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17/09/2020 As Quatro Incomensuráveis nas Escolas Hinayana, Mahayana e Bon — Study Buddhism

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As Quatro Incomensuráveis nas Escolas


Hinayana, Mahayana e Bon
Dr. Alexander Berzin

Introdução
As quatro atitudes incomensurá veis (tshad-med bzhi, sct. apramana, pali: appamanna) sã o:

· amor incomensurá vel (byams-pa, sct. maitri, pali: metta)

· compaixã o incomensurá vel (snying-rje, sct: karuna, pali: karuna)

· alegria incomensurá vel (dga'-ba, sct: mudita, pali: mudita)

· equanimidade incomensurá vel (btang-snyoms, sct: upeksha, pali: upekkha).

Essas quatro atitudes també m sã o chamadas de “as quatro moradas de Brahma” (tshangs-gnas
bzhi, sct. brahmavihara, pali: brahmavihara) e sã o encontradas nas vá rias tradiçõ es Hinayana e
Mahayana do budismo, assim como na tradiçã o Bon. As diversas escolas e textos as interpretam de
formas ligeiramente diferentes e algumas prá ticas de determinadas tradiçõ es trocam sua ordem.

A Tradição Theravada do Hinayana


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Dentre as dezoito escolas do Hinayana, a tradiçã o Theravada deriva sua prá tica das quatro atitudes
incomensurá veis do “Sutra das Moradas de Brahma” (Pali: Brahmavihara Sutta), encontrado em “A
Coleção de Divisões Progressivas” (pali: Anguttara Nikaya). Nele, o Buda especi ica que todas as
quatro atitudes sã o livres de apego, aversã o e indiferença e acompanhadas de presença mental e
vigilâ ncia. O Caminho da Libertação, escrito por Upatissa no sé culo I (pali: Vimuttimagga), O
Caminho da Puri icação, escrito por Buddhaghosa no inı́cio do sé culo V (pali: Visuddhimagga) e O
Texto que a Tudo Inclui sobre os Pontos dos Tópicos Especiais do Conhecimento, escrito por
Anuruddha no sé culo IX (pali: Abhidhammattha-sangaha) conté m explicaçõ es completas sobre sua
prá tica.

As quatro atitudes incomensurá veis sã o chamadas “moradas de Brahma”, pois os quatro reinos de
Brahma do plano das formas eté reas (reino das formas) correspondem à s quatro atitudes
incomensurá veis e aos quatro nı́veis de estabilidade mental (bsam-gtan, sct. dhyana, pali: jhana). Os
deuses Brahma do primeiro reino de Brahma tê m amor incomensurá vel; os do segundo reino tê m
compaixã o incomensurá vel; os do terceiro, alegria incomensurá vel; e os do quarto, equanimidade
incomensurá vel. Da mesma forma, praticantes do primeiro nı́vel de estabilidade mental tê m a
concentraçã o de absorçã o no amor incomensurá vel; praticantes do segundo nı́vel a tê m na
compaixã o incomensurá vel, e assim por diante. Como a palavra Brahma signi ica puro, excelente,
ou sublime, os praticantes que desenvolvem essas atitudes incomensurá veis vivem com estados
mentais puros e sublimes, como os deuses Brahma. E ainda, as moradas de Brahma sã o chamadas
atitudes “incomensurá veis” porque incluem todos os seres limitados (seres sencientes) em todas as
condiçõ es, e cada atitude nã o tem limites em sua intensidade.

As quatro atitudes incomensurá veis estã o incluı́das na lista Theravada dos 52 fatores mentais. Na
explicaçã o de Anuruddha, para esses fatores mentais, duas das quatro atitudes estã o especi icadas
como fatores ilimitados, pois seus objetos sã o seres in initos:

· Compaixão – é o fator que faz o coraçã o tremer quando os outros sofrem e é o desejo de que
o sofrimento seja removido. O inimigo direto da compaixã o é a atitude cruel ou prejudicial
(pali: himsa). O inimigo indireto é o pesar, icar emocionalmente arrebatado pelo sofrimento
alheio.

· Alegria Empática ou Alegria – é o fator de icar feliz com a prosperidade alheia. O inimigo
direto disso é a inveja e o inimigo indireto é a exultaçã o, icar tã o animado com a
prosperidade alheia que seu estado mental ica perturbado.

As formas bá sicas, e nã o as formas incomensurá veis, das duas outras atitudes estã o incluı́das na
lista dos dezenove fatores que acompanham todos os estados mentais construtivos:

· Amor – o desejo de que os outros sejam felizes, que está incluı́do na nã o-raiva (pali: adosa;
imperturbabilidade). Seu inimigo direto é o apego, chegar perto demais.

· Equanimidade – o fator de ter serenidade frete ao seu objeto, o que inclui ter uma mente
imperturbá vel (Pali: tatra majjhattata). Seu inimigo direto é o apego (Pali: raga) e seu inimigo
indireto é a indiferença.

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A explicaçã o de Buddhaghosa sobre a equanimidade incomensurá vel traz mais clareza em relaçã o
a este estado mental. A funçã o da equanimidade incomensurá vel é vermos a igualdade de todos os
seres. Caracterizada como uma atitude imperturbá vel em relaçã o a todos os seres, ela se manifesta
como uma diminuiçã o do apego e da animosidade em relaçã o aos outros. Ela falha quando se
manifesta como indiferença. Sua causa é o entendimento de que todo ser limitado é responsá vel
por seu pró prio karma.

A meditaçã o sobre essas quatro atitudes inclui gerar cada estado mental, um de cada vez, primeiro
dirigido-o a si mesmo, e depois à mã e, ao pai, à famı́lia, aos estranhos, inimigos, aos compatriotas, e
assim por diante, até que o sentimento alcance todos os seres limitados. Depois de fazer esta
sequê ncia com a primeira atitude incomensurá vel, geramos a pró xima, e a estendemos aos outros
da mesma forma. As atitudes sã o:

· Desejar o bem a todos os seres limitados.

· Desejar que seu sofrimento seja removido.

· Alegrar-se com o seu bem estar e seus esforços para serem construtivos e trabalhar para a
libertaçã o.

· Ser imperturbá vel em relaçã o aos outros, no sentido de icarmos calmos quando os ajudamos,
nã o nos envolvendo demais nem sendo indiferentes, já que, em ú ltima instâ ncia, todos
precisamos alcançar a libertaçã o atravé s de nosso pró prio esforço.

Como preliminar para desenvolver o amor incomensurá vel, Upatissa explica que primeiro é
necessá rio pensar nas desvantagens da raiva e do ressentimento, que sã o os estados mentais
negativos que impedem o amor, e meditar para superá -los e desenvolver paciê ncia. Depois,
geramos amor, que é a aspiraçã o de que nó s mesmos e os outros sejam felizes. Buddhaghosa
elabora esta aspiraçã o de amor para que inclua a aspiraçã o de que nó s e os outros estejamos livres
da infelicidade: que sejamos felizes e nã o infelizes. Buddhaghosa també m oferece uma versã o mais
extensa dessa aspriraçã o, listando trê s estados mentais de infelicidade que impedem o amor e a
felicidade: que estejamos livres de inimizade (livrando-nos da animosidade e da hostilidade), de
agressã o (livrando-nos da irritabilidade) e de ansiedade (livrando-nos do medo), e que vivamos
felizes.

As Tradições Vaibhashika e Sautrantika do Hinayana


As tradiçõ es Vaibhashika e Sautrantika da escola Sarvastivada do Hinayana compartilham o texto
Comentário sobre “Um Tesouro de tópicos Especiais do Conhecimento” (Chos-mngon-pa'i mdzod-kyi
rang-'grel, sct. Abhidharmakosha-bhashya) escrito por Vasubandhu no sé culo IV ou V, como fonte
para a apresentaçã o das quatro atitudes incomensurá veis. As tradiçõ es budistas tibetanas també m
compartilham esse texto, como uma de suas fontes.

Vasubandhu aceita a explicaçã o Theravada de que as quatro atitudes sã o incomensurá veis porque
querem alcançar um nú mero incomensurá vel de seres limitados. Apesar de anteriores a
Buddhaghosa e Anuruddha, as explicaçõ es de Vasubandhu estã o de acordo com as desses dois
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mestres:

· O amor é o oposto da animosidade.

· A compaixã o é o oposto de uma atitude cruel ou prejudicial.

· A alegria é o oposto da falta de alegria.

· A equanimidade é o oposto (1) do desejo por pessoas ou objetos do plano de desejos


sensoriais (plano do desejo) e (2) da animosidade.

A falta de alegria signi ica nã o alegrar-se com a felicidade e realizaçõ es construtivas dos outros, o
que també m é uma caracterı́stica da inveja. Vasubandhu comenta que nã o aceita a a irmaçã o
Vaibhashika de que a equanimidade é o oposto do desejo por relaçõ es sexuais, mas aceita a
a irmaçã o Sautrantika de que se trata do oposto do anseio pelo pró prio pai, pela mã e, pelos ilhos,
e outros entes pró ximos. Equanimidade é també m o oposto de animosidade, pois a animosidade
em relaçã o a alguns seres é gerada por desejo por outros.

Vasubandhu explica isso melhor:

· Tanto o amor quanto a compaixã o tê m a natureza (rang-bzhin) da nã o-raiva (zhe-sdang med-
pa, sct: advesha; imperturbabilidade), o que Anuruddha concorda quanto ao amor.

· A alegria tem a natureza funcional da felicidade mental (yid bde-ba).

· A equanimidade tem a natureza/identidade (bdag-nyid) do nã o apego (ma-chags-pa;


desapego).

Os quatro nı́veis de estabilidade mental (bsam-gtan), assim como os quatro reinos de Brahma, sã o
livres de raiva. No entanto, este tipo de simetria falta na explicaçã o de Vasubandhu sobre a alegria
como sendo felicidade mental. Embora a alegria, como terceira atitude incomensurá vel, esteja
correlacionada com o terceiro nı́vel de estabilidade mental, este nı́vel mental está isento de
felicidade mental, assim como o terceiro nı́vel de Brahma. Seres nesses estados tê m apenas a
alegria calma da paz mental.

Vasubandhu també m explica os aspectos de pensamento que cada uma das atitudes
incomensurá veis gera enquanto pensamos nesses seres limitados, que experimentam a felicidade e
a dor fı́sicas e a felicidade mental. Esses seres limitados sã o exclusivamente os renascidos
atualmente no plano dos desejos sensoriais (no reino do desejo). Os renascidos atualmente nos
planos das formas eté reas (reino das formas) e dos seres sem formas (reino sem forma) nã o tê m
experiê ncias de dor; aqueles no segundo reino de Brahma e acima nã o tê m experiê ncias de
felicidade fı́sica; enquanto os que estã o no terceiro reino de Brahma e acima nã o tê m experiê ncias
de felicidade mental.

· O amor presta atençã o nesses seres limitados pensando: “Que todos os seres limitados
tenham felicidade fı́sica.”

A compaixã o presta atençã o pensando: “Que os seres limitados nã o sofram (dor).”
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A alegria presta atençã o pensando: “Que todos os seres limitados tenham felicidade mental.”
·
· A equanimidade presta atençã o pensando: “Os seres limitados sã o iguais”. (mnyam-pa)."

