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ANNE CACIELLE FERREIRA DA SILVA

REPRIMINDO A OCIOSIDADE: LEGISLAÇÃO E CONTROLE SOCIAL NO


PÓS-ABOLIÇÃO

CURITIBA
2009
2

ANNE CACIELLE FERREIRA DA SILVA

REPRIMINDO A OCIOSIDADE: LEGISLAÇÃO E CONTROLE SOCIAL NO


PÓS-ABOLIÇÃO

Monografia apresentada como requisito para a


obtenção do grau de Bacharel em História,
Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes,
Universidade Federal do Paraná.

Orientadora: Professora Doutora Joseli Maria


Nunes Mendonça

CURITIBA
2009
3

Sumário

Introdução.............................................................................................................................1

Trâmites e caminhos do Projeto de Repressão da Ociosidade ........................................3

Capítulo I - A “oportunidade do projeto”

1.1. Os perigos anunciados.....................................................................................................7

1.2. Contexto pós-abolição...................................................................................................12

1.3. A Ociosidade no Código Criminal................................................................................15

Capítulo II - O Projeto e os Debates na Câmara dos Deputados

2.1. As Medidas Propostas no Projeto de Repressão da Ociosidade....................................19

2.2. Quais os fatores que influenciavam a ociosidade? Quem eram os ociosos?................25

2.3. Os exemplos a serem seguidos..................................................................................... 29

Capítulo III – Opiniões divergentes: Outros Projetos

3.1. Ideias discrepantes ........................................................................................................36

3.2 Outros Projetos que visavam reprimir a ociosidade .....................................................44

Considerações finais...........................................................................................................50

Bibliografia..........................................................................................................................53
4

Introdução
A pesquisa proposta neste trabalho visa estudar o processo de constituição do
mercado de trabalho livre no Brasil por meio da investigação dos debates parlamentares
em torno do projeto de repressão da ociosidade, introduzido na Câmara poucos meses
depois da aprovação da lei que aboliu a escravidão. Por meio deste estudo, pretende-se
indagar sobre os métodos de controle que, na perspectiva dos parlamentares que debateram
o projeto, eram vistos como os mais adequados para disciplinar os trabalhadores em um
contexto em que a escravidão não mais existia.
Ao longo da segunda metade do século XIX, a emancipação dos escravos e o
movimento imigratório foram dois processos que, durante várias décadas, forjaram o
trabalhador livre, aquele que trabalharia controlado por métodos distintos daqueles
exercidos no regime de escravidão.
Esse processo, o de forjar o trabalhador livre, não foi pacífico e ensejou uma série
de ações que se intensificaram desde os últimos anos do governo monárquico até os
primeiros do período republicano. De acordo com algumas interpretações, tal projeto já se
desenhava nitidamente desde meados do século XIX, quando a supressão definitiva do
tráfico atlântico de escravos foi acompanhada quase que simultaneamente por leis que
regulamentavam o acesso à propriedade privada e restringiam as possibilidades de maior
autonomia dos trabalhadores, destacando-se a Lei de Terras de 1850. Segundo Martins,
esta lei expressou os interesses combinados de fazendeiros, instituindo garantias legais e
judiciais de continuidade da exploração da força de trabalho, mesmo que o cativeiro
entrasse em colapso. Na iminência de transformações nas condições do regime escravista,
que poderiam comprometer a sujeição do trabalhador, criavam-se condições que
garantissem, ao menos, a sujeição do trabalho. Nesse sentido, o objetivo principal da Lei
de 1850 era, como aponta Martins, vedar ao homem livre a possibilidade de se tornar um
pequeno proprietário; portanto, pode-se afirmar que libertava-se o trabalhador mas o
prendia à terra, através da plena sujeição ao seu contratador. 1
O governo brasileiro coibiu definitivamente o tráfico de escravos em 1850,
extinguindo a fonte de abastecimento regular de mão de obra escrava de que dispunham os
senhores2. Desde então, quando a questão da supressão do trabalho escravo já se colocava
de forma incontornável para os diversos setores da classe dominante, delineou-se uma

1
MARTINS, José de Souza. O cativeiro da terra . 6º ed. São Paulo, Hucitec, 1996, p. 59.
2
CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil (1850-1888). 2ºed. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1978.
5

política clara de condicionar estas transformações a um projeto mais amplo de


continuidade da dominação social dos que tradicionalmente a haviam exercido. Conduzia-
se, assim, um processo de transição que, sem dúvida, implicaria reajustes no interior da
classe dominante, mas que não colocaria em questão o objetivo de garantir a progressiva
expropriação dos trabalhadores. Nesse processo, foi marcante a sucessão de leis que
visavam encaminhar o processo de abolição de forma gradual.
A lei de 1871, chamada comumente de “a áurea lei ”, era considerada uma espécie
de “roteiro” que, tendo estabelecido parâmetros pelos quais o processo de abolição seria
encaminhado, deveria ser rigorosamente seguido para que tal processo respeitasse a própria
ordem legal. Um dos elementos identificados no “espírito da lei”, pelo qual muitos dos
parlamentares clamavam em meados da década de 1880, dizia respeito ao destino dado aos
libertos. 3
A lei nº 3.270, de 28 de setembro de 1885, inserida num conjunto jurídico que
buscava orientar o processo de abolição, não tinha como objetivo único encaminhar a
extinção da escravidão. Ao contrário, essa lei, de forma bastante marcante, procurava
também delimitar e compor as relações sociais na “sociedade livre”, prevendo, inclusive,
formas de controle dos libertos. Estes aspectos são evidenciados nos seguintes disposições
da lei:
Par. 14. É domicílio obrigatório por tempo de cinco anos, contados da data da libertação do liberto
pelo fundo de emancipação, o município onde tiver sido alforriado, exceto o das capitais.
Par. 15. O que se ausentar de seu domicílio será considerado vagabundo e apreendido pela Polícia
para ser empregado em trabalhos públicos ou colônias agrícolas.
Par. 17. Qualquer liberto encontrado sem ocupação será obrigado a empregar-se ou contratar seus
serviços no prazo que lhe for marcado pela Polícia.
Par. 18. Terminado o prazo, sem que o liberto mostre ter cumprido a determinação da Polícia, será
por esta enviado ao Juiz de Órfãos, que o constrangerá a celebrar contrato de locação de serviços,
sob pena de 15 dias de prisão com trabalho e de ser enviado para alguma colônia agrícola no caso de
reincidências.

Obviamente, qualquer projeto de abolição, naquele momento, não poderia deixar de


colocar em evidência questões relativas à liberdade e à organização do trabalho livre, como
bem explicitou Joseli Mendonça.4
Nota-se, portanto, que mesmo antes da lei de 13 de maio de 1888, aquela que
aboliu o cativeiro, os parlamentares já reconheciam que a escravidão era “uma causa
perdida” e reconheciam também a necessidade de medidas de controle que pudessem
transformar uma sociedade que convivera durante mais de três séculos com a escravidão

3
MENDONÇA, Joseli Maria Nunes. Entre a Mão e os Anéis - a lei dos sexagenários e os caminhos
da abolição no Brasil. 1º ed. Campinas, Editora UNICAMP, 1999.
4
Idem, ibidem.
6

em uma sociedade livre. Havia, sobretudo, a percepção da necessidade de se tomarem


todas as precauções para que da sua abolição não decorresse o caos social, estreitamente
vinculado ao comportamento que, avaliava-se, teriam os escravos quando se tornassem
livres.5
Foi neste contexto de busca de mecanismos de organização do mercado de trabalho
e de controle social que, em junho de 1888, portanto pouco tempo depois de promulgada a
lei de extinção da escravidão, que o então ministro da justiça, Ferreira Vianna, apresentou
à Câmara o “ Projeto de Repressão da Ociosidade” – que recebeu o número 33. O projeto,
como veremos, visava reprimir a ociosidade principalmente dos libertos. A ociosidade era
entendida pelo ministro como a principal causadora de crimes na sociedade e os libertos
como aqueles que mais facilmente se entregariam a ela. Este projeto de lei e seu
encaminhamento na Câmara dos Deputados constitui objeto do estudo deste trabalho.

Trâmites e caminhos do Projeto de Repressão da Ociosidade


Antes de iniciarmos propriamente a análise do projeto do ministro Ferreira Vianna
é conveniente que apresentemos resumidamente o percurso e o trâmite que ele teve na
Câmara dos Deputados.
O projeto de lei sobre repressão da ociosidade foi apresentado à Câmara dos
Deputados na sessão de 20 de junho de 1888. Após a primeira leitura, ele foi encaminhado
para a Comissão de Constituição e Legislação para ser avaliado e receber um parecer.6
Na sessão em 10 de julho de 1888, o relator da Comissão de Constituição e
Legislação, fez uma exposição oral do parecer, que foi amplamente favorável ao projeto,
que foi aceito quase que integralmente, tendo a Comissão se limitado a propor pequenas
modificações, que em nada alteraram o pensamento capital que visava controlar os libertos,
manter a ordem social, solucionar o problema da mão-de-obra, e dar educação a infância e
amparo a velhice inválida.7 Ainda no mês de julho foi feita uma interpelação ao Ministro
da Justiça Ferreira Vianna, e nesta sessão, o tema principal discutido pelos parlamentares
foi o “perigo” decorrente da abolição que levou muitos libertos a viverem em completa
ociosidade. Os parlamentares discutiram também possíveis formas de se prevenir a

5
Idem, p. 53.
6
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888.
7
APB-CD. Sessão de 10 de julho de 1888.
7

ociosidade e alguns deputados chegaram a propor o recrutamento dos libertos.8


No mês de agosto, os parlamentares dão continuidade as discussões sobre qual seria
a forma “correta” de se controlar a ociosidade dos libertos. Quem conduziu este debate na
Câmara foi o deputado pela província do Ceará, Ratisbona. 9
Dois meses após a primeira leitura do projeto, o parlamentar Custodio Martins fez o
seguinte requerimento: “requeiro que, pelo Ministro da Justiça, informe o governo quais as
medidas tomadas para impedir a vagabundagem dos libertos, nas margens das estradas de
ferro, tendo sido já alguns mortos e feridos pelas maquinas das locomotivas”.10 Este
requerimento não obteve uma resposta do Ministro da Justiça, no entanto, demonstrou a
preocupação do deputado Custodio Martins com relação as medidas que vinham sendo
tomadas para impedir a “vagabundagem” dos libertos.
Na sessão realizada em 14 de agosto de 1888 entrou em primeira discussão o
projeto na Câmara dos Deputados. Nesta ocasião, o autor do projeto não esteve presente,
pois encontrava-se no Senado. Pediu a palavra o parlamentar Maciel que informou a
todos que o projeto de lei sobre a repressão da ociosidade não poderia ser discutido nos
termos do regimento. De acordo com o parlamentar, o projeto tratava de rendas fiscais, e
era determinação expressa do regimento que naquelas circunstâncias fosse ouvida a
Comissão de Fazenda e de Orçamento”.11 Dita estas palavras, o projeto foi encaminhado
para a avaliação da citada Comissão.
Quatro meses após a primeira leitura do projeto na Câmara dos Deputados, entrou
em primeira discussão o projeto número 33 sobre a repressão da ociosidade.12 Nesta
sessão, o projeto foi avaliado pela Comissão de Fazenda e de Orçamento. Na opinião do
parlamentar pela província do Rio de Janeiro, Rodrigues Peixoto, o projeto de lei
demandaria enormes despesas para o país, despesas estas que o país não tinha condições de
arcar. O parlamentar Rodrigues Peixoto fez ao longo de sua fala, inúmeras objeções ao
projeto apresentado por Ferreira Vianna, tentando demonstrar a todo momento que o
projeto não era viável. No entanto, mesmo com as objeções do deputado Rodrigues
Peixoto, o projeto de lei foi colocado a votos e aceito em primeira discussão.
Na sessão realizada em 11 de outubro de 1888 entrou em segunda discussão o

8
APB-CD. Sessão de 20 de julho de 1888.
9
APB-CD. Sessão de 2 de agosto de 1888.
10
APB-CD. Sessão de 6 de agosto de 1888, p. 24.
11
APB-CD. Sessão de 14 de agosto de 1888, p. 160
12
APB-CD. Sessão de 8 de outubro de 1888.
8

artigo primeiro do projeto.13 No entanto, a discussão foi adiada por conta do horário e teve
continuidade no dia seguinte.14
Ao término do mês de outubro entrou em terceira discussão o projeto15. Nesta
sessão o parlamentar Aristides Spinola combateu com ardor o projeto de lei sobre a
repressão da ociosidade. A discussão foi encerrada por conta do horário e adiada.
Na sessão de 9 de Novembro de 1888 teve continuidade a terceira discussão do
projeto. A sessão teve como orador o deputado Ratisbona, que buscou durante sua fala
mostrar a importância do projeto e as lacunas deixadas por seu autor, principalmente com
relação à mendicidade. A sessão novamente foi adiada por conta do horário.16 Ainda no
mês de novembro foi retomada a terceira discussão do projeto. Um dos deputados que
conduziu as discussões foi o parlamentar Duarte de Azevedo, que propôs algumas
modificações no projeto. A discussão foi adiada por conta da falta de tempo.17
No inicio da sessão realizada em 16 de Novembro de 1888 o presidente da Câmara
dos Deputados deu para o dia a seguinte ordem: “3º discussão do projeto número 33 sobre
repressão da ociosidade”.18 No entanto, tal discussão não aconteceu.
No ano de 1889, Ferreira Vianna foi nomeado pelo Imperador para o cargo de
Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império, 19deixando portanto, o cargo que
ocupava como Ministro da Justiça. No mesmo ano, a Câmara dos Deputados foi dissolvida
pelo Decreto n. 10251 de Junho, e a República instaurada em 15 de Novembro.
Após a dissolução da Câmara dos Deputados e a instauração da República, o
projeto de repressão da ociosidade não foi mais discutido. Então, porque analisar um
projeto que nem sequer foi aprovado?
Por meio do estudo e interpretação do projeto e do debate que ele suscitou na
Câmara dos Deputados, podemos analisar as propostas de controle social que, na
percepção dos parlamentares, eram necessárias após a abolição do cativeiro. Buscamos
também compreender o entendimento que os parlamentares tinham do momento de
transformação que viviam, o que então se definia como “ociosidade” e “vadiação” e as
medidas que propunham para o ordenamento do mercado de trabalho. Portanto, as questões
que orientam este trabalho, referem-se aos mecanismos de controle do trabalhador, em

13
APB-CD. Sessão de 11 de julho de 1888.
14
APB-CD. Sessão de 12 de outubro de 1888.
15
APB-CD. Sessão de 30 de outubro de 1888.
16
APB-CD. Sessão de 9 de novembro de 1888.
17
APB-CD. Sessão de 14 de novembro de 1888.
18
APB-CD. Sessão de 16 de novembro de 1888, p.186
19
APB-CD. Sessão de 2 de maio de 1889.
9

especial o liberto e o imigrante, da forma como eram idealizados e projetados pelos


parlamentares.
10

Capítulo I - A “oportunidade do projeto”

1.1 Os perigos anunciados


De acordo com o Ministro da Justiça Ferreira Vianna havia muito tempo que se
reconhecia a necessidade urgente de reprimir a ociosidade, principalmente nos centros
populosos. Na opinião do Ministro, era necessário que o governo promovesse a instrução
para os ociosos, porque “o que contém o homem não é a cadeia, não é a força; é a
educação moral, são os grandes sentimentos que se lhe plantam n'alma, e esta elevação do
espírito que só pode vir de uma boa educação nacional”.20 Para o autor do projeto de lei
sobre a repressão da ociosidade, não seria a prisão uma solução para os males da
ociosidade e sim uma boa instrução.
A preocupação com o controle dos trabalhadores não escravos, sobretudo dos
libertos, foi constantemente expressa por parlamentares que estiveram envolvidos nos
debates sobre os projetos-de-lei dos quais decorreram as leis emancipacionistas – a lei de
1871 e a de 1885. Quando debatia o projeto do qual resultou a Lei dos Sexagenários, por
exemplo, o deputado Ratisbona dizia que “transformado de repente em homem livre, o
“escravo” não é um trabalhador com quem se possa contar”.21 Para esse e outros
parlamentares, os libertos, por terem vivido em regime de escravidão, apresentavam
“defeitos” que os inabilitavam para a continuidade do trabalho. Eles estavam
“embrutecidos”, “sem preparo”, “sem desenvolvimento moral” e isso tudo se traduzia em
perigo quando se concluía que, com essa gente “ávida de ociosidade”, não se poderia
“contar”. Parece que, para esses parlamentares, a escravidão imprimira no liberto um
defeito em sua “natureza” cuja correção seria, no mínimo, extremamente difícil de se
executar, como salienta Joseli Mendonça.
De acordo com a visão compartilhada de muitos parlamentares, uma vez eliminada
a “disciplina” a que estavam obrigados enquanto escravos, nenhum controle se poderia ter
sobre “toda sorte de excessos” que, por certo, os libertos cometeriam. O liberto, dizia o
deputado Valadares em agosto de 1885, “é por índole preguiçoso, e só forçado sujeita-se a
trabalhar no pesado22 . Assim, seja por um desregramento momentâneo, seja por sua índole
preguiçosa, havia a previsão de que o liberto pautaria a liberdade na desocupação.
Uma outra preocupação dos parlamentares, expressa antes mesmo da abolição do

