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C U LT O | M O D A | E N T R E V I S TA S | C U R I O S I D A D E S | R E P O R TA G E M | G A D G E T S

S U M M E R 2 0 2 0

FERNANDO MENDES
MADE IN PORTUGAL
SUMÁRIO
FIXAS

142
4 EDITORIAL
O diretor, José Santana,
IN & OUT
70 VINHOS
reflete sobre um verão que
Duas casas de família que
será necessariamente
Especiais produzem vinhos que estão a
diferente para todos nós.
Documento dar cartas no mercado: conheça
84 MUSTFOLLOW o Família Margaça – o verdadeiro
Um museu digital feito de vinho de Pias – e os vinhos
artistas fechados em casa, da Quinta de São Tiago.
um pouco por todo o mundo.

VOZES
CULTO 89 ESCOTILHA
26 TELEVISÃO Matilde Campilho discorre
Celebramos 20 anos de reality sobre o toque e, sobretudo,
shows em Portugal olhando para a a falta que ele nos faz.
forma como mudaram a televisão.
30 CENTENÁRIO ESPECIAIS
Amália nasceu há 100 anos e 112 TEMA DE CAPA
festejava o aniversário em duas Cresceu no Parque Mayer e foi
datas diferentes. Esta é só uma no teatro que começou a brilhar.
das curiosidades que acumulou Hoje, Fernando Mendes encanta
em quase 80 anos de uma vida milhões no horário televisivo
recheada. antes do Telejornal.
89 MUSA
Inês Aires Pereira na primeira,
ESTILO na segunda e na terceira pessoa.
36 MODA Conheça a atriz que leva as
Fotografado na Messe-Berlin, este personagens para fora dos palcos.
editorial destaca a forma como
o emblemático edifício mudou 142 DOCUMENTO
a moda e foi mudado por ela. Um fotógrafo e um historiador
traçaram a rota dos escravos
46 TENDÊNCIAS levados de África para o Brasil.
Tome notas e inspire-se com Daí saiu um livro e não só.
os essenciais para este verão
e as tendências que aí vêm. 154 ESTADO DO RETÂNGULO
A pandemia deixou a economia
de rastos. A União Europeia tem
dinheiro para distribuir. Descubra
como e a quem, segundo os
planos do Governo.

CORPO
184 SEXO
Um pequeno manual para saber
o que dizer quando a sua

98
cara-metade quer sexo e você
prefere continuar a ver Netflix.

MOTORES
190 CLÁSSICO
Era uma espécie de

82
todo-o-terreno, só que de plástico.
Recorde o príncipe das dunas
e dos areais que nos apaixonou
Fernando Mendes, Camisa e calções em seda, nos anos 80.
fotografado por In&Out Especiais Dior Men´s Collection.
Frederico Martins. Gadgets Lifestyle Moda Cinto em pele, Acne Studios.

2 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020


EDITORIAL

José Santana
Diretor GQ Portugal

S
ento-me a escrever este editorial Nesta mesma situação estão milhares de mas como nunca as vivemos. Com regras
ainda com a imagem da minha portugueses. Mesmo ao lado de minha casa e responsabilidades com que nunca pensá-
mãe a dois metros de distância, há uma residência no rés do chão. Os fami- mos ter de viver. O verão de 2020 ficará nas
nós sentados frente a frente, liares ficam na rua e falam pela janela, há nossas memórias para sempre. Mas o portu-
como se estivéssemos numa qualquer en- tanto de belo nesta imagem como há de guês tem uma arma secreta, que não cura,
trevista de emprego, mas não é uma entre- triste. Belo, porque sentimos o amor que mas apazigua, que é o humor.
vista, é a visita de meia hora que um fami- temos uns pelos outros – talvez nos tenha A nossa capa é uma caricatura humorís-
liar, e apenas um, tem direito a fazer uma feito ter mais vontade de estar com os nos- tica de um verão distópico. A imagem de DAS MELHORES UVAS NASCEM OS MELHORES VINHOS.
vez por semana. Como é normal, não há sos pais, com os nossos avós. Não por os um português com um drone a sobrevoá-lo FROM THE FINEST GRAPES COMES THE FINEST WINES.
abraços, nem beijos. amarmos mais, mas por nos apercebermos surgiu-me na cabeça e, quase em simultâ-
Olho para ela e penso que vai fazer qua- de uma forma abrupta de que não sabemos neo, veio-me a ideia de o Fernando Mendes
se cinco meses que está ali fechada, tenho quanto tempo temos ainda com a pessoa ser esse português. Num estudo recente*,
vontade de pegar nela abraçá-la e levá-la a que tanto amamos. Mendes surge entre os quatro primeiros
tomar um café na pastelaria onde há os que- Muitos de nós pensávamos que, por esta portugueses/as em que mais confiamos.
ques de que tanto gosta. Em vez disso digo- altura, já não estaríamos a viver nada dis- Confiarmos-lhe a nossa capa de verão pa-
*ESTUDO MARKTEST FIGURAS PÚBLICAS 2020.

-lhe que lhe trouxe umas fatias de bolo que to, que o vírus já estaria longe e estaríamos receu-nos a melhor opção para nos lem-
a minha irmã lhe fez e ela sorri e eu sorrio a gozar alguns dias de férias. O verão não brar que, com humor, isto vai passar mais
por detrás da máscara, e ficamos em silên- fugiu, o calor veio com força e acabaremos, depressa. E sempre que posso tento fazer
cio a olhar um para o outro. muitos de nós, a ter alguns dias de férias, sorrir a minha mãe. l

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4 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020


COLABORADORES Diretor: José Santana, jose.santana@gq.light-house.pt

REDAÇÃO
Chefe de Redação: Diego Armés, diego.armes@gq.light-house.pt
Redação: Ana Saldanha, ana.saldanha@gq.light-house.pt
Colaboradores: Beatriz Silva Pinto, Paulo Narigão Reis, Rui Catalão, Matilde Campilho, Bruno Vieira Amaral,
José Couto Nogueira, Luís Pedro Nunes, Tony Parsons, José Machado (texto)
Assistente de Redação: Paula Bento, paula.bento@gq.light-house.pt
Revisão: Manuela Gonzaga
Tradução de texto: Mathilde Misciagna

MODA
IÑIGO VIÑAS Editora de Moda:
Casting:
Maria Falé, maria.fale@gq.light-house.pt
Dominika Svetikova
Produção de Moda: Helena Silva (Snowberry Production)
A sua estética não engana: Colaboradores: Davor Jelusic, Javier de Pardo, Johanna Bouvier (styling), Elodie Fiúza, Emiliano Riccardi,
divertida, positiva, colorida, Ivana Zoric (grooming), Cláudio Pacheco (cabelos)
dir-se-ia mesmo primaveril,
é assim o perfil do trabalho ARTE
do fotógrafo espanhol, Diretora de Arte: Ânia Figueiredo, ania.figueiredo@gq.light-house.pt
Designer: Inês Ferreira, ines.ferreira@gq.light-house.pt
que afirma procurar novas
maneiras de apresentar os FOTOGRAFIA e VÍDEO
Diretor de Fotografia: Branislav Simoncik, branislav.simoncik@gq.light-house.pt
modelos masculinos de modo Diretor de Vídeo: Ismael de Jesus

JAVIER a criar novas perspetivas


sobre a moda de homem e a
Edição de vídeo:
Colaboradores:
Catarina Almeida
Diane Betties, Frederico Martins, Iñigo Awewave, Kenton Thatcher, Kosmas Pavlos, César Fraga (fotografia)

DE PARDO beleza individual. Apesar de ONLINE


Jornalistas: Rui Matos, Mathilde Misciagna
O stylist espanhol o seu foco principal incidir Estagiária: Ana Catarina Machado
apaixonou-se cedo pela na moda masculina, Iñigo Redes Sociais: Fernanda Altenfelder
arte da fotografia de moda, também realizou trabalhos com PUBLICIDADE & MARKETING
mas a sua carreira começou manequins femininos. As suas Advertisement & Events Manager: Marta Castro, marta.castro@light-house.pt
verdadeiramente quando se MATHILDE produções são pautadas pela Advertisement Senior Account:
Italian Office:
Laura Sena, laura.sena@vogue.light-house.pt
MIA srl
KENTON mudou para Paris. Trabalhou
como freelancer para títulos MISCIAGNA teatralidade e, nesta edição,
assina o editorial El Pescador.
Eventos: Leonor Centeno, eventos@light-house.pt

THATCHER como El Pais, Fucking Young “Sempre gostei de contar


DEPARTAMENTO DE ASSINATURAS assinaturas@light-house.pt | 218 294 102 - gqportugal.pt/assine

Não é novidade nestas e Puss Puss Magazine, e é histórias, quer sejam escritas Impressão: Lidergraf Sustainable printing
Rua do Galhano, 15, 4480-089 Vila do Conde.
páginas, mas é sempre de nas pequenas excentricidades quer não, e amo moda pela sua Email: lidergraf@lidergraf.pt | tel. 252 103 300
saudar o regresso de Kenton do dia a dia que encontra capacidade de comunicar sem
Thatcher, fotógrafo com uma inspiração. Atento aos detalhes palavras”, é assim que explica Distribuição: VASP – Soc. de Transportes e Distribuição, Lda.
MLP: Media Logistics Park – Quinta do Grajal
carreira vasta e recheada, ao e à diversidade no que toca porque veio parar ao jornalismo Venda Seca – 2739-511 Agualva-Cacém
nosso convívio. Desta vez, o às definições e interpretações e à LightHouse. A sua Email: geral@vasp.pt
londrino que pode gabar-se de estilo, é dele o styling da formação combina Ciências da Distribuição de Assinaturas: Lidergraf Sustainable printing
de já ter fotografado, só para produção El Pescador. Comunicação e Jornalismo de Email: lidergraf@lidergraf.pt
dar exemplos futebolísticos, Moda e, pelo caminho, passou
José Mourinho ou Cristiano por agências de comunicação LIGHT HOUSE – EDITORA, LDA.
Administração: José Santana, Sofia Lucas
Ronaldo, assina a produção e pelos departamentos de Conselho Editorial: Branislav Simoncik, José Santana, Sofia Lucas
com a nossa musa Inês Aires comunicação da Inditex, Detentores do Capital: Branislav Simoncik (12,5%), Jan Kralicek (12,5%),
Pereira. Farfetch, ModaLisboa, etc. José Santana (25%), Sofia Lucas (25%), Pure Lisbon Hospitality, Lda. (25%)

Atualmente é tradutora e Diretora de Novos Projetos: Sara Andrade (sara.andrade@light-house.pt)


jornalista online da GQ Diretora Financeira: Patrícia Pão Duro, patricia.paoduro@light-house.pt
e da Vogue. Informática: Pedro Cargaleiro – Micropastilha

Sede Redação e Publicidade: Rua Rodrigues Sampaio, 18, 2.º Andar, 1150-280 Lisboa
Email: geral@gq.light-house.pt | Tel. 218 294 102
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A GQ Portugal é publicada com o licensing agreement da


Condé Nast Internacional/Advance Magazine Publisher Inc. por:
Propriedade/Editora: Light House – Editora, Lda.

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513 529 977
A edição n.º 177 da GQ marca o regresso às produções Contribuinte: 513 529 977
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fotográficas para capa depois de uma paragem imposta pela E.R.C. n.º: 126731
pandemia – e que saudades tínhamos. Desta vez, o convidado Em cumprimento do Art.º 16, n.º 3, da Lei de Imprensa, informamos: Tiragem média: 20.000 exemplares
de honra foi Fernando Mendes, incontestável gigante da televisão
portuguesa. Convidámos o célebre apresentador para uma
produção que passou pela nossa redação e pelo terraço que, ainda
que modesto – não se trata de um rooftop com bar e piscina –,
deu-nos a vista de Lisboa como pano de fundo para esta capa
de verão (feita com as devidas medidas de segurança, claro). ESTATUTO EDITORIAL: A GQ é uma revista mensal, independente e livre, direcionada para o público masculino. A GQ aborda temas de interesse transversal, como cultura, moda, desporto e lifestyle, manten-
do uma forte aposta no jornalismo de investigação. A GQ compromete-se a apoiar editorialmente a moda e a cultura portuguesas. A GQ nunca se deixará condicionar por interesses partidários e económicos
ou por qualquer lógica de grupo, assumindo responsabilidade apenas perante os seus leitores. A GQ coloca a liberdade no centro das suas preocupações e acredita que pode desempenhar um papel importan-
te ao nível da sensibilização social, promovendo uma sociedade mais informada e igualitária. A GQ privilegia um design atrativo, revelando um cuidado com a imagem e o grafismo que deverão contribuir para o
6 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 equilíbrio da revista. A GQ dirige-se a um público de todos os meios sociais e de todas as profissões. A GQ estará sempre atenta à inovação, privilegiando as redes sociais e os formatos digitais, e promovendo
a interação com os seus leitores. A GQ assegura o respeito pelos princípios deontológicos e pela ética profissional dos jornalistas, assim como pela boa fé dos leitores.
C U LTO AGENDA

22 julho
MÚSICA • CINEMA • ARTE • EXPOSIÇÕES • LIVROS • PERSONALIDADES
J A PÃ O , 1 9 7 1
O estúdio japonês Nikkatsu foi fundado
em 1912 e com ele nasceu um cinema de
contracultura: Roman Porno (pornografia
romântica), o grito de provocação contra
a censura dos anos 70. O Roman Porno
destacou-se e conquistou por temas como a
pulsão erótica e a sexualidade inquietante,
inspirada pelos surrealistas franceses. O ciclo
de homenagem a um dos mais antigos estúdios

Still de Jumbo, filme em competição na categoria Lince de Ouro Ficção.


japoneses e ao género que fez despertar uma
geração de cineastas estará em exibição até
22 de julho no Cinema Nimas e conta com
clássicos como Os Amantes Molhados, de
Tatsumi Kumashiro e À Sombra das Jovens
Raparigas Húmidas, de Akihiko Shiota.

2 agosto
TÃO P E R TO , TÃO LO N G E
Mudam-se os tempos, aguça-se a criatividade. As close as far away
can be é o mote da 16ª edição do FEST que, além de Espinho,
chega ao Porto e a Lisboa, com sessões a acontecer em simultâneo
nas três cidades. No centro da programação estará o novo cinema
mundial, dando voz aos realizadores emergentes a quem os tempos de
incerteza puxaram o tapete. O festival realiza-se de 2 a 9 de agosto e a
programação completa poderá ser consultada em fest.pt.

16 agosto
CARAS
T A PA D A S
São o acessório dos tempos modernos,
mas a história das máscaras na
sociedade recua séculos e séculos. Na
exposição MÁscaras (masks), João
Laia (curador-chefe de exposições no
Kiasma Museum of Contemporary Art)
e Valentinas Klimašauskas (escritor e um
dos curadores do Pavilhão da Letónia na
31 julho

(GALERIA MUNICIPAL DO PORTO).


58ª Bienal de Veneza) propõem que
olhemos para os diferentes movimentos

FOTOGRAFIA: DINIS SANTOS


O REGRESSO em que as máscaras ganham propósito,
da camuflagem e proteção à imitação
A Fundação Gulbenkian já nos habituou a que agosto rime com jazz e este ano a música estará de volta ao Anfiteatro ao e caricatura. Para ver na Galeria
Ar Livre. Durante dois fins de semana, de 31 de julho a 9 de agosto, os concertos serão dedicados ao improviso e à música Municipal do Porto até 16 de agosto.
exploratória. A iniciativa, que vem substituir o Jazz em Agosto, tem como objetivo apoiar o regresso dos músicos de jazz
aos palcos e o seu reencontro com o público. Ao todo serão 10 concertos, 6 em Lisboa, 2 no Porto e 2 em Coimbra.
A iniciativa é uma parceria entre a Fundação Calouste Gulbenkian, o Jazz ao Centro Clube e a Associação Porta Jazz.

8 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 9


PREVIEW CULTO
A morada é 520 West
28th Street, Nova Iorque,
e foi um dos últimos
projetos de Zaha Hadid.

F E ST I VA L

LEITURAS
E M V I AG E M
O FICLO – Festival Internacinal de
Cinema e Literatura de Olhão já tem data
de regresso. Depois de um adiamento
forçado, o evento vai decorrer de 15 a 21 de
julho, com mais atividades ao ar livre, como
pede o bom tempo, e com as medidas de
segurança que os tempos exigem. A seleção
deste ano inclui uma retrospetiva sobre o
realizador espanhol Albert Serra, em que
todas as obras estarão ligadas à literatura,
e um ciclo italiano com clássicos de
Rossellini, Visconti, Antonioni e Pasolini.
As obras cinematográficas terão sempre
ligação à literatura e à temática da viagem
como ponto de partida para a exploração
da liberdade. Os bilhetes custam 4 euros.
Still de Viaggio in Italia de Roberto Rossellini que integra o Ciclo Italiano.

L I T E R AT U R A

Três reedições e um manual de dicas para o dia a dia.

RADAR ARQUITETURA
CONTRA‑
‑CORRENTE
CULTURAL Quebrou barreiras como primeira mulher
a ganhar o prémio Pritzker e a medalha
de ouro do Royal Institute of British
Este ano, verão rima com Architects. O livro de Philip Jodidio
o regresso dos espetáculos, compila os trabalhos mais emblemáticos
da artista como o Porto de Antuérpia,
das novidades e das estreias. o estádio Al Janoub e o mais recente O QUE FAZER DISCURSOS APRESENTAÇÃO DO ROSTO KAPUTT
Aproveite. terminal do aeroporto de Pequim. É uma DOS ESTÚPIDOS MARK TWAIN HERBERTO HELDER CURZIO MALAPARTE
homenagem a Zaha Hadid, a arquiteta MAXIME ROVERE Tinta da China Porto Editora Cavalo de Ferro
Por Ana Saldanha. Quetzal O homem que transformava Em 1968, a PIDE descreveu a obra O nome significa monte de
revolucionária cujos trabalhos pareciam
megalómanos demais para sair do papel. A estupidez pode estar na opinião qualquer discurso num como surreal e obscena, antes destroços. Escrito entre 1941
e na intolerância. Mas os estúpidos acontecimento. Até pode fazer de apreender 1.500 exemplares. e 1943, tem nome de expressão
são um problema que aparece no parte do seu imaginário associado Esta corajosa autobiografia que alemã porque o cenário que pinta
dia a dia, no emprego, na família. a Tom Sawyer e Huckleberry Finn, nunca voltou a ser editada é é dominado pela guerra e pela
Zaha Hadid Complete
Works 1979–Today, 2020
Maxime Rovere usa o humor para mas, desta vez, o destaque está um texto desconhecido pela morte, que tantas vezes se cruza
Edition. Philip Jodidio. Taschen. explicar como escutá-los e porque na sua sagacidade e capacidade generalidade dos leitores, mas paradoxalmente com jantares
€50, em taschen.com. é que eles governam o mundo. oratória. volta agora a ver a luz do dia. diplomáticos e luxos da corte.

10 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 11


CULTO PREVIEW PREVIEW CULTO

plo? A faixa de onde se extrai o nome do


disco – 100% Carisma surge logo no pri-
meiro verso –, e que se chama Comidas do
Infinito, “vem da tradução do nome de uma
loja em inglês, uma loja de comida orgânica
que se chamava Infinity Food”. Em portu-
guês, a coisa ganha uma aura mais metafí-
sica. “Gosto de fazer este tipo de jogo, esta
trasladação linguística, com expressões
sobre as quais penso ‘isto em português vai
ficar com bué sentido’.”
Não é apenas na escrita que 100% Ca-
risma se apresenta diferente dos trabalhos
anteriores de Vaiapraia. Além dos músicos
que rodeiam o artista principal – noutros
tempos, Vaiapraia apresentava-se com As
A COR DA AMBIÇÃO Rainhas do Baile, um combo feminino que,
Baseado no romance The Burnt Orange
entretanto, sofreu alterações, logo “esse
Heresy, de Charles Willeford, o filme
nome [na opinião deste que vos escreve, um
relata a história de um crítico de arte que
nome fabuloso] deixou de fazer sentido” –,
é contratado para roubar uma peça de um
a produção do álbum também se distingue
dos mais enigmáticos pintores da história.
dos registos anteriores, e isso é bem notório
Estreia a 9 de julho.
quando ouvimos o single Fogo Fera a rodar,
CINEMA
VAIAPRAIA
por exemplo, na Antena 3: não só entra na
playlist de uma rádio nacional chegando a
um público vasto, como faz todo o senti-

APRESENTA-SE
Enfim de volta às salas. do que assim seja. O som é bem arrumado
MÚSICA sem, contudo, retirar identidade à criação
de Vaiapraia. Quem assina a produção é o
músico português Luís Severo e o produ-
Um dos mais originais e peculiares artistas da cena musical tor brasileiro Adriano Cintra (ex-Cansei
de Ser Sexy), que se mudou para Lisboa e
nacional lançou o seu segundo álbum, 100% Carisma. cujo trajeto se cruzou, de um modo quase
Foi o motivo ideal para conversarmos com Vaiapraia. inevitável, com o de Rodrigo – “ele é com-
Por Diego Armés. panheiro de um amigo meu”, revela.
Lançar um disco neste contexto de pan-

E
demia é complicado e Vaiapraia sabe disso.
ste disco é dedicado à Ana Silva, “Mas quis lançá-lo, meter cá fora”, precisa
das Raincoats, e à Shirley, sua de fechar este capítulo, mesmo que os con-
companheira e manager da ban- certos sejam raros – há um marcado para
da.” Quem é o diz é o músico e as festas de Abiul (Pombal) a 7 de agosto
autor do disco, Vaiapraia, o nome artístico e nada mais, para já. Quanto a 100% Ca-
ROUGH AND ROWDY WAYS
de Rodrigo Soromenho Marques, um ra- tas como queercore foram-lhe coladas) e às risma, por enquanto só existe em formato
BOB DYLAN
pagão de quase 1,90 m, nascido em Setúbal letras irreverentes em que os elementos se digital. “Mandámos fazer vinil, mas ainda
Sony Music
em 1994 e que cresceu e se identifica com misturam: protesto e afirmação (Vaiapraia vai demorar um bocadinho a ficar pronto.”
Esperámos oito anos para Bob
o movimento riot grrrl. É dessa identifica- confessa a sua admiração por quem usa o Ficamos à espera. l
Dylan nos voltar a dar música
ção que vem a dedicatória a Ana da Silva, palco como plataforma de intervenção) an-
depois de Tempest, álbum
P AT R I C K TENET CAPONE que lhe valeu o Nobel da
de quem se tornou amigo. O disco a que dam de mãos de dadas com uma espécie de
Inspirado no desaparecimento A uma dupla de protagonistas Tom Hardy é Al Capone, um Rodrigo se refere é 100% Carisma, o mais surrealismo pop e passagens que são desa-
Literatura. O disco ainda não
de Rui Pedro, em 1998, o filme que tenta impedir a eclosão da empresário e contrabandista de recente longa duração de Vaiapraia, que, bafos pessoais.
tem um mês mas, segundo
FOTOGRAFIA: DIOGO SANTO.

conta a história de Patrick. Patrick Terceira Guerra Mundial junta-se bebidas que quase foi dono de antes deste, editou dois EPs e um álbum, Vaiapraia diz que, em 100% Carisma, a
a revista Rolling Stone, já se
tem 20 anos, mas até aos 8 foi a manipulação do tempo a que Chicago durante a Lei Seca. A 1755. Este último valeu-lhe alguma noto- sua escrita mudou. “Em vez de ser um pro-
afirmou como “um clássico
Mário. Mário foi raptado e, quando Christopher Nolan já nos habituou. história acompanha os últimos riedade no meio underground lisboeta gra- cesso irrefletido em que digo no imediato
absoluto”. O 39.º trabalho
regressa à família, é confrontado A história envolta em secretismo dias de vida de um dos gangsters ças à sonoridade original e distinta (etique- o que tenho para dizer, aqui passa mais
do músico embrulha humor
com alguém que já não existe. deixou espaço para que os fãs mais famosos da história e de por uma acumulação de vários rascunhos.
e patriotismo em blues 100% Carisma
Ainda que sejam a mesma pessoa, especulassem o que se passará como as memórias violentas e a Recolho de várias fontes, coisas que ouço,
e põe-no na pele de um Vaipraia
as duas identidades estão em no mesmo universo de A Origem. demência se apoderaram da sua coisas que digo, coisas do marketing e da Maternidade/
“cronista da América”.
conflito. Estreia a 23 de julho. Estreia a 12 de agosto. mente. Estreia a 20 de agosto. publicidade que acho ridículas.” Um exem- Tons To Tell

12 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 13


PARAFILIAS CULTO

Hibristofilia
Esta parafilia consiste em ter prazer
Harpaxofilia sexual com pessoas acusadas de crimes
Este fetiche passa pela pessoa excitar‑se violentos. Criminosos como violadores,
sexualmente com assaltos. Um harpaxófilo assassinos, de assaltos à mão armada e
pode colocar a sua integridade física, ou a outros crimes em que as vítimas sejam
própria vida, em risco. O prazer pode ser sobretudo mulheres são os que mais
suscitado pela surpresa com um assalto despertam desejo aos indivíduos que
em curso (por exemplo, a uma bomba de têm este fetiche. Por larga margem as
gasolina ou a um banco), ou, em casos Climacophilia mulheres são quem mais “sofre” desta
mais extremos, por assaltos que envolvam De todos os fetiches sexuais que existem parafilia. Os Estados Unidos são a maior
violência. Existem vários registos de no mundo (e são muitos), este deve potência militar do mundo, mas têm mais
pessoas que, durante assaltos em curso, ser possivelmente o mais doloroso reclusos no país que militares. Foi lá que
acabam por não conseguir resistir e de todos. Climacophilia consiste em a há algumas décadas começou a acontecer
atingem o orgasmo. Existem, na Internet, pessoa sentir um grande prazer sexual ao um fenómeno nas prisões, que levou a
vídeos de câmaras de segurança que cair de escadas. É complicado para quem que fossem feitos vários estudos para se
mostram alguns desses casos. Como o não tem este tipo de parafilia entendê‑la perceber o seu motivo. Começou com
caso de uma senhora que estava numa loja e perceber de onde a pessoa tira os prisioneiros começarem a receber
onde está a decorrer um assalto, e a meio exatamente o prazer, e sobretudo deixa bastantes cartas de fãs do sexo feminino.
a senhora não consegue resistir e começa qualquer um com imensas dúvidas. O Mais tarde passou a ser o aumento
a gritar e gemer de prazer, acabando que dará mais prazer às pessoas que têm exponencial das visitas conjugais de certos
por cair no chão de tão intenso que é o este fetiche? Cair ao subir ou ao descer as prisioneiros que chamou a atenção. De
orgasmo. Isto pode parecer caricato, mas escadas? Será enquanto decorre o ato da há alguns anos para cá são muitos os
existe um lado mais sombrio. Criminosos queda em si? Será no final? Ou será das prisioneiros que têm lista de espera para
não gostam de ser surpreendidos, as dores físicas que seguramente advêm das visitas conjugais. As listas repletas de
reações que estas pessoas acabam por ter quedas que a pessoa tira prazer? mulheres que querem fazer sexo com
de forma involuntária acabam por muitas São perguntas que ficam sem resposta. eles, por vezes chegam a ser de anos.
vezes resultar mal para elas. Importa Os homens são na maioria criminosos
referir que também o parceiro de quem condenados por crimes de violação
tem esta parafilia acaba muitas vezes por ou assassinato. Outro fator bastante
se meter em problemas. São várias as perturbador é que muitos destes homens
ocorrências de companheiros que acabam foram a vida toda frustrados sexualmente,
detidos e a braços com a justiça por terem e, para a maioria deles, todo o sexo que
tentado agradar à sua cara metade – quer tiveram durante a vida tinha sido pago. De
tenha sido com tentativas de assalto um momento para o outro, têm mulheres
reais, como também falsas tentativas que Anadentisfilia dos 50 estados a enviar cartas de amor e
apenas tinham como alvo a cara metade, A maioria das pessoas não consegue a quererem fazer sexo com eles. Convém
mas que acabaram por correr mal. resistir a um belo sorriso. Mas, para referir também que muitos acabam
quem tem este fetiche, não há mesmo por casar na prisão e as esposas
nada melhor que um sorriso vazio. muitas vezes aceitam que eles continuem
Anadentisfilia é a atração sexual por a ter visitas conjugais de outras mulheres.

FOTOGRAFIA: UNIVERSAL IMAGES / GETTY IMAGES.

Gostos para tudo


pessoas sem dentes. Para elas, o ponto Os estudos feitos por várias entidades
mais alto do ato sexual é quando e universidades americanas apontaram
recebem sexo oral do companheiro ou a hibristofilia como uma das grandes
companheira a quem faltam todos ou responsáveis por este fenómeno.
muitos dos dentes. Apesar de mais raro, Obviamente isto não acontece apenas
quando são as próprias pessoas com esta por terras do Tio Sam, é algo que
parafilia quem tem falta de dentes, elas “afeta” mulheres (e alguns homens)
Todos temos desejos, fantasias ou fetiches sexuais. Os fetiches ainda são, muitas vezes, alcançam o clímax não ao receber, mas por todo o mundo. Um dos dados mais
sim ao serem elas a dar à cara‑metade conturbadores de alguns dos estudos
assunto-tabu. Mas não para nós. Neste artigo, quebramos preconceitos e falamos prazer. Gostos não se discutem e cada um é o facto de muitas destas mulheres
de algumas parafilias sexuais que são pouco conhecidas do grande público. sabe de si. Uma coisa é certa, a pessoa só conseguirem atingir o orgasmo se o
que tem este fetiche poupa ao longo da parceiro tiver cometido algum tipo de
Por José Machado. vida uma fortuna em cuidados dentários. crime violento contra outras mulheres.

14 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 15


CULTO PARAFILIAS

Dendrofilia
No verão, não há nada como uma bela
salada para refrescar. Seja por ideologia
ou por saúde, vivemos num mundo
onde cada dia mais pessoas se tornam
vegetarianas. Está mais que comprovado
que os vegetais e a fruta estimulam o
bem-estar e a saúde. Mas, ao que parece,
Actirasty não é só isso que estimulam. Dendrofilia
Não há nada como um belo dia de sol. é o fetiche sexual por árvores, plantas,
A palavra sol traz-nos logo à cabeça o frutos ou vegetais. Esta parafilia pode
verão, praia, passeios, e tantas outras provocar vários tipos de desejo na pessoa
coisas boas. É ele que nos proporciona que a tem. Pode ir de sentir atração por
a tão falada vitamina D, de que tanto uma árvore e ter uma enorme vontade de
precisamos. O sol é, de facto, algo se roçar nela até acabar por se masturbar
maravilhoso,mas para algumas pessoas à frente dela. Ou, por exemplo, por inserir
consegue ser ainda mais. Raios de sol? frutos ou vegetais
Já pensou sobre isso? Algumas pessoas no ânus ou na vagina. Estes são apenas
pensam neles todos os dias e não dois exemplos, existem muitos outros.
lhes conseguem resistir. Actirasty é o Mas basicamente tudo o que envolva
fetiche por raios de sol. Indivíduos ficam uma atração ou desejo sexual por um Agalmatofilia
excitados sexualmente e atingem o clímax (ou mais) dos elementos acima referidos, Este fetiche consiste em a pessoa sentir
só de os ver. O dia a dia destas pessoas enquadra-se nesta parafilia. Pelos vistos, atração e desejo sexual por estátuas,
não deve ser fácil. Tendo em conta que a fruta e os vegetais fazem bem a tudo, bonecas e outros objetos inanimados
os raios de sol estão presentes em todo até à vida sexual de alguns. (derivados desses). Por norma, estão
o lado, estas pessoas vivem sempre nus. Este fetiche não é novo. Existem
rodeadas da sua tentação sexual. Mas registos históricos anteriores a 1900 em
este não é o único fetiche neste meio que é possível ler histórias de pessoas
da meteorologia, existem outros. Como que estavam perdidas de amor por
o fetiche por trovoadas, neve ou vento, estátuas. Um dos primeiros registos
entre outros exemplos. Uma coisa é certa, foi o do psiquiatra alemão Richard von
não importa o tempo que faça, existem Krafft-Ebing que, em 1877, registou
seguramente algumas pessoas que o caso de um jardineiro que tentou
ficam muito excitadas com ele. Nasofilia o coito com uma estátua de Vénus
Fetiche sexual pelo nariz. Mais de Milo. Mais tarde, em consulta, o
concretamente, por tocar, lamber ou jardineiro afirmou que não conseguia
chupar o nariz de outra pessoa. Os resistir ao impulso que aquela estátua
nasófilos podem também sentir-se gerava nele. Mas esta parafilia não
atraídos sexualmente pelo formato se fica pelas estátuas, pode ir de
ou tamanho do nariz. Para outros, o bonecas tipo Barbie a, por exemplo,
prazer só é alcançado quando levam as um manequim de loja. Manequins são,
coisas a um máximo. A alguns homens, aliás, a seguir às estátuas, os objetos
Omorashi por exemplo, é o facto de imaginarem de maior desejo de quem tem esta
Este fetiche nasceu no país do sol a penetração do nariz de alguém que parafilia. No Japão existem casos de
nascente. O Japão é um dos locais onde lhes dá prazer. Para outros, é comer a homens que se casaram com bonecas.
nasceram algumas das parafilias mais secreção nasal (ranho ou macacos) do O desejo por bonecas sexuais altamente
insólitas, e esta é seguramente uma delas. parceiro. Este é, de facto, um dos fetiches realistas no Japão é grande. Os valores
Ela consiste em ter prazer sexual ao ver mais invulgares desta lista, e que nos faz podem ir dos €300 aos €15.000 por
alguém muito aflito para urinar, ou ver nunca mais conseguirmos olhar para o uma única boneca, dependendo
alguém que não aguentou e acaba por nariz da mesma forma. do nível de detalhe e pedidos do
urinar nas calças. Algumas pessoas ficam cliente. Mas, apesar dos altos preços

QUINTA DE SÃO TIAGO


excitadas sexualmente não vendo outras, praticados, não faltam clientes a esta
mas sim sendo elas mesmas a ter vontade indústria, que chega a ter fila de espera
extrema de urinar ou de, por aflição, com pessoas a aguardarem mais de
acabarem por fazer nas calças. Este um ano pela sua boneca. l
Provas de vinhos, eventos, loja de produtos regionais
fetiche não se ficou pelo Japão. Um dos
e degustação de queijos e fumeiros.
países ocidentais onde o omorashi
é popular é nos Estados Unidos, onde
o tema já foi alvo de vários artigos
Visite-nos
em revistas e jornais.
quintadesaotiago@sapo.pt ● 275 950 160 ● 963 054 075 ● Covilhã – Portugal

16 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020


CULTO CINEMA

UM RUGIDO INTERIOR que eu achei que era importante garantir.