No que diz respeito à alegria incomensurá vel, Vasubandhu difere consideravelmente da


apresentaçã o Theravada. Ao invé s da alegria ser apenas o estado mental de regozijo, que se alegra
em relaçã o a qualquer alegria que os outros tenham, trata-se do estado mental que també m deseja
que outros tenham felicidade mental (alegria).

Vasubandhu també m indica como desenvolver as atitudes incomensurá veis. Para desenvolver amor
incomensurá vel, pensamos que, assim como eu tive breves experiê ncias de felicidade e os budas,
bodisattvas, aryas e arhats alcançaram uma felicidade mais está vel, que todos os seres limitados
alcancem a felicidade. Pensando desta forma, imaginamos que os seres limitados sã o felizes. Se nã o
conseguirmos, por termos muitas a liçõ es mentais (emoçõ es e atitudes perturbadoras), é possı́vel
fazer isso em etapas. Podemos dividir nossos amigos em trê s categorias de proximidade. Primeiro
dirigimos a aspiraçã o de felicidade para aqueles que sã o muito pró ximos, depois para aqueles que
sã o meio pró ximos, e inalmente aqueles que sã o apenas um pouco pró ximos. Quando o
sentimento de amor se tornar igual para todos os trê s grupos, dirigimos a aspiraçã o de felicidade
para pessoas com quem temos uma relaçã o comum, depois aquelas com quem temos uma leve
inimizade, depois uma inimizade mé dia, e inalmente uma grande inimizade. Quando sentirmos a
mesma intensidade de amor em relaçã o ao nosso amigo mais querido e nosso maior inimigo,
podemos estender o amor em etapas para pessoas em nosso bairro, nossa cidade, nosso distrito,
paı́s, e depois o mundo inteiro.

Vasubandhu també m explica que aqueles que sã o capazes de perceber boas qualidades em todos
os seres sã o capazes de rapidamente desenvolver o amor incomensurá vel. Eles percebem que a
presença ou ausê ncia de boas qualidades em um determinado momento é devido ao
amadurecimento dos resultados ká rmicos positivos ou negativos.

Desenvolvemos compaixã o e alegria incomensurá veis atravé s da mesma sequê ncia que izemos
com o amor incomensurá vel. Para a compaixã o incomensurá vel, pensamos: “Os seres limitados
estã o afundados no rio dos muitos tipos de sofrimento. Como seria maravilhoso se eles se
livrassem rapidamente de seu sofrimento!” Para a alegria incomensurá vel, pensamos: Como seria
maravilhoso se eles també m icassem alegres!” Vasubandhu nã o especi ica o pensamento para
desenvolver a equanimidade incomensurá vel, mas menciona que começamos a sequê ncia
estendendo a equanimidade incomensurá vel para pessoas com quem mantemos uma relaçã o
comum. Ele també m menciona que apenas os humanos podem desenvolver as quatro atitudes
incomensurá veis.

A Tradição Mahayana
Dentro da tradiçã o Mahayana, as quatro atitudes incomensurá veis sã o mencionadas em muitos
sutras, como:

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O Sutra do Lótus Branco do Dharma Sagrado (Dam-pa'i chos pad-ma dkar-po zhes-bya-ba theg-
·
pa chen-po'i mdo, sct: Saddharmapundarika-nama Mahayana Sutra; O Sutra do Lótus)

· O Sutra da Grande Libertação Final de todos os Sofrimentos (Yongs-su mya-ngan-las 'das-pa chen-
po'i mdo, sct: Mahaparinirvana Sutra).

A tradiçã o Nichiren do budismo japonê s interpreta amor, compaixã o e alegria incomensurá veis,
meramente mencionados no Sutra do Lótus, de forma parecida com a encontrada na apresentaçã o
Theravada. Portanto, a alegria incomensurá vel, por exemplo, é a atitude de se alegrar quando os
seres limitados sã o felizes. A equanimidade incomensurá vel, no entanto, é explicada como a atitude
imperturbá vel em relaçã o à felicidade e infelicidade, à dor e ao prazer, em todas as circunstâ ncias,
como quando encontramos amigos ou inimigos. Trata-se de um estado de completa tranquilidade.
Alé m disso, a equanimidade incomensurá vel é o estado mental livre das atitudes de amor,
compaixã o e alegria incomensurá veis. E estar consciente dos outros de uma forma que nã o
sentimos felicidade nem infelicidade, e també m nã o sentimos atraçã o nem repulsã o. Assim sendo, a
equanimidade incomensurá vel é paralela ao quarto nı́vel de estabilidade mental, no qual estamos
livres de todos os sentimentos de infelicidade, de felicidade fı́sica e mental e da alegria tranquila da
paz mental.

Outro sutra Mahayana, O Sutra Ensinado pelo Arya Akshayamati (Blo-gros mi-zad-pas bstan-pa'i mdo,
sct: Arya Akshayamati-nirdesha Sutra), conté m uma explicaçã o sobre os resultado em vidas futuras
do desenvolvimento das quatro atitudes incomensurá veis na meditaçã o. Parecem consistentes com
a interpretaçã o abaixo do Sutra do Lótus:

· Ao desenvolvermos grande amor – renascemos livres de dor.

· Ao desenvolvermos grande compaixã o – renascemos com as raı́zes de virtude está veis.

· Ao desenvolvermos grande alegria – renascemos possuindo felicidade fı́sica, uma crença irme
na verdade e uma suprema alegria mental.

· Ao desenvolvermos grande equanimidade – renascemos com uma mente que nã o se agita com
a felicidade ou infelicidade.

Aqui, as atitudes mencionadas sã o “grande” amor, “grande” compaixã o, e assim por diante. Nã o ica
claro se as “grandes” formas e as formas “incomensurá veis” sã o equivalentes. Ainda assim,
juntando os resultados mencionados acima com os estados inimigos da mente, especi icados por
Vasubandhu (nã o obstante que Vasubandhu de ina a alegria incomensurá vel de forma diferente),
podemos talvez entender esses resultados da seguinte forma:

· O amor derrota seu inimigo: a animosidade e o ó dio. Assim, no que diz respeito ao resultado
dessas causas em nossa experiê ncia (myong-ba rgyu-mthun-gyi 'bras-bu), nã o desejar mal aos
outros tem como resultado nã o sofrer mal.

· A compaixã o derrota seu inimigo: uma atitude cruel ou prejudicial. O ó dio e a raiva, ou o
desejo de cometer uma violê ncia contra algué m de quem nã o gostamos, destró i as raı́zes de
nossa força construtiva (dge-rtsa, raı́zes da virtude) e faz com que seu amadurecimento se
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atrase e seja muito mais fraco. Portanto, desejar que os outros iquem livres do sofrimento, ao
invé s de desejar que sofram, faz com que essas raı́zes de virtude iquem está veis em nosso
continuum mental.

· Alegrar-se com as boas qualidades, com as realizaçõ es no Dharma e com a felicidade alheia,
derrota o inimigo da alegria: a inveja ou o nã o alegrar-se com as boas qualidades alheias e
assim por diante. Portanto, no que diz respeito ao resultado dessas causas em nosso
comportamento (byed-pa rgyu-mthun-gyi 'bras-bu), reconhecer as verdadeiras qualidades
alheias e alegrar-se com elas resulta em uma crença irme naquilo que é verdadeiro, já
alegrar-se pela felicidade alheia resulta em felicidade mental e fı́sica.

· A equanimidade supera seus inimigos: o apego, o desejo e a animosidade. E um sentimento


neutro em relaçã o a todos os outros. Portanto, o resultado dessas causas em nosso
comportamento é nã o nos agitarmos com sentimentos de felicidade ou infelicidade.

Os Textos Indianos Mahayana de Maitreya e Asanga


A Estabilidade Mental e a Consciência Discriminativa Necessárias para que
as Quatro Atitudes Sejam Incomensuráveis
As quatro atitudes incomensurá veis també m aparecem nos textos indianos Mahayana, como em
Uma Filigrana de Realizações (mNgon-rtogs rgyan, sct. Abhisamayalamkara), um comentá rio do
futuro Buda, Maitreya, sobre os Sutras Prajnaparamita (Pha-rol-tu phyin-pa'i mdo; Sutras sobre a
Consciência Discriminadora de Vasto Alcance, A Perfeição dos Sutras da Sabedoria). Nesse texto,
cultivar as quatro atitudes aparece como uma das nove prá ticas nas quais os bodhisattvas ('jug-
sgrub) se engajam a im de alcançar a consciê ncia onisciente (rnam-mkhyen, onisciê ncia) de um
Buda. Portanto, cultivamos as quatro atitudes incomensurá veis depois de desenvolver o ideal de
bodhichitta, que é alcançar a iluminaçã o para o benefı́cio de todos.

De acordo com Maitreya, embora seja possı́vel alcançarmos essas quatro atitudes com uma mente
que ainda está na esfera do plano dos desejos sensoriais, as atitudes desenvolvidas com esta mente
nã o sã o “incomensurá veis”. As formas incomensurá veis sã o apenas as alcançadas com uma mente
que atingiu o estado efetivo (dngos-gzhi) de um dos quatro nı́veis de estabilidade mental.

Em Um Rosário Dourado de Explicações Excelentes (Legs-bshad gser-phreng), um comentá rio sobre


Uma Filigrana de Realizações, o fundador da escola Gelug do inı́cio do sé culo XIV, Tsongkhapa
(Tsong-kha-pa Blo-bzang grags-pa), explica que bodhisattvas precisam praticar as quatro atitudes
incomensurá veis em conjunto com todas as seis atitudes de amplo alcance (pha-rol-tu phyin-pa, sct.
paramita, perfeiçõ es), e nã o apenas com um nı́vel de estabilidade mental. Em especial, os
bodhisattvas precisam fazer pleno uso de seu entendimento da natureza de todos os fenô menos,
aplicando-o em benefı́cio dos outros seres atravé s das quatro atitudes. Uma vez que o apego
(mngon-zhen) a formas impossı́veis de existê ncia é o principal obstá culo para bene iciar os outros
é preciso, sobretudo, desenvolver as quatro atitudes incomensurá veis com a consciê ncia
discriminativa de amplo alcance (a perfeiçã o da sabedoria). Em outras palavras, as quatro atitudes
tê m de ser desenvolvidas sem um alvo de referê ncia (dmigs-med, sem objetivo) a um modo

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impossı́vel de existê ncia da açã o de aspirar, do que se aspira que ocorra e do meditador que está
aspirando. “Sem um alvo de referê ncia” signi ica sem focar nos trê s cı́rculos (‘khor-gsum) da açã o
de aspirar – a açã o em si, o objeto, e o agente – que existem de uma forma impossı́vel, e sã o aquilo
que está implicado na atitude incomensurá vel ou aquilo a que ela se refere.