20
APB-CD. Sessão de 20 de julho de 1888, p.236
21
Ratisbona. Apud: Joseli Maria Nunes. Entre a Mão e os Anéis - a lei dos sexagenários e os
caminhos da abolição no Brasil. 1º ed. Campinas, Editora UNICAMP, 1999, p. 55
22
Valadares. Apud: Joseli Maria Nunes. Entre a Mão e os Anéis..., p.56
11

cativeiro, era o destino que seria dado aos libertos. Os argumentos que fundamentavam a
necessidade de cautela no encaminhamento do processo de abolição ganhavam força e
revestiam-se de humanitarismo quando, além de indicarem a necessidade de proteção
contra os perigos que o liberto poderia representar, indicavam-no como alguém que
precisava de proteção. Por ocasião dos debates sobre o Projeto Dantas e Saraiva, esse
argumento foi amplamente utilizado com relação a um ponto específico, qual seja, a
liberdade dos escravos sexagenários. O argumento demonstrou, então, uma enorme
eficiência, porque, afinal, tratava-se de “velhos” escravos que, além dos “defeitos” que a
escravidão lhes imprimira, teriam, pelos limites da idade, muito mais dificuldades para
suprir sua sobrevivência. O “negro velho liberto”, dizia o deputado Felício dos Santos, “há
de abandonar imediatamente a casa de seu ex-senhor”, lançando-se na mendicidade, “pelo
estímulo dos vícios, o natural impulso para gozar a liberdade inteira, para a
vagabundagem”. 23
Na ótica desses parlamentares, a liberdade representaria uma situação de
desproteção, de desamparo. Para os “velhos escravos”, essa situação era extremamente
calamitosa e os condenava à miséria e à morte. Mas há que se considerar que a liberdade
como sinônimo de desproteção não estava estrita somente aos “velhos escravos”, embora
em relação a eles o argumento pudesse soar muito mais dramático. Qualquer projeto de
abolição que contemplasse a liberdade imediata, sem uma preocupação dos libertos para
vivê-la, sem que fossem devidamente “protegidos”, seria, para eles próprios, perniciosa.
De acordo com Rui Barbosa, o liberto “imbecilizado, aviltado, ou desvairado pelo
cativeiro”, deveria merecer a proteção e a tutela para que aprendesse a viver em liberdade.
Para Rui Barbosa, essa proteção poder-se-ia implementar por meio de medidas
disciplinares ( meios de se educar) que garantissem que a liberdade fosse restituída ao
escravo apenas no seu princípio essencial, qual seja, a propriedade do trabalho.
Ainda de acordo com Rui Barbosa, a “escola” do liberto só poderia fundar-se na
liberdade vigiada e restrita. Essa liberdade não se descaracterizaria como tal porque, para
ele, os libertos teriam assegurados - “minimamente”, ao menos os frutos de sua atividade,
ou seja, receberiam um salário pelo trabalho que realizassem24.
O deputado Cândido de Oliveira, abordando também a questão dos limites da
liberdade, observava:
O liberto adquire o foro de cidadão brasileiro, logo que adquire a sua carta de liberdade; é certo que,

23
Felício dos Santos. Apud: Joseli Maria Nunes. Entre a Mão e os Anéis ..., p.75
24
Rui Barbosa. Apud: Joseli Maria Nunes. Entre a Mão e os Anéis ..., p. 75
12

por conveniência de ordem econômica e social como medidas mesmo de polícia, certas restrições ao
25
uso da liberdade podem ser postas.

Proteger os libertos, na visão dos parlamentares, não significava somente prestar-


lhe cuidados. A proteção significava também guiá-los pelos trilhos do trabalho para que a
liberdade não viesse a fundar a “escravidão do crime e da miséria”, como dizia o deputado
Valadares. Havia que lhe outorgar uma liberdade que o educasse para o trabalho, que o
habilitasse para uma vida em sociedade. Sob esse aspecto, a proteção se traduzia como
forma muito clara de controle e restrição ao uso da liberdade, na forma de medidas
disciplinares que compelissem os libertos ao trabalho e, preferencialmente, aos trabalhos
agrícolas.
A preocupação com a conduta dos libertos não era exclusiva dos deputados da
Assembléia Geral. Também nas províncias estas questões eram tratadas. De acordo com
Magnus Pereira26, nos últimos anos da escravidão, os antigos senhores do Estado do
Paraná constataram que já não contavam com a vigilância solícita que a população exercia
sobre os escravos. Assim, eles acionavam as Câmaras numa tentativa de conseguir, por
meio da repressão legal, aquela cumplicidade que antes era obtida graciosamente.
De acordo com o autor, antes mesmo da emancipação do Estado do Paraná, alguns
códigos de conduta foram produzidos pelo Estado e se constituíram em um instrumento de
peso na administração municipal. As posturas particularizavam, para cada comunidade,
princípios gerais emanados da Constituição Imperial e das leis provinciais. Frequentemente
abordavam aspectos totalmente ignorados por tal legislação. Assim, as posturas são um
excelente indicador da vida cotidiana das cidades paranaenses. Além de questões
administrativas e fiscais, mais imediatamente ligadas à própria constituição do Estado, elas
abordavam os mais variados aspectos que iam dos hábitos alimentares, gestual, formas de
27
lazer à organização do espaço urbano e à estruturação da economia regional.
Logo após a emancipação política do Paraná, assiste-se a uma periódica atualização
dos códigos de posturas dos seus diversos municípios. Nota-se que, se antes, no aspecto
das punições, a legislação municipal do Paraná tendeu a igualar livres e cativos. Ao
contrário, quando se aproxima a lei de 13 de maio de 1888, a legislação municipal começa
a apresentar uma tendência oposta,ou seja, passou a diferenciar nitidamente os livres e os

25
Cândido de Oliveira. Apud: Joseli Maria Nunes. Entre a Mão e os Anéis ..., pp. 77-78
26
PEREIRA, M. R. M. Semendo iras rumo ao progresso: ordenamento jurídico e econômico da
sociedade paranaense, 1829-1889. 1º ed. Curitiba, Editora da UFPR, 1996.
27
Idem, pp. 13-14
13

cativos.
De acordo com Pereira, as posturas municipais procuravam impedir que os escravos
participassem das mais variadas atividades sociais: o comércio, os jogos, a conversa de bar,
as cantorias, etc. Os rigores da lei atingiam ora os escravos, ora os homens livres, em
especial quando estes se encontravam em contato com os cativos. Apesar de tal
diversidade, praticamente todas as posturas referentes aos escravos foram redigidas a partir
de um mesmo princípio unificador: procurava restringi a relativa liberdade que, na prática,
vinham conquistando.
De acordo com o autor, podemos localizar alguns grupos sociais que os vereadores
procuravam reprimir, entre eles estão os libertos, mendigos e salteadores. Na percepção
das classes dominantes locais, todas estas pessoas eram renitentes ou deveriam ser vistas
como perigosas para a sociedade. As referências a elas vinham reiteradamente
acompanhadas de atributos negativos: não-confiáveis, perigosas, imorais e não-
morigeradas.28
Os próprios abolicionistas tiveram uma percepção bastante negativa sobre os
libertos. Como indica Guimarães29, Nabuco e Rebouças por exemplo, não deixaram de
prognosticar sobre o comportamento dos libertos. “O trabalhador livre não tinha lugar na
sociedade, afirmava Nabuco em O Abolicionismo, sendo um nômade, um mendigo, e por
isso em parte nenhuma achava ocupação fixa: não tinha em torno de si o incentivo que
despertava no homem pobre a vista do bem-estar adquirido por meio do trabalho, por
indivíduos saídos de sua classe, saídos das mesmas camadas que ele”. E André Rebouças
em A agricultura nacional: “vimos em toda parte o homem, a mulher, o menino correndo
como cães famintos atrás do trabalho e do salário e em todos estes países ouvimos os
parasitas do capital, cínicos e egoístas, repetirem a gritar: há falta de braços, os salários
estão elevadíssimos”. De acordo com Rebouças, a verdadeira interpretação da frase oficial
“ carência de braços” era que o Império necessitava de reformas sociais, econômicas e
financeiras importantíssimas que permitiriam então o aproveitamento de milhares e
milhares de indivíduos que vegetavam em nosso país.30
Segundo Guimarães, os abolicionistas eram unânimes em admitir que os milhões
de trabalhadores libertos eram tratados, na realidade, como escravos. Na visão destes

28
Idem, p.89
29
GUIMARÃES, Alberto Passos. As classes perigosas: banditismo urbano e rural. Rio de Janeiro,
Graal, 1979.
30
Rebouças. Apud: GUIMARÃES, Alberto Passos. As classes perigosas ..., p.100
14

estudiosos era esta a razão de sua fuga, sempre que podiam, do regime de trabalho imposto
pelo sistema latifundiário31.
Na opinião de Joaquim Nabuco “ essa população formada por libertos foi por mais
de três séculos acostumada a considerar o trabalho do campo como próprio de escravos”
e isto explicaria sua recusa aos trabalhos ligados á lavoura.
O juízo que desses “ociosos” faziam as oligarquias rurais era que se tratava de
“incapazes para o trabalho agrícola”; sua recusa em aceitar os empregos porventura a eles
oferecidos era geralmente atribuída a outras razões menos aquelas que hoje nos parecem
óbvias , como os salários aviltados, as formas de coação comumente empregadas para
forçá-los a obedecer as normas de trabalho, comuns num regime que não compreendia
outra maneira de tratar seus subordinados que não a crueldade.32
Por longo tempo tentou-se explicar a inatividade dos trabalhadores livres, sobre o
pretexto de que era a escravidão que os afugentava, por não quererem os homens livres se
ombrearem como o braço servil. Procurava-se, sob essa aparente motivação “moral”,
encobrir-se a evidente e generalizada tendência de tratar como escravo o trabalhador livre,
submetendo-o à mesma disciplina cruel ditada pelos feitores; e era a isso que se recusava
subordinar-se, obstinadamente, a imensa maioria daqueles trabalhadores.
A noção de que os crescentes efetivos de “ociosos”, “vadios” e “intrusos” eram um
produto da decisão voluntária dos trabalhadores “livres” ou de que eles existiam por causa
da sua “incapacidade para o trabalho” que seria intrínseca à natureza do trabalhador
nacional e em geral das classes pobres do campo, havia sido incorporada à mentalidade
das oligarquias rurais do Brasil e também de alguns parlamentares. Era também um dos
componentes tradicionais da ideologia colonial, que sempre encontrou para justificá-la as
mais diversas “teorias”, como a da inferioridade racial, a do fatalismo histórico, do
rigorismo do clima tropical e várias outras.33
Podemos notar, portanto, que mesmo antes de 1888 se debatiam os perigos
expressos pelos libertos e possíveis formas de os reprimir, como é possível notar pelos
debates parlamentares ocorridos em 1884/85 e através das posturas municipais do Estado
do Paraná. Foram provavelmente estas mesmas concepções - que possivelmente já tivesse
Ferreira Vianna em 1884/5, quando participou das discussões das quais resultou a Lei dos
Sexagenários - que animaram o ministro da Justiça a, em junho de 1888 , a apresentar o

31
Idem, p.131
32
Idem, ibidem.
33
Idem, p. 135
15

projeto de lei visando reprimir a ociosidade e dar um “destino” para os libertos. Logo no
momento de apresentação do projeto, o ministro, dirigindo-se ao Presidente da Câmara,
considerava que “não é de hoje [...] que reconheço a necessidade urgente de reprimir,
principalmente nos centros populares, a ociosidade... 34”

1.2 Contexto pós-abolição


Logo após a abolição do cativeiro, os parlamentares afirmavam que o país
enfrentaria um sério problema: o que deveria ser feito com o enorme contingente de ex-
escravos que vagava pelas ruas sem ter emprego ou moradia? Era necessário, portanto,
tomar medidas enérgicas que afastassem das cidades e também do interior o fantasma da
desordem.
Segundo Boris Fausto, estas medidas estavam estreitamente associadas à
disciplinarização da mão-de-obra, por isso até meados do século XIX, a perseguição da
vadiagem teve pouca importância em cidades como São Paulo, por exemplo. Segundo o
autor, isso ocorreu porque a perseguição da vadiagem visava produzir trabalhadores que se
adequassem às expectativas dos empregadores de mão-de-obra, e, por isso, a perseguição
de vadios e ébrios é muito comum após a abolição. 35
Foram muitos os parlamentares que, após a abolição do cativeiro, fizeram
requerimentos ao ministro da Justiça Ferreira Vianna indagando das providências que
estavam sendo tomadas com relação ás práticas, que os parlamentares julgavam ser
criminosas. Assim dizia o requerimento do deputado por Minas Gerais, Pacífico
Macarenhas:
“Requeiro que, por intermédio do Sr. Ministro da Justiça, seja esta Câmara informada se tem
notícias de roubos ou assaltos praticados em diversos lugares por libertos, e que providências tem
tomado para evitar a reprodução de semelhantes fatos”. 36
Na sessão em 20 de junho de 1888, chegaram ao Ministro da Justiça as seguintes
interpelações:

1º Entende o senhor que a ordem pública e a segurança individual estão garantidas no interior das
províncias do Rio de Janeiro e de Minas Gerais?
2º Julga suficientes os meios que dispõem os governos provinciais para defenderem a propriedade e
a vida do cidadão, que começa a correr perigo naquelas circunstâncias do Império?37
As interpelações dirigidas ao Ministro da Justiça exigiam que o governo tomasse

34
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p.309 .
35
FAUSTO, Boris. Crime e Cotidiano. A criminalidade em São Paulo (1880-1924). São Paulo,
Brasiliense, 1984.
36
APB-CD. Sessão de 17 de julho de 1888.
37
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p. 229
16

medidas para proteger a propriedade e a segurança pessoal dos cidadãos. Esta concepção
que os parlamentares tinham sobre os libertos é indicada por Maria Verónica Secreto.
Investigando as opiniões dos deputados sobre os libertos, a autora indica que os
parlamentares os viam como 'ordas' que vagavam pelas estradas a 'furtar' e 'rapinar'38.
Segundo Secreto, os parlamentares consideravam que o fim do cativeiro significava a
possibilidade de o liberto tornar-se ocioso, furtar e roubar.

