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LILY

FREITAS
2019
Copyright © 2019 – Lily Freitas


Capa: Barbara Dameto
Revisão: Margareth Antequera
Diagramação: Denilia Carneiro

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da
imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

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NA ESTRADA COM O CEO
1ª Edição
2019
__________________________________

Todos os direitos reservados.

São proibidos o armazenamento e / ou a reprodução de qualquer parte dessa obra, através de quaisquer
meios ─ tangível ou intangível ─ sem o consentimento escrito da autora.

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei nº. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código
Penal.

SUMÁRIO
SINOPSE
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
CAPÍTULO 27
CAPÍTULO 28
CAPÍTULO 29
CAPÍTULO 30
CAPÍTULO 31
CAPÍTULO 32
CAPÍTULO 33
CAPÍTULO 34
CAPÍTULO 35
CAPÍTULO 36
CAPÍTULO 37
CAPÍTULO 38
CAPÍTULO 39
CAPÍTULO 40
EPÍLOGO
LIVRO FÍSICO EM BREVE PELA EDITORA ALLBOOK.



SINOPSE


Ter que aturar um chefe exigente todos os dias não é uma tarefa fácil para
Samantha, agora aturá-lo na sua cola em uma viagem de negócios, certamente
seria um verdadeiro inferno.
No entanto, quando um bem-humorado flerte durante um drinque foge do
controle, Sam acaba sucumbindo ao desejo que sente por Zander e descobre que
seu chefe é muito mais que um CEO soberbo e ranzinza. Ele, na verdade, é uma
irresistível perdição.
A viagem deles acaba ganhando um novo rumo, levando a ambos para um
período de descobertas e muita paixão. Entretanto, Samantha percebe que ceder
ao desejo que explode incontrolavelmente a cada vez que se encontram é um
grande risco para o seu tão castigado coração.
Na Estrada com o Ceo é uma comédia romântica apimentada, com dois
protagonistas carismáticos prontos para roubarem o seu coração.
CAPÍTULO 1

Samantha

Chegar atrasada terá um preço alto, sei o quanto meu chefe é um maníaco
controlador. Ele tem um código interno na empresa, onde a hora de entrar e sair
ganhou destaque especial. Sem contar a parte de contato pessoal, ele não gosta
que os funcionários se toquem, isso se estende, é claro, a relacionamentos
pessoais, se ele imaginar que existe algo romântico entre os funcionários, uma
guerra será declarada.
Zander é absurdamente chato. O intolerante acha que todos nós devemos
seguir seu estilo de vida controlador. É irritante o quanto ele pode ser implicante
ao longo do dia quando eu me atraso.
Eu sei que ele conseguiu transformar as duas pequenas lojas de utilidades
domésticas do pai, que ficava na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, em um
império. Hoje, as lojas Kariokas, estão espalhadas pelo Brasil e oferecem uma
diversidade de produtos por um preço extremamente popular.
Todo esse sucesso foi a custa de muito trabalho, Zander faz questão de falar
em suas palestras, para empresários, o quanto teve que trabalhar
incansavelmente para conseguir em tempo recorde, assumir a dianteira das lojas
e transformá-las em um fenômeno de vendas no setor de departamento, pelo
Brasil.
Uma das coisas que ele faz questão de salientar é a questão dos horários.
Um empresário de sucesso deve ter o seu dia pautado nas horas, não se pode
perder sequer um segundo, cada minuto desperdiçado, pode representar até
milhões de reais.
Por isso, se ele já estiver no escritório, certamente irá fazer uma das suas
tradicionais cenas, reclamando do meu atraso de cinco minutos. Isso,
inevitavelmente, causará uma discussão acalorada entre nós logo pela manhã.
Que saco!
— Deus, Sam, por onde andou? Está atrasada. O senhor Saramago está uma
fera. — Cristina, a secretária assistente, sequer me deixou colocar os pés no
escritório.
— Não sei o motivo de ele estar uma fera, só estou cinco minutos atrasada.
— E você fala isso com tanta tranquilidade?
— Cris, o senhor Saramago terá que lidar com o meu atraso gostando ou
não. — respondo tentando não aparentar todo o meu estresse.
— Eu ouvi isso, senhorita Diniz. — Para o desespero da minha pobre
amiga, Zander apareceu na porta do escritório, exibindo o cabelo ainda molhado
e um olhar mortal. — Venha até a minha sala e traga uma xícara de café fresco.
— Já fiz o café, senhor Saramago, vou pegar. — Cristina se mete no
assunto tentando agradar a fera.
— Eu disse café fresco, isso significa que quero o café feito neste exato
momento. E o quero vindo diretamente das mãos da senhorita Diniz. — Zander
sorri provocativamente e fecha a porta.
— Idiota! — Praguejo irritada por ter que aturar os devaneios dele logo
cedo.
Se eu não estivesse pagando a droga do meu apartamento e meu MBA, já
estaria longe daqui. No entanto, com o mercado de trabalho tão em baixa, não
posso me dar ao luxo de perder o salário exorbitante que esse déspota me paga.
— Também ouvi isso. — Ele abre apenas uma fresta da porta e parece se
divertir da minha cara de indignação.
Sem dar mais margens a discussões, sigo para a copa e me sirvo com um
pouco de café.
Como sempre, o café está delicioso, por isso aproveito para sentar um
pouco e degustar a bebida sem pressa. Quando dá o tempo exato para se preparar
um novo café, saio da copa, com uma xícara fumegante e sigo para a sala do
tirano.
— Com licença. — Finjo docilidade ao entrar na sala dele. — Seu café,
senhor Saramago.
Mantenho um sorriso falso no rosto e observo Zander experimentar a
bebida enquanto aperta sensualmente seus lindos olhos azuis. Sei que ele tem
plena consciência que o café não foi feito agora, mas não admitirei este fato nem
sob tortura.
— Qual a minha agenda do dia? — Com displicência, ele recosta na cadeira
e desliza os olhos rapidamente pelo meu corpo.
Sei que no fundo ele sente tesão reprimido por mim, mas apesar de achá-lo
a perfeição em forma de homem, não permito que ultrapasse os flertes bem-
humorados.
— Passei a sua agenda pelo e-mail antes de chegar aqui, senhor.
— Passe a minha agenda agora, senhorita Diniz. — Zander faz um gesto
irritado para que eu me sente.
Contendo o desejo de mandá-lo se jogar pela janela, sento-me, cruzo as
pernas e faço questão de deixar a barra da saia subir para provocá-lo. Zander
gosta das minhas pernas, e como ele está me aborrecendo logo cedo, vou fazê-lo
sofrer na mesma proporção que estou sofrendo com sua tirania.
Com voz de desinteresse, começo a relatar o que ele tem programado para o
seu dia. Infelizmente ele não tem muitos compromissos, o que me fez lamentar
saber que tenho que aturá-lo rondando o escritório o dia todo.
— Bem... é só isso. — Finalizo o meu relato e encaro os brilhantes olhos
dele.
Sua barba milimetricamente feita leva a minha mente para longe. Às vezes
é complicado manter a postura profissional com um homem tão bonito por perto.
Ele exala uma sensualidade marcante, que enlouquece qualquer mulher.
— Será um dia tranquilo. — Ele tamborila os dedos pela mesa. — Que tal
irmos almoçar juntos? — Ergo a sobrancelha surpresa.
— Vai pagar meu almoço?
— Eu disse almoçarmos juntos, não pagar o seu almoço.
— Quem convida paga.
— Você recebe dinheiro para pagar o seu almoço.
— Então dispenso o convite, não vou gastar o dinheiro do meu almoço em
restaurantes bestas que servem uma miséria de comida.
— Está querendo dizer que não sei frequentar restaurantes?
— Não, senhor Saramago, estou dizendo que gosto de comer de verdade.
— Levanto-me para indicar que nossa conversa acabou. — Quer mais alguma
coisa?
— Você está chateada?
— O quê? — A pergunta dele não faz o menor sentido.
— Estou achando que você está chateada e não vejo motivos para isso.
Quem deveria estar chateado aqui sou eu, pois cheguei ao escritório e só
encontrei a Cristina com aquela cara de assustada que tanto me enerva.
— Se você fosse menos ditador, talvez ela se sentisse mais à vontade para
te dar bom dia sem receber em troca uma série de ordens.
— Não exagere, eu só exijo que ela faça com perfeição o serviço pelo qual
a contratei.
— Não vou te responder sobre isso, você me irritou além do apropriado
para um início de manhã. — Sigo para a porta apressada.
— Senhorita Diniz. — Zander me chama com sua voz grave que tanto me
excita.
— Sim. — resmungo.
— Leve a xícara de café. Eu pedi café fresco e esse é o que a Cristina fez.
— Como?! — Olho para ele indignada por ter descoberto a minha armação.
— Eu acabei de fazer o café.
— Não minta, ou deixo trabalho extra para você.
Pisando duro, vou até a mesa dele e pego a xícara querendo abrir a boca
desse imbecil para derramar o líquido de uma única vez. Contudo como sei que
não posso fazer isso, apenas viro e saio rebolando da sua sala torcendo para ele
ficar de pau duro por ver minha bunda e não poder tocá-la.
— Estúpido! — sussurro quando saio da sua sala satisfeita por tê-lo
instigado, mas sem cair na tentação de mandá-lo se foder.

A princípio, o dia no escritório indicava que seria tranquilo, mas quando um


telefonema do escritório de Porto Alegre trouxe problemas para a sede, o dia se
transformou em um verdadeiro inferno me levando a loucura.
— Eu preciso ir embora, não aguento mais toda essa confusão. —Estico o
corpo e faço uma careta quando a minha coluna estala.
— Hoje não foi fácil. — Cristina guarda as pastas que estavam sobre sua
mesa e me olha. — Será que podemos ir embora? Hoje tenho que passar no
supermercado para comprar frutas e carne para as crianças.
— Pode ir, Cris, sei como sua vida é complicada.
Cris cuida de duas filhas sozinha e ainda tem a mãe que sofre de diabetes. A
vida dela é extremamente sacrificante desde que se divorciou e, ainda assim, no
auge dos seus quase quarenta anos, essa mulher incrível, é o bom humor em
pessoa.
— E se o senhor Saramago ficar bravo? Não posso ser demitida, Sam.
— E por que ele ficaria se eu estou aqui? — Sorrio do seu rostinho
amedrontado. Zander é tão grosseiro, que causa verdadeiro temor na Cris.
— Sei lá, você sabe que às vezes ele apenas quer nos ver na sua frente.
— Relaxa. — Faço um gesto de descaso com a mão. — Eu sei controlar a
fera, vai cuidar das suas crianças, já passou do seu horário.
— Ao menos terei hora extra. — ela diz animada enquanto pega a bolsa.
— Pois no meu caso eu preferia sair mais cedo e dispensar essa grana.
Estou tão irritada.
— Estamos. Hoje foi tenso.
— Graças a Deus está acabando.
— Tem certeza que consegue segurar o leão?
— Claro que sim. Se ele perder a linha o deixo falando sozinho. Por hoje
não tenho mais paciência com ele.
— Você é demais, até amanhã. — Ela sopra um beijo e vai embora.
Sem ter o que fazer, eu abro a rede social e vou ler as publicações dos meus
amigos. Não posso ser considerada uma pessoa constantemente conectada, mas
gosto de “bisbilhotar” o que rola pelo universo virtual.
Uma foto do fim de semana animado de um crush me chama atenção, curto
a foto e deixo um comentário. Em segundos uma janelinha com o ícone da foto
do Junior aparece. Ele puxa papo e, como não tenho o que fazer, fico dando bola
para o seu assunto.
Para minha surpresa, Junior está bem divertido, e acabo perdendo a noção
do tempo. Quando dou por mim, escuto a voz do Zander se despedindo do
Diretor Financeiro da empresa.
— Eu vou rever as contas com os problemas de Porto Alegre, pode ser um
erro humano, senhor.
— Encontre quem errou e demita.
— Mas, senhor Saramago, talvez...
— Vá, Gaspar, faça o que pedi, não discuta comigo quando estou sendo
influenciado por desejos homicidas.
Sem protestar, Gaspar assente e se despede de mim. Quando ele some pela
porta do hall de entrada do escritório, respiro aliviada, finalmente irei para casa.
— Por acaso está se divertindo na hora do trabalho, Samantha? — Zander
pergunta olhando descaradamente para o celular que está em minha mão.
— A hora do meu expediente acabou... — Ergo o relógio exageradamente
só para irritá-lo e olho as horas sem pressa. — A exatamente uma hora e trinta e
oito minutos. Então, senhor Saramago, eu estou checando as minhas mensagens
fora da hora de trabalho.
Ele sorri satisfeito com a minha resposta debochada. Por algum motivo
sádico, adora quando o enfrento e sou sarcástica.
— Você terá horas extras no contracheque, então não reclame.
— Desejo só tirar estes saltos, colocar as pernas para cima e descansar
vendo tevê. Não estou pensando em horas extras.
Levanto e guardo o celular. Em seguida, desligo o computador. Quando
olho para cima, vejo os olhos astutos de Zander sobre mim. Ele é incrivelmente
bonito, o homem é sexy além do aceitável e sabe exatamente o poder que tem.
— O que foi? Vai querer me fazer virar a noite trabalhando?
— Não vou fazer você virar nada. — ele responde em tom baixo e com um
olhar esquisito.
O clima entre nós muda, uma tensão sexual se instala quando ele encara a
minha boca.
Desde que vim trabalhar aqui, depois que a antiga secretária dele teve um
grave problema de saúde, aprendi a bloquear os momentos tensos que às vezes
cai sobre nós.
— Menos mal. — Coloco a bolsa no ombro e ergo a sobrancelha. — Vai
ficar parado aí? Quero ir embora.
— Cadê a Cristina?
— Ela tinha que ir ao supermercado, como não tinha mais nada para fazer
aqui, eu disse que podia ir.
— Humm. — Ele aperta os olhos e já me preparado para a briga.
— Você veio de carro? — a pergunta dele me surpreende.
— Agora com o metrô aqui na Barra, ir para casa é um sossego, aposentei o
carro.
— Então eu levo você, vou pegar minha pasta.
— Não precisa... — A minha negação morre quando ele entra correndo em
sua sala. — Zander, eu posso ir sozinha.
— Está tarde, eu vou te levar.
— Não há necessidade de mudar o seu trajeto.
— Senhorita Diniz, não teime comigo, aprenda a lutar batalhas que possa
ganhar.
— Eu posso ganhar esta batalha, senhor Saramago. — digo colocando a
mão na cintura e sorrio com meiguice.
— Eu te dou uma carona e não se fala mais nisso. — Antes que eu proteste,
ele levanta o dedo me impedindo de falar. — Querida, está me devendo, ou já
esqueceu que chegou atrasada hoje? Não me irrite mais do que já estou.
— Ainda se lembra do meu atraso?
— Claro que sim, foram cincos minutos que perdi esperando para você
trazer a minha agenda e o meu café.
— Grrrrr.
O meu grunhido faz Zander sorrir, ele é insuportavelmente chato. Às vezes,
tenho vontade de fazê-lo engolir toda essa prepotência.
— Pode ir na frente. — Com um floreio exagerado de mão, ele faz sinal
para que eu siga em direção ao elevador.
Sei que na verdade esse maldito quer ver a minha bunda, por isso saio
requebrando exageradamente apenas para deixá-lo o resto da noite desejando o
que nunca vai poder ter.


Zander

Há dois anos a minha vida é um pequeno inferno. Nunca fui bom em lidar
com frustração sexual, mas desde que Samantha Diniz apareceu no meu
caminho, sou um cara fodido que sonha todas as noites com aquela maldita
gostosa que me enlouquece.
Quando Marlene pediu dispensa para cuidar de um câncer, eu não tive
muita escolha a não ser aceitar a indicação que ela fez para o cargo de secretária.
Só que eu não tinha avaliado calmamente o dano que Sam causaria na minha
vida.
— Quer o de sempre, chefe? — Francisco me pergunta quando me
acomodo no bar.
— Em dose dupla.
— Ixi, então você está pior do que pensei. — Sem miséria, ele derrama uma
quantidade significativa de uísque. — Está assim por causa dela?
— E o que mais poderia me deixar neste estado de frustração? — Deixo o
uísque rasgar a minha garganta acreditando que me ajudará a ter uma noite justa
de sono.
— Chefe, você tem que tomar uma providência, não pode ficar neste estado
todas as noites.
— Pare de ser exagerado, não é toda noite que fico na merda. — Francisco
ergue a sobrancelha me irritando.
Ele é o barman que me atura quando estou explodindo de desejo por Sam.
Nós nos conhecemos há uns sete anos, isso causou uma intimidade que no geral
me irrita profundamente. Francisco é como um tio, que me aconselha em várias
partes da minha vida.
Pode até parecer estranho para muitos a nossa amizade, um talentoso CEO
e um simples barman, mas esse velho intrometido me entende melhor do que
qualquer grande investidor. Nem mesmo meu pai, consegue ter o tipo de
intimidade que desenvolvi com o Chico.
— Tudo bem que você nem sempre está com esse aspecto terrível, mas
também não negue que no final da noite sempre comenta sobre ela. Sexta, por
exemplo, você fez uma descrição exata da roupa da Sam, me senti como
naquelas semanas de moda que assistimos na tevê. — Ele solta uma gargalhada.
— Vai se foder, Chico. — Entorno a bebida de uma única vez e faço uma
careta.
— Quando vai trazê-la aqui novamente? Estou com saudades daquela
menina, gosto muito da Sam.
— Quero distância daquela diaba, hoje foi um dia difícil em vários aspectos
e no final ainda tive que levá-la em casa. Consegue imaginar como é doloroso
ficar no mesmo espaço que aquele mulherão e não poder experimentar nada? Ela
ainda vai me matar. — Francisco solta outra risada e segue para atender um
cliente.
Enquanto fico sozinho, relembro do perfume cítrico de Sam que tanto me
enfeitiça. Ela é um sonho, que insisto em reviver todos os dias, mesmo sabendo
que não tenho a mínima chance de realizar.
— Outro chefe? — Francisco interrompe os meus pensamentos me
oferecendo mais uma dose.
— Só esse, eu vou embora, só precisava relaxar e dar um “oi” pra você.
— Aquela sua namorada bonita está te esperando?
— Não. Vanessa já me deixou louco nesse fim de semana.
— Louco... sei. — Ele pisca maliciosamente pra mim.
— Pega leve no que está pensando.
— Só estou pensando na gorjeta, não esqueça que ouvir seus lamentos me
rende mais.
— Você não era tão mercenário. — Francisco limpa o vidro na minha frente
e se inclina na minha direção.
— Tenho um cliente que é um gênio nos negócios, ele me ensinou que
devemos cobrar por serviços prestados. — Sem misericórdia ele passa na minha
cara os meus próprios ensinamentos.
— Esse seu cliente é um filho da puta. — Acabamos sorrindo e despertando
a curiosidade das pessoas que estão no bar esperando para irem até suas mesas.
Francisco é a melhor pessoa que conheço e o único que consegue aliviar
todo o estresse do meu dia.
CAPÍTULO 2

Zander

— Como assim tiveram um problema no sistema? — esbravejo ao telefone.
— Não pode ter problemas no sistema quando as finanças estão em xeque.
Com extrema irritação, ouço as desculpas do gerente da loja central de
Porto Alegre. Estou de saco cheio das desculpas que escuto há dois dias, algo
está acontecendo lá com os valores cobrados pela empresa que nos fornece
produtos de limpeza e higiene pessoal.
— Marco! — digo o nome dele em tom grave. — Reveja os valores dos
últimos seis meses, eu quero saber cada centavo de aumento.
— Mas senhor...
— Sem mais! — O resto de paciência que ainda guardava escorre pelas
minhas mãos. — Ou me mostra a porra dos relatórios ou está demitido. E mais...
— Faço uma pausa proposital antes de terminar de falar. — Se eu descobri que
estão superfaturando os produtos fornecidos, alguém vai responder na justiça. —
Antes que meu Gerente Geral responda, bato o telefone e praguejo.
Desde que o Gaspar desconfiou dos valores cobrados pela empresa que nos
fornece materiais de limpeza, eu estou furioso com a possibilidade de alguém
estar me roubando.
Na época do meu pai tínhamos uma única empresa que prestava esse
serviço para todas as lojas, mas depois que nos espalhamos pelo Brasil e eu
assumi o comando administrativo, mudei essa política.
Passei a prestigiar empresas regionais, para ajudar na formação de
empregos. Os Gerentes Gerais de cada estado têm autonomia de fechar contrato
com empresas da sua região. Só que no Rio Grande do Sul, mudaram a empresa
há pouco tempo e, de acordo com o Gaspar, os valores cobrados estão acima do
mercado e do que era cobrado pela antiga empresa que nos fornecia os produtos.
— Senhorita Samantha, venha aqui imediatamente. — falo nervoso ao
telefone.
— Samantha foi até a copa, senhor, ela... — Do outro lado da linha, Cristina
atende e gagueja me irritando ainda mais.
— Mande-a sair da porra da copa, Cristina, agora! — Meu grito ecoa por
toda a sala.
Neste momento estou mais que irritado e alguém, obviamente, sofrerá pelo
meu mau humor. No primeiro momento foi o meu gerente, agora a Cristina e em
breve será Samantha.
Vou dividir com ela não só a raiva por toda a merda do Sul, mas também
por ela ter vindo mais gostosa do que nunca para o trabalho, desfilando um
vestido azul tentadoramente colado ao seu corpo perfeito.
Ela é tão linda e sensual, que se dependesse de mim, passaria o dia apenas
admirando a sua beleza e me perdendo em seu corpo. Tenho absoluta certeza que
Sam deve ser um verdadeiro escândalo na cama.
Se as batalhas verbais que sempre temos de significar o quanto ela é atirada
entre quatro paredes, eu seria o homem mais feliz do mundo se um dia pudesse
experimentar um pouquinho dela.
Uma pena que a minha política de não me envolver com funcionárias me
impeça e tentar conquistá-la.
Talvez eu deva mudar essa merda!
— Onde é o incêndio? — Samantha entra na sala irritada.
Como é linda nervosinha.
Um pensamento extremamente sexual e desapropriado para o ambiente de
trabalho tremula na minha frente.
Eu queria pegar esses seus longos cabelos castanhos e envolvê-los na minha
mão enquanto ela fica de quatro na minha frente, rebolando esse traseiro
perfeito.
— Em breve teremos um incêndio dos grandes, se aqueles filhos das putas
estiverem superfaturando as compras, eu vou foder com eles para sempre. —
Tento falar com a voz mais estável possível. Não quero que ela desconfie dos
meus pensamentos sexuais na hora do expediente.
— Ainda não solucionaram as faturas?
— O sistema deu problema. — Samantha ergue as duas sobrancelhas,
demonstrando surpresa.
— Zander, o Marco trabalha com você há anos, ele foi o Gerente da
primeira loja que abriu por lá, não acredito que vá te roubar agora que controla
tantas lojas.
— O dinheiro corrompe as pessoas.
— Eu sei, mas não acredito que ele esteja te roubando. O Marco é um cara
de família, com um currículo invejável, não sei te explicar, mas confio nele.
— Uau, que defesa calorosa. — Agora um ciúme inusitado se espalha por
mim.
— Não estou defendendo ninguém, apenas deixando em aberto o benefício
da dúvida. Se existe um desvio de mercadorias ou dinheiro, a culpa certamente é
de alguém que está trabalhando diretamente nas faturas das mercadorias.
O raciocínio dela tem lógica, já pensei sobre essa possibilidade várias
vezes, mas como estou longe de toda a situação, o certo é desconfiar de todos.
— Você pode estar certa, mas não vou confiar em ninguém neste momento.
— Entendo a sua posição e acho que está correto, porém não faça um pré-
julgamento do Marco.
— Por que está defendendo tanto esse idiota? Ele faz parte do seu séquito
de admiradores, senhorita Diniz?
A minha pergunta pega Samantha de surpresa. Na verdade, estou sendo um
idiota, mas com toda essa confusão, não me sinto no meu juízo perfeito.
— Está com ciúmes? Ou devo acreditar que é apenas nervosismo por causa
do problema no Sul?
Aperto os olhos segurando a raiva. Samantha consegue me transformar em
um babaca apenas com a sua presença. Ela é uma bruxa e a odeio profundamente
por mexer tanto com a minha cabeça.
— Não deve acreditar, nem supor nada, não te pago para isso. Agora traga
os contratos que preciso assinar e faça um café... fresco. Não quero café
requentando de cafeteira, nem aquela água que a Cristina chama de café.
Samantha abre a boca pensando em me responder, mas lanço um olhar
glacial e a paraliso. Depois de dois anos trabalhando comigo, ela sabe quando
deve recuar.
— Com licença, senhor. — Como uma boa menina, ela sai da minha sala
exibindo aquela bunda que tanto me enlouquece.
Um dia ainda morro por causa dessa maldita, ela sabe que é gostosa e me
provoca sempre que pode.
Remexo nos papéis da minha mesa sem saber por onde começar. Ser o
grande responsável pela maior loja de departamentos do país, aos 35 anos, não é
algo fácil.


Samantha

Checo novamente a mensagem do Alberto e tenho vontade de jogar o
celular longe. Estou com tanta raiva desse idiota, que não aguento mais nada
vindo dele.
Estou cansada de ser a segunda opção na sua vida, Alberto acha que sou
obrigada a aturar os chiliques da sua irmã em busca de atenção. A ridícula morre
de ciúmes do irmãozinho mais velho e faz de tudo para sempre embaçar o nosso
namoro.
Juro que tentei me entender com ela, fiz um esforço descomunal para rolar
uma amizade, só que é aquilo, quando o santo não bate, impossível algo dar
certo.
Michelle é um nojo, mimada além dos limites pelo pai e o irmão, por ser a
filha caçula, ela sempre teve os desejos atendidos por todos da família.
A nossa última briga foi porque ele me deixou plantada em casa, depois que
ela ligou pedindo que ele fosse buscá-la em uma festa do outro lado da cidade,
após brigar com o namorado.
Porra! A garota tem vinte anos e pode muito bem pedir um carro para ir
embora. Não precisa do babaca do irmão para isso. Só que tudo o que a princesa
fala é ordem, e o Alberto foi correndo resgatá-la.
É impossível manter um relacionamento com um homem que não sabe
dizer não a irmã. Cansei de sempre ser deixada de lado, sei que posso conseguir
coisa bem melhor que aquele imbecil.
Agora que estou oficialmente solteira, vou aproveitar e tirar um tempo para
conhecer novos carinhas. Quero voltar à minha fase piriguete e pegar geral sem
me apegar.
Vai que em algumas dessas aventuras, não surja o boy da minha vida? Já
estou com 26 anos, quando eu menos perceber, viro uma balzaquiana. Não quero
chegar aos 30 sem ter um filho, o meu instinto materno grita por um bebê
fofinho.
Antigamente, eu jurava que esse filho viria da minha união com o Maurício,
o meu primeiro namorado, o homem que amei loucamente. Mas aquele filho da
puta me traiu com a minha melhor amiga e todos os planos que um dia fiz de ter
um futuro ao lado dele, foi por água abaixo quando descobri que o cafajeste teria
um filho com ela.
Passei um longo tempo mal, sem nenhuma perspectiva de me relacionar
novamente. Até que decidi dar uma chance ao Alberto para tentar acreditar em
relacionamentos, e olha no que deu.
Que ódio!
“Miau”
O som de Napoleon miando me avisa que o meu filho felino está me
chamando para dormir. As sextas ele fica mais carente do que nunca, pois saio
da empresa e sigo direto para o MBA. Estou na metade do meu curso de Gestão
de Projetos, quero muito terminar esse curso para poder me candidatar a uma
vaga na minha área em alguma empresa.
Apesar de ganhar um salário fabuloso como Secretária Executiva do
Zander, eu me formei em Administração sonhando em atuar nessa área. Aceitei
trabalhar com ele apenas para custear os encargos do financiamento do meu
curso e a pós-graduação que fiz logo que me formei. Mas, apesar do bom salário,
quero alçar voos maiores.
— Já estou indo, Napoleon, me dê uns minutos, preciso desligar todas as
luzes.
Corro a mão pelo seu pelo macio e recebo em troca um ronronar gostoso.
Napoleon ganhou esse nome em tom francês porque o acho muito chique com
esses olhos azuis e pelo todo branco. Eu amo muito esse bichano chato.
Desligo as luzes do apartamento e sigo para o quarto com uma taça de
vinho nas mãos. Assim que me deito na cama, Nap sobe nela e começa a miar
desesperadamente. Ele está ficando um gato resmungão, só fica sossegado
quando se acomoda do meu lado.
Ligo a tevê e busco algo para assistir enquanto experimento o vinho.
Ganhei a bebida do Morales, um promissor empresário do ramo têxtil que
fechou parceria com o Zander.
Ele é um cara mais velho, quase cinquentão, com jeito de homem latino e
um sorriso que derrete a minha calcinha. Quando ele aparece na empresa, eu
sinto a minha temperatura corporal subir consideravelmente.
Até mesmo Cris, que é uma mulher comedida, perde a compostura com a
presença do homem. Apenas Zander o odeia, e não preciso dizer o motivo.
Desde o instante que descobriu a nossa queda por Morales, ele não chutou o
homem do escritório, porque gosta demais de dinheiro. Contudo sempre faz
questão de desmerecer o coitado na nossa frente e afirma que ele é um
inescrupuloso conquistador barato. Como se ele também não fosse.
Reviro os olhos com o pensamento de todos os arranjos de flores que já
enviei dispensando as conquistas dele. Zander tem sérios problemas para
dispensar as mulheres. De acordo com ele, é constrangedor o choro quando tudo
se acaba.
Então, sou eu a responsável por colocar no cartão as palavras de despedida
que destroça o coração das mulheres.
— Babaca! — digo alto no exato momento em que o meu celular toca.
Olho no visor quem está ligando e bufo ao constatar que é o Alberto. Se ele
pensa que tem alguma chance comigo, está completamente enganado, perdi o
pouco tesão que ainda sentia por ele.
Já era!
Ele insiste e me liga outras três vezes. Ignoro todas as suas tentativas e vejo,
em seguida, ele mandar algumas mensagens. Espero um tempo e, sem controlar
a curiosidade, leio todas.
O filho da puta tem a coragem de me chamar de mimada e que estou
fazendo tempestade em copo d’água. Ele avisa que está na frente do meu prédio
e quer me ver. Jamais vou permitir que suba, não quero mais olhar na cara dele.
— Hoje não é meu dia, Nap. — digo ao meu gatinho. — Agora eu sou a
mimada da história. Eu mereço.
Vou até a galeria de fotos e escolho uma das imagens fakes que uso quando
preciso afastar babacas como o Alberto. Envio uma foto onde estou rindo com
um copo de bebida na mão. Vou fingir que estou na noite, assim ele percebe que
segui em frente.
Envio a foto dizendo que estou longe de casa e indisponível, ele vai me
xingar horrores. Sorrio quando vejo a foto carregada e descarto o celular.
Termino o vinho e não me sinto satisfeita, assim como o Morales me falou,
esse é um vinho delicado e extremamente saboroso.
Vou até a cozinha e pego a garrafa. Já que vou ficar sozinha em casa em
uma sexta à noite, que ao menos eu tenha um bom vinho de companhia. Uma
pena não poder desfrutar da presença de quem me deu. Se aquele homem
gostoso estivesse aqui, certamente eu não estaria me preocupando em ficar
bêbada.

Coloco a gaiola do Nap no carro e ajeito a bolsa com a roupa que comprei
para o meu irmão. Vou agradá-lo um pouquinho, pois ele está se esforçando para
passar na faculdade, o sonho dele é ser médico. No entanto, passar no vestibular
de Medicina em uma faculdade pública é quase como ganhar na loteria.
Por acompanhar o seu esforço, faço questão de agradá-lo com coisas que
gosta. Quando eu tinha a idade dele, não tinha a metade do seu compromisso
com os estudos. Tanto que fiz faculdade particular, porque a minha vida no fim
do ensino médio era namorar e ir às festas com os amigos.
Eu só fui acordar quando perdi meu pai em um assalto. Foi um choque
receber a notícia da polícia. Nunca me esqueço da dor que rasgou o meu peito
quando tive que reconhecer o corpo dele. Daquele dia em diante, soube que teria
que assumir as rédeas da família.
Foi daí que tudo mudou, eu passei a ser o pilar da casa, fui trabalhar e
estudar. Terminei a faculdade com louvor e consegui um excelente estágio
remunerado graças a ajuda de um dos professores.
O salário era bom para uma recém-formada, mas não supria as necessidades
que eu tinha naquele momento. Passei praticamente um ano me virando como
podia para pagar as minhas contas e ajudar a minha mãe. Só que um dia a
Marlene, amiga da minha mãe de muitos anos, chegou com a proposta de
emprego para ser secretária do Zander.
Naquela época não era o que eu queria, mas com o salário oferecido, foi a
minha salvação. Hoje sei que segui no caminho correto, pois trabalhando com o
Zander, consegui comprar um carro, financiar um pequeno apartamento e ainda
pagar o meu MBA.
Apesar de minha mãe ser incrível, viver com ela já não estava sendo
saudável. Chega um momento que os filhos precisam caminhar sozinhos e,
apesar de saber o quanto ela se ressentiu quando saí de casa, sei que tomei a
melhor atitude.
Consigo chegar à casa da mamãe antes do tempo estimado. Espero que a
casa não esteja cheia, ela adora uma confusão. Como é uma costureira de mão
cheia, sempre tem alguma cliente zanzando por sua casa.
— Mãe, cadê você?
Abro a gaiola do Nap e ele sai miando animado, pela sala. Minha mãe não
gosta de gato, mas tolera o Napoleon.
— Estou na cozinha, filha.
Sigo na direção da sua voz e a encontro fazendo bolo, com tinta no cabelo,
coberto com uma sacola de mercado. Minha mãe é uma figura!
— O que aconteceu com essa casa? Por que está vazia? — Beijo a sua
bochecha sorrindo.
— Seu irmão estudou até tarde, e só vai para o cursinho à tarde, achei justo
ele dormir sossegado.
— Humm, estou feliz em saber que criou juízo. — Ele faz uma careta.
“Miau”
Nap resolve aparecer na cozinha fazendo minha mãe aumentar a careta.
— Tira esse gato da cozinha, se o pelo dele cair na minha massa de bolo eu
tenho uma crise nervosa, Samantha.
— Deixa de ser implicante. — Observo a pequena mesa com um café
improvisado. — Já comeu? Trouxe muffins. — Ergo o pacote com as
guloseimas.
— Tomei só um café, estava te esperando. Aí resolvi fazer um bolo para
você levar um pouco antes de ir embora.
— Tô de dieta, mãe, a minha bunda tá grande demais. — Abro o pacote
com os muffins e sinto a boca salivar.
— E vai aumentar ainda mais com esses muffins recheados.
Ignoro o seu comentário e começo a me servir. Ela vai falando que está
preocupada com os horários excessivos de estudos do meu irmão. Até entendo a
preocupação dela, mas infelizmente é muito difícil conseguir entrar na
faculdade. Sei que para conseguir alcançar o seu objetivo, ele terá que passar por
toda essa maratona de estudos.
Meu irmão acorda e pega o final do nosso café. Ele está abatido, mas me
garante que se sente bem. Já está perto das provas de fim de ano, em breve ele se
livra de toda essa loucura e passa a ter uma vida normal.
Torço muito pelo meu irmão, ele pegou tempos difíceis depois que o papai
se foi. Ainda assim nunca foi um menino revoltado, sempre se manteve centrado
e estudioso.
— E aí, gostou? — pergunto quando ele termina de ver as roupas que
comprei.
— Se gostei? É claro que sim, você é demais. — Ele me abraça tão
apertado, que sinto meus pulmões chiarem. — Obrigado, maninha, você é a
melhor.
— Não agradeça, apenas arrase nessas provas e vá seguir seu sonho.
— Eu vou passar. — ele diz convicto e ajeita os óculos no nariz.
— Já passou. — digo feliz e me jogo na sua cama.
— E as namoradas? Como andam?
— Que namoradas, Sam? Eu lá tenho tempo para isso? — Ele começa a
dobrar a roupa e as guarda no armário.
— Tem que ter, beijar na boca faz bem.
— E você, ainda tá beijando na boca daquele otário?
Desde que viu o Alberto pela primeira vez, o Maicon não foi com a cara
dele. Meu irmão é um menino legal, se dá bem com todo mundo, mas
definitivamente não conseguiu se acertar com o meu ex.
— Não, ele é passado. — Meu irmão sorri.
— Eu gosto de você justamente porque é inteligente.
— Engraçadinho. — digo enquanto me sento. — Que horas você vai para o
cursinho?
— A aula começa às 13h30.
— Vou ajudar a mamãe com o almoço e te levo para o curso.
— Não vai passar o dia com a mãe?
— Tenho roupa pra lavar e preciso ajeitar o meu apartamento, entre outras
coisas. Se eu deixar tudo pra fazer amanhã, vou estar morta na segunda. E tudo o
que não preciso é estar esgotada e ainda aturar o Zander.
— Ele ainda é um ditador?
— Piorou com o tempo. — Meu irmão sorri.
— Ele gosta de você, por isso implica tanto contigo.
Sorrio da bobagem que ele acabou de falar. Não sei de onde ele tirou essa
ideia absurda que o Zander gosta de mim. Acho que passar tanto tempo
estudando afetou o seu juízo.
— Você está louco? Claro que o Zander não gosta de mim. — Penso por
alguns segundos antes e voltar a falar. — Acho que ele não gosta nem dele
mesmo.
— Que maldade. — Meu irmão começa a sorrir e aproveito essa sua alegria
para escapar do seu quarto.
Não gosto de conversar sobre o Zander, principalmente com a minha
família. Ele é uma espécie de tabu na minha vida, nem quando estou sozinha,
gosto de pensar naquele delicioso mal-educado.
Aturá-lo todos os dias já é o meu castigo, não mereço me lembrar nele nos
fins de semana e muito menos do quanto é cheiroso.
Droga! Cheiroso é pouco, ele é lindo, sensual e insuportavelmente atraente.
Sou louca naquele cabelo castanho encorpado, no seu corpo esguio sarado e no
sorriso debochado que tanto me irrita.
— Samantha, que cara é essa? — Olho para a minha mãe perdida. — Por
que está parada no meio do corredor com essa expressão estranha no rosto?
— Expressão estranha? A senhora tá louca?
— Não estou louca, mas deixa pra lá. Vem me ajudar no almoço, seu irmão
não pode se atrasar para o curso.
— Eu estava indo para a cozinha fazer isso agora.
Sorrio com extrema alegria atrás dela, apesar de não querer ficar na
cozinha, mas para não correr risco de ela começar a fazer perguntas, finjo que
fazer o almoço é a prioridade do meu dia.
CAPÍTULO 3

Zander

— Tem certeza que não precisa de nada? Se eu desconfiar que você está me
ocultando algo, terá problemas.
Marlene sorri da minha ameaça e segura a minha mão até levá-la aos lábios.
Ela sempre foi carinhosa, e isso me irrita profundamente. Entretanto, é
impossível impedir seus beijos e abraços, pois mesmo sendo uma mulher
pequena, tem um poder desconcertante para colocar suas vontades em prática.
Quando eu a conheci, ainda era um menino. Ela foi a primeira caixa da loja
do meu pai. Naquela época, Marlene era uma mulher atraente, muito
comunicativa, que conseguia fazer mais vendas do que meu próprio velho.
A minha mãe a odiava, pois além do meu pai admirá-la por ser a sua melhor
funcionária, ele não escondia a atração que sentia por Marlene. Só que ela nunca
cedeu às investidas do patrão e manteve-se fiel ao marido, apesar de receber
incontáveis propostas indecentes.
Quando meu pai expandiu a loja, ela se tornou Gerente e foi essencial para
o crescimento dos negócios. Marlene tornou-se membro da família, por isso não
abri mão dela ser a minha Secretária Pessoal quando voltei da minha
especialização em Harvard.
Se hoje a cadeia de lojas da minha família é um verdadeiro fenômeno do
varejo brasileiro, devo muito a essa frágil mulher que luta bravamente para
vencer o câncer.
— Só preciso que você seja feliz, se eu morrer sem saber que você se
encaminhou na vida, juro que volto dos mortos para puxar seu pé. — Sorrio da
sua ameaça.
— Você não vai morrer, será a madrinha do meu primeiro filho.
— Não acredito nisso, Zander, se você não acertar a mão, vai ficar
encalhado. — Ela olha na direção da varanda. — Você realmente acha que vai
que ter filhos com essa mulher? Por favor, meu querido, tente ser mais real e
arrume uma garota à sua altura.
— Marlene, eu não tenho tempo para ficar entre encontros buscando
alguém ideal.
— Não tem tempo para ser feliz? — Ela se ajeita na cadeira. — A vida
passa rápido, Zander, pare de colocar desculpas no trabalho para não assumir que
tem medo de se jogar no mundo dos sentimentos. Você sempre se escondeu
nesse casulo de homem de negócios, está na hora de se libertar e voar.
— Está me chamando de borboleta? — pergunto ofendido e ela sorri.
— Não. Estou querendo dizer que precisa ter uma vida de verdade. — Os
olhos dela se estreitam e me preparo para ter problemas. — Como está Sam?
Vocês ainda se amam e odeiam na mesma proporção?
Olho para a varanda e vejo Vanessa falando agitada ao telefone. Se ela
ouvir o nome da Sam, vai fazer uma cena. Ela morre de ciúmes da diaba da
minha secretária. Também não é pra menos, Samantha não é uma mulher, é uma
deusa grega vagando entre os mortais.
— Não amo Sam, muito menos a odeio, apenas quero que ela faça o serviço
à altura do salário que ganha. E não me olhe assim, você me acostumou mal com
toda a sua competência. — Marlene balança a cabeça.
— Como se ilude...
Ela não termina de falar, pois Vanessa entra na sala nervosa. Mentalmente
agradeço sua interrupção, odeio quando Marlene aborda o assunto Samantha.
— Zander precisamos ir embora. — Ela decreta como se mandasse em
mim.
— Por que eu iria embora agora? — Abro os braços sobre o encosto do sofá
e cruzo as pernas.
— Porque a Rebeca brigou com Josias e está arrasada. A pobrezinha não
para de chorar, preciso consolar a minha amiga. — Ela joga o cabelo para o lado
antes de voltar a falar. — E você podia falar para o Josias deixar de ser moleque.
Onde já se viu brigar com a Beca por causa do tamanho de uma saia? Isso é um
absurdo.
Olho para a Marlene, mas ela está encarando a Vanessa chocada. Respiro
fundo compreendendo o que a minha amiga está pensando sem ter coragem de
falar. Eu também não sei o que faço com a Vanessa, ela é tão fútil e infantil que
irrita.
A verdade é que estou com ela porque ela não me pressiona. Aceita ser a
minha namorada sem me causar maiores problemas.
Estou vivendo um momento decisivo na minha vida, se os meus planos se
concretizarem, irei expandir as atividades das lojas para o Mercosul. Isso será
uma vitória sem precedentes para a empresa. Sem contar no valor comercial que
irei conseguir para o nome da minha família entre os grandes investidores.
Por esses e outros motivos, mantenho Vanessa comigo, pois ela é jovem e
não tem o desespero para se casar. Na verdade, tudo o que ela quer no momento
é curtir as festas que posso levá-la e aproveitar os privilégios de ser a minha
namorada.
Não vou descartar a parte do sexo, ela é ótima. Sem nenhum tipo de
frescura. Isso não pode ser deixado de lado. Fora essa parte, nós não temos nada
em comum, Vanessa vive em outra realidade.
— Vanessa, se o Josias é um babaca que não sabe segurar a onda por causa
da roupa da namorada, eu não tenho nada a ver com isso. Quanto a ir encontrar a
sua amiga, vou pedir um táxi. Não tem motivos para que eu te acompanhe, odeio
choro de mulher e você deveria saber bem disso. — Ela faz um bico com a
minha resposta mal-educada.
— Você é o meu namorado, deveria me acompanhar.
— Vá com a sua “namorada”, Zander. — Marlene enfatiza a palavra
namorada enquanto disfarça um sorriso. — Depois conversamos com calma.
— Vanessa é adulta, sabe se virar, querida. — Pego o celular e disco o
número do táxi. — Quer que eu te leve até a portaria para esperar o táxi? Ele
deve chegar em 4 minutos.
O rosto da Vanessa ganha um tom escarlate, ela está se segurando para não
explodir e, para o bem dela, espero que não faça nenhum escândalo na frente da
Marlene.
— Não precisa, sei andar sozinha. — Ela pega a bolsa que está ao meu
lado. — Espero que se recupere logo, Marlene, foi bom revê-la.
— Venha sempre que quiser, querida. — Marlene, como sempre, é um poço
de educação.
— Vou acompanhá-la até a porta, meu bem. — Apoio a mão na base da sua
coluna e sigo até a porta. — Espero que consiga tranquilizar a sua amiga.
— Não finja que está com pena dela, Zander, conheço você. — Sua
reprimenda indica o quanto ficou ofendida com a minha atitude.
— Realmente não me importo em nada com a briga da sua amiga. Se ela
soubesse escolher um homem de verdade, não estaria passando por essa
situação. Ter ciúmes da roupa de uma mulher é coisa de homem inseguro e, se eu
fosse mulher, corria de um infeliz desse. — Para amenizar a cara emburrada
dela, decido ser charmoso. — Já você, meu anjo. — Beijo abaixo da sua orelha.
— Tem um bom gosto incrível para escolher um homem.
— Para Zander. — Ela bate no meu peito sorrindo. — Você também é um
cretino.
— Sou sincero, é diferente. — Seguro a nuca dela e a beijo. — Quando
acalmar sua amiga me ligue, vou mandar um táxi te pegar e você fica comigo.
— Quer que eu durma com você? — Os olhos dela brilham com
empolgação.
— Quero que você passe a noite acordada enquanto te dou prazer. — digo
baixinho e bato na sua bunda para que ela se vá. — Vai logo, o táxi já está
chegando.
Com um sorriso apaixonado no rosto ela se vai e eu fico me odiando por
fingir que me sinto tão apaixonado quanto ela. Quando eu morrer, não vou para o
céu, mas não tenho culpa se não consigo entregar meu coração.
— Zander... Zander, você está entrando por um caminho perigoso. Não é
justo enganar essa menina, ela está completamente apaixonada por você. —
Marlene fala quando volto para o apartamento dela.
— Ela é jovem, daqui a pouco encontra um cara da mesma idade e chuta a
minha bunda.
— Não acredite nisso, ela já tem 23 anos, sabe o que quer.
— Eu só queria trepar e beber na idade dela quando não estava estudando,
pode apostar que ela não sabe o que quer.
— Às vezes você não parece ser um homem de negócios, sua inocência é
vergonhosa. — Marlene fala me repreendendo.
Com esse insulto, ela muda de assunto e me faz ir para a cozinha preparar
um lanche para nós.

Eu não sei se é a idade ou frescura, mas ficar sozinho em casa passou a ser
algo que me incomoda demais.
Quando eu era garoto, meu sonho era sair de casa e me livrar do controle da
minha mãe. Por isso, assim que tive oportunidade, fui dividir um apartamento
com um amigo e nunca mais voltei.
Só que há algum tempo, eu ando meio estranho, querendo sempre alguém
por perto. Isso me faz até apelar para o meu sobrinho, apesar de ele deixar a
minha casa um caos. O moleque já tem 12 anos, mas é bagunceiro pra caralho.
O meu celular apita indicando uma mensagem de Samantha. Sei que é ela
porque o seu toque é diferente de todas as outras pessoas. Sempre digo para mim
mesmo que coloquei essa diferença apenas por motivos de negócios, mas na
verdade, não tem nada a ver com os assuntos da empresa.
Pego o celular e vejo que ela me enviou uma foto. Bem que podia ser um
nuds, eu ia adorar vê-la nua.
Para a minha irritação, ela apenas mandou uma foto engraçadinha, onde
uma mulher revira os olhos dizendo que odeia segunda-feira porque tem que
encontrar o chefe.
Samantha é corajosa, ela me insulta até no final do domingo. Graças a Deus
ela não está por perto para ver o meu largo sorriso. Se essa megera me visse tão
feliz, eu estaria perdido.
Zander - Essa sua mensagem é passiva de demissão
Respondo e aguardo o que ela vai me dizer.
Sam - Por que demissão? Estou só mostrando como me sinto quando você
me perturba na segunda. Sinceridade não mata senhor Saramago
Como é debochada!
Zander - Não perturbo você, apenas quero compromisso.
Sam - Você é um ditador!
Zander - Ditadores não pagam salário
Rapidamente revido o seu comentário.
Sam — Alguns pagam sim, e essa é a sua sorte. Se não me pagasse tão
bem, não veria mais a minha bunda
Sorrio das suas palavras, ela não sabe o quanto sou capaz de pagar por
aquela bunda.
Zander — E por que acha que te pago tão bem? Não é pelo seu rostinho,
Sam, sua bunda vale ouro.
Ela demora para responder, e começo a achar que exagerei na brincadeira.
Será que ela vai pensar que é assédio? Eu não tive essa intenção.
Sam — Por isso não deixo de comer chocolates, eles mantêm a minha
bunda grande
Zander — Bom saber disso...
Vou me lembrar de sempre trazer chocolates para você
Sam — Eu ficaria grata
Fico encarando a sua mensagem tentando encontrar algo para dizer e não
deixar morrer o nosso assunto. Não quero que ela se vá, estou vergonhosamente
morrendo de saudades dela.
Zander — O que está fazendo agora além de me insultar?
Balanço o pé ansioso por sua resposta e olho rapidamente para o corredor
desejando que a Vanessa se afogue na banheira e não saia do banho agora.
Surpreendentemente ela não me responde e manda uma foto. Baixo a
imagem na velocidade da luz e gemo quando vejo suas pernas nuas com o
maldito gato no meio.
Sam — Nap está carente hoje e eu com preguiça, estamos assistindo séries
e perturbando os meus contatos com mensagens fúteis
Ela manda um monte de bonecos sorrindo cheios de lágrimas.
Zander — Esse gato é um pilantra, está se aproveitando
Sam — Nap é carinhoso, não aproveitador
Zander — Pode apostar que ele sabe o que é bom, a cara de deboche dele
diz isso
Sam — Cara de deboche? Kkkkk você não é normal
Zander, essa é a cara de paisagem que ele faz pra tudo
Nap é um gato que não se abala em mudar de expressão, ele vive com cara
de entediado.
Solto uma gargalhada com a definição dela do maldito gato, realmente ele
sempre tem uma cara de nojo. O bicho é metido e não faz questão de ser
agradável.
Zander — Ainda bem que você sabe que seu gato não é normal, ele é
antipático
Sam — Se você fosse pai dele eu diria que te puxou, porque não conheço
ninguém tão antipático quanto você
Releio três vezes sua mensagem e me imagino fazendo todo o processo para
ter um filho com ela.
Meu corpo esquenta e isso me faz remexer no sofá para conter a onda de
fogo líquido que começa a correr para o meio do meu corpo. Essa filha da puta
acaba de me deixar excitado.
Zander — Se ele fosse nosso filho, o que ele teria puxado de você?
Ela demora a responder.
Sam — Nap é inteligente, sabe exigir o que quer até conseguir, igual a mim
Zander — E o que você quer agora Samantha?
Se ela me fizesse essa pergunta, eu diria que a queria nua, me montando
com força.
Sam — Ganhar na Mega-Sena e me livrar de você kkkkkkk não aguento
mais te servir café requentado.
Encaro a sua mensagem com a boca aberta. Não acredito que ela acaba de
assumir que me serve café requentado.
Que filha da puta!
— Que cara é essa, benzinho?
A voz melosa de Vanessa me faz erguer a cabeça surpreso. Encaro-a por
alguns segundos, até que percebo que me perdi na droga das mensagens da Sam.
— Não é nada. — Volto à atenção para o celular e respondo.
Zander — Amanhã conversaremos sobre esse assunto, você está fodida.
Sam — Estou fodida? Jura? Quem vai me foder? Você? hahaha vai
sonhando chefinho.
Respiro fundo e tento colocar a vontade de ir até a casa dela de lado.
Samantha é uma feiticeira, sabe me instigar como ninguém.
Zander — Cuidado, Sam, eu sou conhecido por fazer sonhos tornarem-se
reais. Amanhã quero encontrar você pessoalmente na copa, no primeiro horário,
para preparar o meu café.
Descarto o meu telefone e me concentro na Vanessa segurando
sensualmente uma toalha na minha frente.
— Tem algo por baixo dessa toalha?
— Claro que não, acabei de tomar banho, vim pergunta a você se íamos sair
para poder escolher a minha roupa. Do que você estava sorrindo?
— Estava sorrindo ao imaginar como vou matar o meu Gerente do Sul, mas
só vou fazer isso amanhã, agora... — Levanto e me aproximo dela. — Vou
apenas matar você.
— Me matar? — Ela arregala os olhos e me faz sorri. Vanessa é lenta
demais, não acompanha nunca meus pensamentos libidinosos.
— De prazer, querida. Vou te matar de prazer.
Seguro o seu corpo entre os braços e a carrego para o quarto na esperança
de tirar a minha conversa inesperada, com Samantha, da cabeça.
CAPÍTULO 4

Samantha

Praguejo pela milésima vez por ter perdido a linha ontem. Eu bebi mais do
que devia, acabei me sentindo sozinha e mandei a maldita foto irônica para o
Zander.
Se não bastasse importuná-lo com uma foto antiprofissional, eu assumi que
não faço os cafés frescos que ele tanto pede. Como sou imbecil, agora ele vai
encher a minha paciência por causa do café. Se bobear, o lunático até coloca
câmera na copa só para ter certeza que estou fazendo café fresco.
— Burra! — resmungo, enquanto chuto a minha bunda mentalmente.
Isso que dá deixar a carência dominar o bom senso. Tudo culpa do Alberto,
se não fosse por ele, eu teria passado uma tarde suada de sexo e nem me
lembraria do ditador do Zander.
— Bom dia, senhorita Diniz, como está? — Pulo quando ouço a voz
profunda dele. — Assustada?
Zander coloca a pasta sobre o armário de canto e sorri. Ele está se
divertindo com o meu constrangimento, isso me irrita, pois não gosto quando ele
sabe que está me pressionando.
— Bom dia. — respondo com voz de desinteresse. — Só fiquei um pouco
incomodada com as suas olheiras, mas já superei a visão. — Pego a jarra do café
e coloco na minha xícara. — Quer café, chefe?
Ele não me responde, apenas senta e cruza as pernas enquanto me olha. Ter
Zander te encarando não é algo agradável, quando ele me observa como agora,
fico me sentindo na época da escola, na frente do olhar inquisidor do professor
sabendo que acabei de colar.
É como se ele soubesse algo grave e estivesse zombando de mim por ter
ciência do meu segredo. Esse imbecil consegue ser irritantemente desagradável e
gostoso ao mesmo tempo.
Perigosamente os meus olhos deslizam por ele e admiro seu terno azul
marinho, a camisa branca e uma gravata preta que lhe dá um charme absurdo.
Seus cabelos castanhos estão jogados para trás, ainda molhados e o cheiro da sua
tradicional loção pós-barba domina o ambiente.
Vai ser gostoso assim na puta que pariu! Esse infeliz está me derretendo.
— Fez o café agora?
— Claro que sim, acabou de sair. Não está sentindo o cheiro de café fresco?
— Não. Quero um novo.
— Zander, acabou de sair.
— Faça um novo, senhorita Diniz, não teime comigo.
— Não vou perder todo esse café.
— Quem mandou fazer muito? Eu disse que queria ver você fazendo o café.
— Você é doente. — digo indignada.
— Sou o seu chefe, então pare de me contestar e faça a porra do café.
— Ignorante. — Solto um grunhido e derramo o café na pia.
Zander é um egocentrista, ele não tem um mínimo de bom senso. Acha que
o mundo gira ao redor dos seus desejos. Às vezes a minha vontade é largar tudo
e arrumar outro emprego, mas quando penso nos meus dias em um escritório
qualquer sem poder brigar com ele, desisto da ideia.
— Como foi seu fim de semana, Sam? Aproveitou muito aquele seu
namorado sem graça?
— Alberto não é sem graça, só é infantil.
— Infantil e sem graça, foi o que quis dizer. — Ele solta um sorriso
debochado.
— Nos separamos, não quero vê-lo pintado de ouro. — Coloco a cafeteira
para fazer o novo café. — Ele é um babaca que vive influenciado pela irmã. É
uma loucura o quanto ele é cordeirinho dela. Cada vez que aquela pentelha liga,
o bobo corre para fazer às suas vontades.
— Ele precisa se tratar urgentemente, isso não é normal. — Zander diz algo
sábio. — Eu amo a minha irmã, mas não aceitaria realizar seus caprichos para
deixar uma namorada como você para trás.
Não sei como ele consegue dizer palavras tão certas, deve fazer isso com as
infinitas mulheres que passam pela sua cama. E o pior é que ele fala como se eu
fosse única, algo raro que tem o maior zelo.
Sei que ele sente tesão por mim, é algo que não esconde e faz questão de
demonstrar desde que nos conhecemos. Contudo tenho ciência que não passa
disso, sou apenas mais uma na sua vida, não rola nenhum outro sentimento.
— Pois é, parece que o Alberto não pensa como você.
— Acredito que precisa ser mais criteriosa com os seus parceiros,
Samantha, você anda com a mão podre.
Não creio que ele ousou me criticar tão abertamente. Que abusado! Quem
ele pensa que é para me dizer essas coisas?
— Olha quem fala. Você troca de namorada como quem troca de roupa.
Não tem nenhuma moral para criticar a minha vida pessoal.
— Ficou nervosa? A verdade realmente costuma doer. — ele fala com
tranquilidade me irritando ainda mais.
— Que verdade, Zander? O que bebeu antes de sair de casa? Você não está
bem.
— Estou ótimo, meu fim de semana foi excelente, ao contrário do seu.
— Como sabe que o meu fim de semana não foi bom? — Olho para a
cafeteira e vejo que o café está pronto.
— Pelo excesso de maquiagem que usou para esconder o inchaço embaixo
dos seus olhos de tanto chorar.
A sua resposta certeira faz a xícara escorregar da minha mão e se espatifar
no chão.
Como ele sabe que chorei? Passei uma hora na frente do espelho me
maquiando, quase que profissionalmente, para que ninguém percebesse o quanto
meu domingo foi uma droga.
— Você se machucou? — Em segundos ele está do meu lado.
— Eu estou bem, apenas peguei a xícara de mau jeito. — Tento aparentar
calma para ele não insistir no assunto. — Vou limpar tudo.
— Deixa que faço isso, pegue outra xícara e prepare o meu café.
Antes que eu proteste, ele pega a vassoura e começa a juntar os cacos.
Zander sempre me confunde, ele é insuportável a maior parte do tempo,
mas tem horas, como agora, que se comporta como um homem doce e atencioso.
— Seu café. — Ergo a xícara quando ele termina de jogar os cacos no lixo.
— Fresquinho. — Sorrio, tentando demonstrar docilidade.
— Fresco como deveria ser a cada vez que te peço um café. — Ele se
aproxima e pega a xícara da minha mão.
Um arrepio percorre o meu corpo quando nossos dedos se tocam, observo
seus olhos e vejo que ele está atento a minha reação. Sei que ele também sentiu
algo estranho, está escrito no seu olhar.
— O café é fresco, mas não como você quer.
Ele experimenta a bebida sem tirar os olhos de mim. Odeio quando ele me
analisa como está fazendo agora, me sinto como se estivesse nua.
— Está bom? — pergunto, só para tirar a sua atenção de mim.
— Delicioso. — Ele lambe os lábios e me faz gemer internamente. Que
homem gostoso, queria que ele me lambesse toda.
— Sou ótima no café.
— Você é ótima em outras coisas também.
Agora os olhos dele correm pela copa enquanto experimenta mais um
pouco de café. Ele está pensando em algo e espero que seja algum assunto
relacionado a trabalho.
— Quase não venho aqui, agora que estou percebendo que esse lugar
precisa de uma reforma.
— Reforma? Por que reforma? Está tudo perfeito.
— Pode melhorar. — Sua atenção cai sobre mim. — Vou reformar toda a
copa e mandar comprar uma máquina automática de expresso. Essa cafeteira é
jurássica, eu não tinha pensando na possibilidade de uma máquina moderna, foi
um erro.
— Você vai comprar uma máquina mesmo? — pergunto animada. Adoro
aquelas máquinas expressas, o café é delicioso.
— Já deveria ter comprado, assim você não me passa a perna.
— Nem sempre passar a perna é ruim. — Essas palavras escorrem pela
minha boca sem que eu consiga controlar.
Merda! Acabei de dar munição para ele me provocar.
— Nisso tenho que concordar com você, passar a perna pode ser prazeroso.
Minha respiração acelera e fico sem saber o que responder. Zander sorri
zombeteiro e me irrita profundamente. Não gosto quando ele consegue me
intimidar, eu é que deveria deixá-lo desconfortável.
— Bom dia! — a voz da Cris me salva.
— Cris, bom-dia! — respondo animada além dos limites. — Acabei de
fazer um café fresquinho, quer um pouco? O nosso chefe aprovou. — Cristina
nos olha desconfiada.
— Tá tudo bem, Sam? — ela me pergunta meio confusa.
— Samantha está com dor de cotovelo. — Zander responde por mim
enquanto descarta sua xícara. — Vou deixar você contar para Cristina sua
decepção amorosa, mas te espero em dez minutos na minha sala com a minha
agenda do dia. — Ele olha para a Cris que ainda nos observa desconfiada. —
Cristina, mande um buquê de flores para a Vanessa e coloque no cartão um
agradecimento pela noite inesquecível que tivemos ontem.
— Tudo bem, senhor Saramago.
Ele sai da copa com um sorriso descarado nos lábios me deixando fervendo
de ódio.
— Imbecil. — digo quando escuto seus passos desaparecem. — Está
querendo pisar em mim só porque terminei com o Alberto. — falo furiosa. —
“Coloque um agradecimento pela noite inesquecível” — Repito a fala dele com
uma voz afetada repleta de deboche. — Ah, vai tomar no...
— Samantha! — Cristina interrompe o meu xingamento. — Ele pode estar
escondido. — Ela corre até a porta para ver se ele realmente se foi ou ficou
escondido escutando o nosso papo como adora fazer.
— Foda-se se ele estiver escondido, estou de saco cheio desse exibido.
— Caramba você tá azeda hoje, hein. O que o Alberto aprontou? — ela
pega um pouco de café.
— Ai, Cris, o Alberto é um caso perdido, vive para aquela mimada da irmã,
preciso de um homem mesmo, daqueles que me tirem o ar.
— Tipo o senhor Saramago? Ele tira o ar de qualquer uma. — Ela fala
sorrindo sem esconder o fascínio que sente pelo déspota.
— Eu lá vou querer perder o ar por um egocentrista? Você tá louca? Quero
um homem no estilo do Morales, aquele sim sabe como deixar uma mulher sem
ar. Toda vez que ele vem aqui fico igual às Cataratas do Iguaçu.
— Igual as Cataratas? — ela me pergunta sem entender a minha piada.
Literalmente Cris é uma mãe solitária que precisa de sexo e de piadas sobre o
assunto.
Ela é uma morena linda, com cabelos na altura dos ombros, quadris largos e
uma cintura fininha. É uma mulher sexy, mas anulou a vida sentimental para
cuidar das filhas depois que se separou.
— Fico molhada, Cris, viro uma cachoeira louca para dar a noite inteira
para aquele coroa gostoso.
— Ai, Sam, você é tão depravada. — Ela coloca a mão sobre o coração
chocada.
— E você uma encalhada que não trepa. Toma juízo, essa boceta daqui a
pouco tá cheia de teia de aranha. Vai esperar morrer pra terra comer?
— Credo, você não está bem. — Reviro os olhos.
— Toma seu café e vai enviar as flores para a sonsa, vou passar a agenda do
ditador e depois organizar uns arquivos.
Saio da copa com uma irritação extrema. Encontrar o Zander logo cedo
sempre é motivo para confusão, mas hoje ele me tirou do sério.
— Flores pra aquela vagabunda... — resmungo enquanto sigo para minha
mesa. — Noite inesquecível...
Odeio esse homem, mas ele não perde por esperar, um dia da caça e outro
da caçadora.

— Que inferno de dia. — esbravejo tirando meus sapatos. — Essa porra de


hora não passa.
— Sam, não xinga, alguém pode chegar.
Cristina é tão séria, que às vezes se comporta pior que a minha avó.
— Foda-se se chegar alguém, não estamos em uma escola. Se alguém
aparecer por aquela porta, será um adulto.
Magicamente a porta de entrada se abre e um Morales mais gostoso que
nunca aparece na minha frente.
Ai meu Deus! Se eu não morrer agora, certamente vou virar uma
sexagenária.
— Meninas, boa-tarde. — Ele nos saúda com seu sorriso de amante latino
americano.
Morales é alto, tem descendência espanhola, uma barba grisalha, que faz a
minha mão coçar para tocá-la, um sorriso safado e toda a sabedoria que os
homens mais velhos possuem. Definitivamente ele é o meu número.
— Morales, boa-tarde! — devolvo o cumprimento com um sorriso nada
profissional. — A que devemos a sua visita? Você não está na agenda do senhor
Saramago.
— Prefiro estar na sua agenda. — ele diz sorrindo e se aproxima para beijar
minha mão. — Linda como sempre.
— São seus olhos. — Pisco diversas vezes para ele me derretendo inteira.
Adoro flertar com homens que sabem entrar na brincadeira.
— Meus olhos estão embevecidos com tanta beleza. — O meu sorriso se
alarga com tanta delicadeza. Ah se eu pego esse homem... sou capaz de cometer
um terremoto em todo o Rio de Janeiro. — Cristina, como está? E as crianças?
— Como sempre ele é atencioso, diferente do maldito Zander.
— Estou bem, senhor Morales e as crianças também.
— Que maravilha! No final do ano darei uma festa especial para os filhos
dos meus funcionários, se você puder levar os seus filhos ficarei feliz, gosto
muito de vocês duas.
— Nossa, senhor, será um prazer, tenho certeza que eles vão adorar. — Cris
aceita o convite.
— Eu posso ir também? A criança interior que vive em mim quer participar.
Ele apoia a mão sobre a minha mesa e sorri.
— Na verdade, tenho outro convite para você.
— Tem? Que tipo de convite? — pergunto animada.
— Darei uma festa neste fim de semana, desejo a sua presença.
— Uma festa? Humm, interessante.
— É uma festa de negócios, vários investidores estarão lá e irei comemorar
o meu ingresso no mercado asiático. Agora exportarei tecidos para lá.
— Meu Deus, Morales, meus parabéns. Estou megafeliz pelo seu sucesso,
sei o quanto se esforça.
— Também estou feliz, Samantha, eu batalhei muito por isso.
— Eu sei. Por isso a minha felicidade. É sempre gratificante saber que
pessoas do bem conseguem alcançar os seus objetivos.
— E qual o seu objetivo? Sei que você é formada, então, não acredito que
esteja pensando em passar a vida aturando o Zander.
— Claro que não. — respondo automaticamente. — Estou fazendo um
curso de MBA, quando eu terminar será justamente na época que estarei
encerrando algumas dívidas, aí poderei me arriscar na minha área sem ficar
muito preocupada com as contas do mês.
— Quando quiser pode me procurar, você tem uma vaga garantida no meu
cast de executivos. Quero gente com sangue novo para poder entender toda a
modernidade que nos cerca.
— Estou sem palavras. — digo olhando para a Cris incrédula. — Promessa
é dívida, eu vou cobrar.
— Cobre o que desejar, querida. — Vou ao céu das assanhadas com a sua
declaração, mas quando me preparo para responder, Zander abre a porta
abruptamente.
— O que faz aqui, Morales? — ele pergunta com agressividade.
— Zander, que prazer em vê-lo. — Morales diz com fingida empolgação.
— Como está?
— Não respondeu a minha pergunta. O que faz aqui de papo furado com as
minhas secretárias? Você não está na minha agenda.
— Vim de surpresa, queria conversar algo com você.
— Então por que não foi anunciado? — Ele olha para mim irritado. —
Desaprendeu o seu serviço, senhorita Diniz?
— Sei o meu serviço muito bem, só estava sendo educada com o Morales.
— Senhor Morales, ele não é seu amigo e aqui é um ambiente de trabalho.
— Zander me recrimina e preciso de toda a força dentro de mim para não o
mandar se foder.
— Calma, Zander, você está parecendo um cão raivoso. — Morales fala se
divertindo com a crise do chefe.
— Não sou um cachorro vira-latas como você. — Agora ele perde todo o
controle. — Entre logo e diga o que quer, tenho mais o que fazer. — Ele abre a
porta e espera o Morales passar.
Sem se abalar, Morales pisca para mim e entra na sala do mal-amado
sorrindo.
— O que foi isso? — Cristina pergunta quando a porta se fecha. — O
senhor Saramago teve uma crise ciúmes?
— Crise de ciúmes? — pergunto irônica. — Ele teve uma crise de ego, isso
sim. Certamente nos viu pelas câmeras conversando como pessoas comuns com
o Morales e ficou putinho. Ele não sabe ser agradável e fica furioso quando
alguém o é.
Cristina me olha pensativa, parecendo não estar convencida com o meu
pensamento.
— Não acho que seja ego, pra mim foi o bom e velho ciúme. Ele foi
extremamente grosseiro com um parceiro de negócios sem necessidade.
— Ele é grosseiro, Cris, agora vamos terminar o nosso trabalho, daqui a
pouco o expediente termina e hoje quero ir embora cedo. Estou exausta e
cansada de aturar o chefe.
Ela me olha por alguns minutos, mas acaba fazendo o que falei. Cristina me
conhece bem e sabe quando fico irritada não quero conversa. Por isso nos
transformamos em amigas, aprendemos a respeitar os limites uma da outra.
CAPÍTULO 5

Samantha

Depois da visita surpresa do Morales na empresa, eu fiquei louca para a
semana acabar. Sequer me irritei com a aparição irritante do Alberto tentando
reatar o nosso namoro.
Com essa festa incrível para me divertir, não vou perder meu tempo com
um moleque como ele. O cara não tem postura de homem, não merece um
segundo pensamento da minha parte.
Encaro o meu reflexo no espelho e sorrio em aprovação a minha imagem.
Eu não me acho uma mulher bonita, estou no padrão, nem sou exuberante, nem
feia, sou apenas uma mulher que sabe valorizar seus atributos. No entanto, vou
confessar algo: hoje eu arrasei.
Sorrio enquanto viro o corpo olhando o caimento perfeito do vestido. Meu
cabelo está como eu queria e a maquiagem ficou idêntica ao tutorial que vi na
Internet.
Hoje não saio sozinha da festa, não é possível que não apareça alguém
interessante. Quero tirar de vez a sombra do Alberto da minha cabeça. Nada
como uma nova paixão para esquecer um ex-idiota.
— Nap, me deseje boa sorte.
“Miau”
Ele me responde e se enrosca nas minhas pernas exigindo carinho. Passo a
mão por suas costas dizendo palavras dóceis. O pobrezinho vai passar à noite
sozinho, mas amanhã também não vou sair de casa, ficarei o resto do fim de
semana ao seu lado.
Pego a minha bolsa e confiro se coloquei os itens necessários para retocar a
maquiagem, documento e o cartão de crédito. Assim que vejo que tudo está
certo, me despeço do Nap e saio de casa animada com as possibilidades da noite.

Quando chego ao salão da festa, o lugar já está lotando. Várias


personalidades do mundo empresarial estão pelo lugar e alguns dos executivos
me cumprimentam.
Como participo de almoços e coquetéis com o Zander, muitos sabem quem
eu sou. Boa parte deles já me cantou, enquanto outros não fizeram isso porque
não gostam da fruta e são casados apenas para manterem as aparências.
Já as mulheres não gostam de concorrência, eu também não gosto, é uma
característica feminina. Por isso a maioria faz cara feia na minha direção, mas
não me importo, até, porque, não tenho a mínima intenção de me jogar sobre os
homens delas. Sei da minha capacidade, posso arrumar um homem
descomprometido.
— Samantha, que bom vê-la por aqui. — Morales aparece e me envolve em
um abraço apertado.
Que homem cheiroso, queria afundar o meu rosto na curva do seu pescoço.
Acho que duas semanas sem sexo me deixou tarada.
— Obrigada pelo convite, sua festa está linda. — Ele se afasta ligeiramente
e segura a minha mão me incentivando a girar.
— Estás belíssima, querida, a mulher mais linda desta festa. — O seu
sotaque espanhol arrepia a minha pele.
— Você é encantador. — digo, fingindo timidez.
— Sou um homem de muito bom gosto. — Ele beija a minha mão com um
sorriso predador nos lábios. — Vamos beber um champanhe, ter você aqui é
motivo para comemoração. — Aceito sem protesto quando ele passa a minha
mão sobre seu braço e me encaminha para o bar.
— Você é um doce, está me fazendo sentir uma pessoa importante.
— Mas você é, querida, eu estava ansioso pela sua chegada.
— Pode parar por aí, Morales, você tem a nata dos empresários do Rio na
sua festa, sou apenas uma simples secretária.
Ele para no bar e pede duas taças de champanhe, em seguida me olha com
seu sorriso de molhar calcinha.
Por ter ascendência espanhola, ele é o tipo quente, supercharmoso e com
uma sensualidade latente. A maneira que ele me olha é uma loucura, eu me sinto
a única mulher da festa.
— Você é a estrela da festa, eu estava ansioso por sua chegada.
— Então sua ansiedade acabou. — Experimento o champanhe e deixo as
bolhas da bebida brincarem na minha boca.
— Valeu cada segundo que te esperei, você está sensacional, não tenho
palavras para descrever o quanto está deslumbrante.
— Deslumbrante está sua festa, parabéns.
— Está sendo um sucesso, assim como a expansão dos meus negócios.
Estou no caminho certo, Samantha, finalmente as coisas estão caminhando.
— Você merece. — Seguro a mão dele sorrindo.
— Boa-noite! — Uma voz fria corta nossa conversa. — Interrompo algo?
Olho para o alto e vejo Zander com seus olhos gélidos sobre mim. Ele veste
um terno claro e, ao contrário da maioria dos homens da festa, está sem gravata.
Por algum motivo desconhecido esse pequeno detalhe faz a diferença. Não
sei se por aparecer parte da sua pele, ou pelo cordão de ouro com um crucifixo.
Entretanto, o fato é que o ver tão à vontade, o torna único no meio de tantos
homens elegantes.
— Boa-noite, chefe, que bom vê-lo. — Finjo que a sua presença não me
afetou. — Atrapalhou e muito, eu estava em um assunto particular com o
Morales.
Olho para o Morales e ele aperta os olhos na minha direção sem entender o
motivo de estar mentindo para o Zander. Como ele também adora provocar o
meu amado chefe passa a mão pela minha cintura sorrindo.
— Eu e a Sam estávamos nos entendendo.
— Entendendo? — Zander ergue a sobrancelha. — E que tipo de
entendimento você pode ter com a minha secretária, Morales? Está pensando em
roubá-la de mim?
— Como assim me roubar de você? Eu não sou sua. — Zander vive em
outra realidade. Não sei de onde ele tira esses absurdos.
— Claro que é minha, enquanto estiver trabalhando comigo é minha
secretária.
— Ainda não roubei a Samantha, mas estou à disposição dela para quando
quiser um trabalho comigo. Será um prazer tê-la na minha equipe.
Não sei se é por causa da iluminação, ou minha visão que anda vacilando,
mas estou quase certa que o rosto do Zander está vermelho escarlate.
— Está falando sério? — Zander questiona o Morales.
— Acha que vou brincar com algo em relação à Samantha? — Ele aperta os
lábios contendo a raiva.
— Você é patético.
— Eu? — Morales sorri.
— Chega, meninos! Que tal aproveitarmos a festa? Vamos deixar os
conflitos de trabalho para a hora do expediente. — digo me sentindo poderosa
por ter dois homens lindos disputando os meus talentos profissionais.
Depois de ter um namorado que me largava para realizar os caprichos da
irmã, ver esses dois duelando por mim é de elevar qualquer autoestima.
— Eu trabalho em horário integral, estou disposto a continuar. — Zander
insiste em ser intransigente.
— Mas eu não. — Corto a insistência dele. — Morales, depois
conversamos, vou dar umas voltas por aí.
— Fique a vontade querida. — Ele beija a minha mão mirando os meus
olhos.
— Com licença. — Saio de perto deles e vou me embrenhando entre as
pessoas.
No entanto, a minha paz não dura nem um minuto, pois o persistente do
Zander vem atrás de mim.
Que homem chato!
— Que palhaçada foi aquela, Samantha? O que está acontecendo entre você
e o Morales? Ele estava de deboche com a minha cara, não gosto que façam isso.
— Tomou seu remédio de doido hoje, senhor Saramago? Porque você não
está bem. Ninguém estava debochando de você.
— Os dois estavam. — Ele segura o meu cotovelo me impedindo de andar.
— O que ele quer com você? Que intimidade repentina é essa que vocês
desenvolveram?
— Zander, ao contrário de você, o Morales é uma pessoa agradável, então é
natural termos assuntos comuns quando nos encontramos.
— Então agora não sou agradável?
— Não. — respondo sem titubear.
— E o que você classifica como agradável? Ser um velho mulherengo que
dá em cima da secretária dos outros?
Desisto! É impossível conversar com o Zander quando ele resolve ser
dramático. Já vi essa cena mil vezes no escritório, o ego dele não cabe em si.
— Não ser você já tá bom.
Volto a andar e tento fugir dele o mais rápido que meus saltos permitam,
mas hoje ele está no modo carrapato e me para.
— Larga de ser atrevida, sou o seu patrão.
— Aqui você é apenas um convidado desagradável. Cadê a sua mulher? Por
que não vai perturbar ela?
— Não tenho mulher, não sou casado.
— Você entendeu muito bem o que eu quis dizer.
— Não entendi nada, na verdade, sequer estou entendendo o que você faz
aqui. A festa é para empresários e amigos do Morales, que eu saiba você não é
nem uma coisa e nem outra.
Fico ofendida com o comentário dele, esse filho da mãe está me
menosprezando. Por acaso ele acha que não sou digna de ser amiga do Morales?
— Você não sabe nada de mim, Zander, se você não tem amigos, o
problema é seu. Eu tenho vários e eles me tratam com muito carinho. — Ao
fundo vejo a insossa da Vanessa se aproximar. Odeio essa mulher, só a voz dela
me enjoa. — Agora me deixa em paz, sua mulher tá chegando.
Antes que ele abra a boca, corro para a área externa e deixo o seu rosto
furioso para trás.