Quando nã o é acompanhada pelas seis atitudes de amplo alcance, a prá tica das quatro
incomensurá veis age meramente como causa para um renascimento como um deus Brahma em um
dos quatro reinos de formas eté reas. Portanto, o mestre Gelug do im do sé culo XVIII, Detri (sDe-
khri 'Jam-dbyangs thub-bstan nyi-ma), em sua Apresentação do Estágio de Geração do Glorioso
Kalachakra (dPal-dus-kyi ‘khor-lo’i bskyed-rim-gyi rnam-bzhag ‘jam-dpal zhal-lung), explica que
"tshangs-pa" (sct. brahma) pode signi icar deuses Brahma ou nirvana, já que ambos sã o puros,
excelentes e sublimes; enquanto "gnas" (sct. vihara, morada) també m pode signi icar uma causa.
“Nirvana", aqui, signi ica o estado iluminado de um buda.

Condições para Desenvolvermos as Quatro Atitudes Incomensuráveis


Citando Maitreya em seu Filigrana para os Sutras Mahayana (Theg-pa chen-po'i mdo-sde rgyan, sct.
Mahayanasutra-alamkara), Tsongkhapa continua, no mesmo comentá rio, a explicar as condiçõ es
necessá rias para desenvolvermos as quatro atitudes incomensurá veis, como a compaixã o
incomensurá vel, por exemplo. A explicaçã o está de acordo com as teorias do sistema de princı́pios
Chittamatra seguido no texto de Maitreya.

· As condiçõ es causais (rgyu'i rkyen) – sã o as sementes para as quatro atitudes, nã o estã o
associadas com confusã o (zag-med-kyi sa-bon) e sã o imputá veis na consciê ncia base que a
tudo engloba (kun-gzhi rnam-shes, sct. alayavijnana; consciê ncia depó sito). Essas sementes sã o
aspectos dos traços da famı́lia que permanece naturalmente (rang-bzhin gnas-rigs; natureza
bú dica que permanece). Em outras palavras, as tendê ncias que permitem o desenvolvimento
das quatro atitudes incomensurá veis estã o presentes em todos os seres limitados, como
aspectos de suas naturezas bú dicas.

· A condiçã o dominante (bdag-po'i rkyen) para o desenvolvimento das quatro atitudes é a


inspiraçã o e a orientaçã o de um professor espiritual. Uma condiçã o dominante é a condiçã o
que exerce o papel de in luê ncia principal em trazer um resultado, tal como os sensores dos
olhos para o surgimento de uma cogniçã o visual.

· A condiçã o imediatamente precedente (de-ma-thag rkyen) é a compreensã o da natureza


pró pria (rang-bzhin) de todos os fenô menos. A consciê ncia de tal compreensã o precisa ser o
precedente imediato ao surgimento das atitudes incomensurá veis. Em outras palavras, os
fatores necessá rios para que as sementes de natureza bú dica e as quatro atitudes
incomensurá veis cresçam sã o a in luê ncia positiva de um professor espiritual e um
entendimento correto da natureza de todos os fenô menos, especialmente a natureza de todos
os seres limitados. Alé m disso, conforme mencionado acima, a mente que desenvolve as
quatro atitudes incomensurá veis precisa ter um ideal de bodhichitta e um nı́vel avançado de
concentraçã o.

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Definições de Asanga Para as Quatro Atitudes


Tsongkhapa cita as de iniçõ es das quatro atitudes incomensurá veis dadas pelo mestre indiano do
sé culo III, Asanga , em sua Antologia de Tópicos Especiais de Conhecimento (Chos mngon-pa kun-las
btus-pa, Skt. Abhidharmasamuccaya):

· O amor incomensurá vel é a concentraçã o absorta (ting-nge-'dzin, sct. samadhi) ou consciê ncia
discriminativa (shes-rab, sct. prajna; sabedoria), baseada em um dos nı́veis de estabilidade
mental, que é aplicada ao â mbito (situaçã o) do pensamento “Que os seres limitados
encontrem a felicidade”. També m inclui as consciê ncias primá ria e subsidiá ria (mente e fatores
mentais) congruentes (mtshungs-ldan) com uma das duas.

As outras trê s atitudes incomensurá veis tê m a mesma de iniçã o bá sica do amor incomensurá vel,
mas com diferentes pensamentos:

· A compaixã o incomensurá vel tem o pensamento: “Que os seres limitados estejam livres do
sofrimento.” Em outra parte, Asanga explica esse sofrimento que aqui inclui trê s formas: o
problema do sofrimento, o problema da mudança, e o problema que a tudo engloba.

· A alegria incomensurá vel tem o pensamento: “Que todos os seres limitados nunca se separem
da felicidade.”

· A equanimidade incomensurá vel tem o pensamento: “Que os seres limitados sejam


bene iciados (phan-pa)."

As Quatro Características Necessárias para que as Quatro Atitudes


Incomensuráveis Sejam Estáveis
Para um entendimento mais claro das quatro atitudes incomensurá veis, Tsongkhapa retorna à
Filigrana para os Sutras Mahayana, de Maitreya. Aqui, Maitreya lista as quatro caracterı́sticas
especı́ icas que as quatro atitudes incomensurá veis devem ter para serem está veis. Elas precisam
(1) livrar o continuum mental daquele que as desenvolve de seus fatores desarmô nicos especı́ icos,
(2) gerar a realizaçã o dos estados especı́ icos que se opõ em a esses fatores, (3) ter formas
especı́ icas de focar em seus objetos, (4) realizar uma funçã o especı́ ica.

1. Os fatores desarmô nicos dos quais as quatro atitudes libertam o praticante sã o malevolê ncia,
uma atitude cruel ou prejudicial, falta de alegria, e malevolê ncia e desejo conjuntamente. Aqui,
Maitreya concorda com Vasubandhu.

2. Os estados especı́ icos que a pessoa alcança, que se opõ em aos fatores desarmô nicos, sã o os
estados de consciê ncia profunda e nã o-conceitual (rnam-par mi-rtog-pa'i ye-shes) que sã o
livres destes fatores.

3. As maneiras especı́ icas de focar em seus objetos sã o: como seres limitados, como fenô menos
(chos, skt. dharma) e sem um alvo de referê ncia (dmigs-med, sem alvo). Essa caracterı́stica é
um detalhamento da compreensã o da realidade, necessá ria como condiçã o imediatamente
precedente ao desenvolvimento das quatro atitudes, conforme mencionado acima. Em outra

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passagem do mesmo texto, Maitreya a irma que os objetos aos quais as quatro atitudes estã o
direcionadas sã o os seres limitados que nã o sã o felizes, os que experimentam sofrimento, os
que já tê m felicidade e os que tê m atraçã o ou repulsã o a outros seres por dividi-los entre
pró ximos e distantes.

4. A funçã o especı́ ica que as quatro atitudes tê m em comum é amadurecer plenamente os seres
limitados. Esta caracterı́stica está de acordo com a explicaçã o de Maitreya das quatro atitudes
incomensurá veis, em Uma Filigrana de Realizações, como prá ticas nas quais os bodhisattvas
se engajam para alcançar a consciê ncia onisciente. Com a consciê ncia onisciente, bodhisattvas
serã o mais capazes, atravé s de seus ensinamentos habilidosos, de prover as condiçõ es para
que as sementes da natureza bú dica possam amadurecer no continuum mental de todos os
outros seres. Desta forma, os bodhisattvas ajudam a guiar todos os seres limitados para a
iluminaçã o.

As Três Formas como as Quatro Atitudes Focam em Seus Objetos


Tsongkhapa entã o elabora o terceiro ponto, as maneiras especı́ icas como as quatro atitudes focam
em seus objetos, de acordo com as teorias Chittamatra de Maitreya e Asanga.

· "Quando as quatro atitudes incomensurá veis focam em seus objetos como seres limitados,
consideram que eles tê m a natureza essencial de ser pessoas só lidas. (gang-zag-kyi rdzas-kyi
ngo-bo).

· Quando focam em seus objetos como fenô menos, consideram que eles nã o tê m existê ncia
só lida mas ainda tê m a natureza essencial dos meros fenô menos (chos-tsam).

· Quando focam em seus objetos sem um alvo referencial, os consideram meros fenô menos,
separados de uma forma impossı́vel de existir no que diz respeito à consciê ncia que os toma
como objetos e eles mesmos como objetos desta consciê ncia (gzung-'dzin-dang bral-ba)." Em
outras palavras, as variaçõ es sem alvo das quatro atitudes focam nas pessoas e nos momentos
de consciê ncia que as reconhece como nã o vindo de fontes (rdzas tha-dad) diferentes – ambos
derivam da mesma semente ká rmica no alayavijnana daquele que as reconhece.

Em Esclarecendo a Intenção: Um Comentário para o Grande Tratado (de Chandrakirti) "Supplemento


ao Caminho do Meio” (bsTan-bcos chen-po dbu-ma-la 'jug-pa'i rnam-bshad dgongs-pa rab-gsal),
Tsongkhapa apresenta a explicaçã o Madhyamaka para as trê s formas como as atitudes
incomensurá veis focam em seus objetos. A explicaçã o Madhyamaka esclarece a concisa
apresentaçã o Chittamatra dos dois primeiros tipos de foco, dada por Tsongkhapa em Um Rosário
Dourado de Explicações Excelentes. Ao explicar todos os trê s tipos de foco em termos dos diferentes
nı́veis de consciê ncia discriminativa, Tsongkhapa expande a colocaçã o de Maitreya, em Uma
Filigrana de Realizações, de que as quatro atitudes incomensurá veis precisam ser desenvolvidas
conjuntamente com as seis atitudes de amplo alcance, especialmente a consciê ncia discriminativa
de amplo alcance. Sua explicaçã o també m é a conclusã o da elaboraçã o feita por Asanga na
Antologia de Tópicos Especiais do Conhecimento, deque as quatro atitudes incomensurá veis sã o

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estados de concentraçã o absorta ou de consciê ncia discriminativa. De acordo com o versı́culo de


Chandrakirti sobre o qual tece o comentá rio, Tsongkhapa explica os trê s tipos de foco, aqui apenas
nos termos da compaixã o.

· A compaixã o que foca em seus objetos como seres limitados é acompanhada da consciê ncia
discriminativa de que os seres limitados tê m uma visã o equivocada em relaçã o ao
entrelaçamento transitó rio ('jig-lta) de seus agregados. Com esta atitude perturbadora, eles se
apegam aos fatores agregados de sua experiê ncia como sendo “eu” e “meu”, apesar de seus
agregados nã o existirem desta forma impossı́vel. Por conseguinte, eles renascem
repetidamente sob a in luê ncia do karma e das a liçõ es mentais, experimentando os trê s tipos
de sofrimento. A formulaçã o Chittamatra dessa primeira maneira de focar está em harmonia
com a explicaçã o Madhyamaka. Ela apenas indica outro aspecto dessa primeira maneira de
focar, que dessa maneira os bodhisattvas ainda reconhecem as pessoas como seres está ticos,
monolı́ticos, independentes (rtag gcig rang-dbang-gi sems-can) e/ou como seres
inerentemente cognoscı́veis (rang-rkya thub-pa'i rdzas-yod-kyi sems-can).