O momento em que a lei de 13 de maio foi aprovada, para os parlamentares,


implicou num agravante da situação, pois ocorreu em aos trabalhos da colheita de café.
Neste sentido, o deputado Affonso Pena denunciava a pressa com que o governo imperial
agiu, buscando colocar um ponto final ao trabalho escravo; para o parlamentar, isso
ocasionou uma profunda perda para as fazendas, seus chefes, suas mulheres e seus filhos.39
Da mesma forma que Affonso Pena, o deputado pela província do Rio de Janeiro Lacerda
Wernerck queixava-se também da maneira “brusca e violenta” que foi feita a abolição da
escravatura no Brasil. De acordo com ele, a lei fez com que, de um dia para a noite,
ocorresse uma “deslocação de profissão e de hábitos, nivelando-se todas as classes”40. O
problema para Lacerda Wernerck era que muitos libertos saíram das suas antigas fazendas
e passaram a viver naquilo que ele chamava de “perigosa ociosidade”. 41

De acordo com Lacerda Wernerck, os libertos, sobretudo os mais moços,


entenderam que a liberdade era o direito de vagar pelas estradas, de assaltar a lavoura
alheia, de viver e conviver nas tabernas. Na opinião do parlamentar, este mal foi crescendo
a cada dia, o latrocínio tomou enormes proporções, a tranquilidade pública deixou de estar
garantida e, na “província do Rio de Janeiro, onde as pessoas antes viviam com a maior
segurança, após a abolição da escravatura, passaram a conviver com o medo”.42 Depois de
citar muitos exemplos de assaltos cometidos pelos ex-escravos, Lacerda Wernerck fez a
seguinte pergunta ao então ministro da Justiça: “Apesar dos seus sentimentos
humanitários, acha isto regular? É para isto que aqui votamos a lei de 13 de Maio?43

O ministro da Justiça buscou demostrar que o governo estava empenhado em


prevenir e resolver os problemas que os deputados haviam citado. Falando especificamente

38
SECRETO, María Verónica. Coagir para disciplinar: História Comparada da formação do
mercado de trabalho livre na Argentina e no Brasil. Trajetos. Revista de História UFC. Fortaleza, vol. 1, nº
2, 2002.
39
APB-CD. Sessão de 20 de julho de 1888, p. 230
40
Idem, ibidem.
41
Idem, p. 231
42
Idem, ibidem.
43
Idem, ibidem.
17

da província do Rio de Janeiro, dizia o parlamentar que providências estavam sendo


tomadas, como por exemplo, maiores policiamentos. O ministro apontava também o seu
projeto como uma solução para os problemas que haviam suscitado as interpelações.44

De acordo com Ferreira Vianna, era necessário que o governo promovesse a


instrução para os ociosos, porque , de acordo com o parlamentar, “o que educa o homem
não é a cadeia, não é a força; é a educação moral, são os grandes sentimentos que se lhe
plantam n'alma, e esta elevação do espírito que só pode vir de uma boa educação
nacional”45. A instrução para os ociosos era uma das medidas propostas no projeto de
Ferreira Vianna.

Por conta do pensamento capital do projeto, não era estranho que um dos
parlamentares, o deputado Mac-Dowell, pronunciasse tais palavras em apoio ao citado
projeto:

Votei pela utilidade do projeto, convencido [...] de que hoje, mais que nunca, é preciso reprimir a
vadiação, a mendicidade desnecessária, [...] a lei produzirá os desejados efeitos compelindose a
população ociosa ao trabalho honesto, minorando-se o efeito desastroso que fatalmente se prevê
como conseqüência da libertação de uma massa enorme de escravos, atirada no meio da sociedade
civilizada, escravos sem estímulos para o bem, sem educação, sem os sentimentos nobres que só
pode adquirir uma população livre e finalmente será regulada a educação dos menores, que se
tornarão [...] cidadãos morigerados, servindo de exemplo e edificação aos outros da mesma classe
social. 46
A partir desse breve discurso e das questões que pautam as interpelações que foram
feitas ao ministro, podemos notar que os parlamentares acreditavam que os libertos
pautariam a sua liberdade em plena ociosidade e esta portanto, deveria ser reprimida. Em
segundo lugar, quando o deputado Mac-Dowell fala em "educação", esta vem vinculada
ao uso da coerção, como é possível notar na sua fala “ compelindose a população ociosa ao
trabalho honesto”, medida não muito diferente das utilizadas pelos senhores de escravos.

Através da fala de alguns parlamentares, podemos notar também que haviam


algumas condições que permitiam identificar os ociosos realmente prejudiciais à
sociedade. Para que o crime de vadiagem fosse caracterizado era necessário comprovar o
hábito e o caráter de indigência do indivíduo em questão. Se um indivíduo era ocioso mas
possuía meios de garantir sua sobrevivência, ele não era , na opinião dos parlamentares,
um perigo à ordem social. Somente os indivíduos que não possuíam meios de garantir a

44
Idem, p. 236
45
Idem, ibidem.
46
Mac-Dowell. Apud: BRANDÃO, B. A polícia e a força policial no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro,
PUC-Rio, 1981, pp 259-260
18

sua sobrevivência eram vistos como ociosos e propensos ao crime.47 O projeto de lei
apresentado por Ferreira Vianna também relata este pensamento dos parlamentares,
quando afirma que:

Art. 7º A pena imposta aos infratores (...) poderá ser julgada extinta por petição do
condenado:
I. Se provar superveniente aquisição de renda suficiente para sua subsistência;
II. Se prestar fiança idônea. 48
Portanto, de acordo com o projeto se o indivíduo comprovasse meios de
subsistência, teria sua pena extinta e não representaria um perigo para a sociedade, não
sendo tomado pela justiça como um ocioso.

1.3 A Ociosidade no Código Criminal.

Quando os deputados discutiam o projeto de repressão da ociosidade já havia um


mecanismo judicial para punir a vadiagem. O Código Criminal de 1830 definia que a
ociosidade fosse reprimida por meio dos processos policiais de termo de bem viver49, como
indica Martins. O Código revelava o grau de intolerância para com os indivíduos pobres,
considerados “vadios”. Os indivíduos tidos como “vadios” eram permanentemente
processados e perseguidos nas ruas, becos, praças e tabernas, eram, portanto,
sistematicamente vigiados. 50

O Código Criminal de 1830 considerava que o crime de vadiação deveria ser


tratado na alçada criminal e dispunha de penas relativamente leves. Isto evidencia que a
ociosidade era percebida como uma ameaça potencial mais do que um verdadeiro ato
criminoso. Em seu art. 12 atribui competência aos Juízes de Paz para:
§ 2º obrigar a assinar termo de bem viver aos vadios, mendigos, bêbados por hábito, prostitutas, que
perturbam o sossego público, aos turbulentos, que por palavras, ou ações ofendem os bons
costumes, a tranqüilidade pública, e a paz das famílias. 51

Os artigos 295 e 296 do Código Criminal de 1830 consideram como delito,

47
Idem.
48
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p. 311
49
Documentos processuais expedidos pela “polícia” do Império contra aqueles indivíduos
encontrados fora de um certo padrão de tolerância exigido pelo Código do Processo Criminal de 1832. Estes
processos não diziam respeito às infrações consideradas criminosas, eram essencialmente normatizadores da
ordem pública, portanto podia-se fazer prender no caso da reincidência da sua assinatura. MARTINS,
Eduardo. Vigiar para punir: os processos-crimes de termos de bem viver. Disponível em:
<http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/art10.html>
50
Idem, ibidem.
51
Código Criminal de 1830. Apud: MARTINS, Eduardo. Vigiar para punir...Disponível em:
<http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/art10.html>
19

respectivamente: Não tomar qualquer pessoa uma ocupação honesta, e útil, de que possa
subsistir, depois de advertido pelo juiz de paz, não tendo renda suficiente, penas de prisão
com trabalho de oito a vinte e quatro dias, simplesmente por ser vadio, e de prisão simples
ou com trabalho, “segundo o estado das forças do mendigo”, de oito dias a um mês, por
estar “mendigando”.52
Embora houvesse no Código Criminal dispositivos para reprimir os ociosos, ele era
considerado insuficiente por parlamentares que discutiam o projeto apresentado em 1888.
“Quem vê a ineficácia da lei para obrigar os livres ociosos ao serviço e aos clamores
constantes da lavoura”, dizia Antônio Prado, “não pode acreditar nessa substituição do
escravo pelo liberto”. Embora não mencione o Código explicitamente, é possível supor que
o deputado a ele estivesse se referindo quando mencionou a “ineficácia da lei”, pois era no
Código que se estabelecia penalidades para os infratores dos termos de bem viver, ou seja,
para os ociosos.
Na visão do deputado Antônio Prado e do ministro da Justiça Ferreira Vianna, era
nítida a ineficácia das penalidades e as lacunas deixadas pelos artigos do Código Criminal.
Para tanto, Ferreira Vianna percebeu a necessidade de um projeto que abrangesse os casos
que escaparam aos termos da legislação em vigor e que preenchesse portanto, as lacunas
deixadas pelo Código Criminal. Uma das falhas, para o ministro, era definida pela ausência
de instituições que recolhessem os ociosos infratores dos termos de bem viver. O projeto,
buscando preencher esta lacuna, propunha:
Art. 1º Ficam criados em ilhas marítimas, ou em outros pontos que o Governo julgar mais
conveniente, estabelecimentos destinados á correção dos infratores do termo de bem viver. Estes
estabelecimentos serão de duas classes, uma para os réus de primeira condenação e outra para os
reincidentes, devendo os desta classe ser fundados nas províncias fronteiras.53
Outro problema identificado no Código dizia respeito à ausência de situações
agravantes54 . O art. 6º do projeto de repressão da ociosidade trazia algumas circunstâncias
agravantes para os crimes definidos nos arts. 295 e 296 do Código Criminal de 1830. De
acordo com a Comissão que analisou o projeto, nesses artigos haviam sido estabelecidos
alguns graus de penalidade, porém, o legislador criminal havia deixado uma lacuna no
direito, omitindo a enumeração dos casos em que a penalidade poderia ser graduada. Essa
lacuna foi em parte preenchida pelo projeto apresentado por Ferreira Vianna, que
mencionou as circunstâncias agravantes em seu sexto artigo, são elas:
I. A embriaguez habitual;
II. A falta de alimentos á familia;

52
Idem, ibidem.
53
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p.310
54
APB-CD. Sessão de 20 de julho de 1888, p. 72
20

III. O abandono de emprego ou ocupação;


IV. A dissipação de bens próprios ou de sua família;
V. A recusa de trabalho honesto que se lhe ofereça ou a que se haja obrigado por contrato.
VI.A idade de 21 a 40 anos.55

Para os membros da Comissão que analisaram o projeto, na espécie que ele tendia a
reprimir, a embriaguez habitual era com efeito um agravante, pois o indivíduo tido como
“vadio”, “proporcionava um exemplo corruptor” para toda a sociedade.56No entanto, para
alguns parlamentares, a embriaguez não deveria ser um agravante da pena, somente
quando esta fosse pública e habitual.
A segunda circunstância agravante era a falta de alimentos á família. Esse desamor
á família denota no indivíduo incurso nos arts. 295 e 296 do Código um adiantado estado
de perversão e certamente tornava mais condenável sua ociosidade. Nesse caso, entendem
os parlamentares que, seu afastamento do trabalho não prejudicavam unicamente a si,
ameaçando remotamente a sociedade, mas também a sua família. 57
A terceira circunstância agravante era o abandono do emprego ou ocupação. Para a
Comissão que analisou o projeto, o indivíduo que deixava voluntariamente um emprego ou
ocupação honesta, para entregar-se á ociosidade, era certamente mais culpado por se achar
nesse estado, do que aquele que não alcançou emprego ou ocupação. 58
A quarta circunstância agravante era a dissipação dos bens próprios ou de sua
família. Entenderam os parlamentares que esse indivíduo cavou sua ruína com as próprias
mãos: era justo que pesasse sobre ele um dever mais rigoroso de aplicar-se ao trabalho.59
Além disso, achando-se ele na penúria e sendo refratário ao trabalho, apesar de sentir
muito mais a miséria do que aqueles que sempre foram pobres (pois o primeiro conhece as
doçuras da abastança e sofre muito mais com as privações da miséria), seu estado
constituía em maior ameaça a ordem social.60
Em quinto lugar o projeto colocava entre os casos de agravação da pena ao vadio
ou mendigo a “ recusa de trabalho honesto que se lhe ofereça ou a que se haja obrigado por
contrato”. 61 Na segunda hipótese, tratava-se da violação de um contrato, o que revelava no
infrator uma “ índole desleal e fraqueza de caráter”. 62
Em último lugar, o projeto mencionava como circunstância agravante a idade de 21

55
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p. 311
56
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p. 72
57
Idem, ibidem.
58
Idem, ibidem.
59
Idem, ibidem.
60
Idem, ibidem.
61
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p.310
62
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p. 72
21

a 40 anos. Entendia a Comissão que era com efeito, esse período intermediário da vida
humana em que nos achávamos revestidos pela natureza de maior aptidão física para o
trabalho. Dizia a Comissão que “se a disposição moral do moço mantinha-se em desacordo
com a natureza física, mais culpado era ele que o velho e que o menino”.63 Portanto, vários
problemas do Código, relacionados à ausência de agravantes para os crimes relacionados à
ociosidade, foram sendo contemplados pelo projeto.
Como podemos notar no primeiro e sexto artigo do projeto, Ferreira Vianna estava
preocupado em corrigir o que ele e os parlamentares identificavam como problemas do
Código Criminal. Para tanto, propunha medidas que pudessem dar um destino aos
infratores do termo de bem viver e outras que estabeleciam agravantes para os crimes
relacionados à ociosidade. Além disso, as penas previstas eram mais rígidas: pelo artigo
295 do Código Criminal as penas eram de prisão com trabalho por oito a vinte e quatro
dias; pelo projeto eram de trabalho obrigatório por três meses a um ano. Pelo Código o
cumprimento da pena deveria ser realizado nas casas de correção ou nas cadeias públicas;
pelo projeto, nos estabelecimentos correcionais ou disciplinares, cuja criação se propunha.
64

O projeto visava portanto, preencher as lacunas deixadas pelo Código Criminal,


enrijecer as penas aplicadas aos infratores dos termos de bem viver e revela ainda a
intenção em orientar espíritos transviados, corrigir disposições viciosas, antes que punir
criminosos.

63
Idem, ibidem.
64
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p. 311
22

Capítulo II - O Projeto e os Debates na Câmara dos Deputados


2.1 As Medidas Propostas no Projeto de Repressão da Ociosidade

Na sessão realizada em 11 de Outubro de 1888, o parlamentar pelo Rio de Janeiro


Paes Leme afirmou que havia alguns anos que se tinha conhecimento dos efeitos
perniciosos que a ociosidade vinha trazendo à sociedade brasileira.65 De acordo com o
deputado, o projeto de lei sobre a repressão da ociosidade tratava da criação de tribunais
correcionais, do estabelecimento de ensino profissional e adotava medidas que visavam
reprimir a ociosidade.66 Para o parlamentar o projeto de lei visava também a organização
do mercado de trabalho, assunto este de máxima importância e que se tornou corriqueiro
na Câmara dos Deputados, principalmente após a abolição do cativeiro.
Para Paes Leme “ o projeto, pode-se dizer, é a salvação pública para o Império do
Brasil, porque tem ligação íntima com a população nacional, elemento que considero de
alto valor para o nosso país”.67 De acordo com o parlamentar, a população nacional que
não estava sendo valorizada para os trabalhos remunerados, deveria ser valorizada pelo
governo, pois na zona tropical, em especial no Rio de Janeiro, o estabelecimento de
europeus era inviável, dizia o deputado, devido ao clima diverso de seu continente. O
projeto de lei sobre a repressão da ociosidade buscava “aperfeiçoar” o trabalhador nacional
por meio de medidas de disciplinares e educacionais, como salientava seu autor.68
O deputado Paes Leme, falando especificamente de duas das maiores províncias do
país, afirmou que fazia-se necessário “aperfeiçoar” o trabalhador nacional que ali residia.
Dizia o deputado:
“ Quem viaja pelo interior desta província (Rio de Janeiro) ou, ainda melhor, pelo interior do
Império, o que encontra? Mesmo na província de São Paulo, o que se encontra? Encontrei o caipira,
na frase paulista, que é um verdadeiro parasita, que consome somente e nada produz; é um ente
completamente nulo, prejudicial, e que outrora foi uma arma terrível dos partidos eleitorais”. 69