Porque aquilo dá atualidade ao discurso.
Fala-se da dependência do turismo, da de-

QUE NOS CHEGA DE GUIMARÃES pendência económica, da falência de todo


um antigo modelo económico que movia o
País e que hoje é substituído por outro. E
que, como podemos ver, é altamente falível
a qualquer intempérie, como a que estamos

E
a viver agora [referência à pandemia da co-
stes dias, um produtor americano, vid-19]. E eu queria ser crítico nesta coisa
que produz nomes grandes conta- da destruição do setor secundário, substi-
va-me: ‘O Jim Jarmusch falou-me tuição de um modelo económico por outro
sobre ti, Rodrigo, e disse-me as- baseado num setor terciário, altamente de-
sim: ‘Este gajo ainda pensa à antigamente.’ pendente.
E isso para mim é um grande elogio. Não
só por ser o Jim Jarmusch, por quem tenho Foi a primeira vez que filmou um argu- O Rodrigo já disse que este filme era
grande estima e admiração, mas porque mento de outra pessoa, mas também foi “completamente diferente” de tudo o
as pessoas respeitam-me pela integridade a primeira vez que Valter Hugo Mãe es- que tinha feito. Porquê? Tem a ver com
daquilo que eu faço. E isso é o mais impor- creveu para cinema. Como é que surgiu eu, com o avançar da idade, predispor-me
tante para mim.” Quem o conta é o próprio a ideia de trabalharem juntos? Em 2008, a fazer algo que tem regras – ou mais regras
Rodrigo Areias, realizador e produtor vi- na sessão de estreia do Corrente, em Vila do – e em que o meu espaço de improvisação é
maranense que teria tido o seu novo filme Conde [curta-metragem com a qual venceu menor. O meu cinema é caracterizado por
a estrear-se a 16 de abril – não fosse a pan- a Competição Nacional e o Prémio do Pú- pôr em primeiro lugar o enquadramento, o
demia a fechar as salas de cinema e a adiar a blico do festival Curtas Vila do Conde], que espaço. É eminentemente plástico. Depois
estreia para 9 de julho. foi uma sessão bastante marcante, porque a estão os atores ali à frente e, na maior parte
Surdina é a quarta longa-metragem de reação do público foi muito fora, o Valter das vezes, eu não sei o que é que eles vão
ficção de Areias, depois de Tebas, Estrada estava na sala. Nesse verão, li O Remorso de dizer uns aos outros e vou provocando a si-
de Palha e Ornamento e Crime. O argu- Baltazar Serapião e fiquei fascinado pelo tuação até chegar a um momento em que
mento foi escrito em 2009 por Valter Hugo livro. Então, decidi contactá-lo e falámos algo se concretize. Apesar de os meus filmes
Surdina teve estreia Mãe e esteve em espera – porque o finan- sobre fazer um projeto juntos. Depois havia terem uma narrativa, é uma narrativa mui-
mundial em outubro, ciamento não chegava e porque outros pro- a coincidência de parte da família do Val- to ténue, por forma a que a experiência seja
na 43.ª Mostra jetos se foram metendo pelo meio – desde ter ser de São Cristóvão de Selho, eu ser de sensorial. Por exemplo, no primeiro dia do
Internacional de então. Durante dez anos, o filme marinou Guimarães... Encontrámo-nos e estivemos Ornamento e Crime, chegamos ao fim do dia
Cinema em São
Paulo, no Brasil, e, na cabeça do realizador. Há cerca de três, juntos a ver sítios, espaços. Depois, tentá- e o assistente de realização dizia “Eh pá, os
entretanto, já passou numa viagem para o Sul do País com o ator mos juntar estes dois locais, que se trans- planos estão todos lindíssimos, mas não fil-
por Itália, Índia António Durães (na altura, protagonista de formaram num certo elo narrativo do filme. mámos uma única cena que tínhamos para
e França. um filme japonês que Areias estava a pro- filmar no plano do dia.” E eu olhava para o
duzir), o cineasta falou-lhe do projeto. Foi Quais foram os principais desafios de lado, ria-me e dizia: “Sim, e depois? Qual
o gatilho necessário. Acabou mesmo por ser passar para imagens as palavras do escri- é o problema? Estamos aqui para fazer um
Durães o homem-forte desta película total- tor? Aqui a grande questão tem a ver com filme, não é para cumprir um plano. Senão,
mente rodada em Guimarães e que conta, o tom do filme. Talvez seja isso o mais de- para isso, eu não vinha aqui.” E isso é um
entre outros, com atores como Ana Bus- safiante. Por um lado, há o meu sentido de modelo que tem uma forma um bocadinho
torff, Emília Silvestre, Adelaide Teixeira, humor – que é uma coisa muito específica, mais livre, mais documental. Há grandes
Jorge Mota e Fernando Moreira, mas tam- ténue e às vezes indecifrável por grande atores da nossa praça que às vezes vão fil-
bém com não atores – gente que teve e tem parte dos espectadores [risos], mas que nes- mar comigo e não sabem qual é a sua per-
o seu papel na história de vida de Rodrigo te filme é mais fácil –, mas que prima mais sonagem nem o que se está ali a passar. Mas
Areias e de Valter Hugo Mãe (cuja parte da pelo silêncio e, no caso do Valter, mais pela depois vamos descobrindo, vamos criando
família vive em São Cristóvão de Selho, fre- palavra. E é essa conjugação que me parece relações entre as pessoas. E no Surdina isso
guesia de Guimarães). bastante feliz: entre o meu espaço e tempo e não acontece. É uma coisa mais clássica,
Numa conversa que se alongou durante a palavra do Valter. nesse sentido.
Foi a propósito de Surdina, filme com argumento de Valter Hugo Mãe, que falámos uma hora, ouvimos o que realizador tinha
com o realizador e produtor Rodrigo Areias sobre o seu cinema e, mais abrangentemente, a dizer desta tragicomédia sobre o amor e o Houve espaço para a improvisação ou to-
luto – mas também da importância da mú- das as cenas estavam milimetricamente
sobre os desafios que a sétima arte enfrenta na era do streaming, no geral. sica no grande ecrã e do presente complexo escritas? Aí a minha intenção foi garan-
O filme chega agora – finalmente – às salas de cinema. Por Beatriz Silva Pinto. do cinema na era de ouro do streaming. tir que o texto que o Valter escreveu fazia
parte do discurso daquelas pessoas. Há, no
entanto, uma cena que não estava no ar-
gumento original – em que entra o Vítor
Correia, o ator algarvio, e que faz a cena da
boleia, uma cena meio óvni no filme, mas

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CULTO CINEMA

De que modo é que a apresentação do fil- “ FA Z E R F I L M E S S E M M E I O S É A U T O FÁ G I C O ,


me acompanhada por música tocada ao
vivo pode mudar o modo como olhamos É M ATA R O P R Ó P R I O S I S T E M A
para ele? Acima de tudo, muda no especta-
dor o [facto de] ele considerar aquilo uma E D I TA R O S P R O F I S S I O N A I S D A A R T E AO A M A D O R I S M O ,
experiência irrepetível. O filme não muda, Há nove anos, o Rodrigo apresentava no
porque os diálogos estão lá, os sons am- Curtas Vila do Conde, o seu primeiro pro- A O T E R E M D E O FA Z E R N O S T E M P O S L I V R E S ”
biente estão lá. Só a música é que vai criar jeto apoiado por dinheiro público, o Es-
alteração. E aquilo que eu dizia ao Tó é que, trada de Palha. Desde esse ano até hoje

P
para mim, quanto mais livre ele estiver, me- o que mudou no cinema em Portugal?
arte do seu percurso enquanto lhor. Porque é isso que vai ter piada: que ele Nessa altura, fiz o Estrada de Palha com
cineasta é feito a documentar interprete de uma maneira no cineconcerto meio subsídio de uma curta-metragem. Ou
o real. Como foi saltar para um A e de outra no cineconcerto B. Tem outra seja, é uma longa-metragem feita com um
filme de ficção que vai beber ao emotividade para o espectador porque é ir- vigésimo do orçamento previsto. Por isso,
realismo mágico, ao fantástico, e em que, repetível – que é aquilo que o cinema não é, é um filme de que eu me orgulho muito,
por exemplo, um monstro ruidoso, que naturalmente. porque é feito a partir do nada. Mas fazer
nunca chegamos a ver, serve de metáfora filmes sem meios é autofágico, é matar o
para as mágoas que o protagonista car- A seu ver, qual é a função da banda sono- próprio sistema e ditar os profissionais da
rega? Esse para mim até é o meu ponto de ra num filme? Várias pessoas têm aponta- arte ao amadorismo, ao terem de o fazer nos
escape. Aquele monstro é onde eu consigo do que a música tem sempre uma grande tempos livres. Dito isto, acho que há uma
criar um espaço de dúvida com o especta- presença nos seus trabalhos. Eu acho que evolução na democratização do acesso ao
dor, que me interessa bastante manter. A a música não serve para comunicar aquilo financiamento. E quando internacional-
versão escrita é muito mais dúbia e a inter- que o filme não comunica. Mas deve servir mente me perguntam como é que as coisas
pretação sobre o que é, afinal, aquele ani- para ajudar a comunicar aquilo que um fil- estão em Portugal, eu sou obrigado a dizer
mal é muito diferente de pessoa para pes- me pretende. E, nesse sentido, eu também que nunca estiveram tão bem. Por outro
soa. Obviamente que aqui já há uma opção dou sempre grande liberdade criativa às lado, o panorama do cinema de autor tem
minha de como lá chegar. Não só através pessoas com quem trabalho. Depois é óbvio um problema agravado, que é a diminuição
da forma como filmámos, porque há movi- que temos de chegar a um equilíbrio: às ve- de público no mundo inteiro. E isso tem
mentação, há sombras, mas principalmente zes, há música a mais e eu ponho menos... a ver com muitas coisas: tem a ver com o
através do som, do rugido. Para mim, [este Mas, mesmo assim, os meus filmes têm mui- streaming, tem a ver com os downloads ile-
filme] sempre foi mais sobre a metáfora des- ta música porque faz parte da minha forma gais, tem a ver com uma questão geracional.
te rugido interior que nos caracteriza e que de estar, da minha forma de ser. E porque Mas vai haver cada vez menos público para
nós temos de ir sabendo enjaular de alguma dou muita importância a isso, também. Fi- todo o cinema e isso é uma luta – e temos de
maneira. zemos composição de banda sonora origi- saber bem por onde ir. Porque a solução das
nal para praticamente todos os meus filmes. Netflixs, das HBOs é a da formatação total
O Rodrigo é cineasta, mas mantém uma E os filmes têm lançamentos de discos de e absoluta. Não há a mínima possibilidade
forte ligação à música, até porque já foi banda sonora, como este também vai ter, de se fazer coisas diferentes para nenhuma
músico e já realizou videoclipes para al- em vinil. Ou seja, há uma materialização, dessas plataformas, porque eles não abrem
guns dos maiores nomes da música por- há criação de memória para o futuro. essa possibilidade. De repente, é como se
tuguesa. Porque é que escolheu Tó Trips tudo aquilo que se escreve tivesse de sair na
para musicar o seu filme? Na verdade, sou revista Maria. Ou seja, não há poesia, não
muito amigo do Tó há muitos anos. Tenho há literatura. Mas, para esse problema vas-
trabalhado mais com o Furtado, na sua tíssimo, só há uma solução: a educação. Se
persona The Legendary Tigerman, por- o mundo está cada vez menos intelectual-
que é como se fosse meu irmão. Mas achei mente capaz, então cada vez teremos menos
que aqui era um bocadinho diferente – de espectadores, menos leitores, menos tudo.
certa forma, [o filme] pedia esta coisa do Mas, do meu ponto de vista, a nossa função
fado à Dead Combo que o Tó faz de uma não é fazer um produto mais simpático para
forma muito particular. Ele tem um tempo o público. É, pelo contrário, garantir que A P A R TA D O S
próprio. E achei que isso tinha muito a ver convencemos o público a ver aquilo que A história de Rodrigo Areias enquanto cineasta não se pode desligar da história da
com este filme. Eu nem sou muito de fado, nós fazemos. Isso, sim, é uma política públi- produtora Bando À Parte, que fundou há 12 anos, em Guimarães. O nome, para lá
mas o Tó traz um certo blues à portugue- ca para a cultura e para as artes. l de referenciar uma das maiores obras da nouvelle vague (Bande à Part, de Jean-Luc
sa de que eu gosto muito. Há algo ali que Godard), teve, desde o início, uma função de manifesto: assumir o distanciamento
emana das nossas raízes e, por outro lado, geográfico, mas também ideológico, do sistema do cinema nacional. Hoje, no
há um tom contemporâneo muito pessoal. entanto, o bando não está tão à parte assim. Segundo Rodrigo, a produtora é um dos
E achei também interessante propor ao Tó principais beneficiários do financiamento público do País à produção cinematográfica.
o desafio de fazermos cineconcertos – como “Hoje, o sistema é mais democrático, acessível. A quantidade e a diferenciação dos
também já fiz com o Tigerman e com a Rita concursos são muito maiores, o financiamento é maior. Por isso, as coisas mudaram
Redshoes –, em que ele está em palco a in- substancialmente”, admite. “Mas ‘à parte’ somos sempre. Porque somos uma família.
terpretar a música do filme. O grupo de pessoas que trabalha nos projetos é quase sempre o mesmo.”

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ESCOLHAS CULTO

M E TRÓ P O L IS
METROPOLIS, 1927
Uma das obras mais emblemáticas da
história do cinema, o filme mudo de Fritz
Lang é manancial de imagens icónicas
que, até hoje, perduram no imaginário
de cinéfilos e não só (basta lembrar,
por exemplo, o teledisco de Radio Ga
Ga, dos Queen, onde abundam imagens
e sequências extraídas do filme de
Lang). Metrópolis é uma parábola que STA L K E R
incide sobre a relação entre poderosos e S TA L K E R , 1 9 7 9
trabalhadores explorados numa cidade Uma distopia onde se busca a utopia
M ATR IX do futuro, mais precisamente, de 2026,
onde quem governa se instala no conforto
a partir do romance Roadside Picnic
dos Irmãos Strugatsky – eis uma das
T H E M AT R I X , 1 9 9 9 dos arranha‑céus e quem trabalha cai de sínteses possíveis para este poema visual
Não é a primeira vez que falamos da exaustão no seu posto (o que pode ter do realizador russo Andrei Tarkovsky, o
obra‑prima dos então Irmãos Wachowski consequências dramáticas). último realizado na União Soviética antes
(hoje, Lana e Lilly Wachoeski), mas de o grande mestre ir trabalhar para Itália
a explicação é simples: é um filme e depois para a Suécia. O protagonista é
extraordinário. Keanu Reeves é Neo, um
anagrama de One, o escolhido, portanto, V D E V IN GA N ÇA um stalker que vive num futuro indefinido
e que invade uma zona restrita para
para liderar uma rebelião. Não se trata de V FO R V E N D E T TA , 2 0 0 5 roubar de lá material. É este stalker que
uma rebelião qualquer, trata‑se de uma James McTeigue realiza, mas quem vai conduzir um escritor e um professor,
busca pela verdade na sua aceção mais escreveu o argumento foram Lilly e Lana cada um na sua demanda, até ao estranho
literal e, em simultâneo, vasta: o que é Wachowski, AKA os Irmãos Wachowski, lugar onde tudo é possível – será um lugar
afinal a realidade e qual o nosso papel pessoas com nítida propensão para a sobrenatural? Pouco importa.
nessa dimensão? Carrie‑Anne Moss e distopia. V de Vingança é uma adaptação
Laurence Fishburne acompanham Reeves ao cinema da BD da DC Comics da
nesta impressionante alegoria – será ir autoria de Alan Moore e David Lloyd.
BL A D E R U NNE R :
muito longe se sugerirmos uma revisitação
da Alegoria da Caverna de Platão? Talvez
Moore sempre renegou esta versão
cinematográfica e alegou uma série PE R I G O I M I NE NT E
seja, mas não deixa de ser impressionante. de motivos para isso, sendo um deles BLADE RUNNER, 1982
a moldagem da mensagem ideológica A obra de Ridley Scott é, para muitos,
original em que a anarquia estava muito o melhor filme da gama “há muito,
WA L L -E mais presente. A compreensão de todo o
filme exigiria uma lição de história que
muito tempo, num futuro distópico”.
Curiosamente, a sequela tardia Blade
WALL-E, 2008 fosse da figura de Guy Fawkes, cujo rosto Runner 2049 compete com o original
A inclusão da história deste adorável robô origina a máscara, à Bonfire Night no para essa distinção – mas o original será
numa seleção dedicada a distopias pode Reino Unido, passando pela Conspiração sempre o original. O ponto de partida de
surpreender, mas só os mais distraídos. da Pólvora e que se juntassem elementos Blade Runner é, pelo menos vagamente,
Recordemos que Wall‑E existe num futuro comuns a clássicos como O Fantasma da a obra literária de Philip K. Dick Do
razoavelmente distante e que foi deixado Ópera ou O Conde de Monte Cristo. Como Androids Dream of Electric Sheep? (Será
para trás quando todos os humanos não temos espaço para tanto, resumimos que os Androides Sonham com Ovelhas
abandonaram o planeta Terra para assim o filme: num futuro próximo, Elétricas?). Um ex‑polícia (Harrison

OS AMANHÃS QUE INTIMIDAM


vaguearem indolentemente pelo espaço. numa realidade distópica, um vingador Ford) de Los Angeles que se torna blade
Wall‑E passa praticamente a primeira hora mascarado faz frente a um governo runner, um agente que nesta sociedade
do filme a arrumar e empilhar lixo. Para tirânico e busca a sua vingança. futurista de 2019 tem como função detetar
quê? Para cumprir a função para a qual “replicantes” (seres que resultam de
A palavra “distopia” foi proferida como nunca durante os estranhos tempos de pandemia em que a realidade parecia foi programado, uma vez que se trata bioengenharia) e aniquilá‑los. A sua vida
de um Waste Allocation Lift Loader complica‑se quando tem de identificar
apostada em imitar a ficção. Abandonemos a realidade, foquemo-nos na ficção. O desafio: escolher 12 filmes de Earth‑Class – a versão por extenso de “replicantes” de um modelo sofisticado.
excelência cuja história decorra numa realidade distópica. Segundo os dicionários, “distopia” é o contrário de “utopia”, Wall‑E. Porém, se a sua função é empilhar
o termo cunhado por Thomas More para designar a ilha ideal. É entre universos distópicos que vamos procurar as lixo, o seu destino reveste‑se de outra
melhores histórias. Muitas delas, como A Laranja Mecânica ou 1984, emergem de clássicos da literatura, mas há outras nobreza. E ainda bem, porque é preciso
alguém com bom coração para salvar esta
que encontraram a consagração apenas no grande ecrã. Fomos à procura destas. humanidade – nem que esse coração seja
Por Diego Armés. de latão.

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CULTO ESCOLHAS

TER RA DE I DI OTAS
IDIOCRACY, 2006
Imaginemos um mundo livre de coisas
supérfluas, tais como a cultura ou o
interesse intelectual, onde toda a gente é
T H E H U N G ER G AMES: profundamente ignorante, onde o saber
O S J O G O S DA FOME científico foi de tal modo contestado e
reduzido que o cidadão comum é incapaz SO LDAD O S D O U N IV E R S O
THE HUNGER GAMES, 2012 de responder a problemas matemáticos S TA R S H I P T R O O P E R S , 1 9 9 7
O mais recente e um dos mais lucrativos básicos, onde o desempenho de raciocínios Os admiradores de Paul Verhoeven
blockbusters desta escolha, é o filme que não passa do nível mais simples, onde estarão a vociferar “como assim o Starship
fez de Jennifer Lawrence uma das maiores o Presidente dos Estados Unidos da Troopers? Como não o Robocop ou o Total
estrelas da atualidade. The Hunger Games América, sendo um profundo cretino e Recall?” e a resposta a essas perguntas
é o primeiro de uma trilogia em que ignorante, é adorado pela maioria, que tensas é simples: é que o Starship
Katniss Everdeen (Lawrence) encarna o considera realmente esperto. É nesse Troopers é sempre o mal-amado, aquele
o espírito revolucionário que faz frente mundo que o soldado Joe Bauers desperta a que ninguém liga. Esta é a história
a um poder totalitário personificado no depois de uma experiência falhada o ter de como os seres humanos, apesar de
despótico presidente Coriolanus Snow deixado em hibernação durante 500 anos. já viverem no século XXIII e de terem
(Donald Sutherland). É num universo Bauers, um average guy do seu tempo, conseguido colonizar planetas, não
que bebe muito do imaginário do Império torna-se automaticamente a pessoa mais evoluíram grande coisa. Vivem num
Romano que se desenvolvem os Jogos da inteligente e culta do planeta nesse futuro estado totalitário à escala mundial (os
Fome: como gladiadores postos diante da distante e difícil de conceber. Podia ser um símbolos, os cumprimentos e os rituais
glória ou da morte, representantes dos 12 documentário, mas é uma comédia escrita são uma sátira aos elementos nazis), são
distritos que compõem Panem, uma nação por Mike Judge e Etan Cohen. fanfarrões com tudo o que desconhecem e,
formada num cenário pós-apocalíptico. Os quando se deparam com um desconhecido
representantes dos 12 distritos escolhidos mais hostil, “ai, que horror, esta gente
entre os mais pobres devem lutar entre
si com toda a nação a assistir. O que A SERVA é insuportável, são uns brutos, uns
bárbaros” (o que será, talvez, uma sátira ao
sobreviver, ganha. T H E H A N D M A I D ’ S TA L E , 2 0 1 7 comportamento dos Estados Unidos em
Sim, é uma série. Aceitemos como um várias situações de guerra/ocupação). Um
caso excecional, até porque o argumento dia, os humanos conhecem os aracnídeos
D I ST R ITO 9 distópico é dos mais excecionais de
sempre. A autora, Margaret Atwood,
ou bugs e nem tudo corre bem.

DISTRICT 9, 2009 criou, com um imensurável génio, um


Tudo começa num ano 1982 alternativo universo muito assustador. É na República
EXT ERMI NAD O R
à realidade, quando uma nave espacial
estaciona nos céus de Joanesburgo e
de Gileade, uma parte do território
onde anteriormente ficavam os EUA, I MPLACÁVEL
os tripulantes alienígenas se revelam que as mulheres férteis são subjugadas e T H E T E R M I N ATO R , 1 9 8 4
doentes. O governo sul-africano decide usadas em prol da comunidade. Como? Querem falar de distopias? Então, pensem
então acolher os aliens no Distrito 9 que Reproduzindo-se. Fanatismo religioso, nisto: no futuro, o mundo será dominado
dá nome ao filme. Várias décadas depois, totalitarismo, misoginia e toda uma por máquinas com inteligência artificial
o presidente da câmara de Joanesburgo panóplia de condutas e tratamentos que oprimem e ameaçam extinguir a
decide desalojar os alienígenas para se desumanos compõem a história de uma espécie humana. A resistência do lado dos
apoderar do distrito. Uma vez mais, a serva, Offred (of Fred, “de Fred”), humanos é liderada por um homem, John
distopia futurista serve de parábola. O interpretada pela brilhante Elisabeth Connor, que envia um soldado (o tenente
episódio remete automaticamente para Moss. Kyle Reese) ao passado para proteger a
os despejos do district 6 da Cidade do sua própria mãe, Sarah Connor (Linda
Cabo, durante o Apartheid, além de Hamilton), porque a inteligência artificial
trazer ao de cima assuntos tão universais (Skynet) envia um cyborg – o terminator
quanto atuais: as desigualdades sociais, (Arnold Schwarzenegger) – com a missão
as minorias injustiçadas, o medo do que de eliminar Sarah, impedindo assim
vem de fora, a segregação e, também, a que ela venha a gerar John. Querem
humanidade que se revela, às vezes nas falar de paradoxos temporais? Então,
situações mais adversas. pensem nisto: o pai de John Connor é
o tenente Reese. Não pense mais nisso,
veja o Terminator 2: Judgement Day, que é
igualmente bom e tem um enredo menos
mindfucker. l

24 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 25


TELEVISÃO CULTO

Piet-Hein recorda, na primeira pessoa,


como foi observar de perto o fenómeno: “Foi
um êxito total a partir do 47º dia, quando
o Marco foi expulso em consequência do
seu famoso pontapé. Já estávamos à espera (qualquer semelhança entre grande mestre
destas críticas, mas, a partir de uma certa e grande irmão será pura coincidência), que
altura, sabíamos que algo tinha mudado. comunicava através de mensagens enviadas
No dia a seguir à expulsão do Marco – que para os seus telemóveis. As mensagens eram
coincidiu com o anúncio da candidatura de ordens e desafios que deviam executar onde
Jorge Sampaio ao segundo mandato como quer que estivessem e com quem estivessem
Presidente da República – a TVI abriu [o – a família e os amigos também participa-
Domingo, telejornal] com a notícia do pontapé do
Marco e não com a notícia da candidatura
vam na narrativa. Semanalmente chegavam
novos candidatos que tentavam substituir
3 de setembro do Jorge Sampaio.” os que já estavam na competição e, sema-
nalmente, os telespectadores votavam para
de 2000.
O programa comandado por Teresa Gui-
lherme – que ficou marcada no imaginário eliminar um concorrente. Este formato foi
televisivo português como “a rainha dos criado de raiz em Portugal e vendido à Ho-
Os portugueses sentam-se em frente à te- reality shows” – ainda hoje mantém o título landa, Suécia e Estados Unidos, mas reve-
levisão e preparam-se para assistir a algo de programa de entretenimento mais visto lou-se um flop de audiências.
inédito. O slogan do programa dava pistas da TVI com um share de mais de 70%, sen- O Masterplan deu a conhecer ao público
sobre o que seria: “Uma casa, 11 pessoas, do apenas ultrapassado por jogos de futebol. Gisela Serrano, uma figura que ainda hoje
120 dias sem privacidade e 20 mil contos.” Depois da estreia do formato, seguiram-se está muito associada ao formato e cujo com-
Era a estreia do Big Brother, aquilo a que mais três edições de Big Brother, mas, a portamento polémico a tornou uma concor-
chamavam reality show ou, na versão apor- partir de 2003 a estação televisiva decidiu rente muito popular. Foi previsto que o pro-
tuguesada, novela da vida real. O formato apostar noutros formatos de reality TV. grama tivesse uma duração máxima de um
era recente, criado pelo holandês John de O sucesso do fenómeno televisivo que ano, mas esteve no ar apenas 6 meses (de
Mol, e já fazia sucesso em Espanha, mas agarrava os portugueses ao ecrã obrigou março a setembro). Gisela Serrano acabou
quem o trouxe para terras lusas foi Piet- a SIC a responder, pondo no ar um primo por desistir em junho e, uma década mais
-Hein Bakker. do Big Brother – o Acorrentados. O forma- tarde, revelou publicamente que a razão da
Desde cedo que o programa esteve envol- to que também foi trazido da televisão ho- desistência terá sido uma informação que
to em discussão. A Endemol começou por landesa consistia em ter cinco concorrentes ouviu da produção sobre uma manipulação
tentar vender o formato à SIC – na altura solteiros (quatro homens e uma mulher ou de resultados que a impediria de vencer o
líder de audiências –, mas Emídio Rangel, o vice-versa) acorrentados uns aos outros du- programa. A vencedora acabou por ser Gi-
diretor de programas, recusou-se a comprar rante 15 dias, enquanto eram vigiados por sela Ildefonso – loucos anos 2000 em que
o formato por considerar que “aquele for- câmaras 24 sobre 24 horas. Os concorrentes foi possível juntar duas Giselas no mesmo
mato não era rentável no modelo da SIC”, iam sendo eliminados e o objetivo final era programa.
como contou em entrevista ao jornal I. encontrar o “casal perfeito” (que ganhava
A estação subestimou o sucesso do pro- uma viagem de sonho que também deveria
grama que viria a marcar a queda de audiên- ser feita enquanto acorrentados).
cias da SIC e a subida da TVI, que confiou No mesmo ano a SIC pôs no ar O Bar da
no sucesso que se adivinhava e apostou em TV, um misto de concurso e reality show
força no formato. A polémica estendeu- em que 12 concorrentes em constante vi-
-se ao formato do programa, com críticas gilância tinham de gerir um bar das Docas “NO
que o apontavam como espetáculo imoral de Lisboa. O concurso atingiu um nível de
e que rapidamente se inflamaram quando audiências considerável, mas foi alvo de du- PRIMEIRO BIG
o País assistiu à primeira relação sexual da ras críticas sobre a invasão de privacidade e BROTHER, OS

VOYEURISMO
casa transmitida em direto na televisão – e a limitação de liberdade dos concorrentes,
protagonizada por Marta Cardoso, atual co- chegando a ser analisado pela Alta Autori- CONCORRENTES
mentadora do Big Brother 2020, e Marco – dade para a Comunicação Social e acaban-
N ÃO SA B I A M
À PORTUGUESA
e, ao 47º dia, a primeira expulsão por parte do por estar na origem do despedimento de
da produção quando Marco agride a colega Emídio Rangel. Ainda no ano 2001, a SIC COMO
Sónia com um pontapé. estreou Confiança Cega, um reality show
em que três casais sem contacto e em casas MANIPULAR A
separadas testam a sua fidelidade, enquanto
Passaram 20 anos desde a estreia do formato que são vigiados por 60 câmaras.
POPULARIDADE
mudaria para sempre a televisão portuguesa. Sente-se Em 2002, Masterplan (SIC) fez as delícias DENTRO E FORA
confortavelmente no sofá e acompanhe a viagem pelo dos fãs do formato reality TV e era esta a
D E C A S A”
premissa do programa: dois concorrentes
fenómeno da reality TV que se fez (e faz) por cá. eram seguidos por câmaras durante todo o
Por Ana Saldanha. Ilustração de Frank Ramspott. dia e recebiam ordens do “Grande Mestre”
P I E T- H E I N B A K K E R

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CULTO TELEVISÃO

introduzir alguém com uma personalidade


muito forte, que mudou claramente o fun-
cionamento do grupo”, conta. “Acho que
durante demasiado tempo, os concorren-
tes em geral eram muito uniformes – eles
‘armários’ musculados, elas giras. Mas se “Eu tinha 7 anos, lembro-me quando o Zé
olhamos para o casting do BB atual, temos Maria ganhou e foi de helicóptero até Bar-
English um grupo bastante heterogéneo na casa: rancos. E eu, como morava na Amareleja,
version idades variadas, personalidades muito di- e Barrancos fica muito perto, esperei com
ferentes, concorrentes urbanos, do cam- uma amiga quase um dia inteiro para lhe
po, etc.”, acrescenta. E Ana Arrebentinha, fazermos adeus.” A vida de celebridade não
atual comentadora do BB 2020, reforça: era, no entanto, para todos. Zé Maria fugiu
“Os programas procuravam pessoas fora da fama e acabou por regressar à vida paca-
do comum, mas agora procuramos pessoas ta do Alentejo.
reais, genuínas e autênticas.” “Uma pessoa podia não gostar de rea-
No entanto, Gisela Serrano ficaria até hoje “No primeiro Big Brother, os concorren- lity TV, mas para ter conversa na manhã
no imaginário português dos reality shows, tes tinham visto apenas algumas imagens seguinte, no refeitório com os colegas, ou
trocando a SIC pela TVI para participar do Big Brother holandês e espanhol, mas mesmo no plenário da Assembleia de Repú-
no Big Brother Famosos 2, em novembro de não tinham estratégia de jogo, não sabiam blica, uma pessoa tinha de ver o programa”,
2002. Em 2014 volta à SIC para participar como manipular a popularidade dentro e conta Piet-Hein sobre o fenómeno. “E re- -de-rosa, famílias perfeitas… Mas a reality
no reality show O Poder do Amor (casais de fora de casa”, conta Piet-Hein, que aponta sulta porque é o espelho da nossa socieda- TV, pelo facto de estar a gravar 24 sobre 24
famosos numa casa a fazer provas e desa- a impossibilidade de a primeira fornada de de. São uma espécie de amostra de todas as horas, e pela situação em si, permite mos-
fios) e em 2015 regressa à TVI para fazer A concorrentes se preparar para entrar num emoções e de todos os comportamentos do trar um lado diferente dos concorrentes.
Quinta e A Quinta: O Desafio. Atualmente programa que era novo e cuja popularidade ser humano, o que desperta muita curiosi- E com a ferramenta poderosa da edição
é comentadora do Big Brother 2020. em Portugal não se podia adivinhar. Com dade”, acrescenta a comentadora. usada nos programas diários, é criada uma
o fim do programa, os concorrentes do pri- O conceito da reality TV pretendia diluir imagem de cada concorrente – que convém
meiro Big Brother tiveram de se adaptar ao as fronteiras entre a vida pública e a vida à produtora e à estação de TV – para criar
facto de passarem a ser reconhecidos na rua privada e uma das estratégias foi usar ape- entretenimento. No fundo, nem as redes so-
e a lidar com um estatuto de figura públi- nas o primeiro nome dos concorrentes (o ciais, nem os reality shows são uma reflexão
ca. “Há 20 anos os concorrentes tinham um Marco, a Sónia, o Ricardo) transformando- objetiva da realidade.”
Big Brother jogo muito mais ingénuo, por desconheci- -os em quase vizinhos e há ainda definições Já Ana Arrebentinha fala da gestão que
tanto os comentadores como os concor-
is watching you
mento do fenómeno reality TV”, acrescenta que descrevem este género televisivo como
Piet-Hein. “programas que convertem em espetáculo a rentes têm de fazer ao lidar com o público:
O primeiro vencedor do programa foi privacidade de pessoas anónimas”. várias técnicas de manipulação para provo- “Eu acho que [as redes sociais] não vieram
Passaram-se 17 anos entre o Big Brother 1 Zé Maria, natural de Barrancos. Na altu- Mas até o conceito “novela da vida real” car certos comportamentos, mas os concor- mudar o jogo, mas enriquecê-lo. É uma
e o recém-estreado Big Brother 2020, que ra, recebeu 20 mil contos (100 mil euros) deixa espaço para especular sobre quanto do rentes reagem como entenderem”, explica aproximação muito importante para a tele-
veio assinalar o 20º aniversário do progra- e um carro e chegou à sua terra de heli- que vemos é encenado e quanto é real. “Nem o precursor do Big Brother em Portugal. visão portuguesa porque chama a geração
ma. Pelo meio muito mudou e “a casa mais cóptero, como recorda Ana Arrebentinha: tudo é fake, mas há um lado subjetivo usado O produtor faz ainda um paralelismo com mais nova e é a prova de que as redes so-
vigiada do País” também deu lugar a outros na edição e no setting do formato – uma casa, as redes sociais e com a forma como estas ciais e a televisão tem muito em comum…”
jogos como Secret Story – Casa dos Segre- fechados do mundo, concorrentes nomea- também são uma versão editada da rea- E acrescenta que é preciso fazer uma gestão
dos, um formato muito semelhante – tem dos, expulsos, tarefas diárias impostas pela lidade: “As redes sociais mostram, na ge- das opiniões dos fãs e dos espectadores, que
casa, câmaras e concorrentes completa- produção, etc. – que provocam comporta- neralidade, aquilo que as pessoas querem acabam por viver muito intensamente o
mente isolados –, mas com um twist: desta mentos diferentes nas pessoas… São usadas mostrar de si próprias: um mundo mais cor- que se passa dentro programa. l
vez os concorrentes entram na casa com um
segredo que têm de esconder dos adversá- CURIOSIDADES
rios; se o segredo for descoberto perdem
todo o dinheiro que acumularam durante o
jogo em desafios e missões. “É O ESPELHO DA NOSSA
Piet-Hein afirma que, independente do O primeiro reality Enquanto a SIC No dia 20 de A atual casa Os (inicialmente) Até hoje já Os reality shows
formato ou de quem conduz o programa, SOCIEDADE, UMA ESPÉCIE show da televisão teve apenas 18 outubro de do Big Brother 18 concorrentes participaram já foram discussão
o segredo para o sucesso está no casting e DE AMOSTRA DE TODAS foi exibido programas no 2000, 37% do 2020 (a Kasa da mais recente 85 pessoas parlamentar
na seleção de concorrentes. “O importante em 1973, nos formato reality, telejornal da TVI do Futuro) está edição são anónimas e 48 e, inclusive,
é surpreender e ter em conta duas coisas: a AS EMOÇÕES, DE TODOS OS Estados Unidos. a TVI já conta foi dedicado ao avaliada em 6,5 vigiados por famosos no Big Barros de Moura,
personalidade individual de cada concor- An American 32 versões. famoso pontapé milhões de euros 56 câmaras Brother Portugal. deputado do PS
rente e a personalidade do grupo, que se vai C O M P O R TA M E N T O S D O S E R Family seguiu do Marco. e é considerada e a emissão, abriu em maio de
alterando de cada vez que um concorrente H U M A N O E I S S O D E S P E R TA uma tradicional a casa mais em direto no 2001 uma sessão
sai ou que um novo entra. Olhemos, por família americana tecnologicamente TVI reality, é de debate no
exemplo, para o que aconteceu na casa [do M U I TA C U R I O S I D A D E ” durante 300 avançada do País. transmitida entre plenário sobre
atual BB 2020], quando a Teresa entrou: a horas. as 10 e as 3 horas. “telelixo”.
meu ver foi uma boa jogada da produção
ANA ARREBENTINHA

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CENTENÁRIO CULTO

jornal dedicado ao fado organiza um con-


curso chamado Rainha do Fado de Lisboa,

a
no qual se procurava a melhor cantadeira
de cada bairro. Amália foi inscrita por Al-
cântara, porém a sua inscrição causou tu-
multo, com as rivais a recusarem cantar
com a “vendedora de fruta” – na verdade,
sabiam que não teriam qualquer hipótese
de concorrer com a diva, mas esta preferiu terpretou temas tradicionais espanhóis que
desistir do concurso. integrou no repertório. Esta versatilidade
Amália Rodrigues não precisava de con- tornar-se-ia uma imagem de marca da diva
cursos amadores para começar a impor-se. do fado – que foi muito mais do que uma
No ano seguinte, e depois de ter dado uma diva do fado.
primeira nega ao convite, Amália Rodri- Depois de Madrid, o mundo: Amália acu-
Amália da Piedade Rebordão Rodrigues gues aceita ir cantar para o Retiro da Se- mulou viagens e palcos, passou por dezenas
nasceu, segundo os registos oficiais, no dia vera, à época a principal casa de fados de de cidades e países – Paris, Nova Iorque,
23 de julho de 1920, na então freguesia da Lisboa, onde Ercília Costa e Alfredo “Mar- Rio de Janeiro, Londres e São Paulo; visi-
Pena, em Lisboa, perto do Rossio. A própria ceneiro” eram as principais atrações. Em tou as comunidades portuguesas na Europa
Amália contestava esta versão da história poucos meses, Amália chegou a cabeça de e no Canadá, atuou no Japão e nos terri-
dizendo que o seu registo fora tardio e que, cartaz. Pelo meio, casou-se com o guitar- tórios coloniais portugueses; aterrou em
na verdade, tinha nascido “no tempo das rista Francisco Cruz. O casamento duraria Hollywood e por lá passou uma temporada
cerejas” – e na terra delas –, a 1 de julho, no pouco mais de dois anos. generosa.
Fundão, não em Lisboa. O Fundão é a terra Ao mesmo tempo que corria mundo,
de origem da sua família. Cem anos depois Amália continuava a encantar dentro de

Palcos
UM SÉCULO DE AMÁLIA
do nascimento da grande diva portuguesa, Portugal, onde as participações na revista
e mais de 20 após o desaparecimento da- à portuguesa se foram multiplicando, prin-
quela que foi e continuará a ser a mais cé-
lebre e mais popular artista portuguesa, são
e câmaras cipalmente na década de 40. As estadias
em território nacional alternavam-se com
poucos os detalhes desconhecidos da vida e A carreira de Amália rapidamente se tornou temporadas que passava em cidades como
da obra de Amália Rodrigues. Porém exis- internacional. Das casas de fado aos palcos Rio de Janeiro ou Nova Iorque encabeçan-
tem alguns tópicos que merecem um olhar do teatro, tudo aconteceu muito depressa. do produções que se prolongavam durante
atento e mais demorado. Em 1940, a cantora estreia-se na revista em semanas e, às vezes, meses.
Ora Vai Tu! Em poucos anos, surge no elen- A estreia de Amália Rodrigues no cinema
co de vários outros espetáculos e, em 1943, era uma questão de tempo e veio a acon-
faz a sua estreia internacional, cantando em tecer em 1947, logo em dose dupla, com o
Madrid. A estreia espantou o público não filme Capas Negras, que esteve em cartaz
Do início só pela forma como Amália apresentou o
fado, mas também – ou talvez principal-
durante 22 semanas, o que constituiu, na
altura, um recorde, e com Fado, História de
A pequena Amália tinha 6 anos quando se mente – pela maneira como a cantora in- uma Cantadeira. O sucesso foi imediato e o
mudou, com os avós, para o bairro lisboe- impacto foi grande. Não espanta que, anos
ta de Alcântara. Esta mudança viria a fazer mais tarde, durante uma temporada nos
diferença. Crescer na Pena, onde nasceu, Estados Unidos, tivesse recebido convites
não seria igual a ter crescido em Alcântara, para entrar em filmes de Hollywood. Amá-
onde a cultura popular, nomeadamente as lia não chegaria ao cinema de Hollywood,
marchas e o fado, tinham um peso diferente mas acabaria por participar, quase sempre
do que tinham no outro bairro. como protagonista, em seis longas-metra-
É em Alcântara que Amália começa a gens, duas delas internacionais (As Ilhas
trabalhar, ainda muito cedo, vendendo fru- Encantadas, um filme luso-francês, e Ven-
ta na rua, e é também nesse bairro lisboeta daval Maravilhoso, uma produção luso-bra-
que começa despreocupadamente a cantar sileira realizada por José Leitão de Barros).
e a dar nas vistas. A sua voz e o seu talento
revelam-se cedo: em 1935, participa no des-
file das marchas populares na Avenida da
Faz 100 anos que nasceu Amália Rodrigues, em julho de 1920. Foi a “voz de Portugal” Liberdade, e vai como solista de Alcântara. A DEDICATÓRIA
A voz de Amália não passa despercebida e “Para o António, tão bonito que parece estrangeiro.” Assim
e continua a ser um símbolo nacional, mas a sua notoriedade e a sua fama foram muito a sua fama começa a crescer. Em 1938, um autografou Amália um programa de um concerto seu. O destinatário
do peculiar elogio era António Variações, de quem a cantora era fã e
além das fronteiras do País, assim como o seu génio transcendeu o fado. de quem se tornou amiga. Variações, confesso admirador de Amália,
retribuiu, compondo a canção Todos Nós Temos Amália na Voz – “e
Por Diego Armés. temos na sua voz a voz de todos nós”, escreveu o músico.

