetição [ainda,
outro trabalho ( C o u r t i n e &C M a r a n d i n , 1980), a partir de alguns exem­ uma vez m a is...), ou o estabelecimento de uma equivalência, quando os
plos, com o o interdiscurso da FD comunista podia funcionar com o vazio, shifters de tempo referem-se a tempos distintos da enunciação):
deslocam ento, de modo que sua intervenção produzisse um efeito de in­
consistência na cadeia do reformulável e abrigasse assim as avatares da Mas, com o sempre , a ideia lançada pelos comunistas se­
repetição (heterogeneidade, descontinuidade, contradição, lacu n a...) na guiu seu caminho. Ela se impos. Im põe-se e impor-se-a
própria existencia da FD comunista, na ordem de uma m em ória lacunar : o cada vez mais......... Mais uma vez, nos tínhamos razão...
interdiscurso é produtor para o sujeito falante do apelo e da lembrança das M. Thorez (26/10/1937).
form ulações, mas também de seu esquecimento. Nosso Partido Comunista, amanhã com o ontem ... W.
Rochet (13/12/1944).
b) A com em oração. O segundo desses caminhos conduz a estudar a re­
presentação, no espaço imaginario em que a enunciação por um sujeito 2 A qui vemos ser desem penhada a função que C . Levi-Strauss (1975, p. 2 94 e seguintes)
inscreve a formulação no intradiscurso, produzida pela FD do processo atribui a tod o ritual: preservar, contra toda form a de ruptura ou de d escontinuid ade, a
continu id ade do vivido. Ao c o n trário destacam os neste trab alho que os tem as do esqueci-
m cn to aparecem n o m ito co m o passos cm falso, co m o tro p e ç o s...
240 A nálise do discurso politico

O futuro será o que fizermos juntos hoje. G. Marchais BIBLIOGRAFIA


(10/06/1976).

A memória discursiva constrói aqui a ficção de uma história im ó­


vel, funciona com o cristalização d o tem po histórico, no qual se form a
a discursividade. H istória imóvel, história eterna: a relação do discurso
com unista com a crença religiosa está posta aqui.
Que se leia, nestas páginas, e mesmo em suas lacunas, um questiona­
mento da relação da língua com a história na ordem do discurso. O trabalho
da relação entre memória e discurso parece-nos desde já uma questão pos­
ta à AD, se esta desejar seriamente compreender o processo de constituição
de um sujeito falante em sujeito ideológico de seu discurso: o que significa
“lembrar-se”, “esquecer” e “repetir” para um sujeito enunciador considera­
do no desenvolvimento histórico das práticas discursivas reguladas pelas FD?
A questão também é política, no momento em que se inventam for­
mas de dominação legitimadas por uma p olítica sem m em ória. O histo­
riador Hübl, personagem de O livro d o riso e do esqu ecim en to, de M .
Kundera, lembra-nos: A lthusser , L. Idéologie et Appareils idéologiques d’État. La Pensée, Éditions
“Quando se quer liquidar os povos, começa-se por lhes tirar a memória”. Sociales, Paris, n. 151,1970. [Aparelhos Ideológicos de Estado. Rio de Janeiro:
Graal, 1979.]
______ . Positions. Paris: Hachette, 1975. [Posições. Rio de Janeiro: Graal,
1978.]
A lthusser , L .; B alibar , E. Lire le Capital. Tomes I et II. Paris: Maspéro, 1968.
[Ler o capital. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.]
B achelard , G. La Formation de 1’esprit scientifique. Paris: Vrin, 193 8 . [A for­
mação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 20 0 3 .]
B achmann , C .; D uro -C ourdf.sses , L .; L e G uennec , N. Quelques propositions
pour Panalyse d’un discourse politique: Léon Blum, le 31 Mai 1938. Travaux
du Centre de recherches sémiologiques, n. 25. Université de Neuchâtel, p. 77-
101, 1977.
B aggioni, D Orientations actuelles en sociolinguistique. La Pensée, Editions
Sociales, Paris, n. 182, p. 66-83, 1975.
B ally , C. Traité de stylistique française. Paris: Klínclcsieck, 1951.
B audelot , C.; E stablet , R. U Ecole capitaliste en France. Paris: Maspéro, 1971.
242 Análise do discurso político Bibliografia 243