De acordo com o parlamentar, tínhamos uma imensa população que vivia no

65
APB-CD. Sessão de 11 de outubro de 1888, p. 226
66
Idem, ibidem.
67
Idem, ibidem.
68
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888.
69
APB-CD. Sessão de 11 de outubro de 1888, pp. 227-228
23

abandono, sem educação e sem orientação. Fazia-se necessário educá-la, aperfeiçoá-la para
o trabalho e proporcionar-lhe meios para a boa aplicação de seus esforços. O projeto de
repressão da ociosidade visava estes fins; por isto, na opinião de Paes Leme, era de suma
importância a sua discussão e aprovação na Câmara.70
Na primeira leitura do projeto na Câmara, Ferreira Vianna afirmou que não queria
apenas a prisão simples para aqueles que vagavam pelas ruas e mendigavam, mesmo
possuindo condições físicas de trabalhar, pois de acordo com o Ministro, a prisão simples
não era uma punição e sim um benefício concedido aqueles indivíduos71. Para o
parlamentar, quando um ocioso era levado para uma prisão simples, ao invés de regenerar,
“pervertem-se e corrompem-se, na flor da vida, em comunhão com os maiores celerados e
condenados impenitentes”.72 O ocioso deveria portanto, cumprir sua pena nos
estabelecimentos de trabalho, os de agricultura em especial. De acordo com o autor do
projeto, devia-se educar os ociosos, antes mesmo de puni-los, e esta educação seria feita de
forma a sujeitá-los ao trabalho obrigatório nas casas correcionais, que estavam sendo
propostas no seu projeto.
No primeiro artigo do projeto, buscava-se a criação de estabelecimentos
correcionais em ilhas marítimas, ou em outros pontos que o Governo julgasse mais
conveniente. Os estabelecimentos seriam destinados á correção dos infratores do termo de
bem viver. Estes estabelecimentos seriam de duas classes, uma para os réus de primeira
condenação e outra para os reincidentes, devendo os desta classe ser fundados nas
províncias fronteiras.73
O projeto de lei visava também a criação na Corte e nas províncias de
estabelecimentos disciplinares para os menores de 17 anos condenados por infração do
termo de bem viver, e previa a criação de asilos para os velhos e inválidos que tivessem
falta absoluta de meios de subsistência.74
Com relação à criação de estabelecimentos disciplinares para os menores de 17
anos, afirmavam os parlamentares que a falta destes órgãos em nosso país representava
uma “lamentável lacuna no organismo social”.75 Os menores necessitavam de casas
disciplinares especiais na visão dos deputados, pois, “a influência do meio é
preponderante, não podendo eles estar envoltos de homens perversos, réus conscientes de

70
Idem, ibidem.
71
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p.309.
72
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p.310.
73
Idem, ibidem.
74
Idem, ibidem.
75
APB-CD. Sessão de 10 de julho de 1888, p. 69.
24

seus crimes”.76 Portanto, na opinião da Comissão de Constituição e Legislação, havia uma


necessidade imperiosa de fundarem-se os estabelecimentos disciplinares previstos no
projeto. Para os parlamentares, o trabalho obrigatório para os menores tinha por objetivo
não somente proporcionar meios para sua futura subsistência, como também regenerá-los.
No segundo artigo do projeto, Ferreira Vianna propôs a criação de outras
instituições asilares, pois nos estabelecimentos correcionais não eram admitidos:
Art. 2º Não são admissíveis, nem serão conservados nos estabelecimentos
correcionais:
I. Os menores de 17 anos;
II. Os loucos de todo o gênero;
III. Os surdos-mudos;
IV. Os inválidos;
IV. Os maiores de 60 anos.
Parágrafo único. Serão criados pela Corte e nas províncias estabelecimentos disciplinares para os
menores de 17 anos condenados por infração do termo de bem viver e os compreendidos na
disposição do art. 13 do Código Criminal, e asilos para os velhos e inválidos que tiverem falta
absoluta de meios de subsistência.77

De acordo com a Comissão que analisou o projeto, essa disposição foi objeto de
muito estudo tanto pelo seu alcance social quanto por motivos de ordem econômica78. Para
o parlamentar Lourenço de Albuquerque, essas instituições deveriam ser organizadas e
mantidas pela filantropia particular, pois não cabia ao Estado “exercer tamanha
caridade”.79 Nota-se portanto, uma certa resistência à criação destes estabelecimentos,
principalmente por parte de Lourenço de Albuquerque. O parlamentar se opondo a criação
destes estabelecimentos, dizia que o país não possuía condições financeiras para a criação e
a manutenção deles.
Havia, portanto, no projeto, dois tipos bem distintos de instituições cuja criação era
proposta. Um deles dizia respeito aos asilos correcionais, para onde seriam enviados os
infratores dos termos de bem viver. Estes eram vistos como necessários para prevenir os
crimes, para ordenar a sociedade, livrando-os dos ociosos, dos que descumpriam os termos
de bem viver. Outro, bem diferente, eram os asilos de proteção aos inválidos, os velhos ou
doentes, que não tinham como se manter. Os primeiros pareciam mais aceitáveis aos
parlamentares que os últimos.
Para a construção dos estabelecimentos correcionais, o autor do projeto propôs que
fossem retiradas as verbas do produto da taxa adicional de 5%, criada pela lei de número

76
Idem, ibidem.
77
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p. 311
78
Idem, ibidem.
79
Idem, ibidem.
25

3270 de 28 de Setembro de 1885, conhecida como a Lei dos Sexagenários.80 Para a


Comissão de Constituição e Legislação, a criação dos estabelecimentos correcionais não
acarretava despesas excessivas, pois “o que custa caro é a corrupção dos costumes, a
desonra das famílias, é a desordem, é o crime”81 Na visão dos parlamentares, um crime
prevenido, evitaria ao Estado despesas sempre consideráveis, portanto haveria uma
economia quando se propunha diminuir as fontes do crime.
Chegou a haver estranhamento com a proposta de que fossem aplicadas receitas
decorrentes da cobrança prevista na lei de 1885 pois, como considerou um dos deputados,
“não é justo que caiba somente aos lavradores contribuir para esse serviço, que deve
aproveitar toda a coletividade social”.82 Porém, de acordo com Almeida Nogueira, era
compreensível a utilização de tal verba, porque na verdade seria a lavoura que mais
lucraria com a criação dos estabelecimentos correcionais.83 Justificando a sua opinião,
dizia o parlamentar que:
“quando foi criada a taxa deste imposto era para a introdução de imigrantes, tendo-se em vista dar
braços a lavoura para aumentar a produção nacional. Ora, não é outro o resultado deste projeto: o
seu autor teve em vista proporcionar ao serviço da lavoura braços que se acham atualmente
desocupados e inertes”84

De acordo com Almeida Nogueira, o resultado que se previa com a criação dos
estabelecimentos correcionais era o mesmo que o da criação do imposto, ou seja, buscava
possibilitar a introdução de “braços a lavoura”.
O projeto adotava também a instituição dos termos de bem viver. Os indivíduos que
fossem obrigados pela autoridade competente a assinar os termos de bem viver, e não
honrassem o termo assinado, sofreriam punições, conforme a idade e o grau de culpa:
Art. 3º. Serão pela autoridade competente cominadas nos termos de bem viver, e aplicadas pelo
juízo da infração, conforme a idade e o grau de culpa, as seguintes penas:
Trabalho obrigatório nos estabelecimentos correcionais ou disciplinares por um ano no máximo e
três meses no mínimo;
Na reincidência, por três anos no máximo e um ano no mínimo;
Sendo estrangeiro o reincidente; o Governo poderá fazê- lo sair do território do Império85

De acordo com a opinião de muitos parlamentares, o terceiro artigo do projeto dava


novas atribuições à polícia e exigia do corpo legislativo fundos para a realização de tais

80
Os 5% deveriam ser retirados da taxa dos impostos, com exclusão dos da exportação, os quais
representavam a contribuição especial da lavoura. APB-CD. Sessão de 12 de outubro de 1888, p. 242
81
APB-CD. Sessão de 10 de julho de 1888, p. 70.
82
APB-CD. Sessão em 12 de outubro de 1888, p. 242
83
Idem, ibidem.
84
Idem, ibidem.
85
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 188, p. 310
26

medidas.86 O deputado Aristides Spinola afirmava que achava as penalidades impostas


neste artigo um tanto quanto severas. Dizia o parlamentar que penalidades severas como as
presentes no projeto, não eram aplicadas, pois o rigor das penalidades, como demonstrava
a experiência, produzia resultados contrários àqueles que o legislador tinha em vista, que
era a regeneração dos ociosos. Salientava o deputado: “ as causas que geram a miséria e a
ociosidade não são removidas pela aplicação de um rigoroso sistema repressivo”87. De
acordo com o deputado ou as penas não seriam aplicadas e a lei, como tantas outras cairia
em desuso, ou dariam lugar a grandes perseguições.
O deputado pela província da Bahia, Zama, afirmou em sessão na Câmara que tinha
“repugnância em prestar o seu apoio a este projeto, pela consideração seguinte: por melhor
que seja uma lei que o parlamento tenha de decretar, importa muito saber quem vai
executar esta lei”.88 Para o parlamentar, não estava muito claro no projeto quem iria
executar a lei, como por exemplo, quem obrigaria os indivíduos a assinar os termos de bem
viver e por este motivo, tornava-se ele inviável.
No artigo sétimo de seu projeto, o Ministro da Justiça buscou dar uma maior
flexibilidade às penas impostas aos infratores dos termos de bem viver. A pena neste
caso, ponderava o parlamentar, era simplesmente disciplinar e por conseguinte, não
necessitaria ser fixa. A Comissão que analisou projeto estabeleceu que esse preceito era
coerente com o resultado que se buscava obter, que era a regeneração dos ociosos.89 A
pena poderia ser julgada extinta nos seguintes casos:
I. Se provar superveniente aquisição de renda suficiente para sua subsistência;
II. Se prestar fiança idônea;
III. Julgar-se-ha extinta a de qualquer correcionado que se tornar incapaz para o trabalho por causa
da velhice ou de enfermidade física ou intelectual.90

As penas impostas ao infratores poderiam também ser abrandadas ou aumentadas,


nos casos que se seguem:
A pena imposta a qualquer correcionado poderá ser, á requisição do diretor do estabelecimento:
I. Reduzida ao grau médio ou mínimo, por procedimento exemplar e diligencia no trabalho;
II. Elevada ao grau máximo, por mau procedimento, ou recusa do trabalho.91

Pelo projeto, os indivíduos vadios ou mendigos deveriam ser processados não no


lugar onde fossem encontrados, mas no de sua procedência92. Qual era o alcance dessa

86
APB-CD. Sessão de 30 de outubro de 1888.
87
APB-CD. Sessão de 30 de outubro de 1888, p. 443
88
APB-CD. Sessão de 11 de outubro de 1888, p.219
89
APB-CD. Sessão de 10 de julho de 1888.
90
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p. 311
91
Idem, ibidem.
92
Idem, ibidem.
27

disposição? Para a Comissão que analisou o projeto, esta medida era válida, pois no distrito
de sua residência, o acusado era mais conhecido e poderia ser melhor julgado93.
Entretanto, a Comissão salientava que na prática a execução dessa medida era difícil pois
por se desconhecer algumas vezes o distrito da procedência dos indivíduos, e pela despesa
que acarretaria a condução dos suspeitos aos seus locais de origem.94
Em vista dessas considerações expostas acima, a Comissão resolveu que a remoção
dos acusados ao local de origem seria facultativa, e não obrigatória como propunha o
projeto origina. Não obstante essa modificação, ficava ainda em pé o princípio adotado no
artigo do projeto. De acordo com a Comissão, os indivíduos poderiam agir de má fé,
emigrando de um distrito para outro na tentativa e se livrar de possíveis penas em seus
distritos de origem. Ora, em tal conjuntura, nada mais justo seria que a recondução de tais
imigrantes para o distrito de sua procedência, pois dizia a Comissão que “ nenhum distrito
tem o direito de presentear os outros com a presença de seus vadios e mendigos”.95
De acordo com o parlamentar Mac Dowell, o projeto foi quase unanimamente
reconhecido pela Câmara, pois:
“o projeto é um desenvolvimento da disposição da legislação penal e do processo, já porque a
Câmara dos Deputados, de alguns anos a esta parte, tem reconhecido a necessidade de se modificar
a legislação, que tende a reprimir a ociosidade nociva, a mendicidade e certos delitos pequenos que
se assemelham aqueles que, no dizer de um jurisconsulto notável, constituem atos preparatórios de
delito”.96

Para o deputado, devido ao seu pensamento capital que era reprimir a ociosidade, a
mendicidade e certos delitos pequenos, o projeto de lei teve grande adesão por parte dos
deputados. De acordo com a Comissão de Constituição e Legislação que analisou as
medidas propostas pelo projeto, o projeto poderia alcançar o resultado tão almejado de
extinguir “classes parasitas, que constituem um sério perigo à segurança social e que são
também motivo de atraso ao país”. 97
Em resumo, o projeto de lei apresentado por Ferreira Vianna buscava reprimir os
ociosos, tidos como os principais causadores dos males da sociedade. A repressão aos
ociosos, de acordo com o projeto, viria na forma de “proteção” e de instrução a estes
indivíduos. Vale a pena ressaltar que a instrução e contenção da ociosidade, para a maioria
dos parlamentares, estavam associadas a um projeto de criar uma população disponível e
disposta a realizar trabalhos para os grandes proprietários, ou seja, não era algo que se

93
APB-CD. Sessão de 10 de Julho de 1888, p. 71
94
Idem, ibidem.
95
Idem, ibidem.
96
APB-CD. Sessão de 12 de outubro de 1888, p.245
97
Idem, ibidem.
28

fazia visando – pelo menos não apenas – a filantropia, mas era um processo de
disciplinarização da força de trabalho. A ociosidade, como veremos a seguir, estava
associada sobretudo aos libertos e aos imigrantes.

2.2 Quais os fatores que influenciavam a ociosidade? Quem eram os ociosos?


Na sessão realizada em 8 de outubro de 1888, o deputado pela província do Rio de
Janeiro, Rodrigues Peixoto, citou alguns fatores que explicariam o grande número de
ociosos em nosso país: “ é sem contestação alguma a riqueza de nosso solo, a amenidade
de nosso clima, a abundância que por toda a parte se nota”.98 Para o parlamentar, o
indivíduo que se encontrava em ociosidade no Brasil tinha facilidade em:
“obter a carne, o peixe e o fruto, além de poder passar perfeitamente ao relento sem cobrir o corpo
com vestes pesadas, que lhe custariam muitas vezes somas elevadas e superiores às suas forças; não
experimenta grandes necessidades, nem tem portanto, o mesmo incentivo dos países pobres, onde o
frio é intenso, a subsistência escassa, a vida difícil, sendo precisos hábitos mais ativos”. 99

Na opinião de Rodrigues Peixoto a facilidade em obter alimentos e o clima ameno


em nosso país eram fatores que favoreciam a “facilidade de vida”, ou seja, a ociosidade.
Por estes motivos, na opinião do deputado, deveriam ser criadas leis que viessem reprimir
a ociosidade, pois estas já existiam na Europa e na Ásia, onde havia um maior estímulo
para o trabalho devido ao clima e a luta que se estabelecia pela vida.100
A abundância e a facilidade de se obter os meios de vida, segundo o r Rodrigues
Peixoto era a principal causa de ociosidade entre os imigrantes. De acordo com eleo, na
América do Norte, o colono que lá chegava não se empregava imediatamente na lavoura,
como acontecia no Brasil; o imigrante procurava primeiro uma indústria que ocupasse o
seu tempo, até que adquirisse uma boa condição para viver neste novo país, e era só
depois que se entregava a alguma ocupação com que mais se identificava. Dizia o
parlamentar:
“não condeno tanto os desgraçados que não tem ocupação; não condeno também aqueles que se
entregam á mendicidade, porque muitos deles são arrastados por uma força irresistível a esse estado
de inércia e apatia, porque não encontram outro meio de vida ou de subsistência”.101
A exemplo da América do Norte deveríamos, na opinião do deputado pela
província do Rio de Janeiro, possibilitar aos imigrantes a escolha por uma ocupação em
que mais se identificasse, não os sujeitando, como usualmente acontecia, somente aos
trabalhos da lavoura.