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CULTO CENTENÁRIO

Um O TRAJE DO FADO -se de uma admiração pelo homem, não pela


figura política – “a política é um mistério e e cedo se impôs como cabeça de cartaz,
fado novo Vestida de preto, xaile pelos ombros: este traje não é indiferente a Amália, que
desde cedo se rodeou de estilistas e figurinistas, cabeleireiros e maquilhadores.
uma complicação que não quero entender”,
afirmou na mesma entrevista.
apesar de ser um lugar onde cantavam Ercília
Costa e Alfredo Marceneiro, “não conseguia
Inicialmente, Amália concentrou-se numa imagem sintonizada com a tendência
Quando, em duas noites de janeiro de 1969, É possível que Amália fosse realmente dizer tudo isto em sextilhas, então o Tiago
folclórica traçada pelo regime e por António Ferro. Mais tarde, e já nas mãos do
Amália gravou o álbum Com Que Voz – o ingénua em relação à política. No entanto, desenhou os retratos de Alfredo e de Ercília
figurinista Pinto de Campos, que evocou O Fado de José Malhoa, Amália assumiu
disco só seria editado em março do ano esta postura criou-lhe sérios obstáculos no na parede”. Há outras imagens que desafiam
a elegância do vestido negro comprido e do xaile, também negro, numa afirmação
seguinte –, já muito território fora desbra- pós-25 de Abril, tornando-se uma espé- o leitor a interpretar e a descobrir a história
recolhida e concentrada, tal como o eram as suas interpretações dos fados.
vado e muito obstáculo deixado para trás. cie de símbolo do antigo regime para uma de Amália.
Oito anos de trabalho e de estudo, de gra- certa elite da esquerda intelectual, que via A grande diva do fado morreu há mais de
vações e de composições, de aprendizagem nela um resquício do Estado Novo, uma fi- 20 anos. As gerações mais novas estão
e de arrojo, culminavam naquele disco, que
seria a sua obra-prima. Amália gura que sobrara e que não tinha lugar. O
próprio fado não era visto com bons olhos
distantes do que foi Amália. Como é que se
conta esta história a crianças, como é que
A figura de Alain Oulman é aqui fun-
damental. A personalidade e a formação
e o regime por esta intelectualidade emergente, pois
integrava a “ideologia dos 3F”, Fado Fute-
consegue a atenção dos mais pequenos
para lhes falar de Amália? Carminho diz
erudita do músico e compositor foram de- É o tema mais sensível quando o assunto é bol e Fátima – António Costa, o atual pri- que, na realidade, é muito fácil, “os miúdos
terminantes para o rumo que a carreira de
Amália viria a tomar. Amália e Oulman co-
Amália Rodrigues: era ou não uma figura li-
gada ao antigo regime e a Salazar? A verda-
meiro-ministro, mostrou-se há não muito
tempo avesso a esta teoria: em declarações AMÁLIA PARA deixam-se fascinar por qualquer coisa que
lhes desperte o interesse, até por lápis
nheceram-se em 1961 e logo estabeleceram de é que Amália era ambígua. Por um lado, de 2009, afirma que “o regime apenas se OS MAIS NOVOS de cera e um papel em branco”. Para lhes
afinidades e começaram a trabalhar juntos. nunca escondeu a sua admiração e o seu serviu do que [já] era popular”, não tendo A fadista Carminho lançou recentemente despertar a atenção, Carminho sublinha
Alain apresentou à cantora as poesias de apreço pela figura de Salazar – na biografia concebido essa ou qualquer outra ideologia um livro, Amália, Já Sei Quem És. “O título a relação emocional que as crianças
Camões e as obras de alguns dos enormes da autoria de Vítor Pavão dos Santos, Amá- relacionada. é um trocadilho com o fado Não Sei Quem desenvolvem rapidamente com o que se lhes
contemporâneos, tais como José Carlos Ary A parceria entre Amália Rodrigues e Alain lia é citada dizendo que “desde miúda, gos- A tese da ingenuidade política de Amália És, escrito pela própria Amália, em que ela depara. “Neste caso, as viagens, a superação,
dos Santos, Pedro Homem de Melo, Ale- Oulman, forçadamente interrompida pela tava de Salazar” porque era, para ela, “uma cai, porém, por terra quando nos apercebe- canta ‘Ah, o fado, não sei quem é’”, explica o perseguir o sonho e atingir o sucesso, no
xandre O’Neill e David Mourão-Ferreira. deportação de Oulman para França depois espécie de príncipe encantado”. mos que, afinal, enquanto era recebida pelas a cantora. Trata-se de um livro infantil, com fundo, aquela mensagem de que ‘podes ser
De repente, a voz de Amália tinha ao dispor de ter sido preso pela PIDE, acabou por re- Os elogios ao presidente do Conselho mais altas figuras do antigo regime, encon- ilustrações de Tiago Albuquerque. Porém, quem tu quiseres, persegue os teus sonhos’,
uma lírica à sua medida e que ia muito além sultar na revelação de uma outra faceta da multiplicam-se ao ritmo das entrevistas e trava maneira de financiar a luta clandes- ainda que direcionado aos mais novos, o são o ponto de partida.” De certo modo,
da relativa simplicidade dos fados tradicio- grande diva: a de poeta. Amália, que pou- depoimentos em que o assunto é aflorado. tina do Partido Comunista, por exemplo. livro exigirá dos pais algum conhecimento esta é a síntese do que Carminho considera
nais. A sofisticação poética destas novas co se instruíra, que sempre estivera longe António Ferro, diretor do Secretariado Não é por acaso que Alain Oulman ao aper- acerca de Amália e da sua história. “Isso serem as características que mais distinguem
canções, muitas delas compostas por Alain da erudição académica, deixou-se inundar Nacional de Informação, um nome eufe- ceber-se, em França, de que Amália estava também é giro”, diz Carminho, “fazer com Amália de todas as outras cantoras: “Era
Oulman, levou o fado para uma direção até pela beleza das grandes poesias portugue- místico para o anterior Secretariado da a ser alvo constante de críticas da esquerda, que os pais pesquisem e descubram a muito determinada; obviamente, tinha um
então por explorar. Um fado-canção, o fado sas e atreveu-se a escrever os seus próprios Propaganda Nacional, também é elogiado decide escrever uma carta aberta em que história da Amália para mais facilmente talento gigantesco, mas as opções que
moderno, um fado que se distinguia do que versos. Neles, podemos encontrar temas por Amália, para quem Ferro é dos poucos defende a amiga contras “as calúnias” de conseguirem contar a história dela”. tomou, a maneira como se posicionou – na
até então fora cantado em tascos, cafés e recorrentes, como a solidão ou a saudade, em Portugal que “percebe alguma coisa que Amália é vítima – a carta é publicada As ilustrações são fundamentais para a vida, na política, na música –, a confiança
cervejarias de Lisboa, uma versão sofisti- mas também referências ao próprio canto e de espetáculo”. Mesmo num período mais no jornal República em janeiro de 1975. narrativa, não se limitando apenas ao que tinha em si mesma e a determinação
cada e de mente aberta, capaz de integrar à inspiração, tantas vezes tida por Amália tardio, Amália nunca deixaria de afirmar A ambiguidade de Amália, que é descrita que está escrito. “Optei por escrever o que sempre mostrou, tudo isso fez a
elementos de outros campos, alguns deles como dádiva divina – não era raro ouvi-la publicamente a sua admiração pela figu- por muitos como fruto da sua postura naïf livro em sextilhas, que é uma das formas diferença entre Amália e as demais.”
eruditos, um fado com arrojo e com desejo referir-se à voz que “Deus lhe deu”. Os ál- ra de Salazar – “Você sabe que eu gostava em relação à política, nunca se desvaneceu. possíveis do fado tradicional – este livro
de mais. buns Gostava de Ser Quem Era, de 1980, e muito de Salazar? Pois gostava mesmo”, Se no pós-25 de Abril era tida por muitos pode ser contado, mas também cantado.
Lágrima, de 1983, ambos têm poemas de disse numa entrevista de julho de 1974 à como figura próxima do antigo regime, há Este formato limitou-me, como é evidente,
sua autoria. Mas Amália escreveu também revista Alcance –, frisando sempre tratar- que sublinhar que nos arquivos da PIDE pelo que o Tiago conseguiu acrescentar
as letras de composições que cantou du- era descrita como “simpatizante do Partido informação àquilo que vou escrevendo.”
rante os férteis anos 60 – o mais célebre de Comunista”. Nunca saberemos se era tudo Carminho exemplifica com a passagem
todos talvez seja Estranha Forma de Vida, ingenuidade ou uma enorme mestria no do- pelo Retiro da Severa, onde Amália cantou English
cuja autoria ocultou durante muitos anos. mínio do equilíbrio diplomático. l version

UM ANO POR DÉCADA


19 2 0 1939 1947 1954 1961 1970 1985 1999
Amália da Piedade Rebordão Depois de algum tempo a atuar Depois de várias experiências em Regressa aos Estados Unidos Casa-se no Rio de Janeiro Edição de Com Que Voz, álbum Depois da paragem de um Amália Rodrigues morre a
Rodrigues nasce a 23 de julho como amadora, torna-se, em teatro de revista, estreia-se no para temporadas em Hollywood com o engenheiro com música de Alain Oulman, em ano, por motivos de doença, 6 de outubro, em sua casa, na
em Lisboa, em casa dos avós, julho, cantora profissional cinema como protagonista de e Nova Iorque. Não é a sua português César Seabra. que Amália canta grandes nomes Amália regressa com atuações Rua de São Bento, em Lisboa.
na então freguesia da Pena, no Retiro da Severa, onde Capas Negras, filme de enorme primeira estadia nos EUA – O segundo casamento de da poesia: Camões, Alexandre nos coliseus dos Recreios e do Depois das cerimónias
perto do Rossio, no seio de uma encontra Ercília Costa e Alfredo sucesso. No mesmo ano, seria no ano anterior até se havia Amália Rodrigues duraria O’Neill, David Mourão-Ferreira Porto e ainda na Argélia, no fúnebres e dos três dias
família beirã oriunda do Fundão. “Marceneiro”. O seu sucesso é também protagonista de Fado, estreado na TV americana –, 36 anos, até à morte do e Ary dos Santos, entre outros. Canadá e em Espanha. Volta a declarados de luto nacional,
imediato e, em outubro, passa a História de uma Cantadeira. O mas é nesta ocasião que as marido em 1997. O álbum conquista prémios ser condecorada em França: Amália viria a ser trasladada
ser cabeça de cartaz. papel neste último valeu-lhe o portas do cinema de Hollywood e vale distinções a Amália em torna-se comendadora da Ordem para o Panteão Nacional na
prémio de Melhor Atriz de Cinema. se abrem para Amália. Portugal e França. das Artes e das Letras. Igreja de Santa Engrácia.

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CULTO CIDADES COM HISTÓRIA

arménia em Erevan passou de 28% para


54%. Estes laços que o império czar quis
estabelecer com a Arménia serviriam para
que o país se tornasse uma porta russa para
o Médio Oriente.

O CAMINHO
DA LIBERDADE

A ANCIÃ EREVAN
O período entre 1850 e 1917 foi marcado
pelo desenvolvimento das infraestruturas e
da economia da cidade, marcando a prospe-
ridade do território. Erevan era então uma
cidade com 30 mil habitantes, linhas de
eletricidade e telefone, caminhos de ferro e
zonas de habitação e de comércio.
O ano 1917 trouxe a Revolução Bolche-
vique que deitou abaixo o império russo e Porém, os ventos de independência so-
abriu as portas a um pequeno período de praram durante pouco tempo. No fim de O MASSACRE
independência da Arménia. Os líderes da novembro de 1920, o Exército Vermelho
Arménia e da Geórgia, e também os líderes invadiu a Arménia pelo Norte e Erevan ra-
muçulmanos da Transcaucásia, uniram-se pidamente caiu nas mãos dos bolcheviques. Entre 1914 e 1923, a Turquia e as
para formar a Federação Transcaucasia- A Arménia acabou por ser anexada pela suas regiões vizinhas levaram a cabo,
na. A união teve pouco mais de um mês de União Soviética em dezembro de 1920, por ordem do governo otomano,
vida, de 22 de abril a 28 de maio de 1918, já transformando-se na República Socialista uma limpeza étnica que consistiu no
que a 21 de maio o exército turco começou Soviética da Arménia. homicídio em massa, perseguição e
a avançar em direção a Erevan. Arménios O domínio não se fez, contudo, sem que expulsão de mais de 1,5 milhões de
de todas as fações – camponeses, poetas e os arménios dessem luta: as forças nacio- arménios. O massacre teve início no
clérigos – juntaram-se para formar orga- nalistas do país conseguiram reconquistar dia 24 de abril de 1915, quando as
nizações militares e defender a sua terra. Erevan em fevereiro de 1921 e libertar autoridades otomanas reuniram e
No fim do mês, os arménios conseguiram todos os prisioneiros políticos e militares, prenderam, em Constantinopla (atual
derrotar os turcos e, no dia 28 de maio de mas em abril de 1921 a elite nacionalista Istambul), cerca de 250 intelectuais
1918, Aram Manukian, o líder da Federa- da cidade foi novamente derrotada pelos e líderes arménios, deportando-os
ção Revolucionária Arménia, declarou que, soviéticos. para Angora (atual Ancara) para
a partir daquele dia, a Arménia era um país Sob a alçada russa, Erevan foi a primeira depois os assassinarem. O genocídio,
independente e Erevan seria a sua capital. cidade da União Soviética a ter um planea- que ficou também conhecido como
Desenhada por Jim Torosyan, Aslan Durante o verão que se seguiu, a Armé- mento urbanístico, desenhado para uma o Holocausto Arménio, aconteceu

A
Mkhitaryan e Sargis Gurzadyan, a construção
da Cascata Erevan, um emblemático marco da nia tornou-se uma república parlamentar população de 150 mil pessoas e desenvol- durante a Primeira Guerra Mundial
Sendo uma das mais antigas história de Erevan recua até cidade, fez-se entre 1971 e 2009. com quatro divisões administrativas. Foi vido pelo académico Alexander Tamanian. e teve duas fases: a perseguição
ao século XIII antes de Cristo, também nessa altura que Erevan recebeu Mas Erevan rapidamente se transformou à população masculina, que foi
cidades habitadas altura em que o Rei Argistis mais de 75 mil refugiados vindos da Armé- numa metrópole industrial com mais de 1 torturada através de trabalho
do mundo, uma grande I ergueu a fortaleza Erebuni, nia Ocidental, que fugiam dos massacres milhão de habitantes. forçado e serviço militar e, depois, a
parte da sua história fez-se destinada a ser uma sentinela contra os ata- Tornou-se o centro administrativo do im- perpetrados pela Turquia otomana durante A cidade de Erevan foi essencial para o deportação das mulheres, crianças
ques dos bárbaros vindos do Norte do Cáu- pério Mongol – dado que Tamerlão era de o que ficou conhecido como Genocídio Ar- movimento democrático nacional que foi e idosos que foram enviados para
de conquistas, reconquistas caso. O nome Erebuni viria até a batizar a origem turco-mongol. ménio. surgindo na Era Gorbachev, nos anos 80. As “marchas da morte” no deserto da
e independências. cidade, evoluindo depois para Erevan, pela Desde cedo a sua localização estratégica Em 1920, a assinatura do Tratado de políticas de reestruturação da Perestroika Síria. As vítimas foram privadas de
Por Ana Saldanha. semelhança entre os sons das letras B e V já fazia adivinhar a importância da cidade, Sèvres – que foi desenhado para liquidar (reconstrução) e de Glasnost (transparên- comida e água, roubadas, violadas e
em arménio. que foi fortemente disputada entre persas oficialmente o Império Otomano e, con- cia) trouxeram à tona preocupações com o torturadas. Estes eventos só em 2019
Em 658, Erevan foi anexada pelos árabes e otomanos. Finalmente conquistada pela sequentemente, abolir a soberania turca ambiente, com a russificação, com a cor- foram reconhecidos por 32 países
e, mais tarde, pelos turcos seljúcidas, um Pérsia, foi no reino do Xá Abas I, em 1604, – garantiu à Arménia um reconhecimento rupção e a democracia e, mais tarde, com (incluindo Portugal, Estados Unidos,
povo nómada turco, de religião islâmica que milhares de arménios foram deporta- formal e internacional da sua independên- a independência. No início de 1988, cerca Rússia e Alemanha) como tendo
sunita. Ainda no mesmo século, tornou-se dos para a Pérsia, incluindo a maioria da cia, e os Estados Unidos, bem como vários de um milhão de arménios de vários pontos constituído um genocídio.
capital da Arménia. população de Erevan. O resultado foi que países da América do Sul, abriram canais do país reuniram-se para manifestações na
Entre os séculos IX e XI, todo o país a cidade passou de tradição cristã a 80% de diplomáticos com o governo do Estado re- Praça do Teatro, que mais tarde passou a
esteve sob a alçada da dinastia Bagratuni, população muçulmana. cém-independente. ser a Praça da Liberdade.
fazendo parte do Reino de Bagratuni. De- Avançando para o século XIX, a Arménia Com a dissolução da União Soviética –
pois, em 1387, Erevan foi tomada e pilha- foi anexada pelos russos durante o conflito que se arrastou desde o fim da década de 80
da por Tamerlão, também conhecido por russo-persa e a Rússia czarista apoiou o re- até dezembro de 1991 – Erevan foi decla-
Timur, o Coxo, um dos grandes e últimos gresso dos arménios que estavam na Pérsia rada capital da Arménia independente em
conquistadores nómadas da Ásia Central. e na Turquia. Por essa altura, a população setembro de 1991. ●

34 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 35


ESTILO
Top em malha de algodão, camisola em
poliéster, calças em algodão, lenço em
seda, fio em metal, tudo Versace.

Na página ao lado, trench e camisola


em algodão, ambos Kenzo.

PERSONALIDADES • TENDÊNCIAS • SHOPPING • NOVIDADES

Through the times


Berlim, ao longo dos tempos, marcou o seu lugar enquanto centro cultural,
artístico e económico e um dos marcos dessa mesma afirmação é a Messe-Berlin. Este editorial
é uma viagem pelas últimas décadas deste importante centro de convenções,
de como a moda o marcou e de como ele marcou a moda.
Fotografia de Diane Betties. Styling de Davor Jelusic.

36 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 37


Casaco e camisa em algodão,
óculos em acetato, tudo Celine.
MODA ESTILO
Na página ao lado, casaco em
algodão e viscose, top em viscose,
calças em algodão, tudo Saint
Laurent by Anthony Vaccarello.

38 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 39


MODA ESTILO

Camisa em algodão e seda,


calças em algodão, ténis em pele,
tudo Alexander McQueen.
Meias em algodão, Uniqlo.
Na página ao lado, camisola em
poliéster, calças em algodão, brinco
em metal, tudo Acne Studios.

40 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 41


Blazer em algodão e lã, Ray. Polo em
algodão, Pringle of Scotland. Calças
MODA ESTILO
em algodão, Barbour. Sapatos em pele,
Saint Laurent by Anthony Vaccarello.
Meias em algodão, Uniqlo.

42 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 43


Blazer em lã, camisa em
algodão, calças em algodão,
MODA ESTILO
tudo Vivienne Westwood.

Na página ao lado, camisola


e camisa em algodão, Stella
McCartney. Óculos vintage
em metal, da produção.

MODELO: JULIAN SCHNEYDER


@WIENER MODELS. GROOMING:
IVANA ZORIC. RETOUCH: KUSHTRIM
KUNUSHEVCI @KKRETOUCH.

Descubra mais
histórias aqui.

44 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 45


ESTILO TENDÊNCIAS

TREND

JIL SANDER
ALERT
Das tendências deste verão aos essenciais do
TA N K TO PS TAN K TO PS TAN K TO PS

guarda-roupa masculino. Acompanhe as nossas


escolhas e inspire-se para a próxima renovação

S HIRTS S H I RT S S H I RT S S H I RT S
de guarda-roupa. O difícil vai ser não querer tudo.
Por Maria Falé.
Camisa em linho e algodão, Camisa em algodão, €69, Camisa em rayon, €774,

QASIMI
€140, Folk. Dockers. Visvim.

gqportugal

FOTOGRAFIA: TWO MEN AND A WOMEN AT BEACH, 1913. BETTMANN / GETTY IMAGES; D.R.
Camisa em algodão, €570, Camisa em seda, €845,
Marni. Dolce & Gabbana.

KENZO
AMI ALEXANDRE MATTIUSSI

1 2

4 5 6
DUNHILL

1. Top em algodão, €690, Jil Sander. 2. Top em algodão, €154, Maison Margiela.
3. Top em algodão, €189, Rick Owens Drkshdw. 4. Top em algodão, €394,
Cerruti 1881. 5. Top em algodão, €590, Prada. 6. Top em viscose e poliéster Camisa em algodão, Camisa em algodão, €450, Camisa em algodão,
metalizado, €275, Saint Laurent. €680, Gucci. Loewe Paula’s Ibiza. €159, Diadora.

46 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 47


ESTILO TENDÊNCIAS
H O RT S S H O RT S S HO RTS

PAN TS PAN T S PAN T S PA N T S


Calças em algodão, €252, Calças em olefina e poliéster, Calças em algodão, €240,
E.Tautz. €427, Snow Peak. Acne Studios.

E. TAUTZ
gqportugal
PRIVATE POLICY

FENDI
1. Calções em algodão,
€145, Marrakshi Life.
2. Calções em algodão,

FOTOGRAFIA: YOUNG COUPLE STANDING NEAR VINTAGE CAR. LAMBERT / GETTY IMAGES; D.R.
SH

€190, Snow Peak. Calças em algodão,€695, Calças em algodão, €379, Stone


3. Calções em poliamida, Balenciaga. Island Shadow Project.

FENDI
S H O RTS S

€75, Mr P. na Mrporter.
com. 4. Calções em lã,
€599, Rochas. 5. Calções
em algodão, €49, Dockers.
6. Calções em algodão,
€129, Diadora.
SANKUANZ

1 2 3

Calças em linho, €207, Calças em algodão, €571, Calças em algodão, €79,


4 5 6 J.W. Brine. Bottega Veneta. Dockers.

48 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 49


ESTILO TENDÊNCIAS

BERLUTI
D O U B LE B R EA ST E D DO U B L E BR EASTED

JAC K ETS JAC K E T S JAC K E T S JAC K ET S


Casaco em algodão, €995, Casaco em algodão, €219, Casaco em nylon, €996,
PAUL SMITH

Versace. Lanvin. Nemen.

gqportugal

GIORGIO ARMANI
Casaco em poliamida e lã,
Casaco em algodão e poliamida,
€950, Valentino.
€390, Burberry.

FOTOGRAFIA: SUMMER FASHION, 1937. ULLSTEIN BILD DTL / GETTY IMAGES; D.R.
1 2 3
GIORGIO ARMANI

4 5 6
CHRISTIAN DADA

1. Blazer em poliamida e algodão, €470, Séfr. 2. Blazer em lã e mohair, €1.115,


Comme des Garçons Homme. 3. Blazer em algodão, €1.700, Prada.
4. Blazer em algodão, €1.625, Gucci. 5. Blazer em algodão e linho, €945, Casaco em algodão, €220, Casaco em lã e mohair, €349, Casaco em denim, €464,
Lardini. 6. Blazer em poliéster e lã, €995, Lemaire. Fred Perry. Jil Sander. Ahluwalia.

50 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 51


SHOPPING ESTILO

AMI ALEXANDRE MATTIUSSI

FUMITO GANRYU

LANVIN
C O L O U R
1

T R E N D S
2

NA PÁGINA AO LADO, ÓCULOS EM ACETATO, €294, BOTTEGA VENETA EYEWEAR.


7

CHAPÉU EM ALGODÃO, €104, PIET. TÉNIS EM PELE, €430, GOLDEN GOOSE.


5

6
8

Para terminar esta temporada, uma das mais simples formas de passar uma mensagem: 9 10 11 12

a cor. Com o poder de invocar o passado, informar sobre o presente e inspirar


TASTE THE RAINBOW
o futuro, é ela que retrata, que destaca e que disfarça. Conheça a paleta do verão. 1. Óculos em acetato, €395, Mykita. 2. Camisola em algodão, €359, Maison Margiela. 3. Polo em algodão, €530, Gucci. 4. Calções
em poliéster reciclado, €115, Faherty. 5. Calças em algodão, €790, Fendi. 6. Mochila em poliamida, €304, Marni. 7. Ténis em pele e poliéster,
Por Maria Falé. €210, Diadora. 8. Casaco em algodão, €1.069, Junya Watanabe. 9. Hoodie em algodão e poliamida, €1.750, Prada. 10. Cinto em poliamida,
€310, Off-White. 11. Casaco em poliamida, €570, Burberry. 12. Ténis em algodão, €100, Vans.

52 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 53


ESTILO SHOPPING

ANN DEMEULEMEESTER
ERMENEGILDO ZEGNA
DRIES VAN NOTEN

RAF SIMONS

MAGLIANO
FENDI

2 3
3 4

2
8
5
5 6
7
6

10
9 12 9
11 10 11 12

T ERRACOTA PURPLE RAIN


1. Chapéu em algodão, €97, YMC. 2. Calças em lã e poliéster, €495, Lemaire. 3. Camisa em denim, €650, Loewe Paula’s Ibiza. 1. Óculos em acetato, €400, Eyevan 7285. 2. T-shirt em algodão, €178, Supreme. 3. Camisa em algodão, €915, Off-White. 4. Meias em algodão,
4. T-shirt em algodão, €200, Acne Studios. 5. T-shirt em algodão, €173, RRL. 6. Cinto em pele, €140, Our Legacy. 7. Calções em algodão e elastano, €16, Pantherella. 5. Camisa em denim, €793, Raf Simons. 6. Boné em poliéster, €35, Nike. 7. Calções em poliéster, €320, Givenchy.
€123, J.W. Brine. 8. Slippers em GG jacquard, €575, Gucci. 9. Camisola em algodão, €199, Stone Island. 10. Botas em pele, €185, Dr. Martens. 8. Calças em denim, €420, Y/Project. 9. Calções em algodão, €57, Adidas. 10. Polo em algodão, €80, Fred Perry. 11. Camisola em algodão
11. Carteira em pele, €170, Comme des Garçons Wallet. 12. Camisa em algodão reciclado, €840, Ahluwalia. e poliéster reciclado, €75, Adidas. 12. Carteira em pele e canvas, €110, Dries Van Noten.

54 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 55


1

RELÓGIOS ESTILO
4

Está na hora de procurar 4. Relógio Black Bay Fifty-Eight, caixa e pulseira em aço,
movimento automático, €3.480, Tudor na Torres Joalheiros.
um relógio? Nesta edição 5. Relógio Datejust 41, caixa e pulseira em aço, movimento
automático, 7.400, Rolex na Torres Joalheiros. 6. Relógio
trazemos-lhe seis sugestões Aquaracer, caixa e pulseira em aço, movimento automático,
para analisar e encontrar €2.150, TAG Heuer na Torres Joalheiros.

o perfect fit.
Por Maria Falé.

2 5

1. Relógio Big Bang Sang Bleu II, caixa em titânio, pulseira em borracha,
movimento automático, €24.800, Hublot. 2. Relógio Vanguard Lady
Moon, caixa em aço, pulseira em pele, movimento automático, €9.620,
Franck Muller na Torres Joalheiros. 3. Relógio Star Legacy, caixa
em aço, pulseira em pele, movimento automático, €4.500,
Montblanc na Torres Joalheiros.

AROUND
THE CLOCK
56 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 57
Vários detalhes da produção na Momotaro, onde os trabalhos são
executados com precisão e de forma manual “sem cedências”. As listas de
PARCERIAS ESTILO
guerra, visíveis no bolso traseiro dos jeans, são imagem de marca da casa
japonesa e surgem também na bracelete de ganga do relógio da Oris.

C
onversámos com Katsu Manabe,
filho do fundador da empresa
e atual CEO, que desempenha
também o papel de diretor de
vendas, liderando a estratégia de expansão
para o estrangeiro. Começámos, obviamen- Claudine
te, pelo curioso nome da marca. Gertiser-Herzog,
coCEO da marca.
Porque é que Momotaro é um herói popu-
lar da cultura japonesa?
Momotaro é a história do rapaz-pêssego, JUNTO DA ORIS
uma das mais famosas lendas japonesas. Na Para sabermos mais sobre
Europa, seria algo como os contos fantás- esta parceria Oris Momotaro,
ticos dos Irmãos Grimm. Por isso, a maior conversámos ainda com Claudine
parte dos japoneses sabe a história do Mo- Gertiser-Herzog, coCEO da Oris
motaro. E é uma história ligada à nossa e filha do Ulrich W. Herzog, atual
cidade natal, Okayama. Mas a maioria das chairman da empresa.
pessoas não sabe que é em Okayama que Foi duro para a Momotaro crescer num
fica a indústria do denim de melhor quali- mercado como o do denim, onde já exis- O que levou a Oris a escolher a
dade. Então, tentamos ligar os elementos: tiam tantas grandes marcas americanas e Momotaro como parceira para
Momotaro = Okayama = o melhor denim europeias? este modelo especial? Depois
japonês. Levou uns dois ou três anos para que as pes- de termos decidido procurar
soas compreendessem o nosso produto e a um parceiro da área do denim,
O que levou Hisao Manabe a fundar a em- nossa marca. Eu carregava todas as amos- encontrámo-nos com Katsu e o pai,
presa? Qual foi o contexto e a inspiração? tras – andava com sacos de 40 quilos atrás Hisao Manabe, na sua fábrica, em
Hisao trabalhava numa das empresas têx- –, visitei mais de 20 países, mais de 100 ci- Okayama, e a decisão foi bastante
teis locais, onde era vendedor de topo, dades e mais de 200 lojas para contar a nos- fácil de tomar. Identificámo-nos de
antes de fundar a sua própria firma. Ele sa história e apresentar a nossa qualidade e imediato e a parceria simplesmente
pretendia criar um denim inovador e tra- a nossa marca a cada uma delas. fazia sentido. A Momotaro é uma
dicional, mas a empresa não aceitou fazê-lo companhia independente, assim
porque duplicaria o preço dos produtos bá- Sendo o responsável pelo desenvolvi- como a Oris, e tem o mesmo
sicos. Durante esse período nesse trabalho, mento internacional da marca, como é espírito, além de uma filosofia muito
houve muitos clientes que se interessaram que o Katsu pretende implantar a Momo- semelhante. No centro de ambas
pela sua ideia de produto, e então ele deci- taro em mercados estrangeiros? as marcas está o produto a que
diu lançar a sua própria marca. Sempre quis que produzíssemos 100% ja- prestamos uma imensa atenção,
Inicialmente, inspirou-se sobretudo na in- ponês, com a melhor qualidade, em fábri-

TÃO LONGE,
até ao mais ínfimo detalhe. Ambas
dústria de denim de Kojima. Ele também é ca própria, e ser eu mesmo a representar a as marcas combinam manufatura
artista, pinta com índigo natural, portanto marca. Sou japonês, nasci em Okayama e o de precisão com a tradição do

PORÉM,
fez uma fábrica de tingimento com índigo meu pai fundou esta empresa, portanto, não artesanato. Os jeans Momotaro
natural. Ele adora a cultura tradicional e a sou só um diretor de vendas, eu represento são vestidos por pessoas com
história, e a indústria de denim de Kojima mesmo a companhia e a marca. Isto é muito sentido de estilo do mundo inteiro,

TÃO PRÓXIMOS
tinha um enorme potencial para esta ideia. forte, muito persuasivo. Depois, é preciso o que encaixa na perfeição no
comunicar com muitos compradores e pes- modish Sixty-Five da Oris, com
“Made by hand without compromise” soas do meio da moda. um toque vintage.
[feito à mão sem cedências]. Porque es-

A
colheram este lema e qual é o seu signifi- Esta parceria com a Oris faz parte dessa Esta vossa escolha será, de
A Oris lançou uma versão Oris assinou uma parceria com cado profundo? estratégia? algum modo, uma espécie
a japonesa Momotaro Jeans Na Momotaro, toda a produção é feita com Sim, como resultado. A Oris procurou-nos de afirmação? Sim, pode ser
especial do relógio Divers para criar uma edição especial as nossas próprias mãos, do tingimento dos para fazer uma colaboração num produto. vista como uma afirmação, um
Sixty Five. Chama-se Oris do modelo Divers Sixty Five. O Oris Divers Sixty-Five deu origem,
novelos de algodão à tecelagem, passando Como estamos a tentar aproximar-nos de statement, que combina com o
Momotaro e quisemos O relógio chama-se apropriadamente Oris após esta parceria, ao Oris Momotaro. pelas costuras e pelas pinturas de acaba- mercados diferentes com o nosso denim, nosso credo: “Go your own way.”
Momotaro e tem algumas características mentos. Fazemos questão de que todo o trata-se do momento perfeito para estabe- A Momotaro, com o seu símbolo
conhecer melhor a marca que o distinguem, logo a começar pela bra- processo seja mesmo manual, sem qualquer lecer esta parceria. poderoso das “tiras de guerra” e
japonesa que dá nome ao celete em ganga com as listas de guerra, cedência. a sua filosofia, certamente atrai
uma imagem de marca da Momotaro. Que componentes do relógio são produzi-
modelo e os contornos A marca independente japonesa ainda nova cidade chamada Okayama, ganhou o dos pela Momotaro?
consumidores de pensamento
independente, tal como sucede com
desta parceria. não é amplamente conhecida no mundo nome do herói folclórico Momotaro, o ra- A Momotaro produz a bracelete, a caixa de a Oris – um consumidor capaz de
Por Diego Armés. inteiro, nomeadamente na Europa. Funda- paz-pêssego, cuja importância lendária na ganga e o cartão de garantia, também de fazer escolhas arrojadas e corajosas.
da em 1992 por Hisao Manabe em Kojima, região é de tal ordem que o próprio aero- ganga. Há outros componentes, como sacos
uma cidade costeira que hoje compõe uma porto tem o seu nome. feitos por nós, que são opcionais. l

58 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 59


2020
2020

CHÁPEUS
CHÁPEUS

ACESSÓRIOS
ACESSÓRIOS
ESTILO TENDÊNCIAS

60 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020


2
1

6
3
BED JW FORD

Por Maria Falé.

7
4
FENDI

ACESSÓRIOS

completar o look, da cabeça aos pés.

8
5
neste verão. Conheça as nossas sugestões para
Cinco tipos de acessórios para que nada lhe falte
FENDI

Serre. 7. Chapéu em poliéster, €50, 66º North. 8. Chapéu em algodão, €350, Loewe Paula’s Ibiza.
4. Chapéu em poliamida, €225, Dries Van Noten. 5. Chapéu em nylon, €250, Prada. 6. Chapéu em denim, €415, Marine
1. Chapéu em algodão, €84, Y-3. 2. Chapéu em algodão, €350, Valentino Garavani. 3. Chapéu em linho e algodão, €60, Folk.
ACS

1. Sandálias em nylon, €184, Suicoke. 2. Sandálias em pele, €545, Saint Laurent. 3. Sandálias em pele, €518, Marsèll.
4. Sandálias em canvas, €360, Burberry. 5. Sandálias em pele, €495, Balenciaga. 6. Sandálias em pele, €550, Prada.
ACS
7. Sandálias em pele, €360, Birkenstock 1774. 8. Sandálias em pele, €750, Christian Louboutin.

