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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE NÚCLEO DE ESTUDOS DE SAÚDE COLETIVA MESTRADO EM SAÚDE COLETIVA

Hom ens - Razã o e Sensibil idade Ideol ogias de gênero m asculin o e o cuidad o com a saúde

Dissertação submetida como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Saúde Coletiva

Autor: Baldinir Bezerra da Silva Orientadora: Regina Helena Simões Barbosa

Rio de Janeiro – 2005

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Resumo
Esta pesquisa analisa as ideologias de gênero expressas nas falas de homens participantes de Grupos de Reflexão de Gênero, como esses homens se relacionam com o processo saúde/doença. A base de dados utilizada foram as transcrições de três grupos focais realizados com homens participantes de grupos reflexivos formados pelo Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa -Ação”, realizado pelo Núcleo de Gênero e Saúde– ENSP/FIOCRUZ e Laboratório de Gênero e Saúde – NESC/UFRJ. Os referenciais teóricos adotados foram o conceito de ideologia, conforme proposto por John B. Thompson (1995), e o Conceito de Gênero, focalizando especialmente o viés das masculinidades. A Hermeneutica-dialética foi escolhida como referencial metodológico para o tratamento e interpretação dos dados. Os resultados encontrados sinalizam a emergência de novos padrões de masculinidade Estes convivendo são com padrões hegemônicos fatores tradicionais. últimos reconhecidos como e as implicações decorrentes desses modelos de masculinidade nos modos

potencialmente agravantes à saúde do homem e à qualidade das relações humanas. A formação de grupos reflexivos mostrou ser uma técnica frutífera para o trabalho com homens.

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ABSTRACT
This research analyses the gender ideologies manifested in the speeches of men that took part on Gender Reflection Groups and the implications of these male models on the ways these men relate to the process of health/illness. The source of the data used are audio tape transcriptions of three focal groups with men who participated of reflection groups of the Project Men, Health and Daily Life (ENSP -FIOCRUZ and Gender and Health Laboratory, NESC/UFRJ). The theoretical guidelines were the concept of ideology, according to John B. Thompson’s proposal (1995) and the category of gender, with special focus on masculinities. Dialectic hermeneutics was chosen as methodological grounding for data treatment and interpretation. The findings point to the rise of new masculinity patterns parallel to traditional hegemonic patterns. The latter are recognized as potentially harmful to men’s health and to the quality of human relations. Reflection groups proved to be a fruitful technique for working with men.

Rio de Janeiro: UFRJ / CCS / NESC. Tese (Mestr. NESC. 165 p. Ideologia 2. CCS. Gênero 3. Baldinir Homens: Razão e Sensibilidade – Ideologias de gênero Masculino e o cuidado com a saúde / Baldinir Bezerra da Silva. NESC/UFRJ) I.4 Ficha Catalográfica Bezerra da Silva . Título . Saúde do homem 5. Dissertação – Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1. Masculinidade 4. 2005.

por terem me dado o alicerce para construir meus caminhos. ensinando-me a ver beleza na vida. Ofélia e Ângelo. Francisca e Bartholomeu (in memoriam). por terem assumido verdadeiramente o compromisso firmado com meus pais na pia de batismo.5 Dedicatória Aos meus Pais. Aos meus padrinhos. .

O Financiamento concedido pela CAPES. incentivo. Mauro Brijeiro. espaço que abriu meus horizontes para este objeto de pesquisa. junto com minha orientadora. garantiram que agora eu pudesse estar apresentando os resultados desse meu trabalho. Luis dos Santos Costa. Aos colegas. Willer B. constituiu-se num ponto crucial para que eu conseguisse levar a termo esta pesquisa. À minha orientadora. por todo apoio. Sem essa bolsa. Conheci muito poucas pessoas tão bem resolvidas como a professora Regina. me vi agraciado por toda uma gama de energias impulsoras que. A Karen Giffin. Aos colegas de equipe dos projetos da ENSP-FIOCRUZ e NESC/UFRJ: Lucia Baptista. Regina Helena Simões Barbosa. sem dúvida. juntamente com Regina Helena Simões Barbosa. teria sido impossível. como profissional e como pessoa. Sinésio Jefferson de Andrade. contribuiram para enriquecer a vivência do Mestrado. professores e funcionários do NESC/UFRJ que. tolerância e cuidados manifestos durante toda essa trajetória. Foi um previlégio. . Marcondes. Agradeço também pela utilização do espaço do Laboratório de Gênero e Saúde da ENSP/FIOCRUZ. pela oportunidade de atuação nos projetos do NESC/URFJ. Cristina Cavalcanti e Irene Lowenstein. e me possibilitou experiências de crescimento incalculáveis.6 AGRADECIMENTOS No decorrer destes dois últimos anos. no segundo ano do mestrado.

Byron. Ana Cristina Vieira. todas as Donas Marias. À Vera Joana. Maria das Graças. Beverly e Berenilde. Saúde e Vida Cotidiana”. Gracinha. Quero crer que. possibilitando a construção de um novo conhecimento sobre as masculinidades. Nêga Simone. Aos meus irmãos. a partir daí. Heloisa Castro Berro. apresentando contribuições valorosas por ocasião do meu exame de qualificação. Ao professor Romeu Gomes que. Aos homens. Nesse rol. Marco Antonio. deram muito estímulo para que eu prosseguisse até o fim. Alberto Soffredini (in memorian). competência. Anália Lara. Estes homens. através de suas falas. Rogério. Lícia Nara. Clotilde Tavares. mais sensível diante da vida. João Paulo Bezerra. Bernadete. um agradecimento especial à. Baldoméro. juntamente com a professora Karen Giffin. Diva. Baldomar. em especial os 18 participantes dos grupos focais que geraram as transcrições que ora analisamos. que me fez ver à minha vida de forma realista e serena. Ana Maria Brás.da vez. e meus respectivos sobrinhos. próximos ou distantes. Sebastião Juarez. A todos os grupos e pessoas que me acolheram num recente período de caos pessoal. Abadia. e generosidade sem tamanho. se prestou a uma leitura atenta de meu trabalho. participantes dos diversos grupos de reflexão de gênero do Projeto “Homens. nos permitiram acessar uma parcela de sua subjetividade. Paulo Duarte. pela torcida e por tornarem sempre presente a sensação de pertencimento à uma família deliciosa.7 À professora Maria Lúcia Magalhães Bosi pelo apoio e incentivos fenomenais. Elisabete Cataldi. C. pela sua perspicácia. Maria Helena Belalian. Wilson Correa. e tantos outros que. tornei-me um homem .

.” Pierre Bourdieu . uma condição pessoal necessária para qualquer tipo de comunicação sobre a ideologia. que se pode praticar estudando a mente intelectual acadêmica.8 “Muitas vezes. É por assim dizer. as pessoas habilitadas a falar sobre o mundo social não sabem coisa alguma do mundo social. e as pessoas que realmente conhecem o mundo social não são capazes de falar dele.. é vital. por essa razão. o processo de autocrítica.

....................... Histórico do PHSVC........1........................ 70 5.............2.155 8...........2.............. Considerações finais......... Os temas Geradores.....................1.....14 1..................................... 29 3....... Metodologia...1............................................145 7.................................. O Enfoque Conceitual e Metodológico do PHSVC.19 1........160 Anexo: Mapa de Atuação do Projeto Hom ens...........2.... Referencial de Gênero..... 57 4...................67 4.............................................................3....... A Saúde do homem...... Tratamento dos Dados: Explicando o Vir-a-Ser...5................................... Contextualização ...........3.........83 5....................2..............................................4..........: um conceito reformulado.................4........85 5... Resultados encontrado: Os informes..........2.. 78 5........10 1.......20 1.. Bloco 3 – A relação do homem com a Saúde..................................................... Conclusões...... Discussão metodológica: Uma Questão de Qualidade.................. Bibliografia.... Ideologia........25 1......... Bloco 2 – Modelos Contra-hegemônicos....... Apresentação ........2.......................................................... Introdução.................2..... Os Grupos de Reflexão de Gênero do PHSVC.......................................1....22 1...2......2............................. Masculinidade: Temas emergentes................................................................................... O Gênero Masculino em foco......2........2................ Os Informantes: Participantes dos Grupos Focais........... 32 3.........9 SUMÁRIO 1................... Saúde e Vida cotidiana............................120 6..................................... 41 3......... Objetivos...... Referenciais Teóricos/Conceituais.....................................................1................................3......................50 3. Bloco 1 . 29 3.............................. 67 4.2.................................. ..................................... 26 2..................................................101 5..... 28 3............Modelo Hegemônico de Masculinidade............................1.......................

parodiando uma famosa obra da cinematografia mundial. Estes parecem vir sendo sistematicamente colocados em cheque nas últimas décadas. Com isso. Em debate também. . busca remeter-se à essência das transformações sociais que ora pretendemos colocar em foco. Apresentação Esta pesquisa se propôs a identificar as ideologias de masculinidade expressas nos discursos de homens participantes de grupos de reflexão de gênero. a relevância da elaboração de propostas de trabalho com homens que tenham por objetivo promover o equacionamento das desigualdades de gênero. e que diz respeito aos conflitos em torno dos tradicionais papéis sociais de gênero masculino. caso não sejam devidamente considerados. tendem a caracterizar pontos agravantes à saúde dos homens.10 1. Nos detivemos nas questões inerentes aos diversos aspectos da masculinidade contemporânea que. e suas relações com o cuidado com a saúde. o que confronta os homens com a perspectiva de experienciar novos e originais modos de exercerem sua condição de homem no mundo. O titulo escolhido. pretendemos contribuir com subsídios para a formulação de políticas públicas de saúde voltadas para a população masculina.

estaremos discorrendo.11 Para uma melhor contextualização do perfil que caracteriza os informantes. sobre o Projeto “Homens. . nos termos propostos por Paulo Freire. das implicações destas nas relações sociais como um todo. da Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ. especialmente no terreno da saúde reprodutiva. da Universidade Federal do Rio de Janeiro -UFRJ. Saúde e Vida Cotidiana – uma proposta de pesquisa-ação” desenvolvido pela Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP. Atividades estas que lhes possibilitaram um longo período de reflexão acerca de suas identidades sociais de gênero. visto que eram todos oriundos dos grupos de reflexão de gênero formados pelo referido Projeto. e o Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva – NESC. Em se tratando de uma proposta de intervenção sócio-pedagógica alicerçada na promoção de CONSCIENTIZAÇÂO. O detalhamento dessa experiência se justifica como uma forma de apresentar a contextualização sócio-histórica em que se inserem os entrevistados. Isto porque os dados analisados na presente pesquisa foram gerados a partir das informações obtidas nesse Projeto. vamos nos deparar com discursos de indivíduos que encontravam-se altamente mobilizados pelas atividades desenvolvidas no Projeto. inicialmente.

esperamos contribuir para a melhoria na qualidade da assistência à saúde masculina em suas especificidades. De Lauretis. onde se instituem normas morais sobre papéis que homens e mulheres devem assumir. conforme proposta por John B. na práxis. Num primeiro momento. suas relações com a questão da saúde dos homens. buscamos alicerce em autores como Giffin . Mantega. Nolasco. 1995). Simões Barbosa. Corneau. numa visão ampla. masculino. com seus significados diferenciados. focalizando brevemente o processo desde a estruturação do conceito. estaremos dissertando sobre os referenciais teóricosmetodológicos adotados nessa empreitada. as ideologias que estruturam as relações de gênero correspondem às diversas posições sociais. Para dar conta desse processo. O mesmo em termos dos autores que trabalham especificamente a questão da masculinidade. Damatta. Anyon. entre outros que discutem as relações de gênero através de práticas sociais do cotidiano e na produção do conhecimento. e outros. Kergoat. a partir das reflexões levantadas pelo movimento feminista. Medrado. traçando um panorama dos pressupostos teóricos da Ideologia. que a descreve. Scott. como a análise do “sentido a serviço do poder” (Thompson. Kimmel. Partimos do entendimento de que. as temáticas emergentes a questão de gênero âmbito e. numa . Gomes. e traduzem as relações desiguais de poder. como Caldas. abordaremos a questão de gênero. Com isto.12 A seguir. mais nesse especificamente. Thompson. Na seqüência. Costa.

justamente. mais próxima de nosso referencial teórico ao colocar a fala em seu contexto.. Vale salientar. contudo. as contradições e os condicionamentos históricos que a envolvem (Minayo.13 perspectiva da integralidade. A metodologia adotada será a qualitativa. sendo os participantes agentes sociais. uma vez que o objeto de estudo se insere no campo da subjetividade. o que aqui será exposto está situado. A abordagem de análise será a hermenêutica -dialética. do Ministério da Saúde. obtido em situação de entrevista grupal face -a-face estará mediado pelas expectativas e idealizações que validam a própria experiência. buscando captar o movimento. contudo. ainda está bastante longe de ser o ideal. Serão analisadas as transcrições de três grupos focais realizados com participantes dos diversos grupos de reflexão de gênero formados pelo já citado Projeto Homens. estas falas podem ser compreendidas como falas de informantes . masculina e feminina. que não se trata de uma disputa entre homens e mulheres. senão parcialmente. a exemplo do que está prescrito para as mulheres no Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM). envolvidos com trabalhos que implicam no atendimento a muitos outros homens. Ressalte-se. e não expressa as práticas dos entrevistados. já que é reconhecida uma grande distância entre o que está previsto na Lei e a sua aplicabilidade real. Em conseqüência disto. Por outro lado. e que o quadro de atenção à saúde da população. Os detalhamentos sobre a constituição desses grupos focais serão apresentados no capítulo sobre os informantes. que o presente material empírico..”. 1998). no âmbito do discurso da apresentação de si mesmo. Saúde e Vida Cotidiana.

14 devidamente qualificados para reportar a experiência desses outros homens. Dessa forma, nos ajudam a compor um quadro bastante próximo das ideologias e práticas masculinas, inclusive em termos de cuidados com a saúde vigentes na atualidade.

1.1. Introdução Esta pesquisa analisa as ideologias de gênero masculino presentes na fala de homens participantes de Grupos de Reflexão de Gênero, e as implicações decorrentes desses modelos de masculinidade nos modos como esses homens se relacionam com o processo saúde/doença. Utilizamos como base de dados as transcrições de três grupos focais realizados com 18 dos cerca de 100 homens que participaram dos grupos formados pelo Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa-Ação”1 - PHSVC, no qual foi privilegiado o debate sobre a saúde reprodutiva e a vida cotidiana em grupos reflexivos de gênero, dentro de uma perspectiva da pesquisa-ação. Os referidos grupos focais, levados a termo nos dias 19 de maio, 02 e 09 de julho de 2001, nas dependências do NESC/UFRJ, tinham como meta prioritária coletar de depoimentos coletivos para organização do livro “Palavra de Homem”, editado pela ENSP/FIOCRUZ e NESC/UFRJ em 2001, contendo histórias e experiências concretas de homens, enfocando diversos aspectos de suas vidas. Para tanto, foram
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O Projeto “Homens, Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa- ação” foi desenvolvido pelo NESC/UFRJ em parceira com a ENSP/FIOCRUZ no período de 1998 a 2001, no Rio de Janeiro- RJ e em Duque de Caxias- RJ.

15 elencados temas que permitissem a expressão do modo de ser destes homens no mundo, em suas relações consigo próprios, com outros homens e com as mulheres. Em razão da especificidade do objetivo acima descrito, as transcrições das falas dos três grupos focais não chegaram a ser utilizadas em sua totalidade, visto a impossibilidade de publicação de todo o conteúdo das cerca de 12 horas de gravação. Na ocasião, para compor a edição do referido livro, foi feita uma seleção de trechos relacionados aos diversos temas abordados pelos homens, levando-se em conta, especialmente, a expressividade das falas. Ressalte-se que, no processo de coleta de dados, foram

criteriosamente considerados os procedimentos metodológicos propostos para a realização da técnica de grupos focais. Na abordagem qualitativa, esta técnica é considerada uma estratégia de significativa importância no que se refere às questões de saúde coletiva, porque viabiliza a captação de dados representacionais no seio de grupos de interesses e instâncias diversas, possibilitando formular e precisar questões, coletar informações sobre peculiaridades locais e desenvolver hipóteses para novos estudos. (Minayo, 1992) Vale ressaltar também que nosso interesse pela temática advêm justamente do fato de termos participado da coleta destes depoimentos, ocasião que coincidiu com nossa inserção na equipe do PHSVC, na função de estagiário e co-facilitador de grupos de reflexão de gênero masculino. Propus emo-nos a revisitar as transcrições dos referidos grupos focais em sua integralidade, por considerar tratar-se de importante

16 material de referência para o estudo da subjetividade masculina sob

diversos aspectos e por acreditar que, nas falas desses homens, encontraríamos subsídios para avaliar os modos como administravam o processo saúde/doença naquele momento de suas vidas. Para efeito de contextualização do tema, utilizamos, como contraponto, uma revisão bibliográfica dos estudos de gênero masculino realizados no âmbito das ciências sociais, partindo da bibliografia utilizada pelo PHSVC, a temática em questão. Nesta reflexão, optamo s por fazer a articulação de dois conceitos que se inserem no campo das ciências sociais, ideologia e gênero, e que, embora elaborados sob referenciais teóricos distintos, são convergentes. Essa convergência se dá, entre outros aspectos, na possibilidade de se pensar a construção da consciência humana dentro da uma concepção crítica e dinâmica da realidade. A consciência abordada enquanto constructo social histórico e relacional, inscrito na ordem do simbólico e, portanto, passível de interpretação, porque referente ao pólo representacional das ciências sociais. Isto posto, passamos a uma breve exposição dos referenciais adotados, que serão melhor explicitados em capítulo específico. Adotamos o conceito de Ideologia, aqui utilizado a partir do entendimento de que as idéias têm participação significativa no processo de reprodução do status quo. Segundo Thompson, Ideologia deve ser pensada como uma sistema de crenças, valores e idéias manifestadas de múltiplas formas (imagens, textos, propagandas) e que tem os seus alicerçando-a com o material produzido pela equipe do Projeto (relatórios, textos, etc..), e outras publicações sobre

A articulação desses referenciais se faz viável na medida em que apresentam pontos convergentes. (Simões Barbosa. trabalharemos com o conceito de Gênero.17 significados orientados com vistas à manutenção de relações assimétricas (Thompson. Além disso. 1989). entendido como uma construção social que constitui a identidade de cada indivíduo em seu contexto social. com base nas desigualdades de poder existentes entre homens e mulheres. e que se traduzem em desigualdades sociais. segundo ele. onde a linguagem opera a mediação entre estruturas objetivas e a ordem simbólica. de forma crítica. nos detivemos em abordar a questão do masculino. subjetiva. e quais elementos apontam para a possibilidade de transformações nesse campo. Dentro desse contexto. 1995: 16). e objeto central desta pesquisa. de que modo elas se relacionam com o processo saúde/doença. caminhos que apontam para mudanças. estes referenciais permitem pensar. Kergoat. expressa os diferentes significados atri buídos às posições sociais. 2001-A. refere-se à maneira pela qual as formas simbólicas são mobilizadas para produzir sentidos que afirmem e corroborem as relações sociais de dominação existentes nas sociedades. 1999. especialmente no que se refere à percepção do ser humano inserido em um campo social. acreditamos que as matrizes teóricas eleitas podem oferecer instrumentos para compreendermos quais ideologias de gênero masculino permeiam o universo dos homens pesquisados. . entendida como questão de interesse emergente no campo da Saúde Coletiva. 1996. Giffin. Assim. Paralelamente. A Ideologia. Scott.

A metodologia adotada é a qualitativa. gravidez na adolescência. Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa Ação” . e onde a figura do homem começa a se fazer presente enquanto “sujeito e objeto” de atenção (Giffin & Cavalcanti. 1995. DST/AIDS. 1999. No sentido de apresentar uma adequada contextualização do objeto. onde aspectos como saúde reprodutiva. detendo-nos na descrição do perfil dos participantes e respectivos contextos em que se inseriam. controle de fecundidade. Corneau. com a preocupação especial de esboçar o cenário que caracteriza os 18 Grupos Focais que homens que participaram especificamente dos originaram as falas ora utilizadas como base de dados desta pesquisa. Ressaltamos também o interesse de colaborar para a implementação de programas em serviços públicos de saúde. pretendemos contribuir para que seja dada uma maior visibilidade ao quadro da saúde masculina. paternidade. Giffin. e essa escolha se justifica pelo fato de que o presente objeto de estudo está inserido no campo da . e violência de gênero necessitam ser melhor investigados. uma vez que nossa base de dados para análise será alicerçada na fala de homens que participaram efetivamente desse processo de intervenção social.PHSVC. Nesta perspectiva. 1995). nos quais ainda se faz notar uma certa lacuna no que diz respeito ao gênero masculino. estaremos traçando inicialmente um retrospecto da trajetória do Projeto “Homens.18 Com esta pesquisa . estaremos relatando a trajetória de formação dos Grupos de Reflexão de Gênero.

do processo de intervenção sócio-pedagógica que a proposta representava. convocados em uma fase em que a maioria deles já havia participado. circulação e recepção das formas simbólicas. em seus aspectos histórico e teórico-metodológico. as formas simbólicas são produzidas. efetivamente.2. Contextualização Dentro da perspectiva da Hermenêutica.19 subjetividade humana. faremos uso da hermenêutica -dialética. as contradições e os condicionamentos históricos que a envolvem (Minayo.”. Saúde e Vida Cotidiana . de modo a contextualizar a fala dos informantes que produziram as representações sobre as quais ora nos detemos. 1998). visto que esta abordagem valoriza a compreensão da fala em seu contexto. transmitidas e recebidas em condições sociais e históricas específicas. 1. No que se refere ao referencial metodológico da análise.. Assim sendo.. Os informantes desta pesquisa foram 18 homens participantes dos diversos grupos formados pelo Projeto “Homens.. Na análise sócio-histórica a finalidade é reconstruir as condições sociais e históricas da produção. passamos a retratar o PHSVC. e busca captar o movimento. .

. e os seguintes textos: Giffin & Cavalcanti. 1999.PHSVC. Saúde e Vida cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa-Ação” mimeo. 54. no. “Participação Masculina na Esfera da Saúde Reprodut iva – uma Proposta de Pesquisa-Ação”. Saúde e Vida Cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa-Ação” . 3 As fontes principais das informações aqui apresentadas foram: o texto original do projeto “Homens. tendo sido aprovado para execução.mimeo. e o Laboratório de Gênero e Saúde do NESC/UFRJ. Saúde e Vida Cotidiana: Uma proposta de pesquisa-ação. e o campo propriamente dito. Sua execução foi viabilizada com o apoio das Fundações Ford e MacArthur. Histórico do Projeto “Homens. Esta proposta se tornou possível a partir da articulação entre duas reconhecidas instituições de ensino e pesquisa: O Núcleo de Gênero e Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP/FIOCRUZ. inicialmente.20 1. Homens. ago/set. Estudos Feministas. constitui -se numa experiência de significativa relevância para a implementação dos debates na área de Gênero e Saúde na perspectiva das masculinidades. Saúde e Vida cotidiana – Uma Proposta de Pesquisa-Ação”3 Fruto de um trabalho que se desenvolveu ao longo de quatro anos. o Relatório Final do PHSVC. 2000. VI congresso/ABRASCO. que levaram a termo a proposta denominada. Salvador.1. Homens e Reprodução: o gênero masculino -objeto e sujeito emergente. Esta proposta foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa do NESC/UFRJ. entre o tempo de preparação para entrada em campo. o Projeto “Homens. ano 7.2. Giffin et all. 2001 . Rio de Janeiro.

partindo do pressuposto de que essa prática pode facilitar o equacionamento de impasses gerados no confronto entre ideologias sociais que naturalizam o que é “ser homem” e o que é “ser mulher”. psicologia e história. entre seus principais objetivos. Na verdade. e acabam por interferir negativamente no modo como as pessoas administram a relação saúde/doença. promovidas por sua inserção no mercado de trabalho. Assim. Dentre e stes fatores. e um total de seis estagiários. o aumento do número de famílias providas por mulheres. Essas ideologias dificultam o desenvolvimento de um processo de convivência em que sejam previlegiados sentimentos de cooperação e solidariedade. o PHSVC teve. antropologia e ciências sociais. graduandos dos cursos de medicina. destacam-se as mudanças no papel social das mulheres. com formação nas áreas da psicologia. e a repercussão de suas estratégias organizadas na reivindicação de direitos femininos no âmbito político e social. a criação de espaços coletivos para a discussão da experiência vivida no terreno das relações de gênero. O interesse na implantação dessa proposta foi alicerçado na convergência de uma série de fatores que contribuíram para fazer aflorar a necessidade de aprofundamento dos estudos de gênero sob a ótica do masculino. tendem a reforçar a continuidade das relações excludentes. o PHSVC foi desenvolvido com base na formação de grupos de reflexão de gênero em torno da identidade masculina. onde a mulher permanece submetida a uma condição de inferioridade perante ao .21 Contando com uma equipe de nove pesquisadores.

1999. também podem ser compreendidos como sujeitos do conhecimento (Giffin et al. O que norteou essa pesquisa foi a premissa de que as mudanças realidade vivida.22 homem. Na Pesquisa-Ação. priorizando o referencial da saúde reprodutiva. e devem ser compreendidos a partir de sua inserção em determinada classe social. experi ência geracional e identidade de gênero social e historicamente construída (Simões Barbosa. Simões Barbosa. se dão na ação gerada a partir dos novos conhecimentos construídos no processo de reflexão coletiva em torno da . Interessava ao PHSVC. além de não serem meros “objetos” da intervenção.2. O Enfoque Conceitual e Metodológico do PHSVC Apostando na possibilidade de estabelecer uma conexão entre o processo de Educação em Saúde e o debate em torno das Relações de Gênero. a geração compartilhada de conhecimentos sobre a identidade masculina em sua diversidade social. 2001-C). 2000. parte do pressuposto de que os sujeitos que dela participam. e dos cuidados com a saúde. 2002). 2000. 1. os seres humanos são enfocados como co criadores de sua realidade. portanto. Laurell. 2001-A). embasada nas vertentes compreensivas das ciências sociais. Giffin. Isto porque essa abordagem de intervenção social. e os serviços de educação e saúde. (Besse. raça/etnia.2. a metodologia adotada no PHSVC foi a Pesquisa-Ação. com o propósito de contribuir na implementação de metodologias de abordagem e sensibilização de homens para o debate e a participação no processo de desvelamento e transformação social das relações de gênero.

(Simões Barbosa. Alternativamente. (Giffin et al. 2001-C:p. Esta propõe o estabelecimento de uma relação dialógica e horizontal entre o sujeito e o objeto do conhecimento. entre pesquisador e pesquisado. De modo que. onde ainda prevalece o modelo bio-médico e a ênfase no biológico. à sexualidade. 2000). que diferem substancialmente tradicionalmente aplicado na área da Saúde. o que nos permite constatar que as pessoas se expõem de forma socialmente distinta aos agravos à saúde. 123). objetivando romper com a tradição daquilo que Freire denominou de “educação bancária”. Ao contrário. de participantes se apropriassem não conhecimentos acadêmicos.23 Estes conceitos do possuem modelo uma de estreita educação relação que com tem os sido pressupostos teóricos das metodologias participativas. os diversos tipos de inserção social aos quais os sujeitos estão submetidos são seriamente considerados. o Projeto buscou promover a facilitação de processos grupais de reflexão em torno da vida cotidiana dos participantes. alicerçado na experiência com grupos reflexivos. modo que numa os atmosfera propícia à troca de experiências somente de relacionadas ao corpo. onde os conhecimentos são repassados por um educador que “sabe” para alunos que “aprendem”. à saúde e às relações afetivas. e na pedagogia libertária de Paulo Freire. Somando-se a isto. as doenças devem ser compreendidas a partir do contexto onde se manifestam. mas que também pudessem reconhecer e . o PHSVC foi buscar apoio na experiência dos Movimentos de Mulheres. na Pesquisa-Ação. uma vez que estes podem explicar muitos aspectos que influenciam no terreno da saúde.

reportagens e outros materiais educativos contendo dados e informações sobre temas específicos. Os Grupos de Reflexão de Gênero se traduzem em um espaço de interação e construção de conhecimentos com base nos diferentes saberes de seus membros. com a utilização de vídeos. 2001-C:p. espaços que a equipe denominou de “ofici nas”. Essas oficinas. onde foi priorizada a temática da saúde reprodutiva. O eixo das ações em campo foi alicerçado na mobilização de grupos de agentes sociais masculinos que já atuavam em programas de intervenção dirigidos para homens.124). violência. tais como espaços de trabalho. Dentre os materiais educativos gerados pelo Projeto. destinados às intervenções sociais na perspectiva de gênero: o boletim “Homens Hoje”. a começar pelo levantamento e eleição dos temas a serem debatidos pelo grupo. o manual .24 nomear as emoções e experiências vividas no dia-a-dia. como DST/AIDS. tinham caráter participativo. mas também para “as transformações no nível das representaçõe s. foram empregadas técnicas de dinâmicas de grupo. textos literários. Os métodos e técnicas adotados estiveram voltados não só para a apreensão de conteúdos cognitivos. A estratégia inicial foi a de encontrá los nos seus locais de referência. tanto no âmbito do individual como no comunitário” (Simões Barbosa. percepções e sentimentos. Nelas. destacam-se alguns materiais de apoio e divulgação. entre outros. filmes. atividades lúdicas e culturais. que consistiram em um total de 20 encontros semanais com cada um dos grupos. O ponto de partida consistiu na formação de grupos de reflexão. lazer e movimentos sociais. mercado de trabalho. morbi-mortalidade masculina.