· A compaixã o que foca em seus objetos como meros fenô menos nã o reconhece mais as
pessoas como seres está ticos, monolı́ticos e independentes ou como seres inerentemente
cognoscı́veis. Ao invé s disso, ela vem acompanhada da consciê ncia discriminativa de que as
pessoas sã o meramente imputadas nos fenô menos nã o-está ticos de seus agregados, que
servem como base para a imputaçã o. Esse é o signi icado da formulaçã o Chittamatra que
a irma que essa maneira de focar foca em seus objetos como meros fenô menos. Esta maneira
de focar é exempli icada pelo foco nos seres limitados como sendo fenô menos nã o-está ticos,
mas é bem mais profunda que isso. Nã o se trata apenas do fato de que as pessoas mudam de
um momento para o outro, mas de que sã o imputadas em bases que mudam de momento a
momento.

· A compaixã o que foca em seus objetos sem um alvo referencial foca nos seres limitados como
vazios de uma existê ncia estabelecida por sua pró pria natureza (rang-bzhin-gyis grub-pas
stong-pa, vazios de existê ncia inerente). Este tipo de vacuidade signi ica que os seres limitados
nã o podem ser encontrados, tendo uma existê ncia estabelecida por si mesmos, como os
objetos a que se referem (btags-don) os nomes e conceitos usados para eles. Tais objetos
referenciais ou objetos conceitualizados (zhen-yul) nã o existem. Por isso, esse tipo de
compaixã o foca nos seres limitados sem destinar à compaixã o um objeto referencial
encontrá vel. Este tipo de foco, sem um objeto referencial, existe unicamente na Prasangika-
Madhyamaka.

Tsongkhapa continua, em Um Rosário Dourado de Explicações Excelentes, destacando duas


apresentaçõ es sobre o nı́vel dos praticantes que desenvolvem cada um desses nı́veis de foco. De
acordo com o Sutra Ensinado pelo Arya Akshayamati, quando as quatro atitudes incomensurá veis
tê m com alvo os seres limitados, esse é o nı́vel de prá tica de quando bodhisattvas começam a
desenvolver bodhichitta; quando tê m como alvo os fenô menos, está no nı́vel de quando eles
entram no comportamento de bodhisattvas com os votos de bodhisattvas; e quando nã o tê m alvo
está no nı́vel de quando alcançam as cinco mentes do caminho (cinco caminhos). No entanto, de
acordo com Shakyabodhi, mestre indiano do sé culo VII, quando as quatro atitudes
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incomensurá veis tê m como alvo os seres limitados, a prá tica está no nı́vel dos seres comuns (so-
skye) – que nã o tê m a cogniçã o nã o-conceitual da ausê ncia de uma identidade impossı́vel nas
pessoas (gang-zag-gi bdag-med). Quando as quatro atitudes tem como alvo os fenô menos, sua
prá tica está no nı́vel compartilhado por shravakas e pratyekabuddhas; e quando nã o tê m alvo, está
no nı́vel dos budas e bodhisattvas.

As Duas Variantes Principais da Alegria Incomensurável e da Equanimidade


Incomensurável
A partir desta pesquisa, torna-se evidente que a alegria incomensurá vel tem duas principais
variantes. De acordo com as tradiçõ es Theravada e Nichiren, trata-se do estado mental que se
alegra com a felicidade alheia. De acordo com as duas tradiçõ es do abhidharma (mngon-par chos,
tó picos de conhecimento) e seus textos associados, seguidos por vá rias escola de budismo
tibetano, esse estado mental vai alé m de meramente alegrar-se. Vasubandhu, que representa a
posiçã o Vaibhashika/Sautrantika, a irma que a alegria incomensurá vel també m é essencialmente o
desejo de que os outros tenham felicidade mental; enquanto Asanga, que representa a escola
Chittamatra, explica que també m é essencialmente o desejo de que os outros nunca deixem de ter a
felicidade que já tê m. As vá rias tradiçõ es do budismo tibetano adotam ou a formulaçã o de Asanga
ou de Vasubandhu e, portanto, diferem em um primeiro momento, em suas explicaçõ es sobre a
felicidade da alegria incomensurá vel, que pode ser a felicidade que desejamos aos outros ou a
felicidade que desejamos que os outros nã o deixem de ter. E també m diferem no que diz respeito
aos outros já terem ou ainda nã o terem a felicidade.

De acordo com o Filigrana para os Sutras Mahayana, os objetos a que se destina a equanimidade
incomensurá vel sã o seres limitados que tê m atraçã o ou repulsã o em relaçã o aos outros, por dividi-
los entre pró ximos e distantes. Em outra passagem do mesmo texto, Asanga especi ica o objeto da
equanimidade incomensurá vel como sendo a mente que tem a liçõ es mentais. No entanto, uma
mente sob in luê ncia das a liçõ es mentais pode ser simplesmente a mente do meditador como
també m a mente de todos os outros seres.

A apresentaçã o de Asanga, na Antologia de Tópicos Especiais do Conhecimento, sobre o pensamento


que acompanha a equanimidade incomensurá vel, “Que os seres limitados sejam bene iciados”,
a irma que há duas formas de equanimidade aqui, já que a frase está aberta a duas interpretaçõ es.
Uma é “Que os seres limitados sejam igualmente bene iciados” e portanto indica equanimidade na
mente do meditador. A outra é “Que os seres limitados sejam bene iciados por seu pró prio
desenvolvimento da equanimidade.”

Portanto, Tsongkhapa, na Grande Apresentação dos Estágios do Caminho Gradual (Lam-rim chen-mo),
identi ica dois tipos de equanimidade incomensurá vel. Um tipo é livre de apego e aversã o, com uma
atitude imperturbá vel dirigida aos outros, o que está de acordo com as apresentaçõ es Theravada,
Nichiren, e Vaibhashika/Sautrantika. O outro tipo deseja principalmente que os outros seres
tenham equanimidade, que estejam livres de atraçã o e repulsã o. Novamente, diferentes textos
dentro das vá rias tradiçõ es do budismo tibetano a irmam um ou outro tipo.

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Atitudes que Levam ao Desenvolvimento da Bodhichitta


Diferentes textos dentro das vá rias tradiçõ es do budismo tibetano també m divergem no que diz
respeito à colocaçã o da meditaçã o das quatro atitudes incomensurá veis no caminho do
bodhisattva. Alguns seguem a apresentaçã o de Maitreya em Uma Filigrana de Realizações e Uma
Filigrana para os Sutras do Mahayana, colocando a meditaçã o das quatro atitudes depois do
desenvolvimento de bodhichitta, como sendo uma das prá ticas nas quais os bodhisattvas se
engajam a im de alcançar a iluminaçã o para o amadurecimento de todos os seres. Outros seguem a
apresentaçã o oferecida pelo mestre indiano Atisha, do im do sé culo X. Em Um Comentário sobre os
Pontos Di íceis em “Uma Lâmpada no Caminho Para a Iluminação” (Byang-chub lam-gyi sgron-me'i
dka'-'grel, sct. Bodhimargapradipa-panjika) e Método de Redação Concisa para Realizar o Caminho do
Mahayana (Theg-pa chen-po'i lam-gyi sgrub-thabs yi-ger bsdus-pa, sct. Mahayana-patha-sadhana-
varna-samgraha), Atisha a irma que as quatro atitudes incomensurá veis sã o preliminares ao
desenvolvimento do ideal de iluminaçã o de bodhichitta.

Antes de fazer essa a irmaçã o, no primeiro desses dois textos, Atisha cita uma longa passagem de O
Sutra Ensinado pelo Arya Akshayamati, que conté m a citaçã o mencionada acima. Assim sendo,
poderı́amos supor que Atisha concorda com a ordem das quatro atitudes incomensurá veis
encontrada neste sutra, que começa com amor. No entanto, muitos dos textos tibetanos que
seguem sua orientaçã o a respeito da sequê ncia das meditaçõ es mudam a ordem e colocam a
equanimidade em primeiro lugar.

Exemplos Nyingma onde Atisha Coloca a Meditação nas Quatro


Atitudes antes da Bodhichitta e a Equanimidade em Primeiro Lugar
"Repouso e Restauração na Natureza da Mente" de Longchenpa
Dentro da tradiçã o Nyingma, o mestre Longchenpa (Klong-chen-pa Dri-med ‘od-zer), do sé culo XIV,
segue a explicaçã o de Atisha. Em Repouso e Restauração na Natureza da Mente (Sems-nyid ngal-gso;
Gentilmente Curvado para nos Aliviar), ele apresenta uma explicaçã o extensa das quatro atitudes
incomensurá veis como prá tica preliminar ao desenvolvimento de bodhichitta. Ele a irma que,
embora a ordem tradicional das quatro seja amor, compaixã o, alegria, e equanimidade, elas nã o
possuem uma ordem ixa de prá tica. Para iniciantes, é mais adequado meditar primeiro na
equanimidade; caso contrá rio as outras trê s atitudes serã o parciais e nã o serã o estendidas
igualmente a todos. Quando este é o caso, as quatro atitudes geram apenas resultados samsá ricos.

Quanto à s caracterı́sticas que de inem as quatro atitudes:

· Equanimidade incomensurá vel – uma mente que considera a todos igualmente

· Amor incomensurá vel – o desejo de que todos os seres sejam felizes

· Compaixã o incomensurá vel – o desejo de que estejam livres do sofrimento

· Alegria incomensurá vel – o desejo de que nunca se afastem da felicidade

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A lista de Longchenpa junta o tratamento de Asanga da alegria incomensurá vel com o tratamento
de Vasubandhu da equanimidade incomensurá vel. No entanto, a elaboraçã o de Longchenpa sobre
as quatro atitudes revela diferenças signi icativas das duas apresentaçõ es indianas:

· A equanimidade incomensurá vel é desenvolvida em está gios. Primeiro nos livramos das
emoçõ es destrutivas do apego, aversã o e indiferença em relaçã o aos outros, bem como de
qualquer noçã o de proximidade ou distâ ncia dos outros seres. Na terminologia Gelug usada
na Coleção de Trabalhos do Tutor Trijang Rinpoche (Yongs-'dzin Khri-byang gsung-‘bum), essa é
a “mera equanimidade” (btang-snyoms-tsam): a equanimidade compartilhada entre Hinayana e
Mahayana. Depois vem o segundo tipo de equanimidade, que é a desenvolvida quando
estamos prestes a ajudar algué m. Na terminologia Gelug, esse tipo de equanimidade é
desenvolvida exclusivamente no Mahayana (thun-mong ma-yin-pa'i btang-snyoms). Para
desenvolvermos esses dois tipos de equanimidade pensamos que a pessoa foi nossa amiga,
inimiga ou simplesmente uma estranha em vá rias vidas, e depois geramos o desejo de que,
assim como essa pessoa, todos os seres possam estar livres do apego, aversã o e indiferença e
da noçã o de proximidade e distâ ncia. Assim, Longchenpa apresenta os dois tipos de
equanimidade mencionados por Tsongkhapa: uma atitude mental igualitá ria para com todos e
o desejo de que tenham essa mesma atitude. Dessa forma, desenvolve-se uma atitude de
igualdade, tanto no que diz respeito a si mesmo quanto no que diz respeito aos outros.