Zander

“Todos os dias me questiono do por que não demito a Samantha” Ela é
linguaruda, espertinha demais e sem disciplina. Não consigo me lembrar de ter
um dia no escritório sem que ela me dissesse algum desaforo.
Agora, depois de vê-la incrivelmente linda e atrevida, entendo que seria
impossível passar um dia de trabalho exaustivo sem tê-la me instigando no
escritório.
Sam é diferente de qualquer mulher que já conheci. O olhar dela transmite
uma força descomunal. E o melhor de tudo, é que ela não me teme como as
outras pessoas. Para Sam, sou apenas um chefe rabugento, que gosta de trocar
farpas durante o expediente.
Ao que tudo indica o grande caçador Morales também entendeu que ela é
diferente, ele está se empenhando mais do que imaginei para ganhar a atenção de
Sam.
Ele já me fez diversas perguntas sobre ela, perguntas essas que fiz questão
de não responder, mas o lobo velho sabe como conquistar uma garota. O safado
lançou seu charme e, pelo o que acabei de ver, ela está caidinha na dele.
Filho da puta!
— O que foi Zander? Por que você está com essa cara? — Vanessa me faz
tirar a atenção da porta por onde Sam saiu.
— Essa é a cara que acordo todos os dias.
— Não é não, você está aborrecido. — Ela passa a mão pela frente do meu
terno. — Era a Samantha que estava conversando com você? Parecia muito com
ela, apesar de estar elegante demais para ser uma simples secretária. — Vanessa
sorri com deboche e me irrita.
— Era a senhorita Diniz sim e ela é elegante naturalmente, são poucas as
mulheres que conseguem ser tão distintas quanto ela, sem nenhum artifício
externo.
O choque com as minhas palavras duras deixa Vanessa de queixo caído,
mas não me importo. Ela foi deselegante no comentário depreciativo sobre Sam
e eu não vou admitir isso.
— O que quis dizer? Por acaso não sou elegante naturalmente?
— Pense o que quiser.
Para evitar uma briga, me afasto dela e sigo para a área externa. Ao longe
vejo Samantha conversando animadamente com um casal. Ela está linda em um
vestido de tom rosa claro, que abraça seu corpo perfeitamente.
Deslumbrante não define o que é essa mulher, Samantha é completamente
surreal de tão bonita. Tudo o que eu queria na vida, era ter uma noite com ela.
Tenho certeza que toda a fissura que sinto por essa mulher iria acabar.
Ela vira o rosto e me vê a observando. Sem nenhum pudor joga o cabelo
para o lado e sorri exageradamente com algo que o homem fala em sua direção.
Essa mulher sabe provocar, por isso gosto tanto dela. Tudo se torna uma
grande aventura quando estou ao seu lado.
Como não sou homem de me render, sigo na sua direção. Ela vai ter que me
contar o que está tramando com o Morales, mereço saber se estou prestes a ser
trocado.
— Com licença, mas preciso roubar a Samantha por alguns segundos. —
digo quando paro em frente ao casal. — Como vai, Elias? Há quanto tempo não
nos vemos.
— Verdade, Zander, é sempre um prazer te reencontrar amigo. – Ele aperta
a minha mão.
— Se incomoda se eu falar rapidamente com a Samantha?
— Claro que não. — ele responde educado e retiro a Sam de perto deles.
— Que merda é essa? Agora não posso conversar? — Ela se afasta de mim
quando paramos ao outro extremo do casal.
— Você vai trabalhar com o Morales?
— Zander, estamos em um momento de lazer, me deixa em paz.
— Estão juntos? Por isso ele estava com aquele olhar de zombaria?
Samantha, eu não acredito que você está com aquele velho babão. — Ela olha
para o alto sorrindo, me irritando ainda mais.
— Senhor Saramago, você não é da Terra. Nunca vi uma pessoa tão louca
assim.
— Para de brincadeira e responde as minhas perguntas.
— Respondo “não” para todas elas no momento, mas pode ser sim em
breve para ambas. Eu adoraria ocupar um cargo na equipe de administração do
Morales e não me importaria de cair na cama dele. Acho aquele homem um
charme, sem contar o ar de amante latino que me dá um calor danado.
Ela se abana para demonstrar o quanto se sente atraída por aquele imbecil.
Até parece que ele vai ter pique para manter uma mulher como ela entretida no
sexo.
— Você só pode estar brincando, onde que um homem como ele pode ser
suficiente para você? Tenho que rir da sua...
— Zander, como vai? — Uma voz forte me paralisa e fico surpreso ao
constatar de quem se trata.
— Enzo, que surpresa. — Sorrio quando vejo um potencial cliente.
Enzo Parise é um dos maiores produtores de cosméticos do mundo, o cara
até conseguiu ganhar espaço no comércio europeu. Se eu conseguisse fechar a
venda dos cosméticos dele nas minhas lojas, seria um puta sucesso de vendas.
— Senhorita. — Ele cumprimenta a Samantha com um beijo respeitoso na
mão. — Enzo Parise.
— Prazer. — Samantha se derrete inteira para ele, sorrindo como se fosse
uma criança na frente de uma loja de brinquedos. — Sou Samantha Diniz.
— Está sozinho? Cadê a sua esposa? — Decido jogar água no fogo da Sam,
ela é assanhada, mas sei que não gosta de homens comprometidos.
— Íris está conversando por aí, ela adora essas festas para fazer campanha
para os empresários colocarem creches nas suas empresas. De acordo com ela,
uma mãe tranquila rende muito mais no trabalho. E obviamente a minha esposa
tem razão.
— É uma ideia excelente.
— Pode apostar que é. — Enzo olha com interesse entre nós. — Não quero
incomodar o casal, apenas passei aqui para te cumprimentar pelo excelente
crescimento nesse tempo de crise. Você está de parabéns, Zander, admiro muito
sua sagacidade nos negócios.
— Fico lisonjeado com um elogio vindo de você. — digo envaidecido. —
Já que está aqui, que tal nós marcamos uma reunião para tentarmos firmar uma
parceria? Acho que seria um grande sucesso se vendêssemos alguns dos seus
produtos nas lojas Kariokas. Podíamos ter uma linha específica nas minhas lojas,
eu criaria um espaço exclusivo para que elas fossem expostas.
Ele une as sobrancelhas pensando no que falei. Se ele está considerando a
minha proposta, certamente sabe que teremos muito sucesso financeiro juntos.
— Vou pedir para a minha secretária entrar em contato com a sua para nos
encontrarmos. Acho a sua proposta boa, mas precisamos analisar com calma
todas as possibilidades para obter um sucesso vantajoso para ambos.
— Será um prazer, pode pedir para ela ligar no meu escritório quando
quiser. A senhorita Diniz irá providenciar tudo. — Olho para Sam sorrindo e,
pela primeira vez na noite, ela devolve o sorriso.
— Você é a secretária? — ele pergunta à Samantha intrigado.
— Sou, mas agora vim como convidada do Morales, somos amigos. — A
reposta dela me pega de surpresa e me irrita.
Amiga é o caralho!
— Entendo. — Enzo responde de maneira educada. — Bem... foi um prazer
conversar com vocês. Espero te encontrar em breve, Zander. — Ele aperta a
minha mão.
— Pode apostar que nos veremos em breve.
Com um aceno curto ele se afasta e entra no salão da festa. Samantha
acompanha os passos dele e depois suspira.
— Que homem, meu Deus! Que homem! Pena que é casado. Se ele fosse
solteiro, juro que daria um jeito de me jogar na cama dele.
— Samantha, o que é isso? — pergunto indignado e com um sentimento
estranho que me nego a assumir que é ciúme.
Eu não sinto ciúmes de ninguém, porra!
— É tesão meu caro, você não sente isso?
Sinto toda vez que você passa na minha frente.
Digo mentalmente me odiando por ser tão fissurado nela. Não é certo eu
desejá-la tanto, Samantha não é mulher para mim, essa personalidade
intempestiva dela nunca combinaria com a minha.
— Sei muito bem o que é tesão.
— Então pare de ficar com essa cara de espanto. Sou uma mulher
sexualmente ativa, estou há duas semanas sem transar. Impossível não me
excitar com um homão como esse Enzo. Porra, o homem parece artista de
Hollywood, pena que já laçaram o boy. — Ela faz cara de desgosto. — Vamos
beber? Parece que você fechou um negócio, ele gostou da sua proposta.
A mudança no assunto dela me confunde, mas gosto desse novo rumo.
Negócios é sempre algo que me deixa a vontade.
— Você acha? Também senti que ele percebeu que podemos ter muito
lucro.
— Gostou e torço muito que você tenha um lucro exorbitante, assim
podemos conversar sem miséria sobre o meu aumento.
— Aumento? Que aumento?
— Aquele que você está louco para me dar. — Ela enlaça o braço no meu
como se fossemos um casal e me puxa para o centro da festa.
— Não me lembro de ter dito que ia te dar aumento.
— Ainda não disse, mas estou fazendo uma novena para o “Menino Jesus”
tocar o seu coração e você me dar uns 40% de aumento. Quero dar um pulo no
Caribe, chefe, nadar no meio dos corais, beber água de coco e, quem sabe, pegar
um caribenho quente.
— Você não pensa em mais nada além de sexo?
— Penso em dinheiro, mas como é mais fácil eu conseguir sexo, então foco
neste pensamento que, além de emagrecer, deixa a pele linda. — Ela sorri e
encosta a cabeça no meu braço me fazendo sorrir também.
Samantha não tem juízo e sabe como ninguém aliviar um clima pesado.
Agora, nem me lembro que estava, há pouco tempo, irritado com ela. Essa
pestinha já me enrolou e, é por essas e outras, que eu gosto tanto dela.
CAPÍTULO 6

Samantha

— Então quer dizer que você saiu no zero a zero na festa do Morales?
— Saí, dá pra acreditar? Estou frustrada.
Cristina sorri e me deixa ainda mais irritada, ela está pisando nos meus
sentimentos de encalhada. Eu havia feito altos planos para o fim de semana, mas
todos foram por água abaixo com a perseguição implacável do Zander durante a
festa.
Aquele homem parecia um carrapato, não me deixava sozinha nem por um
minuto. Parecia uma sombra, aparecendo no meio das minhas conversas e
soltando o seu mau humor por onde passava.
O pior é que a imprestável da namorada dele sequer tem controle sobre o
próprio homem. Ele passou a noite inteira longe dela, enquanto a boba ficava
implorando a sua atenção.
Tem mulher que se contenta com pouco, porque se fosse comigo, ele
ganhava um par de chifres rápido. Quem não dá assistência abre concorrência.
— Não deu nem para dar uns beijinhos no Morales?
— Ele era o anfitrião, Cris, todo mundo queria a atenção dele. O homem
tava uma delícia. Que vontade de dar uns pegas nele. — Começamos a sorrir do
meu assanhamento em plena segunda, se o Zander escutar o nosso papo, ele
dobra o nosso trabalho.
O telefone toca e a Cristina atende, e em seguida ela me pergunta se estou
sabendo de alguma visita para o Zander por parte de uma empresa de arquitetura.
Digo que não estou por fora e peço para ela mandar a pessoa que está na
recepção subir.
Não sei o que o nosso digníssimo chefe está aprontando, mas descobrirei
em breve.
— Bom-dia. — Um jovem muito bonito entra na recepção, ele é uma graça,
mas joga no mesmo time que eu e a Cris.
— Bom-dia, querido, em que posso te ajudar? — Sorrio com extrema
simpatia.
— O senhor Saramago entrou em contato com a minha empresa e pediu que
um arquiteto viesse falar com ele.
— Um arquiteto? — Olho para a Cris surpresa. O que será que essa raposa
astuta está aprontando? — Aguarde um minuto.
Faço sinal para o rapaz sentar e sigo para a sala do chefe, quero saber o que
esse homem está aprontando. Será que ele vai reformar o apartamento?
— Zander, preciso de um minuto para falar com você. — Ele coloca os
óculos na ponta do nariz e me olha sobre eles.
— Nem meio minuto. Estou trabalhando, não tenho tempo para seus papos.
— Larga de ser grosseiro, estou aqui para algo profissional.
— Alguma novidade do Sul?
— Não, mas tem um rapaz lá fora querendo falar com você.
— Ele tem hora marcada? Se não tiver dispensa.
— Não marcou nada, mas disse que você ligou para a empresa dele e pediu
que mandassem um arquiteto aqui.
— Ahhh, o arquiteto. — Ele retira os óculos e coloca sobre uma pilha de
papéis.
— O que você quer com um arquiteto? Vai reformar a sua casa? — Minha
curiosidade é algo que não consigo controlar.
— Virou investigadora agora? Não sabia que tinha mudado de função. —
Faço um bico pela sua resposta sarcástica. Ele é um idiota. — Mande o rapaz
entrar, ele vai reformar a copa.
— A copa? E para reformar a copa precisa de um arquiteto? — Zander
passa a mão pelo rosto indicando que passei dos limites.
— A minha copa precisa de um arquiteto com especialidade em decoração,
quero uma copa elegante.
— Mas você nem vai lá.
— Samantha, pelo amor de Deus, mande esse homem entrar e cala essa
boca.
— Grosso! — Saio pisando duro e mando o rapaz entrar.
Eu deveria manter a minha boca fechada, assim não ouviria tantos
desaforos desse malcriado.
— O que o senhor Saramago quer com um arquiteto? — Cris também não
controla a curiosidade.
— Vai reformar a copa.
— E precisa de um arquiteto?
— “A minha copa precisa de um arquiteto com especialidade em
decoração”. — Repito a resposta dele, tentando imitar a sua voz e arranco uma
risada da Cris.
— Esse homem tá ficando louco, lá onde moro a gente chama o pedreiro e
diz mais ou menos como quer.
— De onde eu venho também é assim, Cris, mas gente rica gosta de gastar
dinheiro à toa. Fazer o que, né?
Volto ao meu trabalho para evitar dar margens a mais uma discussão com o
chefe. Hoje ele chegou fora do horário e com cara de poucos amigos, então, não
quero estresse, sei que ele não está bem.
No instante que abro um arquivo, o telefone da minha mesa toca. Atendo e
Zander me pede que vá até a sua sala.
É... parece que não vou conseguir me livrar do seu mau humor.
— Pois não, senhor Saramago. — digo educada e sorridente.
— O senhor Derek vai fazer o projeto da nossa copa, quero que passe todas
as informações para ele. Assim que o orçamento for entregue, veja se é viável e
encaminhe para o financeiro.
— Hã? — Não estou entendendo nada. Eu vou ser responsável pela reforma
da copa? Como assim? — Você não vai dizer como quer a copa? — Não resisto
e pergunto.
— Eu lá tenho tempo de reformar algo, senhorita Diniz? Tenho mais o que
fazer. Quem usa a copa é você, então veja o que quer.
Coço a cabeça querendo mandar ele para um lugar não muito legal, mas me
seguro e peço apenas para o rapaz me acompanhar.
Encaminho o arquiteto para a copa e começo a ditar ordens. Por
coincidência, eu adoro sites de decoração e assisto ao programa de tevê Irmãos à
Obra. Sei tudo sobre as cores da moda, tecidos e pisos. Se eu tivesse dinheiro,
reformaria a minha casa todo ano e colocaria uma ilha na cozinha para fazer o
conceito aberto que tanto os irmãos Scott falam no programa.
Quando termino de ditar a copa dos sonhos, o rapaz diz que irá montar o
projeto e me apresentar em alguns dias, juntamente com o orçamento. Agradeço
e o acompanho até o elevador conversando sobre os tons que podemos usar.
Como ele percebeu que entendo um pouco de decoração, acabou surgindo uma
simpatia instantânea entre nós.
Assim que ele vai embora, volto à sala do bipolar para tirar satisfações com
ele. Não vou engolir essa responsabilidade de reformar a copa. Ele inventa essa
história de reforma e eu que pago o pato?
— Zander, que palhaçada é essa de reforma? Eu não sou contratada para
cuidar de obra.
— Nem para falar comigo como se fosse a minha mulher. — Ele me encara
irritado.
— Meu querido, jamais seria a sua mulher, e se fosse, eu não teria me
comportado tão passivamente quando você me joga uma reforma que sequer
sabia que teria que gerenciar.
Nós nos encaramos por alguns segundos soltando faíscas para todos os
lados. Um dia, ele perde a alegria de brigar comigo e me manda embora. Sei que
pego pesado, mas ele me tira do sério.
— Longe de mim querer você passiva, não teria graça. — Para a minha
surpresa ele sorri. — No entanto, tenho certeza que eu te faria passiva em
diversas situações, mas não vem ao caso.
Meu corpo esquenta com as suas palavras. Ele está falando de sexo. Odeio
quando entramos nesse assunto.
— Basta dizer o que quer e o arquiteto faz, não tem mistério. Quando a
reforma acabar, compre a máquina de expresso, quero um café fresco sem medo
de você me enganar.
— Vou trabalhar sabe, cansei de brigar. — Começo a sair, mas ele me
interrompe.
— Samantha, o Marco deu sinal de vida?
— Não deu nenhuma notícia substancial.
— Isso não está me cheirando bem, terei que ser mais agressivo nessa
questão.
— O que está pensando em fazer?
— Meu pai sempre me disse que o olho do dono engorda o gado. Por isso
ele conseguiu sucesso nos negócios, nada fugia dos olhos do meu velho.
— Será que você pode ser mais claro? Tô perdida. — Ele sorri de mim.
— Se ele não me apresentar uma resposta clara sobre as faturas, irei
verificar essa história pessoalmente.
— Vai para Porto Alegre sem avisar?
— E por que eu avisaria? — Ele suspende a sobrancelha e pisca para mim.
— Você é mau.
— Muito, você não sabe o quanto. — Sua voz sai baixa e entendo
perfeitamente que mudamos de assunto.
— Faz isso sim, tira de uma vez por todas essa história a limpo. — Abro a
porta para interromper de vez a nossa conversa. — Preciso trabalhar em uns
arquivos, qualquer coisa me chama.
Escapo da sala antes que a nossa conversa caía em provocações sexuais que
não estou disposta a enfrentar. Esse fim de semana foi estressante, ainda estou
ressentida por ele me atrapalhar na festa. Se existe uma coisa que não sei lidar, é
com frustração sexual.
CAPÍTULO 7

Dia seguinte

Ontem aceitei o convite da Cris para jantar na casa dela. Como adoro a sua
comida, eu aceitei sem pensar duas vezes.
Nós saímos juntas e passamos na minha casa para verificar como Nap
estava. Eu ajeitei as coisas dele e em seguida partimos para comprar alguns itens
para o nosso jantar.
Cristina mora na Rocinha, uma comunidade do Rio. A casa dela tem uma
vista incrível, o único problema é a violência que parece explodir em todo lugar.
Tudo estava indo bem no nosso jantar, as filhas da Cris estavam
empolgadas com a minha presença e a mãe dela mais falante que nunca, mas
assim que terminamos de lavar a louça do jantar, uma intensa troca de tiros
impediu a minha partida.
O confronto durou algumas horas e a Cris sugeriu que eu passasse a noite
na casa dela. Obviamente eu aceitei ficar, só que não consegui dormir nem por
um minuto.
Apenas nas primeiras horas da manhã que o cansaço me venceu e tirei um
rápido cochilo, mas assim que a Cris acordou e começou a se arrumar, tive que
despertar.
Como eu não podia ir para o trabalho com a mesma roupa de ontem, pedi
para ela ir na minha frente. A pobrezinha começou a tremer com medo da reação
do Zander, ela definitivamente não sabe como conter os chiliques do chefe.
Agora estou mais que atrasada e terei que aturar o mau humor do ditador o
dia todo. Espero que ele não me irrite muito, porque com o sono que eu estou,
sou capaz de voltar para casa e deixá-lo falando sozinho.
Que Deus me ajude a ter paciência, ou hoje será o dia que peço demissão!


Zander

A minha cabeça está fervendo, essa falta de posição da equipe
administrativa do Sul está me matando. Se eu tiver que sair do Rio para resolver
os problemas de lá, certamente terei que montar uma nova equipe, porque vou
demitir quem passar pela minha frente.
Não admito incompetência, principalmente entre os meus executivos. Se
eles não são capazes de resolver um problema simples nas faturas, não posso
confiar neles.
No exato instante que piso na entrada do edifício do escritório, o toque de
mensagem que dei para Samantha me faz parar e ler o que ela deseja logo cedo.
Samantha – Zander, eu tive um contratempo e não dormi em casa. Vou
trocar de roupa e chegarei no escritório um pouco atrasada, mas a Cris já
chegou. Depois te explico o que aconteceu.
Releio a mensagem sem acreditar no desaforo dela de me dizer que dormiu
fora de casa e que vai se atrasar. Vou descontar cada segundo do seu atrasado, é
inadmissível ela perder a hora por causa dos seus amantes.
— Bom-dia, senhor. — O porteiro me cumprimenta sorridente.
— Péssimo dia, Valdir, péssimo dia. — digo irritado e entro no elevador
ignorando os olhares curiosos na minha direção.
Ignoro todos e respondo a mensagem de Sam avisando que quero que ela vá
direto a minha sala quando chegar. Estou fervilhando de raiva dela, espero estar
calmo até ela chegar, caso contrário, sou capaz de suspendê-la por uma semana.
— Bom-dia, senhor Saramago. — Com receio, Cristina me cumprimenta.
— Como posso ter um bom dia quando a minha secretária não está aqui?
Prepare o meu café e traga até a minha sala, mas quero fresco, nada de me
enrolar.
— Jamais faria isso senhor.
Pior que eu sei que ela não faria, Cristina é uma ótima pessoa, bem
diferente da maldita Samantha. O que me desagrada nela é sua passividade, ela
se borra de medo de mim, não consegue sequer manter a calma quando estou na
sua frente.
Entro no meu escritório e ligo o computador, em seguida checo as
mensagens que chegaram depois que saí de casa. Uma das mensagens me chama
a atenção, é a minha mãe avisando que pretende vir ao Brasil para fazer uma
visita aos filhos.
Fico feliz em saber que ela tem intenção de nos visitar, estou com saudades
dos meus velhos, eles fazem muita falta. Sei que estão vivendo a vida que
sempre desejaram ao lado dos parentes do meu pai em Açores, mas não posso
negar que gostaria de tê-los por perto.
Respondo a sua mensagem dizendo que estou ansioso esperando a visita.
Em seguida mando uma mensagem para a minha irmã perguntando se ela já sabe
que nossos pais pretendem vir ao Brasil.
— Senhor, com licença, seu café. — Cristina bate na porta e entra na sala
com aquela expressão de pavor que me enerva.
— Cristina, eu sou um pouco mal-humorado, mas não mordo, tira essa cara
de apavorada.
— Desculpa, senhor, eu só não quero aborrecê-lo. — Suspiro fundo irritado
quando pego o café.
— Pois me aborrece com essa cara de medo, tenta melhorar isso. — Para
não me irritar mais a dispenso e volto às mensagens.
Passo um tempo distraído respondendo a minha irmã, ela reclama que
nunca mais fui visitá-la e diz que o Alex, meu sobrinho arteiro, está com
saudades.
Eu também sinto saudades daquele menino. Nesse fim de semana vou
passar um tempo com eles, talvez levar os dois até a praia.
Pego o jornal no canto da minha mesa e vou direto para a seção de
economia. Jamais começo uma manhã sem saber o que se passa na área
econômica do mundo
Enquanto experimento o café, vou destrinchando o jornal até que a voz da
maldita me desperta.
— Chefe. — Ergo os olhos e a vejo parada na porta mordendo o lábio
inferior.
Esse seu gesto faz o meu peito inflar com uma raiva potente, não só pelo
seu atraso, como por ela ser sexy em um momento que só desejo a matar.
— Bom-dia. — Ela me saúda sorrindo, acreditando que vai me enrolar.
— Estou esperando. — Não devolvo a sua saudação.
— Está me esperando?
— Não! Estou esperando sua justificativa para chegar... — Olho para o
relógio para me certificar o tempo que ela se atrasou. — Uma hora e cinco
minutos atrasada. — Ela solta uma respiração pesada.
— Posso sentar?
— Não. — Ela me ignora completamente e senta-se na minha frente.
Hoje ela veste uma calça de linho cinza, que modela tentadoramente as suas
coxas. Um terninho da mesma cor, com uma blusa branca por dentro. Seus
cabelos estão presos em um rabo de cavalo e sua boca volumosa tem um batom
rosa bem discreto.
Está uma verdadeira executiva, o que me faz pensar mais uma vez que
preciso encontrar uma ocupação para ela no meio da minha equipe
administrativa.
— Tive um problema ontem à noite e não pude dormir em casa.
— Um problema? — pergunto em tom irônico. — Sexo agora é um
problema? Jurava que para você era a solução deles.
— Sexo? — ela me pergunta como se estivesse indignada.
— Não sou idiota, Samantha, sei que você perdeu a hora por causa da sua
noite de aventura. — Para minha completa indignação, ela solta uma risada.
— Pior que foi uma noite de aventura mesmo, mas não do jeito que você
está pensando.
Fico curioso com a sua resposta, ela não está com o aspecto de que passou
uma boa noite de sexo. Pelo contrário, só agora estou notando que, apesar da sua
maquiagem, ela está com olheiras.
— O que aconteceu então? Você está com o rosto cansado.
— Fui jantar na Cris ontem, e quando estava indo embora, começou um
tiroteio.
— Um tiroteio?
— Isso, infelizmente é algo comum nas comunidades da cidade, mas um
pouco assustador para mim. Nunca estive em uma situação como a de ontem, de
certa maneira foi traumático ouvir tão de perto aquela troca de tiros. Sei que a
cidade está tomada pela violência, às vezes escuto tiros perto da minha casa, mas
um confronto como o de ontem com armas pesadas, eu vi pela primeira vez.
— Você está bem?
— Infelizmente não. Passei a noite acordada com medo dos bandidos
invadirem a casa. Dormimos no corredor, para tentar nos proteger dos tiros. Foi
horrível Zander, não sei como a Cris consegue trabalhar todos os dias com tanta
alegria vivendo sob aquela tensão.
Fico sem palavras para responder à Samantha, não esperava descobrir que o
seu atraso estava relacionado a violência na cidade. Muito menos descobrir que a
minha assistente mora em um local onde tiroteios são constantes.
Só agora percebo que sei muito pouco sobre a Cristina. Não faço ideia onde
ela mora, se é casada, qual a idade dos filhos.
— Está se sentindo bem para trabalhar? Se quiser pode ir embora. —
Levanto e dou a volta na mesa.
— Para de bobagem, claro que posso trabalhar, mas pega leve com a gente,
nós não dormimos direito. — No impulso seguro a mão dela.
— Juro que vou tentar ser amoroso com vocês. — Ela me encara com um
olhar travesso e sorri.
— Não exagere, ser amoroso não combina com você. Basta segurar esse teu
mau humor e não ser grosseiro com a Cris.
— Fui grosseiro com ela quando cheguei. — Assumo a minha culpa.
— Você não tem jeito. — Sam revira os olhos dramaticamente. — Já tomou
o seu café?
— A Cristina trouxe e estava fresquinho.
— Ela não seria capaz de requentá-lo, Cris é boba demais.
— Ela é uma mulher inteligente.
— Não vamos discutir, não tenho ânimo para nada hoje. — Ela se ergue e
puxa a mão do meu aperto me fazendo lamentar a ausência desse toque. — Vou
te passar a agenda do dia daqui a pouco, preciso tomar meu café, com fome não
raciocínio direito.
— Leve o tempo que precisar, eu espero.
Ela arregala os olhos e já me preparo para uma cutucada, mas Sam me
surpreende apenas sorrindo enquanto sai da minha sala.
Assim que eu resolver o problema do Sul, vou ver o que posso fazer pela
Cristina, não gosto de saber que ela convive tão de perto com a violência
covarde da nossa cidade.
Sei que não posso resolver os problemas de todos os meus funcionários,
mas é impossível ficar passivo, quando ela convive comigo tão de perto.


Samantha

— Você realmente conseguiu acalmar a fera, ele está um cordeiro. —
Cristina diz ainda passada com o comportamento tranquilo do Zander.
— Ele ainda tem coração. — digo quando o telefone toca. — Escritório de
Zander Saramago, boa-tarde.
Sou saudada por uma mulher simpática que rapidamente se identifica como
secretária do gostosão Enzo Parise. Ela quer saber se existe alguma vaga na
agenda do chefe, porque o Enzo está bem próximo do escritório.
Como sei que o Zander está ansioso por esse encontro, eu digo que ele pode
recebê-lo e ela me avisa que no máximo 45 minutos o bonitão está chegando.
Quando ela encerra a ligação, ligo para o Gaspar, que tinha um encontro
com o chefe justamente no horário que o Enzo chegará, e aviso que assim que o
Zander estiver livre peço para ele subir.
— Que cara é essa? — Cris me pergunta quando desligo.
— O chefe vai receber um empresário famoso para tentar fechar um
negócio. E você não tem noção do quanto o homem é gostoso.
— Você já está de olho no homem?
— Não. — respondo desanimada. — Já chegaram na minha frente. Você
sabe muito bem que os melhores boys nunca estão sozinhos.
— E se estiverem é porque tem algum defeito grave. — Sorrio da resposta
dela enquanto sigo para a sala do Zander. Tenho certeza que ele vai adorar saber
que pode fechar um bom negócio.
Bato na porta dele e abro um pedacinho. Ele está ao telefone e me manda
entrar.
— Não sei Vanessa, hoje o meu dia está agitado, acho que não terei ânimo
de sair depois do expediente.
Faço o maior esforço do mundo para não revirar os olhos. Só em ouvir o
nome dessa namorada dele, já sinto enjoo. Mulher sebosa!
— Mais tarde eu te ligo, agora preciso ver o que a Samantha quer.
De onde estou escuto ela me chamar de vadia e minha vontade é dizer que
eu posso até ser uma vadia, mas sou uma vadia com amor próprio, diferente
dela, que é uma vadia que se submete a um homem que não a ama.
— Já chega, até mais tarde. — Ele interrompe a ligação e fecha os olhos
antes de me dar atenção. — O que foi, Samantha?
— Antes de qualquer coisa, diga à sua namorada para me chamar de vadia
quando ela me encontrar.
— Desculpa, a Vanessa anda um pouco agitada.
— Agitada é a... — Não termino de falar, porque senão eu desço a ladeira e
já era. — Você tem uma reunião em no máximo quarenta e cinco minutos.
— Reunião? É o meu encontro com o Gaspar?
— Não. O Gaspar vai vir depois que a sua reunião acabar.
— Para de mistério, odeio isso.
— Você odeia tudo, não tem um pingo de senso de humor. — Se olhar
fuzilasse, eu tinha morrido agora. Que homem insuportável. — A secretária do
senhor Parise ligou e perguntou se você podia receber o bonitão agora. Como sei
que esse negócio é do seu interesse, disse que ele poderia vir.
— Porra, Samantha, não estou preparado para receber o Enzo. Eu queria ter
organizado algo para mostrar para ele.
— Você já nasceu pronto, chefe, relaxa. — Sigo para a porta, mas antes de
sair, me viro. — Confie no seu taco, tenho certeza que ele é certeiro. — Pisco
para ele e vou fechando a porta bem devagar enquanto observo ele sorrir
maliciosamente para mim.

Eu e a Cris já retocamos a maquiagem e ajeitamos os cabelos. Não é porque


o bonitão é casado, que precisamos aparecer na frente dele derrotada. Queremos
mostrar nossa aparência impecável de secretárias executivas, até porque, ele
precisa ver que o nosso chefe é um homem de sucesso, com funcionárias divas.
— Quero ver se ele é tão bonito como você falou.
— Bonito é o Zander, amiga, esse homem é deslumbrante.
Quando acabo de falar, ele abre a porta e me faz ter um minidesmaio.
Que homem, meu Deus! Que homem!
— Boa-tarde. — Ele nos cumprimenta com um meio sorriso.
— Oi, boa-tarde. — Tento controlar o meu lado piriguete, mas confesso que
é difícil.
— Boa-tarde. — Cris responde com os olhos arregalados.
Coitada, certamente ela acreditava que eu estivesse exagerando quando
disse que a beleza dele era acima da média.
— Essa é a Cristina, a Secretária-adjunta. — digo ao bonitão.
— Muito prazer em conhecê-la. — Ele acena.
— O senhor Saramago já está lhe aguardando, senhor Parise, me
acompanhe.
— Obrigado.
Sigo para a sala do Zander sorrindo como uma boba. Se eu ficar mais um
minuto ao lado desse homem, vou ter cãibra na face.
— Senhor Saramago, Enzo Parise já chegou. — Abro a porta para o bonitão
passar.
— Entre, Enzo, é um prazer te receber.
Por alguns segundos vejo os dois se cumprimentando e aprecio a visão
desses belos homens juntos. Não é todo dia que se tem esse tipo de visão e,
apesar de saber do meu lugar, sou uma mulher que gosta de apreciar o que é
bonito.
Fecho a porta e me encosto nela me abanando teatralmente só para fazer
graça para a Cris.
— Chama o bombeiro, amiga. — Ela joga a cabeça para trás e solta uma
gargalhada contagiante.
— Samantha você não existe, não sei o que seria de mim se você não
trabalhasse aqui.
— Você seria uma pessoa pela metade, e ainda aturaria o ditador sozinha.
— Deus me livre aguentar o senhor Saramago só. — Ela se benze. — E
esse Enzo, hein? Que homem incrível, senhor!
— Não te falei que ele era fora dos padrões?
— Põe fora dos padrões nisso.
Passamos os próximos trinta minutos conversando bobagens esperando pelo
fim da reunião. Apenas interrompi a conversa quando tive que servir um copo de
água para o Enzo e café para o chefe.
Quando o bonitão apareceu na porta com o Zander, eu e a Cris seguramos
ao máximo a nossa vontade de babar nele. Foi quase impossível quando ele se
despediu de nós com um sorriso de molhar calcinha.
— Fechem a boca. — A voz irritada do Zander nos fez parar de olhar a
porta por onde o bonitão tinha saído. — Preciso conversar com você, senhorita
Diniz. — ele diz entre os dentes, me chamando pelo sobrenome.
Vem bomba pela frente. Lascou!
— O que foi chefe? — pergunto fingindo normalidade quando entro na sua
sala.
— Você devia ficar envergonhada sabia?
— Pelo o quê?
— Ora, Samantha, você ficou babando por um homem casado.
Faço uma careta por não poder desmenti-lo, mas babei com respeito, não
posso fazer nada se tenho bom gosto.
— Eu não sou culpada por ele ser lindo, mas só olhei, não disse nenhuma
gracinha.
— E nem precisava, só pela sua cara já dava para ver que estava louca.
— Esquece isso, quero saber como foi a conversa de vocês. — Agora ele
sorri.
— Fechamos um acordo, só preciso organizar alguns detalhes com ele para
assinarmos um contrato. Em um primeiro momento, ele vai ceder uma linha
exclusiva para as nossas lojas.
— Uau, Zander, que legal. — Por impulso eu o abraço e me arrependo
amargamente no exato segundo que sinto seus braços rodearem a minha cintura.
O cheiro do seu perfume amadeirado me envolve sedutoramente e me sinto
tonta. A vontade que tenho é de afundar o rosto no seu pescoço e deslizar a
língua por sua pele.
Ele é tão sólido, que uso de toda a minha força de vontade para não descer a
mão e tocar seus bíceps para me certificar de sua rigidez.
Fecho os olhos com força quando ele encosta o nariz no meu cabelo e inala
profundamente. Faço o maior esforço do mundo para não virar o rosto e oferecer
meus lábios para um beijo. Por mais que eu tente deixar na geladeira a atração
que sinto por ele, não é fácil ser tão controlada quando ele me segura com tanta
força.
Quando o nosso abraço ultrapassa todos os limites do aceitável, seguro seus
ombros fazendo uma suave pressão para que ele me solte. Por alguns segundos
ele resiste, mas em seguida se afasta.
Nós nos encaramos tensos e vejo em seus olhos o quanto ele também se
sente abalado. Foi um erro abraçá-lo, preciso evitar qualquer aproximação entre
nós futuramente.
— Estou muito feliz por você. — digo quando sinto que a minha voz está
estável. — Sei o quanto queria essa parceria.
— Também estou feliz. — Ele limpa a garganta e coloca as mãos nos
bolsos. — Hoje vamos encerrar o expediente mais cedo, avise a Cris que iremos
comemorar esse negócio.
— Nós vamos comemorar? — Faço um sinal entre ele e eu.
— Nós... — Ele faz um sinal maior para também englobar a Cris.
— Certo. — digo sorrindo e decido que é hora de sair. — Vou avisá-la.
— Quando o Gaspar chegar pode mandar entrar direto.
— Tudo bem, chefe.
Saio da sala dele com o corpo pegando fogo. Neste momento, sequer me
lembro que há poucos minutos eu babava pelo tal do Enzo. Agora, minha mente
está apenas relembrando o cheiro afrodisíaco do meu chefe bipolar.
CAPÍTULO 8

Zander

Peço outra bebida ao Francisco enquanto sorrio das meninas. É a primeira
vez que saímos juntos, mas confesso que estou apreciando a companhia das
duas.
Gostei de ver a Cristina a vontade comigo, depois de dois drinques, ela não
me olha com o pânico costumeiro. Agora, parece até que fazemos esse tipo de
encontro todos os dias.
— Samantha, você deveria aparecer mais vezes.
Francisco está todo galanteador para o lado dela, Sam conseguiu fisgar o
velho desde a primeira vez que a trouxe para conhecê-lo.
— Se eu morasse perto, juro que viria mais vezes, Chico.
— Você não mora tão longe, pare de dar desculpas. — Ela sorri com a
repreensão dele.
— Prometo que virei mais vezes.
— Gente, o papo está ótimo, mas tenho que ir, não quero chegar muito
tarde em casa. — Cristina diz quando termina seu drinque. — Obrigada pelo
convite, chefe, foi muito bom poder comemorar mais uma vitória da empresa.
— Tem certeza que precisa ir agora? Se quiserem podemos jantar, ainda é
cedo. — Estou me sentindo tão leve na companhia delas, que não quero que
acabe.
— Sei que a Sam contou ao senhor sobre a noite complicada que tivemos,
estou cansada, preciso descansar.
— Compreendo. — Eu estou tão feliz que acabei me esquecendo da
situação tensa que as duas passaram. — Vou pedir um táxi para levar você.
— Não precisa, senhor Saramago, eu pego um ônibus, moro perto daqui.
— De maneira nenhuma, faço questão que vá de carro, basta me passar o
seu endereço que peço agora. — Ela olha para Sam em busca de ajuda, pelo seu
semblante não quer aceitar a minha oferta.
Com um sorriso arteiro, Sam dita o endereço da Cristina e imediatamente
peço um carro para levá-la. Por alguns segundos ela reclama, mas acaba
aceitando a minha oferta.
Encarno o meu lado gentleman e levo a Cristina na porta do restaurante
para que ela pegue o carro. Assim que o transporte chega, ela me agradece e vai
embora. Retorno para o bar do restaurante e encontro Sam sorrindo
exageradamente de algo que o Chico está falando.
Esses dois juntos nunca acabam bem.
— Posso saber do que riem tanto? — pergunto curioso para descobrir o
papo deles.
— Samantha é extremamente espirituosa. — Francisco pisca para ela e vai
atender um casal que senta no bar.
— O que disse para ele ficar tão engraçadinho?
— Nada demais. — Ela fecha os lábios sedutoramente no canudo da sua
bebida e suga todo o conteúdo. — Também vou embora, estou morta e ainda
tenho que fazer janta.
— Se você não percebeu, estamos em um dos melhores restaurantes da
cidade.
— Eu percebi. — Ela faz uma careta linda para mim.
— Então não vejo motivos de você ir para casa fazer o jantar, vamos comer
por aqui mesmo. — Não quero me afastar dela ainda.
— É melhor não, Zander, sei que você tem compromisso com a sua
namorada.
— O compromisso que assumi hoje foi com vocês duas para comemorar o
sucesso nos negócios. — chamo o Chico que me atende prontamente. — Quero
uma mesa, eu e Sam vamos jantar. — Ele olha para Samantha sorrindo.
— Pode deixar chefe, vou providenciar uma mesa especial para vocês.
Samantha faz cara feia, mas não ligo e começo a perguntar como anda a
preparação do seu irmão para o vestibular. Este é o tipo de assunto que a agrada,
ela ama falar do irmão.
Assim como previ, ela começa a falar empolgada, até que um garçom nos
avisa que nossa mesa está pronta. Ela segue atrás dele, o que me dá o privilégio
de ver seus quadris requebrando de maneira sedutora.
Quando nos acomodamos à mesa, Sam pede ao garçom um pouco de vinho
e pega o cardápio, mas antes de pedir, certifica-se que irei pagar tudo. Dou
permissão para ela escolher o que quiser e vejo um sorriso de pura satisfação nos
seus lábios.
Não consigo entender o que me encanta tanto nela, mas atos simples, como
esse sorriso travesso, me fascina loucamente. Samantha tem uma energia única,
que contagia tudo ao redor.
O garçom retorna com a bebida que ela pediu, fazemos os nossos pedidos.
Sam vai ditando o que quer e dá instruções ao garçom sobre alguns detalhes do
prato. Ele anota o pedido com um sorriso afetado no rosto e depois afirma que
virá tudo do jeito que ela pediu.
— Como você consegue seduzir os homens ao seu redor com tanta
tranquilidade? — pergunto enquanto contorno vagarosamente a borda do meu
copo de uísque após fazer o meu próprio pedido.
— Ser educada não tem nada a ver com seduzir, Zander, para de falar
bobagem.
— Eu estou falando bobagem? — Apoio a mão sobre o peito demonstrando
indignação. — Você sempre deixa os homens babando e eu que falo bobagem?
— Se vamos jantar eu não quero discutir com você, então acho melhor você
mudar de assunto.
— E sobre o que você gostaria de falar? — Ela joga o cabelo para o lado e
exibe um olhar arteiro.
— Por acaso, você sabe me dizer se o Enzo tem irmão? Por mais que eu
tenha me esforçado para não manter esperança sobre a existência de um irmão
solteiro daquele deus grego, não tive sucesso.
Agora é a minha vez de não gostar do caminho da nossa conversa. Odeio
quando Samantha acha que pode conversar comigo sobre os seus pretendentes.
— Ou você arruma um assunto melhor, ou acabamos o jantar aqui. — Ela
ergue as duas sobrancelhas surpresa com o meu ultimato.
— Acho que estamos tendo um probleminha sobre assuntos a abordar.
— Que bom que percebeu.
— Como anda a sua irmã? Faz tempo que ela não aparece na empresa.
— Gaia está bem, falei com ela hoje cedo, parece que os meus pais virão ao
Brasil.
— Que bom, Zander, faz tempo que eles não aparecem.
— Estou com saudades deles, será bom tê-los por aqui.
Finalmente encontramos um assunto neutro, que não desagrada a nenhum
de nós.
Passamos as próximas duas horas conversando futilidades. Não sei como
Sam consegue, mas ao seu lado esqueço do tempo, apenas sinto desejo de ficar
olhando seu sorriso fácil.
Tento prolongar ao máximo o nosso jantar, mas quando ela começa a abrir a
boca, me dou por vencido e encerro a nossa noite.
Peço um táxi para ela ir embora e lamento por ter bebido. Eu queria poder
levá-la para ter mais um tempo ao seu lado, ainda não me sinto preparado para
deixá-la partir.
— Não estou muito certa, mas depois de todos os drinques que tomei,
amanhã estarei de ressaca. — Ela fala com um sorriso embriagado. — Não sirvo
para beber de graça, eu perco a linha.
— Fui desatento com você, não deveria ter deixado que bebesse tanto.
— Impossível não beber além do limite quando comemoramos.
O táxi que solicitei chega e começo a ter dúvidas sobre deixá-la ir sozinha
para casa. Infelizmente não se pode confiar em ninguém nos tempos atuais e,
com ela embriagada, não acho prudente deixá-la nas mãos de um desconhecido.
— Entra logo, Samantha. — Abro a porta do carro para ela, decidido a ir
junto.
— Tá com pressa? — Ela sorri enquanto se apoia na porta para entrar.
— Sente-se no canto, eu vou com você.
— Por que vai comigo? Você mora no fim da rua, não tem motivos para ir
comigo. — ela resmunga enquanto faz o que pedi.
— Desde quando preciso explicar meus atos para alguém? — Passo o braço
sobre o encosto do banco e sorrio.
— Grosso. — ela resmunga e vira a cabeça fazendo com que o cheiro dos
seus cabelos se espalhe pelo carro.
— Você deveria ser menos linguaruda. — Não resisto e pego uma mecha do
seu cabelo. — Custa muito ser obediente?
— Custa mais do que imagina.
Ela ergue o rosto e fita os meus olhos com desejo. Samantha sabe me
provocar como ninguém, ela me instiga com toda a sua ousadia. Sei que ela se
sente atraída por mim, apesar de tentar esconder fervorosamente essa atração,
mas agora, ela está deixando evidente o quanto me deseja.
Talvez seja reflexo da bebida, na verdade, tenho certeza que é por esse
motivo. Se ela estivesse sóbria, jamais me daria esse gostinho de saber o quanto
me quer.
Perco o controle e seguro o seu queixo fitando seus olhos querendo
desesperadamente beijá-la. Desde a primeira vez que ela cruzou o meu caminho,
sonho todas as noites em afundar a minha boca nesses lábios rosados.
A voz da razão soa bem no fundo da minha cabeça, me dizendo para não
ceder à tentação. Ela não está sóbria, então não é correto me aproveitar da sua
vulnerabilidade. Eu posso não ser considerado um exemplo de homem, mas me
orgulho de nunca ter me aproveitado de uma mulher.
Coloco o pensamento em ordem e desisto de tomar seus lábios, mas, ainda
assim, não controlo a necessidade de tocá-la. Sem deixar de fitar seus olhos, vou
me aproximando do seu rosto, até quase permitir que nossos lábios se toquem.
No último instante, desvio a boca e deposito um beijo no seu rosto, inalando
profundamente o seu perfume.
— Se esforce para me obedecer ao menos desta vez. — digo quando me
afasto dela.
Vejo a guerra que ela trava para me responder, mas antes que ela coloque as
ideias no lugar, atraio o seu corpo para junto do meu e deito a sua cabeça em
meu ombro.
O melhor agora é nós dois ficarmos em silêncio, se entrarmos na nossa
costumeira troca de desaforos, eu não vou segurar o tesão e aí tudo estará
perdido.

— Porra, Sam, você está fodendo legal comigo. — Praguejo enquanto a


carrego pelo corredor do seu prédio.
Ela dormiu assim que a aconcheguei no meu ombro, só que ao contrário do
que programei, ela não acordou quando chegamos ao seu prédio. Isso me
obrigou a trazê-la para casa, algo que estava fora dos meus planos.
Quando chego a porta do seu apartamento, vejo que estou sem as chaves.
Vai ser uma merda conseguir achar a porra da chave com ela dormindo.
— Sam acorda, preciso da sua chave. — Ela não abre os olhos e permanece
dormindo. — Filha da puta. — Xingo essa dorminhoca.
Com extrema dificuldade aprisiono o seu corpo na parede e pego a sua
bolsa. Ela encosta a cabeça no meu peito e resmunga algo, mas não abre os
olhos.
Mesmo todo enrolado, acho a merda da chave e abro a porta. Volto a pegá-
la e entro no seu apartamento às cegas. Apenas a luz da iluminação da rua me dá
alguma visão. Um pouco perdido, consigo achar o interruptor e ligo a luz da
sala.
“Miau”
Ouço o miado do seu gato abusado e vejo a figura empoleirada no sofá.
Essa bola de pelo sequer serve para me ajudar, ao menos espero que ele não
avance na minha perna, como fez da última vez que estive aqui.
— Fica aí, bichano. — digo enquanto levo a dona dele para o quarto.
Obviamente o gato não me ouve, afinal, ele não é o animal de estimação da
Samantha à toa. O infeliz me segue, fazendo uma sinfonia irritante de “miau”.
Que bicho chato!
— Cala a boca Napoleon, se continuar assim vai acordar o prédio inteiro.
“Miauuuu”
Só para me provocar, ele faz um miado longo e irritante. Que bicho
implicante, não sei como a Samantha o aguenta.
Chego ao seu quarto e a deito sobre a cama, no meio do processo me
desequilibro, o que me faz cair parcialmente sobre o seu corpo. Seus cabelos se
espalham pelo travesseiro, formando uma massa encorpada que desperta os
meus pensamentos mais luxuriosos.
Não resisto e admiro seu rosto adormecido deixando o meu pensamento
vagar pela remota possibilidade de um dia ela ser minha. Como se eu estivesse
sob o poder de um feitiço, corro a mão ao longo do seu rosto resistindo ao desejo
de provar, ainda que brevemente, um pouco dos seus lábios.
Fico hipnotizado com a sua beleza, ela é perfeita em todos os sentidos. Tem
um rosto delicado, cabelos castanhos volumosos e uma boca pecaminosamente
carnuda. Samantha é a minha mulher ideal, não só pela sua beleza, mas
principalmente pela sua personalidade forte que tanto me fascina.
“Miauuuuuu”
Napoleon se faz presente, subindo na cama, e acaba com o meu sonho.
Odeio esse gato.
— Silêncio. — sussurro para o infeliz e me afasto de Sam.
Não vou me atrever a tirar a sua roupa, mas posso livrá-la dos sapatos, não
é justo deixá-la dormindo com esses saltos. Retiro seus sapatos e ligo o ar
condicionado. Hoje a noite está abafada, certamente ela vai suar durante o sono.
Olho pela última vez sua figura adormecida, até que saio relutantemente do
quarto, brigando fervorosamente com a vontade de deitar ao lado dela, ao menos
para poder sentir um pouco do seu calor.
“Miau”
— O que você quer? Será que não pode parar de miar?
“Miauuuuuu”
Só para me irritar, ele mia ainda mais alto. Esse gato não é do bem, essa
praga quer me tirar o juízo.
— Para de fazer escândalo, sua dona já está em casa. — Ele se embrenha
entre as minhas pernas enquanto mia. — Deus me livre conviver com você todos
os dias. — Coço o queixo ao notar que estou falando com um gato.
Ele sai correndo e entra na cozinha, por algum motivo, que não sei explicar,
vou atrás dele e o encontro em frente a sua vasilha de comida.
Vou me aproximando e reparo que tem poucos grãos nela, o pobre coitado
está com fome, por isso o escândalo.
— Sua dona não está sendo cuidadosa com você Napoleon, acho que anda
fracionando a sua ração. — Olho ao redor em busca do pacote da sua comida,
mas não faço a mínima ideia de onde possa estar. — Onde fica a sua ração,
bichano? — pergunto como se ele pudesse me dizer algo.
Para o meu espanto, Napoleon pula em um pequeno armário e começa a
miar alto. Por instinto sigo na sua direção e vejo que o pote de ração está
exatamente onde ele mia.
— Rapaz, você é esperto pra caralho, sabe até onde fica a comida. — Coço
a cabeça dele e ganho em troca um ronronado alto.
Coloco a sua comida e imediatamente ele começa a comer. Como não gosto
de fazer serviço pela metade, boto um pouco de água fresca para esse abusado.
Por alguns segundos observo-o comer feliz, Napoleon é um gato de sorte,
passa as noites na cama da Samantha. Queria eu ter esse privilégio, acho que até
seria um homem mais condescendente se pudesse ficar sempre ao lado dela.
Faço um breve carinho nas costas dele e sigo para a porta de saída. Antes de
ir embora, olho na direção do quarto dela e contenho a vontade de verificar se
está bem. Não é aconselhável retornar ao seu quarto, pois posso até ser um
homem com princípios, mas não sou de ferro.


Samantha

Escuto a porta bater e sufoco um grito de frustração. Perdi meu tempo
fingindo que estava embriagada, para tentar atrai-lo para a minha cama e o
imbecil decide dar um de bom moço.
Desde quando Zander é um mocinho fofo? Ele é, e sempre será um caçador
nato, que fica a espreita esperando a sua presa. Não um homem com modos, que
evita dar um simples beijo só porque estou levemente embriagada.
— Filho da puta! — digo quando me levanto da cama fervendo de raiva. —
Tanto teatro pra nada, que ódio.
Resolvi fingir que estava bêbada quando estávamos saindo do restaurante.
Conheço Zander o suficiente para saber que ele jamais permitiria que eu fosse
embora sozinha sem estar completamente sóbria.
Pensei que ao menos ganharia um beijo dele. Aí revelaria que estava sóbria
e o jogaria na minha cama, mas o imbecil não foi capaz de sequer me roubar um
beijo.
Sigo para a cozinha atrás do escandaloso Napoleon. Hoje ele abusou dos
miados, certamente um dos motivos do Zander me deixar na mão foi por causa
do Nap fazendo cena.
— Nap, cadê você?
Escuto o seu miado quando estou entrando na cozinha e vejo o safadinho
comendo. Vou me aproximando e paro surpresa quando vejo seu prato cheio de
comida e o potinho com água fresca.
Não acredito que Zander foi capaz de colocar comida e água para o meu
gato. Ele só pode estar fora do seu juízo perfeito, porque o Zander que eu
conheço não é cavaleiro, muito menos protetor dos animais.
— Que bicho será que mordeu o meu chefe, Nap? Ele não está bem, algo
aconteceu. — Acaricio o Nap enquanto relembro do cheiro dele enquanto eu
abraçava seu pescoço quando me carregava até o apartamento.
Sinto uma contração entre as pernas ao recordar do seu corpo forte me
segurando, e dos lábios dele roçando a minha testa quando estávamos no táxi.
Ele foi tão romântico, tão atencioso, que quase assumi ali mesmo que estava
fazendo cena e implorei para ele ficar comigo.
Quero tanto aquele homem que chega a doer, mas sei que não tenho
nenhuma possibilidade de um dia descobrir se ele é mesmo tão gostoso quanto
parece.
Depois de hoje, entendi que ele só me vê como uma fonte de diversão
durante os nossos embates verbais no trabalho. Zander gosta das nossas brigas,
mas sabe tão bem quanto eu, que não devemos misturar trabalho com prazer.
— Merda! — praguejo enquanto vou para o banheiro.
Hoje vou passar mais uma noite frustrada, sonhando em ser possuída por
aquele demônio dos olhos azuis.
CAPÍTULO 9

Cinco dias depois

Zander

Desde a noite que levei Samantha em casa ela está estranha comigo. Sequer
tem me provocado, anda cabisbaixa e com o humor pior que o meu.
Às vezes sinto vontade de perguntar se está com raiva de mim, mas não me
atrevo a mexer com a fera. Com o olhar assassino que ela anda me dando, é
melhor eu ficar na minha e esperar para ver se ela se acalma.
— Zander, você tem visita. — Sam anuncia.
— Visita? — Ela abre um pouco mais a porta e vejo meus pais entrando.
— Surpresa! — Minha mãe fala feliz e vem me abraçar. — Filho que
saudades.
— Mãe! — Devolvo o abraço com todo o carinho.
Agora que ela está na minha frente, percebo o quanto estou com saudades.
Apesar de falar com eles todos os dias, não é a mesma coisa que poder tocá-los.
— Como você está, filho? — Meu velho me puxa para um abraço caloroso.
— Estou bem, trabalhando firme. — Ele sorri satisfeito.
— Você é um grande exemplo para qualquer empresário. — O orgulho na
voz dele me deixa feliz.
— Sente-se — Puxo a cadeira para a minha mãe e espero que ela se
acomode. — Querem beber algo?
— Não é necessário, viemos apenas matar a saudade da empresa e te roubar
para o almoço. — Mamãe fala empolgada.
— Claro que iremos almoçar, mas antes quero saber onde estão, e o motivo
de não me avisarem a hora que iriam chegar.
— Zander, pare de ser controlador, isso não funciona conosco. — Meu pai
me corta. — Gaia providenciou a limpeza adequada do nosso apartamento e o
nosso transporte do aeroporto.
— Gaia... — digo o nome da minha irmã entre os dentes. Aquela cretina
falou comigo ontem e sequer teve a decência de me avisar que nossos pais
estavam chegando.
— Pare de fazer cena, apenas queríamos fazer uma surpresa. — minha mãe
fala percebendo o quanto estou chateado.
Ouço uma batida na porta e em seguida Samantha aparece com um sorriso
amigável para meus pais.
— Desculpa atrapalhar, queria saber apenas se querem algo para beber. —
Meu pai sorri para ela encantado.
— Obrigado, minha filha, já estamos de saída, viemos sequestrar o Zander.
— Também não quer nada, senhora Leonora? — ela questiona minha mãe.
— Não, Samantha, obrigada pela atenção.
— Quer almoçar conosco, Samantha? Seria ótimo saber por fonte segura o
que meu filho anda aprontando. — Meu pai a convida e vejo minha mãe olhar
para mim não gostando nada da proposta dele.
— Obrigada pelo convite, senhor Abel, mas não posso. Vou aproveitar a
hora do almoço para ir ao dentista, mas fique tranquilo, senhor, a empresa não
poderia ter um CEO mais apropriado que o seu filho.
Olho para ela e vejo que sequer me encara, Samantha não anda bem, ela
está deliberadamente fugindo de mim.
— Fica para a próxima. — Claramente meu pai está decepcionado com a
recusa dela.
— Claro que sim, senhor. — O sorriso que ela dá ao meu pai não alcança os
seus olhos. — Com licença. — Assim que ela fecha a porta, minha mãe bate no
braço do meu pai.
— Velho assanhado, não tem vergonha?
— O quê? Do que você está falando?
— Não seja descarado, você estava querendo levar a secretária para o nosso
almoço familiar. Será que nem depois de velho perdeu seu fetiche pelas
funcionárias?
Fecho os olhos e respiro fundo, depois de tanto tempo, o ciúme da mamãe
não mudou. Qualquer mulher que meu pai trate bem, ainda é vista por ela como
uma possível amante.
— Mãe, chega, Samantha jamais olharia para o papai. — Evito dizer que
ela sequer anda olhando para mim.
— Claro que olharia, sei como as jovens de hoje em dia gostam de dinheiro.
— Samantha não é igual as outras jovens. — Minha voz sai mais áspera do
que deveria, fazendo com que ela erga as duas sobrancelhas. Já sei que está
pensando bobagens. — Vamos almoçar? Quero saber das novidades. — Minha
mãe percebe a minha manobra, mas graças a Deus não insiste na conversa.
— Vamos, quero saber em detalhes como andam os negócios. — Meu pai
ergue-se e pega a mão da minha mãe. — Afinal de contas, você pode ser o
poderoso chefão, mas ainda sou o presidente desta empresa.
— O senhor sempre vai dar as cartas aqui. — Abraço meu pai enquanto
caminhamos para a porta.
Tê-lo por aqui será bom, ele ainda é o presidente oficial da empresa,
poderei usar a sua presença para ganhar a confiança do conselho dos acionistas
para minha empreitada na expansão da empresa para o Mercosul.
Apesar das ações das lojas estarem em sua maioria na nossa família, eu abri
o capital para alguns investidores que têm poder de decisão, ainda que limitado,
nas negociações. Mesmo sabendo que posso tomar decisões por conta própria,
gosto de saber que os acionistas estão felizes.
Sem contar que com o meu pai presente, posso colocar em prática a minha
vontade de ir para o Rio Grande do Sul, conferir com meus próprios olhos o que
está acontecendo. Até o momento, não tive nenhuma resposta definitiva sobre os
problemas que detectamos por lá.
* * *
Ouço a briga entre minha irmã e a mamãe sobre o que o Alex vai comer.
Não sei o motivo de Gaia ser tão chata, ele é apenas uma criança.
— Você tem filé com fritas e arroz? — pergunto ao garçom interrompendo
a discussão delas.
— Claro, senhor.
— Ótimo, faça um filé mignon para esse menino, mas traga uma salada
verde para acompanhar. — Passo a mão na cabeça do meu garoto. — Eu quero o
salmão do chef, e mais um uísque.
— Zander, o Alex não vai comer fritura. — Minha irmã protesta. — Ele
anda se alimentando muito mal.
— Gaia, hoje é um dia de comemoração, relaxa ao menos uma vez.
— É minha filha, desacelera, não é crime comer um filé suculento. — Meu
pai me ajuda.
Ela nos olha chateada, mas acaba se calando. Aguardo todos fazerem seus
pedidos e assim que o garçom se afasta, minha mãe começa a falar.
— Como está a sua vida, filha? Ainda está vivendo enclausurada? — Ela
toca no ponto sensível da vida da minha irmã.
Gaia quando jovem era incontrolável, tanto que engravidou quando tinha
dezoito anos e quase matou meu pai do coração. O pai do Alex era um
desocupado, usuário de drogas e levou a minha irmã à ruína. Foi um grande
problema conseguir mantê-la longe das drogas na gravidez do meu sobrinho,
apesar de querer manter a gestação, ela não conseguia se afastar do vício.
Meu pai tomou a decisão de fazer uma internação compulsória e a manteve
na clínica de reabilitação até o Alex nascer. Depois a colocou contra a parede e
pediu que decidisse entre a guarda do filho ou a vida com o pai do bebê.
Confesso que na época tive medo da resposta dela, mas graças a Deus Gaia
teve um pouco de juízo e escolheu o filho. Um pouco depois o pai de Alex
morreu assassinado, por causa de uma dívida com um traficante.
Quando isso aconteceu todos ficamos com medo de ela ter uma recaída,
mas Gaia concentrou toda a sua atenção em cima do filho e voltou a estudar. Ela
se formou em Letras e, com a ajuda de uma amiga da nossa família, que é uma
famosa editora de livros, arrumou um emprego para ela como tradutora.
Sem querer Gaia encontrou seu caminho e hoje trabalha para algumas
editoras traduzindo diversos autores. Ela é um grande orgulho para todos nós,
conseguiu superar todos os problemas. Só que ainda nos preocupamos com a sua
solidão, pois ela se nega a manter uma vida amorosa depois que o pai do Alex se
foi. Gaia acabou virando uma mulher reclusa e completamente devotada ao filho
e ao trabalho.
— Não vivo enclausurada, mãe. — ela resmunga.
— Eu me preocupo tanto com você. — minha mãe fala tristonha. — Na
verdade, me preocupo com os dois. — Agora sou o alvo da sua atenção. —
Zander, quando me dará netos?
— Quando for apropriado.
— Apropriado? — ela pergunta confusa.
— É mãe, apropriado, no momento tenho objetivos a alcançar, não tenho
tempo para filhos.
— Meu Deus! — Ela coloca a mão no coração.
— Tudo no seu tempo, querida, tudo no seu tempo. — Meu pai bate na sua
mão a tranquilizando.
— O tio tem uma namorada, ela é bonita, mas chata. — Alex fala para o
avô. — Tomara que ele não tenha filhos com ela. — Agora ele faz uma careta.
— Cala a boca menino. — Minha irmã joga o guardanapo nele. — Respeita
a sirigaita do seu tio. — Quando ela acaba de falar isso tapa a boca e me olha.
— Sirigaita? — pergunto incrédulo com o apelido que deu a Vanessa.
— É assim que mamãe chama a sua namorada. — Alex a entrega.
Todos olham para mim esperando a minha reação. Como gosto de causar
medo, fico alguns segundos em silêncio, até que dou uma risada amenizando o
clima.
— Não deixe a Vanessa descobrir esse apelido, Gaia. — Minha irmã solta a
respiração aliviada por eu não arrumar uma confusão.
— Zander, me perdoa, mas ela é insuportável.
— Vanessa tem suas qualidades, mas não posso controlar seus defeitos. —
Dou de ombros sem me preocupar em defendê-la, realmente ela sabe ser chata.
— Não está chateado? — pergunta preocupada.
— Nunca fico chateado de verdade com você. — Seguro a mão dela e
beijo.
O sorriso da minha irmã me faz ganhar o dia, gosto de vê-la sorrir,
infelizmente ela teve a sua cota de dor que valeu por toda a sua vida.
Para mostrar que não estou ligando para a crítica dela, começo a contar os
avanços que fiz na empresa. Esse é um assunto que gosto de falar e que agrada
ao meu pai.
Em pouco tempo minha mãe monopoliza a conversa e nos divertimos com
as implicâncias dela com o meu pai.


Samantha

Olho para o professor falando e minha mente está longe. Desde o dia que
Zander me levou em casa me sinto estranha. É como se a frustração me
engolisse cada vez que o vejo.
Tenho plena consciência que não devo me envolver com ele, mas é quase
impossível resistir ao desejo que me consome quando estou em sua presença.
Cada dia que passa tenho que controlar a vontade insana de me atirar nele.
Talvez seja porque estou sozinha, a falta de sexo faz a nossa mente perder o
controle.
Não ajuda muito no meu humor a perseguição do Alberto. Ele passou essa
última semana na minha cola, me ligando a cada segundo e indo no prédio quase
todas as noites. Acho que ele está com dificuldade de entender que tudo acabou.
— Bem... por hoje é só, sexta tragam o projeto que pedi, pronto, quero ver
como se saem do problema que lancei a vocês.
Corro os olhos ao redor e vejo todo mundo guardando o seu material. Não
faço ideia do problema que o professor está falando, hoje não escutei nada da
aula.
— Samantha. — Meu professor me chama.
— Pois não, senhor Trajano. — digo, enquanto guardo o meu material.
— Você está bem hoje? Não participou em momento nenhum da aula.
Fico sem saber o que falar para ele, pois nem sei qual foi o assunto tratado,
muito menos qual trabalho devo fazer.
— Infelizmente hoje não é meu dia, professor, realmente não prestei
atenção na aula.
— Está com algum problema? Se quiser conversar estou aqui.
Prendo a vontade de sorrir e dizer que meu problema é a vontade surreal
que sinto de trepar com o meu chefe. Jamais imaginei que um dia seria uma
mulher tão antiprofissional.
— Não é nada demais, apenas alguns probleminhas pessoais, mas vai
passar. — Sorrio amigavelmente para ele. — Professor, se não for muito abuso,
pode me enviar o trabalho que necessita ser feito por e-mail?
— Claro que passo. — Ele pega a agenda e me estende. — Anote aí seu e-
mail. — Rapidamente começo a anotar. — Como anda o senhor Saramago?
— Bem. — Devolvo a agenda para ele.
— Você tem que aproveitar bem esse período que está com ele, o Saramago
é uma lenda nos negócios, é um administrador nato.
— Ele é fora dos padrões. — Eu queria estar dizendo isso em relação ao
profissionalismo dele, mas, na verdade, estou me referindo a sua beleza. —
Todos os dias eu aprendo algo novo.
— Extraia o máximo que puder, será valioso tudo o que aprender quando
for iniciar a sua carreira.
— Eu sei. — suspiro quando penso que está bem perto de sair do escritório
e nunca mais ver o Zander. — Assim que eu terminar o curso arriscarei a sorte
na empresa de um conhecido, tenho certeza que tudo o que aprendi com o
Zander será essencial.
— Pode ter certeza que sim. — Ele aperta o meu ombro e segue para a sua
mesa. — Mais tarde te envio os detalhes do trabalho.
— Até sexta, professor.
— Até.
Saio da sala sem vontade de ir para casa. Hoje não queria ficar sozinha. Se
eu ficar trancafiada naquele apartamento, certamente começarei a pensar no
maldito Zander.
Mando mensagem para uma amiga perguntando se ela está livre. Ela me
responde que está indo para Arraial do Cabo com o paquera. Que ódio! Parece
que todas as minhas amigas decidiram namorar na mesma época.
Vejo outra mensagem do Alberto e reviro os olhos. Agora que terminei com
ele o infeliz me procura mais do que na época que estávamos juntos.
Respondo a sua mensagem mando-o para o inferno e bloqueio o seu
número. Essa oferenda eu já devolvi para o mar, não quero mais na minha vida.
Uma ideia meio absurda passa pela minha cabeça me fazendo sorrir.
Como ficar em casa sozinha está fora de cogitação, então vou beber em boa
companhia. E nada melhor do que um tempo com Francisco para me animar. Ele
sabe como ninguém levantar o meu astral e, o melhor de tudo, é que posso
deixar tudo na conta do Zander.
Vou fechar a noite por conta do chefe.
CAPÍTULO 10

Zander

Coloco a mão atrás da cabeça e observo Vanessa nua, procurando um
biquíni na sua bolsa. Ela é linda, tem um corpo escultural, uma bunda redonda e
peitos siliconados duros.
Confesso que sua beleza é o padrão que estou acostumado, mas já não é o
suficiente. Desde que conheci certa mulher, passei a admirar belezas naturais,
sem as tais intervenções estéticas que tanto dominam o padrão de beleza atual.
Minha mente vaga para a maciez dos seios de Sam. Quando nos abraçamos
no meu escritório, eu senti o quanto eles eram tenros. Tive que ser forte para
conter a vontade de envolvê-los em minhas mãos.
Às vezes me pego imaginando como seria incrível ter aquele par de seios
livres, balançando na minha frente, enquanto ela me monta como uma
verdadeira amazona. Sam é tão quente, tem aquele olhar atrevido, a boca perfeita
que me faz ter pensamentos pervertidos cada vez que ela me chama de tirano.
Porra! Como eu gostaria de ser tirano com ela e transformá-la na minha
escrava do prazer. Na verdade, eu queria ser o seu escravo. Só de imaginá-la me
dando ordem para fodê-la, eu fico duro como pedra.
— Zander, você está me ouvindo? — Vanessa pergunta vestindo apenas a
calcinha da sua roupa de praia.
— Não. — digo sorrindo.
— Não? — ela me questiona indignada. — Esse tempo todo que eu estava
falando você estava pensando em quê? — Coço a barba para dar tempo de me
recompor e não me atrever a contar a verdade.
— Que iremos nos atrasar. — respondo me erguendo da cama e indo à sua
direção.
— Nos atrasar? — ela pergunta com aquela cara de tonta que me tira do
sério.
— Isso. — Seguro o seu quadril e a puxo ao encontro do meu corpo. —
Você está um tesão com esses peitos implorando por minha boca. — Desço
minha mão para sua bunda e aperto com força. — Vou te comer bem gostoso, até
você gritar meu nome enquanto se derrete no meu pau. — Antes que ela abra a
boca e me faça perder o tesão, selo nossos lábios em um beijo urgente.
Vanessa não esboça nenhuma reação ao meu avanço, ela adora quando falo
palavras sujas. Todas as vezes que decido ser bonzinho, percebo que não se
empolga tanto. Por isso, com ela não reprimo meu lado sacana, deixo todo o meu
extinto sexual livre para experimentar as mais diversas posições sexuais
possíveis.
Ergo seu corpo com facilidade e a deito na cama. Arranco seu biquíni e
corro a mão sobre a sua boceta depilada. Ela sempre está em dia com o corpo,
nada na Vanessa fica fora do lugar.
Espanto o pensamento sobre ela ser sempre tão perfeitinha, não é o
momento certo para avaliar sua maneira de ser.
— Zander... — ela resmunga quando me inclino e deslizo a língua por sua
entrada.
Ontem passamos uma noite intensa, só que depois de pensar naqueles seios
incríveis da Samantha, o meu apetite sexual se renovou com uma força
assustadora.
Estimulo Vanessa até que sinto o seu corpo pronto para me receber. Pego
uma camisinha e em seguida seguro suas coxas firmemente enquanto a
posiciono bem na beirada da cama.
Quando avanço para dentro do seu corpo, minha mente foge do controle e
projeta a imagem de Sam na minha frente com os cabelos revoltos sobre a minha
cama e os lábios abertos pedindo por mais.
Como se uma droga potente estivesse fazendo efeito no meu corpo, eu
começo a estocar dentro dela com força, gemendo profundamente com o prazer
que se espalha pelo meu corpo.
— Que delícia. — digo quando me afundo em suas dobras e sinto sua
boceta me apertar indicando que está bem perto do prazer.
Sou capaz de passar o dia apenas fodendo essa mulher, ela é incrível.
Aperto os olhos e apenas me deixo levar pelos sons de prazer que ela faz.
— Zander eu vou... eu vou... — Sinto a sua boceta me sugar, enquanto suas
mãos afundam com força nos meus braços.
— Porra! — Xingo quando o orgasmo rasga o meu corpo me fazendo
afundar nela profundamente enquanto gozo forte.
— Por Deus, Zander, o que deu em você? — A voz da Vanessa me faz abrir
os olhos e a vejo sorrindo apaixonada.
Passo a mão pela testa secando o suor e me odiando por ter trepado com ela
enquanto minha mente imaginava outra pessoa. Não posso manter Sam no meu
pensamento assim, ela não pode ser minha.
— O que posso fazer se você me deixa louco? — digo sorrindo, tentando
não demonstrar o quanto estou chateado comigo mesmo. — Vamos tomar um
banho, querida, nós não podemos sair para pegar meu sobrinho suados assim.
— Ei, eu estava quieta, você que do nada virou um tarado. — Ela segura a
minha mão enquanto a ergo.
— Sou tarado por você. — Essa mentira escorre pela minha boca sem que
eu consiga conter.
Para evitar mais problemas, dou um beijo nela, não quero mais falar do que
acabou de acontecer. Não estou orgulhoso do que fiz e, ficar relembrando dessa
burrada, só vai me deixar ainda mais puto com a minha atitude estúpida.

Depois do almoço que o Alex participou quando os meus pais chegaram,


descobri que ele não gosta da Vanessa, mas eu já havia programado levá-lo na
praia na companhia dela e não poderia dispensá-la.
Como tenho a péssima tendência de agradá-lo e para remediar a presença da
Vanessa, permiti que levasse um amigo no passeio.
Que merda que eu fiz! Não tenho paciência para aturar dois adolescentes e
a Vanessa reclamando a cada segundo que está muito quente não ajuda muito.
— Zander, já deu tempo suficiente do seu sobrinho brincar, vamos embora.
Ela me chama pela milésima vez para ir embora. Estou começando a
concordar com a Gaia que ela é insuportável. Onde eu estava com a cabeça
quando permiti que Vanessa passasse tanto tempo na minha vida?
— Vanessa, o Alex passa muito tempo preso no apartamento com a mãe,
ele precisa se divertir.
— Já estamos aqui há umas quatro horas, deu para se divertir.
— Quer que eu chame um táxi para você ir embora? Pode me esperar no
meu apartamento.
— Quero ir embora com você.
— Então espera. — Ela faz bico e vira o corpo para olhar a praia.
Essa mania dela de querer que todos façam o que quer é irritante, mas
comigo não funciona. Ultimamente não ando fazendo nem o que quero, imagina
perder tempo tentando realizar os caprichos dela.
Passo os próximos quarenta minutos escutando Vanessa trocando áudios
sobre produtos de beleza com as amigas. Ela se empolgou tanto que sequer me
perturbou, nunca conheci alguém que ame tanto tratamentos estéticos.
Quando estou a ponto de me afogar no mar de tanto tédio, Alex e seu amigo
pedem para ir embora.
Sem demora, pego os dois e levo para a casa da minha irmã. Ela me fez
prometer que não daria bobeiras a eles. Como estou na companhia da Vanessa,
não me atrevo a levá-los para almoçar. Quero ficar sozinho, passei tempo demais
ouvindo futilidades.
Assim que deixo os meninos na casa de Gaia, levo Vanessa para a casa dela.
Depois dos inúmeros áudios que trocou com as amigas, elas decidiram fazer uma
visita ao shopping para comprar sapatos.
Esse é o tipo de programa que ela ama fazer, posso estar enganado, mas
acho que ela gosta mais de compras do que de sexo. Não consigo entender essas
mulheres compulsivas, o prazer que elas sentem quando compram, chega a se
transformar em sensação física.
Ao chegar ao apartamento escuto o sinal de mensagem, como acabei de
deixar Vanessa em casa, ela pode ter esquecido algo. Abro a tela do celular e
vejo que é uma mensagem do Francisco.
Chico não é de mandar muitas mensagens, normalmente quando quer falar
comigo me liga. Isso me faz abrir a mensagem rapidamente e acabo relendo três
vezes para ver se entendi bem o que ele acabou de me falar.
Chico – Samantha passou um bom tempo no bar, ela não parecia bem.
Eu segurei o máximo que pude seus drinques, mas ela não é fácil, bebeu
além do aconselhável.
No final da noite pedi a um amigo taxista para levá-la embora, mesmo
assim estou preocupado, tenta ligar para ver se ela está bem.
Pelo pouco que a conheço, deu para perceber que ela não está em um bom
momento.
Ahh, chefe, ela deixou tudo na sua conta kkkkkkkkkk
Eu paguei, é claro, depois você acerta com juros.
Releio a última parte da mensagem e, apesar da preocupação, sorrio. É
típico daquela louca me fazer pagar a conta, Samantha não tem jeito, me afronta
mesmo quando não estou por perto.
Zander – Vou ligar para ela agora e mais tarde passo no restaurante para
te pagar.
Chico – Depois me dê notícias.
Zander – O.K.
Procuro o número de Sam e ligo, espero que essa mulher não tenha
aprontado nada. Apesar de não gostar de me meter na sua vida, vou ter uma
conversa com ela. Depois que eu a levei em casa, a mudança no seu
comportamento foi drástica.
— O que foi? — A voz dela está irritada. — Hoje é sábado, não vou fazer
nenhum trabalho.
— Boa-tarde para você também, senhorita Diniz, como vai? — A linha fica
muda e apenas ouço quando ela respira fundo.
— Boa-tarde, senhor Saramago. — Como ela não está perto, sorrio do
sarcasmo em sua voz ao dizer o meu sobrenome.
— Está em casa?
— Por que a pergunta?
— Dói responder? — Ela se cala e sei que está me xingando.
— Estou na minha mãe, sempre almoço com ela aos sábados e levo meu
irmão para o curso a tarde.
— Hummm que bom. — Sento-me no sofá e estico as pernas. — Você está
bem? — Mais um momento de silêncio.
— Vamos, Zander, diz logo o que você quer que eu faça. Para de enrolar,
isso não combina com você.
Ao fundo ouço a mãe de Sam a recriminando por me responder com
grosseria e dou os parabéns mentalmente por ela ainda se esforçar em educar a
filha.
— O que te faz pensar que quero que faça algo?
— Se não quer que eu faça algo não vejo motivos de me ligar no sábado.
— Talvez eu esteja sentindo falta da sua voz me xingando, posso ter me
transformado em um masoquista.
— Zander, bom humor não faz seu estilo.
— O Chico falou comigo, está preocupado com você. — ela resmunga
antes de começar a falar.
— Ele é um fofoqueiro, eu pedi que não contasse para você que estive lá,
ao menos até você descobrir que deixei a conta para pagar.
— Então agora você bebe e eu pago?
— Não foi muita coisa, infelizmente o Francisco é um péssimo barman, me
controlou o tempo todo.
— Sam, você está com algum problema? Percebi que anda calada demais,
sequer tem revidado quando sou mal-educado com você.
Talvez não seja a melhor ideia pressioná-la para me contar sobre seus
problemas, mas realmente me sinto preocupado com ela. Samantha é sempre
viva, com a língua solta e provocativa, então quando se cala, não posso deixar de
estranhar.
— Estou bem. — Sua resposta curta deixa claro que ela não está nada bem.
— Odeio quando as pessoas mentem para mim.
— Bem, isso é problema seu, eu não posso fazer nada se pensa que estou
mentindo. — Fico estático com a sua resposta, agora ela passou dos limites. —
Preciso desligar, até segunda.
Ela encerra a ligação e fico encarando o telefone sem acreditar que fui
dispensado tão grosseiramente. Isso não vai ficar assim.
Retorno a ligação e cai direto na caixa postal, volto a ligar e novamente
entra na caixa postal sem sequer chamar. Essa filha da puta desligou o celular.
Vou matar essa mulher quando eu colocar meus olhos nela.
Se ela pensa que não vai me contar o que está acontecendo, está enganada.
Enquanto eu não souber o motivo da sua mudança não vou lhe dar paz, ela vai
ter que abrir o bico e revelar o que ocorreu para ficar tão estranha.