98
APB-CD. Sessão de 8 de outubro de 1888, p. 152
99
APB-CD. Sessão de 8 de outubro de 1888, pp. 152-153
100
Idem, ibidem.
101
APB-CD. Sessão de 8 de outubro de 1888, p. 153
29

Além de debaterem na Câmara os fatores que influenciavam a ociosidade no Brasil,


os deputados discutiram também quem eram os “ociosos”. Como salienta Secreto, o
projeto de repressão da ociosidade, “reconhecia duas condições elementares para definir o
delito da vadiagem: o hábito e a indigência”102. Segundo a autora, no projeto, o delito ou
infração era caracterizado pelo estado de indigência, já que a ociosidade dos ricos não
estava em questão. Nesta perspectiva, a ociosidade e a pobreza estavam, por suas próprias
naturezas, inseparavelmente ligadas, e estas duas naturezas juntas, na perspectiva dos
parlamentares, produziam indivíduos perigosos para a sociedade, como salienta Sidney
Chalhoub:
Os pobres carregam vícios, os vícios produzem os malfeitores, os malfeitores são perigosos à
sociedade; juntando os extremos da cadeia, temos a noção de que os pobres são, por definição,
perigosos103

Os deputados em 1888 compartilhavam da ideia de que as classes pobres eram as


classes perigosas. A opinião reinante era de que a ociosidade, vista como o maior dos
vícios, exacerbava a condição da pobreza e levava o sujeito pobre à marginalidade. A
pobreza gerava malfeitores e viciados, o que era altamente perigoso para o conjunto da
população. Neste momento, a relação entre ociosidade e criminalidade tomou os libertos
como principais suspeitos, pois as classes pobres eram formadas, em sua maioria por ex-
escravos. A este respeito o deputado Rodrigues Peixoto declarava que:
“As classes pobres e viciosas...sempre foram e hão de ser sempre a mais abundante causa de todas
as sortes de malfeitores: são elas que se designam mais propriamente sob o título de - classes
perigosas -; pois quando mesmo o vício não é acompanhado pelo crime, só o fato de aliar-se à
pobreza no mesmo indivíduo constitui um justo motivo de terror para a sociedade. O perigo social
cresce e torna-se de mais a mais ameaçador, à medida que o pobre deteriora a sua condição pelo
vício e, o que é pior, pela ociosidade”104

No discurso dos parlamentares na Câmara dos Deputados, os ociosos eram


principalmente os indivíduos que apesar de ter condições físicas e psicológicas para
trabalhar, vagavam pelas ruas e mendigavam. Os principais indivíduos tidos como vadios
pelos deputados eram realmente os libertos e nota-se que após a abolição do cativeiro
houve uma constante preocupação por parte dos parlamentares com a conduta destes
indivíduos.
Na sessão realizada em 20 de julho de 1888, os parlamentares diziam que os

102
SECRETO, María Verónica. Coagir para disciplinar..., p. 177
103
CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial. São Paulo,
Companhia das Letras, 1996, p. 22
104
APB-CD. Sessão de 10 de julho de 1888, p. 73
30

libertos haviam entendido que a liberdade era o direito de vagar pelas estradas, de assaltar
as lavouras alheias, de viver e conviver nas tabernas105. Salientavam que após a abolição
do cativeiro, os transtornos foram crescendo a cada dia, o latrocínio tomou proporções, a
tranquilidade pública deixou de estar garantida, e na então província do Rio de Janeiro,
onde as pessoas viviam com a maior segurança, passaram a conviver com o medo. Como
exemplo dos transtornos que vinham ocorrendo, o deputado Lacerda Wernerck citava um
caso que aconteceu com um médico na província do Rio de Janeiro: “ um médico muito
conhecido é assaltado por libertos na estrada. Roubaram-lhe o relógio e o dinheiro,
tiraram-lhe a roupa, não escapando a própria carteira de instrumentos cirúrgicos”.106 Na
visão dos parlamentares era necessário criar mecanismos para reprimir os libertos e
combater com urgência o estado deles de ociosidade, pois, na visão dos deputados, eram
eles que ocasionavam diversos transtornos para a sociedade, entre eles vários assaltos.
Com relação à maneira com que os libertos deveriam ser tratados pela justiça,
Ferreira Vianna ressaltava que deveriam receber o mesmo tratamento que qualquer cidadão
brasileiro. E dizia ainda: “se pretendem leis excepcionais, de compressão, não podem para
isso contar com o atual ministério que, através de muitos esforços, promoveu e fez
consagrar a lei de 13 de Maio”107. Para o parlamentar, se os libertos de posse de sua
liberdade, em vez de procurarem trabalho lançavam-se sem reservas na ociosidade e nos
vícios, caberia a justiça puni-los pela mesma legislação com que se puniam o restante da
população.
Havia, entretanto, parlamentares que entendiam as medidas propostas no projeto
num outro sentido, vendo-as como criadoras de um regime de exceção, como uma
legislação especial para os libertos. O deputado Aristides Spinola, neste sentido,
argumentava::
“ senhores, por mais que o governo procure encobrir o seu pensamento para fugir ás censuras dos
abolicionistas, parece que ele visa criar um regime de exceção para os que adquiriram foros de
cidadãos pelo ato de 13 de Maio, ou tinham sido libertados anteriormente”. 108

Fazendo uma critica ao projeto apresentado por Ferreira Vianna, o parlamentar


dizia que esse projeto, se fosse convertido em lei, seria uma arma de perseguição para “os
que adquiriram foros de cidadãos” e seria “no regime de liberdade (...) uma exceção que
deslustra o direito pátrio”109.De acordo com o deputado, o projeto visava reprimir e

105
APB-CD. Sessão de 20 de julho de 1888, p. 231
106
Idem, ibidem.
107
APB-CD. Sessão de 20 de julho de 1888, p. 239
108
APB-CD. Sessão de 30 de outubro de 1888, p. 441
109
Idem, ibidem.
31

restituir a liberdade dada aos ex-escravos, infringindo desta forma o direito de usufruírem
da sua liberdade. Seria, portanto, na visão do parlamentar, um projeto que buscava
organizar o trabalho, instituindo um sistema de repressão, que seria, na sua opinião,
ineficaz. Para o deputado que votou contra o projeto, este visava somente reprimir e
“disciplinar” para o mercado de trabalho uma “classe” de indivíduos, que eram os libertos.
Uma outra “classe” de indivíduos tidos muitas vezes como ociosos eram os
imigrantes. O parlamentar Duarte de Azevedo em um requerimento feito á Câmara em 17
de maio de 1889, pedia ao governo que informasse quantos imigrantes vagavam como
mendigos pelas ruas e quantos não estavam exercendo profissões vinculadas a lavoura. 110
Na sessão em 20 de maio de 1889 foi feita uma interpelação perguntando se o governo
tinha conhecimento do fato de dormirem nas calçadas das ruas alguns imigrantes que se
111
achavam sem abrigo e sem proteção. Nota-se portanto, uma preocupação dos
parlamentares com os imigrantes que se achavam ociosos em nosso país ao invés de
estarem trabalhando na lavoura. Os imigrantes apareciam, ao lado dos libertos, como os
indivíduos que mereciam uma atenção por parte das autoridades, pois diziam os
parlamentares que muitos se encontravam sem uma ocupação, e este fato se constituía em
perigo para toda a sociedade.
Em um dos artigos do projeto, os imigrantes aparecem como possíveis infratores
dos termos de bem viver e nota-se que a solução dada para os estrangeiros reincidentes
seria bastante enérgica. Para estes indivíduos o projeto previa a expulsão do país112 Com
relação a esta proposta, o deputado Pedro Luiz receava que se um colono estrangeiro fosse
condenado injustamente, seria feita uma reclamação diplomática e consequentemente seria
dado um descrédito ao país, que deixaria de receber imigrantes. Dizia o deputado: “receio
que em mãos de juízes menos escrupulosos, esta lei (lei de repressão da ociosidade) venha
a ser uma arma política, e até um embaraço a colonização estrangeira”.113 Outro problema
apontado pelo deputado era a maneira com que se classificava um ocioso, maneira esta que
se não fosse bem estudada, poderia virar uma arma de perseguição desnecessária.
Para o parlamentar pela província do Rio de Janeiro Paes Leme, o “vadio ou ocioso
não deveria ser visto como um cidadão, pois, estava fora da lei, e não merecia a proteção
da sociedade”.114 Os ociosos eram vistos por legisladores brasileiros como indivíduos que

110
APB-CD. Sessão de 17 de maio de 1889, p. 62
111
APB-CD. Sessão de 20 de maio de 1889, p.75
112
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p. 310
113
APB-CD. Sessão de 12 de outubro de 1888, p. 245
114
APB-CD. Sessão de 11 de outubro de 1888, p.227
32

deveriam receber uma vigilância do Estado, pois, não sendo ainda propriamente
criminosos, poderiam vir a ser, se continuassem em um estado de plena ociosidade. O
Código Criminal já classificava entre os crimes policiais os de vadiação e mendicidade, e
pela penalidade, relativamente leve, que lhe impunha, revelava considerá-lo efetivamente
antes como um ato preparatório de alçada policial, do que como um verdadeiro crime. O
projeto conformava-se com este ponto de vista e por meio dele pretendia-se ampliar as
possibilidades prevenção, orientando espíritos transviados, corrigir disposições viciosas,
antes que punir criminosos.
Como já foi dito anteriormente os principais indivíduos tidos como ociosos e que
deveriam receber a vigilância do Estado eram os libertos e os imigrantes, e esta vigilância
era no sentido de “aperfeiçoá-los” e “discipliná-los” para o mercado de trabalho.

2.3 Os exemplos a serem seguidos


Os parlamentares, visando dar sustentação ao projeto do então ministro da Justiça,
afirmavam que medidas para se reprimir a ociosidade, eram práticas comuns e “antigas”
em diversos países.115 No Egito antigo, diziam os deputados, existia uma lei em que cada
cidadão deveria ter um ofício, uma profissão, meios de subsistir honestamente, sob pena de
castigos severos se assim não procedessem. Os deputados diziam também que o Código de
Justiniano trazia algumas penalidades contra os mendigos e os vadios. De acordo com os
parlamentares a vagabundagem e a vadiação eram igualmente condenáveis pelo direito
moderno. O direito criminal brasileiro também já reprimia a vadiação e a mendicidade em
virtude das suas consequências, que na maioria das vezes “afeta o senso moral e deturpa o
homem: engendra assim o crime”. 116
O deputado pela província do Rio de Janeiro Rodrigues Peixoto comentou em sua
fala na Câmara sobre os vários exemplos de repressão da ociosidade praticados em outros
países. De acordo com o parlamentar, todos os povos da Europa haviam criado disposições
relativas à repressão da “vagabundagem”, estendendo-se essas disposições também àqueles
que pediam esmola à caridade pública e faziam disso uma profissão. 117
A legislação francesa, de acordo com Rodrigues Peixoto, entendeu que era
preferível dar ocupação aos mendigos, encerrando-os em estabelecimentos para este fim.
Já a Inglaterra, instituiu o auxílio aos mendigos, pela chamada lei dos pobres, mas pouco

115
APB-CD. Sessão de 10 de julho de 1888, p.68
116
Idem, ibidem.
117
APB-CD. Sessão de 8 de outubro de 1888, p. 150
33

tempo depois, verificou-se que esta lei concorria para aumentar a miséria, porque tirava
aos necessitados o estímulo, a ideia de previdência e o espírito de iniciativa, fazendo-os
desanimar na luta pela vida. Entendeu a Inglaterra então, que convinha criar hábitos de
trabalho, tirar todo o proveito da iniciativa de cada um, de modo que o mendigo, em vez de
ser um homem inútil para a sociedade, tornaria-se um cidadão útil para si mesmo e para
sua pátria.118
Na Suíça afirmava Rodrigues Peixoto, a vagabundagem e a mendicidade eram
severamente reprimidas. Dizia o parlamentar que naquele país:
“ os mendigos são deportados de um cantão para outro afim de, mudando de meio social, mais
facilmente se regenerem (...) assim aquele que não podia viver honestamente do fruto de seu
trabalho, devia ser excluído de um cantão para outro, onde encontrasse um meio diferente daquele
em que se achava e incentivos de outra ordem, afim de perder os hábitos de inércia e indolência á
que se entregava no cantão de que fora repelido”119.

Nas palavras de Rodrigues Peixoto, na Suíça as medidas acima especificadas


surtiram um efeito muito positivo, pois verificou-se que alguns indivíduos adquiriram
posições elevadas, enriqueceram e tornaram-se homens úteis para a sociedade.120 Visto isto
afirmava o deputado:
“ ora, quando estes exemplos são tão edificantes em toda a parte, quando medidas simples como
esta, tem produzido beneficios que podemos considerar incalculáveis, é evidente que por maior que
seja o espirito democrático das instituições de um povo, ainda que este seja o brasileiro, não nos
podemos ater a esse ideal de liberdade, deixando de tomar medidas que, contrariando essa liberdade
concorrerão para o seu fortalecimento, mantendo o espírito da ordem, incompatível com a
ociosidade”121.

Como se pode notar, para o deputado, as medidas adotadas na Suíça para reprimir a
vagabundagem e a ociosidade, deveriam ser adotadas no Brasil, por mais severas que
fossem, embora o parlamentar não as visse desta forma ao dizer que eram “medidas
simples”.
Na República da Argentina também existiam disposições “severíssimas” com
relação a ociosidade. De acordo com o estudo de María Verónica Secreto, a legislação da
vadiagem começou muito cedo no Rio da Prata. Já nas primeiras décadas da vida
independente, estabeleceram-se penalidades para os habitantes do campo e da cidade que
não comprovassem seu vínculo a uma atividade produtiva.122 De acordo com a autora, na
Argentina a perseguição da vadiagem visava três objetivos. Em primeiro lugar, recrutar
homens para a defesa da fronteira e outros serviços militares num país em contínuas

118
Idem, ibidem.
119
APB-CD. Sessão em 8 de outubro de 1888, p. 151
120
Idem, ibidem.
121
Idem, ibidem.
122
SECRETO, María Verónica. Coagir para disciplinar..., p. 168.
34

guerras, internas e externas. Em segundo lugar, acabar com as alternativas de subsistência


do habitante rural. Em último lugar, era disponibilizar a mão-de-obra para fazendeiros. 123
De acordo com a autora, na Argentina era declarado como vadio todo aquele que
não tivesse domicílio fixo, não dispusesse de meios conhecidos de subsistência e
prejudicasse a moral. Os que fossem considerados vadios eram destinados ao serviço das
armas ou destinados a fazer algum trabalho público.124
O parlamentar Rodrigues Peixoto também se referiu à Argentina dizendo que
naquele país existiam leis que não só reprimiam a ociosidade e a mendicidade, como
“constituíam um verdadeiro código para a locação de serviço”125 O indivíduo que se
achava sem uma ocupação era considerado, pelas leis daquele país, um consumidor
improdutivo, que se beneficiava do trabalho alheio126. Os hábitos ociosos eram
considerados, naquele país, uma fonte de inquietação e de perigo para a sociedade, que por
sua vez, não os poderia tolerar. A polícia na Argentina possuía o direito de indagar qual era
a ocupação daqueles que lhe pareciam suspeitos e se por ventura se convencesse de que se
tratava de um ocioso, um elemento inútil para a sociedade, obrigava-o a procurar uma
ocupação em prazo estipulado. Após ser intimado pela polícia, o cidadão deveria
comprovar que possuía uma ocupação e se por acaso não a tivesse encontrado, este papel
caberia a polícia. A pessoa a quem era entregue o “ocioso”, fazia com ele um contrato,
pelo qual o locador se obrigava a prestar-lhe serviços por um ano no máximo e mediante
salário.127
Na Argentina, após celebrado o contrato entre a pessoa que empregava e o
“ocioso”, o patrão se constituía em uma espécie de juiz doméstico e tinha ação
incontestável sobre o trabalhador, para guiá-lo e aconselhá-lo.128 Se em algum momento o
indivíduo cometesse alguma falta ou delito, que não precisava ser punido por lei, o próprio
patrão, em virtude do regulamento que lá existia, e que estabelecia direitos e deveres a
ambas as partes, poderia vir a estabelecer castigos moderados. De acordo com Rodrigues
Peixoto, eram estes os termos do regulamento:
“ O patrão é um magistrado doméstico revestido de autoridade policial, para fazer guardar a ordem
na sua casa, fazendo com que seus empregados cumpram pontualmente seus deveres”.
“O patrão pode corrigir moderadamente as faltas dos seus serventes ou empregados, sem que disso
resulte ferida, contusão ou outra enfermidade. Se a falta for daquelas que comprometam a boa
ordem da casa, pode detê-los em prisão rigorosa, até dar conta a policia, o que deverá fazer dentro