5
6

HERMÈS

YAMAMOTO
1

7
4
3
2

SPYDER
JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 61
SANDÁLIAS
ACESSÓRIOS
2020
SANDÁLIAS
ACESSÓRIOS
2020
2020
2020

TÉNIS
TÉNIS

ACESSÓRIOS
ACESSÓRIOS
ESTILO TENDÊNCIAS

62 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020


QASIMI

3
1
GIORGIO ARMANI
2

8
7
6
5
4 VALENTINO

Maison Margiela. 7. Ténis em pele e camurça, €645, Dolce & Gabbana. 8. Ténis em pele, €450, Tod’s.
Golden Goose. 4. Ténis em pele e fibras têxteis, €125, Saucony. 5. Ténis em fibras têxteis, €125, Nike. 6. Ténis em pele, €550,
1. Ténis em canvas, €490, Alexander McQueen. 2. Ténis em pele e camurça, €531, Adidas Yeezy. 3. Ténis em pele, €375,
ACS

1. Óculos em acetato, €448, Dior Eyewear. 2. Óculos em metal, €123, Carrera. 3. Óculos em titânio, €415, Yohji Yamamoto.
4. Óculos em titânio, €369, Oliver Peoples. 5. Óculos em metal, €281, Givenchy. 6. Óculos em titânio, €588, Lunetterie
ACS
Generale. 7. Óculos em metal, €367, Alexander McQueen. 8. Óculos em metal, €248, Dsquared2.
4
1

5
2

EMPORIO ARMANI

VALENTINO
6
3

8
7

SACAI
JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 63
Ó C U LO S
ACESSÓRIOS
2020
Ó C U LO S
ACESSÓRIOS
2020
ESTILO TENDÊNCIAS PERSONALIDADE ESTILO

DIGA LÁ,

DIOR MEN’S COLLECTION


2020
DIOGO FARO
ACESSÓRIOS Se o nome não lhe soa familiar deve ser porque lhe andou a chamar idiota este tempo todo.
Porque foi mesmo como Sensivelmente Idiota que se apresentou ao público e deu cartas
MALAS na comédia, na rádio e na televisão. Reunimos algumas curiosidades sobre o humorista.

Uma referência artística. John Oliver e Trevor Noah.


Um prato favorito. Vindalho (goês).

O relógio que Uma cidade para

ACS
tens no pulso. viver. Palolem, Goa.
Um Casio hipster
baratucho.
1

1. Porta-chaves em pele, €295, Palm Angels. 2. Porta-chaves em pele, €190, Marcelo Burlon County of Milan. 3. Porta-chaves
6. Porta-chaves em pele, €455, Berluti. 7. Porta- chaves em pele, €550, Vetements. 8. Porta-chaves em pele, €493, Tubici.
em metal, €395, Balenciaga. 4. Porta-chaves em poliéster, €140, Heron Preston. 5. Porta-chaves em nylon, €375, Givenchy.
ERMENEGILDO ZEGNA
O livro que te acompanha
neste momento. How Fascism
Works, Jason Stanley

2 3

O realizador com
mais filmes no teu
top 10. Tarantino.
O primeiro disco que
compraste. Limp Bizkit,
provavelmente.

4 5 6 A série que recomendas a


toda a gente. True Detective
(primeira temporada).

POR ANA SALDANHA. FOTOGRAFIA: MARTYN GOODACRE / GETTY IMAGES; D.R.


Uma aventura por
concretizar. Fazer uma orgia
estilo Eyes Wide Shut, ou jantar
com o Trump, o Ventura e o
Bolsonaro ao mesmo tempo.
A próxima viagem.
7 8 Colômbia.
2020
ACESSÓRIOS Um perfume.
Perfume de trufas.
MALAS Se não existe, devia.

Uma cidade para


visitar. Santiago do Chile.
LOUIS VUITTON

O último filme que viste. I, Daniel Blake. Uma figura que te inspira.
Anthony Bourdain.
Uma bebida para ocasiões especiais.
Cerveja, vinho e whisky. As mesmas de todas as Uma coisa desnecessária de
outras ocasiões. que não abdiques. Instagram.

64 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 65


IN&OUT
Pórtico de entrada na vila
fortificada de Sortelha,
onde o granito impera.

DESTINOS • GOURMET • GADGETS • NOVIDADES

U M V E R Ã O

N A C O V A
que se acentue, durante os períodos fortes
de férias de verão. É nestas alturas que de-
vemos sentir-nos gratos por termos mais de

D A B E I R A O
900 quilómetros de costa – e ainda mais por
desconfinamento está em termos muito mais por explorar longe dessa
curso. E, se tudo correr bem, costa, no interior do País.
continuaremos a desconfinar São várias as regiões do Interior a mere- situado a uma altitude razoável é rodeada
– com cuidados, com uma ca- cer atenção e visita. Desta vez, destacamos por serras, com destaque para as serras da
dência lenta, mas com muita vontade de a Cova da Beira. Enfiada entre os distritos Estrela, da Malcata e da Gardunha – daí
regressar à “velha normalidade”. de Castelo Branco e da Guarda, e mais pre- advém o nome de Cova da Beira, uma vez
Olhando para o que aconteceu na semana cisamente formada pelos concelhos de Bel- que se forma uma espécie de caldeira muito
dos feriados de junho, em que a fúria des- monte, Covilhã e Fundão, a Cova da Beira extensa e quase plana.
confinadora se apoderou dos espíritos dos tem características únicas a vários níveis, Para além das paisagens deslumbrantes, a
A ideia é não ir com a multidão, fugir à tendência, experimentar a alternativa. As férias não têm de obedecer portugueses – que, por sua vez, tomaram começando logo pelo relevo. A região cen- Cova da Beira é rica em gastronomia e em
ao cânone “toalha de praia, areia e bronzeador” e não há regra que nos impeça de explorar o Interior. Para quê conta de tudo quanto era recanto do Sul tral deste território relativamente plano e património, tendo também para oferecer
de Portugal, e em especial daqueles lugares agradáveis surpresas a quem quer desfrutar
aceitar a confusão do costume quando podemos aventurar-nos na novidade? Vamos para a planície entre as serras, com vista para o mar –, não é difícil adivi- do verão com tudo a que tem direito – fala-
sentir o calor junto à fronteira, contemplar a paisagem e provar o que há de melhor no País. Por Diego Armés. nhar que a tendência se mantenha, ou até mos de praias fluviais.

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IN&OUT DESTINO

LUGARES ESPECIAIS Dir-se-ia que não é uma povoação, é an-


Além da Covilhã e do Fundão, as duas tes uma relíquia granítica, muito cinzenta,
principais cidades da região, a Cova da onde pessoas habitam casas que ficam em-
Beira tem outros locais que merecem visi- Mas Belmonte não é só Cabral. Belmonte poleiradas em ociosos pedregulhos voltados
ta. A história que guardam, a arquitetura é também terra judia. Numa altura em que para o sol.
das ruas, ou o que simbolizam, fazem deles os judeus eram escorraçados de Portugal, Voltando para mais perto de Belmonte,
lugares de visita obrigatória numa viagem a vila beirã foi um dos abrigos onde as co- podemos encontrar a Torre de Centum
GASTRONOMIA destas. munidades judias puderam refugiar-se (ao Cellas, que também já se chamou Torre de
Por uma questão de conforto, comecemos Em Belmonte, temos a terra de Pedro Ál- redor de Belmonte, existem outras povoa- São Cornélio. Trata-se de uma ruína de um
pelo que se come e pelo que se bebe. Esta vares Cabral. A vila, aliás, celebra imensa- ções onde a cultura judaica é rica). Os ele- monumento lítico do século I da era cris-
é uma região rica em pratos e entradas, mente o grande navegador. A casa dos Ca- mentos judeus permanecem nesta terra, no- tã, cujas fachadas – todas as quatro – se
queijos e enchidos, e também em vinhos – bral, os ornamentos do magnífico castelo e meadamente na gastronomia. Em destaque, mantêm praticamente intactas. A torre
é, aliás, uma região em franco crescimento uma série de outros elementos pontuais as- a sinagoga na zona antiga da povoação, já terá sido destruída e reconstruída várias
neste particular, com casas como a Quinta sinalam a origem do explorador português como quem vai para o castelo. vezes ao longo da história até à fundação
de São Tiago (ver pág. 79) ou a Quinta dos que definiu a rota marítima para o Brasil. Não muito longe, há Sortelha, uma aldeia de Portugal, mas manter-se-á fiel à for-
Termos, só para dar dois exemplos de pro- que podia perfeitamente ter sido desenhada ma inicial. A origem do nome mantém-se
duções de excelência. por Uderzo: de traça medieval, aguenta-se envolta em mistério, mas há lendas que o
Estando por aqui, é quase impossível es- sobre enormes rochedos arredondados em atribuem ao facto de ter servido de prisão
capar ao Queijo da Serra da Estrela, mas ruas de granito com casas de granito e cha- com 100 celas – e numa delas há de ter es-
existem mais ofertas. O queijo de Castelo minés de granito por onde sai o fumo dos tado cativo São Cornélio. Se non è vero, è
Branco ou o Amarelo da Beira Baixa, e ain- fogões de chão, feitos também em granito. ben trovato. l
da o Queijo Picante da Beira Baixa, todos
têm qualidade atestada. Para acompanhar Vista parcial dos telhados de Sortelha,
os queijos tradicionais ou, em alternativa, vila medieval muito bem preservada.
os enchidos – há muito por onde esco-
lher entre farinheiras e morcelas, além das
chouriças –, nada como o pão de centeio do
Sabugueiro ou a broa serrana, riquíssima
em milho. A belíssima paisagem da Cova
Quanto a pratos propriamente ditos, da Beira, rodeada por serras.
míscaros (cogumelos avermelhados), che-
rovias (raízes semelhantes a cenouras, mas
esbranquiçadas), grelos e torresmos com-
PRAIAS
põem belas entradas da região. A riqueza FLUVIAIS OURONDO
das sopas da Beira também impressiona: da
própria sopa da Beira, à sopa de salsa, pas- Este lugar é visto como Entre a Covilhã (a 30 minutos
sando pela sopa de favas, todas as opções destino de inverno, a própria pela N343) e o Fundão (a 25
são deliciosas. gastronomia aponta mais para minutos pela N238), na localidade
De entre os pratos mais tradicionais, des- comida de panela repleta de UNHAIS de Ourondo encontramos um JANEIRO DE CIMA
tacamos a incrível panela no forno da Co- enchidos e de hortaliças, o que DA SERRA sítio magnífico, cheio de sombras Fica numa curva suave do Zêzere
vilhã (pé de porco e mão de vitela, arroz, não será apanágio de um verão Fica pertinho da Covilhã, e essa é a e de frescura, cujo magnífico a praia fluvial da Lavandeira. Aqui,
chouriço, presunto e toucinho), tudo cozi- típico português. No entanto, primeira das vantagens. Subindo a enquadramento paisagístico uma vez mais, a nota vai para a
do em fogo lento. O cabrito estonado das hoje é possível encontrar uma serra da Estrela a partir da cidade, – serras a toda a volta – é paisagem idílica, mas não é só
Beiras também é uma excelente opção – o série de praias fluviais nos pela EN 230, são menos de 20 completado por cascatas e vasto pelos elementos naturais que esta
cabrito deve ser barrado com uma pasta à arredores da Cova da Beira – minutos até ao centro de Unhais. arvoredo. O lugar é realmente praia impressiona. Nesta curva
base de banha, colorau, muito alho, pimen- sim, é possível que tenha de É precisamente aí que se encontra bonito e as águas da ribeira do Zêzere também podemos
ta e sal, e depois assado num forno de le- andar um pouco, mas... praia é a praia fluvial, num cenário idílico, da Caia, que mais adiante vão encontrar as tradicionais barcas
nha, de preferência sobre ramos de loureiro, praia – capazes de transformar repleto de sombra e com chão desaguar no Zêzere, são mesmo do rio e a Roda de Janeiro (uma
sendo constantemente regado com vinho. a região num destino de relvado. A praia tem duas represas apetecíveis. Entre as várias espécie de nora típica das Aldeias
A dobrada à moda da Covilhã e as trutas apetecível para umas férias de para conter as águas límpidas da infraestruturas – que incluem um de Xisto da Beira), além das casas
à moda de Manteigas também merecem verão. ribeira do Paul. A profundidade das bar-discoteca, já agora – há um tradicionais de xisto. A praia, que
FOTOGRAFIA: ISTOCK IMAGES; D.R.

prova – e as trutas são no verão uma opção águas varia entre 50 centímetros parque de merendas com uma fica ainda no concelho de Fundão
mais ligeira para fazer frente ao calor. e os 2,5 metros, o que permite churrasqueira. Beat that. (apesar de distar da cidade cerca
algum arrojo na hora de entrar de 40 minutos pela N238 e depois
Cinco restaurantes a visitar: na água, dependendo da zona M518), caracteriza-se também por
Taberna a Laranjinha, na Covilhã; escolhida para os banhos. E, no ter um imenso espaço para nadar.
D. Sancho, em Sortelha; fim, ainda há aquele bónus de
O Brasão, em Belmonte; poder gabar-se que andou a fazer
Varanda da Estrela, nas Penhas da Saúde; praia na serra da estrela. You’re
Papo d’Anjo, no Fundão. welcome.

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VINHOS IN&OUT

o que é, e sempre foi, de Pias! Este vinho


tem dono, a Sociedade Agrícola de Pias,
da família Margaça, desde 1973”, escreve
Rita Rivotti no manifesto que apresenta o

TT U
U D
D O
projeto.

O
Luís Margaça afirma que escolheu o
Atelier Rita Rivotti por ser “uma referên- potencial dos vinhos que produzíamos era
cia em Portugal” com quem sempre quis enorme e merecedor de um lugar de desta-

E
trabalhar. “A Rita é uma estratega, uma que na prateleira – não apenas por serem
ste projeto de rebranding come- criadora de histórias e de marcas e o im- os genuínos vinhos da região, mas também
çou a ser pensado há cerca de pulso que ela imputou ao projeto foi fun- pela sua elevada qualidade. Mas um pro-

EE M
quatro anos”, diz Luís Margaça, damental para o resultado que hoje tanto cesso de rebranding requer uma produção

M
sócio-gerente da Sociedade Agrí- nos entusiasma.” Margaça acrescenta de- à altura que, em 2016, não tínhamos, pelo
cola de Pias (SAP), fundada pela família talhes sobre a forma de trabalhar de Ri- que foi necessário reorganizar a empresa
em 1973. Margaça refere-se ao projeto em votti: “Faz questão de visitar a região, de financeiramente, reestruturar as vinhas
curso que a Sociedade Agrícola entregou ouvir as gentes, de recolher toda a história e os campos agrícolas para otimizar a sua
ao Atelier Rita Rivotti, especializado em e todos os pormenores.” Aproveitámos a rentabilidade, renovar a adega e dotá-la
wine branding, e que consiste em “hon- conversa com o líder da Sociedade Agríco- de novas tecnologias e traçar uma estraté-
rar Pias como uma legítima origem alen- la de Pias para ficar a conhecer um pouco gia comercial e de marketing que nos ga-

FF A
A M
M ÍÍ LL II A
tejana”. Porquê? Porque os vinhos com mais da história, do projeto e dos vinhos. rantisse a confiança de que este seria um

A
etiquetas alusivas ou com a indicação de projeto sólido e capaz de competir num
Pias abundam no mercado, sem qualquer Sabemos que, com o tempo, a marca Pias mercado altamente concorrencial. Este
controlo, muitas vezes sem legitimidade e foi sendo desvirtuada. Porque é que só ano, 2020, sentimos que era o momento de
quase sempre sem qualidade, defraudando agora surge este projeto de rebranding? o oficializar e divulgar.
quem procura o verdadeiro vinho de Pias Na verdade, este projeto de rebranding co-
– que é este, o tal da Sociedade Agrícola meçou a ser pensado há cerca de 4 anos. Existe alguma forma legal de impedir o
fundada pela família Margaça em 1973, Quando assumi, desafiado pela minha uso indevido do nome Pias em vinhos
que reclama o seu lugar e o seu nome. mãe, Fernanda Margaça, a gestão da em- que, de facto, não são de Pias?
A popularidade do vinho de Pias tem presa, tive a felicidade de me cruzar com A organização atual do território por-
uma história curiosa. Na ressaca da Revo- profissionais de excelência que rapida- tuguês pressupõe uma classificação das
lução de 1974, e em pleno PREC – Proces- mente convidei a integrar a equipa da So- regiões produtoras de vinho como DOC
so Revolucionário em Curso, com a Lei da ciedade Agrícola de Pias. Este novo grupo – Denominação de Origem Controlada,
Reforma Agrária a ser aplicada, campone- de trabalho fez um intensivo diagnóstico sendo depois compostas por várias sub-
ses ocuparam terras. Em 1976, celebrando à empresa e rapidamente percebeu que o -regiões. O Alentejo, por exemplo, é uma
essa vitória popular, gente de todo o País região DOC e tem sub-regiões como Vi-
juntou-se em Pias e daí levou a recordação digueira, Borba, Reguengos, Portalegre
do vinho da SAP, que pedia emprestado o ou Moura. Existem, contudo, zonas do
nome à terra. A popularidade do vinho de Alentejo que não pertencem a nenhuma
Pias cresceu rapidamente. Hoje, assiste-se sub-região, como Beja ou Serpa. Nestas
ao fenómeno da apropriação industrial da zonas, apenas se pode produzir vinhos com
marca, entre falsificações e cópias. “A Pias a designação de IGP (Indicação Geográ-
Em baixo, alguns exemplos de fica Protegida) e nunca DOC. Pias está
vinhos da gama Família Margaça
com rótulos desenhados pelo dentro da sub-região Moura. Aqui pode-
Atelier Rita Rivotti, responsável mos produzir vinhos que digam no rótulo
pela redefinição da marca de Pias. DOC Alentejo ou, se preferirmos, DOC
Duas famílias, duas casas de produção de vinho, duas histórias bem distintas. Em Pias,
a família Margaça procura resgatar a marca que ela própria criou. Na Covilhã, VINHOS
E M D E S TA Q U E
na Quinta de São Tiago, há vinhos que se vão impondo no mercado português – e não só. ● Gama “Família Margaça” (novidade 2020): Família Margaça

Reserva Branco, Família Margaça Reserva Tinto, Família Margaça


Por Diego Armés. Touriga Nacional, Vinha do Furo Branco, Vinha do Furo Tinto
e Vinha do Furo Rosé
● Bag-in-box Margaça: Tinto e Branco

● Encostas do Enxóe (o nosso primeiro vinho engarrafado,

em 1988): Encostas do Enxoé Branco e Encostas


do Enxoé Tinto
● Gama “asPias” (rebranding 2020): asPias Branco, asPias Tinto

e as Pias Rosé

70 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 71


IN&OUT VINHOS

OS VINHOS
“A Quinta de São Tiago só produz vinhos
de qualidade média e qualidade superior.
Só temos dentro de portas vinhos DOC,
denominação de origem controlada, da
Beira Interior”, esclarece José Carlos
Costa Pais, antes de selecionar alguns
R I TA R I V O T T I dos rótulos que considera especiais e de
explicar que só fazem vinhos de reserva
em anos ímpares.
Falámos também com a fundadora
“No que diz respeito aos vinhos tintos,
e CEO do Atelier Rita Rivotti.
os nossos vinhos DOC – todos com 14
O que mais a atraiu no projeto a 15 graus – comercializamo-los com
de rebranding dos vinhos da a marca Tranca da Barriga, Quinta de
Sociedade Agrícola de Pias? São Tiago, que dá o nome à quinta, e o
A autenticidade e originalidade vinho Tapada das Cerejas é fruto de uma
do projeto. Envolvo-me bastante pequena parcela de Pomar de Cerejas,
com todos os meus trabalhos, com cerca de 12 hectares que a quinta
mas a história desta empresa e a tem.” O Tapada das Cerejas é produzido
apropriação indevida da marca Pias
tocou-me particularmente. Aceitei,
por isso, o projeto com muito
ENTRETANTO, apenas de três em três anos. Ressalve-se
ainda que os DOC só vão para o mercado
depois de um estágio na adega de pelo
entusiasmo. Este é um momento
muito importante para a Sociedade
Agrícola de Pias.
NO SOPÉ DA SERRA menos dois anos. O vinho que merece
mais destaque é o Reserva Tranca da
Barriga 2015 (80% Touriga Nacional,

E
20% Alfrocheiro), se bem que ainda
O próprio Luís Margaça afirma que xiste, numa terra chamada Do- existem na adega pequenas quantidades
a Rita se tornou uma verdadeira minguiso, a Quinta de São Tiago. de 2009 e de 2011, na opinião de José
embaixadora do projeto. O que a Fica perto das margens do Zêze- Carlos “o melhor dos últimos 50 anos”.
levou a envolver-se dessa maneira re, virada para a serra da Estrela, A quinta produz ainda brancos e rosés,
e de que modo esse envolvimento entre o Fundão e a Covilhã. “A família tem da Barriga”, especifica José Carlos, antes que respeitam a exigência de nunca
contribuiu para o seu processo outras quintas com vinhos, em Figueira de de sublinhar que a presença dos vinhos ultrapassarem os 12 graus alcoólicos.
criativo? Foi algo natural; dou muito Castelo Rodrigo, Penamacor e Covilhã”, da Quinta de São Tiago é mais forte “nas
valor à proximidade com os meus esclarece José Carlos Costa Pais, o repre- regiões do Centro e do Norte”, por compa-
clientes e, muitas vezes, até acabamos sentante da Quinta de São Tiago que res- ração com uma presença mais discreta no
por ficar amigos. Neste projeto, ponde às nossas questões, acrescentando mercado vínico do Sul do País.
Moura. Moura pode dar nome à sub-re- identifiquei um enorme potencial na que “a Quinta de São Tiago é a quinta prin-
gião, mas a verdade é que a maior parte marca, com a sua história riquíssima cipal, que reúne todas as condições tecno-
da produção está em Pias. Para contornar As vinhas da família Margaça foram
reestruturadas para “otimizar a
e com a notoriedade da marca Pias. lógicas para fazer o vinho da própria quinta IMUNE À PANDEMIA
esta questão, teria sido necessário que à sua rentabilidade”, nas palavras de A marca tem, por si só, muito valor e das outras”. “É uma propriedade com 100 A qualidade dos vinhos trouxe-lhes reco-
atual sub-região de Moura, na altura em Luís Margaça, sócio-gerente da pelo que o nosso objetivo era dar-lhe hectares, localizada a cinco minutos da Co- nhecimento, e o reconhecimento tornou-
que foi criada, tivesse sido dado o nome de Sociedade Agrícola de Pias. a merecida expressão. Quisemos vilhã. Está na família desde 1822. Há três -os robustos, no que toca ao mercado. É
sub-região Pias para que esta apropriação contar esta história fantástica, e que gerações que está ligada à produção de vi- por isso que, quando falamos da pandemia,
da marca não fosse possível. Por esse mo- pouca gente conhece, através de uma nhos, são 60 anos a fazer vinhos”, diz ainda. num momento em que tantas casas enfren-
tivo, é impossível, do ponto de vista legal, narrativa visual forte e impactante. Há não muito tempo, a Quinta de São tam crises, a resposta do responsável da
impedir a utilização da palavra Pias. Como irão os vinhos da Sociedade Agrí- Este foi o grande desafio do projeto. Tiago era pouco mais do que uma ilustre marca seja, de certa forma, desconcertante:
cola de Pias distinguir-se dos outros que À medida que íamos descobrindo desconhecida, mas a qualidade dos seus vi- “Fala-me em pandemia, mas nestes últimos
Quais são as maiores dificuldades que trazem Pias no nome? novos detalhes fui-me apaixonando. E nhos – “não temos dificuldade em vender meses temos tido um crescimento fora do
encontra nesta missão de recuperar os A primeira diferença está na origem. Os além da história, gostei de conhecer o nosso vinho, porque o preço, tendo em normal e já estamos a não conseguir satisfa-
verdadeiros vinhos de Pias reabilitando o vinhos da Sociedade Agrícola de Pias são a família Margaça. Revolta-me o facto conta a qualidade, está uns degraus abaixo zer certos pedidos em termos de quantida-
nome? os originais, os verdadeiros, os genuínos de haver tantos vinhos no mercado do valor que a deveria ser comercializado” de, pois a Quinta de São Tiago não compra
A nossa maior dificuldade é a desinfor- vinhos de Pias. Por outro lado, o próprio a ostentar indevidamente o nome – foi ganhando notoriedade e, hoje em dia, vinho, nem uvas; só produzimos as uvas das
mação. O consumidor tem sido induzido rótulo vai ostentar a referência à origem de Pias no rótulo só para ludibriar impôs-se, até mesmo em termos de distri- nossas quintas.” José Carlos recorda, por
em erro há vários anos e repor a verdade para que o consumidor saiba o que está a o consumidor. Não há leis nem buição comercial em grandes superfícies. contraste, 2018, em que tiveram “apenas
é um trabalho que envolve muitas vozes. comprar. Por último, e talvez mais impor- organismos capazes de proteger “Os nossos vinhos são comercializados na 10% de produção”. Quanto ao destino das
Quanto ao nome da nova marca – Famí- tante, a qualidade do produto final. Pias é não só este produtor, mas acima de distribuição moderna pelo Grupo Jeróni- vendas, “50% da produção é para exporta-
lia Margaça – esta escolha foi muito bem uma região do Alentejo e, como tal, apre- tudo o consumidor. Este trabalho mo Martins, nas lojas Pingo Doce, e num ção”.
estudada. O nome “Margaça” faz parte da senta um perfil de vinhos muito próprio – foi entendido por mim como uma canal grossista também da Jerónimo Mar- Além de disponíveis no mercado da forma
história de Pias e um dos grandes fatores características que marcas que usam Pias causa social porque estou no meio tins, que é o Recheio, com o rótulo Tranca descrita, os vinhos da Quinta de São Tia-
de sucesso da Sociedade Agrícola de Pias de forma indevida não conseguem impri- e sinto que também tenho esta go podem ser comprados na loja da própria
reside no meu avô e em todo o trabalho mir nos seus vinhos. E o consumidor vai responsabilidade. quinta, aberta das 9h às 18h, e ainda no
que fez enquanto líder desta empresa. compreender estas diferenças. l Centro Comercial Covilhã Shopping. l

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OUTRO GOURMET IN&OUT

M E N O S
E a prova está no prato. Neste roteiro há três restaurantes monoproduto
que escolheram um ingrediente e fizeram dele a joia da coroa.
Por Ana Saldanha.

É M A I S

Na imagem, o naco do lombo


de novilho que pode ser
acompanhado com qualquer um
dos arrozes, do negro ao basmati.

benefícios, também encontra todos os aler-


R I C E M E génios. Aliás, o menu foi elaborado com um
nutricionista precisamente para que todas
A pergunta “outra vez arroz?” nunca pa- as intolerâncias e regimes alimentares fos-
receu tão absurda. No Rice Me o arroz é o sem contemplados.
grão rei e não se fica pelo acompanhamen- No menu há pratos que têm o arroz como
to. “A ideia sempre foi fazer uma represen- “Começámos a ler sobre o arroz, porque é estrela – como os risotos –, massa de arroz
tação do arroz sem nos focarmos só nas que é o grão da felicidade, por que é ati- (destacamos o Pad Thai com frango), e uma
coisas mainstream, porque era muito fácil e rado no fim dos casamentos, porque é que secção em que pode escolher uma sugestão
muito tentador fazer só risotos, mas sempre há tantas coisas positivas à volta do arroz, de pairing de arroz (entre o negro, verme-
fugimos a isso. Acho que perde a piada se achei curioso. Quando comecei a explorar lho, selvagem, árabe, basmati e os tradicio-
se tornar limitado porque é um grão que esse universo deparei-me com a versatili- nais agulha e carolino) e uma proteína; os
tem muito para explorar”, conta Renata dade do arroz. No mundo é o produto mais malandrinhos mais tradicionais, como o
Militão, responsável pelo espaço que é uma consumido a seguir ao trigo, é um cereal arroz de tomate com filetes de peixe-galo e
sociedade familiar. muito resistente às intempéries e às catás- o arroz de polvo, só ao fim de semana, para
Foi em Nova Iorque que os pais de Re- trofes naturais e é muito acessível, por isso garantir que vêm à moda da avó. E até nas
nata visitaram um espaço que vendia arroz conseguia manter famílias inteiras unidas a sopas há arroz, seja na canja ou na sopa de
doce de vários sabores, depois Renata visi- sobreviver só com o arroz. É atirado no fim legumes que leva uma base de arroz em vez
tou o espaço com a irmã e quiseram trazer dos casamentos porque é sinal de prosperi- de batata.
para Portugal a ideia. “A minha irmã estava dade, de união”, explica. A refeição acaba precisamente onde nas-
no Brasil, os meus pais estavam em África e Em Portugal tentam trabalhar direta- ceu o conceito: no arroz-doce. Há o clássico
a ideia foi que o arroz nos juntasse a todos”, mente com os produtores, das produções de e versões com coulis de maçã, de frutos ver-
recorda. Mas decidiram não se ficar pela arroz da Comporta, do Mondego e Vale do melhos e ganache de chocolate. Na dúvida,
sobremesa. Sorraia, e Renata confessa que aos poucos peça o pijaminha e prove-os todos.
se vai tornando uma embaixadora do grão
da felicidade, como lhe chama várias vezes Para... todos. Há opções mais leves,
ao longo da conversa. “Nós tentamos que o mais gulosas, carnívoras e veganas.
arroz seja percebido com as suas caracterís- Quanto? €30 para duas pessoas,
ticas e benefícios”, afirma, e, para além de menu executivo ao almoço por €12
uma ementa onde são descritos todos esses Onde? R. Carlos Testa, n.º 18-A Lisboa

74 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 75


IN&OUT OUTRO GOURMET

Foi a paixão pela Micologia (o estudo dos


Na foto um dos bestsellers: peito
fungos) que fez nascer a ideia, em 2013,
de frango recheado com Feta
e Ricotta, acompanhado com uma manobra ousada em plena crise. “Sa-
risotto de cogumelos shitake. Ao lado, cogumelos de três
bia que não existia nada parecido, em lado
maneiras com espuma de queijo. nenhum, e até cheguei a radicalizar a ideia
Em baixo, tataki de peixe-espada. inicial. Decorei o restaurante com caveiras,
uma loucura. Foi um tiro no escuro. Pen-
sando agora, foi um gesto quase provocató-
rio, feito mais com o coração do que com
a cabeça. Considero um milagre ter tido
sucesso…”, conta Luigi. Milagre ou não, o
Santa Clara dos Cogumelos tornou-se um
marco e abriu portas no mercado monopro-
duto. O menu partilha uma costela italiana
com o dono e os favoritos dos clientes dei-
xam claro que juntar gastronomia italiana e
cogumelos resulta no par perfeito. “O risoto
Santa Clara é o nosso bestseller. É feito com
dois tipos de cogumelos silvestres desidra-
tados, queijo parmesão e é finalizado com
zest de laranja, nozes e alecrim; segue-se a
Tagliata (vazia de novilho dos Açores com
cogumelos Porcini); outro prato clássico
A costela italiana do espaço fica
evidente em ingredientes como são os ravióli com recheio de requeijão de
“autêntica burrata italiana”. Azeitão e molho de Morchella Esculenta
(Pantorras). Mas nem tudo é italiano… te-
mos ceviche, Bulhão Pato, escabeche e até
um gelado de cogumelos Porcini”, explica o
proprietário.
E se queijo e arroz podem parecer in-
gredientes mais ou menos consensuais, os
cogumelos podem polarizar opiniões, mas
Luigi está empenhado em dar a conhecer o
D O M Q U E I J O há uma entrada e um prato diferentes da
semana anterior. Quando manda a ima-
vasto reino encantado dos cogumelos – es-
pecialmente daqueles que não encontramos
ginação, a ementa cresce ou muda. Mais nas prateleiras do supermercado. “Os co-
O nome não engana. Aqui as dietas ficam recentemente estrearam um conceito de gumelos não deixam de me fascinar. E não
à porta para dar espaço ao sabor (a quei- fondue de queijo que é quase uma comemo- sou o único: é cada vez maior o interesse
jo) e à textura (do queijo). A ideia surgiu, fazem... Criar uma experiência gastronó- ração (nesses dias é a única opção da carta, nos cogumelos e ainda sabemos bem pouco
conta o proprietário Vasco Pádua, como a mica à volta do queijo e que seja realmen- fique atento ao Facebook do restaurante ou sobre eles. Lembremos que, em Biologia, os
maioria das boas ideias: à mesa. Farto das te fora da caixa, isso foi difícil. E era a área encomende para casa). fungos são um reino (como os animais e as
burocracias da área da Gestão, queria um em que eu estava menos à vontade”, conta “Vamos buscar inspirações aqui e ali, plantas). É um mundo em que não falta va-
projeto seu e, depois do terceiro jantar de Vasco. mas não somos cozinha francesa ou cozinha riedade! Falta-me dizer que os cogumelos
pão, queijo e vinho na mesma semana, a Mas falemos do que interessa ao bom co- americana. Somos cozinha com queijo. E podem ser uma experiência gastronómica
namorada lançou-lhe o desafio. Plantada mensal: os pratos. “O bestseller é sem dúvi- não é só um bacalhau com natas com queijo Foi o primeiro restaurante a aventurar-se surpreendente. É estranho que em Portu-
a ideia, viajaram primeiro para Paris, para da o pão de queijo alentejano – um pão de por cima, é exatamente o oposto: é o quei- no monoproduto e a levá-lo à letra (e à gal haja pouca valorização cultural, mesmo
conhecer restaurantes de queijo, e depois queijo feito à maneira brasileira, mas com jo não ser um topping, mas sim o elemento sobremesa). Aqui há cogumelos de cultivo nas zonas rurais… os cogumelos encaixam
para Madrid, onde um projeto semelhante queijo de Nisa e um chouriço do Alto Alen- principal. Em cada garfada o que se está a (os mais comuns, como Pleurotus, Shiita- bem com carnes, com queijos, com ovos,
testava o conceito. tejo – e o creme de mascarpone com um ge- sentir é queijo e o fio condutor da experiên- S A N T A ke, Agaricus, Shimeji), mas Luigi Pintarelli com peixe e marisco... Até descobrimos que
O espaço está aberto há 3 anos mas, para lado da Nanarella de lima e hortelã, que eles cia é o queijo”, explica Vasco. Nós prová- conta que a sua verdadeira paixão são os ficam bem em sobremesas!”, conta Luigi.
que isso fosse possível, foi preciso antes desenvolveram para casar com esta sobre- mos e aprovámos. Se conseguiu chegar até C L A R A cogumelos silvestres: “É uma matéria-pri-
encontrar um chef que estivesse à altura mesa. Dos pratos, o mais consensual acaba aqui sem ter feito uma pausa para ir reser- ma complicada porque tem épocas defini- Para... curiosos gastronómicos.
do desafio de criar um menu diferente: “se
pensarmos que servir de entrada um Ca-
por ser o peito de frango recheado com ri-
soto de cogumelos shiitake – mais por causa
var, deixamos mais umas informações que
podem ser úteis.
D O S das, mas imprevisíveis, e são extremamente
perecíveis. Na cidade, são iguarias autên-
Quanto? €40 para duas pessoas.
Onde? Mercado de Santa Clara,
membert no forno com mel e pão, um bife do risoto, feito com parmesão com 22 meses ticas. Felizmente, algumas espécies podem
com molho de Roquefort e, de sobremesa, de cura, que lhe dá um power especial”, des- Para... amantes de queijo e não C O G U M E L O S ser desidratadas para uso culinário – o que
Campo de Santa Clara, 7, 1.º, Lisboa

um cheesecake, temos aqui um menu em creve o proprietário. amantes que querem ser convertidos. nos permite utilizá-las ao longo do ano. Já
que tudo tem queijo e que é bom, mas não O menu é rotativo: há uma carta ao almo- Quanto? Ao almoço, menu de degustação utilizamos várias dezenas de espécies do
é muito diferente do que fazemos em casa ço e outra ao jantar que partilham as entra- por €20 e ao jantar por €26 género oletus, Amanita, Tuber, Morchella,
ou do que outros restaurantes também das e as sobremesas, mas todas as semanas Onde? Campo Grande 232 C, Lisboa Russola, Cantharellus, Lactarius, etc…”

76 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 77


OUTRO GOURMET IN&OUT

Lost in
“Um oásis no centro
de Lisboa” ou uma
pérola escondida TOPO Chiado
no Príncipe Real. Fica nos Terraços
Chapitô à Mesa A carta consiste em do Carmo, tem
À cozinha cozinha de fusão que cozinha de conforto
contemporânea mistura o oriental multicultural,
portuguesa junta-se e o mediterrânico. brunch, cocktails
um terraço muito e uma das melhores
convidativo e um paisagens de Lisboa.
piso de baixo, Se ainda não está
(o bar Bartô) para convencido, agende
continuar a noite. a visita para o pôr
do sol.

CÓDIGOS GASTRONÓMICOS
Chega de olhar para as paredes de casa. O mundo lá fora está cheio de paisagens
e vistas magníficas – e não há melhor forma de desfrutar delas do que durante a refeição.