Odeio jantares com pessoas que não tenho a mínima vontade de me


relacionar. Ser agradável com pessoas que sequer conheço, é extremamente
desagradável.
Ainda não entendi o porquê aceitei acompanhar Vanessa nesse jantar com a
sua irmã, o marido e mais um casal. Isso dá ao nosso relacionamento um
envolvimento que não quero demonstrar. Talvez ter levado um fora da Sam tenha
me deixado perdido, porque tenho certeza que, se eu estivesse no meu juízo
perfeito, não estaria aqui.
— Foi um grande prazer descobrir que você estaria no jantar. — Um dos
integrantes da mesa diz a mim. — Sempre brinco que quando crescer eu quero
ser como você. — Ele ri da sua piada sem graça.
— Quando anos você tem? — pergunto enquanto degusto meu uísque
escocês.
— Vinte e cinco.
— O que faz da vida?
— Sou estudante, estou no quinto período de Direito.
— Ainda? — indago surpreso.
— Eu tive problemas quando saí do ensino médio, não queria muito
compromisso, se é que você me entende. — Ele solta um risinho sem graça,
acreditando que estou me divertindo.
— Não sua idade já estava em Harvard me especializando em
Administração. Acredito que está muito longe de pensar em ser como eu. Para
ter sucesso, o foco é imprescindível, assim como trabalhar incansavelmente. —
Ele me encara sem graça assim como todos da mesa.
— Você nunca relaxa? — O marido da irmã da Vanessa me pergunta.
— Relaxamento não paga contas, deixo essa parte para os fracassados.
— Que tal mudarmos de assunto? Estamos aqui para aproveitar a noite, não
falar de trabalho. — A namorada do idiota diz completamente constrangida com
o que acabei de falar.
— Ótima ideia. — Vanessa concorda. — Odeio esse assunto de trabalho,
me sinto exausta só de ouvir.
— Pois deveria se interessar mais, já passou da hora de você arrumar um
emprego. Se não se interessa em terminar seu curso de Publicidade, ao menos
deveria trabalhar. — Olho para ela quando termino de falar e vejo seu rosto
ganhar um tom vermelho.
Vanessa é uma parasita, passa o dia no salão de beleza ou no shopping com
as amigas. Ela parece uma eterna adolescente, vive às custas dos pais.
Não consigo entender como a pessoa consegue passar o dia sem fazer nada.
Se eu passar uma semana em casa, fico louco. Não me imagino ficar no ócio
como ela.
— Por que está sendo tão desagradável? — a pergunta dela fica sem
resposta, pois a minha atenção ganha outro foco.
Vejo Morales andar pelo salão do restaurante ao lado de Samantha. Ele tem
as mãos nas costas dela, enquanto fala algo rente ao seu ouvido.
Sinto a minha vista nublar com a visão dos dois juntos. O que Sam está
fazendo ao lado desse aproveitador?
Eles se sentam em uma mesa no canto do restaurante. O lugar é íntimo
demais para o meu gosto e a postura relaxada do Morales indica que ele está
adorando a privacidade que o local proporciona.
Assim que se acomodam, conversam com o garçom que rapidamente os
deixam a sós. Em seguida Morales estica a mão e pega a da Sam depositando um
beijo nos nós dos seus dedos.
Infeliz, vou acabar com a farra dele agora mesmo.
— Zander, o que você tem? — Vanessa coloca a mão no meu braço assim
que termino de beber todo o conteúdo do meu copo.
Não me abalo em respondê-la, agora preciso interceptar os avanços do
Morales, ele não vai se dar bem com Sam. Nunca vou permitir que encoste suas
mãos sujas nela.
— Aonde vai? — ela pergunta quando me ergo.
— Cumprimentar um casal de amigos. Já volto.
Escapo rapidamente da mesa sem maiores informações e sigo na direção
dos pombinhos. Agora Samantha está batendo os cílios como uma virgem
enfeitiçada com o príncipe encantado e sorrindo afetadamente.
Como ela é ordinária, está se derretendo por um mulherengo sem classe.
Sequer consegue escolher os homens que se relaciona.
— Boa-noite! — cumprimento os dois com um imenso sorriso.
— Zander? — Sam arregala os olhos quando me vê.
— Como vai senhorita Diniz? — digo seu sobrenome para mostrá-la o
quanto estou descontente. — Morales, é uma imensa surpresa vê-lo aqui com a
minha secretária.
— E aí, Zander, tudo bem? — Ele levanta e aperta a minha mão com uma
felicidade que não me agrada.
— Impossível estar bem olhando para você. — respondo enquanto aperto
sua mão com mais força do que o necessário. — O que quer com a senhorita
Diniz?
— Nervoso, meu caro? — Ele tenta debochar de mim.
— Não. — digo enquanto me inclino para perto dele. — Estou apenas
curioso para saber se posso me preparar para ver a senhorita Diniz acabar com
você. Porque com a sua idade, prevejo que o vexame será épico.
Ele contrai o maxilar claramente chateado com o meu comentário, o que me
faz sorrir largamente, uma vez que consegui irritá-lo.
— Não fique tão feliz. — Ele retruca em voz baixa.
— Zander será que pode soltar o Morales? — Olho para nossas mãos
unidas e só agora noto que não a soltei.
— É uma noite romântica? — pergunto sem me importar com a minha
indiscrição.
— É uma noite entre amigos. — Samantha me responde sem esconder o
descontentamento na voz.
— Amigos? — indago sem acreditar no que acabei de ouvir. — Desde
quando são amigos?
— Por que não volta para a sua mesa? Sua namorada está quase tendo uma
crise histérica. — Samantha demonstra toda a sua impaciência.
— Volto quando eu quiser. Você não respondeu a minha pergunta.
— Nem vou responder, não estamos no escritório, eu não preciso acatar
suas ordens no meu horário de lazer.
Quero gritar com ela agora por ser tão desaforada, mas infelizmente não
posso. E o pior é saber que ela está certa, não tenho como obrigá-la a responder
nada.
— Não fique com essa cara feliz, Morales, eu estou de olho em você. —
digo quando me dou por vencido.
— Fique de olho mesmo, tenho certeza que adorará o que verá da sua mesa.
— ele diz bem baixinho, me fazendo fechar as mãos em punhos com a vontade
de socar sua cara.
— Um dia da caça e outro do caçador, meu caro. — Faço um gesto de
cabeça para demonstrar que estou partindo e marcho para a minha mesa com
uma vontade descontrolada de socar algo.
Que Deus não permita que eu flagre um beijo entre eles, porque se isso
acontecer, não sei se me controlo.
Até aceito não poder ter a Samantha na minha cama, mas saber que o
Morales pode desfrutar dos seus encantos é demais para ao meu autocontrole.
Se eu não posso, esse filho da puta também não vai tê-la.
CAPÍTULO 11

Samantha

A minha noite estava perfeita, o convite do Morales para jantar caiu como
uma luva no meu sábado solitário, mas tudo perdeu o encanto com a intromissão
do maldito Zander.
Que homem chato, parece um carrapato na minha vida.
Ele assombrou os meus pensamentos a semana toda, foi um verdadeiro
horror ter que trabalhar ao lado dele depois da minha frustrada tentativa de
sedução.
Ainda não entendo onde estava com a cabeça quando pensei que fingido
uma embriagues conseguira atrair a sua atenção. Talvez eu estivesse mais
dominada pelo álcool do que julguei no momento. Porque analisando agora o
meu plano, percebo que era totalmente idiota.
Na verdade, eu deveria manter distância dele até sair da empresa, ter um
interlúdio sexual com Zander só complicaria a minha vida. O problema é que os
meus hormônios parecem não me obedecerem, eles enlouquecem quando ficam
na presença daquele ditador gostoso.
— Lamento pela interrupção, o Saramago está ficando inconveniente
demais, ele piorou há algum tempo.
— Ele pensa que está no escritório e pode ditar suas ordens.
— Não sei como você consegue trabalhar com ele todos os dias. — Morales
experimenta a sua bebida e pega o menu. — A minha proposta para trabalhar na
minha empresa está de pé, quando quiser abandonar esse homem, pode falar
comigo.
— Obrigada pela confiança. — Sorrio para ele e também pego o menu.
Não sei se estou preparada para nunca mais ver o Zander. Apesar de morrer
de raiva, cada vez que ele me irrita, durante o expediente, eu amo vê-lo chegar
todo cheiroso e com seus ternos elegantes. E quando ele grita o meu nome todo
nervosinho, já fico arrepiada só em pensar que teremos um embate verbal.
Acho que estou viciada nesse homem, e o pior é que nunca o tive de
maneira íntima. Não quero nem imaginar o que aconteceria com o meu coração
se um dia eu estivesse com ele.
— Você está bem? — a voz do Morales me desperta.
— Claro que sim.
— Não parece. Já te perguntei três vezes o que vai querer para o jantar. —
Sinto o meu rosto esquentar.
Maldito Zander!
— Estou em dúvida. — Minto descaradamente. — Só um segundo que vou
decidir.
Volto a olhar o menu e decido pedir um peixe com legumes. Morales chama
o garçom e faz o nosso pedido. Em seguida começa a me perguntar sobre o meu
curso.
Fico confortável com o assunto e começo a contar o trabalho que tenho que
fazer. Ele me dá dicas valiosas de como gerenciar uma equipe com eficiência.
Ouço suas informações preciosas e faço inúmeras anotações mentais para
colocar em prática no meu projeto.
Ele é um homem astuto nos negócios, não é à toa que conseguiu um enorme
sucesso com a sua empresa.
Olho disfarçadamente para a mesa onde Zander está jantando e vejo que
está nos observando. Ele parece alheio a conversa que se desenrola ao seu redor.
Sua atenção parece estar inteiramente no que acontece entre o Morales e eu.
Nossos olhares se cruzam e fico presa na força com que ele me observa. De
onde estou consigo ver perfeitamente a tempestade que passa pelo seu olhar.
Tenho certeza que, se ele pudesse, já teria vindo aqui destruir o meu jantar.
O comportamento do Zander me deixa confusa. Ele me provoca, olha sem
pudor para minhas pernas quando as cruzo, não sente vergonha de me mandar
andar na sua frente, só para olhar para a minha bunda, mas, ainda assim, mantém
um muro erguido entre nós.
Seu olhar mostra o quanto se sente atraído por mim, mas ele nunca, nunca
mesmo, verbaliza que me deseja. Só que é impossível negar a eletricidade que
corre entre nós quando estamos juntos.
Acredito que ele goste da nossa brincadeira de provocação, talvez até me
ache atraente, mas não me vê como uma mulher a altura para se relacionar.
Sinto o meu orgulho feminino borbulhar dentro do meu peito. Sei que
somos de mundos opostos, mas se por acaso ele realmente achar que não sou
suficientemente apropriada para frequentar sua vida íntima, quero que ele se
foda.
Quer saber, chega! Eu estou confundindo tudo, não sei em que momento
perdi o bom senso, mas já ultrapassei todos os limites. A minha carência
atrapalhou a minha prudência, ainda bem que Zander teve bom senso e não caiu
na minha armação no dia em que me levou em casa.
Acabo me repreendendo por ser uma idiota que se deixa levar pelo tesão.
Eu já tive dias melhores, estou extremamente envergonhada com esse meu
rompante de infantilidade.
Volto a minha atenção para o Morales com outros olhos. Ele é lindo, mas
sei que é um conquistador barato. Preciso ter cuidado com ele, se eu realmente
for trabalhar ao seu lado, não posso ser mais uma das suas conquistas. Preciso
manter nosso relacionamento em um nível profissional, assim como é com o
Zander.
Se nós tivermos um envolvimento amoroso, a ida para a sua empresa se
transformará em motivo de fofocas. Ninguém vai confiar na minha capacidade
profissional, na verdade, nem eu vou acreditar.
— Que tal esticarmos depois do jantar? — Morales desperta a minha
atenção.
— Esticarmos?
— Podemos dançar depois de sairmos daqui, ou apenas beber um pouco
enquanto colocamos o papo em dia.
— Não é uma má ideia.
Como não quero passar a noite sozinha, não será nada mal ficar um pouco
mais na companhia dele.

Ajeito o meu cabelo e pego o batom para retocar. Ouço a porta do banheiro
se abrir e alguém caminhar na minha direção. Quando olho para ver quem é,
vejo a insossa da Vanessa me observando.
— Como vai, Samantha? — Ela para do meu lado e me observa através do
espelho.
— Estou bem, e você?
— Estava ótima, mas aí você chegou. — Agora ela vira e cruza os braços.
— Não sei qual é a sua, mas desista do Zander, ele nunca será seu.
— O quê? — Também me viro para encará-la.
— Não se faça de inocente comigo, conheço bem as mulheres da sua laia.
Sei muito bem que anda se exibindo para o meu namorado, mas não vai
conseguir nada. Zander é um homem que necessita de uma mulher que saiba se
comportar no meio da alta sociedade, não precisa de alguém com cara de vadia
como você.
— Vadia? — Por Deus que hoje mato essa piranha.
— Esquece meu homem, garota, você não sabe com quem está se metendo.
— Dou um suspiro profundo para evitar virar do avesso a cara dessa filha da
puta.
— Vai se foder, Vanessa, a única coisa que quero do seu homem é o meu
salário em dia. Não sou mulher de perder meu tempo com um egocentrista,
quem mendiga atenção aqui é você.
Solto um beijo para ela e saio do banheiro soltando fumaça. Que biscateira
miserável, é muita audácia querer me intimidar. Até parece que vou me rebaixar
para o namorado dela. Quero que os dois se fodam, ambos se merecem.
— Vamos embora, Morales? — pergunto quando chego a mesa.
— Algum problema?
— Nenhum, só preciso de um pouco de ar. — Percebo que ele não acredita
em mim.
— Só um minuto. — Ele faz sinal para o garçom e pede a conta.
Vejo Vanessa voltar para a mesa e passar possessivamente os braços pelo
pescoço do Zander. Ela me encara e sorri com deboche. Que petulante, acredita
que está abafando. Estou contando os segundos para o meu chefinho me pedir
para enviar as flores que oficializam o fim do relacionamento deles. Terei o
maior prazer de escrever o bilhetinho de despedida dela.
— Vamos embora? — Morales me chama e desperto dos meus
pensamentos de vingança.
— Claro que sim. — Ele segura a minha mão e me levanto sorrindo.
Não vou terminar a minha noite na cama do Morales, mas vou fazer uma
boa cena para mostrar a namoradinha do Zander que tenho meu próprio homem.
— Samantha. — Ouço a voz do Zander assim que o Morales passa o braço
pela minha cintura. — Se quiser posso te levar em casa, já estou indo embora.
— Essa pergunta é séria? — Morales nem me deixa responder. — Por que
você não se preocupa com a sua namorada? A Samantha já tem companhia.
— Não falei com você, Morales, não se meta onde não é chamado. — A
ignorância do Zander é tocante.
— Você está drogado? — pergunto a ele me fingindo de preocupada.
— Eu? Claro que não! Você sabe muito bem que não sou adepto a drogas.
— ele me responde exaltado.
— Já não sei de nada, porque para você me oferecer uma carona quando
estou acompanhada, me leva a crer que não está no seu juízo perfeito.
— Pare de ironias. — Ele rosna demonstrando toda a sua irritação.
— Zander, vá cuidar da sua mulher e deixe a minha. — Morales segura o
meu queixo e dá um selinho rápido nos meus lábios acelerando o meu coração.
— Vamos embora, querida?
— Claro. — respondo com a voz instável.
Olho para o Zander e o vejo observar nossa interação chocado. Ele não
esperava ver o Morales me beijando, na verdade, nem eu esperava.
— Até segunda, senhor Saramago. — Finjo docilidade quando me afasto
dele.
Não sei se provocá-lo é um bom movimento, mas adorei o que o Morales
fez. Ao menos mostrou para a Vanessa que não estou nem aí para o namorado
dela. Certamente ela viu o beijo do Morales e agora deve estar se roendo de raiva
por eu ter dois homens disputando a minha atenção.
— Quero que me perdoe se fui muito invasivo, Samantha, mas o seu chefe
passou dos limites. — Morales fala assim que saímos do restaurante.
— Sem problemas, eu não sei o que deu nele. — Vejo um sorrio estranho
estampar o rosto do Morales.
— Eu sei bem o que deu nele, mas vamos esquecer esse incidente. — Ele
entrelaça os dedos nos meus. — Vou te levar em um lugar onde podemos dançar
e beber um pouco.
— Gosto desse plano.
— Que bom. — Ele pede um carro enquanto conversamos sobre o quanto a
noite está quente na cidade maravilhosa.

Segunda-feira de manhã

Cruzo os braços enquanto espero o café ficar pronto. Estou louca para a
obra da copa acabar, quero muito beber café moído na hora. Espero que o
arquiteto entregue a obra no tempo previsto, sinto falta de poder passar um
tempo reclusa por lá.
Minha mente corre para o meu fim de semana me fazendo sorrir, foi
incrível a noite que passei com o Morales. Ele é tão divertido, sempre disposto
para uma aventura. Terminamos a nossa noite assistindo o nascer do sol, depois
tomamos café juntos, e em seguida ele me levou em casa.
Gostei dele não me pressionar para terminamos o nosso encontro na cama.
Ele me surpreendeu quando se despediu de mim apenas me dando um beijo
casto.
Não vou negar que naquela altura do campeonato estava louca para transar
com ele. Até tinha esquecido da minha decisão de não ir para a sua cama por
motivos de trabalho. Estou começando a acreditar que não levo jeito para ser
profissional, não consigo conter o meu fogo.
— Sempre soube que você não era muito certa da cabeça, mas rir sozinha é
demais. Será que vou ter que chamar o manicômio para te pegar?
Olho para o lado e vejo o insuportável do meu chefe rindo de mim. Esse
infeliz está lindo, com um terno cinza claro, camisa social branca e gravata
vermelha listrada. Seu cabelo está milimetricamente arrumado e ainda molhado.
Sua loção pós-barba paira pelo ar me fazendo ter vontade de passar os braços
pelo seu pescoço e sentir esse cheiro maravilho bem de perto.
Ai meu Deus, é impossível resistir a tanta beleza!
— Bom-dia, senhor Saramago. — Opto por não retrucar seu desaforo. — O
café já vai sair, levo em alguns minutos na sua sala.
— Só isso? — ele ergue uma sobrancelha? — Não vai retrucar o meu
comentário irônico?
— Não estou disposta. — Pego duas xícaras para tentar me ocupar com
algo.
— Perdeu a disposição ao passar tanto tempo com o Morales? Foi difícil
ficar trocando a fralda geriátrica dele? — Zander joga a cabeça para trás e sorri
alto.
Idiota!
— Ha ha ha. — Debocho dele. — Para o seu governo, o Morales é um dos
homens mais interessantes que já conheci. É difícil pensar em qualquer outro
depois dele.
O sorriso que brincava em seu rosto desaparece completamente e é
substituído por um semblante tenso. Ele pensou que eu cairia na sua afronta e
arrumaria uma briga, mas não vou dar o gostinho de ele me ver chateada logo
cedo.
— Então vocês... — ele não termina de falar e apenas me olha.
— Nós o quê? — Incentivo-o a terminar sua pergunta.
— Bom-dia, senhor Saramago. — Cristina interrompe a nossa conversa.
— Bom-dia. — Zander responde com a voz mais grossa do que o habitual.
— Leve meu café na minha sala, senhorita Diniz. — Ele rosna o meu nome e
entra na sua sala.
— Atrapalhei algo? — Cristina pergunta confusa.
— Você me salvou de mandá-lo tomar conta da própria vida. — Pego a
xícara dele e coloco o café.
— Sam, você deveria ser mais calma, qualquer dia desses o senhor
Saramago deixa de achar graça nessas brigas de vocês e te manda embora.
— Não me importo se me demitir, estou cansada desse humor tosco dele.
— Termino de ajeitar o seu café.
— Você tem seus objetivos, não pode se deixar levar pelas provocações do
chefe. Fica fria e termina seu curso, tenho certeza que em breve você se torna
uma executiva de sucesso e me leva para trabalhar com você.
Sorrio do seu conselho, Cris é única, sabe como me conter, como ninguém.
Não foi por acaso que nos tornamos amigas assim que ela veio trabalhar comigo.
Impossível não amar essa mulher que sempre me segura quando perco a linha.
— Tudo bem, eu vou me comportar, você tem razão.
— Isso aí, garota.
Pego a xícara com o café do traste e vou para a sala dele. Que Deus me
ajude a manter a boca fechada, porque se ele me fizer perder o controle, jogo
esse imbecil pela janela.
— Com licença, senhor, seu café. — Fingindo não me importar com o seu
olhar intenso sobre mim, coloco a xícara sobre a mesa. — Deseja que eu passe
sua agenda agora?
— Tem certeza que vai continuar com essa postura indiferente?
— Não tem indiferença nenhuma aqui, senhor.
Ele aperta os olhos tentando segurar a raiva. Eu não deveria me sentir tão
feliz em irritá-lo, mas não consigo me conter e gargalho por dentro por saber que
ele está louco para me xingar.
— Quando o Morales passar por cima de você, não quero presenciar
nenhum rosto inchado no meu escritório. Você vai ter que superar sua dor de
cotovelo sorrindo enquanto trabalha.
Se eu não conhecesse bem o Zander, diria que ele está com ciúmes do meu
envolvimento com o Morales, mas como sei que esse babaca não tem
sentimentos suficientes para sentir ciúmes de alguém, abandono esse meu
pensamento insano.
— Deseja mais alguma coisa? — Ele prende os lábios irritado.
— Vocês transaram?
— Essa pergunta é séria?
— Basta responder sim ou não.
— A minha vida pessoal não está em pauta, senhor. — Ele trinca os dentes
e me preparo para a briga.
— Mande a minha agenda por e-mail.
— O.K. — Saio da sala dele prendendo a vontade de sorrir. Acho que
deixei alguém bem irritado.
CAPÍTULO 12

Zander

Minha semana não foi como programei, se não bastasse os problemas no
Sul permanecerem sem solução, Samantha decidiu me ignorar completamente.
Só agora percebi que não consigo trabalhar sem tê-la me rodeando com
todo o seu falatório e implicância. Estou quase implorando para ela parar de
drama e voltar a ser a velha Sam que tanto gosto.
Se a intenção dela era me enlouquecer, conseguiu com maestria.
E ainda tem a minha curiosidade em saber se ela transou com aquele
imbecil. Quando penso que o Morales pode ter desfrutado do corpo perfeito dela,
tenho vontade de quebrar a cara daquele filho da puta.
— Senhor Saramago, o Gaspar acaba de chegar. — Ouço a voz da
Samantha. Olho para a porta e ela está parada com aquela cara de desgosto que
tanto me enerva.
— Por que ele ainda não entrou? — Já que ela quer ser insuportável, vou
facilitar a sua vida sendo grosseiro.
Sam não responde e apenas some da minha visão. Em seguida Gaspar entra
com o rosto tenso, pelo jeito não traz boas notícias.
— O que foi, Gaspar? Por que parece que está indo para a forca?
— Senhor... é que... — Ele começa a gaguejar e me irrita.
— Fala logo, homem!
— Desculpa, senhor, mas a situação no Sul não se resolveu, eles disseram
que não encontram nada estranho nas faturas, que os preços são os de mercado.
Juro que quero me comportar com elegância, com toda calma que meu pai
sempre me ensinou a ter em momentos de crise. Infelizmente puxei o lado
passional da minha mãe, não sei reagir a notícias como essa sem fazer uma cena.
— Como os preços são de mercado se você mesmo disse que achou caro
em relação aos pagos pelas outras unidades regionais? Que porra é essa? Eu vou
demitir todos esses incompetentes. Não vai sobrar ninguém. — esbravejo como
um louco.
— Eu não sei o que fazer, todas as respostas que tento encontrar são
contraditórias, ninguém me dá uma posição definitiva. Agora o gerente vem
dizer que não acha estranho os valores, mas eles são altos, estamos tendo
despesas demais por lá.
— O Marco está cavando a própria cova, Gaspar.
— O senhor quer que eu vá lá pessoalmente? Estando presente posso ser
mais eficiente do que aqui.
Recosto na cadeira e avalio sua proposta. Sei que o Gaspar é extremamente
competente, ele trabalha na empresa desde o tempo do meu pai. Conseguiu o
cargo de Diretor Financeiro por méritos próprios. Se ele for para o Sul, tenho
certeza que encontrará uma solução.
Mas eu gosto de uma boa briga, perseguir os meus inimigos me provoca um
prazer extremo. Não posso deixar essa oportunidade passar batida. Quero
descobrir pessoalmente se alguém teve a audácia de me roubar.
Uma ideia louca começa a passar pela minha cabeça me fazendo sorrir.
Talvez não seja nada mal verificar o que acontece lá, estou precisando de uma
folga mesmo. Ir para o Sul será uma boa maneira de verificar meus negócios,
fugir da Vanessa e ter Samantha por perto fora da sua zona de conforto.
Já que vou buscar respostas para o mistério dos balanços das lojas do Rio
Grande do Sul, preciso da minha secretária pessoal por perto para me ajudar no
que for preciso. Quem sabe se passarmos esse tempo juntos, as coisas entre nós
voltem ao normal? Sinto saudades da minha Sam atrevida. Ela alegrava os meus
dias.
— Não precisa se incomodar em ir até lá, Gaspar, eu mesmo farei isso. —
Ele me olha incrédulo.
— O senhor vai para o Sul?
— Vou. — Sorrio enquanto confirmo. — E vou com disposição para
demitir metade da equipe.
— Chefe, tem certeza que quer se envolver nisso pessoalmente?
— Tenho. — Essa viagem vai me servir para diversos propósitos, não vou
abrir mão dela. — Obrigado por tentar solucionar tudo, Gaspar, pode ter certeza
que seu esforço não terá sido em vão.
— É minha obrigação, senhor.
— De qualquer maneira quero agradecer. — Levanto e estendo a mão para
ele. — Mantenha essa informação de que vou viajar em sigilo. Não quero que
ninguém saiba.
— Pode contar com a minha discrição.
— Ótimo. — Gosto do Gaspar justamente pela sua fidelidade e discrição.
— Vou aproveitar que meu pai está por aqui e vou deixá-lo tomando conta da
empresa, tente auxiliar meu velho no que ele precisar.
— Será um enorme prazer.
Gaspar responde sorrindo antes de deixar a minha sala. Ele adora o meu
pai, os dois tiveram uma longa história trabalhando juntos.
Assim que ele sai ligo para Sam e peço que ela venha a minha sala e traga a
agenda. Quero que ela providencie o quanto antes a nossa viagem. Segunda-feira
eu irei aterrissar no Rio Grande do Sul para apavorar a diretoria de lá.
— Pois não, chefe. — Ela entra toda profissional.
Não sei se me irrito por ela me tratar com tanta indiferença, ou me excito
com esse seu nariz arrebitado acompanhado desse rostinho enfezado.
— Quero que você providencie uma viagem para o Rio Grande do Sul na
segunda-feira bem cedo, mas quero um jatinho particular, não tenho interesse em
perder tempo no aeroporto.
— Você vai mesmo para o Sul? — Agora ela parece interessada no que
estou falando.
— Vou, faço questão de fazer as demissões necessárias pessoalmente.
— Zander, você acha mesmo que tem alguém superfaturando as compras?
Não consigo acreditar que sejam tão estúpidos assim. Está bem óbvio que uma
hora eles seriam desmascarados.
— Samantha, eu não acho nada, apenas sei que estamos pagando um valor
exagerado em vários produtos.
— Quanta burrice, tem gente que nem sabe roubar. — Ela faz cara de
desgosto. — Vou providenciar agora mesmo a sua viagem. Alguém vai te
acompanhar?
— Você! — digo e espero a sua atitude.
Sam abre a boca e apenas fica me encarando sem reação. Acho que ela
imaginou que o Gaspar fosse comigo, mas não vou passar um tempo fora com
ele do meu lado. Nem pensar! Prefiro uma companhia mais agradável.
— Preciso de alguém que me auxilie com a devida discrição, essa viagem
será extremante complexa, não posso abrir mão de ter você comigo. Apenas
você sabe das minhas necessidades, então já vá se preparando para passar um
tempo longe da cidade.
— Quanto tempo?
— O tempo que for necessário. — Espero ela reclamar, mas Sam apenas
olha para o chão pensativa.
— Tudo bem, eu vou ajeitar tudo. — Fico surpreso por não debater comigo.
— Deseja mais alguma coisa?
— Não. — respondo no automático, chocado com a sua aceitação.
Sem mais palavras ela sai da minha sala requebrando os quadris, me
deixando louco com a visão da sua bunda perfeita.
Agora já não sei se foi uma boa ideia tê-la convidado. Não será fácil passar
um tempo fora com ela, mas acho que precisamos disso. As coisas entre nós
andam estranhas demais, talvez nos unirmos para resolver esse problema nos
reaproxime. Sem contar que será um bom exercício para a carreira dela, sei
muito bem que Sam adora aprender.
Nessa viagem, ela vai entender que um homem de negócios precisa ser frio
e direto para alcançar os seus objetivos.

— Filho tem certeza que precisa ir pessoalmente resolver esse problema?


— Meu pai ainda está reticente quanto a minha viagem.
— Pai, se realmente estão superfaturando os produtos, eu preciso resolver
isso diretamente lá. Será uma maneira de demonstrar que não admitirei roubo
nas minhas lojas. Servirá de exemplo para quem ousar futuramente me roubar.
— Você tem razão, esse caso merece uma demonstração precisa de poder.
— Finalmente meu pai se rende a minha ideia. — Enquanto você estiver
resolvendo esse assunto fico na empresa com o maior prazer. Confesso que estou
com saudades do tempo que comandava os negócios. Esse afastamento do
trabalho está acabando comigo.
— O senhor ainda é o presidente, pode voltar a ser mais ativo quando
quiser, seria ótimo contar com os seus conselhos. — Ele sorri.
— Se sua mãe não fosse tão teimosa, eu voltaria em tempo integral.
— Depois podemos dar um jeito nela, talvez vocês pudessem ficar seis
meses aqui e outros seis em Portugal.
— É... pode ser uma ideia.
— Que ideia? — Mamãe entra na sala justamente quando ele acaba de falar.
— Nada demais, dona Leonora, estamos apenas falando de negócios. —
Sem deixar de perceber a expressão de desgosto dela.
— Não cansam de falar de trabalho?
— Impossível, respiro trabalho 24 horas por dia.
— Você precisa desacelerar, filho. — Ela se aproxima e beija meu cabelo.
— Vai jantar conosco?
— Tem comida sobrando? — Minha mãe aperta os olhos e me faz sorrir.
— Claro que tem menino, que pergunta boba.
— É só para irritá-la. — Passo a mão pela sua cintura e dou um beijo na sua
mão.
Meu pai acaba relembrando de uma história de quando eu era criança e
começa a falar que sempre tive a tendência de irritar a minha mãe.
Sorrio quando recordo de como deixava a mamãe de cabelo em pé. Era
muito bom não ter responsabilidades, naquela época eu não sabia como era feliz.
Passamos os próximos quarenta minutos conversando sobre os bons
tempos, até que o jantar sai e o nosso assunto passa a girar sobre a situação de
reclusão da minha irmã.
Não sou o tipo de homem que gosta de se meter na vida alheia, mas não
posso deixar de compartilhar a preocupação da minha mãe. Realmente Gaia anda
isolada, ela precisa aproveitar a vida, não pode permanecer nessa solidão.
Sem que eu perceba, a noite passa voando e quando chega a hora de partir,
me sinto feliz por ter meus pais por perto. É sempre um grande prazer poder
passar um tempo com eles.

— Eu vou com você também. Não permitirei que fique sozinho com aquela
vadia.
— Se chamar a Samantha de vadia mais uma vez, teremos um grave
problema.
Esse ciúme bobo da Vanessa com relação a Sam me irrita profundamente.
— VADIA! — Vanessa grita descontrolada. — Ela é uma vadia que vive
dando em cima de você.
— Para de ser maluca. Sam nunca deu em cima de mim.
— Sam? Agora é Sam? Estão íntimos assim?
Passo a mão pelo rosto perdendo a paciência com ela. O tempo da Vanessa
na minha vida acabou. Ela já não me atrai em nada.
— Chamo Sam como quiser, e você não tem nada a ver com isso.
— Como não? Eu sou a sua namorada. — ela fala com propriedade,
acreditando que realmente tem um espaço vitalício na minha vida.
— Ex-namorada. — digo sorrindo. — Você acaba de entrar para a galeria
das minhas ex. — O rosto dela empalidece.
— O quê? Você está falando sério?
— Pegue o que conseguir das suas coisas e saia da minha casa. Depois
mando a empregada reunir o que ficou e envio para você. Se precisar de um
carro para ir embora eu peço agora.
Vejo lágrimas acumularem em seus olhos quando acabo de falar. Por isso
odeio terminar com alguém em lugar privado, esse lance de choro é
desconfortável.
— Você não pode me deixar por causa de uma secretária. Eu te amo,
Zander.
Merda! Não acredito que ela disse que me ama.
— Não estou terminando com você para ficar com ninguém, o problema é
que você perdeu o bom senso e quer uma posição na minha vida que nunca terá.
— Juro que não quero magoá-la mais do que o necessário, só que ela não está
facilitando.
— Não faça isso, Zander, eu não vou abrir mão de você. — Ela se atira em
mim e me abraça. — Eu te amo e sei que você me ama também.
— Por Deus, Vanessa, mantenha a dignidade. — Seguro-a pelos braços e a
afasto. — Se não sair daqui agora por bem, eu vou ter que carregá-la para fora.
Veja, eu não quero chegar a este ponto.
— Por favor, não me deixa.
Respiro fundo tentando conter a raiva que começa a me consumir. Odeio
gente que não tem amor próprio. Ela é uma mulher linda, pode arrumar um
homem decente em segundos, não precisar ficar se humilhando para um cretino
como eu.
— Pegue a sua bolsa e saia agora! — falo baixo, mas sem deixar de encará-
la.
As lágrimas que ela tentava conter começam a cair pelo seu rosto me
causando aflição. Preciso que ela vá embora, odeio drama.
— Você vai se arrepender por me descartar assim. — Vanessa diz enquanto
seca as lágrimas e pega a bolsa.
Fico parado no meio da sala enquanto a observo bater a porta com
violência. Eu não tinha programado terminar o nosso envolvimento assim, só
que ela passou dos limites ao xingar Samantha.
Foi melhor desse jeito, eu devia ter dado um fim no nosso relacionamento
há tempos. Acabei me acomodando e permitindo que Vanessa acreditasse que
tinha um espaço sólido na minha vida.
Com ela fora do meu caminho, vou ter paz para trabalhar nessa viagem sem
as suas ligações constantes. Será até bom passar um tempo fora, isso vai me
manter longe dela. Quando eu voltar, talvez ela já tenha me substituído por
algum babaca.
CAPÍTULO 13

Samantha

Ontem, saí com o Morales para distrair um pouco a cabeça. Estou uma
pilha de nervos em saber que passarei um tempo sozinha com o Zander. Não sei
como vou sobreviver a essa viagem com todos os sentimentos que ando nutrindo
pelo meu chefe.
E quando digo sentimentos, eles se estendem desde querer me jogar nele,
até matá-lo com requintes de crueldade. Não sei como Zander consegue me
irritar e ao mesmo tempo me fazer desejá-lo.
— Nap, hoje você vai ficar sozinho, não vou demorar. — Passo a mão pela
cabeça dele com peninha de deixá-lo.
Só que hoje ele não poderá ir à minha visita semanal a casa da mamãe. Ela
terá que cuidar dele enquanto eu estiver viajando, então vou deixá-la livre do
Nap por hoje.
Quando estou chegando na porta, escuto uma mensagem chegando. Pego o
celular e vejo que é o Zander. Fico indecisa se devo ou não abrir o aplicativo.
Não estou no meu melhor momento e, se ele me irritar, é bem capaz de não
viajar com ele.
Zander – você precisa de alguma coisa? Hoje a tarde estarei livre caso
tenha que comprar algo para a viagem. Não se preocupe com dinheiro, é tudo
por conta da empresa.
Releio a sua mensagem sem acreditar que ele está sendo tão simpático. O
que será que ele bebeu para estar esbanjando educação?
Sam – obrigada pela oferta, ainda não fiz a minha mala, mas não se
preocupe que, se faltar algo eu compro amanhã.
Tranco a porta do meu apartamento e vou para o elevador.
Zander – é só me avisar que te levo.
Essa oferta do Zander não está me cheirando bem, ele não é bonzinho
assim, tem algo por trás de toda essa oferta.
Sam – tudo bem chefe, te aviso se precisar de algo.
Zander – estou com medo desta sua obediência.
Que idiota, ele sabe ser um babaca!
Sam – vai à merda.
Ele responde com vários bonecos sorrindo, acho que meu chefe está com o
humor em alta. Uma pena que eu não esteja no clima de provocá-lo.
Jogo o telefone na bolsa e encerro a nossa conversa. Não quero me estender
no nosso papo, teremos muito tempo para brigarmos nessa viagem, prefiro não
me estressar com ele antes disso.

Odeio fazer mala!


Eu deveria ter aceitado a sugestão da minha mãe e tê-la trazido comigo para
me ajudar a decidir o que colocar na mala. Escolher o que preciso levar é a coisa
mais complexa do mundo, já que sou aquele tipo de pessoa que acredita
necessitar de tudo o que tem em casa.
Será que tá muito frio lá? Se tiver, sequer tenho roupa, aqui no Rio só existe
verão. As minhas roupas de frio só uso, na verdade, quando vou para à Serra ou
São Paulo. Fora isso, meu vestuário se resume a vestidos, bermudas e jeans com
camiseta.
Opto por peças curingas para não errar e separo as roupas formais para o
trabalho. Como sei que o Zander é um workaholic, não vou ter tempo de pisar na
rua para conhecer Porto Alegre. Então, nem vou me prender em roupas
informais.
— Burra! — digo em voz alta quando paro na frente do armário e me
lembro que vamos em um voo particular. Não preciso me preocupar com peso da
mala, posso levar a minha casa se assim desejar.
Sorrio em saber que posso levar duas malas lotadas do que eu quero. Agora
os meus problemas acabaram, estou me sentindo livre.
Começo a pegar algumas roupas extras e coloco dois vestidos de noite.
Zander pode querer comparecer a algum jantar de negócios, ele sempre aproveita
viagens para fechar novas parcerias.
Depois de uma hora tirando e colocando itens na mala, me dou por
satisfeita. Acho que estou levando tudo que preciso e, caso eu esteja esquecendo
algo, compro quando chegar ao Sul.
“Miau”
Napoleon sobe sobre a minha mala em busca de atenção. Já estou sentindo
falta do meu bichano, ele é o meu companheiro fiel, odeio quando preciso ficar
distante dele.
— Nap, vou te levar para a vovó, seja um gatinho bonzinho com ela. E não
suba na mesa, muito menos beba água no vaso. Não me faça vergonha enquanto
eu estiver longe.
Ela não gosta do Nap andando o tempo todo pela sua casa, mas não posso
fazer nada. É impossível deixá-lo sozinho no apartamento. Nap precisa de
atenção, mesmo passando o dia fora, ele sabe que à noite estarei em casa.
“Miaaauuu”
Talvez eu esteja maluca, mas esse miau dele foi estranho. Parece que ele fez
um “miau” do tipo: vou infernizar a vida da sua mãe, não se preocupe.
Esse gato é sinistro, às vezes acredito que ele entende tudo o que falo.
O som de mensagem chama a minha atenção, espero que não seja a minha
mãe com mais recomendações sobre Nap.
Pego o aparelho e vejo que é o Morales me dizendo que já está com
saudades de mim. Ele é um cretino fofo que mexe com o meu coração.
Respondo que não vou demorar e que assim que voltar, eu quero uma
balada com ele. Como esperado ele topa a proposta e diz que já está ansioso pela
minha volta.


Zander

Olho para o relógio e vejo que Samantha está atrasada dez minutos. Ontem
ofereci carona, justamente para evitar seus atrasos, mas ela fez questão de
afirmar que era adulta e que poderia chegar na hora. Só que pelo jeito, a
senhorita Diniz sequer consegue cumprir suas promessas.
— Senhor, estamos quase prontos para decolar.
— Ótimo, estou apenas esperando a... — Antes que consiga terminar de
falar, Sam entra parecendo uma modelo.
Puta que pariu, ela está linda demais. Vai ser um inferno ficar perto dela
nesse voo.
— Bom-dia!
— Você está... — verifico a hora para ser bem preciso. — Onze minutos
atrasada.
— Não estou nada. — Sua negação me surpreende.
— Marquei às sete da manhã.
— Eu sei, mas se você marcou nesse horário, era porque tinha intenção de
sair sete e meia. Como sabe que sempre me enrolo, me deu trinta minutos de
tolerância.
Meu queixo despenca com a sua resposta, definitivamente ela me conhece
bem. Realmente não tinha intenção de sair às sete em ponto, mas não vou
assumir isso.
— Está enganada.
— Você sabe que não estou. — Ela joga o cabelo para o lado. — Apesar de
você ter acertado o horário definitivo direto com o piloto, sei que jamais me
mandaria chegar na hora certa de voar.
— Você é irritante. — Com charme ela dá de ombros.
— Aprendi com o melhor.
Dou por encerrado nosso embate verbal, vou deixar para implicar com ela
mais tarde. Temos o dia todo pela frente para podermos debater, agora quero só
me concentrar para o momento de chegar ao escritório central de Porto Alegre.

— Que luxo! — Sam diz contente quando pega um iogurte no frigobar do


avião.
— Você gosta de mordomia, não é? — Desvio a atenção do documento que
estou lendo para observá-la.
— E quem não gosta? Sou uma mulher que sabe aproveitar o que é bom.
— Então aproveite o que quiser, o frigobar está preparado com várias
guloseimas.
— Eu vi. — Ela dá um sorrisinho sacana. — Tem chocolate.
— Pegue um.
— Vou roubar alguns para comer mais tarde. — Ela diz isso em voz baixa e
se inclina na minha direção. — Você está pagando uma fortuna por este avião.
Então, uns chocolates roubados não farão diferença.
Não me seguro e dou uma risada da ideia infantil dela, Sam consegue se
superar a cada dia. Nunca conheci uma mulher com um espírito tão arteiro.
— Samantha, se você não existisse, tinha que ser inventada.
— Só estou fazendo valer o que gastou. — Ela dá de ombros e começa a
tomar o iogurte.
Volto a me concentrar nos documentos sobre os problemas no Sul. Quero
estar por dentro de todos os detalhes antes de chegar lá. Quando eu começar o
meu interrogatório, não vou deixar pedra sobre pedra.
Depois de um tempo passo a discutir com Sam as possibilidades de tudo ser
um engano, ambos não acreditamos verdadeiramente nesta possibilidade, mas
levantamos alguns pontos que podem validar essa ideia.
Sam acaba se mostrando uma boa estrategista e me dá dicas preciosas de
como pressionar de maneira sorrateira os executivos do Escritório Central.
Sempre soube que ela era ardilosa, mas agora confesso que me assustei com as
propostas dela. Essa mulher é uma caixinha de surpresas, merece um posto de
executiva o quanto antes.
Quando o piloto anuncia o pouso, sinto a adrenalina correr pelo meu corpo,
causando uma sensação de euforia. Estou bem perto de iniciar a minha caçada,
não existe nada melhor do que superar um desafio.

— Bom-dia, temos duas reservas em nome de Zander Saramago e


Samantha Diniz. — Sam diz simpática para a recepcionista que a encara com
tédio.
— Bom-dia senhora, só um minuto. — a mulher fala com a voz mecânica e
Sam me olha com desgosto.
— Vou fingir demência para não arrumar um problema. — ela resmunga.
— Relaxa, ela pode estar na TPM.
— Foda-se, ela ganha para ser simpática. — antes que eu responda, ela vira
o rosto e o gesto faz o seu cabelo exalar um delicioso cheiro fresco.
Não sei como consegue cheirar tão bem.
— É uma suíte luxo e um quarto de solteiro?
— Isso mesmo.
A confirmação de Samantha me deixa em estado de alerta. Quando pedi que
ela reservasse os quartos, eu disse que eram duas suítes e não um quarto comum
para ela.
— Só um minuto. — Paraliso a atendente antes que ela confirme o check-
in. — Você disse uma suíte e um quarto comum?
— Sim, senhor. — Olho para Sam acusadoramente.
— Não preciso de uma suíte, posso ficar em um quarto comum. —
Rapidamente ela se defende.
— Você precisa aprender a seguir as minhas ordens. — Volto minha
atenção para recepcionista. — Por favor, troque o quarto da senhorita Diniz.
Quero uma suíte no mesmo andar que a minha.
— Senhor, estamos com os nossos quartos... — Antes que ela pense em me
dispensar a interrompo.
— Não me interessa o que tem nos seus quartos, quero a suíte dela ao lado
da minha de preferência. Arrume isso em dez minutos, ou ligo para o dono do
hotel e informo que você não conseguiu atender ao meu pedido. — Ela me
encara assustada. — Pode ter certeza que o Abílio Noronha não vai gostar de
saber que não tive meu pedido atendido.
— Só um momento. — Rapidamente ela muda a postura. — Se desejarem,
podem aguardar no bar enquanto preparamos a suíte da senhora Diniz.
— Como sei que será rápida, esperaremos na recepção.
Apoio a minha mão no meio das costas de Sam e a encaminho para um dos
sofás confortáveis da recepção. Estou com um humor do cão, se essa mulher não
estiver com o quarto preparado em dez minutos, só vou aceitar conversar com o
gerente.
— Você não precisava ser tão indelicado, ela não tem culpa.
— Ela tem que ser mais atenciosa, já ganhou a minha antipatia ao sequer
olhar para você quando chegamos. E depois vem querer dizer que não tem
suítes? Quem ela pensa que é para me negar uma suíte?
— Zander, ela sequer disse que não tinha suíte.
— Mas ia dizer, já entendi pela entonação da voz dela. — Ignoro sua cara
de raiva. — E a culpa é sua por eu ter sido indelicado com a recepcionista.
— Minha culpa? — ela coloca a mão no peito ofendida.
— Sim. — confirmo. — Se tivesse cumprido a minha ordem de duas suítes
no mesmo andar, não teríamos esse problema.
— Eu não precisava de uma suíte, não vi necessidade de gastar com um
luxo que dispenso.
— Você está trabalhando para mim, eu que decido se deve ter luxo ou não.
— Você não manda em mim. — As fagulhas que escapam dos seus olhos
castanhos é a coisa mais sexy desse mundo.
— Mando quando está em horário de serviço, e quando te dei a ordem para
reservar os quartos, você estava na hora do expediente.
— Não me importo se estava no horário do expediente, eu não quis uma
suíte e ponto. — Antes que eu abra a boca para respondê-la, um rapaz nos
interrompe.
— Com licença. — Ele sorri simpático. — A suíte solicitada já está
disponível, podem me acompanhar?
— Claro. — Sam é a primeira a levantar toda sorridente.
O rapaz fica de queixo caído, e não posso condená-lo, ela está incrível, com
uma calça preta justa, blusa verde e um sapato alto que me faz imaginar como
seria vê-la nua apenas usando esse acessório.
Sentindo o mau humor me dominar, sigo em silêncio o rapaz enquanto Sam,
empolgada, fala para ele que o hotel é lindo.
O jovem ajeita as nossas malas em um carrinho e nos leva para o elevador.
Durante todo o percurso até o nosso andar ela faz inúmeras perguntas e uma
delas me chama a atenção. Sam quer saber o melhor lugar para ter uma noitada
na cidade, pelo jeito ela está pensando em badalar por aí.
Até parece que vou deixá-la passar a noite na rua atrás de algum gaúcho.
Ela vai ficar trancada neste hotel, trabalhando comigo. Não a trouxe para essa
viagem a passeio, o foco aqui é descobrir o que aconteceu com os preços
exorbitantes que minhas lojas andam pagando.
O rapaz nos leva para o 7° andar. No final do corredor, ele mostra os nossos
quartos. Iremos ficar um ao lado do outro, o que me causa grande satisfação.
Estando perto dela, posso ficar de olho no seu movimento.
— Obrigada pela atenção, Iago. — ela diz o nome do bobão. — Zander dê
uma gorjeta ao rapaz. — Olho para Sam incrédulo.
— Gorjeta? — pergunto chocado com a sua audácia.
— Não sabe o que é gorjeta, querido? Quer que eu explique? — Trinco os
dentes com raiva dela, Sam adora me fazer de idiota.
— Não preciso de explicação nenhuma. — Pego a carteira e tiro uma nota
de cinquenta reais. — Aqui, rapaz, pode ir. — Dispenso-o com um gesto de mão.
Estou possesso com a simpatia dela por esse mela cueca.
O idiota sai sorrindo, não pelo dinheiro que dei, mas por Sam ter soprado
um beijo em sua direção.
Que gaiata!
— Vou ajeitar os meus pertences e em seguida iremos para o escritório. —
digo arredio.
— Tudo bem, mas vou pedir algo para comer antes, estou morrendo de
fome.
— Então peça para entregar no meu quarto, podemos comer juntos
enquanto terminamos de traçar a nossa estratégia de ataque.
— Pode ser. — ela dá de ombros. — Estou louca para dar a nossa grande
cartada.
— Estamos. — Sorrio empolgado com o susto que em breve darei na
equipe de Porto Alegre.
— Daqui a pouco nos vemos.
Ela entra no quarto e me deixa parado no corredor apenas sentindo o frescor
do seu perfume.
Observo a sua porta fechada e só agora percebo que fui um completo idiota
em pedir um quarto para Sam perto do meu. Como vou conseguir dormir com
ela tão perto de mim?
Praguejando a minha burrice, entro no quarto já prevendo que terei noites
em claros e banhos gelados.
CAPÍTULO 14

Zander

Durante o café da manhã organizei os últimos detalhes para pressionar de
maneira brutal a equipe financeira. Já li tanto os dados dos balanços, que sou
capaz de ditar cada número dele. Se eles não me derem uma explicação
convincente, coloco fogo no escritório.
— Pronto para o ataque? — Sam pergunta quando o carro para na frente do
prédio onde fica o Escritório Central das lojas no estado do Rio Grande do Sul.
— Digamos que sedento.
Ela sorri e sai do carro, Samantha é tão má quanto eu, por isso formamos
uma dupla perfeita.
Com passos apressados caminhamos para a recepção do prédio e, antes que
eu diga algo, Sam se debruça no balcão da recepção e anuncia a nossa chegada.
Ela pede o crachá de acesso ao prédio e avisa que ninguém deve saber da
nossa chegada. Para retificar o seu pedido, eu sorrio para a menina e digo que
uma palavra a mais representará a sua demissão.
Entendendo perfeitamente a delicadeza da situação, ela não contesta o
nosso pedido e apenas nos entrega os nossos crachás de visitantes.
Exibindo um requebrado de matar, Samantha segue na minha frente
empolgada. Ela está adorando pegar a equipe de surpresa, acho que está mais
ansiosa do que eu para saber como será a reação deles.
A adrenalina começa a correr pelo meu corpo com força enquanto o
elevador vai subindo. Será uma grande satisfação ver a cara desses cretinos
quando eu chegar. Agora quero vê-los inventarem desculpas.
— Que comece o show. — Samantha abre a bolsa e tira um par de óculos.
Fico confuso quando a vejo colocá-los, nunca soube que ela usava óculos.
— Está com problema de visão? — pergunto ao segurá-la pelo braço e
encarar seu rosto.
— Não. — Ela dá de ombros como se fosse normal usar óculos.
— Então por que está com esses óculos? — Fico fascinado quando a vejo
ajeitando a armação. Não sei como ela consegue ficar ainda mais bonita usando
os malditos óculos.
— Quero parecer bem profissional e mais velha.
— Mais velha? — Olho para sua saia apertada e os lindos saltos que estão
me fazendo ferver. — Sam, você está longe de parecer velha e esses seus óculos
são... — Paro de falar para não entregar e dizer que ela está ainda mais gostosa
— O que tem meus óculos? — Ela me encara curiosa e seu rosto perfeito
me faz perder a capacidade de falar.
— Nada, vamos embora.
Desisto de formar algum pensamento lógico, infelizmente Samantha Diniz
me faz perder a capacidade cognitiva.
Entro na recepção do escritório pronto para começar a aterrorizar as
secretárias. Provavelmente elas não possuem culpa sobre o que está
acontecendo, mas preciso manter a minha fama de malvado com todos.
— Bom-dia, senhoritas. — Cumprimento-as sorrindo. — Marco Correa se
encontra?
— O que deseja com o senhor Correa? — A mais nova me pergunta com
um sorriso polido.
— O senhor Saramago não pode esperar, querida. — Sam responde por
mim. — O Marco está ou não? Antes que me responda... — Com um gesto
teatral, Sam olha para o relógio. — Espero, para o bem dele, que já esteja
trabalhando bastante.
As duas mulheres olham para mim aterrorizadas, o que me causa uma
imensa satisfação. Gosto de ser temido. Odeio quando as pessoas imaginam que
sou um CEO bonzinho.
— Onde ele está? — Tomo a dianteira da situação, não quero Samantha
roubando minha cena.
— Só um minuto que vou anunciá-lo.
— Se pegar esse telefone para me anunciar, vai seguir diretamente para os
Recursos Humanos.
Não espero ela me responder se o Marco está ou não, decido seguir pelo
corredor em busca da sala do meu Gerente Geral. Quero ver a cara dele quando
descobrir que vim pessoalmente averiguar os problemas no setor de Compras.
Escuto o salto de Samantha bem atrás de mim, apesar de ser um tormento
para a minha sanidade, ela tem o mesmo instinto de intimidação que eu. Não
existiria ninguém melhor do que ela para me assessorar nessa empreitada.
Por alguns segundos me perco olhando para as portas na minha frente. Só
vim ao Escritório Central de Porto Alegre uma vez, para inaugurar as novas
instalações, não me atentei ao lugar certo onde a sala do Marco fica.
— Não sei aonde vou. — digo baixinho para Samantha.
— Nem eu. — Ela sorri e olha para frente. — Normalmente a sala do chefe
é no final, então deve ser aquela. — Olho na direção que ela aponta e vejo uma
porta ao fundo.
— Espero que você esteja certa.
Mantenho o passo até a porta e quando chego perto vejo o nome do Marco.
Bingo! Minha brilhante secretária tinha razão.
Em um único movimento, abro a porta com força e entro. Flagro o Marco
esticando a mão para o telefone, certamente uma das malditas secretárias iria
avisá-lo que eu cheguei.
— Bom-dia, Marco, como está? — Pelo aspecto de pânico dele, não deu
tempo de ser avisado sobre a minha presença.
— Senhor Saramago... — Ele gagueja meu sobrenome.
— Surpreso? — Sorrio enquanto abro um botão do meu terno e me sento à
sua frente.
— Eu... eu... — Respiro fundo começando a me irritar com a sua gagueira.
— Diga uma frase completa antes que eu perca ainda mais a minha
paciência com você. — Rosno na sua direção.
Ele passa a mão pela testa demonstrando todo seu nervosismo. Não estou
gostando da sua postura, se ele está tão agitado, significa que tem rabo preso.
— Desculpa, senhor, mas eu não esperava vê-lo aqui, estou surpreso.
— Não sei o motivo da surpresa, esta empresa é minha, posso visitar
qualquer escritório quando eu quiser.
— Claro que sim, não quis dizer que não possa vir, apenas que estou
surpreso com a visita.
— Por acaso esperava que eu ficasse parado enquanto temos um
descompasso nos valores das compras dos materiais de limpeza? Se pensou isso,
não me conhece bem.
Prendo seus olhos aos meus, para mostrar que cheguei para tocar fogo na
empresa.
— Quero a equipe de finanças aqui em dez minutos. — Levanto e ele faz o
mesmo. — E quero um pouco de café, fresco, para mim e a senhorita Diniz. —
Friso exageradamente a palavra “fresco”. — E saia dessa cadeira, a partir de
agora esse escritório é meu.
Seguro a vontade de sorrir com a cara de desespero do Marco, intimidar as
pessoas é extremamente divertido. Adoro o poder que o meu cargo me dá. Em
momentos como este, percebo o quanto valeu passar horas e horas na madrugada
estudando.
— O escritório é seu, chefe. — Ele dá a volta na mesa rapidamente. — Oi,
Samantha, como vai?
— Bem, estou ansiosa para ver o que a sua equipe financeira tem para nos
mostrar, Marco. — Sam me surpreende com a sua postura neutra. Ela gosta
muito desse babaca, mas pelo jeito decidiu deixar sua simpatia de lado.
— Claro, iremos mostrar tudo o que temos. — ele diz reticente. — Vou
avisar pessoalmente o chefe do Financeiro para reunir as informações
necessárias e mandarei servir o café.
— Não ultrapasse dez minutos para me apresentar as primeiras
informações. — digo quando ajeito a altura da cadeira e me sento. — E avise
que estou aqui para descobrir se estou pagando a mais pelos materiais de
limpeza da empresa. Se não me mostrarem que os valores estão na média do
mercado, cabeças vão rolar.
Ele perde completamente a cor e apenas assente enquanto praticamente
corre da sala. Algo não está bem, será uma questão de tempo descobrir que estou
sendo lesado.
— Sinto cheiro de problemas. — digo a Sam quando ficamos sozinhos.
— Ele sabe de algo, sua expressão entregou.
— Pensei que só eu tinha notado isso.
— Infelizmente não. — Ela cruza as pernas e me leva a loucura. — O
Marco está escondendo algo.
Corro os olhos pela sua perna e me concentro nos seus sapatos. Nunca a vi
com eles, são sexys demais, fazem com que sua perna fique mais longa e
sensual.
— Chamando para à Terra o senhor Saramago. — Olho para seu rosto e a
vejo estalando os dedos chamando a minha atenção.
— Eu estava pensando. — Solto um pigarro para me recuperar.
— Sei bem o seu pensamento. — Sua resposta em tom de deboche me
irrita. — Você vai ter que pressionar bem a todos para descobrir o que realmente
está acontecendo. Eu não gostei da reação do Marco.
— Se você não gostou, imagina eu. — constato.
Viro a cadeira e observo a cidade bem abaixo de mim. Não preciso ser um
vidente para saber que tenho um problema aqui. Agora necessito descobrir qual
a extensão desse problema, e se vou ter que tomar medidas drásticas.
CAPÍTULO 15

Samantha

Bato as unhas sobre a mesa enquanto meus olhos correm pelos preços
pagos nos itens de higiene pessoal das lojas de Curitiba. Cada Escritório
Estadual tem autonomia para escolher um fornecedor. A preferência é que sejam
empresas locais, para ajudar no emprego da região.
Acho sensacional esse tipo de incentivo que o Zander proporciona, mas
pelo o que estou percebendo, essa flexibilidade pode estar causando uma
abertura para fraudes.
O escritório de Curitiba está pagando 210% a menos em tolhas de papel do
que o escritório do Rio Grande do Sul. E os copos descartáveis e sabonetes
líquidos, a economia de Curitiba chega a ser de 620%.
Isso não deixa dúvida que estão superfaturando os preços, o descompasso
nos valores de uma filial para a outra, deixa bem claro o problema.
— Como todos esses preços absurdos nunca chamaram a atenção de vocês?
— Escuto Zander perguntar ao chefe do financeiro.
— Senhor, os produtos tiveram um aumento normal, não pareceu nada tão
absurdo.
— Não pareceu absurdo? — a pergunta do Zander é feita com o tom
incrédulo. — Você tem a coragem de me dizer que pagar seis vezes mais em um
copo descartável é normal? Tem certeza que possui um diploma de Economia?
Porque meu caro, eu duvido muito que uma pessoa que tenha se formado em
Economia ache natural esse tipo de aumento.
— Senhor Saramago, eu não consegui achar nada de anormal na época.
Essa empresa já trabalha conosco há bastante tempo, nunca tivemos problemas
com eles. — O homem tenta mais uma vez se justificar.
— Só pode ser piada. — Zander sorri.
— Os aumentos desta empresa estão sendo progressivos. Quando eles
começaram a prestar serviço para nós, realmente os preços eram ótimos se
comparado as outras filiais. Só que há dois anos, os aumentos estão sendo
constantes, com valores inicialmente pequenos, mas que acabaram tornando-se
bem abusivos.
Entro na conversa deles para mostrar o que já consegui descobrir. Os
superfaturamentos foram feitos de maneira dosada, para não chamar muita a
atenção.
— O que me diz disso? — Zander questiona o Gerente Financeiro. — É o
seu serviço fiscalizar esses tipos de aumentos.
— Claro que é senhor, talvez eu tenha sido um pouco relapso. — o homem
responde enquanto seca o suor da testa.
— Você foi relapso? Ou conivente? — o questionamento do Zander causa
um clima tenso na sala.
— Foi apenas um erro, senhor. — o infeliz responde com a voz incerta.
Escuto o suspiro profundo do Zander, ele está no limite com toda essa
situação. Além de não admitir gente incompetente ao seu redor, ele não suporta
fraudes. Saber que está sendo roubado é algo inadmissível para ele.
Sem dizer mais nada, ele estica a mão até o telefone e faz uma ligação. Seus
olhos encaram o Gerente Financeiro, sei que no fundo a vontade dele é pular no
pescoço do homem.
— Boa tarde, Salles. — A voz grossa dele retumba pela sala. — Quero uma
equipe sua ainda hoje no meu escritório de Porto Alegre, estou aqui e tenho um
problema imenso para resolver. Disponibilize uma equipe grande para fazer
aquele serviço que te falei. Os problemas aqui são piores do que imaginei.
Pelo nome que ele citou, está falando com o Diretor de uma empresa de
Auditoria local. Zander tem contatos de confiança ao longo do país.
— O.K., irei te esperar aqui.
Ele encerra a ligação e ergue-se, dá a volta na mesa e se aproximando do
Aloísio.
— Quero que mantenha a sua equipe financeira em alerta, hoje ninguém
tem hora para sair dessa porra de escritório.
— Vou fazer isso agora. — O homem levanta rápido e quase derruba a
cadeira. — Com licença.
Ele corre da sala e bate a porta. Por alguns segundos Zander fica parado
olhando na direção que ele saiu.
— Você acha que ele é o organizador desse superfaturamento? — pergunto
para quebrar o silêncio.
— Não sei, Sam, mas ele tá por dentro de tudo o que está acontecendo.
— A auditoria que você vai fazer mostrará quem está por trás disso.
— Certamente eles vão desvendar toda essa trama, mas vai levar tempo.
Não me entregarão o que quero rápido, vou ter que ser paciente. — Ele passa a
mão pelo rosto irritado. — Ao menos me darão o suficiente para iniciar um
processo com quem está me roubando.
— Tomara que sim.

Fecho os olhos e deixo a água cair sobre o meu corpo dolorido. Passar o dia
tensa sem sair do escritório não foi fácil. Hoje o trabalho foi estressante além do
normal. Aturar o Zander gritando o tempo todo é um exercício intenso para a
paciência de qualquer pessoa.
Graças a Deus a raiva dele não estava direcionada a mim, eu tive sorte de
ser a única pessoa que ele teve um pouco de paciência durante o dia.
Normalmente Zander é exigente e autoritário, mas hoje ele ultrapassou
todos os limites. Apesar de saber que toda a equipe financeira fez uma merda
grande ao abafar esses aumentos absurdos, tive pena deles com todas as crises
que Zander deu durante o dia.
Saio do banho e me seco tentando não imaginar o que acontece no quarto
ao lado. Quando fiz a reserva, procurei ficar ao máximo longe dele, só que o
infeliz fez questão de mudar tudo de última hora.
Ajeito o meu cabelo em um coque frouxo e sigo para o quarto, preciso
comer algo, estou morrendo de fome.
Começo examinar as opções de comida do hotel. Necessito de algo
consistente para matar a minha fome, não quero nada de comida luxuosa. Na
verdade, tudo o que eu queria era o arroz e feijão da minha mãe. Seria um sonho
poder comer a comidinha dela agora.
Quando estou quase decidindo o que comer, o telefone do meu quarto toca.
Pondero se devo atender, não sei se quero falar com Zander agora.
— Oi! — Atendo sem resistir a curiosidade de saber o que ele deseja.
— Já jantou?
— Estava escolhendo agora.
— Vamos jantar juntos, eu preciso distrair um pouco a cabeça ou vou ficar
louco.
— Eu não tenho disposição para descer até o restaurante, meus pés estão
me mantando. — Estalo os dedos dos pés e sinto aquela sensação de prazer e
dor.
— Também não tenho disposição para descer, mas podemos dividir a
refeição no seu quarto, ou no meu, se preferir.
Calor! Sinto o meu corpo esquentar mil graus com a possibilidade de tê-lo
no meu quarto. Cada vez que preciso ficar sozinha com esse homem, é um
exercício fervoroso para o meu psicológico.
— O que você vai querer comer? — pergunto tentando distrair os meus
pensamentos.
— O que pedir, não tenho preferência.
— Zander, eu não tenho intenção de pedir nada fino como sei que você
gosta. Preciso de comida verdadeira, bem calórica. — Ele sorri do outro lado.
— Não sei o que quer dizer com comida de verdade, mas gosto da parte
calórica. Pode pedir por mim e também peça uma garrafa de vinho, sem uma
dose de álcool não vou conseguir dormir.
— Tudo bem.
— Vou para o banho agora, assim que terminar bato na sua porta.
— Certo.
Encerro a ligação e fico incerta se fiz a coisa certa ao deixá-lo jantar
comigo. Ficar perto dele nunca é uma boa ideia, resistir a tentação é sempre
difícil.

— Humm, a sua suíte é de mocinha.


Zander fala quando sai do meu quarto e entra na pequena sala de estar da
suíte.
— Como assim de mocinha? — Tiro a atenção do celular e olho para ele.
— O painel atrás da sua cama é rosinha, o meu é verde. — Ele se senta na
minha frente.
Desvio o olhar da sua imagem sexy. Ele está com uma calça de moletom
cinza e uma camiseta branca marcando seu tórax definido. Seus pés à mostra em
um chinelo simples, completa seu visual despojado que, por incrível que pareça,
deixa esse infeliz ainda mais bonito.
— Não é rosa, é salmão.
— Que seja... — Ele dá de ombros fazendo pouco caso do que falei.
— Você está com inveja do meu quarto? Quer trocar? Juro que não conto
para ninguém que você quer um quarto de mocinha.
Zander aperta os olhos e faz uma cara engraçada. Eu não deveria provocá-
lo quando está tão agitado, só que infelizmente não tenho medo do perigo.
— Para quem diz estar tão cansada, a senhorita tá engraçadinha demais.
— É só para não perder a mania de implicar com você.
Volto a atenção para o celular e respondo a mensagem do meu irmão.
Apesar de ele passar o dia focado nos estudos, não deixamos de nos falar a noite.
Quando termino de responder, vejo uma mensagem do Morales me dizendo
que já sente saudades de mim. Ele é tão conquistador, sabe como agradar uma
mulher em cheio.
Repondo sua mensagem dizendo que em breve estarei de volta para
tomarmos alguns drinques. Ele diz que vai me cobrar, e me aconselha a exigir
cada segundo de hora extra que eu puder do Zander.
Sorrio do seu conselho e respondo que vou cobrar. Quando ergo os olhos,
flagro o Zander me encarando com uma expressão estranha que nunca vi em seu
rosto.
Fico quieta sem saber o que falar para quebrar a maneira intensa que me
observa. Algo no seu olhar me incomoda, é como se ele pudesse ler o que se
passa dentro de mim.
— O que foi? — pergunto quando fico incomodada com o seu olhar. — Por
que está me olhando assim?
— Só estava curioso para saber quem era a pessoa que te arrancou um
sorriso tão feliz.
A sua revelação me surpreende, não esperava esse tipo de suavidade vinda
dele. Normalmente ele só me reserva seus momentos de sarcasmo.
— Apenas meu irmão, nós nos falamos todos os dias.
— Como ele está com os estudos? Pronto para ser um médico?
— Tenho certeza que vai passar, ele é muito esforçado.
— Assim como a irmã. — A campainha toca e interrompe a nossa
conversa.
Zander vai atender o serviço de quarto, enquanto eu fico apenas observando
sua figura graciosa conversando com o rapaz que nos traz o jantar.
O dia que eu sair da empresa, juro que agarro esse homem e transo com ele
naquela mesa imensa do seu escritório. Não vou conseguir ter paz sem ter ao
menos experimentado todo esse material perfeito uma única vez.
— Com fome, senhorita Diniz?
Ele pergunta enquanto vai destampando as vasilhas com o nosso jantar.
— Faminta. — Minha resposta não é exatamente sobre o jantar.
— Sente-se, eu vou servi-la.
— Oi? Você vai o quê? — não consigo conter minha surpresa.
— Sei que ouviu bem o que falei.
Ele começa a distribuir nosso jantar calmamente, me fazendo sorrir com
essa sua atenção. Acho que os problemas nas faturas mexeram com a cabeça
dele.
— Tem certeza que está bem? — pergunto quando ele se senta para comer.
— Não estou bem, estou puto da vida, mas isso não me impede de ser
atencioso.
— É... realmente você não tá bem, nunca te vi atencioso.
— Vamos brigar ou comer? — Ele apoia os cotovelos sobre a mesa e cruza
as mãos me encarando.
— Parece apetitosa essa comida, os legumes estão lindos.
Não respondo a sua pergunta e começo a saborear a refeição. Ele se
concentra no próprio prato e passa os próximos minutos comendo em silêncio.
— Eu pensei que teríamos mais problemas para descobrir as fraudes, mas
tudo foi tão claro que estou achando estranho. — Ele volta a falar.
— Não temos certeza de nada, sequer sabemos quem pode estar por trás da
possível fraude.
— É o Marco, ele está apavorado com a nossa presença. — Zander diz com
convicção.
— Se eu fosse você não teria tanta certeza, ele pode apenas estar
encobrindo alguém.
— Será que ele seria tão idiota em proteger uma pessoa?
— Depende de quem seja. — Dou de ombros sem estar disposta a pensar
sobre o assunto.
Volto a me concentrar na comida e degusto com prazer o vinho. Até que a
ideia do Zander de pedir uma bebida foi boa, assim o meu corpo relaxa e se
desliga de toda a agitação do dia.
— Terminei com a Vanessa. — Zander solta essa bomba quando estou
engolindo a comida. — Ei, Sam, calma. — Ele fala quando começo a tossir e
bate nas minhas costas. — Você está bem?
— Estou. — Pego um pouco de água e bebo.
— Nossa... você me deu um susto, ficou tão vermelha que pensei que fosse
cuspir tudo sobre a mesa.
— Para de drama. — digo irritada. — Só engoli com pressa e entrou pelo
buraco errado. — Ele dá um sorriso sacana quando termino de falar. — O que
foi?
— Não é nada demais, apenas concordo que entrar sem querer no buraco
errado é doloroso. — Olho para ele sem entender nada do que está falando. O
Zander é estranho, mas quando fica falando em códigos, é mais ainda.
Assim que a minha ficha cai, me esforço para não enrubescer. Esse merda
conseguiu dar uma conotação sexual ao que falei.
— Quando terminou com a chatiane?
— Chatiane? — Ele ergue as sobrancelhas ao me questionar e fica tão
fofinho com esse ar confuso.
— É uma maneira de chamar uma sebosa como ela de chata e entediante.
— Ah, sim.
— Você não respondeu a minha pergunta.
— Antes de viajar, ela meio que pirou quando soube que eu viria com você.
— Essa revelação me deixa extremamente curiosa. — Então eu adiantei o que
faria quando retornasse. A Vanessa já estava com o prazo de validade vencido na
minha vida.
— “Prazo de validade vencido”? — Repito a sua frase achando nojenta a
maneira como ele fala da mulher que há pouco tempo frequentava sua cama. —
Por que você é tão escroto?
— O que eu fiz? Não falei nada demais.
— Zander, você é um merda, e não faz essa cara. — Interrompo o seu
protesto. — Muito menos tente dizer que pode me demitir, não estamos na hora
de serviço, posso dizer o quanto é um babaca.
— Sou um babaca mesmo. — Ele se levanta irritado. — Eu terminei com
ela porque a Vanessa te chamou de vadia. — Agora o miserável me pegou pelo
pé. — Não admito que ninguém te chame assim, principalmente porque sei que
você não é uma vadia.
Droga! Depois dessa não posso brigar com ele.
— Se é assim, fez bem, esquece o que falei.
— Você me ofendeu. — ele diz dramático.
— Não foi ofensa, apenas fui desagradável.
— Foi ofensa, não sou um merda.
— Em alguns momentos é, mas vamos mudar de assunto? Que horas quer
sair amanhã? Eu estou exausta, vou precisar de uns três alarmes para conseguir
levantar.
— Não quero mudar de assunto.
— Vai querer brigar mesmo? Estamos mortos, podemos deixar isso para
outra hora.
— Você não vai escapar dessa facilmente, mas tudo bem, vamos deixar para
quando estivermos indo embora da cidade. — Respiro aliviada por ele não
começar a discutir. — Se você estiver muito cansada pode ir mais tarde. Eu
marquei às oito com o Gerente da Empresa de Auditoria.
— Claro que vou com você, sou a sua secretária.
— Nesse primeiro momento não precisa estar presente, posso dar conta
sozinho. — Fico afetada pelo carinho dele.
— Faço questão de estar com você.
Observo o peito dele se expandir quando acabo de falar e os seus olhos
ganham um tom escuro.
— Certo. — Ele solta um pigarro e coloca as mãos nos bolsos da calça. —
Você quer que eu ligue para o serviço de quarto pegar o resto do jantar?
— Não precisa, eu mesma ligo. — Fico triste por ele já queira ir. — Você já
vai?
— Vou, preciso dormir.
— Então até amanhã. — Eu o acompanho até a porta. — Se por ventura eu
me atrasar me chama. — Ele dá um sorriso tímido.
— Não vou te chamar. — Para a minha surpresa ele beija a minha
bochecha, me fazendo ficar louca com o seu cheiro intenso. — Durma bem,
Sam.
Ele sorri e segue para o próprio quarto me deixando em chamas. Agora
tenho certeza que não vou ter uma noite boa de sono. Será impossível dormir
com esse cheiro me enlouquecendo.


Zander

Experimento um pouco de café que Samantha trouxe e aprovo o gosto.
Diferentemente do meu escritório, eles estão mais evoluídos e possuem uma
máquina de expresso. Espero que quando eu retornar da viagem, a copa já esteja
pronta.
Estou me sentindo um lixo. Passei a noite em claro imaginando como seria
ter a minha secretária sob os meus lençóis. Depois de ela declarar tão
fervorosamente que queria estar comigo hoje cedo, eu senti um desejo primitivo
me dominar.
Foi um verdadeiro inferno sair do seu quarto sem reivindicá-la como minha.
Cada dia que passa, essa mulher ocupa mais espaço na minha mente. Não sei
mais o que faço para conseguir esfriar o tesão que ela me provoca.
— Com essa equipe de auditoria na empresa não teremos muito que fazer.
— Samantha diz entediada.
— Iremos acompanhar de perto todos os passos deles.
— Você quer que eu faça algo em especial?
Quero que você tire a roupa, desfile na minha frente apenas de salto e
depois sente esse traseiro redondo no meu colo.
Esse pensamento insano passa rapidamente pela minha cabeça. Se eu
pudesse tê-la, certamente estaria mais animado para enfrentar todos os
problemas.
— Quero que me contenha ou eu mato um hoje. — Ouço a risada dela.
— Para evitar que você mate alguém é mais caro.
— Está me cobrando taxa extra?
— Eu mereço.
Antes que eu possa respondê-la, a porta do escritório se abre e o Marco
aparece.
— Posso conversar em particular com você por um minuto, senhor?
A expressão dele é tensa, algo certamente está acontecendo. Espero que ele
não venha com mais uma das suas desculpas esfarrapadas.
— A senhorita Diniz está aqui como minha assistente, ela sabe de
absolutamente tudo o que acontece. Não vejo nada do que possa me falar que ela
não possa ouvir.
Vejo Sam me olhar surpresa, acho que a peguei de jeito com a minha
resposta ao Marco.
— Eu sei que Samantha é sua assistente, chefe, mas eu me sentiria mais a
vontade com uma conversa privada.
— Não me importo de sair. — Sam começa a levantar da cadeira, mas a
paraliso com um gesto de mão.
— Fique, se o Marco realmente quer falar, terá que fazer isso na sua frente.
Aguardo a posição do meu Gerente, ele não está em condições de exigir
nada. Até porque, quem manda nesta droga de empresa sou eu.
— Os auditores vão encontrar um esquema de superfaturamento. — Marco
fala enquanto esfrega a testa. — Eu tentei resolver tudo antes que a bomba
estourasse, mas descobri justamente quando o Gaspar começou a desconfiar dos
pagamentos. Juro que não tenho envolvimento com nada, porém... — Ele para
de falar e começa a andar de um lado para o outro na sala.
— Porém? — eu o questiono curioso para saber que merda está
acontecendo.
— Droga! — Ele xinga e olha para o alto enquanto solta um suspiro. — O
meu genro está no meio dessa merda, não sei o que deu nele para entrar nessa
furada. Eu estava tentando fazê-lo entregar os donos do esquema e devolver todo
o dinheiro que ganhou, mas ele estava iludido achando que você nunca
descobriria.
Olho para Sam incrédulo com tudo o que acabei de ouvir. Pelo jeito tenho
um grande esquema de superfaturamento dentro da minha empresa. Cabeças vão
rolar muito em breve.
— Por que mentiu desde que chegamos aqui?
— Não menti, apenas estava tentando devolver seu dinheiro sem que tudo
saísse do controle.
— Eu vou mandar prender o filho da puta do seu genro junto de quem mais
estiver dentro dessa fraude.
— Juro que ele vai devolver o que roubou.
— Foda-se se vai me devolver, ele é ladrão, e lugar de ladrão é na cadeia.
— Calma, Zander. — Sam se levanta e olha para o Marco. — Você não
podia resolver isso sozinho, era sua obrigação nos contar o que estava
acontecendo.
— Eu sei, Samantha, mas tive medo de o mandarem para a cadeia.
— Você só piorou tudo, Marco. Agora temos uma auditoria aqui e o senhor
Saramago está fora de controle. Nós dois sabemos que não podemos controlar a
ira dele depois de tudo o que aconteceu.
O desespero no olhar do Marco quase me comove. Só que estou
acostumado com cenas tristes de funcionários incompetentes para permitir que
eu sinta pena dele.
— Marco, vai beber uma água e se acalmar um pouco, vamos esperar a
auditoria acabar para saber os passos que vamos precisar tomar. — Sam diz com
voz compassiva.
— O próximo passo será chamar a polícia. — digo me inclinando para o
lado na cadeira tentando ver bem o Marco.
— Por favor, pare. — Samantha me recrimina. — Tente se acalmar. Marco,
vou conversar com você daqui a pouco. — Ela bate delicadamente a mão no
ombro dele e o acompanha até a porta.
— Você vai colocá-lo no colo e consolá-lo por ser um filho da puta ladrão?
Porque pelo seu tom doce, estou vendo que ficou com peninha do cretino.
Ela vira-se e estreita os olhos achando que vai me amedrontar, mas do jeito
que estou agora, possesso de raiva, nem ela, nem ninguém me causa medo.
— Você não conseguiu ver o quanto ele estava desesperado?
— Foda-se se ele estava desesperado, ele não foi o furtado, quem deveria
estar nervosinho era eu.
— Meu Deus, é inacreditável a sua falta de sensibilidade. — Ela levanta as
mãos indicando frustração pela nossa discussão. — O genro dele está metido
nessa loucura toda, o Marco sabe que ele pode ir para a cadeia. Se você não
sabe, a filha dele tem dois filhos. Já imaginou essas crianças com o pai preso?
— O número de crianças com pais presidiários é imenso, eu não tenho
culpa se os ladrões não pensam nos filhos antes de roubar trabalhadores.
— Desisto de conversar com você. — Ela sai do escritório batendo a porta
e me deixando ainda mais furioso.
CAPÍTULO 16

Samantha

Estou completamente estressada com essa auditoria e mais ainda com o
mau humor do Zander. Ontem à noite, eu me tranquei no quarto e ignorei todos
os seus telefonemas e mensagens. Impossível dividir uma refeição com ele
quando desejo o matar.
Hoje pela manhã, ele apenas me deu bom-dia e não disse mais nenhuma
palavra até chegar ao escritório. Depois de gritar meia dúzia de ordens aos
funcionários e para a equipe de auditoria, me passou uma lista de empresas e
pediu que eu entrasse em contato para agendar outras auditorias nas filiais
regionais.
Agora o bonito está desconfiando da própria sombra. Tudo é motivo para
ele fazer inúmeras perguntas. Se já era insuportável antes, piorou 100% depois
dessa confusão.
Não nego que estou com raiva dele, mas é tão ruim ficar sem conversar
com esse cretino. Estou sentindo falta dele gritando o meu nome a cada segundo.
— Senhorita Diniz, onde está? — Coloco uma mão no coração quando
escuto sua voz. Ele parece saber quando estou pensando nele.
— O que foi?
— Venha aqui. — Ele volta para a sala e deixa a porta aberta.
Respiro fundo e caminho para o escritório pedindo a Deus que me dê
paciência com o humor dele.
— O que foi, senhor Saramago? — Já que nós iniciamos essa guerra fria, eu
vou me manter distante.
— Quero as cópias dos relatórios da central de Florianópolis e de Curitiba.
— Já verifiquei isso, está tudo certo por lá.
— Está com problema auditivo? — Ele inclina a cabeça e me irrita.
— Estou ouvindo bem demais.
— Não parece.
Zander é tão imbecil quanto um moleque de 11 anos, quando decide ser
implicante, é ridiculamente infantil.
— Mais alguma coisa?
— Quero que alugue um carro para mim, estou estressado por ter que andar
com gente que não sabe dirigir.
— Vai gastar dinheiro com aluguel podendo pagar uma quantia irrisória por
um Uber?
— O que foi agora? Virou a minha esposa para controlar minhas finanças?
Está com medo de não sobrar dinheiro para o financiamento do apartamento ou a
mensalidade das crianças?
Ele é um babaca, consegue ser estúpido em momentos inoportunos. Sua
ironia é patética.
— Não virei a sua esposa porque não teria o péssimo gosto de perder a
minha vida com alguém como você. Gaste seu dinheiro como quiser. Desde que
pague meu salário e as minhas horas extras, não me importo com nada.
— Virou uma boa mercenária.
— Eu poderia te dar uma boa resposta, mas não vou te dar esse prazer. —
Só para provocá-lo ajeito meus óculos e me viro saindo rebolando sem fechar a
porta.
Ele ama olhar a minha bunda, então vou deixá-lo de pau duro só de raiva.
Que homem miserável, parece que sente tesão em me provocar.
Passo o resto da tarde checando cuidadosamente os pagamentos de outras
lojas para tentar achar qualquer indício de superfaturamento, mas graças a Deus
até onde investigo tudo está bem.
Quando está perto do expediente acabar, um dos auditores passa na minha
sala e puxa assunto. Ele é uma graça, deve ter no máximo trinta anos. Seus olhos
possuem um tom de mel charmoso, o cabelo é bem curtinho e o sua boca
volumosa chama a atenção.
Definitivamente é um homem que eu olharia mais de uma vez na noite.
Uma pena que estamos trabalhando jutos, a minha política pessoal não me
permite ter um envolvimento sexual com um colega de trabalho, ainda que ele
não seja, de fato, um colega diário.
— O que vai fazer hoje depois que sair daqui?
— Vou para o hotel, ando exausta. — Ele sorri e mostra covinhas lindas.
— Nossa equipe vai tomar umas bebidas para relaxar um pouco, está tenso
fazer todo esse trabalho em pouco tempo. Por que não vem conosco? Seria um
prazer poder conversar com você sem ter o grande leão no seu encalço.
— Leão?
— Chamamos seu chefe por esse apelido carinhoso. — Ele dá de ombros
sorrindo. — Ele vive rugindo ordens a cada segundo.
Não me contenho e começo a sorrir do apelido do Zander. O infeliz
realmente consegue ser um leão raivoso, não pensa duas vezes antes de abater a
sua presa.
Esse pensamento me esquenta e começo a pensar nele me caçando. Estou
precisando de uma bebida e, quem sabe, um sexo sem compromisso com algum
gaúcho gostosão.
— Vou agilizar o meu trabalho para poder ir com vocês.
— É isso aí Sam, quando nós estivermos indo eu te aviso.
— Combinado.
Ele sai da sala sorrindo todo animadinho. Coitado, acho que ele está com
esperanças que vá rolar algo entre nós. Confesso que não posso descartar a ideia,
mas a princípio ele está fora do jogo, prefiro arrumar um paquera no bar.

— Zander, estou indo embora.


Ele ergue os olhos e franze as sobrancelhas quando me vê parada na porta.
— Só preciso de dez minutos para terminar de ler e assinar uns
documentos. Pegue um café e sente-se um pouco enquanto me espera.
Coitadinho, está achando que vamos embora juntos, nem quero imaginar o
que ele vai falar quando descobrir que estou indo embora sem ele.
— Leve o tempo que precisar, não vou para o hotel agora. — Dou de
ombros minimizando o que falei. — Amanhã nos falamos. — Seguro a vontade
de sorri com a cara de espanto dele.
— Como assim não vai para o hotel? Aonde você vai?
— Vou relaxar um pouco, estou precisando. — Ajeito a bolsa no ombro e
balanço os dedos para ele me despedindo. — Tchau, chefe.
— Samantha, volte aqui, quero saber aonde vai.
Escuto-o me chamar, mas corro em direção ao elevador. Nem morta vou
dizer para onde estou indo, não quero esse imbecil atrás de mim.
Sorrio quando vejo as portas do elevador fecharem, acho que deixei o
chefinho nervoso. Ele vai se roer de curiosidade para saber onde fui.
Saio do elevador satisfeita em saber que, neste momento, ele deve estar
espumando de raiva. Como é bom irritá-lo, adoro vê-lo nervoso, me causa um
prazer indescritível.
Encontro o Robson no hall de entrada do prédio me esperando, ele sorri
quando me aproximo, demonstrando toda a expectativa com o nosso fim de
expediente.
— Vamos?
— Claro, Sam. — Quando ele termina de falar o meu apelido, fica sem
graça. — Posso de chamar de Sam, né?
— Não só pode, como deve.
— Então vamos relaxar um pouco, Sam. — Ele apoia a mão abaixo da
minha cintura enquanto caminhamos para a saída.
Infelizmente não sinto o frisson que Zander me causa. Apenas me sinto
confortável ao lado do Robson, como se fossemos bons amigos. Não rolou nada
sexual, nenhuma vontade de fazer charminho para ele.
Acho que passar tanto tempo com meu chefe gostoso está me fazendo mal.
Talvez no bar eu encontre alguém mais interessante, porque já entendi que com o
Robson é só amizade.