· O amor incomensurá vel aspira que todos tenham a felicidade temporá ria dos renascimento
melhores e a felicidade de initiva do estado iluminado. Esse amor é maior do que o amor de
uma mã e por seu ilho. Aqui, Longchenpa apresenta o amor incondicional como sendo muito
mais do que a aspiraçã o de que os outros seres tenham felicidade fı́sica, conforme a irma
Vasubandhu. E é maior inclusive do que a aspiraçã o de que os outros tenham felicidade
mental, que é o pensamento que, segundo Vasubandhu, acompanha a alegria incomensurá vel.

· A compaixã o incomensurá vel aspira que todos os seres estejam livres do sofrimento, temos a
mesma intolerâ ncia frente ao sofrimento dos outros seres que temos com o sofrimento de
nossos pró prios pais. Essa atitude també m oferece a todos os seres em sofrimento nossa
força positiva (mé rito), do passado, presente e futuro, assim como nosso corpo e posses, a im
de ajudá -los a livrarem-se de sua dor.

· A alegria incomensurá vel está baseada na compreensã o de que nã o há necessidade de
fazermos com que todos os seres permaneçam em um estado de felicidade suprema, já que
todos os seres tem a felicidade como um aspecto de sua natureza bú dica. Portanto, essa
atitude incomensurá vel é a aspiraçã o de que nunca se afastem da realizaçã o de sua felicidade
inata. Os seres nã o realizam sua felicidade inata quando a falta de consciê ncia de sua
existê ncia a obscurece.

Em conformidade com os ensinamentos do dzogchen (rdzogs-chen, grande completitude),


Longchenpa explica que cada uma das quatro atitudes incomensurá veis tem duas formas. Uma tem
todos os seres como alvo (dmigs-bcas) da mente limitada (sems) e está misturada com as má culas
fugazes dos obscurecimentos emocionais e cognitivos (nyon-sgrib e shes-sgrib). A outra baseia-se
na consciê ncia prı́stina (rig-pa) e nã o tem um alvo (dmigs-med) como a anterior, entretanto, difere
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signi icativamente das apresentaçõ es sobre as formas sem alvo das escolas Chittamatra e
Madhyamaka, conforme explicado por Tsongkhapa. Depois de desenvolver cada uma das quatro
incomensurá veis na forma com alvo tenta-se desenvolve-las na forma sem alvo.

· Na equanimidade sem alvo, repousamos no aspecto de espaço aberto (klong) da consciê ncia
prı́stina, primordialmente livre das má culas efê meras das a liçõ es mentais, como o apego ou
aversã o e o conceito de proximidade ou distâ ncia.

· No amor sem alvo, repousamos no aspecto de igualdade (mnyam-nyid) do espaço aberto da


consciê ncia prı́stina que, com o amor, estende-se igualmente para todos os lugares.

· Na compaixã o sem alvo, repousamos no aspecto de absorçã o total (mnyam-bzhag) do espaço


aberto da consciê ncia prı́stina, que també m se estende pela fase de realizaçã o subsequente
(rjes-thob) com a inseparabilidade da abertura e compaixã o.

Apó s a meditaçã o nas formas com alvo e sem alvo das quatro atitudes incomensurá veis, utilizando-
se a sequê ncia que começa com a equanimidade, Longchenpa descreve mais meditaçõ es, mas agora
começando pelo amor. Estas meditaçõ es, que utilizam a ordem tradicional das quatro atitudes,
ajudam na diminuiçã o do apego que pode surgir ao alvo da meditaçã o.

· Quando, por conta da meditaçã o do amor com alvo, nos apegamos à todas as pessoas como
sendo nossos amigos devemos meditar na compaixã o sem alvo, a im de superarmos o
sofrimento que surge do entrelaçamento ká rmico confuso com os outros.

· Quando nos ixamos demais nos outros seres como objetos realmente existentes, por conta da
compaixã o com alvo, devemos meditar na alegria sem alvo, a im de superarmos a depressã o e
a exaustã o que surgem de tal ixaçã o.

· Quando nossa mente ica muito entusiasmada ou inconstante, por conta da alegria com alvo,
devemos meditar na equanimidade sem alvo, a im de nos livrarmos do apego à proximidade
ou distâ ncia dos outros.

· Quando nos tornamos indiferentes ou passivos, por conta da equanimidade com alvo,
devemos meditar no amor sem alvo, que se estende igualmente para todos.

Quando nossa prá tica das quatro atitudes tornar-se está vel, podemos meditar usando qualquer
ordem.

Longchenpa també m conecta a meditaçã o nas quatro atitudes incomensurá veis com as prá ticas
para dissolver as cinco a liçõ es mentais em suas formas subjacentes de consciê ncia profunda:

· O amor age como a circunstâ ncia que permite ao ó dio e à raiva dissolverem-se na consciê ncia
profunda subjacente do espelho (me-long lta-bu'i ye-shes).

· A compaixã o age como a circunstâ ncia que permite ao desejo e ao apego dissolverem-se na
consciê ncia profunda subjacente da individualizaçã o (so-sor rtogs-pa'i ye-shes).

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A alegria age como a circunstâ ncia que permite ao ciú me e à inveja dissolverem-se na
·
consciê ncia profunda subjacente realizadora (bya-ba grub-pa'i ye-shes).

· A equanimidade age como a circunstâ ncia que permite ao orgulho e à arrogâ ncia dissolverem-
se na consciê ncia profunda subjacente da esfera da realidade (bya-ba grub-pa'i ye-shes).

“Instruções Pessoais de Meu Professor Totalmente Excelente” de


Patrul
Em seu livro Instruções Pessoais de Meu Professor Totalmente Excelente (Kun-bzang bla-ma'i zhal-
lung; Palavras de Meu Professor Perfeito) Patrul, um mestre Nyingma do sé culo XIX, també m segue a
colocaçã o de Atisha no que se refere à s quatro incomensurá veis como preliminares para o
desenvolvimento de bodhichitta. Assim, Patrul estruturou o mé todo para o desenvolvimento do
ideal de iluminaçã o de acordo com as quatro atitudes e seguiu Longchenpa ao mudar sua ordem
tradicional, colocando a equanimidade em primeiro lugar.

Alé m disso, ele entremeia a meditaçã o das quatro atitudes incomensurá veis com grande parte dos
componentes dos ensinamentos em sete partes da quintessê ncia da causa e efeito para
desenvolver-se bodhichitta (rgyu-'bras man-ngag bdun), derivado dos Estágios Mentais do
Bodhisattva (Byang-chub sems-dpa'i sa, Skt. Bodhisattvabhumi), do mestre indiano Asanga. As sete
partes sã o: desenvolver equanimidade, reconhecer todos os seres como tendo sido nossas mã es
em vidas passadas, lembrar da gentileza materna, apreciar e aspirar retribuir essa gentileza, amor,
compaixã o, uma resoluçã o excepcional e um ideal bodhichitta.

Patrul explica:

· Equanimidade incomensurá vel: é o estado mental que está livre de apego, aversã o e
indiferença em relaçã o a todos os seres, e també m está livre de considerar alguns seres como
pró ximos e outros como distantes. Baseia-se em reconhecer todos os seres limitados como
tendo sido igualmente nossa mã e em vidas anteriores, independentemente desse status ter
mudado na vida atual.

· Amor: desenvolvemos o amor ao considerarmos todos os seres da mesma forma que os pais
consideram seus ilhos, ou seja, com um amor que aquece o coraçã o (yid-du ‘ong-ba’i byams-
pa). Esse é o amor que nos dá alegria ao encontrarmos algué m e tristeza se algo de ruim
acontecer a essa pessoa. Alé m disso, é necessá rio pensarmos que todos querem ser felizes,
assim como nó s. A ê nfase está em sermos gentis com os outros, especialmente com nossos
pais, como retribuiçã o por sua gentileza.

· Compaixã o: vem de vermos os seres que sofrem como se fossem nossa pró pria mã e sofrendo,
portanto, vem de vermos os outros como tendo sido nossas mã es.

· Alegria: é o estado mental que se regozija com a alegria e prosperidade do outro e, sem inveja,
deseja que ele tenha ainda mais. A alegria incomensurá vel leva à bodhichitta, a aspiraçã o de
que todos os seres limitados tenham a felicidade (bem aventurança) da iluminaçã o.

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Exemplos Gelug em que a Prática das Quatro Atitudes


Incomensuráveis Vem Depois do Desenvolvimento de Bodhichitta e
Começa com Equanimidade
A Razão Para Essa Sequência
Diversos textos da tradiçã o Gelug para a prá tica de recitaçã o colocam a equanimidade em primeiro
lugar na apresentaçã o das quatro incomensurá veis. Entretanto, de acordo com as explicaçõ es de
Maitreya e Asanga, esses textos apresentam a meditaçã o nas quatro incomensurá veis depois do
ideal bodhichitta. Os dois textos mais praticados sã o:

· Um Yoga Extensivo de Seis Sessões (Thun-drug-gi rnal-‘byor rgyas-pa), do mestre do sé culo XVII,
o Quarto Panchen Lama (Pan-chen Blo-bzang chos-kyi rgyal-mtshan)

· Um Texto Ritual de Práticas Preparatórias (Byang-chub lam-gyi-rim-pa’i dmar-khrid myur-lam-


gyi sngon-‘gro’i ngag-‘don-gyi rim-pa khyer bde-bklag chog bskal-bzang mgrin-rgyan, sByor-chos;
Jorcho: O Puja do Lam-Rim) do mestre do inal do sé culo XIX, Dagpo Jampel-lhundrub (Dvags-
po Blo-bzang 'jam-dpal lhun-grub).

Esses textos começam com o verso gené rico de darmos uma direçã o segura à vida (tomar refú gio)
e desenvolvermos o ideal bodhichitta: “Tomo a direçã o segura até o estado puri icado dos Budas,
do Dharma e da Suprema Assemblé ia. Pela força positiva das minha oferendas e assim por diante,
que eu possa atingir o estado bú dico para ajudar a todos os seres errantes.” A isso seguem os
versos para o desenvolvimento do ideal bodhichitta e depois para tomar-se os votos de
bodhisattva com bodhichitta engajada. Depois disso, vem o verso para o desenvolvimento das
quatro atitudes incomensurá veis.

Em Liberação na Palma da Mão (rNam-grol lag-bcangs), o mestre do inı́cio do sé culo XX, Pabongka
(Pha-bong-kha Byams-pa bstan-'dzin 'phrin-las rgya-mtsho), explica a razã o para essa sequê ncia ao
comentar o texto de Dagpo Jampel-lhundrub. As quatro atitudes incomensurá veis nã o sã o prá ticas
cujo objetivo é desenvolvermos o ideal bodhichitta pela primeira vez. A meditaçã o nessas quatro
atitudes serve para fortalecermos o ideal de iluminaçã o, uma vez que já o tenhamos desenvolvido.
Na prá tica, primeiro rea irmamos nosso ideal bodhichitta e depois nos perguntamos porque ainda
nã o atingimos a iluminaçã o. A resposta será que nã o desenvolvemos totalmente as quatro atitudes
incomensurá veis. Isso nos leva a meditarmos nas quatro atitudes.