123
Idem, p. 185
124
Idem, p.171
125
APB-CD. Sessão de 8 de outubro de 1888, p. 151
126
Idem, ibidem.
127
Idem, ibidem.
128
Idem, ibidem.
35

de 24 horas”.129

Para Rodrigues Peixoto, se a República da Argentina, adotava medidas daquela


ordem e produziam bons resultados, deveria o Brasil adotar as mesmas medidas para
controlar a ociosidade. O parlamentar confessava que aquelas medidas interferiam na
esfera da vida do cidadão e obrigava-o a abrir mão da sua liberdade. Porém, de acordo com
o deputado, a situação em que se encontrava o nosso país demandava medidas extremas,
como as adotadas pela Argentina. 130 Para o deputado era grande o número de
ociosos em nosso país, e como a ociosidade era vista como a principal causadora de males
para a sociedade, ela precisava ser severamente reprimida.
Outro parlamentar que citou exemplos de diversos países no tratamento da
repressão da ociosidade foi o deputado pela província do Rio de Janeiro, Paes Leme. Na
sessão realizada em 11 de outubro de 1888, o deputado afirmou que em outros países as
municipalidades estabeleciam cadernetas obrigatórias, a fim de que todos os cidadãos
provassem meios de subsistência, por ocupação, títulos de renda ou de propriedade.131
Trazendo o exemplo para o nosso país, o deputado dizia que aqui a matrícula poderia ser
feita perante um juiz de paz, o escrivão e o fiscal da municipalidade. Todas as matrículas
deveriam ser obrigadas ao visto duas vezes por ano, e todo aquele que fugisse a esta
obrigação, seria considerado vagabundo pelo tribunal competente, no caso um tribunal
correcional. Após cumprida a obrigação da matrícula, o indivíduo ficava sujeito a dar conta
do emprego do seu tempo perante a autoridade a quem conferisse competência para isto.132
Citando o exemplo das Antilhas, o deputado Paes Leme afirmou que naquele país
após estabelecida a República, os libertos entenderam que não deveriam mais trabalhar, e
foi preciso que em 1851 o almirante Gueydon estabelecesse a caderneta obrigatória, sem
exceção, para todos os indivíduos maiores de 18 anos.133 De acordo com Paes Leme, o
Ato Adicional e a Constituição impediram que esta lei praticada nas Antilhas viesse a fazer
parte de nosso cotidiano, visto isto, era de grande importância a discussão do projeto de lei
apresentado pelo ministro da Justiça.
O parlamentar Paes Leme citou também vários exemplos de outros países onde
havia um aproveitamento de ociosos. De acordo com o parlamentar, na América do Norte,
em especial em São Luís, todos os condenados a penas leves eram obrigados ao trabalho

129
Idem, ibidem.
130
APB-CD. Sessão de 8 de outubro de 1888, p. 152
131
APB-CD. Sessão de 11 de outubro de 1888, p. 227
132
Idem, ibidem.
133
Idem, ibidem.
36

forçado. Nas cidades e nos campos os ociosos eram recolhidos ás casas de trabalho, mas
não podiam continuar com sua vida pautada na ociosidade. Os americanos, de acordo com
o deputado, aproveitavam todos os homens com condições físicas para a construção de
calçadas e outros trabalhos nas cidades. No campo, os “ociosos” trabalhavam na
reconstrução e conservação de estradas ou na abertura de novas. O deputado ressaltava
que as casas destinadas ao trabalho na América do Norte eram instituições plenamente
livres.134
Após citar o exemplo da América do Norte no tratamento de seus ociosos, Paes
Leme passou a tratar da educação dos menores, assunto este contemplado no projeto de lei
de Ferreira Vianna. Novamente o parlamentar cita exemplos de instituições de outros
países, para logo em seguida referir-se ao Brasil. De acordo com o deputado, o
estabelecimento de Metray na França era considerado como modelo. Metray foi fundado
em 1839, pelo doutor Demetz e era um estabelecimento onde a mocidade culpada
encontrava a melhor educação e todos os elementos necessários para a sua regeneração,
dizia o deputado. As bases daquela instituição eram as seguintes: sentimento religioso,
laços de família e disciplina militar. Sobre estes princípios repousava a ajuda de
particulares que proporcionavam o atendimento a 800 meninos. Os meninos que lá viviam
se estabeleciam em casas separadas, “chalés”, onde ficavam em “turmas” constituindo
“famílias”, dirigidos por um maior que ficava responsável por eles. 135
O parlamentar ressaltava que os menores que residiam no estabelecimento
correcional Metray, foram convocados para a guerra de 1870 e lá brilharam pela sua
coragem e pelo seu patriotismo. Quando retornaram a Metray estavam cheios de
condecorações e alguns promovidos no exército.136
De acordo com Paes Leme, quando os meninos chegavam ao estabelecimento de
Metray, de início evadiam-se, mas logo após conhecerem o tratamento que iriam receber e
o diretor do estabelecimento, os meninos desejavam por lá ficar. Na casa correcional não
havia muros ao seu redor, visto isto os meninos poderiam de lá saírem quando assim o
desejassem.
Após dar o exemplo da casa correcional Metray, o parlamentar dizia que desejaria
que este exemplo fosse aplicado em nosso país, principalmente por ver a infância
desprotegida, completamente abandonada e sem nenhuma direção, vindo a se tornar

134
APB-CD. Sessão de 11 de outubro de 1888, p. 228
135
APB-CD. Sessão de 11 de outubro de 1888, p. 229
136
Idem, ibidem.
37

futuramente um elemento perturbador da sociedade.137


O deputado pela província de São Paulo, Almeida Nogueira, citou o exemplo da
legislação francesa dizendo que naquele país existia a admoestação pública. A autoridade
competente chamava o indivíduo que se encontrava em ociosidade ou em estado de
mendicidade á sua presença, e fazia-lhe uma admoestação pública. De acordo com o
parlamentar, a nossa legislação deu preferência ao sistema britânico, isto é, a instituição
dos termos de bem viver. Caso o indivíduo fosse pego em ociosidade, dado o caso de
infração do termo de bem viver, ele deveria ser processado judicialmente, pelo juiz. 138
No projeto de lei apresentado por Ferreira Vianna, a competência dada ao juiz seria
deixada aos tribunais correcionais compostos de jurados. De acordo com Almeida
Nogueira “ em países mais adiantados, essa instituição dos tribunais correcionais funciona
admiravelmente e, em matéria policial como esta, é deixada certa largueza de ação a estes
tribunais compostos dos homens bons das localidades”139. Na Inglaterra, de acordo com o
parlamentar, os tribunais correcionais tinham em suas mãos a possibilidade de oferecer o
perdão para os infratores. Esta medida, de acordo com o deputado, deveria ser “copiada”
em nosso país, pois:
“ muitas vezes em pequenos delitos, sem grande relevância, vê-se o juiz na necessidade de aplicar a
penalidade, embora tenha conhecimento de que os resultados dessa aplicação acarretam para a
sociedade males mais consideráveis do que aqueles produzidos pelo crime”.140

Por este motivo, acreditava o parlamentar que deveriam ser suspensas as penas
para os casos “simples”, no entanto, caso o indivíduo viesse a praticar um segundo crime,
“pagaria” pelas duas penalidades, aquela em que já havia sido condenado e a segunda
pena. Porém, ressaltava o deputado que não seria possível esta medida tão “ revestida de
sentimento humanitário”, enquanto não existisse os tribunais correcionais.141
Duarte de Azevedo deputado pela província de São Paulo, dizia que na Irlanda, as
penalidades não eram irredutíveis. O delinquente, conforme a sua conduta poderia passar
de uma pena mais grave para outra mais leve; de uma prisão mais severa para outra mais
branda, e seu aperfeiçoamento moral era levado em linha de conta para ser redimido da
pena. De acordo com o parlamentar, o ponto mais importante do projeto de lei de Ferreira
Vianna era justamente a “elasticidade da pena”, visando a observação de cada caso. Para
Duarte de Azevedo, esta medida era totalmente aceitável pois era aplicada em outros

137
Idem, ibidem.
138
APB-CD. Sessão de 12 de outubro de 1888, p. 243
139
Idem, ibidem.
140
Idem, ibidem.
141
Idem, ibidem.
38

países, como por exemplo na Irlanda, e produzia efeitos bastante benéficos.142


Como já foi dito no início desta exposição, os parlamentares traziam em suas falas
na Câmara, exemplos de repressão da ociosidade praticadas em outros países, visando dar
sustentabilidade ao projeto do então ministro da Justiça, ou oferecer outros exemplos para
se reprimir a ociosidade.

142
APB-CD. Sessão de 14 de novembro 1888, p. 129
39

Capítulo III – Opiniões divergentes: Outros Projetos.


3.1 Ideias discrepantes
Entre os parlamentares havia um consenso de que logo após a abolição do cativeiro,
os libertos pautariam a sua liberdade pela ociosidade. Os deputados em 1888
compartilhavam também da ideia de que as classes pobres eram as classes perigosas. A
opinião predominante era de que a ociosidade, vista como o maior dos vícios, exacerbava a
condição da pobreza e levava o sujeito pobre à marginalidade. A pobreza gerava
malfeitores e viciados, o que era altamente perigoso para o conjunto da população. Neste
momento, a relação entre ociosidade e criminalidade fez dos libertos e dos imigrantes os
principais suspeitos, pois as classes pobres eram formadas, em sua maioria, por ex-
escravos e estrangeiros. Era necessário, portanto, que fossem criadas medidas que viessem
reprimir os ociosos, principalmente os libertos e os imigrantes, tidos como os principais
causadores dos males da sociedade.
O projeto apresentado por Ferreira Vianna em julho de 1888 visava, sobretudo,
reprimir a ociosidade, a mendicidade e certos delitos pequenos, e devido a este
pensamento, o projeto de lei teve grande adesão entre os deputados. No entanto, alguns
parlamentares não concordavam com alguns artigos contidos no projeto ou, até mesmo,
eram totalmente contra ele. Estes parlamentares foram até a Câmara propor mudanças no
projeto, sugerir outras formas de repressão para a ociosidade e mostrar porque o projeto
apresentado por Ferreira Vianna não deveria ser aceito.
O deputado pela província da Bahia, Zama, afirmou que tinha “repugnância em
prestar o meu apoio a este projeto, pela consideração seguinte: por melhor que seja uma lei
que o parlamento tenha de decretar, importa muito saber quem vai executar esta lei”.143
Para o parlamentar, não estava muito claro no projeto quem iria executar a lei, como por
exemplo, quem iria obrigar os indivíduos a assinar os termos de bem-viver. Para Zama,
“nas mãos de um governo mau, esta lei que pode ser muito boa, presta-se a ser uma arma
de perseguição”144 . Por isto, na opinião do deputado, deveria, estar muito claro quem iria
executar a lei e os motivos que levaram a decretação de alguma pena para os ociosos, para
que a lei de repressão da ociosidade, não viesse a se tornar uma “arma de perseguição
desnecessária”.145
Outro parlamentar que deu sua opinião sobre o projeto foi Aristides Spinola. Desde

143
APB-CD. Sessão de 11 de outubro de 1888, p. 219
144
Idem, p. 222
145
Idem, ibidem.
40

o início de sua fala o deputado se mostrou contra a aprovação do projeto, pois segundo ele,
o projeto buscava alargar a esfera do Estado, “invadindo todas as relações sociais e a esfera
de poder das autoridades locais”146.
De acordo com o deputado, o projeto de lei era uma medida que visava a
centralização dos poderes, não respeitava a autonomia local das autoridades competentes e
tornava “uniforme todas as penas previstas”, por estes motivos, Aristides Spinola votou
contra o projeto.147 De acordo com o deputado era necessário dar-se uma atenção especial
para cada caso de infração cometido pelos ociosos, pois, “os vadios, os mendigos, os
menores culpados de qualquer parte do Império” não poderiam ser submetidos ao mesmo
regime, as mesmas normas de processo, ás mesmas penas”148. Na opinião do parlamentar,
dever-se-ia levar em consideração que nem sempre os casos ofereceriam os mesmos
perigos para a ordem pública. Para Aristides Spinola deveria ser levado em consideração a
competência das autoridades locais em estabelecer penalidades para os infratores dos seus
município. Deveria portanto, caber as municipalidades e as assembléias provinciais, o
poder de decretar as penas, pois “ os poderes locais poderão legislar com mais acerto sobre
a matéria, tendo atenção aos costumes, as circunstâncias, as necessidades...”.149
O deputado informou à Câmara que algumas províncias - como a Paraíba, a Bahia e
o Rio Grande do Sul - já haviam procurado regularizar a locação de serviços. Fazendo uma
sugestão aos seus colegas da Câmara, disse o deputado: “ as Câmaras municipais e as
assembléias provinciais podem, melhor do que o Estado, fundar estabelecimentos
correcionais e empregar medidas policiais contra os estados viciosos que o nobre Ministro
quer corrigir com o seu sistema penal”.150 Para o parlamentar, o Estado também não
poderia criar os estabelecimentos de que tratava o projeto e o deputado, dizia isto com base
em um exemplo:
“ se aqui na Corte, o Asilo de Mendicidade, segundo notícias de ordem oficial, assemelha-se a uma
das bolgias do inferno dantesco, imagine a Câmara o que serão os asilos das fronteiras do Império,
longe das vistas piedosas do honrado Ministro da Justiça”.151

Acreditava o parlamentar que as casas correcionais propostas no projeto não


seriam lugares para a regeneração dos culpados, mas sim, “ focos de corrupção e

146
Idem, p. 441
147
Idem, ibidem.
148
Idem, ibidem.
149
Idem, ibidem.
150
Idem, p. 444
151
Idem, p. 442
41

imoralidade mantidos á custa dos contribuintes”.152 Aristides Spinola dizia que as prisões
existentes se encontravam em péssimas condições e que no lugar de corrigir os
delinquentes, os corrompia e os depravava. Para o deputado não seria outro o destino dos
estabelecimentos correcionais propostos por Ferreira Vianna, embora o deputado não
acreditasse ao menos na criação de tais estabelecimentos :
“ os juízes são obrigados a converter em prisão simples as penas de prisão com trabalho, por falta
de estabelecimentos onde os condenados possam trabalhar. Como posso acreditar na criação dos
estabelecimentos, planejados pelo Ministro da Justiça nas 20 províncias do Império para a
correção dos vagabundos, turbulentos e mendigos?”153

O deputado Paes Leme pronunciou-se também sobre a criação dos estabelecimentos


correcionais propostos no projeto. Na opinião do deputado, os estabelecimentos deveriam
ser criados também no interior das províncias, transformando-se em “núcleos coloniais”154.
Estes estabelecimentos, na opinião de Paes Leme, poderiam se tornar “centros de atração e
regeneração dos condenados” e deveriam ser preferencialmente centros agrícolas, como já
estava previsto no projeto de Ferreira Vianna.155 Vale a pena ressaltar que Paes Leme era
um proprietário de terras da província do Rio de Janeiro e,provavelmente por este motivo,
pediu para que seus colegas deputados estudassem o projeto de Ferreira Vianna com
atenção e que aprovassem o estabelecimento de colônias agrícolas em todo o Império.
O deputado Pedro Luíz também compartilhava da ideia de que era indispensável a
criação de colônias agrícolas para a “ correção dos ociosos e vagabundos”.156 Para o
deputado, as “colônias agrícolas” deveriam ser fundadas em todas as províncias, criando-se
157
pelo menos uma colônia em cada província. De acordo com o deputado, em todas as
províncias haviam ociosos e vagabundos e somente com a instalação de várias colônias
agrícolas, poderia se obter o resultado previsto pelo autor do projeto, ou seja, ver extinta a
“classe” dos ociosos.158
O deputado Pedro Luíz pediu também que fosse regularizada a questão das prisões,
dividindo-se o país em um certo número de “zonas”, dotando-se cada uma delas com uma
prisão modelo. 159 As prisões locais, de acordo com o deputado, deveriam ser entregues as
províncias e sendo a elas recolhidos apenas os condenados a prisão simples, onde ali
deveriam aguardar o julgamento. Para o parlamentar, só assim haveria “uniformidade e

152
Idem, ibidem.
153
Idem, ibidem.
154
APB-CD. Sessão de 11 de outubro de 1888, p. 227
155
Idem, ibidem.
156
APB-CD. Sessão de 11 de outubro de 1888, pp.229-230
157
Idem, ibidem.
158
Idem, ibidem.
159
Idem, p. 230
42

unidade, procedendo com rigor no cumprimento das penas em todo o Império”.160


O deputado Pedro Luiz sugeriu que poderiam ser aproveitados os conventos que
estavam abandonados e também as fazendas pertencentes as ordens religiosas, para
servirem de prisões. Para o deputado, as unidades correcionais deveriam produzir a renda
suficiente para o seu custeio, desta forma, não produziriam grandes gastos para os cofres
públicos e poderiam ser criadas em todas as províncias.161
Embora o deputado Pedro Luiz tenha feito algumas sugestões ao projeto de Ferreira
Vianna, votou contra a aprovação do projeto, porque, de acordo com o deputado, ele
designava para a magistratura importantes atribuições e estas não se encontravam em
“condições de independência suficiente para se colocarem fora de ameaças e perseguições
do governo”162. Visto isto, na opinião de Pedro Luiz, a magistratura não era uma garantia
de que a lei seria cumprida em sua totalidade.163 O parlamentar afirmava ter “receio que os
juízes de paz que têm de aplicar as leis contra os ociosos, que têm de obrigá-los a assinar
termo de bem viver, não o façam e muitas vezes obriguem indivíduos a assinar injusta e
arbitrariamente”.164 De acordo com o deputado, seria preferível dar esta função aos juízes
municipais, com apelação para o juiz de direito, pois: “as garantias seriam maiores, os
julgamentos inspirariam mais confiança”.165
O deputado Lacerda Wernerck, no intuito de dar uma solução para a ociosidade dos
libertos,166 propôs o recrutamento para eles, a fim de “evitar abusos e conter estes
perturbadores da ordem”.167 Dizia o parlamentar:
“confesso à Câmara que desde hoje eu hipotecaria o meu voto ao Sr. Ministro da Justiça e ao nobre
Presidente do Conselho, se promovessem com a máxima celeridade a passagem e sanção de uma lei
tornando em pleno vigor o recrutamento”168.