3. 2001. que possibilitou uma primeira análise das representações sobre suas identidades de gênero. atividade profissional. 1. como também de relacionados ao seu cotidiano. nível de outros aspectos . Saúde e Vida cotidiana”. no que se refere aos mais diversos aspectos: etnia. opção religiosa.25 “O Facilitador”. a equipe fez uso de um questionário denominado “Retrato Inicial”. A tônica que permeou o Projeto como um todo foi a questão da diversidade. durante o período de atuação do projeto em campo. com referências metodológicas para intervenções junto à população masculina: o vídeo “Homens. na etapa de levantamento de dados. nível sócio-cultural. atuavam como agentes sociais (ONGS/Associações Comunitárias) ou estavam ligados às áreas de educação. Este livro representa o primeiro recorte feito nas transcrições dos grupos focais realizados para a coleta de depoimentos. foram formados doze grupos de reflexão de gênero.2. Os Grupos de Reflexão de Gênero do PHSVC Ao todo. Este homens. em sua maior parte. dos quais participaram cerca de 100 homens de classes e grupos sociais diferentes. (Relatório Final do PHSVC. mimeo). que agora resgatamos em sua totalidade para esta pesquisa. saúde e segurança. com depoimentos de 18 participantes sobre os principais temas geradores que emergiram dos grupos de reflexão. produzido com a participação direta de integrantes de alguns grupos. Para delinear o perfil dos participantes. e o livro “Palavra de Homem”.

medos e limitações para além do “foro íntimo” ou de um nível individual incomunicável.4. e onde eram expressas as ambigüidades geradas diante das incertezas de um mundo repleto de drásticas e urgentes transformações. machões convictos. negros.26 engajamento sócio-político e preferências sexuais. “O que é ser homem?”. que se dispuseram a compartilhar um “espaço alternativo e solidário. solteiros. e tendo como base questões estreitamente ligadas à saúde reprodutiva.7) 1. o discurso dos homens foi permeado por uma série de temáticas que fazem parte de suas vidas cotidianas. Nesse processo. questões estas que possibilitavam aflorar as ideologias e representações de gênero presentes nos grupos. portadores de HIV-AIDS.” (Giffin et all. de confiança e reflexão entre homens. Os temas Geradores A partir de uma pergunta disparadora. As primeiras oficinas tinham por objetivo promover a integração e esclarecer os propósitos do trabalho em grupo. pardos. a equipe do PHSVC procurou facilitar a reflexão crítica dos atributos de gênero. Nesse processo. p.2. desempregados. casados e descasados. 2000. os homens eram convidados a responder questões do tipo “o que somos?” e “o que queremos?”. Ao responder a essa primeira questão. amarelos. . profissionais de nível superior. estudantes adolescentes. onde foi possível o reconhecimento de fraquezas. homossexuais assumidos. conviveram brancos. dentro de uma atmosfera que permitisse a construção de uma fala masculina. onde se alternavam sentimentos de tristezas e alegrias.

alguns temas se destacam por se fazerem presentes de forma generalizada.27 Como parte do processo. Paternidade e filiação. Os temas gerados nessa intensa experiência reflexiva foram os seguintes: As alegrias e dificuldades de ser homem hoje. enquanto um direito do grupo exercitar a gestão de seus próprios modos de existir. Houve uma certa variação nas temáticas levantadas. porque destoam do padrão de . violência. que se fazem valer não só nas falas mas também nas atitudes daqueles homens. se caracterizando pelo fato de desencadearem uma série de processos identificatórios. Segundo Giffin. falar de si. e por ser relacional em sua gênese social. ao mesmo tempo em que novas e diversas ideologias começam a se fazer notar. Saúde. ser ouvido. de acordo com a realidade de cada grupo. e a própria vivência nos grupos de homens. trata-se de um fenômeno caracterizado pela dinamicidade. Entretanto. Amor. os membros mantinham a garantia consensuada de propor revisão do que fora acordado. 1999). havia a elaboração coletiva de um contrato informal de convivência. Nesse processo. no qual as velhas e novas ideologias convivem e se entrelaçam dialéticamente (Giffin & Cavalcanti. são fatos novos e desafiadores. Ao mesmo tempo em que essas questões eram definidas coletivamente. a qualquer tempo. Sexualidade. relacionamentos. pôde-se constatar que. 2001). ouvir o outro. Trabalho e desemprego. Política e cidadania. ainda é possível perceber a presença de velhos padrões de masculinidade. (Relatório final do PHSVC. Para a maioria dos homens. do planejamento e levantamento temático.

culminando com os comentários em torno da experiência no processo de participação em grupos de homens. e sua interface com os padrões de cuidado com a saúde. Específicos: • Compreender o modo como os serviços oficiais de saúde são percebidos pela ótica dos informantes. parece que falar de saúde acaba remetendo a desemprego.(Giffin & Cavalcanti. A tentativa de classificar os assuntos levantados nos grupos de reflexão de gênero formados pelo PHSVC é relativizada.28 masculinidade tradicional. 2 . 1999). . da paternidade. cidadania. ou termina por suscitar a fala em torno das relações sexo afetivas. nunca demonstrar afeto ou admitir incertezas. são os comportamentos esperados de um homem. na medida em que se percebe que há uma transversalidade entre eles.Objetivos: Geral: • Analisar as ideologias de gênero masculino expressas entre homens participantes de Grupos de Reflexão de Gênero. que os torna indissociáveis. Assim. política. • Fomentar o debate acadêmico e político sobre a questão de gênero no âmbito das masculinidades em sua interface com a saúde do homem. violência. no qual ser forte.

ambigüidades e equívocos que contribuíram para que o conceito fosse caindo no descrédito.Thompson (1995). dentro do entendimento que ele tem de que: ideologia guarda sempre um estreito relacionamento com as relações de poder. de acordo com a sua proposta. está interessada nas maneiras com que as formas simbólicas se entrecruzam com as relações . Na realidade.29 3. lhe foram sendo atribuídos os mais diversos significados. Ideologia – um conceito reformulado Ideologia é um dos mais complexos conceitos encontrados nas ciências sociais. Que essas relações de poder podem ser explicadas através da análise das formas simbólicas. gerando contradições. apresenta o seu conceito de ideologia realizando inicialmente um levantamento histórico da elaboração e utilização do termo para. Isto porque. eleita como um dos aportes teóricos para esta pesquisa. Isto é o que explica John B. no decorrer da história. o autor caracteriza uma nova formulação do conceito de Ideologia. Em um primeiro momento. (1995). que circulam em contextos sociais específicos. ele acredita que a análise da Ideologia. Thompson. autor a quem recorremos para o esclarecimento dessa categoria. expor sua proposta de reformulação do conceito. em seguida. Referenciais Teóricos/Conceituais 3. ao invés de reabilitar alguma concepção anterior do seu significado.1.

76). formas simbólicas são: “Um amplo espectro de ações e falas. para manter relações de poder sistematicamente assimétricas. 1995. às formas de poder e de dominação. que são . mas como parte de uma preocupação mais abrangente relacionada com a natureza da dominação do mundo moderno. Dentro desse novo enfoque. pertencendo a um interesse mais geral ligado às características de ação. 16). às qualidades das formas simbólicas e a seus papéis na vida social. “estudar a Ideologia é estudar as maneiras como o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de poder'' (Thompson. Ele próprio faz uma síntese da proposta. ou não. o autor retém o valor do termo ideologia. de interação. na sua forma mais ampla como “O SENTIDO A SERVIÇO DO PODER” (1995. à natureza da estrutura social. Porém o autor ressalta que. Então. imagens e textos. o estudo de ideologia exige que se pergunte se o sentido construído e usado pelas formas simbólicas serve. as formas simbólicas também podem ser uma imagem ou imagem com palavras. além das falas lingüísticas e expressões faladas ou escritas. de sujeitos que produzem. ou seja. recebem e compreendem as formas simbólicas como uma parte rotineira de suas vidas cotidianas. à reprodução e à mudança social. 1995. crítico. Neste enfoque. quando afirma que ideologia pode ser entendida. com os modos de sua reprodução e as possibilidades de sua transformação. Para ele. interacionista. entre outras coisas. trata-se do “estudo de um campo objetivo que consiste. Segundo ele. p. P.13). no mundo social. a análise do termo ideologia torna-se mais ampla. servindo para reforçar pessoas e grupos que ocupam posições de poder.30 de poder e de como o sentido é mobilizado. p.” (Thompson.

Thompson ainda levanta uma outra questão. ou a grupos de agentes. permanecendo inatingível a outros agentes. no seu modo de ver. Unificação. isto é. p. explicam os modos gerais de operação da Ideologia. Dissimulação. São eles: Legitimação. Fragmentação e Reificação. “quando grupos particulares de agentes possuem poder de uma maneira permanente. estabelecidas de poder são “sistematicamente assimétricas''. e a posição por elas ocupada nesse contexto. Para analisar o caráter significativo das formas simbólicas. conseguir seus objetivos e realizar seus interesses. Assim. Thompson destaca três aspectos que merecem atenção na abordagem analítica da ideologia. p. Thompson postula que o contexto onde as pessoas estão inseridas. independente da base sobre a qual tal exclusão é levada a efeito'' (1995. através dos quais a Ideologia pode operar ajudam a analisar as maneiras que o sentido pode servir. em condições socio-históricas específicas.31 produzidos por sujeitos e reconhecidos por eles e outros como construtos significativos'' (1995. tal como proposta por ele: a noção de sentido. a capacidade que cada pessoa tem de tomar decisões. na medida . 79). para manter relações de poder. Esses cinco modos. a “dominação'' ocorre quando as relações. e em grau significativo. o conceito de dominação e as maneiras como o sentido pode servir para estabelecer e sustentar relações de poder. que para nós é particularmente relevante: de que maneira o sentido serve para estabelecer e sustentar relações de poder? Ele enumera cinco modos de operações gerais da Ideologia que. ou seja. garantem aos indivíduos diferentes graus de poder. 80).

(Thompson. isto é. sendo problematizadas pelos próprios sujeitos que supostamente detêm esse poder. 1995.32 em que estão ligados à várias estratégias de construção simbólica. as maneiras como o sentido é const ruído e transmitido pelas formas simbólicas. Consideramos essa categoria bastante apropriada para a análise da falas de homens que participaram de um processo coletivo de reflexão sobre suas identidades de gênero. procura chamar a atenção para as maneiras como o sentido é mobilizado a serviço dos indivíduos e grupos dominantes. e como serve. para estabelecer e sustentar relações sociais estruturadas no jogo do poder. e na igualdade de direitos. do dominado e do dominante. O Referencial de Gênero Desde que se estruturou a nível mundial. entre outras estruturas de opressão. O fato é que esses padrões comprometem sobremaneira a perspectiva de construção de um mundo onde as relações humanas sejam baseadas na equidade entres os sexos. a partir desta concepção. e sobre a questão de como vivenciam o processo saúde/doença. 81): A categoria de Ideologia. p. com objetivo político de transformação social. onde uns buscam preservar e outros procuram contestar. em circunstâncias particulares. o Movimento das mulheres tem estado a frente de uma onda crescente e global de movimentos de grupos minoritários de reivindicação de direitos (calcados nos ideais de igualdade e liberdade herdados da Revolução Francesa) que.2. encaram de forma questionadora. nesse caso. 3. o . Acreditarmos que se tratam de aspectos da vida social onde as relações de poder e de dominação se fazem presentes mas.

Frente a este fato. o conceito de gênero não se científico racionalista. Na década de oitenta. de forma alguma é possível desconsiderar as transformações sociais decorrentes das múltiplas intervenções promovidas pelo movimento feminista numa trajetória relativamente curta.(Rohden. agir de acordo com o que as pessoas em sociedade acreditam ser natural do homem e próprio da mulher.1989). onde o gênero é entendido como elemento constitutivo das relações sociais. baseado nas diferenças percebidas entre os sexos e forma primeira de significar as relações de poder. se levarmos em consideração a história de opressão feminina ao longo dos últimos três milênios em que vem imperando a cultura do patriarcado no seio da civilização ocidental. e reducionista que ainda predomina na sociedade ocidental. as feministas começaram a utilizar o termo “gênero” como maneira de referir-se à organização social das relações entre os sexos. principalmente. dualista. Segundo Scott . e sim de sua bagagem sócio-cultural. o gênero não faz parte de seu capital genético. Dessa forma. traz novas possibilidades para se pensar a questão do homem e da mulher.33 paradigma 2001). compartimentador. articulando as relações sujeito e sociedade (Scott. Cada ser humano nasce com um sexo geneticamente definido. Ser homem ou ser mulher e. política e histórica. O Gênero enfocado como uma categori a sociológica . Entretanto. pouco ou nada tem a ver com essa natureza biológica e a fisiologia de cada corpo. e para denominar uma categoria de análise histórica. . a história descreve esses processos como se estas posições normativas fossem produtos de c onsensos e não de um conflito na sociedade.

1997) e que.34 remete às características biológicas sexuais. também. o que social e historicamente se construiu sobre os sexos feminino e masculino. Scott. As ideologias de gênero.a elaboração histórica e epistemológica do conceito de gênero – enquanto uma categoria explicativa que deu visibilidade a questões até então referenciadas à esfera do natural. 2001-A). ou seja. “. mas às formas como estas são representadas em cada sociedade.. Constata-se. Isto entendendo-se que as práticas sociais atuam sobre os corpos. na medida em que nos condicionam a um distanciamento de nós mesmos e. impregnadas na cultura através das mais diversas vias. Sendo os atributos de gênero frutos de um processo. (Whishire. inviabilizam uma relação saudável e construtiva com o mundo. podem estar impregnadas de padrões que são auto-destrutivos. Louro.. que tais atributos são de tal forma articulados que tendem a ser percebidos como parte da natureza de . 2001-A: p. desde os “inocentes” contos de fadas que nos são. 2001. gerar teorizações” (Simões Barbosa. nos impingiram ideologias com as quais fomos construindo o nosso modo de pensar e de existir. em determinado momento histórico. (Giffin. no entanto. do biológico – partiu da reflexão coletiva de mulheres sobre seus corpos. carinhosamente lidos na infância até as parábolas das escrituras sagradas. posteriormente. conseqüentemente. 1995. Conforme ressalta Simões Barbosa. Simões-Barbosa. variam no tempo e em conformidade com as diversidades culturais inerentes a cada contexto. vivências e emoções enquanto mulheres para. 1995. 124). já que é no campo das relações sociais que as relações entre os sujeitos são estruturadas.

relacionamentos sociais. toma o corpo feminino. É como “objeto” que a ciência. Numa construção histórica. delegando ao feminino o papel de objeto/ expressão da natureza – corpo e emoçã o. 1995). dentro desse ponto de vista androcêntrico. as mulhere s colocaram em debate a repressão de sua sexualidade. 1997). Para ela. enquanto que a faculdade da razão era atribuída ao masculino. do trabalho. em que os grandes pensadores gregos já falavam da emoção em referência ao feminino. o corpo da mulher ganhou importância na definição científico social da mulher reprodutora (essencialmente mãe. esses conceitos tornaram-se arraigados dentro da civilização ocidental. (Giffin. uma análise da da prática educativa do e do desenvolvimento da teoria e epistemologia desse movimento. caracteristicamente utilizada como recurso de dominação e controle social sobre as mulheres. contribuindo para que uma série de distorções e preconceitos sobre as mulheres fossem incorporados como sendo de sua “natureza”. e naturalmente situada na esfera do privado). compreensão referencial dicotômico entre corpo-gênero -poder. Giffin o processo propõe parte. Daí decorre que a categoria de . e a todos os conceitos que daí derivam. da religião. parentais e afetivos. (Jaggar. dando sustentação a toda ordem de relações interpessoais. A figura das mul heres foi sendo associada à natureza. e o medicaliza. e que se contrapõem ao racional masculino. Dessa forma. onde o masculino se colocou como sujeito da ciência/razão/mente. quer sejam no âmbito da política. De lá para cá. 2001).35 cada um. Esse padrão pode ser percebido desde a idade clássica. inicialmente. (Louro.

tais como as emoções do investigador. refletem e derivam do processo social em que estão inseridos.36 Gênero expressa uma rejeição frontal ao destino biológico proposto pelo discurso sócio-científico e. A visão que se tem atualmente é a de que trata-se de um processo de mão dupla onde. e em outros âmbitos vitais” (Giffin. Assim. possibilita que seja dada visibilidade às experiências das mulheres no espaço privado da vida social. e a participação do objeto de pesquisa no processo. 1997. estas também tem seu efeito sobre a ciência. onde as mulheres propõem a fusão das categorias sujeito/objeto na conceituação e na operacionalização das investigações. já que se constituem mutuamente enquanto produtos de um processo social. o que implica dizer que existe controle. Giffin. 1995. na reivindicação dos seus direitos dentro dos serviços de saúde . “Na discussão da prática educativa. A proposta de discussão em grupos das vivências individuais é vista como meio de fortalecer a auto-estima e a possibilidade das usuárias se tornarem sujeitos ativos no cuidado da sua saúde. passa-se a considerar aspectos que até então não eram valorizados nas pesquisas. Simões Barbosa. por parte da sociedade. 1995: p. 31) . os objetivos e a maneira de pensar daqueles que fazem ciência. Segundo Giffin. colocado como categoria teórica. Dentro desse novo paradigma. (Berman. 1999). tanto os profissionais como as usuárias são caracterizados como sujeitos com direito a um espaço de reflexão sobre suas vivências. 1999). ao mesmo tempo em que a ciência tem influência na formação das identidades de gêneros. o feminismo col ocou em pauta a proposta de construção de uma Ciência de Sucessão. (Giffin. sobre os usos da ciência e sobre sua ideologia.

Para ela. consentimentos. ela quer dizer que a socialização dos referidos papéis está diretamente relacionada com as contradições que se apresentam. existe um processo dialético de acomodação e resistência que se apresenta a partir de respostas diversificadas dos indivíduos à contradição e à opressão. sejam estes indivíduos homens. recuos. 2001:39). gênero.33). que definem os papéis sexuais. 1990: p. Anyon (1990). os grupos dominados são. principalmente nas diferenças de classe social. raça/ etnia. através de diferentes práticas sociais. Dentro dessa mesma linha de raciocínio. nem rejeita totalmente os imperativos da “feminilidade”. 16) Assim sendo. Com isso. cit. domesticidade e passividade” (Anyon. avanços. as relações (entre mulheres e homens ou entre os sexos em si) são constituídas por “negociações. lugares de resistência e de exercício de poder”. Segundo esta autora. é necessário enfatizar a importância de que a categoria de gênero seja compreendida a partir das relações que se estabelecem no âmbito do social. “Grande número de mulheres nem aceita. e na forma como as pessoas respondem a isso.37 Para Louro (2001: p. por vezes. Preferencialmente. revoltas. afirma que as pessoas negociam sua condição de ser e estar no mundo. mesmo reconhecendo a presença das chamadas ideologias de gênero. e c onsiderar também as deficiências das políticas públicas no campo da educação e saúde onde aspectos . alianças” (op. mulheres ou crianças. a maioria das mulheres opta(consciente tanto quanto inconscientemente) por tentativas cotidianas de resistir à degradação psicológica e à baixa auto-estima que resultaria da aplicação exclusiva e total das ideologias correntes de feminilidade enquanto submissão. “capazes de fazer dos espaços e das instâncias de opressão. dependência.

2002). em que o "corpo da mulher" foi tomado como questão de ordem. Louro. que a categoria de gênero possui um caráter relacional. justamente. iniciou a prática das oficinas de sensibilização. da história a da necessidade dimensão relacional humanidade. Para Rangel & Sorrentino (1994).38 relacionados aos valores culturais. Ainda parece clara a distinção social que é feita às mulheres pobres e de origem negra. 2001-A. O movimento de mulheres desenvolveu muitas experiências de práticas educativas. . a categoria gênero possui também um caráter de transversalidade. quando se fala em conquistas femininas. ainda. Além do aspecto relacional. (Simões Barbosa. as identidades de gênero só podem ser compreendidas dentro de um âmbito em que se engloba fatores como as diferenças geracionais. a classe social. o que implica considerar a existência de um processo de relações em que estão envolvidos tanto homens como mulheres. pelo fato de que é necessário levar em conta as condições concretas da existência de homens e mulheres (Giffin. como as diferenças entre a experiência social feminina e masculina se fazem presentes. caracterizado por sua vez. Em outras palavras. 1990. por exemplo. a nova visão de ciência que as mulheres estão de propondo resgatar deve a levar em conta. 1994. A partir de uma pergunta chave: "o que é ser mulher?". onde as participantes encontravam espaço para trocar experiências individuais. as diferenças de classe. Giffin. o capital cultural. 1995)) Há que se considerar. etnia. Rangel & Sorrentino. Dessa forma. entre outros. não é possível desprezar.(Anyon. 2001). ainda que construída em termos das desigualdades propiciadas pela opressão do masculino sobre o feminino.

2001-C: p. confinada à privado. “Não coincidentemente.104). grupos acabou caracterizar uma proposta i novadora de educação para a saúde. com isso. ponto nevrálgico de uma estratégia de transformação das relações de gênero.39 podendo assim re-significá-las nas vivências em grupo e. também expressou uma nova consciência do corpo feminino colonizado por outros interesses – incluindo em primeiro plano. o que resultou. espaços nos quais se exercitava justamente as perspectivas do diálogo e da troca de experiências. o Movimento Feminista se caracterizou pela promoção de experiências alternativas de mobilização em que a metodologia utilizada se focava na formação de grupos de reflexão. . Num processo que se assemelha bastante às práticas educativas da educação popular descritas anteriomente. 126) do pelo discurso a sócio-científico prática nos dominante. a ciência médica” (Giffin. 2002: p. tanto na esfera privada como na pública. esse percurso levou a um profundo questionamento sobre a construção social e ideológica dos conhecimentos da medicina sobre o corpo e a sexualidade feminina. posteriormente. resultando na formulação do conceito de saúde integral e de uma proposta educativa consoante com essa visão” (Simões Barbosa. “A bandeira feminista “nosso corpo nos pertence”. Tendo seus corpos com âncora de seus debates.. reflexivos que tornava por naturalizada a condição da mulher enquanto reprodutora. re significar sua relação com o próprio corpo e com o mundo. (Giffin. e onde a mulheres puderam construir um novo conhecimento e sentido para suas vidas. diante da constatação de sua utilização h istórica como alvo de mecanismos de controle esfera 1995). no confronto do próprio modelo biomédico.

79). tendem a responder ao mundo diante de . para pronuncia-lo” (Freire. É uma mera ilusão. o “homem” se revela a si mesmo em sua relação com o mundo: “O diálogo é esse encontro dos “homens” mediatizados pelo mundo. para os outros e se re-conhecendo como integrante de um coletivo. 1974. Um processo de crescimento pessoal desvinculado de sua consciência comunitária com o mundo não chega a ser um processo de crescimento verdadeiro.: p. mas também para que nos tornemos sujeitos sociais e morais. pois a análise coletiva de suas vivências cotidianas possibilita que tenham uma melhor visibilidade das ideologias de gênero que acabam por determinar o modo como. Isto porque o ser humano não consegue se ver a não ser olhando para fora. As experiências na formação de grupos de reflexão de gênero com homens tem demonstrado que esse é um espaço adequado para a análise coletiva de um necessário processo de desconstrução e desnaturalização das identidades de gênero socialmente construídas. tende a resultar uma gama de novas descobertas e questionamentos que possibilitam a revisão e modificação de padrões de comportamento até então bastante arraigados. Segundo Paulo Freire.40 Um fato é inegável em relação à condição humana: pertencer a um grupo é exigência “sine qua non” não só para garantir à sobrevivência. via de regra. Isto porque possibilitam o envolvimento crítico de homens numa verdadeira “varredura” em torno do que vem a ser a sua introjetada identidade masculina. o que significa que ninguém consegue se tornar realmente humano a não ser na relação. Desse processo.

Identidade pessoal privada. no sentido semântico ou epistêmico. crianças ou deles próprios. 2000). Na fala de Jurandir Freire. com século mudanças rápidas e radicais nos mais diversos aspectos da vida humana. “O grupo deve ser suficientemente sólido e durável para dizer “o que devemos ser” e “por que vale a pena viver!” . não raro.1. que dê sentido ao que somos ou poderemos ser. 2000) Nesse entendimento. de mulheres. como forma de acesso à consciência das identidades de gêneros adotadas no decorrer de suas vidas. 3. os Grupos de Reflexões de Gênero Masculino do PHSVC tiveram como base para a sua estruturação. (Relatório Final do PHSVC.41 situações de conflito e onde. políticas globalizadoras. O O Gênero Masculino em foco XIX inaugura um novo momento histórico. mimeo). as reflexões em torno das experiências cotidianas dos participantes. é uma ficção emocionalmente inviável. Não por acaso. e não-problematizadas até então. 2001. Ou temos acesso a algo além de cada um de nós. a aposta no trabalho com grupos.2. Nestes tempos de assombrosos avanços tecnológicos. e imensas e crescentes . O espelhamento que ocorre nas situações coletivas dão a oportunidade dos participantes realizarem trocas significativas.(Giffin et all. que só são possiveis porque o ser humano necessida do outro para se compreender no mundo. ou não seremos! Somos o que o outro confirma que somos”! (Freire. estão sujeitos a protagonizar desfechos violentos onde pode ocorrer a vitimização de outros homens. guerras intermináveis.

quais os efeitos dessas mudanças no âmbito das relações humanas e. assiste-se a configuração de conflitos. e no qual a lógica do mercado passa a estruturar as relações sociais e políticas. é pautado em um individualismo competitivo e desagregador. entre os gêneros.42 desigualdades sociais. onde o que conta é a perspectiva de ‘se dar bem’. 1999. que não se restringem à questão de gênero. Isto provoca a hipertrofia da liberdade individual e a desvalorização do princípio de igualdade. Moraes. homens deparam-se também com onde o estereótipo do "macho a dificuldade de estabelecer provedor" e dominador já não atende às demandas da vida cotidiana. (Luz. São inegáveis as transformações ocorridas no modo como homens e mulheres passaram a se relacionar nas últimas décadas. ou como costuma se dizer por aqui. Ao mesmo tempo em que se defronta com rápidas e drásticas transformações no contexto social. Em decorrência dessa ideologia. Prevalece a política do ‘cada um por si. 1994. Giffin & Cavalcanti. em prejuízo da cidadania social. 2000). particularmente. em detrimento de quem quer que seja. justamente. 1987. . 1999). sistema global que tende a prevalecer entre as nações. Modelos tradicionalmente impostos são confrontados com uma nova realidade que exige uma nova forma de ser no mundo. a chamada ‘Lei do Gerson’. tanto para homens como para mulheres. (Rangel & Sorrentino. ocorre questionar. os parâmetros e valores que possam compor uma nova identidade masculina. Besse. e Deus pra todos’. e que caracterizam um cenário de ampla e contínua luta social. O Neo-liberalismo.