— Meu sonho é um dia conhecer o Rio. Quero muito tirar foto de braços
abertos no Cristo Redentor. — Uma das meninas da mesa fala para mim.
— Realmente a cidade do Rio tem lugares incríveis, uma pena que não
possamos andar com tranquilidade. — Experimento meu drinque enquanto
penso na minha cidade.
Estou com saudades de casa, queria muito poder dormir na minha cama na
companhia de Nap.
— Se formos justos, não podemos andar em lugar nenhum, está difícil viver
no nosso país. — Todos nós concordamos com o que Robson fala, realmente está
difícil encontrar um lugar tranquilo.
O nosso papo muda e acabo me divertindo com as histórias da turma. Eles
são animados e tem um sotaque sensacional, acho linda a maneira melódica que
eles falam. Se eu ficar mais uma semana nesta cidade, volto para o Rio me
achando uma verdadeira gaúcha.
— Sam, aquele é o seu chefe?
Volto a minha atenção para a porta do bar e vejo o Zander entrando com as
sobrancelhas juntas enquanto vasculha o lugar. Ele está com o Diretor da
Empresa de Auditoria, mas pela falta de interesse dele no que o homem está
falando, veio até aqui apenas para me infernizar.
— É o próprio. — afirmo desanimada, no exato momento que ele me
enxerga.
— Quem falou para o Sandro que viríamos para este bar? — Robson
questiona aos amigos.
— Foi mal, gente, ele me ouviu convidando um paquera para me encontrar
aqui, só que nunca imaginei que nosso chefe viria com o Leão. — a pobre
menina fala pesarosa e me faz sorrir com o apelido do Zander.
Se ele descobrir que ganhou um apelido irônico, vai rugir de verdade.
— Fiquem tranquilos, ele só vai me perturbar. — Termino meu drinque. —
Zander deve estar puto da vida por eu não o ter convidado.
— Como você aguenta trabalhar com ele? Sempre que o vejo, ele está
resmungando algo. — a pequena Soraia me pergunta.
Quando digo pequena, é porque ela é pequena mesmo, deve medir no
máximo um metro e cinquenta. Parece uma bonequinha de tão fofa que é.
— Ele paga um salário fenomenal, sem contar as horas extras. Pelo valor
que recebo, finjo que ele tem problema mental e apenas ignoro seus gritos. —
Pisco para ela e sorrio com falsidade quando meu amado chefe se aproxima. —
Nossa... senhor Saramago, que coincidência o ver por aqui.
Ele aperta os olhos demonstrando sua irritação com a minha ironia. Ambos
sabemos que não existe nenhuma coincidência, o abusado veio atentar o meu
juízo.
— Pois é, parece que este é um bar bem indicado para um happy hour.
— O lugar é ótimo, e os preços das bebidas excelentes. — Faço sinal para o
garçom me trazer outra bebida.
— Vamos juntar as mesas. — O chefe do grupo da autoria faz essa sugestão
para que todos fiquem juntos.
Sem nenhuma vergonha, Zander faz Soraia trocar de lugar e se senta ao
meu lado. Ele é tão inconveniente que chega a ser engraçado. Em certos
momentos acho que esse homem realmente tem um interesse por mim, mas na
maior parte do tempo, acredito que é apenas prazer em implicar comigo.
— Por que não me disse que viria para um bar?
— Porque não queria você me perturbando.
— Eu te perturbo? — ele me questiona com cara de inocente.
— O que você tem de bonito, tem de insuportável. — Como já estou indo
para meu terceiro drinque, não seguro a minha língua.
— Sou bonito? — O sorriso envaidecido dele é irritante.
— Você tem espelho em casa, querido. — Passo o indicador por baixo do
queixo dele só para fazer charme.
Esse simples gesto é o suficiente para calar o arrogante. Ele pede um uísque
duplo quando o garçom traz o meu drinque e passa a me ignorar.
Será que não gostou de ser chamado de bonito? Vai saber, ele não bate bem.
Só para não perder o costume de irritar o chefe, passo a dar atenção extra ao
Robson, tenho certeza que ele vai odiar me observar sendo agradável com outro
homem.
Nos próximos quarenta minutos, nós nos ignoramos com sucesso, mas
quando ele ouve o Robson se oferecer para me acompanhar até o hotel, entra na
minha conversa.
— A senhorita Diniz vai embora comigo.
— Quem falou isso? — questiono com irritação.
— Eu estou falando.
É impressionante como ele acha que pode me controlar como faz com as
suas piriguetes. Zander finge não perceber que sou uma tempestade
completamente fora de controle.
— Baby, aqui você não manda em mim, lamento te decepcionar.
— Mando quando você está bêbada.
— Não estou bêbada.
— Claro que não, só está rindo como uma hiena.
— Vai se...
— Samantha! — ele interrompe o que eu ia falar. — Não vou admitir
desaforo.
Resmungo furiosa por ele se intrometer no meu lazer, esse homem me deixa
frustrada em vários níveis.
Como não desejo provocar uma cena, levanto-me e sigo para o banheiro.
Preciso de um pouco de espaço, ou então perco a linha com esse maldito.
Essa nossa relação está cada dia mais estranha, não estamos nos
comportando com o profissionalismo, que deveria ser uma regra rígida entre nós.
Talvez esse seja o aviso para encontrar um novo rumo quando retornarmos para
o Rio.
Não nego que gosto de trabalhar com ele e ter essa liberdade de implicar e
falar desaforos quando sou provocada, mas não posso fechar os olhos para o
sentimento crescente que ando nutrindo pelo meu chefe.
Meu coração já foi castigado demais, não posso arriscar outra vez. O grande
senhor Saramago é mais que um risco, com muito pouco esforço ele pode
destroçar os meus sentimentos.
— Vamos embora. — Coloco a mão sobre o peito com o susto que ele me
dá quando saio do banheiro.
— Se quer me matar afunda logo uma faca no meu coração.
— Para de drama, odeio bêbado dramático.
— Já disse que não estou bêbada. — Desvio da sua mão que tenta segurar
meu braço.
Na verdade, estou um pouco alegre, mas não vou assumir isso nem sob
tortura.
— Então essa voz arrastada é uma tentativa de imitar o sotaque gaúcho? —
O sorriso debochado dele me irrita.
— Gosto do sotaque daqui e gosto muito mais dos gaúchos, tanto que vou
levar o Robson para o meu quarto hoje, quero ver do que ele é capaz.
Vejo um brilho intenso de raiva passar pelos olhos dele antes de sentir sua
mão se apossar possessivamente na minha cintura.
— Se ele ousar entrar no seu quarto, amanhã estará na rua. Um homem de
verdade jamais deve se aproveitar de uma dama quando ela não está no seu juízo
perfeito.
— Nossa você é um cavalheiro. — Sorrio alto demais até para os meus
ouvidos embriagados. — Se eu não soubesse que troca de namorada como troca
de roupa, até pensaria em te levar para o meu quarto.
Acho que estou muito bêbada, porque juro que ouvi um rosnado escapar do
Zander.
— Para onde está me levando? — pergunto quando ele segura a minha mão
e começa a me puxar pelo corredor.
— Embora. Por hoje sua noite de bebedeira acabou.
— Claro que não acabou. Sequer me despedi do pessoal. — Tento me
desprender dele e tropeço nos meus saltos.
Ele me segura com força e atrai o meu corpo junto ao seu.
— Eu me despedi por você.
— Você não tem autoridade para isso, está agindo como se fosse meu
namorado. — digo enquanto observo seus olhos que, normalmente são azuis,
ficarem praticamente negros de raiva.
— Sou mais que um namorado, sou o seu amigo. — Ele aproxima o rosto
do meu. — E como amigo é meu dever perceber que a noite acabou para você.
Encaro o seu rosto admirando sua boca tão perto e sinto um reboliço
intenso dentro de mim. Ele é tão lindo, tão sensual, uma pena que não possa ser
meu.
— Quero vomitar, mas só vou fazer isso no banheiro do meu quarto, me
leva daqui.
Sem mais comentários ele firma o braço ao meu redor e me apoia para
sairmos do bar. Quando ele chama o táxi e me acomoda dentro do veículo ao seu
lado, encosto a cabeça em seu ombro e fecho os olhos com força controlando a
respiração para evitar o vomito.
Dessa vez não estou fingindo uma embriaguez, eu estou é fodida mesmo. A
minha mente está rodando e tudo o que eu desejo é um banho gelado para tentar
aplacar o mal-estar que me consome.


Zander

— Já terminou?
Tento disfarçar a irritação na minha voz, não quero que ela tenha outra crise
de choro.
Sam passou vinte minutos vomitando e chorando. Ela disse algumas coisas
sem sentindo, mas pude perceber que tem algo acontecendo com ela.
Não sei quem foi o babaca que a magoou, mas ela disse tantas vezes que o
odiava, que se eu encontrasse o bastardo acabava com a raça dele.
— Terminei, mas estou tonta.
— Se enrole na toalha, eu te levo para cama. — Abro uma parte do box e
estico a tolha.
Não quero arriscar vê-la nua, não mereço esse tipo de tortura. Já basta essa
sombra tentadora do seu corpo que não consigo parar de olhar. E também não
quero que amanhã ela me acuse de aproveitar do seu momento de
vulnerabilidade. Conheço-a bem, sei como funciona sua cabeça destrambelhada.
Ela apoia a mão na porta do box e surge na minha frente segurando a
toalha.
Meu Deus, até embriagada é linda!
— Segura a porra dessa toalha, vou te pegar. — Ela sorri.
— Vai me pegar?
— Para de brincadeira. — Passo a mão por baixo das suas pernas e a
suspendo sem dificuldades. — Amanhã teremos uma conversa. — O cheiro dela
me envolve e preciso conter a vontade de afundar o rosto no seu pescoço.
— Não quero conversar.
— Você não terá escolha.
Deito seu corpo suavemente na cama e jogo imediatamente o lençol por
cima. A toalha subiu indecentemente, não é justo ver tanta pele macia sem poder
tocar.
— Precisa de mais alguma coisa?
— Preciso de você dormindo comigo. — ela fala sorrindo e se aconchega
no travesseiro.
Não repondo nada, apenas observo seus olhos fechando enquanto
rapidamente cai no sono.
Samantha é meu grande tormento desde que surgiu no meu caminho. Ela
me confunde e me excita na mesma proporção. Nunca me senti tão fascinado por
uma mulher como me sinto por ela. Talvez seja por isso que tenho tanto medo de
me aproximar.
Sem resistir enrolo uma mecha do seu cabelo no dedo e brinco com os fios
sedosos. Ela é tão linda e vibrante. Sempre sorrindo e com uma resposta
desaforada na ponta da língua. Samantha é autêntica, nada nela é forçado.
Pego a sua mão e levo até os lábios, vou beijando os nós dos seus dedos
bem devagar, deixando a minha mente viajar em um mundo alternativo onde
posso me deitar ao seu lado e sentir o seu calor.
Passo um tempo considerável segurando sua mão velando o seu sono, até
que me dou por vencido e sigo para o meu quarto. Entretanto, por garantia, levo
o cartão chave dela. Se por acaso ela precisar de mim antes de amanhecer,
consigo entrar com rapidez.
Só por precaução peço que entreguem no meu quarto um analgésico.
Amanhã ela vai acordar com a cabeça estourando. Se não tomar um remédio
sequer vai conseguir abrir os olhos.
Quando finalmente me deito na cama, encaro o teto com a mente focada em
Sam. Ela está acabando comigo, cada dia está mais difícil resistir ao desejo que
sinto por ela.
Infelizmente terei que dispensar os seus serviços quando chegar ao Rio, não
posso mais sofrer cada vez que a encontro. Vou encaminhá-la para alguma filial
como Diretora de Departamento. Sei que rapidamente ela vai conseguir as
promoções necessárias para ser uma das minhas principais executivas.
Sentirei falta das nossas brigas, mas será melhor para nós dois. Não quero
magoar Sam, ela é especial, merece alguém que tenha tempo para se dedicar a
um relacionamento. A minha vida é corrida demais, ainda não posso me dar ao
luxo de pensar no meu coração.
Por enquanto, tenho que ser uma máquina de trabalho, só assim conseguirei
alcançar meus objetivos. Um dia, quem sabe, eu consiga ter um pouco de paz.
Com esse pensamento sobre um futuro de trabalho e realização, deixo meu
corpo relaxar e acabo dormindo.
CAPÍTULO 17

Zander

— Não aguento abrir os olhos. — Sam geme enquanto tenta abrir as
pálpebras.
— Por isso tem que tomar o remédio. — Seguro sua mão e coloco o
comprido sobre ela. — Isso vai te ajudar a melhorar.
— Estou tão enjoada que não sei se consigo tomar isso.
— Samantha, para de drama, toma logo essa porra.
— Não sou obrigada a tomar porra pela manhã. — Ela sorri da sua tentativa
de piada, mas particularmente não acho a mínima graça.
— Se era pra ser engraçado falhou miseravelmente, senhorita Diniz. —
Estendo o copo com a cara amarrada e tento controlar a animação do meu grande
amigo.
Ele adorou a imagem dela nua, com a boca aberta, enquanto recebe um jato
quente de porra.
Que merda! Essa maldita fodeu com a minha manhã.
— Nossa... você está tão ranzinza que nem parece que sou eu a pessoa de
ressaca.
Para evitar constrangimento, me afasto dela e vou para a pequena mesa
onde está o café da manhã. Se eu ficar olhando para aquele rosto perfeito, vou
acabar fazendo uma besteira.
— Zander, você tirou a minha roupa? — Sua voz está um pouco histérica, o
que me faz parabenizar internamente por não ter dado banho nela.
— Não tirei a sua roupa, você tomou banho sozinha e eu apenas te
entreguei a toalha. — Ela fica alguns segundos calada.
— Você me viu tomar banho?
— Não, fiquei esperando você do lado de fora e apenas te peguei para
trazer para a cama. A senhorita estava tonta e sequer conseguia andar.
— Hummm.
Ouço-a resmungar e depois o quarto fica em silêncio. Espero que ela não
comece a pensar besteira, Samantha tem a tendência de ter pensamentos loucos.
— Então você não abusou de mim? — Levo um susto quando escuto a voz
dela bem perto.
— Você acha que eu me prestaria ao papel de abusar de você bêbada? Por
favor, Samantha, gosto das minhas mulheres bem sóbrias para que possam
lembrar como sou incrível na cama. — Ela revira os olhos com a minha
autoestima exagerada.
— Não tem vergonha de se achar tanto? Duvido que você seja esse
fenômeno na cama.
— Se você fizesse meu tipo, eu te mostraria meu talento.
— Estúpido. — Ela tem a audácia de tacar uma uva em mim.
— Pelo jeito já está melhor. — Pego a água de coco que pedi especialmente
para ela e coloco na sua frente. — Beba, vai te fazer bem.
Espero a sua recusa, mas surpreendente ela bebe sem contestar. Até que ela
fica fofinha quando está no seu modo obediente.
— Que horas são?
— Já passa de nove e meia. — Samantha se engasga quando ouve a minha
resposta.
— O quê? Está falando sério?
— Por que iria mentir sobre a hora? — Abro o jornal e começo a ler.
— Zander, nós deveríamos estar na empresa.
— Vamos mais tarde, assim que você estiver recuperada. — Ela fica quieta,
o que me faz erguer os olhos para ver o que está acontecendo. — O que foi? Por
que está me olhando assim?
A maneira estranha que ela me observa é incômoda, sinto que está me
julgando por algo que fiz. Não gosto desta sensação. Não estou acostumado a ser
julgado por ninguém.
— Não é nada, só estou tentando entender porque está sendo tão cavalheiro
comigo. O certo seria você ter me acordado cedo e me passado um sermão por
beber demais durante a semana.
Relaxo ao ouvir o que ela falou, ela está apenas surpresa com a minha
atitude. Se soubesse o quanto quero protegê-la de qualquer mal, entenderia o
cuidado que tenho com seu bem-estar.
— Meu anjo, você está sob a minha proteção nesta viagem, é minha
obrigação te manter segura. — Os olhos dela brilham com a minha resposta,
acho que agradei a senhorita Diniz.
— Às vezes você é tão fofo. — Bufo com a sua resposta e decido voltar a
ser um tirano.
— Não pense muito bem de mim, estou aqui cuidando de você, mas já
anotei as horas que não trabalhou. Depois desconto do seu salário. — Bebo um
pouco de suco para evitar sorrir da sua cara de fúria.
— Que a sua mãe não me ouça, mas você é um filho da puta sem coração.
— Ela se levanta rapidamente. — Ai. — Ouço seu resmungo quando coloca a
mão na cabeça.
— Pare de ser temperamental, vá deitar um pouco, iremos para o trabalho
depois do almoço. Tenho um encontro no restaurante do hotel com um
investidor, assim que eu acabar de conversar com ele, vamos para o escritório.
Acredito que será o tempo necessário para você se recuperar. Agora vá se deitar.
Ela prende os lábios em uma linha fina e vai na direção do quarto. Se eu
pudesse me juntaria a ela naquela cama imensa, mas a vida não é justa, não
podemos ter tudo o que queremos.

Escuto com atenção os comentários do Diretor da Empresa de Auditoria.


Ele conseguiu em poucos dias um resultado fantástico, gostei muito do
profissionalismo de toda sua equipe. Eles irão centralizar as investigações de
todas as contas dos escritórios centrais da região Sul.
Quero acompanhar profundamente o que anda acontecendo nas contas das
minhas filiais. O problema na central do Rio Grande serviu de exemplo para que
a minha equipe pessoal de finanças fique atenta as demais lojas de cada estado.
Ocorreu um crime por aqui e já acionei o meu corpo jurídico para tomar as
medidas necessárias contra todos os envolvidos. Inclusive, já demiti o Diretor do
setor Financeiro, juntamente com boa parte da sua equipe, ele deveria ter sido o
primeiro a perceber que uma fraude estava acontecendo.
— Até semana que vem já teremos os relatórios prontos para te passar com
todos os detalhes. Depois iremos averiguar com mais detalhes as outras
empresas que prestam serviço para você.
— Excelente, estou feliz com o seu trabalho, Sandro.
— Obrigado, senhor Saramago. — ele me responde feliz.
Viro a minha atenção para o Marco e vejo como o homem se acabou em
quase uma semana.
Confesso que minha vontade era demiti-lo imediatamente, mas deixei Sam
me contaminar com toda sua conversa mole de que ele apenas tentou ajeitar a
situação antes que descobríssemos a verdade.
Parece que ele foi literalmente chorar sua desgraça para ela e acabou a
convencendo de que não teve culpa de nada. Sam veio interceder por ele, mas a
princípio não dei ouvidos. Só que não posso fechar os olhos para a desgraça do
homem. Marco está um lixo, não posso negar que ele está arrasado com tudo o
que está acontecendo.
— Marco, nenhuma notícia do seu genro? — Ele afrouxa a gravata,
claramente constrangido.
— Ele sumiu, minha filha está desesperada.
— Calma, Marco, vai dar tudo certo. — Samantha passa a mão no ombro
dele para consolá-lo.
— Marco, eu posso até acreditar que você não teve má intenção nesta
história, até porque, não encontramos absolutamente nada sobre você. Só que
infelizmente eu não vou poupar o seu genro, ele sabia dos superfaturamentos e
maquiou os preços para que ninguém descobrisse de imediato o que estava
acontecendo.
— Eu entendo, senhor, está certo, ele errou e mentiu para todos.
— Ele é um criminoso e vai pagar por me roubar. Já tomei as medidas
cabíveis na polícia e agora ele se acertará na justiça.
— Compreendo, senhor. — Ele abaixa os olhos e suspira profundamente.
— Quero agradecer por ter me dado a oportunidade de fazer parte da empresa,
eu aprendi muito aqui.
Samantha busca o meu olhar implorando que eu o perdoe. Ontem, apesar de
estar com uma ressaca terrível, ela passou a tarde toda tentando me convencer a
não o demitir.
Hoje tivemos uma discussão acalorada antes de sairmos do hotel porque ela
não parava de me pedir uma segunda chance para o babaca. Certamente ela está
achando que tenho coração mole, só que eu não tenho, o meu único problema é
ser incapaz de dizer “não” para essa mulher.
— Marco, vamos esperar até semana que vem para ver como fica a sua
situação. Não vou embora até ter uma posição da equipe jurídica, até lá muita
coisa pode acontecer. Ainda assim, você está afastado de todos os seus afazeres
aqui.
Ele solta uma respiração de alívio. Pela primeira vez, desde que chegamos
aqui, vejo-o sorrindo.
— Tudo bem, senhor Saramago, muito obrigado.
— Não agradeça muito, ainda não sei qual o seu futuro por aqui.
— Bem... — Sam entra na conversa. — Acho que acabamos por hoje,
senhores, foi uma semana intensa e está na hora de descansarmos.
— Claro que sim. — Sandro é o primeiro a se levantar. — A minha equipe
vai para o mesmo bar que nos encontramos durante a semana, se quiserem nos
acompanhar será um prazer.
Olho para Samantha e a vejo fazer uma careta. Parece que ela ainda não
esqueceu da ressaca que teve.
— Agradeço o convite, mas prefiro um jantar tranquilo. — digo ao Sandro.
— Eu estou em abstinência. — Sam solta um sorriso sutil. — Fica para a
próxima.
— Vocês é que sabem, se mudarem de ideia será um prazer tê-los conosco.
Ele sai da sala e acompanhado por Marco. Olho para Samantha e vejo que
ela me observa com um olhar travesso.
— O que foi, por que está me olhando assim?
— Você não demitiu o Marco. — Bufo com o seu comentário, eu sabia que
ela ia me provocar porque fui um cara legal. — Você não sabe como me deixou
feliz.
O sorriso dela é tão largo e bonito, que sorrio de volta. Faço qualquer coisa
para vê-la sorrindo assim, ela fica uma perfeição em forma de mulher quando
está feliz.
— Ainda não demiti, não sorria tanto. — Levanto e pego o meu terno.
Estou um pouco indeciso sobre o que fazer com ele. Talvez, para agradar a
Samantha, eu o coloque com uma função auxiliar em uma das lojas.
— E nem vai demitir. — Ela me surpreende quando circula a mesa e me
abraça.
Não perco a oportunidade e passo os braços pela sua cintura atraindo o seu
corpo para junto do meu, enquanto escondo o rosto em seu cabelo. É até
doloroso o tesão que sinto por esta mulher. Daria um mês da minha vida para
poder passar uma única noite ao seu lado.
— Zander, eu sei que você tem um coração incrível aqui dentro. — Sinto
sua mão acariciar o meio do meu peito. — Você é insuportável, um ditador
arrogante, mas no fundo é um bom homem.
Inclino o corpo para trás em busca dos seus olhos. Sinto o meu peito
afundar quando vejo que ela me encara com admiração.
Porra! Eu me sinto o homem mais feliz do mundo só em saber que ela me
admira por ter tido misericórdia do Marco.
— Aceita jantar comigo? — Faço esse pedido para me impedir de beijá-la.
— Você vai pagar? — Ela sorri largamente me provocando.
— Talvez. — Dou de ombros. — Sempre posso fingir que vou ao banheiro
e deixar você sozinha com a conta. — Sinto um tapa firme no meu braço.
— Larga de ser sovina, Zander, gasta ao menos um pouco dos milhões que
ganha todo mês.
— Economizar é sempre bom. — Ela se afasta e sinto falta do seu calor.
— Vamos embora, quero ter um tempo de beleza no SPA do hotel.
— É você quem manda.
Fecho o meu terno e pego minha pasta. Depois de uma semana insana, será
uma alegria passar essa noite ao lado de Samantha.
CAPÍTULO 18

Samantha

Penteio o meu cabelo e não fico satisfeita com o resultado. Parece que
quanto mais a gente quer que o cabelo fique legal, mas ele se revolta e toma vida
própria.
Queria ser homem para não me preocupar com tantos detalhes. Na hora de
sair a vida do sexo masculino é infinitamente mais simples.
Passei o fim da tarde no SPA, depois me depilei e fiz as unhas. Mas não tive
tempo de arrumar o cabelo. Agora ele está zombando de mim, me dizendo que
eu deveria ter abdicado da depilação para cuidar da sua rebeldia.
Acabo me conformando com a zueira dele e vou a caça do meu celular para
enviar uma mensagem ao Zander. Quero avisar que irei esperá-lo no bar do
hotel. Preciso de um ou dois drinques, sem exagero, antes de enfrentar um jantar
com ele.
Passar tanto tempo em sua companhia não está me fazendo bem. Nesta
viagem ele anda mostrando um lado tão compreensível, que meu coração bobo
acelera cada vez que o encontro.
Abro o aplicativo de mensagem instantânea e logo vejo uma mensagem da
minha mãe mostrando o estrago que Nap fez no seu papel higiênico.
Meu Deus! Esse gato só me faz vergonha.
Já sei que quando eu voltar ela vai praguejar contra meu gato endiabrado.
Que bichinho arteiro.
Mando um coração enorme para ela só para acalmá-la e em seguida aviso
ao Zander que irei esperar por ele no bar.
Assim que envio a mensagem, pego minha bolsa e desço para o bar. O lugar
está com um movimento agitado, muitas pessoas vêm aqui para poder apreciar a
comida do chef renomado do restaurante. Ouvi dizer que ele é premiado
internacionalmente, e que celebridades quando estão na cidade aparecem para
prestigiá-lo.
Respeito o gosto alheio, mas preferia que o restaurante servisse o típico
churrasco gaúcho. Estou aqui há quase uma semana e até agora não tive a honra
de experimentar essa iguaria tão famosa da região.
Peço um Cosmopolitan e observo o lugar. Alguns casais estão nas pequenas
mesas do bar conversando, outros entram direto para o restaurante e alguns estão
nas cadeiras altas ao longo do bar.
Um homem ao fundo chama a minha atenção. Ele é forte, tem cabelo loiro
cortado bem baixo, mãos grandes e uma boca vermelha tentadora.
É um tipão, eu poderia passar uma noite com ele sem problemas. Estou
precisando de um pouco de sexo, faz tempo que não tenho intimidade com
alguém. Meu último encontro foi com o Alberto, aquele merda, que só serve
para ser capacho da irmã.
Afasto o pensamento daquele traste e foco no loiro gaúcho. Se eu pego um
homem desse faço miséria com o fogo que ando sentindo. Preciso de sexo
quente o quanto antes, estou subindo pelas paredes.
Começo a me empenhar para chamar a sua atenção, ele parece bem
distraído com o celular. Essa modernidade atrapalha a paquera, as pessoas
acabam esquecendo do mundo real e ficam apenas focadas no virtual.
Remexo o cabelo e me inclino no balcão do bar olhando descaradamente
para ele. Não é possível que ele não me enxergue. Meu cabelo pode não estar
nos melhores dias, mas sei que não está tão ruim assim.
Como mágica, o loirão ergue os olhos e encontra os meus. Sorrio feliz em
ser o centro da sua atenção e recebo de volta um sorriso tímido com covinhas.
Ai que lindo, ele tem duas covinhas. Acho fofo homem com convinha, esse
é meu ponto fraco.
Começo o processo de troca de olhares e sorrisos tímidos. Ninguém precisa
saber que lá no fundo quero subir nele e requebrar no seu colo, muitos menos
que estou sem calcinha porque a depilação me deixou sensível.
Vou manter a aparência de uma menina inocente, não de uma devassa que
está complemente nua por baixo do vestido, ansiando fervorosamente que ele me
tome com paixão.
Ai senhor, eu estou completamente fora de controle! Que pensamento
absurdo.
Passo um tempo na paquera, até que sinto alguém se sentar ao meu lado.
Estou tão empolgada que não me dou ao trabalho de ver quem é, mas quando
escuto uma voz marcante pedir um uísque duplo, sei que tenho problemas.
Viro bem devagar e vejo Zander me olhando de lado. Ele está incrivelmente
lindo com uma camisa azul, com dois botões abertos e o cabelo, ainda molhado,
penteado para trás.
O pobre gaúcho perde o encanto, agora estou completamente caída pelo
meu chefe.
Meu pai eterno, como sou volúvel!
— Quer um drinque novo, senhorita? — ele me pergunta com um tom
polido.
— Hoje estou indo devagar. — digo enquanto remexo o meu copo.
— Está evitando a ressaca?
— De certa maneira, sim. — Esvazio meu copo.
— Acredito que o barman pode fazer um drinque não alcoólico.
— E que graça tem? O álcool é o que dá o charme para a bebida.
— Fato. — Ele sorri.
O barman traz o seu uísque e coloca outro Cosmopolitan na minha frente.
Olho para o copo surpresa, eu não pedi nada a ele.
— Nossa... você é eficiente. — falo sorridente.
— Obrigado, mas a bebida é por conta do cavaleiro ali. — Ele aponta para
o lindo loiro de covinhas.
O homem ergue seu copo e sorri, mostrando suas covinhas sexys. Eu
devolvo o cumprimento com um sorriso exagerado, infelizmente sou péssima em
me fazer de difícil. Preciso ser mais discreta e não demonstrar que estou muito a
fim dele.
— O que está acontecendo aqui? — A voz do Zander me tira da paquera. —
Quem é esse esquisito?
— Esquisito? De quem você está falando?
— Do loiro de farmácia que está rindo como um bobo para você.
Não sei como ele consegue ser tão babaca, as asneiras saem por sua boca
com uma naturalidade irritante. Queria saber onde ele viu que o homem é loiro
de farmácia.
— Não vejo nenhum loiro de farmácia, apenas um homem lindo e com
covinhas. — Inclino o corpo sobre o balcão para dar uma boa visão do meu
decote ao bonitão.
— Samantha, vamos ser sinceros? — Viro o rosto para ele e faço um sinal
para continuar a falar. — Esse homem não tem nada a ver com você. Tenho
certeza que vai correr se você o levar para o seu quarto.
Quanto abuso, ele gosta de colocar água no meu feijão.
— Pois eu não acho que vá correr, pelo jeitinho dele é um homem decidido,
tanto que me pagou um drinque.
Ele sorri e contorna a borda do copo com o dedo. Não sei o motivo, mas
acho tão sexy ele acariciando o copo, fico imaginando esse dedo longo tocando
determinada parte do meu corpo.
— Isso não significa que ele vá saber o que fazer com você.
— E por acaso você faria algo melhor? — Estou tão irritada com a
arrogância dele.
Sem parar de contornar a borda do copo, ele abre um sorriso lento e
completamente sexual. Puta que pariu, ele acaba de me deixar excitada com esse
sorriso safado.
— Ah, Samantha, você não sabe o que eu faria com você se estivesse na
minha cama. — Quando nossos olhos se encontram, o desejo cru que vejo em
seu olhar me leva ao delírio. — Eu te daria tanto prazer, que seria bem capaz de
sermos expulsos do hotel por causa dos seus gritos de êxtase.
Começo a lamentar não ter colocado a porra da calcinha, estou
extremamente molhada e me borrando de medo de marcar o vestido com a
minha excitação.
Por que ele decidiu foder com o meu psicológico? Não é justo ouvir isso
quando estou tão desesperada por um pouco de prazer.
Como não quero demonstrar que ele me afetou, decido levar na brincadeira
sua declaração.
— Uau, se eu estivesse com uma calcinha ela estaria molhada, você é bom
com palavras, chefe.
Zander constrangedoramente se engasga com o uísque que havia acabado
de beber e me encara chocado. Os olhos dele descem pelo meu corpo e se
concentram entre minhas pernas. Acho que o choquei com a minha declaração
inusitada.
— Você está sem calcinha? — Ele levanta a cabeça rapidamente, esperando
pela minha resposta.
— Estou. — Dou de ombros e, antes de voltar a falar, experimento meu
drinque. — Hoje me depilei, então estou um pouco sensível, o elástico da
calcinha me incomoda. — Vejo a boca dele se abrir. Gosto de vê-lo
desconcertado, por isso jogo lenha na fogueira que se instalou entre nós.
— Você... — Ele não termina de falar e bebe todo o uísque. — Você não
pode sair por aí sem calcinha.
— Quem disse que não? — Inclino o corpo e apoio o queixo na mão. —
Qual o problema de não usar calcinha? — Acompanho o movimento da língua
dele deslizar por seus lábios.
— Todos. — Com impaciência ele corre a mão pelo rosto. — Você não
pode simplesmente me dizer que está sem a porra da calcinha.
— Você está nervoso. — falo divertida.
— Como não ficaria, se agora, mais do que nunca, quero comer você?
Dessa vez sou eu que fico nervosa. Será que ele disse mesmo que quer me
comer? Talvez eu esteja ficando fraca para bebida e ouvindo coisas demais.
— Você quer me comer? — faço essa pergunta já me imaginando de quatro,
com ele segurando a minha bunda enquanto me fode com força.
— Quero fazer isso agora.
Fico calada tentando conter a onda líquida que se formou entre as minhas
pernas. Sempre dividi brincadeiras apimentadas com Zander, mas ele nunca
chegou ao ponto de dizer que desejava transar comigo.
— Como já disse, eu estou sem calcinha, então acredito que será bem fácil
você me fazer gritar de prazer antes de sermos expulsos do hotel. — Deixo o
caminho aberto para ele tomar uma atitude.
— Não me provoque ainda mais, Sam, se eu começar ninguém me para.
— Estou pedindo que pare? — Ergo a sobrancelha para dar ênfase ao que
estou falando. — Ou me leva para o quarto, ou me deixa livre para levar o loiro
de farmácia. Estou há tempo demais sem sexo, ficar apenas gozando com a mão
não é minha praia.
Trocamos um olhar tenso, repleto de palavras não ditas. Quando começo a
acreditar que ele vai me deixar na mão do gaúcho, ele tira uma nota do bolso e
chama o barman.
— Amigo, pague um drinque ao rapaz que mandou o Cosmopolitan a
senhorita. Não é justo ele perder dinheiro com a mulher de outro cara.
— Claro que sim. — O homem balança a cabeça com um sorriso malicioso.
— Tenham uma boa noite.
— Pode apostar que será uma excelente noite. — Zander pisca para ele e
pega a minha mão.
Sinto uma corrente elétrica percorrer minha coluna quando ele entrelaça os
dedos aos meus e nos encaminha para o elevador. O que está prestes a acontecer
é loucura, mas não quero pensar em nada agora.
Apenas vou viver o momento e que se dane as consequências. Uma vida
sem aventura é completamente entediante.
— Não pense. Se fizermos isso nada acontece. — Ele ergue a minha mão e
a beija fitando meus olhos.
Sinto as maçãs do rosto esquentarem. Eu estou completamente louca em
permitir isso, mas só Deus sabe o quanto sonhei em poder um dia me embolar
com esse homem na cama.
Opto por não abrir a boca e apenas aceno positivamente. Quando fico
agitada normalmente falo besteira para desviar a atenção das pessoas do meu
nervosismo. Não quero estragar o nosso momento, desejo que tudo saia perfeito,
para que eu possa guardar na memória quando tudo acabar.
Enquanto esperamos o elevador, um homem para ao nosso lado e nos olha.
Zander me abraça protetoramente e desliza a mão até o meu quadril, acariciando
a região sensualmente. O cara observa o gesto dele e em seguida vira o rosto
para frente.
Esse carinho me deixa ainda mais elétrica, quero ficar logo a sós com ele.
Preciso das suas mãos passeando por cada parte do meu corpo.
O elevador parece demorar um século para chegar e, depois que entramos,
outra eternidade se passa para que chegue ao nosso andar. Meu coração a essa
altura do campeonato já virou uma bateria de escola de samba, está tão acelerado
que tenho medo das pessoas ouvirem suas batidas desenfreadas.
Quando o Zander passa a mão pela minha cintura e me puxa para encostar a
lateral de seu corpo, respiro fundo e fecho os olhos ao senti-lo beijar meu cabelo.
Parece tão certo estarmos juntos, a sensação que tenho é de que conheço o seu
toque há muito tempo.
O homem que nos encarou há pouco desce um andar antes do nosso.
Ficamos sozinhos apenas desfrutando da corrente sexual que nos envolve.
Com carinho, Zander acaricia a minha bochecha e sorri com uma ternura
tocante. Ando impressionada com esse lado suave dele, confesso que depois de
tanto tempo ouvido seus gritos, já não acreditava que pudesse ser tão amoroso.
No instante que o elevador para no nosso andar, ele aperta a minha mão e
sai apressado em direção do seu quarto. Por alguns segundos tenho um debate
interno sobre o que vamos fazer em breve. Depois que ultrapassarmos a porta do
quarto, tudo irá mudar na nossa vida.
Passei anos sonhando como seria ter um momento sexual com este homem,
mas agora que estou perto de concretizar essa fantasia, sinto medo de não saber
lidar com o pós-sexo.
— Zander, como as coisas ficarão entre nós amanhã? — Faço essa pergunta
quando ele abre a porta.
— Não sabemos se existirá o amanhã, vamos nos preocupar com o agora,
não podemos lidar com o que está por vir.
Apesar de ainda sentir medo, concordo com ele e entro em seu quarto,
deixando para trás todas as dúvidas que pairam sobre mim.
CAPÍTULO 19

Zander

No segundo que fecho a porta, giro o corpo dela e a encosto na parede.
Preciso verificar se está realmente sem calcinha. Quando passei a mão pelo seu
quadril, não senti nada, mas como essas fios dentais são minúsculas, às vezes
nos enganamos.
Ela ofega quando meu corpo prensa o seu. Sem tirar os olhos dos seus,
deslizo a mão ao longo do seu corpo e começo a subir o vestido. É lindo ver a
excitação tomar conta do seu olhar, ela fica ainda mais bonita com essa
expressão de tesão.
— Quero ver se você realmente está nua por debaixo deste vestido.
— Está achando que menti?
— Você não tem bons antecedentes. — Chego na parte baixa da sua bunda
e gemo com a maciez de sua pele.
— Meus antecedentes com relação a mentiras são impecáveis, já não posso
dizer o mesmo com relação a provocações. — Sorrio da sua declaração.
— Você calada já é uma provocação, querida. — Minha mão contorna toda
sua bunda e constata que não existe nenhuma barreira.
Que merda, ela realmente está sem calcinha!
— Porra, Sam, de fato você não tem nenhuma calcinha.
— E o que você vai fazer com relação a isso? — A provocação dela me
deixa completamente fora de controle.
Essa mulher ainda vai me matar, ela é incrível, diferente de qualquer outra
que já tenha passado na minha vida.
— Não contarei o que vou fazer, apenas te mostrarei.
Seguro a sua nuca e coloco sua cabeça na posição que desejo. Lentamente,
vou aproximando o rosto do seu, até que nossos lábios se tocam e uma explosão
acontece dentro do meu peito.
Porra, isso não vai acabar bem!
Esse é o último pensamento lógico que passa pela minha cabeça antes de
me perder nos seus lábios e devorar sua boca em um beijo intenso e alucinante.
Demonstrando empolgação, ela segura o meu cabelo e geme na minha boca
quando nossas línguas se misturam, duelando fervorosamente.
Sam é exatamente como imaginei: quente, gostosa e perfeita para mim.
Seguro sua bunda com força e a trago para bem perto da minha ereção.
Estou contando os segundos para poder me enterrar nela e sentir o seu calor me
envolver.
Ergo seu corpo para poder levá-la para a cama. Não posso perder muito
tempo, ou vou gozar nas calças de tanto tesão. Estou louco por ela, desesperado
para possuí-la como tanto sonhei.
Ela envolve as pernas na minha cintura com força e me deixa ainda mais
ligado com a imagem da sua boceta nua completamente aberta apenas me
esperando.
Quando essa noite acabar, ela nunca vai me esquecer. Vou fodê-la de todas
as maneiras possíveis, quero ouvir cada um dos seus gemidos de prazer.
Caímos na cama nos beijando, as mãos dela descem e seguram os meus
braços. Sinto suas unhas cravarem nos meus músculos, o que me faz rosnar de
dor e ao mesmo tempo de prazer.
Deslizo a mão até sua perna e depois sigo para sua boceta. A maciez da pele
depilada me dá boas-vindas, ela está lisa e completamente molhada.
Acaricio sua boceta enquanto espalho suavemente sua excitação ao longo
da sua entrada. Lentamente introduzo um dedo nela e me delicio com a pressão
que sinto em meu dedo. Se quando eu estiver dentro do seu corpo ela me sugar
como está fazendo agora, não sei se consigo durar muito.
— Ohhh merda! — ela resmunga afastando os lábios dos meus.
Aproveito seu pescoço exposto e espalho beijos até que chego ao seu
decote. Admiro o lindo par de seios a minha frente, eles são perfeitos, no
tamanho certo para caber na minha mão. E o melhor de tudo: são naturais, como
todo o resto dela.
— Eu quero você nua. — digo, me erguendo sobre ela. — Quero
experimentar cada parte do seu corpo.
— Tira este vestido então, acho que não estou com a minha coordenação
motora nos melhores dias.
— Nervosa, senhorita Diniz? — pergunto ao segurar a mão dela para que se
levante.
— Na expectativa para saber do que o meu chefe é capaz. — Viro seu corpo
sorrindo da resposta.
Nada como uma mulher inteligente para transformar uma transa em algo
extremamente interessante. Sei que com ela vou ter que me desdobrar. Sam não
é o tipo de garota que se contenta com pouco, ela sabe o que deseja e não vai
poupar o meu ego se eu não for espetacular na nossa primeira vez.
— Sou capaz de muitas coisas, querida. — Abaixo vagarosamente o fecho
do seu vestido. Em seguida, deslizo a peça por seu corpo.
A nudez dela me deixa fascinado, sua bunda é redonda e arrebitada. A
marquinha de biquíni a deixa ainda mais sensual, o tom bronzeado de sua pele é
perfeito.
Apoio minha mão na base da sua coluna e vou virando seu corpo até que
estamos frente a frente. Encaro pela primeira vez seus seios nus, depois desço o
olhar até sua boceta completamente depilada.
— Linda! — declaro ao apreciar seu corpo. — Você é uma obra de arte. —
Começo a acariciar sua entrada e a vejo jogar a cabeça para trás. — Sou capaz
de passar o dia todo apenas apreciando tanta beleza. — Ela apoia a mão em
meus ombros quando contorno o seu clitóris.
Sentir em minha mão o quanto está excitada, por mim, me deixa
desgovernado. A minha real vontade é deitá-la nesta cama e me afundar em seu
corpo enquanto estoco com vontade. Só de pensar em como ela deve ser quente,
já é meio orgasmo.
— Olhe para mim, Sam. — Peço e introduzo dois dedos nela.
Os nossos olhos se cruzam e me perco na escuridão do seu olhar repleto de
tesão. Foram dois anos imaginando este momento, mas nenhum dos meus
sonhos me preparou para emoção que está correndo pelo meu corpo.
— Zander, vamos deixar as preliminares para depois, eu preciso de você.
— Estou aqui, linda, apenas me deixe ser seu escravo do prazer.
Fico de joelhos na sua frente e coloco uma das suas pernas em meu ombro.
Em seguida afasto os seus lábios vaginais e, por alguns segundos, observo sua
boceta carnuda e molhada implorando pela minha boca.
Lambo os lábios antes de inclinar o rosto e abocanhar toda essa perfeição
em minha boca. O gosto dela se espalha pela minha língua me fazendo gemer.
Perdendo o controle, devoro sua intimidade como um refugiado de guerra
ao encontrar um banquete, depois de dias sem comer. Quero me fundir a ela,
sentir que é completamente minha, que neste momento somos uma só pessoa em
busca do prazer.
Fico alheio a todos os seus pedidos desconexos para que eu pare, quero que
ela goze na minha boca, preciso sentir o sabor do seu gozo enquanto se dissolve
com o prazer que estou lhe dando.
Firmo seu corpo e invisto fortemente minha língua no seu centro pulsante,
ela puxa meu cabelo e em alguns momentos tenta me afastar. Eu resisto e me
delicio com os sons de prazer que ela faz.
Em determinado momento, ela tropeça em seus próprios saltos e só não cai
porque a seguro. Para evitar um contratempo, deito-a na cama e volto a investir
em sua intimidade.
Não demora muito e sinto seu prazer molhar a minha boca enquanto ela
pragueja e me chama de filho da puta. Ela não sabe ser uma lady, está me
xingando quando estou lhe proporcionando um prazer extremo.
Quando ela se acalma, beijo sua coxa e vou subindo pelo seu corpo
espalhando beijos ternos para que ela possa se recuperar. Perco um longo tempo
em seus seios. Impossível não venerar algo tão bonito.
A necessidade do meu próprio corpo começa a me pressionar para
finalmente possuí-la por completo. Está mais que na hora de descobrir como será
a sensação quando eu estiver dentro dela.
— Você ainda está vestido. — A sua voz rouca dispara uma eletricidade
intensa no meu pau.
— Algum problema nisso? — pergunto enquanto retiro alguns fios de
cabelo de seu rosto.
— Todos. Quero ver você nu, preciso conferir se vale a pena continuar ou
se devo manter essa sua boca ocupada.
Sorrio da sua audácia, essa mulher é atrevida demais. Terei que mantê-la
calada para não me falar esse tipo de desaforo.
— Samantha, vale a pena qualquer coisa comigo. — Pulo da cama, mas não
deixo de observá-la revirar os olhos da minha autoconfiança.
— Se não tivesse me dado um orgasmo, eu ia embora agora.
— Mas ... eu te dei, e darei outros esta noite, quero ouvir essa sua boca suja
me xingando muito mais.
— Eu não xingo ninguém. — Ela apoia os cotovelos na cama e me observa
atentamente enquanto tiro a roupa. — Sou praticamente muda enquanto gozo.
— Sei... — Não dou muita ideia para ela e me livro da sunga.
— Ohhhh! — ouço sua exclamação quando fico completamente nu. —
Você realmente sabe usar tudo isso? — Seus olhos buscam os meus.
— Melhor do que minha boca. — Abro o criado-mudo e pego duas
camisinhas. — Você vai enlouquecer com tudo o que sei fazer com o meu grande
amigo.
— E que grande amigo. — Ela se ajoelha na cama sorrindo. — Quero
conversar um pouco com o seu amigo. — O olhar sapeca dela é cinematográfico,
mas neste momento não tenho tempo de deixá-la brincar com o meu
companheiro.
— Querida, você vai conversar com ele em breve, agora, quero essa sua
boceta gostosa recebendo o meu garoto.
— Seu garoto? — Ela ergue a sobrancelha. — Isso soou estranho.
— Então é um sinal que devemos parar de falar. — Seguro o queixo dela e
corro a língua por seus lábios. — Agora é o momento de foder.
— Depravado. — Ela se desprende da minha mão e vira o corpo expondo
sua boceta para meu deleite. — Então me come, mas de quatro, como sempre
sonhei.
— Sonhou comigo te fodendo assim? — pergunto enquanto aperto sua
bunda e puxo uma parte para expor sua boceta.
— Sonhei. — sua resposta vem acompanhada de um remexido sensual. —
Sempre quis fazer você engolir sua autoridade enquanto se perde em mim.
— Sam, você é uma bandida. — Cubro meu pau com a camisinha louco
para entrar nela.
— Chefinho, sou apenas uma mulher que sabe o que quer. Agora para de
falar e me mostra que não foi em vão deixar aquele gaúcho escapar.
Paro a minha aproximação quando a ouço falar sobre o outro homem. Se
existe uma coisa que eu sou, é territorialista, não admito que uma mulher fale de
outro cara quando estou prestes a fodê-la.
— Vamos combinar uma coisa?
— O quê? — ela vira o rosto curiosa.
— Quando estivermos juntos, é só eu e você. Outros homens ou mulheres
não devem estar entre nós. — Um brilho estranho resplandece em seus olhos.
— Zander, me fode.
A maneira que ela fala meu nome demonstra que entendeu perfeitamente o
meu pedido.
Seguro seu quadril e vou me aproximando sedento por mergulhar no seu
corpo. Quando começo a penetrar, fecho os olhos para contemplar a sensação
inebriante que é poder senti-la me aceitando com tanto prazer.
— Ahhh, Sam que delícia. — digo quando me retiro dela e em seguida me
afundo profundamente. — Porra, você é gostosa demais.
— Quero forte, Zander, quero tudo o que puder me dar.
— Eu te dou o mundo, querida.
Aperto sua bunda e começo a imprimir um ritmo intenso. Ela solta um
gemido profundo, me fazendo arrepiar inteiro. Em cada som que ouço escapar da
sua boca, percebo que ela se sente tão perdida quanto eu.
Sempre soube que ela era uma perdição, mas agora, sentindo o seu calor me
queimar da maneira mais prazerosa possível, entendo que o meu nível de fodido
é o mais alarmante possível para um homem.
Limpo a mente de todos os questionamentos que começam a passar pela
minha cabeça, não quero pensar no significado da sensação única que estou
sentindo agora. Apenas vou me preocupar em satisfazê-la e experimentar o meu
prazer.
— Isso, eu estou tão perto. — Ela segura com força o lençol. — Não quero
que seu ego infle demais, mas preciso dizer que você é gostoso pra caralho. —
Que boquinha suja, ela não tem jeito.
Enrolo seu cabelo em uma das mãos e passo um braço por baixo dos seus
seios trazendo seu corpo para junto do meu. Esse novo ângulo nos deixa mais
próximos e com uma profundidade diferente na penetração.
Começo a estocar nela com movimentos curtos e profundos, o que provoca
uma onda de adrenalina em ambos. Em poucos movimentos sinto a boceta dela
me sugando com ânsia que me deixa a deriva do orgasmo.
Um som profundo escapa da minha boca quando o meu corpo se rasga em
um gozo intenso.
Caralho! Acabo de entrar numa fria.
Puxo-a comigo para a cama e nos deitamos ofegantes. Com calma me retiro
dela e fecho os olhos enquanto tento acalmar minha respiração. Estou exausto,
porém nem um pouco saciado. Quero Sam enquanto nós dois tivermos forças,
não quero me afastar dela nem por um segundo.
— E então, está feliz por eu ter te tirado de uma furada? — Levanto o
cabelo dela e beijo sua nuca.
— Tudo indica que você está no caminho certo, mas não sou mulher de me
contentar com a entrada, meu bem, eu quero o prato principal e depois a
sobremesa.
Sem que ela veja abro um sorriso de satisfação, eu também quero mais, na
verdade quero ir até o cafezinho, mas não vou contar esse detalhe, prefiro deixar
essa parte como um bônus para fechar a nossa noite.
— Então vamos começar por um jantar de verdade. Nós precisamos comer
antes de irmos para mais uma rodada. — Beijo o ombro dela e me levanto para
retirar a camisinha.
— Podemos jantar depois. — Ela vira o corpo e me presenteia com seus
lindos seios brilhando de suor.
— Calma, linda, eu não vou fugir.
— Já está cansado?
— Não. Só quero lhe alimentar para não ficar de consciência pesada
quando eu não te deixar dormir.
— Sou acostumada a virar a noite. — Ela pisca e se levanta. — Vou tomar
um banho já que vamos jantar, não consigo comer suada.
— Assim que eu pedir o nosso jantar te acompanho. — Puxo-a pela cintura
e busco a sua boca.
Não faz nem cinco minutos que estive dentro dela, e já sinto falta. Queria
ficar grudadinho a ela, sentindo seu cheiro fresco sem hora para sair da cama.
Esse pensamento me assusta, pois nunca senti tanta vontade de ficar com
alguém assim. Não sou o tipo de homem que vira para o lado e dorme depois de
uma transa, mas também não sou o exemplo de romântico. Apesar de sempre me
dedicar a ser carinhoso com minhas parceiras, nunca quis tanto estar em contato
com qualquer uma delas como quero ficar com Sam.
Bloqueio meus pensamentos e deixo Samantha ir para o banho. Alguns
minutos analisando o cardápio podem me ajudar a respirar com tranquilidade e
conter essa necessidade extrema de ficar grudado nela.
CAPÍTULO 20

Samantha

Estou chateada comigo mesma por ter cedido ao charme do Zander e ido
para a cama com ele. Só que ao mesmo tempo, estou feliz demais com todo o
sexo que tivemos.
Ele foi sensacional durante a noite, me cobrindo de carinho como jamais
imaginei que fosse possível. E, além disso, me proporcionou um prazer que
nunca experimentei. Os nossos corpos se conectaram de uma maneira
surpreendente.
Apesar de saber que foi um grande erro o que fizemos, não posso negar o
quanto foi especial. Esse homem é muito melhor do que imaginei. Ele pode até
ser um insuportável ditador no escritório, mas na intimidade, é atencioso e
divertido.
Aproveito a luz que escapa por uma fresta da cortina e admiro seu rosto
sereno dormindo. Ele é lindo e, despido da sua soberba, fica ainda mais atraente.
O que será que vai acontecer agora que ultrapassamos o limite do
profissionalismo? Como vai ficar a nossa relação?
— O que foi? Por que está suspirando tanto? — Levo um susto quando ele
abre os olhos. — Está lamentando por eu estar dormindo?
Quero dizer que apenas estava pensando no futuro, mas não vou ser o tipo
de mulher problemática que fica pensando nas consequências de uma noite de
sexo. Por isso, decido levar na brincadeira sua pergunta.
— Na verdade, estava triste porque teria que levantar para pedir o café da
manhã. E todos nós sabemos que isso é função do cavalheiro, não da dama.
— Dama? Você é uma dama?
— Sou o quê? Um cavalheiro de saias? — Ele sorri da minha pergunta.
— Não sei como consegue ter uma língua tão ágil logo pela manhã. —
Fecho os olhos quando sinto a mão dele acariciar minha bochecha. — Bom dia,
senhorita Diniz, dormiu bem?
O meu coração incha com essa pergunta. Onde foi parar aquele Zander que
grita o tempo todo?
— Na verdade, quase não dormi, tive uma noite agitada.
— Hummm, isso é bom... — Ele roça suavemente os lábios nos meus. — A
minha noite também foi interessante.
— Interessante? — Essa palavra me deixa em dúvida.
Estou me sentindo um pouco louca, normalmente sou segura quando estou
com um homem, mas com ele, me sinto completamente perdida.
— Muito interessante. Foi o tipo de noite que um homem deve guardar na
memória. — Agora sorrio como uma boba, porque o brilho nos olhos dele falam
mais que suas palavras.
— Você vai pedir o café ou não? — mudo de assunto.
— O que você quer?
— Algo leve, eu não gosto de comer muito pela manhã.
— Tudo bem.
Com um discreto sorriso, observo-o levantar-se da cama, completamente
nu. Ele é tão gostoso, tem um corpo forte, definido, mas sem ser exagerado. E o
melhor de tudo é que todo esse pacote de perfeição é uma delícia.
— Se continuar com esse olhar, o café atrasa.
— Deus me livre, estou um caco. — Jogo a perna para fora da cama e sinto
meus músculos protestarem. — Ai! — resmungo.
— O que foi? Você está bem? — Em segundos ele aparece lindamente nu
na minha frente.
— Estou fora de forma, isso sim. — Sorrio encantada com a preocupação
nos olhos dele. Quem diria que esse homem fosse ser tão atencioso. — Mas de
resto estou bem.
— Eu machuquei você? — Ele segura meus braços para me ajudar a
levantar. — Sei que ontem nós nos empolgamos, mas juro que tentei ser o mais
cuidadoso possível.
Ai meu coração, ele quer me matar!
— Zander, você foi mais que atencioso, então não se preocupe. — Passo a
mão pelos ombros dele e beijo o seu pescoço. — Estou com fome, você vai me
matar de inanição se não me alimentar.
— Você está longe de morrer de inanição, senhorita Diniz. — A mão dele
aperta a minha bunda. — Só esse seu traseiro lindo te garante uns três dias de
vida.
— O que quer dizer com isso? Que minha bunda está gorda?
— Não! Que sua bunda é gostosa e você está nutrida demais para morrer de
fome.
Ele segue para o armário e sinto falta das suas mãos fortes me segurando.
— Enquanto tomamos o café vamos decidir o que faremos hoje. Quero
aproveitar para fazer turismo na cidade. Semana que vem vamos embora, não
quero passar o tempo todo trabalhando ou trancado neste hotel.
— E o que tem em mente? — Gosto dos planos dele.
— Vamos pesquisar algo legal enquanto comemos, aí traçamos nosso
destino.
— Fechado. — respondo animada além do apropriado com a ideia de
passar um dia inteiro ao lado dele, enquanto nos divertimos.
Não quero pensar que merda vai dar quando voltarmos para a nossa vida
real, mas, por enquanto, vou esquecer todos os sinais de alertar que piscam na
minha frente e vou me jogar nesta aventura.

Passamos o fim da manhã andando pela belíssima Casa de Cultura Mário


Quintana, no centro histórico da capital gaúcha, e na hora do almoço finalmente
desfrutei de um típico churrasco gaúcho.
— Satisfeita? — ele pergunta quando saímos de mãos dadas do restaurante.
Desde que saímos do hotel ele só anda de mãos dadas comigo, é estranho
dividir esse tipo de gesto com ele. Ainda não assimilei essa parte de que somos
íntimos no sentindo literal da palavra.
— Muito. Acho que comi por uma semana. — Sorrio relembrando da
minha gula. — Engordei uns cinco quilos. — Ele ergue nossas mãos e beija a
minha.
— Você perde rápido depois que chegarmos ao hotel. — Olho em sua
direção e recebo uma piscadinha maliciosa.
— Já vamos para o hotel? Por que não passamos no lago Guaíba para
andarmos um pouco? O pessoal da empresa de auditoria me disse que é lindo.
— Eu estava pensando em fazer amanhã um passeio de barco por lá.
— Adorei.
— Podemos dar uma voltinha para queimar o almoço.
— Então, vamos?
— É pra já. — Recebo um beijo rápido antes de atravessarmos a rua.

Seguro a sua cabeça com força e moldo a minha boca a dele, para evitar que
um grito escape de mim com a intensidade do orgasmo que rasga o meu corpo.
Estou caindo no abismo e só consigo desejar sentir outra sensação poderosa
como esta.
Não sei como ele consegue se superar a cada vez que transamos, mas agora
tudo foi mais intenso.
Talvez seja a consequência do tempo que passamos juntos neste fim de
semana. Nós ficamos grudados, não nos separamos nem para tomar banho.
Zander anda demonstrando um lado que nunca pensei existir. Ele é um
companheiro excepcional e sempre disposto a me surpreender.
Neste domingo, durante a manhã, passeamos de barco no lago Guaíba e a
tarde batemos perna no parque Redenção enquanto tomávamos sorvete. Foi
surreal dividir esse tipo de experiência ao lado dele. Quem nos visse de longe,
jamais imaginaria que passamos o dia no escritório trocando farpas.
— É uma merda essa insatisfação que sinto ao seu lado. — A voz rouca
dele me tira do meu mundo de devaneios.
— O quê? Está insatisfeito comigo? — Sinto o meu corpo enrijecer com o
medo dele já ter cansado de mim.
Ele sorri e beija abaixo da minha orelha, depois espalha beijos pela minha
clavícula com extrema lentidão. Só que a minha cabeça já pirou e todo esse seu
carinho não significa nada enquanto eu não descobrir o significado das suas
palavras.
— Para Zander. — Seguro seu cabelo e o forço a me olhar. — Por que está
insatisfeito? — O brilho nos olhos dele não demonstra nenhuma insatisfação,
mas ainda assim quero saber o que está acontecendo.
— Porque mal acabo de te comer e quero mais. — Ele corre o indicador ao
longo do meu rosto. — Já estou planejando como te foder mais tarde e sequer saí
de você.
Solto a respiração com sua resposta e relaxo. Então não sou só eu que estou
compulsiva nessa história. Ambos estamos com um problema grave, só não sei
como iremos resolver isso quando essa viagem acabar.
— Pare de planejar, senhor Saramago.
— Você me mata quando me chama assim. — Começo a lamentar quando
ele se retira de mim. — Sempre que discutíamos no escritório e você me
chamava de senhor, eu tinha vontade de te arrastar para a minha mesa e te foder
até o prédio inteiro escutar.
— Isso soou um pouco homem das cavernas.
— Pois é. Para você ver o que faz comigo.
Ele vai ao banheiro e me deixa com a mente fervilhando. Saber que ele se
sentia atraído por mim, assim, como também me sentia por ele, é gratificante.
Isso me deixa confortável nesta relação estranha que caiu sobre nós.
— Sam, eu estive pensando em algo e quero saber sua opinião.
— O que foi? — rolo o corpo e pego o celular. Desde que estou com o
Zander, ando negligenciando minhas mensagens, certamente minha mãe está
odiando isso.
— Que tal voltarmos para casa de carro? Queria passar pelos escritórios
regionais de Florianópolis, Curitiba e São Paulo. Depois de toda essa confusão
por aqui, necessito olhar de perto como anda as administrações regionais.
Encontro uma mensagem recente do meu irmão dizendo que está com
saudades. Esse menino é tão carinhoso, difícil encontrar um adolescente como
ele. Minha mãe também deixou mil mensagens reclamando que sumi.
Vejo que a Cris também me mandou mensagem para me dizer que a copa
está ficando linda. Ahhh... estou louca para voltar e ver como tudo está no
escritório.
— Sam? Está me ouvindo? — ouço a voz do Zander e ergo os olhos. —
Algum problema?
— Não, só estou olhando as minhas mensagens, parece que uma tal de dona
Noelli está chateada com minha falta de notícias. — Ele suaviza a expressão e
senta na cama.
— Responda à sua mãe, depois podemos conversar.
— Vou responder. — Ergo o lençol e cubro meus seios. Se eu os deixar à
mostra, Zander não para de olhar. — Você quer dirigir até o Rio? Tem certeza
que pretende ficar tanto tempo fora da empresa?
— Meu velho está amando ficar lá, ele sente falta do trabalho. Sem contar
que seria bom mostrar aos Gerentes Regionais que estou atento ao que anda
acontecendo nas sucursais. Tudo o que ocorreu aqui serviu de alerta. Eles
montaram um esquema de superfaturamento que foi difícil de descobrir. Isso
pode acontecer em outros escritórios.
Entendo o que ele está dizendo, realmente todo o esquema que encontramos
aqui foi de uma descrição incrível. Se o Gaspar e um dos seus homens de
confiança não tivessem notado a saída estranha de dinheiro das contas da
empresa, ninguém descobriria que as faturas que eram oficialmente apresentadas
não passavam de fraudes.
— Se você acha que é uma boa ideia não vejo problema. Estou ganhando
um extra por ter que te aturar. Então não ligo. — Dou de ombros e vejo os olhos
dele apertarem.
— Está me aturando, é?
— Te aturo desde que comecei a trabalhar para você, mas recebo bem para
isso. — Pisco meus cílios me fazendo de fofa.
— Percebi como me aturou há pouco tempo. — O meu corpo esquenta com
a sua observação.
— Há pouco tempo não foi trabalho, foi prazer, não conta. — O meu
celular começa a tocar na minha mão me dando um susto tremendo.
Olho para a tela e vejo que é número do Morales. Se eu atender, acho que o
Zander surta.
— Não vai atender? — Zander me pergunta curioso.
— Não conheço o número, deve ser essas ligações oferecendo algum
serviço. — Descarto o celular para tirar o foco da ligação. — Quando vamos
embora?
— Acho que na terça. Na segunda-feira terei uma reunião com o Jurídico
para saber quais as medidas que serão tomadas. — Ele está com os olhos em
uma linha fina mapeando o meu rosto. Certamente não acreditou na minha
desculpa para não atender a ligação.
— Então vou avisar a minha mãe que irei demorar mais que o previsto.
— Faça isso. — Ele levanta e pega uma bermuda. — Que tal sairmos hoje à
noite para bebermos em algum barzinho? — Avalio a sua sugestão, mas confesso
que estou cansada.
— Você não se sente cansado? — Essa disposição dele é irritante.
— Estou ótimo, Sam. — Faço uma careta.
— Eu não quero sair, nosso dia foi agitado e o fim de tarde mais ainda. —
digo lembrando de tudo o que acabamos de fazer.
— Evite me dar munição contra você, querida. Nós dois sabemos que não
vou esquecer a sua confissão de que acabei com você.
— Eu não disse isso, estou cansada de andar pela cidade, passamos o dia na
rua. — Agora estou chateada. — Você está se achando demais.
— Só estou me guiando por todas as vezes que ouvi você me chamar de
gostoso.
O idiota sai do quarto sorrindo e me deixa puta da vida por elevar seu ego.
Preciso controlar a minha boca na hora de gozar, não posso permitir que ele se
ache tanto.
Volto para o meu telefone e digito uma mensagem para o meu irmão
avisando que em breve estarei de volta. Em seguida respondo à Cris, e digo que
quando eu chegar faremos uma festinha para comemorar a nova copa.
Aproveito para ligar para minha mãe, estou morta de saudades dela e do
Nap. Aquele gato abusado anda me fazendo uma falta.
— Lembrou que tem mãe, dona Samantha? — Ela me atende chateada.
— Nunca esqueço da senhora, só que as coisas por aqui estão tensas. —
Não me estendo no tipo de tensão, ela não precisa saber que estou dormindo com
o meu chefe.
— As coisas se complicaram, filha? — Agora seu tom de voz está
preocupado.
— Demais mãe, passamos uma semana complicada com os problemas na
empresa.
— Eu não sei como você aguenta trabalhar nesse ramo. E ainda tem seu
chefe, que pega no seu pé.
E como pega? Pega bem até demais.
Desfaço meu pensamento libertino e me concentro na nossa conversa.
— Mãe como tá o Nap? E o meu irmão? Que saudade deles.
— Seu irmão está na mesma, só para de estudar para comer. Que Deus
abençoe esse menino, eu fico tão orgulhosa do empenho dele. — A satisfação na
voz dela quando fala do Maicon me emociona. — Já o seu gato... — Agora seu
tom de voz muda. — Que bicho abusado, passa o dia dormindo na poltrona e se
alguém tentar tirá-lo do lugar faz um escândalo terrível. Você precisa dar limites
pra esse bicho, ele é insuportável.
Sorrio com as armações de Nap, meu gato realmente é chato, mas não
assumo isso para ninguém.
— Tadinho mãe, certamente está sentindo a minha falta, Nap é sempre
tranquilo. — Minto.
— Tranquilo? — Ela desdenha de mim. — Querida, seu gato é um demônio
da Tasmânia. — Não aguento e caio na gargalhada. Minha mãe fez uma
comparação perfeita do Nap.
— Do que está rindo? — A voz do Zander me assusta.
— Meu Deus quer me matar? — Coloco a mão no coração tentando conter
as batidas desenfreadas.
— Quem quer te matar? O que está acontecendo? — Minha mãe grita me
fazendo afastar o telefone.
— Calma, mãe, é só o Zander.
— O que ele está fazendo aí? Onde você está?
— Estou no quarto dele, estamos revisando alguns papéis.
— No quarto dele? Que história é essa Samantha? O que você está
aprontando? Não me diga que... — Ela para de falar e faz um silêncio dramático.
— Samantha Diniz, você está dormindo com esse homem? Está escrito em letras
garrafais na testa dele que é louco por você, filha. Já te falei isso mil vezes.
Pior que ela falou mesmo, e eu não acreditei. Sempre achei que o Zander
gostava da minha bunda e das nossas brigas, não que realmente tivesse alguma
intenção de ficar comigo.
— Mãe, para de pirar, estou trabalhando, o senhor Saramago não pensa em
nada além de trabalhar duro.
Ele abre um sorriso largo e fecha a mão em punho erguendo o braço
indicando que está bem duro. Coloco a mão sobre os olhos e balanço a cabeça
demonstrando que estou achando ridículo o comportamento dele, mas não posso
deixar de me divertir com seu bom humor.
— Duro, ahan, sei... Olha aqui menina, não te criei para ficar de safadeza
com chefe. Você se comporta, esse homem é rico demais pra se misturar com
gente da nossa classe social, essa história de romance entre chefe e empregada só
dá certo em livro.
— Já parou de dar piti? — Estou odiando esse choque de realidade. Merda!
Por que ela não me deixa sonhar um pouco?
— Não estou dando piti, só evitando um problema futuro. — Ela suspira
fundo. — Quando você volta? Quero o seu gato fora da minha casa, estou com
pelo de felino até no meu c...
— Mãe! — interrompo antes que ela termine de xingar. Meu Deus, hoje ela
está possuída. — Não sei quando volto, eu vou ter que passar em outras filiais,
talvez só daqui a uns dez dias.
— Dez dias?! — ela volta a berrar no meu ouvido. — Vou matar esse gato
até lá, não consigo suportar a soberba dele. Esse bicho acha que sou sua
empregada, ele me olha com indiferença. — Solto uma risada alta, Nap é podre.
— Mãe, os gatos são metidos, é uma característica felina.
— Foda-se a característica dele, esse bicho é um porre, volta logo. Avisa
esse teu chefe gostoso que eu não tenho psicológico para lidar com teu felino.
Chefe gostoso? Ela realmente disse “chefe gostoso?”
— Tá bom, mãe. Vou falar com o meu chefe, mas não esqueça que estou
ganhando extra e que você receberá algo quando eu voltar.
— “Algo” não, minha filha, eu vou é cobrar a diária de acordo com o
trabalho que esse teu filho peludo me dá. — Como é mercenária. — Agora é
sério, tenta não demorar, estou com saudades, mamãe te ama.
— Eu também te amo, apesar de você ser chata.
— Menina, me respeita. — Sua voz sai com um tom de sorriso. — Não
deixe de me ligar, tchau.
— Pode deixar, tchau. — Desligo e já sinto falta dela.
— Sua mãe está sofrendo com seu bichano? — Zander pergunta curioso.
— Ela não gosta do Nap, ele solta pelo e minha mãe odeia sujeira.
— Aquele gato é terrível, o bicho só falta falar.
— Vai encrencar com meu gato também? — Já estou perdendo a paciência
com esse povo que implica com meu filhote.
— Não, até porque, ele não está com você, essa exclusividade só eu tenho.
— Ele se inclina na cama e beija minha boca. — Vamos fazer o que até a hora
do jantar? Odeio ficar parado. — Comicamente ele ergue as sobrancelhas por
várias vezes e me faz sorri como uma boba.
— Vamos assistir a algum filme, você pode escolher enquanto vou ao
banheiro.
— Ahhh. — A decepção na expressão dele é engraçada.
— Sossega, senhor Saramago. — Faço cara feia para ele e vou para o
banheiro.
CAPÍTULO 21

Zander

Se existe uma coisa que me orgulho de ter durante o trabalho é foco. Não
desvio a minha atenção por nada quando estou envolvido em um problema, mas
isso era antes de uma determinada mulher cair na minha cama.
Agora fico apenas imaginando o rosto corado da Sam, enquanto ela ofega
ao alcançar o orgasmo. A visão dela suada de prazer é tão sublime, que não
consigo pensar em mais nada.
— O que acha, senhor Saramago? — Ouço um dos advogados me fazer
uma pergunta, que não tenho a mínima noção do que devo responder.
— Bem... — Limpo a garganta e me ajeito na cadeira.
— Nas discussões que tivemos logo cedo, o senhor Saramago estava
disposto a justamente deixar todo o processo a cargo do seu escritório, Antunes.
— Samantha me socorre. — O Escritório Central não pode ficar muito tempo
sem a presença do chefe, e aqui sabemos que toda essa situação não será
resolvida rapidamente.
Olho para ela agradecendo silenciosamente por me salvar da minha
distração. É uma vergonha saber que está mais atenta do que eu.
— Posso assumir toda a dianteira sobre as investigações do grupo
envolvido na fraude? — Antunes me questiona.
— Não só pode como deve, amanhã preciso ir embora.
— Iremos resolver tudo, senhor, pode ficar tranquilo. — Antunes me fala
confiante.
— Não espero menos do que seu total comprometimento com os honorários
que me cobra. — Levanto e estendo a mão para ele. — Quero um relatório diário
no meu e-mail sobre os andamentos de toda a situação.
— Terá. — Ele dá um aperto firme na minha mão e em seguida sai da sala
com todo a sua equipe.
Finalmente encerrei o meu trabalho aqui, agora tenho que esperar o resto da
auditoria e os procedimentos jurídicos para punir o grupo que organizou o
superfaturamento, nos produtos vendidos ao nosso escritório.
— Graças a Deus tudo acabou. — Sam diz parecendo cansada. — Se
tivéssemos que passar mais uma semana naquele ritmo louco, eu pediria arrego.
— Assim como pediu ontem à noite? — Dou a volta na mesa e seguro a
mão dela para que se levante.
— Não pedi arrego, só sugeri que fossemos dormir.
— Você pediu arrego. — Beijo o pescoço dela e deslizo o nariz para sentir
o seu cheiro.
— Por que você é tão deselegante? — Ela afasta o rosto e busca os meus
olhos.
— Não sou deselegante, só estou falando a verdade. — Passo a mão pelo
seu rosto e sinto o meu peito se encher com um sentimento que não consigo
distinguir o real significado. — O que você acha de estrearmos essa mesa? Não
paro de pensar em te ver sobre ela.
— Nem pensar. — Ela tenta se afastar.
— Impossível não pensar.
Tento usar a chama poderosa que se ergue entre nós quando nos tocamos e
aprisiono sua boca em um beijo apaixonado. Hoje pela manhã perdi a conta de
quantas vezes a beijei, mas a sensação que tenho é de que estou há séculos sem
experimentar o seu sabor.
— Te quero agora, Sam. — digo enquanto viro o seu corpo para colocá-la
sobre a mesa.
— Zander... — Ela não termina de falar, pois uma batida na porta nos
interrompe.
— Merda. — Xingo e sinto Sam escapar dos meus braços.
— Você precisa se controlar. — Ela resmunga e ajeita o cabelo. — Entre.
— Sua voz sai irritada quando autoriza a entrada de quem está do outro lado da
porta.
— Com licença. — Marco aparece com a cara de cachorro sarnento que me
irrita. — O senhor queria falar comigo?
— Sente-se. — ordeno ríspido.
Ele entra na sala e olha para Samantha que acena para ele o incentivando a
se acomodar na cadeira à minha frente.
— Graças a senhorita Diniz, tomei a decisão de mantê-lo no quadro de
funcionários. — Vou direto ao assunto porque estou me sentindo frustrado
sexualmente.
Ele olha chocado para Sam e sorri. Acabo ficando incomodado com a sua
admiração por ela. Acho que estou ficando completamente fora do meu juízo
perfeito por causa dessa mulher.
— Espero não me arrepender. — Tento chamar a atenção dele.
— Claro que não se arrependerá. Eu irei mostrar que vou comandar o
escritório com mão de ferro. — Sam me fita com o olhar tenso.
— Marco... — Limpo a garganta antes de acabar com suas expectativas. —
Você ficará na empresa, mas assumirá outra função. — Ele abre os olhos
claramente surpreso. — Acredito que você entenda o meu lado, não posso te
manter como Gerente Geral quando um grande esquema de fraude aconteceu na
sua administração. Preciso mostrar aos meus funcionários que não admitirei esse
tipo de situação.
— Claro... senhor. — Ele abaixa os olhos. — Tem toda razão.
— Você irá trabalhar em uma das lojas em um cargo que não envolve
chefia. — Samantha entra na conversa. — Acredito que seja melhor do que
perder o emprego. — Ela se aproxima e coloca a mão sobre o ombro dele. —
Nós dois sabemos o quanto está difícil um emprego com os benefícios que temos
na empresa do senhor Saramago.
Olho para a mão dela descansando no ombro do Marco e me controlo para
não ordenar que interrompa esse contato. Definitivamente não estou bem.
— Obrigado por interceder por mim, Samantha, serei eternamente grato por
isso.
— Não me agradeça, apenas mostre para o nosso chefe que foi uma boa
decisão apostar mais uma vez em você. Eu estou bancando o seu emprego e não
quero me arrepender. — Ele vira o olhar para mim.
— Mais uma vez desculpa por tudo o que aconteceu, prometo não o
decepcionar novamente. — Agora fico com pena do pobre diabo, ele sempre foi
um bom funcionário, mas teve a péssima ideia de pedir um cargo para o genro.
— Chega de sentimentalismo. — Decido interromper a conversa. — Já
avisei ao RH sobre a mudança no seu cargo, você precisa apenas assinar alguns
papéis formalizando tudo. Já pode ir. — Faço sinal para ele seguir para porta.
— Com licença. — Ele se levanta e sai da sala.
Fico atento a Sam e vejo como ela observa com pesar o Marco sair. Esse
coração bobo dela ainda irá colocá-la em situações difíceis. Para ser um bom
administrador, em determinados momentos, você não pode deixar o coração
tomar a dianteira.
Acho que preciso me lembrar mais vezes disso, porque deixei Samantha
mexer com o meu coração idiota e mantive o Marco na empresa. Mas com
relação aos outros envolvidos, diretamente, não tive toda essa piedade. Todos
foram demitidos por justa causa e serão indiciados criminalmente pelos meus
advogados.
— Coitado. — Ela fala com emoção. — Me corta o coração vê-lo tão
destroçado.
— Ele colheu o que plantou. — digo tentando encerrar o seu lamento. —
No momento ele tem apenas que agradecer por ainda ter um emprego. — Ela
vira o rosto e me encara com raiva. — E só mantive o emprego dele por sua
causa, por mim estava fora.
— Como consegue ser tão insensível?
— Não sou insensível, apenas me comporto como um administrador. —
Automaticamente me defendo. — Eu não posso me importar com um único
funcionário, tenho inúmeras pessoas que dependem de mim. Preciso pensar na
empresa como um todo.
Vejo o peito dela se expandir com o que falei. Acho que agora ela entendeu
a minha postura. Apesar de lamentar a situação do Marco, eu tenho uma
quantidade absurda de pessoas que poderiam ser prejudicadas caso eu não
tivesse tomado a dianteira da situação que ocorreu aqui.
— Entendi onde quis chegar. — A voz dela está repleta de irritação. —
Acho que não sirvo para ser administradora.
— Você serve para o que quiser ser, basta ter em mente as prioridades. —
Volto a me aproximar dela. — Às vezes, precisamos pensar mais adiante, porque
o importante é o grupo como um todo.
— Você tem razão. — Sem oferecer resistência, ela me abraça. — Estou tão
cansada, Zander. — A sua voz tem uma nota de fragilidade, que aciona o meu
lado protetor.
— Por que não vai para o hotel e me espera para o almoço? Vou resolver
alguns detalhes, depois te encontro lá.
— Não, a minha obrigação é ficar o tempo todo com você. — Ela balança a
cabeça negando o meu pedido.
— A sua obrigação é estar bem para me ajudar quando eu precisar. —
Seguro o queixo dela e beijo sua boca. — Não tenho muito que fazer aqui,
apenas necessito fechar alguns detalhes antes de ir embora. Se você estiver
disposta, podemos seguir para Florianópolis ainda hoje.
— Claro que estou disposta. — Ela sorri. — Quem vai dirigir é você
mesmo, eu apenas vou apreciar a paisagem. — A minha pele se arrepia quando
ela corre a mão pelo meu peito. — E que paisagem.
Fico hipnotizado observando o exato momento em que ela morde o lábio
inferior indicando que eu sou a paisagem que ela se refere.
— Vai gostar de me ver dirigindo? — Começo a imaginar tudo o que
podemos fazer enquanto estivermos na estrada.
— Vou gostar mais se eu puder cavalgá-lo no carro. — Pegando-me
completamente de surpresa, ela acaricia o meu pau e me deixa pronto para fodê-
la sobre a mesa.
— Samantha! — Rosno o seu nome em tom de advertência.
— Vou aceitar a sua oferta de ir para o hotel, caso não precise de mim,
tenho que guardar minhas coisas para a viagem. — Sua mudança de assunto me
desanima.
— Quer ir agora? — Olho para a mesa me sentindo frustrado. — Não pode
esperar só um pouquinho?
— Nem pense nisso. — Ela ergue a mão. — Você não vai me jogar nessa
mesa, pode esquecer essa ideia absurda.
— Posso te convencer do contrário.
— Você não vai conseguir isso. — Ela pega a bolsa e coloca sobre os
ombros exibindo um sorriso diabólico em seus lindos lábios. — Prefiro te
esperar nua no quarto. Se você se comportar bem, até podemos tomar um último
banho naquela hidromassagem estupidamente deslumbrante do seu quarto.
— Nua? — Minha mente paralisa nessa parte.
— Nua e molhada. — Não me movo quando ela se aproxima e roça os
lábios nos meus. — Já estou contando os segundos para você entrar por aquele
quarto.
Não consigo dizer nada, apenas acompanho o seu requebrar até a porta.
Samantha é uma bruxa má, mas não posso negar que adoro tudo o que vem
dela. Vou correr com o meu serviço para poder voltar ao hotel. Quero tê-la nua o
quanto antes. Na verdade, eu a quero do jeito que for, desde que ela esteja dentro
dos meus braços.

— Pode desistir, não vou ouvir pagode. — Inclino o corpo e troco de


estação.
— Qual o problema de ouvir pagode? Eu adoro esse estilo de música.
— Você precisa escolher melhor o que ouve.
Troco de faixa e acelero. Esse carro que Sam alugou é ótimo, ele desliza na
estrada do jeito que gosto.
— Eu tenho ótimo gosto musical. — ela protesta.
— Tô vendo. — Sorrio do bico lindo que ela faz. — Qual o seu palpite para
o que vamos encontrar em Florianópolis? — Mudo o rumo da nossa conversa.
— Não acho que temos problemas lá. — Sam encosta a cabeça no banco.
— O que aconteceu no Rio Grande do Sul foi uma exceção.
— Você tem razão. — Até o momento ninguém da minha equipe financeira
conseguiu achar nada fora do normal nos outros escritórios. — Acho importante
mostrar que estou atento a tudo o que acontece.
Ela vira o rosto e tira um fio de cabelo que voou até seus lábios. Resisto a
vontade de admirar o seu semblante e me concentro na estrada. Essa necessidade
de apenas ficar olhando para ela, anda me deixando assustado.
— Também acho. Você teve uma ótima ideia quando decidiu visitar alguns
escritórios. Quando voltar para o Rio, seria interessante se mandasse o Gaspar ou
alguém de confiança fazer visitas surpresas no resto do país.
Penso no que ela falou, realmente preciso mostrar que não vou tolerar
nenhum deslize. Preciso deixar claro aos meus gerentes que necessito do total
comprometimento deles com a empresa.
— Quando chegarmos em casa eu vou traçar uma estratégia para visitas
surpresas.
— Isso aí, chefe. — Ela passa a mão na minha perna e faz o meu coração
disparar.
A minha vontade é encostar o carro e beijá-la até que o ar se extinga dos
nossos pulmões. Apesar do desejo primitivo que percorre o meu corpo, apenas
coloco a mão sobre a sua e sigo a nossa viagem em um silêncio confortável,
porém repleto de promessas.