Vale a pena ressaltar que quando o deputado pela província do Rio de Janeiro
falava em tornar obrigatório o recrutamento, estava se referindo exclusivamente ao
recrutamento dos libertos.
O Ministro da Guerra propôs também o recrutamento dos libertos para “preencher a
falta de indivíduos dentro do exército”169. Para Pacifico Mascarenhas se o recrutamento

160
Idem, ibidem.
161
Idem, ibidem.
162
Idem, p. 232
163
Idem, ibidem.
164
Idem, p. 244
165
Idem, ibidem.
166
APB-CD. Sessão de 20 de julho de 1888, p. 232
167
Idem, ibidem.
168
Idem, ibidem.
169
APB-CD. Sessão de 2 de agosto de 1888, p. 409
43

fosse feito regularmente, limitando-se aos vadios e ociosos, produziria ótimos resultados.
No entanto, ressaltava que se fosse convertido em arma política de perseguição,
ocasionaria em um mal para a lavoura e para o comercio”170.
Já para o autor do projeto e também para outros parlamentares, não seria o
recrutamento dos libertos uma solução para os males da ociosidade e sim, dever-se-ia
buscar dar uma boa instrução para aqueles indivíduos, medida esta contemplada no projeto
apresentado por Ferreira Vianna. De acordo com Ferreira Vianna a medida de
recrutamento não era viável, porque não se poderia permitir que o governo prendesse
cidadãos a título de recrutamento, quando o “exército se encontrava completo”.171
Para o deputado pela província do Ceará Ratisbona, o recrutamento dos libertos
possuía um gravíssimo inconveniente que era “não se poder por este meio levar nunca ao
exercito um pessoal moralizado e digno”172. De acordo com o parlamentar deveria-se
primeiramente “corrigir” os vadios e os vagabundos, moralizando-os pelo trabalho.173
Salientava o deputado que preferia portanto, a aprovação do projeto de lei apresentado por
Ferreira Vianna, pois não se poderia permitir que indivíduos “não moralizados” fizessem
parte da força pública.174
Na sessão realizada em 9 de novembro de 1888, o deputado pela província do
Ceará, Ratisbona, buscou solucionar também o “problema” da ociosidade no país e sugeriu
mudanças no projeto de lei apresentado por Ferreira Vianna175. O parlamentar disse que
reconhecia a necessidade das medidas propostas pelo Ministro da Justiça, porém,
acreditava que as medidas deveriam ser mais amplas e não limitar-se “á punição dos
pequenos delitos de vagabundagem, mendicidade e ociosidade”.176 De acordo com o
deputado deveriam ser criados além dos estabelecimentos correcionais e disciplinares
destinados aos ociosos, asilos para os inválidos e os mendigos de outra ordem177.
O deputado Ratisbona combateu durante a sua fala as penas estabelecidas no
projeto, por lhes parecerem severas demais. Acreditava o parlamentar, que os delitos
deveriam estar sujeitos à correção da justiça, antes como uma medida para preveni-los do
que como uma punição propriamente dita. De acordo com o parlamentar o objetivo da
penas deveriam ser em primeiro lugar a punição do culpado e em segundo lugar, deveria
170
Idem, ibidem.
171
APB-CD. Sessão de 20 de julho de 1888, p. 236
172
APB-CD. Sessão de 2 de agosto de 1888, p. 395
173
Idem, ibidem.
174
Idem, ibidem.
175
APB-CD. Sessão de 9 de novembro de 1888.
176
Idem, p. 79
177
Idem, ibidem.
44

servir como exemplo para outros possíveis infratores178,portanto, não necessitariam ser
“severas demais”.
Ainda no mês de novembro do ano de 1888, Duarte de Azevedo veio propôs a
“simplificação” do projeto de lei apresentado por Ferreira Vianna, buscando “limitar o
número de estabelecimentos de correção e disciplina, que o projeto tinha em vista criar”179.
O parlamentar afirmou que gostaria de ver “derramadas” por toda a extensão do território
do Império, nas capitais e mesmo pelo interior das províncias os estabelecimentos de
correção e de disciplina, previstos no projeto180. No entanto, tinha consciência de que estes
estabelecimentos demandariam grandes despesas para o governo, despesas estas que o
governo não possuía condições de arcar.
Propondo uma solução para a criação dos estabelecimentos correcionais, sem
demandar despesas excessivas, Duarte de Azevedo disse que:
“ se eu fosse o nobre Ministro, criaria no município da Corte somente dois estabelecimentos, um
para a correção dos infratores dos termos de bem-viver, e outro para a disciplina dos menores de 17
anos, também infratores dos termos de bem-viver, e para os menores de 14 anos que se acharem nas
circunstâncias do artigo 13 do Código Criminal”181.

Tendo em vista a criação de somente dois estabelecimentos na Corte, um para a


correção dos infratores dos termos de bem-viver e outro para os menores infratores, o
parlamentar tinha em mente converter o projeto em um ensaio, em uma experiência, que
para ele, seria a “base de todas as tentativas bem entendidas em matérias de legislação e de
governo”.182
Afirmando ter conversado com o Ministro da Justiça, Duarte de Azevedo disse que
o autor do projeto entendeu os motivos da elaboração de suas emendas, pois, haveria uma
imensa dificuldade de criar naquele imediato momento em todas as províncias
183
estabelecimentos correcionais e disciplinares. Buscando dar uma sugestão, Duarte de
Azevedo disse que seria interessante que os estabelecimentos correcionais fossem criados
somente em alguns municípios, visto que “no interior das províncias, pouco uso se fazia do
termo de bem-viver”184.
De acordo com Duarte de Azevedo, para que o regime do projeto fosse aplicado e
produzisse os resultados almejados, seria essencial que todos os infratores dos termos de

178
Idem, ibidem.
179
APB-CD. Sessão de 14 de novembro de 1888, p. 130
180
Idem, ibidem.
181
Idem, ibidem.
182
Idem, ibidem.
183
Idem, p. 131
184
Idem, ibidem.
45

bem-viver fossem transportados para os lugares em que existissem casas disciplinares ou


de correção. No entanto, entendia que seria dispendioso o transporte nestes casos, mas
necessário para os casos de reincidência.185
Segundo o projeto apresentado por Ferreira Vianna, os estabelecimentos para o
cumprimento da pena de reincidência seriam criados nas fronteiras. No entanto, salientou
Duarte de Azevedo que:
“ conduzir-se um indivíduo para uma capital importante onde houvesse casa de trabalho
obrigatório, e depois de restituído do seu domicílio, no Maranhão ou no Pará, transportá-lo, por
haver reincidido em infração de um termo de bem-viver, para a fronteira do Rio Grande do Sul ou
Mato Grosso, seria isto além de muito despendioso, muito vexatório”.186

Portanto, afirmava Duarte de Azevedo, que o projeto não poderia “sem grandes
constrangimentos”, ser executado em sua plenitude, se não fossem criados todos os
estabelecimentos de correção e de disciplina em todas as províncias. No entanto, era do
conhecimento de todos que criar estabelecimentos disciplinares e correcionais em todas as
províncias do Império, e os de segunda condenação em todas as províncias fronteiras, seria
impossível, principalmente devido aos gastos.187
Devido aos inconvenientes que traria a criação de tantos estabelecimentos
correcionais, Duarte de Azevedo buscou propor aos seus colegas, a criação de
estabelecimentos correcionais e disciplinares no ponto onde eram mais necessários,
deixando as províncias, no uso que possuíam para legislarem sobre prisões e casas de
correção, criar estabelecimentos similares afim de que neles se aplicassem o mesmo
regime do novo sistema correcional188. Esta era portanto, a emenda fundamental proposta
por Duarte de Azevedo.
Tendo em mente de que não seria possível criar estabelecimentos correcionais
senão na Corte, Duarte de Azevedo propôs a supressão de estabelecimentos nas fronteiras
para a pena de reincidência, devendo ela ser cumprida com as proporções estabelecidas no
projeto no mesmo estabelecimento que fosse criado na Corte. Em vez de três meses a um
ano de trabalho obrigatório, o reincidente deveria permanecer no estabelecimento de um a
três anos189.
O parlamentar disse também que deveriam ser obrigados a assinar os termos de
bem-viver os indivíduos de que tratava o artigo 1º do projeto de Ferreira Vianna:

185
Idem, ibidem.
186
Idem, ibidem.
187
Idem, ibidem.
188
Idem, ibidem.
189
Idem, ibidem.
46

Art. 1º . Parágrafo único. São também sujeitos a assinar o termo de bem viver:
I. Aquele que tira a sua subsistência de especulação desonesta ou proibida por lei;
II. Aquele que com fim de lucro mandar o menor mendigar, ou concorrer de qualquer modo para
que ele o faça. A pena neste caso será a da reincidência.190

Para o deputado não havia indivíduos de conduta mais reprovada e a quem com
mais fundamento se obrigasse a assinar o termo, do que os compreendidos no artigo
primeiro do projeto e este principio deveria portanto ser seguido “a risca”. O parlamentar
dizia ser a favor também da assinatura dos termos de bem-viver pelos incursos nos crimes
de vadiação e de mendicidade.
Após expor os motivos que o levaram a “simplificar” o projeto de lei de Ferreira
Vianna, Duarte de Azevedo disse que:
“pesa-me que o nobre Ministro não possa realizar a sua obra grandiosa, estabelecendo casas que eu
chamei antes de educação do que de correção, em todas as províncias, disseminadas por todo o
território. Seria um grande meio este de prevenir a prática de crimes e de preparar para o trabalho
honesto muitos indivíduos, que ficaram perdidos para si e para a sociedade sem esta prevenção
salutar”.191

Ressaltava o deputado que infelizmente as circunstâncias do Tesouro não eram


nada favoráveis para a criação dos estabelecimentos previstos no projeto de Ferreira
Vianna, e por isto, buscou através de algumas emendas limitar, “não o sistema, mas a
extensão do projeto do ministro da Justiça”.192
Ao término da sessão realizada em 14 de novembro de 1888, Duarte de Azevedo
foi cumprimentado pelo Ministro da Justiça, suas emendas foram colocadas á mesa, lidas,
apoiadas e entraram em discussão. Seguem abaixo as emendas:
Art. 1º Substitua-se pelo seguinte:
O governo criará no lugar em que julgar mais conveniente do município neutro um estabelecimento
destinado a correção dos infratores do termo de bem viver.
Parágrafo único. Além dos referidos no art. 12, parágrafo 3º do Código do Processo Criminal, são
sujeitos a assinar termo de bem viver: (o mais como no artigo).
Art. 2º Em vez de – nos estabelecimentos correcionais – diga-se, no estabelecimento correcional.
Parágrafo único. Substitua-se pelo seguinte:
Será criado no município neutro um estabelecimento disciplinar para os menores de 17 anos
condenados por infração do termo de bem viver, e os compreendidos na disposição do artigo 13 do
Código Criminal.
Art. 3º Em vez de- correcionais ou disciplinares- diga-se correcional ou disciplinar.
Acrescente-se o seguinte artigo:
As disposições desta lei irão se aplicar aos estabelecimentos disciplinares ou correcionais que com o
mesmo destino forem criados nas províncias, observando-se, em falta deles, as disposições
anteriores, com as do art. 1º, parágrafo único, art. 4º, 5º e 6º da presente lei.

Como se pode notar, alguns parlamentares não concordavam com os artigos


contidos no projeto ou até mesmo, eram totalmente contra ele, a exemplo de Aristides

190
APB-CD. Sessão de 20 de junho de 1888, p. 310.
191
Idem, p. 132
192
Idem, ibidem.
47

Spinola. Estes parlamentares vieram até a Câmara propor mudanças, sugerir outras formas
de repressão da ociosidade, como por exemplo o recrutamento dos libertos, e propor
algumas emendas que visavam “simplificar” o projeto, como o fez Duarte de Azevedo.

3. 2 Outros projetos que visavam reprimir a ociosidade


Logo após a abolição do cativeiro, os parlamentares entenderam que era necessária
a aprovação de medidas de controle que pudessem transformar uma sociedade que
convivera durante mais de três séculos com a escravidão em uma sociedade livre. Ao
longo deste trabalho analisamos as medidas propostas por Ferreira Vianna para reprimir os
ociosos, em especial os libertos e os imigrantes, tido como os principais perturbadores da
sociedade. Porém, como veremos a seguir, o projeto de Ferreira Vianna não foi o único
apresentado à Câmara que visava reprimir os ociosos, outros parlamentares também
apresentaram projetos semelhantes e que contrariavam algumas das disposições propostas
pelo então Ministro da Justiça.
Na sessão realizada em 4 de junho de 1888, portanto, antes da apresentação do
projeto de Ferreira Vianna, o deputado pela província do Rio de Janeiro, Rodrigues
Peixoto, apresentou à Câmara dos Deputados um projeto de lei que visava reprimir os
ociosos, projeto este que recebeu o número 13. De acordo com o deputado, o projeto que
ele iria apresentar não era uma “novidade em outros países livres”.193 Rodrigues Peixoto
disse que havia acabado de ver transformado em lei o projeto que estava apresentando, na
República da Argentina:
“Acabo de vê-lo transformado em lei na República da Argentina, que não pode ser suspeita em
questão de garantias individuais. Ali, quer na província de Tucuman, quer na de Santiago del Estero,
esta realizado o objeto de meu projeto”. 194

De acordo com Rodrigues Peixoto se na Argentina, país considerado livre na


opinião do deputado, já havia sido implantada uma lei que visava reprimir os ociosos, nada
mais justo seria a aprovação de uma lei semelhante em nosso país.195 O deputado informou
que o projeto que estava apresentando não trazia grandes modificações nas penas que já
existiam para os ociosos no Brasil, e nem acarretava a utilização de verbas novas:
“Não são também novas as penas que nele figuram: não fiz mais do que compendiar aquilo que já
existia consagrado no Código Criminal e no Código do Processo. Também não procurei criar
despesas novas; aproveitei, para evitá-las, instituições já existentes no país”.196

193
APB-CD. Sessão de 4 de junho de 1888, p.3
194
Idem, ibidem.
195
Idem, ibidem.
196
Idem, ibidem.
48

Para o deputado eram necessárias medidas urgentes que viessem a reprimir a


ociosidade, pois “encaminhar o povo para uma ocupação honesta e útil, era dever da pátria
e seria de grande utilidade para o país que acabara de ver extinta a escravidão”. 197 Foi em
vista da nova situação em que se encontrava o país, que Rodrigues Peixoto disse ter
organizado um projeto que visava reprimir a ociosidade.
Enquanto o projeto de lei apresentado por Ferreira Vianna em 20 de junho de 1888
visava dar instrução para a população ociosa e conter assim a ociosidade, mesmo tendo em
vista a criação de uma população disponível e disposta a realizar trabalhos para os grandes
proprietários, Rodrigues Peixoto buscava através de medidas mais “enérgicas” dar uma
solução para os males da ociosidade. Em seu primeiro artigo, o projeto de Rodrigues
Peixoto dizia que:
Art. 1º O governo mandará proceder em todos os distritos de paz do Império, pelos inspetores de
quarteirão, sob a direção de juízes de paz, ao arrolamento de todas as pessoas que não tenham
ocupação honesta e útil de que possam subsistir.198

Ficaria, portanto, a cargo dos inspetores de quarteirão, saber quais eram as pessoas
que não possuíam uma ocupação “honesta”. Após feito o “arrolamento”, o juiz de paz
deveria intimar os “ociosos” dentro de um prazo breve, a mostrarem-se ocupados, sob pena
de prisão com trabalho de um à três meses se não conseguissem provar que estavam
trabalhando.199 Caso o indivíduo fosse reincidente, deveria ser obrigado a se alistar
“forçosamente” no exército pelo prazo de cinco anos.200
Para os ociosos que possuíam uma idade superior á trinta e cinco anos, Rodrigues
Peixoto estabeleceu que deveriam ser condenados a trabalhos nas obras públicas,
provinciais e gerais, ou ainda nas colônias do Estado, pelo prazo também de cinco anos.201
O projeto de Rodrigues Peixoto, ao contrário do apresentado por Ferreira Vianna,
não teve “andamento” na Câmara dos Deputados. No entanto, em 8 de outubro de 1888, o
deputado veio até a Câmara dar a sua opinião sobre o projeto do então Ministro da Justiça,
e propor também algumas modificações.
O parlamentar Rodrigues Peixoto que se dizia um “membro da classe da lavoura”202
concordava que era de uma grande vantagem aos interesses públicos uma lei que viesse a
reprimir a ociosidade e a mendicidade. Porém, fez inúmeras restrições quanto ao projeto

197
Idem, ibidem.
198
Idem, ibidem.
199
Idem. Artigo 2º do projeto apresentado por Rodrigues Peixoto.
200
Idem. Artigo 3º do projeto apresentado por Rodrigues Peixoto.
201
Idem. Artigo 5º do projeto apresentado por Rodrigues Peixoto.
202
APB-CD. Sessão de 8 de outubro de 1888, p. 150
49

apresentado por Ferreira Vianna.