Estas últimas. De fato. questão esta que não foi bem equacionada até hoje.43 Diante desse contexto. e encarando duplas jornadas de trabalho. a reação foi de estranhamento. Essa mudança de opinião parece estar mais ligada ao fato de que eles próprios já não dão conta de prover suas famílias sozinhos. apesar das pretensas e tão propaladas conquistas feministas. Giffin. o espaço do privado começa a demandar também uma divisão de trabalho. 1999). ou encarada como um “mal temporariamente necessário” (Giffin & Cavalcanti. (Simões Barbosa. Com as mulheres buscando essa inserção no âmbito do público. ao que tudo indica. 1994). Se a princípio. a tal “independência” feminina implicou numa sobrecarga de trabalho para as mulheres. o discurso masculino vem se modificando no decorrer das décadas. 2001-A. ainda se ressentem de muita discriminação nos mais diversos âmbitos da vida social. Muitas mulheres. precisam administrar o ônus de sustentar sozinhas suas famílias. por exemplo. submetendo-se a salários menores que o dos homens na mesma função. De um modo geral. sejam mulheres. a fala . sejam homens. 1994). Como já mencionado anteriormente. parece oportuno que se lance um olhar atento às repercussões dessas transformações sociais. o advento da inserção da mulher no mercado de trabalho aparece como um dos focos da desestabilização dos homens frente a sua identidade. que alguns homens já passam a afirmar que o trabalho remunerado é benéfico para suas mulheres (Giffin. A tal ponto. visto que sua saída para o mundo público não encontrou a reciprocidade de maior entrada masculina na esfera privada. especialmente no modo como as pessoas administram suas relações no cotidiano.

Couraça. 2002. no dicionário Aurélio. Simões Barbosa. nos sinaliza que vem sendo processada uma espécie de reavaliação em torno da masculinidade tradicional. elaborada há quase duas décadas atrás. face à crise de valores que atinge as sociedades como um todo. (Giffin & Cavalcanti. constata-se que novos modelos vêm sendo adotados. no que diz respeito à perspectiva de equidade de gêneros. defesa. em sua obra "Análise do . Wilhelm Reich.44 atual das mulheres ainda expressa queixas que são legítimas. já que a performance do antigo “Homem de Verdade” (Nolasco. Tem o sentido de proteção. A palavra dá noção da dificuldade implícita na tarefa de desempenhar o papel que lhes tem sido historicamente atribuído. designa arm adura de couro ou metal destinada à proteção das costas e do peito. Besse. Essa fala. fazendo com que a masculinidade passe agora a ser descrita em termos plurais. 1999). Diante disso. Chama a atenção. 2001-A. já num primeiro momento. que o autor tenha feito o uso de uma palavra tão contundente como 'couraça' para descrever a condição em que os homens se encontram. "O homem atual começa a demonstrar sinais de cansaço. o homem parece estar sendo pego de surpresa ao confrontar-se com a ausência de um papel previamente delineado para que ele esteja em cena nesse novo ce nário. 1997) não mais contempla as demandas destes novos tempos. Por sua vez. e parece não querer mais suportar a couraça que o envolve e ao mesmo tempo o aprisiona" (Costa. 1999). 1986). resguardo. (Giffin.

diante da impossibilidade de se diferenciar. os homens se envolverão em situações violentas que reafirmarão sua diferença das mulheres e sua virilidade. os homens tornam-se tanto . enquanto que os meninos se definem pela negação (Gaiarsa. aprisionados à rigidez de uma cultura tão impregnante e exigente. que impossibilitam o fluxo natural de sua energia criativa. consolidam todo um conjunto de bloqueios. de modo público.45 Caráter". No terreno da psicanálise. baseados nos afetos e emoções.1998). A identidade masculina. violentas. capaz de manter uma insegurança constante nos homens. “O resultado é uma tensão entre ser macho e ser masculino. (apud Gaiarsa. nos moldes tradicionais. O que é possível esperar de indivíduos arbitrariamente e fixações a nível físico e psicológico. controversas. p. desajustamentos 1998). e impulsionar tanto a auto-desvalorização como reações violentas contra outra/os “ (Giffin. senão figuras inseguras. as meninas se individualizam identificando-se com a mãe.8) e até contra si mesmos. 2004. autoritárias. é estabelecida e mantida por sucessivas afirmações sociais. impressas no corpo. Prover e ser ativo das sexualmente. Em casos limites. são eminentemente descartados. e irremediavelmente solitárias? Na busca de corresponder à uma identidade em que a interiorização de valores humanos essenciais. empregou o termo "couraça caracterológica" para descrever as tensões musculares acumuladas através dos anos pelo indivíduo e que. tensas. ajuda a conformar a identidade masculina no processo de diferenciação (quando não negação) mulheres.

política esta caracterizada pela violência. (Nolasco. discreto e contido nas emoções e sentimentos. realizar. as imagens de masculinidades construídas nos Estados Unidos no decorrer dos tempos podem ser análogas ao modo como essa nação se remete aos outros países através de sua política externa. 1999) Segundo Kimmel (apud Giffin. 2003). Como afirma Pierre Bourdieu. versátil. o homem se vê obrigado a confirmar socialmente a sua virilidade a todo o momento. eficiente. É justamente nesse processo que esses atributos acabam se confundindo. ser pragmático. Essa constatação leva o autor a considerar esse país como um perigo . no mínimo. Talvez uma máquina pudesse ser programada para atender a esse rol de proposições eficientemente. para a manutenção desse status quo de macho dominador. quiçá cultivar. uma cilada. e uma insegurança constante. reservado e pontencialidades de suas experiências firmemente direcionado para agir. Gomes.46 mais rígidos e insensíveis quanto possível. viril. mas no que diz respeito ao ser humano. de modo a provar aos outros homens e às mulheres que são “homens de verdade”. 2004). objetivo. desumanizadora. 1997. visto que. Ele deve estar verdade” que . no fim das contas. (Nolasco. o tão falado privilégio masculino não deixa de ser. que sua condição de macho não lhe permite expressar. portanto. pela necessidade de recorrência ao uso da força para que seus propósitos sejam garantidos. ágil. fazer. são suficientes apenas para definir um indivíduo solitário. ainda que em detrimento de outros sentimentos mais elevados. competitividade abusiva. embora superficial. 1997) Precisam adequar-se às características desse tal “homem de limitado no que se refere às pessoais. tal pretensão parece.(Bourdieu.

Pesquisando autores como Carrigan. outros homens. 2004) A despeito de quão equivocadas possam nos parecer as idiossincrasias americanas. na visão norteKimmel afirma ainda que. O autor salienta que. Giffin (2004) nos surpreende ao recordar que a questão do masculino vem requisitando espaço na pauta das discussões desde os anos 50. garantir a afirmação da identidade masculina. envolvidas que estavam na meta de garantir um espaço no âmbito da vida pública. A autora ressalta.47 eminente para a sobrevivência do planeta. etnia/raça. Nesse período. Connell e Lee. religião. sendo que. podem ser desqualificados em relação ao mito de superioridade masculina americana. no topo da pirâmide estariam os americanos. Teríamos aí uma verdadeira gradação de masculinidades. a homofobia é base para americana de macheza. tal o poder de influência a que somos submetidos na condição de país de terceiro-mundo. nessa visão norte-americana de masculinidade. geração. época que antecede o início das primeiras manifestações feministas. não podemos nos furtar de sofrer seus efeitos em nossas vidas. de acordo com a origem. apud Giffin. (Kimmel. as mulheres descartaram a participação dos homens no debate sobre suas questões. entretanto. com a prerrogativa de se auto-designar ao mais alto grau de masculinidade/poder em relação ao restante da população masculina do mundo. etc.. que o papel do homem nos estudos feministas desde esse período era o de “objeto”. a referida autora const ata a existência de estudos que relacionam a delinqüência . Mas não apenas isso. no intuito de minimizar o famigerado padrão de dominação contra o qual elas se rebelavam.

2000) Sendo o chamado "mundo dos homens" composto. as insatisfações são tanto de mulheres quanto de homens. onde a questão de gênero é ampliada no sentido de abrigar também uma discussão sobre as implicações do modelo de masculinidade hegemônica2 no contexto global. Silver. 1999). na realidade. Para ele. e em especial a saúde reprodutiva. de Keijzer. 1995. Kimmel. De fato. há algum tempo. (Giffin.ideológica de uma classe sobre as outras. há que se atentar para o fato de que estas últimas já vêm deixando claro. Vale citar também estudos desse período relacionados aos conflitos diante da masculinidade desencadeados pelas demandas emergentes de valores relativos à “sensibilidade” nas relações sociais. num processo que coloca em xeque a manutenção dos padrões masculinos socialmente impostos diante da vida real e suas contradições.48 e fracasso escolar com a ausência paterna. 1981). uma série de questões acerca das desigualdades de gênero. 1995. Kaufman 1997. 1997. 2004). (Giffin. neste trabalho. . As formas históricas da hegemonia nem sempre são as mesmas e variam conform e a natureza das forças sociais que a exercem. e isso apenas reforça as dúvidas 2 Utilizaremos. mas também estrutura um cenário em que surgem uma gradação de masculinidades subordinadas. mas também no que se refere à saúde integral dos homens . o conceito de hegemonia conforme proposto por Antonio Gramsci. o conceito de hegemonia caracteriza a liderança cultural. por homens e mulheres. (Coutinho. constata -se como relativamente recente o interesse das ciências sociais por essa temática. Outros autores relevantes salientam também que a construção social da masculinidade dentro dos parâmetros tradicionais e hegemônicos se dá numa perspectiva de opressão feminina. (Connel. De qualquer forma.

justamente. Valores estes que remetem à "sensibilidade". O PHSVC reuniu majoritariamente homens de classe popular. é no cotidiano dessas e de relações gênero que os atributos as de são de gênero são no ainda reproduzidos comportamento transformados. Giffin. 1998. em contraposição à "racionalidade" eminentemente masculina (Luz. parece importante ressaltar a necessidade de se . existe a constatação de que essas transformações estão condicionadas à questão da relação. (Mota. por uma identidade onde os valores até então ditos femininos passam a ser levados em conta. Diante disso. munidos de um nível de instrução diferenciado. aparentemente. e estes demonstraram ser provável a confirmação dessa tendência. Curiosamente. (Giffin e Cavalcant i.49 quanto à perspectiva do papel de dominador atribuído aos homens ser ou não um “privilégio” a ser mantido. portanto. vários estudos demonstram que a busca atualmente parece ser. onde o estereótipo do “machão” parece não mais receber a mesma aceitação de algum tempo atrás. Estas podem ou não aceitar as inovações propostas pelos homens dentro das relações cotidianas. 1999). Barker & Loewenstein. 1999) Alguns estudos apontam para a perspectiva de que esses questionamentos também venham sendo feitos entre homens de camadas de baixa renda. Isto porque. Contudo. Por outro lado. circunscritas a uma pequena parcela de homens pertencentes à classe média e. mudanças caráter masculino relativamente tímido e incipiente e. 1987. uma vez que envolvem o posicionamento das mulheres. 1997).

na medida em que são ouvidos. 2001).(Giffin & Cavalcanti. Num processo de construção coletiva do conhecimento sobre a realidade comum. podem chegar a descobrir juntos que também são responsáveis pela qualidade de vida pessoal e coletiva. sobre sua saúde e participação social. A Saúde do homem: . essas transcrições contemplam a fala de alguns dos homens que se envolveram. efetivamente. sobretudo.2. 3. 1999). e identificar-se na fala do outro. Registro de um momento especialmente interessante do “Projeto Homens. a reflexão crítica dos atributos de gênero e. nos propusemos a revisitar as transcrições que ora são alvo de análise nessa pesquisa. a exemplo do que ocorreu com os participantes dos Grupos de Reflexão de Gênero do PHSVC.50 pensar metodologias e técnicas para se trabalhar a questão da alteridade. Não por acaso. descobrem a possibilidade de se permitir escutar o outro. Descobrem. como também pode lhes permitir a exploração então de muitas de suas potencialidades humanas até desconhecidas.2. favorecer a construção de uma “fala masculina” . que são os grandes responsáveis pela manutenção ou pela transformação da qualidade de suas vidas. porque desqualificadas pelos padrões de masculinidade tradicional. em uma verdadeira maratona reflexiva sobre suas identidades de gênero. com isso. e que a saúde do homens é uma questão de saúde pública. (Relatório Final PHSVC. Saúde e Vida Cotidiana”. Essas experiências dão indícios de que os homens começam a perceber que também podem falar sobre si e de que. e que a construção de novas identidades de gênero não só é possível.

implica em não ficar doente nunca. que diz respeito tanto a saúde das mulheres quanto a dos homens. a questão de gênero foi de um processo. na maioria dos países. onde a dicotomia reflexo tradicionalmente alicerçada numa relação onde prevalece a dominação. a partir dos parâmetros impostos por essa cultura. no sentido da criação de políticas públicas de saúde que levem em conta as necessidades da população masculina. (Bourdier. ainda é . os homens adquirem uma capacidade especial para camuflar os próprios problemas. A própria busca de cuidados para com a saúde não faz parte de seu repertório. forjada em raízes que se baseiam na cultura patriarcal. e mesmo o fenômeno da violência em seus aspectos sociais mais abrangentes. há ministérios ou conselhos que defendem o estatuto da mulher. colocada enquanto masculino/feminino. No processo de formação da identidade masculina. demandando ser confrontada em sua integralidade. Contudo. não chorar jamais. Observa-se também que. Nolasco 1995). não amolecer. que vão desde a questão fisiológica. apresenta-se como um fator preocupante em termos de saúde coletiva. permeou todo o trabalho realizado com os participantes dos Grupos de Reflexão de Gênero formados pelo PHSVC. Nesse trabalho.51 A pergunta: "O que é ser homem hoje?". Mas a saúde dos homens. 1997. precisa ser considerada atentamente como mais um aspecto da questão de gênero. o mesmo não acontece em relação aos homens. no entanto. visto que “ser homem”. até a questão da violência doméstica. A preocupação com a saúde do homem. não se mostrar dependente ou fragilizado. em suas especificidades múltiplas.

no que tange aos princípios cada gênero. pois . Além do interesse de fazer valer as prerrogativas do Sistema Único de Saúde – SUS. os serviços est ão preponderantemente estruturados para a assistência às mulheres e crianças. a atenção integral à saúde. De um modo geral. ressalta-se a importância de ampliar o debate e os estudos que instrumentalizem as práticas de saúde.(Simões Barbosa. 2003) Diante desse quadro. Como bem alerta Gomes (2003). e os setores de saúde pública permanecem aparentemente alheios a esta problemática. trata-se justamente de fortalecer a busca de equidade dos gêneros. o objetivo é alertar para um necessário olhar de cuidado sobre as especificidades de “Acreditamos que são igualmente válidos os posicionamentos que enfocam a saúde da mulher e a saúde do homem.” (Gomes. entretanto. Apesar das pretensas conquistas das mulheres em termos legais. que o interesse de colocar em pauta a saúde do homem nada tem a ver com sexismo machista. embora atuem de forma bastante insatisfatória mesmo nessas áreas. desde que tais posicionamentos não percam a perspectiva relacional entre os gêneros e não se distanciem da promoção da saúde voltadas para as necessidades humanas em geral. conforme previsto na legislação atual. Vale ressaltar. De forma alguma se invalida a necessidade de garantir programas de saúde especificamente voltados para as mulheres. levando em conta a perspectiva de incluir um número cada vez maior de homens como participantes e co -construtores desse conhecimento.52 assunto de pouca ressonância. ou desejo de resgatar a prevalência do masculino. primordiais de universalidade e equidade. 2001 A). ainda está longe de se fazer realidade no Brasil.

Observa-se que existe. De Keijzer. 2003. somam-se as experiências com drogas. especialmente no que diz respeito à saúde. a saúde do homem tem sido relegada ao âmbito da saúde do trabalhador. destaca-se. (de Keijzer. e a perpetuação através da paternidade. considerando-se também as variações relativas a classe. é claro. justamente em virtude dos fatores de risco e das conseqüências do trabalho sobre a saúde. principalmente. Isto. na maior parte dessa cultura. 2000) Trata-se de um padrão que parece estar bastante imbricado na ideologia que prevalece na cultura latino-americana. Quanto a isso. Giffin & Cavalcanti. e não raro em virtude de causas externas. a sexo-genitalidade. Essa cultura acaba privilegiando uma estrutura de relações em que a m asculinidade é compreendida a partir de três aspectos: o trabalho. De fato. geração e particularidades sócio-históricas. etnia. 1999). quase sempre associadas à uma pré -disposição deliberada à se exporem a riscos e situações perigosas. alcoolismo. Nesse processo. relacionado com a perspectiva de ser pai. Não por acaso. 2000) Ser homem. (Gomes. o aspecto que diz respeito as atividades laborais onde.53 somente a partir de suas falas será possível acessar quais são suas reais preocupações e necessidades. 1998). é o homem que se compromete com as tarefas mais arriscadas e perigosas e que demandam maior vigor físico. está diretamente Ter filhos é uma forma . 1997. (Hardy & Jiménez. realmente. o corpo masculino é visto como instrumento de trabalho. (Jiménez & Garcia. situações de violência e acidentes. onde “ser homem é fazer coisas de homem”. uma tendência acentuada dos homens morrerem antes das mulheres. quase sempre.

pode ser um fator complicador da saúde delas. especialmente no que se refere à prevenção de dst/AIDS. De um modo geral. (ib idem. para muitos homens. com orgulho. (Kalckmann. e à divisão da responsabilidade em relação ao uso de métodos contraceptivos. a tendência é eles se colocarem à margem. “Parece que evitar filhos. por exemplo. Daí também se depreendem questões ligadas ao processo reprodutivo. assumindo o papel do provedor de prazer. e ao modo como os homens se colocam diante da questão. que podem engravida-las. à interrupção do clima de erotismo e. 1997). Admitem . 1997: 89). Ainda é preocupantemente reduzido o número daqueles que se referem a um uso contínuo e sistemát ico deste método. relegando às mulheres a responsabilidade por esses cuidados. para eles. 1997) Vários estudos apontam para a resistência demonstrada por muitos homens em adotarem a utilização da camisinha. já é considerado direito legítimo das mulheres. nem sempre levando em conta o fato de que o uso de pílulas. (Kalckmann. medo este causador de ansiedade pelo receio de comprometimento do desempenho junto à parceira. o mesmo não acontecendo quando o desejo é a prevenção de doenças.54 categórica de provar a masculinidade. ao medo de perder a ereção. o mesmo não acontecendo em relação às doenças ”. apresentando as mais diversas justificativas para isso. consequentemente. Nesse aspecto. sendo que os que se mostram mais reticentes alegam que suas dificuldades estão ligadas à perda de sensibilidade. o casamento aparece como .

bem como a forma como essas praticas são atravessadas pelos mecanismos de poder. visto que este fator interfere significativamente em sua identidade masculina.55 um fator de segurança uma vez que. Um outro aspecto digno de nota tem ligação com a di ficuldade dos homens aceitarem a perspectiva da sua própria infertilidade. fato que parece tratar-se de um acordo tácito aceito inclusive pelas mulheres. O fato é que a auto-estima do homem que não consegue procriar fica irremediavelmente comprometida. frente as mais diversas repercussões que podem . especialmente entre as camadas populares. como produto das relações de poder que eles mantém em relação às mulheres. na medida em que se sente diminuído por não poder provar sua virilidade. ou nem mesmo chega a ser feito. 1998) De um modo geral. (Almeida. Com a naturalização desse comportamento. o que não se enquadra no modelo de masculinidade que precisam atender. Ao mesmo tempo. Dessa forma. Assim. (Hardy & Jiménez. 2002). a vulnerabilidade diante da possibilidade de contrair DSTs/AIDS fica maximizada frente as ideologias de masculinidades incorporadas no contexto das relações extraconjugais. é retardado. estaria em suas mãos o controle sobre a seleção de suas relações sexuais. a extra-conjugalidade é tida como uma prerrogativa do gênero masculino. um tratamento preventivo que poderia ser feito a partir de um simples exame de espermograma. vários estudos descrevem como a enorme diversidade de praticas sexuais dos homens. somente à elas fica delegada a responsabilidade de submeterem-se a um processo de diagnóstico. muitas vezes desnecessário. quando o casal não consegue conceber um filho. nesse contexto. concorrem para tornar a sexualidade um campo central para a compreensão das identidade masculinas.

“Es llamativa la reciente proliferación de programas y modelos que utilizan diversas estrategias para detener la violencia com hombres que se acercan voluntariamente u hombres derivados por los servicios de justicia. desde a América Latina até a Índia” ( Simões Barbosa. haja visto as conseqüências que esse fator vêm acarretando em termos de prejuízos para a saúde tanto de homens como de mulheres. sendo que a incidência maior não é. 2000) O quadro que se assiste atualmente é o aumento significativo de mulheres infectadas pelo HIV. Neste sentido. 2001-A:p. “No terreno da dupla moral que rege a cultura sexual. (de Keijzer. entre as profissionais do sexo. a saúde reprodutiva. a abordagem das ideologias de gênero podem contribuir para esclarecer os modos como vem sendo construído esse contexto social de violência que já se apresenta com dimensões alarmantes. o eixo de muitas campanhas informativas centrado na (suposta) fidelidade mútua é irreal. a maioria dos homens não revela que mantém relações sexuais fora do casamento.” (de Keijzer. Nesse aspecto.56 acarretar no campo da saúde.19) O tema da violência também é uma das questões centrais na relação masculinidade X saúde. e onde o exercício de poder masculino nem sempre é expresso de maneiras ‘sutis’. como poderia se supor. a saúde mental. a sexualidade e o processo . O ‘fator de risco’ que implica estar casada persiste para mulheres em sociedades culturalmente distintas. já que não questiona o comportamento masculino. 2000) Assim. em especial no âmbito do espaço doméstico. mas sim entre as mulheres com um único parceiro e em idade reprodutiva.

3.57 de socialização do homem são aspectos que vem sendo observados na literatura recente e em algumas propostas de intervenção na área da educação popular. a exemplo do PHSVC. Pode se destacar três aspectos como importantes vias de acesso à compreensão dessa questão: a paternidade. solidário e engajado”. que implica não somente a apropriação de novos conhecimentos científicos. mas principalmente a adesão a “um papel social ativo. alguns temas centrais relativos às grandes tensões que permeiam a masculinidade atualmente. eles passem a se perceber enquanto “sujeitos comprometidos com um processo educativo transformador”. 2001-C. as dimensões da afetividade. Nesse processo. que consistia no papel do provedor absoluto. o grande desafio é possibilitar que. faz-se necessária a inclusão de um número cada vez maior de homens que se disponham a dar prosseguimento a esse debate. 1999) A paternidade pode ser compreendida como possibilidade de inserção no mundo do privado. – Masculinidades: Os temas emergentes Identifica-se nas pesquisas realizadas. (Giffin & Cavalcanti. de uma forma diferente da tradicional. do doméstico. na medida em que se apresentam como um contraponto ao papel tradicional masculino. o conseqüente isolamento das relações produtivas. p.2. Em última instância. onde o trabalho com homens é considerado de suma importância no sentido de se alcançar as soluções para a resolução dos conflitos entre os gêneros. Entretanto. 125). colocado em xeque diante da eminência do desemprego e. das emoções e da intimidade ganham novo contorno. . a partir daí. 3. a sexualidade e a violência. (Simões Barbosa.

alimentar. 1997). tais como assistir. reformulando valores no sentido de direcionar seus afetos para caminhos menos frustrantes. com uma personalidade estereotipada e uma necessidade brutal de vencer. 2004). 1995. p. 1997. O direito da participação do Pai nos serviços públicos de saúde. 1999. Vale ressaltar que essas pressões sociais podem ser responsáveis por graves implicações na saúde mental e na saúde da família como um todo. a sua identidade. colocar pra dormir. principalmente nas maternidades. além de favorecer uma vivência mais positiva do pós-parto e da amamentação. como Santa Catarina. Noronha.58 . inclusive. Muitos homens vem assumindo a participação nas tarefas rotineiras do cotidiano. já é objeto de lei em alguns estados. Percebe-se que tem havido uma mudança significativa no papel e participação dos pais nos cuidados e no acompanhamento do processo de desenvolvimento de seus filhos. São Paulo e . Carvalho. participar das consultas médicas dos filhos e da mulher. Zigoni 2001. na escola e. 1997). 37) Surgem novos discursos sobre novas formas de ser pai. (Nolasco. (Noronha. ir buscar na creche. ser reconhecido e supervalorizar-se para adquirir o respeito da sociedade e de seus descendentes? “(Noronha. banhar. Constatase que o homem atual está procurando definir melhor o seu papel. “Como é que ele se sente dentro de uma sociedade que o valoriza pelo que possui em bens de consumo e não pelo que é como ser humano? Como é sentir-se apenas uma peça de uma engrenagem. Vários estudos vêm comprovando que o suporte emocional que o pai oferece para sua companheira contribui na adaptação à gestação. que a presença do companheiro no parto contribui para diminuir a nece ssidade de uso de anestésicos.(ib idem.

1998). A partir daí. não como visitas apenas. subordinação. esse padrão acaba se refletindo enquanto repressão da sexualidade. Mas não somente isso. 2003. começa-se a observar a presença masculina acompanhando os filhos. impotência. atributo este que é aprendido desde muito cedo (Gomes. ”corno”. a educação tradicional busca estabelecer detidamente as fronteiras entre o que é de menino e o que é da menina. figuras que incorporam as representações de feminilidade. supõe-se que possa ter relação com as altas taxas de incidência e mortalidade por . “maricas”. “bicha”. levando em conta a prerrogativa de descartar qualquer atributo que possa estar relacionado ao feminino. No terreno da saúde. sendo o sexo encarado como uma forma explícita de exercer o poder sobre o outro. o papel do homem dentro do modelo tradicional. A rua é o espaço onde os meninos vão encontrar as referências sociais para a construção de suas identidades. Nolasco. 1997). Esses dados sinalizam o surgimento de uma nova consciência do papel do pai na formação da personalidades das crianças. por exemplo. Carvalho.59 Rio de Janeiro. fraqueza. O resultado disso é a presença cada vez maior dos pais nos hospitais. (Mota. Implica em não ser “veado”. 2004). esteve sempre ligado à atividade. 1999. Ser homem é mais que a mera oposição ao ser mulher. na medida em que o processo de socialização dos meninos é realizado fora do lar. mas como participantes do processo. e onde também fica clara a delimitação do espaço público como de domínio masculino. Também nos ambulatórios e consultórios. (Giffin & Cavalcanti. (Baker & Loewnstein. Desde muito cedo. passividade. 1995). No que diz respeito à sexualidade.

uma vez que estão condicionados a uma identidade onde têm que se mostrar sempre fortes. dentro de nossa cultura. o que gera falta de comunicação e dificulta o conhecimento do potencial erótico dos parceiros” (Barasch. 1997: p. 1991). é óbvia a dificuldade que qualquer indivíduo do sexo masculino. e dos papéis destinados ao gênero masculino. Inclui desde a ignorância do sexo oposto e do próprio. dentro de um padrão tradicional. corajosos. tende a apresentar diante da perspectiva de se submeter a um exame de toque retal. eles lidam também com a emergência dos hormônios . o que redunda na constatação de vários pesquisadores de que os homens. têm a respeito das práticas sexuais. em especial os homens jovens. além do ideário masculino. até a ignorância dos sentimentos próprios e alheios. (Barasch. e sempre dispostos sexualmente. apresentam uma grande dificuldade para administrar as questões relativas aos sentimentos. também. na medida em que precisam dar conta do ideário de macho viril e do “tesão”. que comportam ideologias de gênero que os coloca em situação de grande vulnerabilidade. 101). um grande distanciamento das questões afetivas.60 câncer de próstata. No caso de adolescentes. Ribeiro. Pode-se observar. potentes. 1997. de maneira geral. o que pode ser explicado a partir da dificuldade de se promover campanhas preventivas nesse sentido. Isso acaba por torna-los incapazes de administrar experiências em que precisem lidar com o fracasso. “A desinformação faz parte do cotidiano de todas as camadas sociais. Estudos comprovam a necessidade de se observar a concepção que os homens. em contraposição às demandas de satisfação carnal. Como bem ressalta Gomes (2003). embora estas sejam inerentes às relações humanas.