Noobai
É bar e restaurante
rooftop que fica no Ponto Final
Miradouro de Santa Uma bonita paisagem
Catarina, mesmo ao não tem de estar nas
pé do Bairro Alto. La Paparrucha alturas. Esta fica à
A vista cobre a zona A entrada discreta beira do rio Tejo e
Silk antiga da cidade, esconde a janela tem vista para Lisboa
Boa comida japonesa com edifícios modernos, de onde se vê a partir da Margem
vista privilegiada para a o Tejo e a ponte 25 Lisboa em todo o Sul. No prato há
cidade de Lisboa. O Silk de Abril. seu esplendor. A peixe, marisco e
fica no topo de um edifício gastronomia argentina petiscos tradicionais.
histórico do Chiado e e o ambiente
a vista de 270 graus é íntimo compõem
razão para torná‑lo visita a experiência que
obrigatória. satisfaz os 5 sentidos.

78 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 79


IN&OUT GADGETS

:
D CA R T
O
M OD T O azer

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e o a Saldanha
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vi
riati raia. Por
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p 1 2

i n v estir s idas à
Para pgrade à
um u

3 4

1. VECNOS 360 2. NEUMANN 3. FORM 3 4. COURANT


A WIRED deu-lhe o título KU 100 Ao contrário das “tradicionais” CARRY
de melhor câmara para Se a ideia de falar sozinho para um impressoras 3D que usam Este objeto já se tornou um
os criadores de conteúdo microfone lhe parece estranha, plástico derretido para imprimir, must-have e, por isso, porque
da Geração Z. É pequena, está aqui a solução. A Neumann a Form 3 utiliza luz ultravioleta não aliar o útil ao agradável?
compacta, leve e capta imagens criou um microfone que pretende para solidificar a resina (que Este carregador portátil sem fios
em 360 graus através de simular a forma como ouvimos. O é o material que usa nas tem até duas cargas completas,
quatro pequenas câmaras no KU 100, da marca alemã conhecida impressões) num processo recarrega-se por USB e, para o
topo do dispositivo – e, com pelo hardware de captação de que se chama estereolitografia. usar, basta pousar o telemóvel
apenas dois botões, é intuitiva áudio, pretende que o som dê O aparelho é ideal para por cima do dispositivo.

AWAKE RÄVIK S
e fácil de utilizar. O aparelho aos ouvintes uma experiência trabalhos de pequena escala O exterior é revestido em
foi criado por uma start-up idêntica ao que ouviriam na vida e desenvolvimento de protótipos pele italiana de alta qualidade
A segunda versão desta prancha topo de gama foi lançada no início do ano, mesmo japonesa fundada pelo cérebro real, produzindo som lateral e dado que produz impressões e está disponível em preto,
a tempo de ir a banhos já este verão. A Awake usou o feedback do modelo de responsável pelas câmaras 360º horizontal. Como? Captando o altamente pormenorizadas. cinza, marfim e rosa-velho.
estreia da sua prancha elétrica para redesenhar e aperfeiçoar o aparelho e, por da Ricoh e estará disponível no som através de dois microfones €3.124 em formlabs.com. €134 em staycourant.com.
isso, a RÄVIK S vem com uma cauda mais estreita, bordas mais suaves para ser mais fim deste ano. colocados nas orelhas desta
fácil cortar as ondas e melhorias na estabilidade. A performance mantém-se nos cabeça de plástico para criar uma
56 quilómetros por hora, ideal para o atleta de desportos radicais ou para os mais experiência imersiva de áudio 3D.
discretos aventureiros. €16.900 em awakeboards.com. €8.000 em thomann.de.

80 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 81


IN&OUT1 LIFESTYLE 1 2 3 13 14 15 14. Conjunto1PlusMinus de duas chaves
de fenda em aço, €103, Tre Product.
15. Suporte Lazy Susan em porcelana,
€477, L’objet x Haas Brothers.
16. Cadeirão em tecido, preço sob
consulta, Eileen Gray. 17. Decanter em
cristal, €125, L’Atelier du Vin. 18. Luz
Gilapple em plástico, €259, Medicom
Toy x Undercover. 19. Botões de punho
em prata €280, Deakin & Francis. 20.
Globo em cortiça e aço, €700, Brunello
Cucinelli. 21. Prato em porcelana, €130,
La Doublej. 22. Castiçal em porcelana,
€285, Nathalee Paolinelli. 23. Mesa
em alumínio, €2.980, Gucci. 24. Suporte
em vidro, €147, Nasonmoretti.
25. Relógio em madeira e latão, €365,
Vitra. 26. Banco Sleep em lã e madeira,
preço sob consulta, Claude Lalanne.

HOME IS WHERE 4 5 4 5 1 16 17 18

THE STYLE IS
De peças de escultura a artigos de luxo,
passando pelo revolucionário, pelo
disruptivo e pelo inconfundível. Leve
a criatividade para casa e transforme
cada divisão numa galeria de arte.
Por Maria Falé.

6 7 8 9 19 20 21 22

1 10 11 12 23 24 25 26

1. Castiçal em cerâmica, €1.276,


Nick Vinson x Nymphenburg. 2. Terrina
em barro, €107, Bordallo Pinheiro.
3. Cadeira de balanço em poliuretano, €427,
Magis. 4. Tigela em cerâmica Bollywood
Fish, €1.038, Fornasetti. 5. Peça em
latão, €1.845, Karen. 6. Suporte de
revistas em ferro, €200, Aytm. 7. Vaso em
porcelana, €482, La Doublej. 8. Conjunto
de dois pesos em metal, €400, Versace.
9. Tigela em cristal, €438, Reflections
Copenhagen. 10. Cigarreira em ouro de
14 kt, €12.874, JVDF. 11. Peça em
cerâmica, €238, Bitossi Ceramiche.
12. Castiçal em bronze, €666,
Carl Aubock. 13. Jogo Tic-Tac-Toe em
pedra e latão, €1.187, Blue Carreon.

82 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 83


IN&OUT

À esquerda, artwork
de Ertan Atay
(@ailunfailunmefailun).
Artwork de Santi P. Abaixo, artwork
Seoane (@santi_p. de Nina Garcia
seoane). (@carolninagarcia
e @atelieaflore).

#MUSTFOLLOW

VOZES
Artistas fechados em casa, um pouco por todo o mundo,
abriram portas à criatividade. E daí se fez um museu.
Por Ana Saldanha.

fenómeno global, o que significa que, por todo


@covidartmuseum
o mundo, houve pessoas em quarentena a atravessamos. Não nos limitamos a nenhum tipo
117 mil seguidores
enfrentar momentos de medo, solidão e stress. de técnica, recolhemos ilustração, fotografia,
E nós acreditamos que a arte é importante pintura, poemas, animações, vídeos, etc. Por
Como surgiu o conceito? Depois de uns porque é uma ferramenta de comunicação fim, procuramos qualidade porque, ainda que
dias de quarentena, percebemos que muitos muito poderosa que liga pessoas em torno digital, somos um museu e queremos manter
artistas estavam a partilhar os seus sentimentos de elementos comuns e, em muitos casos, o padrão de qualidade de um museu.
e pontos de vista sobre a covid-19 em obras ajuda-as a ultrapassá-los. Os artistas foram
que tinham criado durante o isolamento. muito criativos ao mostrar os seus pontos Acham que os museus virtuais vão
tornar-se mais comuns no futuro? Os
Percebemos que havia aqui um movimento
que não queríamos que fosse esquecido
de vista sobre a pandemia e foi isso que
tornou a experiência muito rica. museus físicos não vão deixar de existir, mas
LUÍS PEDRO NUNES • BRUNO VIEIRA AMARAL • TONY PARSONS
e então surgiu a ideia de criar um museu acreditamos que vão começar a levar mais a
digital, acessível a todo o mundo. E como selecionam os trabalhos que sério as possibilidades que o mundo digital MATILDE CAMPILHO • DIEGO ARMÉS • JOSÉ COUTO NOGUEIRA
publicam? Primeiro, têm de ter sido lhes oferece. E é agora o momento para criar
A arte foi um escape ou uma forma de produzidos durante a quarentena e têm experiências virtuais que complementem
lidar com a situação? A pandemia é um de estar relacionados com o momento que as físicas. l

84 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 85


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PELO BURACO DA FECHADURA


I CAPELINHA DAS APARIÇÕES
primido brasileiro’.” E aí captaram o meu magine duas crianças. Um menino e uma
interesse. menina. Têm 5 ou 6 anos. São irmãos.
LUÍS PEDRO NUNES Como é? O “comprimido brasileiro”? Estão muito excitados porque é a pri-
BRUNO VIEIRA AMARAL
Olharam para o meu espanto espantados. meira vez que ficam num hotel. Ainda por
O sabichão, o armado-aos-cucos, o isso- cima, um hotel com piscina. Como as outras
GAY TEAM -já-sei-há-anos – tinha sido apanhado em
falso. Sim, é um comprimido que a comu-
crianças, e alguns adultos, querem brincar e
divertir-se numa piscina que nunca experi-
O PROBLEMA
WINS! nidade gay brasileira toma já há anos, e que
é preventivo do VIH. E que já tomam cá.
mentaram num hotel onde nunca estiveram.
À hora a que descem para a piscina, estão lá
ÉS TU, PRETO!
Não podia ser. Aquilo soava-me a bizarro: várias famílias, pais que seguram os filhos
como podia ser? Como podia não saber? ou que, reclinados nas espreguiçadeiras, os
Esperei chegar a casa para me dedicar à in- observam e vigiam tranquilamente. Os dois
vestigação científica (fazer search no Goo- irmãos entram na água e, assim que o fazem,
gle), convencido de que iria desmontar esse ouve-se o arrastar súbito de cadeiras, um
embuste em minutos. repentino alvoroço na piscina, ordens vo-
Não aconteceu. Existe. É o PrEP – Pro- ciferadas, gritinhos de pânico. Será que há

N
filaxia Pré-Exposição e é hoje um dos meios um tubarão na piscina? É improvável, mas
ão me venham com tretas. Os gays dimento do engate. Basta serem homens. de prevenção, através da toma diária do só pode ser coisa grave porque os pais que dos à morte, porque, por uma questão de zeste, não por aquilo que és. Então, naquele
safam-se muito melhor, divertem- Posso estar errado, como estou em muita comprimido e previne o VIH em mais de assistiam tranquilamente aos esforços aquá- justiça e de equilíbrio, teríamos também dia, naquela piscina cheia de famílias bran-
-se bastante mais ou – se preferi- coisa. 99% dos casos. Esperem: tomar o compri- ticos dos filhos saltam para a piscina para os de lembrar todas as outras vidas destruídas cas, descobrem que essa ideia de justiça é
rem – complicam menos. Isso de ser “bom” O que me leva ao assunto que me trouxe mido previne mais de 99% dos casos – e retirar de lá. Os dois irmãos não compreen- sem que ninguém tivesse acorrido em seu um farol distante que não guia todos os ho-
ou “mau” só existe se quiser encarar a coisa aqui. Se querem saber as novidades sobre estou a ler isto na página da Abraço. Não dem o que se está a passar. Ao ver um ho- auxílio. mens. Descobrem que essa ideia de justiça,
de um ponto de vista moralista. Lembro-me sexo é falar com um gay informado. Está a fiquei convencido e quis ler mais. E não mem com o filho ao colo a fugir da piscina, Esqueçamos tudo isso e pensemos naque- mais do que uma realidade, é um ideal, uma
bem que, quando jovem eriçado, saía para quilómetros-luz no state of the art da queca. me tomem como fonte segura, mas garan- o menino que está com a irmã pergunta-lhe la criança à beira da piscina. Ela ainda não aspiração, uma ficção frágil que exige empe-
a esbórnia com a ténue esperança de me Ainda neste confinamento falava-se de X tem que é possível fazer uma só toma para o que se passa, qual é o problema. O homem sabe, mas a sua vida está prestes a mudar e o nho, esforço e sacrifício para que o ódio, um
cruzar com alguém do sexo oposto com dis- que tinha um fuck group. E eu a ouvir sem “um evento”, mas que os homens com vida olha-o com um ódio e uma raiva que aquela seu único contributo para que essa mudan- sentimento mais primitivo e enraizado no
posição para se fingir “enganada” por mim grande interesse. Que eram pessoas cuida- sexual muito ativa devem tomar todos os criança ainda não compreende: “O proble- ça se concretize é a decisão banal de entrar homem do que a sede de justiça, não triunfe
e aceitar ir dali para fora e enfim... esque- dosas e até faziam o teste à covid. Encolhi dias. Humm. Quando há dias me cruzei ma és tu, preto!” numa piscina num dia de calor. Até esse e não destrua de uma penada, com um sim-
çam. Centenas de noites a regressar a casa os ombros (imaginei que bom seria ter as- com uma jornalista especializada nestes O episódio aconteceu nos Estados Uni- momento, ele e a irmã vivem num paraíso ples olhar ou uma palavra cruel o que demo-
já com o sol a nascer e expectativas goradas sim um grupo de amigas a que chamar Fuck assuntos perguntei-lhe muito espantado dos na década de 60. O rapazinho chama- ambíguo, experimentam as delícias doces e rou séculos a construir e, todavia, ainda não
a racionalizar que era uma questão estatís- Group para passar o confinamento e jun- se ela sabia “disto” e de como certo pessoal va-se Bryan Stevenson e hoje é um advoga- confusas da infância, descobrem quão ex- está concluído.
tica. Por oposição um amigo gay que ia a tarmo-nos todos em segredo, depois de nos já tinha dito bai-bai ao preservativo. Mas do que trabalha na organização de direitos tenso é o mundo – até tem hotéis e pisci- Valeu a pena aquela ferida, aquela hu-
um clube gay. Então, como foi? Óbvio. Ób- testarmos ao Corona... Ya... in my dreams). como é que um tipo como tu não sabia do humanos que ele próprio fundou, a Equal nas – e pressentem vagamente, até porque milhação original, o chicote de um homem
vio? Como óbvio? É aqui que os detentores E depois, atirei tipo velhadas resmungão: PrEP? Sim, em Portugal está já disponível Justice Initiative, que defende negros con- os pais já os avisaram, que lá fora há peri- branco, adulto, a estalar nas costas, no peito
de um posicionamento merdoso costumam “E a sida? Não me vão dizer que vão usar no SNS e tudo. O problema é que quem denados à morte e que aguardam a execução gos, que é preciso ter certos cuidados, mas e no rosto daquela criança – “o problema és
dizer que “eles”, os gays, são muito promís- preservativo o tempo todo.” Fui olhado toma o PrEP deixa de usar o preservativo da sentença. O advogado sabe que alguns isso não lhes tolhe a alegria nem a liberda- tu, preto”? Quantas crianças não viram as
cuos. Mas basta ler este parágrafo para se como se tivesse vindo do passado, para aí e por isso têm aumentado outros tipos de homens são culpados, mas quer que o jul- de, pelo contrário, torna-os mais curiosos e portas do mundo real escancaradas da mes-
perceber que a questão não é serem “eles”, do século XX. “Não... eles tomam o ‘com- doenças sexualmente transmissíveis. Cer- gamento seja justo e imparcial, o que nem afoitos, mais dispostos a explorar o mundo ma maneira, através das mesmas palavras
é serem gajos. Com gajos. O que simplifica to... Mas caray, no fundo “acabou” com a sempre acontece. O episódio da piscina é e, de caminho, a escapar às suas armadilhas. ou de palavras idênticas, através da violên-
a situação do one-night stand. O que digo? transmissão da sida. relatado por Stevenson no documentário Cresceram com a ideia de que a um cri- cia, do sangue da agressão? O percurso de
Do one-hour stand. De novo. Se quiser saber mais sobre o True Justice, disponível na HBO. De certo me corresponde um castigo, que um erro se Bryan Stevenson dirá que sim, valeu a pena.
Quando apareceu o Tinder explorei a PrEP (a combinação de dois antirretrovi- modo, somos levados a acreditar que aquele paga com uma repreensão e que os pecados Aquele insulto terá sido a chispa que ateou
cena. Não é uma “app de sexo”. É uma re- rais) e sobre a profilaxia pós-exposição que acontecimento terrível foi responsável pelo da humanidade, de toda a humanidade, fo- o fogo da sua procura pela justiça. Só que
produção da vida animal em tecnologia já não se usa só em caso de violação, não despertar da consciência cívica de Steven- ram remidos pelo sangue do cordeiro, pelo antes disso, no início, havia uma criança,
em que os machos se exibiam (a praia, os sou a fonte mais indicada. Mas uma crónica son e que essa humilhação esteve na origem sangue de Jesus Cristo. São crianças, mas uma criança que só queria brincar na pisci-
cães, músculos, carros) e as fêmeas diziam: SIM, É UM tem de fechar com uma moral. E cá vai ela. do seu percurso em defesa dos mais vulnerá- já lhes foi inculcado esse sentido original na com a irmã e mesmo que dessa criança
“Estou aqui só por acaso... não quero nada.” Há 30 anos a comunidade gay foi a primei- veis, dos injustiçados, de todos os que, como de justiça: só podes pagar por aquilo que fi- tenha nascido um homem exemplar não nos
E de vez em quando a coisa acontecia. Fa-
COMPRIMIDO ra a sofrer o estigma e a descriminação com ele, sentiram na pele as ofensas, os insultos podemos esquecer – não me posso esquecer
lemos do Grindr, a app gay. Aquilo é mes- QUE A a epidemia da sida. Agora, sem que muitos e o ódio, mas que, ao contrário dele, não se- – da criança expulsa com um só golpe de
mo tipo UberEats. Olha-se, vê-se e diz-se: de nós saibamos sequer, já se livraram desse guiram o mesmo caminho virtuoso. Há ma- ódio do paraíso da infância e da inocência. l
‘bora lá? Sem dramas. Acho que a dinâmica COMUNIDADE fantasma e vivem a sua sexualidade de for- les que vêm por bem, não é?
homem-mulher para a situação sexo rápi-
do ainda está condicionada por milénios
G AY B R A S I L E I R A ma livre e, espero, libertina. Enquanto nós,
os moralistas, levamos negas nas apps de
Mas esqueçamos a carreira de Stevenson,
esqueçamos o homem em que ele se tornou,
de socialização/opressão e muitos mais de T O M A JÁ H Á engate e na eventualidade improvável de esqueçamos a sua coragem (ao longo dos ESSA IDEIA DE JUSTIÇA,
condicionalismos evolucionários (ir para a ter “sorte” ainda tememos o momento hor- anos, foi várias vezes ameaçado de morte),
cama com um desconhecido é sempre um ANOS, E QUE rível em que vamos lutar com uma borracha esqueçamos a serenidade e a firmeza com MAIS DO QUE UMA REALIDADE,
risco muito maior para uma mulher, dado É P R E V E N T I VO que irá empacotar o pirilau. Isto para o caso que exprime as suas convicções, esqueça- É U M I D E A L , U M A A S P I R AÇ ÃO ,
que no limite pode engravidar), e na minha de não termos ainda de usar máscara covid. mos até as vidas que ele salvou, as vidas de
opinião não há uma “ética gay” no despren- DO VIH Resultado? Gay team wins! l homens injustamente acusados e condena- U M A F I C Ç ÃO F R ÁG I L
86 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 87
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O ESCOTILHA
MAN THINGS mente, já passou pelo pico da paixão. A toque também mudou. Antes ía-
idade 47,2 é quando perde cabelo na cabe- mos buscar o pão e o senhor Zé,
TONY PARSONS para além da piada que era qua-
MATILDE CAMPILHO
ça e ganha nos ouvidos. Se chegar aos 47,2
anos sem tornar os seus sonhos realidade se sempre a mesma, dava-nos o troco na
– começar aquele negócio, morar numa ci- palma da mão. Um toque. Parávamos na
DESFRUTE dade estrangeira, namorar com a Charlize
Theron – provavelmente nunca o fará. Há
portagem, entregávamos o cartão, e o ra-
paz do lado de lá devolvia-nos o recibo.
TONY
DA SUA CRISE mais coisas atrás de si do que à sua fren-
te. Mas o que é realmente surpreendente
Outro toque. Apalpávamos as laranjas
no supermercado e ao nosso lado lá esta-
MONTANA NA
DE MEIA-IDADE sobre a pesquisa do NBER é que o pico
da infelicidade se está a aproximar de nós
va Maria Rosa com uma ameixa na mão,
sem medo nenhum de roçar o antebraço
CIDADE NOVA
há 20 anos. A crise da meia-idade é real, no nosso braço. Recebíamos amigos em
mas está a chegar há meia vida. Os homens casa, e antes de qualquer coisa espetáva-
tornam-se cada vez mais infelizes quando mos-lhes um beijo, dois, conforme a inti-
saem da adolescência e passam – cada vez midade, conforme o país, conforme umas
mais sombrios – pelos seus 20, 30 e 40 e regras mais estúpidas que outras. Íamos

A
poucos anos. ver a avó, beijo na testa. Recebíamos um
boa notícia é que o ocaso da vida Arsenal, Mikel Arteta, também o seja –, Ao escrever sobre o estudo da felicidade amigo no aeroporto, e antes das novidades resolviam as questões. Como resolver as mos em solidão, porque na pista de dança
será repleto de novas e emocio- mas os teus grandes sonhos continuam por no Daily Mail, Sam Leith, 46 anos, confes- um abraço. Aceitávamos encomendas em coisas mais simples agora, tocando pou- quase todos estávamos, havia sempre um
nantes aventuras. Dame Judi Den- realizar. Nunca vais precisar do discurso de sou: “Não iniciei um caso alimentado por mão. Segurávamo-nos ao corrimão sem co e com meia cara coberta? Sobram-nos momento em que o toque do outro nos
ch fez a sua primeira tatuagem – “carpe aceitação do Óscar ao qual te dedicas há Viagra com uma jovem de 20 e poucos anos. pensar nele. Brincávamos com os dedos os olhos. Tenho pensado muito naquela fazia ouvir passarinhos. Entre o negro e
diem” (“Peixe do dia, querida?”, brincou anos. Nunca serás rico ou famoso, ou na- Eu não me fartei do meu trabalho e decidi sobre o balcão do bar, encostávamo-nos à frase da personagem de Al Pacino no fil- vermelho, na boîte ou no café, era o toque
uma amiga) – no interior do pulso direi- morarás com Charlize Theron. E esse sen- ‘encontrar-me’ num Ashram do Sul da Ín- coluna, sentávamo-nos nos bancos de jar- me Scarface: “The eyes, chico, they never que nos levava até ao âmago da terra. Lá
to quando tinha 81 anos. Leonard Cohen timento – só Deus sabe como eu me sinto dia. Eu não comprei uma guitarra elétrica dim para ler um livro. Passávamos as mãos lie.” Saio de casa para comprar comida, dentro, bem lá dentro, estávamos muitos
comemorou os 80 anos voltando a fumar. infeliz – é a coisa mais natural do mundo. ou uma mota potente. Nem comecei a usar sobre paredes rugosas de hotéis só para para observar aquilo que resta dos lugares juntos, carne contra carne, com sorte car-
Brian Cox, autor do sucesso Succession, só O National Bureau Of Economic Re- um casaco de pele.” reconhecer alguma intimidade nas coisas quando os lugares fingem estar imunes à ne a favor de carne. E na intermitência da
começou a fumar erva aos 50. “Na verdade, search (NBER), na América, compilou da- Mas talvez Sam deva fazer essas coisas. com as quais teríamos que passar a noite, viragem do mundo, e de vez em quando vida, dedicávamos uma canção a alguém
eu era muito contra”, disse Cox, já com 73, dos de 132 países e concluiu que as nossas Talvez uma jovem de 20 anos com excesso assinávamos com canetas alheias, alinhá- dou de caras com olhos aflitos atrás das com quem esperávamos dormir a noite in-
ao The Guardian. “Quando tinha 50 anos, vidas são determinadas por uma “curva de de sexo seja exatamente o que precisa. Ou vamos a melena de alguma criança suada máscaras. Na cidade isso é especialmente teira. Com mais sorte ainda, a vida inteira.
percebi que o que estava a acontecer com os felicidade”, com a satisfação com a vida a uma mota. Ou uma guitarra. Não será tudo que passasse por nós na avenida. Afagá- visível. São muitos olhos, vêm aos pares, Não era fazer amor que nós queríamos. Era
jovens me tinha passado ao lado. E então, diminuir consistentemente desde o fim da isso preferível a conformar-se com o inexo- vamos os animais. Lambíamos envelopes e alguns pedem por favor uma mãozinha. frequentar o mesmo espaço, a mesma boî-
descobri o maravilhoso mundo do canábis.” adolescência, ficando pior nos 20 e nos 30 rável declínio até à infelicidade? que nos tinham sido entregues ali mesmo, Não sou de boîtes. Nunca fui. Aquela te, a mesma cozinha – roçando sem querer
Se se viver tempo suficiente, a velhice traz e finalmente atingindo o fundo do poço no Somos demasiado tímidos com a res- nos correios. Fomos sempre corpos em música estridente a tentar fazer pendant um ombro no ombro do outro, tocando a
consigo uma libertação que reflete as liber- fim dos 40. Depois disso, começamos a ani- posta masculina tradicional ao desespero contacto com outros corpos, humanos ou com as luzes e ao mesmo tempo com as mesma xícara, comendo do mesmo prato,
dades ilimitadas da juventude. mar e a pensar fazer uma tatuagem a dizer da meia-idade. Eu moro num bairro onde objetais. E subitamente, sem nenhum avi- nossas emoções sempre me pareceu um es- segurando o mesmo corrimão, lambendo
A má notícia é que, muito antes de come- “carpe diem”. há um Porsche rua sim rua não. Nenhum so, veio uma regra internacional que dis- quema meio preguiçoso. Mas agora que o a mesma carta. Nós só queríamos tocar,
çares a rebelar-te, vais sentir-te deprimido. O professor David Blanchflower, do é conduzido por um homem jovem. Esses se “Não Toque. Observe tudo de longe, e tempo virou, às vezes dou por mim a sen- ser tocados, e tocar juntos as mesmas coi-
Quando nos apercebemos de que os atletas Dartmouth College, acredita que a esca- Porsches dão prazer diário e profundo aos tente manter alguma proximidade a metro tir saudade daquela escuridão fluorescen- sas. É também porque tocamos as coisas
profissionais são agora mais jovens do que la e o objetivo da pesquisa sugerem que velhotes que os conduzem. E o que há de e meio de distância. Diga o que quer, mas te dentro da qual íamos roçando o corpo que deixamos a nossa herança comum no
nós, uma certa melancolia instala-se num o aumento da infelicidade “parece uma tão errado em comprar a Harley Davidson daí. Diga que ama, mas do seu lugar.” Ora. no corpo de estranhos, e que de alguma mundo. E este mundo, já se sabe, vai de
homem. “Todos nós fomos educados pela constante universal”. Acontece com toda ou a Fender Telecaster? A coisa boa – a Mas então querer, amar, não é um movi- maneira nos fazia companhia durante herança em herança, de beijo em beijo, de
televisão para acreditar que um dia sería- a gente. A pesquisa identificou como o mo- melhor coisa – de envelhecer é que não se mento para lá? Como desejar, daqui? En- uma noite inteira. Mesmo que estivésse- palavra em palavra. Muito mais que de
mos milionários, deuses do cinema e estre- mento de pico da infelicidade masculina os pode enganar mais e dizer que a vida vai fiávamos a mão no bolso e tirávamos lá de peste em peste. A peste é só uma vírgula –
las de rock”, rosna Tyler Durden, interpre- 47,2 anos. durar para sempre. Pouco antes de David dentro um papelinho amarfanhado, conti- o toque é que é a frase completa.
tado por Brad Pitt, em Fight Club. “Mas “Quando nos aproximamos dos 50, co- Bowie completar 50 anos, ele explicou-me nha as palavras mais puras ou mais práti- Já passaram muitos meses. Depois do
nunca seremos. E estamos a descobrir isso meça a surgir a sensação da nossa própria o porquê de o tempo parecer acelerar. Por- cas, e entregávamos tudo ao recetor. Tome confinamento inicial voltámos a ir ao pão
lentamente. E ficamos muito chateados.” mortalidade”, refere a psicóloga Tanya que, insistiu Bowie, o tempo realmente o meu amor, tome a minha dúvida. Muitas e aos correios, ao café, voltámos até a sair
O otimismo infundado – a crença de que Dharamshi. “As crianças podem já ter saído passa mais rápido à medida que envelhe- vezes nem interessava o que vinha escri- para trabalhar. Há quem já dê mergulhos.
podemos vergar este mundo à nossa von- de casa, os pais estão a envelhecer e a fragi- cemos. “Quando eu tinha 10 anos”, disse to no papel, mas sim o movimento através Sabemos que quase tudo mudou. O mer-
tade e transformar todos os nossos sonhos lidade já passou, e estamos a perceber uma Bowie, “um ano era 10% da minha vida. do qual o fazíamos chegar ao outro. Era English gulho que deu o mundo foi mais fundo do
em realidade – é um sintoma de extrema mudança na saúde física e na energia. Há Agora são apenas 2%.” no caminho entre o bolso e o outro que se version que qualquer mergulho que possamos dar
juventude. Mas quando a nossa vida come- também o questionar das nossas realizações Então, apaixone-se novamente. Compre este verão. Certos gestos, é quase certo,
ça a acumular anos, chega a um ponto em e sucessos, tanto pessoais como profissio- aquela mota. Ou uma guitarra elétrica. Não foram pelo ralo. Mas alguns deles – o cor-
que já não é possível enganarmo-nos mais. nais. Sentimentos de ansiedade e depressão entre gentilmente nessa bela noite, ou nes- po a corpo incluído – talvez valha a pena
“Esta é a tua vida”, avisa Tyler Durden. “E são extremamente comuns neste período.” sa depressão dos 40 e poucos. É uma vida preservar. Porque tocar nas coisas e nos
vai-se acabando um minuto de cada vez.” Essa idade perigosa é quando todos os maravilhosa se conseguir evitar o pico da A PESTE É SÓ UMA VÍRGULA outros, apesar do novo cuidado, talvez
O crepúsculo chega quando os futebo- tipos de declínio ocorrem – financeiro, infelicidade. E se quiser fazer uma tatua-
listas são mais jovens que tu – e talvez até profissional e físico. Provavelmente, já gem a dizer “fish of the day”, não espere até – O TOQUE É QUE É A FRASE seja uma forma de exercitar a atenção. E a
memória. Como de dois olhos, vamos pre-
o jovem treinador de 30 e poucos anos do passou pelo pico da carreira. Definitiva- ter 80 anos. l C O M P L E TA cisar delas agora. l

88 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020


JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 89
FICÇÕES MAIS OU MENOS
A NO TEMPO DA PÓS-VERDADE
onde surgem até, imagine-se, ciclistas que, palavra vem do grego: skéuos (vaso
defendendo-se da estrada, optam por circu- ou ferramenta) e morphe (forma).
DIEGO ARMÉS* lar pelos passeios, ocupando assim espaço Não se encontra nos dicionários
JOSÉ COUTO NOGUEIRA *
destinado aos peões. Também eu aprendi portugueses, mas existe desde 1889 em in-
a andar de bicicleta pelo passeio – quando glês: skeuomorphism. Talvez seja a altura de
À DESCOBERTA tem de ser, não há nada a fazer.
Como dizia, Lisboa é, no centro da ci-
a reavaliarmos.
Um skeuomorfe (skju əm rf) é uma es-
A CHARADA DO
DO ASFALTO dade, muito agressiva para os ciclistas.
Olhemos a quantidade de empedrados, de
pécie de trompe l’oeil, um objeto ou uma
imagem que retém pistas do original. Por
SKEUOMORFISMO
buracos nos empedrados, de faixas estreitas exemplo, um vaso de cerâmica a imitar uma
e de becos sem saída – sim: quando entra- cesta de verga (Há muitos no Palácio da
mos numa faixa entalada entre o lancil do Pena, construído no século XIX, quando o
passeio e o carril do elétrico, só queremos trompe l’oeil era moda. Também em Sintra,
chegar ao fim da rua (foi precisamente um a casa da condessa d’Edla, amante de Fer-
carril que me derrubou, a meias com uma nando de Saxe-Goburgo, cujas paredes de
cova no empedrado da estrada). No en- estuque imitam pranchas de madeira.) Um

Q
tanto, acabei por experimentar a bicicleta objecto skeumórfico típico são as lâmpadas
uando cais de bicicleta sozinho, se deu o pogrom de 1506 – e subir depois como alternativa ao metro ou a andar a pé. eléctricas a fingir chamas, montadas num gas. Mais recentemente, em 2010, a Toyota escolheram para que os humanos possam
no meio do campo, e te magoas Santo Antão, São José e Santa Marta. Ex- Vivo num quarto andar de um prédio an- casquilho que parece uma vela. equipou os seus carros híbridos Prius, mui- compreender as máquinas. Nada que se
nas mãos e num joelho, doem-te perimentei atravessar o Campo das Ce- tigo a cujo átrio não se pode, com seriedade, Contudo, o mais interessante é que este to silenciosos, com um ruído semelhante deva detestar. Mais que não seja, a sua acei-
as mãos e o joelho. Quando cais bolas e depois a Baixa – uma Baixa aban- chamar átrio, e cujas escadas são sinuosas e conceito arcaico, digamos, teve um renas- a um motor convencional, para avisar os tação marca novas fronteiras tecnológicas,
de bicicleta na Rua da Alfândega ao fim donada por todos exceto pelos indigentes a pique; um prédio onde a palavra “eleva- cimento alargado na era dos computadores. peões. Por falar em som, o Mac usa uma es- territórios inexplorados para os quais pre-
da tarde de um dia da semana, com carros que lhe conferiam o tão falado aspeto de dor” não passa de delírio futurista de que Primeiro a Apple, e depois a Microsoft, pécie de assobio para indicar que um arqui- cisamos de uma ajuda para navegar.
atrás de ti, e te magoas nas mãos e num joe- “filme pós-apocalíptico” (nota mental: alguém com família nas Avenidas Novas já querendo facilitar a compreensão de certos vo voou para uma pasta. A “pasta”, claro, Mas também há quem ache a técnica uma
lho, é a dignidade e o amor próprio que te “apocalipse” significa “revelação”, nunca ouviu falar. Não posso dar-me ao luxo de conceitos aos utilizadores vindos do papel, também é skeuomórfica. ideia ridícula e de uma antiguidade kitsch.
ficam a doer. esquecer) –, a seguir o Rossio, onde só os ter bicicleta própria. Ando nas bicicletas criaram uma série de símbolos skeuomórfi- Embora não tenha sido a Apple que in- O principal adversário do skeuomorfismo
De todas as mudanças apregoadas pelos pombos e as gaivotas andavam à solta a públicas municipais – 25 euros por ano, cos, como o “cesto do lixo” para deitar ar- ventou o skeumorfismo na “secretária” (ou- é precisamente o guru do design da Apple,
visionários que auscultaram a situação pan- chatear os dois ou três taxistas ancorados acrescidos de uns cêntimos por utilização, quivos fora, a imagem da disquete para os tra analogia, para ecrã), foi uma designer Jony Ive. Quando tomou conta do depar-
démica e dela extraíram ilações acerca do junto ao Dona Maria, para, por fim, subir mas só se esta exceder os 40 minutos, e eu arquivar, ou o “bloco de notas” pautado e contratada por Steve Jobs, Susan Kare, que tamento na empresa – antes só trabalhava
futuro do mundo, a única que veio a con- a Avenida propriamente dita. só preciso de 15 minutos para o meu tra- com argolas de metal. Outro caso é o dos desenhou a maioria dos ícones e sons que em projectos específicos, a começar pelo fa-
firmar-se foi que eu passaria a fazer mais Nessa altura, a bicicleta não se me afi- jeto, portanto, temos negócio. Têm des- relógios digitais cujo ecrã reproduz um re- hoje tão bem conhecemos. moso Mac “bolha” – a primeira coisa que
exercício. Na verdade, é uma questão muito gurava alternativa viável. Lisboa é agres- vantagens, claro que as têm – são feias de lógio com ponteiros. O conceito tem os seus defensores; se- fez foi eliminar quase todas estas analogias,
mais prática do que convicta, admito. Não siva de várias formas para os seus ciclistas. um modo muito próprio, são pesadas e são Os painéis de controlo dos aviões, que gundo o jornalista Campbell-Dolloghan criando ícones, especialmente no iPhone,

*DIEGO ARMÉS ESCREVE A CRÓNICA SEMANAL DE FUTEBOL SÓCIO #107658 EM GQPORTUGAL.PT.


foi por temer a gordura localizada no abdó- Reformulo: Lisboa é agressiva de várias usadas por dezenas ou centenas de pessoas; hoje são todos digitais, continuam a imitar escreveu na revista digital Gizmodo, “O” sem nenhuma associação com os objectos
men que me propus exercitar o físico. Foi formas para os vários tipos de locomoção, nem sempre temos uma estação perto de os ponteiros, contadores e indicadores usa- skeuomorfismo não é um crime de design. de onde vinham.
mesmo o receio de partilhar transportes principalmente no centro da cidade, onde, nós, o que obriga a programar metodica- dos até ao advento da digitalização nas ca- É a linguagem que os designers humanos Mesmo assim, o skeumorfismo não desa-
públicos com pessoas possivelmente infe- por exemplo, andar a pé significa dispor- mente cada deslocação; nem sempre as há bines. O mesmo acontece com muitos auto- parecerá do mundo digital. Alguns ícones
tadas com esse perigo invisível, a repulsa mo-nos a enfrentar um pouco de tudo, da com auxiliar elétrico, o que, juntamente móveis, que só lentamente estão a assumir tornaram-se tão familiares que já perderam
por respirar o mesmo ar que elas, o que me sujidade no chão aos buracos na calçada, com o peso que têm, transforma a subida a sua natureza digital. a ligação com a sua origem. O humilde “ces-
moveu a buscar formas alternativas de me da falta de espaço nos passeios aos carros aí da Avenida num exercício de rebelião con- Quem deu o nome ao conceito foi o ar- to do lixo” é um deles. Que outra imagem

*JOSÉ COUTO NOGUEIRA ESCREVE NA ANTIGA NORMA ORTOGRÁFICA.


deslocar de casa para o trabalho e do traba- estacionados, por aí fora, numa longa lista tra as circunstâncias cósmicas. No entanto, queólogo inglês Henry Colley March, para intuitiva se poderia inventar para o subs-
lho para casa. têm-se revelado companheiras fiéis e com- classificar este tipo de “disfarce” em muitas tituir?
Primeiro, caminhei. Andar a pé é uma petentes. peças arqueológicas da Grécia clássica. Ao Assim como o conceito de skeuomorfis-
atividade que muito me satisfaz. Fiz diver- Atravessar o coração da cidade – uma longo do tempo, a estética foi aplicada a mo passou do restrito mundo da arqueo-
sas vezes o caminho de casa ao trabalho. cidade por enquanto muito mais vazia do todos os tipos de coisas, como as carrinhas logia para várias áreas da tecnologia, espe-
Foram vezes suficientes para experimentar que é costume – sentindo o ar na cara, e das décadas de 40-50 que tinham painéis de English cialmente a informática, também poderia
variações no percurso e alternativas ao que fazê-lo com tempo, sem pressas (se eu for madeira semelhantes às carruagens anti- passar para outros sectores? Porventura,
seriam os trajetos mais lógicos. Porque não
N ÃO F O I depressa, demoro 11 minutos; se eu me
version
para a política? Ou seja, por exemplo um
existe apenas uma maneira de ir do coração POR TEMER demorar, levo 16), tem-me feito redesco- programa político que parece uma coisa,
de Alfama até uma rua paralela à Avenida brir com felicidade uma série de sensações mas já é outra completamente diferente?
da Liberdade para chegar a um ponto que A GORDURA e prazeres de certo modo infantis – até a Ou, duma forma mais abrangente, pode
lhe fica sensivelmente a meio – se a Aveni-
da da Liberdade tivesse pés e cabeça, o sítio
LO C A L I Z A D A sensação da queda embaraçosa (que mal
tem? A gente levanta-se, sacode as mãos e
F O I U M A D E S I G N E R C O N T R ATA D A discutir-se que aquilo a que chamamos hoje
democracia é uma skeuomorfice da demo-
onde eu trabalho dava-lhe pela cintura. NO ABDÓMEN as calças e continua). l POR STEVE JOBS, SUSAN KARE, cracia do século XX? Que o termo “fascis-
Experimentei galgar a colina, atraves- mo” já não é o que foi?
sar São Tomé, descer ao Martim Moniz, QUE ME PROPUS QUE DESENHOU A MAIORIA DOS Excelente tema para um jantar com pes-
atravessar o Largo de São Domingos – E X E R C I TA R Í C O N E S E S O N S Q U E H O J E TÃO soas inteligentes e antagónicas – quando
sempre que passamos pelo Largo de São English acabar o perigo do coronavírus, cuja ima-
Domingos devemos lembrar-nos que ali O FÍSICO version BEM CONHECEMOS gem é, certamente, skeuomórfica. l

90 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 91


JUL /AGO
ENTREVISTA • MODA • MUSA • REPORTAGEM • REFLEXÃO

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“Se for um papel cómico e tu estiveres a fazer essa


personagem com verdade, se ela estiver a passar por um drama
pode ter graça e pode dar para chorar na mesma.”
Descubra mais sobre Inês Aires Pereira, a Musa GQ desta edição, na página 128.