Pabongka explica um outro motivo para essa sequê ncia em A Maneira de se Praticar a Yoga das
“Cem Deidades de Tushita” (Zab-lam dga'-ldan lha-rgya-ma'i rnal-'byor nyams-su len-tshul snyan-
brgyud zhal-shes lhug-par bkod-pa'i man-ngag rin-chen gter-gyi bang-mdzod). Nesse comentá rio,
Pabongka adiciona, como prá tica preliminar a das Cem Deidades de Tushita, a formulaçã o das
quatro atitudes incomensurá veis do texto de Dagpo Jampel-lhundrub. Ele explica que, alé m de fazer
com que o poder de nossa bodhichitta cresça, as quatro atitudes també m aumentam nossa
bodhichitta ao eliminar interferê ncias.

“Yoga Extensivo de Seis Sessões” do Quarto Panchen Lama


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A de iniçã o das quatro atividades incomensurá veis segundo o Yoga Extensivo de Seis Sessões, do
Quatro Panchen Lama, é :

· Equanimidade incomensurá vel - “Que todos os seres sencientes estejam livres (de
sentimentos) de proximidade ou distâ ncia e apego ou aversã o"

· Amor incomensurá vel - “Que eles obtenham a felicidade que é especialmente nobre”

· Compaixã o incomensurá vel - “Que se livrem do oceano de seus sofrimentos insuportá veis”

· Alegria incomensurá vel - “Que nunca se afastem da felicidade da iluminaçã o”

Diferentemente da apresentaçã o de Longchenpa e de Patrul, aqui a equanimidade incomensurá vel


é o estado mental que aspiramos que todos os seres obtenham, e nã o uma atitude igualitá ria que
nó s desenvolvemos em relaçã o a todos os seres. Entretanto, considerando-se que nó s estamos
incluı́dos entre todos os seres sencientes, també m estaremos aspirando ser equâ nimes. Assim,
ambas as formas de equanimidade mencionadas por Tsongkhapa sã o desenvolvidas.

“A felicidade que é especialmente nobre” é o estado de bem aventurança de um arya, um ser


altamente realizado que tem uma cogniçã o direta e nã o conceitual da vacuidade. O amor
incomensurá vel deseja que os outros seres experimentem esse nı́vel de felicidade, enquanto a
alegria incomensurá vel deseja que nunca se afastem do estado de bem aventurança da iluminaçã o
de um buda.

Em Breves Notas de um Discurso Explanatório sobre o "Yoga Extensivo de Seis Sessões" (Thun-drug
bla-ma'i rnal-'byor bshad-khrid gnang-ba'i zin-tho mdor-bsdus), Pabongka destaca que a geraçã o da
equanimidade incomensurá vel faz com que seja cumprido o compromisso (dam-tshig, Skt. samaya)
de Ratnasambhava de libertar os seres do sofrimento. Quando nã o temos medo de nos agarrar a
algué m com apego, rejeitar com aversã o, ignorar com indiferença ou considerar esse algué m mais
pró ximo do que realmente é , essa pessoa nos libertou do medo. Nenhum ser limitado a teme.

“Texto Ritual de Práticas Preparatórias” de Dagpo Jampel-lhundrub


O Texto Ritual de Práticas Preparatórias de Dagpo Jampel-lhundrub també m apresenta a meditaçã o
das quatro atitudes incomensurá veis como sendo uma forma de reforçarmos o ideal bodhichitta,
depois de já o termos desenvolvido. Ele també m começa a sequê ncia com a equanimidade
incomensurá vel.

De acordo com sua de iniçã o,

· Equanimidade incomensurá vel - é a aspiraçã o de que todos os seres limitados tenham


equanimidade, que estejam livres (de sentimentos) de proximidade ou distâ ncia e apego ou
aversã o

· Amor incomensurá vel - é a aspiraçã o de que tenham felicidade e encontrem as causas da


felicidade

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Compaixã o incomensurá vel - é a aspiraçã o de que nã o sofram e nã o cultivem as causas do
·
sofrimento.

· Alegria incomensurá vel - é a aspiraçã o de que nunca se afastem da felicidade pura dos
estados superiores de renascimento (mtho-ris) e da liberaçã o.

O que é digno de nota aqui é que o amor incomensurá vel é a aspiraçã o de que os seres limitados
obtenham nã o apenas a felicidade, mas també m as causas da felicidade. Compaixã o incomensurá vel
aspira que nã o sofram, mas també m que nã o cultivem as causas do sofrimento. Essas adiçõ es estã o
de acordo com as de iniçõ es padrã o das quatro atitudes incomensurá veis encontradas em vá rios
textos de escolas nã o Gelug do budismo tibetano e do Bon.

No que diz respeito à alegria incomensurá vel, Dagpo Jampel-lhundrub adiciona à apresentaçã o do
Quarto Panchen Lama — a aspiraçã o de que os seres limitados tenham sempre a felicidade da
iluminaçã o — a aspiraçã o de que tenham a felicidade pura dos estados superiores de
renascimento. Desta forma, ele inclui na esfera da alegria incomensurá vel a felicidade de se
alcançar todos os trê s objetivos espirituais progressivos discutidos na tradiçã o dos está gios
mentais graduais do lam-rim. Aqueles com um nı́vel inicial de motivaçã o objetivam a liberaçã o
como um arhat. Aqueles com um nı́vel de motivaçã o avançado tê m como objetivo a liberaçã o
completa de um buda iluminado.

No texto Liberação na Palma da Mão, Pabongka explica que, de acordo com o texto ritual de Dagpo
Jampel-lhundrub, cada uma das quatro atitudes incomensurá veis tem outras quatro atitudes
incomensurá veis. No caso da compaixã o, por exemplo, essas atitudes seriam:

· Intençã o incomensurá vel ('dun-pa tshad-med) - “Seria maravilhoso se todos os seres limitados
se livrassem do sofrimento e de suas causas”

· Aspiraçã o incomensurá vel (smon-pa tshad-med) - “Que eles se livrem”

· Resoluçã o excepcional incomensurá vel (lhag-bsam tshad-med) - “Eu devo fazer com que se
livrem”

· Solicitaçã o incomensurá vel (gsol-'debs tshad-med) - “Para que eu seja capaz disso,
guru/deidade, solicito inspiraçã o”

Dagpo Jampel-lhundrub elabora, aqui, os quatro aspectos do amor e compaixã o que o mestre
Sakya Ngorchen Konchog-lhundrub (Ngor-chen dKon-mchog lhun-grub) apresenta em A Filigrana
para Embelezar as Três Aparências (sNang-gsum mdzes-par byed-pa'i rgyan, O Belo Ornamento das
Três Visões). Entretanto, na apresentaçã o de Ngorchen Konchog-lhundrub o aspecto da resoluçã o
excepcional é chamado de aspecto da bodhichitta, e vem antes do aspecto da aspiraçã o. O aspecto
da solicitaçã o é o guru e as trê s jó ias.

Exemplos em que se Coloca a Meditação depois do


Desenvolvimento de Bodhichitta e com o Amor Primeiro Lugar
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A Tradição Bon
Um dos exemplos tibetanos mais antigos, no que se refere a colocar a meditaçã o das quatro
atitudes incomensurá veis depois do desenvolvimento de bodhichitta e com a ordem tradicional de
começar com o amor incomensurá vel, está na tradiçã o Bon. Alé m disso, essa é uma das de iniçõ es
tibetanas mais antigas onde as causas da felicidade e do sofrimento sã o explicitamente
mencionadas. A especi icaçã o de Asanga de que a consciê ncia discriminativa relacionada à s trê s
formas de focar deve acompanhar as quatro atitudes incomensurá ves implica um entendimento
das causas da felicidade e do sofrimento. No entanto, os textos indianos parecem nã o mencionar
essas causas em suas formulaçõ es das quatro atitudes.

Em Uma Caverna de Tesouros (mDzod-phug), desenterrado como uma texto tesouro Bon por
Shenchen Luga (gShen-chen Klu-dga’) no inı́cio do sé culo XI, as quatro atitudes incomensurá veis
sã o:

· Grande amor - a aspiraçã o de que todos os seres limitados encontrem a felicidade e as causas
da felicidade.

· Grande compaixã o - a aspiraçã o de que estejam livres do sofrimento e de suas causas

· Grande alegria - o estado mental que se alegra quando eles encontram a felicidade e suas
causas

· Grande equanimidade - a atitude que estende essas aspiraçõ es imparcialmente a todos, sem
discriminar amigos, inimigos e estranhos.

Ao de inir a grande alegria como sendo o estado mental que se alegra com a felicidade alheia, o
Bon concorda com o Theravada, com o Nichiren e com Patrul, mestre da tradiçã o Nyingma. Apesar
de muitas tradiçõ es e textos tibetanos incluı́rem mençõ es à s causas da felicidade no amor
incomensurá vel e à s causas do sofrimento na compaixã o incomensurá vel, o Bon parece ser o ú nico
a mencionar as causas da felicidade na alegria incomensurá vel.

A de iniçã o Bon da grande equanimidade també m parece ú nica. Em outras de iniçõ es, em que a
equanimidade incomensurá vel é uma atitude de se ter uma mente igualitá ria com todos os seres e
seu desenvolvimento vem por ú ltimo na sequê ncia das quatro atitudes, a ê nfase parece estar em
deixar a sequê ncia paralela ao quatro nı́veis de estabilidade mental. Na tradiçã o Theravada, por
exemplo, equanimidade é termos a mesma atitude em relaçã o a todos os seres, no sentido de ter
igualdade ao ajudar, nã o se deixando envolver demais e nã o sendo indiferente, uma vez que todos
precisam atingir a iluminaçã o atravé s de seu pró prio esforço.

No Nichiren, o paralelo com os quatro nı́veis de estabilidade mental é muito maior. Nessa tradiçã o,
a equanimidade incomensurá vel é um estado mental completamente tranquilo e equâ nime em
relaçã o à felicidade e à infelicidade, em todas as circunstâ ncias, como, por exemplo, quando
encontramos amigos ou inimigos. E um estado mental livre das atitudes de amor, compaixã o e
alegria incomensurá veis.

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No Bon, por outro lado, a equanimidade incomensurá vel nã o é um estado livre das outras trê s
atitudes, mas que as estende igualmente a todos. No entanto, na de iniçã o dos mestres Nyingma,
Longchenpa e Patrul, o estado mental imparcial que é livre das noçõ es de amigo, inimigo e
estranho é necessá rio antes, e nã o depois, de se desenvolver o amor, compaixã o e alegria
incomensurá veis, para que seja possı́vel estendermos igualmente essas trê s atitudes á todos.

A Formulação Padrão nas Tradições Kagyu e Sakya


Na tradiçã o Sakya e nas vá rias escolas Kagyu do budismo tibetano – Karma Kagyu, Drigung Kagyu
e Drugpa Kagyu – a de iniçã o mais comum das quatro atitudes incomensurá veis é :

· Amor incomensurá vel - “Que todos os seres limitados sejam felizes e encontrem as causas da
felicidade”

· Compaixã o incomensurá vel - “Que todos os seres limitados estejam livres do sofrimento e das
causas do sofrimento”

· Alegria incomensurá vel - Que todos os seres limitados nunca se afastem do felicidade pura,
livre de qualquer sofrimento”

· Equanimidade incomensurá vel - “Que todos os seres estejam sempre em equanimidade, livres
do dualismo (de sentimentos) de proximidade ou distâ ncia e apego ou aversã o.”