B en ven iste , E. Problèmes de linguistique genérale. Tomo I. Paris: NRF, Galli- ( íourdesses, L. Blum et Thorez en mai 1936: analyses d’énoncés. Langue fran-
mard, 1966. [Problemas de Lingüística Geral 1. São Paulo: Pontes, 1991.] (aise , Didier/Larousse, Paris, n. 9, p. 22-33, février 1971.
---------- . Problèmes de linguistique générale. Tomo II. Paris: NRF, Gallimard, C ourtine , J.-J. Mémoire et discours. Texte et Institution. Montreal: Hurtubise
1974. [Problemas de Lingüística Geral II. São Paulo: Pontes, 1989.] I IM H ed., 1979.

B erelso n , B. Content analysis in communication research. Glencoe: The Free _____ . Quelques problèm es théoriques et méthodologiques en analyse du
Press, 1952. discours, à propos du discours communiste adressé aux chrétiens. Thèse de
B ern stein , B. Langage et classes sociais. Paris: Éditions de Minuit, 1975. Doctorat de 3' cycle de Linguistique, Paris X-Nanterre, 1980.
B o rel , M. J . Schematisation discursive et enunciation. Travaux du Centre de C ourtine , J.-J.; G a d et , F. Classes sociales et égalité des chances linguistiques.

recherches semiologiques de Neuchâtel, n. 27, 1975. Les Sciences de 1’éducation, n. 1/2/-77, 1977.
B raudel , F. Ècrits sur 1’histoire. Paris: Flammarion, 1969. [Escritos sobre a His­ C ourtine , J.-J.; L kcomtk , A. Formation discursive et énonciation, communi­

tória. São Paulo: Perspectiva, 1992.] cation au Congrès Théorie et pratique de la sociolinguistique (1978). Actes du
B rém o n d , C. Logique du récit. Paris: le Seuil, 1973. Congrés, Université de Rouen, 1980.
B r ig h t , W. Sociolinguistics. LaHaye: Mouton, 1966. C ourtine , J.-J.; M arandin , J. M. Quel objet pour Panalyse du discours? Maté-
C antoklein , M .; R am ognin o , N. Les faits sociaux sont pourvus de sens. R é - rialités discursives, Presses Universitaires de Lille, 1980.
flexions sur 1’analyse du contenu. Connexions, EPI, Paris, n. 11, p. 65-92,1974. C ulioli, A. Sur quelques contradictions en linguistique. Communications, le
C asanova, A. Vatican II et 1’évolution de VÉglise. Paris: Éditions Sociales, 1969. Seuil, Paris, n. 20, p. 83-91, 1973.
---------- . Crise de la société Églises et union populaire, supplément au n. 61 de ______ . À propos des énoncés exclaniatifs. Langue française, Larousse, Paris,
la Nouvelle Critique. Paris, 1973. n. 22,1974.
---------- . Evolution de 1’Église, libération et salut. La Pensée, Éditions Sociales, D ésirat , C l. Les récits d’une fondation: la loi et la pédagogie. Langages, Di­
Paris, n. 192, 1977. dier/Larousse, Paris, n. 45, 1977.
C asanova , A.; L eroy , R .; M oin e , A. Les marxistes et 1'évolution du monde D ésirat , C l.; H o r d é , T. Formation des discours pédagogiques. Langages, D i­
catholique. Paris: Éditions Sociales, C o ll. Notre Temps, 1972. dier/Larousse, Paris, n. 45,1977.
C harolles , M. Grammaire du texte, théorie du discours, narrativité. Pratiques, D ubois , J. Lexicologie et analyse d’énoncés. Cahiers de lexicologie, Didier/La­
Metz, n. 11/12, p. 133-154, 1976. rousse, Paris, n. 15, 1969a.
C hauveau , G . Analyse linguistique du discours jaurésien. Langages, Didier/ ______ . Énoncé et Énonciation. Langages, Didier/Larousse, Paris, n. 1 3 ,1969b.
Larousse, Paris, n. 52, 1978. ______ . Présentation de Langages, Didier/Larousse, Paris, n. 52, 1978.
C h o m sk y , N. Syntactic structures. Tradução francesa. Paris: Le Seuil, 1969. D ubois , J.; D ubois- C h arlier , F. Éléments de Linguistique française. Paris: La­
(Edição original 1957). rousse, 1970.
---------- . Aspects o f the theory o f syntax, Tradução francesa. Paris: Le Seuil, D ucrot , O. Dire ou ne pas dire. Paris: Hermann, 1972. [Dizer e não dizer. Prin­
1971 (Edição original 1965). cípios de Semântica Lingüística. São Paulo: Cultrix, 1977.]
C luchague , F. Analyse d’un corpus de texts d’enfants portant dus leur pré- ______ . La Preuve et le Dire. Paris: Mame, 1973. [Provar e dizer: Linguagem e
ference pour la ville ou la campagne par la méthode automatique d’analyse lógica. São Paulo: Global, 1981.]
du discours 3AD75. Documents de l UER. Informatique et mathématiques en E bel , M .; F iala , P. Présupposition et théorie du discours. In: Kevue européenne
sciences sociales. Université des sciences sociales de Grenoble, 1976. des sciences sociales, XIII: 32, Droz, Genéve, p. 115-136, 1974.
244 A nálise do discurso político Bibliografia 245