Solto as nossas malas no chão e retiro os meus sapatos. Estou louco por um
banho e espero que Sam não se negue a tomar uma ducha comigo. Do jeito que
ela está empolgada com o hotel, não vai dar a mínima bola para mim.
— Oh meu Deus! — Escuto a exclamação dela e fico em alerta. — Zander
corre aqui. — Imediatamente sigo sua voz, e a encontro olhando para algo que se
parece com uma banheira.
— O que foi?
— Olha para isso. — Ela corre a mão pela bela banheira de madeira. —
Não acredito que o quarto tem um ofurô. Preciso experimentar isso já.
Observo a imensa banheira e sorrio da alegria infantil de Sam. Ela
realmente está empolgada com esse ofurô, acho que vou conseguir realizar a
minha vontade de tomar banho com ela.
— Por que não descobre como funciona enquanto eu guardo nossas coisas
no quarto?
— Tá bom. — Ela começa a investigar o ofurô com curiosidade.
Sigo para a nossa suíte e admiro a elegância do lugar. Os móveis são de
madeira maciça e a cama é imensa, do jeito que gosto.
Não é a primeira vez que me hospedo neste hotel, mas a decoração deste
quarto é bem diferente do outro que fiquei. A sensação que dá é de que estamos
em casa.
Ajeito a mala de Sam em um canto do quarto, não quero mexer nas coisas
dela sem a sua autorização. Sei bem como ela é estressadinha, de maneira
nenhuma quero aborrecê-la.
Tiro algumas peças de roupa da minha mala e coloco dentro do armário.
Separo a roupa que preciso lavar e deixo em um canto reservado.
— Zander, que lugar lindo, não quero mais ir embora. — Samantha entra no
quarto saltitante. — Tudo é tão aconchegante, estou me sentindo em casa, só
falta o Nap miando atrás de mim.
— Deus me livre aquele gato nos perseguindo, deixa ele fora das nossas
férias improvisadas.
— Não fala assim do meu gato, ele é como filho.
— Então você precisa dar mais educação para o seu filho. — Ela aperta os
olhos, claramente aborrecida com o que falei.
— Você não vai pro ofurô comigo, está de castigo.
— Como é? Eu estou de castigo? — Não sei de onde Samantha tira certas
ideias.
— Já que eu não sei educar o Nap, vou começar a treinar bons modos com
você. Talvez eu aprenda mais rápido a colocar meu gato na linha.
Sem cerimônia, ela ergue o vestido e fica nua. Meu queixo despenca
quando percebo que mais uma vez ela estava sem calcinha.
O que será que essa mulher tem contra a pobre peça do vestuário?
— Você passou a viagem toda nua? — Meus olhos se prendem nos bicos
escuros dos seus seios.
— Nua não, porque eu estava de vestido. — Ela descarta a roupa na cama.
— Vou tomar um banho e depois seguirei para o meu mergulho no ofurô.
— Vamos para o banho. — Corrijo sua fala rapidamente.
Ela não me responde e apenas me deixa sozinho com a visão celestial da
sua bunda.
Que mulher gostosa! Estou tão louco por ela que nem vou levar em
consideração o seu desaforo.
Vinte minutos depois e após uma briga excitante, nós estamos no bendito
ofurô, alheios a tudo ao nosso redor. Deslizo a mão por sua barriga e sinto nas
pontas dos meus dedos a pele dela se arrepiar.
— Segura essa mão aí, ainda não estou bem com você. — Paro a minha
mão e suspiro fundo.
Que mulher chata!
— Você vai ficar lembrando o tempo todo do que falei daquele maldito
gato?
— Ele não é maldito. — Ela se remexe e tenta se afastar, mas firmo as mãos
e a mantenho onde está. — Para de ser implicante.
Para acalmar a fera, mordo o seu ombro e vou espalhando beijos pelo seu
pescoço. Eu tenho minha própria gatinha feroz, e ela é tão chata quanto o tal de
Napoleon, mas com o bônus de ser linda e completamente minha.
— Você está tentando me distrair. — Ela se remexe quando alcanço a sua
orelha e mordo o lóbulo.
— Claro que não. — Agora minha mão já está na sua perna, deslizando
vagarosamente para a parte interna da sua coxa. — Eu só não resisto em te ver
nua e molhada na minha frente. — Percebo que ela sorri.
— Zander, você é um cafajeste, não tem nem decência de arrumar uma
mentira mais elaborada.
— Por que não paramos de falar? Estou com saudades de você. — Agora a
minha mão encontra o paraíso no meio das suas pernas.
— Como está com saudade de mim se estou aqui?
— Estou com saudade de entrar em você, faz muito tempo que não tenho o
prazer de mergulhar nessa boceta gostosa.
— Que coisa grossa. — Ela bate na minha perna.
— Você tá falando da coisa grossa que está atrás de você? — Sam solta
uma gargalhada e se move dentro dos meus braços.
— Eu poderia dizer que não tô vendo nada grosso, mas seria mentira. —
Ela passa os braços pelo meu pescoço. — Por que anda sendo tão exagerado?
Nós transamos logo cedo antes de sairmos do outro hotel. Impossível você estar
com saudades da minha pequena boceta. — Sorrio com ela falando da sua
fenomenal boceta.
— Sinto saudades assim que saio dela.
Sem querer mais conversa, mordo o lábio inferior dela e aos poucos vou
iniciando um beijo lento e sensual. Se eu deixar Samantha me provocar por mais
tempo, acabamos brigando e adeus planos de passar a tarde namorando.
Ela parece entender a minha manobra e mergulha a boca na minha exigindo
um beijo mais profundo. Passamos um tempo nos tocando, estimulando os
nossos corpos até que a excitação se torna algo doloroso.
Seguro firme a cintura de Sam e solto um profundo gemido quando ela se
ergue sobre mim e centraliza a minha ereção na sua entrada descendo
lentamente.
Estou completamente viciado nela, cada vez que possuo o seu corpo já
penso como será a próxima vez. Nunca senti esse tipo de compulsão por uma
mulher, em determinados momentos me assusto, mas vou deixar para pensar
mais profundamente sobre esse sentimento quando voltarmos para casa.
Apoio as mãos na bunda dela para ajudá-la a se mover com mais conforto.
A água perfumada que ela colocou no ofurô se espalha pelo quarto atiçando o
meu desejo.
A visão dos seus lindos seios pulando na minha frente me joga em um
estado de excitação perigoso. Se eu perder o controle antes dela, terei que ouvir
suas piadinhas. Preciso me segurar antes que meu tesão coloque tudo a perder.
Inclino o seu corpo em um ângulo onde a penetração também favoreça o
friccionar do seu clitóris. Necessito que ela alcance a sua liberação para me
deixar livre para mergulhar no meu próprio prazer.
O meu movimento surte efeito, em segundos sinto a respiração dela
acelerar. Em poucos minutos, Sam joga a cabeça para trás e deixa escapar um
som sufocado quando o orgasmo rasga o seu corpo.
Linda!
Não existe nada neste mundo que chegue perto da beleza dela quando goza.
Samantha é uma feiticeira deslumbrante, que está acabando com o meu
psicológico.
— Merda, Sam! — resmungo quando o meu corpo se estilhaça em mil
pedaços com a força do êxtase que me consome.
Assim que consigo voltar à realidade, percebo que Samantha encara o meu
rosto com uma expressão estranha. Não sei explicar o que aconteceu, mas desta
vez foi mais intenso do que todas as nossas outras transas.
Por alguns segundos nos olhamos sem dizer nada, até que sinto a mão dela
acariciar o meu cabelo e sua boca encostar na minha exigindo um beijo
profundo, rodeado de um sentimento que me assusta pra caralho.
CAPÍTULO 22

Samantha

Estou tentando manter a minha cabeça focada na reunião do Zander com o
Gerente Geral do escritório de Santa Catarina, mas está difícil, quando os
acontecimentos da noite anterior não saem da minha cabeça.
Não me considero uma mulher que se deixa levar pelo momento. Sempre
fui bem prudente com os meus parceiros, principalmente depois de tudo o que
aconteceu com o meu ex-traidor. Ontem, quando eu estava empolgada igual uma
criança com o maldito ofurô, esqueci completamente da precaução e transei com
Zander sem camisinha.
Ele não deu importância quando descobrimos que havíamos esquecido o
preservativo, apenas me disse que nunca transava sem se proteger e que confiava
integralmente em mim. Quase me derreti com a sua declaração, mas ainda assim
não pude deixar de me preocupar.
Ter esse tipo de intimidade com ele vai piorar ainda mais a nossa situação
quando voltarmos para a vida real. Eu estou completamente louca por ele, sequer
consigo conter as batidas do meu coração quando ele me olha durante o trabalho.
Se eu não frear o nosso envolvimento agora, terei um coração arruinado quando
chegarmos ao Rio.
— Samantha. — Ouço a voz dele e disperso meus pensamentos. — Você
está com algum problema?
— Oi? — Merda! Pelo olhar dele sabe que não estou bem. — Nenhum
problema, chefe. — Zander estreita os olhos deixando claro que não acreditou
em mim.
— Quero que você coordene com o pessoal do financeiro uma revisão
básica dos nossos contratos e pagamentos.
— Sem problemas. — digo exibindo um meio sorriso.
— Você terá tudo o que precisar, Samantha, as nossas contas estão
completamente organizadas e dentro das diretrizes de gastos da empresa. —
Júlio, o Gerente Geral, fala com toda a segurança. — Entendo perfeitamente que
precisam ter cautela com os escritórios depois do que aconteceu no Rio Grande
do Sul, mas aqui não temos esse problema.
— Fico satisfeito em ouvir isso, Júlio, é bom saber que o problema que
aconteceu no outro escritório foi um fato isolado.
— Problemas acontecem, senhor Saramago, faz parte dos negócios. — Ele
sorri. — Precisa de mais alguma coisa? Se tivermos acabado, quero levar a
senhorita Samantha para o setor Financeiro.
— Acabamos sim. — Zander ergue a mão e aperta a do Júlio. — Peço que
me dê alguns minutos a sós com a Samantha que preciso passar umas instruções
a ela.
— Tudo bem. — Ele sai da sala e nos deixa sozinhos.
Olho para as minhas mãos e fico esperando para saber o que Zander vai
falar. Não sei o porquê estou me comportando como uma boba, mas as emoções
que estão fervilhando dentro de mim destruíram meu lado racional.
Sinto a sua mão firme erguer o meu rosto. Quero muito fechar os olhos e
não demonstrar a fragilidade dos sentimentos que rondam o meu coração, mas
não posso fraquejar na frente dele.
— O que está acontecendo? — A sua voz é suave e olhos demonstram um
carinho que me deixa ainda mais emotiva.
Droga! Eu estou completamente fora de mim. A Samantha que eu conheço
não tem todo esse melodrama. O que está acontecendo comigo?
— Nada.
— Pare de mentir, não gosto quando faz isso.
— Não estou mentindo, Zander. — Afasto meu rosto da sua mão e levanto.
Ele não me deixa dar nenhum passo e segura a minha cintura.
— Você ainda está pensando no que aconteceu ontem? — Vejo nitidamente
o quanto está impaciente. — Nós conversamos sobre isso.
— Eu sei.
— Então por que ainda está pensando nisso?
— Zander, é complicado. — Tento mais uma vez me afastar, mas ele não
permite.
— Samantha. — Ele diz o meu nome com uma voz profunda. — Você está
agitada por que não está tomando anticoncepcional?
— O quê? Não! — respondo indignada. — Eu te disse que tomo
contraceptivo.
— Então qual o problema? Você acha que tenho alguma doença? É isso?
— Confio em você.
— Porra! Se você confia em mim e tá tomando remédio, não vejo motivos
para estar com essa cara de enterro.
— Você é tão grosseiro. — Desta vez consigo me afastar. — Não quero
falar sobre isso no trabalho, temos muito o que fazer hoje.
— Mas eu quero falar.
— Virou a mulher da história? — pergunto tentando aliviar o clima. — Não
é hora para uma DR, chefe.
— Se foi uma tentativa de piada eu não achei nenhuma graça.
— Não é piada, só não quero falar da nossa vida pessoal agora, temos que
trabalhar. Ainda precisamos passar no Paraná, se ficarmos perdendo tempo com
conversas pessoais, nunca voltaremos para casa.
— Samantha, se ficar comigo nessa viagem está te incomodando, pode
voltar agora para o Rio, você não é obrigada a ficar.
Eu não acredito que estamos brigando, muito menos que ele está ofendido.
Zander não é esse tipo de homem, nunca o vi perder o controle assim, acho que o
nosso envolvimento está mexendo com nossas cabeças.
— Chega! — Fecho os olhos para me acalmar e voltar a pensar direito. —
Não vou voltar, vamos seguir com o nosso planejamento.
— Quem decide isso sou eu, ainda sou seu chefe. — Ele quer brigar, mas
não vou entrar nessa provocação.
— Não vá por esse caminho, acredito de verdade que somos profissionais.
— Pego o tablet e sigo para porta. — Depois que terminarmos o nosso trabalho,
podemos conversar se você quiser.
Antes que ele responda bato a porta e vou para o setor Financeiro. Espero
que um tempo trabalhando acalme o meu emocional. Eu estou completamente
perdida e isso está me assustando demais. Sei que preciso ter controle dos meus
sentimentos, mas no momento, só consigo temer o fim do sonho que estou
vivendo.

O dia no escritório foi agitado, mal tive tempo de almoçar. Com tantos
questionamentos borbulhando na minha cabeça, decidi que o melhor seria
mergulhar no trabalho e bloquear qualquer pensamento insano sobre o meu
relacionamento com Zander.
No meio da tarde o pai dele ligou avisando que estavam com problema de
aumento indevido de preços com um dos fornecedores. Zander pirou e começou
a fazer uma série de ligações que até o momento não acabou.
— Não me interessa, ele tem a porra de contrato comigo!
Ouço a voz dele alterada do lado de fora do nosso quarto. Ele está
descontrolado e nem o próprio pai consegue acalmá-lo. Se ele estivesse no Rio,
certamente já teria encontrado o Diretor da empresa para tirar satisfações
pessoalmente.
Fecho a porta do quarto, estou cansada demais para ouvi-lo berrar. Pego o
celular e disco o número da minha mãe, talvez conversar com ela me acalme um
pouco.
— Alô, maninha. — A voz do meu irmão me faz sorrir.
— Que saudade de você.
— Não acho que esteja, você não me liga.
— Te mando mensagem todo dia, moleque, pare de reclamar. — Escuto a
risada dele do outro lado da linha.
— Como vai sua viagem? Está conseguindo sobreviver ao seu chefe
esquentadinho?
— Com o que ele me paga aguento tudo. — Tento despistar meu irmão. —
Cadê a mamãe?
— Tá no banho.
— Ahhh que pena, queria falar com ela.
— Vou chamá-la.
— Não precisa, Maicon, deixe-a tomar banho em paz, só liguei para saber
se estava tudo bem.
— Fora a saudade, está tudo bem.
— E o Nap? Está aprontando muito?
— Está. — Ele sorri. — Ele foi parar na cama da mamãe durante a noite,
ela surtou. Reclamou o dia todo, ameaçou levá-lo até um hotel para gatos, mas
no fim não impediu o Nap de dormir mais uma noite na cama dela.
Fico em choque com essa informação. Não acredito que minha mãe está
deixando meu gato dormir na cama. Ela sempre reclamou por eu permitir que ele
ficasse comigo, agora parece que mudou de opinião.
Meu irmão vai me contanto todas as armações do meu felino, me fazendo
acreditar que Nap sabe o que faz e está em uma missão bem-sucedida para irritar
a minha mãe.
Passamos um tempo conversando, até que a mamãe sai do banho e vem
falar comigo. Ela resmunga, ameaça nunca mais ficar com o meu gato e me
intima a voltar logo para casa. No entanto, ela interrompe seu drama quando
digo que vou comprar a bolsa que tanto deseja.
Ela adora bolsa, tem uma coleção imensa. Se você quer agradá-la, basta
prometer uma bolsa.
— Filha, eu posso comprar no cartão? Acho que não aguento esperar você
voltar.
Quando vou respondê-la, Zander abre a porta de supetão.
— Samantha... — Ele interrompe o que ia falar quando me vê ao telefone.
— Desculpa, não sabia que estava ocupada. — Ergo um dedo para ele pedindo
um minuto.
— Mãe, eu preciso desligar.
— Você está no quarto com o seu chefe de novo? — A voz dela tem um
toque de repreensão.
— Compra a sua bolsa. Tchau. — Desligo antes que o assunto renda. — O
que foi, Zander?
— Não é nada, só queria saber se você quer sair para jantar.
Ele está todo desgrenhado, com a camisa aberta, sem os sapatos e com o
cabelo bagunçado. Ninguém deveria ser tão bonito quando está desarrumado,
mas ele fica irresistível.
Todos os pensamentos contraditórios que me assolaram durante o dia
somem como mágica. A única vontade que tenho neste momento é me jogar
sobre ele e tirar a sua roupa.
Deus, eu não estou nada bem!
— Não quero jantar fora. — Descarto o celular e me levanto. — Já acabou
a conferência com seu pai?
— Por hoje sim. — ele responde com a voz cansada.
— Que bom. — Deslizo a mão pelo seu peito e sorrio. — Vamos tomar
banho? Eu estava te esperando. — Ele enruga a testa.
— Não estava com raiva de mim?
— Quando disse isso? — Retiro sua camisa e exibo seu tórax definido.
Estou de quatro por esse homem e vou me ferrar quando a nossa vida voltar
ao normal.
— E precisava dizer, depois que passou o dia todo me evitando?
— É coisa de mulher, Zander, não tente entender. — Mordo seu pescoço
querendo seduzi-lo, mas ele segura meus braços e me afasta.
— Samantha, precisamos conversar, mas vamos fazer isso no jantar.
— Não quero conversar. — Tento me aproximar dele, se começarmos a
falar, vamos brigar.
— Vai tomar seu banho, vou pedir o nosso jantar, depois nós vamos ter uma
longa conversa.
— O quê? — Olho para ele indignada. Esse imbecil está me evitando? —
Você não vai tomar banho comigo? Está me dispensando? — Ele olha para o alto
e suspira fundo.
— Se não fosse quem é, arrumaria um quarto para você passar essa fase de
bipolaridade. — Ele sorri, achando que falou algo muito engraçado, só que me
irrita ainda mais.
— Então arrume a merda do quarto, não fico mais aqui. — Dou as costas
para ele, mas sou suspensa por seu braço forte.
— Você está chata pra caralho, mas como sei do que é capaz quando fica
boazinha, vou deixá-la berrar sem que eu tome uma atitude mais drástica. — Ele
roça o nariz no meu pescoço me arrepiando inteira. — Vou pedir o jantar,
quando eu acabar, te encontro no banheiro. Contudo, saiba que vou te comer
gostoso e sem nada entre nós.
Fecho os olhos quando ele beija o meu cabelo. O gesto dele é tão terno, que
aquece o meu coração profundamente. Acho que vou entrar na TPM, essa
variação de humor não é normal.
— Posso escolher o nosso jantar? — Gentilmente ele me pergunta.
— Pode. — Fico feliz de ele não ignorar o que quero comer.
— Ótimo. — Ele me vira e beija a ponta do meu nariz. — Não ligo para o
jantar, o que desejo comer vai entrar no banheiro agora. — O safado pisca e vai
embora.
Quero ficar com raiva dele, mas acabo ficando com mais raiva de mim por
não controlar meus sentimentos. Definitivamente Zander Saramago não faz bem
para o meu emocional.
O som da respiração pesada do Zander sopra no meu pescoço arrepiando a
minha pele. O vidro do box está embaçado e a água quente que cai sobre o meu
corpo aumenta ainda mais a minha temperatura.
Estou muito perto de gozar, só preciso de um pouco mais de profundidade.
Empino a bunda buscando o ângulo perfeito, e esse movimento faz uma corrente
elétrica correr por minhas veias.
Zander se afasta inesperadamente, fazendo com que um protesto nasça no
fundo da minha garganta, mas me calo quando ele segura a bunda com força e
começa uma série de movimentos que me tira do chão.
Um tremor se espalha por mim quando o orgasmo me faz sufocar. As
minhas pernas perdem a força, o braço forte dele me mantém firme. Ele não
alivia em nenhum momento os seus movimentos, e me penetra firme, enquanto
tento colocar ar nos meus pulmões.
Sem conseguir controlar, sinto a minha vagina se contrair intensamente
enquanto ele se movimenta dentro de mim com velocidade.
Ele aperta a minha cintura acelerando suas estocadas. Em poucos segundos
ouço o gemido dele e seus movimentos, antes precisos, agora são erráticos e
lentos.
Apoio a cabeça na parede e fecho os olhos tentando acalmar minha
respiração. Eu estou fodida, quando tudo acabar ficarei em ruínas.
— Não sei o que aconteceu aqui, mas foi tão bom que precisamos repetir
mais tarde. — A voz rouca dele me causa uma sensação de prazer e pânico. —
Como você consegue ficar cada vez mais gostosa?
Com extrema delicadeza, ele roça os lábios na minha têmpora e me faz
desabar por dentro. Eu o quero tanto, que chega a doer quando penso que tudo é
uma ilusão.
— Preciso de ajuda para terminar meu banho, não confio nas minhas
próprias pernas.
— Te deixei com as pernas bambas, senhorita Diniz? — A voz dele é
repleta de diversão.
— Vai à merda, senhor Saramago.
— Olha essa boca, garota, se prepara que mais tarde vou dar uma boa
utilidade para ela.
Penso em respondê-lo, mas paraliso quando ele sai de mim. Sinto falta do
seu contato, mas essa ausência some quando ele começa a deslizar o sabonete
por meus ombros.
Fecho os olhos e aproveito para viver essa experiência única. Nem nos
meus mais loucos sonhos, eu podia imaginar que um dia meu querido chefe
estaria me dando banho.
CAPÍTULO 23

Uma semana depois

Zander

A nossa estadia em Florianópolis e Curitiba foi mais rápida do que eu
programei. As contas dos dois escritórios estavam corretas, facilitando o nosso
serviço.
Essa mudança no cronograma não me agradou, agora tenho apenas a nossa
parada em São Paulo para ter Samantha com exclusividade. Não sei como as
coisas funcionarão conosco quando voltarmos. Às vezes parece que ela está
caidinha por mim, mas em certos momentos, não tenho certeza se ela vai olhar
na minha direção quando a nossa vida voltar ao normal.
— Estou com a sensação que esqueci algo no hotel. — Ela resmunga e olha
a bolsa.
— Não mexemos muito na nossa mala, Samantha, tudo está em ordem.
— Não sei, minha intuição não me engana.
— Se esqueceu algo, compramos quando chegarmos em São Paulo.
— E se for algo pessoal? — Ela arregala os olhos. — Meu Deus, minha
bolsa de documentos.
Ela começa a procurar como doida no carro e solta resmungos engraçados.
Quando começo a achar que terei que voltar para Curitiba, ela acha a bendita
bolsa de documentos. Ainda assim não deixa de afirmar que esqueceu algo.
Depois de um tempo sem parar de falar, ela fica em silêncio e dorme. Sinto
falta do seu falatório, mas será bom poder dirigir sem ela falando mil palavras
por segundo.
Passo praticamente as próximas duas horas dirigindo pensando no que pode
acontecer entre nós quando nosso trabalho acabar. Eu estou muito envolvido por
ela. Sinto uma atração inexplicável por Samantha e isso me assusta muito.
Já tive relacionamentos demais para saber que se apegar exageradamente a
uma mulher pode ter sérias consequências, mas não consigo evitar o pensamento
de manter os nossos encontros.
O que rola entre nós é único. É uma conexão intensa, difícil de explicar.
Quando estou ao seu lado, eu me sinto livre, em casa. Parece certo estar com ela,
é como se eu tivesse atravessado um deserto e finalmente chegado ao oásis.
Não vou negar que sinto medo do sentimento potente que se move no meu
coração, mas nunca fui homem de fugir dos riscos.
— Esse carro tem piloto automático? — A voz baixa dela me assusta. —
Você não parece estar prestando atenção na estrada. Não quero morrer, sou muito
jovem. — Sorrio com o seu comentário.
— Você vai viver muito, princesa, jamais colocaria sua vida em risco. —
Estico o braço e seguro a mão dela levando-a até meus lábios.
— Estamos chegando?
— Mais uns trinta minutos e estaremos dentro da capital paulista.
— Oh, glória, quero fazer xixi.
— Posso parar em um posto.
— Não precisa, dá para aguentar. — Ela acaricia a minha mão com o
polegar. — Quero tomar café com pão e mortadela em uma daquelas padarias
paulistas.
— Você é uma mulher com gosto peculiar.
— Claro que sou, afinal, estou transando com um mala sem alça.
Viro o rosto para ela e vejo o seu sorriso travesso. Samantha gosta de me
provocar e, é a única pessoa que faz isso sem medo do que pode acontecer.

Não me lembro da última vez que andei pela rua com uma mulher apenas
para me distrair. Apesar de cansativa a viagem do Paraná até São Paulo,
Samantha se negou a ficar no hotel.
Fizemos o check-in para guardamos a nossa bagagem e rapidamente
partimos para a rua em busca de uma boa padaria para Sam comer. Ela não quis
almoçar, disse que hoje fugiria da dieta e que comeria só porcarias. Isso inclui o
jantar, pois me intimou a levá-la em uma pizzaria bem paulistana.
Agora estamos caminhando calmamente pela avenida Paulista, depois de
passear pelo MASP.
— São Paulo me assusta. — Ela fala enquanto olha um prédio imenso. —
Acho tudo tão solitário aqui. Sempre que venho à cidade, tenho a sensação que
ninguém se conhece, que todos estão apenas com pressa de fazer alguma coisa.
— Engano seu. A cidade realmente não dorme nunca, o movimento é
intenso sempre, mas não impede de as pessoas se conhecerem.
— Eu sei disso, mas estou me referindo às pessoas, todas sempre estão
correndo.
— Tempo é dinheiro, e aqui é o centro nervoso do país, por isso todos estão
sempre correndo contra o tempo.
— Dinheiro é bom, mas isso o que estamos fazendo. — Ela para de andar e
entra na minha frente. — É melhor do que qualquer dinheiro do mundo.
O sorriso dela ilumina completamente o seu rosto, causando um impacto
devastador no meu coração. Não sei quando aconteceu, mas estou apaixonado
por Samantha como nunca estive por outra mulher.
Eu a quero na minha vida, quando voltarmos ao Rio. É impossível imaginar
passar um único dia sem ter esse sorriso tão especial abrilhantando o meu
mundo.
Com medo do meu olhar demonstrar o que estou sentindo, inclino a cabeça
e encosto meus lábios aos dela. As suas mãos acariciam o meu cabelo
ternamente, despertando um desejo primitivo de cobri-la com meu corpo para
lhe proporcionar todo o prazer do mundo.
— Vamos embora? Preciso de você. — Faço esse convite sem deixar de
fitar seus olhos.
— Eu vou aonde você quiser. — Mais uma vez ela sorri, me transformando
em apenas um menino, perdidamente apaixonado.

Uma das atividades que mais gosto na vida, é o sexo. Uma boa transa é
fundamental para aliviar o estresse do dia a dia. No entanto, dividir um momento
sexual com alguém que é especial na sua vida é precioso.
Seguro a sua bunda para apoiá-la, enquanto me cavalga. Ela está com seus
lindos cabelos castanhos grudados na pele e com as bochechas coradas pelo
esforço de subir e descer sobre mim.
Sou capaz de gozar apenas com essa visão, ninguém é tão sexy quanto ela,
Samantha é naturalmente linda.
— Você é tão gostoso. — ela diz em meio a um gemido e apalpa os
próprios seios transformando esse simples ato em algo profundamente sensual.
— Quando está dentro de mim fico completamente perdida.
— Cuidado com o que fala, posso usar isso contra você em breve. — Sorrio
da cara de desgosto dela.
Antes que ela fale algum desaforo e quebre o nosso clima, puxo o seu corpo
e cubro seus lábios com os meus. Aproveito essa nova posição para assumir a
intensidade dos nossos movimentos.
Eu queria ter o controle de transar com ela sem pressa, mas quando estou
dentro do seu corpo, a ansiedade me domina constrangedoramente.
Samantha entra em sincronia comigo e, juntos, chegamos ao orgasmo
deixando escapar sons desconexos pelo quarto.
Abraço o corpo dela e tiro os fios de cabelo que estão grudados em seu
rosto. A sua respiração ainda é agitada e sopra um vento quente no meu pescoço.
Gosto desse momento que sempre passamos juntos depois do sexo. É
reconfortante senti-la próxima e carinhosa. Samantha é sempre tão atrevida e
insolente, que nos raros momentos em que fica serena, eu fico perdidamente
encantado.
Ela escorrega a mão pelo meu peito acariciando a minha pele com ternura.
Fecho os olhos assimilando o seu carinho, me sentindo, pela primeira vez na
vida, conectado verdadeiramente com uma mulher.
— Eu não queria que essa nossa viagem acabasse nunca. — Ela fala em um
sussurro.
— Tudo tem um fim. — Beijo seu rosto. — Mas de vez em quando iremos
viajar para manter esse nosso espírito aventureiro em dia.
Nunca falamos sobre o que irá acontecer quando voltarmos para o Rio, mas
se depender de mim não largo nunca mais essa mulher.
— Lá é nossa vida real, Zander.
— Assim como o que estamos vivendo é real. — Viro o corpo dela e fico
por cima. — Acostume-se comigo na sua vida, senhorita Diniz, eu quero você.
Não vou esconder completamente os meus sentimentos. No momento não
vou revelar a minha paixão, mas preciso deixar claro que a quero comigo.
O olhar surpreso dela me faz sorrir, acho que a minha garota não esperava
que eu assumisse que a quero definitivamente na minha vida.
— Deixa acontecer naturalmente, Sam. — digo essa frase clichê, em
referência a um dos pagodes cafonas que ela cantou durante a viagem.
— Gravou a música que cantei? — Ela entende o que quis dizer.
— Impossível não lembrar quando você quase me deixou surdo. — Ela
soca o meu peito sorrindo.
— Você é um merda. — Samantha me beija rapidamente. — Preciso ir ao
banheiro, não saia daqui. — Suas mãos pequenas empurram o meu peito.
— Estarei aqui me recuperando para a próxima rodada. — Pisco para ela e
admiro seu lindo traseiro requebrando até o banheiro.
Por dois anos eu admirei essa bunda cada vez que ela saía da minha sala.
Não nego que me masturbei incontáveis vezes sonhando em tomá-la de quatro,
com essa bunda linda na minha frente.
Desde que vi Samantha pela primeira vez, senti uma atração incontrolável
por ela. E tudo piorou com as nossas brigas no escritório. A cada embate, a
minha vontade era jogá-la sobre a mesa do escritório e silenciá-la com vários
orgasmos.
O som do celular dela quebra as minhas lembranças. Sam anda deixando o
aparelho desligado por muito tempo, de acordo com ela quer se desconectar um
pouco do mundo real, mas pode ser algo com a sua mãe.
Estico o braço e pego o aparelho, trinco os dentes quando vejo o nome do
Morales piscar no visor.
O que esse merda quer com a Samantha? Ele precisa saber logo que eu
estou com meu time no campo e agora ela é toda minha.
— Alô? — Aguardo o filho da puta responder.
— Esse número é da Samantha? — ele pergunta intrigado.
— É dela sim. — Se neste momento eu estivesse na frente dele, responderia
com um soco naquela cara feia. — O que você quer com ela Morales?
— Zander? É você?
— E quem mais seria? — Agora estou espumando de raiva.
— Onde está a Samantha?
— Desde quando tem o direito de perguntar por onde ela anda? Pelo que eu
saiba, não tem intimidade para isso. — Estou literalmente fervendo de ciúmes.
— O que deu em você? Está com algum problema? — A voz dele tem uma
nota de deboche que me irrita.
— Problema tem você em ficar perseguindo a Sam. — Neste momento
Samantha abre a porta do banheiro e me encara. — A partir de agora está
proibido de ligar para ela. Apague o número dela da sua agenda.
Encerro a ligação e fito Sam com raiva. Ela é uma feiticeira que acabou
com a minha vida, agora estou até fazendo cena de ciúmes, como se eu fosse um
namorado inseguro.
— Você atendeu minha ligação? — ela pergunta com uma voz acusatória.
— Atendi a ligação daquele imbecil do Morales.
— E quem te autorizou a mexer no meu celular?
— Não preciso de autorização para mandar aquele velhote para a casa do
caralho.
— Meu Deus! Você está louco.
Pulo da cama e sigo na direção dela sem me preocupar com a minha nudez.
Agora tudo o que me importa é tentar descobrir se eles tiveram algo mais íntimo.
Não consigo esquecer o dia que nos encontramos no restaurante e o Morales a
beijou na minha frente.
— Você transou com ele? — Preciso saber dessa resposta, ou vou
enlouquecer de ciúme.
— Que pergunta é essa?
— Transou ou não transou?
— Para Zander, você está descontrolado.
— Vou ficar muito mais se você não responder.
— Enquanto não se acalmar eu não digo nada.
Respiro fundo tentando controlar a porra do meu temperamento. Estou
quase espumando de raiva e me odiando profundamente por revelar o quanto
estou envolvido por ela.
Para não demonstrar ainda mais o meu ciúme, procuro pelas minhas roupas.
Preciso sair deste quarto para colocar a cabeça no lugar, se eu ficar aqui teremos
uma briga gigante.
— Aonde vai? — Samantha me questiona quando começo a abotoar a
camisa. — Zander, você está sendo infantil.
Ignoro o que ela diz e sigo em busca dos meus sapatos. Não quero ficar
perto dela, preciso me acalmar e encontrar o meu equilíbrio.
— Zander... — Ela tenta me paralisar.
— Agora não. — Esquivo do seu toque e saio do quarto.
Estou com raiva de mim por demonstrar o quanto a possibilidade de ela ter
transado com o Morales me afeta. Só de imaginar que os dois possam ter tido
alguma intimidade, sinto um desespero insano.
Não posso aceitar que aquele desgraçado tenha experimentando o corpo
perfeito da Sam. Ele não merece uma mulher tão graciosa como ela. Aquelas
mãos sujas não são dignas de tocá-la.
Quando saio do hotel, olho para o início da noite paulistana e me sinto
perdido. Começo a andar sem rumo, desejando apenas que minha cabeça volte a
raciocinar.
CAPÍTULO 24

Samantha

— Que grande merda! — Jogo o celular na cama quando mais uma ligação
para o Zander cai na caixa postal.
Não sei o que está acontecendo com o Zander, ele está completamente
descontrolado. Maldita hora que o Morales me ligou, agora terei que encontrar
uma maneira de controlar a fera.
Se eu não conhecesse bem aquele esquentadinho, diria que está com
ciúmes, mas essa é uma possibilidade nula. Na verdade, o que está acontecendo
é uma competição. Certamente ele não aceita a possibilidade de o Morales ter
tido algum envolvimento comigo.
— Que babaca!
Descarto o telefone e ligo a tevê. O que me resta no momento é esperá-lo
voltar. Não adianta eu sair por aí atrás dele, até, porque, não conheço nada em
São Paulo.
Depois de algum tempo, fico entediada com a televisão e decido ligar para a
Cris. Com a loucura das últimas semanas, mal tivemos tempo de conversar.
Ela me atende empolgada, o que também me anima e bloqueia os meus
pensamentos. Passo quase trinta minutos conversando com ela, mas ao encerrar
a ligação, volto a ficar angustiada.
Quando penso que ele nunca mais irá voltar, escuto a porta abrindo. O meu
coração acelera, não sei o que esperar da conversa que iremos ter. Só espero que
tudo termine bem. Depois do fim de tarde romântico que tivemos, eu jurei que
algo maior estava acontecendo entre nós.
Ele descarta a carteira e o celular em uma mesa próxima a porta e tira os
sapatos. Fico calada sem saber o que falar.
— Zander, quer conversar? — Não consigo segurar a ansiedade.
A iluminação do quarto é bem baixa, ainda assim me dá a visão perfeita do
seu rosto tenso. Ele está se segurando para não explodir, só não sei por quanto
tempo vai conseguir conter sua fúria.
— Quero te pedir desculpa pelo meu destempero, eu perdi a cabeça.
Sou pega de surpresa com a sua mudança de postura. Pensei que teria que
enfrentar outra briga, mas pelo jeito, ele conseguiu se acalmar.
— Eu não transei com ele.
Acho justo acabar com a curiosidade dele, já que me pediu desculpa com
tanta sinceridade. Sei o quanto esse pedido deve estar sendo difícil para ele.
— O quê?
— Você me ouviu. — Pulo da cama para me aproximar. — Não transei com
o Morales, apenas saímos juntos algumas vezes.
— Ele te beijou.
— Foi só daquela vez. — Zander me encara com intensidade.
— Está dizendo isso para me acalmar?
— Não preciso te acalmar, se eu tivesse transado com o Morales te diria
sem problemas. A vida é minha Zander, ninguém manda em mim.
Vejo o peito dele se expandir, seu rosto ainda está angustiado, mas a sua
postura relaxou um pouco.
— Eu quase morri com a imagem daquele infeliz tocando em você.
Ele estende a mão e me puxa. Em seguida esconde o rosto na curva do meu
pescoço. O seu calor me acalma e percebo o quanto precisava desse contato.
— Também não me agrada a imagem da vaca da Vanessa te tocando. —
Acabo de falar e o sinto sorrir.
— Acho que estamos com problemas. — Ele ergue a cabeça e acaricia o
meu rosto. — Promete que vai ficar longe do Morales?
O brilho intenso no seu olhar demonstra o quanto essa resposta é
importante.
— Prometo. — Ele solta uma respiração profunda.
Em um movimento inesperado, ele segura a minha nuca e cola a boca na
minha. O beijo é exigente e firme. Apesar da nossa conversa, ele ainda está
fervilhando por dentro. A maneira intensa que me segura, mostra o quanto ainda
se sente raivoso.
Sem mais palavras, ele se despe e tira a minha blusa. Caímos na cama nos
devorando e nos tocando com desespero. Tudo o que eu queria neste momento
era dizer que estou loucamente apaixonada por ele e que nenhum homem neste
mundo pode me interessar.
Mesmo sem expressar nenhuma palavra, tento demonstrar em cada toque
que ele roubou o meu coração. Espero que ele não esteja tão cego de ódio ao
ponto de não perceber o sentimento que escorre a cada respiração que exalo.
A nossa transa é bruta, muda e repleta de palavras não ditas. Em cada
movimento, sinto que ele também tenta me mostrar algo apenas com o seu
corpo. Não sei se Zander está tão apaixonado por mim quanto estou por ele, mas
se ao menos eu tivesse um pequeno sinal de que o meu sentimento é
correspondido, criaria coragem para me abrir.
Quase que ao mesmo tempo, chegamos ao orgasmo. O meu corpo parece
que vai entrar em combustão. Não existe nada mais gostoso do que sexo de
reconciliação.
— Eu não quero esse cara te ligando, mandando mensagem ou te
procurando. — A voz baixa dele é ameaçadora.
— Ele não representa nada para mim. Somos apenas amigos.
— Mas você representa para ele. Não quero ninguém cercando a minha
mulher.
Meu coração dispara com a sua declaração. Ele está se roendo de ciúmes e
isso significa que está sentindo algo mais forte por mim.
— Só quero você, Zander, não desejo mais ninguém. — Acaricio o seu
cabelo e, em seguida puxo forte e com raiva por ele ter me feito sofrer. — E na
próxima vez que tivermos um problema, converse comigo, não fuja. — Ele
fecha os olhos e quando volta a abri-los, vejo medo no seu olhar.
— Desculpa, eu tive um momento de descontrole.
— Está desculpado. — Beijo sua boca, sem querer pressioná-lo demais. —
Você jantou?
— Não. Fui andar para me acalmar, a última coisa que senti foi fome.
— Mas eu estou faminta. — Ele sorri e sai de dentro de mim arrepiando
todo o meu corpo.
— Vamos comer a sua pizza em uma pizzaria bem paulistana. Eu prometi
que te levaria.
Ele me puxa da cama e me leva para o banheiro, voltando a ser o Zander
que ganhou o meu coração. Por hora parece que acertamos nossos pontos, só não
sei o que vai acontecer quando todo esse sonho acabar.

Depois do incidente da ligação do Morales, eu e Zander tivemos uma noite


tranquila e repleta de romantismo. Ele me levou para jantar em um lugar incrível
e se comportou como um verdadeiro namorado.
Quando o garçom disse que tinha uma mesa ideal para um “casal de
namorados”, ele não negou o status do nosso relacionamento. Apenas sorriu e
seguiu o homem como se realmente fossemos namorados.
Isso me acalmou bastante e me deu certeza de que enquanto estivermos
nesta viagem, ficaremos juntos.
Assim como em Santa Catariana e no Paraná, a situação do escritório de
São Paulo é tranquila. A equipe de auditoria que Zander contratou está
terminando o trabalho e não achou nada de errado nas contas.
O problema do Rio Grande do Sul foi algo isolado, até o momento não
encontramos nenhum erro nas contas dos outros escritórios.
— Pelo jeito não temos muito o que fazer por aqui. — digo quando saímos
da reunião com o Gerente da Auditoria.
Saber que estamos perto de ir embora me entristece. Essa viagem me trouxe
alegrias que nunca imaginei viver. Ter esse lado tão carinhoso do Zander me
deixou surpresa e com um sentimento de apego que não esperava sentir tão cedo
por um homem.
Caso dependesse de mim, não acabaria a nossa viagem tão cedo, ficaria
neste mundo paralelo com ele vivendo esse sonho tão perfeito.
— Estou feliz por saber que tivemos um problema pontual. Foi bom passar
por todos os escritórios, isso mostrou a todos que estou de olho em tudo.
— Realmente foi bom, ficou um alerta que você não perde o que acontece
nos estados.
— Isso mesmo. — Zander sorri quando entramos na sala que ficou
destinada para ele trabalhar. — Lamento informar, mas nossa viagem não
terminou ainda. — O meu coração acelera com a sua declaração.
— Não? — pergunto ansiosa.
— Não. — Ele segura o meu queixo e beija minha boca. — Teremos um
evento de negócios amanhã à noite.
— Como assim um evento?
— É um encontro com alguns empresários, acabei dando sorte de chegar a
cidade a tempo de participar.
— Você deveria ter me avisado, não tenho roupa para esse tipo de evento.
— Se tem uma coisa que você pode encontrar com facilidade em São Paulo
é um vestido. — Com extremo carinho, ele beija a minha mão. — Eu preferia
você nua, mas não quero chocar as pessoas com tanta beleza.
— Para de se comportar como um bobo. — Passo os braços ao redor da sua
cintura. — Na verdade eu preferia ficar no hotel com você, mas se é negócios, eu
não posso deixar de te acompanhar.
— Passaremos um bom tempo no hotel hoje.
Ele segura o meu rosto com as duas mãos e me dá um beijo lento e terno. O
meu corpo vai se derretendo aos poucos e, quando ele suspende a cabeça, eu
estou flutuando.
— Assim que eu resolver alguns detalhes por aqui, vou dar um jeito na
minha barba e no cabelo. Não posso ir nesse evento parecendo um náufrago e
quero que você compre um vestido. — Ele se afasta um pouco e coloca a mão no
bolso tirando a carteira. — Compra algo bem chique, não importa o valor, o
evento é de luxo, quero que seja a mulher mais bem vestida do lugar.
Olho para o cartão e não faço nenhum gesto para pegá-lo. Gosto de comprar
o meu próprio vestuário. Apesar de saber que me dar esse vestido não custará
nada para ele, não me sinto bem com a sensação de ser um mais uma das suas
garotas de grife.
— Não precisa de cartão, eu vou ver o que consigo achar mais tarde.
— Claro que precisa, você não vai gastar seu dinheiro por causa de uma
festa que eu tenho que ir.
— Você disse tudo, Zander, eu não tenho que ir. Essa festa é para você. —
Ele me olha surpreso.
— O que eu fiz de errado? Por que está nervosa?
Fecho os olhos e respiro fundo, acho que estou ficando louca. A iminência
do fim da nossa viagem está me deixando com os nervos a flor da pele. Não sei o
que realmente esperar quando voltarmos para o Rio.
Eu estou feliz demais com tudo o que está acontecendo conosco. Não quero
voltar a ser apenas a secretária dele. Quero manter tudo o que estamos vivendo.
Não vou suportar vê-lo sem poder tocá-lo.
— Desculpa, eu só estou confusa. — Não gosto de assumir fraqueza, mas
não posso deixar de conversar com ele. — Não sou como suas namoradas que
amam receber presentes. Prefiro comprar minhas próprias coisas.
Ele me observa por alguns segundos com o rosto tenso, em seguida suspira
profundamente.
— Sam, você vai comprar uma roupa para o trabalho. Não será uma festa
para nos divertimos, eu estarei nela para encontrar possíveis fornecedores,
conseguir preços mais baixos para minhas lojas. É um pouco injusto você pagar
por uma roupa quando eu vou ganhar um bom dinheiro na festa.
Pensando por este lado, ele está certo. Enquanto eu vou ficar mais pobre,
ele vai ganhar possivelmente milhões.
— Se acha que estou te comprando ou algo assim, para de loucura, isso não
rola entre a gente.
— Eu sei. — Agora estou me sentindo uma desequilibrada emocional.
— Toma o cartão. — Ele segura a minha mão e coloca o cartão no meio
dela. — Compra um vestido e um sapato bem sexy. Depois da festa quero você
apenas com os sapatos. — O meu corpo esquenta com o seu pedido.
— Esse cartão tem limite? — Decido voltar a ser eu mesma e fazer uma
brincadeira.
— Acredito que o limite seja o suficiente para você se divertir. — Recebo
uma piscadinha brincalhona que me faz sorrir.
Eu vou foder com o cartão dele. Já que ele me quer linda, então eu vou
caprichar.

— Samantha, pelo amor de Deus sai desse banheiro, já estamos atrasados.


Zander está a uma hora dizendo que estamos atrasados, mas não estamos
nada, ele que é implicante demais. Quer tudo do seu jeito e na hora que deseja.
— Por que você é tão chato? — Pergunto quando saio do banheiro.
— Eu não sou... — ele interrompe o que ia dizer quando me vê. — Puta que
pariu! Você está muito gostosa. — Os olhos dele percorrem o meu corpo com
extremo desejo. — Agora é que vamos nos atrasar.
Não vou negar que caprichei. Comprei um vestido vermelho, com o
cumprimento abaixo dos joelhos, com decote em canoa, uma sandália também
vermelha com tiras e salto fino.
— Claro que não vamos nos atrasar, eu estou pronta.
Ele não me responde e avança sobre mim segurando o meu corpo. Espalmo
as mãos sobre o seu peito firme e vejo em seus olhos o quanto está cheio de
tesão.
— Meu anjo, com você gostosa assim, eu não posso sair sem te comer. —
Sinto um reboliço dentro de mim.
— Às vezes você é tão previsível. — Remexo o corpo e escapo do seu
toque. — Ninguém vai transar aqui, vamos para a festa, depois podemos entrar
em um acordo.
— Acordo? — Ele ergue a sobrancelha me observando enquanto pego a
bolsa.
— Sim, acordo. — Guardo o celular e me viro para ele. — Se você se
comportar bem, não ficar se exibindo demais para essas paulistanas e não me
controlar o tempo todo, podemos ter um sexo selvagem na sacada.
Observo seus lábios abrirem um sorriso sacana e seus olhos ficarem em
uma linha fina. Esse homem está pensando em alguma sacanagem grande e
estou louca para saber qual é.
— Cuidado com o que deseja. — O seu olhar intenso me derrete inteira. —
Vamos para essa porra de festa logo. Quanto mais rápido chegarmos, mais rápido
vamos embora.
— Com pressa?
— Não me provoque.
Ele segura a minha mão e caminha a passos largos para a porta. Posso estar
errada, mas essa festa será um teste para a paciência de certo alguém.

Olho ao redor apreciando o espaço onde o evento está sendo realizado. O


lugar é lindo, chique e com um seleto grupo de participantes.
Agora entendo claramente o que o Zander quis dizer em ganhar dinheiro.
Com a lábia que ele tem, vai sair daqui com alguns acordos milionários.
Ele está lindo com terno escuro, uma camisa de seda preta e gravata cinza.
Elegante não define o seu estilo, na verdade ele está deslumbrante.
— Samantha, que surpresa encontrá-la. — Lentamente viro o corpo e me
deparo com o Morales.
Ai que merda, Zander vai pirar!
— Morales, como você está? — Ele me envolve em um abraço apertado.
— Estou com saudades de você, essa sua viagem está longa demais. —
Ainda me segurando pelos braços, ele se afasta um pouco e desliza os olhos pelo
meu corpo. — Você está ainda mais bonita ou sou eu que estou com muita
saudade?
Sinto o meu rosto esquentar, não consigo me acostumar com esses elogios
fervorosos dele. Morales é o conquistar barato mais charmoso que conheço.
— São seus olhos. — respondo sem graça. — Você também não está nada
mal. — Sorrio maliciosamente. — Esse terno está um arraso.
— Aluguei. — Ele sorri. — Esqueci o terno da festa, apenas quando
cheguei a cidade é que percebi que estava sem roupa para o evento.
— Você não existe.
— Fazer o quê? Eu não tenho a sorte de ter uma assistente como você. —
Ele dá de ombros. — Quando volta para o Rio? Estou com saudades da minha
companheira de balada. — Fico apreensiva quando ele entrelaça os dedos aos
meus. — Ontem o seu chefe atendeu uma ligação que fiz e me proibiu de te
ligar. Está acontecendo algo que eu deva saber?
Como vou responder a essa pergunta? Não posso contar que estou
transando com o Zander, isso é algo que precisa ficar em segredo.
— O que está acontecendo aqui? — A voz potente do Zander não me deixa
responder. — Tire suas mãos dela. — Com um gesto brusco, ele separa nossas
mãos.
— Como vai, Saramago? Pelo jeito você não conseguiu aprender bons
modos durante suas férias.
— Dispenso suas piadas. — Zander me olha com raiva e depois volta a
encarar o Morales. — Mantenha distância da senhorita Diniz, ela não está aqui
para flertar com um Dom Juan de quinta categoria.
— Mas está para flertar com você?
— Diferentemente de você que é um pangaré, eu sou um cavalo de raça que
merece o flerte de uma mulher do nível dela. — Acompanho com interesse a
troca de gentilezas dos dois.
— Que comparação esdrúxula, Saramago. — Morales fala sorrindo.
— Samantha, eu quero te apresentar a alguém, dê adeus a esse
desclassificado.
— Como? — Não acredito que ele está querendo mandar em mim. Apesar
de saber que ele está se roendo de ciúmes, não vou dar asas a sua possessão. —
Se não percebeu estamos conversando.
— Percebi, mas você tem que conhecer alguém.
— Vá, Samantha, seu chefe parece estar um pouco ansioso para te
apresentar a esse “alguém”. — Com toda a calma do mundo, Morales beija o
meu rosto. — Se sobrar um tempo, faço questão de beber um drinque com você.
— Pelo amor de Deus, Morales, vá beber drinque com o capeta. — Prendo
os lábios para evitar sorrir do seu xingamento. Ele zangado é muito engraçado.
Sem me deixar responder, Zander me puxa para a área externa do evento
cuspindo fogo. Esse homem é esquentadinho demais e eu adoro isso.
— Quanta grosseria. — digo me fazendo de chateada.
— Não me provoque, nós já conversamos sobre ele. Pensei que tínhamos
nos entendido. — Ele fica na minha frente. — Fica longe desse filho da puta, o
Morales é um cretino.
— E você, não?
— Sou um cavalheiro, bem diferente dele.
— Pode parar, Zander, você não vale a comida que come, assim como o
Morales. — Agora ele que faz cara de ofendido.
— Depois de passar tanto tempo comigo, pensei que soubesse distinguir o
joio do trigo.
Ele não espera a minha resposta e sai de perto de mim. Não acredito que
brigamos mais uma vez por nada. O que deu nesse homem para ficar tão
melindrado? Será que não me ouviu quando disse que ninguém mais me
interessa além dele?
CAPÍTULO 25

Zander

Não sei o motivo de Samantha e eu brigarmos tanto, mas tem horas que a
minha vontade é nunca mais olhar para ela.
Que mulher tinhosa, não consegue nem uma vez na vida escutar o que digo.
Tudo é motivo de conflito e bate boca, essa personalidade intransigente dela é
um pé no saco.
E esse maldito Morales é um belo filho da puta, só aparece na nossa vida
para causar confusão. Odeio esse verme com todas as minhas forças, se eu não
fosse obrigado a manter negócios com ele, iria afastá-lo da Sam para sempre.
Meus planos hoje era firmar o maior número de negócios no menor tempo
possível para poder carregá-la para o hotel. Samantha está tão divina, que a
minha vontade é passar a noite apenas admirando a sua beleza.
Atrás de toda essa beleza se esconde uma onça que sempre está pronta para
me dar o bote. E ainda tenho que aturar seus admiradores. É muita frustração
para um homem.
Tento controlar minha raiva para voltar às negociações, não posso me
aproximar de possíveis parceiros com o humor do cão que estou.
Quando sinto que estou equilibrado, volto à roda de negociações. Não
existe nada melhor do que conversar com empresários que estão se esbaldando
no uísque e com suas amantes. Eles tendem a ficar mais acessíveis e, é nesse
momento que consigo bons acordos.
Passo os próximos trinta minutos circulando entre várias rodas e trocando
telefones. As possibilidades de boas parcerias pipocam a cada aperto de mão,
quando eu voltar para o Rio, terei um tempo cheio tentando efetivar todas as
promessas que recebi.
Evito olhar para o local onde Sam está, se eu me concentrar nela, não faço a
metade do que programei para a noite.
— É impressionante o crescimento que você conseguiu para a sua rede de
lojas, Saramago, na crise que estamos atravessando, ter essa ascendência é um
feito e tanto.
— Obrigado. — Fico lisonjeado com a observação dele, mas a minha
atenção agora está completamente na cena que se desenrola na minha frente.
Um homem jovem, boa aparência e com cara de aproveitador, se aproxima
da Samantha. Ele diz algo que a faz sorrir e eu conheço bem aquele sorriso
safado dela. Essa mulher quer foder comigo, mas não vai conseguir.
— Se você estiver disposto José, podemos fechar uma parceria. — Tiro o
meu cartão do bolso e estendo para ele. — Amanhã irei para o Rio, mas ficarei
na expectativa da sua ligação.
— Claro que irei te ligar, será interessante fazer negócio com você.
— Que bom. — A minha mente está completamente longe da nossa
negociação. — Com licença, preciso resolver um problema.
Escapo dele e sigo na direção do casal que conversa animado. Vou jogar
água no chope deles em segundos. Quero ver os dois manterem esse sorriso
afetado no rosto.
— Quem é seu amigo, Samantha? — Sequer me preocupo em me
apresentar.
— É o Thales. — Ela sorri. — Thales esse é o Zander Saramago, o meu
chefe.
— Muito prazer. — Sorrindo como um imbecil, ele estende a mão para
mim.
— O que deseja com a Samantha? — Aperto a mão dele com força
extrema, para deixar bem claro que está invadindo o meu espaço.
— Vi que ela estava sozinha e decidi fazer companhia. — Ele gagueja a
resposta.
— Bom... agora ela não está mais sozinha, pode ir embora. — Solto a mão
dele e cruzo os braços.
Se esse merdinha não sumir, eu vou ter que dizer com todas as palavras que
Sam está fora do mercado.
— É... foi um prazer te conhecer, Samantha.
— O prazer foi meu. — Sam diz para as costas dele, já que o medroso nem
esperou pela sua resposta. — Por que você é sempre tão indelicado? — Os olhos
dela estão cheios de raiva.
— Porque você me provoca. — Respiro fundo para não a beijar agora. —
Vamos embora, perdi a paciência com o evento.
— Já? Você sequer conversou com todas as pessoas que tinha em mente.
— Como conversar se você não consegue manter esse monte de merda
longe de você? — Perco o controle e deixo o meu ciúme escapar. — Se não quer
presenciar uma cena histórica aqui, é melhor encerramos a noite.
Vejo um brilho de satisfação escapar por seus olhos. Essa feiticeira está
adorando o meu desequilíbrio. Maldita seja essa mulher, ela ainda me paga por
me deixar tão louco de ciúmes.
Sem mais protestos, saímos da festa. Só não escapamos de encontrar com o
Morales e uma bela garota grudada no seu pescoço. Graças a Deus ele encontrou
um par, assim esquece um pouco da minha mulher.

O silêncio foi nosso grande companheiro enquanto voltávamos para o hotel.


O nível de tensão entre nós era palpável. Sam não fez questão de esconder o
quanto estava chateada comigo. Ela bufou em vários momentos e não dirigiu
nenhum olhar para mim enquanto estávamos no elevador.
— Quer uma bebida? — pergunto para quebrar o gelo entre nós.
— Não. — Ela descarta a bolsa e tenta se afastar, mas não permito que vá
muito longe.
— Aonde pensa que vai? — Puxo o corpo dela e a abraço por trás,
afundando meu rosto na massa encorpada dos seus cabelos. — Você me
prometeu sexo selvagem na sacada.
— Isso se você se comportasse. — Ela tenta se soltar.
— Mas eu não fiz nada, só tinha olhos para você.
— Não fez nada? Como não fez? — Ela vira o rosto para me encarar. —
Você foi extremamente desagradável e intolerante.
— Eu só estava te protegendo de dois canalhas, deveria me agradecer. —
Passo o dedo pelo seu lábio inferior. — Não tenho culpa se você desperta um
lado obscuro dentro de mim.
— Você não pode ser desagradável assim, precisa se controlar.
— Eu perdi a cabeça com aqueles dois gaviões.
Interrompo o que ela ia falar e capturo os seus lábios. Preciso dela,
necessito sentir que sou o homem que deseja.
Degusto seus lábios com calma, vou deixando o seu gosto se espalhar pela
minha boca. Ela geme, despertando um gatilho de tesão dentro de mim.
Movo o seu corpo entre meus braços para poder beijá-la como quero.
Imediatamente ela cruza os braços no meu pescoço e inclina a cabeça para
aprofundar o beijo.
É tão bom sentir seus lábios, ela é perfeita. Sou capaz de passar o dia inteiro
apenas sentindo essa boca grudada na minha.
— Segura em mim. — digo enquanto enlaço a sua cintura e ergo o seu
corpo.
Ela enrosca as pernas no meu quadril e aperta meu pescoço com força. Sem
deixar de beijá-la, eu caminho até a grande porta de vidro, que dá para a varanda.
Não vou fodê-la na sacada, mas quero ver as luzes da cidade enquanto atiço o
seu corpo.
— Eu gostei da sua proposta da varanda, mas não quero arriscar que algum
voyeur aprecie o que estamos fazendo. — Viro seu corpo e abro o fecho do seu
vestido. — O seu prazer é só meu, não quero que ninguém tenha a visão divina
de quando goza.
Deslizo o vestido por seu corpo e a deixo apenas de fio dental e com os
lindos sapatos vermelhos. É uma visão celestial olhar para ela nesses saltos, sua
sensualidade nata me enlouquece.
Lentamente vou retirando a sua calcinha, vou deixá-la apenas com os
sapatos. Não sei ao certo o motivo, mas acho sexy uma mulher apenas com esse
item.
Testo a sua umidade enquanto espalho beijos pelo seu pescoço. Samantha
se esfrega na minha mão, mostrando que me quer dentro dela assim como eu
desejo fervorosamente invadir o seu corpo.
Passo alguns minutos a estimulando, mas minha própria ansiedade não me
permite que eu prolongue mais o nosso momento. Libero a minha ereção e
centralizo na sua boceta molhada.
Sem nenhuma resistência, deslizo para o seu interior e encontro o calor que
tanto ansiei. Recuo um pouco e quase saio dela, mas antes que ela possa
protestar, volto a investir profundamente.
A necessidade de liberar a tensão que se formou em mim desde que a vi
nesse vestido me faz imprimir um ritmo intenso. Seguro o seu quadril e me
delicio com a visão do meu pau sumindo dentro dela.
— Olhe para o seu reflexo, Sam, veja como fica linda quando está cheia de
tesão.
Ela encara a vidraça, enquanto eu arremeto dentro dela. Seus olhos buscam
o meu rosto, ela parece fascinada com a visão dos nossos corpos em perfeito
sincronismo.
Seguro um dos seus seios e inclino seu corpo para que a bunda dela fique
mais empinada. Escuto ela arfar quando faço um movimento que aprofunda a
penetração.
Perco completamente o controle e a seguro com força enquanto nos
encaminho a passos largos para a beira do orgasmo.
Ela é a primeira alcançar o prazer com um grito rouco que me causa uma
intensa satisfação masculina. Aproveito o embalo do seu clímax e deixo o gozo
me dominar, fazendo todo o meu corpo tremer.
É uma loucura cada vez que estamos juntos, nada se compara ao que eu
divido com ela. Samantha é perfeita para mim e não vou deixá-la fugir por nada
neste mundo.

— O que você tem? Por que está tão calada?


Depois da noite perfeita que tivemos ontem, Sam amanheceu quieta. Em
vários momentos tentei fazê-la se animar, mas os poucos sorrisos que me deu
não iluminaram seus olhos.
— Não tenho nada, só estou sentindo saudades da nossa viagem.
— Ainda não acabou. — Seguro a mão dela e a trago até meus lábios. — E
podemos programar outras em breve.
— É...
Com esse simples monossílabo, ela vira o rosto e fica pensativa olhando a
paisagem pela janela do carro.
Estamos na estrada desde cedo e já alcançamos a região metropolitana do
Rio. Voltar de carro foi uma boa ideia, isso nos deu tempo de ficarmos mais
juntos.
Não posso negar que também me sinto angustiado com a volta ao nosso
mundo real. De uma coisa eu sei: não abrirei mão de Samantha. Quero manter o
nosso relacionamento, é impossível imaginar ficar sem tê-la perto de mim.
— O que acha de conversar comigo? Se você continuar na sua bolha de
pensamentos, eu não vou conseguir entender o que se passa com você.
— Não quero falar.
Começo a me sentir frustrado, não quero brigar com ela, mas também não
vou ficar calado. Caramba! Custa ela dizer o que está acontecendo?
— Eu disse alguma coisa que te aborreceu?
— Relaxa, Zander, não é você, sou eu.
Merda! Merda! Merda! Esse é o tipo de frase que falo quando estou prestes
a terminar com alguma mulher. O que está se passando na cabeça dessa maluca?
Com essa resposta, ela me faz mergulhar no meu próprio mundo. E,
surpreendentemente, começo a ficar inseguro.
O caminho até a casa dela é feito em completo silêncio. O clima entre nós
azedou completamente. Sequer parece que passamos uma noite intensa de
paixão.
— Entregue. — digo quando estaciono na frente do seu prédio.
— Obrigada por me trazer até aqui. — Ela estica a mão para abrir a porta
do carro, mas seguro seu braço.
— Ei, e o meu beijo? — Não quero essa distância entre nós, preciso quebrar
o muro que ela ergueu durante a viagem.
Não espero a resposta, seguro seu rosto e desço minha boca sobre a dela. A
tensão está impregnada pelo seu corpo e seus lábios não correspondem com a
naturalidade habitual ao nosso beijo.
Tento o meu melhor para fazê-la relaxar, mas a cada avanço da minha
língua em sua boca, ela fica ainda mais tensa. Com um suspiro de profunda
decepção, me afasto e busco seus olhos.
O medo que vejo neles me deixa sem chão. Não sei o que está passando na
cabeça dessa maluca, mas está claro o seu desespero com o fim da nossa viagem.
— Vou te ajudar a pegar sua bagagem.
Decido ignorar o seu estado de espírito, não vou pressioná-la a conversar
agora, esse não é um caminho inteligente. Apesar de saber que ela não é uma
mulher cheia de firulas sentimentais, sei que algo está acontecendo.
— O que vai querer jantar? — pergunto enquanto abro o porta-malas.
— Jantar? — Ela me olha confusa.
— Sim. Eu vou descansar um pouco depois de conversar com meu pai e à
noite trago o jantar. — Pego a mala dela e viro o corpo para encará-la. — Preciso
de tempo para tentar me acostumar a dormir sem você. — Faço um suave
carinho na sua bochecha.
Pela primeira vez vejo um sorriso sincero brilhar na sua boca linda. Acho
que disse a coisa certa, porque seus olhos voltam a ser calorosos.
— Você quer dormir na minha casa?
— Não exatamente dormir. — Puxo seu corpo para perto de mim. — Talvez
cochilar um pouco até a hora do trabalho. — Sem deixar de encarar seus olhos, a
beijo suavemente. — E aí, o que vai querer comer?
— Qualquer coisa, me surpreenda. — Sorrio.
— Eu vou mais que te surpreender.
Volto a beijá-la, e dessa vez ela corresponde como estou acostumado. Sua
mão segura meu cabelo com força, enquanto a sua boca busca a minha com
desespero. É dessa Sam que eu gosto, foi essa entrega extrema que me deixou
tão apaixonado.
Com dificuldade, me afasto dela. Se continuarmos, podemos ser acusados
de atentado ao pudor.
— Quer que eu te ajude a subir?
— Não precisa. — Ela pega a mala. — Até mais tarde.
— Até. — Com dificuldade deixo que se afaste, mas não vou embora até
vê-la acenar e sumir na portaria.
Que grande merda. Eu estou completamente apaixonado pela minha
secretária. Isso indiscutivelmente não vai acabar bem, terei problemas sérios
com o nosso relacionamento, mas não posso evitar. Agora que provei dos
encantos de Samantha, eu não posso deixá-la fugir.
CAPÍTULO 26

Samantha

— Filha que saudades. — Minha mãe me sufoca com um abraço de
esmagar qualquer ser humano.
— Mãe, eu preciso respirar. — Ela se afasta.
— Desculpa, estava morta de saudade.
— Até parece que estou há anos fora de casa.
— Pra mim pareceu uma eternidade.
Com uma animação surpreendente, Nap vem me receber. Ele começa a
ronronar alto e quando pego a minha bolinha de pelo branco no colo, ele se
enrosca no meu pescoço.
Tadinho do meu bichano, ele deve ter sofrido na mão da minha mãe, ela não
tem a mínima paciência com o pobrezinho.
— Ahh, Nap, que falta você me fez. — digo quando o coloco no chão e o
vejo se enroscar nas minhas pernas enquanto mia.
— Esse seu gato parece gente, se eu não travo, toma conta da casa. —
minha mãe fala com desgosto.
— Para de implicância, deixa meu bichinho. — Passo um braço pelos
ombros dela. — Tem o que para comer aqui? Tô cheia de fome.
— Que menina gulosa. — Ela sorri satisfeita. — Vem com a mamãe que
vou inventar algo para você comer.
Extremamente feliz, eu a sigo para a cozinha, louca para comer algo
preparado pela minha mãe. Apesar de lamentar o fim da minha viagem dos
sonhos, não posso negar que estava com saudade de alguns aspectos da minha
vida real.

Olho para o meu rosto no espelho e lamento por não ter tido tempo de
colocar nenhuma maquiagem. O Zander está subindo e não vou ter tempo de
ajeitar meu visual.
Sei que ele já me viu em momentos piores, tipo quando acordo, mas ainda
assim, eu me sentiria mais segura se ele me encontrasse toda produzida.
Esse fim de viagem mexeu com a minha cabeça. Estou me sentindo outra
pessoa, com uma insegurança que nunca experimentei. O medo de perder tudo o
que vivi com ele é imenso. Não sei o que será de nós agora que voltamos a nossa
rotina.
Depois que deixamos São Paulo, a minha cabeça deu um nó, a vontade que
senti foi de pedir que ele seguisse viagem para os outros escritórios.
Acho que enlouqueci de vez.
O som da campainha acelera o meu coração, estou morta de saudade dele.
Sequer parece que o vi pela manhã, a sensação que tenho é de que não o
encontro há meses.
— A porta está aberta, entra. — grito do banheiro, enquanto tento ajeitar ao
menos meu cabelo.
— Você deixa a sua porta aberta? — Escuto-o resmungar.
— Abri porque estava subindo.
— Maldição! — Ele grita e escuto o miado do Nap.
Droga! Certamente Nap o recebeu pulando na sua perna.
Esse gato é terrível.
— O que foi? — Desisto da minha produção e vou para a sala.
— Esse bichano me agrediu. — Zander olha para ele raivoso. — Ele pulou
na minha perna.
— Foi uma maneira de dizer oi. — digo tentando amenizar a situação.
— Não quero o “oi” dele. — Prendo o sorriso para não o irritar ainda mais.
— Nap, vai dormir.
“Miauuuu”
Ele parece querer dizer que não vai dormir nada e pula no sofá arranhando
o estofado enquanto olha intensamente para o Zander.
Ai meu Deus! Mais um sofá destruído.
— Esse bicho não gosta de mim.
— Mas eu gosto. — Os olhos dele voam na minha direção.
— Gosta? — Todo o meu corpo se desmancha quando ele sorri. — O
quanto você gosta?
— Agora gosto muito, principalmente porque você trouxe algo cheiroso
para o jantar. — A carinha de decepção dele é hilária.
— Caramba, você pisoteou na minha autoestima.
Sorrio da sua resposta e me atiro sobre ele em busca de um beijo. Ele passa
um braço pela minha cintura e corresponde ao beijo empolgado
— Senti sua falta. — Não consigo evitar a sinceridade.
— Não mais que eu. — A sua declaração intensa, sem deixar de mirar meus
olhos, me faz ofegar. — Nossa comida está quente, vamos comer antes de
esfriar?
— Claro.
Seguro sua mão e sigo para a cozinha. Não é a primeira vez que o tenho na
minha casa, mas é estranho agora que somos íntimos.
A cozinha parece diminuir com a sua presença. Fico agitada com o seu
olhar intenso sobre mim, isso me deixa tagarela, e começo a falar sobre a tarde
na casa da minha mãe.
Zander segue o fluxo do meu falatório e me ajuda a ajeitar a mesa. Ele
também me conta a conversa que teve com pai e confidencia que passou
rapidamente na empresa.
Fico pasma com toda a sua disposição, ele passou parte da manhã dirigindo
e ainda guardou energia para passar o resto do dia nos negócios.
Recebo a notícia que a copa ficou pronta essa tarde e que a máquina de café
está instalada. Fico alegre como uma criança e já me imagino ostentando uma
xícara de expresso fresquinho pela manhã.
— Agora acabou nossas brigas. Seu café sempre será fresquinho. — digo já
lamentando não poder mais passar a perna nele.
Sorrio ao relembrar dos nossos embates todas as manhãs, mas quando olho
para o Zander, vejo que o seu semblante está sério.
— Precisamos conversar sobre nossa situação na empresa.
A maneira como ele fala “nossa situação”, me deixa com um bolo na
garganta e isso me faz perder o interesse no fim do jantar.
— Como assim nossa situação na empresa? — Será que ele vai me
demitir?
— Não quero você como a minha secretária, acho que a Cristina merece
assumir o seu cargo, ela tem se superado como sua assistente.
O meu coração dá um murro tão grande no meu peito, que minha respiração
falha. Levanto rapidamente e escuto o som seco da cadeira caindo.
— Samantha, o que foi? — Ele me olha assustado.
— O que foi? É séria essa pergunta? — Quero desesperadamente tacar algo
nesse maldito. — Você me demite e me pergunta o que foi? —O sorriso que
brinca em seus lábios me leva a loucura. — Para de rir seu merda!
— Pelo amor de Deus mulher, se acalma e senta.
— Você não manda em mim! — esbravejo descontrolada. — Saia da minha
casa.
— Senta e me deixa terminar de falar. — ele diz com autoridade. — Você
está se descontrolando sem necessidade, sequer terminei de concluir meu
raciocínio.
— E nem vai terminar. — Tento passar por ele, mas sua mão prende meu
braço e me faz sentar em seu colo. — Me solta!
— Caramba, você é insuportável. — Com brusquidão ele segura o meu
rosto e me beija. Estou com tanta raiva que acabo mordendo sua boca. — Porra,
Sam! — Ele me olha chocado. — Pare de ser maluca.
— Não vou pedir para me soltar novamente. — Minha voz sai baixa, porém
ameaçadora.
Ele suspira e fecha os olhos, mas seu aperto não ameniza. Quero socar a
cara dele, mas uma força desconhecida parece me paralisar.
— Se passou nessa sua cabeça doida a ideia de que vou te demitir, esquece
isso, nunca vai acontecer. — Olho para ele confusa.
— Mas... — Ele coloca o indicador na minha boca, me silenciando.
— Posso terminar de falar? — Concordo e fico quieta. — Eu já estava
querendo conversar com você sobre uma promoção, mas além de estar
esperando o encerramento do seu MBA, também estava tentando me acostumar
com a ideia de não ter você me atazanando o juízo.
— Não atazano o juízo de ninguém.
— Você sabe que faz isso, principalmente com esse temperamento
explosivo e essa bunda gostosa que me deixa de pau duro toda manhã. — Em
segundos saio do meu estado de raiva para envaidecida.
— Você fica de pau duro com a minha bunda? Sempre tive essa
desconfiança.
— Fico e adoro as nossas brigas. — Sinto a mão dele alisando a minha
perna. — Mas agora que estamos juntos, acho que o melhor é deixar você seguir
a sua merecida promoção. Nunca serei forte o suficiente para resistir a você.
Essa revelação me tranquiliza e ao mesmo tempo me preocupa. Será que ele
quer me promover só por que está dormindo comigo?
Se for isso não aceito, prefiro ficar como secretária até arrumar um
emprego em outro lugar.
— Está falando isso por causa do que está rolando entre nós? — ele enruga
as sobrancelhas.
— Não! Estou falando do seu empenho na empresa. Se nós formos analisar
a sua viagem comigo, já podemos ter uma medida do quanto está capacitada para
ser uma Gerente Júnior. Eu não vou te dar um cargo de Diretoria, mas vou te
deixar livre para trilhar o seu caminho.
Um sentimento de satisfação se espalha pelo meu peito. Gostei muito do
que ele acabou de falar. Sua sinceridade ficou evidente em cada palavra.
— Vou sentir falta de te perturbar. — Já me sinto melancólica por ficar
longe dele.
— Você terá o horário fora do expediente para fazer isso.
Fico pensativa sobre o que ele falou, acho que chegou a hora de perguntar o
que realmente está acontecendo entre nós. Não quero pressioná-lo a nada, mas
preciso saber o que se passa pela sua cabeça.
— Zander, eu preciso te perguntar uma coisa.
— Manda. — Ele puxa o meu corpo para ajeitá-lo no seu colo.
— O que está acontecendo entre nós?
A sua expressão ganha um tom compenetrado e vejo um suspiro profundo
expandir seu peito. Não sei se fiz um bom movimento, mas necessito descobrir o
que posso esperar do nosso envolvimento.
— Não sei, mas quero descobrir junto com você. — Ele segura o meu
queixo. — Só sei de uma coisa...
— O quê? — pergunto em um sussurro.
— Não consigo parar de pensar em você, muito menos ficar longe. Eu te
quero malditamente, Sam.
Uma revoada de borboletas começa a fazer um movimento estranho dentro
do meu estômago.
— Faz amor comigo? — Bloqueio a parte do meu cérebro que grita para
não dizer a palavra amor.
Sei que não deveria dizer isso, mas não consigo encontrar outra palavra que
defina com exatidão o que quero ter com ele. Agora não é só sexo, é muito mais,
é um sentimento potente consumindo meu peito, e não quero definir o
significado agora.
Ele não me responde, apenas ergue o meu corpo em seus braços fortes e
segue apressado para o meu quarto. Fico na dúvida se agradeço ou não a sua
falta de palavras, mas quando ele me deita na cama e encara os meus olhos com
paixão, esqueço de todos os pensamentos.

Acordo com uma mão pesada sobre meu quadril. Um sorriso de satisfação
brinca nos meus lábios quando relembro a noite anterior.
Caramba, e que noite!
Durante a viagem nós tivemos momentos memoráveis, mas nenhum se
comparou a noite passada. Zander parecia estar fora de si. Ele me deu tantos
orgasmos, que cheguei acreditar que nunca mais seria capaz de me mover.
Sinto algo rígido cutucar minha bunda. Não acredito que esse homem está
acordado e empolgado. Ele não é desse mundo, nunca conheci ninguém com
tanta disposição.
— Bom-dia. — Ouço sua voz profunda e rouca.
— Bom-dia. — Sem pudor remexo a bunda. — Tem alguém animado, aí?
— Muito. — A mão desliza pelo meu quadril até que se instala entre
minhas pernas. — Como se sente hoje?
O meu corpo desperta com o simples toque dele. Não sei o tipo de
afrodisíaco que esse cretino utiliza, só sei que não resisto ao seu toque.
— No momento me sinto tranquila.
— Isso significa que podemos nos divertir um pouco?
— O que você entende como diversão a essa hora da manhã?
Escuto sua risada, enquanto ele pressiona o meu clitóris. Eu seria uma
mulher muito mais feliz se acordasse todas as manhãs com esse tipo de atenção.
Suas mãos hábeis fazem movimentos lentos que despertam cada célula
nervosa do meu corpo. Em pouco tempo estou molhada e recebendo
prazerosamente sua ereção.
Um gemido lento escapa pelos meus lábios. É muito bom senti-lo dentro de
mim. Sempre que nossos corpos se conectam, uma nova experiência parece cair
sobre nós.
Seus movimentos são lentos, porém profundos. Ele beija meu ombro e
aperta a minha cintura para me manter na posição. Sinto a minha respiração
chiar quando um rebuliço começa a contrair o meu baixo ventre.
Erguendo uma das minhas pernas, Zander aprofunda a penetração e
encontra o ponto certeiro que desencadeia uma sequência de espasmos na minha
boceta. O meu orgasmo é tão forte, que preciso abrir a boca em busca de ar. O
meu coração está descompassado e o meu corpo a ponto de entrar em ebulição.
— Que merda! — Escuto seu xingamento quando ele também se deixa
levar pelo êxtase.
As nossas respirações pesadas ressoam pelo quarto. Ele mantém o corpo
grudado ao meu e espalha beijos suaves pela minha nuca.
Adoro essa sua maneira carinhosa depois do prazer, ele nunca se afasta,
sempre faz questão de ficarmos juntinhos.
Droga! Não sei o que está acontecendo comigo, mas adoro esse cuidado,
amo saber que ele me quer por perto mesmo depois de estar satisfeito.
A maioria dos homens se afasta, como se nós mulheres fossemos apenas um
objeto. Já deixei de sair com muitos caras pelo simples fato deles virarem uma
pedra de gelo após o sexo.
— Com fome? — a voz dele sopra no meu ouvido arrepiando a minha pele.
— Impossível não estar. — Ele sai de mim e vira meu corpo.
— Vou preparar algo para o nosso café da manhã antes de ir para casa
trocar de roupa. Vou ter que ir ao escritório, mas se você quiser, pode ficar em
casa e voltar só na segunda-feira.
— Claro que vou para o trabalho, não existe motivo para ficar em casa.
— Você é quem sabe. — Ele beija a ponta do meu nariz e desce da cama
exibindo sua linda bunda dura para minha inveja.
Afundo a cabeça no travesseiro e sorrio da minha sorte. Depois de um
relacionamento falido com o Alberto, foi uma bênção a vida me entregar o
Zander de bandeja.

Com satisfação acompanho a máquina de expresso encher minha xícara


com um café fresquinho. A primeira coisa que fiz quando cheguei a empresa foi
conhecer a nova copa. E como está linda!
Zander não economizou na reforma, tudo é de primeira linha. Sem sombras
de dúvidas esse é o meu novo lugar preferido no escritório. Uma pena que em
breve terei que ir para outro setor.
— Sam! — a voz eufórica da Cris me faz sorrir. — Que saudade.
Nós nos abraçamos enquanto gritamos e giramos iguais duas adolescentes.
Como senti falta dela, apesar de trocarmos mensagens todos os dias, não é a
mesma coisa que tricotar pessoalmente.
— Não vou negar o quanto foi relaxante viajar de graça, mas não existe
nada melhor do que trabalharmos juntas. — Dou mais um abraço nela.
— Você não tem noção do quanto me fez falta, foi tenso ter que trabalhar
com o Saramago pai.
— Duvido que ele seja pior que o filho.
— Ele é educado, só que não para um segundo, que disposição aquele
homem tem.
— Então o Zander tem a quem puxar.
— Como assim? — Cris me interroga confusa.
— Esquece. — Preciso segurar a minha boca, no momento não quero que
ninguém saiba do que está rolando na minha vida pessoal. — E essa copa, hein,
amiga? Que linda.
— Quero morar aqui. — ela diz sorrindo e começa a falar como foi confuso
o final da obra.
Depois de trinta minutos e duas xícaras de expresso consumidas, estamos
trabalhando a todo vapor. Zander ainda não deu as caras no escritório e também
não avisou que se atrasaria. Tento não me preocupar, mas fica difícil quando ele
havia dito que apenas passaria em casa trocar de roupa.
Quando se passa mais quarenta minutos sem notícias, começo a ficar
nervosa. E se algo tiver acontecido no trajeto da minha casa até a dele?
— O senhor Saramago avisou que ia se atrasar? — pergunto à Cris.
— A mim não. — Ela para de digitar.
— Ele está bem atrasado, da última vez que nos falamos ele não me disse
que chegaria fora do horário.
— Deve ter tido algum contratempo.
— É. — Não consigo dizer muito, porque não quero que ela perceba o meu
nervosismo.
Tento me concentrar no trabalho, mas minha mente não colabora. Quando
escuto a risada descontraída do Zander abrindo a porta de vidro do escritório,
meu corpo relaxa.
Ele está lindo com um terno azul e uma camisa lilás. Seu visual arrojado o
deixa charmoso e moderno. O pai está ao seu lado, assim como Gaspar.
— Bom-dia, meninas! — Sua voz traz uma nota interessante de
empolgação.
— Bom-dia, senhores. — Cris responde com seu costumeiro nervosismo.
Ela nunca vai se acostumar a lidar com o Zander.
— Bom dia. — respondo de maneira polida e sorrio.
— Samantha, você já se adaptou a nova máquina de café? — Ele me
pergunta ao se aproximar da minha mesa.
— Tomei dois cafés. A máquina é simplesmente maravilhosa.
— Fico feliz que tenha gostado. Agora você não me enrola mais. — Pronto,
voltamos a nossa velha briga.
— Nunca enrolei, senhor. — Bato meus cílios fingindo inocência.
— Sei. — O olhar malicioso dele me esquenta. — Prepare três xícaras e
traga para o escritório. Pegue seu tablet para anotar alguns pontos da reunião que
terei com o Gaspar.
— Sim, senhor. — Espero eles entrarem no escritório para pegar o café.
— Pelo jeito ele continua implicante. — Cris fala sem saber que essa
implicância é só fachada.
— E você acha que ele mudaria do nada?
— Sou um pouco inocente. — Nós duas sorrimos da lerdeza dela.
CAPÍTULO 27

Samantha

Apesar dos problemas com o Sul terem acabado, o dia de trabalho não foi
fácil. Zander distribuiu ordens sem parar e me enlouqueceu com uma série de
reuniões que marcou de última hora. Ele voltou com todo gás, está com uma
disposição invejável.
— Oi. — digo quando o telefone da minha mesa toca.
— Vem aqui rapidinho. — ele ordena e desliga o telefone.
Que grosso, não sabe nem pedir com gentileza. Acho que ele nunca vai
conseguir ser um homem amável no trabalho.
Sigo para a sala dele e o encontro brincando com a caneta. Quando fecho a
porta, seus olhos azuis se fixam em mim, fazendo com que uma corrente elétrica
invada meu corpo.
— Hoje eu exigi demais de você, não foi? — O sem-vergonha encara as
minhas pernas.
— E como — bufo. — Não cansa?
— Não. — O sorriso que se desenha em seus lábios é de uma sensualidade
indescritível. — Estou com saudades.
— Impossível, eu passei o dia com você. — observo com curiosidade ele
afastar a cadeira.
— Vem aqui. — Suas mãos fortes batem sobre o colo.
— Aqui não, Zander. — Olho para a porta com medo da Cris entrar.
— Não vou te pedir mais uma vez. — Ele ergue uma sobrancelha
demonstrando sua irritação.
— Estamos no trabalho, precisamos nos comportar.
— Samantha! — a intensidade com que ele fala o meu nome deixa minhas
pernas bambas.
Sem resistir ao seu pedido, cambaleio até onde ele está e sento em seu colo.
Mãos firmes seguram meu quadril, me posicionando de maneira mais
confortável.
— Vamos jantar mais tarde e depois você vai dormir comigo. — Ele afunda
o rosto na curva do meu pescoço. — Como amanhã é sábado, se você quiser
podemos ir passar o fim de semana em alguma praia da região dos lagos. O que
acha?
Tento resistir a tentação de tocá-lo, mas minhas mãos traiçoeiras seguram
firmemente seus ombros.
— Prometi almoçar com minha mãe e levar meu irmão no cursinho. Fiquei
muito tempo fora.
— Tudo bem. — A voz dele tem uma nota de decepção. — E quanto ao
jantar? Podemos manter esse programa?
— Claro. — respondo empolgada.
— Mas não abro mão de dormir com você. — Uma labareda se acende
dentro de mim só em pensar na noite que teremos.
— Dormir?
— Só um pouco... — ele diz em meio a um sorriso e me beija.
Como eu senti falta dessa boca. Sequer parece que estivemos juntos pela
manhã. Essa loucura que sinto por ele não é nada bom, só que não consigo evitar
o fascínio que esse homem exerce sobre mim.
— Se prepara que antes de você seguir seu novo caminho, eu vou te comer
nessa mesa.
— Nunca. — Tento ser firme na minha negativa.
— Sempre consigo o que quero, querida. Sempre.
Quero muito ficar com raiva da arrogância dele, mas no fundo, já estou nos
imaginando nesta mesa, enquanto ele me penetra fundo e me leva ao paraíso.