M A K I N G C U L T U R E G L O B A L
O U R R E A D E R S K E E P I N C R E A S I N G E V E R Y D A Y . T H A N K Y O U .

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JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 93


ANÁLISE

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O.
..
…todos ralham e ninguém tem razão.
Conheça o bom, o mau e o que há
por legislar no mundo do coaching
– e o que é que a Psicologia tem
a dizer sobre o assunto.
Por Ana Saldanha.

94 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 95


ANÁLISE
A, B, COACHING
Miguel Gonçalves está no meio das
duas áreas: é psicólogo clínico,
psicoterapeuta, coach e diretor da Clínica
acreditações sem significado e ‘grandes no- DO DIPLOMA de Psicologia e Coaching Learn2be
mes’ autorreconhecidos como ‘líderes’ na AO CONSULTÓRIO (psicologiaecoaching.pt).
matéria, que usam a denominação coaching Desde 2014 que existe, na Faculdade de
para se promoverem. Qualquer pessoa se Psicologia da Universidade de Lisboa, uma O que faz um coach?
pode autodenominar ‘coach certificado’, Pós-Graduação em Coaching Psicológico – O coach é um parceiro/treinador do cliente
qualquer pessoa pode criar uma organiza- em que uma das condições de acesso à um no processo para alcançar um objetivo
ção de formação para coaches.” grau académico em Psicologia. “Trabalhar específico ou para melhorar o desempenho
Ainda em regime de terra de ninguém, com pessoas é um trabalho de muita respon- e os recursos em alguma área da sua vida.

O
a psicologia diz que o território é seu e sabilidade. Só para fazer uma pequena com- O coach direciona e orienta o cliente,
debate chegou à mesa quando, que deveria ser obrigatória a formação em paração: no mundo da Psicologia, o profis- através de perguntas e de exercícios
em 2016, a Ordem dos Psicó- Psicologia para exercer o coaching. “Em sional estuda 5 anos para ser psicólogo, mais específicos para que o cliente consiga
logos Portugueses (OPP) pu- termos gerais, o coaching situa-se na inter- 4 a 10 anos para ser Psicoterapeuta, e con- alcançar aquilo a que se propôs de início.
blicou um parecer sobre a falta secção da Psicologia Clínica, do Desporto, vém realizar o seu próprio processo terapêu-
de regulamentação na área do coaching e os Organizacional e da Saúde. Qualquer uma tico, ou seja, ele próprio fazer psicoterapia”, Coaching e autoajuda são
consequentes perigos para a saúde pública. destas formações de base preparam o psicó- Miguel Gonçalves defende um meio termo. explica Miguel. Ainda que existam alguns órgãos indepen- a mesma coisa?
Mas já antes disso a palavra – e a prática – logo para trabalhar com os clientes recor- Por um lado, não nega que poderão exis- Quanto às formações em coaching, feitas dentes, o facto de não existir um organismo A principal diferença é que no coaching
não nos era estranha. rendo a técnicas científicas válidas para os tir bons profissionais na área do coaching: em escolas e academias independentes e não oficial encarregue de regular a prática e as há uma relação profissional entre duas
O termo coach, na sua génese, significa ajudar a atingir os seus objetivos pessoais “Embora muitos coaches tenham também regulamentadas, a duração da formação que formações torna difícil que a profissão tenha pessoas e nos processos de autoajuda
mentor ou treinador, ou seja, alguém que e profissionais. Os psicólogos têm estado formação em Psicologia, isto não é regra dá acesso aos certificados varia. Muitas têm regras e normas, que todos os coaches respon- não. A autoajuda é um trabalho útil, mas
nos ajuda a atingir um determinado objeti- envolvidos em atividades de coaching des- geral. É possível o coach ter a sua formação um “selo de qualidade” de um organismo dam ao mesmo código de ética e deontologia que se faz sozinho e o perigo dos livros e
vo, pessoal ou profissional, e que nos serve de há muitos anos. Aliás, as próprias raízes inicial numa outra área e tirar uma espe- chamado Association for Coaching, que foi e que as más práticas sejam devidamente le- áudios de autoajuda é que o leitor está a
de guia. Com o passar dos tempos, as rami- do coaching remontam a teorias da Ciên- cialização em coaching e esta característica criado em 2002 e que se rege por um “Có- gisladas, controladas e punidas. “Por exem- ter acesso a esse conteúdo através do seu
ficações do coaching foram-se estendendo cia Psicológica, como a de Maslow, e estão não tira em nada o valor desse coach nem digo de ética global para coaches, mentores plo, na Psicologia, quando há alguém que mundo próprio, da sua perceção, o que
para quase todas (se não todas) as áreas da relacionadas com os fatores subjacentes à mesmo o valor e a utilidade do coaching.” e supervisores”. Para além desta associação não segue os princípios éticos e deontológi- leva à criação de juízos de valor, rigidez
vida: business coaching, life coaching, rela- emergência do movimento da Psicologia Por outro, salienta que uma formação em internacional, em Portugal existe o ICF cos da profissão, ou que comete algum erro cognitiva (teimar numa ideia) ou entrar
tionship coaching, financial coaching (tra- Positiva”, pode ler-se no documento lança- Psicologia é extremamente valiosa, ou não (International Coach Federation), que faz muito grave, a Ordem dos Psicólogos pode em rotundas de pensamento que não o
duz-se para coaching de negócios, de vida, do em julho de 2016. estivéssemos a falar de um ofício que lida parte da ICF Global, e que é uma comuni- impedir que essa pessoa continue a sua prá- levam a lado nenhum. Um outro perigo é
de relações e de finanças). Por outro lado, os coaches, que muitas com pessoas. “O problema aqui é que é uma dade de profissionais de coaching, e a IACP tica clínica. No mundo do coaching, caso tal que o leitor pode não ter a força anímica,
A tendência, aliada à falta de regulamen- vezes vêm de áreas que nada têm a ver com profissão que lida diretamente com o ínti- (Associação Internacional de Psicólogos aconteça, o coach até pode ser expulso como o foco e a motivação suficiente, ou
tação, fez com que rapidamente se multipli- a psique, defendem a criação de uma ordem mo da pessoa. Ou seja, é uma ferramenta Especializados em Coaching). A GQ con- membro da escola de coaching que seguia, mesmo segurança interna, para pôr
cassem as escolas e academias que, por um independente que regulamente a formação que muitas vezes ‘abre a caixa de Pandora’ tactou o coach Eduardo Torgal, cuja acade- mas nada impede que continue a trabalhar e em ação o que está a aprender nos
preço mais ou menos apelativo e com uma e a prática. das emoções, sentimentos e pensamentos mia, chamada Instituto Eneacoaching), faz a atender pessoas”, explica Miguel. conteúdos de autoajuda, o que aumenta
formação mais ou menos longa, passavam que devem ser posteriormente arrumados. formações em coaching – com 12 horas de “Em Portugal, existe um número indeter- ainda mais a sensação de frustração.
diplomas de coach. “Infelizmente, aqui re- E muitas vezes o coach não sabe como fa- aulas gravadas, 10 aulas online em tempo minado de pessoas e instituições que recla-
side o principal problema. Qualquer pessoa zê-lo porque é algo que já recai sobre a área real e 2 dias de formação presencial –, mas mam o exercício de atividades de coaching. Um coach está habilitado a tratar
pode ser coach e há cursos de coaching que, da Psicologia. Embora o coaching vá beber não obteve resposta. No entanto, é difícil identificar quer a sua patologias como a depressão?
em muito pouco tempo e com muito pou- muita teoria e conhecimento à área da Psi- “O maior perigo é haver falta de regula- qualificação, quer a verdadeira natureza Quando o coach verifica alguma
co conteúdo e supervisão, formam pessoas cologia, um coach não é psicólogo”, explica mentação no mundo da formação em coa- das atividades que realmente exercem. Não questão relacionada com perturbações
em coaching. Essas pessoas podem ir para o Miguel. ching. Há várias escolas de coaching que fa- é fácil selecionar coaches que possuam um psicológicas, emocionais ou
mercado, fazer marketing da sua atividade zem um excelente trabalho e que garantem conjunto de requisitos éticos e profissionais comportamentais deve encaminhar essa
e receber pessoas nas suas sessões. Fazendo uma formação muito completa aos seus for- considerados essenciais para realizar e credi- pessoa para um Psicólogo Clínico ou
uma pequena metáfora, é como se tivésse- mandos. Mas há muitas formações em coa- bilizar a prática do coaching”, lê-se no pare- Psicoterapeuta.
mos lojas de armas que vendem as suas ar- ching que são muito incompletas e que, por cer da OPP.
mas a qualquer pessoa sem garantir que têm isso, permitem que qualquer pessoa, em mui- Miguel conclui que o futuro passa por Quais são as principais diferenças
realmente competências para ter posse de to pouco tempo e com muito pouco treino se uma solução de união entre a Psicologia e entre a relação estabelecida com
arma. A arma em si não é perigosa, mas, nas intitule coach. É importante termos noção este campo mais recente: “Penso que há es- um coach e com um terapeuta?
mãos da pessoa errada, pode causar muito CONSELHEIROS DA TV de que trabalhar com pessoas é um trabalho paço para todos e que, como aconteceu com Enquanto no coaching é uma relação
dano”, explica Miguel Gonçalves, psicólogo Em julho de 2016 Portugal soube duas coisas: como era ser campeão europeu de futebol de grande responsabilidade e que, para fazer a Psicologia no passado, que também não de trabalho para alcançar um objetivo
clínico, psicoterapeuta, coach. O parecer da e que o golo da vitória se devia a Susana – a mental coach de Éder. Os coaches começaram um bom trabalho com as pessoas, quer na era regulamentada por nenhuma Ordem dos específico, na psicoterapia a relação acaba
OPP não se afasta muito da opinião do psi- a ganhar popularidade e passou a ser comum vê-los no papel de comentadores em programas Psicologia, quer no coaching, são necessá- Psicólogos e que teve necessidade de a criar, por ser muito mais profunda. Digamos
cólogo, embora seja um pouco mais ríspido: televisivos da manhã e da tarde. Posteriormente, em outubro de 2018, estreou em Portugal rios muitos anos de prática, além de muita também o mundo do coaching encontrará que o coach é um treinador pessoal,
“O coaching é um ‘negócio’ não regulado, o programa Casados à Primeira Vista. O conceito apresentava casais que se conheciam pela formação e supervisão do próprio trabalho”, formas de se autorregular e, assim, garantir a que direciona, acompanha e treina o seu
pautado por muitas pseudoqualificações, primeira vez no altar. Os pares não eram aleatórios, mas sim escolhidos a dedo por um painel conta o psicólogo. qualidade e a segurança da sua área de atua- cliente no sentido de cumprir uma meta.
de especialistas. Esses especialistas eram coaches que faziam avaliações psicológicas dos ção. As duas áreas tocam-se e é importante O psicoterapeuta é um cuidador que se
concorrentes para assegurar a compatibilidade dos pares. Depois do casamento, o papel haver soluções de sinergia entre as duas de empresta a uma relação terapêutica e com
dos especialistas consistia em guiar os casais, fomentando, idealmente, a criação de laços. forma a chegar-se a um entendimento de be- quem o “cliente” pode resolver os seus
O programa esteve no centro de outra discussão com a Ordem dos Psicólogos, que reforçava nefício mútuo e a garantir o mais importan- traumas e os seus bloqueios, de forma
a proibição de fazer intervenções psicológicas no espaço mediático e que criticava o facto te, que é disponibilizar às pessoas serviços de a conseguir corrigir o mal que foi criado
de o programa misturar dois coaches com um psicólogo podendo confundir, aos olhos do Psicologia e de coaching fiáveis e de elevada pelas suas relações anteriores.
público, as funções das duas áreas. eficácia e qualidade.” l

96 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 97


Jiri: casaco, camisa e calças em algodão,
tudo Hermès. Dan: camisa e calças em
MODA
linho e algodão, tudo Loewe. Nour: camisa
e calças em algodão, tudo Loewe.

E L P E S C A D O R
Os filhos do pescador acordam quando nasce o sol e é na costa que brincam
até que o mar lhes devolva o pai. Os olhos, curiosos, conhecem a maravilha e o medo.
Foram o vento e as nuvens que lhes ensinaram como é ser livre.

Fotografia de Iñigo Awewave. Styling de Javier de Pardo.


MODA

Dan: vestido em poliéster, Palomo Spain.


Sapatos em pele, Bottega Veneta.

Na página ao lado, Jiri: T-shirt em caxemira


e algodão, calças em algodão, chapéu
em nylon, lenço em seda, tudo Prada.
Dan: top em caxemira e algodão, calças
em algodão, chapéu em nylon, lenço
em seda, tudo Prada.

JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 101


MODA

Nour: camisola e calções em algodão,


chapéu em palha, mala em pele, tudo Lanvin.

Na página ao lado, Jiri: casaco e camisa em


algodão, ambos Hermès. Brinco em metal, da
produção. Nour: camisa em algodão, Loewe.
Brinco em metal, da produção.

JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 103


MODA

Jiri: top em algodão, Dries Van Noten. Colete em seda e algodão, calças em algodão,
tudo Massimo Dutti. Chapéu em palha, da produção. Dan: jumpsuit em algodão, Bottega
Veneta. Blazer em algodão e lã, Massimo Dutti. Chapéu em palha, da produção. Nour:
top e calças em algodão, tudo Bottega Veneta. Chapéu em palha, da produção.
MODA

Dan: camisa e calças em linho e algodão, tudo Loewe.

Na página ao lado, Jiri: camisola em nylon, Givenchy. Dan: casaco em nylon, Bottega
Veneta. Lenço em seda, Hermès. Nour: casaco em lã, Acne Studios. Camisa em
algodão, A.P.C. Calções em algodão, botas em pele, ambos Dior Men’s Collection.
MODA

Nour: casaco em nylon, botas


em pele, ambos Louis Vuitton.

Na página ao lado, Jiri: camisola


em algodão, lenço em caxemira
e algodão, ambos Hermès.

108 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020


MODA

Dan: fato em seda e algodão,


Dior Men’s Collection.

Na página ao lado, Jiri: casaco em lã,


Bottega Veneta. Calças em algodão,
Massimo Dutti. Sapatos em pele,
Bottega Veneta. Dan: fato em algodão
e lã, Massimo Dutti. Nour: Colete em
algodão e caxemira, Massimo Dutti.
Calças em algodão, Bottega Veneta.

MODELOS: NOUR @UNO MODELS, DAN E JIRI


@VIEW MANAGEMENT. DIRETOR DE CASTING:
JAVIER DE PARDO @JAVIER DE PARDO. DIRETOR
DE ARTE: ANA FLOUBET @ANAFLOUBET.
SET DESIGNER: LAURA JAUREGUI
@LAURAJAUREGUI. ART COBALTO STUDIO
@COBALTOSTUDIO. GROOMING: EMILIANO
RICCARDI @EMILIANO_RICCARDI. ASSISTENTE
DE FOTOGRAFIA: MARTA ROMERO
@MARTAROMFDZ ASSISTENTE DE STYLING:
TOM MCALLISTER @TOM.MCA. ASSISTENTE DE
GROOMING: LOANA CATARGIU @IOVANHELSING.
O
PORTU-
GUÊS

OS
É um dos maiores fenómenos da televisão
portuguesa. Fernando Mendes, ator, humorista
e apresentador do programa O Preço Certo,
lidera audiências e arrasta multidões. É um
artista popular, um símbolo do País real.
Por Diego Armés, com José Santana.
Fotografia de Frederico Martins. Styling de Maria Falé.

112 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 113
TEMA DE CAPA

"
o
secadores de cabelo, máquinas de café e con-
juntos de atoalhados. Todos têm um preço
e todos são apresentados em expositores
como se estivessem numa montra, enquan-
to Lenka, ou Teresinha, ou Mário – os as-
sistentes do programa – tratam de lhes dar e Fernando Mendes dançará, cheio de ener-
um toque humano emprestando as mãos e os gia, não haverá cansaço que o derrube. Nis-
sorrisos ao mesmo tempo que apontam para to, em mais um dos jogos simples em que os
“Os destas filas aqui, cuidado”, avisa Betão os objetos – quando não os acariciam, se fo- concorrentes vão tentando adivinhar preços
ao microfone com sotaque brasileiro, apon- rem fofos, ou demonstram como se usam, se para ganharem prémios, um aspirador verti-
tando para as pessoas nas primeiras cadeiras forem utilitários. cal de €100 é o par perfeito para o adapta-
da bancada. “Se estão de baixa, a Segurança De repente, o assistente de realização en- dor de rede, também ele de €100, portanto
Social vai pegar, vocês vão estar sempre a tra em pânico, “é preciso entrar o cantor, o concorrente a-cer-tou!, “espetáááculo!”, o
aparecer”, continua o incansável assistente Miguel, é preciso entrar o cantor” – Miguel que leva ao delírio a claque que veio com ele.
de produção que coordena o público e trata não avisou o cantor. “O cantor, Miguel! Mas Bem-vindos ao Preço Certo com Fernando
de acolher a audiência, explicando-lhes as eu tenho de acordar toda a gente, pá?” O Mendes, o programa mais visto da TV por-
regras e os procedimentos a adotar a cada cantor consegue chegar ainda a tempo. Na tuguesa no seu horário e um dos cinco mais
momento do programa. Esta preparação de- verdade, são dois cantores, cada um com o vistos diariamente. Mendes dá vida a este
mora cerca de um quarto de hora e precede seu acordeão. O público delira. Um assisten- momento de encontro e de entretenimento,
a entrada da estrela em cena. “Quando ele te confidencia-nos que os músicos contac- de diversão e de confraternização há mais de
entrar, gritem, gritem muito, ele merece, ele tam frequentemente a produção para ir ao 17 anos, e a audiência não se cansa dele. Pelo
é um grande homem, ele tem um coração programa promover as novidades que têm contrário, parece gostar mais dele a cada dia
imenso”, diz Betão com genuíno entusias- – “muitos vêm aqui e têm as câmaras e as que passa.
mo, apresentando aquele que todos espe- comissões de festas a ligar-lhes assim que o
ram, Fernando Mendes. “Gritem como se programa vai para o ar”. Aqui tudo se pro-
eu entrasse aqui todo nu”, sugere enquanto move, seja uma oficina em Agualva ou um MADE IN PARQUE MAYER
dá uma gargalhada e todos se riem com ele. cabeleireiro no Montijo, um disco do Toy “Não fujo muito desta maneira de ser, sem-
O portão sobe, Fernando Mendes entra, o ou um restaurante em Celorico de Basto. pre fui assim. A minha maneira de estar é
ruído é ensurdecedor, a plateia vai ao rubro, (Com sorte, Fernando Mendes levará esta esta, seja com o senhor doutor tal, seja com
“Fernando! Fernando! Fernando! Fernan- GQ para mostrar num programa que segu- o senhor ministro tal, ou seja com o varredor
do!” É difícil acreditar que apenas 70 ou ramente será visto por cerca de um milhão de ruas.” Fernando Mendes é assim, ponto
80 pessoas conseguem fazer tanto ruído só de pessoas.) Mais tarde, na gravação do pro- final. Às vezes, acrescenta um bocadinho de
com aplausos e gritos. A entrada de Mendes grama seguinte – neste dia, foram gravados personagem – umas piadas, umas caretas –,
(ou do “Fernandinho”, ou do “Gordo” – “eu dois programas antes de uma emissão em mas, no geral, é isto: genuíno, direto, de con-
dantes era gordo”, confirmará o apresenta- direto, o que é uma dose substancial de tra- versa simples, de sorriso fácil. “Sempre fui
dor na entrevista –, nomes não lhe faltam) balho (neste estúdio não se brinca: a equipa assim.” Se já era o engraçadinho da família,
é pouco menos que apoteótica. Mendes é diverte-se, ri-se, tem espírito, mas o traba- quando era miúdo? “Era. Nós somos quatro
obviamente um herói popular. lho é levado muito a sério) –, outro músico irmãos”, diz isto e inicia um longo desvio de
Seguem-se mais de 40 minutos sem pausas cantará “no Facebook é linda, no Instagram conversa. “Eu sou ator porque o meu pai era
num plateau por onde desfilam concorren- é top/ é só fogo de vista, ela é só Photoshop” ator, ponto. Fui criado aqui [aponta na dire-
tes, operadores de câmaras, assistentes de ção] no Parque Mayer.”
produção e assistentes do próprio progra- Pausa. O pai de Fernando Mendes não
ma, e em que entram e saem de cena aspi- era apenas “um ator”: Victor Mendes foi dos
radores verticais, barcos insufláveis, jogos atores mais populares do seu tempo, um dos
de bowling, jogos do galo, liquidificadoras, nomes maiores do Maria Vitória, do Varie-
dades ou do ABC durante os tempos áureos
do teatro de revista. “O meu pai era o artista
mais popular do teatro português”, diz Fer-
FERNANDO NO CINEMA nando, com orgulho. “Todos os domingos,
“Entrei uma vez num filme do António-Pedro Vasconcelos que se chamava Aqui d’El Rei, era íamos almoçar ao Manel e depois íamos à
para fazer de guarda prisional. Aquilo era uma coprodução francesa e portuguesa. Então eu matiné. Depois chorávamos, porque quería-
estava a contracenar com a primeira atriz francesa e não percebia nada do que ela me estava mos ficar para a noite, mas não podia ser, que
a dizer. Para mim era igual ela dizer isto ou aquilo. E eu tinha de esperar pela deixa que havia escola no dia seguinte.”
acabava em ‘oh’ – mas em francês acaba tudo em ‘oh’. Ela disse ‘oh’, e eu ‘agora sou eu’, mas
eu nunca tinha feito cinema. Aquilo parou algumas cinco vezes porque a atriz começava-se
a rir e a dizer ‘epá, não consigo, olho para a cara dele, começo-me a rir’ e eu todo contente, Camisa vintage em
algodão, Heartcore.
ao mesmo tempo, porque aquilo era uma coisa séria, mas eu cá para mim ‘isto está a correr Calções e chinelos
bem, ela está-se a rir, é a primeira artista e está-se a rir’. Portanto, foi esta a única vez que fiz em algodão, ambos
cinema. Enfim, não é não gostar, mas se fizer, faço, se não fizer, não há problema.” da produção.

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TEMA DE CAPA

Elísio: calções em nylon, Intimissimi. Chinelos em borracha, Havaianas x Mastermind Japan. Edjoy: calções em nylon,
Intimissimi. Chinelos vintage em borracha, Adidas na Heartcore. Fernando: Camisa vintage em algodão, Heartcore.
Tank top em algodão, chapéu em ráfia, ambos H&M. Calções em linho, Emporio Armani. Sandálias em pele, Birkenstock.
Greg: calções em nylon, Intimissimi. Ronaldo: calções em nylon, Intimissimi. Marlon: calções em nylon, Intimissimi.

FORA DO PLANO
No Preço Certo, nem sempre tudo corre bem. Por exemplo, Fernando, um concorrente que chegou à montra dos
prémios, perdeu, mas chegou a ter um palpite quase em cheio, que acabou por mudar seguindo as indicações da sua
claque. Estava destroçado, a expressão no rosto não enganava. Diz que estudou para o programa, “fui a sites e vou
vendo as montras – eu e todos os que vieram comigo, toda a gente estudou”. Como Fernando, muitos concorrentes
fazem este tipo de preparação, estudando produtos ao pormenor e sabendo preços de cor. Fernando – o outro, o
Mendes, o apresentador – diz que este trabalho colaborativo nem sempre dá bons frutos. “Às vezes, chateiam-se a sério
uns com os outros. Não aparece, porque é no fim da emissão, mas chateiam-se. Muitos combinam dividir os prémios
entre a comitiva toda e com esses não há problemas. Mas quando não há nada combinado, se depois um ganha e não
partilha com os outros, aquilo acaba mal.” Fernando Mendes não se refere apenas a discussões e zaragatas entre amigos
que vêm em grupo. “Houve um casal que se divorciou por causa de um carro. Isto é verdade, separaram-se mesmo.”

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TEMA DE CAPA

truques de cor para que tudo fosse mais fácil.


Depois, havia as sessões, chegavam a ser três
num só dia, aos domingos e feriados, duas de
segunda a sábado. Quando eram estreias, as
coisas prolongavam-se, chegavam às tantas
da madrugada para percebermos onde é que admite que talvez até fosse em excesso, mas


Q
era preciso trabalhar e cortar.” Por isso, pou- aprecia alguns contornos: havia as revistas
co tempo lhe sobrava para dormir, pois no em que se dizia o que não se podia dizer por
dia seguinte lá tinha de estar de novo a con- causa da censura, e então havia subtilezas –
sertar cenários e a pintar sapatos. “Demorou “e as pessoas gostavam disso, e iam lá para
algum tempo até eu ser ator. E não foi logo ouvir isso”. “Hoje, já não, hoje diz-se tudo,
de uma vez, foi progressivo. Primeiro, deixei como os malucos.”
de fazer uns trabalhos, depois outros e mais Fernando Mendes estreou-se há 40 anos,
outros” – até que se tornou única e exclusi- tinha ele 17. Apesar das mudanças na car-
vamente ator. reira, nunca deixou de fazer teatro. Presen-
“Quando me estreei, parecia que me sentia Porém, ter menos tarefas nem sempre cor- temente, tem uma peça com que anda em
como o meu pai, reconhecia-o em mim”, re- respondia a ter mais tempo para dormir – é digressão – “quer dizer, agora infelizmente
vela Fernando referindo-se a uma estranha que aquilo eram outros tempos, uma era em estamos parados por causa desta pandemia”
energia que sentiu como se ela emanasse do que o Parque Mayer, no coração de Lisboa, –, uma comédia em monólogo, de título In-
palco que pisou pouco depois da morte do tinha uma vida muito própria e uma aura sónia. Retrata um homem solitário, abando-
pai. “Eu disse ao meu pai que queria ser ator muito boémia. “Aprendia-se muito fora de nado pela ex-mulher. “Houve um senhor, há
pouco antes de ele morrer.” Há que relativi- horas, e eu aprendi muito. Acabavam os es- uns tempos, que comprou bilhete e depois
zar este “pouco antes” – “ele estava doente, petáculos – e muitos acabavam muito tarde foi ler o resumo da peça e então chegou à
mas ainda não nos passava pela cabeça que – e depois a noite ainda continuava.” Era bilheteira, devolveu o bilhete e levou o di-
pudesse morrer”. Terá sido meses antes e o um outro Parque Mayer. “Infelizmente, per- nheiro de volta, ‘isto sou eu, isto é a minha
pai Victor terá sentido um misto de orgulho deu-se... Vês o Parque Mayer como está, só história, não preciso de ver a peça’, disse
e apreensão. “Eram tempos difíceis se um está com um teatro – neste momento, dois, ele.” Inclui participações especiais em cli-
homem quisesse criar uma família – e o meu que o Capitólio foi renovado e ainda bem. pes de vídeo que usa em projeções no pal-
pai tinha quatro filhos, sabia bem o quanto O teatro onde eu me estreei já nem existe, co – são participações de pessoas a quem
custava”, diz Fernando. “Ninguém fica gor- é um parque de estacionamento. Chegaste a Fernando pediu, por amizade, colaboração.
do a fazer teatro.” ter quase 20 restaurantes no Parque Mayer “Até o Fernando Santos”, exclama o ator,
“Era o engraçadinho da família, mas só e hoje tens um”, lamenta Fernando Mendes. referindo-se ao selecionador nacional de
em família. Quando vim para o teatro é que Eram mesmo outros tempos. “Quatro futebol, “eu pedi-lhe e ele disse logo ‘é para
fiquei a saber que não tem nada a ver com mil pessoas por dia passavam pelo Parque fazer o quê e quando é que precisas disso?’,
fazeres as gracinhas em casa. Foi muito duro, Mayer. Quatro mil. Hoje não passa quase foi impecável”. O elogio estende-se a outra
e ainda bem que foi.” Fernando assume que ninguém.” Também o teatro era diferente. grande figura do futebol, Paulo Futre, tam-
só entrou para o teatro por ser filho de quem Havia muito rigor e muita dureza, Fernando bém amigo de Mendes, “foram os dois que
era. “Nunca estudei teatro, não fiz formação.” fizeram aquilo à primeira, ali na hora”. Sen-
Mas no Parque Mayer conheciam-no desde do um monólogo, Mendes reconhece que
criança, era o filho de Victor Mendes, então corre mais riscos, inclusive o risco do esque-
quando quis começar a trabalhar, as portas cimento. “Sou eu sozinho, se me esqueço do
não se fecharam. “Foi uma cunha, pois foi.” texto, não tenho quem me dê a deixa.”
Explica que as cunhas são uma maneira de
funcionar – mas calma! Calma, o Fernando
explica: “Podem ajudar, mas depois tens de
provar, não podes ficar por favor.” E elabora:
“Se eu tivesse percebido que aquilo não era A MELHOR COISA
para mim, tinha sido eu o primeiro a dizer DO MUNDO
que não dava e desistia, vinha-me embora.” “Gosto muito de fazer teatro em Lisboa, mas também gosto muito de andar pelo
Mas deu, a verdade é essa. Não foi fácil, foi País”, confessa Fernando Mendes a propósito da peça Insónia. “Isto tem a ver
até bastante duro, como ele disse e agora com o tempo em que eu era gordo, porque eu gostava sempre de saber qual era
explica: “Comecei por ser ajudante de con- o melhor restaurante que ficava perto do teatro. Tenho grandes amigos que me
trarregra. Eu quase nem dormia. Entrava de dão dicas. Um deles é o Quim Barreiros, é o gajo que mais restaurantes conhece
manhã cedo, muito cedo, para tratar de ade- no País. Eu ligo ao Quim, ‘‘tou Quim, estou em Abrantes’, ‘então vais ao não sei
reços e cenários. Estamos a falar de sapatos, quê’, ‘Quim, estou em Vila do Conde’, ‘então tens de ir ao não sei quantos, o senhor
por exemplo. Tinha de lhes dar tinta e graxa. chama-se assim, bebes este vinho’, o Quim não para. Além de ser um fenómeno
Camisa vintage em
algodão, NewJester. Os cenários rasgavam-se com frequência e é um gajo de quem eu gosto muito.” Estar à mesa, conhecer, descobrir, tudo isso
Calções em algodão, eu tinha de os consertar, às tantas já sabia os é, para Fernando Mendes, uma grande satisfação. “A melhor coisa do mundo...”,
Brax na Loja das Meias. faz uma pausa enfática, “a melhor coisa do mundo são os restaurantes”.

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Elísio: calções vintage em nylon, Heartcore. Chinelos em borracha, Havaianas x Mastermind Japan. Marlon: calções em nylon, da produção. Chinelos
vintage em borracha, Adidas na Heartcore. Ronaldo: calções vintage em algodão e nylon, NewJester. Ténis em camurça, da produção. Greg: calções
vintage em nylon, NewJester. Ténis em camurça, da produção. Edjoy: calções vintage em nylon e chinelos em borracha, ambos da Heartcore.
Fernando: camisa vintage em algodão, Heartcore. Calções em linho, Emporio Armani. Chapéu em ráfia, H&M. Sandálias em pele, Birkenstock.