---------- . Recherches sur les discours xénophobes. Travaux du Centre de recher- ( íuESPiN, L. Problématique des travaux sur le discours politique. Langages, Di-
ches sém iologiques, Neuchâtel, n. 27 et 28, 1977. ilier/Larousse, Paris, n. 23, p. 3-24, 1971.
F auvet , J. Histoire du Parti communiste français. Paris: Fayard, 1977. ______ . L’analyse du discours: problèmes et perspectives, supplément au n. 84
F aye, J. P. Langages totalitaires. Paris: Hermann, 1972a. dc la Nouvelle Critique, Paris: Editions de la Nouvelle Critique, 1975.
______ ■Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972b. ______ . Types de discours et fonctionnement discursif. Langages, Didier/La­
F illm o re , C. Pragmatics and the description o f Discourse. Berkeley studies in rousse, Paris, n. 41, p. 3-12, 1976a.
syntax and semantics. v. I. Berkeley: University of Califórnia, 1974. ______ . Les embrayeurs en discours. Langages , Didier/Larousse, Paris, n. 41,
F isch er , S.; V eron , E. Baranne est une crème. Communications, le Seuil, Paris, p. 4 7 -4 8 ,1976b.
n. 20, p. 160-181, 1973. G uilhaumou , J . ; M aldidier , D. Courte critique pour une longue histoire. Dia-
F ishm an , J. A. Readings in the sociology o f language. La Haye: M outon, 1968. lectiques, n. 26, 1979.
F oucault , M. UArchéologie du savoir. Paris: NRF, Gallimard, 1969. [Arqueo­ H alliday, M. A. K. Notes on transitivity and theme in English. Journal o f
logia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.] linguistics, 3.1, 3.2, 4.2, p. 37-82,199-244, 179-216,1967-1968.
---------- . UOrdre du discours. Paris: NRF, Gallimard, 1971. [A ordem do dis­ H aroche , C .; H en ry , P., P êc h eu x , M. La sémantique et la coupure saussu-
curso. São Paulo: Ed. Loyola, 1996] rienne: langue, langage, discours. Langages, Didier/Larousse, Paris, n. 24, p.
G ad et , F. La sociolinguistique n’existe pas: je l’ai rencontrée. Dialectique, n. 20, 93-106, 1971.
p. 99-118,1977. H aroche , C.; P êch eux , M. Manuel pour 1’utilisation de la mèthode AAD. T .A.
G ad et , F.; P êch eux , M . Y a-ti-il une voie pour la linguistique hors du logicisme Informations, 13 (1), 1972.
et du socioligisme? Équivalences. Bruxelles: Actes du colloque Politique lin­ H a rris , Z. S. Discourse analysis. Language, v. 28, p. 1-30, 1952. Traduction
guistique, 1977. [Há uma via para a Lingüística fora do logicismo e do sociolo- française dans Langages, Didier/Larousse, Paris, n. 13, mars 1969.
gismo? Escritos (3). Campinas: Labeurb/Nudecri, 1998. p. 5-16.] H enry , P. Constructions relatives et articulations discursives. Langages, Didier/
G ardin , B. Discours patronal et discours syndical. Langages, Didier/Larousse, Larousse, Paris, n. 37, p. 81-98, 1975.
Paris, n. 41, p. 13-46, 1976. ______ . Le mauvais outil. Paris: Klincksieck, 1977. [A ferramenta imperfeita.
G ardin , B.; M arcellesi, J. B. Introduction a la sociolinguistique. Paris: La- Campinas: U nicamp , 1992.]
rousse, coll. Langue et langage, 1974. H enry , P.; M oscovici , S. Problèmes de Panalyse de contenu. Langages, Didier/
G ayot, G. Discours fraternel et discours polemique. In: R onbin , R . Histoire et Larousse, Paris, n. 11, 1968.
linguistique. Paris: A. Colin, 1973. [Discurso amistoso e discurso polêmico. His­ J akobson , R. Essais de linguistique générale. Paris: Editions de Minuit, 1963.
tória e Lingüística. São Paulo: Cultnx, 1977.] K eenan , E. O.; S chieffelin , B. B. Topic as a discourse notion. Subject and topic.
G ayot , G .; P êch eux , M . Recherche sur le discours illuministe au X V III' siècle: New York: N. Li ed., Academic Press, 1976.
Claude de Saint Martin et les circonstances. Annales E.S.C., 1971. K if.fer , F. Essais de sémantique générale. Paris: Mame, 1974.
G offm an , E. La mise en scéne dans la vie quotidienne. Paris: Éd. De Minuit, K in tsch , W .; V an Dijk, T. A. Comment on se rappelle et on résume des his-
1971.
toires. Langages, Didier/Larousse, Paris, n. 40, 1975.
G ross , M. Une analyse non présuppositionnelle de l’effet constrastif: 1’extrac- K u e n tz , P. Le linguiste et le discours. Langages, Didier/Larousse, Paris, n. 45,
tion dan C est...qu et la négation. Linguisticae Investigationes, I: 1. Amster- p. 112-126, 1977.
dam: J. Benjamin, p. 39-62, 1977. K uhn , T. S. La Structure des révolutions scientifiques. Paris: Flammarion,
1970. [ A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva.]
24 6 Análise do discurso político Bibliografia 247