É estranho estar na casa do Zander com ele largado em cima de mim


enquanto assiste o jornal. Esse tipo de intimidade me deixa empolgada e ao
mesmo tempo com receio. Nós somos de mundos diferentes e por mais que eu
deseje crer que podemos ter um relacionamento, tenho medo de ele perceber que
fez o movimento errado ao se aproximar de mim.
O engraçado é que ficar perto dele me desperta uma infinidade de
pensamentos malucos. Nunca penso no futuro quando estou com um homem,
sempre me concentro no que ele pode me oferecer naquele momento. Com ele é
diferente, os meus pensamentos sobre o que pode acontecer entre nós são quase
sufocantes.
Só em pensar que nunca mais vou poder tocá-lo, já é motivo para sentir o
meu coração estremecer de angústia. Acho que estou ficando obcecada por esse
homem, não é normal sentir medo de algo que sequer aconteceu.
Instintivamente aperto seu peito nu e encosto o nariz no seu cabelo. Zander
está deitado entre as minhas pernas e com seu corpo grande jogado sobre o meu.
Depois de muitos beijos e amassos no sofá, ele escolheu essa posição para
assistir televisão.
— Sam, você está bem? — Ele vira o rosto na minha direção.
— Estou bem. — Minto.
— Tem certeza? Você quase me matou sufocado. — Fico sem graça, não sei
o que vou responder agora.
— Não foi nada demais. — Acaricio seu peito para demonstrar que estou
bem.
— Mentir faz o nariz crescer. — Ele corre o dedo ao longo do meu nariz.
— Pode ficar tranquilo que o meu não vai crescer.
O celular dele toca me causando alívio por interromper a conversa. Zander
olha o aparelho e não faz menção para pegá-lo.
— Não vai atender? — pergunto.
— Estou no meu horário de lazer, não estou a fim de problemas.
— Pode ser seu pai ou sua irmã.
— Eles ligariam para a minha casa.
— Custa atender?
Com má vontade, ele pega o telefone e atende. Pela expressão do seu rosto,
a ligação não é bem-vinda.
— Estou ocupado, Vanessa, depois nos falamos. — A menção ao nome da
ex-dele me deixa em alerta.
Vanessa sempre foi um nojo, mesmo conhecendo a fama do Zander se
comportava como se fosse a futura esposa dele. Com aquela cara de convencida
e uma arrogância irritante.
— Não estou em casa e não sei que horas vou chegar. — Ele para de falar
por alguns segundos. — Durante a semana vejo uma hora livre e nos falamos.
Acabei de voltar de viagem e ainda não consegui organizar meus horários. — De
onde estou escuto ela me xingar. — Vou desconsiderar o que acabou de falar ou
desisto de te ver. Boa-noite! — ele desliga o telefone na cara dela me causando
uma satisfação extrema.
— Se ela descobre que eu estou aqui, me xingaria muito mais. — digo com
ironia, na intenção de descontrair o clima pesado que aquela vaca deixou.
— Vanessa está passando dos limites com esses xingamentos. — Zander se
levanta irritado. — Quer uma bebida?
— Não. Obrigada. — Ele se afasta e vai até o bar.
Estava tudo tão bem entre nós, bastou a megera dá o ar da graça, para a
nossa noite se afundar. Odeio a minha intuição, mas ela me diz que ainda terei
problemas com a Vanessa.
— Ela não vai aceitar o fim do namoro.
— Que se foda se ela aceita ou não. — Ele enche o copo e dá um longo
gole. — Não sou obrigado a ficar com ninguém. Nunca fui.
— Complicado vai ser ela entender isso.
— Se não entender o problema é dela, não tenho nada a ver com isso. — A
maneira fria com que ele fala da ex me deixa reflexiva, daqui a pouco eu estarei
na mesma situação que ela.
Ele está passando um bom momento comigo, assim como passou com a
Vanessa. Quando outra mulher entrar na sua vida e chamar a sua atenção, vai
cair fora e me ignorar como está fazendo com ela.
— Ei, o que está acontecendo? — Olho para o alto e vejo que ele está na
minha frente. — Estou te chamando e você não me ouve.
— Desculpa, eu meio que saí do ar. — Zander enruga a testa.
— Não permita que Vanessa se intrometa entre nós, ela só quer encher a
minha paciência.
— Eu sei, não estou preocupada com ela.
— Essa é a segunda vez que você mente para mim hoje.
— Não é mentira, realmente não estava pensando nela, mas também não
vou dizer quais eram meus pensamentos.
Ele não esconde o desgosto com a minha resposta, mas também não insiste
em saber o que pensei.
— Vamos combinar uma coisa?
— O quê?
— Vamos esquecer o mundo lá fora. Esse fim de semana será apenas de nós
dois, sem a intervenção de nenhum problema. Essa é a primeira vez que ficamos
juntos em casa e não acho justo que o clima entre nós azede por causa de um
telefonema indevido.
Acho digna a proposta dele, realmente merecemos apenas nos divertimos.
Não sei quanto tempo ainda vou ter ao seu lado, então mereço aproveitar cada
segundo sem mais pensamentos neuróticos.
— Você está certo, seremos apenas eu e você.
— De preferência nus na cama.
Não consigo conter o sorriso, Zander é muito mais depravado do que
pensei. Não posso negar que adoro esse seu humor tarado.
— Se você for bonzinho, talvez eu fique nua. — Ele se senta ao meu lado e
passa a mão pela minha coxa.
— Não sei ser bonzinho, mas caso fique nua, posso fazer coisas bem
bacanas que até podem me elevar para o estágio de bom.
— Humm... interessante. — Entro na sua brincadeira.
— E pode ficar muito mais.
Levo um susto quando ele me segura e vira o meu corpo me colocando
montada sobre o seu colo. Acho que certo alguém perdeu o interesse no jornal.
Até que é bom, com ele mantendo as mãos em mim, não fico bancando a louca
pensando no que vai acontecer amanhã.

Acompanho a minha mãe se movimentar pela cozinha falando sem parar.


Não consigo prestar a atenção em nada do que diz, minha mente está tendo uma
batalha intensa sobre contar ou não que estou saindo com Zander.
Sempre conto tudo para ela, somos melhores amigas. Desde que fui traída
pela minha melhor amiga e o meu ex-namorado, não consigo manter uma
amizade profunda. Apenas Cris conseguiu se aproximar de mim, isso porque ela
tem uma história de vida mais sofrida que a minha.
Por esse motivo nunca tenho ninguém para fazer confidências, a não ser
uma das duas. O problema é que ambas não são as pessoas mais apropriadas
para saberem que estou dormindo com o chefe.
Que drama! O que vou fazer?
— Samantha, o que você tem? — minha mãe pergunta enquanto me olha
interrogativamente com um pano de prato na mão.
— Estou dormindo com o Zander. — digo de uma única vez, porque já não
posso guardar esse segredo. — Estou apaixonada mãe, e louca de medo do
momento em que ele se cansar de mim.
Minha mãe me encara perplexa, em seguida ela pega uma cadeira e se
senta. Acho que deixei dona Noelli em estado de choque.
— A senhora quer um pouco de água?
— Por favor. — Imediatamente ela aceita.
Pego um copo e vou até a geladeira, coloco uma boa quantidade de água e
entrego para minha mãe. Ela bebe a metade do copo e o coloca sobre a mesa.
— Esse chamego de vocês começou durante a viagem? — Faço um sinal
positivo com a cabeça. — Meu instinto de mãe me avisou que algo estava
acontecendo desde aquele dia que nos falamos ao telefone e esse homem estava
no seu quarto. Apesar da sua negação, eu sabia que o pior tinha acontecido.
Fico sem graça por ter mentindo para ela, mas naquela época, eu não queria
falar nada do que estava acontecendo, tudo era ainda mais confuso do que agora.
— Mãe, é tão complicado.
— Samantha, você enfiou os pés pelas mãos, agora terá que aguentar as
consequências.
— Eu sei. — Volto a sentar e apoio as duas mãos no rosto. — Desde que
entrei no escritório, implicamos um com o outro, Zander sempre pareceu gostar
dessas brincadeiras. Só que eu também percebi que ele me olhava com interesse,
mas nunca foi desrespeitoso, no entanto, durante a viagem as coisas saíram do
controle.
— Agora não adianta chorar pelo leite derramado, você vai ter que encarar
esse “rolo” de vocês e esperar o que vai acontecer.
— Esse é o meu medo. — Minha mãe estica a mão para segurar a minha.
— Se ele te deixar escapar, quem vai sair perdendo é ele, assim como o
outro imbecil que te perdeu. Você é um tesouro, linda, inteligente e devotada a
quem ama. Se eu fosse esse seu chefe, não te largava nunca mais.
— Ahhh mãe, a senhora é a melhor.
Corro para onde ela tá e me sento no seu colo para abraçá-la. Minha mãe
me aperta forte, como fazia quanto eu era criança. Dentro dos braços dela sinto
as minhas forças se renovarem.
— O que está acontecendo aqui? — Meu irmão aparece na porta da
cozinha. — O que perdi?
— Nada, só estava mimando minha primogênita. — Minha mãe beija meu
cabelo. — Ela também merece.
— Claro que merece.
Maicon se aproxima e nos abraça. Esse contato caloroso com a minha
família me faz perceber que aconteça o que acontecer, o importante é que sempre
terei os dois comigo.
Essa certeza me faz relaxar e deixar nas mãos do destino toda a inquietude
que teima em sacudir o meu coração.
CAPÍTULO 28

Uma semana depois

Samantha

Eu estou me consumindo por dentro em não contar para Cris o meu
relacionamento com o Zander. O problema é que nós dois combinamos de
manter o nosso envolvimento em segredo, para evitar comentários maldosos na
empresa.
Nesses últimos dias, Zander está agitado fechando uma negociação. Ele está
trabalhando até tarde e despejando infinitos trabalhos para nós duas. A Cris não
esconde a felicidade com as horas extras, enquanto eu só penso em ir para casa e
dormir.
— Samantha. — Cris me chama.
— Oi.
— Você não está achando o senhor Saramago diferente? — Meu coração
acelera com a sua pergunta.
— Diferente como?
— Sei lá... — Ela fica pensativa. — Anda brincalhão, mais leve, sem toda a
agitação tão característica dele.
— Deve ser porque resolveu os problemas no Sul.
— É... pode ser. — Cris fica pensativa.
Começo a sentir uma culpa extrema por estar mentindo para ela. Cris é a
única amiga que tenho, não merece ser enganada.
Decido quebrar a promessa que fiz a Zander de não revelar o nosso
relacionamento. Não posso mais ficar calada. Preciso confidenciar a ela tudo o
que está acontecendo.
— Vamos até a copa rapidinho?
— Agora?
— É. — confirmo enquanto me levanto. — Vem.
— Mas e se o chefe precisar da gente?
— Ele espera.
— Sam, eu não quero ser demitida.
— Ele não faria isso. — O máximo que ele pode fazer é dar um show, mas
resolvo rápido qualquer escândalo dele.
Sigo com ela para a copa. Preciso de um lugar discreto para que possamos
conversar com calma. Como agora temos a máquina de expresso, faço duas
xícaras de café fresquinho.
— Preciso te contar uma coisa. — Coloco o café dela sobre a mesa. — Mas
tem que me prometer que ficará entre nós tudo o que eu te contar.
— O que está acontecendo? Estou ficando nervosa.
— Promete ou não promete?
— Claro que prometo. — ela responde sem titubear.
Solto uma respiração profunda para ganhar coragem e começar a revelar
tudo o que está acontecendo. Espero que a Cris não pire e fique chateada comigo
por não ter contado antes.
— Cris, aconteceu algo durante a viagem ao Sul.
— Algo? — Ela ergue a sobrancelha.
— É... — Confirmo sem graça. — Eu e o Zander... — Não consigo
terminar de falar.
— Vocês estão juntos? — Faço um gesto fraco com a cabeça confirmando o
que ela falou. — Eu sabia.
— Sabia? Como assim?
— Impossível não notar o olhar apaixonado de vocês.
— Apaixonado? — Não acredito que estou dando bandeira na hora do
expediente.
— Sam, o senhor Saramago sempre gostou de você. Toda a implicância
dele escondia uma paixão. Mas depois que vocês voltaram, ficou impossível não
perceber os olhares apaixonados dos dois. Eu estava esperando você me contar,
mas a senhorita não abria o bico.
Fico me sentindo culpada por esconder dela o que estava acontecendo. Cris
merecia a verdade desde o início.
— Desculpa. Eu combinei com o Zander de manter segredo sobre nós
estarmos juntos.
— Tudo bem. — Ela sorri. — É um assunto pessoal, eu entendo.
— Obrigada. — Estico a mão para poder pegar a dela. — Só que eu não ia
conseguir esconder de você. Uma semana foi o meu limite. — Cris balança a
cabeça enquanto alarga ainda mais o seu sorriso.
— Você não tem jeito.
— Claro que tenho. — Agora volto a me animar. — Eu até posso esconder
de outras pessoas, nunca de você.
— Fico feliz... — Ela não termina de falar, porque de onde estamos
escutamos Zander gritando o meu nome. — Meu Deus, ele vai nos matar. —
Cris me olha apavorada.
— Vai nada. — Pego a minha xícara de café.
— É fácil falar quando o poderoso chefão está de quatro por você. Contigo
ele não fará nada, já comigo... — A fala dela me chateia.
— Ele jamais te demitiria. Zander gosta do seu trabalho, apesar de você ter
medo dele e aborrecê-lo muito por causa disso. — Ouço outro grito e abandono
a nossa conversa.
Caminho até o escritório sem pressa, ele precisa aprender que nada é no
tempo que deseja. Zander é chato demais.
— Onde é o incêndio? Alguém morreu aqui para você estar gritando tanto?
— Por que não estava na sua mesa? Cadê a Cristina?
— Aqui, senhor! — Ouço a voz temerosa dela atrás de mim.
— Estávamos na copa. — Ergo a minha xícara de café. — Com uma
máquina tão perfeita de café é impossível não parar um pouco para degustar essa
maravilha.
— As duas não precisam ir juntas para ficarem fofocando, alguém tem que
ficar aqui.
— Já acabou? — pergunto sem paciência.
— Não me provoque. — Ele aperta os olhos. — Faça um café para mim e
traga imediatamente.
Ele entra na sala como um raio e bate a porta. Que mau humor. Faz tempo
que não o vejo tão irritado.
— Eu disse que ele ia se aborrecer.
— Vai trabalhar Cris, esquece o chefe.
Volto para a copa e faço o café dele enquanto termino de tomar o meu.
Quando entro na sala dele, vejo-o ao telefone falando alguns desaforos.
Pobre coitado de quem está ouvindo-o berrando. Se fosse comigo já tinha
desligado o telefone.
Apesar de não gostar de contato durante o expediente, decido amansar a
fera. Só assim ele esquece que não encontrou as secretárias nos seus postos de
trabalho.
Sem presa me aproximo dele e coloco o café sobre a mesa. Zander me
encara curioso e diminui os berros. Ele fica parado quando seguro a sua mão e
coloco sobre a minha perna. Um sorriso safado se desenha nos seus lábios e
como ele não vale nada, desliza a mão até a minha bunda.
Como mágica o seu mau humor desaparece, agora ele parece bem animado.
Para provocá-lo um pouco mais, ergo um pouco a saia e faço sua mão deslizar
por minha pele nua.
O meu corpo se arrepia com o seu toque e, inevitavelmente, sinto a
umidade se instalar entre minhas pernas. Que vontade de abrir o zíper dele e
exibir o seu pau para meu deleite. Seria incrível se eu montasse nele só para
fazê-lo perder o controle.
Os olhos do Zander ganham um tom escuro, e suas mãos rapidamente
sobem parando na borda da minha calcinha. Ele não interrompe o que está
falando, resmunga como um velho, e não ameniza sua exploração rumo a minha
intimidade. Quando alcança o meio da minha calcinha, eu mordo os lábios para
evitar gemer.
Zander sorri com satisfação ao perceber como estou molhada, ele vai me
acariciando sobre a calcinha sem nenhuma pressa. Firmo a mão sobre a mesa e
tento me manter estável, mas minhas pernas parecem gelatinas com o seu toque
insistente e preciso.
— Resolva o problema, depois nos falamos. Tenho assuntos prioritários
para resolver agora. — Ele encerra a ligação abruptamente. — O que deu em
você?
— Nada. — Jogo a cabeça para trás quando ele afasta a minha calcinha e
mergulha um dedo em mim.
Ahhhh como é bom.
— Gosto de você assim... safadinha.
— Não acostume muito eu... — Um barulho na porta interrompe a minha
fala.
Pulo para trás quando vejo a mãe dele entrar na sala como um furacão. Ela
corre os olhos entre nós, enquanto eu tento ao máximo fingir que nada demais
está acontecendo.
— O que está acontecendo aqui? — ela indaga demonstrando irritação.
— Que porra de invasão é essa mãe? — Zander ajeita a cadeira.
— Invasão? Entrar na sala do meu filho agora é invasão?
Para disfarçar um pouco, pego uma pasta da mesa dele. Espero que ao
menos ela acredite que eu estou perto do filho apenas para pegar um documento.
— É, quando a senhora não espera ser anunciada.
— Vocês estavam se agarrando? — ela pergunta acusadoramente.
— Não! — Zander responde antes de mim. — Jamais agarraria a senhorita
Diniz. A senhora está louca? É contra a política da empresa relacionamentos
entre funcionários. — Ele solta uma risada. — Não temos nada a ver um com
outro. Impossível nós nos agarramos.
Olho para ele surpresa com suas palavras e vejo que observa a mãe com
verdadeiro horror. Como se a possibilidade de me tocar fosse algo extremamente
absurdo.
Sinto uma raiva esmagadora crescer dentro de mim, a minha vontade é
tacar a pasta no meio da cara desse desgraçado.
— Tem certeza? — ela pergunta ainda desconfiada.
— Absoluta. — Agora sou eu que falo. — Tenho critérios bem rígidos para
meus companheiros e seu filho não alcança nenhum deles. — Ergo o nariz não
me intimidando com a careta que ela faz.
— Está menosprezando o meu filho, menina?
— Estou confirmando o que ele acabou de falar: não temos nada em
comum. — Sem perder o resto de dignidade que me resta, começo a caminhar
para a saída. — Com licença.
Passo pela mãe dele que me olha furiosa, ela, assim como o filho, tem um
orgulho do tamanho do universo. Certamente está possessa por eu desdenhar do
seu queridinho.
Que se foda os dois. Eu estou muito mais puta da vida do que eles.
— Samantha, eu fiz de tudo para interrompê-la. — Cris tentar se explicar,
mas ergo a mão paralisando-a.
— Esquece Cris, foi bom ela ter entrado. Agora vamos trabalhar.
Encerro o assunto e vou para a minha mesa. Hoje aquele desgraçado não
encosta a mão em mim. Para falar a verdade, não sei se quero que ele encoste
outra vez.


Zander

Eu estou mais que fodido. Samantha certamente está espumando de raiva e
com toda a razão. Até agora não sei o que deu em mim para ser tão enfático na
hora que disse que não estávamos nos agarrando.
Com a minha mãe nos olhando tão ameaçadoramente, eu não tive outra
escolha a não ser negar o nosso envolvimento.
Como eu e Sam já havíamos combinado que o nosso relacionamento seria
secreto, até que ela fosse para outro setor, não quis revelar toda verdade.
Ela aceitou imediatamente a minha proposta, justamente para evitar fofoca
e porque temos a tal política de não envolvimento entre funcionários. Política
essa que terei que repensar para poder ficar com ela.
Depois da sua reação ao flagra de hoje, percebi que ela não tinha analisado
às consequências do nosso acordo. Na verdade, nem eu tinha.
Graças a Deus ela não estava na minha casa ainda a pouco quando tive que
lidar com Vanessa querendo subir para falar comigo. Ela estava completamente
fora de si, porque mandei entregar cada item dela que ainda tinha na minha casa.
Na cabeça perturbada daquela louca, ainda temos chances de ficarmos juntos. Só
que agora, a minha vida gira completamente ao redor da Sam. Estou
perdidamente apaixonado por ela. Penso nessa mulher 24 horas do meu dia.
— Sam, abre a porta. Não vou sair daqui enquanto não falar com você.
Bato na porta e espero pela sua resposta. Ela vai me xingar, isso eu sei, mas
espero que ao menos me receba.
— Por mim você cria raízes aí fora. — Ela grita do outro lado depois que a
chamo pela terceira vez.
— Daqui a pouco seus vizinhos vão reclamar dessa gritaria no corredor.
— Basta você ir embora que teremos silêncio. — Como é teimosa.
— Eu não saio daqui enquanto não conversarmos. Você não me deixa falar.
Assim não dá.
— Fale com sua mãe.
— Eu trouxe flores e aqueles bombons que você gosta.
— Enfie as flores no seu...
— Samantha! — Interrompo o que ela ia dizer.
Meu Deus, que mulher boca suja!
— Por favor, apenas me deixe pedir desculpa pessoalmente. Juro que te
deixo em paz. Só preciso de um minuto com você.
Ela fica em silêncio e a minha ansiedade vai a mil. Será que agora dobrei a
fera?
— Você tem apenas um minuto. — ela diz quando abre a porta. — Nem
mais um segundo.
Respiro aliviado quando entro no seu apartamento. Agora que estou aqui
dentro só saio amanhã. Vou amansá-la de alguma maneira.
— Obrigado, por me escutar.
— Seu minuto está correndo. — Ela bate os pés no chão.
— Não vai pegar as flores?
— Você já sabe onde quero que enfie essas flores.
Seu olhar é assassino, acho que ela está se segurando para não me matar.
Onde fui parar? Tanta mulher tranquila nesse mundo e eu fui escolher uma onça
para me apaixonar. Sou um imbecil!
— Vai querer ao menos o chocolate? — Sam olha para a embalagem e fica
pensativa. Em um movimento ligeiro ela estica a mão e pega os chocolates.
— Fale. Você tem uns dez segundos.
— O que preciso falar não cabe em um minuto.
— Que bom, não estava a fim de te ouvir mesmo. — Ela abre a porta e faz
sinal para que eu saia.
— Não vou embora, você precisa se acalmar e me escutar.
— Vá falar com sua mãe.
— Deus! Como você é pé no saco.
— Sou mesmo, inclusive estou louca para acertar o seu saco e te expulsar
da minha casa.
Resmungo com a sua resposta, é complicado ter uma conversa com ela tão
irritada. Quando me preparo para retrucar, o meu celular toca. Mesmo antes de
atender, sei que é a Marlene, esse é o toque que escolhi para ela.
— Espere mais um minuto. — digo ao pegar o telefone para atender.
Assim que voltei de viagem fui visitá-la e achei-a muito fraca. Marlene me
disse que estava com um pequeno problema no pulmão, mas que não era nada
demais. Como sei que ela gosta de minimizar tudo, pedi para que a filha dela me
ligasse a qualquer hora se alguma coisa acontecesse.
— Alô. — Olho para Sam e vejo o quanto está impaciente.
— Zander, aqui é a Lu.
— Aconteceu alguma coisa? — Luciana é a filha da Marlene e, pela sua
voz, a ligação não contém boas notícias.
— Aconteceu. — A voz dela treme. — A mamãe passou mal e tivemos que
trazê-la para o hospital às pressas, mas o estado dela é crítico. Os médicos não
nos deram muitas esperanças. — Essa última parte é dita em um sussurro.
— Vocês estão no hospital onde ela se trata?
— Sim.
— Estou chegando. — Encerro a ligação e sinto minhas mãos tremerem.
Olho para Samantha e vejo a preocupação em seu olhar.
— O que foi?
— A Marlene está mal e... — Não consigo terminar de falar, porque me
recuso a acreditar que ela pode partir.
— Vou pegar a minha bolsa, irei com você.
— Não precisa.
— Eu vou, conheço Marlene há anos.
Não consigo me mover, talvez seja bom ela ir comigo. Eu sou bom em
muitas coisas, menos em perder pessoas que amo. Não sei lidar com a morte,
isso é algo que me deixa completamente apavorado.
— Vamos. — Samantha volta pulando enquanto calça os sapatos. — Você
quer que eu dirija?
— Pode ser. — Ela se aproxima e tira as flores da minha mão. Sequer havia
percebido que ainda estava segurando.
— Vai acabar tudo bem, ela vai passar por mais essa.
— Assim espero.
Saímos do apartamento apressados, espero que ao menos eu tenha tempo de
me despedir da minha querida amiga. Estou com uma sensação ruim. Espero que
seja apenas o choque da notícia que acabei de receber.
O som dos aparelhos que a mantém respirando deixa seu corpo pequeno
ainda mais frágil. Marlene se abateu ainda mais desde a última vez que a vi. A
palidez da sua pele não me deixa com muitas esperanças.
Lentamente me aproximo dela e toco a sua mão. Está gelada. Se o monitor
de batimentos cardíacos não mostrasse que ainda tem vida, acharia que já não
estava entre nós.
Sento-me na cadeira ao lado da sua cama e lamento por vê-la ter um fim tão
triste. De acordo com o que a filha me falou ainda há pouco, o médico avisou
que ela está muito perto de partir.
O meu coração se aperta ao saber que não terei mais seus conselhos.
Marlene é uma das poucas pessoas que mantenho amizade. Conheço essa mulher
desde pequeno, ela me ensinou muito do que sei hoje. Imaginar que nunca mais
vou ouvir sua voz rouca me deixa em um estado de tristeza que nunca
experimentei.
Pouco me importo com a lágrima que escorre pelo meu rosto. Não me
lembro da última vez que chorei, não sou o tipo sentimental, mas neste momento
não posso conter a dor que me rasga.
Sinto um movimento sutil na minha mão, olho para o rosto dela e vejo que
abre os olhos lentamente. Ela se remexe e tenta tirar a máscara, apesar de saber
que precisa respirar, suspendo um pouco o objeto para tentar descobrir o que ela
deseja.
— Não faça esforço, querida. — Ela começa a mover os lábios, mas não
consigo entender o que fala. Inclino um pouco o corpo para tentar escutá-la.
— Eu te amo. — A voz dela é baixa e arfante. — Tente mudar de vida... —
Marlene faz uma pausa e puxa o ar com força. — Ouça mais seu coração.
Seus olhos fecham depois de tanto esforço e ela começa a tossir. Fico
nervoso em vê-la tão angustiada e chamo por uma enfermeira. Em pouco tempo
sou retirado do quarto, enquanto duas enfermeiras começam a aplicar alguns
medicamentos no soro dela.
Vou para o corredor abatido e imediatamente Sam vem ao meu encontro.
Ela me abraça e o seu calor me faz bem. Estou feliz que ela tenha vindo comigo.
— O que aconteceu? — Luciana pergunta ao se aproximar.
— Ela acordou e me disse algumas palavras, mas depois começou a tossir e
tive que chamar a enfermeira.
— Eu não aguento mais esse sofrimento. — A fragilidade da Lu me abala.
Ela está enfrentando há bastante tempo a doença da mãe.
As duas sempre foram unidas e como é filha única, quando Marlene se for
ela não terá mais ninguém.
— Você precisa se manter forte. — Abandono Sam para poder me
aproximar dela. — Nós dois sabemos que sua mãe não aprovaria nossas
lágrimas. — Luciana concorda comigo e me abraça.
Um médico aparece no corredor e entra no quarto. Uma correria se inicia
com a entrada de outros profissionais. Começo a me preparar para o pior, pelas
diversas ordens que o médico grita, ela está nos deixando.
Não demora muito, o médico sai da sala e o seu olhar diz tudo. Faço um
pequeno sinal demonstrando que sei que ela se foi e amparo Luciana quando ela
entende o que acabou de acontecer.
Assim que ela se acalma, entramos no quarto e nos aproximamos do corpo
sem vida de Marlene. Ela está serena e agora encontrou a paz que lhe foi
roubada pela doença nos últimos anos. É uma tristeza imensurável a sua partida,
mas todos nós sabemos o quanto ela merecia esse descanso.
— Minha vida nunca mais será a mesma sem você. Tudo o que eu mais
queria era que meus filhos pudessem ter mais um pouco de tempo na sua
companhia. — Luciana beija a mão da mãe.
Sam encosta a cabeça no meu braço e funga baixinho. Aconchego-a junto a
mim e penso no que Marlene me falou sobre ouvir o meu coração.
Neste momento meu coração me diz que não posso perder tempo e que a
vida é frágil. Descanso o queixo no topo da cabeça da Samantha e aceito o grito
do meu coração dizendo que não posso deixá-la partir.
Apesar da tristeza do momento, deixo um suave sorriso escapar ao perceber
que mesmo nos últimos minutos da sua vida, Marlene não deixou de me
aconselhar. E dessa vez não vou relutar para ouvir o seu conselho. Vou levá-lo ao
pé da letra. Será minha última homenagem a ela.
CAPÍTULO 29

Zander

Passei uma noite em claro, apesar de Sam ter ficado o tempo todo comigo,
não consegui dormir. A minha cabeça parece estar desgovernada. Sempre que
fecho os olhos, a imagem frágil de Marlene na cama do hospital me faz repensar
toda a minha vida.
Nos seus últimos minutos de vida, ela conseguiu despertar algo dentro de
mim que sequer sabia que estava aprisionado. Agora, eu sei que estive meio que
adormecido ao longo da vida. Só que depois de ontem, eu estou mais que
disposto a mudar todos os meus planos.
— Você está bem? — Escuto a voz da Sam. — Seu rosto está meio pálido.
— Vou ficar bem. — Olho para ela e sinto vontade de abraçá-la, mas como
estamos no velório, sei que não posso fazer isso.
Minha mãe não tira os olhos de nós, assim como a mãe da Sam. Esse não é
o melhor lugar para assumirmos o nosso envolvimento, principalmente porque
ainda não pude conversar com ela sobre o desentendimento que tivemos no
escritório.
Não quero que pense que sinto vergonha dela ou algo do tipo. Só não quis
fugir do que tínhamos combinado sobre a nossa vida pessoal. Principalmente na
frente da minha mãe, que sempre me alertou para não me envolver com
funcionárias.
A experiência dela com o meu pai o tempo todo correndo atrás de alguma
funcionária foi traumática. A própria Marlene passou bons bocados na mão da
minha mãe com o seu ciúme extremo. Também pudera, meu pai tinha culpa no
cartório.
— Se precisar de algo só me avisar.
— Relaxa, Sam.
Ela acena e volta a se aproximar da mãe que chora sem parar ao lado da
Luciana. Noelli era uma amiga antiga da Marlene, foi por causa dessa amizade
que Samantha começou a trabalhar comigo. Devo mais esse favor a minha
amiga. Ela, além de me trazer Sam, conseguiu me mostrar antes de partir que
preciso mantê-la ao meu lado.
— Zander, eu vim assim que soube. — Levo um susto quando Vanessa se
joga sobre mim passando os braços pelo meu pescoço.
Olho para Samantha e a vejo acompanhar a cena com contrariedade. Se não
estivéssemos em um velório, certamente Vanessa já teria voando longe.
— Vanessa, me solta. — Seguro os ombros dela e tento fazê-la me largar.
— Estou aqui para te consolar, não precisa fingir que é durão comigo. —
Ela afaga o meu rosto.
Que droga! Se ela não me largar, Samantha pode perder a linha e
transformar o velório em um grande escândalo.
— Não estou fingindo ser durão. — digo baixinho. — Só quero meu
espaço.
— Tudo bem. — Ela aperta a minha mão. — De qualquer forma ficarei ao
seu lado até tudo acabar.
Era só o que faltava. Será que não posso ter sossego ao menos quando
preciso me despedir de uma grande amiga?
Sinceramente, não sei o que Vanessa pensa que está fazendo. Ela não era
para estar aqui e também não devia me ligar todos os dias. Já enviei todas as
coisas dela que estavam na minha casa, não vejo o que mais podemos ter para
conversar.
Passo os próximos trinta minutos tentando manter as mãos de Vanessa
longe de mim. Estou apreensivo temendo que Samantha perca a compostura.
Quando o corpo sai para o crematório, informo à Luciana que não irei
acompanhar a cerimônia. Ela me agradece todo o carinho que tive e, antes de ir
embora, me presenteia com um caloroso abraço que me lembra muito o da sua
mãe.
Meus pais também informam que irão embora. Já Samantha e a mãe
seguem para a cremação juntamente com Luciana.
Fico tenso com a aproximação da Vanessa, não a quero perto e muito menos
que Samantha se aborreça com a sua presença. Ontem já tivemos um problema
que foi interrompido com a trágica perda da Marlene, não desejo entrar em mais
uma situação delicada com ela.
— Filho, você comeu algo? — minha mãe pergunta enquanto beija o meu
rosto. — Estamos indo almoçar.
— Não tenho fome no momento.
— Você tem que se alimentar, Marlene não ficaria feliz se soubesse que não
quer se alimentar. — Meu pai fala como se eu fosse uma criança.
— Eu estou bem, só prefiro ir para casa. Depois peço algo para comer.
— Posso preparar algo para você. — Vanessa se oferece e me faz olhar para
ela assustado.
— Você aprendeu a cozinhar? Porque até onde sei, não sabe sequer fazer
café. — Ela me olha constrangida.
— Eu posso me virar. — responde sem graça.
— Vá com ele sim, Vanessa. Não acho bom Zander ficar sozinho neste
momento. — Minha mãe se mete na conversa.
— Claro que eu vou. — Passando o braço ao redor do meu braço, Vanessa
sorri acreditando que realmente irá comigo.
— Bem... — Decido acabar com esse circo. — Estou indo, hoje não foi um
dia fácil.
Rapidamente me despeço dos meus pais e saio com Vanessa no meu
encalço. Ela está acreditando que se enfurnará na minha casa, mas está muito
enganada.
Vou despachá-la na sua casa e ir para a minha sozinho. A única pessoa que
desejo ter ao meu lado agora é Samantha, só que infelizmente só nos veremos no
início da noite.
Até que ela possa me encontrar, quero ficar sozinha, pensando nos passos
que darei na minha vida pessoal em breve. Não vou perder mais nenhum
segundo para assumir meu relacionamento com Samantha.
— Se você não quiser comer a minha comida, eu peço algo para você.
Depois posso fazer aquela massagem que tanto gosta.
— Entra. — Abro a porta do carro contando os segundos para me livrar
dela.
Vanessa não insiste no assunto e entra no carro. Tomo o meu lugar e coloco
o veículo em movimento, mas quando olho pelo retrovisor, eu vejo Samantha
observando o meu carro se afastar.
Puta que pariu! Vou ter um novo problema com ela justamente em um
momento que só preciso de paz. Que droga!

— Onde pensa que está indo? — Vanessa se manifesta quando percebe que
não estou seguindo para o meu apartamento.
— Vou deixar você em casa.
— Não vai nada. Eu vou ficar com você. Jamais vou te deixar sozinho em
um momento tão difícil.
— Agradeço sua preocupação, mas quero ficar só.
— Zander, eu prometi a sua mãe que cuidaria de você.
Respiro fundo antes de respondê-la, não quero ser grosseiro, muito menos
causar uma discussão intensa. Hoje só preciso de paz.
— Não preciso que ninguém cuide de mim.
— Sei que está sofrendo e posso amenizar sua dor. — Ela descansa a mão
na minha coxa. — Comigo você pode se abrir, eu te conheço bem.
— Vanessa... — Faço uma pausa antes de continuar a falar. — Tenho quem
cuide de mim e ela me conhece muito mais que você. — Paro o carro na frente
do prédio dela. — O que nós tivemos acabou, siga a sua vida, porque eu já segui
com a minha faz tempo.
Viro o rosto na sua direção e vejo a sua expressão de choque. Ela não
esperava ouvir isso, na verdade eu também não esperava falar tanto.
— Você não pode ter esquecido tudo o que vivemos. Eu te amo, Zander e
sei que me ama também.
— Sai do carro. — Hoje definitivamente não é um bom dia para discussões.
— Não vou sair. — A negativa dela me irrita. — Você tá com a sua
secretária, não é? Eu vi a troca de olhares entre vocês. Sempre soube que aquela
vagabunda tinha interesse em você.
— Nunca mais chame Sam assim. — Inclino meu rosto para observar
atentamente os olhos dela. — Eu exijo que a respeite. Está me entendendo?
— Chamo aquela piranha como eu quiser. Ela roubou você de mim. —
Perco o resto da paciência.
— Sai. — Abro a porta do carro e faço um gesto de cabeça para ela sair
logo. — A partir de hoje está proibida de se aproximar de mim ou de Samantha.
— Você pode até não ficar comigo, mas com ela também não fica. —
Vanessa faz essa ameaça com muita tranquilidade.
— Está me ameaçando?
— Não. Só estou afirmando que vocês nunca ficarão juntos.
Ela sai do carro e me deixa furioso. A minha vontade é de ir atrás dela e
fazer uma ameaça muito maior, mas sei que não vale a pena. Vanessa só quer me
aborrecer, sei que ela odeia perder.
Para evitar mais confusão, arranco com o carro e vou embora. Agora
preciso só da minha casa e me acertar com Samantha. Espero que ela não esteja
muito chateada por me ver sair com Vanessa. Não quero outra briga com ela,
nesse momento tudo o que desejo é tê-la do meu lado.


Samantha

Zander - Quando estiver livre venha para a minha casa, estou te
esperando. Pode trazer seu gato se quiser.
Que cretino, estou morrendo de raiva dele. Tive que me segurar para não ir
atrás desse cretino e da sonsa da ex-namorada. Como eu odeio aquela Vanessa,
mulher antipática e insuportável.
Ela se acha melhor porque é de família tradicional, só que eu pouco me
importo com a família dela. Para mim todo o dinheiro que tem não me faz
diferença.
Ignoro a mensagem do Zander e vou tomar um banho. Hoje o dia foi
pesado, a minha mãe se sente péssima quando o assunto é morte. Depois que
perdemos meu pai de uma forma tão violenta, ela não aguenta comparecer em
nenhum sepultamento.
Apenas foi ao da Marlene porque as duas eram amigas por décadas, ainda
assim, foi um sacrifício conseguir segurar o desespero dela quando viu o corpo
da amiga no caixão.
É sempre difícil perder alguém que amamos, eu bem sei o que passei
quando tive que enterrar meu pai. Foi devastador saber que nunca mais o veria,
até hoje a dor da sua perde me acompanha.
Passo um longo tempo no banho, conversando com Nap enquanto ele pula
incansavelmente da tampa do vaso para o chão ao brincar com a sua bola. Se não
fosse esse gato atrevido, não sei se suportaria viver sozinha.
Eu gosto muito de falar, e com o Nap eu posso fazer isso sem medo. Conto
tudo para ele, falo mal de quem não gosto e tudo fica guardado. Não é por menos
que ele é meu melhor amigo.
— Nap, hoje nós iremos passar a noite assistindo séries. Vou deixar o
senhor Saramago me esperando. Ele que seja consolado por aquela vaca da
Vanessa. Estou farta dele. Acho que preciso dar um tempo de relacionamentos,
sinto que não tenho futuro nesse quesito.
“Miau”
Nap mia firme e acredito que ele concorda comigo. Por isso amo tanto meu
gato, ele sabe me entender perfeitamente.
— Vamos beliscar alguma coisa, meu bebê? — Sigo com ele para a
cozinha. — Acho que vou tomar um vinho para quebrar toda a tensão do dia e
você bebe leite. O que acha?
“Miauuuu”
Ele solta um miado agudo, parecendo entender o que estou dizendo. Tenho
um medo de um dia esse gato falar. Esse bicho é tão esperto, que não me admira
se virar algo parecido com o gato da Alice no País das Maravilhas.
Deus me livre disso acontecer! Eu nem bebi e já estou ficando doidona.
Pego o potinho dele e coloco o leite, Nap corre e começa a beber feliz da
vida. Vou até a geladeira em busca do meu vinho, mas quando estou prestes a
pegar a garrafa, a campainha toca.
Que merda!
Não acredito que aquele pentelho do Zander veio atrás de mim. Aposto que
é ele. A única pessoa que sobe sem ser anunciado é esse chato ou minha família.
Hoje não estou em um bom dia, assim como sei que ele também não está.
Espero de coração que não me perturbe, porque do jeito que estou furiosa com
ele, eu jogo esse idiota pela janela.
Sem pressa sigo para a porta, e me irrito quando ele começa a tocar a
campainha sem parar. Imbecil! A minha vontade é abrir a porta com um balde de
água para jogar em cima dele.
Espio pelo olho mágico e vejo sua expressão irritada. Até nervosinho o
filho da mãe é bonito. Como eu queria ficar com raiva eterna dele, mas só em
ver esses olhos azuis parecendo uma tempestade de verão, eu fico toda acessa.
Lamentável seu comportamento Samantha. Você já teve dias melhores
garota!
Faço uma breve reclamação mental e abro a porta. Zander não se move e
desliza os olhos pelo meu corpo. Só agora me lembro que estou de sutiã. Saí do
banheiro só com uma bermuda e não me preocupei de colocar uma blusa.
Aposto que ele vai reclamar.
— Como atende a porta assim? — Bingo! Sabia que ele ia resmungar algo.
— Estou na minha casa, atendo a porta como eu achar melhor.
— É mesmo? — Ele avança para dentro do meu apartamento e bate a porta.
— Pois pode parar de atender a porta seminua. Já imaginou se é o porteiro?
— Olha aqui. — Aponto para o olho mágico. — Isso existe justamente para
você ver quem está do outro lado.
— Pare de deboche.
— Não estou de deboche, só mostrando que abri a porta porque vi sua cara
feia. — Eu não deveria tratá-lo assim depois que perdeu uma amiga, mas estou
tão puta com ele, que segurar minha boca fica quase impossível.
— Ainda está chateada comigo? Foi por isso que não respondeu as minhas
mensagens?
— Não respondi, porque não quis. — Sigo para a cozinha já me sentindo
cansada por tê-lo aqui me perturbando.
— Posso explicar por que estava no carro com a Vanessa.
— Explica aqui pra minha mão. — Faço um gesto de abrir e fechar a mão
na cara dele.
Como odeio esse homem. Ele me deixa completamente irracional.
— Você é insuportável quando decide ser um pé no saco.
— Tá vendo o corredor que acabou de passar? — aponto para a saída da
cozinha. — Siga-o de volta e vá para a sua casa.
Abro a geladeira e pego a garrafa de vinho. Espero que ele perceba que não
quero papo e caia fora logo. Não aguento mais brigar com ele. Preciso de
espaço.
Derramo na taça uma quantidade expressiva da bebida e tomo um longo
gole. Zander apenas me observa parado, sem tirar os olhos de mim.
O meu corpo esquenta, não sei se pelo vinho, ou pelo o seu olhar intenso.
Por Deus que tento resistir a esse infeliz, mas ele parece ter domínio sobre mim.
Sem dizer uma única palavra, ele me encurrala entre a geladeira e a mesa.
Sinto o meu coração palpitar furiosamente e já começo a me derreter só em
pensar que ele vai beijar.
Assim que a sua mão aprisiona a minha nuca, eu me dou por vencida. Sou
capaz de muita coisa nessa vida, mas resistir ao maldito Zander não está nessa
lista. Eu me odeio profundamente por desejá-lo tanto, mas até o momento não
sei o que fazer para bloquear a atração que sinto por ele.
A boca dele avança sobre a minha com raiva, seu beijo está repleto de
desejo e frustração. Seguro a sua blusa e o puxo na minha direção. Quero esse
maldito grudado em mim. Quero que ele me jogue sobre essa mesa e me foda
com força. Quero tudo o que puder me dar neste momento.
“Miauuuuu”
— Porra! — Zander berra quase no mesmo instante em que escuto o miado
estridente do Nap. Quando olho para baixo, vejo meu gato endiabrado grudado
na calça dele. — Sai de cima de mim seu demônio! — Ele tenta se desprender
do Nap, que o segura com toda a força do mundo.
A cena é hilária e, por mais que eu queira ajudá-lo, não consigo parar de rir.
Nap quer acabar com a minha vida sentimental, assim fica difícil trazer algum
homem na minha casa. Ele ataca todos os meus paqueras, nunca vi um bicho tão
enciumado.
— Napoleon, chega. — Pego o danadinho e, com dificuldade, consigo tirá-
lo da perna do Zander. — Você tem que se comportar.
“Miau”
Ele esfrega o focinho no meu queixo e começa a ronronar querendo
carinho. Que gato espertinho, ficou com ciúmes do Zander.
— Esse gato é um marginal. Ele quase arranca a minha perna fora.
— Não exagere, ele estava só me protegendo. — Solto o Nap e dou um
tapinha na sua bunda para que vá para a sala.
Como é abusado, Nap olha feio para o Zander antes de ir embora. Esse gato
é terrível, se fosse meu filho humano não pareceria tanto comigo.
— Protegendo do quê? Eu não estava te matando.
— Estava me tocando sem autorização. — Finjo que não gostei do beijo
dele. — Quer um pouco de vinho?
Já que ele está aqui, não vou poder desperdiçar a sua visita. Quero alguém
comigo hoje, estou me sentindo exausta emocionalmente.
— Aceito. — Ele puxa uma cadeira e se senta. — Na verdade aceito umas
dez garrafas.
— Não quero ninguém embriagado me perturbando. — Coloco a taça na
frente dele.
— Do jeito que estou hoje, se eu beber demais vou apenas desmaiar e
dormir.
A tristeza na sua voz quebra o meu coração. O pobrezinho deve estar
sofrendo, ele sempre foi muito ligado à Marlene.
— É até difícil dizer isso, mas ela descansou, Zander. — Sento-me ao lado
dele e acaricio a sua mão. — Enfrentar todos os tratamentos que ela foi
submetida não é fácil. Ela sofria tanto com dores, com a debilitação que a
doença lhe impôs.
— Eu sei. — Ele solta um suspiro profundo. — Mas sou egoísta, queria que
ela se recuperasse e voltasse a trabalhar comigo.
— Que ótima maneira de avisar que deseja chutar a minha bunda. —
resmungo.
— Nós já conversamos sobre o seu futuro na empresa. — Zander estica a
mão e me puxa para seu colo. — Você precisa trilhar seu próprio caminho. —
Ele acaricia a minha bochecha. — E eu tô mais para apertar a sua bunda do que
chutá-la.
— Pare de tentar ser engraçadinho, estou puta da vida com você.
— Se for por causa da Vanessa nem perca seu tempo ficando chateada, eu
só dei uma carona para ela. E aproveitei para deixar bem claro que não temos
mais nada.
A confissão dele me agrada, mas ainda estou com ciúmes. Não gosto de
saber que eles ficaram sozinhos.
— Difícil é ela entender que vocês se separaram de vez.
— Agora que ela sabe que estamos juntos, vai me esquecer de vez.
— Como? — Olho para ele surpresa. — Você contou que estamos juntos?
— Mais ou menos. — Ele coça a barba. — Ela me disse que ia cuidar de
mim, que me conhecia bem. — Começo a me irrita com o rumo da conversa. —
Aí eu disse que não precisava dos cuidados dela, que tinha quem cuidasse de
mim, e essa pessoa me conhecia melhor do que qualquer um.
Uma satisfação intensa cai sobre mim. Acho que me apaixonei um pouco
mais por ele depois de ouvir isso. Queria estar na hora só para ver a cara de ódio
da aguada.
— E como ela soube que era eu? — Zander exibe um sorriso tímido que
não combina com ele.
— Ela disse ter visto as nossas trocas de olhares apaixonados. — Fico
apreensiva com o que ele fala. — Não me dei ao trabalho de desmentir o que é a
pura verdade.
Sabe aquele momento que você está caminhando poderosa em um salto
agulha e do nada despenca? Essa sou eu neste momento. Sinto o meu corpo
desabar no chão por ouvi-lo afirmar que estamos apaixonados.
— Como foi a reação dela? — decido ignorar a parte que ele fala sobre
paixão.
— Vanessa não gosta de perder, mas essa partida já foi encerrada há
tempos. — Ele contorna a renda do meu sutiã. — Sei que precisamos conversar
sobre o que aconteceu no escritório. Eu estou me sentindo muito mal pelo o que
fiz, mas preciso de você agora. — Seus olhos buscam os meus. — Só você pode
fazer a minha cabeça parar de trabalhar. Estou a ponto de explodir.
Vejo no seu olhar o quanto está aflito. Sei como ele é reservado e seguro
com as suas emoções. Para fazer um pedido desse sem nenhum pudor, é porque
está completamente desesperado.
Não respondo nada, apenas encosto a boca na dele tentando passar todo o
amor que está dentro do meu peito. Apesar das nossas desavenças, não posso
negar o que sinto por ele. A cada vez que nos encontramos, percebo o quanto o
meu coração está entregue a esse homem. Quero o Zander na minha vida, quero
que ele seja só meu e de mais ninguém.
CAPÍTULO 30

Samantha

Eu não sirvo para estar apaixonada, fico tão idiota que irrita. Às vezes tento
esconder meu sorriso bobo, mas a cada vez que o Zander me olha, viro uma
manteiga derretida.
— Do que está rindo? — ele me pergunta quando dou mais um dos meus
sorrisos idiotas.
— Nada. — Tento conter meu ânimo. — Estava só lembrando do Nap
grudado em você.
— Nem me fale desse gato, ele é terrorista.
— Credo, Zander, não fala assim dele.
— Estou mentindo, Samantha?
— Ele é um pouco determinado.
— Vamos mudar de assunto? — Ele vira o corpo na cama e apoia a cabeça
na mão. — Quero te pedir desculpas pelo o que falei na frente da minha mãe. Eu
só quis seguir à risca o que combinamos de não revelar nosso relacionamento.
Em momento nenhum tive a intenção te ofender.
Eu não estou sabendo lidar com esse Zander sincero e amoroso. Há poucas
horas ele confessou que precisava de mim, agora está me pedindo desculpas.
Será que algum alienígena tomou posse do corpo dele?
— Você me magoou de verdade. Fiquei me sentindo diminuída com o que
falou. — Vou aproveitar que ele está um doce para fazer drama.
— Eu sei que ficou chateada, o problema foi que fiquei meio que em pânico
da minha mãe achar naquele momento que realmente estávamos juntos. Ela é
bem desconfiada, você sabe disso.
— Eu sei. — Enrugo o nariz. — Sua mãe gosta de se meter onde não é
chamada.
— Ela se preocupa com os filhos, Sam.
— Você é bem crescido. Ela deveria se preocupar com os corações que
você quebra a cada envolvimento.
— Eu não quebro corações. — Ele rebate. — Sou bem sincero nos meus
relacionamentos.
— Não venha com essa conversa para o meu lado, senhor Saramago. —
Desfaço logo a onda dele. — Sou eu que aturo suas ex querendo voltar para
você.
Pela careta que ele faz, não gostou da minha observação, só que eu não vou
omitir todas as vezes que tive que livrá-lo das suas ex-namoradas.
— Isso foi antes.
— Antes do quê? — Por alguns segundos ele fica em silêncio.
— De você.
Ai cacete! Hoje ele vai me matar do coração.
— Samantha. — Ele se senta na cama e me puxa para fazer o mesmo. —
Quando você se sentir preparada, eu quero assumir para todos que estamos
juntos.
Fico em choque com a sua revelação, não sei o que falar. Hoje eu esperava
que ele fosse relembrar do passado, de tudo o que viveu com a Marlene, não
discutir a nossa relação.
— Não quero que ache que estou sendo precipitado. Eu te conheço há
muito tempo e tenho consciência dos meus sentimentos. O que sinto por você
não é novo, eu... — ele faz uma pausa e aos poucos repuxa a boca em um sorriso
discreto. — Eu me apaixonei por você desde o segundo que a Marlene te levou
ao meu escritório.
Os meus olhos enchem de lágrimas quando ouço suas palavras. Não
acredito que ele também se sentiu atraído por mim. Quando coloquei os olhos
nesse cretino, o meu coração deu pulo completamente diferente.
— Sempre achei que superaria o que sentia, mas só piorou com o tempo. —
Faço um esforço fenomenal para não começar a chorar como uma boba. —
Antes de partir a Marlene me pediu para ouvir o meu coração e sabe o que ele
me diz?
— Não. — A minha voz é apenas um sussurro.
— Ele diz que não posso te perder nunca.
Ele encosta os lábios nos meus e neste momento não contenho as lágrimas.
Que coisa linda. Nunca imaginei que ele pudesse ser romântico. Na verdade,
nunca pensei que ele pudesse se apaixonar de verdade.
— São lágrimas de felicidade? — ele pergunta quando se afasta um pouco.
— Não. — Apesar de ser um momento de puro romance, não posso perder
a oportunidade de tirar sarro dele. — São lágrimas por descobrir que você tem
coração. — A ruga sexy que se forma em sua testa é linda.
— Está de brincadeira?
— Jamais. Realmente estou surpresa por ouvir algo tão romântico. — Pulo
para o coloco dele e me sento com as pernas abertas enquanto seco as lágrimas.
— Eu gosto um pouco de você. — Nem sob tortura assumo agora que só penso
nele, só o desejo e sonho com ele até quanto estou acordada.
— Um pouco quanto? Devo me preocupar com a possibilidade de você
passar a gostar menos?
— Sempre existe essa possibilidade. — Mordo o lábio ao me esfregar nele.
— pode se esforçar para que eu goste bem mais.
— É mesmo? Como faço isso?
— Eu vou mostrar e com detalhes.
Ele sorri, e vira o meu corpo na cama sem maiores dificuldades. A boca
dele busca a minha e nos embolamos entre os lençóis dando vazão ao sentimento
que parece nos consumir. Pela primeira vez, sinto que ele está inteiramente
comigo.
Mais uma vez a Marlene foi um anjo na minha vida. Antes de partir, ela
lançou a semente para que o nosso amor pudesse germinar.
Onde quer que esteja, obrigada por tudo.
Faço esse agradecimento silencioso, antes de me concentrar inteiramente no
homem apaixonada que desliza beijos suaves ao longo do meu corpo.

Estou extremamente agitada com a aproximação da hora do almoço. Zander


está decidido a assumir o nosso namoro. Marcou um encontro com a irmã e o
sobrinho para contar em primeira mão à Gaia que estamos juntos. Parece que
Marlene fez mágica antes de partir, ele está completamente diferente.
Amanhã é a missa de sétimo dia da morte dela, a minha mãe já avisou que
irá, já o Zander não me respondeu nada quando perguntei se iria.
Ele está se esforçando para superar a morte da amiga, mas às vezes vejo o
olhar dele perdido. Marlene era uma referência na sua vida em muitos quesitos,
ela o conhecia melhor do ninguém, e essa sintonia entre eles sempre despertava
ciúmes da sua mãe.
E por falar na mãe dele, a mulher pegou no meu pé. Ela praticamente veio
ao escritório todos os dias e me olhou com aquela cara de nojo que me irrita.
Posso estar enganada, mas ela será um grande problema na nossa vida.
— Sam, eu já vou para o almoço. — Cris anuncia.
— Tudo bem. — respondo agitada. — Queria ir com você.
— Calma, vai dar tudo certo. — Ela se aproxima da minha mesa. — Gaia é
um doce, ela vai gostar de saber que tem uma nova cunhada.
— Não sei, Cris, ainda me sinto assustada com tantas mudanças na minha
vida. — Fico pensativa. — Uma hora não acerto a mão com homens, e na outra
tenho um mulherengo como o Zander querendo me namorar. Isso é para pirar
qualquer mulher.
— Aproveita boba. — Ela pega a bolsa. — Não pensa, deixa rolar.
Sorrio para ela, esse é um bom conselho. Eu posso aproveitar muito toda
essa situação. Só não sei o que será de mim se ele encontrar outra mais
interessante.
Cris se despede e sai para o almoço. Eu fico esperando meu digníssimo
namorado terminar de conversa com o Gaspar. Espero que ele não demore, estou
morrendo de fome.
Um barulho de mensagem chega ao meu celular e desperta a minha
atenção. Abro o aplicativo e vejo que é o Morales. Ele viajou de última hora para
à Ásia, está fechando um contrato milionário. Que orgulho tenho desse homem,
ele merece muito sucesso.
Morales – Quando voltar eu quero uma noite intensa de comemoração com
você. Fechei um contrato surreal e preciso dividir isso com alguém especial
Sorrio da mensagem, é gratificante saber que ele quer dividir esse momento
comigo. Sei que ele tem segundas intenções, mas ainda assim é muito legal da
sua parte pensar em mim.
Samantha – Parabéns!!! Estou orgulhosa de você.
Morales – Quando eu voltar vamos conversar sobre negócios, quero você
comigo, preciso de alguém que eu confie de olhos fechados.
O meu coração acelera ao ler o que ele escreveu. Não quero nem pensar na
reação do Zander se ele desconfiar que o Morales me quer trabalhando com ele.
Só que eu não descarto essa possibilidade. Se vou assumir um relacionamento
com meu próprio chefe, não é a melhor opção trabalhar diretamente com ele.
Samantha – Vamos negociar.
Não me estendo no assunto, preciso pensar um pouco. Talvez quando ele
voltar, eu já saiba se devo mudar radicalmente de vida.
— Bom trabalho, Gaspar, como sempre você não decepciona. — Escuto a
voz do Zander e descarto o celular. Não quero briga antes do nosso almoço.
— É meu dever, senhor.
Gaspar acena para mim e vai embora, me deixando completamente na mão
do lobo mau. O pior é que adoro esse lobo.
— Está pronta, senhorita Diniz? — Ele apoia uma mão grande na minha
mesa.
— Pronta e com fome.
— Também estou com fome. — Fico parada apenas acompanhando-o se
inclinar na minha direção. — Mas não é de comida. — Ai meu Deus, que calor!
— Zander, aqui não, nós já conversamos sobre isso.
— Você é estraga prazeres. — Ele se afasta. — Vamos? Não quero deixar
Gaia esperando. Ela é meio obcecada por horários.
— Jura? Eu conheço uma pessoa que entra em crise histérica se alguém
atrasar cinco minutos.
— Esse alguém deve ter problemas. — O sem-vergonha finge não ser o
“alguém” que falei. — Atrasos acontecem.
— É mesmo? Cuidado com o que fala, senhor Saramago.
— Não me chame de senhor quando não posso te comer, querida. — Ele
aperta o botão do elevador. — Se quer que eu mantenha a compostura, não me
provoque.
— Eu adoro te provocar.
— Tente se segurar, precisamos comparecer a esse maldito almoço. —
Como um bom cavalheiro, ele apoia a mão na base da minha coluna e me
conduz para dentro do elevador.

Estou tão nervosa com esse almoço que não consigo relaxar. Apesar de
Gaia estar sendo um doce até o momento, não quero imaginar qual será a reação
dela quando o irmão anunciar o nosso namoro.
— Mãe, eu vou poder comer sobremesa? — Alex a questiona.
— Você sequer terminou de comer para pensar na sobremesa. — Ela o
repreende com tranquilidade.
— Falta pouco para acabar. — O menino rebate.
— Termine sua comida primeiro, rapaz. — Zander entra na conversa.
— Esse menino só pensa em doce. — Gaia resmunga.
— E quem não gosta de doce? — digo — Não posso criticar o Alex. —
Pisco para ele que me dá um sorriso arteiro.
— Agora sim o senhor acertou na namorada, tio, eu gosto da Samantha.
Fico estática com o comentário do menino e Zander solta um pigarro
também constrangido com a situação.
— Que indiscrição é essa, Alex? Onde está aprendendo a ser intrometido?
— O que eu fiz? — Ele encara a mãe confuso.
— Deixa o menino, Gaia. — Zander interrompe o puxão de orelha da irmã.
— Alex apenas adiantou o real motivo para este almoço. — Ele olha para mim e
segura a minha mão. — Eu quero contar, primeiramente a vocês dois, que nós
estamos juntos.
O menino sorri, ele parece bem feliz com a notícia. Já Gaia nos olha com
certa reserva e faz o meu coração acelerar com medo de ela ser contra o nosso
namoro.
— Bem... — Ela faz uma pausa tensa antes de falar. — Gosto muito da
Samantha, tanto que estou verdadeiramente preocupada com esse namoro.
Sinto o meu coração despencar com as palavras dela, se Gaia não aprova o
nosso relacionamento, não quero nem imaginar como vai ser com os pais dele.
— O que está querendo dizer? — A voz do Zander tem uma nota de
aborrecimento.
— Você não é bom com relacionamentos, a cada semana tem uma nova
mulher. — Sem medo, ela não poupa o irmão. — Samantha é uma ótima pessoa
e profissional exemplar. Eu como mulher, não posso me sentir feliz quando sei
que uma jovem tão querida está nas mãos de um conquistador barato.
O choque no rosto do Zander me faz querer sorrir, ele certamente não
esperava ouvir esse desaforo da irmã. Na verdade, eu também nunca imaginei
escutar algo assim vindo dela.
— Está me chamando de cafajeste?
— Estou! — Olho para o Alex e vejo que ele acompanha a troca de farpas
com um sorriso nos lábios.
— Por favor, não briguem. — Decido apaziguar a situação.
— Não estamos brigando, querida. — Gaia sorri com ternura. — Só estou
temerosa que ele machuque você.
— Jamais faria isso. — Zander rechaça imediatamente as palavras da irmã.
— Samantha é importante para mim, ela é... — Ele me olha e o a emoção
embutida na sua expressão faz o meu coração disparar. — Ela é especial demais,
Gaia.
Por alguns segundos eu me perco em seu olhar, até que me recomponho e
quando volto à atenção para Gaia. Vejo um discreto sorriso nos lábios dela.
— Bom... se é assim, seja bem-vinda à nossa família, Sam. — Ela estende a
mão e eu a seguro com força. — Estou feliz em tê-la como cunhada, mas já
aviso de antemão que terá problemas com a mamãe. Ela fez um breve
comentário essa semana que está sentindo o clima entre vocês diferente.
Acredito que saiba que minha mãe não aprova relacionamentos dentro do
ambiente de trabalho.
— Eu já percebi que ela anda desconfiada de nós.
— Isso não interfere em nada na nossa vida. — Zander rapidamente se
posiciona. — A minha mãe não manda em mim faz tempo.
— Ainda assim você deve explicações a ela. — Não posso deixar de me
preocupar com essa situação.
— Devo apenas informar que você é minha namorada. Nada além.
— Ele está certo, Samantha. — Agora é a vez de Gaia concordar com o
irmão. — Minha mãe tem cisma com esse tipo de relacionamento de vocês por
causa do meu pai. Ele era um sem-vergonha, não posso omitir que adorava se
envolver com funcionárias. Isso afetou a minha mãe profundamente.
— O que não é o meu caso. — Rapidamente Zander se defende. — Nunca
me envolvi com funcionária e sequer olhei para alguma com desrespeito. Exceto,
no caso de Samantha. — Ele prende os olhos nos meus e vejo uma explosão de
luxúria em seu olhar. — Infelizmente ela me conquistou desde que surgiu na
minha frente.
Sinto como se eu fosse um sorvete e estivesse derretendo sem controle.
— É... pelo jeito nada abala esse relacionamento. Parabéns aos enamorados.
— Gaia nos felicita.
— Agora podemos comer a sobremesa? Eu terminei de comer. — Alex
chama a nossa atenção. — Ainda estou com fome.
Não resistimos e sorrimos dele, a sua interrupção foi muito bem-humorada.
— Claro que podemos pedir, basta escolher o que deseja. — O tio dá carta
branca para ele.
— Legal!
Depois de tanto nervosismo, finalmente relaxo e me dou o direito de comer
uma sobremesa repleta de chocolate. À noite, perco cada grama de calorias com
o meu lindo namorado. Faço questão que ele durma comigo hoje. Preciso
retribuir todas essas declarações apaixonadas.

Agora que o almoço acabou, estou me sentindo leve. Ter Gaia tão aberta ao
nosso namoro é um bom início. Sei que não será tão fácil quando chegar o
momento de contar para a mãe dele, mas vou deixar para me preocupar quando o
momento chegar.
— Mais calma? — Zander leva a minha mão aos lábios.
— Estou. — Não vou mentir. — Ao menos vou poder contar com o apoio
da sua irmã.
— Não se preocupe com a minha mãe, ela vai reclamar, mas depois
esquece.
— Não teria tanta certeza.
— Relaxa, querida. — Ele beija o meu rosto no exato momento que o táxi
para na frente do prédio da empresa. — Vamos embora.
Ele me ajuda a descer e começamos a seguir para a entrada do prédio.
Apesar de termos combinado de não nos tocarmos na frente de outras pessoas,
ele mantém a mão na base da minha coluna.
Não quero provocar uma discussão quando estamos em um momento tão
bom, mas fico preocupada que alguém comece uma fofoca por causa desse
toque.
— Zander. — A voz da Vanessa interrompe nossos passos.
— O que está fazendo aqui? — Fico em estado de alerta com o medo de um
possível escândalo.
— Precisamos conversar. — Ela fixa o olhar na mão dele nas minhas
costas. — Mas tem que ser só nós dois, sem a sua amante.
Abro a boca em choque por ela ter a audácia de me chamar de amante. Eu
vou matar essa vagabunda.
— Desde quando estou comprometido com alguém para ter amante? —
Zander responde sem alterar a voz. — Se quiser falar comigo marque um
horário, no momento tenho trabalho a fazer.
— Vai trabalhar fodendo essa piranha? É por isso que não tem tempo para
mim? — Olho ao redor com medo de alguém ter ouvido.
— Presta atenção. — Ele se aproxima dela com o rosto completamente
retorcido de raiva. — Veja bem como fala da Samantha. Eu já te disse que não
admito que façam qualquer tipo de depreciação ao nome dela.
— Falo como quiser, você não manda em mim. — Sem medo ela o desafia.
— Realmente não mando. — Ele abre um discreto sorriso. — E muito
menos sou obrigado a escutar suas besteiras. Não perca mais seu tempo me
procurando.
— Não pode fugir de mim, precisamos conversar.
— Adeus, Vanessa. — Ele volta a me tocar.
— Vocês nunca vão ficar juntos... Nunca! — Ela decreta quando
começamos a nos afastar.
Olho para o Zander, esperando por sua resposta, mas ele apenas segue em
frente até que entramos no elevador. Fico em silêncio, esperando que diga algo,
mas ele não faz nenhum comentário.
Quando achegamos ao escritório, Cristina já está presente e, pela expressão
no meu rosto, percebeu que algo está acontecendo.
— Você está bem, Sam? — Cris questiona sem se importar com a presença
do chefe.
— Ela não está, mas não é nada demais. — Zander responde por mim. —
Pode trazer um pouco de água para ela? Leve ao meu escritório, por favor.
— Tudo bem, senhor. — Cristina segue para a copa.
— Vamos até a minha sala. — Sigo ao lado dele sem dizer nada, ainda
estou com as palavras da Vanessa gritando na minha mente. — Você está bem?
— Ele segura o meu rosto e vejo em seus olhos toda a sua preocupação.
— Eu vou ficar. Só fiquei um pouco assustada com a raiva dela.
— Vanessa sempre foi passional, não fique preocupada.
— Ela me pareceu bem ameaçadora. Eu não confio em mulher que se sente
traída.
— Conheço a peça, ela só quer perturbar.
— Com licença. — Cris aparece com um copo de água.
— Obrigado, Cristina. — Zander pega o copo. — Se por ventura alguém
aparecer peça para esperar, preciso de alguns minutos a sós com a Samantha.
— O.K. — Ela acena e sai da sala.
— Beba um pouco, você está tão pálida. — Pego o copo e tomo um longo
gole.
— Fiquei com medo de ela fazer um escândalo e todo mundo descobrir que
estamos juntos.
— Uma hora as pessoas terão que saber sobre nós.
— Eu sei, mas não quero que seja agora. — Ele enruga a testa. — O que
foi?
— Nada. — Ele prende os lábios demonstrando irritação. — Pare de se
preocupar com a Vanessa, ela gosta de chamar a atenção.
— Você está subestimando essa mulher. A raiva nos olhos dela e na maneira
que falou que nunca vamos ficar juntos, não me pareceu ser de alguém que
deseja apenas chamar a atenção.
— Sam, pare de ser neurótica. A Vanessa só quer me atormentar. Daqui a
pouco ela acha alguém e esquece que um dia me conheceu.
Fico pensativa. Ainda estou impressionada com a raiva embutida na voz
dela. Talvez seja até cisma, mas não confio nada nessa mulher.
— Tudo bem. — Opto por não causar uma discussão entre nós. — Vou
voltar a trabalhar para ocupar a cabeça.
— Isso mesmo. — Ele me abraça e encosta os lábios nos meus. — Hoje
tem aquele encontro no fim da tarde, não vou voltar ao escritório, você e a
Cristina podem ir embora assim que chegar o fim do expediente.
— Certo. — Gosto de saber que não vou fazer hora extra.
— Mais tarde passo na sua casa.
— Leva o jantar. — Hoje não estou com disposição para fazer nada.
— Não se preocupe. — Ele segura os meus ombros e gira o meu corpo na
direção da porta. — Agora vá trabalhar, não é porque você é gostosa que eu vou
facilitar a sua vida. — Recebo um tapa na bunda que me deixa elétrica.
— À noite eu acerto as contas com você. — Saio da sala sem dizer mais
nada, e programo o castigo que darei para esse abusado.
CAPÍTULO 31

Samantha

Eu não gosto de mentiras, mas dessa vez tive que inventar uma. Não é nada
demais, na verdade, só estou evitando uma discussão desnecessária com o
Zander.
Essa semana nós brigamos por vários motivos. Ele anda ranzinza demais
fechando os detalhes da negociação com o Enzo Parise. E por morrer de ciúmes
do homem, evita que as reuniões sejam na empresa. Nunca imaginei que ele
fosse um homem ciumento, não posso tocar no nome do bonitão, que ele vira um
leão raivoso.
Nós brigamos também por ele ficar até tarde trabalhando e me obrigando a
fazer hora extra. A Cris até gosta de ficar em alguns dias, mas não em todos,
nem ela que precisa de uma grana a mais, está aguentando.
Zander esquece que as pessoas precisam ter vida social, só ele que parece
plugado 24 horas no trabalho.
Por isso eu decidi ter meu momento de rebeldia e aproveitei o meu dia de
MBA para me divertir sozinha, sem ele falando sobre trabalho o tempo todo. O
grande problema é a minha companhia, se Zander descobre que vou tomar uma
bebida com o Morales, estarei completamente enrascada.
— Oi. — Sorrio quando me aproximo da mesa que o Morales me espera. —
Desculpa o atraso.
— Não demorou tanto. — Ele me cumprimenta com um beijo. — Como
você está?
— Cansada. — Desabo na cadeira a frente dele. — Essa semana foi tensa,
estou exausta.
— Seu chefe é um tirano.
— Não posso negar essa verdade. — Concordo.
— O que vai beber?
— Hoje está quente, quero uma caipirinha.
— Ótima pedida.
Ele ergue a mão para o garçom e faz o meu pedido. Estou me sentindo uma
criminosa por ter vindo a esse encontro sem contar ao meu namorado. Nunca
mais faço isso, não é justo mentir para ele.
— Eu estava com saudades dos nossos encontros, você é a melhor
companhia que existe para relaxar.
— Não posso negar o quão divertido são nossas baladas. — Respiro fundo
e decido contar para ele que não poderemos mais nos encontrar com tanta
frequência. — Morales, eu preciso te falar uma coisa.
— Eu também. — ele diz todo animado. — Fechei um contrato incrível na
Ásia, em poucos meses irei exportar uma grande quantidade de tecidos.
— Nossa, meus parabéns. — Fico verdadeiramente feliz.
— Isso me leva a proposta que quero fazer.
A minha bebida chega. O que interrompe momentaneamente o que ele ia
falar. Espero o garçom se afastar e tomo um pouco da caipirinha.
— Que proposta?
— Quero que venha trabalhar comigo. Preciso que assuma um cargo de
gerência no Escritório Central. Vou ficar alguns meses fora e só posso fazer isso
se eu souber que tenho alguém de extrema confiança na empresa.
Fico de queixo caído com a proposta dele. É tudo o que sempre sonhei. O
problema é que o convite veio em um momento complicado.
— Estou lisonjeada com o seu convite, é uma grande oportunidade.
— É a sua oportunidade, Samantha. — Ele fala com empolgação. — E você
ainda tem o bônus de se livrar do Saramago.
— Bem... — Solto um pigarro antes de confidenciar que estou namorando o
meu próprio chefe. — Sobre o Zander, eu preciso te contar algo.
— O que seria? — ele aperta os olhos como se já adivinhasse o que irei
contar.
— Nós estamos juntos e... — Fico sem saber o que falar.
— E ele ficaria puto se você viesse trabalhar comigo. — Ele completa o
que eu ia falar.
— Na verdade ele ficaria ensandecido.
— Entendo. — A expressão dele fica dura. — Eu já sabia que ele gostava
de você. No entanto, eu acreditava que você fosse mais esperta e não cairia nos
encantos dele.
— O que está querendo dizer? — A maneira como ele diz que não sou
esperta me ofende.
— Só estou querendo dizer que o seu namorado tem uma lista imensa de
conquistas.
— Você também tem. — Sinto-me na obrigação de defender o Zander.
— Tenho sim, não vou negar, mas nunca seria capaz de me envolver com
você como se fosse mais uma conquista. — O rumo da nossa conversa não me
agrada.
— Morales, eu não estou procurando um casamento. Sei das conquistas do
Zander, e isso me faz ter os pés no chão.
— Espero de verdade que saiba o que está fazendo. — A voz dele tem uma
nota de pesar. — Mas compreendo que não possa trabalhar comigo.
— Quem disse que não posso? — Ele me olha interrogativamente. — Se o
nosso relacionamento realmente seguir em frente, não quero permanecer na
empresa, ainda que ele me mude de cargo como já comentou que faria.
— O que está querendo dizer, Samantha? — Faço uma pausa antes de
responder.
— Você me dá um tempo para pensar?
— É claro que sim. — Ele abre um largo sorriso. — Mas e o seu...
namorado? Ele não vai gostar de saber que pode ir trabalhar comigo.
— Não posso fazer tudo o que ele quer. Preciso pensar na minha vida
profissional.
— Concordo, mas também não quero ser uma fonte de desentendimento
entre vocês. — Essa declaração dele é uma piada.
— Morales, pode parar. Você é uma fonte de briga entre nós desde que nos
conhecemos. — Ele não resiste e sorri. — Agora vamos jantar, estou morrendo
de fome.
— É você quem manda, Sam.
Ele ergue o braço e chama o garçom. Em seguida começa a me contar as
aventuras que passou na Ásia para conseguir comer algo que agradasse o seu
paladar.

A minha conversa com o Morales deixou a minha cabeça em frangalhos.


Estou completamente perdida, sem saber ao certo o que fazer. Odeio levar
problemas para a minha mãe, mas hoje, a minha visita semanal será bem
diferente.
— Mãe, cadê você? — Abro a gaiola do Nap e o deixo sair.
— Oi, filha, mamãe tá aqui nos fundos.
Vou para a varanda e sou seguida por Nap. Ele certamente vai querer se
exibir para a minha mãe, mostrar que veio bagunçar a casa dela. Esse gato é
terrível.
— O que tá fazendo aí?
— Vim colocar umas roupas no varal, essa semana foi corrida. Tive umas
encomendas de costura que me deixaram doida.
— Pega leve, dona Noelli. — Beijo o rosto dela.
— Eu gosto de trabalhar, filha, na minha idade ficar parada acelera a
velhice.
— A senhora fala como se fosse bem velhinha. — Minha mãe é uma
comédia. Ela ainda tem 53 anos, está linda e muito ativa.
— Não sou uma velhinha, mas não sou jovem. — Ela sorri. — Ah, não! —
Minha mãe faz uma careta. — O que esse gato está fazendo aqui? Não vou ficar
com ele, Samantha. Napoleon é insuportável, sem modos. Só você aguenta.
— Nossa mãe, assim a senhora magoa o Nap.
Olho para ele com pesar, mas Nap está com a perna erguida, lambendo as
partes íntimas, ignorando completamente o insulto da minha mãe. Esse é o meu
Nap, não se importa quando alguém fala mal dele.
— Ele tá bem magoado. — A ironia na voz dela não passa despercebida.
— Tem café, aí? — Decido mudar de assunto. — Saudades do seu café.
— Jura? Pensei que depois da máquina de expresso no seu trabalho não ia
querer café de pobre.
— Hoje você está insuportável. — Quando ela entra no “modo chata”
ninguém segura.
— Estou é estressada com o seu irmão comendo livro. Não vejo a hora de
passar esse período intenso de estudos.
— Ele tá dormindo?
— Que nada, hoje é dia de maratona no cursinho. Vai passar o dia todo por
lá.
— É por um bom motivo, mãe.
— Eu sei.
Seguimos para a cozinha, acompanhadas de perto por Nap. Como ele gosta
de se mostrar, vai se esfregando entre as pernas da minha mãe, miando
provocativamente. Ele perturba a pobrezinha, mas lá no fundo, bem no fundo
mesmo, ela adora o meu felino.
Depois de muito resmungar com Nap, minha mãe conta a agitação da sua
semana fazendo roupas para uma academia de dança. Ela adora costurar e
consegue fazer um bom dinheiro com esse trabalho. Quando ela acaba de falar,
decido que chegou a hora de contar o meu drama.
A minha mãe é uma pessoa sensata, vai saber me aconselhar se devo ou não
aceitar a proposta do Morales. Ainda que isso me leve a ter um conflito com o
Zander. Só que eu não posso ficar com a minha vida atrelada a ele. Não sei até
quando ficaremos juntos. Preciso ter uma vida independente, não sou o tipo de
mulher que vive em função de um homem.
— Mãe, eu preciso conversar algo sério com a senhora.
— Aconteceu alguma coisa? — Ela me olha preocupada.
— É algo bom, mas que pode causar um grande conflito no meu
relacionamento com o Zander.
— Vocês estão namorando mesmo?
— Estamos. Hoje teremos um jantar com os pais dele. A irmã dele já sabe
sobre nós, mas os pais não.
— E eu? Ninguém vai me incluir nesses comunicados? No meu tempo a
família da mulher era a primeira que sabia do namoro.
— Para de drama. — Nossa... a minha mãe está demais. — Você não é
problemática como os pais dele. Não vai implicar com a gente.
— Quem disse? — Ela faz uma cara engraçada. — Eu também sei ser um
pé no saco.
— E eu não sei? — Realmente ela sabe ser insuportável quando quer. —
Mas dessa vez não seja chata, já basta a mãe dele que é um porre.
— Aquela é mal-amada, filha, o marido dela não vale nada.
— Não quero saber da vida pessoal deles, mãe.
— Devia querer, porque está com o filho deles, mas tudo bem. Agora me
conta o que está te preocupando.
Entendi a indireta dela e é justamente pelo passado preocupante do Zander
com relacionamentos, que estou considerando seriamente aceitar a proposta do
Morales.
— Recebi uma proposta de trabalho incrível.
— Jura? Parabéns! — Antes que ela tente me abraçar, eu seguro seus
ombros.
— Calma, mãe. Primeiramente tenho que contar os detalhes dessa proposta.
— Ela me olha feio.
— Para de assistir novela mexicana, garota, odeio drama.
Olho para ela passada. A rainha do drama acaba de dizer que odeia drama.
Eu posso com isso?