"lavou. de uma grande flexibilidade em relação à assunção de papéis no que se refere à atividade sexual propriamente dita. na qual também o homem vem sendo transformado em objeto de consumo. Isto acaba denunciando a existência. e com o corpo de um modo geral. prostituindo-se. Numa verdadeira inversão de papel. a "entidade" que se convencionou chamar de Mercado descobre um incrível potencial de lucratividade investindo no mercado masculino. ou melhor – seu corpo. O contexto de intensa mercantilização que hoje rege as relações humanas. não fica escolhendo mulher" (sic). caia acolá". um objeto de consumo para além da mera e tradicional utilização da sua força física nesse mesmo padrão. é caracterizado por uma voracidade sem limites. ultrapassaram as costumeiras clientelas femininas. A necessidade de atuar de acordo com essas ideologias tende a expor esses jovens a uma gama de DSTs/AIDS. utilizado para vender qualquer tipo de mercadoria. as fronteiras dos mercados da moda. Hoje em dia. não fosse uma forma de conduta baseada em constructos mentais do tipo "homem é homem. nas capas de revistas.em horários os mais diversos. "Deu mole. O corpo masculino está na ordem do dia. os homens deixam de ser sujeitos para tornarem-se objetos de consumo. Atualmente. da estética. desnudo nas telas das televisões . entre outros tantos (Paiva. tá limpo". pela mídia e veículos de comunicação de massa. caia aqui. . 1996) Observa-se uma progressiva e exacerbada exploração da figura do homem. 1998). 1995).61 característicos da idade. nas esquinas. (Mota. especialmente do corpo masculino. "Homem que é homem. e sendo ele próprio. (Messeder. que poderiam ser evitadas. na prática. dos cuidados com a beleza. tem que pegar".

onde corpos femininos e masculinos se tornam alvos de toda a atenção. 1997) “Os publicitários. onde a qualidade da vida afetiva não chega a ter . 1997: p. a exemplo do que tem sido feito com o corpo da mulher no decorrer da história. que espelha um desejo de ruptura com o tradicional.62 destinada ao trabalho. (Caldas & Queiróz. e tampouco assumiram o papel de dominadoras. Nesse contexto. detectaram primeiro o “desejo de realidade” do homem contemporâneo. onde os homens estariam se permitindo dar vazão à vaidade e. atentos. ainda. 155) Contudo. Seu corpo agora é também um produto de consumo erótico. e na sua forma de vestir elementos até então tidos como de exclusividade feminina. nesse movimento. nesse processo. integrando em seus cuidados pessoais o uso de cosméticos. Esse movimento.(Messeder. questões relativas à afetividade acabam sendo desconsideradas. que parece ter se tornado sinônimo de brutalidade. Macedo. As pessoas parecem buscar alivio para suas tensões e insatisfações através de uma maratona mecânica e insana de atos sexuais repetitivos. em contraposição à já aparentemente desgastada figura do machão. 1997. Parece haver. 1995) Parece estar havendo uma visível transformação nos hábitos masculinos. que investe cada vez mais na chamada proposta “unissex”. um longo caminho a ser percorrido no sentido de que esses padrões alicerçados na dominação masculina venham a ser remodelados. vem sendo rapidamente captado tanto pela mídia como pela indústria da moda. As mulheres não deixaram de serem encaradas como objetos. não ocorreu uma inversão de papéis. cansado de ter de posar sempre de herói ou superhomem” (Caldas & Queiróz.

pobres e negros. especialmente nos grandes centros. raça/etnia e geração são acionadas para revelar que esses índices referem-se. reconhecida enquanto tal em relatórios que a Organização Mundial de Saúde tem editado. em sua maior porcentagem. Giffin. (Amar. fracionados. Além da questão de gênero. 12) Assim. ainda. tratando especificamente dessa temática (Kruger et all.63 lugar. há que ser considerado. 2002). e a grande tarefa no momento parece ser a busca da unidade em meio à diversidade. 2003: p. as questões de classe social. o crescimento vertiginoso dos índices de violência mundial nos últimos anos. a homens jovens. Os dados de morbi-mortalidade são categóricos: É o homem o que mais mata. a violência começa a ser debatida enquanto uma questão de Saúde coletiva. (Chauí et all. conforme o imaginário de gênero. tanto por . se revezando no papel de autor e vítima. e maiores ainda os índices de morbi-mortalidade masculina provocados por causas externas onde. Na realidade. cabem às mulheres e aos homens desempenhar” (Suárez et all. 1981. 2003) Nessa conjuntura. repensar e problematizar cada pólo revela que eles se contêm e se integram. são plurais e. os conceitos que tentam explica-la. individualmente. apud Gomes. enquanto um fenômeno social que vem apresentando índices cada vez mais alarmantes. ser autor ou vítima é condição que tem a ver com a “encenação dos papéis que. Nesses episódios. os atores principais são do sexo masculinos. Sendo assim. Muitos são os fatores envolvidos. pois existem muitas/os e diferentes mulheres e homens. mas é também o homem quem mais morre. 2002). 1999.

Vermelho & Mello Jorge. Krug Eg et al. pela falta dela. uma pessoa que completasse 60 anos de idade teria. só não sendo maior devido ao aumento no índice de mortalidade. Para estes jovens.9 anos para os homens e mais 9. só resta a perspectiva de se enquadrar em um contexto de guerra urbana que parece não ter qualquer possibilidade de equacionamento. 1996. publicada em dezembro de 2003. no Brasil. trabalho. como educação. Estes índices espelham o sofrimento de camadas cada vez onde e em sua maioria de maiores da população. perfazendo 76. distúrbios de aprendizagem. Em 1980. 1995.1999.64 causas violentas como por questões de saúde.2002). onde os homens figuram como protagonistas de altos índices de violência criminal. Vinte e três anos mais tarde. (Corneau. IBGE. De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. a expectativa de vida da população brasileira subiu 6 anos desde 1980.4 anos de vida. Entre 1980 e 2003 a esperança de vida ao nascer. IBGE. como na selva.4 anos. (Vermelho & Mello Jorge. um indivíduo . Claves/Fiocruz/Cenepi. majoritáriamente do sexo masculino. contraditóriamente. esquizofrenia e autismo. ou melhor. moradia.8 anos: mais 7. mais 16. 1995). 1996. mormente das comunidades periféricas jovens. e no qual prevalece. associados ao uso do álcool e outras drogas. suicídios. em média. ainda que a longo prazo. São dados que espelham uma significativa fragilidade m asculina.(Nolasco. hiperatividade. sobretudo entre os jovens. elevou-se em 8. 2001. 1999. origem negra. a lei do mais forte. 1995. KRUG EG et al. lazer e saúde. encontram-se submetidos a um regime de exclusão das condições básicas de uma vida humanamente digna. Corneau. 2002l).5 anos para as mulheres.

1996. como atesta o último relatório sobre violência e saúde da Organização Mundial de Saúde . ao completar tal idade. individualista e tecnologizado. em média. os 80. esses informes tornam-se bastante preocupantes. . 2002). Aos 60 anos de idade os diferenciais por sexo já não são tão elevados comparativamente ao momento do nascimento: em 2003. na busca de se entender em um mundo cada vez mais complexo. passando a se comportar sob os efeitos de uma tensão crescente e incontrolável que o faz atirar sem ver pra onde. cada vez mais. o propósito é lançar um olhar sobre essa figura até certo ponto patética: o homem que. Além disso.OMS. 2005) Essa afirmação é confirmada por dados de pesquisa tanto da área da saúde pública como das ciências sociais a nível mundial. um homem ainda viveria mais 19. (Vermelho/ Mello Jorge.65 na mesma situação alcançaria. quando percebemos que a situação no Rio de Janeiro aparece nesse cenário com índices que permitem um paralelo da situação local com a guerra civil instalada na Colômbia e outras sociedades em guerra. Por nosso lado. muitas das vezes.1 anos. nesse contexto. da chamada violência de gênero. e sem perceber que. tornam-se. neste momento. o alvo é ele mesmo. Krug Eg et all. sem a pretensão de desmerecer as questões levantadas pelas mulheres enquanto objetos históricos da dominação masculina e.1 anos de vida. consequentemente. Dessa forma. a questão das relações de gênero. onde esse aspecto é reconhecido e reafirmado como questão de saúde pública que demanda soluções criativas e compartilhadas com o público alvo (Krug Eg et all. parece ter perdido o “fio-da-meada”. objeto de estudo e preocupação social. enquanto uma mulher teria pela frente mais 22. (IBGE. 2002).6 anos.

espaço onde ocorrem as num clima de confiança e abertura singulares. ser homem é não ser mulher. que construiu sua identidade de gênero sob os parâmetros do modelo de masculinidade . o indivíduo vê -se obrigado a se diferenciar de tudo que NÃO É “ser homem”. Neste processo de “tornar-se” homem. 1995).1996). não cuidar dos outros. e não ser homossexual. Nesse paradigma. Cuidar. “Ser homem significa amputar seu corpo e seu coração. ser sensual. alguns homens trocas de experiências de vida vêm dispondo-se a participar da proposta de exercitar a reflexão em grupo. mostrar sentimentos. chorar. não dançar. Suas falas registram um desejo sincero de estabelecer relações mais eqüitativas com suas companheiras. convivência e diálogo entre "diferentes". Em última instância. (Giffin et all. não cantar. onde está em xeque a possibilidade de interlocução. 2000). nem de si mesmo. a exemplo das experiências do PHSVC. de acordo com o padrão de masculinidade tradicional.66 Fala-se. ou sua sensualidade. são atributos femininos. cantar. nunca expressar os sentimentos. ao mesmo tempo em que expressam uma grande satisfação por descobrirem que podem se colocar aberta e livremente para outros homens. não ser menino. Se levarmos em conta a impossibilidade de expressão de sentimentos por parte da população masculina. a grande questão que se coloca é a própria capacidade de convivência da humanidade. significa não chorar. Na fala de Corneau. que encontram-se necessariamente em constante intercâmbio e relação (Velho. Contudo.” (Corneau. dançar. novamente. sem poder chorar. sem o receio de que suas masculinidades sejam colocadas em xeque por conta disso. do processo de construção da tal “couraça” mencionada anteriormente. Em outras palavras.

intervenho. a seguir. Segundo Weber (apud Minayo & Sanches. estamos interessados especificamente na análise do caráter significativo das formas simbólicas expressa nas falas de homens participantes de . porque indaguei. Metodologia “Não posso estar no mundo de luvas nas mãos. 4. onde tanto os investigadores quanto os investigados são agentes inter-ativos. passamos à apresentação do referencial metodológico adotado para esta pesquisa.67 hegemônica. Nesta pesquisa.” (Paulo Freire. A pesquisa qualitativa postula que o mundo social é constituído por significações passíveis de serem investigadas. Constatando.32) 4. essa afirmação tem alguma razão de ser. Não é possível buscar sem esperança. constatando apenas. Isto posto. nem. mais que se limitar à mera descrição dos comportamentos humanos. 1993). Discussão meto dológica: Uma questão de Qualidade A opção por uma abordagem qualitativa é justificada pela natureza do objeto de pesquisa. porque indago e me indago. Ensino porque busco. tampouco. 2000. cabe às ciências sociais buscar o aprofundamento da compreensão do significado da ação humana em sua singularidade. O que me faz esperançoso não é tanto a certeza do achado.1. que reporta-se à subjetividade e ao simbolismo inerente ao universo das masculinidades. na solidão. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade. educo e me educo. p. mas mover-me na busca.

É mérito do trabalho qualitativo inclui r no conceito de cientificidade a idéia do "devir". 2002). visto que possui um caráter pluridimensional e exposto a uma série de definições diferentes que variam desde “propriedade ou que pode ser medido) a (Uchimura&Bosi. atingindo as dimensões simbólicas. (Uchimura & Bosi. 1993). que remete às singularidades expressas nas emoções. 2002) Estas autoras salientam ainda que. A qualidade. Segundo Minayo. sua classificação quanto a ser um bom método ou não jamais pode ser atribuída ao método em si. compreende e explica. O trabalho qualitativo descreve. já que seu objeto está sempre no nível dos significados. e das coisas”. crenças e valores expressos pela linguagem do cotidiano (Minayo & Sanches. contemplando os significados do sujeito. sempre se incorre no risco de rejeição de parte da realidade. sendo que estes não comportam mensuração. motivos. a dimensão histórica. intenções.68 grupos de reflexão de gênero. sentimentos. e a dimensão concreta. é mensurável (generalizável). que refere-se às estruturas e aos atores sociais em relação. na escolha entre as possíveis definições. (Minayo & Sanches. em sua dimensão objetiva. Entretanto. “aspecto . o mesmo não ocorrendo com a dimensão subjetiva. e a relação entre essas ideologias e as práticas de cuidado com a saúde. Qualidade é um termo de definição complexa. visando captar a dialética de acomodação e resistência às suas ideologias de gênero. mas à maneira como é utilizado. 1993) atributo de coisas ou pessoas” (o sensível. que privilegia o tempo do espaço real e analítico. atitudes. há vários métodos e técnicas de análise qualitativa.

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De acordo com Thiollent (1982), numa pesquisa qualitativa, “é o indivíduo que é considerado como representativo pelo fato de ser ele quem detém uma imagem, particular é verdade, da cultura (ou das culturas) à qual pertence” (p.199). Quando se trata, portanto, do fator humano, as condições objetivas nunca são tudo, assim como as condições subjetivas. A questão não é, dessa forma, tentar absolutizar um aspecto ou outro, mas perceber as propriedades de cada realidade. No que se refere ao objeto desta pesquisa, segundo Konder, para a apreensão do significado da ideologia em nossas vidas, de forma consciente, é preciso que se atente para a percepção da realidade cotidiana, uma vez que esta possível consciência, ao mesmo tempo em que pode refletir nossa vulnerabilidade aos efeitos das ideologias, por outro lado também pode (Konder, 2002). Assim, apostamos na perspectiva de, a partir dos depoimentos de um grupo de homens, agentes sociais em processo de reflexão e problematização do “ser homem”, abordados através de uma metodologia baseada no diálogo e na participação, capta um momento significativo de como os homens estão vivenciando suas masculinidades e o cuidado com a sua saúde atualmente. Nesse contexto, focalizamos nossa atenção nas inter-relações entre significado e poder, nas maneiras pelas quais as formas simbólicas podem ser usadas para estabelecer e sustentar relações de poder, fazendo com que a análise da Ideologia assumisse um caráter distintivo e crítico. Vale ainda ressaltar que, apesar da complexidade implícita na sinalizar saídas para a estruturação de resistências diante da opressão exercida pelos processos ideológicos.

70 perspectiva de se tentar compreender o humano, cabe sempre lembrar que ‘ciência’ demanda rigor metodológico. Na pesquisa qualitativa, esse rigor se faz ainda mais necessário. Cientes desta prerrogativa, para análise do material sobre o qual ora nos desbruçamos, e embuídos do desejo de fazer o melhor, procuramos nos ater criteriosamente aos passos da metodologia adotada, os quais passamos a descrever. 4.2. Tratamento dos Dados: Explicando o Vir -a-Ser Adotamos, para a interpretação dos dados coletados, a

abordagem Hermenêutica-dialética que, de acordo com Habermas (apud Minayo, 1998), não se propõe a determinar técnicas de tratamento dos dados, mas sim sua auto-compreensão. Trata-se de uma proposta que busca compreender a fala dos atores levando em conta o contexto sócio-histórico em que estão inseridos e no qual a fala é produzida, buscando captar o movimento, as contradições e os condicionamentos históricos que a envolvem. Na fala de Thompson, “o campo-objeto da pesquisa sócio-histórica não é apenas uma concatenação de objetos e acontecimentos que estão ali para serem observados e explicados: é também um campo subjetivo (um campo-sujeito) que é construído, em parte, pelos sujeitos que, no curso rotineiro de suas vidas cotidianas, estão constantemente interessados em compreender a si próprios e aos outros, em produzir ações e expressões significativas e em interpretar ações e expressões significativas produzidas pelos outros.” (1995, p.33) A análise hermenêutica-dialética nasceu do debate acadêmico entre dois pensadores, Habermas (das Ciências Sociais) e Gadamer (da Filosofia), por volta dos anos 60. Este diálogo acadêmico foi de grande

71 valia para as discussões sobre método nas Ciências Sociais, já que teve como proposta ser uma metodologia de abordagem da comunicação. Além disso, não se trata de uma simples teoria de tratamento dos dados, porque isso seria uma redução da proposta. O objetivo é o encontro da teoria com a prática transformadora. (Minayo, 1998) Por hermenêutica entende-se a arte de interpretar o sentido de

um pensamento através da linguagem. Uma compreensão simbólica da realidade através da palavra. A fala considerada é a da linguagem cotidiana, núcleo central da comunicação. Abordando a proposta apresentada por Hans-Georg Gadamer, na visão de Paul Ricouer, a hermenêutica situa-se na perspectiva da validação da consciência histórica como referência para a interpretação do conhecimento humano. Para Gadamer, o homem é marcado pela tradição, e a forma de estar no mundo comporta o passado como condição para o desenvolvimento da linguagem, a qual, num constante movimento de reinterpretação, constitui a realidade. (Ricouer, 1983). A compreensão será, portanto, sobre as condições cotidianas da vida. Por esta razão, a hermenêutica será condicionada por um conjunto de valores sociais que fazem parte do contexto do analista, e este, por sua vez, também precisa ter claro qual é o contexto de seus entrevistados, fazendo com que linguagem e práxis se interpretem mutuamente. Todo indivíduo, pesquisador e pesquisado, é marcado pela história, pelo seu tempo e sua cultura, e isto será sempre passado para o texto. A hermenêutica buscará, então, esclarecer sob quais condições surge este discurso. Daí as possibilidades de interpretação nunca se esgotarem (Minayo, 1998, 2002).

Isto porque constitui o estudo de construções significativas e da contextualização social das formas simbólicas. a dialética significava a arte do diálogo. este conceito foi abordado. usaremos o conceito Ideologia proposto por John B. de discutir. abandonado. através do materialismo histórico. que é onde se aplica o termo dialético. Na medida em que esse momento ocorre. Conforme afirma Pedro Demo. Ao longo da história. em especial. sem que. algo desconstrutivo. as faces dialogam. A dialética. 1997) Originalmente. até que encontrou. que é sempre social. a Hermenêutica pode oferecer uma reflexão filosófica sobre o ser e a compreensão como uma reflexão metodológica sobre a natureza e as tarefas da interpretação na pesquisa social. de acordo com seus referenciais teóricos. esta abordagem foi formalmente desenvolvida. . sua maior contribuição. O conflito não é. da-se também a transformação da realidade humana. (Idem.1987. “ é imprescindível haver interesses contrários (contrariados)” (Demo. esse diálogo seja sempre no sentido do consenso. No processo histórico. se afastam. Segundo esse autor. criticado e resgatado por diversos pensadores. ao mesmo tempo em que se contém. por sua vez. (Thompson . No século XIX. com Hegel. Thompson. além de fornecer um referencial metodológico para a condução da análise. necessariamente. p64). distinguir e analisar as idéias. contudo. principalmente em termos históricos. é o “motor” do processo histórico em que cada fase gera uma outra fase contrária.72 Como já dito anteriormente.1995). no marxismo. Ao contrário. parte da concepção de que a realidade é constituída por uma unidade de contrários que. a análise da ideologia.

2002). pois considera que a linguagem está fundamentada em relações sociais históricas e contraditórias. à fala. qualitativas e quantitativas. A dialética é. o contrário. e. segundo Minayo (2002). 1987) Neste sentido. portanto. e para o exercício de poder entre c lasses. de uma mesma realidade. são aspectos de um mesmo objeto. o método de transformação do real (Minayo. Thompson (1995) postula que a ideologia. que se complementam e dialogam. (Minayo. nem as idéias. se afirmam e negam ao mesmo tempo. e as mudanças são.73 para quem nada é eterno. O encadeamento dos processos que participam desta transformação ocorre em espiral. a dialética estabelecerá uma atitude crítica em relação ao texto. portanto. Qualidade e quantidade. onde cada momento é único. nem as instituições. uma transformação constante relacionada ao estado anterior mas que não se resume a sua mera repetição porque não se dá de forma linear nem circular. A oposição. é parte integrante da luta travada no campo de contestação que . podendo se remeter a outros momentos mas sem nunca se repetir. nos moldes que ele propõe. que nunca é absoluta. serve de veículo para a dominação. (Demo. As contribuições de Hegel e do marxismo serviram de base para os princípios de trabalho do método dialético que. ao mesmo tempo. fixo ou absoluto. envolve considerar um eterno tornar-se. 2002). é sempre dialético e complementar nesta forma de compreender a realidade em processo constante de transformação. marcado no tempo e no espaço. morte e vida. grupos e culturas diferentes.

Nesse sentido. bem como os mecanismos de resistência e acomodação explicitados anteriormente (Anyon. ele afirma que a ideologia é “uma característica criativa e constitutiva da vida social que é sustentada e reproduzida. Nesse sentido. Assim. Ainda dentro da perspectiva Freireana. essa luta se dá não somente no âmbito da força física propriamente dita. 2001-A). de uma certa forma. mas não perde a perspectiva de contínua transformação a que o mundo está sujeito (Simões Barbosa. tomados como potenciais sujeitos deste conhecimento. as quais incluem a troca contínua de formas simbólicas. não é possível conhecer a realidade em que os indivíduos participam a não ser junto com eles. a linguagem. chegar ao concreto pensado.1990). devem ser abordados relativamente à sua época e local de geração. P.” (1995. sem contudo perder de vista a totalidade de sua inserção histórica. Ou seja.74 caracteriza a vida social. no processo de apreensão de cada fenômeno. da parte com o todo. através de ações e interações. as idéias. pensamentos e conhecimentos. de acordo com a dialética. . o método dialético busca analisar a partir do concreto para. 19) Por esta razão. promove a articulação do singular. tal como buscamos investigar. Ela se dá à nossa percepção a partir de uma relação dialética entre objetividade e subjetividade (Freire & Faundez. contestada e transformada. pela exploração e dominação. esconde e expressa os conflitos gerados pelas desigualdades. numa condição de provisoriedade. 1985). Segundo ele. através da abstração. Para Paulo Freire. a realidade concreta é algo mais que os fatos ou dados tomados mais ou menos em si mesmos. mas também através de palavras e símbolos.

Thompson (1995) propõe três fases para o processo de interpretação. que o objeto de nossas investigações se constitui em um campo pré interpretado. onde o autor e o intérprete são parte de um mesmo contexto ético político e onde o acordo subsiste ao mesmo tempo que as tensões e perturbações sociais “ (Minayo. Sabemos. que os sujeitos interpelados possuem suas próprias formas de perceber e interpretar sua realidade. a priori. como propõe Thompson (1995). pressupõe a compreensão pelo estranhamento. caracterizam pontos-de-vista sustentados e compartilhados entre as pessoas que constituem os grupos sociais. uma vez que a fala produzida é “resultado de um processo social (trabalho e dominação) e processo de conhecimento (expresso em linguagem) ambos frutos de múltiplas determinações mas com significado específico. b) Análise formal ou discursiva. Portanto.75 A união dessas duas concepções como formas de produzir racionalidade sem desprezar a parcialidade do intérprete. e c) Interpretação / Re -interpretação . e estas formas são estruturadas de maneiras definidas e inseridas em condições sociais e históricas específicas. A Análise: abordagem da Ideologia É fundamental reconhecer. Esse texto é a representação social de uma realidade que se mostra e se esconde na comunicação. quais sejam: a) Análise sócio -histórica. 1998:227). as maneiras em que as formas simbólicas são interpretadas pelos sujeitos que participam deste campo.

. De acordo com Thompson. agindo e reagindo a tempo particulares e a locais especiais. com base em uma pedagogia que propõe o comprometimento com a transformação. inscritas) e recebidas (vistas. analisamos depoimentos de um grupo de homens adultos. No que tange a esta pesquisa. fazendo com que a reconstrução desses ambientes seja uma parte importante da análise sócio-histórica. agentes sociais militantes na área da saúde. que pode ser visto como um espaço de posição e um conjunto de trajetórias. as situações espaço-temporais são onde as formas simbólicas são produzidas (faladas. comunidades populares. Todos eles participantes do PHSVC. a maioria casados e com experiência de paternidade. e de como lidavam com sua saúde. a UFRJ. todos eles encontravam-se envolvidos numa situação de dinâmica de “grupo Focal”. transmitidas e recebidas em condições sociais e históricas específicas. Esta fase tem como finalidade reconstruir as condições sociais e históricas da produção. narradas. circulação e recepção das formas simbólicas.76 a) Análise sócio-histórica As formas simbólicas são produzidas. onde se dispuzeram a falar de si. nas dependências de uma instituição de ensino superior. mas em sua maior parte. provenientes de localidades diversas da cidade do Rio de Janeiro. nível médio de formação. do modo de se viam como homens no mundo atual. educação. que determinam algumas das relações entre pessoas e oportunidades acessíveis a elas. As formas simbólicas estão situadas dentro de um campo de interação. lidas) por pessoas que pertencem a um lugar específico. ouvidas.

servindo. também. na universalização e legitimação de conceitos que traduzem o masculino como naturalmente superior e dominante. para a construção do campo-objetivo. optamos por uma análise discursiva focada na questão de gênero. podem ser facilmente identificados numa proposta de análise formal das construções simbólicas. As formas simbólicas são produtos contextualizados. lidando com uma série de fatores sóciohistóricos. conforme proposto por Thompson. c) Interpretação / Re -interpretação Para Thompson (1995. ela procede por síntese. imbricados nos discursos destes homens em relação à sua masculinidade e ao auto-cuidado. e nos elementos que caracterizam o discurso que premiam as ideologias de masculinidade hegemônicas. p. Este tipo de análise está preocupada com a organização interna das formas simbólicas. Para nosso objetivos. com suas características estruturais. . No que diz respeito ao nosso objeto. que se tratam. Alguns modos de manutenção das ideologias de masculinidade. tendem a se basear na naturalização. “a interpretação implica um movimento novo de pensamento. de construções simbólicas complexas que apresentam uma estrutura articulada. portanto. por construção criativa de possíveis significados''. com toda certeza.77 Estamos. 375). seus padrões e relações. b) Análise Formal ou discursiva: A Análise Formal ou Discursiva surge em virtude dos objetos e das expressões que circulam nos campos sociais. que têm por objetivo dizer alguma coisa sobre algo.

passamos a apresentar o perfil dos informantes. passíveis de novas interpretações e re-interpretações. como já dito. cria o espaço metodológico que o autor descreve como potencial crítico da interpretação. entre pré-interpretação e re-interpretação. 5. A segui r. tendem a provocar a emergência de outras. mas um ponto de vista crítico sobre a questão: o nosso ponto de vista. as questões colocadas não se esgotam aqui. bem como os reflexos dessa conjuntura em sua saúde. educador e. no intuito de trazer à luz as formas possíveis e variadas como alguns homens estão se percebendo. também enquanto homem. um processo de re-interpretação. enquanto pesquisa dor. – Os Informantes: Participantes dos Grupos Focais Estes três grupos focais foram estruturados a partir de uma carta convite aos homens que compunham os Grupos de Reflexão de Gênero . simultaneamente. as formas simbólicas. sobretudo. que são o nosso objeto de interpretação. mas ao contrário. Isto ocorre por que. Com certeza. profissional de saúde. fazem parte de um campo pré-interpretado pelos sujeitos que constituem o mundo sócio-histórico.78 É. Temos clareza de que não estaremos apresentando uma interpretação definitiva e completa das falas analisadas. Justamente este conflito que foi gerado pelas divergências entre uma interpretação de superfície e outra de profundidade. e também possuem características estruturais internas. se posicionando e atuando nesse complexo e conturbado mundo atual.

As reuniões aconteceram nas dependências do NESC/UFRJ. com intervalos para lanche e para almoço. e eu tive a oportunidade de atuar como co-facilitador em dois dos referidos grupos focais. pensar e decidir sobre as questões em pauta. Rio de Janeiro: ENSP/FIOCRUZ-NESC/UFRJ. nas três sessões realizadas em três dias consecutivos. Estes homens se dividiram. para que os participantes tivessem tempo de. especificamente. O convite esclarecia que o objetivo das reuniões era a coleta de depoimentos para a edição de um livro com histórias de homens: Palavra de Homem. referente a utilização das informações coletadas. sexualidades e relações amorosas. conforme prescrito pelo comitê de Ética do NESC. A carta convite era acompanhada de uma relação de temas propostos (ver em anexo). dos quais participaram cerca de 100 homens. e os grupos de homens. violência. com duração média de 4 horas cada. infância. a começar pelo objetivo que era. já encaminhava -se para seu último ano em campo. no momento em que o Projeto já se encontrava em uma etapa avançada. paternidade e filiação. tendo consolidado a formação de 12 grupos. . que assinaram um Têrmo de Consentimento Livre e Esclarecido. trabalho. quais sejam: ser homem hoje. O processo se diferenciou substancialmente da metodologia aplicada nos GRGs. 2001. Responderam a esta chamada 18 daqueles homens.79 do PHSVC. Estas atividades conincidiram com meu ingresso na equipe do Projeto. Nessa ocasião. saúde. com alguma antecedência. a coleta de depoimentos em torno dos temas propostos. conforme a disponibilidade de cada um.