Na formulaçã o de alegria incomensurá vel, “felicidade pura, livre de qualquer sofrimento” refere-se
ao estado bem aventurado da liberaçã o pura de um buda, conforme o Yoga Extensivo de Seis Sessões
do Quarto Panchen Lama.

Um exemplo dessa fó rmula da tradiçã o Karma Kagyu é Uma Sadhana de Sahaja Vajrayogini (dPal-
ldan lhan-cig-skyes-ma rdo-rje rnal-'byor sgrub-thabs dkyil-'khor-gyi-cho-ga gsang-chen mchog-gi
myur-lam gsal-ba'i-'dren-pa) escrita pelo Sexto Karmapa, no começo do sé culo XVI (rGyal-ba Kar-
ma-pa mThong-ba don-ldan). Um exemplo da tradiçã o Sakya é Uma Sadhana Média de Hevajra (dPal
kye rdo-rje'i mngon-par rtogs-pa 'bring-du bya-ba yan-lag drug-pa'i mdzes-rgyan) de Ngorchen
Konchog-lhundrub.

Essa formulaçã o padrã o també m está presente em vá rios textos Gelug. Por exemplo:

· Uma Sadhana de Longa Vida de Tara, a Roda Realizadora de Desejos (Kun-mkhyen rGyal-ba
bsKal-bzang rgya-mtsho'i lha-tshogs sgrub-skor-las rje-btsun sgrol-ma yid-bzhin 'khor-lo'i tshe-
sgrub) escrita pelo Sé timo Dalai Lama no sé culo XVIII (rGyal-ba bsKal-bzang rgya-mtsho)

· Uma Sadhana de Vajrapani Mahachakra (bCom-ldan-'das gsang-bdag 'khor-lo chen-po'i mngon-


rtogs dngos-grub kun-gyi gter-mdzod)

· Uma Sadhana de Chittamani Tara, (rJe-btsun sgrol-ljang bla-med lugs nye-brgyud 'phags-ma'i
zhal-lung tsitta ma-ni-las sgrub-thabs rkyang-pa'i 'don-sgrigs zur-du bkol-ba)

· Um Yoga do Mestre Espiritual Inseparável de Avalokiteshvara (Bla-ma-dang spyan-ras-gzigs


dbyer-med-kyi rnal-'byor dngos-grub kun-'byung) por Sua Santidade o Dé cimo Quarto Dalai
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Lama (rGyal-ba bsTan-'dzin rgya-mtsho).

Nesses exemplos, ao invé s da equanimidade ser um estado mental igualitá rio em relaçã o aos
outros é o desejo de que todos os seres limitados tenham equanimidade. Conforme a explicaçã o
oral de Tsenzhab Serkong Rinpoche (mTshan-zhabs Ser-kong Rin-po-che Ngag-dbang blo-bzang
thub-bstan stobs-‘byor), apó s aspirarmos que os outros seres tenham sempre a felicidade pura
(bem aventurança) da iluminaçã o, devemos re letir sobre por que eles ainda nã o atingiram esse
estado. O motivo é que ainda nã o desenvolveram equanimidade. Portanto, desejamos que
desenvolvam equanimidade. Essa é a razã o para colocar-se a equanimidade por ú ltimo na
sequê ncia das quatro atitudes incomensurá veis.

Variações Gelug
As vá rias prá ticas da tradiçã o Gelug para nos efetivarmos como uma igura bú dica expõ em uma
grande diversidade de variaçõ es na formulaçã o das quatro atitudes incomensurá veis.

Kalachakra
Em Uma Sadhana Extensa da Mandala do Corpo, Fala e Mente de Kalachakra (bCom-ldan-'das dpal
dus-kyi 'khor-lo'i sku-gsung-thugs yongs-su rdzogs-pa'i dkyil-'khor-gyi sgrub-thabs mkhas-sgrub zhal-
lung) do Sé timo Dalai Lama, repetida em Um Guru-Yoga Kalachakra Juntamente com uma Prática de
Seis Sessões (Thun-drug-dang ‘brel-ba’i dus-‘khor bla-ma’i rnal-’byor dpag-bsam yongs-’du’i snye-ma)
de Sua Santidade o Dé cimo Quarto Dalai Lama, colocada em verso por Ling Rinpoche (Yongs-’dzin
Gling Rinpoche Thub-bstan lung-rtogs rnam-rgyal ‘phrin-las):

· Amor incomensurá vel - a aspiraçã o de “Que todos os seres limitados sejam felizes”

· Compaixã o incomensurá vel - “Que estejam livres do sofrimento”

· Alegria incomensurá vel - “Que tenham a alegria de estarem sempre felizes (em bem
aventurança)

· Compaixã o incomensurá vel - “Que tenham a equanimidade da igualdade (mnyam-nyid).

Aqui, os pensamentos de amor e compaixã o incomensurá veis nã o fazem nenhuma mençã o à s
causas da felicidade ou do sofrimento. Mas de acordo com a explicaçã o oral, elas devem ser
incluı́das. No que diz respeito à alegria incomensurá vel, ao invé s de seguir a formulaçã o de Asanga,
“Que os seres limitados estejam sempre felizes”, o Sé timo Dalai Lama segue a de Vasubandhu, “Que
eles sejam felizes”. Ao adicionar a palavra sempre, o Sé timo Dalai Lama quer dizer que a felicidade a
que se aspira com a alegria incomensurá vel é a in inita consciê ncia bem aventurada da iluminaçã o.

Aqui, a de iniçã o de equanimidade incomensurá vel també m lembra a de Vasubhandu, “Seres


limitados sã o iguais (mnyam-pa).” També m nos faz lembrar da discussã o de Longchenpa de que a
equanimidade age como circunstâ ncia para que o orgulho e a arrogâ ncia se dissolvam na
consciê ncia profunda equalizadora (mnyam-pa nyid-kyi ye-shes). Assim, a equanimidade inclui tanto
uma atitude igualitá ria perante todos os seres, livre de apego e aversã o, quanto um compreensã o
de que todos sã o iguais no sentido de nã o terem uma existê ncia verdadeira encontrá vel.

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A Mandala do Corpo de Chakrasamvara


Em Uma Sadhana Abreviada da Linhagem Ghantapada da Mandala do Corpo de Chakrasamvara
(Grub-chen Dril-bu-pa'i lugs-kyi 'Khor-lo bde-mchog lus-dkyil-gyi bdag-bskyed mdor-bsdus) de Trijang
Rinpoche (Yongs-'dzin Khri-byang Rin-po-che Blo-bzang ye-shes):

· Amor incomensurá vel - é a aspiraçã o de “Que todos os seres obtenham a felicidade que é
especialmente nobre”

· Compaixã o incomensurá vel - “Que todos os seres limitados estejam livres do sofrimento e das
causas do sofrimento”

· Alegria incomensurá vel - “Que todos os seres limitados nunca se afastem da felicidade (bem
aventurança) que já conquistaram”

· Compaixã o incomensurá vel - “Que todos os seres limitados se livrem de todas as a liçõ es
mentais primá rias e secundá rias”

Trijang Rinpoche usa a mesma formulaçã o do amor incomensurá vel que o Quarto Panchen Lama
usou em Um Yoga Extensivo de Seis Sessões. A felicidade que é especialmente nobre refere-se à
consciê ncia de bem aventurança de um arya. Nã o é feita nenhuma mençã o à s causas dessa
felicidade. Entretanto, a compaixã o incomensurá vel repete a de iniçã o mais comum e inclui
explicitamente a aspiraçã o de que os outros també m estejam livres das causas de sofrimento.

A de iniçã o de alegria incomensurá vel lembra a especi icaçã o de Maitreya, em Uma Filigrana para
os Sutras Mahayana, de que o objeto para essa atitude é todos os seres senciente que já possuem
felicidade. Segundo a explicaçã o oral, “a felicidade que já conquistaram” refere-se ao estado de bem
aventurança de um buda. Assim, a de iniçã o de Trijang Rinpoche é semelhante à do Quarto Panchen
Lama em Yoga Extensivo de Seis Sessões, na qual alegria incomensurá vel é a aspiraçã o de que os
outros seres tenham sempre a felicidade da liberaçã o pura.

A de iniçã o de equanimidade incomensurá vel parece ser uma forma mais geral de se expressar a
aspiraçã o de que todos os seres limitados tenham a equanimidade que nã o inclui pensamentos de
a liçõ es mentais de apego ou aversã o. Parece derivar da mençã o de Maitreya em Uma Filigrana
para os Sutras Mahayana, de que o objeto da equanimidade incomensurá vel é a mente que tem
a liçõ es mentais. També m parece estar de acordo com a explicaçã o de Asanga sobre a funçã o da
equanimidade, em Antologia de Tópicos Especiais de Conhecimento, “nunca permitir que a mente
ique sob in luê ncia de a liçõ es mentais primá rias ou secundá rias e nunca dar oportunidade para o
surgimento de fatores associados com confusã o (zag-bcas; fatores maculados, fatores
contaminados).”

Nesse texto, Asanga a irma que existem trê s tipos de equanimidade: uma variá vel subjacente ('du-
byed, Skt. samskara) incluı́da no agregado de outras variá veis subjacentes, um sentimento (tshor-ba,
Skt. vedana) e uma atitude incomensurá vel. A funçã o mencionada acima é a da equanimidade como
variá vel subjacente, nã o da equanimidade incomensurá vel. Como variá vel subjacente, a
equanimidade é de inida por Asanga como um estado mental apropriado, que espontaneamente
realiza seu propó sito sem se deixar in luenciar por agitaçã o ou torpor.
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Vajrabhairava e Hayagriva
Outra variaçã o na formulaçã o ocorre em:

· Uma Sadhana Extensa de Vajrabhairava de Treze Deidades (dPal rdo-rje 'jigs-byed lha bcu-gsum-
ma'i sgrub-thabs rin-po-che'i za-ma-tog) do Primeiro Changkya (lCang-skya Ngag-dbang blo-
bzang chos-ldan)

· Uma Sadhana Extensa de Ekavira Vajrabhairava (bCom-ldan-'das dpal rdo-rje 'jigs-byed dpa'-bo
gcig-pa'i sgrub-thabs bdud-las rnam-rgyal-gyi ngag-'don nag-'gros blo-dman las dang-po-pa-la
khyer bde-bar bkod-pa) de Pabongka

· Uma Sadhana Extensa da Linhagem Kyergang Lineage de Hayagriva Secretamente Realizado


(sKyer-sgang lugs-kyi rta-mgrin gsang-sgrub-kyi sgrub-thabs rgyas-pa rTa-mchog rol-pa'i zhal-
lung).