120 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 121
TEMA DE CAPA

F
O Preço Certo é um formato antigo. O pro-
grama original foi concebido por Bob Ste-
wart no longínquo ano 1956. Entretanto,
tornou-se franchise e tem emissão em vários
TRÊS MESES, 17 ANOS países – segundo Fernando Mendes, são
“Espetáááculo!”, “já foste”, as expressões nove. Os direitos para Portugal, onde che-
de Fernando Mendes são contagiosas. Co- gou em 1990 (depois foi interrompido em
meçou a usá-las no decorrer dos programas 1993 e retomado em 2002), e para toda a
do Preço Certo e, entretanto, toda a gente, Europa pertencem à Fremantle, que enviou,
da equipa à audiência, as usa, imitando o em 2003, um administrador para vir obser-
apresentador. “Não sei como surgiram, nun- var a novidade portuguesa, que tinha como
ca pensei nelas, são coisas que me saem na- apresentador um ator e humorista. O emis- Fernando Mendes gosta do que faz e gos-
turalmente e depois pegam.” Há T-shirts a sário da produtora exigiu que Fernando ta de quem vem vê-lo. “Há aqui um brilho
dizer “JAFOSTE”, assim mesmo, até entre a Mendes explicasse o jogo, passo por passo, muito especial. As pessoas vêm todas juntas,
equipa técnica. Betão repete com frequência com detalhe. Mendes, porém, farto de fazer trazem uma mesa, trazem o farnel, mesmo à
“espetáculo” enquanto organiza as suas tro- sempre igual, decidiu fazer à sua maneira. portuga – e é disto é que eu gosto –, trazem
pas, isto é, o público que compõe a plateia. “Ele volta para Inglaterra e diz aos gajos a toalha, trazem os guardanapos, trazem o
Mas estas expressões galgaram há muito os ‘pá, eles têm lá um gordo e ele faz aquilo de presunto, comem o seu leitão, bebem o seu
limites do estúdio da Fremantle, a produto- outra maneira... e aquilo se calhar é que é, tinto, vamos embora! Este programa é isto, é
ra do concurso. As tiradas de Mendes trans- que isto é uma seca fazer assim como a gen- o País, é o ‘país real’, e ainda bem que eu es-
cendem o mítico programa da RTP1 que te faz’. Continuei a fazer à minha maneira e, tou aqui e estou a fazer isto. E digo-te, quan-
precede o Telejornal. As suas expressões são quando ele regressou a Portugal, disse ‘é as- do acabar O Preço Certo, não sei que tipo de
património nacional. sim mesmo, esqueça aquilo que eu lhe disse programa vou fazer a seguir.” O apresen-
Fernando Mendes tornou-se apresenta- da outra vez’.” Mendes diz que, hoje, deve tador recusou mesmo convites da concor-
dor do Preço Certo em 2003. “Foi uma coisa haver várias pessoas pelo mundo chateadas rência para ir fazer outras coisas. Rejeitou

MODELOS: ELISIO MENDES, EDJOY, GREG TARNA, RONALDO, MARLON NICOLAU @ ELITE LISBON. GROOMING: ELODIE FIÚZA.
muito engraçada, porque eles ligaram-me com ele. “Os apresentadores do Preço Certo todos, mesmo aqueles que eram financeira-
várias vezes e eu fingia sempre que não es- pelo mundo foram dispensados e começa- mente mais apetecíveis. “Mas ia fazer o quê,
tava cá.” Um certo dia, o ator estava a fazer ram a pôr humoristas a fazer o programa.” O apresentar o programa da manhã ou o pro-

ASSISTENTES DE FOTOGRAFIA: PEDRO SÁ E MICHAEL MATSOUKAS. ASSISTENTE DE STYLING: EDUARDA PEDRO.


um musical em Silves, na extinta Fábrica apresentador explica: “É um programa que grama da tarde? Não quero isso.” Mendes, o
do Inglês, “púnhamos lá todos os dias mil e vive muito do público, o público é funda- ex-Gordo, está bem é aqui, entre os portu-
tal pessoas”. Fernando, durante esse tempo, mental, mas depois há a maneira como falas gueses do “país real”, munidos de chouriços,
veio a Lisboa a um programa de televisão. com eles, as brincadeiras.” carne assada e vinho tinto, a entretê-los, a
Aqueles a quem dissera que ‘não estava cá’ É um traço distintivo da maneira como fazê-los rir, a dar-lhes prémios, a ajudá-los a
toparam-no, “foram logo ter comigo”. Acei- Fernando Mendes apresenta o Preço Certo, ganhar – a dar-lhes esperança e alegrias.
tou falar, “mas tem de ser num restauran- a existência dessas tais “brincadeiras”. O
te”, disse-lhes, “eu na altura comia muito, programa aguenta-se num delicado equi-
só falava no restaurante”. “‘Vamos ali ao líbrio, evitando ser brejeiro, mas nunca ce- FERNANDO DIZ
Pinóquio’, que era perto, mandei vir logo dendo a ser sofisticado: é simples, é ligeiro QUE NÃO QUERIA
umas costeletas de borrego.” Fizeram-lhe o e é popular. As coisas têm graça, as piadas Numa era em que o mediatismo produz presi-
convite, o ator rejeitou, “eu nem sou apre- não custam a entender, as risadas são demo- dentes, importa saber se Fernando Mendes,
sentador”, respondeu, “sim, mas fazemos cráticas, chegam a todos, sem que, no entan- estrela dos palcos e de um já mítico progra-
um casting”, insistiram do outro lado. “Está to, a situação resvale e se perca o pé, porque ma televisivo, se vê a si mesmo como chefe
bem, vou pensar.” Acabou por ceder e foi fa- nunca se chega a cair no mau gosto – pelo de Estado, seguindo as pisadas de Marcelo
zer, diz que deviam ser nove os candidatos contrário, é um exemplo de programa para Rebelo de Sousa e, ao que se suspeita, num
no total. “Como não era a minha praia, fiz se ver em família. Fernando mostra-se orgu- futuro próximo, de Cristina Ferreira. “Não
aquilo à minha maneira”, ou seja, ignorou as lhoso e consciente do facto de ter sido o “à gostava, não quero”, diz com um sorriso hu- FERNANDO NAS NOVEL AS
regras. Ligam-lhe passados três dias, “olhe, é sua maneira” que fez do programa o sucesso milde, mas, ao mesmo tempo, um brilho nos “Fiz algumas quatro novelas. Pá, não gostei. Admiro muito a malta das novelas, porque é um trabalho muito duro, um trabalho
você que vai fazer o Preço Certo”. Estranhou, que hoje é. “Assinei um primeiro contrato de olhos de quem recusa por modéstia. Acha de muitas horas, tens de decorar uma data de textos – eia, tantas páginas, quando me davam as páginas para estudar... Nossa Senhora!”
mas do outro lado disseram-lhe que era pre- três meses e afinal estou lá há 17 anos.” Por que poderia ser eleito? “Se calhar, sim, se ca- Fernando Mendes diz que não tinha perfil para telenovelas. “A minha expressão não tinha nada a ver com aquilo que eu devia fazer.”
cisamente aquele o registo que pretendiam. alguma razão será. lhar, sim...”, repete, como quem vai remoen- Trata, obviamente, de dar um exemplo em mais uma pequena e deliciosa história. “Foi nas Cinzas, com o Nicolau Breyner – era porreiro
A verdade é que resultou e Fernando di-lo do uma ideia à qual nunca se havia dedicado, trabalhar com o Nicolau. Nessa novela, o Ricardo Carriço caía do cavalo ou lá o que era. Eu era o gajo que lavava os cavalos. Então numa
abertamente, “sem vaidades”, mas com or- com um misto de espanto e de ingenuidade. cena ele está no hospital e eu tenho de lá ir vê-lo, estar com ele, assim com um ar muito [faz-se de triste, compungido], ‘tu és um homem’...
gulho. “Vai fazer 17 anos em setembro que “Não queria, não queria”, diz, e abana a ca- eu sei lá, não me lembro do que é que tinha de lhe dizer, era muita coisa, até o realizador ficou surpreendido porque eu disse tudo.”
eu estou lá.” beça, sorrindo como um miúdo. Fernando Esta é a parte boa. Depois, há a outra parte, que é muito melhor. “Quando o episódio vai para o ar, sou abordado na rua por uma senhora.
Mendes, “um português entre portugueses” ‘Vi-o ontem na novela, eu e o meu marido. Ai, Fernando, nós rimo-nos tanto quando o senhor estava a dizer para ele não morrer.’
– a ideia praticamente se escreve sozinha. Isto é a prova mais que provada de que, na novela, a porta por onde entrei é a mesma por onde tenho de sair.”
Talvez lhe falte a célebre “vaga de fundo”.
English Quem sabe se ela não começa aqui. l De cima para baixo, da esquerda para a direita, camisa vintage em algodão, Heartcore. Óculos em metal e acetato, Jimmy Choo
version Eyewear. Óculos em acetato, David Beckham Eyewear. Óculos em metal, Carrera. Óculos em metal, Dior Eyewear.

122 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 123
FALÊNCIAS
mundo onde estamos altamente dependentes
de grandes empresas ou grupos económicos.
São eles os maiores geradores de empregos.
Mas essas empresas, que antes pareciam
grandes colossos económicos, lutam agora pela
sobrevivência. Em apenas poucos meses vimos
muitas ficarem à beira do encerramento, ou
declararem mesmo falência e levarem milhares
de pessoas para o desemprego. Neste artigo, uma empresa desta dimensão são grandes. A
escrevemos sobre algumas das vítimas da primeira é obviamente para os funcionários:
pandemia, mas falamos também de algumas 12 mil foram logo despedidos, mais 4 mil já
empresas que conseguiram, à última hora, receberam o aviso de despedimento e os
salvar-se de uma falência quase certa. números não vão ficar por aqui, dado que a
empresa tem oficialmente 38 mil empregados
só na América do Norte. Outras consequências
EMPRESAS QUE serão sentidas pelas empresas que dependiam
NÃO CONSEGUIRAM da Hertz para a sua sobrevivência, como os
A pandemia que o mundo enfrenta atualmente SALVAR-SE stands automóveis. Só no ano passado e apenas
mudou as vidas de muitos. Se, há apenas Apesar de terem pedido ou declarado falência, nos Estados Unidos a Hertz comprou 1,7
alguns meses, víamos só pela televisão o que se isso não significa que estejam condenadas a milhões de novos carros.
passava no outro lado do mundo, não demorou desaparecer. Até o processo de falência ficar Outra vítima será a indústria de automóveis
muito para a realidade nos bater à porta. concluído, pode aparecer algum investidor que usados, que é enorme e composta sobretudo
Estivemos meses confinados e só agora, aos tome conta da empresa por um valor simbólico, por pequenas e médias empresas. As notícias da
poucos, começamos a viver uma nova e limitada assumindo as dívidas. Por exemplo, há uns anos falência da Hertz geraram o pânico na indústria.
liberdade. Nunca se tinha visto nada assim, algo a BMW vendeu a Rover à Ford pela simbólica O motivo foi a notícia de que uma grande parte
que afeta o mundo todo ao mesmo tempo. Se quantia de 10 libras. da monstruosa frota da Hertz vai ser posta
inicialmente o foco dos países incidiu na saúde à venda. São milhões de viaturas a inundar o
pública, atualmente é a economia que mais Hertz mercado de uma só vez, o que fará cair os
preocupa os líderes mundiais. Os seus efeitos A empresa de aluguer de carros abriu portas preços a pique. Muitas pequenas empresas
podem, a médio e longo prazo, ser tão ou mais em 1918, em Chicago. Sobreviveu à grande já anunciaram que vão encerrar portas. Esse
nefastos que o vírus em si. É comum ouvirmos depressão e a duas guerras mundiais, mas encerramento foi atribuído diretamente à
na televisão ou lermos nos jornais de economia não conseguiu sobreviver a esta pandemia falência da gigante dos rent-a-cars.
que vamos enfrentar a pior crise financeira que que enfrentamos. A indústria de aluguer de Um país como os Estados Unidos, que já tem
a humanidade alguma vez viu. Mas a verdade é carros está muito ligada à do turismo. Com o mais de 40 milhões de novos desempregados, a
que essa crise já chegou. encerramento quase total do turismo mundial, a última coisa de que precisava era que empresas
O desemprego está a aumentar de forma Hertz viu o aluguer de carros cair mais de 94%. da dimensão da Hertz fossem à falência.
descontrolada ao nível mundial. Nos Estados A maioria das lojas da Hertz estavam localizadas Outra vítima é o multimilionário e investidor
Unidos o número de desempregados devido à em aeroportos. Com o seu encerramento, norte-americano Carl Icahn. Este senhor,
pandemia é desolador, mais de 40 milhões de apenas as lojas no centro de algumas grandes quando as ações da empresa caíram a pique, viu
pessoas perderam o emprego e muitas ficaram cidades continuaram a funcionar, mas isso uma oportunidade de investimento. Ele era um
sem qualquer meio de subsistência. Na Europa, estava longe de ser o suficiente para conseguir acionista minoritário da empresa e, acreditando
o desemprego também aumentou, mas os fazer a empresa sobreviver durante a pandemia. que a empresa conseguia recuperar, aproveitou
números estão muito mascarados. Lay-offs A administração americana disponibilizou o “preço de saldo” das ações para reforçar o
e outras medidas, como a do Governo do um fundo com milhares de milhões de dólares investimento e tornar-se o principal acionista
Reino Unido de pagar 70% dos ordenados até para ajudar empresas ligadas ao turismo, como da Hertz. Passou a deter 40% da empresa, num
setembro para tentar evitar que as empresas companhias aéreas ou a fabricante Boeing, investimento que totaliza a quantia astronómica
despeçam funcionários, escondem uma por forma a evitar a falência dessas empresas de 2 mil milhões de dólares. Menos de 60
realidade que, segundo os especialistas, pode e o desemprego de centenas de milhares de dias depois o seu investimento foi quase todo
ser a pior que a União Europeia alguma vez trabalhadores. A Hertz tentou conseguir ajuda perdido. Carl Icahn confirmou em entrevistas
enfrentou. Em Portugal o Governo estima que desse fundo, mas foi-lhe negada, tendo-lhe que perdeu praticamente todo o investimento,
a economia vá afundar-se 7% e o desemprego sido dito que a empresa não se enquadra na tendo conseguido recuperar apenas 34 milhões
suba acima dos 9%. área de “turismo”. Pouco depois as notícias da dos 2 mil milhões que tinha investido na
Ter emprego é a base para a sobrevivência de sua falência iminente começaram a surgir nos empresa. Em todas as entrevistas que deu, Carl
qualquer humano. Infelizmente, vivemos num meios de comunicação e as ações da empresa Icahn culpou a pandemia pela sua perda.
entraram em queda livre. A administração Importa dar nota de que a falência da Hertz
Confinamento, lockdown, quarentena: são vários os termos cujo significado é, no fim da Hertz reuniu-se várias vezes com os seus não significa que vamos deixar de ver a marca
das contas, desemprego, falência, insolvência, dificuldades financeiras. É precisamente credores para conseguir uma solução que em Portugal. Cá, e na maioria dos países fora
ajudasse a empresa a ganhar tempo para do continente americano, a marca Hertz é
esse o retrato traçado por José Machado, que pega nos exemplos de algumas das resolver a situação adversa que enfrentava. As usada em sistema de franchising, os rent-a-cars
maiores empresas do mundo para lhes desvendar as fragilidades.
Confinamento, lockdown, quarentena: são vários os termos cujo significado é, no fim das contas, desemprego, partes nunca conseguiram chegar a acordo e a não são detidos pela Hertz, mas por empresas
Hertz viria a declarar falência no dia 22 de maio. independentes, que vão continuar a operar
falência, insolvência, dificuldades financeiras. É precisamente esse o retrato traçado por José Machado, As consequências que advêm da falência de como faziam até aqui.
que pega nos exemplos de algumas das maiores empresas do mundo para lhes desvendar as fragilidades.

124 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 125
FALÊNCIAS
Nunca se tinham visto tantos aviões em terra, as ações da LATAM caíram a pique, valendo
a pandemia provocou uma redução de 90% agora quase menos 85% do que o valor
no tráfego aéreo mundial. Se atualmente, que a Delta pagou há um ano.
com os países a reabrirem os aeroportos, as

LEVEL
companhias aéreas voltam a ter alguns aviões Virgin Australia companhia voava para 92 destinos, ajudando a
no ar, a situação foi muito diferente durante os A segunda maior companhia aérea da aproximar a população daquele estado do resto
três meses iniciais da pandemia. Foram milhares Austrália também declarou falência a 21 de do país. Mas o papel da empresa era mais do
os aviões estacionados um pouco por todo o Abril deste ano. A Virgin, que já não tinha que apenas transportar passageiros (cerca de
mundo, as companhias ficaram de um momento uma situação financeira muito saudável, com 740 mil anualmente), era também responsável
para o outro sem negócio. Sem entrada de dívidas que ascendem aos 7 mil milhões de pelo transporte de correio e encomendas
dinheiro, mas com os custos a serem mais altos dólares australianos, entrou em colapso com a postais para mais de 110 localidades do Alasca,
do que se estivessem em pleno funcionamento, pandemia. O multimilionário Richard Branson, algumas delas quase totalmente isoladas do
J. C. Penney as empresas viram-se perante uma situação de fundador da companhia, mas que hoje apenas resto do território. Com dívidas de mais de 100
O comércio foi outra área muito afetada pela desespero. Nem os maiores nomes do setor detém 10% da empresa, escreveu uma carta milhões de dólares e sem dinheiro para pagar
pandemia. À exceção de um par de países escaparam à crise. Mas a Lufthansa não está sozinha na lista das aberta aos trabalhadores com uma mensagem sequer ordenados, a empresa declarou falência
que escolheram lidar com ela de uma forma A Lufthansa, a gigante alemã, é a segunda grandes companhias aéreas europeias que de força e esperança. Nessa carta fez também e encerrou totalmente a sua atividade no dia
mais liberal (caso da Suécia – mas sem grande maior companhia (em número de passageiros) tiveram de ser salvas pelo Estado. Também a um apelo ao Governo de Camberra para que 5 de abril. A administração da Ravn Alaska
diferença ao nível dos resultados), o resto da Europa e uma das dez maiores ao nível Air France–KLM esteve na iminência de falir, salvasse a empresa. Mas o Governo australiano culpou a pandemia (que no Alasca pôs 90%
do mundo viu-se obrigado a encerrar quase a mundial, o que não evitou que ficasse em com perdas de 1,8 mil milhões de euros só mostrou-se intransigente em ajudar a dos aviões em terra) pela falência. Com a queda
totalidade do comércio por um longo período sérias dificuldades. Pouco depois do surto ter no primeiro trimestre do ano. Mas, como no companhia – e, sem essa ajuda, a empresa viu-se da companhia ficaram sem emprego 1.261 dos
de tempo. Nos Estados Unidos, a maior chegado à Europa, a direção da empresa tomou caso da Lufthansa, o Estado francês e o Estado obrigada a declarar falência. 1.300 trabalhadores da empresa.
economia mundial, não demorou muito para Não é só em Portugal que empresas ou bancos medidas para a tentar proteger. A primeira holandês decidiram ajudar o grupo. Do lado Na Austrália, o desporto rei é o futebol
que várias empresas começassem a sentir os pedem ajuda e, ao mesmo tempo, pagam medida foi encerrar a companhia aérea low-cost Francês a ajuda foi de 7 mil milhões de euros, australiano e a principal liga do país, a AFL,
efeitos desse encerramento compulsivo. prémios absurdos aos seus administradores. do grupo que voava para mais de 100 destinos, do holandês a ajuda é de 2 mil milhões no também se vê agora numa situação complicada GIGANTE À
A maior vítima até à data nos Estados Unidos A J. C. Penney pagou bónus de 1 milhão de a German Wings. Depois foi o lay-off de imediato e mais 2 mil milhões no futuro. com a falência da Virgin. Sete milhões de BEIRA DA QUEDA
foi a cadeia de lojas J. C. Penney. Com sede no dólares a alguns dos seus executivos dias milhares de trabalhadores da empresa em todo dólares australianos, era esse o valor que Adidas
Texas e 118 anos de história, esta gigante do antes de despedir centenas de trabalhadores o mundo. Muitas outras se seguiram a essas Avianca entrava anualmente nos cofres da liga vindo da A gigante do mundo desportivo também não
comércio tem mais de 90 mil empregados e 846 e pôr outros milhares em lay-off. O futuro da duas, mas todas juntas não conseguiram travar Com a quase totalidade dos voos cancelados Virgin, a maior patrocinadora da competição. conseguiu escapar à pandemia. As dificuldades
lojas espalhadas pelos 50 estados americanos. empresa é por enquanto incerto. Enquanto o descontrolo das finanças da empresa. desde março, a segunda mais antiga companhia Depois do pedido de falência da Virgin, também da Adidas começaram cedo. Enquanto a
Se em grandes cidades como Nova Iorque ou o processo de falência decorre em tribunal, a É difícil de imaginar que uma empresa desta aérea do mundo ainda em funcionamento a maior companhia aérea da Austrália, a Qantas, maioria só começou a perceber a dimensão
Los Angeles a notícia do encerramento destas empresa continua a ter algumas das suas lojas dimensão, com 67 anos de história e mais de declarou falência nos EUA em maio. Só no ano pediu ajuda de 4.200 milhões de dólares do problema quando o vírus chegou à Europa
lojas pode ser recebida com alguma indiferença, abertas, ao mesmo tempo que procura um 140 mil trabalhadores, possa em pouco mais passado a companhia transportou mais de 30 australianos ao Estado. O Governo mostrou e mais tarde aos Estados Unidos, a marca
em cidades mais pequenas ou localidades do comprador. Coincidência (ou não), as últimas de três meses ficar à beira da falência, mas foi milhões de passageiros. Mas isso não a impediu abertura para ajudar a empresa e isso acabou alemã foi logo atingida mal o surto começou
interior mais profundo dos Estados Unidos, notícias dizem que quem pode estar em vias de isso que aconteceu: só no primeiro trimestre de pedir falência: a companhia colombiana por gerar controvérsia no país, dado que o na China. Como o confinamento na China que
a notícia foi recebida com choque. Nessas a adquirir é a Amazon. A gigante do comércio do ano, a Lufthansa sofreu prejuízos de 2.100 declarou em tribunal que as suas dívidas estão mesmo Governo, semanas antes, tinha negado começou no fim de 2019, a marca perdeu, em
localidades existe quase uma tradição familiar de online que foi apontada por muitos analistas milhões de euros e viu as suas ações baterem entre 1 e 10 mil milhões de dólares. Emprega ajuda à Virgin com um valor muito inferior pouco mais de dois meses, 1.000 milhões de
fazer passeios em família à J. C. Penney. como sendo uma das maiores responsáveis pela um mínimo histórico de €7. A empresa acabou 26 mil pessoas, mas a maioria (14 mil) são (1.400 milhões). Essa controvérsia pode ser euros. A situação agravou-se com a chegada
A pandemia pode ter sido o último prego queda das receitas da J. C. Penney ao longo por receber ajuda do Governo alemão, que não colombianos. A falência da empresa gerou a salvação da empresa, as últimas notícias da pandemia à Europa e aos Estados Unidos.
no caixão, porém esse caixão começou a ser dos últimos anos parece estar em conversações queria ver cair uma empresa tão importante um grande debate político na Colômbia sobre dizem que Estado australiano está agora a Há pouco tempo a Adidas confirmou que só
construído há quase uma década. O último avançadas para a adquirir. para a sua economia, e para a imagem mundial se o Governo de Bogotá deve ou não salvar a ponderar ajudar também a Virgin. Se isso vier até maio deste ano a empresa já regista perdas
ano em que a empresa apresentou resultados O objetivo da Amazon é usar ativos da J. do país, e levar milhares de pessoas para o companhia. As ações da Avianca entraram em a confirmar-se, podem salvar-se milhares de de 93% em comparação com o ano anterior. A
positivos foi em 2010. Daí para a frente foi C Penney para expandir o seu negócio de desemprego. queda livre, à data de escrita deste artigo já postos de trabalho. marca começou a enfrentar sérios problemas
constantemente sendo vítima de má gestão vestuário e transformar algumas das atuais lojas A ajuda do Estado alemão é enorme, são mais perderam mais de 82%. de tesouraria e decidiu pedir ajuda ao Estado
e de uma mudança de hábitos do povo em comércio de alta tecnologia. Para outras de 9 mil milhões de euros. Em troca, o Estado Ravn Alaska alemão.
americano, que passou a fazer as suas compras lojas, a ideia é transformar os espaços em alemão fica com 20% da empresa e obriga a LATAM O maior estado dos Estados Unidos também A Adidas, que é dona de outras grandes
online. As dívidas da J. C. Penney ascendem a centro logísticos e de distribuição. Mesmo que Lufthansa a cumprir uma série de condições. Ainda na América Latina, a maior companhia viu uma das suas companhias aéreas cair com marcas conhecidas mundialmente como a
mais de 4 mil milhões de dólares, entre os seus a venda se concretize, a marca J. C. Penney está Destaque para a obrigação de parar no imediato do continente também pediu falência nos a pandemia. A Ravn Alaska era uma companhia Reebok, emprega mais de 60 mil pessoas.
maiores credores estão marcas como a Nike condenada a desaparecer, mas com a venda de pagar dividendos aos seus acionistas e de Estados Unidos. Roberto Alvo, o CEO da aérea regional bastante importante para os Perante tais números, o Governo alemão
(32 milhões), Adidas (7 milhões) ou a New seriam salvos milhares de empregos e todos os vender um dos bens mais valiosos que qualquer empresa, culpou a pandemia pelo sucedido. locais de uma das regiões mais remotas do viu-se obrigado a ajudar a empresa com 2,4 mil
Balance (3,2 milhões). O pedido de falência credores recuperariam o seu dinheiro. companhia aérea pode ter, as suas slots nos Segundo ele, a LATAM perdeu 2.200 milhões país. Com 1.300 empregados e 72 aeronaves, a milhões de euros. A Adidas conseguiu ainda
foi feito no dia 15 de maio. Desde então foram aeroportos. No total vai ter de vender 20 slots de dólares desde o início da pandemia. A garantir junto de bancos privados o empréstimo
encerradas 242 lojas e despedidos milhares de a outras companhias em dois dos maiores companhia com sede no Chile tem entre os de mais 600 milhões de euros com garantia
trabalhadores. COMPANHIAS AÉREAS aeroportos da Alemanha. seus maiores credores vários bancos e algumas estatal. Em contrapartida, pela ajuda do Estado,
Se na Europa os estados estão a salvar as das maiores petroleiras do mundo, como a BP e a empresa comprometeu-se a parar de pagar
companhias aéreas, no resto do mundo a a Repsol. A maior companhia aérea do mundo, dividendos aos seus acionistas e a fazer um
situação é muito diferente. A pandemia pôs a americana Delta, que atualmente também corte de 60% nos ordenados da administração
a descoberto a enorme vulnerabilidade deste enfrenta problemas e só sobrevive graças da empresa. ●
setor. aos largos milhões dados pela administração
americana, gastou no ano passado 1.900
Lufthansa + Air France KLM milhões de dólares para adquirir 20% da
Uma indústria que sofreu e sofre como poucas LATAM, tornando-se a maior acionista da
devido à pandemia é a da aviação comercial. empresa. Com as notícias da falência,

126 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 127
MUSA

A I R O S A

Estreou-se em 1999 e já nessa altura a adivinhavam como futura apresentadora,


mas hoje é o teatro que lhe faz brilhar os olhos. Conversámos com Inês Aires Pereira,
mas a atriz não veio sozinha. Na mesma sala juntámos a Neuza, o Pateta, a Aninhas
e a vontade que Inês tem de viver no espetáculo, mesmo que seja fora do palco. Vestido em crepe de seda,
Schiaparelli. Óculos em
Por Ana Saldanha. Fotografia de Kenton Thatcher. Styling de Maria Falé. acetado, Gucci.

JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 129


MUSA

F
lê-se Inês Aires Pereira, futura apresen- Trench em poliéster,
tadora do século XXI. Foi como se adivi- Acne Studios.
nhassem o futuro. Ou como se fosse visível
a olho nu que a miúda tinha nascido para
aquilo. Apostámos na segunda opção. Nós e
Teresa Guilherme, na altura encarregue do
casting: “A Teresa Guilherme disse à minha
mãe ‘tem aqui uma artista’ e fiquei.”
Tentou entrar no Conservatório, mas os
nervos misturaram-se com a pressão do cas-
ting e acabou por não entrar. “Tinha uma
Foi complicado evitar ajuntamentos quan- pressão muito grande que era ‘eu estou a
do nos juntámos com Inês Aires Pereira candidatar-me para aquilo que eu quero fa-
e com as suas mil e uma personagens que, zer, se eu não entro…’ E não entrei. E fiquei
pergunta sim, pergunta não, iam aparecen- ‘como é que eu não sou aceite para estudar INÊS E COMPANHIA
do na entrevista. Estar em personagem vai aquilo que eu quero ser?’, foi horrível, esta- O percurso, tanto no teatro como na televi-
além de trabalho e dizer que falámos com va bastante nervosa e passei um bocadinho são, tem-na colado à comédia e, pelo menos
uma personagem é tudo menos dizer que a mal… Mas fico sempre nervosa. Ainda hoje, por agora, é aí mesmo que se sente confor-
atriz não é genuína. Genuinamente, todas em qualquer casting. Odeio, odeio, odeio. tável. “Toda a gente me diz que onde eu
aquelas personas vivem dentro de Inês. Es- Suo das mãos, suo do buço…”, conta. brilho é na comédia. Chamam-me sempre
tar em palco é só um bónus. O plano B foi a ACT – Escola de Ato- para a comédia... fiz duas novelas em que a
O título da entrevista também não é um res, onde fez formação na área. Depois deu coisa era mais dramática, mas as persona-
trocadilho cliché com o apelido dela. A Inês cartas em séries juvenis ao dar vida a Paula gens não tinham grande incidência. Nunca
mistura mesmo uma elegância simples, uma (Rebelde Way) e Luísa Ruas (Lua Verme- me calhou fazer um drama à séria. Mas eu
humildade que não deixa de ser segura e lha) e em séries cómicas como Os Compa- adoro um dramalhão. E fiz tantas vezes ao
assertiva e uma piada que lhe é tão natural dres. Uns anos mais tarde, cumprir-se-ia a espelho, na casa de banho, cenas de novelas
como existir. profecia: foi apresentadora do século XXI, brasileiras... E acho que sinto aquilo tudo e
Cliché é – e é ela que o admite – a for- mais precisamente entre os anos 2014 e que sou perfeitamente capaz.” Fica a dica.
ma como soube que queria fazer de estar 2016, quando venceu a 8ª edição do CC Mas, entretanto, até stand-up já começa a
em palco a sua profissão. “É um bocado Casting – de onde já tinham saído nomes entrar na lista de possibilidades, ainda que
irritante esta resposta porque é o que as como João Manzarra, Rui Maria Pêgo, Dia- o medo de escrever com a obrigação de ter
atrizes todas dizem... ‘desde pequenina que na Bouça-Nova e Maria Botelho Moniz. A piada intimide a atriz que respira improviso.
faço muitos teatrinhos’, mas é mesmo isso, partir daí não parou mais. “Acho que agora posso cavar a comédia
é verdade. Sempre disse à minha mãe que Mas perguntar se a Inês é do teatro, da e depois vou cavar…” Faz uma pausa, o so-
queria ser atriz.” Mas não foi no palco co- novela ou do cinema é dar-lhe espaço para taque muda e entra o Pateta – o primeiro
mum que adivinhou a vocação. “Houve um que lhe brilhem os olhos: “Eu acho que é convidado da conversa e uma das persona-
momento: quando eu resolvi começar a ser do teatro. Também não fiz muito cinema. gens habituais nas redes sociais de Inês. “Já
acólita. A cena de entrar com o padre na Mas tem zero onda dizer isto porque todos estava a entrar aqui outra personagem.” A
missa e ter a plateia… Eu sentia-me atriz, os atores dizem ‘eu quero é fazer cinema e atriz deixa-se rir e retoma em modo Inês.
sentia que estava no palco, era tudo menos Hollywood’, mas não adorei fazer. Eu pre- “...E depois logo começo a cavar outras coi-
relacionado com religião, mas eu ali pensei firo mil vezes fazer teatro. É o imediato, o sas, não tenho muito medo. Ou não penso DESDOBRAMENTO
‘uau, eu gosto disto, da encenação, do pal- desafio de fazer com a mesma verdade to- muito nisso… e se calhar é de não pensar Os números nas redes sociais de Inês têm
co, das pessoas’.” dos os dias... E é engraçado estares em cena muito nisso.” vindo a crescer e vão crescendo também as
Apesar de a Inês de 12 anos já saber que há quatro meses, a fazer aquilo todos os dias Conseguimos trocar dois dedos de con- interações caricatas que a confundem com
queria ser atriz, não foi por falta de ideias: e de repente fazes uma coisa de maneira di- versa a sós com Inês antes de chegarem as as personagens. “Eu até acho engraçado
“Olha, já quis ser muita coisa... Eu adorava ferente, descobres outro caminho. A cena visitas. Depois abrimos-lhes a porta e pa- esse limbo entre a realidade e a ficção.
ser médica. Mas vou estudar para ser mé- do cinema é ser muito lento e ter de fazer receu a altura certa para as apresentar, co- Pessoas que não me conhecem e que ficam
dica? Não. Eu adorava ser professora. Mas aquilo 30 mil vezes. Eu sou uma pessoa su- meçando por Neuza que é, provavelmente, ‘como é que estás a fazer isto?’ e eu digo que
vou querer ser professora a vida toda...? Eu perimpaciente e superansiosa, fico a achar a que tem mais fãs: “Olha, a Neuza existe era a gozar, que é uma personagem... Isso
sempre quis ser várias coisas e depois aper- que já estou a fazer tudo mal, que já não es- dentro de mim há muito tempo. Ela é do aconteceu-me bastante, percebeu-se que as
cebi-me que eu gostava era de brincar às tou a sentir nada... Mas no teatro sinto-me Porto, eu sou do Porto… Sempre fiz esta pessoas só chegaram agora.” Mas atrás do
coisas.” em casa”, responde. personagem, mas houve uma altura em que escudo que é o ecrã, nem tudo são rosas.
Passou dos teatrinhos para o palco quan- o Diogo Faro resolveu fazer um espetácu- “Ainda não tive haters... Vá, tive um ou outro.
do surgiu a oportunidade de apresentar um lo em que tinha uma beta e uma mulher do E eu respondo aos haters. Dizem que não se
prémio no Portugal Fashion. “Esse vídeo bairro, do Norte, cheia de fibra. Convidou- deve responder, mas eu respondo! As pessoas
está no YouTube”, conta. Está, fomos con- -me para a fazer e deu o nome à persona- acham que, por estarem atrás do ecrã,
firmar. No oráculo do Portugal Fashion ‘99 gem. As pessoas adoraram.” Depois disso a podem mandar ódio porque sim. Comigo vão
Neuza foi para a rua com o Diogo Faro, foi levar resposta. A não ser que não esteja para
a Londres, arrancou-nos gargalhadas, con- aí virada. Mas a maior parte é amor, amor,
quistou likes e ficou famosa. amor... por isso é que sou muito feliz”, conta.

130 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 131
MUSA

“ E U P R E F I R O M I L V E Z E S FA Z E R T E A T R O .
É O I M E D I A T O , O D E S A F I O D E FA Z E R C O M
A MESMA VERDADE TODOS OS DIAS”

Vestido em poliéster,
Alberta Ferretti. Lingerie
em poliamida, Tezenis.

132 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 133
MUSA

“ E S T O U S E M P R E E M P E R S O N AG E M ,
E S T O U S E M P R E A FA Z E R T E A T R O , E U A C H O
Q U E N U N C A VO U D E I X A R D E S E R AT R I Z ”

M ATER N I DAD E
“Eu lembro-me de toda a gente me dizer: agora quando ela nascer é que vais perceber, vais ser
outra pessoa, a tua vida vai mudar. E eu estou desde que engravidei à espera disso e ainda não senti
nada. Sinto-me uma criança com um bebé. Tenho o sentido de responsabilidade de estar a criar
um ser humano, mas não acho que tenha ficado mais séria, mais madura… sinto-me igual, mas com
muito mais amor. Ela ensinou-me amor.” Contou-nos que sempre quis ser mãe e quisemos saber o
que já aprendeu nos 9 meses de Alice. Inês hesita e diz que é a pergunta mais difícil porque é cedo
para responder. “Acho que no futuro me vai ensinar mil coisas, acho que a mente de uma criança
deve ser tão linda, completamente em branco, despida de todos os defeitos que há no mundo... Camisa, top e saia
Mas agora é só amor. Dou-lhe amor, recebo amor. Ela ri… E para já está tudo bem.” em seda, tudo Gucci.

134 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 135
MUSA

PALCO, CASA
Apesar de fazer rir, conta que não tem uma
gargalhada fácil, mas que tem dois pontos
fracos: “Quando vejo alguém a fazer uma
Mas não ficamos por aqui. “Tens o Pateta, personagem e a apanhar aquele tique ma-
que é o dealer de droga – e que é o prefe- ravilhoso... Ou então ver alguém a cair...
rido do meu namorado, o que é estranhís- E eu caio muito. Mas quando as coisas são
simo, não é? Ele está sempre a pedir-me mesmo bem apanhadas, quando há aquele é puxado conseguir ser mesmo virtuosa na
para fazer o Pateta… E eu: ‘opá, David, eu pormenorzinho das personagens passo-me, manipulação e dar vida ao boneco para as
não posso estar constantemente a fazer isto, fico com inveja.” pessoas acreditarem naquilo que estou a
daqui a nada não tens tesão por mim’ [ri- E o que quer fazer a mulher que vive com dizer... foi um processo penoso. Foi o que
sos]. Do Pateta as pessoas gostam muito, é tantas personagens dentro de si? O primei- me correu melhor, mas foi o mais difícil.” O
muito forte. Mas eu evito fazer tantas vezes ro impulso é lançar um “Não sei!”. Mas, boneco de que Inês fala é Paula Porca. Sim,
porque... posso ficar sem namorado. E agora ao mesmo tempo, os olhos iluminam-se ao é um musical, tem bonecos, mas não pense
não me dá jeito porque eu fui mãe e ele está pensar na multiplicidade de personagens que é um espetáculo para crianças. Quando
a ser muito fixe… Também tens a influencer, que há para fazer, não fosse ela a Inês, a esta revista lhe chegar às mãos ainda irá a
a Aninhas, que é uma beta da Foz e que tem Neuza, a Aninhas, o Pateta, a Chica e quem tempo da estreia, dia 15 de julho no Teatro
este sotaque supermarcado. E pelo meio há lhe apetecer ser. “Teria de ser uma coisa có- Maria Matos, em Lisboa.
mais umas quantas… Tenho uma que não mica. Se for um papel cómico e tu estiveres Foi também durante o isolamento que
mostro a ninguém – nem vou fazer – que a fazer essa personagem com verdade, se ela Inês nos entrou em casa quase todos os
é a Chica, que é uma criança e que é a que estiver a passar por um drama pode ter gra- dias, em direto no Instagram, na compa-
as pessoas gostam mais, mas é familiar.” É ça e pode dar para chorar na mesma. Mas nhia de Bruno Nogueira. Como é que o
nestas alturas que gostávamos que as pági- não sei... Uma Neuza é à medida porque Bicho Mexe fez companhia a quem estava
nas da revista se transformassem em vídeos vem de mim…”, conta. isolado e apresentou Inês a muita gente que
e que o leitor pudesse ouvir e ver a meta- Neste momento, e depois da imprevisi- ainda não a conhecia. “Foi ótimo. Foi ver
morfose entre Inês e as personas. Muda a bilidade do futuro imposta especialmente os números das minhas redes sociais a subir
postura, muda a voz, muda o sotaque. “Às ao setor da cultura, Inês está a preparar-se e aperceber-me de que esses números não
vezes é cansativo. Por exemplo, em Neuza para regressar aos palcos com Avenida Q, a são números. E isto no Bicho e nas minhas
eu e o Diogo Faro fomos para Londres um peça musical que é descrita como uma Rua redes sociais... De repente punha qualquer
fim de semana e foi gravar, gravar, gravar... Sésamo em esteroides e que conquistou o coisa numa story e tinha imensas respostas.
Eu chegava ao fim do dia e já não me podia público em 2017. “O Avenida Q é um musi- Não são números, são pessoas que estão
ouvir. Agora, na altura, não estou minima- cal feito com bonecos e temos de os mani- aqui a ouvir o que eu estou a dizer, que me
mente incomodada, não estou com vergo- pular. Fisicamente é muito difícil. Tenho de estão a dar força e conselhos, que me estão
nha, aquilo sai”, confessa. cantar e não sou cantora, por isso é um de- a ajudar. Apercebi-me da força que as redes
No Instagram da atriz (@ines_ap) ve- safio muito, muito grande... energicamente sociais têm para tu passares uma mensa-
mos interações entre Aninhas e David, en- gem... ajudam-me em tudo. Qualquer coisa
tre David e Pateta, entre Aninhas e a bebé que eu precisasse, tipo ‘pessoal hoje estou
Alice e não podemos não perguntar como com o nariz entupido’ respondiam ‘METE
é viver numa casa cheia como esta. “É um RHINOMER’... E, de repente, comecei a
bocadinho caótico... A minha mãe está mui- perceber que tinha mesmo pessoas que me
to habituada, a minha família e os meus viam e que gostavam de mim e isso é mara-
amigos também. Mas lembro-me de uma vilhoso. Quem é que não gosta?”
vez um ex-namorado me dizer assim: ‘Olha Com 31 anos, Inês sabe que é dos pal-
Inês, eu adoro estar contigo, tu és uma atriz cos, que é atriz, que tem espaço – e talen-
espetacular, esta personagem é incrível, “COMECEI A to – para crescer e vontade de fazer mais.
esta também, aquela também... Mas dá para “Gostava de fazer um monte de coisas nesta
‘tar com a Inês?’ E eu pensei… filho, podes PERCEBER QUE área… Não sei é para onde é que a vida me
pôr-te a andar que isto não vai ser possível. vai levar ao nível da carreira... Mas se a vida
É meio esquizofrénico, mas é como eu sou.
TINHA MESMO me levar para outros caminhos eu acho que
É uma loucura saudável.” P E S S OA S Q U E vou ser uma mulher feliz na mesma...” Inês é
artista e é tão atriz como é pessoa. Acha que
ME VIAM, QUE vai estar no espetáculo a vida toda, trata-o Vestido em crepe de seda, Schiaparelli.
G O S T A VA M D E por tu, chama-lhe casa. Mesmo que isso não
signifique palcos. “Eu acho que sou atriz
MIM E ISSO É tanto no meu trabalho – recebo dinheiro
com isso, faço disso a minha profissão –
M A R AV I L H O S O . como quando estou em casa. Estou sempre
QUEM É QUE em personagem, estou sempre a fazer tea-
tro, portanto, eu acho que nunca vou deixar
N ÃO G O S TA ? ” de ser atriz.” l

136 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020


MUSA

Vestido em poliéster,
Alberta Ferretti. Lingerie em
poliamida, Tezenis.