A maior parte deles eram moradores de bairros periféricos. a maioria estava envolvida com algum tipo de projeto social associado às respectivas profissões: . especialmente nas áreas de educação e saúde. Dentre as ocupações declaradas. que assuntos Aos facilitadores e co-facilitadores. Tijuca. orientação sexual. e Glória). ou mais centrais (Jardim Botânico. raça/etnia. havia de comum entre eles a questão de terem participado do PHSVC por atenderem a um critério básico: serem agentes sociais atuantes com populações masculinas. apenas 5 eram moradores de bairros considerados de classe média. e com preocupações e demandas convergentes quanto ao potencial de atuação política em seus respectivos contextos. todos do sexo masculino – três psicólogos. A faixa etária dos participantes ficou entre 20 e 48 anos. Bangu: Rocinha. Inhaúma: Complexo da Maré. Andaraí. os participantes estavam livres para escolher sobre desejavam falar. ocupação profissional. e política. geração. caracterizados como de baixa renda (Complexo do Morro de São Carlos. Rio Comprido.80 Assim. Duque de Caxias e Belfort Roxo). Por outro lado. além do fato de serem todos homens. estado civil. e um estudante de estava facultado intervir com perguntas ou sugestões para obter depoimentos mais profundos ou detalhados sobre algum ponto A exemplo do que se deu nos GRGs. com base nesse roteiro de temas previamente elaborado. um cientísta social. história específico. religiosa. o que caracterizou os homens que compareceram aos grupos focais foi a flagrante diversidade em relação a aspectos como nível sócio-econômico e cultural.

Na questão da saúde. 1 psicólogo – facilitador de grupos de homens sobre a violência contra a mulher.HIV/AIDS. a maioria é pai de no mínimo 1 filho ou dois filhos. e membro de grupo de auto-ajuda para diabéticos. 1 educador social – militante evangélico 1 comerciário – grupo de auto-ajuda para diabéticos 1 animador cultural – militante evangélico – organizador de ONG para trabalho social com crianças. 1 universitário . Um participante declarou ser diabético. Quanto ao estado civil. 1 jornalista – elaboração de projetos sociais – Universidade Popular. Apenas os dois mais jovens (20 e 21 anos) declararam não ter filhos. Dentre eles. 1 desenhista ilustrador .agente de saúde. 1 técnico em eletrônica .agente comunitário. 1 ator – grupo de auto-ajuda de soro-positivos.curso de história – animador cultural – facilitador de grupos 1 estudante 2 º grau – produtor de TV 1 artesão – animador cultural 3 envolvidos somente com projetos sociais comunitários.agente de saúde. declarando-se militantes do movimento pela prevenção contra a epidemia. e apenas um dos participantes declarou sua condição de homoerótico. 10 se declararam casados. 1 engenheiro civil – grupo de auto ajuda de soro-positivos. e um outro.atuante na área do desenvolvimento social coletivo. e 1 divorciado. dois participantes eram assumidamente soro-positivos . 7 solteiros.81 • • • • • • • • • • • • • • • • 1 advogado. Um deles alegou ter 4 filhos. Outro relatou . 5 filhos. 1 auxiliar de enfermagem .educador social. 1 pedreiro .

espelhavam um caráter de confidência. Ficou evidenciada a capacidade de auto-expressão exercitada no percurso das oficinas. com certeza. mais um elemento positivo. até aquele momento.82 dificuldades relacionadas ao alcoolismo. com 20 anos de idade. Os dados encontrados nesse acervo consolidam um painel discurso desses relevante a ser considerado na interpretação do homens sobre a questão de gênero e sobre a visão que têm do que é “ser homem hoje”. algumas vezes. Temas estes resgatados no roteiro para os depoimentos dos grupos focais. e um outro participante. Essa atmosfera também contribuiu para promover o entrosamento dos participantes de diversos GRGs do mesmo projeto que. não se conheciam. A maior parte deles. Quanto aos facilitadores. nas quais tiveram a oportunidade de partilhar das mesmas reflexões sobre masculinidade e saúde reprodutiva. através de depoimentos de cunho extremamente pessoal que. Isto porque permitem que se apreenda daí uma . Todos os participantes dos grupos focais haviam participado dos grupos de reflexão de gênero do PHSVC. quase todos já possuíam um histórico de convivência com os participantes nas oficinas de seus respectivos grupos. Este foi. pelo período previsto para as oficinas. A atmosfera que caracterizou as 3 sessões de Grupos Focais foi de acentuada harmonia. que contribuiu na coleta destas falas masculinas. como também de participar diretamente da eleição dos temas debatidos no processo. relatou sua experiência recente com uma úlcera gástrica. liberdade e confraternização entre homens preocupados em debater assuntos relativos a sua condição de gênero e à sua saúde.

de acordo com nosso foco de interesse e objetivos traçados. b) modelos de masculinidade contra-hegemônicos. Em seguida. o que alicerça a pretensão de elaborar um conhecimento significativo sobre as representações e ideologias do universo masculino neste momento histórico. suas falas possam expressar as vivências de outros homens. Embora o perfil dos informantes evidencie um diferencial significativo em relação à maioria da população masculina que não teve acesso às mesmas discussões. justamente pelo fato de todos eles atuarem como “agentes sociais”.83 noção que abrange a participação masculina nas relações cotidianas e os modos de cuidado com a saúde. e c) modelos de cuidado com a saúde A numeração colocada em cada uma das falas selecionadas refere se ao controle adotado para lidar com as transcrições dos três grupos . considera -se a perspectiva de que. Os Informes . 5. temas estes colocados como foco central da presente pesquisa. ou não compartilhem do mesmo nível de consciência em termos da participação social. o percurso adotado no processo de tratamento dos dados foi o seguinte: Realizamos repetidas leituras das transcrições dos grupos focais em sua totalidade.Resultados Encontrados: Obedecendo aos pressupostos da hermenêutica dialética.1. foi feito o primeiro recorte delimitado por três eixos temáticos. quais sejam: a) modelos de masculinidade hegemônica.

Para chegarmos a estabelecer uma classificação das falas como sendo referidas ao modelo hegemônico. foram considerados pertinentes a um novo modelo que aqui. vale salientar não tratar-se. Dentro dessa lógica. por ordem de ocorrência. os depoimentos que se distanciavam substancialmente. e se alternam. Quanto à questão da saúde. necessariamente. Assim. Entretanto. mas sim de um processo dialético onde essas manifestações convivem. foram feitas várias leituras do material selecionado. em seguida. as falas estão numeradas conforme o grupo a que correspondem. no intuito de oferecer uma explanação didática. foram selecionadas todas as falas que tinham referência ao assunto. e concluída essa primeira etapa. conforme descrito definitivos. na qual vários autores descrevem as características anteriormente. se conflitam. Nos recortes feitos no bloco de falas detectou as seguintes categorias empíricas: . de momentos estanques e que constituem esse padrão. o que possibilitou a definição dos novos recortes em cada um do blocos temáticos acima delimitados. utilizamos como norte a literatura sobre masculinidades. conforme o tema e a categoria a que estavam associadas. denominamos de contra-hegemônicos. numa direção oposta. sendo estas categorizadas. de acordo com os assuntos que se apresentavam. dentro de um mecanismo de acomodação e resistência à ideologia dominante. Assim sendo.84 focais respectivamente.

e à um mesmo rol de questões. Estes participantes. com uma média de nove entrevistados em cada ocasião. traçar um paralelo dos resultados encontrados com o que dizem os autores que abordam a questão da masculinidade na perspectiva de gênero. o que poderia facilmente ser feito caso se tratasse de entrevistas individuais. perfazendo um total de 18 participantes. em seguida. optamos por registra-las de acordo com a freqüência com que os respectivos temas foram referidos. é lícito recordar aqui que trabalhamos com as transcrições de três grupos focais realizados em três momentos diferentes. descrevem o homem como o Super-homem. o herói que tem . inviabilizando a perspectiva de atribuir autoria às falas.3. submetidos à técnica do Grupo Focal.85 • • • • • • • • • Padrão patriarcal-hegemônico Sexo-afetividade Paternidade Trabalho Violência Reflexão / grupalização / mudança Modelo de criação patriarcal x cuidado c/ saúde Novos modelos de Cuidado com a saúde Relação com os Serviços de Saúde Antes de passarmos à descrição dos resultados encontrados. Diante disso. – Bloco 1 . 5. para.Modelo Hegemônico de Masculinidade A grande maioria das falas que apresentam identidade com esse padrão. apresentaram seus depoimentos de forma aleatória e voluntária.

A minha mãe foi e disse: ‘Para com isso! Você não é homem? E não sei o que mais. Ele não é criado para aprender a ter medo. eu me guardo muito.” (01/61) “eu lá.. responsabilidade.. imune à dor. naquela época. Aquele berreiro mesmo.. uma pressão. eu sou da década de 50... calado.’Tu tem que apanhar calado!” (02/74) Objetividade. eu não consigo expor a minha mágoa.Me deu uns tapas.86 que ser forte e que consegue o que quer através da utilização da força bruta. como pode ser observado nas frases seguintes. e tudo mais. A cobrança de não poder expor ou externar. sou uma pessoa retraída. em última instância.. externalizar os sentimentos. deve apanhar .. O direito de gritar”. compromisso com resultados e competitividade são características bem marcadas dos atributos referidos ao modo como a identidade masculina é forjada dentro dos moldes tradicionais. “eu acho que tem um estigma. “O homem conhece a solução pela força e pela autoridade” (01/36) “eu viajava no arquétipo do herói. tanto que. o arquétipo do homem era ser militar” (02/06) “você cria ele com aquela coisa do ser forte.” (01/01) “se ele se mostrar fraco. (01/10) “meu outro mal é esse. incapaz de expressar seus sentimentos e que. ele perde a fêmea ou perde a masculinidade dentro de casa como pai. Ele não sabe como ter medo” (03/13) Outra característica que aparece de forma bastante acentuada descreve o homem como sendo insensível. chorando pra caramba. década de 50.

Eu posso chegar lá doidão. a socialização na masculinidade do que não seja efetivamente masculino. Eu tenho responsa.. E eu nem dormi.” (02/12) “Porque eu queria sempre mostrar que eu era sempre o melhor.” (02/25) “O homem. expressa a partir de tudo que materialize a . “nós enquanto homens ainda temos aquela coisa do machismo: isso não é coisa pra homem.. mas também passa pela exterioridade. do potente.87 “Eu tinha que ser responsável. pelo menos mantendo o mesmo nível de todos. mas eu vou chegar lá..” (03/09) As referências à questão dos estereótipos de gênero se fazem presentes nas falas em que os entrevistados ressaltam a necessidade de diferenciação pela pessoa. né? Do fodão. com bigode. A gente também tem que ser responsável pela não chegada. (01/08) “tem sempre aquela coisa do comedor.. parece que é o todo poderoso. garotinho e a garotinha” (03/12) “O cara é homem e tem uma figura do homem. e que geralmente se expressam na aparência ou ao tipo de atividade adotados hegemônica percorre o terreno da subjetividade.uma das coisas que aprendi na minha vida é a responsabilidade. Então.”. Eu fui chamado de moleque. ele tem que ser respeitado porque tem uma figura de homem” (01/17) Como podemos perceber..” (02/12) “Porque eu sou responsável. Então há distinção entre a criação do homem. ’Vamos embora!’ Eu vou.

anunciam a desvalorização da mulher.”. com o tipo de sistema ideal que utilizam como argumento para a obediência ao padrão em que “ser homem” implica não ter controle diante do sexo. consequentemente. pra você me dar comida e fazer aquilo de novo comigo?” (01/19) A poligamia é dimensionada.. estar sempre “pronto” para as possíveis demandas.. toda menina que esbarrava na minha frente eu queria pegar e eu não queria saber.” (03/66) “O cara chegava. O mecanismo . A hora que você quiser um piru em pé também tá aqui pra você e acabou. especialmente enquanto objeto sexual. por alguns participantes. como que obedecendo a uma “vocação natural” para pegar todas.88 aparência do macho. ei que dia que eu posso ir lá na sua casa. surgem com muita freqüência depoimentos que denotam a percepção do homem como sendo superior e. (01/13) “daqui a pouco a mendiga. Papai-mamãe e saía fora: “bota a minha janta agora!” (02/19) “até pra desrespeitar todo aquele conceito de mulher. só lavava as coisas e ia pra cima dela. ela falou que o cara chegava da roça. e que passamos a descrever. não tomava banho. só estou afim de te comer e nada mais. eu achava que mulher não prestava. como algo normal/natural. a mulher toda suja atrás dele: ei. a) Sexo-Afetividade Em relação a este aspecto. Esses aspectos ficam bem marcados no âmbito do que denominamos sexo-afetividade. mulher era tudo coisa. “Ó.

foi feito homem. as pessoas. na medida em que. se você foi feito do pó. você é ser humano. os desejos. assim mesmo. os costumes. num processo de racionalização. em vários momentos. mesmo nos momentos em que era mais polígamo” (01/22-23) “eu acabo me traindo e saindo com mulheres constantemente..” (01/26) Nesse processo de busca de explicações para o exercício da infidelidade. você está aqui na terra pra desfrutar das coisas maravilhosas que tem aqui. Até por conta da cultura. é declarada uma nítida cisão entre sexo e afeto. essas estão em você . até mesmo dogmas religiosos proibitivos são colocados em xeque.. Também o fato de “gostar de mulher” parece suficiente para justificar o comportamento poligâmico masculino. “tudo bem que a palavra é a palavra (Bíblia).” ((01/30) “até porque.” (01/31) Dentro desse esquema. mas a vida em si. senão você não estaria aqui. esses preceitos são confrontadas com outras passagens que descrevem o modo de vida das culturas patriarcais da antigüidade. expressa na perspectiva do “não . era legal.89 ideológico da racionalização é bastante evidente numa fala em que fidelidade e poligamia deixam de ser termos que se contrapõem. “várias vezes eu estava com uma e estava com outra e estava amando as duas” (01/22) “Mas eu me acho super fiel. algumas histórias bíblicas mostram que alguns homens tiveram v árias mulheres e era legal. ainda hoje. visto que o autor se declara amante das duas as mulheres e. pela facilidade que tem de estar com mulher e gostar de estar com mulher. fiel a ambas.

já botei outra. eu me apaixonava a todo momento. por parte destes homens.. está tudo lindo e belo. e confronta isso com a nossa sentimentalidade. razão e sensibilidade são colocadas em posições contraditórias. vale registrar um numero significativo de referências que apontam para a consciência. é múltiplo. mas naquela ainda todo sujo. eu..” (01/26) Por outro lado. E ela com 20. parece que está num outro planeta. “Essa coisa de homem. eu apenas não queria me sentir envolvido.” (02/14) “Estou grávida’. da irresponsabilidade masculina quanto ao processo reprodutivo.90 envolvimento”. Acho que foi eu botar. “pra demarcar meu espaço como homem. Nesse ponto.. Um dos nossos elementos diferenciais é o racional.. sacanagem . mas nunca me dava. estou grávida. aí.... Aí.” (01/33) “eu não quero me sentir preso como homem... e eu acabei botando. diante de um padrão em que o homem tende a se envolver sexualmente com diversas mulheres.” (02/10) “Aí. na hora. no escuro. embora exista a consciência de que são dimensões pertinentes a todos os indivíduos. e o racional é difuso.. mas quando você está lá dentro. eu tinha medo de me dar às mulheres. aí eu.. eu tirei a camisinha assim. e pintou aquela atração de dar outra naquela hora. acaba tirando muito essa responsabilidade.” (01/24) “Eu acho que é da nossa natureza [ser infiel]. encher de ar.. tirou. 21 anos de idade. cada um de nós tem nossa racionalidade . à noite. lavou. e já fui embora. ’E agora?’. Fora da responsabilidade daquele ato..

tava todo mundo na brincadeira. segunda. acima mais ou menos da média.. e isso a partir do exercício precoce de sua sexualidade.. prevenção..” (03/17) .. não pode cortar o caralho. o Paulista fica sem pau. As menções ao falo caracterizam-no como um símbolo do poder masculino. terça.. nenhuma... e deixam evidente o temor em relação à possibilidade de sua perda..”(01/21) Nesse exercício. Qual é o grande vilão do homem? O medo: “Cortar o caralho.. . ser criado para atuar no público na construção de sua identidade. com 8 anos eu já tinha aquela maldade” (02/55) “depois passou a ter uma escala.” Porra. atestando o que diz a literatura sobre o fato do homem.tem a ver com a impotência. faixa de 11.91 tinha-se de monte. como uma prática eminentemente masculina e naturalizada. na qual o falo tem importância fundamental. já com os amigos de convívio da mesma faixa etária.. dentro da cultura machista. minha primeira relação foi dos 15 pros 16 anos... de 11 aos 13 aproximadamente.” (01/19) “o meu contato mais forte com a sexualidade foi no colégio.” (03/17) “O machista apareceu. a grande questão que se coloca é provar a eficiência sexual. alguém sumia porque naquela época se a mãe soubesse.” 40) (03/39- Vários depoimentos referem-se à questão da iniciação sexual precoce. pra 12 anos.. “Qual é o mal do homem: câncer de próstata. “Com 12 anos . Tipo aquela piadinha: “Tira o pau de Paulista.

Aparecem algumas referências à chamada “meinha” (vivências de experimentação sexual infanto-juvenis) que são sempre motivo de gracejo entre os participantes. Todo mundo comia. (01/20) Beijar ou ser beijado por outro homem é tido como impróprio. essa disponibilidade.(risos – falas sobrepostas – riso alto)”. Os padrões de criação diferenciados para meninos e meninas deixam isso bastante evidenciado.92 Um aspecto da sexo -afetividade que se faz notar de forma evidenciada nos depoimentos. “O F. geralmente. 30. e no processo de formação da cultura masculina tradicional. dos atributos e funções socialmente definidos para os sexos. era vítima de fazer meinha. é dar beijinho na boquinha dela.. mas que vai perpetuar o machismo.” (01/48-49) Um depoimento utiliza de uma narrativa que pretende argumentar sobre como a criação doméstica pode ser uma causa provável para a homossexualidade. beijo no rosto. beijo na boca.” (01/46) “Tem coisas que a gente sabe que é uma coisa meio machista. comia.. já que a formação da identidade masculina se dá no âmbito do público.. Eu mesmo ficava retraído. “a questão do beijo. as portas costumam estar abertas para . Agora sou eu que to comendo. 40.. é machismo? Então é e acabou. a gente fala a questão de dar carinho a filha mulher é dar carinho até os 20. 50 anos. é fazer carinho. Você não vai continuar fazendo isso com filho homem. Desde cedo. com o meu padrasto não tinha essa virtualidade. São. refere-se à questão da homofobia. numa verdadeira disputa de poder. falas calcadas na questão dos estereótipos de gênero.

o cara que. O cara que pega no pincel. “Meu padrasto é uma pessoa que acha que todo artista é gay. de apertar a mão de outro homem.. eu era esculachado na rua pelos garotos.. enquanto fatores que parecem representar uma verdadeira ameaça à identidade masculina. nesse papel assim de decorar. e tal. Ou vira isso.Os homos não é o caso. aquilo. detendo-se em avaliar apenas os de âmbito heterossexual. inclusive.” (02/03) Outro depoente sinaliza a utilização de uma estratégia de expurgo do outro [o diferente]. ao medo de olhar. todo artista é sem moral. desenho. está entendendo?” (01/63) “É muito pouco os homens.” (01/64) Alguns depoimentos.música não.. dentro de um processo de discussão sobre a saúde masculina. saí de casa. criatividade. referem-se.esses caras que são pintores.. “Pô. e assim possam aprender a “ser homem”. atividades ligadas à arte.” (03/60) De um modo geral. assim também como a possibilidade de um homem demonstrar afeto. isso é coisa pra fresco. “E quando eu saí de casa com 11 anos de idade.. quando. e desqualificando a perspectiva de relacionamentos que não os convencionais. todo artista é veado. decoração são associadas à homossexuais. de cuidar do ambiente. assado. ou vira aquilo.93 que os meninos tenha acesso à rua. “Vou falar só dos relacionamentos heteros ... o sujeito se recusa a admitir a possibilidade de outras opções sexuais. me chamavam de filho da mamãe. saí de casa. . tu é preso em casa.

O homem olha para o outro. é um fator conflitante. tanto que desde cedo eu trabalho.. a cultura masculina hegemônica é marcada por um comprometimento com o “não ser”. eu tenho um casal de filhos. O desemprego. desde sei lá.” (03/35-36) “Por exemplo.o cara sentou perto de você. como veremos a seguir. sempre quis ter um filho..de idade eu teria sido... botou um brinco. Certinho....O homem vai ver o outro nu: “o que é isso?”.” (02/01) Como pudemos perceber.. e assim por diante.” (02/01) “O homem não vai mudar. dentro dessa perspectiva.. .. que o outro também é homossexual. mais do que com o “ser”.. b) Paternidade No tópico que registra as falas onde a paternidade é descrita em tons que mais se aproximam do discurso masculino tradicional. “Eu sempre quis muito ser pai.. Mesmo estando . eu comecei a trabalhar com criança desde cedo. hoje. (risos) se eu pudesse ter sido pai com 14 anos.. aí você já fica cabreiro.94 “Porque o cara. um homem abraçar o outro. figura como significativa fonte de stress. não ser gay. não ser fraco. ele já é olhado de outra maneira.. aquele que ‘garante’ o aspecto material.. bonitinho. registramos vários depoimentos onde surgem diversas referências ao pai com as características do provedor. pensa que ele é homossexual. dentro desse contexto. Ser pai. A grande preocupação dos homens é não ser feminino. E a minha maior dificuldade é estar com a educação deles em dia. desde 10 anos de idade eu acho que.. Tem aquele preconceito em apertar a mão.

. como homem. está.” (01/40) O ciúme extremado da filha mulher aparece como uma característica desse tipo de pai. como uma pessoa que tem que ter responsabilidade com o futuro.95 desempregado. a minha filha é tão novinha! Nossa que mãozão [pretendente da filha].” (01/25) Aparecem também falas em que o nascimento de um filho é colocado como condição para a manutenção do casamento.” (01/42) “É ciúme. é o papel de pai..” (01/43) Alguns depoimentos registram que o nascimento do filho é tido por alguns homens como fator de reforço ao vínculo do casal.” (01/42) “Ela tem 19 anos. “pra mim. é egoísmo. A Educação dele está. alguns depoimentos levam a considerar a paternidade como um modo de afirmação da masculinidade. Ontem ... a minha filha não. como trabalhador. .. eu fiquei com ciúme mesmo. eu senti ciúmes da minha filha. A questão parece ligada justamente à necessidade de auto-afirmação enquanto . pela primeira vez. meu irmão (risos).. eu fiquei mais perto dela e isso fez com que ficasse e eu fui ficando e foi bom. num processo bem diferenciado do tratamento dado ao filho homem. “nasceu o nosso filho. parece que ele me aproximou mais da mulher. “fiquei: poxa... mas não deixa de ser sempre minha filhinha.. ser pai foi me fazer me ver como gente. porra. Em dia..” (02/07) Dentro dessa categoria.

Por causa das minhas filhas. eu não tinha como provar que eu dava dinheiro pro meu filho. As dificuldades de exercer seus papeis de macho. se não dá pra ter filho. em que o fantasma do desemprego ronda suas vidas o tempo todo. c) Trabalho . de ter que sair fugido e o cacete. “Falei: porra. pai é preso. Ser pai poderia garantir isso. previamente delineados pela cultura. e às represálias associadas ao não pagamento. introduzimos a categoria Trabalho e seu significado para a população masculina. justiça. que é pensão alimentícia. A recusa da mulher em ter filhos pode caracterizar uma ameaça à concretização de sua identidade social. Até hoje eu ainda não fui em cana mesmo.. não dá pra continuar casado não” (ri) (01/46) A questão das responsabilidades não cumpridas após uma separação legal torna-se assunto polêmico entre os participantes.” (03/30) “E nisso.”. Com isso. se configuram no confronto com um contexto socio-econômico extremamente árido e opressivo. Já atrasei e tal. eu comecei a sofrer penalizações que até então eu não tinha sofrido. (03/57) Pudemos observar que.. eu ainda não fui por causa das minhas filhas. também no aspecto da paternidade. polícia na porta. o ethos masculino atua de forma categorica na conformação do quadro. Muitas são as referências ao ônus proveniente das pensões alimentícias. seguinte. algemado.” (03/45) “eu já vacilei umas 3 ou 4 vezes com esse negócio de pagamento pensão .96 homem. Mas. “Que vocês sabem muito bem que a pensão alimentícia.

tá difícil pra caramba. Reportando-se a uma trabalho pode situação real.. o homem tende a se mostrar completamente desestruturado emocionalmente. cada vez mais.. eu não conseguia chegar . “quando eu perdi os empregos começou a pintar as barreiras e dificuldades.. ela chegou até a me pedir desculpa.. eles não agüentaram a pressão do desemprego e acabaram se suicidando. . a dimensão de importância que o ter na vida de um homem.. porque eu acho que eu só tava concentrado na minha vida em relação ao salário dela. de forma brutal. traduz.97 A perspectiva de encontrar-se numa condição inferior a da mulher.. figura como um dado gerador de muitos conflitos de identidade.. . o participante relata o episódio desencadeado por um processo de demissões coletivas ocorrido naquele período.. numa inversão de valores em que a mulher passa a ocupar sua posição. além de constituir o registro de um momento histórico deprimente para a Saúde Pública do Estado do Rio de Janeiro. aí ela começou a se pôr um pouco no lugar dela e pensar um pouco: pô. especialmente no que diz respeito ao salário. “12 companheiros meus que trabalhavam na Fundação Nacional de Saúde..” (02/42-43) ... que é justamente o papel do provedor. o limite passou a ser compatível com o meu. não sei porque não conseguia. visto que coloca em cheque um dos aspectos mais marcantes da ideologia masculina tradicional.. Ao se perceber destituído do poder representado pelo seu salário.. aí começou a voltar ao normal. a firma dela começou a cair de produção e meses sim precisam do trabalho dela e meses não..” (02/39) Um depoimento específico.

boto uma luva. e o potencial de desestruturação que sua perda pode acarretar na vida de um homem. mas sou responsa.. categoria que passamos a . com a pessoa pela qual eu sou.eu tenho o meu lado rebelde. Quer dizer.” (02/11) “muitos homens pensam que. eles me respeitam profissionalmente. que. uma pessoa humana digna e respeitada pelos outros. o autor da fala esta nos dizendo que o trabalho faz dele um home m. ou você é responsável por alguma coisa. aí tá ótimo. a violência.” (02/07) “Pego no trabalho. “Dou resposta com as minhas atuações. Em outras palavras. então a gente acaba se afastando um pouquinho do tesão de fazer a coisa. enquanto ele tiver disponível e com saúde pra estar trabalhando. que. é. por conta desse arquétipo de que você é homem. como se diz ’ele só foi feito pro trabalho’. Eu tenho a minha responsabilidade. mas estou lá. alguns depoimentos refletem a consciência do desgaste resultante da necessidade de atender a esse padrão no decorrer do tempo. ou você é responsável pela tua estrutura de família. “Hoje eu acho que eu já passei um bom tempo da minha vida correndo atrás de grana. como homem” (01/02) Por outro lado. existe o mito de que o homem é feito para o trabalho e. você precisa. O peso da responsabilidade parece contribuir para a perda de perspectiva do indivíduo ter prazer com o trabalho.” (02/74) Fica evidente o peso do trabalho na estruturação da identidade masculina. não pode parar nunca.98 Outro depoimento vem esclarecer um pouco mais sobre a importância do trabalho na formação da identidade masculina. você é pai de filho. Como poderemos ver. Ao mesmo tempo. sendo assim.. com meu trabalho. e na das pessoas que lhe são próximas.

e o medo nos faz reagir agressivamente.” (01/03) “Enquanto homens e enquanto seres humanos. Morre mais gente no Brasil por causa da violência do que morre nas guerras que a gente escuta falar.. está no nosso cotidiano. a exemplo deste abaixo. em um número significativo de depoimentos. o medo nos torna protetores da nossa intimidade. parece possuir estreita ligação com os efeitos desestruturantes do desemprego. fruto do acúmulo de situações sociais diversas que geram medo e reações também violentas. o sexo masculino meio que tá com o poder na mão e meio que é responsável pelas estatísticas desfavoráveis que a gente tem. “o homem. podemos constatar que a Violência Doméstica é percebida enquanto um tema masculino. ela apa rece como uma prática banalizada. em sua maioria. d) Violência A violência como sendo um atributo natural do homem é colocada de maneira categórica e enfática. Em várias falas. e contribuem.” (01/33-34) No entanto. o medo nos faz omitir. A gente reage de formas diferenciadas. responsável pela desestabilização masculina diante das dificuldades materiais que impossibilitam ao homem forma significativa.99 apresentar a seguir. e provavelmente pelo fato de nosso grupo de informantes ser composto. o exercício de suas atribuições tradicionais no dia-dia. Sua gênese aparece estar associada à questão do desemprego. o medo está sempre presente nas nossas vidas. por homens casados e pais de família. os homens no Brasil são aqueles que mais matam e mais morrem. para a desestruturação familiar. Então. e a gente traduz aquilo em práticas também violentas. de .

ela aparece. Mas fica patente a consciência de que o padrão em foco é altamente pernicioso. por que que a mulher começa a gerar problemas para o homem. parece existir uma tendência ao consumo abusivo de álcool e drogas. em vários momentos. atingindo negativamente a todos os envolvidos “a violência intrafamiliar de homem pra mulher. ele pra mim é a mola mestra de vários problemas familiares. na maioria das vezes tá embasada pelo desemprego do homem e com isso o uso abusivo de drogas seja ela qual for. ele se sente inferiorizado e tenta compensar esse sentimento com posturas agressivas. e acaba sendo violento realmente pra demarcar o seu espaço. o desemprego causa a pobreza.100 “Por que que a violência no lar. cocaína. se destroem? Por que? Porque vem a imagem do desemprego. A gente até compreende que existe todo um ciclo que faz com que o homem se torne violento na residência.9% dos casamentos se roem. Não posso deixar de ver.” (02/41) “Eu acho que no âmbito da violência doméstica a mulher ainda é muito vitimizada. a questão do desemprego é referida como fator responsável doméstica. mas não é só isso.” (Lopes et all. É claro que tem muito a ver com a questão econômica.” (03/04) Não por acaso. traz a miséria e a miséria traz o fracasso emocional e o fracasso emocional rói como a família. Aí o que acontece gente: o desemprego. e pelos altos índices de violência de desestruturação da identidade masculina. Como o companheiro falou. maconha. e isso acaba generalizando de uma forma louca. álcool. dentre outros fatores. 2001: p. Neste processo em que o homem se vê destituído do seu “poder”. mas a mulher e os filhos é que saem perdendo. 110) . pessoal? Porque 99. fatores que contribuem significativamente para o agravamento do quadro.

o qual denominamos ‘Modelos Contra hegemônicos’. os padrões vigentes nessa cultura ainda bastante expressivos embora. à troca de impressões. em que suas identidades de gênero são problematizadas. o que veremos a seguir. por um espaço de tempo determinado.101 Em suma.Modelos Contra-Hegemônicos Seguindo nosso propósito de estabelecer. começam a surgir as resistências ao estabelecido e a concomitante mobilização para promover mudanças. visto que foi possível identificar. com alguma facilidade. Nesse processo. Bloco . especialmente no caso de nossos informantes. pudemos compor surgem homem”.4. É válido reforçar que este nosso ‘esquema’ classificatório não tem a menor pretensão de representar posições absolutas. num processo de confronto com novos modos de perceber o mundo. selecionamos as falas que apresentavam um distancia mento efetivo do modo de ser descrito no modelo de masculinidade hegemônica. visto que se situam numa espécie de fronteira em que sinais de sérios questionamentos em torno das ideologias de masculinidade tradicionais. alegrias acerca de suas identidades de gênero um novo bloco. anseios. angústias. 5. e anseios por outros modelos de “ser . o agrupamento de padrões de comportamento masculinos. Com estas falas. no qual um grupo de homens se disponibiliza. visto tratar-se de um processo. percorrer estas categorias empíricas da masculinidade hegemônica foi bastante esclarecedor. experiências de vida. conforme explicitado anteriormente. a título meramente didático.