— Então é isso... a proposta é praticamente irrecusável, mas se eu aceitar


estarei provavelmente dando fim ao meu namoro. — Minha mãe fica pensativa.
— É complicado filha... — Ela tamborila os dedos sobre a mesa. — Eu já
fui jovem e sei como é difícil resistir ao charme de um homem como o seu
namorado, mas você tem que pensar no futuro. Esse homem não é muito de
confiança, eu me lembro de você falando que tinha que dispensar as namoradas
dele com flores e desculpas esfarrapadas.
— Pois é mãe, esses detalhes macabros da vida do Zander me deixam
reticentes.
— Tem que ficar mesmo filha. Hoje ele só tem olhos para você, mas e
amanhã? Quem garante que não acha uma dessas bonequinhas de luxo que
dizem “sim” para tudo o que ele falar? O homem que ficar com você, tem que
ser muito centrado. Porque apesar de ser minha filha, não posso negar que você
tem um temperamento do cão.
— Mãe! — Acabo por me sentir ofendida.
— Samantha Diniz, você é chata e temperamental. Vamos ser sinceras,
filha. Puxou ao seu pai.
— Tem certeza que puxei a ele? — Fingindo existir uma ruga na toalha da
mesa, ela alisa a superfície da tolha várias vezes sem me encarar.
— Se eu fosse você conversava com o Zander e dizia que precisava seguir o
seu caminho. Se ele realmente gostar de você, vai aceitar sua escolha.
— E se ele não aceitar?
— Siga o seu caminho sem ele.
Simples de falar, mas difícil de colocar em prática.
Como vou ficar sem o Zander? Eu estou completamente apaixonada por
ele. Só consigo pensar nesse homem. Nem o Maurício, que foi o meu primeiro
amor, conseguiu me deixar tão apaixonada. Não posso perder o Zander agora, a
minha vida ficaria incompleta.
Oh, meu Deus! Estou completamente perdida. Esse pensamento estúpido
não é meu.
— A senhora está certa. — Opto por não entrar em detalhes com ela sobre a
minha fraqueza pelo meu namorado. Não quero mais uma longa discussão com
ela. Prefiro remoer sobre o que devo fazer sozinha.
Tenho tempo para pensar, o Morales me deu um bom prazo. Vou esperar
esse fim de semana acabar, para colocar meus pensamentos em ordem.


Zander

Eu sou louco por Sam, mas essa enrolação dela para se arrumar me deixa
irritado. A mulher é linda, não precisa perder tempo colocando um monte de
maquiagem no rosto. Se dependesse de mim, ela não precisava usar nada além
do seu sorriso perfeito.
— Pronto, podemos ir.
Ela surge na minha frente deslumbrante e esqueço tudo o que falei sobre
colocar maquiagem. Sam está incrivelmente linda. É a mulher mais perfeita que
já conheci. Valeu cada segundo de espera.
— Porra, você está linda demais. — Seguro na mão dela e a faço girar. —
Eu sou um cara de sorte.
— Ainda bem que sabe. — Ela joga o cabelo para o lado. — Deveria ser
mais amoroso comigo.
— Meu anjo, se eu for mais amoroso com você vai me achar uma florzinha.
— Ela sorri.
— Vamos? Não quero deixar seus pais esperando.
— Pode ir na frente. — Faço um gesto galante para ela passar.
— Não cansa de olhar minha bunda? — Ela segue para a porta requebrando
tentadoramente.
— Jamais.
Acho que sou capaz de passar a eternidade apenas olhando essa bunda.
Não! Corrigindo. Eu quero passar a vida olhando essa bunda.

Antes de marcar esse jantar, eu conversei com a minha irmã sobre a


possível rejeição da minha mãe à Sam. Ela já desconfia que nós estamos juntos
desde o dia que quase nos flagrou no escritório.
No fundo eu não estou nem aí para a opinião dela, mas como tenho planos a
longuíssimo prazo para o meu relacionamento com Samantha, quero apresentá-la
formalmente a minha família.
E não nego que ficaria muito feliz se minha mãe parasse de implicância e
aceitasse a minha namorada. Mas se não aceitar, paciência. Eu gosto da Sam e
isso é o suficiente.
— Espera. — Samantha puxa a minha mão antes que eu toque a campainha
da casa de Gaia. — Preciso de um tempo.
— Não tem motivos para ficar nervosa. — Beijo sua testa odiando saber
que está ansiosa por minha causa. — Nada do que acontecer lá dentro vai mudar
a nossa vida.
— Eu sei, mas ainda assim estou nervosa.
— Relaxa, se a coisa esquentar nós vamos embora. — Pisco para ela.
— Combinado. — O seu sorriso travesso me deixa excitado.
Toco a campainha e Alex rapidamente abre a porta. Ele está empolgado
com o meu namoro. Diferentemente da antipatia que sentia por Vanessa, ele
adora Sam.
Depois do almoço que tivemos, Alex me enviou diversas mensagens
dizendo que quando crescer quer uma namorada como a minha.
Que menino esperto.
— Oi, Sam. — Ele a cumprimenta com um olhar interesseiro. Esse garoto
está cobiçando a minha mulher.
— Como está, Alex?
— Chateado em não poder jogar. Não gosto de jantar de adulto.
— Vai ser rápido. — Bato no ombro dele e entro na sala.
Meus pais já estão devidamente acomodados, conversando com
tranquilidade. Gaia se precipita e vem nos receber, ela abraça Sam com muito
carinho. Fico satisfeito com a recepção dela, isso vai inibir o mau humor da
minha mãe.
— Samantha, como está, querida? — Meu pai sorri.
— Muito bem.
— O que está acontecendo? — minha mãe questiona. — Por que Samantha
está aqui?
Olho para Gaia xingando-a mentalmente por não ter me deixado contar que
traria Samantha para o jantar. Ela conseguiu me convencer que seria melhor
pegar a mamãe de surpresa, mas pelo jeito, essa história não vai acabar bem.
— Primeiramente boa-noite. — Eu corto a falta de educação dela. —
Segundo, esse jantar é para informar a vocês dois que estou namorando a
Samantha.
— O quê? — Minha mãe se ergue indignada.
— Que maravilha, gosto muito da Samantha. — Meu pai a ignora. —
Sempre a achei uma mulher especial. Além de linda é talentosa. Marlene sempre
dispensou muitos elogios a você, querida.
— Obrigada. — A voz de Sam sai um pouco trêmula.
— Você não pode namorar a secretária, no mínimo é antiético. O que
aconteceu com a política da empresa sobre o envolvimento entre funcionários?
— O questionamento da minha mãe é ridículo.
— Mãe, por favor, menos. Sei que você tem problemas com relacionamento
entre funcionários, mas eu sei o que estou fazendo. Até porque eu não sou
funcionário da empresa, sou o chefe, isso me dá certos privilégios. — digo a
desculpa que formei para falar a todos quando eu oficializar o meu
relacionamento. — Fiz questão de realizar esse jantar para informar em primeira
mão o meu namoro. Quero que a minha família saiba logo, porém, na empresa
não queremos exposição.
— Faz bem, meu filho, melhor evitar fofoca com o nome de vocês. — meu
pai concorda.
— Até quando vão se esconder? Uma hora todos terão que saber. — a
pergunta da minha mãe é pertinente.
— Quando estivermos prontos contaremos, mas isso só acontecerá quando
Samantha for transferida de setor. Ela irá para a administração e seguirá o seu
caminho para subir na empresa.
— Que absurdo é esse? Ela será promovida por ser a sua namorada?
— Mãe, para. — Gaia se aproxima dela. — Sam é muito capacitada. Ela
mesma me contou que está terminando um MBA. Já devia ter sido promovida.
— Isso mesmo. — concordo com a minha irmã. — Sam ainda é minha
secretária porque sou egoísta e não a quero longe de mim.
— Isso não significa... — Minha mãe tenta argumentar, mas Sam
finalmente se manifesta e corta o que ela ia dizer.
— Não preciso da caridade do seu filho e não serei promovida porque estou
dormindo com ele, se é isso o que a senhora está querendo dizer. Eu fui trabalhar
como secretária para custear meus estudos e ajudar a minha mãe depois que o
meu pai foi assassinado em um assalto.
Fico surpreso por vê-la comentar sobre esse assunto. Um dos motivos da
sua contratação foi porque Marlene me contou a sua trágica história. Algumas
vezes tentei conversar com ela sobre o ocorrido, mas todas as minhas tentativas
foram frustradas.
— Sou formada em Administração. — Ela continua a falar. — E em menos
de dois meses estarei com uma nova especialização no currículo. Eu me esforço
para ser alguém, o meu relacionamento com o seu filho não tem nada a ver com
a minha vida profissional. E se serve de alívio para a senhora, eu já tenho uma
proposta irrecusável para trabalhar como executiva na empresa de um amigo.
Não dependo do Zander para ter ascensão profissional.
A minha mãe a encara constrangida e não faz nenhum comentário. Gaia tem
um discreto sorriso nos lábios e meu pai claramente está fascinado por Samantha
não se intimidar.
— Que proposta é essa? — Apesar de me sentir contente por ela ter
enfrentado minha mãe, quero saber que merda de proposta está falando.
— Eu ia conversar com você mais tarde, mas como as coisas saíram do
controle, achei necessário deixar claro que não estou com você por causa de uma
promoção. — Sam arrebita o nariz, da mesma maneira desaforada que faz
quando estamos brigando no escritório. — Eu tenho sentimentos profundos pelo
seu filho dona Leonora e não tem nada a ver com a posição financeira dele.
— Todos nós entendemos isso, Samantha. Você é uma boa menina. — A
compreensão do meu pai me alegra.
— Obrigada, senhor Abel. — Sam sorri com ternura para ele. — Desculpa
pelo o que vou dizer, mas podemos cancelar o jantar? Não estou me sentindo
bem.
— Tem certeza que precisa ir? Talvez se tentar esquecer esse contratempo
possa ficar. — Gaia visivelmente está chateada por nossa mãe estragar a noite.
— Não desista do jantar por mim, Samantha. — Apesar de estar
incomodada com a situação, minha mãe sabe como ninguém controlar as
emoções. — Vamos esquecer o que aconteceu. Zander sabe o que faz da vida
dele.
— Ótimas palavras, mãe. — Gosto de saber que ela compreendeu que não
tem voz ativa no que faço. — Se quiser ir não tem problema, Samantha.
— Fica, Sam. — Gaia pede com a sua voz mansa que convence qualquer
um.
— Tudo bem, eu fico. — Solto a respiração quando ela aceita. Quero muito
que ela enfrente ainda mais a minha mãe, para colocar um bom limite nela.
— Obrigado. — digo baixinho e beijo a sua mão enquanto a encaminho
para se sentar.
Espero que a nossa noite se encerre sem mais percalços. Quero que esse
jantar termine logo para ficar sozinho com ela. Enquanto eu não souber qual a
proposta de trabalho que recebeu, não vou ter paz. Só espero que ela não tenha
vindo da pessoa que estou pensando. Porque se for isso, teremos grandes
problemas pela frente.
CAPÍTULO 32

Zander

O jantar foi uma merda e o clima entre Sam e eu está péssimo. Ela não
falou uma única palavra enquanto voltávamos para a sua casa e isso está me
deixando receoso.
Quero muito saber sobre a proposta de emprego que ela falou, mas estou
com medo de ela ter vindo daquele conquistador barato. Se por acaso ele tiver
pensando em roubá-la de mim, acabo com a vida empresarial dele. Basta fazer
alguns telefonemas, para que os produtos dele sumam do mercado.
— Zander eu estou com dor de cabeça, seria melhor você ir para a sua casa.
A dispensa direta dela me ofende mais do que o aceitável. Apesar do clima
entre nós não ser dos melhores, eu não esperava ouvir isso.
— Nós temos muito que conversar.
— Eu sei. Só que infelizmente não será hoje. Preciso de um tempo.
— Então eu fico e deixamos para conversar amanhã. — Ela fecha os olhos
e respira fundo.
— Quero ficar sozinha.
Agora é a minha vez de buscar uma respiração profunda. Samantha ainda
vai me matar de tanta raiva. Ela, mais do que ninguém, sabe como me
descontrolar com muito pouco.
— Então não demore muito para dormir, porque amanhã estarei aqui bem
cedo.
Não espero ela me responder e me afasto rapidamente dando o espaço que
ela tanto deseja. Vou ter que amargar uma noite me roendo de curiosidade, mas
farei isso porque a vontade dela sempre virá em primeiro lugar.

Depois de uma noite com alguns copos de uísque e pensamentos insanos,


estou na porta dela, descansando o dedo na campainha. Não estou ligando se eu
vou acordar os vizinhos. No momento o meu desejo é saber que porra de
proposta de emprego ela recebeu.
— Merda, Zander, ainda são oito horas. — Ela abre a porta com o rosto
sonolento e exibindo uma camisola indecente.
— Eu disse que estaria aqui cedo. — Entro pronto para a guerra. Não saio
daqui até ela me contar toda a história dessa proposta. — Vou preparar o nosso
café enquanto se arruma. — Ergo a sacola com pães frescos.
— Acabei de acordar, não quero trocar de roupa.
— Quero conversar com você sem distrações. — Faço sinal para os seios
dela. — Tenta me ajudar a não perder a linha. Por favor.
Não vou fingir que sou um bom moço e que vou me comportar com ela
linda, nessa camisola sexy. Apesar da curiosidade que está me corroendo, o meu
desejo por ela é acima de qualquer coisa.
— Como você é chato. — Ela segue na direção do quarto demonstrando
toda a sua insatisfação.
Sem me importar com a sua irritação, eu sigo para a cozinha e começo a
organizar o nosso café. Em pouco tempo Sam me faz companhia e me ajuda a
colocar a mesa.
Deixo que ela coma com tranquilidade, não vou iniciar a nossa conversa
antes que termine a principal refeição do dia. Não sou tão insensível assim.
— Gostou do que trouxe? — Fiz questão de comprar tudo o que ela gosta.
— Estava uma delícia. — Ela corre a língua pelos lábios e me enlouquece.
— Vamos conversar?
Miau.
O maldito gato aparece. Eu tinha até me esquecido desse bicho.
— Nap, quer comer? — Ela acaricia o pelo dele e vai para o seu potinho de
comida.
Observo ela ajeitar a comida do bichano com toda a calma do mundo. Está
bem claro a sua intenção de ganhar tempo.
— Samantha, vamos conversar. — Ela cruza os braços e me encara
emburrada.
— O que é? Quem deveria estar chateada era eu por ser destratada pela sua
mãe.
— Você já sabia que ela faria uma cena, minha mãe é chata, mas você
soube lidar com ela muito bem. Fiquei feliz que não se intimidou e me deixou
ainda mais feliz quando disse que tem sentimentos profundos por mim. — Ela
fica enrubescida.
— No momento o único sentimento que sinto por você é ódio por me
acordar tão cedo.
— Se tivesse conversado comigo ontem, não teria esse problema. — Ela faz
uma careta. — Agora me fala sobre a proposta que recebeu.
Sam morde o lábio e seu olhar me diz que a porra da proposta veio daquele
safado do Morales. Que filho da puta! Ele quer roubar a minha mulher.
— Foi aquele velho safado, não foi? Ele quer te levar para a merda da
empresa dele.
— Zander... — ela tenta falar, mas já estou enfurecido.
— Você não vai. Está me ouvindo? Não quero você perto dele.
Estou completamente descontrolado. Só de imaginar ela passando o dia ao
lado daquele bode velho, tenho vontade de arrancar o pescoço dele.
— Desde quando manda em mim? — Ela dá aquela arrebitada de nariz que
tanto me tira do sério. — Eu faço o que bem quiser.
— Não me provoca... — Tento usar o tom ameaçador que tanto amedronta
os meus adversários.
— Pode parar por aí, Zander. Esse seu tom autoritário não funciona comigo.
Se quiser que nosso namoro vá adiante, aprenda a conversar comigo com calma.
Rosno com a vontade de gritar que não vou ter calma nenhuma quando o
assunto for o Morales, mas sei que, se eu fizer isso serei expulso da sua casa.
— Eu já disse que você vai ter um cargo na administração, não precisa
sequer pensar na proposta desse homem.
— Não sei se quero mais trabalhar na empresa. Se até a sua mãe achou que
eu ganharia uma promoção por estar dormindo com você, as outras pessoas
também pensarão o mesmo.
— Que se dane as outras pessoas! Se alguém falar algo desagradável para
você, só me avisar que demito.
— Tá vendo? É isso que não quero que aconteça.
— Como? Do que está falando?
— De você me proteger. Eu não quero ser tratada diferente por ser sua
namorada. Não vai dar certo continuar na empresa.
— Arrumo outro emprego para você. Eu conheço muitas pessoas.
— Qual o problema de ir para a empresa do Morales? Ele não vai me
agarrar. Se tivesse que fazer isso, já teria feito há muito tempo.
— Não confio naquele homem, sei bem o quanto é canalha.
— Então confie em mim, merda!
Ela está jogando comigo, entendi aonde quer chegar. Se eu disser que não
confio nela, Sam decretará a Terceira Guerra Mundial.
— Confio em você, mas ainda assim insisto em te arrumar outro lugar para
trabalhar.
— Para de loucura, você está parecendo criança.
— Por que insiste tanto em trabalhar com esse homem? O que devo saber?
— Droga! Estou me corroendo de ciúmes.
— Você está desconfiando de mim?
— Estou te fazendo uma pergunta e pelo jeito você não quer responder. —
Perco a paciência. — Faça o que quiser da sua vida. Cansei de discutir.
Saio da cozinha para não falar demais e estragar de vez a minha manhã. Se
a intenção do Morales era causar um conflito entre nós, aquele miserável
conseguiu.
— Zander. Volta aqui. — Sam chama o meu nome, mas já estou batendo a
porta e indo embora. Por hoje não quero mais conversar com ela.


Samantha

Não quero ser pessimista, mas estou achando que o meu relacionamento
com o Zander não vai adiante. Temos um temperamento explosivo demais. Ele
não aceita ceder, assim como eu. Apesar de ser louca por ele, não vou admitir
que controle a minha vida.
Poxa! Ele podia ao menos ter conversado comigo com tranquilidade. Essa
sua mania de sempre ter a última palavra é irritante. Que homem insuportável!
Só porque está com raiva de mim, ele está me matando de trabalhar. Estou
com calos nos dedos de tanto que digito documentos. Ele tirou boa parte do
serviço que a Cris deveria fazer e jogou na minha responsabilidade.
Esse filho da mãe é vingativo. Estou com vontade de pedir a minha
demissão antes do tempo.
— Samantha, já preparou o relatório que pedi? — A voz do déspota me
assusta.
— Como vou acabar, se você me passou esse relatório a menos de dez
minutos?
— Foi tempo suficiente para acabar. O que estava fazendo? Aqui não é
lugar para brincadeiras.
Cristina olha para mim temerosa, apesar de ele não a perturbar, a
pobrezinha está apavorada com a perseguição que ele está fazendo comigo.
— Eu estou trabalhando no relatório desde que o senhor mandou, mas não
faço milagres.
— Está debochando de mim?
Antes que eu responda, a mãe dele entra acompanhada da filha. Ela me
lança um olhar de desprezo. Essa mulher não faz questão de esconder que me
odeia.
— Filho, eu preciso conversar com você.
— Hoje não é um bom dia, estou sem tempo e irritado.
É... parece que ele não está aliviando sequer a família.
— Será rápido. — Gaia se precipita e se aproxima dele. — Boa-tarde,
meninas. — Ela exibe a educação que falta a mãe.
— Boa-tarde. — respondemos ao mesmo tempo.
— Vamos para a sua sala, Zander, juro que não vamos tomar muito do seu
tempo.
— Se eu disser não para as duas consigo mandá-las embora? — Gaia sorri.
— Claro que não. — Ela empurra o irmão para dentro da sala e pisca para
mim.
Com cara de desgosto, a senhora Leonora também entra, me olhando feio.
Que mulher metida.
— Você precisa fazer as pazes com ele, não aguento mais esse homem
gritando o tempo todo.
— Eu não fiz nada, ele que está se roendo de ciúmes do Morales. O que eu
posso fazer?
— Não aceite a proposta dele. Isso já vai acalmar a fera.
— Queria que fosse simples, Cris, mas eu não posso amarrar a minha vida
inteiramente ao Zander — digo desanimada. — Nós duas sabemos que ele não
dura com relacionamentos e a mãe dele não aprova o nosso namoro. Qual
garantia que eu tenho que essa promoção que ele me ofereceu vai durar caso o
nosso namoro termine?
Cris reflete sobre o meu questionamento.
— Você tem razão, tem que pensar na sua vida profissional a longo prazo.
— Exatamente. — Fico feliz por ela compreender meu ponto de vista. —
Sempre tive a minha independência e isso não vai mudar agora.
— Então diga isso a ele logo, se o senhor Saramago não aceitar a sua
posição, ele não serve para estar ao seu lado.
Ela está coberta de razão, mas, apesar de saber o que é certo para o meu
futuro, eu estou com medo de perdê-lo de vez. Queria muito que ele refletisse e
percebesse que está sendo um bobo. Só que, do jeito que ele anda irredutível,
estamos bem perto do fim.
* * *
Checo o meu visual uma última vez, antes de ir à sala do mal-humorado.
Cris me convenceu a encerrar o dilema que se instalou entre nós. Só que a
sugestão dela para amansar o Zander, não me agradou muito. No entanto, sei que
ele vai amar a surpresinha que estou prestes a fazer.
Fecho a porta de vidro que dá acesso a recepção e sigo para a sala do chato.
Espero que o meu plano dê certo, porque apesar de estar chateada com ele, a
minha saudade não me permite ficar mais nenhum segundo sem esse homem.
É uma grande merda estar completamente apaixonada, o nível de babaquice
que alcançamos chega a ser vergonhoso.
Abro a porta do escritório bem devagar e o flagro encarando a janela de
vidro. Ele parece alheio a tudo o que está ao redor e isso me dá a chance de me
aproximar sem ser identificada.
Quando chego perto da sua mesa. Abro o fecho lateral do vestido e deslizo
a peça ao longo do corpo. Eu espero que a minha tentativa de sedução acabe com
o nosso desentendimento.
— Zander. — digo suavemente o seu nome.
Ele gira rapidamente a cadeira e, quando percebe que estou seminua, seus
olhos deslizam vagarosamente pelo meu corpo.
Acho que ganhei a atenção do meu namorado carrasco. Nem tudo está
perdido.
— O que pensa que está fazendo?
— Não estou fazendo nada... ainda. — Dou um passo à frente, tentando me
manter segura. — Mas se quiser me ajudar, podemos fazer muitas coisas.
O brilho de luxúria nos olhos dele relaxa o meu corpo. Ele pode até tentar
ser durão, mas não consegue resistir ao meu charme.
— Que tipo de ajuda precisa? — Ele afrouxa a gravata.
— Qual a ajuda que você acha que uma mulher seminua precisa?
— Se você fosse uma mulher qualquer, eu teria uma resposta, mas como é
você... — Ele sorri. — Não faço ideia.
— Sem brincadeiras. — Decido ser direta. — Vem aqui. — Ele ergue uma
sobrancelha.
— Quem manda aqui sou eu, querida. Estamos no meu território.
— Certo. — Já que ele quer se fazer de difícil, eu vou pegar pesado. —
Tenho certeza que com um rápido telefonema encontro alguém que saiba
aproveitar uma mulher como eu sem ficar de frescura.
Pego o meu vestido e viro o corpo para sair da sala. Mas quando dou o
segundo passo sinto mãos fortes rodeando a minha cintura.
Bingo! Sabia que esse chato não ia resistir ao meu insulto.
— Por que gosta tanto de me provocar? — Ele pergunta rente ao meu
ouvido. — Sente tesão em foder com a minha vida?
Gosto desse tom raivoso na sua voz. Isso me excita demais, principalmente
depois de quase uma semana longe dele.
— Eu sinto tesão em olhar para você, mesmo quando é um ditador. — Ele
grunhe e suspende o meu corpo.
— Samantha Diniz, você é uma maldição. — Sinto a madeira firme da
mesa na minha bunda.
Confesso que imaginei várias vezes transar com ele nesta mesa, mas nada
do que imaginei me preparou para o grande frisson desse momento.
— Eu sou uma santa, por te aturar. — Antes que ele pense em responder,
busco os seus lábios. Estou com tanta saudade de beijá-lo. Não gosto de ficar
brigada com esse idiota.
Ele corresponde ao beijo com extrema empolgação. Está claro que não fui
só eu que sofri com a nossa briga. As suas mãos correm por minhas costas até
que alcançam o fecho do sutiã.
Zander se afasta e joga o sutiã para o lado, em seguida segura meus seios e
faz uma leve pressão neles que me arranca um profundo gemido. Como gosto
dessas mãos, esse homem me deixa louca.
— Você tem noção de quantas vezes sonhei em te comer nessa mesa? —
Ele sorri e acaricia a minha coxa. — Como sofri com os pensamentos libidinosos
que passavam pela minha cabeça cada vez que você saía dessa sala rebolando.
— Então hoje é seu dia de sorte, chefe. — Faço cena e o puxo pela gravata.
— Agora você vai me comer como sempre sonhou. — Ele repuxa sensualmente
um canto da boca.
— Farei isso com muito prazer.
Um arrepio passa pelo meu corpo quando ele me puxa para a beira da mesa
e se infiltra entre as minhas pernas. Sinto o quanto está duro, e não vejo a hora
de senti-lo dentro de mim.
Abro a calça dele e deslizo a mão ao logo da sua ereção. Zander me toca
intimamente, fazendo com que uma onda líquida se instale entre minhas coxas.
Nós não paramos de nos beijar e, quando ele finalmente mergulha dentro de
mim, percebo que foi uma ótima ideia dar o primeiro passo para nos
reconciliarmos.
Infelizmente estou viciada nele, Zander se transformou em uma droga, que
não faço nenhuma questão de resistir. Esse insuportável roubou o meu coração e
eu não sei o que vou fazer com esse sentimento louco que parece me consumir.
CAPÍTULO 33

Zander

Não existe nada melhor do que uma boa noite de sexo com a mulher da sua
vida. Samantha é tão minha, tão certa para estar ao meu lado, que se dependesse
de mim, já estaria com ela na minha casa.
Meu único problema em relação a ela é o gato. Só de pensar naquele
terrorista desfilando pelo meu apartamento, me dá uma aflição indescritível.
Eu sei que para tê-la, terei que aturá-lo, o problema será a humilhação de
disputar a atenção dela com um monstrinho peludo. Para ter Sam comigo, sou
capaz de qualquer sacrifício.
Olho para o relógio e vejo que a pessoa que vou encontrar está atrasada em
exatos oito minutos. Não estou completamente surpreso com o atraso do infeliz,
vindo de quem é não poderia ser diferente.
— Saramago, desculpa o atraso, mas fiquei preso em uma reunião. —
Morales finalmente aparece.
— Deveria ter marcado mais cedo sua reunião, odeio atrasos. — Não perco
tempo em cumprimentá-lo. — Sente-se, vamos conversar logo, tenho trabalho a
fazer.
— Você nunca relaxa?
— Relaxo no meu momento de privacidade, o que não é o caso.
— Por que é sempre tão desagradável? — Prendo os lábios para não falar
demais.
— Quer beber algo enquanto conversamos? — Mudo de assunto.
— Não vamos almoçar? — ele pergunta com ironia.
— Só divido uma refeição com pessoas que me interessam. O que não é o
seu caso. Agora me diz: vai querer ou não beber?
— Estou bem. — Ele cruza as mãos sobre a mesa. — O que você deseja?
— Fique longe da Samantha, ela não vai trabalhar com você. — Vou direto
ao ponto. — Se ela não quiser ficar na minha empresa, sou muito bem
relacionado para conseguir uma colocação a altura dela em algum outro lugar.
Sam não depende de você para nada.
Ele ergue as sobrancelhas, certamente surpreso com a minha fala.
— Samantha sabe que está aqui?
— Estou aqui porque quero dizer bem na sua frente que a minha mulher
não vai trabalhar para você. — digo fitando seus olhos. — Eu não gosto de você,
não confio em você e por isso não a quero perto de um salafrário.
— Sua mulher?
— Em breve será oficialmente. — Ergo o rosto para mostrar que sou
superior. — Vou pedi-la em casamento em breve. — Vejo seu queixo despencar
e me parabenizo internamente por chocá-lo.
— Vocês vão se casar?
— Vamos!
A maneira desconcertada que o Morales olha na minha direção, me causa
uma alegria incrível.
— Eu não me importo de a Samantha seguir o caminho dela em outra
empresa, mas nunca na sua. — sou enfático no que digo. — Esquece a minha
mulher, ela nunca ficará perto de você.
— Desde quando é dono dela? — Ele me provoca.
— Não sou dono, só não a quero próxima de um cretino.
— Saramago, eu respeito muito sua namorada. Ela é especial e tem uma
personalidade incrível. Samantha é o tipo de mulher que sabe paralisar qualquer
investida masculina. Você deveria confiar mais nela.
— Nela eu confio, já não digo o mesmo de você. — Ele me encara em
silêncio. — Fique longe dela!
— Se ela quiser trabalhar comigo eu vou aceitar, não posso perder uma
profissional como ela. — O desgraçado me desafia. — No entanto, não a
procurarei para saber da resposta sobre a minha proposta. Vou deixá-la livre para
decidir o que quiser.
— Ela não vai te procurar. — Levanto rapidamente antes que eu perca a
compostura. — Samantha não precisa da sua caridade. Passar bem.
Deixo o babaca para trás e sigo na direção da saída do restaurante. No
caminho dou um valor substancial ao garçom e aviso para ele pagar a bebida que
pedi e ficar com o troco.
Espero que o Morales entenda o meu recado e esqueça de vez a minha
namorada.
Apesar do meu momento de discussão com o Morales, eu estou animado.
Fechar grandes negócios sempre me deixa feliz. Gosto de saber que estou
seguindo a passos largos para o caminho do sucesso. E quando esse caminho é
ao lado de Enzo Parise, tudo fica muito melhor.
Consegui um acordo extremamente lucrativo com ele. Agora, as minhas
lojas terão um espaço dos produtos Parise com exclusividade. Já estou vendo os
lucros, essa parceria será um grande negócio para nós dois.
Olho para o lado e vejo o abusado do Napoleon lambendo sua intimidade.
Ele decidiu que se sentar ao meu lado para fazer sua higiene é um passatempo
bem legal.
A minha vontade é enxotá-lo para a cozinha ou algum lugar que eu não
tenha que presenciar o seu abuso, mas se eu fizer isso, terei problemas com
Samantha. Por consideração a ela, mantenho esse cretino ao meu lado do sofá,
enquanto a espero terminar o banho.
“Miau”
Ele mia e me olha com aquela cara de superioridade que tanto odeio.
— Vai se foder. — digo baixinho.
“Miauuuu”
O bicho mia mais alto e fica em pé no sofá, com cara de quem vai me
atacar.
— Se pular em mim, eu te jogo do outro lado. — Faço uma ameaça de
homem para homem, tentando intimidá-lo.
Ele se arrepia, porque certamente entendeu o que pretendo fazer. Napoleon
é atrevido, não se intimida com pouco. No fundo gosto disso, ele é corajoso ao
ponto de defender a dona. Eu bem sei o quanto essas unhas dele podem ser
dolorosas...
— Zander. — A voz da minha garota quebra o clima de duelo. Tanto eu
quando Napoleon nos desarmamos, assim que ela aparece na sala.
— O que foi minha paixão? — Fico com o coração mole ao vê-la tão linda.
— Tenta não ser muito irônico com a minha mãe. Ela é reticente em relação
ao nosso namoro, se você não se comportar, vou ter que enfrentá-la reclamando
de você o tempo todo.
— Serei um lorde. — Prometo.
Eu fiz questão de marcar um almoço com a mãe dela para conversar sobre a
nossa relação. Como Sam aceitou jantar com meus pais, nada mais justo do que
eu também encontrar a sua mãe.
— Se você descumprir a promessa eu vou te punir. — Ela junta o cabelo e
joga sensualmente para um lado do ombro.
— Punir? — a minha mente começa a trabalhar em punições prazerosas. —
Gosto disso. — Ergo a mão pedindo que se aproxime.
— Não irá gostar quando eu te colocar para dormir no sofá.
— Você não seria capaz. — Beijo a ponta do seu nariz.
— Pode apostar que sou.
O pior de tudo é que sei que ela me faria dormir sem nenhum remorso no
sofá. Ela quando fica nervosa é um verdadeiro perigo.
— Não chegaremos nesse extremo, eu serei um bom rapaz na frente da sua
mãe. — Acaricio a perna dela. — Vou deixar para ser malvado apenas com
você.
— Gostei dessa parte. — Ela passa a mão pelo meu cabelo. — Pode ser
malvado mais tarde.
— Posso ser agora? — pergunto já me animando.
— Não. — Ela nega sorrindo e me beija.
Napoleon pula no colo dela exigindo atenção. Esse desgraçado quer roubar
o meu lugar. Que miserável!
— Nap está com ciúmes. — Sam o segura e sai de perto de mim. — Eu não
vou te trocar pelo Zander, bebê, pode ficar calminho. — Ela afaga o pelo dele e
o desgraçado ronrona alto e corre o focinho pelo seu queixo.
— Se eu fosse você, não acreditaria bichano. — Sorrio para Sam. — Mais
tarde, quando a porta do quarto se fechar, ela não vai lembrar de você.
— Zander! Não fala isso.
— Só estou preparando o espírito do seu gato. — Dou de ombros. — Vou
tomar banho para podermos ir almoçar com a sua mãe.
Se eu ficar por aqui vendo o meu rival monopolizar a atenção da minha
namorada, certamente terei sérios problemas.

Eu já encontrei com a mãe da Samantha em várias oportunidades. Ela é


uma ótima pessoa, tão bonita quanto a filha e sempre me tratou muito bem, mas
claro, que dessa vez as coisas não serão tão tranquilas, já que estou namorando a
filha dela.
— O que esse gato veio fazer aqui, Samantha? — ela reclama assim que
entramos.
— Ele não podia ficar sozinho. — Sam solta o terrorista
— Napoleon sequer interage com alguém, minha filha, ele pode muito bem
ficar em casa.
— Ihhh, a senhora vai encher a minha paciência também? Já basta o Zander
reclamando do Nap o caminho todo. — Noelli olha para mim de maneira
solidária.
— Como vai, Noelli? — Seguro a mão dela e dou um beijo bem galante
para mostrar à Sam que sou um verdadeiro lorde.
— Vou bem, querido. — Ela sorri demonstrando todo o seu encantamento
com o meu gesto. — Como aguenta esse gato?
— A vida não pode ser sempre perfeita. — Olho para Sam e vejo que ela
me encara com curiosidade. — Para poder ficar com a sua filha, tenho que levar
de herança o gato endiabrado.
— Interessante... — Ela me encara com o mesmo olhar arteiro da
Samantha. As duas são muito parecidas, Noelli quando nova era a cópia da filha.
— Você quer beber alguma coisa? Tenho cerveja, vinho e suco.
— No momento não quero nada.
— Sente-se, então. — Ela me leva para a sala. — O Maicon mandou pedir
desculpas pela ausência, mas ele está estudando o dia todo durante o sábado.
— Estou tão orgulhosa do esforço dele. — Sam diz com um belo sorriso. —
Não vejo a hora de entrar para a faculdade.
— Do jeito que está estudando, vai passar sem dificuldades. — Noelli para
próximo a uma porta e me fita. — Você come nhoque? Ou só comida sem gosto?
— Mãe! — Samantha a repreende.
— O que foi? Só fiz uma pergunta. Gente rica agora é tudo vegano ou só
come coisas sem glúten, açúcar e sal. Não sei como conseguem viver. — Sorrio
do comentário dela.
— Eu como tudo, exceto ostras e aipo.
— Nunca fiz nenhum dos dois, então você está livre deles. — Ela pisca
para mim. — Enquanto eu começo a ajeitar o nosso almoço, que tal você já ir me
dizendo o que pretende com a minha filha? Já aviso que não a quero recebendo
flores da sua secretária, caso desista dela. Se fizer isso, eu te faço engolir até os
espinhos.
— Mãe! Para. — o grito da Sam com o comentário da mãe me faz sorrir.
Meu Deus, onde eu fui parar? Tenho duas malucas na minha vida. Eu não
merecia isso.

Após uma tarde extremamente agradável, um almoço saboroso e muitas


risadas com as histórias da Noelli, nós estamos prontos para irmos embora.
A minha sogra é incrível, tem um humor único e a personalidade forte como
a da filha. Agora que pude conversar com ela mais calmamente, entendo o
motivo de Sam ser tão determinada.
Ela teve um grande exemplo de superação e persistência dentro de casa. A
mãe dela é uma mulher única.
— Foi um prazer tê-lo aqui. — Noelli me abraça. — Eu estava um pouco
em dúvida sobre o namoro de vocês, mas depois de hoje, me sinto muito feliz.
— Passei no teste? — Ela aperta os olhos, igualzinha a filha quando decide
me provocar.
Lá vem chumbo grosso.
— Enquanto tiver esse olhar apaixonado pela minha menina, estará mais
que aprovado. — Busco por Samantha e vejo que ela observa atentamente a
nossa conversa.
— Então nunca teremos problemas. — Beijo o rosto dela. — Obrigado por
ter feito uma filha tão linda.
— Fiz com muita vontade e... — Sam se precipita e tapa a boca da mãe.
— Já chega, mãe. — Ela fala com diversão e a abraça. — Precisamos ir,
sábado que vem estarei aqui novamente.
— Venha sozinha, deixe Napoleon com seu namorado, senti que os dois se
amam.
— Cuidado, Noelli, se você for por esse caminho, o nosso entendimento
acaba aqui. — Faço cara feia para ela.
— Deus me livre brigar com você. — Ela entra na minha brincadeira. —
Não demorem muito para voltar. Gostei do tempo que passamos juntos.
— Volto em breve.
Nós nos despedimos dela e seguimos para o carro. O sorriso nos lábios da
minha garota indica que fiz tudo certo. Isso me deixa feliz. Não existe nada mais
prazeroso do que vê-la contente.
— Acho que depois de ter me comportado como um príncipe encantado, eu
mereço um chamego especial da minha namorada. — Sam acomoda a gaiola do
gato no banco traseiro do meu carro.
— Você não merece nada. — Ela me encara com um olhar sapeca. — Eu
também me comportei bem com a sua família, mas no meu caso eu não tive a
recepção positiva que minha mãe te deu.
— O. K. — Abro a porta do carro para ela entrar. — Já entendi o seu ponto
de vista. — Ela fica na ponta dos pés e me beija.
— Por isso gosto tanto de você.
E com esse simples beijo, ela me deixou mais um pouquinho apaixonado.
Essa mulher ainda me mata.

Quero fazer uma surpresa para Sam nesse sábado à noite. Essa semana nós
ficamos tempo demais brigados e quero aproveitar ao máximo esse nosso
momento de entendimento.
Agora que dei o meu recado para o Morales, estou me sentindo mais
tranquilo. Acredito que ele tenha entendido que Samantha não depende dele para
nada.
Essa proposta de emprego dele é um absurdo. Ainda que ela não queira
trabalhar comigo, sou completamente capaz de arrumar um cargo para ela em
outra empresa que não seja a dele.
— Oh, meu Deus! — escuto Sam exclamar quando percebe que estamos
caminhando para o restaurante onde o Francisco trabalha. — Estamos indo
encontrar o Chico?
— Ele está reclamando que voltamos de viagem e não aparecemos.
— Você contou para ele sobre nós? — ela pergunta animada.
— Não precisei contar. Eu vim tomar um drinque e bem... — Deixo o resto
da confissão no ar.
— E o quê? Conta. — A animação dela me faz sorrir.
— Ele viu a minha cara de felicidade e soube o que aconteceu.
Assim que paramos na porta do restaurante, ela puxa o meu braço e me faz
encará-la.
— Você está realmente feliz comigo? — Os olhos dela brilham.
— E por que não estaria? — Toco o seu rosto. — Depois de dois anos de
sofrimento, tenho comigo a mulher que virou a minha vida de pernas para o ar.
— A emoção nos olhos dela faz o meu coração acelerar. — Você me faz tão
bem, não desejo mais nada nesta vida do que você. — Abaixo o rosto para beijá-
la.
O sorriso dela é um presente inestimável. Quero passar a vida colocando
essa alegria em seus lábios.
— Vem, vamos entrar. O Chico está com saudades de você.
— Eu também estou. — Ela entrelaça os dedos aos meus e me segue para
dentro do restaurante.
Francisco acena assim que nos aproximamos. Ele nos examina com atenção
e o sorriso largo indica que ele está satisfeito com o que vê. Depois de tanto
encher os ouvidos dele com minhas lamúrias sobre Sam, ele deve estar aliviado
em saber que nunca mais escutará meus lamentos.
— Que honra os receber aqui. — Chico estende a mão para Sam. — Estava
com saudades de você, garota.
— Eu também. — Chico aproveita para beijá-la.
— Pega leve. — reclamo com ele.
— Com medo da concorrência? — O sem-vergonha debocha.
— Não da sua. — Ajudo Sam a sentar.
— Vão beber o de sempre?
— O que vai querer? — pergunto enquanto me acomodo ao lado dela.
— Faz um drinque legal, Chico.
— Pode deixar. — Ele me encara exibindo um sorriso zombeteiro. — E
você, chefe, o que vai querer?
— O de sempre.
Sem esconder o sorriso implicante, ele vai pegar nossas bebidas. Esse
Francisco sabe ser um pé no saco.
Olho para Sam e vejo o brilho da felicidade estampado em seu rosto. Ela
fica ainda mais bonita quando irradia toda essa alegria. E o melhor de tudo é
saber que eu sou o pivô de toda essa satisfação.
— Feliz? — Estico a mão e enrolo uma mecha do seu cabelo no dedo.
— E como não estaria? — Ela se inclina e roça os lábios aos meus. — Eu
tenho o namorado mais lindo desse mundo.
— Posso gravar? Preciso ter isso registrado para usar quando você me
xingar.
— Se começar de bobeira te xingo agora mesmo.
A sua ameaça me faz sorrir, como essa mulher é brava. Fico louco quando
ela me afronta.
Chico volta com as nossas bebidas e conversa alguns segundos com a
Samantha. A interação entre eles me deixa contente. Francisco é um amigo
muito especial e me conhece muito bem. Saber que ele aprova o meu
relacionamento com Sam, é uma espécie de sinal que escolhi o caminho certo.
Passamos um bom tempo no bar, trocando um papo descontraído, até que a
fome aperta e decidimos jantar.
Sam está falante e mesmo na hora de escolher o que pedir, ela não para de
falar. A felicidade dela me anima, e fico contente em saber que escolhi o
programa certo para fechar o nosso sábado.
CAPÍTULO 34

Samantha

Essa semana está sendo uma verdadeira correria, Zander está atravessando
uma série de reuniões para fechar os últimos detalhes da parceria com a empresa
do Enzo Parise. Ele está todo empolgado, não para de falar sobre o assunto nem
por um segundo.
Estou muito feliz por ele, sei o quanto será importante ter os produtos
Parise nas lojas Kariokas. Os dois certamente irão lucrar muito quando
começarem as vendas dos produtos.
— Daqui a pouco a reunião do chefe vai começar, tenta não o provocar
Samantha, hoje ele está de mau humor. — Cristina chama a minha atenção.
— O que está querendo dizer? — Fico ofendida. — Eu sei me comportar.
— Nós duas sabemos que você não se comporta. Sei que o senhor Parise é
escandalosamente bonito, mas você não precisa demonstrar que acha ele
atraente.
— O que é isso? Você pegou o espírito do Zander? — Agora estou
indignada.
— Estou falando sério, não provoca a fera. — Antes que eu responda, ele
abre a porta.
— Cristina, assim que o senhor Parise chegar quero que venha até a minha
sala. Você vai ficar responsável por anotar tudo o que eu precisar.
Olho, para ele incrédula. Sou eu a responsável por acompanhar todas as
reuniões. O que esse imbecil pensa que está fazendo?
— Posso saber o motivo de ter sido excluída da reunião? — Estou fervendo
de raiva.
— Em breve você irá seguir seu caminho, quero preparar a Cristina o
quanto antes para ser a minha principal secretária. Essa reunião será um bom
teste para ela.
Fico sem argumentos com a justificativa dele. Apesar de querer muito
participar desse momento, sei que preciso abrir caminho para a Cris.
— Você tem razão. — Por fim respondo. — Cris precisa aprender o que
fazer quando eu não estiver por aqui.
— Exatamente. — Ele acena e fecha a porta.
— Estou nervosa. — Ela olha para mim apavorada.
— Relaxa, você vai tirar de letra.
— E se eu fizer alguma besteira?
— Você não vai. — Sigo para a mesa dela e seguro a sua mão. — Eu confio
em você, sei que vai impressionar o tirano do nosso chefe.
— Não fala assim dele, vai que esteja ouvindo atrás da porta? — Sorrio do
pensamento dela.
— Pode ter certeza que ele vai superar o trauma de me ouvir chamá-lo de
“tirano”.
Decido passar para ela tudo o que precisa fazer em reuniões como a que
participará. Passo dicas para anotar rapidamente o que o chefe pedir e o que deve
fazer nos momentos que as coisas esquentarem. Cris escuta tudo com atenção e
me faz perguntas pontuais.
Passamos um longo tempo conversando, até que somos interrompidas com
a presença deslumbrante de Enzo Parise e seu advogado.
O homem é um escândalo. A cada encontro que tenho com ele, fico com a
sensação que não é real. Eu não sei o que esses homens poderosos têm, mas esse
jeito seguro que eles olham ao redor, é sexy pra caramba. Quando o Zander faz
esse olhar de superioridade, eu fico excitada.
— Como vai, senhor Parise? — Cumprimento o bonitão tentando não sorrir
demais.
— Estou ótimo. — Ele repuxa os lábios com sensualidade e me faz babar.
Hoje ele veste um terno cinza, com uma gravata lilás, que só não chama
mais a atenção do que ele. Sua barba está perfeitamente aparada e a aliança
gigante na sua mão deixa bem claro que todo esse pacote de perfeição tem dona.
Como eu queria colocar uma aliança dessas na mão do Zander, só assim eu
teria um pouco de sossego com relação as atrevidas que vivem esticando os
olhos na direção dele.
— Cristina, leve o senhor Parise até o chefe.
Ela levanta atrapalhada e cumprimenta rapidamente os dois homens
enquanto caminha até a porta do Zander para anunciar seus convidados.
Essa mulher precisa acalmar os nervos, ou vai acabar levando um puxão de
orelha do chefe.
Quando os dois entram, faço sinal para ela se calmar e desejo sorte. Quero
muito que ela consiga me substituir, Cristina merece essa promoção. Certamente
esse aumento no salário será mais que bem-vindo no orçamento dela.
Como não tenho muito o que fazer, decido fuxicar as minhas redes sociais.
Quero me distrair um pouco enquanto espero a reunião acabar. Se eu ficar
imaginando o que está acontecendo lá dentro, vou ficar louca.
Estou tão distraída vendo as fotos do aniversário de uma conhecida, que
não percebo a chegada da víbora da Vanessa. Quando noto a sua presença, ela
está parada bem perto da minha mesa, com um olhar furioso.
Que mulher sem noção. Depois de tanto tempo, ela ainda cisma que tem
alguma chance com o Zander. Ele até bloqueou o número dela no celular, mas a
megera não se deu por vencida e arrumou outro número para tentar falar com
ele. Novamente foi bloqueada e, pelo jeito, agora ela decidiu que precisa
aparecer fisicamente para perturbar o nosso juízo.
— O que você quer Vanessa? Até onde sei não tem hora marcada e não é
bem-vinda aqui.
— Você está se achando a dona do pedaço, não é? Acredita realmente que
ficará com o Zander? Você está iludida a esse ponto?
Eu não acredito que estou tento esse tipo de discussão com essa mulher.
— Eu não acredito em nada querida. Agora pode ir, já deu o seu show.
— Não me dê ordens. — ela grita e me deixa apreensiva. Se essa louca
perder o controle, pode atrapalhar a reunião.
— Vanessa, você está em um ambiente de trabalho, modere sua voz.
— Eu falo como quiser. — A voz dela é aguda. — Largue o meu homem ou
eu vou acabar com você. O Zander é só meu. Jamais ficará com ele.
Fecho os olhos para tentar encontrar um pouco de paciência. Se eu não me
controlar, coloco essa louca para fora a base de tapas.
— Para de fazer escândalo, isso não vai trazer o Zander de volta. —
Levanto e dou a volta pela mesa, pronta para pegar essa infeliz e chutar o seu
traseiro. — Se quer realmente conquistá-lo, aprenda que fazer uma cena no
trabalho dele só vai afastá-lo ainda mais.
— Não me diga o que fazer sua vagabunda. — Ela avança sobre mim e só
tenho tempo de erguer os braços para tentar me defender.
Vanessa está completamente desesperada, ela perdeu todo o bom senso.
Essa mulher precisa urgentemente de uma camisa de força.
Bloqueio os ataques dela e a empurro com força, ela cambaleia para trás e
volta a avançar sobre mim. Juro por Deus que não quero machucá-la, mas se tem
uma coisa que aprendi nos meus tempos de rebeldia, é bater sem dó em vadias
como ela.
— Que merda está acontecendo aqui? — A voz do Zander soa justamente
no momento em que acerto um tapa certeiro no rosto dela. — Vanessa saia de
perto da Samantha.
Em pouco tempo tenho o Zander sobre mim e o bonitão do Enzo segurando
a Vanessa. Ela se debate um pouco, mas quando nota a presença estonteante do
homem que a segura, se joga sobre ele chorando.
Que cretina!
— Essa mulher me agrediu. — Ela diz ao Enzo. — Se vocês não
chegassem, não sei o que seria de mim.
— Eu vou depenar essa galinha. — Tento me soltar, mas Zander imprime
força na sua pegada.
— Segurança. — ele grita e um dos seguranças finalmente aparece.
Onde esse imbecil estava que não veio ao meu socorro antes?
— Leve a senhorita Vanessa embora daqui e avise ao seu responsável que a
entrada dela na empresa está expressamente proibida.
— Sim, senhor. — O homem segura a Vanessa e a arrasta para fora
enquanto ela grita que vai se vingar de mim.
Adeus discrição no meu relacionamento com o Zander. Depois desse show,
todos da empresa saberão que estamos juntos. Os boatos que começaram a se
formar, agora ganharão força.
— Quem é essa mulher? — Enzo pergunta enquanto a observa ser arrastada
pelo segurança.
— A ex-namorada louca dele. — digo com raiva. Estou possessa porque
não pude acabar com aquela vaca.
— E por que ela estava com tanta raiva de você? — Com sensualidade,
Enzo ergue as sobrancelhas e me sinto intimidada com o seu olhar inquisidor.
— Samantha é minha namorada e Vanessa não se conforma com o nosso
rompimento. — Zander responde por mim e acabo me sentindo muito feliz por
ele não se importar em revelar o nosso namoro.
— Hummm... tenham cuidado com ex-namorada, eu tive uma que me
arrumou um grande problema com a minha esposa. — Ele olha entre nós e sorri.
— Vocês formam um belo casal, estão de parabéns.
— Sabemos disso. — Zander me abraça. — Samantha é a mulher da minha
vida. — Olho para ele em choque. Será que eu ouvi direito? — Vamos retornar a
reunião, agora que o escândalo acabou.
— É claro. — Enzo concorda e quando vai passar por mim me encara. —
Onde aprendeu a bater tão bem?
— Na escola. — Ele prende os lábios tentando não sorrir.
— Que boa escola... — Com uma piscadinha discreta, ele volta para a
reunião, juntamente com o seu advogado e da Cris que apenas observaram todo
o escândalo.

— Você também não é fácil. — Zander resmunga. — Deveria ter chamado


o segurança antes de entrar em uma briga de corpo a corpo com Vanessa.
Paro de temperar a carne do nosso jantar e olho para o cretino querendo
jogar o soquete na cabeça dele.
— Eu fui agredida em horário de serviço. Sabia que posso te processar?
Porque eu não deveria chamar porra de segurança nenhum, ele é que deveria
impedir que uma lunática entrasse no escritório.
— E eu podia ter perdido um contrato milionário por causa da briga de
vocês. — Por Deus que mato ele hoje.
— Olha aqui, você devia... — Antes que eu termine de falar, Nap pula na
bermuda dele e agarra com força enquanto solta um miado estridente.
— Me solta seu terrorista! — Zander pula aos berros, mas Nap não o larga
por nada.
Ahhhh eu amo esse gato, ele me defende de tudo.
— Napoleon Diniz, já chega. — Limpo as mãos e vou pegá-lo. — Não se
misture, filho, não sabemos se o senhor Saramago é vacinado. — Olho para o
Zander com raiva. — Sei que ele não tomou vacina para deixar de ser idiota.
— Não vou brigar com você. — Ele decreta. — Esse é o objetivo da
Vanessa, causar discórdia entre nós.
Quando ele diz isso, percebo que está certo. Aquela biscateira apareceu e
jogou uma energia pesada na gente.
— Tem razão, desculpa.
— Está mais que desculpada. — Ele olha para Nap. — Mas não desculpo
essa peste de gato, ele me feriu.
— Você vai superar isso. — Solto o Nap e ele sai da cozinha depois de dar
uma boa encarada no Zander. — Agora me fala como foi a reunião.
— Perfeita, assinamos os papéis que concluem a nossa parceria. Já dei
ordens para todas as lojas preparem o espaço especial para expor os produtos
Parise. Já prevejo lucros exorbitantes. — Os olhos dele brilham com o vislumbre
dos cifrões que ganhará.
— Parabéns, você merece. — Dou um selinho nele. — Se eu fosse ficar na
empresa, já ia pedir aumento. — Sorrio, mas o Zander não. — O que foi?
— Você não vai sair da empresa.
— Zander, não dá para ficar lá. Os boatos sobre o nosso namoro já estão
por todos os lados. Agora com o show da Vanessa, todos já sabem sobre nós.
— Que se dane se sabem. Eu sou o dono daquele lugar, posso fazer o que
quiser.
— Discordo quanto a isso. Você precisa dar o exemplo para os seus
funcionários.
— Sam, eu posso mudar a política da empresa em relação ao envolvimento
de funcionários.
— Eu sei que pode, mas está funcionando tão bem essa política. A empresa
nunca teve problemas com casais brigando ou assédio.
Ele suspira, entendendo o ponto onde quero chegar.
— Eu preciso seguir o meu caminho, não quero que as pessoas digam que
estou avançando na carreira por sua causa.
— Não vou conseguir ter você longe. — A voz dele sai como um rosnado,
como se estivesse se esforçando muito ao assumir o seu desejo.
— Só vamos ficar longe na hora do expediente. — Acaricio o cabelo dele.
— Vamos pensar sobre isso mais para a frente? Não quero conversar agora,
estou muito feliz para pensar que ficará longe de mim.
— Claro que podemos conversar depois. — Sinto o meu coração explodir
por saber que ele já lamenta a minha partida. — Quero saber sobre essa festa que
você disse que terá para comemorar a nova parceria.
— Quero uma festa para ficar na memória do mundo empresarial — Ele
sorri como criança. — E o Enzo deseja o mesmo. Se prepara porque quero você
linda ao meu lado.
— Já tô nervosa. — Só de pensar em aparecer ao lado dele em um evento,
me dá tremedeira. Mas uma hora teremos que escancarar a todos que estamos
juntos, então que seja em grande estilo.
CAPÍTULO 35

Samantha

O último mês passou voando. Não paramos nem por um segundo no
escritório, fechando os detalhes da grandiosa festa que Zander vai oferecer hoje
à noite. Ele está em um ritmo alucinado de trabalho. Exigindo agilidade dos
Gerentes Regionais, em ter todas as lojas equipadas para receber os produtos
Parise.
E ainda resolveu os problemas que apareceram do Rio grande do Sul. Ele
acabou demitindo mais duas pessoas e o genro do Marco foi localizado e
indiciado juntamente com os donos da empresa que vendia o material para nós,
por causa da fraude que realizaram.
Não preciso nem dizer que ele aterrorizou o meu juízo e o da Cristina. Esse
tirano pode ser um ótimo namorado, mas como chefe, é um infeliz.
Zander não alivia em nada a minha vida, continua exigente e extremamente
chato. Esbraveja o tempo todo e tem uma pressa que me deixa doida. Às vezes
sinto vontade de pedir demissão antes do tempo.
— Samantha, vamos nos atrasar. — ele grita da sala.
— Estou indo. — Pego a minha bolsa e confiro se está tudo certo. —
Estamos no horário, Zander, não precisa ficar gritando.
Quando entro na sala, paro com a cena que se desenrola a minha frente.
Nap está brincando com um fio do novelo de lã que Zander arrasta pelo tapete.
Os dois parecem se divertir e isso é uma grande novidade.
— Estão brincando? — pergunto enquanto me aproximo.
— Napoleon insistiu muito, aí não tive como escapar. — ele responde sem
graça ao ser flagrado caindo nos encantos do meu gato endiabrado.
— Sei... ele te coagiu a brincar.
— Exatamente isso. — Zander escorre os olhos pelo meu corpo. — Como
sempre linda. — Com um rápido movimento, ele me atraia para si. — Não sei
como consegue, mas a cada vez que te vejo, fico mais apaixonado.
Ai, senhor, assim ele me mata!
— Pode parar de ser galante, não combina com você. — Ele sorri.
— Tudo combina comigo, paixão. — Bufo com o seu convencimento. —
Vamos? Quero ser um dos primeiros a chegar.
Antes de ir verifico a água e ração do Nap. Vejo que tudo está certo e parto
com Zander para a tão aguardada festa que me infernizou o mês todo. Agora, só
quero curtir e aproveitar o meu lindo namorado.

A festa está lotada, com os grandes figurões do meio empresarial. Até


mesmo o Morales foi convidado, espero que o Zander não me cause problemas.
Ele resmungou demais na hora de incluir o nome do Morales na lista de
convidados, mas depois de muita insistência, parou de implicância.
— Samantha, parabéns pela organização da festa, está divina. — O meu
sogro me cumprimenta.
— Muito obrigada, senhor Abel, eu me esforcei para que tudo saísse
perfeito.
— Não fez mais do que sua obrigação, não é mesmo, querida? — Leonora
destila o seu veneno.
— Claro que sim, senhora, ganho para ser eficiente. — Não me abalo com
as suas palavras.
— Você fará falta quando se for, espero que a outra secretária consiga
acompanhar o ritmo do meu filho. — O senhor Abel Saramago comenta.
— Cristina é muito competente. — Defendo a minha amiga
— Se não for, perde o emprego. — Respiro fundo com o comentário da
Leonora, ela é tão antipática que irrita.
— Isso não vai acontecer. — Tento controlar o meu temperamento. — Com
licença, mas preciso cumprimentar algumas pessoas.
Saio de perto deles antes que eu fale demais e cause um grande problema.
Hoje quero que a noite do Zander seja perfeita, então, não serei eu a causar
problemas.
Caminho entre as pessoas sem prestar atenção ao redor e busco pelo homem
que não sai da minha cabeça. Já estou com saudade dele, infelizmente não
consigo mais ficar muito tempo sem meu adorável chato.
Encontro meu amor conversando com um grupo de empresários. Fico ao
redor dele, tentando chamar a sua atenção. Ele acaba percebendo a minha
presença e se aproxima.
— Algum problema? — A preocupação dele me deixa melosa.
— Estava com saudades de você. — Não vou mentir agora.
— Saudades? — Ele me abraça sem se importar com quem nos observa. —
Acho que isso é algo bom. — Tento me manter firme e não o agarrar.
— Estou louca para irmos embora. — A cor dos olhos dele escurecem
consideravelmente.
— Não fala assim, ainda temos um longo tempo aqui.
— Tem certeza?
— Sim. — Ele responde em meio a um gemido angustiado. — Mas assim
que eu puder, fugimos.
Gosto desse plano. Quero fugir com ele o quanto antes. Preciso esquecer
esse mês insano e apenas aproveitar um momento de paz com o meu namorado.

— Tudo está tão bonito. — Cristina parece um peixe fora d’água, ela está
encantada com a festa.
Agora que é a secretária oficial do grande chefão, ela vai ter que se
acostumar com esses eventos. Zander sempre convida a secretária para
confraternizar nas festas de negócios da empresa.
— Realmente o evento é de uma elegância única.
— Sam, eu não sei como agir em lugares tão elegantes.
— Claro que você sabe, sua elegância é natural. Na dúvida sorria, isso
causa simpatia espontânea. — Cris sorri com o que falo. — Tá vendo, é disso
que estou falando. Sorria sempre.
— O que vai ser de mim sem você? — Ela segura a minha mão.
— Para de ser dramática, você tá parecendo com o seu chefe. Se tiver
alguma dúvida só ligar.
— E você, vai aceitar mesmo a proposta do Morales?
— Ainda não sei, tenho um amigo do Zander que me ofereceu uma vaga de
executiva na empresa dele. Semana que vem vou fazer uma entrevista e também
recebi um convite do senhor Parise para conversar com um amigo dele. Graças a
Deus tenho várias opções.
— Que bom. Sei que aonde for será um sucesso. — Ela me abraça
emocionada.
Vou sentir falta da Cris, mas sei que a nossa amizade irá sobreviver a
distância.
Aproveito para levá-la até o bar e pegar uma bebida. Minha amiga precisa
de um drinque para relaxar. No meio do caminho, acabamos sendo interrompidas
pelo Morales.
Ai meu pai eterno, Zander vai ter uma síncope se por acaso vê-lo perto de
mim. Estamos em um clima tão bom, não quero que ele se aborreça.
— Samantha, como é bom te ver. — Ele me abraça.
Eu gosto tanto dele, mas enquanto eu não colocar na cabeça do meu
adorável namorado que o Morales não é um concorrente, não posso me dar ao
luxo de deixá-lo me agarrar como está fazendo agora.
— Também estou feliz em te ver. — Tentando não o aborrecer, me afasto.
— Como você está?
— Indo... — Ele enruga a testa, percebendo o meu movimento. — Como
vai Cristina?
— Muito bem, senhor Morales. — Cris é tão formal com todo mundo. No
fundo eu deveria ser assim, mas desde que vi o Morales, nunca consegui chamá-
lo de senhor.
— Seu namorado deu um golpe de mestre, fechou uma parceria incrível.
— Ele é bom nos negócios, igual a você. — Tento ser agradável para
compensar
— Na verdade ele é mais esperto. — Ao longe avisto o Zander e percebo
que estou em apuros.
Não posso permitir que faça um escândalo na festa, hoje é um dia muito
importante para ele.
— Depois converso com você com calma, preciso levar a Cris no bar. —
Seguro na mão dela querendo escapar dele.
— Vou com vocês. — O Morales me leva ao desespero.
Encaro a Cris em busca de socorro, mas ela apenas me olha igual uma
pamonha. Que mulher lenta, não consegue nem inventar um mal súbito para me
tirar dessa furada.
Sigo para o bar com o Morales no meu encalço. Que Deus me ajude e não
permita que Zander faça um show.
— O que vão querer beber meninas? — ele pergunta quando chegamos ao
bar.
— Samantha! — A voz do Zander paralisa a minha resposta.
— Oi. — Sorrio para ele bem meiga. — Tá precisando de algo? — Finjo
que nada está acontecendo.
— Preciso que se afaste desse cretino. — Ele me puxa pela cintura. —
Morales, o que pensa que está fazendo cercando a minha mulher?
— Casaram-se? Não sabia. — Ai senhor, por que o Morales não se
comporta?
— Olha aqui seu... — Coloco a mão sobre o peito do Zander para impedi-lo
de perder alinha.
— Zander, para. — Ele me olha enraivecido, mas se cala. —Morales, faz
um pouco de companhia a Cris, ela está nervosa. É o primeiro evento dela como
a nova secretária do Zander.
— Secretária? Você não trabalha mais para ele? — Um discreto sorriso se
espalha por seu rosto. — Vai largá-lo para trabalhar comigo? — A alegria nos
olhos dele quebra meu coração. — Pensei que ele tinha te convencido a não
trabalhar na minha empresa. Depois do encontro desagradável que tive com seu
namorado, eu jurei que ele ia te arrumar outro emprego.
— Encontro? Que encontro? — Olho para o Zander e o observo afrouxar a
gravata, claramente incomodado com a confissão do Morales. — Quando
encontrou com o Morales? Por que não soube disso?
— Ele me chamou para almoçar. Tentou me intimidar para que eu me
afastasse de você. E disse que você jamais trabalharia na minha empresa.
Sinto o meu sangue ferver com essa revelação. Não posso acreditar que o
Zander se meteu na minha vida assim.
— Você foi intimidar o Morales? É isso mesmo? — Ele prende os lábios e,
antes que me responda, sei que tem culpa no cartório.
— Que papelão, Morales. Você está querendo destruir o meu namoro
fazendo fofoca? — Zander ignora minha pergunta. — Sempre soube que você
era um pilantra.
— Não fuja do que falei. — Puxo o braço dele.
— O que está acontecendo aqui? — Fecho os olhos quando ouço a voz da
mãe dele. — Vocês estão brigando em um evento? As pessoas já estão olhando.
— Por que a senhora não vai tomar conta da própria vida?
Ela coloca a mão sobre o peito se fazendo de ofendida. Que mulher
insuportável. Na hora de me falar desaforo, vem com toda autoridade, mas
quando é a minha vez, faz essa cara de vítima.
Cobra!
— Samantha, você está passando dos limites. — Recebo uma recriminação
do Zander que me irrita.
— Quem passou dos limites aqui foi você e sua mãe intrometida. — Agora
a paciência se esgota. Estou cansada dessa chata e da prepotência desse cretino.
— Pra mim já chega! Cansei de você, do seu controle, da sua autoridade e da sua
mãe. Chega!
Perco o controle das minhas emoções. Se eu tivesse bebido hoje, colocaria a
culpa na bebida por estar me sentindo como um vagão de trem saindo da linha.
Avanço pelo meio das pessoas rumo à saída. Preciso de ar puro e distância
do Zander. Se eu passar mais um minuto ao lado dele, vou acabar falando muito
mais do que já disse.
Quando chego do lado de fora do evento, paro e respiro fundo. Preciso
desacelerar, ou vou ter uma crise nervosa de tanta raiva. Como o Zander pôde
intimidar o Morales? Porra! A vida é minha, ele não pode se meter assim. Como
podemos manter um relacionamento sem confiança? Ele precisar respeitar as
minhas decisões.
— Samantha, espera. — Sinto a mão dele no meu braço. — Você ficou
maluca de vez?
— Me solta! — Tento me desprender. — Eu estou com vontade de te matar.
Você não tinha o direito de se meter na minha vida assim.
— Você não percebeu que aquele filho da puta do Morales só queria que a
gente brigasse? Ele está louco para te roubar de mim.
— Não foi ele que mentiu para mim. — Estou cansada. — Por que não me
contou sobre o encontro que teve com ele? — Ele fecha os olhos demonstrando
o quanto está irritado.
— Eu... — A fala dele é interrompida com a surpreendente aparição da
Vanessa.
— Zander! — ela grita o seu nome. — Eu te odeio tanto. — Olho na
direção dela e sinto o meu corpo gelar. — Você me desprezou, ignorou todo o
amor que sinto por você.
A pressão da mão do Zander que ainda segura meu braço aumenta, quando
ele constata que a ex está segurando uma arma.
— Eu só queria você, nada mais. — Ela está completamente descontrolada.
— Mas você preferiu essa vadia. — Agora ela vira a arma na minha direção e
nesse momento só me lembro do meu pai.
Ele morreu covardemente a tiros na mão de uma assaltante e, pelo jeito, eu
vou seguir o mesmo caminho.
Pelo descontrole da Vanessa, ela vai cometer uma loucura neste instante.
— Vanessa, solta essa arma antes que você machuque alguém. — Zander se
manifesta.
— Meu Deus! — Ouço a voz da mãe dele ao fundo. — Alguém pare essa
mulher.
— Você nunca irá ficar com ela. — Vanessa diz aos prantos. — Você é só
meu. — Ela volta a virar a arma na direção dele. — Se não for meu, não será de
mais ninguém.
Quando ouço o som do disparo, algo se libera dentro de mim e empurro o
Zander com toda a força que tenho. Ele se desequilibra e sinto uma queimação
na lateral do meu corpo. A princípio fico estática tentando entender o que
aconteceu, até que percebo que devo ter levado um tiro.
O meu corpo fraqueja e ouço mais três disparos. Olho para o Zander e o
vejo me encarar com olhos arregalados. Ele me segura e diz alguma coisa, mas a
sua voz é distante, não consigo discernir o que está querendo me dizer.
Entro em pânico e sinto a minha garganta se fechar com ideia fixa de que
vou morrer. Mergulho na escuridão e a única coisa que consigo pensar é que
finalmente encontrarei o meu pai.
CAPÍTULO 36

Zander

Sei que não posso entrar em pânico agora, mas ver Samantha caída no meu
colo com uma mancha de sangue no vestido, não está me ajudando em nada.
Por Deus que assim que todo esse pesadelo acabar, eu vou matar Vanessa
com requintes de crueldade. Ela vai conhecer a minha fúria em breve.
— Sam, olha pra mim. — Seguro o rosto dela.
— Meu Deus! Alguém chama uma ambulância. — Cristina grita quando se
abaixa ao meu lado. — Ela está respirando?
— Eu não sei. — As lágrimas que tento conter, começam a escorrer pelo
meu rosto.
— Já chamei a ambulância. — Morales se aproxima e tira o terno. —
Temos que pressionar esse ferimento. Não sabemos se o tiro foi profundo. — Ele
embola a peça de roupa e pressiona no local onde Sam levou um tiro. — Quanto
menos sangue ela perder, será melhor.
Não digo nada, apenas assinto e olho o rosto pálido da minha garota. Ela
precisa ser forte, sem ela nada faz sentido.
— Eu te amo, querida, não me deixa. — Beijo a testa dela.
Uma confusão se instala ao nosso redor, mas eu só consigo prestar a
atenção em Sam. Ela está gelada e quando checo a sua respiração, percebo que
está muito lenta.
— A ambulância chegou. — Depois de um tempo, que me pareceu
interminável, Morales me informa a chegada dos paramédicos. — Você vai
precisar se afastar um pouco. — Olho para ele com raiva, não vou me afastar
nada.
— Não vou sair de perto dela.
— Só precisa abrir espaço para os médicos verificarem o seu estado. — Ele
aperta o meu ombro. — Vai ficar tudo bem.
— Senhor, afaste-se, por favor. — Um dos socorristas pede, assim que se
aproxima.
Olho para Samantha e quero muito dizer que não vou sair daqui, mas sei
que neste momento preciso que ela seja socorrida. Com muita dificuldade, eu me
afasto e fico me sentindo impotente enquanto observo a equipe do resgate
trabalhando para conter o sangue no local do ferimento.
— Meu filho. — Minha mãe me abraça aos prantos. — Pensei que fosse te
perder. Graças a Deus você está bem.
Um arrepio percorre o meu corpo com as palavras da minha mãe. Nunca
pensei que um dia sentiria ódio dela, mas agora me envergonho de ser seu filho.
— Samantha pode morrer. Como agradece algo a Deus? Está louca?
Ela me olha um pouco confusa e depois coloca a mãos sobre o peito quando
as minhas palavras parecem fazer sentindo.
— Zander, eu me expressei mal. — Ela segura o meu braço. — Desculpa,
mas é impossível não sentir alívio. — Por alguns segundos ela para de falar e
fecha os olhos. — Samantha entrou na sua frente para te proteger, eu vi tudo,
nunca conseguirei agradecer o que fez. Tenho certeza que ela vai ficar bem. Por
sorte Vanessa é ruim de mira, acertou sua namorada uma vez só, o resto dos tiros
foram direto para a parede.
Olho para a direção onde a minha mãe aponta e vejo três marcas de tiro.
Ainda bem que aquela infeliz não sabe atirar direito.
— Cristina sabe onde a mãe dela mora? — Não entendo a sua pergunta.
— Sabe por quê? — respondo intrigado com a sua pergunta.
— Vou pessoalmente com seu pai buscar a mãe dela. Fique com a sua
namorada e me avise para qual hospital foram. O mais rápido possível encontro
com vocês.
— Tudo bem.
Os médicos erguem o corpo da Sam e a levam para a ambulância. Sigo
junto, pois ninguém vai me afastar dela. Tenho certeza que nada de mal vai
acontecer, muito em breve nos lembraremos desse episódio como um momento
ruim das nossas vidas.

Ando de um lado para o outro no corredor do hospital. No instante que


chegamos aqui levaram Samantha para uma área reservada e me impediram de
ficar com ela. Desde então, só fui informado que assim que o médico terminar de
examiná-la e fazer os exames necessários é que virá falar comigo.
Durante o trajeto até aqui, o paramédico não me disse nada sobre a extensão
do ferimento. Ele apenas comunicou que seriam necessários exames específicos
para mostrar se a situação dela era grave.
Tudo o que desejo é que esse pesadelo acabe e que eu possa voltar para casa
com ela do meu lado.
— Cadê a minha filha? — A voz desesperada da mãe de Sam me faz parar
de andar. — Ela está bem? Posso vê-la? — A sequência de perguntas dela
demonstra o quanto está nervosa. E não é para menos, a situação não é simples.
— Ninguém pode vê-la, a equipe médica ainda não terminou de avaliá-la.
Assim que terminarem um médico virá falar conosco.
— Oh, meu Deus! — Ela coloca as mãos no coração e é amparada pelo
filho. — Eu não vou suportar passar por tudo novamente. Já perdi o meu marido
em uma tragédia, não posso perder a minha filha.
— Calma, mãe, a Sam vai ficar bem. — Maicon tenta consolá-la.
— Samantha é jovem, isso a ajudará a superar o que for. — Meu pai
também ampara Noelli. — Quer um pouco de água? Precisa se acalmar para
poder ver a sua filha.
— Eu quero um pouco.
— Sente-se aqui. — Seguro a mão dela e a levo até uma confortável
poltrona. — Ela está em um dos melhores hospitais da cidade, eles farão o que
for preciso por ela.
— Como tudo aconteceu? Quem é essa mulher que atirou na minha filha?
— Sinto a culpa cair sobre mim. Infelizmente eu subestimei a Vanessa.
— É a minha ex-namorada, ela não aceitou o fim.
— Quero essa mulher presa.
— Já deve estar.
Só agora percebo que não sei que fim levou Vanessa. Espero que neste
momento esteja atrás das grades.
— Aqui, Noelli. — Meu pai entrega um pouco de água para ela. — Eu já
pedi que o nosso advogado acompanhe o caso, ele já deve estar na delegacia.
— Que bom pai, no meio do desespero sequer lembrei que Vanessa
precisava ser presa. — Na verdade apenas me lembro de escutar as sirenes da
polícia e dos policiais pedindo que as pessoas se afastassem do local.
— A polícia chegou um pouco antes da ambulância, os seguranças da festa
chamaram. Aquele homem que ajudou a socorrer a Samantha conversou com
eles e também seguiu para a delegacia para depor sobre o que aconteceu.
— É o Morales, ele é um... — Fico pensando no que falar. — Tenho
negócios com ele.
— Bom saber, é um homem muito digno, foi bem efetivo em rapidamente
imobilizar Vanessa e entregá-la aos cuidados do chefe da segurança para que
esperasse a polícia.
— Ele fez isso?
— Fez sim, o chefe da segurança o elogiou demais.
Fico surpreso por saber que ele foi essencial por afastar a louca da Vanessa.
Quando toda essa confusão acabar, preciso agradecê-lo por tudo. Podemos até
ter algumas diferenças, no entanto não posso deixar de reconhecer que ele teve
uma grande atitude nesse momento difícil.
A angústia domina a sala de espera, todos querendo saber o estado de Sam.
Até mesmo a minha mãe parece compadecida, ela não saiu do lado da Noelli e
disse palavras de conforto que me surpreenderam.
Quando estou prestes a ir atrás da enfermeira e exigir notícias, o médico
aprece. Graças a Deus! Eu já não aguentava mais.
— Doutor! — Levanto quando vejo o médico se aproximar. — Como ela
está?
— Bem. — Ele olha ao redor. — Todos são familiares dela?
— Eu sou a mãe, ele o irmão. — Noelli se aproxima. — A minha filha vai
sobreviver? — O médico olha surpreso para ela.
— Sua filha está ótima, ela levou um tiro de raspão. Não foi nada grave. O
problema da Samantha é apenas o nervosismo, por isso administrei um calmante,
ela não parava de falar e dizer que ia morrer. — O médico sorri. — Quem é
Nap? Ela disse que toda a sua herança deveria ser herdada primeiramente por
ele.
Olho para o médico sem reação. Ainda não assimilei a parte do tiro ter sido
de raspão, então é difícil pensar que em um momento tão difícil ela pense no
Nap e não na família.
Espero que esse pensamento dela seja porque está passando por um
momento de estresse, caso contrário, Samantha é completamente desequilibrada.
— Nap é o gato endiabrado dela, Sam ama o bicho. — Revelo ao médico.
— Ama mesmo. — O doutor diz com diversão. — Ela falou muito dele e
pediu que o irmão não parasse de estudar. — Ele olha para o Maicon. — É você
o futuro médico da família?
— Estou tentando ser. — Maicon responde sem graça.
— Vai conseguir sim.
— Quando poderemos vê-la? — Não quero mais conversar sobre as
loucuras da minha namorada.
— Ela está sendo transferida para o quarto, assim que estiver instalada, vou
pedir que uma enfermeira busque vocês, mas acredito que ela vá dormir até o
início da manhã.
— Graças a Deus a minha filha está bem. — Noelli abraça o filho. — Não
suportaria perdê-la.
— Sua filha é forte, amanhã já estará em casa.
— Obrigado por cuidar dela. — Aperto a mão do médico.
— É o meu trabalho. — Ele se despede de nós e vai embora.
Depois de toda a tensão da noite, volto a respirar aliviado. Por sorte
Vanessa é ruim de mira. Ainda bem que aquela filha da puta não serve para nada.
— Foi só um susto. — Meu pai diz aliviado. — Tivemos sorte de a Vanessa
não saber usar uma arma.
— Ela vai se arrepender por ter tentado matar Samantha. — digo convicto.
— Vanessa está obcecada por você, meu filho. — Minha mãe se aproxima.
— Se ela não se tratar, ainda teremos problemas.
— Que se trate na cadeia. — Vou infernizar a vida dela.
— Vamos esquecer essa mulher. — Noelli se pronuncia. — O importante
agora é que minha filha está bem. Depois podemos tomar as medidas jurídicas
necessárias contra essa louca.
— Você está certa. — Seguro a mão dela. — Agora o fundamental é cobrir
a Sam com muito amor.
— Isso nós temos de sobra. — Com um sorriso de pura felicidade, ela
aperta forte a minha mão.

Olho para o rosto adormecido de Sam e sinto o meu peito tremer com a
lembrança do medo que senti de perdê-la. Sem ela sou incompleto, preciso de
toda a sua alegria na minha vida.
— Por que você é tão louca? — pergunto enquanto corro a mão pela massa
encorpada do seu cabelo. — Eu é que deveria estar nessa cama, não você.
Ainda não acredito que essa maluca se jogou na minha frente. Ela arriscou a
própria vida para salvar a minha. Nunca vou conseguir retribuir esse gesto de
amor.
Soube que Samantha era especial desde a primeira vez que bati os olhos
nela, mas nada me preparou para descobrir o quanto ela seria essencial na minha
vida.
— Quando você estiver plenamente recuperada, vamos fugir de tudo. Quero
você só para mim. — Beijo sua testa.
A mãe dela volta, junto com o filho e tira o meu momento de privacidade. A
minha vontade era ficar com ela o tempo todo, mas sei que preciso abrir espaço
para Noelli.
— Vou para a casa de Sam cuidar do Nap. Amanhã cedo tenho que ir a
delegacia, mas assim que terminar lá, eu venho para cá te liberar. — Já estou
lamentando me afastar.
— Não se preocupe, eu não tenho pressa de ir embora, quero ficar com a
minha filha.
— Queremos. — Não posso deixar de alertar que preciso do meu espaço.
— Se precisar de mim me ligue a hora que for.
— Vá em paz, Zander, ficaremos bem. — Ela se aproxima e me abraça.
Mesmo relutante, dou um último olhar para Sam e vou embora. Preciso
cuidar do bichano dela, se ela acordar e descobrir que o deixamos sozinho, a
confusão está formada.