L abbe , D. Le Discours communiste. Paris: Presses de la Fondation nationale des ______ . Problèmes de sociolinguistique: le Congrès de Tours. La Pensée, Paris:
Sciences politiques, 1977. Ed. Sociales, 1970.
L e c o m t e , A. Paraphrase et thématisation. Travaux du Centre de recherches ______ . Présentation. Langue Française, Larousse, Paris, n. 9, p. 3-5, 1971a.
sém iologiques de Neuchâtel, n. 32, 1978. ______ . Eléments pour une analyse contrastive du discours politique. Lan-
L eco urt , D. Pour une critique de 1’épistémologie. Paris: Maspéro, 1972. gages, Didier/Larousse, Paris, n. 23, p. 25-56, 1971b.
L evi-S trauss , C. Mythe et oubli. Langue, Discours, Société. Paris: le Seuil, 1975. ______ . Analyse de discours à entrée lexicale. Langages, Didier/Larousse, Pa­
L ic itr a , A. Pour une linguistique du discours: analyse tagmémique et proces- ris, n. 41, p. 79-123, 1976.
sus d’énonciation. Travaux du Centre de recherches sémiologiques, n. 21, Uni­ ______ . Vanalyse du discours en France: oppositions ou contradictions, texte
versité de Neuchâtel, 1974a. d’une communication à un congrès sur les idéologies. Université de Mexico,
______ • Pour une linguistique du discours argumentatif: essai d’application 1977a. (mimeo.)
de la méthode d’analyse tagmémique au discours politique. Revue européenne ______ . La contrihuition de la sociolinguistique à Vanalyse du discours poli­
des sciences sociale, Droz, Genève, XII, n. 32, p. 151-166, 1974b. tique, texte d ’une communication à un congrès sur les idéologies. Université de
M aingueneau , D. Initiation aux méthodes de 1’analyse du discours. Paris: Ha- Mexico, 1977b. (mimeo.)
chette, 1976. M a r x , K.; E n gels , F. (1861-1894). Sur la religion. Édition française, Paris: Edi-
M aldidier , D. Vocabulaire politique de la guerre d’Algérie. Cahiers de lexico­ tion Sociales, 1968.
logie, Didier/Larousse, Paris, n. 15, 1969. M eleuc , S. Structure de la maxime. Langages, n. 13, M arx, K., Engels, F. Paris:
______ •Lecture des discours de De Gaulle par six quotidiens parisiens: 13 Mai Didier/Larousse, p. 59-69, 1969.
1958. Langue française, Larousse, Paris, n. 9, p. 34-46, 1971a. M ic h e la t , G .; Sim on, M . Classe, religion et comportement politique. La Pen­
______ •Le discours politique de la guerre d’Algérie: approche synchronique et sée, Éditions Sociales, Paris, n. 192, 1977.
diachronique. Langage, Didier/Larousse, Paris, n. 23, p. 57-86, 1971b. M ilner , J. Langue et langage, ou: de quoi rient les locuteurs. Change, le Seuil,
M aldidier , D.; N orm an d , C.; R obin , R . Discours et idéologie: quelques bases Paris, n. 29 et 32/33, 1976.
pour une recherche. Langue Française, Larousse, Paris, n. 15, p. 116-142,1972. P almade , J. L’analyse de contenu comme processus et ses dèterminations contex-