Essa . ele tá fazendo mal à minha garota. novamente percorreremos as categorias que melhor expressaram essa dinâmica. 2001: p. qualquer cara que chegar perto é. eu fico preocupado com as relações que ele tem. Agora a minha filha. 2001: p.102 e de sua saúde. Então. a) Sexo-afetividade Especialmente no terreno da Sexo -Afetividade. mas é assim que elas querem. tem uma coisa que é assim: o meu filho. vou todo perfumado pro pagode.” (Lopes et al. Eu queria tranqüilidade.. Então eu danço conforme a música.. Mas tu acha que eu me sinto bem? Claro que não! Muito pelo contrário. em um processo marcado por conflitos ... num movimento dinâmico de convivência entre as velhas e novas ideologias. já que é isso que elas querem. A ponto de às vezes dar vontade de vomitar. Não estou conseguindo nesse momento. com que mulher ele tá se envolvendo. Me arrumo todo. que vai perpetuar o machismo.” (Lopes et al. a presença de velhos padrões de masculinidade não passa despercebida. eu sou a caça delas. 35) “Tem coisas que a gente sabe que é meio machista. Vamos ser sincero. um lar e uma família. encontramos falas que reforçam a percepção da mulher enquanto complemento. 67) Assim. numa perspectiva que parece levar em conta a equidade dos gêneros. avanços e recuos. porra... Nesse processo em que novas e diversas ideologias começam a se fazer notar. “Nós viramos abate de mulher.

103 percepção das relações humanas como complementares abre espaço para um novo tipo de negociação entre homens e mulheres. encontramos falas que acentuam a necessidade de maior disponibilidade para ver o outro. ele vai. Interessa é que você é um ser humano. se você é homem. a observar melhor o que aquela outra pessoa está falando ou fazendo. não interessa se você é homossexual. objetivando o prazer de ambos. mais comuns a homens e mulheres.” (01/17) “Importante que a gente se veja como animal complexo.” (02/25) Nesse contexto. . que é uma coisa de complemento. “Aceitar você do jeito que você é.” (01/33) Algumas falas apontam para o desejo de ter uma vida sexual de qualidade. ainda que diferente.. e a valorização do diálogo são considerados fatores importantes e indispensáveis para efetivamente garantir o alcance dessa almejada qualidade nas relações.” (01/36) “Você é responsável pelo seu prazer e pelo prazer do outro. “A gente precisa criar ambientes mais solidários. mais fraternos. de uma certa forma..” (02/10) “Porque. onde valores e sentimentos de afeto e amor. né. assim como a necessidade de maior aceitação do outro. ajuda a gente a aceitar o diferente. Ajuda a gente a conviver. não interessa. em que flui um movimento direcionado para a mudança. ele nunca percebeu a sexualidade feminina como um complemento da sexualidade dele.

optamos por utilizar a função dos termos sexualidade e afetividade. é muito legal. ou pra gente. aquela troca de idéia e isso é muito legal.” (01/27) “Amor. um momento mágico que significa mudança. a aceitação do outro. a busca parece ser pela valorização de aspectos até então relegados a segundo plano. Quando a gente sente isso. crescimento como . mas que ainda tá vivo. né.” (02/26) Pudemos constatar que. como já demonstrado. a percepção do outro como complemento. porque depende da maneira como você vai convencer a parceira. a dar prazer. O amor. b) Paternidade Com relação à Paternidade.” (01/54) “Tudo é válido. tende a caracterizar um série de dificuldades na estruturação dos relacionamentos. o que.104 “Ato sexual não vai ser tão gostoso como aquele papo que você bateu. da gente ter carinho. é uma coisa que passou. e ela também tem prazer com aquilo. né? não é só prazeroso pra você. ter uma outra pessoa. a proximidade com o outro. do diferente. esta é descrita como um ‘motivo de alegria’. são questões que se mostram passíveis de serem debatidas por homens contemporâneos. Na categoria paternidade encontramos elementos que endossam este parecer. da gente amar. dentro da cultura masculina. visto ser marcante a cisão desses aspectos dentro da cultura masculina hegemônica . Não por acaso.

como é que você tá? hoje já tem um assunto mais de homem.” (01/27) . reciclagem. fazendo faculdade. atualização enquanto homem e enquanto ser humano. eu mando foto. tomar um sorvete. ou você está certo e eu estou errado. mas é só eu ligar e ele fica: “Ah. acho que ele tem boa parte em todo esse tentar mudar. “Pra mim.” (Lopes et al. Pedir desculpa aos filhos: foi mal. Não acho que é uma coisa minha. como homem. ele tá com vinte e um anos. esse tentar crescer. errei.” (01/40) “Minha experiência como pai foi a coisa mais maravilhosa! Deus me deu o melhor filho do mundo.. especialmente no que se refere à participação efetiva do pai no processo de cuidar. como uma pessoa que tem que ter responsabilidade com o futuro. tomar um chope junto. cobra a mulher. paizão. [mas] não me coloco como um pai modelo. Foi me fazer me ver como gente. passou. como trabalhador. ao cinema. [saber] até onde o filho precisa do apoio total ou parcial. adoro ele. apesar de ter sido criado longe de mim. leva na praçinha. saber dizer você está errado. estar atualizado. não perder o norte. A mentalidade do pai que bota dinheiro. ser pai foi mágico. banca a casa. eu sou pai pra cacete.105 pessoa. A dificuldade é estar reciclando.. 2001: p. a gente se escreve. o pai hoje pega o filho e leva pra passear. 58) Fala-se também da consciência de que é necessário rever valores e padrões tradicionais que não se enquadram mais no processo de criação dos filhos atualmente. “Eu sou um pai super corujão. se fala por telefone. 63) “Ele é tudo pra mim.” (Ib idem: p.

Dificuldade eu acho que é aquela coisa de você estar se reciclando enquanto pai. dentro de uma favela. “Hoje com os meus filhos eu tenho uma relação de cumplicidade. de levar na praçinha. dentro de toda essa onda com uma porrada de situações. respeito. de tomar um sorvete.” (01/38) “É tudo muito construído na base da amizade na base da divisão de responsabilidades. Essas descobertas se tornam mais significativas quando confrontadas com os contextos inóspitos a que a maioria dos informantes está exposto nas comunidades onde vivem. de tomar um chopp junto.” (01/39) “Eu tento transar um relacionamento com o meu filho diferenciado. diálogo. o meu filho dá banho no cachorro.” (01/38) “É um respeito que é recíproco. de você não perder o norte.” (01/50) Vários depoimentos falam da paternidade como uma relação de cumplicidade. ele lava um louça junto comigo às vezes. Eu toda hora descubro uma série de motivos pra estar feliz com essa minha relação com meus filhos. ele varre a casa. e ressaltam a responsabilidade com o futuro. e onde criam seus filhos. que banca a casa. é uma relação que a gente construiu e eu me sinto super orgulhoso que. amizade. ‘cadê o resultado?’. de levar ao cinema.106 “O pai hoje em dia está assumindo um papel de pegar o filho e levar pra passear. você vê que ainda existe . de você estar atualizado. de companheirismo. cobra da mulher. de amizade. companheirismo. em que pese não morar com os meus filhos. A mentalidade do pai que bota o dinheiro. eu acho que passou.

como ele não admite que a outra tá ali.. de menina pra mocinha.. que sente a mesma . que continua.” (01/48) Paradoxalmente. estes estreitamente relacionados às ideologias machistas de dominação e posse. “E eu acho que. cinco meninas já menstruaram ensaiando lá.”(01/39) A relação com a filha mulher tende a configurar-se com uma série de fatores complicadores. conforme já descrito anteriormente. parece necessário reconhecer que existe sim ciúme do filho. Por que. de criação com graus de respeito e muito atualizada. ele vai ter dificuldade de se relacionar com a sexualidade da filha dele. homens. “É difícil de lidar com isso. hein!” (02/24) O mesmo não ocorre em relação ao filho homem.. sabe..” (02/23) “Eu não vejo gente.Que bonitinho. o ciúme do pai é diferente. Percebe-se um grau de dificuldade considerável no processo de educação da filha mulher. com essa mudança. falar assim: ‘Ah! Minha filha já tá se masturbando. há mostras de que essa relação pode ser refletida e modificada no processo. minha filha tá’. o cara que não consegue sair disso. mas de forma diferenciada. em relação ao filho homem é muito diferente. né. “Eu acho que o pai pode sentir ciúme também do filho. entre nós. Mas é diferente. especialmente no que tange à questão da sexualidade. segundo alguns depoentes.107 uma relação muito ligada na que eu tive. já que. o que é expresso em falas que descrevem um ciúme que chega à beira do exacerbado. é mas.

de gozar e de sentir. “A gente tem preocupação com a nossa filha. meio ciúme mesmo. como ele. a preocupação entre os informantes é justamente a de corrigir rotas traçadas previamente.108 coisa que ele.” (01/46) “A minha relação com a minha filha começou a mudar quando eu comecei a conversar com ela. as conseqüências nefastas dessas práticas na vida de muitos jovens de suas comunidades. e à dificuldade de administrar os padrões. né ?” (02/25) “Então. da responsabilidade que ela tinha em tudo. que tem direitos também. os altos índices de gravidez na adolescência. culturalmente tendenciosos na formação do homem. Dentre estas.” (01/50) Em várias falas. Vale lembrar que nosso grupo de informantes é composto por agentes sociais que assistem. no dia-a-dia. a gente tem que ter preocupação com a filha dos outros. percebe-se a consciência de que este tipo de comportamento não é saudável para o desenvolvimento do menino. como esta que se refere à experimentação sexual em idade precoce. paterno mesmo. eu acho que esse negócio do ‘mãozão’ [pretendente da filha] mesmo. especialmente os de estimulo à experimentação sexual precoce. “Eu acho que nós temos que expandir mais pra outros pais essa preocupação da sexualidade precoce nos meninos. de ter prazer.” (01/51) .” (02/09) A preocupação de não reproduzir valores ditos “obsoletos” fica mais evidenciada quando em referência à criação do filho homem. Curiosamente. é meio egoísmo nosso.

outro pai acharia fantástico isso que o meu filho faz: pô. (02/27) Interessante constatar que.. que também ela tem um universo todo.. observamos que um número significativo de depoimentos trazem a informação de uma acentuada consciência masculina acerca da . mas não sabe ele que isso pode acarretar um problema muito sério pra ele amanhã. né. de. assim como eu falei pra minha filha. sai pegando primeiro pra tu vê’”. eu me preocupo muito com isso. inaugurei com ele um espaço pra conversar sobre essas coisas.” (01/52) “E aí. percebe-se ainda a dificuldade de levar à termo os novos conceitos. eu sou muito apaixonado.” (02/27) “Tem todo um discurso de uns pais lá que falaram pra menina que antes dela casar. a despeito do ato de ‘cuidar’ ser considerado. eu não estou sabendo lidar com isso porque é meu filho... não. adora mulher.. eu comecei a fazer com que ele pudesse ver também a menina. né.. é. “A exemplo do pai dele [o próprio depoente]. um atributo feminino.109 “Em outra ocasião.comecei. ‘filho. Esse pai que pensaria dessa forma. ela tem que transar pra poder ver se gosta do cara? É a mesma coisa que eu falasse pro meu filho. que teimam em se chocar com aqueles mais antigos e já tão bem introjetados. o cara vai comer todas. pegar todas..” (01/51) Como já mencionado anteriormente. ao mesmo tempo que são ditas falas tão diferenciadas do discurso hegemônico acerca do processo de formação da identidade masculina. e tem aquela coisa. no âmbito da cultura hegemônica. não namora não..

paralelas.” (01/47) Ao mesmo tempo em que encontramos expressos alguns medos e receios diante da perspectiva da paternidade.110 necessidade de cuidar.. surgem. “A gente ainda tem aquela comunicação que eu tinha quando ela tava na barriga da mãe dela.....’ E . como é que vai ser essa minha experiência como pai?” (02/08) “Eu falei: ‘Vou me impor como homem.” (01/41) “Como eu não tive um modelo de pai muito presente.. sempre foi uma coisa muito confusa para mim.” (01/41) “Eu acho que é pela questão de ter uma coisa cuidada por mim.. uma pessoa certa e vou correr atrás. uma pessoa que eu possa carregar no braço. e para superar todos os obstáculos e dificuldades. depende muito da forma que a gente escolhe pra criá-los. e que informam da prevalência do ‘desejo de ser pai’ em detrimento de outras coisas.. A dimensão desse desejo é que pode garantir a energia para criar as condições necessárias..” (01/47) “Então eu acho que é a questão da necessidade de dar cuidado. “Eu acho que ter filho é bom e é ruim. eu acho que é a questão do cuidado. de dar cuidado mesmo. como também da importância da participação dos homens nesse processo. como eu vou ser pai? Como é que eu vou.. vou ser uma pessoa digna. como o estudo por exemplo. viver . de ter uma outra pessoa dependendo de mim. falas que resgatam as conquistas alcançadas com a adoção efetiva das funções paternas. eu gosto muito. entre os entrevistados. fora a minha esposa.

mas foram acontecimentos maravilhosos. E eu vejo que muita gente sofre pelo não planejamento. “Eu não planejei ter um filho. com homens assumindo o ‘cuidar’ de forma prazeirosa e desencouraçada. não foi. certo. ‘naturalmente’. foi um acontecimento. em especial. Os meus filhos foram acontecimentos. “E a minha filha nasceu. “ (02/10) “Tá sendo bárbaro a experiência de ser pai do Victor.” (02/14) Diferentemente do padrão de masculinidade tradicional.111 foi o que aconteceu. percebemos a paternidade apontando como um campo de evidentes transformações no masculino. das responsabilidades em relação ao processo reprodutivo. onde o homem tende a se excluir. Mas não foram planejados. “ (02/22) Uma fala. quer dizer. E hoje em dia. e eu tenho muito orgulho de ter ela. a minha filha está aí. ao que o participante denomina de ‘Projeto de Maternidade’. denota uma certa queixa diante da exclusão do homem na hora de opinar sobre ter ou não filhos. onde atributos até então relegados ao feminino são re-alocados para a função paterna. né? Não foi nada planejado. d) Violência . encontramos várias falas que refletem a importância do planejamento familiar e da participação masculina no momento da decisão. não de paternidade” (02/22) Enfim. pelo projeto de maternidade. assim. Então.

“Eles viram marginais. Eu acho que tem também essa coisa do homem achar que ele pode. mas não é só isso. eu acho que essa coisa da violência é um tema muito interessante pra gente discutir enquanto gênero masculino. “Os homens no Brasil. entre aspas. são aqueles que mais matam e mais morrem. destacando a presença de uma consciência política na crítica à sociedade. É claro que isso tem muito a ver com a questão econômica.. o medo nos torna protetores da nossa intimidade. por conseqüência. desencadeia a violência. que é a educação. Então. 2001: p. Então eu acho que a nossa relação com o medo tá muito forte. 109). de uma instituição caótica que só produz mais violência.” (03/82) “Hoje. que foram feitos pela falta da política pública. tratada a partir do reconhecimento desta questão como um tema masculino. deixando de lado aquilo que a gente considera. o medo está sempre presente nas nossas vidas e o medo nos faz reagir agressivamente. morre mais gente no Brasil por causa da violência do que nas guerras que a gente escuta falar. E joga lá dentro. mais sagrado.. “Hoje o que lota os presídios são homens. o medo nos faz omitir.” (03/85) Neste terreno. ainda. porque a gente pode estar sofrendo um grande estresse” (03/86) .112 A violência está presente na descrição das vivências cotidianas de forma marcante. e essa mesma política pública pega esses marginais. que produz a marginalização dos indivíduos e que.” (Lopes et al. está no nosso cotidiano e a gente traduz aquilo em práticas também violentas. é dado foco especial à violência doméstica.. a mulher e os filhos é que saem perdendo muito com essa lógica da violência doméstica.

alguns homens relatam sua experiência nestes grupos de homens como sendo efetivamente transformadora. um cara violento. mas indiretamente eu era mais violento comigo. eu m senti um cara violento antes. contra a mãe. e a gente acaba também não mudando determinadas formas de pensamento. despojada e sensível. contra o pai. como reflexo das discussões levantadas nas oficinas das quais eram participantes. que de repente resolveu abandonar a violência doméstica. que eu fui um.” (01/03) “E só o fato da gente trabalhar a questão da violência doméstica. como veremos a . de repente não diretamente com a minha família.. a violência contra filho.. seus desejos de participarem efetivamente da construção de seguir.né.” (02/75-76) Estas falas parecem configurar descobertas importantes feitas por estes homens. vítima e vitimizado. hoje e em dia eu tenho até vergonha de falar isso. fator que dificulta o processo de transformação dessa conjuntura. visto que contribui para a imobilidade. “A gente fica sempre numa situação da vítima. de forma séria. “A primeira impressão que se tem é que eram homens que eram violentos em casa. mais humana e solidária.113 Vale destacar a expressão de uma visão crítica acerca da tendência que a maioria tem de incorporar a ‘vitimização’..” (03/88) Por outro lado. uma sociedade menos violenta. Isto tanto no que se refere a comportamentos violentos que antes expressavam em relação à família. que expressam. como em relação a si próprios. contra a mulher. do agressor.

Em várias ocasiões. pudemos constatar que um número significativos de falas se reportam ao desejo confesso de se reunir com outros homens. A idéia de estar reunido com outros homens. diretamente ligado à essa questão. e refere -se ao sentimento expresso por vários homens. Eu percebo que isso há algum tempo atrás não era uma coisa muito comum.. é reportado em relatórios do PHSVC.” (01/20) “Ter interagido como homem no grupo Consciência Masculina [do PHSVC] me deu mais clareza de poder trabalhar isso e até me respeitar mais.” (01/25) Um dado interessante. mas hoje que tá se tornando uma coisa comum. alguns destes tratando explicitamente da possibilidade de haver alguma ligação do projeto com o movimento gay.114 e) Reflexões transformadoras Em contraposição à propalada tendência masculina ao isolamento. que todo mundo falou. surgiram questionamentos em torno da proposta de formar “grupos de homens”. todo mundo. que é poder se reunir. eu me sinto bem. e que não economizam adjetivos para falar do prazer e dos ganhos pessoais auferidos com essa prática. então eu acho que isso é legal. “A alegria é justamente aquilo que o P.. com o V.. para simplesmente . às vezes eu encontro com o v. poder estar com outros amigos. dou um abraço nele. quando inicialmente convidados a participar dos grupos de reflexão de gênero propostos pelo Projeto.” (01/04) “Quantas coisas sérias a gente tá falando no meio disso tudo aí. falou.

em grande parte dos depoimentos que ora analisamos. auto -suficiente... a experiência de participação no grupo reflexivo é relatada como sendo a de se deparar com um espaço sério e de confiança. isso é complicado. Entretanto. heterossexual. parecem estar bastante bem definidos socialmente. os espaços de encontro masculinos. (. eficiente e. o botequim. a rinha de galo. todas as suas frustrações. De um modo geral. no qual cada um tem que afirmar-se socialmente como forte. é muito fantástica. todos os seus desejos.. o tipo de comunicação que estabelecem costuma ser regido pelos estereótipos de gênero. onde esses homens afirmam se sentirem seguros para estar expressando livremente seus sentimentos. Mas nesses espaços. todos os seus preconceitos. é muito legal. falando. ajuda muito.) é muito gostoso. entendeu? E pra gente. Ainda numa mesma visão estereotipada. é você conversar com outro e se emocionar” (01/57) “São homens que estão colocando pra fora. de reproduzir essa vivência de grupalização. denotando ser esta uma prática estranha aos padrões tradicionais de masculinidade.” (01/57) São falas que denunciam o desejo de promover mudança. todas as suas questões.115 “conversar”. principalmente. “Difícil essa coisa que está acontecendo entre a gente. de mulheres ou de política... numa visão à luz desta cultura. como o estádio de futebol. causava um certo estranhamento.. etc. é difícil mesmo” (01/57) “Esta reunião nossa aqui. multiplicar os espaços . os temas gerais das conversas masculinas costumam girar em torno do futebol.

eu acho que um encontro como esse ajuda muito isso. de participar das questões mais gerais. como filho. tem um grande espaço pra ser mais coletivo.” (01/34) “Os homens que trabalham com a gente são pessoas que estão buscando esse entendimento mais participativo.. a mudança como pessoa. como marido. como pai.” (01/35) Outros falam dos da descoberta de do prazer no de auto-cuidado. porque ajudam a gente a desarmar. onde afeto. eu acho que o homem pode ser. E o que eu tento fazer com essa experiência é tentar multiplicar isso” (01/55) “Em função disso estar trazendo outros companheiros que tão repensando sua situação de homem e tão tentando modificar. Várias falas confidenciam sobre a constatação de estar “aprendendo a colocar pra fora”. outrem. Esse movimento parece vir em resposta à consciência da necessidade de construir uma ‘nova história do homem’. . ou seja. localizados no modelo tradicional. tem efeito transformador em suas vidas. descrevem a consciência de que é saudável falar sobre os próprios sentimentos. a criar ambientes comuns de identificação. Então na verdade estamos construindo uma história. “Foi maneira a mudança. e de diferentemente padrões dependência alheamento de si próprio. Essa prática. segundo os informantes..” (01/03) “A gente ainda tem a evoluir. cumplicidade e companheirismo entre homens não mais ameaçam a ‘virilidade’. Várias falas espelham o desejo de ser mais coletivo.116 propícios à prática reflexiva em grupo. como gente. masculina sim. com muita sensibilidade.

O porque o cara é homem e tem uma figura do homem com bigode. e da necessidade de melhorar a comunicação.. Então a gente se sente à vont ade pra falarmos a respeito disso. de sexo. Então ele tem que ser respeitado porque tem a figura do homem. à própria saúde.. que marcam.. do que com a . nós.. onde cada um vai falar de seus desejos. opção sexual de homem. que temos toda essa informação.. a partir daí. hoje. ainda temos aquela coisa do machismo. onde cada um tá falando de suas frustrações. é ter uma comunicação melhor. algumas informações pela qual você sai dessa linha e começa a se cuidar. ‘isso não é coisa de homem’.” (01/15) “É um assunto muito interessante quando a gente fala a respeito de sexualidade de homem. Só de acordo com algumas conversas.” (01/08) “Um problema que o homem precisa vencer. alguns bate-papos. inclusive. enquanto homens. quando a gente tá assim numa reunião entre homens sérios. Tem muitas coisas acontecendo. esse processo de construção de um ‘novo homem’ ao qual vários participantes se referem..” (01/54) “Coisas que são traumáticas. mas não é bem por aí não. Infelizmente.” (01/17) Outros depoimentos refletem sobre a importância da informação. pra gente tirar um pouco essa cabeça.117 “A gente tem que falar de coisas gostosas. parece ter mais a ver com o desejo de apreensão de valores de humanidade. A gente só consegue falar essas coisas. todo um lance cultural. (01/07) De um modo geral. de criança. Essas reuniões aqui são ótimas pra gente conversar a respeito disso. possam adotar novas posturas em relação.por isso que é bom reuniões iguais a essa. para que. a gente tem que falar das nossas experiências. “Nós homens.

com sua família. em muitos depoimentos. De qualquer forma. ele vai ponderar mais antes de tomar certas atitudes. e o . né? No seu comportamento no trabalho. né.. e ouvir. ele vai aceitar mais. o grupo Consciência Masculina e depois de ter conhecido o grupo. uma maior auto-aceitação.118 mera reafirmação de valores da masculinidade propriamente dita. ser cúmplice dessa realidade de ser homem. “Eu me defino hoje em dois momentos: primeiro momento.” (01/58) “Vai ficar mais tolerante. primeiro ele vai ter que vir né. do.. tem prazer em ser gente.. com seu filho. da participação.. de gênero masculino. eu tenho muito prazer em ser gente.” (01/56) “Eu conheço muitas pessoas que precisam passar por essa experiência que nós passamos né? E que com certeza vão se tornar HOMENS MELHORES (ênfase). cada vez mais me reciclar como homem. e como homem. como nos abaixo selecionados. e aceitar e se posicionar. antes de eu ter conhecido o grupo de reflexão.. Mas isso falta essa coisa né. como a que eles se permitiram experienciar. O caráter transformador decorrente dessa participação aparece evidente em muitos depoimentos.. uma enfática valorização do processo reflexivo. muito difícil falar” (01/56) “Esse caminho que o [grupo] Consciência Masculina tá me ajudando a trilhar como homem. me educar como homem e ser solidário às dificuldades que outros homens possam estar tendo.” (01/55) “Como grupo. trata-se de um processo que demanda a abertura para a participação.” (01/58) Observa-se.

aparece uma acentuada valorização da sensibilidade. quando você confia naquela assunto. da base familiar. “Intimidade é quando você se deixa vulnerável...” (01/37) Nesta perspectiva de consideração da alteridade.. é um processo de troca. criar novas relações . mas também coletivamente pra gente criar identidade. naquela pessoa pra poder trocar com ela. uma história para você levar aquilo adiante.. é fundamental que a gente cresça enquanto indivíduo. quando você desarma todo os seus preconceitos .” (01/21) “A gente busca estabelecer uma nova relação.. numa perspectiva que vai ao encontro dos interesses da coletividade.” (02/08) .. do processo de troca. da saúde.” (01/15) de você falar o que “A gente pode estar se escondendo atrás de uma série de paradigmas pra se justificar..somos estranhos porque a gente tem um montão de coisas pra poder se esconder e camuflar essa nossa maneira de ser. Eu acho que você tem que ter um passado. Isto tudo.” (01/34) “Eu acredito que seja a base familiar. “Hoje você tem livre -arbítrio sente. e de revisão de paradigmas. de auto - descoberta. identificações que nos estimulam a seguir.119 exercício explicito de maior liberdade de expressão.