Segundo essa formulaçã o:

· Amor incomensurá vel - é a aspiraçã o de “Que todos os seres sejam felizes”

· Compaixã o incomensurá vel - “Que todos os seres limitados estejam livres do sofrimento”

· Alegria incomensurá vel - “Que todos os seres limitados nunca se afastem da felicidade (bem
aventurança)”

· Equanimidade incomensurá vel - “Que todos os seres limitados permaneçam em


equanimidade, sem que sejam perturbados por pensamentos conceituais sobre as oito coisas
transitó rias da vida ou sobre a consciê ncia que toma objetos e os objetos por ela tomados.”

Aqui, de acordo com uma explicaçã o oral, faz-se necessá rio preencher vá rias lacunas. Por exemplo:
as causa da felicidade no caso do amor incomensurá vel e as causas do sofrimento no caso da
compaixã o incomensurá vel. Apensar de nã o estar explı́cito, a felicidade a que se refere a alegria
incomensurá vel é a consciê ncia bem aventurada de um buda.

A de iniçã o da equanimidade incomensurá vel parece seguir a Antologia de Tópicos Especiais de


Conhecimento, de Asanga, assim como na Sadhana da Mandala de Corpo de Chakrasamvara.
Pensamentos conceituais sobre as oito coisas transitó rias da vida ('jig-rten-gyi chos-brgyad, oito
dharmas mundanos) e sobre a consciê ncia que toma objetos, e seus objetos, caem na esfera da
funçã o da equanimidade de nã o permitir que surjam fatores associados a confusã o. As oito coisas
transitó rias da vida sã o elogio e crı́tica, ganhos e perdas, coisas indo bem e coisas indo mal, e boas
e má s notı́cias. Os pensamentos conceituais sobre elas, e associados com confusã o, sã o os de
sentir-se animado com o primeiro item dos pares acima e deprimido com o segundo. Nã o se deixar
perturbar por pensamentos conceituais associados a confusã o sobre a consciê ncia que toma
objeto e seus objetos lembra a interpretaçã o Chittamatra das formas sem alvo das atitudes
incomensurá veis. Asanga escreveu seu texto a partir do ponto de vista Chittamatra.

Colocando a Compaixão em Primeiro Lugar


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A Linhagem Luipa de Chakrasamvara


Outra variaçã o encontrada nas sadhanas Gelug é a colocaçã o da compaixã o em primeiro lugar. Por
exemplo, em Uma Sadhana para a Linhagem Luipa de Chakrasamvara (dPal 'khor-lo sdom-pa lu-yi-pa
lugs-kyi mngon-rtogs) do Quarto Panchen Lama,

· Compaixã o incomensurá vel - é a aspiraçã o de “Que todos os seres estejam livres do


sofrimento”

· Amor incomensurá vel - “Que todos os seres limitados sejam felizes (bem aventurados)”

· Alegria incomensurá vel - “Que todos os seres limitados estabilizem a felicidade (bem
aventurança) que já conquistaram”

· Equanimidade incomensurá vel - “Que todos os seres limitado tenham mentes que
permaneçam no gosto ú nico da natureza da realidade (de-bzhin-nyid).”

A compaixã o també m vem antes do amor na prá tica de dar e receber (gtong-len, tonglen). Esta
prá tica implica em darmos felicidade aos outros com amor e tomarmos seu sofrimento com
compaixã o. No verso sobre o dar e receber do texto Cerimônia de Oferendas ao Mestre Espiritual
(Bla-ma mchod-pa, The Guru Puja), do Quarto Panchen Lama, a tomada do sofrimento com
compaixã o precede a doaçã o de felicidade com amor. Em Liberaçã o na Palma da Mã o, Pabongka
explica que primeiro precisamos tomar com compaixã o o sofrimento dos outros, caso contrá rio
eles nã o conseguirã o sentir a felicidade que tentamos dar com amor. Novamente, apesar das
causas do sofrimento e felicidade nã o serem mencionadas, estã o implı́citas.

A aspiraçã o da alegria incomensurá vel, de que a felicidade já alcançada permaneça está vel, é a
aspiraçã o de que os seres permaneçam sempre no estado de bem aventurança de um buda. O que
é semelhante à aspiraçã o de alegria incomensurá vel encontrada nas Sadhanas da Mandala de Corpo
de Kalachakra e Chakrasamvara, citada acima.

A de iniçã o de equanimidade incomensurá vel, como a aspiraçã o de que a mente de todos os seres
permaneça no gosto ú nico da natureza da realidade, é uma aspiraçã o de que suas mentes
permaneçam na compreensã o de que todos os seres estã o livres de maneiras impossı́veis de
existê ncia. Essa de iniçã o també m está de acordo com a da Sadhana Kalachakra, em que essa
atitude aspira que todos os seres tenham a igualdade da equanimidade.

Akshobhya
Em Uma Sadhana de Vajra Akshobhya (bCom-ldan-'das rdo-rje mi-'khrugs-pa'i sgrub-dkyil yongs-su
rdzogs-pa'i cho-ga mngon-par dga'-ba'i sgo-'byed), també m do Quarto Panchen Lama,

· Compaixã o incomensurá vel - é a aspiraçã o de “Que todos os seres estejam livres do


sofrimento”

· Amor incomensurá vel - “Que todos os seres limitados nunca se afastem da felicidade.”

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17/09/2020 As Quatro Incomensuráveis nas Escolas Hinayana, Mahayana e Bon — Study Buddhism

Alegria incomensurá vel - “Que todos os seres limitados tornem-se felizes (bem aventurados)
·
com a felicidade (bem aventurança) de um buda”

· Equanimidade incomensurá vel - “Que todos os seres limitados passem para o nirvana com o
nirvana incompará vel de um buda”

Aqui, o amor incomensurá vel é formulado da mesma maneira que, em geral, a alegria
incomensurá vel é formulada. No entanto, a alegria incomensurá vel ainda é a aspiraçã o de que os
outros tenham a felicidade ou bem aventurança de um buda. A equanimidade incomensurá vel é a
aspiraçã o de que todos consigam atingir a iluminaçã o de um buda, com a qual ajudamos
igualmente a todos, compreendendo que nada e ningué m possui uma existê ncia encontrá vel.

Conclusão
A partir desta pesquisa, ica claro que existe uma grande variedade de entendimentos, de iniçõ es e
prá ticas das quatro atitudes incomensurá veis. Essa diversidade indica o amplo escopo da prá tica e,
se ao invé s de vermos as diferentes tradiçõ es como contraditó rias tomarmos consciê ncia da
grande variedade de formas, enriqueceremos nossa prá tica.

Resumindo, amor incomensurá vel pode incluir a aspiraçã o de que todos os seres limitados:

· Sejam felizes

· Sejam isicamente felizes

· Tenham a felicidade de um ser limitado (um ser que ainda nã o é um buda)

· Nunca se afastem a felicidade de um ser limitado

· Tenham a felicidade de um arya

· Tenham a felicidade temporá ria de um dos estados melhores de renascimento e a felicidade


de initiva da iluminaçã o

· Tenha qualquer dessas felicidades e as causas dessas felicidades

Compaixã o incomensurá vel pode incluir a aspiraçã o de que todos os seres limitados:

· Estejam livres do sofrimento (os trê s tipos de sofrimento)

· Estejam livres do sofrimento e das causas do sofrimento

Alegria incomensurá vel pode incluir alegrar-se com:

· O bem estar e o esforço dos seres limitados em serem construtivos e trabalharem para a
liberaçã o

· A prosperidade dos seres limitados

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A alegria em geral dos seres limitado


·
· O fato dos seres limitados encontrarem a felicidade e as causas da felicidade.

També m pode incluir a aspiraçã o de que todos os seres:

· Tenham felicidade mental

· Tenham a alegria de estarem sempre felizes (a felicidade de um buda)

· Nunca se afastem da felicidade

· Sempre percebam a felicidade inata como parte de sua natureza bú dica

· Nunca se afastem da felicidade pura dos estados superiores de renascimento e da liberaçã o

· Nunca se afastem da felicidade pura da liberaçã o

· Nunca se afastem da felicidade pura de um buda

· Nunca se afastem da felicidade pura (de um buda) que é livre de sofrimento

· Nunca se afastem da felicidade (de um buda) que já conseguiram

· Permaneçam está veis com a felicidade (de um buda) que já conseguiram

Equanimidade incomensurá vel é um estado mental que inclui:

· Tratar todos os seres da mesma forma, no sentido de ajudá -los igualmente, nã o se envolvendo
demais e nem sendo indiferente, já que, em ú ltima aná lise, todos precisam atingir a liberaçã o
por seu pró prio esforço.

· Estar totalmente tranquilo e considerar igualmente a felicidade e a infelicidade, o prazer e a


dor, em todas as circunstâ ncias, como quando encontramos amigos ou inimigos, e estar livre
das atitudes de amor, compaixã o e alegria incomensurá vel

· Estender amor, compaixã o e equanimidade igualmente para todos, sem importar-se se sã o
amigos, inimigos ou estranhos

· Estar livre de apego, aversã o e indiferença em relaçã o aos outros e nã o sentir que algumas
pessoas sã o pró ximas e outras distantes

· Com a compreensã o de que todos sã o iguais

· Com a aspiraçã o de que todos os seres sejam igualmente bene iciados.

També m pode incluir a aspiraçã o de que todos os seres:

· Nã o tenham sentimentos de proximidade ou distâ ncia e atraçã o ou repulsã o,

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Tenham a equanimidade que é livre de sentimentos de proximidade ou distâ ncia e atraçã o ou


·
repulsã o

· Tenham a equanimidade que é livre de sentimentos duais de proximidade ou distâ ncia e


atraçã o ou repulsã o,

· Tenham a equanimidade da igualdade (a consciê ncia profunda equalizadora de que todos os


seres sã o iguais em sua necessidade de estarem livres do sofrimento e de que todos sã o
igualmente destituı́dos de formas impossı́veis de existê ncia),

· Estejam livres de todas as a liçõ es mentais primá rias e secundá rias,

· Estejam sempre na equanimidade, imperturbá veis por pensamentos conceituais sobre as oito
coisas transitó rias da vida e pela consciê ncia tomadora de objetos e seus objetos,

· Tenham mentes que permaneçam sempre no gosto ú nico da natureza da realidade


(vacuidade),

· Passem para o nirvana com o nirvana supremo de um buda.

Alé m disso, para que as quatro atitudes sejam incomensurá veis, é necessá rio que tenham como
alvo todos os seres limitados ou, mais especi icamente, todos os seres presentes em um dos seis
estados de renascimento do plano de desejos sensoriais. Conforme algumas explicaçõ es Mahayana,
para que as quatro atitudes sejam incomensurá veis, elas precisam estar acompanhadas das seis
atitudes de amplo alcance (seis perfeiçõ es), e principalmente de um dos quatro nı́veis de
estabilidade mental e um dos trê s tipos de consciê ncia discriminativa.

A sequê ncia das quatro atitudes incomensurá veis pode começar com o amor, a equanimidade ou a
compaixã o. E ainda, na prá tica Mahayana, as quatro podem ser cultivadas como um mé todo para
desenvolver-se bodhichitta, a im de alcançarmos a iluminaçã o de forma mais e iciente.

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