De acordo com o deputado, o projeto número 33 não possuía uma realidade prática
e se fosse viável traria grandes vantagens, principalmente para a classe agrícola.203 Na
opinião de Rodrigues Peixoto, o projeto de lei de Ferreira Vianna demandaria enormes
despesas para o país, despesas estas que o país não tinha condições de arcar.
Segundo Rodrigues Peixoto, as leis que obrigavam um indivíduo a trabalhar eram
medidas excessivas, no entanto dizia, que dar aos ociosos educação, medida esta proposta
por Ferreira Vianna, seria um “caminho muito longo” e que necessitaria de grandes
demandas em dinheiro204. Visto isto, fazia-se necessário a criação de leis que viessem de
fato obrigar os indivíduos a trabalhar. Rodrigues Peixoto era da opinião de que oferecer “a
instrução publica só por si não bastaria: é preciso incutir-se na população hábitos de uma
vida confortável e de economia, porque só assim lhe despertaremos o estimulo e o
interesse para o trabalho”205.
Discordando de uma das disposições do projeto de Ferreira Vianna, o parlamentar
Rodrigues Peixoto acreditava que os ociosos não deveriam dedicar-se preferencialmente ao
comércio e à lavoura nos estabelecimentos correcionais. Dizia o parlamentar que:
“ querer obrigar todos os indivíduos a dedicarem-se a estas duas industrias (comércio e a lavoura)
exclusivamente, seria desconhecer a lei das vocações (...) nem todos se podem dedicar ao comercio,
não só porque faltaria a muitos inclinação precisa, como faltariam também os capitais e o mesmo
acontece com a lavoura”206.

Para o deputado, dever-se-ia seguir o exemplo da América do Norte, onde o Estado


estimulava o trabalho nacional. Dizia Rodrigues Peixoto que estimulando outras fontes de
trabalho, com o passar do tempo, diminuiria consideravelmente o número de
“vagabundos” e de ociosos, porque cada indivíduo encontraria uma ocupação que se
harmonizaria com as suas forças, com a sua inteligência e com as suas aptidões.207 Visto
isto, não se poderia obrigar os ociosos a se dedicarem preferencialmente ao comércio e a
lavoura, como pretendia Ferreira Vianna em seu projeto.
Durante a sua fala na Câmara, o deputado pela província do Rio de Janeiro
comentou sobre os vários exemplos de repressão da ociosidade praticado em outros países.
De acordo com o parlamentar, todos os povos da Europa havia já criado disposições
relativas à repressão da “vagabundagem”, estendendo-se essas disposições também aqueles

203
Idem, ibidem.
204
APB-CD. Sessão de 8 de Outubro de 1888, p. 152
205
Idem, ibidem.
206
Idem, p. 153
207
Idem, ibidem.
50

que pediam esmola a caridade pública e faziam disso uma profissão.208


Na República da Argentina, afirmou Rodrigues Peixoto, existiam disposições
“severíssimas” com relação a ociosidade. No país, existiam leis que não só reprimiam a
ociosidade e a mendicidade, como constituíam em um verdadeiro código para a locação de
serviço. Tomando como exemplo a República da Argentina, Rodrigues Peixoto apresentou
no artigo 5º de seu projeto, uma disposição semelhante a daquele país:
Art. 5º Os contratos de locação de serviço agrícola serão celebrados por escrito particular,
estipulando-se as penas convencionais para as respectivas transgressões. 209

Segundo Rodrigues Peixoto, a polícia na Argentina possuía o direito de indagar


qual era a ocupação daqueles que lhe pareciam suspeitos e se por ventura se convencesse
de que se tratava de um ocioso, um elemento inútil para a sociedade, obrigava-o a procurar
uma ocupação em prazo estipulado. Após ser intimado pela polícia, o cidadão deveria
comprovar que possuía uma ocupação e se por acaso não a tivesse encontrado, este papel
caberia a polícia. A pessoa a quem era entregue o cidadão naquelas condições, fazia com
ele um contrato, pelo qual o locador se obrigava a prestar-lhe serviços por um ano no
máximo e mediante salário.210
Para Rodrigues Peixoto, se a República da Argentina, adotava medidas desta ordem
e que produziam bons resultados, deveria o Brasil adotar as mesmas medidas para
controlar a ociosidade. O parlamentar confessava que estas medidas interferiam na esfera
da vida do cidadão e obrigava-o a abrir mão da sua liberdade. Porém, de acordo com o
deputado, a situação em que se encontra o país demandava medidas extremas, como as
medidas adotadas pela Argentina.211 Inspirado provavelmente no exemplo da lei de
repressão da ociosidade em vigor na República da Argentina, Rodrigues Peixoto elaborou
o seu projeto que em muito se assemelhava a lei aplicada naquele país. No entanto, como
já foi dito acima, seu projeto não entrou em discussão na Câmara.
Outros parlamentares apresentaram no ano de 1884, um projeto de lei que visava
também reprimir a ociosidade. Na sessão realizada em 12 de outubro de 1888, ocasião esta
em que os deputados debateram o projeto de Ferreira Vianna, Mac Dowell informou que
em 1884, há exatos quatro anos antes daquele debate, havia sido apresentado pelo
deputado do Sergipe Coelho Campos, com o seu colega parlamentar Oliveira Ribeiro, um
projeto que buscava modificar a legislação existente sobre a repressão da ociosidade, com

208
Idem, p. 150
209
APB-CD. Sessão de 4 de junho de 1888, p. 3
210
APB-CD. Sessão de 8 de outubro de 1888, p. 151
211
Idem, ibidem.
51

o mesmo pensamento capital do projeto apresentado por Ferreira Vianna.212


O projeto apresentado pelos parlamentares em 1884 foi realizado, segundo Mac
Dowell, devido aos clamores que se levantavam no Rio de Janeiro, por conta de uma classe
de ociosos “turbulentos” chamados de “capoeiras”.213 O projeto, de acordo com o
deputado, teve andamento e ofereceu um substitutivo, que foi modificado por alguns
parlamentares, entre eles Duarte de Azevedo.214
Segundo Mac Dowell, atendendo a uma grande dificuldade, a mesma encontrada no
projeto apresentado por Ferreira Vianna, a do dispêndio avultado de verbas, os autores
daquele projeto limitaram-se a procurar uma correção maior, mais severa, para aquela
classe de turbulentos, sujeitando-os á penalidade máxima de nove anos de prisão com
trabalho, “pena esta que escolheram pelo seu caráter fortemente moralizador”, e que
deveria ser cumprida nas colônias militares que já se encontravam nas fronteiras do
Império.215 Os infratores seriam, portanto, sujeitados ao regime militar dos respectivos
estabelecimentos, o que diminuiria consequentemente, as despesas, na opinião de Mac
Dowell.
Este projeto de que falava Mac Dowell também estabelecia algumas disposições a
uma classe que era considerada muito prejudicial á ordem pública e a segurança das
famílias, a dos “gatunos”. Naquele projeto seria dado a ação pública o poder de se aplicar
as devidas penalidades.216
O projeto apresentado em 1884 e o projeto apresentado por Rodrigues Peixoto no
ano de 1888, ambos visando a repressão da ociosidade, não tiveram “andamento” na
Câmara. Embora o projeto de Ferreira Vianna tenha sido debatido e aceito por boa parte
dos parlamentares, a sua terceira e última discussão não aconteceu, devido a dissolução da
Câmara dos Deputados em junho de 1889 e a proclamação da República em novembro.

212
APB-CD. Sessão de 12 de outubro de 1888, p. 245
213
Idem, ibidem.
214
Idem, ibidem.
215
Idem, pp. 245-246
216
Idem, ibidem.
52

Considerações finais
No ano de 1889, Ferreira Vianna, autor do projeto de lei sobre a repressão da
ociosidade, foi nomeado pelo Imperador para o cargo de Ministro e Secretário de Estado
217
dos Negócios do Império, deixando, portanto, o cargo que ocupava como Ministro da
Justiça. No mesmo ano, a Câmara dos Deputados foi dissolvida pelo decreto nº. 10251 de
junho, e a República instaurada em 15 de novembro.
Após a dissolução da Câmara dos Deputados e a instauração da República, o
projeto de lei sobre a repressão da ociosidade não foi mais discutido. O desfecho para o
problema da “ociosidade” no país irá acontecer somente no ano de 1890, com a
promulgação do Código Penal pelo decreto nº 847 de 11 de outubro. No Código Penal o
Estado cria à contravenção da vadiagem:
“Capítulo XIII – Dos Vadios e Capoeiras.”
Art. 399. Deixar de exercer profissão, ofício, ou qualquer mister em que ganhe a vida, não possuindo
meio de subsistência e domicílio certo em que habite; prover a subsistência por meio de ocupação
proibida por lei, ou manifestamente ofensiva da moral e dos bons costumes: Pena – de prisão celular
por quinze a trinta dias.218

Nota-se portanto, através do Código Penal, que passou a ser alvo da repressão
policial todos os indivíduos que não possuíam meios de subsistência e também aqueles que
não tinham uma moradia. Do mesmo modo, deveriam ser punidos os indivíduos que
possuíam ocupações proibidas por lei.
Os ociosos a partir do Código Penal tornaram-se “criminosos” pelo fato de serem
contrários a “lei” do trabalho. A prisão deveria servir como uma punição para aqueles que
se recusavam a trabalhar e tinha como intuito obrigar a população ociosa a procurar uma
ocupação “honesta”:

217
APB-CD. Sessão de 2 de maio de 1889.
218
Anais da Câmara dos Deputados. Decreto nº 847, de 11 de Outubro de 1890. Código Penal.
Disponível em:
<http://www2.camara.gov.br/legislacao/legin.html/textos/visualizarTexto.html?ideNorma=503086&seqTexto
=1&PalavrasDestaque=codigo%20penal>
53

Art. 399. §1º Pela mesma sentença que condenar o infrator como vadio, ou vagabundo, será ele
obrigado a assinar termo de tomar ocupação dentro de quinze dias, contados do cumprimento da
pena.”219

A polícia, geralmente, não respeitava o prazo de quinze dias para que o ocioso
encontrasse uma ocupação honesta, como salienta Maria Vieira de Carvalho220. Nas
operações destinadas a “varrer” das ruas os ociosos, eles eram recolhidos e levados para a
prisão, não se cumprindo, portanto, o prazo estipulado. 221
No segundo parágrafo do artigo 399 do Código Penal, caberia ao poder público
assumir a tarefa de ensinar o valor do trabalho para os condenados entre quatorze e vinte
um anos de idade:
§ 2º Os maiores de 14 anos serão recolhidos a estabelecimentos disciplinares industrias, onde
poderão ser conservados até á idade de 21 anos.222
Nesta perspectiva, ficava a cargo do poder público formar e disciplinarizar os
“jovens ociosos” para o mercado de trabalho. Já para os indivíduos reincidentes, ou seja,
aqueles que não haviam respeitado o termo de bem viver já assinado, caberiam penas mais
severas:
Art. 400 - Se o termo for quebrado, o que importará reincidência, o infrator será recolhido, por um a
três anos, a colônias penais, que se fundarem em ilhas marítimas, ou nas fronteiras do território
nacional, podendo para esse fim ser aproveitados os presídios militares existentes.
Parágrafo único. Se o infrator for estrangeiro será deportado.223

Neste artigo do Código Penal, nota-se aceito o pensamento do projeto de Ferreira


Vianna. Os ociosos reincidentes deveriam ser “recolhidos” a colônias penais e deveriam
ficar no local de um a três anos. Estas colônias por sua vez, seriam fundadas em ilhas
marítimas ou nas fronteiras do território nacional, tal como dizia o projeto número 33 de
1888. Para os estrangeiros reincidentes, a pena prevista era mais “severa”, podendo até
mesmo fazer sair do território nacional.
Outra relação enunciada pelo Projeto de Repressão da Ociosidade e legitimada pelo
Código
Penal, abordava à articulação entre pobreza e vadiagem. Tal relação foi afirmada no artigo
401:
Art. 401 – A pena imposta aos infratores, a que se referem os artigos precedentes, ficará extinta se o

219
Idem, ibidem.
220
CARVALHO, M. V. Vadiagem e Criminalização: a formação da marginalidade social no Rio
de Janeiro de 1888 a 1902. Rio de Janeiro, ANPUH RJ, 2006.
221
Idem, ibidem.
222
Anais da Câmara dos Deputados. Decreto nº 847, de 11 de Outubro de 1890. Código Penal.
Disponível em:
<http://www2.camara.gov.br/legislacao/legin.html/textos/visualizarTexto.html?ideNorma=503086&seqTexto
=1&PalavrasDestaque=codigo%20penal>
223
Idem, ibidem.
54

condenado provar superveniente aquisição de renda bastante para sua subsistência; e suspensa, se
apresentar fiador idôneo que por ele se obrigue.
Parágrafo único. A sentença que, a requerimento do fiador, julgar quebrada a fiança, tornará efetiva
a condenação suspensa por virtude dela.224

Da mesma forma que previa o projeto de Ferreira Vianna, o Código Penal também
dizia que caso o indivíduo comprovasse meios suficientes de subsistência não seria
considerado um ocioso e nem constituiria um perigo para a sociedade. A contravenção da
vadiagem era caracterizada pela suposição de que o indivíduo que não tinha meios de
subsistência, fosse recorrer a meios ilícitos para sobreviver, e portanto, deveria ser
penalizado antes pela suposição do que por um ato delituoso em si.
No Código Penal fica claro que as classes pobres eram consideradas as classes
perigosas. Era o estado de pobreza que gerava os malfeitores e viciados, o que era
altamente perigoso para o conjunto da população. Neste momento, a relação entre
ociosidade e criminalidade tomou os libertos como principais suspeitos, pois as classes
pobres eram formadas, em sua maioria por ex-escravos.

224
Idem, ibidem.
55

Bibliografia
Fontes:
Impressos oficiais

Anais da Câmara dos Deputados, junho de 1888 a maio de 1889. Disponível em:
<http://www2.camara.gov.br/publicacoes>

Anais da Câmara dos Deputados. Decreto nº 847, de 11 de Outubro de 1890. Código


Penal. Disponível em:
<http://www2.camara.gov.br/legislacao/legin.html/textos/visualizarTexto.html?ideNorma=
503086&seqTexto=1&PalavrasDestaque=codigo%20penal>

Bibliografia:
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1981.
CARVALHO, M. V. Vadiagem e Criminalização: a formação da marginalidade social no
Rio de Janeiro de 1888 a 1902. Rio de Janeiro, ANPUH RJ, 2006.
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MENDONÇA, Joseli Maria Nunes. Entre a Mão e os Anéis - a lei dos sexagenários e os
caminhos da abolição no Brasil. 1º ed. Campinas, Editora UNICAMP, 1999.
PEREIRA, M. R. M. Semendo iras rumo ao progresso: ordenamento jurídico e econômico
da sociedade paranaense, 1829-1889. 1º ed. Curitiba, Editora da UFPR, 1996.
SECRETO, María Verónica. Coagir para disciplinar: História Comparada da formação
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