120 Em suma. onde o chavão principal é o de que ‘o homem só procura o médico quando está realmente mal’. Vamos encontrar sentimentos correlatos nos depoimentos sobre a saúde. “Aquela coisa já antiga. optamos por estabelecer o mesmo critério em relação ao tema saúde. inicialmente. eu evito qualquer . que apresentamos a seguir. de que médico é pra quando não tá legal. os receios de demonstrar e trocar afeto. a partir de ações promovidas por eles. a) Modelo Hegemônico No âmbito das falas classificadas como correspondentes ao modelo hegemônico. a relação com a questão saúde é explicada a partir da introjeção de padrões de socialização tradicionais. constatamos que estes homens alegam estar perdendo o medo do contato. Bloco .”(01/06) remédio. inseridos em um contexto social passível de transformação.” (01/04) “Eu não tomo remédio.Modelos de Cuidado com a Saúde A exemplo de como procedemos à análise das ideologias de gênero. percorrendo. 5. as colocações que denotavam a acomodação e identidade com o padrão de masculinidade hegemônico. de serem eles mesmos.5. Vários depoimentos dão conta de que esse padrão também implica na recusa em tomar remédios. para em seguida apresentar as falas com tons diferenciados. de criação.

121 “Tenho um medo de médico, eu acho que quando você vai no médico é porque tá mal.” (01/06) “O homem só vai procurar quando já está bem ruim. Caindo aos pedaços é que ele vai.” (02/01)

Neste contexto, onde o adoecimento masculino compromete as expectativas sociais de desempenho, objetividade, resolução, ação, e utilização da força bruta pretensamente inegostável, o receio de parecer fraco impossibilita ao homem a mera expressão de dor. “Uma coisa muito preocupante, ele [o pai] falava que homem não expressa dor.” (01/08) “Então em parte eu penso, homem não pode expressar dor, homem não pode exp ressar que tá doente, homem não pode expressar de forma alguma.” (01/10) De um modo geral, a visão que predomina é a de que a saúde é uma preocupação da mulher.

“Quem empurra muito pra saúde é a mulher, cara! Entendeu? A mulher, devido à gestação, à gravidez, pré-natal, etc, isso vai acabando, vai levando ela à conviver com saúde, e se interessar mais sobre saúde. O homem não, o homem fica naquela, “sou o poderoso, nada me acontece”, aí quando acontece é, “estou derrotado, destruído, desarmado”. (03/23) Outro aspecto bem marcado dentro desse padrão, e que parece associado à indisposição para o auto-cuidado por parte do homem, refere-se à declarada dependência do cuidado feminino, ou de outrem, no cuidado com a saúde.

122 “Desde pequeno, a mãe levou ao médico, fez um cházinho, deu um remédio, depois a namorada, a esposa tá sempre dando uma atenção.” [descrevendo o padrão masculino] (01/04) “Associo muito a essa coisa de sempre ter alguém, uma figura feminina, sobretudo, cuidando, dizendo...” (01/04) “Eu só tava sentindo dor de cabeça, aí ela me cuidou.” (01/06) “Aquela história que a gente foi acostumado o tempo inteiro com mão feminina apontando, sinalizando, indicando.” (01/36) “Quando tá mal, mal mesmo que ele vai procurar um médico e assim mesmo se alguém levar ele.” (02/65)

Esse perfil é associado ao processo de socialização, mas parece haver, também, a percepção de que se trata de uma estratégia de troca, na qual é feito um investimento na saúde mediante a perspectiva de otimização de seu desempenho como provedor.

“A minha esposa, aliás, inclusive ela cuida mais da minha saúde do que eu cuido e eu gosto disso. É uma pessoa que cuida mais da minha saúde do que de mim.” (01/12) “Claro que ela não vai se descuidar porque ela gosta de você, ela quer que você tenha perfeita saúde,, até pra você cumprir com todas as suas obrigações pelas quais você tem que cumprir, pagar dívida ...” (01/12)

123 Os tabus em torno da sexualidade masculina se fazem notar em diversos momentos, atuando sempre como fator complicador e de risco no processo de cuidado com a saúde. Tu vai num consultório médico, aí tu vê um monte de florzinha. Aí nós como somos homens machistas: ‘Essa porra é pra viado! Essa porra não é para mim, não.’ Então o cara vai sentindo uma dor, aí começa a olhar aquelas florzinhas, sei lá, eu acho que ele vê muito mais mulher.” (03/16) Nesse aspecto, o tema da homofobia é, com certeza, um fator

que merece a devida atenção, na medida em que muitos dos tabus existentes em torno da homossexualidade, tendem a dificultar a prevenção de algumas doenças. O que mais causa espécie, entre os entrevistados, são as menções ao exame de próstata. As referências a esse tipo de exame são sempre permeadas de gracejos. A simples menção ao assunto é, constantemente, motivo de piada, o que denuncia o temor despertado por um mero exame de toque retal, e o que este toque pode simbolizar em termos de ameaça à identidade masculina. “não fez um exame precoce, porque tem toda aquela imaginação do exame: esse exame não é pra homem...” (01/08) “Tabus ainda acompanham o homem, e tem gente aí morrendo de próstata porque não fez um exame.” (01/08) Qualquer problema que venha a colocar sua região anal em evidência pode deixa o homem inseguro, especialmente diante de uma mulher. Dentre os aspectos a que este padrão pode estar relacionado, acentuamos o receio de ter sua virilidade ou seu desempenho como homem questionados diante de uma mulher. Na visão masculina tradicional, uma mulher sempre representa a perspectiva de uma

..124 ‘relação sexual’ em potencial. alguns depoimentos sinalizam novas reflexões e atitudes frente a este padrão. não é o meu caso..” (03/21) De um modo geral. é numa revista que é gay. Buscar ajuda pode significar um sinal de fraqueza. você não tem uma coisa oficializada. o que não rima com masculinidade. um homem se sentiria ameaçado de ter que comprar G Magazine pra poder saber daquele assunto. “A vergonha de dizer. Ao mesmo tempo. né. tratada seriamente. em publicações gay.... e não em outras revistas eminentemente masculinas. na qual é estimulado o exercício da prepotência masculina. este dado evidencía o quanto a mídia dirigida ao público masculino desconsidera o cuidado com a saúde. Ou seja. a exigência de que os homens se comportem como super-homens. .. o cara engole e achar que eu sou viado. Por outro lado. esse cara vai (03/17) “Nós homens já temos essa: pô.” Se for se for homem.. muitos depoimentos fazem referência às influências do processo de formação cultural. “até pra você dar uma informação de saúde do homem. de o cara dizer: “Tô com mulher. o cara vai me dar uma dedada e eu vou deixar de ser homem!” (02/65) O nível acentuado de preconceito homofóbico também se faz notar no depoimento de um participantes que se queixa de encontrar informações sobre a questão da saúde do homem. nos parâmetros da cultura masculina hegemônica. pra você procurar uma informação como essa né.” dizer. mas uma dor no ânus. dotados de uma força sem limite.

” (03/’14) “Ele [o homem] acha que é dono da verdade. o mais forte que eu vejo mesmo. não vai ao posto. é o cultural. para explicar a reprodução de conta a questão da saúde. Ele não vai ao médico. comportamentos que não levam em . nós fomos criados.” (03/16) “Imprudente também. isso não é nada. em especial a figura paterna. Da gente ser treinado para ser assim. Ser o máximo. realmente. na formação de que o homem é machão e tal. com todo o tipo de coisa. não é que eu não ligasse. há um resgate da experiência com as figuras parentais. pela própria criação. até hoje eu sou assim. e jamais ele vai ser atingido por algo que venha de fora e que vai criar todo um problema orgânico e tal. o machão.125 “Além do que. Que ele está fraco. Isso vai passar. a minha infância foi muito assim. ele: “Ah.” (02/11) Nesse processo de reflexão sobre si mesmos. por ele sentir. constata-se que a necessidade de atender a este padrão os deixa numa posição extremamente vulnerável em relação à perspectiva do adoecimento. ou então seja por essa cultura machista que ele se acha o super homem. com a saúde. ele acha que é dono das coisas mais impossíveis e é por isso que ele se torna vulnerável. sem limite.”(03/25) “O homem.” (03/12) “Agora. agüentar. “Não aprende a lidar com o medo [o homem].” (03/13) Paradoxalmente. o todo poderoso.” (01/09) “Ele ir a um médico é ele reconhecer que está passando por uma fragilidade nesse momento.

Meu pai é um exemplo e era um cara super maneiro. “Porra. se alguma coisa está funcionando fora de uma normalidade. Aquele que provê. initerruptamente. é uma dorzinha. E quando fala ainda escuta assim: “Ah. . com 80 anos ainda se masturbava. o que é facilitado com a naturalização do paradigma de que o homem.” (03/16) “Não fui ensinado a: “você tem que ter uma preocupação com a sua saúde. você precisa sim. nunca foi ao médico Falei porra. aparece o trabalho como potencial fator de risco à saúde do homem. toma uma cachaça que passa. e conseguir que sua queixa seja levada em conta. era um cara fortão. a força -de-trabalho. ah não. coroa bom de chinfra. visto que acenam daí algumas luzes para a compreensão do mêdo causado pela perspectiva do desemprego. Isto caracteriza ser esta temática transversalizada pela questão de gênero. para ser ‘homem de verdade’.e eu venho construindo a mesma história” (01/06) “O meu pai morreu com 88 anos. porque eu vou?” (01/08) Alguns depoimentos dão conta da dificuldade de externalizar a respeito da própria saúde.. já que parece haver uma acirrada cobrança social por uma resposta masculina efetiva ao estereótipo do super-homem.. se o meu pai nunca foi ao médico. a exploração do trabalho do homem se dá pelo seu próprio ‘corpo’ produtivo.126 “Perdi o meu pai também com problema de saúde. tô com uma dor no estômago.” (03/14) Além do padrão de sexualidade desenfreada.” Não fala. não pode falhar nem ficar doente nunca.. por exemplo... No regime capitalista. Filho tem aquela coisa de quando eu crescer vou querer ser igual ao meu pai.

.” (01/09) “Eu tava trabalhando com dengue. Tô com minha paraibinha há 3 anos. e claro me medicando deliberadamente.. o sentimento de impossibilitadade de tornar pública sua fraqueza.. parece prevalecer. os comportamentos de risco ficam evidentes no numero indiscriminado de parcerias. para poder dar conta de garantir seu trabalho.. “Eu não sabia usar a sexualidade de uma forma bem saudável. tá tudo bem..127 “Muitos homens pensam que. eu trabalho num posto. No anseio de solucionar rapidamente suas mazelas. achando que sair metendo é que era.” (02/74) De um modo geral. tava sentindo dores no corpo. em que prevalecem as relações de confiança estabelecidas pelo critério do “conhecimento” para justificar a relutância quanto ao uso dos métodos contraceptivos e de prevenção de dst/AIDS nas relações sexuais. entre os homens. uma vez que há o risco de vê -la desdenhada.” (02/19) . .até pra desrespeitar todo aquele conceito de mulher. Mas eu dou orientação à ela. é.que houve tio Márcio? Nada não . “Ia trabalhar com o corpo doente e a dengue tava se agravando. como se diz “ele só foi feito pro trabalho. tende a recorrer a auto-medicação.. com suas possíveis conseqüências para a saúde como um todo..” (01/36) “É a única que eu pego sem camisinha. Essa eu pego sem camisinha. eu tava suando frio. eu não cheguei a ir no posto e acabei me curando por pura teimosia.” (01/10) Quanto à sexualidade. eu usava mais assim pra me posicionar como homem.

. tive que correr atrás lá. ou não sei as brasileiras.. Hoje. “essa porra é pra viado! Essa porra não é para mim. Consultório médico. são feminilizadas. “As instituições de saúde brasileiras. não. como um dado complicador da saúde masculina. a visão de que o Posto de Saúde ‘não tem um perfil para atender homens’. “Acho que foi eu botar. convive paralelamente às práticas inconseqüentes.” (03/16) .. aí tu vê um monte de florzinha. o que contribui sobremaneira para o afastamento da população masculina da busca de ajuda profissional. “Poxa..Tomou até Coca-Cola fervida!” (02/16) “É. o fantasma da concepção de um filho. o que eu fiz. o que eu fiz. encher de ar.” (02/14) “Aí. no escuro e pintou aquela atração de dar outra naquela hora. o que eu fiz?” E depois quando eu ouvi aquilo (som da camisinha estourando). na hora a noite. E hoje. . Hoje o cara tem que botar camisinha.. Pra não ter filho.. parece que a vida acabou ali mesmo. pra ela tomar uns remédios lá [abortivos]. Aí nós como somos homens machistas. Aliado a isso. nêgo tem que botar camisinha. ou de contrair alguma doença.” (02/20) Algumas falas atentam para o fator ‘desinformação’. É a mesma coisa você comer um arroz sem sal. não. mas acho que a carioca que onde eu convivo..128 Por outro lado.

” (02/73) “Mas a gente é também desinformado e nem se interessa em se informar com relação a saúde.. mas tem uma mulher ali na janela. porra eu tô com a cueca ficando amarela. “Dá pra tu ir ali fora comigo.. de possíveis problemas que podem atingi –lo. se tiver um botequim. no imaginário masculino. é igual pedir uma cerveja num botequim. o risco de perda do poder sobre a mulher. fica evidenciado o receio de se mostrar enfraquecido. porque na triagem só trabalha mulher. falta de informação e eles pensam muito também que posto de saúde é coisa de mulher. eu saí com uma mina aí tem duas semanas. Ele não vai falar nunca nisso. o que corresponde.” (02/69) “Vou tomar um café e falar com o rapaz. refere-se à inadequação ao atendimento feminino no Serviços de Saúde. isso é papo de homem. é ou não é?” (02/69) “Nós já temos essa ignorância. Eu acredito que seja por falta de informação. figurando essa questão como um dos aspectos que mais dificultam a opção por buscar os recursos da medicina. eu fui ali..” (02/67) Um dado que aparece com bastante freqüência em vários depoimentos. nós temos essa ignorância..” (03/15) “Muitos homens não vão ao médico porque pensam que não te m um médico qualificado pra eles. eu fiquei com vergonha.” (02/68) “Ele vai chegar lá na triagem: tô com um caroço no cú. Nesse aspecto.129 “Eu acredito que por timidez eles não procuram (médico). a ignorância é de machão. tiver uma mulher atendendo você pede uma cerveja de uma maneira. você não pode . se tiver homem atendendo você vai pedir de outra maneira.

ou então recorrendo ao terreno da religiosidade. por isso que ninguém vai.. Pô. esta realizada aleatoriamente.. num posto de saúde. do que ir no médico. chega aí. “Onde nós moramos tem o Milton da farmácia.130 conversar com uma mulher uma coisa que você pode conversar com homem. vou chegar e vou ser destratado no hospital.. me consegue isso. não. benzedeiras e similares. então ele confia mais nesse farmacêutico e nos centros de macumba..”. não.. ele recebe o caboclo. (02/67) Essa questão remete às relações – tensas e conflitivas – entre o sistema de saúde ‘científico’ e a cultura popular. pro curando os pais e mães-desanto. vão à drogaria. ou diretamente junto ao balcão da farmácia. nem hospital.. O que a gente pode fazer?” (02/06) “O amigo indica uma coisa. Farmacêutico e tem o vovô vai com Deus lá também. compra o remédio.” (02/71) A desinformação.” (02/68) .. aí. associada à dificuldade de adequação ao perfil apresentado pelos serviços. a questão não se reduz a ele.eles vão numa farmácia. “Vem cá. seja através da indicações de amigos.. acaba concorrendo para a prática da auto medicação.” (02/66) “Que eles falam que a saúde tá precária. denotando que.. “Os meninos não descem para posto. faz o exa me. o santo espiritual e o farmacêutico.. embora possamos identificar um aspecto de gênero nesse padrão. ele qualquer coisinha dá o diagnóstico. São dois atendimentos.

cheio de mulher. entra naquela fila ali. Isso num discurso em que a responsabilidade por si próprio é colocada como opção à postura de vítima. aquela fila ali.. a saúde de cada um.” (02/68) Constatamos que o fator desinformação. que nós não somos onipotentes. diferenciados. aí ele olha pro pau e fala: vou lá no vovô. em relação aos padrões apresentados anteriormente. É o que passamos a descrever a seguir. destacam-se várias falas que nos levam a crer na emergência de novos modelos. no qual pode-se detectar uma certa consciência da necessidade de auto-superação.” (01/04) . ele chega assim: to querendo ir no médico. contribuem de maneira marcante para o agravamento do quadro da saúde do homem. é lugar pra você ver se está doente . associado à reprodução de valores tradicionais do “ser homem”. a gente é que tem que cuidar. “Hospital é lugar pra todo mundo. o cara vai olhar. meu irmão é ali. e de revisão de antigos valores. Entretanto.. e mais próximos do que se chama humanização.” (01/08) “Na verdade a nossa saúde. acho que a gente tem que olhar mais o nosso lado. a) Modelos Contra-hegemônicos Numa postura completamente reformulada.131 “O homem foge. criança ali. encontramos falas que traduzem um padrão diferenciado..

você tem que independente da sua criação você tem que procurar imediatamente o recurso de saúde. vou morrer de repente.. deixa eu gemer. mas eu não quero isso. quero passar minhas experiências. estão tendo a oportunidade de estar criando novos homens com novas mentalidades. então se eu tiver doente. resgatamos também as falas que reportam a preocupação com a questão coletiva. parece haver uma preocupação com a necessidade de atuar como agente norteador de rumos para as gerações futuras e. Novos jeitos de ser.132 “Eu descobri que gemer alivia a dor. fica marcada em depoimentos que expressam a consciência da responsabilidade com o futuro. nesse processo.” (03/15) A percepção de si mesmos como protagonistas na construção da história social.” (01/11) “Se você está precisando do médico.” (03/12) Outra questão que fica patente. Eu também vou morrer rápido. . No bojo desses sentimentos. é a noção de que esse processo de reformulação pessoal tem a ver com as demandas da paternidade. De um modo geral.” (01/06) “(as pessoas). eu quero viver. referindo-se à consciência da necessidade da prevenção. “Tô começando a ficar preocupado porque a minha história é uma história muito triste. tentar garantir escolhas mais saudáveis que as experimentadas no decorrer da vida..

mostrando não só com prospecto. também fica clara a percepção de que há algo a ser revisto no terreno das políticas públicas.” (02/71) “Eu não acreditava na prevenção e hoje essa palavra prevenção pra mim é tudo. nossa primeira escola é dentro de casa. folder. material.” (03/20) . tirar um pouco desse preconceito. Um exemplo disso é encontrado nas falas que questionam a eficácia de algumas campanhas.” (03/79) Ao mesmo tempo.... o fulano tá lá fudido mesmo. desse medo de se tratar. Porque. cartilha. na medida em que vários depoimentos levantam sérias questões sobre a forma como as coisas são conduzidas nessa área. claro. Sempre a gente vê muita coisa sobre a saúde da mulher.. por que tu não se cuidou?” (01/04) “Fazendo manifestações. a gente podia abranger esses temas e trabalhar com a comunidade também. se a gente for ver bem. na infância. uma conseqüência dessa cultura machista. mostrar um pouco da saúde do homem. nós temos muito pouca coisa sobre a saúde do homem.133 “Que testemunho você vai dar pra esse jovem? Se o cara daqui a pouco fala. na associação mesmo reunir os líderes comunitários.. o primeiro estudo. na verdade. mostrando com slides.. e em outras que alertam para a necessidade de campanhas adequadas.. né. nos grupos . só podem estar mal informadas e estarem se contaminando com doenças sexualmente transmissíveis e com o vírus da AIDS.. vai tudo mudar..” (01/06) “Prevenção é a solução em tudo. que é como a política de saúde pensa essa saúde preventiva do homem. “Se nossa cabeça começar a mudar. hoje pessoas mal informadas. no trabalho.. na saúde. na violência.. os moradores mesmo e passar isso pra eles .

” (03/90 -91) Num possível reflexo da metodologia empregada no processo de intervenção que caracterizou o PHSVC. como é que você vai prevenir um monte de ignóbil.” (03/21) . socio-educativa. a gente pensa a informação como uma coisa mágica – AIDS prova que não é assim. educativa. como que a gente vai trabalhar isso? Pra que essa informação ela faça sentido em você. Eu achei super bacana. também.. “Enquanto houver a falta de cultura e a desinformação não vai haver prevenção. conforme proposto pela Pedagogia de Paulo Freire.. “Se você tem uma campanha. várias falas dão conta que a questão da saúde do homem tem a ver. com o fato de que ainda existe muita desinformação comprometendo o processo. . não tem como. gente tem que encontrar novos mecanismos. “Porque quando a gente fala da informação. conduzida pra população.. também. Por isso que o ministério da saúde tem que mudar a forma de fazer as campanhas. do que simplesmente com a quantidade. tem retorno. com a qualidade da informação. quem viu aí? O Nuno Leal Maia falando sobre o câncer na próstata?” (03/17) Paralelamente.134 “Teria que haver uma campanha. e a valorização de práticas educativas dialógicas e horizontais... um esclarecimento. e que é necessária a formulação de medidas efetivas nesse sentido.. de pessoas ignorantes. também. obviamente. A grande questão é como fazer que essa informação realmente atinja aquele menino dentro dos desejos dele.” (03/89) Parece que o questionamento tem a ver. podemos perceber a crítica à educação “bancária”. maciça.

135 “Deveria ter uma divulgação por parte das coordenadorias explicando... a televisão mostra um mundo feminista, você vê que o mundo machista acabou, agora é só o mundo feminista.” (02/67) A questão da qualidade também é questionada quando em um depoimento, é

referência ao contexto da escola e da mídia. Em

explicitada a preocupação com a influência da mídia, descrita como negativa para o processo de formação sexual das crianças. A escola é vista como uma instituição que necessita ser reavaliada em sua base. Nesse contexto, há sugestões explicitas de inserção do debate sobre a questão de gênero no currículo escolar, objetivando a melhoria da qualidade das relações. “A medida que a gente leve essa reflexão do gênero masculino pra dentro a escola, por exemplo, que eu acho que é um espaço hoje muito forte de se fincar valores e contra valores, que a família não é mais tanto, como ela era há 40 anos.” (03/87) “Um conjunto de relações que influencia muito mais que a família muitas vezes, eu acho que a escola ainda é um espaço especial, eu acho que essa necessidade de refletir o gênero masculino na educação, desde a educação infantil ela é fundamental. (03/87) “Eu acho que é mudando o estilo, o estilo de vida, as educações primárias...” (03/87) Denotando uma consciência crítica sobre a sociedade capitalista, o discurso sobre a mídia, de um modo geral, apresenta-a comprometida com a difusão do consumo, descrita como elemento deformador dos valores da família, sendo um elemento negativo à formação sexualidade saudável entre as crianças. de uma

136 “A mesma televisão que fala com droga, sem droga, coloca um comprimido lá dizendo que aquele comprimido tomou doril a dor de cabeça sumiu!” (03/81) “Hoje essas crianças não tem mais essas regras, e além de não ter essas regras tem todos esses veículos de comunicação que, com essas músicas que falam: ‘bota na boca, bota na bunda, bota onde quiser’, estão influenciando de uma forma totalmente negativa, sexualmente falando.” (01/51 A experiência nos grupos de reflexão de Gênero demonstrou que, na medida em que esses desafios são encarados, propiciam transformações significativas tanto na dimensão do pessoal como na do coletivo, na medida em que estes homens descobrem que podem se beneficiar do espaço dos grupos para aprender a lidar com as insatisfações e inseguranças diante dos papéis de gênero socialmente impostos. “Eu me recuso a acreditar que essa possibilidade, a descoberta dessa reunião de homens, não tenha surtido um efeito positivo na vida das pessoas. Porque é notório que tem muita gente procurando uma situação dessas. Eu gostaria até de perguntar onde vocês estavam que não apareceram há mais tempo? É legal você [ver que uma] coisa que você achava que era só tua, e [encontrar], numa reunião homens que têm problemas igual eu tenho, igual qualquer um tem, e discutir essa questão.” (Lopes et al, 2001: p. 129)

Esta

vivência

é

relatada

como

altamente

gratificante

e

transformadora. Fica evidente o reconhecimento do grupo como um espaço de troca de informações e práticas de saúde que promove a “conscientização”, na medida em que essas atividades permitem a ampliação da consciência associada ao proce sso reflexivo grupal.

137

“Hoje tá sendo muito importante estar fazendo parte de um grupo de homens que fala da prevenção de saúde com homens, hoje eu tenho mais cuidado com a minha saúde.” (01/06) “Nós homens hoje, que temos toda essa informação, todo um lance cultural...por isso que é bom reuniões iguais a essa.” (01/08) “Tem um grupo de homens aí, que quer falar sobre a saúde do homem e falar também sobre doenças e tratamentos... é uma coisa importantíssima.” (02/71) “Um homem, que a gente vai se entender com ele, vai se abrir com ele, vai poder chegar pra ele: ó, eu estou assim, assim e assim.” (02/70)

Vários deles afirmam terem obtido mais informações, realizado novas descobertas sobre si mesmos, sobre sua sexualidade, sua saúde, a constataçã o de sua inserção como sujeito dentro de um contexto mais amplo. Falam de como se perceberam transformados a partir dessa experiência, e também do efeito dessas mudanças em seu modo de ver o mundo, e nas pessoas de suas relações. Fica patente que o mencionado processo de conscientização se dá a partir da percepção do particular, ampliando-se em direção ao mais geral, ou seja, a coletividade, ao sistema social como um todo. A partir da ação de cada um deles, essa consciência tende a ser multiplicada. “Muita gente cara, tudo amigos meus , compadre, sobrinhos, tenho um sobrinho que tá praticamente louco por causa de droga, ele espanca a mulher.... só a minha mudança já mexeu um pouco com ele, já mexeu bastante com ele, já deu um baque nele legal.” (02/74)

” (03/18) “Se a gente se dispor a ouvir outros homens. Nós! foi o que ele falou. nós estamos começando a virar as exceções! Nós estamos começando a ser as vias de regra. mas também coletivamente. praticamente. .138 “Houve uma mudança assim de ser homem.” (03/92) “Os grupo de homens. criar identidade. enquanto homens.. na íntegra com a coisa saudável mesmo. identificações que nos estimulam a seguir. pode acarretar.. saúde.” (01/13) “Esse tipo de encontro é muito saudável.. nas escolas.. e seus padrões de comportamento social. “Mas nós somos. ele é um caminho pra você levar mais a sério essa reflexão sobre o gênero masculino. inclusive pra práticas profissionais. seja no posto de saúde. Tá se tornando algo novo. depois da minha entrada no [grupo] Consciência Masculina. depois de ter um filho. não de homem pra homem. Mais que isso.é fundamental que a gente cresça enquanto indivíduo.. a consciência do potencial de transformação social que esse tipo de iniciativa.. pioneiros no que tange a perspectiva de homens se dispondo à grupalização para colocar em cheque suas vidas.” (01/34) Interessante constatar a percepção que estes homens têm de estarem sendo..” (03/87) Contrariamente aos efeitos benéficos e transformadores . levar isso pra outros espaços.. em que o diálogo é privilegiado. educação.. na comunidade... na academia. acho que vai facilitar mais tarde um diálogo e a gente vai ter vários espaços pra dialogar. o que cada um pensa sobre as coisa que permeiam o nosso cotidiano. é muito comum falar de machismo de mulher pra homem. eu vim entender um pouco mais da sexualidade masculina como homem.

a visão de que a saúde da mulher parece estar em primeiro plano no âmbito dos Programas Oficiais de Saúde..” (01/16) Em um número significativo de depoimentos.” (02/67) “Tem que ter ali um planejamento pra tanto nós confiarmos no médico. eu acho que o preconceito já vem daí mesmo. pela grupalização. “O governo também devia trabalhar mais nessa parte. permeia os discursos constantemente.. aumenta a sua pressão arterial. pelo “Quando a gente tem uma coisa dentro da gente. pra passar isso pra comunidade. ter uma segurança.” (02/68) Algumas falas apontam para uma nova postura masculina em que pode se vislumbrar um certo reconhecimento da responsabilidade no processo reprodutivo. ter um apoio.. dor de cabeça. um depoimento descreve a perspectiva de somatização potencializada pelo ‘encouraçamento’. aquilo te dá uma úlcera. tem que ter um médico ali pra atender os homens e um médico pra atender as mulheres.139 desencadeados ‘não-dito’.. “Tenho usado sempre.e não tem a sensibilidade de colocar pra fora . Como já percebido em momentos anteriores. Ele faz a prevenção da mulher .. destaca-se a consciência da responsabilidade do G overno em relação à questão da saúde do homem.. que ela tá com uma . a camisinha. Pra evitar até. agora. dela tomar o remédio.” (02/01) “Parece que eles tem mais preocupação com a mulher do que com a gente.