Acordo com o insistente barulho do meu celular tocando. Tento me situar


onde estou e quando olho para baixo, vejo Nap dormindo no meu colo.
Os acontecimentos da noite invadem a minha mente como uma avalanche.
Corro a mão pelo rosto tentando despertar. Estico a mão e pego o maldito
celular. Não sei que horas são, mas provavelmente é tarde. Quando cheguei ao
apartamento de Sam, era quase início da manhã.
— Alô! — Atendo sem me preocupar em verificar quem chama.
— Zander, como ela está? — Identifico imediatamente a voz do Morales.
— Quando eu saí do hospital ela estava dormindo. Por sorte o tiro foi de
raspão.
— Você não está com ela? — A acusação na voz dele não me agrada. —
Mesmo não sendo nada grave, deveria ficar por perto caso ela precise de algo.
— Tive que vir até a casa dela cuidar do gato. A minha sogra fez questão de
passar a noite ao seu lado. Não pode ficar muita gente no quarto.
— Ainda assim deveria estar lá. E se algo acontecer?
— Nada vai acontecer.
— Então ela não pode receber visitas?
— Pode, mas não é bom agitá-la agora. O médico disse que ela estava
muito descontrolada por causa da emoção que passou. Eles tiveram que sedá-la
para se acalmar.
— Entendo. — Ele faz silêncio. — Sei que não gosta de mim, eu também
não gosto de você, mas precisamos superar nossas desavenças em nome da
Samantha. Ela é muito especial, e estou disponível para o que precisarem. Quero
que Sam volte para casa o mais rápido possível.
— Se tudo correr bem, hoje a tarde ela já estará em casa. — digo convicto.
— Obrigado por tudo o que fez, meu pai me contou que ajudou a conter
Vanessa.
— A minha vontade era matar aquela louca. — Sorrio do comentário dele.
— Mas por hora ela está detida, só não sei até quando. E falando sobre a sua ex-
namorada, você precisa ir até a delegacia prestar depoimento.
— Vou ligar para o meu advogado. Acabei dormindo no sofá enquanto
brincava com o gato da Sam. Vou tomar um café e depois sigo para a delegacia
antes de ir ao hospital saber como ela está.
— Se precisar de algo não hesite em me ligar. E assim que ela puder
receber visitas, quero vê-la.
— Certo. — Contenho o meu ciúme, nesse momento não posso deixar a
minha raiva por Morales ganhar corpo. — Eu te mantenho informado sobre a
situação dela.
Encerro a ligação e olho para o Nap. Ele me encara com seus intensos olhos
azuis sem saber o drama que se desenrola a sua volta. Pela primeira vez sinto
compaixão por esse abusado.
— Nap, você vai ficar um pouco sozinho, mas em breve sua dona volta e
aí... — Acaricio a sua orelha e sorrio quando vejo o safado ronronando
apreciando o carinho. — Você terá que se mudar de vez, porque a sua dona irá
morar comigo para sempre.
“Miau”
Ele solta um miado suave, como se aprovasse as minhas palavras.
É... pelo jeito acaba de nascer uma nova amizade entre nós. Até que
Napoleon não é tão ruim quanto eu pensava.
CAPÍTULO 37

Zander

Depois de uma manhã agitada na delegacia. Consegui prestar o meu
depoimento e deixar Nap tranquilo em casa. Infelizmente a justiça desse país é
uma piada, e Vanessa vai ficar livre a qualquer instante, porque o advogado dela
entrou com um pedido de liberdade provisória.
Pela lei, e por causa dos antecedentes dela, vai responder ao processo em
liberdade. Ainda estou tentando digerir esse fato, mas de qualquer maneira, vou
fazer de tudo para que ela pague o que fez. Quero essa louca atrás das grades.
Assim que saí da delegacia, dei uma passada em um lugar especial, porque
quero fazer uma surpresa para Samantha. Espero que ela goste do que planejei.
Entro no andar onde fica a sala do médico que cuida da Samantha. Quero
saber a evolução dela antes de ir visitá-la.
— Zander, sente-se. — O médico aponta a cadeira a sua frente. — Já
visitou a sua namorada?
— Ainda não, preferi saber do estado dela antes.
— Certo. — Ele se ajeita na cadeira. — Vamos realizar mais alguns exames
antes de liberá-la.
— Ela realmente vai poder ir hoje?
— Claro que sim. — Fico feliz com notícia. — Ela acordou bem cedo e
começou a falar sem parar, voltamos administrar um calmante para que não
ficasse tão agitada. A sua namorada está acelerada, ela vai precisar de muito
apoio de todos vocês para conseguir se acalmar.
— Sam é acelerada sempre, não para de falar nem por um minuto. — Sorrio
ao lembrar o quanto fala sem parar no trabalho. — Mas acredito que ao voltar
para casa, vá relaxar um pouco.
— Espero que esteja certo, de qualquer maneira, antes de liberá-la, vou
passar um calmante.
— Perfeito. — Levanto e aperto a mão do médico. — Mais uma vez
obrigado por cuidar tão bem da minha namorada.
Deixo a sala do médico e sigo para o quarto de Sam. Estou com saudades
dela, espero que esteja acordada. Estou louco para ouvir a sua voz.
Abro a porta lentamente e vejo ao fundo uma imensa cama. O meu coração
acelera, sinto que estou há muitos anos sem encontrá-la. Rapidamente a minha
sogra percebe a minha presença e sorri.
— Entre. — ela diz com a voz baixa. — Sam acabou dormindo depois que
lhe deram mais um pouco de calmante. Ela não parou de falar e xingou horrores
a sua ex-namorada. Não sei a quem minha filha puxou, eu não sou nervosa assim
e o pai dela era um doce.
Fico em dúvida se devo ou não contar a ela que Samantha é a sua cópia. As
duas falam demais e são destemidas, mas se eu falar isso agora, certamente irei
magoar a minha sogra.
— Deve ter puxado a algum parente distante. — Opto por ser discreto.
Paro ao lado da cama da Sam e vejo que a sua fisionomia está bem. Não
parece que ela passou por um momento tenso há pouco tempo. Espero que
quando acordar esteja mais calma.
— O médico disse que daqui a pouco farão mais exames antes de liberá-la.
— Que bom. Não vejo a hora de irmos embora daqui. Odeio hospital.
— Odiamos. — Beijo a testa de Sam. — Onde está o Maicon?
— Foi comer alguma coisa, adolescente tem uma fome louca.
— Quer comer também? Fico com ela. — Quero muito ficar sozinho com a
minha namorada.
— Vou tomar um cafezinho, esse é um vício que não consigo superar.
— Então, vá.
— Qualquer problema é só me chamar.
— Não se preocupe, nada vai acontecer.
Espero ela sair do quarto para poder me debruçar sobre Samantha e voltar a
beijar sua testa. Quero tirá-la logo daqui e levá-la para o aconchego do seu lar.
— Eu te amo. Fica boa logo.
— Ouvi muito bem isso.
Pulo para trás quando ela abre os olhos. Será que ela estava acordada esse
tempo todo?
— Sam... — Fico sem palavras ao vê-la me encarando intensamente.
— Vai ter que dizer esse eu te amo quando eu sair desse lugar. E quero bem
alto, depois quero na frente de outras pessoas. — Meu Deus! Realmente ela está
mais falante que o normal. — E vou te lembrar desse eu te amo a cada vez que
me fizer um desaforo, porque todo mundo sabe que quem ama não faz desaforo
e... — Interrompo o que ela ia falar com um beijo.
— Eu te amo muito e vou falar isso tantas vezes, que vai me fazer calar a
boca.
— Nunca vou me cansar de ouvir. — Ela sorri. — Eu te amo um pouco
também, mas posso amar mais se me tirar daqui. Preciso achar Vanessa e
exterminá-la do mundo.
— Esqueça a Vanessa. Vamos nos concentrar nos exames que precisa fazer
para poder ir embora.
— Vou poder ir hoje?
— Daqui a pouco.
— E o Nap? Cadê meu gato?
— Eu dormi com ele e agora está tranquilo em casa.
— Ahhh que lindo. — O sorriso imenso dela me faz ter certeza que fiz a
coisa certa ao ficar a noite com o Nap. — Vocês ficaram amigos.
— Não exagere. Eu cuidei do seu bichano porque sei que você o ama.
Jamais deixaria algo que é importante para você negligenciado. — Vejo lágrimas
nos seus olhos. — O que foi amor? Por que está chorando?
— Você está sendo fofo, isso merece muitas lágrimas.
— Samantha, eu sou fofo quando se trata de você.
— Claro que não é. — Ela funga. — Mas pode passar a ser, eu vou te amar
mais ainda. Porque eu te amo demais, tanto que levei um tiro por você. —
Realmente ela me ama.
— Foi de raspão. — Lentamente ela vira o olhar na minha direção, me
fazendo perceber que falei besteira.
— E você acha que na hora eu sabia que seria de raspão? Eu poderia ter
levado uns dez tiros, quem sabe vinte.
— Era apenas um revólver, Samantha, não uma metralhadora para sair
tantos tiros. — Ela faz um biquinho igual de criança.
— Você acaba de desprezar o meu heroísmo. — Com essa declaração, ela
começa a chorar compulsivamente, me levando ao desespero.
Antes que eu possa fazer algo, uma enfermeira chega e não fica nada
satisfeita com a cena que se desenrola. Para completar, Samantha diz que eu a fiz
chorar. A mulher me expulsa do quarto sem dó e eu acabo no corredor, sem
chances de defesa.
Quando Samantha se recuperar, eu vou cobrar esse vexame que acaba de
me fazer passar. Ela pode até estar doente e ter salvo a minha vida, mas não tem
o direito de me deixar mal na frente da enfermeira.
O que a mulher vai pensar de mim? Que tratei mal a minha namorada
enquanto ela estava doente?
Eu vou matar a Samantha assim que toda essa confusão acabar.
CAPÍTULO 38

Samantha

Eu não aguento mais esse hospital. Quero a minha casa logo. Preciso do
meu espaço e de uma comida de verdade. Esse monte de exame está me
deixando louca. Odeio essa gente desconhecida ao meu redor.
Estou me sentindo completamente desorientada, a minha mente ainda está
parada no momento em que a Vanessa aponta a arma na minha direção.
Por muito pouco não perco o Zander, talvez se eu não me jogasse sobre ele
e desestabilizasse a louca, hoje eu não o ouviria dizer que me ama.
Na verdade, ainda estou em dúvida se ouvi mesmo. Com todos esses
remédios que estão me dando, tenho medo de estar tendo alucinação.
— Quando o médico vai chegar? — pergunto angustiada.
— A qualquer momento, filha. — Não aguento mais a minha mãe falar a
mesma coisa. Que ódio!
— Posso entrar? — Escuto a voz do meu médico.
— Oi, doutor, claro que pode entrar. — Minha mãe se anima.
— Como está se sentindo, Samantha?
— Bem na medida do possível. — Não vou mentir. — Ainda dói onde levei
o tiro e estou me sentindo confusa.
— É assim mesmo, vai levar um tempo para o ferimento curar. Agora me
diga com mais detalhes essa parte de se sentir confusa.
Paro e penso como vou conseguir explicar para ele a sensação estranha que
sinto.
— Não consegui sair do momento em que tudo aconteceu. Quando eu fecho
os olhos, escuto o som do tiro. — O médico fica em silêncio por um tempo.
— Seria interessante conversar com um psicólogo, vou deixar o endereço
de alguns para você poder ir.
— Eu fiquei louca?
— Claro que não. — Ele sorri. — Você passou por um momento de
estresse. É normal você ficar agitada.
— Ela precisa continuar a tomar os calmantes?
Ao fundo vejo o Zander fazer essa pergunta, e só agora percebo a sua
presença no quarto.
— Só se ela se sentir muito agitada. Eu vou prescrever a receita com tudo o
que ela necessita tomar. Creio que a enfermeira já tenha ensinado como precisa
fazer o curativo.
— Ela explicou sim, não tem muito que fazer. — minha mãe diz.
— Então vou preparar a alta dessa mocinha. — Ele olha entre o Zander e a
minha mãe. — Não permitam que ela faça estripulias.
— Jamais. — Zander rapidamente se pronuncia. — Ela irá se comportar, eu
mesmo me certificarei disso.
— Certo. — O médico sai da sala e me deixa em êxtase.
— Pegue todas as minhas coisas, Maicon, quero ir embora já. — Ordeno ao
meu irmão.
— Calma, não quero você ansiosa. — Zander se aproxima. — Ainda
precisamos esperar a sua liberação.
— Não podemos pegar essa alta depois? — Ele sorri com a minha pergunta.
— Claro que não. — Fico irritada com a sua resposta. — Enquanto a sua
alta não sai, você pode se arrumar. Não pode sair daqui com esse avental que
mostra a sua bunda linda. — Ele beija a ponta do meu nariz. — Preciso resolver
os problemas burocráticos, quando eu voltar já deve estar liberada.
— Isso aí. — Minha mãe concorda. — Quando você voltar nós estaremos
prontas.
— Ótimo.
Ele sai do quarto e me deixa sozinha com a minha mãe e o meu irmão. Não
acredito que vou embora e poder dormir na minha cama.
Nap, mamãe tá chegando!

Respiro fundo e sorrio quando entro na minha casa. Parece que tem um
século que saí daqui. Agora tudo o que desejo é um banho quente e a minha
cama.
“Miauuuuu”
Nap pula do sofá e corre na minha direção com o rabo branco erguido.
— Ahhh meu filho, vem aqui. — Faço menção de me abaixar, mas sinto
uma pressão na lateral do meu corpo.
— Sam, pega leve. — Zander apoia a mão nas minhas costas. — Você não
pode abaixar tão rápido.
— Quero pegar o meu gato.
— Você não pode pegá-lo por enquanto. — Ele se abaixa e interrompe os
movimentos do Nap na minha perna. — Fale com a sua mãe, garoto.
Nap roça o focinho no meu rosto e ronrona sem parar. Ele também sentiu a
minha falta.
— Você sentiu falta da mamãe, filho? — Acaricio o pelo dele. — Seu papai
tomou conta de você?
“Miauuu”
Ele mia alto, como se quisesse me dizer algum segredo. Como eu queria
que ele falasse, para me contar o que Zander andou aprontando na minha
ausência.
— Ele está muito bem, até teve a honra de dormir no meu colo.
— Cuidado com esse gato, você não pode se contaminar com esse pelo
dele. Evite que esse bicho suba na cama. — Minha mãe resmunga. — Você está
em recuperação, Samantha, tem que ter cuidado com bactéria.
— Para mãe. Eu não estou morrendo. — Odeio essa mania dela em querer
me colocar limites. — Sei o que faço.
— Você sabe o que faz? — Ela me encara indignada. — Se soubesse o que
faz não tinha entrado na frente de uma arma.
Olho para ela surpresa por dizer algo tão desagradável, principalmente na
frente do Zander. Assim ela vai deixá-lo se sentindo culpado por tudo o que
aconteceu.
— Que comentário é esse? — questiono irritada.
— Você entendeu. — Ela insiste em ser desagradável. — Vem ajudar a
mamãe a preparar o jantar, Maicon.
Olho para o Zander e vejo que ele está sem graça. A minha mãe é uma sem
noção.
— Esquece a minha mãe. — Tento deixá-lo mais confortável.
— Ela tem razão, você só está enfrentando todo esse transtorno por minha
causa. Ainda não tive tempo de te agradecer pelo o que fez. — Ele segura a
minha mão. — Mas quero que prometa que nunca mais cometerá esse tipo de
loucura.
— Eu faria tudo outra vez. — Toco o rosto dele. — Eu te amo e por você
mato e morro.
Ele me encara e pela primeira vez presencio lágrimas em seus olhos. Isso
me causa emoção, porque sei que Zander é um homem muito controlado.
Nós nos abraçamos e Nap acaba sendo espremido no nosso meio. Fico feliz
demais, porque vejo que estamos nos tornando uma família.
— Casa comigo? — Ele me pega de surpresa. — Preciso de você na minha
vida, quero saber que é minha mulher, a mãe dos nossos futuros filhos. —
Quando fito os olhos dele, sinto a emoção escorrendo em seu olhar. — E quero
esse gato chato com a gente. — Ele diz erguendo o Nap. — Podemos até
arrumar a senhora Napoleon para ele.
Agora eu não aguento e solto uma risada alta. Acho que o meu namorado
perdeu completamente o juízo.
— Nap é castrado, mas sobre o pedido de casamento, eu aceito agora. — A
cara de espanto dele é cômica.
— Você mutilou o bicho?
— O quê? — Agora estou confusa.
— Samantha, não se pode tirar a sexualidade do animal.
Ai senhor, agora o Zander vai superproteger Napoleon. Eu mereço!
— Não tirei sexualidade nenhuma, ele é macho. Só evitei dele ficar pelos
telhados dos vizinhos correndo risco de ser morto. Gatos quando estão no cio são
terríveis.
— Ainda assim é uma covardia. — Ele solta o Nap, que corre para a
cozinha atrás da minha mãe. — Vai se casar mesmo comigo?
— Claro. — respondo de imediato. — Eu te amo e quase morri por você,
não posso ficar sem suas chatices, a minha vida não faria sentindo.
Tadinho, eu estou pegando pesado com ele, mas é verdade. Zander é um
porre, mas eu o amo tanto, que chega a doer meu peito.
Apesar do meu insulto, ele sorri e coloca a mão no bolso da calça. Quando
ele tira uma caixinha preta de lá, meu coração dispara. Ahhhh... esse cretino vai
me dar uma aliança.
— Comprei antes de te pegar no hospital, não sei se vai dar no seu dedo,
mas fiz uma média pelos anéis que achei na sua caixinha de joias.
— Você bisbilhotou as minhas coisas? — Finjo estar chateada.
— Foi por uma boa causa. — Ele segura a minha mão, e desliza pelo meu
dedo uma aliança linda. Acho que não vou ser capaz de manter esse treco no
meu dedo. — Ficou perfeita.
Ergo a aliança e admiro a peça no meu dedo. Só posso estar sonhando, não
acredito que acabei de ficar noiva do meu chefe insuportável.
— Você comprou a sua?
— Aqui. — Ele coloca na minha mão uma aliança idêntica a minha.
— Agora, senhor Saramago... — digo enquanto admiro a aliança no dedo
dele. — Você não me escapa.
— E quem disse que quero escapar de você? — Ele segura o meu rosto. —
Sam, eu estou louco para ser seu desde que entrou no meu escritório. Naquele
dia, eu soube que estava fodido e tinha toda razão.
O meu coração explode de tanta alegria e me sinto a mulher mais feliz
desse mundo. Ele se inclina para me beijar, mas quando me segura pela cintura,
grito de dor.
— Jesus! — Zander exclama assustado. — Me perdoa, esqueci do seu
ferimento. — Tento controlar a vontade de chorar.
— Tudo bem, às vezes até eu esqueço dele.
Com delicadeza, Zander segura o meu queixo e deposita um beijo delicado
na minha boca, fazendo com que eu me derreta com o toque macio dos seus
lábios.
— Vocês podiam deixar de se agarrarem e cuidarem do gato? — Minha
mãe aparece na sala com o Nap no colo. — Não cozinho com bicho na cozinha,
ele está me incomodando.
Ignoro o comentário dela e ergo a mão para mostrar a minha aliança.
— Estou noiva! — Estou tão feliz, que a parte de estar me recuperando de
um tiro não me incomoda em nada.
— Ohhh... — Minha mãe olha surpresa para a aliança.
“Miauuu”
Nap solta um miado estridente e pula do colo da minha mãe. Ele se embola
entre as minhas pernas miando sem parar, depois segue para fazer o mesmo com
o Zander.
Esse gato entende tudo o que falamos, ele consegue captar cada momento
que passamos.
— Meus parabéns! Isso merece um jantar especial.
— Não exagere, eu estou doente, não quero confusão, mãe. — Se eu deixar
a minha mãe solta, ela apronta.
— Você come sopa, fica tranquila.
— Sopa? — Olho para ela intrigada. — E vocês comem o quê? — Ela faz
cara de quem vai aprontar.
— Nós vamos comer lasanha. — Arregalo os olhos com a audácia dela.
— Eu quero. — Já sinto água na boca.
— Querer não é poder, minha filha, você já tem um noivo lindo, não dá
para ter tudo.
Com esse elogio ao insuportável do Zander, ela se afasta e retorna para
cozinha. O sorriso de satisfação dele me irrita.
— Estou tonta, preciso deitar. — Aproveito da minha doença para fazer
cena, assim ele para de se achar demais.
— Você se esforçou muito meu amor, não pode ficar tanto tempo em pé. —
Ele apoia o meu braço ao dele. — Vem deitar, quando se recuperar eu te ajudo a
tomar banho, depois sua mãe faz seu curativo.
— É um bom plano. — digo dengosa. — Um suco seria bom, preciso me
hidratar.
— Tudo o que você quiser, meu anjo, basta pedir.
É... acho que a minha recuperação vai demorar a acontecer. Estou gostando
desse Zander submisso, vou mantê-lo nessa linha por mais tempo.

Hoje precisei prestar depoimento. Que coisa ruim, tive que repetir infinitas
perguntas. Pensei que nunca mais ia acabar. O pior foi saber que Vanessa já está
em liberdade provisória. Aquela vaca vai responder o processo em liberdade,
porque não tem antecedentes criminais, e a justiça deste país é uma merda.
Só em pensar que posso cruzar com ela em algum momento, já sinto um
calafrio. Mas Zander me garantiu que os pais dela irão interná-la em uma clínica
para se recuperar da depressão, que eles alegam que a víbora está enfrentando.
Espero que isso a afaste de nós e esqueça que existimos.
Escuto um burburinho e sorrio porque deve ser meu irmão que voltou da
padaria. Ele me enche de carinho, e Deus sabe o quanto estou carente.
— Sam, você tem visitas. — Zander aparece na porta do meu quarto.
— Visitas? — Fico surpresa com a informação, até onde sei, apenas terei a
família dele para um rápido jantar mais tarde.
— Você vai gostar. — Ele se aproxima e me ajuda a levantar.
— Não vai me dizer quem é? — pergunto curiosa enquanto caminho pelo
corredor que dá para a sala.
— Por que tenho que falar se você já vai saber? — Ele sorri e quando entro
na sala, fico surpresa em presenciar quem me espera.
Abro um largo sorriso ao ver o Morales no centro da minha sala, junto da
Cris e do Francisco. Por algum motivo me emociono e tento controlar as
lágrimas.
— Eu não tenho palavras para dizer o quanto é bom te ver. — Morales se
aproxima e beija a minha testa antes de me abraçar. — Todos nós estávamos
preocupados com você.
— Obrigada por tudo o que fez por mim, o Zander me contou.
— Faria tudo novamente, você é uma amiga muito especial. — A maneira
como ele frisa a palavra amiga, me deixa curiosa.
— Eu fiquei tão preocupado com você. — Francisco segura a minha mão.
— Ainda bem que o Zander me contou quando você já estava vindo para casa.
— Foi só um susto, em breve irei te visitar no restaurante. Quero alguns
drinques por conta da casa. — Ele sorri.
— Você terá quantos quiser.
Sorrio me sentindo muito feliz por ele estar aqui. Francisco é muito
especial, ele é aquele tipo de pessoa que você não convive constantemente, mas
sabe que sempre vai estar ao seu lado.
— Você está corada, acho que os cuidados da sua mãe estão fazendo efeito.
— Cris se aproxima e me ajuda a seguir para o sofá. — Com todos esses mimos,
você vai se recuperar depressa. É bom que você volta a trabalhar rápido. —
Sorrio com o seu comentário, como eu gostaria de retornar a minha vida normal
o quanto antes.
— Não se preocupe, Cris. Quando você menos esperar, eu estarei entrando
naquele escritório.
— Que assim seja! — ela diz assim que me sento no sofá.

Depois de uma tarde maravilhosa, eu estou apreensiva com o jantar que


terei que enfrentar. Apesar de ter recebido um telefonema fofo da irmã do
Zander e uma rápida conversa com o pai dele, estou com medo de encontrar a
minha sogra.
Eu não sei se terei paciência para lidar com a implicância dela. O meu
estado de espírito certamente não vai suportar as suas piadinhas sem graça.
Se dependesse de mim não os receberia agora, deixaria mais para frente.
Sem contar que eu gostaria de ficar sozinha com o Zander para poder
conversar sobre a visita do Morales hoje à tarde. Ele me pareceu muito à vontade
com a presença dele, sequer foi antipático. Estou até agora surpresa com o seu
comportamento e curiosa para saber o que mudou enquanto eu estive no
hospital.
A única justificativa que me vem à cabeça, é porque o Morales se envolveu
diretamente na prisão da Vanessa. Certamente essa ação do Morales fez com que
o meu digníssimo noivo abaixasse um pouco a guarda.
— O que foi? — Zander questiona assim que me ajuda a sentar no sofá. —
Por que está com essa cara?
— Sua mãe... — Não vou fingir que ela me incomoda. — Eu não me sinto
preparada para enfrentá-la.
— E quem disse que irá enfrentá-la? — Ele ergue as sobrancelhas.
Fico intrigada com o seu questionamento, e quando vou indagar o
significado das suas palavras, a campainha toca, interrompendo o que eu ia dizer.
— Chegaram! — Ele sorri e vai para a porta.
Como Nap é fuxiqueiro, acompanha o Zander e para bem atrás dele, curioso
para saber quem está chegando. Espero que a sua família não reclame do meu
bichano.
Sei que Gaia gosta de animais, ela me confidenciou quando nos
encontramos, mas a mãe dele... essa é insuportável.
— Entrem.
Ele está tão feliz que me sinto mal por querer sumir dessa sala. Preciso me
controlar, ou vou estragar a noite.
Coloco um sorriso no rosto e finjo que estou contente quando todos se
aproximam e me cumprimentam. Gaia como sempre é um doce e Alex me
diverte quando se senta no meio da minha sala para brincar com Nap. O senhor
Abel mantém a sua simpatia, ao perguntar como está a minha recuperação. Mas
o que me surpreende mesmo é a tranquilidade com que a mãe do Zander
conversa comigo.
— Foi uma grande felicidade quando soubemos que estava bem. O susto
com tudo o que aconteceu nos deixou apreensivos. — A voz da Leonora me
intriga. — Mas agora temos o controle da situação, não vamos descansar
enquanto Vanessa não for punida.
O que aconteceu com essa mulher? Será que deram algo para ela beber?
— Não vamos preocupar a Sam com esse tipo de assunto, mãe, os nossos
advogados estão em um bom caminho no caso da Vanessa. Ela será presa quando
todo esse processo acabar. — Zander se senta ao meu lado e segura a minha
mão.
— É claro, meu filho. — A voz meiga dela não combina com a sua
personalidade insuportável. — Samantha. — Ela me encara muito
compenetrada. — Eu queria te agradecer por ter protegido o meu filho.
Estou vendo lágrimas nos olhos dela? Será que os antibióticos estão me
deixando louca?
— Na verdade queremos agradecer por tudo o que fez. — Meu sogro
reforça o que ela falou.
— Eu errei quando julguei você. — Uma lágrima escorre pela sua
bochecha, me deixando de boca aberta. — Hoje sei que ama meu filho e isso é o
suficiente para te pedir perdão por ter sido tão desagradável. Você me perdoa? —
Ohhh, ela me pediu perdão. Socorro!
Impossível não ficar sem palavras neste momento, por essa eu não
esperava.
— Não tenho tempo para guardar rancor, dona Leonora. — digo com
sinceridade. — Quero apenas viver intensamente o amor que sinto pelo seu filho.
Vamos nos casar em breve, eu só quero que tenhamos paz.
— Se casar? Vocês vão casar? — ela pergunta apavorada.
Pronto, acho que agora o lado insuportável dela foi ativado.
— Mãe, eu ia falar agora no jantar que ficamos noivos. Depois de quase
perder a Sam, não podia deixá-la escapar.
— Isso merece uma comemoração gigante. — Meu sogro se ergue do sofá
todo feliz.
— Vocês não podem ficar noivos do nada. — Todos olham apreensivos
para Leonora. Se ela der uma crise por causa do noivado, eu a expulso daqui. —
Precisamos de uma festa, no mínimo um jantar com as duas famílias.
Relaxo consideravelmente quando ela termina de falar. Graças a Deus ela
não voltou a ser uma megera.
— Não quero festa, podemos fazer uma comemoração hoje, só a gente.
— Mas e a sua mãe? — Gaia me questiona. — Ela precisa participar.
— Quando estiver bem, podemos marcar algo. Pode ser no restaurante que
o Francisco trabalha, Zander. Quero o Chico com a gente nesse momento
especial.
— Seu desejo é uma ordem, meu anjo. — Meu lindo namorado me beija.
— Assim que você estiver bem, marco o jantar.
— Parabéns, Samantha, você é perfeita para o meu irmão. — Fico
emocionada com a alegria da Gaia. — Alex, venha parabenizar a sua nova tia.
Em breve teremos um casamento na família.
Alex coloca Nap no chão e olha na minha direção. Ele me encara sério e
fico com medo de ele não aprovar o noivado, mas aos poucos, ele abre um
sorriso e vem até mim.
— Tô feliz! — O brilho nos seus olhos indica o quanto está sendo sincero.
— Agora sim meu tio acertou. Você é linda.
— Como é moleque? Você está paquerando a minha noiva?
A explosão de ciúme do Zander nos faz sorrir. Ele é muito ridículo, não
poupa nem o sobrinho.
E depois desse início de conversa animador, o resto da noite transcorre
tranquilamente. Jamais imaginei que conseguiria passar um tempo tão agradável
ao lado da Leonora, mas parece que a tentativa de homicídio da Vanessa, acabou
ajudando a nossa aproximação.
Quando eles vão embora, estou feliz como não imaginei ficar nesta noite.
Há males que vem para o bem. Vanessa tentou destruir nossas vidas, mas acabou
nos unindo.
— Surpresa com a nossa noite? — Zander pergunta quando se acomoda ao
meu lado na cama.
— Estou feliz. — Viro lentamente o meu corpo para poder olhá-lo com
atenção. — Tudo o que eu mais queria era iniciar a nossa vida em paz.
— No final tudo acabou bem. — Ele acaricia a lateral do meu rosto. — Eu
te amo. — Sinto o meu coração desmanchar com a sua declaração.
Será que um dia vou me acostumar a ouvir isso dele?
— Quando vou estar completamente boa? Preciso demonstrar o meu amor
de uma maneira mais contundente. — Ele repuxa um lado da boca.
— Que safadeza é essa, senhorita Diniz? Onde aprendeu isso?
Se eu pudesse tacar um travesseiro nele agora, faria isso com muita alegria,
mas ainda estou lesada por causa dos remédios, então só me resta fazer raiva a
esse bobão.
— Quer que eu conte mesmo onde aprendi safadeza? — Ergo a sobrancelha
em desafio.
— Nem doente você deixa de ser desaforada?
— Não consigo. — Realmente é difícil ser dócil.
— Ahhh mulher, você me deixa louco. — Ele se aproxima e me beija.
Eu me jogo no beijo, por enquanto isso é tudo o que posso fazer. Quando eu
estiver boa, aí ele vai pedir arrego.
E isso é uma promessa!
CAPÍTULO 39

Samantha

Passei uma semana de molho, com o Zander trabalhando na minha sala e
me policiando em cada passo que eu dava. Ele me irritou tanto, que o expulsei
da minha casa. Mas o atrevido me ignorou e não arredou o pé.
Ele apenas me deixou sozinha quando precisou ir à delegacia. Infelizmente
a Vanessa está livre e foi direto para uma clínica de repouso. De acordo com a
família da vaca, ela está deprimida e desequilibrada por causa da rejeição do
Zander.
Só neste país mesmo que uma pessoa atira em outra e no final vai parar em
uma clínica de rico. Não gosto nem de pensar nisso, ou vou atrás dela e arranco a
cabeça daquela vadia.
Ontem eu fui ao médico, e quase obriguei o homem a me liberar para
trabalhar. Se eu ficasse mais um dia em casa com o Zander na minha cola, eu ia
jogá-lo pela janela.
Por sorte o ferimento do tiro estava praticamente cicatrizado e o médico me
liberou para o trabalho.
Agora eu estou feliz, porque passarei o dia com a Cris e vou poder fazer
corpo mole quando o Zander começar a perturbar. Enquanto eu estiver tomando
remédios, posso sempre alegar que não estou me sentindo bem e fazer uma cena
para ele ficar bonzinho.
— Achei a transformação do chefe incrível, ele tratou bem o Morales e os
dois até tiveram uma reunião na quinta-feira passada.
— Tiveram? Como assim? Eu não fiquei sabendo. — Fico curiosa. — O
Zander veio na empresa semana passada? Ele não me disse nada. Nas poucas
vezes que saiu da minha casa, alegou que precisava ir ao apartamento dele pegar
roupas.
— Ele veio bem rápido, durante a tarde, e ficou um bom tempo
conversando com o Morales. Os dois estavam civilizados, sem as costumeiras
provocações. Eu fiquei intrigada.
— Também estou intrigada. Ele está diferente. Chegamos a conversar sobre
o Morales e ele me confessou que será grato a ele por conter a Vanessa e me
ajudar com o ferimento.
— Então é isso, o chefe se sente em dívida com ele.
— É, parece que sim...
Será que dessa vez o Zander vai relaxar e deixar de implicar com o
Morales? Talvez ele até não me cause confusão se eu resolver trabalhar na
emprese dele.
Acho que estou otimista demais, no entanto não posso negar que tenho um
bom argumento para ele não pegar no meu pé.
— Espero de verdade que ele tenha acabado com essa guerra boba com o
Morales.
— Vamos aguardar.
Cris volta ao trabalho, ela está muito empenhada em mostrar serviço. Ao
menos sei que o Zander terá uma ótima profissional ao lado dele quando eu for
embora. E o melhor de tudo é que terei uma informante das boas na cola dele. Se
aprontar algo, a Cris me conta rapidinho.
O complicado pra mim será me acostumar a não ter os gritos do Zander.
Vou sentir tanta falta das nossas brigas, as nossas trocas de farpas sempre foram
o ápice do meu dia.
— Samantha. — A voz dele quebra meus pensamentos. — Venha aqui. —
Ele ordena e volta para a sala. Pelo jeito não está de bom humor.
Cris olha para mim apreensiva, acho que ela nunca vai conseguir assimilar
os rompantes de humor do chefe na hora do trabalho. Esse é o grande defeito
dela, ter medo excessivo do Zander.
— O que foi?
— Fecha a porta e sente-se. Precisamos conversar. — O tom sério dele me
deixa preocupada.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, só preciso falar com você.
— Então pra que tanto drama? Você está com essa cara toda séria. Pensei
que algo grave tivesse acontecido.
— Que drama, Samantha? Você está mais doida do que o normal? —
Pronto, já voltou a ser chato.
— O que você quer falar? — Ele respira fundo e parece muito chateado.
— Primeiro quero avisar que comprei uma casa para a Cristina. É em uma
pequena vila, mas a casa é ótima, acho que ela vai gostar. Depois vejo uma
maneira justa para ela ir me pagando. No momento só desejo que ela crie suas
filhas com tranquilidade.
— Não acredito.
Estou tocada com essa revelação. Em alguns momentos ele me fez
perguntas sobre a família da Cristina, mas nunca imaginei que pudesse estar
pensando em comprar uma casa para ela.
— Eu não poderia conviver com ela todos os dias sabendo que mora em um
lugar com constantes conflitos.
— Ela vai enlouquecer quando souber.
— Depois você conta, agora precisamos conversar sobre outro assunto.
— Qual assunto?
— Você ainda vai querer sair da empresa? — Humm... acho que ele está
com medo de me perder. Que lindo!
— Vou. Não mudei de ideia. — A decepção no rosto dele com a minha
resposta quebra o meu coração.
— Certo. — Ele reclina a cadeira e me fita pensativo. — Eu conversei com
o Morales, nós tivemos um papo franco. Apesar de não querer que vá embora,
respeito a sua decisão e te apoio incondicionalmente. Se você escolher ir
trabalhar com o Morales, quero que saiba que não ficarei plenamente feliz, mas
não vou impedir.
Ainda bem que estou sentada, porque essa confissão dele me deixou em
choque. Fico sem saber como responder, porque realmente não esperava ouvir
algo assim dele.
— Que bicho te mordeu? — Essa aceitação dele não é normal.
— O bicho do amor e da gratidão. — O sorriso tímido dele é a coisa mais
linda do mundo. — Eu te amo e confio em você e, apesar de não gostar
plenamente do Morales, sou eternamente grato por tudo o que fez.
— Ah, Zander, por isso eu te amo. — Vou até a cadeira dele e me sento no
seu colo. — Ouvir isso é tão bom. Você não sabe como me deixa feliz.
— Ele tem um plano de carreira para você e foi muito sincero quando
assumiu que a perdeu para mim. Gostei de saber que ele entendeu que você é
minha e gostei mais ainda da confiança que ele tem no seu profissionalismo. —
Ele segura o meu queixo e me beija. — O seu lugar aqui sempre estará vago. Se
um dia quiser voltar, só avisar, mas duvido muito que isso aconteça.
— Você vai realmente ficar bem se eu for trabalhar com ele?
— Desde que se case comigo o mais rápido possível, eu vou superar não a
ter aqui me perturbando.
— Eu não perturbo. — Faço um dengo.
— Você perturba sim e esse é um dos motivos que me fizeram te amar. —
Zander acaricia o meu rosto. — Ligue para ele e diga que aceita a oferta, mas só
te libero no final da semana, ainda não consigo ficar sem você aqui.
— Mas você vai me ter pelo resto da sua vida.
— É isso o que me consola, amor. — A boca dele cai sobre a minha e o
meu coração acelera ao sentir a força do amor que ele sente por mim.

— Alô, Morales, é a Sam. — digo me sentindo eufórica por poder aceitar a


proposta dele sem receio do que Zander vai dizer.
— Sam, que prazer falar com você. Como anda a sua recuperação?
— Estou ótima. — Realmente me sinto bem. — Só não me sinto melhor
porque Vanessa está respondendo o inquérito solta, mas fora isso, eu estou bem.
— A justiça do nosso país é uma piada.
— Nem me fale, mas não liguei para falar sobre a justiça ineficaz do país.
— Então me diga o que deseja. — Respiro fundo e olho para Cris que faz
um gesto positivo me incentivando a continuar.
— Eu aceito a sua proposta. Vou trabalhar na sua empresa. — Ele fica em
silêncio. — Morales você está aí?
— Estou. — A voz dele é baixa. — É que a minha felicidade me deixou
mudo. — Sorrio, ele é um bobo. — Seu contrato de admissão está pronto no RH,
eu apenas estava esperando você dizer: Sim!
Fico passada com a agilidade dele. Certamente depois da conversa secreta
que teve com o Zander, sabia que eu não recusaria a sua proposta.
— Você está me saindo um convencido, igual ao meu ex-chefe.
— Estou longe de ser chato como o seu ex-chefe, mas um homem pode
manter as esperanças. — Acho que o Morales nunca vai deixar de implicar com
o meu namorado.
— Só posso começar a trabalhar na próxima semana. Meu chefe não me
liberou antes disso.
— Não disse que ele era chato? — ele resmunga. — Venha assinar sua
contratação e conhecer a empresa, peça ao Saramago para sair mais cedo. Na
segunda-feira você já chega sabendo onde é sua nova sala de trabalho. Vou
providenciar uma pessoa para te assessorar em tudo o que precisar. Em três
semanas irei para à China e preciso que você tenha o controle de tudo.
— Estou nervosa.
— Você vai tirar de letra, confio em você. — A confiança dele em mim me
deixa entusiasmada.
— Vou me esforçar ao máximo.
— Eu sei que vai.
— Amanhã passo aí.
— Só me informe o horário. Quero estar aqui para te recepcionar.
— Poder deixar. — digo animada. — Obrigada por confiar em mim.
— Você conquistou essa confiança. Até mais. — Ele encerra a ligação e me
deixa com a adrenalina a mil.
— Amiga, agora é definitivo, estou indo embora. — Cris para o que está
fazendo e me encara.
— Vou sentir muito a sua falta, mas o seu sucesso está acima de tudo. Vá
para a empresa do senhor Morales e brilhe. Você merece.
— Em breve eu roubo você do Zander. — Ela sorri.
— E eu vou se me pagar mais. — Abro a boca em choque.
— Você está mercenária, meu Deus! Não acredito. — Cristina me olha
meio sem graça, mas sem deixar de sorrir.
— Aprendi com você.
Com essa revelação eu fico em dúvida se conto ou não que ela tem uma
casa nova. A minha língua não se segura e revelo o que meu lindo noivo fez.
A princípio Cris fica sem reação, mas quando ela desaba em lágrimas, eu
não me seguro e a acompanho. Sempre soube que o Zander tinha um bom
coração, apesar da sua tirania. Só que dessa vez, ele superou todas as minhas
expectativas.
Não é à toa que eu amo perdidamente esse homem.

Observo ao longe Zander acariciar o pelo do Nap enquanto olha algo na


televisão. Ele está calado. Passou a semana toda mergulhado no trabalho e, nos
nossos momentos de intimidade, falou pouco.
Sei que ele está triste porque não vou trabalhar com ele, mas isso não é o
fim do mundo. Só não vamos ficar juntos durante o dia, no entanto depois do
expediente, nossa vida vai ser normal.
Lentamente me aproximo dele e passo os braços por seus ombros quando
paro atrás do sofá. Ele se sobressalta com a minha aproximação e fica quieto
quando beijo seu pescoço.
— Eu te amo, senhor Saramago, nunca se esqueça disso. — sussurro no seu
ouvido.
— É a certeza desse amor que não está me fazendo pirar. — Ele segura a
minha mão e me faz rodear o sofá para sentar no seu colo. — Eu estava
pensando em algo.
— Ihh você pensando é problema. — Eu tento descontraí-lo, mas o seu
olhar glacial desmorona a minha intenção.
— Vamos nos casar? Posso dar entrada nos papéis na segunda-feira.
— O quê? Tão rápido? Nem fizemos o jantar do noivado que a sua mãe
tanto quer.
— Podemos fazer o jantar para comemorar a data do casamento. O que
você acha?
— Eu acho que você bateu a cabeça. Não posso me casar às pressas, minha
mãe vai reclamar, as pessoas vão achar que estou grávida. Nem pensar. Quero
um casamento grande, quero um vestido digno da realiza britânica. Quero um
dia de noiva. — Paro para respirar antes de terminar minhas exigências. — E eu
quero lua de mel em Paris, depois quero comer pizza em Nápoles. Quero a porra
toda, Zander.
Ele fica parado me olhando, sem nenhuma expressão. Como se eu tivesse
falando um monte de devaneios.
— Você não pode ter a porra toda agora, amor.
— Por quê? Você vai fazer economia no nosso casamento?
— Não é isso, mas você acabou de ser contratada, vai ter que esperar um
ano para ter as férias e eu não vou esperar um ano para te transformar na senhora
Saramago. Vamos nos casar logo, quero você aqui comigo, todo dia, a semana
inteira, a vida toda.
Ahhh ele é lindo! É o homem mais fofo, gostoso e perfeito do mundo. E é
todo meu.
— Eu caso! Eu me caso agora! Quero desencalhar mesmo. Vamos marcar a
data. — Paraliso a minha empolgação. — Será que podemos incluir uma ida a
alguma ilha grega nessa lua de mel? Quem sabe em uma praia de nudismo? Sou
louca para tomar sol nua.
A expressão de choque dele é cinematográfica. Que pena que não estou
com o meu celular para registrar o horror no seu rosto com a minha proposta.
— Nem pensar! Nada de nudismo, quero você vestida.
— Você é um estraga prazeres. — bufo. — Mas rola uma Grécia?
— Não sei, depende das finanças, a crise está complicada.
— Se for pra casar com um sovina, recuso agora o casamento. — Cruzo os
braços.
Vou fazer drama e se ele me perturbar muito, finjo que estou tonta. Não me
achem má, mas Zander precisa de uma pressão.
— O.K. Vamos para onde você quiser, só quero me casar rápido. — Não
falei que ele precisa de uma suave pressão?
— Marca esse trem logo, na semana que vem vou atrás de um vestido.
— Precisamos comemorar. — Ele aperta os olhos. — Se sente bem?
— Eu me sinto louca pra cair na sua cama. — Zander olha para Nap que
está destruindo uma almofada caríssima.
— Amigo... agora você fica por aqui. Eu e a sua dona vamos para uma
sessão privada de sacanagem. Mas fique à vontade, pode até se pendurar nas
cortinas, só não mie na porta. Certo?
“Miauuuu”
Nap solta um miado estridente, como se estivesse fechando um acordo com
o meu saboroso noivo. Acho que perdi a parceria do meu gato. Ele me trocou
sem pensar duas vezes.
— Preparada para gritar de prazer?
— Quero gritar duas vezes, porque economia não está na minha lista de
sexo.
— Nem na minha. — Ele me segura e segue sorrindo para o quarto.
Eu sou muito sortuda, amarrei meu bode no lugar certo.

Um mês depois.

Que merda, eu vou ser demitida! Não acredito no que está acontecendo,
essa droga só pode estar errada.
Olho para os três testes de gravidez que estão na minha frente e não consigo
acreditar que todos deram POSITIVO. Como isso foi acontecer? Eu tomo a
merda do anticoncepcional.
E agora? Como vou explicar para o Morales que estou grávida com tão
pouco tempo na empresa? Estou muito ferrada.
— Samantha saia desse banheiro, vem almoçar. Daqui a pouco você tem
que voltar para o trabalho menina. — A minha mãe berra na porta. Não sei o
motivo de sempre gritar.
— Mãe... — Choramingo.
— O que foi? Você está chorando? Abre essa porta. Tá passando mal? —
Minha mãe é uma atriz dramática de primeira categoria, já tá desesperada.
— A porta está aberta. — Ela entra no banheiro em segundos.
— O que está acontecendo? — aponto para as fitinhas do teste.
— Finalmente a senhora vai ser vovó.
— Ai meu Deus! — Minha mãe põe a mão sobre o peito. — Eu não
acredito que você vai casar grávida. Samantha, pelo amor de Deus, eu sempre
disse para não casar grávida. Passei a vida falando mal das filhas dos outros e
vem você me ferrar. Não acredito.
Fico sem reação. A minha mãe não falou isso, certamente o meu
nervosismo está me fazendo ouvir coisas absurdas.
— Como vou olhar pra Carminha? Eu a critiquei tanto quando a filha
engravidou. Cheguei a responsabilizá-la por não conversar com a menina sobre
os métodos de prevenção. Aí vem você me arruma uma barriga antes de casar.
Adeus minha oportunidade de ser metida com as vizinhas.
— A senhora bebeu? Não é possível estar ouvindo esse absurdo. Eu estou
aqui nervosa porque engravidei no período de experiência do meu novo emprego
e a senhora preocupada com opinião de vizinho. Não tenho culpa se é uma
linguaruda.
— Ahh minha filha, desculpa, eu dei uma surtada. — Ela olha as fitinhas.
— Você tem que fazer o exame de sangue, é mais seguro.
— Minha menstruação está atrasada, mãe.
— Filha, o que eu posso dizer é só parabéns. Mamãe vai amar e cuidar do
seu filho. Quero meu netinho todos os dias aqui em casa, só não quero o gato.
Sorrio do pedido dela, a minha mãe é louca, mas eu a amo muito.
— O Zander vai enlouquecer.
— Enlouquecer ele vai quando você começar a ter desejo. Que Deus ajude
aquele pobre homem. Já vou avisar que não aceito devolução. Quando casar, ele
vai te aturar para sempre. Agora vem com a mamãe, vou fazer suco de laranja
para você tomar, precisa de muita vitamina. E vai ter que marcar médico, tem
que fazer o pré-natal rápido. Quero meu netinho seguro.
Fico um pouco assustada com todas as recomendações dela, mas acabo
gostando do mimo. Acho que terei nove meses pela frente para fazer todos
realizarem os meus desejos.


Zander

Ontem Samantha estava muito estranha durante o jantar. Ela ficou me
olhando como se quisesse me contar algo, mas em todas as vezes que perguntei
se tinha algum problema, ela negou veementemente.
Como estamos perto do casamento, preferi acreditar que ela deveria estar
nervosa. Essa semana ela está às voltas com os preparativos. Chegou por várias
vezes tarde em casa, porque precisou fazer ajustes no vestido e escolher toalhas
ou algo parecido para as mesas do buffet.
Eu avisei a ela que minha mãe e Gaia poderia providenciar tudo, mas Sam
disse que só se casaria uma vez e não perderia nenhum detalhe dos preparativos.
Quero que essa semana acabe logo, porque no fim da próxima, eu estarei
casado e com a minha esposa longe da cidade em uma rápida lua de mel na
praia.
— Senhor, com licença. — Cristina entra na minha sala com um lindo
pacote nas mãos. — Acabou de chegar para o senhor.
— Pra mim? — Olho a caixa bem embrulhada na mão dela.
— Um rapaz entregou e disse que era uma encomenda especial. — Ela sorri
discretamente.
Depois que comprei a casa para ela, acho que percebeu que não sou um
monstro. Agora ela conversa comigo e até trocamos alguns momentos
descontraídos.
— Você sabe o que é. Está escrito na sua cara.
— Não sei o que é. Eu juro. Mas desconfio quem mandou. Agora pegue e
abra. — Ela coloca sobre a mesa e sai da sala.
Olho por alguns segundos a caixa e chego a conclusão que isso é coisa da
Samantha. Só ela para enviar algo assim para mim.
Rasgo o papel e vejo uma caixa branca, com uma fita vermelha enfeitando.
Retiro a fita e quando abro, fico com as mãos paralisadas.
Dentro da caixa tem uma roupa de bebê branca, cheia de detalhes em
dourado. Por cima tem um pequeno cartão. Passo a mão pelo rosto enxugando as
lágrimas que começam a cair e quando abro o cartão, vejo a caligrafia perfeita da
minha futura esposa.
Leio o seu recado com a visão embaçada.
“Parabéns papai, em menos de nove meses chego à sua vida. A mamãe está
muito feliz comigo e já sente desejo de comer bolo de chocolate hoje à noite.
Não esqueça de levar um pedaço bem grande para ela, porque se ela ficar feliz,
eu também fico. Eu e a mamãe te amamos muito.”
Sorrio quando termino de ler o bilhete. Não acredito que a Sam fez isso. O
que essa mulher tem na cabeça? Nem quando anuncia que está grávida ela
consegue ser normal.
Merda! Eu vou ser pai. Puta que pariu, não acredito!
Releio o bilhete e sorrio como um bobo, depois pego a roupinha e sinto o
cheiro suave de bebê. Eu vou ser pai. Que loucura.
Preciso ver a minha mulher, não vou conseguir esperar até à noite.

Eu vim a empresa do Morales apenas uma vez, sempre mantive os nossos


encontros no meu território. Ele precisava mais de mim do que eu dele, então
usei do meu privilégio para escolher onde seriam nossas reuniões.
Agora estou aqui por outro motivo. Vim encontrar a minha futura esposa, a
mãe do meu filho. Ainda me sinto meio que perdido com a novidade de ser pai,
talvez quando eu tocar Sam, consiga sentir que tudo é verdade.
— Onde é a sala da Samantha Diniz? — pergunto em uma pequena
recepção.
— A senhora Diniz fica na sala três, mas ela... — Não espero a mulher
terminar de falar e sigo para o corredor procurando pela sala dela. — Senhor,
pare, não pode entrar assim. Vou chamar a segurança.
Ela ameaça em vão, até parece que um segurança vai me parar. Certamente
essa secretária não me conhece.
Alcanço a sala da Sam e quando vou bater, a porta se abre e vejo a minha
mulher surgir ao lado de um rapaz que me olha como se eu fosse um alienígena.
— Zander, o que está fazendo aqui?
— Desculpa senhora, mas ele invadiu a empresa, vou chamar o segurança
imediatamente.
— Segurança? — Sam exclama surpresa. — Ele é o meu noivo, não vai
chamar segurança. — Olho para a secretária vitorioso. — Michel faça o que
pedi, depois conversamos.
— Sim, senhora. — O rapaz olha rapidamente para mim e se afasta. —
Entra, Zander, chega de causar confusão no meu trabalho.
— Não causei confusão nenhuma.
— Então por que a Mônica queria chamar a segurança?
— Porque ela é chata. — Estico a mão e a puxo na minha direção. — Você
quase me matou. — Sam dá um sorriso tímido.
— Recebeu meu presente?
— É sério mesmo? Está grávida? — Ela apenas concorda e vejo as lágrimas
começarem a brotar nos seus olhos. — Ah, droga, eu vou explodir de felicidade.
Cubro a boca dela com a minha e me perco nos seus lábios macios
querendo demonstrar cada grama de felicidade que está me consumindo.
— Quando descobriu? — Quero saber tudo.
— Oficialmente hoje na hora do almoço. Aí passei em uma loja e comprei a
roupinha e pedi para o boy ir te entregar. Não sabia como te contar.
— Podia ter ido pessoalmente. Seria bem melhor.
— Eu trabalho senhor Saramago, sou a chefe do meu setor, não posso me
ausentar. Principalmente porque o Morales está fora do país e me confiou o bom
andamento da empresa.
— Ahh, você pode sim. O Morales não vai ligar quando souber o motivo
pelo qual abandonou o seu posto. Estamos indo para casa, mas antes iremos
comprar a torta de chocolate da minha filha.
— Filha?
— É menina, eu tenho certeza.
— E de onde tirou isso?
— Apenas sei, agora pegue as suas coisas e vamos embora. — Ela balança
a cabeça e faz um gesto negativo.
— Não posso sair agora.
Suspiro fundo para me controlar e não arrumar uma briga. Samantha é
teimosa, mas eu sou mais que ela.
— Ou vai andando ou levo nas costas.
— O quê? Está me coagindo?
— Estou. — Sorrio. — Seu expediente acabou. — Ela abre a boca para me
responder, mas quando percebe a minha determinação, desiste.
— Se eu for demitida, você vai pagar todas as minhas contas sem reclamar.
— Eu pago pela vida toda, agora vamos.
Finalmente ela não discute e pega a bolsa. Quando passamos pela recepção,
Sam avisa que está com um grave problema familiar e que não voltará hoje.
— Você é louco, está me fazendo mentir no trabalho. — ela diz baixinho
enquanto entramos no elevador.
— Sou louco por você e por nossa filha. — Pela primeira vez toco a sua
barriga, sabendo que tem um pequeno ser que amo mais que a minha vida. — Ei,
menininha, papai te ama e vai cuidar de você e da mamãe. — digo como um
bobo, como se meu bebê pudesse me ouvir.
— Você vai me matar do coração. — Sam segura o meu rosto e me beija.
— Eu te amo tanto, não poderia escolher um pai melhor para o meu filho.
— Filha, Sam, filha, vai ser uma menina e vai se chamar Jasmim.
— Que palhaçada é essa? De onde tirou esse nome? É de uma ex-
namorada? Se for, pode esquecer.
— Está louca? — Como ela pode pirar tão rápido?
— A filha é minha e eu escolho o nome, não se esqueça disso. — Com esse
ultimato, ela sai do elevador igual um furacão.
Eu me meti em uma furada com essa mulher, mas não a trocaria por
nenhuma outra. Amo quando ela fica nervosa e amo mais ainda todo o processo
para acalmá-la.
— Amor, vem cá. — chamo-a sorrindo, já programando os passos que terei
que tomar para tranquilizar a fera.
CAPÍTULO 40

Zander

É hoje!
Demorou para chegar, mas finalmente vou oficializar o meu relacionamento
com a Samantha.
Nunca pensei que me sentiria tão ansioso para casar, na verdade achei que
quando chegasse esse momento, eu estaria me sentindo como se caminhasse para
a forca. No entanto, a realidade neste instante é oposta, eu não paro de olhar para
a porta da capela aonde iremos nos casar.
Minha mãe é uma católica ferrenha e conseguiu com o padre da paróquia
onde frequenta, uma vaga de última hora para que fizéssemos o casamento na
igreja, como a minha sogra exigiu.
A princípio tínhamos combinado de nos casarmos apenas no civil, mas
Noelli não aceitou e Sam me confessou que também preferia casar na igreja. Isso
adiou o nosso casamento mais do que eu desejava, no entanto, jamais seria capaz
de negar um desejo a minha futura esposa.
E por falar em desejo, ontem ela dormiu na casa da mãe dela para poder se
arrumar longe de mim, mas isso não significou que me deixou em paz. Ela me
ligou tarde da noite, fazendo uma série de recomendações.
Samantha parece estar ligada em alta voltagem desde que engravidou, ela
não para nem por um segundo. Só desacelera na parte da manhã, quando precisa
enfrentar os enjoos. Às vezes acho que não vai ter condições de ir trabalhar, mas
ela consegue se recuperar e sequer chega atrasada.
Sinto tanto orgulho da minha mulher.
Durante a semana, fizemos a mudança oficial dela para a minha casa,
Napoleon ganhou um espaço especial e uma cama nova. Ele agora é meu amigo,
e assistimos futebol juntos, enquanto ele destrói todas as almofadas da minha
sala.
Não nego que ainda brigamos, principalmente quando ele domina a cama e
fica monopolizando a atenção da Sam, mas na maior parte do tempo, nós
estamos vivendo em uma relação de afinidade.
Agora, para ter uma vida completa, preciso apenas que a minha filha
chegue. Jasmim será a alegria da casa, já imagino minha menina com os cabelos
castanhos da mãe e o meu charme. Tenho certeza que ela puxará o melhor dos
genes dos pais. Estou contando os dias para poder pegá-la em meus braços.
— Zander, a Samantha acaba de chegar. — Minha irmã anuncia elevando
consideravelmente a minha pressão arterial.
— Até que enfim, já não aguentava mais esperar. — Ajeito a minha
gravata. — Eu tô bonito? Não quero perder a noiva por não estar à altura dela.
Gaia sorri, acho que essa é a primeira vez que faço esse tipo de pergunta.
Normalmente não me preocupo tanto com a minha aparência, o meu espelho é
honesto quando diz que sou boa pinta, mas quando se trata da Samantha, a
minha autoestima é inexistente.
— Você não está bonito, você é sempre bonito. — Como eu amo a minha
irmã.
— O.K. Se você aprova eu fico tranquilo.
— Meu irmão, você não anda bem. — Ela sai balançando a cabeça e com
um sorrio bobo nos lábios.
Quem não está bem é ela, eu estou é muito feliz.
A cerimonialista me chama para iniciar a entrada na igreja. É... Samantha
fez questão de ter uma pessoa para organizar tudo, ela levou a sério ter um
casamento do modo tradicional. Na semana passada, tivemos um ensaio, para
todos saberem dos seus lugares.
Sigo para a porta da igreja e espero o momento chegar. Os poucos
convidados que tiveram o prazer de presenciar o casamento do ano estão todos
de pé, ansiosos pela chegada da noiva mais linda de todos os tempos.
Eu entro pelo pequeno corredor da capela sorrindo, assim que a música
escolhida para a minha entrada começa a tocar. Estou ansioso para tudo acabar e
sumir com a Samantha. Vamos passar três dias na praia, completamente isolados
do mundo.
Em seguida meus pais entram, seguidos da Noelli e Maicon. Os padrinhos
são os próximos. Representando o meu lado, Francisco e a esposa, já Morales e
Cristina são os padrinhos da Sam.
Se eu disser que fiquei feliz com a escolha dela em relação ao seu novo
chefe como padrinho, estarei mentindo, mas quando percebi que ele iria
acompanhar em primeira mão a minha vitória, a alegria me dominou e aceitei
sem problemas a sua participação no meu casamento.
Não posso negar que é uma sensação prazerosa, esfregar na cara desse bode
velho que a Samantha é minha. Ele jamais teria cacife para bancar uma mulher
no nível da minha futura esposa.
A música muda e assim que os primeiros acordes começam a tocar, as filhas
da Cristina entram espalhando pétalas de rosas pelo chão e a minha Samantha
aparece linda na porta da capela. Abro um sorriso apaixonado, mas quando
assimilo a visão que se desenrola a minha frente, fico estático.
Aquilo é o Napoleon no colo dela?
Mas que merda é essa? Ela trouxe a porra do gato para casar também? E ele
está com a uma gravata borboleta igual a minha?
Eu vou matá-la antes mesmo do sim.


Samantha

Eu não consigo parar de tremer. Durante a noite não consegui dormir.
Fiquei imaginando todos os cenários possíveis que poderiam impedir o meu
casamento.
Até mesmo pensei que um meteoro pudesse atingir o planeta antes que eu
chegasse à capela, ou Vanessa sair da clínica e me atacar novamente. Mas graças
a Deus, só foi mais um dos meus acessos de loucura.
Agora só preciso me segurar e não enrolar na calda exuberante que fiz
questão que meu vestido tivesse. Sempre achei vestidos em formato de sereia
lindos, por isso escolhi o meu nesse modelo e com uma calda imensa. Espero
que o Zander goste, eu me achei muito sexy nele. A minha bunda ficou bem
redonda, como ele ama essa parte do meu corpo, acho que vai aprovar.
Quando tivemos o ensaio do casamento, eu recusei que alguém entrasse
comigo. Fiz isso porque além de não me ver entrando com uma pessoa que não
seja o meu pai, eu tinha algo em mente que me faria feliz. Mas, pela cara do
Zander, ele não está contente.
Infelizmente ele vai ter que superar a presença do meu acompanhante, eu
não poderia deixar Nap de fora. O meu gato é parte integrante da minha vida,
deixá-lo sozinho em casa enquanto me caso, seria uma covardia.
Coloco Nap no chão e seguro a pequena fita de seda que coloquei para
contê-lo de fazer alguma besteira. Não posso fingir que ele apronta, Napoleon é
temperamental, espero que ele consiga se comportar durante a cerimônia.
Combinei secretamente com o Alex que ele irá cuidar dele enquanto o padre
realiza o casamento.
Como um bom rapaz, Nap ergue seu rabo flocado e caminha majestoso pelo
corredor da igreja atrás das minhas duas daminhas. As pessoas olham para nós
surpresas e algumas sorriem com a fofura do meu gato.
Ele está lindo com a gravata borboleta que comprei. Ela é igual a que o
Zander está usando, quis manter o padrão, para não destoar da cerimônia.
Sorrio para as vizinhas da minha mãe, quero mostrar que sou simpática. Sei
que elas me acham sebosa, mas a verdade é que eu só não perco tempo com as
fofocas delas, ao contrário da linguaruda da dona Noelli.
Ando lentamente pelo corredor, sempre sorrindo e tentando manter a calma.
Quando crio coragem e encaro meu noivo, vejo uma mistura de admiração, amor
e raiva.
Ele vai me matar, eu sei, mas o que podia fazer? Nap é como filho, ele tinha
que estar aqui.
No instante que o alcanço, Nap mia e se enrosca nas pernas dele. Escuto
som de risadas se espalhar pela igreja. Zander me encara e depois acaricia o pelo
no Nap, que agora está em pé, se apoiando na perna dele querendo atenção.
É tão bom ver meu gato se dando bem com meu futuro marido. Tenho
certeza que seremos uma família muito feliz.
Alex aparece para pegar Nap e finalmente Zander segura a minha mão.
Sinto uma eletricidade percorrer o meu corpo. Daqui a poucos minutos, eu serei
a senhora Saramago. Não vejo a hora de gritar o sim.
— Só vou esperar a cerimônia acabar para te matar. — ele diz rente ao meu
ouvido.
— O quê? — Finjo surpresa. — Mas aí você vai ficar viúvo. Que graça tem
casar?
— Ser viúvo tem seu charme, vou poder arrumar uma esposa menos
maluca. — Abro a boca para responder, mas escuto o padre arranhar a garganta
chamando a nossa atenção.
Desisto da briga, e sorrio para o meu noivo chato com todo o amor do
mundo. Zander entra no clima e beija a minha mão me ajudando a subir um
degrau do pequeno altar.
O padre começa a cerimônia, mas não consigo me concentrar. Primeiro
porque a minha mãe chora de um lado e minha sogra do outro e, segundo,
porque me lembro do meu pai. Como ele ficaria feliz em presenciar esse
momento.
As lágrimas que tentei evitar o dia todo começam a escorrer pelo meu rosto.
Foi um longo caminho até chegar aqui, e esse caminho me fez perder alguém
essencial na minha vida.
— Calma, meu anjo. — Zander estende um lenço. — Só vou te matar de
amor, fica calma. — Pego o lenço e não digo que a minha emoção é pela
ausência do meu pai.
Quando o padre pega as alianças, eu volto a me animar. Chegou a hora do
sim. Agora vou iniciar uma nova vida e vou viver intensamente cada segundo do
meu casamento.
— Samantha, você aceita Zander Saramago como o seu marido?
— Sim! — digo em alto e em bom som.
Ele desliza a aliança no meu dedo e depois beija o local. Quando ele ergue
os olhos, vejo o quanto está emocionado.
— Zander, você aceita Samantha como a sua esposa?
— Sim! — A voz dele tem um tom grave.
Pego a aliança e coloco rápido na mão do meu marido. Neste momento ele
já é meu marido, acabo de encoleirar Zander Saramago. Eu sou demais!
— Eu abençoo vocês, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Amém! — O padre faz uma pausa. — Pode beijar a noiva.
Acho que nesse momento o meu sorriso vai rasgar meu rosto. Casei! Não
acredito.
Quando Zander encosta os lábios nos meus, eu o abraço forte e peço mais.
Quero beijar esse homem por todo dia, pela vida toda. Ele rodeia a minha cintura
e me ergue do chão. Escuto uma salva de palmas, mas não paro de beijá-lo. Que
pena que teremos que participar da recepção, se dependesse de mim, já ia para a
lua de mel.
— Eu te amo sua doida. — ele diz quando se afasta.
— Eu sei que me ama. Eu te amo também. Você vai ter uma vida toda pra
me amar muito.
— Que Deus me ajude. — Ele olha para o alto, mas com um sorriso nos
lábios.
Os nossos padrinhos se aproximam e nos felicitam. Fico feliz em ver todos
unidos. Sei que o Zander não ficou plenamente feliz com a minha escolha de
chamar o Morales, mas ele não poderia ficar de fora, é uma pessoa importante na
minha vida.
Além de ter apostado em mim e me dado uma vaga de confiança na sua
empresa, ele me ajudou quando minha vida estava em risco.
— Você está linda. — Cris me abraça.
— Obrigada por sempre estar comigo, você é uma grande amiga.
— Sempre serei. — ela diz com emoção.
Os pais do Zander também me felicitam. A minha sogra elogia o meu
vestido e me diz que foi inovador a presença do Nap. Ela virou outra pessoa
desde o dia que salvei o filho de levar um tiro. Finalmente entendeu que o meu
amor é verdadeiro e que todo o dinheiro da família dela não me interessa em
nada.
Em breve, eu terei meu próprio patrimônio, vou trabalhar pesado para
construir um bom futuro para a minha família.
A minha mãe se joga sobre mim e me abraça aos prantos. Ela assim como
eu, está sofrendo por não ter meu pai aqui. Seria uma grande alegria se ele
pudesse presenciar este momento.
— Eu te amo muito filha. Quero toda a felicidade do mundo para você. —
Ela acaricia o meu rosto e me mata de emoção.
— Também te amo muito. — Estendo a mão para o meu irmão e ele segura
forte. — Sem vocês eu não seria ninguém. — Sinto a minha garganta fechar com
a emoção que me domina.
— Vê se não apronta na lua de mel. — Meu irmão solta essa pérola.
Que menino abusado. Onde ele aprendeu a ser tão atrevido?
— Sam, o Nap está agitado, acho que ele quer você. — Alex chama a
minha atenção e estende meu gato endiabrado que não para de miar.
— Ahh meu filhote, tá com saudades da mamãe?
“Miauuu”
Ele confirma quando vai para o meu colo e se enrosca em mim. Pobre Nap,
vai ter que aguentar a minha mãe enquanto eu estiver na lua de mel. Porque
Zander até pode aturá-lo durante o casamento, mas na nossa lua de mel sei que é
pedir demais. Não posso exigir tanto do meu marido.
— Não acredito que esse gato vai aparecer nas fotos do nosso casamento.
— Zander coça a cabeça dele. — Você é um intrometido Napoleon.
“Miau”
Nap solta um miado curto, como se estivesse tímido com a situação.
— Hora de partir para a nossa festa. — Meu marido apoia a minha mão na
curva do seu braço. — Pronta?
— Com você do meu lado, eu estou pronta para enfrentar o mundo. —
Coloco o Nap no chão e pego a fita que o prende, para não o deixar fugir.
— É assim que se fala, senhora Saramago. — Esse sem vergonha estava
louco para me chamar assim.
— Só não vamos demorar... marido. — Friso a última palavra quando
começamos a descer do altar. — Quero começar essa lua de mel logo. Tenho
planos sórdidos para você.
— Por Deus! Não diga isso na igreja. — ele resmunga enquanto passamos
pelas pessoas, que acenam sorridentes para nós.
— Eu ia te contar outra coisa, mas vou esperar chegarmos do lado de fora.
— Contar o quê?
— Vamos sair primeiro. — Zander não gosta da minha resposta, mas
termina de sair da igreja quieto.
— O que precisa contar? — ele questiona assim que alcançamos o lado
externo.
Fico insegura em revelar o que aprontei. Na verdade, pensei muito antes de
tomar essa atitude, não queria desrespeitar a casa do Senhor. Mas aí me lembrei
de como nasci e bem... nós chegamos nus ao mundo, não é mesmo? E eu estou
com esse vestido imenso, então...
— Abre o bico Samantha, o que tem para me contar? — Respiro fundo e
me preparo para o ataque dele.
— Estou só com o vestido. — digo baixinho.
— Não entendi. — Que homem lento.
— Estou nua por debaixo deste vestido. — Prendo a respiração esperando a
sua explosão.
— SAMANTHA! — ele grita e faz o Nap se arrepiar.
Opa! Pelo olhar arregalado dele não tomei a melhor atitude. Mas o que seria
do nosso casamento se eu fosse certinha? Não é porque me casei que eu tenho
que me comportar.
Concordam?
EPÍLOGO

Cinco anos depois

Zander

Eu nunca pensei como seria difícil ser um pai de família, mas cuidar de
duas crianças não é nada simples.
Quando Samantha engravidou, eu previ que ela teria uma menina, o que
não contávamos era que seriam duas. Isso mesmo. Acabamos tendo gêmeas e
foram duas garotas lindas que chegaram em nossas vidas.
Na época Sam quase pariu as meninas antes do tempo, quando descobrimos
no meio da gestação que havia mais um bebê para chegar. Ela deu um surto e
disse que não seria capaz de cuidar de duas crianças.
Confesso que interiormente fiquei com medo, mas fingi que tudo estava sob
controle para não a assustar. Na verdade, até que conseguimos nos virar bem
quando as meninas chegaram, foi uma mudança radical na nossa rotina, mas a
felicidade de tê-las em nossas vidas tornou todas as dificuldades insignificantes.
O problema de verdade veio quando elas começaram a falar. Meu Deus...
como falam.
Elas são a cópia fiel da mãe em tudo, desde o temperamento explosivo, até
os lindos cabelos castanhos ondulados e a mania irritante de arrebitar o nariz
quando estão contrariadas. A única coisa que puxaram de mim são os olhos,
ambas têm o mesmo tom de azul do meu. Fora isso, nem parecem que participei
da geração delas.
Samantha não aceitou colocar o nome de Jasmim em nenhuma delas. Na
cabeça maluca da minha esposa, esse nome é de alguma ex-namorada, por isso
decidimos escolher os nomes juntos. Ela optou por Isadora e eu Estela.
— Pai, será que a Milie vai gostar da nova cama? — Estela pergunta
enquanto saímos do elevador.
— Claro que vai filha.
— Dessa vez ela não vai rasgar a caminha, né pai? — Isadora, ergue a
cabeça esperando minha resposta.
— Eu espero que não. — Sorrio ao lembrar da gatinha destruindo a cama
que Sam comprou. — Se ela aprontar dessa vez, eu acho que sua mãe vai
colocá-la pra dormir na dispensa.
— Tadinha. — Isadora sorri. — O Nap empresta a cama dele.
— Aquele terrorista não divide nada. — Abro a porta e as duas entram
correndo.
— Mãe, olha o que o papai comprou. — Estela grita e sai procurando a
gatinha pela sala. — Cadê a Milie, pai?
— Não sei, filha.
— Tá dormindo. — Isadora fala.
— Por que estão gritando? Eu estava tirando um cochilo. — Sam aparece
com o rosto amassado.
— O que está acontecendo? Você anda dormindo tanto. — Beijo a minha
amada esposa.
Como amo essa mulher, eu sou um eterno apaixonado por ela. Às vezes,
durante o trabalho, sinto necessidade de ouvir a sua voz. Em algumas ocasiões,
eu fico pensativo, alheio a tudo, apenas relembrando dos momentos que passo ao
lado dela.
Nunca vou cansar de esperar o instante de chegar em casa para vê-la e ouvir
minhas meninas faladeiras me deixando louco.
— Por que Estela está gritando?
— Olha, mãe! — Isadora mostra a cama. — Papai comprou pra Milie.
— Para ela rasgar de novo? Não acredito que gastou dinheiro, Zander.
— As meninas queriam dar uma cama nova.
— Elas não têm de querer. Você tem que aprender a dizer não.
— É só uma cama, amor. — Milie entra na sala toda alegre e para quando
Isadora coloca a cama no chão.
A outra cama ela rasgou completamente na unha. Milie ainda é uma gatinha
jovem e adora destruir tudo com a sua unha afiada. Nós a resgatamos da rua, em
dia de chuva. Mal sabíamos que estávamos levando para casa mais um terrorista.
Essa gata apronta todas, nem Napoleon dá conta dela.
— Vem Milie, deita. — Estela se aproxima e segura ela. — Sua cama.
A movimentação chama a atenção do rabugento Napoleon, ele aparece
vindo do quarto das meninas e nos olha com desinteresse. O tempo deixou Nap
ainda mais insuportável e a chegada da Milie causou ciúmes no bichano. Foi
uma luta fazê-lo aceitá-la, a pobrezinha sofreu com ele, mas depois tudo ficou na
paz.
Milie sobe na cama e começa a cheirar tudo. As meninas sorriem muito
felizes com a curiosidade dela. A gatinha se vira e fica de barriga para cima, e
começa a mexer as patinhas chamando as garotas para brincar.
Antes de conhecer a Sam eu não me imaginava com um animal de
estimação zanzando pela minha casa, mas agora eu não me vejo sem essas
pestinhas me irritando com todas as suas armações.
— Vamos esperar para ver quanto tempo Milie dura com a cama nova. —
Sam diz com um meio sorriso. — Nap na idade dela não me dava esse trabalho.
— Ela para e fica reflexiva. — Na verdade ele destruía as almofadas, as cortinas
e o papel higiênico. Mas quando se tratava das coisas dele, sempre foi muito
responsável.
“Miau”
Ele se manifesta como se concordasse com a dona. Napoleon só falta falar,
nunca vi um gato tão inteligente quanto ele.
— Meninas levem a cama da Milie para o quarto de vocês e depois sigam
para o banho. Daqui a pouco é a hora do jantar e eu quero conversar com vocês
três.
— Tá bom, mãe. — Isadora pega a Milie e corre para o quarto, seguida da
irmã que carrega a cama.
Nunca vou entender essa pressa que elas têm, só andam correndo e,
consequentemente, caindo.
— Conversar? Posso saber o que é? — Ela acaba de me deixar curioso.
— Você vai saber em breve. — Sam se aproxima e passa os braços pela
minha cintura. — Precisa deixar de ser curioso.
— Não consigo. — Rodeio os braços ao redor dela e dou um beijo delicado
nos seus lábios. — Já disse que te amo, hoje? — Ela finge pensar. — Disse
quando interrompeu a reunião com o meu chefe.
— Morales pode esperar, ele também sente necessidade de dizer que ama
Gaia.
É isso mesmo que ouviram. Morales agora é meu cunhado e isso é tão
fodido que não gosto muito de pensar que aquele bode velho faz parte da minha
família. Mas a cada vez que vejo o sorriso feliz da minha irmã quando fala do
amor do marido, esqueço todas as desavenças que tivemos e aceito o cretino em
nossas vidas.
— Ainda bem que ele é tão apaixonado como você, caso contrário eu
estaria perdida.
— Ai dele não ser apaixonado pela minha irmã. Mato aquele imbecil.
— Vocês nunca se darão bem?
— Eu me dou bem com ele, somos padrinhos do filho dele. Até deixo o
infeliz passar o Natal conosco. — Sam sorri.
— Zander você não muda. — Ela me abraça forte e descansa a cabeça no
meu peito. — Dá banho nas meninas, eu vou pra cozinha.
— O que a chef vai fazer para o jantar?
— Surpresa. — Ela se afasta e me deixa com a árdua missão de colocar as
garotas no banho.
Já vou me preparar para tomar meu banho também, porque é impossível
entrar no banheiro com elas sem sair completamente ensopado.


Samantha

Quando eu tive as meninas, foi um grande choque. Nunca imaginei que
poderia engravidar de gêmeos, sequer sabia se teria condições de cuidar de duas
crianças.
Por sorte Zander foi muito calmo e me deu todo o apoio necessário durante
a minha gravidez. Assim que elas nasceram, de um parto normal cansativo, jurei
que nunca mais teria outro bebê. Fiquei firme com esse pensamento até poucos
meses, só que comecei a ver o filhinho fofo da minha cunhada e me deu uma
vontade de ter um menino.
Tudo bem que pode vir outra menina, mas não custa tentar. Sei que o sonho
do meu marido é tentar um garoto e, agora, o sonho dele pode se tornar real.
Hoje descobri que estou grávida de cinco semanas, isso me esclareceu o
sono extremo. Comecei a desconfiar da gravidez justamente por causa da minha
indisposição. A cada dia que eu precisava acordar cedo para trabalhar, era um
drama. Como eu havia parado de tomar o anticoncepcional, corri para fazer o
exame e acabar com todas as dúvidas.
E não deu outra, em breve, a família vai crescer. Espero que desta vez
venha um garoto tão lindo e charmoso como o pai. Meu pobre marido merece
essa alegria, sei o quanto sofre com nossas meninas falantes.
Confesso que eu falo muito, mas nada se compara as garotas. Jesus! Às
vezes, nem eu consigo aguentar o falatório delas. Apesar do Zander afirmar que
elas me puxaram, eu sei que na verdade puxou a minha mãe. Porque ninguém
bate a dona Noelli quando começa a falar.
E por falar na minha mãe, ela está de namorico com um dos professores do
Maicon. Meu irmão se tornou um estudante de Medicina aplicado e ganhou a
simpatia de um dos professores. O homem acabou indo parar na casa da minha
mãe em um almoço e o inesperado aconteceu. A mamãe gostou do homem e, de
acordo com ela, estão se conhecendo.
Parece até piada ouvi-la declarar que está conhecendo alguém, mas ao que
tudo indica, em breve teremos um novo casamento. A minha mãe está
apaixonada e isso me deixa feliz. Ela precisava recomeçar. Merece isso depois
de sofrer a perda súbita do meu pai. Sei que ela vai amá-lo eternamente, mas isso
não impede que reconstrua uma nova vida e abra o coração.
Graças a Deus a vida de todos nós ganhou um rumo feliz. Cristina também
está de namorico, com um viúvo que foi morar na vila onde mora. Até que enfim
ela saiu da seca, a minha amiga merece ser feliz.
Até mesmo Vanessa encontrou um amor. A cobra se casou meses atrás, com
um americano, depois de cumprir a pena por tentativa de homicídio. Agora ela
está morando em Miami e nos deixou em paz.
— Esse jantar saiu? Tenho duas meninas cheirosas e famintas. — O meu
marido lindo aparece com as nossas filhas no colo.
Daqui a pouco ele não vai mais conseguir fazer isso, porque elas estão
crescendo rápido, mas um novo integrante na família está chegando para não
deixar o Zander muito saudoso.
— Sente-se. — Beijo minhas garotas e começo a colocar a mesa.
Isadora começa a falar dos desenhos que fez na escola. Ela e a irmã
monopolizam a conversa como de costume e só param quando começam a
comer.
Olho a minha família ao redor da mesa e sinto uma profunda emoção. No
dia que entrei na sala do Zander para tentar uma vaga de emprego, nunca
imaginei o quanto a minha vida mudaria.
Não consigo imaginar viver longe dele, meu marido virou uma extensão de
mim. Nós nos completamos em tudo e, apesar de às vezes eu enlouquecê-lo com
as minhas loucuras, sei que ama as minhas armações.
— Família, eu preciso da atenção de vocês. — Três pares de olhos azuis
caem sobre mim.
Meu Deus! Acabo de ficar nervosa.
— Tem toda a nossa atenção. — Zander diz demonstrando o quanto está
curioso. — O que você quer conversar conosco?
Tento controlar os batimentos do meu coração, estou receosa com a reação
das meninas. Elas nunca pediram um irmão, então não sei como receberão a
notícia.
— Eu... — Travo sem saber como falar.
— Sem suspense Samantha, odeio isso. — Como é chato. Essa parte nunca
vai mudar.
— Estou grávida, em breve nossa família vai aumentar.
Espero a reação deles, mas os três apenas me olham. Fico ainda mais
nervosa. Acho que não gostaram da notícia.
— Grávida? — Zander pergunta parecendo em choque.
— Tem um irmão na sua barriga, mãe? — Isadora pergunta.
— Pode ser uma irmã, filha, ainda não sabemos. — Tento segurar a
emoção.
— Eu vou ser a irmã mais velha. — Estela diz e se aproxima. — Oi irmão,
sou a sua irmã, vou te ensinar a fazer boneco de areia na praia. — Ela cochicha
para a minha barriga e as lágrimas que tento segurar começam a cair.
— Ele vai amar aprender, filha.
— Mãe, ele vai dormir no nosso quarto? — Isa pergunta.
— Não sei filha, talvez tenhamos que mudar para um lugar maior.
— Pensaremos na mudança depois. — Zander segura a minha mão me
fazendo levantar. — Você ainda vai me matar com essas revelações inesperadas.
Um filho? Vamos ter outro bebê? Está falando sério?
— Ele já tem cinco semanas. Estou falando muito sério.
— Eu vou explodir de felicidade. — Ele segura o meu rosto e me beija, mas
rapidamente as meninas começam a bater nele.
— Larga a mamãe, pai. — elas dizem ao mesmo tempo. As duas morrem de
ciúme quando ele me beija.
— Larguei, só estou feliz, finalmente teremos mais um homem nesta casa.
— Homem? — questiono.
— É homem, eu tenho certeza. — Ele afirma da mesma maneira que fez
quando engravidei das meninas.
— Não vou discutir com você, sei que é capaz de acertar, só espero que seja
um, porque não aguento outro casal de gêmeos. — Zander sorri.
— Dessa vez é só um menino, não precisa se preocupar e será igual a mim.
— Quem te garante isso?
— Eu garanto, sei do que falo. — Com essa declaração ele me beija e,
dessa vez, nem os gritos das meninas interrompem o nosso momento.
É muita felicidade para extravasar e nada melhor do que um beijo
apaixonado, do homem que tem completamente o meu coração.
Ninguém diria que ficaríamos juntos, muito menos que formaríamos uma
família linda, mas o destino tinha planos para nós e eu sou extremamente grata
por ter encontrado esse chato.

Nota da autora: Zander acertou novamente. Realmente foi um menino e se
chamou Antônio, em homenagem ao pai da Samantha.

Fim

LIVRO FÍSICO EM BREVE PELA
EDITORA ALLBOOK.


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Table of Contents
SINOPSE
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
CAPÍTULO 27
CAPÍTULO 28
CAPÍTULO 29
CAPÍTULO 30
CAPÍTULO 31
CAPÍTULO 32
CAPÍTULO 33
CAPÍTULO 34
CAPÍTULO 35
CAPÍTULO 36
CAPÍTULO 37
CAPÍTULO 38
CAPÍTULO 39
CAPÍTULO 40
EPÍLOGO
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