[Discurso e ideologia: bases para uma pesquisa. In: O rlandi, E. P. (Org.). Ges­ tuelles. Connexions, EPI, Paris, n. 12, p. 55-100, 1974.
tos de Leitura: da História no Discurso. Campinas: Editora da U nicamp , 1994.] P arsons , T. Theories o f society. New York: The Free Press, 1961.
M aldidier , D.; R o bin , R . Polémique idéologique et affrontement discursif en P êch eux , M. L ’Analyse automatique du discours. Paris: Dunod, 1969. [Análise
1776: les grands édits de Targot et les remontrances du Parlement de Paris. automática do discurso (AAD-69). In: G ad et , F.; H ak , T. (Orgs.). Por uma
Langage et idéologie: le discours comme objet de 1’histoire. Paris: Éditions análise automática do discurso. Campinas: Unicamp, 1990. p. 61-161.]
ouvrières, 1974. ______ .. Un exemple d’ambiguité idéologique: le rapport Mansholt. CNRS,
_______• Du spectacle au meurtre de Pèvénement: Reportages, commentaries Paris, 1974. (mimeo.)
et éditoriaux de presse à propos de Charlety (mai 1968). Annales E.S.C., 1976. _______. Les Vérités de la Palice. Paris: Maspéro, 1975. [Semântica e Discurso.
M arandin , J. M . Problèmes d’analyse dus discours: essai d’analyse du discours Uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 1988.]
français sur la Chine. Thèse de 3ecycle de linguistique. Université de Paris VIII, ______ . Remontons de Foucault à Spinoza, texte d ’une communication à um
1978. Langages, Paris, n. 55, sep. 1979. congrès sur les idéologie. Université de Mexico, 1977. (mimeo.)
M arcellesi, J. B. Le vocabulaire du Congrès de Tours. Cahiers de lexicologie, ______ . Effets discursifs liés au fonctionnement des relatives en français. Paris
Didier/Larousse, Paris, n. 15, 1969. X - Nanterre, 1979. (mimeo.)
2 48 A nálise do discurso político Bibliografia 249

P êch eux , M .; F uchs , C. Mises au point et perspectives à propos de l’AAD. Lan­ V igneaux , G. Le discours argumenté écrit. Communications, le Seuil, Paris,
gages, Didier/Larousse, Paris, n. 3 7 , p. 5 1 -6 8 ,1 9 7 5 . [A propósito da Análise Au­ n. 20, p. 101-159, 1973.
tomática do Discurso: atualização e perspectivas (1975). In: G ad et , F.; H ak , T. ______ . Logique ou grammaire des arguments? Revue européenne des sciences
(Orgs.). Por uma análise automática do discurso. Campinas: Unicamp, 1990.] sociales, Droz, Genève, X II, 32, p. 167-182,1974.
P êch eu x , M .; W esselius, L. A propos du mouvement étudiant et des luttes de

la classe ouvrière: trois organisations étutiantes en 1968. In: R obin , R . Histoire
et Linguistique. Paris: A. Colin, 1973. [A respeito do movimento estudantil DISCURSOS ANALISADOS
e das lutas da classe operária: 3 organizações estudantis em 1968. História e
Lingüística. São Paulo: Cultrix, 1977.] Discurso de Maurice Thorez veiculado via rádio na véspera das eleições legis­
P ride , J. B.; H o lm es . Sociolinguistics. London: Penguin Modern Linguistics lativas (17/04/1936).
Readings, 1972. Discurso de Maurice Thorez à imprensa francesa e estrangeira (06/05/1936).