. de repente. tá se tratando. que gera as condições para manutençlão da desordem nos ambientes que deveriam funcionar como sistemas de reabilitação da pessoa humana. evidencia-se a consciência de que essa transformação é possível quando caracterizada enquanto ação refletida coletivamente.veio dois.140 inflamaçãozinha. Também fica clara a consciência da necessidade de formulação de políticas públicas que dêem conta dessas questões de forma efetiva. os presídios tornam-se. né?” (02/20) Chama a atenção o fato de alguns depoimentos serem incisivos quanto ao potencial para “colocar ação” no seu desejo de transformar as coisas em seu entorno. cada vez mais. espaços de fomento ao crime organizado. a resposta que nós dermos ao [Centro Municipal de Saúde] Valdir Franco.(risos).” (01/07) “Uma sigla que saiu dentro de um presídio.. que está massacrando.. “Porque. b) Visão dos Serviços de Saúde . a gente tem que inverter isso mesmo. Nesse ponto. que passaremos a descrever a seguir. como salienta nosso depoente em fala anterior. Mas.. de uma facção. tão potencializando aquela questão de uma forma tão perigosa como todas as outras e não dão visibilidade pra questões como essa. Ao contrário. eu ia na hora tirava fora. Acabou vindo. sob os auspícios das próprias autoridades. há um tempo atrás. ela tá tendo uma visibilidade tão grande. (03/91) Fica evidenciada uma consciência crítica sobre a sociedade. Essa visão questionadora fica bem marcada com relação aos serviços de saúde. pode acabar desencadeando toda uma resposta nos outros postos.

aquilo ali também é meu. que parecem passar a imagem de estarem fazendo um “favor”.. procura isso aí e nem olha pra tua cara. não me sinto dentro.” (01/06) “Literalmente não me sinto bem dentro de um posto de saúde. pra segurar o filho pra. parece que é um lugar pra crianças. eu acho que o tratamento é que devia ser mais trabalhado. tem que ser tratado com um pouco mais de dignidade.141 A visão que os homens tem dos serviços de saúde oficiais é permeada por sentimentos de inadequação.. um homem ali só tem que estar ali pra trabalhar ou fazer alguma outra coisa. fazendo parte daquilo ali. parece que ele vai lá pedir um favor.” (01/11) “Não sabe nada e tá lá. então não tem como você se sentir bem num ambiente desses.. toma. Além de tudo. “O homem chega dentro de um posto de saúde. ao invés de atuarem como fatores geradores de conforto e .” (01/09) Muitas falas atestam a dificuldade de sentirem-se à vontade para recorrer a esses serviços.parece que o espaço de saúde não parece que tem um perfil pra homem. “Me sinto um marciano dentro de um posto de saúde. pra mulheres e pra senhores.. a despeito de tratar-se de um serviço público. alguns depoimentos expressam a opinião de que os serviços públicos de saúde. mas não pra ser atendido.” (01/11-12) Essa imagem é refletida também nas queixas que referem-se a um possível “descompromisso” com a clientela carente.

seja pro homem. após um longo período em que a saúde do município vinha se tornado visivelmente caótica. medo nos “A estrutura hospitalar ela gera um medo. A pessoa até quer.porra. convivemos com as principais manchetes locais.. ter acesso à saúde mas existe dificuldade. mas que parece se acentuar nas regiões do interior do país. que abordam justamente este fato. o gestor. . né.. para sua promoção. numa emergência então. que é aquele que deveria dar acesso. ele é assustador. e onde assistimos o processo de intervenção Federal nos principais hospitais do Rio de Janeiro.. seja pra mulhe r.142 confiança. posto de saúde. são percebidos como elementos que geram potenciais usuários.” (03/17) No momento em que estas linhas são traçadas (março/2005). seja pra criança. proteção e recuperação. comprovando a procedência do que foi dito acima pelo depoente.. o Estado que está capenga.” “E garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem o risco de doenças e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços. Aí o cara entra em pânico. “Qualquer espaço de hospital. Uma temeridade no ser humano.” (03/25) Alguns depoimentos denotam a consciência da desigualdade de recursos. O cara bota o pé no hospital. já visível nos grande centros.

que nós podemos melhorar a nossa qualidade de vida e dos outros homens. pra até mudar esse lance. a clareza da necessidade de nos organizarmos de verdade. apesar de tudo isso que nós falamos aqui. mas no país tem que ter uma visibilidade mais séria porque é dinheiro. ter a consciência de querer um mundo melhor pra você ter o poder interno transformador e influenciar as políticas públicas.. de classe. “Tem que ser nós aqui botando ação. visto que devem ser voltadas para a melhoria da qualidade de vida de cada cidadão. Essas almejadas transformações implicam numa atuação séria. né. a valorização de um consciência mais ampla. é uma necessidade hoje. mas de toda aquela população ao acesso a saúde.143 “Ele falou lá da dificuldade que às vezes o homem tem no interior.” (03/23) “Esse trabalho de divulgação dentro da prevenção não só no Rio de Janeiro. e devem levar em conta os interesses da maioria. nos grandes centros. e a gente tá entendendo.. Observa-se também. começar a ter campanhas. ainda há o acesso!” (03/24) “Existe uma grande dificuldade não só do homem. do nosso ministério que tá saindo e saindo de forma errônea. cada vez mais. na parte regional. nas grandes cidades. nós estamos entrando em políticas públicas.” (02/26) Vários depoimentos reforçam a percepção da necessidade de construção de uma consciência coletiva. pelo menos é o meu entendimento... e de que o grupo pode promover mudanças no âmbito das políticas políticas a partir de sua atuação. né? Porque na parte desenvolvida do país..” (03/80) .” (03/83) “Começar a identificar essas questões e produzir material educativo sobre isso.... honesta e comprometida por parte dos órgãos públicos.

e de que esse processo se dá justamente por conta da maternidade. eu olhava e a grande maioria lá eram de mulheres. parece haver a clareza que não se trata de um quadro estanque. visto que a transformação é percebida como possível. ajudar. por uma única empresa de marketing. eu acho que um grande barato dessas ações é quando começa a ter impacto na política .” (03/81) “Esses nossos pensamentos. falava. (03/22) “o filho. em livros. vai à mídia mal feita. por causa da questão da criança!” “Fui várias vezes com o meu. dar apoio. jornais. e compreendida como fruto de uma ação coletiva. é uma experiência muito significativa. revistas. “Os postos de saúde sendo caracterizados cada vez mais pra atender os homens porque é um consenso do [grupo] Consciência masculina que a característica pode ser adequada pro homem se sentir mais à vontade. no caso do [grupo] Pela Vida. porque ela pode conduzir. que impressionam o público. uma coisa que nós representantes de todos os grupos podemos fazer é em qualquer segmento a gente pode pedir a nossa palavra. é porque o cara tá no trabalho”. e quando eu chegava lá. né. novamente confirmamos o sentimento genérico de que a Saúde Pública é dirigida para mulher. fazer leis. sempre a mesma mesmice.” (03/23) Contudo. que vai fazer ela se aproximar de lá. né. no posto de saúde. E aí. não deixar essas campanhas que a gente julga caótica.144 Aqui. é a mulher. “não. levar o meu filho.” (03/80) “Eu acho que essa experiência daqui. “A mulher tem um contato maior com a rede de saúde.

o herói que tem que ser forte. descrevem o homem como o Super-homem... Homens em Movimento Em conformidade com o que é encontrado na literatura correlata. Conclusões Aqui vão ser agrupados os dados identificados como os mais pertinentes aos objetivos propostos por esta pesquisa. se estendendo para o espaço do grupo e apontando para questionamentos que se remetem à perpectiva de participação. surgem muitos questionamentos acerca da validade dessas ideologias para garantir uma vida relacional e social de . em especial a saúde do homem. Essas ideologias ainda aparecem naturalizadas no discurso da maioria dos entrevistados. perpassando questões ligadas ao próprio corpo. pudemos observar que são relevantes os dados coletados a partir da vivência de grupalização. desde o individual. pudemos constatar que a grande maioria das falas que apresentam identidade com o padrão hegemônico de masculinidade. Paralelamente. na elaboração de políticas públicas. seja para descrever situações de nível pessoal. como para comunicar o relato de experiências de outros homens. e que consegue tudo o que quer a través da utilização da força bruta.” (03/17) Em suma. como atores.. como tá sendo pensada. num esforço de síntese que aponte para propostas concretas em práticas de educação para a saúde. 6.145 pública e nessa política de saúde. São inúmeras as referências que indicam um efetivo processo de conscientização nos diversos níveis.

passe a encarar o mundo com mais “sensibilidade”. Associado a isso. e a seu modo. Percebe-se ainda. No bojo dessas considerações. tendo consolidado um espaço onde esses homens afirmam se sentirem seguros para serem eles mesmos. encontramos muitos depoimentos que expressam o desejo confesso de se reunir com outros homens para realizar trocas de experiências de vida.146 qualidade. junto a um número de homens cada vez maior. Muitos fazem questão de ressaltar o desejo de promover mudanças. mas como um processo coletivo e político visando transformações sociais mais amplas. o entendimento de que esta consciência pode ser fortalecida através da multiplicação dessa vivência de grupalização. entendendo que as mudanças podem ser viabilizadas com a participação de cada um. Diferentemente do padrão homofóbico e de auto-suficiência atribuído ao “homem de verdade. aparecem muitos discursos em torno do processo de construção de um ‘novo homem’. a experiência de participação no grupo reflexivo é descrita como muito gratificante. se dispõem a falar livremente de si. como a que eles fizeram parte. Muitas falas denotam resistências diante da manutenção de padrões que comprometem não só as relações destes homens com o mundo. . a partir do exercício reflexivo da razão. Um homem que. e questionar seus próprios valores enquanto frutos de uma construção social que lhes foi imposta. observa-se uma enfática valorização do processo reflexivo. Nesse processo. mas também tendem a comprometer seriamente sua saúde. expressar sentimentos. Assim.

ter filhos garantiria a envolvimento emocional pelos participantes. afirmação social da sua identidade sexual. como pode ser observado. chama a atenção também ser percebida. no âmbito da sexo-afetividade. com muita freqüência. Nesse sentido. e para a obtenção de uma vida relacional de qualidade. de um modo geral. Contudo. Como nasce o pai da criança No que se refere à Paternidade. argumentações que questionam o sistema monogâmico. o tema é debatido com grande o fato dela como um modo de afirmação da masculinidade. por alguns homens. encontramos indícios de que alguns homens estão considerando importante a valorização do diálogo e do afeto para a manutenção satisfatória de seus relacionamentos. a perspectiva do “não envolvimento” amoroso.147 Prazer. tal como vivenciado em suas histórias de vida. Essas diferenças tendem a ser naturalizadas. encontramos falas que declaram a percepção da mulher enquanto um complemento. Vale salientar . se vale dos estereótipos de gênero. onde detectamos o padrão de desvalorização da mulher como algo normal/natural e onde figuram. eu sou homem! A afirmação da identidade masculina no padrão hegemônico. sendo que vários deles fazem questão de expressar o desejo de des-identificação com o modelo paterno. Estes tem a finalidade de reforçar as diferenças entre homens e mulheres em todas as instâncias da vida social. Diferentemente do padrão de desvalorização feminina identificado anteriormente. Assim.

diz respeito ao conceito de Paternidade Social descrito nas falas de diversos participantes. "No passado. há mostras de que essa relação pode ser refletida e modificada no processo. amizade. "Não sei quem falou: filhos. No entanto. 64). o que implica em ser mais sensível aos interesses do outro. companheirismo. denotando a consciência de que o pai apresenta o mundo ao filho. diálogo. eu me achava diferente. ou a filha. pela sensibilidade. especialmente quanto às questões que permeiam o terreno da sexualidade. [mas é] mais fácil pra mim agora". Ainda que esse outro seja o filho. caga. como sabê-lo? Grita. Um dado peculiarmente interessante.148 que a maioria dos entrevistados fala de uma experiência concreta de paternidade. parece que "ser sensível" começa a tornar-se um atributo de significativa importância. o sofrimento de ser homem é que nunca podia ter sentimento. descrevendo uma relação de cumplicidade. que bom ter filho. Segundo . mas pô. e essa noção vem sendo gradativamente incorporada aos modelos de masculinidade emergentes. Hoje vejo que isso ainda continua. Diferentemente do distanciamento proposto pelo modo de paternidade hegemônico. estes homens traduzem suas experiências como pais. p. as pessoas me tratavam diferente. 2001. Em suma. respeito. já que a maior parte tem filhos. chora. e fazendo questão de ressaltar seu comprometimento e sua responsabilidade pessoal com o futuro. a relação ainda tende a configurar-se a partir de uma série de fatores complicadores." ( Lopes et al. No caso da filha mulher. para que tê -los? Se não temos. Muitas vezes.

conforme caracterizada nos depoimentos. associada aos problemas materiais agravados pelo fantasma do desemprego. e principalmente da falta dele. Os conflitos e desajustamentos ficam bastante evidenciados diante da perspectiva do desemprego. De acordo com as narrativas. Além da questão da violência doméstica. importância do planejamento familiar e da participação masculina no momento da decisão de ter ou não um filho. contrariando os preceitos da masculinidade hegemônica.149 estes. alguns discursos trazem uma acentuada consciência masculina acerca da importância do cuidar. a ponto de terem preocupações filiais semelhantes às que envolvem seus filhos legítimos. um homem não tem honra” (Gonzaguinha) A questão do Trabalho. fica patente a responsabilidade de ‘imagens positivas’ do masculino. coloca em cheque o papel do provedor. Nesse processo de assumir a função de ‘Pais Sociais’. parece não haver grande diferenciação entre a paternidade biológica e a paternidade social. estes homens se sentem realmente sensibilizados com as histórias de vida dos jovens que acompanham em seu trabalho. Nessa mesma toada. percebe-se o desejo de comprometimento homens. sendo ambas perspectivas reportadas co mo provedoras de satisfação e prazer. com questões historicamente ignoradas onde pelos ‘cuidar’ é atributo como a feminino. muitos conflitos acabam se . corresponderem à “Sem o seu trabalho. A Paternidade Social. Contrariamente. se configura nas relações estabelecidas com os jovens com quem trabalham nas comunidades em que atuam como agentes sociais. num primeiro momento.

Os brutos também amam! Ainda no que diz respeito à nova condição masculina. diante da . que incluem não só a crise econômica e seus reflexos sobre a so ciedade. o trabalho aparece identificado como fonte permanente de tensão e de adoecimento. algumas falas dão indícios de onde se pode-se encontrar explicações para a questão da violência de gênero. Saúde é o que interessa! No terreno especifico da saúde. em muitos momentos. foi possível comprovar a prevalência de um padrão em conformidade com o que é descrito na literatura que aborda a masculinidade. o homem tende a se sentir extremamente diminuído. pois se percebe impotente diante da realidade que o impede de exercer seu papel de provedor. Mas é clara a percepção do fator cultural como um aspecto importante.150 agravando quando a mulher recebe uma remuneração mais alta. Da mesma forma. Quando isso ocorre. seja pela necessidade de corresponder ao estereotipo do homem que não falha nunca. destituída do papel do provedor. mas também a crítica ao modelo penitenciário adotado no país. seja por não corresponder às expectativas de realização pessoal do indivíduo. e concluir que. Existe a percepção do envolvimento de questões maiores. nem mesmo frente à doença. passível de transformação.

não é de estranhar que algumas falas denunciem o trabalho identificado como fonte permanente de tensão e de adoecimento. muitos homens colocam-se em posição extremamente vulnerável frente à perspectiva do adoecimento. Assim. A mulher cuida e o homem. também está ligada a essa questão.151 necessidade de atender ao padrão de gênero socialmente imposto. Nesse padrão. Fica patente uma certa dependência do cuidado feminino em relação à saúde em muitos depoimentos. visto que o adoecimento masculino compromete as expectativas sociais. Não cuidado com a de garantir “estabilidade”. a tendência é que os homens raro. o trabalho costuma preceder o necessidade de “ser responsável” e se envolvam nas saúde. Parece que a questão do “cuidar” ainda é compreendida como um atributo feminino. A a chamada atividades laborais sem levar em conta os próprios limites físicos. é cuidado. no caso. São inúmeras as colocações que fazem alusão ao fato de que o homem só procura o médico quando está realmente mal. Este aspecto tem grande peso no sistema capitalista. e vários deles sinalizam que essa questão está diretamente relacionada com o processo de socialização das atribuições de gênero no modelo tradicional. Várias falas endossam a ideologia de gênero na qual o homem é socializado como sendo naturalmente nascido para o trabalho. porque demarca socialmente sua condição de homem. ao mesmo tempo em que necessita administrar a pressão para se manter na ativa. . especialmente em relação ao trabalho. do qual deve se orgulhar.

é quase que imediato o resgate da experiência com as figuras parentais.152 Por outro lado. que tendem a redundar na prática da auto-medicação. Em verdade. associada à confessa inadequação ao atendimento feminino no serviços de saúde. e aos curandeiros. Constata-se que esse padrão acaba contribuindo sobremaneira para comprometer a saúde do homem. é a figura paterna. No processo de reflexão sobre a construção social de suas identidades masculinas. enquanto homens. e à ‘desinformação’ generalizada surgem como fatores considerados agravantes. a visão que predomina é a de que a saúde é uma preocupação da mulher. A falta de costume de buscar ajuda. onde recorrem ao auxílio dos balcões de farmácia. especialmente quando fortemente identificada com os valores da cultura masculina. parece tratar-se mais de uma questão de sobrevivência do grupo familiar do que qualquer outra coisa. Nesse processo. os que tem a ver com a homofobia. os tabus da sexualidade masculina adquirem um significado de grande relevância para os estudos sobre a saúde do homem e. em especial. Questão que aparece com intensa regularidade nas falas. e o reconhecimento das influências negativas das ideologias hegemônicas transmitidas geracionalmente à sua qualidade de vida. alguns depoimentos acusam o entendimento desse processo como se fosse o de uma estratégia de troca. que desencadeia mais questionamentos e resistências à manutenção de padrões hegemônicos. o que parece estar relacionado ao fato de . a partir daí. De um modo geral. onde o cuidado recebido parece possuir estreita relação com a perspectiva de otimização de seu desempenho enquanto provedor.

e si de responsáveis por si mesmos e pela qualidade de suas vidas. Em contrapartida. Diante desse contexto. a partir da educação básica. fica patente a consciência da importância da prevenção. por conta disso. com ênfase na programação televisiva. e nos moldes com hoje se apresenta. e. Nesse processo. inclusive numa escala coletiva. pode-se observar discursos que privilegiam a responsabilidade pessoal que cada um tem consigo mesmo. surgem declarações sobre a import ância de campanhas educativas em saúde adequadas. são severamente criticadas. numa dinâmica onde não se colocam na posição de vítima. onde a qualidade da escola. em que prevalece a visão estereotipada da mulher como procriadora. O mesmo ocorre em relação aos meios de comunicação. e com seu corpo. encontramos muitas falas que remetem à emergência de novos valores masculinos em relação ao trato com a saúde. padrão este que é reproduzido pelos serviços de saúde. acaba se envolvendo com toda uma estrutura de saúde muito antes do nascimento da criança. Observa-se aqui naturalização dos papéis de gênero socialmente atribuídos. São falas onde se identifica a consciência da necessidade de auto-superação. sendo que há a percepção de que isso só é possível com a . que tenham eficácia junto à população. avaliada como sendo de influência danosa ao desenvolvimento psicosexual das crianças. prosseguindo em seguida no acompanhamento da saúde do filho. uma vez que informação é compreendida como vital para a melhoria dos padrões de saúde da população como um todo. Neste sentido.153 que a mulher pode gerar filhos. A desinformação aparece identificada como um fator preocupante. levando em conta a responsabilidade com os filhos e com o futuro destes.

refletida como uma questão masculina. de um modo geral. muitas falas ressaltam o potencial que cada um tem para promover mudanças no sentido de ampliar um consciência coletiva a esse respeito. surge o reconhecimento do grupo como espaço de troca de informações e práticas no campo da saúde. mas de que também existe a necessidade de uma atenção maior às especificidades inerentes ao gênero masculino. Nesse ponto. como um todo. fica clara a consciência da responsabilidade do Governo com a saúde dos cidadãos. Dentre estas. .154 utilização de uma linguagem que fale de perto às pessoas. destaca-sea questão da violência. para implementar a participação masculina no quadro dos usuários dos serviços públicos de saúde. da qual o homem se percebe excluído. O atendimento é percebido como se fosse ‘favor’. Frente à consciência da desigualdade de recursos identificada nos serviços. No que diz respeito à visão masculina sobre os Serviços de Saúde. prevalece o sentimento de inadequação. dado o descompromisso detectado pelos informantes nas atitudes de muitos profissionais da saúde. e a saúde reprodutiva. o que aponta como indi cativo de estratégias de ação que pode ser adotado em Programas de Saúde Coletiva. onde não se sentem a vontade com o perfil ‘feminilizado’ dos postos. Paralelamente à esta constatação.

e sua interface com os padrões de cuidado adotados frente ao processo saúde/doença no cotidiano. em nossas avaliações. descrever sua experiência com base na introjeção dos preceitos de uma formação social tradicional opressiva e profundamente arraigada. ficam visíveis as ambigüidades traduzidas no modo como esses homens resistem ou se acomodam às pressões das ideologias dominantes. o trabalho e a violência. Ficou patente. masculino e feminino. Assim. em relação aos papéis socialmente atribuídos ao homem nas relações cotidianas. foi alcançado de maneira satisfatória. um homem pode. em um determinado momento. São comportamentos que permeiam os grande temas da masculinidade. que são a sexo-afetividade. Sendo um processo. que os hábitos e costumes associados ao modo tradicional de ser homem podem comprometer a saúde do homem seriamente. a paternidade. . Considerações Finais Consideramos que nosso propósito de analisar as ideologias de gênero masculino entre homens participantes de Grupos de Reflexão de Gênero. marcados pelas ambigüidades que permeiam a dialética dos processos de acomodação e resistência das ideologias de gênero. seu de sconforto com o estabelecido. Atentando para as ambigüidades presentes nas falas dos homens participantes dos GRGs.155 7. esse mesmo homem pode estar expressando sua perplexidade diante do novo. Num outro momento. pudemos constatar a convivência do novo e do antigo. e sua identificação com a luta por um mundo onde as relações humanas sejam mais igualitárias e mais justas.

em que ao homem cabe a tarefa de garantir um desempenho e disponibilidade constantes. isto levando-se em conta o contexto social vivido atualmente nas comunidades periféricas . acreditamos que a questão é merecedora de uma maior atenção por parte daqueles que são responsáveis pela elaboração de políticas públicas de saúde. parece ficar claro o desejo anunciado de uma inserção no fundamental importância na vida dos participantes. e os prejuízos que tais comportamentos podem acarretar. Os tabus. Identificada com o modelo de dominação e descontrole. de ser masculino na contemporaneidade. especialmente no que diz respeito à contracepção e à prevenção de DST/AIDS. Outra temática espaço do privado. constituem-se em pontos nevrálgicos para a compreensão do padrão de alheamento por parte dos homens em relação à própria saúde. especialmente os ligados à esfera da sexualidade. As falas denotam que essa questão é de representa um subsídio para a reflexão sobre a possibilidade de expressão das diversas formas Neste ponto. As que questões referentes com às escolhas valores sexuais diferenciadas arraigados da aparecem como tema sempre presente e perturbador. na medida em conflita diretamente bastante masculinidade hegemônica. Frente à gravidade da questão. marcante refere -se à questão da paternidade. sendo fonte de grande alegrias. a sexualidade masculina é um fator que tende a ser fonte de risco para a saúde reprodutiva e sexual. Ao mesmo tempo.156 A Sexualidade é uma temática recorrente e de forte apelo para os participantes. mas também de preocupações.

Sendo verdadeira ou não esta percepção. Da mesma forma. com caráter igualitário e universal a todos os cidadãos. atrelada à medicina curativa. já que. é meramente um recurso didático. já que não leva em conta as especificidades da saúde masculina. Fala-se em demonstração de afeto e de “cuidado” com os filhos. Ao mesmo tempo. que diferem em muito do modo de ser pai tradicional. uma vez que esse quadro se caracteriza num grande impedimento para o alcance das metas previstas no Sistema Único de Saúde – SUS. os servi ços são percebidos com estranhamento. de um modo geral. esteve sempre circunscrito ao âmbito do feminino. naturalizadamente. atributo este que. equidade e integralidade ainda estão muito distantes de serem efetivamente incorporados e praticados pelos Serviços Públicos de Saúde. descrédito e desidentificação. percebe-se nas falas o reconhecimento e identificação com novos padrões de paternidade. parecem ter dos serviços de saúde oficiais está longe de ser a ideal. os princípios de universalidade.157 de uma cidade como o Rio de Janeiro. como foi dito antes. Este segue os preceitos de uma medicina preventiva. A perspectiva de classificar os homens. afastam o homem do cuidado com a saúde. até então. esses homens se mostraram participantes de um . Em outras palavras. A grande maioria parece não se sentir adequado ao formato adotado pelos serviços. no que diz respeito à saúde do homem e da população. como fizemos no exercício acadêmico desta pesquisa. em geral. Além dos padrões que. acreditamos que cabe aí uma investigação mais detalhada sobre esse aspecto. a imagem que os homens. visto como feminilizado.

a influência das ideologias dominantes na cultura machista lhes é fundamentalmente perniciosa. já que não se tem outras respostas para a complexidade que representa a perspectiva de reversão do quadro atual. Parece uma boa aposta a ser considerada. e que demanda novas formas de organização e luta para sua transformação.158 momento de transição. São inúmeras as evidências de que essa prática. Mundo este que se mostra cada vez mais complexo e opressivo para todos. absorvida inicialmente das experiências do Movimento de Mulheres. mulheres e homens. pode realmente conduzir a uma nova realidade em que os homens. atuam efetivamente na transformação do seu mundo. visto os prejuízos acarretados a sua saúde como um todo. que a perspectiva de mudança é . em que ousam testar novos modos de colocarem-se no mundo. É gratificante constatar. melhorando a qualidade de suas vidas. a busca de resposta em grupo parece ser uma boa aposta. Alicerçada numa proposta pedagógica que privilegia o diálogo e o exercício da pergunta. das mulheres e das crianças. e implementada com os conceitos da pedagogia libertadora formulada por Paulo Freire. A fala dos entrevistados atestou o quanto a proposta de formação de grupos reflexivos com homens é pertinente. o que se destaca é a capacidade de se auto avaliarem. e perceberem que. conscientizados. também. Num primeiro momento. no processo de construção de suas identidades de gênero. já que esse tipo de proposta parece atuar como uma contracorrente diante das ideologias que cultuam o individualismo em nossas sociedades atuais.

o que foi perdido na aquisição dela. tenho que procurar entender as duas coisas: o que significa ter uma mente acadêmica – como é que se cria isso – e. “Em determinado momento na minha vida eu pensava em mudar explodindo. Minha trajetória pode ser descrita como milagrosa. Por essa razão. 1996) . recorremos novamente à clareza e discernimento despojado do mestre Bourdier. para poder viver num mundo que não é meu. finalmente. hoje eu penso que o teatro e a dança e reflexões como essa pode dar uma resposta que ecoe bem mais do que uma bomba sendo explodida ali. trata-se de um trabalho para pessoas que têm o mesmo tipo de trajetória e a mesma necessidade de compreender. “Meu problema principal é tentar compreender o que aconteceu comigo.159 encarada pela maioria dos nossos personagens como um caminho que pode. Assim. conduzir à uma dimensão mais próxima do que se compreende por felicidade. embora meu trabalho – todo o meu trabalho – seja uma espécie de autobiografia. a exemplo de como fizemos no início. ao mesmo tempo. acho eu – uma ascensão a um lugar de que não faço parte.” (Bourdieu & Eagleton.” (03/92) Para concluir. e já sem garantia de conseguir expressar os sentimentos em relação a empreita que constituiu este trabalho de pesquisa acadêmica.

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