P rovost , G. Approche du discours politique: socialisme et socialiste chez Jau- Discurso de Maurice Thorez a uma assembleia de informação dos comunistas
rès. Langages, Didier/Larousse, Paris, n. 13, p. 51-68, 1969. de Paris (05/1936).
P rovost -C hauveau . Problèmes théoriques et méthodologiques en analyse du Discurso de Maurice Thorez à sessão do Comitê Central d’Ivry (25/05/1936).

discours. Langue Française, Larousse, Paris, n. 9, p. 6-21, 1971. Brochura (07/1936).


R adcliffe -B rown , A. R . Structure and function in primitive society. London: M. Hubert Forestier, diretor da revista católica Unttas, entrevista a M. Thorez
Cohen and West Ltd, 1952. (10/1936).
R o bin , R . Histoire et linguistique: premiers jalons. Langue française, Larousse, Discurso de Maurice Thorez aos comunistas na Mutualité (26/10/1937).
Paris, n. 9, p. 47-57,1971. Relatório de Maurice Thorez ao IX Congresso do PCF (12/1937).
______ •Histoire et linguistique. Paris: A. Colin, 1973. [História e Lingüística. Conferência de Waldeck-Rochet pronunciada a convite da Amicale des juristes
São Paulo: Cultrix, 1977.] communistes (13/12/1944).
_______•Le hors-texte dans le discours politique. Recherches théoriques. M on­ Brochure La France depuis la capitulation des Rethondes (12/1944).
treal: Université du Québec, 1977. Relatório de Maurice Thorez ao X Congresso do PCF (06/1945).
S earle , J. Les Actes de langage. Paris: Hermann, 1972. Declaração ao semanário católico holandês Die Linie (VHumanité, 01/06/1963).
S im on in -G rumbach , J. Pour une typologie des discours. Langue, discours, so- Relatório do Waldeck-Rochet ao Comitê Central de Argenteuil sobre os pro­
ciété. Paris: le Seuil, 1975. blemas ideológicos e culturais (11/03/1966).
S lakta , D. Esquisse d’une théorie lexico-sémantique: pour une analyse d’un Fragmentos da resolução do Comitê Central de Argenteuil (11/03/1966).
texte politique (Cahiers de doléances). Langages, Didier/Larousse, Paris, n. 23, Comunicado do Bureau politique após a encíclica Populorum Progresso
p. 87-134, 1971a. (11/04/1967).
_______•L’acte de “demander” dans les cahiers de doléances. Langue française, Resolução do X IX Congresso do PCF e comentário de R. Leroy sobre a tese
Larousse, Paris, n. 9, p. 58-73, 1971b. n. 30 (02/1970).
U t z , A. F. La Doctrine sociale de l’Eglise à travers les siècles (document ponti- Entrevista de G. Marchais à La Croix (19/11/1970).
ficaux du X V au X X “ siècle). Paris: Beauchesne/Herder, 1973. G. Marchais, Le défi dêmocratique (1973).
V erges , P. et P.; L acout , A. Un essai d’analyse du discours. Connections, EPI Relatório de G. Marchais ao X X I Congresso do PCF (02/04/1974).
éd., Paris, n. 12, 1974.
250 A nálise do discurso político

Os princípios da política do Partido Comunista Francês (Manual de base da


escola elementar) (01/10/1975).
Reação de YHumanité a um texto de Mgr. Matagrin, bispo de Grenoble
(12701/1976).
“U apport spécifique des chrétiens”, S. Heurtier, France nouvelle (02/02/1976).
“Des aspirations convergentes et des luttes communes”, M . Gremetz, 1’Huma-
nité (25/05/1976).