Na página ao lado, camisa,


top e saia em seda, tudo Gucci.

138 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 139
MUSA

Camisa, top e saia


em seda, tudo Gucci.

CABELOS: CLÁUDIO PACHECO, PARA


CHIADO STUDIO COM PRODUTOS L’ORÉAL
PROFESSIONNEL. MAQUILHAGEM: ELODIE FIÚZA.
ASSISTENTES DE FOTOGRAFIA: JULIA DIMITROVA
E JOÃO MARTINS. ASSISTENTE DE STYLING:
EDUARDA PEDRO. A GQ AGRADECE AO HOTEL
TIVOLI POR TODAS AS FACILIDADES CONCEDIDAS.

140 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 141
DOCUMENTO

V O L T A R

A O P A S S A D O,

Barros de Castro, foi em busca – gente e sítios concretos para redefinir uma narrativa com séculos.
Rostos como este captado em Moçambique, nesta página, ou paisagens como a da página do lado,
O L H A R

captada em Angola: dois exemplos do que o fotógrafo César Fraga, com o historiador Maurício
P A R A O

P R E S E N T E

Esta viagem estava destinada a dar um livro. Depois cresceu até resultar numa exposição
e acabou transformada numa série documental. Um fotógrafo e um historiador brasileiros
visitaram nove países africanos para retratarem os sítios de onde vinham os escravos.
Por Diego Armés. Fotografia de César Fraga.

142 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 143
DOCUMENTO

Numa altura em que, em Portugal, o debate


em torno da escravatura volta à ordem do
dia – e nem sempre do modo mais civilizado
–, é pertinente conversar com os dois ho-
mens que partiram de uma paixão comum
para redescobrir o passado, fazendo jus ao
termo que dá nome à exposição e à série. É
que sankofa é um pássaro mitológico afri-
cano que volta a cabeça para trás das costas
de modo a apanhar o próprio ovo; a palavra
sankofa, traduzida, significa “voltar para
apanhar”. Simbolicamente, sankofa é uma
espécie de regresso ao que nos deu origem. retornados. Pude fotografar as constru-
À esquerda, a memória de
ções coloniais portuguesas em Badagri uma refeição partilhada na
O que procuravam, ao certo, quando pro- (Nigéria), curiosamente chamadas “casas Guiné-Bissau (ver Episódios
gramaram esta viagem? E o que é que brasileiras”, por terem sido levadas pelos de Viagem); em cima, um
acabaram por encontrar? escravos retornados. Em Lagos (Nigéria), monumento no Benim,
e à direita César e Maurício
O fascínio por África, enquanto origem do Maurício Barros de Castro: Procuráva- já estávamos pegando a estrada quando re-
com habitantes locais,
caldeirão cultural em que se transformou mos os lugares de memória da escravidão cebemos o convite para ficarmos mais uns algures no Togo. Em baixo,
o Brasil, foi, segundo a dupla de brasilei- em África. Muitos especialistas disseram- dias e participar do “carnaval”, segundo três senhoras contemplativas
ros autores e executantes deste projeto, o -nos que não íamos conseguir encontrar eles, “quase como o nosso, com churrasqui- numa imagem captada
ponto de partida comum. Um fotógrafo, vestígios dessa memória. No entanto, en- nho e tudo”. Em Uidá (Benim), visitamos na Guiné-Bissau.
César Fraga, e um historiador, Maurício de contrámos diversas evidências desses luga- a casa do Chachá, um ex-escravo brasileiro
Castro Barros (professor adjunto da Uni- res de memória, tanto do ponto de vista das que cruzou o Atlântico para se tornar um
versidade do Estado do Rio de Janeiro e culturas materiais, como nos monumentos, dos maiores traficantes. Visitámos o bairro
professor visitante da Universidade da Ca- fortalezas e traços arquitetónicos, como nas dos tabons, em Accra (Gana), também fun-
lifórnia – Berkeley), juntaram-se no desa- culturas imateriais, nos rituais religiosos, dado por brasileiros retornados.
fio de traçar a rota das pessoas escravizadas nas festas e danças.
que eram levadas pelos portugueses do con- César Fraga: Graças aos deuses, que nos Além dos países de língua oficial por-
tinente africano para o Brasil. A motivação acompanharam ao logo de toda a viagem, tuguesa, incluíram no roteiro o Togo, o
de Fraga tinha alguns extras, uma vez que pudemos trazer para o Brasil um riquíssi- Benim, o Gana, a Nigéria e o Senegal.
ele próprio é descendente de uma mulher mo conteúdo fotográfico. Do Pelourinho Porquê? Como chegaram a este roteiro?
escravizada. na Cidade Velha (Cabo Verde) à Fortaleza MBC: Havia um roteiro que foi construí-
Traçadas as rotas, a dupla pretendeu, ao de São Jorge da Mina, em Elmina (Gana), do pelo consultor do projeto, o historiador
longo de uma viagem que durou 60 dias, conseguimos provar que a memória ma- João José Reis, para o qual também contri-
retratar essa África de onde saíam os escra- terial ainda está de pé. Os registos de um buí com algumas sugestões. O critério prin-
vos, mas usando esse critério não como uma ritual religioso num antigo entreposto de cipal para constituição de nosso roteiro foi
finalidade, em si: antes quiseram compreen- escravos, em Savalu (Benim), e da ceri- procurar os principais pontos de partida de
der os lugares visitando-os – acabaram por mónia numa antiga cela de escravos, em escravizados de África para o Brasil.
se deparar com sítios cheios de vida e onde Cape Coast (Gana), são dois exemplos CF: O projeto original, aprovado pela Lei
as dificuldades das populações se misturam que confirmam que este passado ainda está de Incentivo à Cultura para a produção do
com uma espécie de alegria natural e ge- presente na memória dos africanos. Uma livro Do Outro Lado, previa uma expedição
nuína que salta à vista, o que levou a dupla grata surpresa foi ver a influência da cul- por cinco países. Com o apoio logístico de
a evitar a narrativa fácil e paternalista. A tura brasileira por lá, levada pelos escravos amigos e empresas da iniciativa privada,
aventura, que tinha como propósito primei- conseguimos estender nosso roteiro para
ro resultar em livro, acabou por gerar, além nove países – Cabo Verde, Guiné-Bissau,
desse livro (Do Outro Lado), uma exposi- Senegal, Gana, Togo, Benim, Nigéria, An-
ção – Sankofa – Memória da Escravidão na gola e Moçambique.
África – e ainda uma série documental te-
levisiva, Sankofa – A África que te habita,
da autoria da FBL Criação & Produção e
exibida pelo canal Prime Box Brazil.

SANKOFA É UM PÁSSARO MITOLÓGICO AFRICANO QUE VOLTA A CABEÇA


PARA TRÁS DAS COSTAS DE MODO A APANHAR O PRÓPRIO OVO
144 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 145
DOCUMENTO

Na página ao lado, um mural pintado em


Cabo Verde. Nesta, em cima, uma imagem
do quotidiano na Nigéria; à direita, em cima,
crianças no Benim; em baixo uma fortaleza
portuguesa em Moçambique. Na foto de baixo,
mulheres reunidas numa foto tirada no Togo.

R O TA D E E S C R AV O S D A U N E S C O
O historiador Maurício de Castro Barros aproveita ainda para salientar o projeto da
UNESCO que visa “mapear os lugares de memória da escravidão em diversas partes
do mundo”. “Portugal possuía um comité deste projeto que desenvolveu um material
muito interessante sobre estes lugares de memória em Lisboa e nos países africanos
lusófonos. As linhas de pesquisa do projeto são interdisciplinares: envolvem História,
Habitantes
Patrimóniolocais dançam
Cultural, na
Antropologia, Arqueologia e Memória, entre outras.”
celebração de um casamento Lepcha
nas montanhas, na aldeia de Keshel.

146 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 147
DOCUMENTO

às populações destes países, que sofreram


com a violência da colonização. O Brasil
deve fazer a mesma coisa, encarar o seu
racismo estrutural, interromper a necro-
política do Estado brasileiro que mata EPISÓDIOS DE VIAGEM
primordialmente pessoas negras, e propor Depois de dois meses no terreno em busca
Como é que nós, portugueses e brasi- políticas públicas de inclusão e reparação de histórias, de gentes e de património, é
leiros civilizados e em pleno século XXI, das populações afrodescendentes. normal que algumas passagens, personagens
devemos olhar para os Descobrimentos e eventos se destaquem. Queremos saber de
Portugueses? Que peso devemos atribuir aos movimen- alguns mais marcantes e tanto o historiador
CF: Somos fruto dos descobrimentos tos de transação de escravos, levados de como o fotógrafo destacam imediatamente
portugueses. Foram vocês que nos for- um: “A oportunidade de brincar com alguns
África para as Américas, nesse período da
garotos que faziam movimentos próximos
maram, juntos aos milhares de africanos história de Portugal?
da capoeira no porto de Cacheu, em
e os outros milhares de índios que já ha- CF: Quando me deparo com este tipo de
Guiné‑Bissau”, conta Maurício de Castro
bitavam nosso território continental. Vi- pergunta, costumo começar a resposta
Barros, que é capoeirista. “Fiquei fascinado
vemos numa das sociedades mais ricas do dizendo que eu sou um mero fotógrafo,
ao vê‑los realizando aqueles movimentos,
planeta, em cultura e diversidade racial. curioso dos assuntos que me proponho a
mas naquela altura a capoeira ainda não
Mas parece-me impossível falar dos Des- registar. Mas posso afirmar com precisão
havia chegado à cidade. Num instante estava
cobrimentos sem citar o tráfico de escra- que o tráfico de africanos foi o mais cruel
ensinando e jogando capoeira com os
vizados, a mais lucrativa e cruel de suas e mais rentável ativo das grandes navega- meninos.” César Fraga confirma a história e
facetas, que nos legou um ambiente dis- ções portuguesas. Foram os escravizados acrescenta o que aconteceu consigo: “Em
criminatório contra os afrodescendentes. os responsáveis por movimentar a econo- três minutos, estavam todos jogando juntos.
Este cenário torna-se um entrave ao pro- mia do Brasil-colónia, nos ciclos do açú- Enquanto isso, eu, que não tenho a menor
gresso da sociedade brasileira, na medida car, do café e do ouro. habilidade, perguntei aos outros meninos
em que vem de encontro aos direitos hu- MBC: Um peso enorme. O tráfico transa- onde ficava o porto antigo. Me apontaram
manos mais fundamentais e aos anseios de tlântico foi o principal mercado económi- uma árvore frondosa na beira do rio, a cerca
uma nação justa, tolerante e democrática. co e plataforma comercial do período. de cem metros dali, para onde me dirigi.
Um desfile folclórico no Benim. A descrição da imagem de baixo,
sobre o lado direito, pode ser encontrada nos Episódios de Viagem. O nosso olhar para os lugares de memória Chegando lá, me apresentei a um grupo de
do tráfico de escravizados, conhecendo e Que heranças da escravatura podemos jovens sentados em roda, ‘meu nome é César,
reconhecendo as nossas origens, resgata encontrar, hoje em dia, na cultura brasi- sou brasileiro, mas possivelmente sou daqui
a nossa autoestima e fortalece a forma- leira? Refiro-me tanto a objetos, misci- também’. Imediatamente um dos jovens
ção da nossa própria identidade. Não me genação ou tradições, como ao peso, por respondeu ‘se você é daqui, vai se sentar
sinto muito apto para falar de Portugal. exemplo, que ser-se negro ou afrodes- connosco’. Foi quando a mãe de um deles se
O pouco que sei, pelos inúmeros amigos cendente tem na sociedade brasileira. aproximou com uma bacia de arroz e carne
portugueses e brasileiros que vivem por MBC: Sem dúvida, o racismo é uma ter- e o mesmo jovem emendou: ‘e vai comer
aí, é que parte dessa história foi deixada rível herança da escravatura. A diáspora com a gente’. Pela primeira vez na vida, comi
debaixo do tapete. africana, no entanto, permitiu aos afro- arroz e carne com as mãos, compartilhando
MBC: Primeiro é preciso questionar a descendentes reconfigurarem as culturas a mesma comida com os meus ‘primos’ que
ideia de descobrimento. Exceto Cabo Ver- dos seus ancestrais, como é o caso de ex- acabara de conhecer.” O fotógrafo César Fraga
de, os demais territórios “descobertos” já pressões culturais como a capoeira, o sam- acrescenta mais episódios, de entre os quais
possuíam populações nativas. Territórios ba e as religiões de matrizes africanas. há um que se destaca, por lhe ter causado
que, na verdade, foram ocupados militar- CF: Devemos grande parte das manifes- grande perturbação, ao ponto de o impedir de
mente e explorados por meio da emprei- tações culturais aos nossos ancestrais fotografar o lugar. Reproduzimos, na íntegra,
tada colonial. Descobrimento ou invasão? africanos. Traços que se revelam na nos- o seu relato. “Estávamos na imponente
As principais sequelas são o racismo estru- sa culinária, na nossa música, na nossa Fortaleza de São Jorge da Mina, em Elmina
tural resultado de séculos de escravidão literatura, na nossa dança e na nossa fé. (Gana), debruçada no Atlântico.
no país e o trauma da colonialidade que se Grandes ícones brasileiros, reconhecidos A construção histórica mantém intactas as
mantém na subjetividade e nos corpos dos mundo afora, como o samba, o Carnaval, dezenas de celas onde os escravizados eram
brasileiros. Tenho dificuldade de elencar o candomblé e a feijoada, tem origem na guardados antes do embarque transatlântico.
aspetos positivos. Não há uma coloniza- nossa matriz africana. l Um das celas me chamou a atenção, marcada
ção branda ou melhor do que outras. Uma por uma caveira de pedra sobre a porta. Era
violência é sempre uma violência. Um as- a cela dos escravos rebeldes. Ali eles eram
peto que poderia ser positivo seria uma jogados, sem luz, água ou comida, para que
ampla discussão na sociedade portuguesa seus gritos servissem de lição para os outros
sobre a importância de reconhecer o seu presos. De tempos em tempos, a porta era
Em cima, uma mesquita na Nigéria, passado colonial e, a partir daí, buscar po- aberta, corpos eram retirados e outros negros
mais ou menos improvisada. À direita, líticas de reparação dos danos causados eram jogados. Eu entrei no recinto, posicionei
outra mesquita, mas no Senegal. a câmara no tripé, fiz todos os ajustes
e simplesmente não conseguia fotografar,
English
version chorando copiosamente.”

148 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 149
DOCUMENTO

Porto no Gana.
A imagem merece
um olhar atento
e demorado, pois está
repleta de pequenos
e curiosos detalhes.

150 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 151
HOMEM NO LUGAR
Foto da coleção
Children of the
Streets (1954)
do fotógrafo
Thurston Hopkins. facto de a família, nessas comunidades, não
se desmembrar com tanta facilidade. E por
isso ser mais eficaz na hora de impor a disci-
plina e de transmitir uma ética de trabalho,
de responsabilidade. distingui-la, pode ser mais digna do que um
Em nome da felicidade, do ego, das idios- campeão nesta ou naquela modalidade, pois
sincrasias libertárias, nós, os homens mo- consegue articular centenas de outras pe-
dernos, abandonámos a ideia de família e quenas qualidades e tarefas. Pode não im-
trocámo-la pela individualidade. O preço a pressionar em nenhuma, mas é isso que lhe
pagar pela mudança é adiar ter filhos, se é permite dar aos filhos uma educação mais
que não fugimos mesmo de os ter. Quando ampla. As vitórias são todas provisórias, só
finalmente eles aparecem, perdemos rapi- o caminho pode ser constante.
damente a autoridade (com autoridade, Enquanto esperava pela minha vez, escu-
não quero dizer submeter os filhos à nossa tei um dia as provocações do meu barbeiro
Nos seus anos de glória na NBA, Charles vontade, mas agir de acordo com um código a um cliente a quem cortava o cabelo: “Tens
Barkley fez uma publicidade que deu es- de valores que lhes sirva de referência no a certeza que o filho é teu?”, perguntou-lhe.
cândalo: “Eu não sou um exemplo a seguir. seu crescimento). “Claro que é”, respondeu o cliente, ainda
Os pais é que devem ser”, dizia ele nesse As crianças dificilmente fazem aquilo que jovem. “Quem brinca com ele quando acor-
anúncio. “Lá por fazer afundanços, isso lhes dizemos: a maior parte das vezes nem da sou eu, quem lhe prepara o pequeno al-
não quer dizer que deva ser eu a criar os sequer nos entendem. Não é assim tão raro moço sou eu. A roupa que veste e a comida
vossos filhos.” entrarmos em contradição com o que foi que come sou eu que a compro e à noite sou
Após terminar a carreira de basquete- dito dias antes. Se elas conseguem seguir- eu que o deito e fico com ele até adorme-
bolista, uma jornalista perguntou-lhe se -nos, é pelos atos. É a nossa coerência, e a cer.” O barbeiro aceitou a derrota fazendo
estava arrependido dessa afirmação, que eficácia do nosso comportamento, que as uma pausa: “Agora estiveste bem.”
desiludiu tanta gente entre os fãs. Barkley orienta. Nem que seja para a aldrabice. Mas Um pai, acima de tudo, é quem está pre-
reiterou-a. Não só manteve o que tinha dito se as nossas ações forem aleatórias, elas não sente. Ele ensina o que sabe e acompanha
como achava que esse foi o gesto mais im- alcançam o benefício de seguir os nossos o filho no que pode. Umas vezes ajuda, ou-
portante da sua carreira. passos e acabam por ir à procura de referên- tras incentiva. A maior parte das vezes o
A mensagem é clara: não deixes que a cias mais carismáticas. seu único poder é explicar porque razão é
educação dos teus filhos dependa do exem- Para a maior parte de nós, pessoas co- que há coisas que não se podem fazer. Se é
plo de outros. À medida que os famosos, muns, sem um talento que nos recomende, verdade que as maiores lições são também
nomeadamente as estrelas do desporto, vão não é fácil sermos comparados ao exército as mais difíceis de dar, nada é tão importan-
ganhando uma importância que ultrapassa de campeões à nossa volta. Entre os fil- te como ensinar um jovem a aceitar os seus
a fronteira do trabalho que lhes dá fama, a mes de que me lembro, aquele que melhor limites e os dos outros. A maior parte das
Assustados que estamos de assumir responsabilidades, exigimos opinião pública teima em fazer deles ído- expressa a dificuldade deste processo é A coisas que desejamos não são possíveis de
cada vez mais que sejam as figuras públicas a servir de exemplo. los. Quando as suas ações não obedecem às Bronx Tale, realizado pelo ator Robert De atingir. Às vezes não há recursos. Além dis-
expectativas, são derrubados do pedestal. Niro. Nesse filme, De Niro representa o pa- so, moralmente há coisas que não se fazem.
Até ao dia em que as derrubamos do pedestal. Como se não lhes bastasse a obrigação de pel de um homem humilde, com um traba- O benefício que retiramos delas não com-
serem brilhantes na sua profissão, é-lhes lho modesto. Ele perde o respeito do filho pensa prejudicar os outros.
Por Rui Catalão. delegada ainda a responsabilidade de orien- quando este se deixa fascinar pelo poder e Há um oceano de atrações que não estão
tarem os jovens para o bom caminho. pelo modo de vida excitante do líder mafio- ao nosso alcance, mas sobra ainda um mun-
Esta forma de pensar subentende que os so que controla os negócios do bairro. do vasto de oportunidades. Ter a força e a
pais não acreditam na influência que têm Um dos aspetos da vida humana mais di- curiosidade de ir à procura delas, ou a pa-
nos filhos. Resta-lhes exigir que sejam os fíceis de serem entendidos por uma criança ciência para deixar que se revelem – é esse
ídolos da bola a fazer o trabalho. Em rigor, é que, para alguém ser excecional numa só o trabalho de qualquer homem. É por não

FOTOGRAFIA: THURSTON HOPKINS / GETTY IMAGES; D.R.


a mensagem de Barkley era ainda mais pro- coisa, abdica muitas vezes de ser minima- aceitarmos as nossas limitações, e termos
funda. No Estados Unidos, mais de 70% das mente capaz numa multidão de outras com- vergonha delas, que fugimos de ser pais.
crianças negras crescem sem o convívio do petências que moldam o nosso dia a dia. Para evitar que os filhos apanhem as nossas
pai, razão pela qual são tão permeáveis ao Uma pessoa comum, sem nenhum talento a fraquezas, jogamos sozinhos às escondidas.
comportamento das estrelas do desporto e É que os filhos, para o melhor e para o pior,
da música. Na ausência de uma figura pa- acabarão por nos apanhar – e entender
ternal em casa, vão encontrá-la em quem quem somos. Estás pronto para enfrentar
mais os impressiona. esse espelho, ou preferes manter-te no es-
Em Portugal, as crianças afrodescenden- conderijo, em que ninguém te descobre? l
tes são também as que mais sofrem com a
ausência do pai. Essa mesma tendência, no
entanto, tem vindo a crescer nas famílias
brancas. Um dos fatores que melhor ex-
plicam o sucesso escolar e profissional dos English
jovens de ascendência asiática deve-se ao version

152 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 153
ESTADO DO RETÂNGULO

Os países europeus mais afetados pela pan-


demia, no caso Itália e Espanha, poderão

I
receber, respetivamente, 172,7 mil milhões
de euros (81,8 mil milhões de euros em sub-
sídios e 90,9 mil milhões em empréstimos)
O STO e 140,4 mil milhões de euros (77,3 mil mi-
O / AG
JULH lhões de euros em subsídios e 63,1 mil mi-
ETS
| G ADG lhões em empréstimos). Diga-se que os em-
EM préstimos são voluntários – as nações são
MPR
E
O R TAG
| REP
S E livres de não os querer – e os critérios para
DE
NAL DES
R JOR D A apurar a verba incluem o Produto Interno
IOSI
LH O
A ME Bruto per capita e o nível de dívida. Portu-
S | CUR
I S TAO MELHOR JORNAL DE SEMPRE
Nº 177 gal ficou colocado no grupo de países com
N T REV JULHO / AGOSTO um PIB per capita abaixo da média da UE
7 CULTO | A |E
MODA | ENTRE VISTAS |
1 7 D CURIO SIDAD |
ES REPOR TAGEM | GADGE TS Impacto económico substancial. Incerteza e dívida elevada. A isto tudo, acrescenta-se com esta instituição a prever um défice en-
Nº | MO
U LTO significativa. Resultado orçamental afeta- um orçamento de 1,1 biliões de euros para tre 6,5% e 9,3% e uma taxa de desemprego
C do pelo choque. Foi assim que, em junho, os próximos sete anos, cerca de cinco vezes entre 11% e 13,1%.
o Mecanismo Europeu de Estabilidade mais do que o PIB anual português, que A economia nacional pode, assim, cair na

MIA
(MEE), o fundo de resgate da União Euro- ronda os 200 mil milhões de euros. maior recessão na história da sua democra-
N O peia, traçou o retrato da economia nacional Ajudas à parte, a verdade é que a nossa cia, pior do que a vivida em 2012, quando

A E C OT A à luz da pandemia de covid-19. Portugal economia vai encolher e muito. O Governo o PIB recuou 4%, afetando todas as áreas

A UMÀ VIS não está sozinho, naturalmente. O vírus estima uma queda do PIB de 6,9% este ano, de atividade. Eis então o diagnóstico e os
R abalou a estrutura económica à escala glo- mostrando-se otimista para 2021, quando tratamentos que já foram prescritos para
Nº 17
I O S PA C U R A . bal e a única diferença é a forma como as prevê um crescimento de 4,3%. Já a Comis- tentar salvar a economia do desastre.
7
M É D S E M Reis. n a c ional nações afetadas estão a lidar com uma cri- são Europeia prevê uma contração de 6,8%
C U LT E E ã o
omia difíceis
SDSA RREOMEÉNODT Nari g
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O I O S rP
PaAuloR A U M A E C O e onO
cN se que, por esta altura, ninguém é capaz de em 2020 e mostra-se mais esperançosa para
mia s anos seM rãoI A ico
– O o n a
D| D
M P prever quando é que vai ficar para trás. 2021, com uma retoma de 5,8% do PIB,
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E S REJ OM C U R A p aÀn deV I S oT A agnós
t ainda assim abaixo da média da Zona Euro A VIDA DIFÍCIL
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a Uma coisa é certa: se existe organização
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u u lJaUrL, HeOi / aA GcOuSrTa. minimamente preparada para enfrentar um (6,3%). DAS EMPRESAS
Por Paulo
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r t i c rá G E T S
a re S IeDm o pa cMhe| gGaA D
desastre a esta escala é a União Europeia, O pior cenário vem do Banco de Portu- O diagnóstico. A pandemia deixou a eco-
b e r a forçN AdLoDs EpeSrEcMePbR EerAaD l EaSra| R
p E a n d
G oE apesar dos teimosos obstáculos internos gal que, no boletim económico de junho, nomia em coma assistido e a crise abateu-
oAr MsaE L H OseRsJjOáRto rta. D o gE S | R EbPerOqRuTP O R TAG
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psaber O / A
Ainda está a e s t
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da s a
pandem ia na econom E M ia
GOST colocados pelo agora famoso quarteto fru- prevê uma queda de 9,5% do PIB nacio- -se sobre as empresas nacionais das mais
i n d a t r o | Ca e
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t o s , s | G naciona
A l. O gal, formado por Áustria, Países Baixos, nal, mais do que os 6,9% estimados pelo diversas áreas, muitas incapazes de resistir
Nº 177 MasAem| squatro
e m qRuEmeses
V I S ToAjá
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Sntodos
e percebe
r e s c ri mos que os próximos anos serão D G E T S
difíceis
MA a E N uperaçã
| MeOaDrecuper
T p
entos Do geral para o particular, eis o diagnós
Suécia e Dinamarca. Não foi fácil, mas a Ministério das Finanças também em ju- à interrupção forçada da atividade. Ainda
C U LT O a r e cação lenta r a t aemincerta. tico UE, através do seu Fundo de Recupera- nho, quando era ainda liderado por Mário assim, desde março, mês em que o País fe-
e e os t ntos prescritos, sem saber quando chegará a cura.
e os tratame ção, arregimentou 750 mil milhões de euros Centeno. O banco central português ima- chou, a situação evoluiu para melhor. Se,
– OS para distribuir pelos 27 países do bloco. A gina ainda um cenário “adverso”, em que em abril, 80% das empresas nacionais re-
REM Portugal calhou a fatia de 15,5 mil milhões a economia nacional demora mais tempo a gistaram uma redução no volume de negó-
DOE ÉDIOS P de euros em subvenções (distribuídas a recuperar e a queda no fim deste ano chega cios, segundo dados do Banco de Portugal
NTE A
SEM RA UM
fundo perdido) e 10,8 mil milhões de euros aos 13,1%. Previsões semelhantes são dadas e do Instituto Nacional de Estatística, o
sob a forma de empréstimos concedidos em pela OCDE (9,4% ou 11,3%) e pelo Conse- panorama era menos negro em junho, com
CUR A
Ainda
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Por Pa
ulo Na A À EC E
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O N OMIA condições favoráveis, embora não se saiba lho das Finanças Públicas (7,5% a 11,8%), uma percentagem de 67%. Aliás, na segun-
Mas e o r ig
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A I S T AT A M I A ainda quando e com que cadência chegará a da quinzena de junho, a última de que fo-
m qua r saber a fo
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S P A R A À VIS
mala do dinheiro. Poderá ser já no início do ram reunidos dados através do Inquérito
e a rec tro
upera SmeR sesEjáM É ealI dO
rça rD
C U R A próximo ano, na primavera ou, na pior das Rápido e Excecional às Empresas (Covi-
Oçã todosT E o cShE oqM d-IREE), a percentagem de empresas em
e–os tr o len
hipóteses, só em 2022.
O E N p e ue da gão Reis.
ata D e incer
t a r c ebPeom ap
r Poasulo N andemi
ri funcionamento já era de 96%, contra 82%
mento ta. Do a na e l.
s pres que os conomeconomia naciona em maio.
critos geral para o próximnodsemia n a ia na ifíc e is
, sem
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Ainda est tro meses já todos Do geral para o pará a cch uerag.ará aico
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E U R O S PA R A D I S T R I BU I R PE LO S 2 7 PA Í S E S
DO BLOCO
154 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 155
ESTADO DO RETÂNGULO

às horas não trabalhadas, pago em 70% pela A N OT Í C I A CA I U QU E N E M


Segurança Social e em 30% pelas empresas.
Este regime entra em vigor em agosto. Ou- UMA BOMBA NO INÍCIO DO MÊS

O
tra mexida dá-se nos pagamentos por con-
ta: as empresas com quebra de faturação
superior a 20% mas inferior a 40% poderão DE JULHO: PORTUGAL FICOU
beneficiar de um desconto, enquanto as
empresas com uma quebra superior a 40% O TRABALHO
e as empresas dos setores do alojamento e QUE SE PERDEU F O R A D O S PA Í S E S C O M D I RE I T O A C O R RE D O R
restauração poderão mesmo ficar isentas. Já O diagnóstico. No fim do mês de maio, o
as PME veem suspenso o pagamento deste último para o qual existem dados oficiais, TURÍSTICO COM O REINO UNIDO
imposto, de forma automática, indepen- estavam inscritos nos Centros de Empre-
dentemente da quebra de faturação. go 408.934 indivíduos desempregados, um
Outra medida que gerou polémica e re- aumento de 34% face ao período homólo-
gistou avanços e recuos merece uma nova go. Assim se vê o impacto que a pandemia TURISMO À BEIRA
Outro inquérito, este ao nível europeu, co- fórmula: é reforçado o apoio aos sócios-ge- está a ter no mercado de trabalho. O mês DO COLAPSO
loca, por outro lado, as empresas portugue- rentes, com o cálculo da ajuda a ser feito a de abril foi o mais crítico. Segundo o Ga- O diagnóstico. A notícia caiu que nem uma
sas entre as mais preocupadas com o impac- partir da remuneração registada como base binete de Estratégia e Planeamento (GEP) bomba no início do mês de julho: Portugal nunca serão, um substituto do ensino pre-
to da pandemia, de acordo a edição especial de incidência contributiva. Nos casos em do Ministério do Trabalho, Solidariedade ficou fora dos países com direito a corredor sencial e a sua eficácia, como muitos pais
do EPR – European Payment Report da que esta seja inferior a 658,22 euros, o apoio e Segurança Social, 133.840 pessoas mete- turístico com o Reino Unido. O impacto, puderam verificar, variou de professor para
Intrum. O estudo, que envolve 29 países, fica igual a essa base de incidência, desapa- ram os papéis para pedir o subsídio de de- principalmente no Algarve, destino de elei- professor. O ano letivo de 2019/2020 não
afirma que Portugal (83%) está no top 3 recendo o limite de 438,81 euros. Nos casos semprego, havendo uma redução em maio, ção dos britânicos, poderá retirar ao País ficou completamente perdido, mas muitas
dos países que consideram que a recessão em que a base de incidência seja igual ou quando deram entrada 31.200 pedidos de 3,3 mil milhões de euros que os cerca de 10 crianças ficaram para trás, já que o acesso à
pan-europeia é um dos maiores obstáculos superior a 658,22 euros, a ajuda correspon- subsídio de desemprego. A isto se junta um milhões de turistas do Reino Unido costu- tecnologia continua a ser desigual no nosso
que as empresas vão enfrentar nos próxi- de a dois terços do vencimento em causa, número elevado de trabalhadores indepen- mam deixar por cá. E se tivermos em conta país, para além da falta de acompanhamen-
mos 12 meses para receberem nos prazos. triplicando o limite máximo de 635 euros dentes cuja atividade ficou reduzida ou foi que, no Algarve, o desemprego triplicou to que acabou por afetar os alunos com ne-
Diga-se que o número de insolvências para 1.905 euros. A prestação passa a in- simplesmente eliminada. durante o mês de maio, devemos esperar o recorreram a este mecanismo, tendo 93% cessidades educativas especiais.
aumentou 16% em maio face ao período cluir os empresários em nome individual e O tratamento. O tempo de trabalho exi- pior. prorrogado para maio e 76% para junho". O tratamento. O ministro da Educação,
homólogo de 2019, tendo 603 empresas tem efeitos retroativos a 13 de março. gido para ter acesso ao subsídio de desem- Valendo hoje em dia o turismo oficial- Sem o lay-off em julho, “mais de 54% das Tiago Brandão Rodrigues, foi à Assembleia
declarado insolvência. “O valor acumula- Refira-se ainda que as empresas com sede prego vai ser reduzido para metade, ou seja, mente cerca de 14% do PIB nacional – há empresas referem que não terão condições da República anunciar que, descontando
do [janeiro a maio] é 4,2% superior ao de em offshore vão ficar impedidas de rece- o período mínimo de descontos para ter quem ache que este valor peca, e muito, para pagar salários no final do mês”. fins de semana e feriados, o próximo ano
2019, com um total de 2.281 empresas in- ber os apoios, medida que, no entanto, só direito à prestação passa a ser de 180 dias por defeito –, é de temer uma tempestade O tratamento. O Programa de Estabili- letivo vai ter mais 11 dias úteis de aulas do
solventes”, refere um estudo da consultora se aplica aos apoios futuros e não aos que nos 24 meses imediatamente anteriores à perfeita no setor. Segundo a Associação da zação Económica e Social (PEES) prevê pré-escolar até ao 4º ano, os do 5º e do 6º
Iberinform, com Porto e Lisboa a serem os estão em vigor. data de desemprego. Também o subsídio Hotelaria, Restauração e Similares de Por- uma série de apoios ao setor do turismo e ano terão mais 16 dias de escola e do 7º ao
distritos mais afetados pelas falências. de doença para quem tenha contraído co- tugal (AHRESP), quase 40% das empresas a áreas a ele diretamente ligadas, que as- 12º ano haverá mais 4 dias úteis de aulas.
O tratamento. O Orçamento Suplemen- vid-19 sobe de 55% para 100% do venci- de restauração e bebidas e 18% do aloja- cendem, no total, a cerca de €120 milhões, As férias de Natal e da Páscoa perdem dias,
tar foi aprovado no início de julho e dele mento do beneficiário. mento turístico tencionam avançar para nomeadamente apoios a empresas do setor mas o ano vai arrancar mais tarde, entre 14
constam várias medidas para combater a Já os trabalhadores mais desprotegidos, insolvência. “Para as empresas inquiridas, dos eventos e à criação e desenvolvimento e 17 de setembro.
crise e ajudar as empresas. O lay-off simpli- nomeadamente os independentes e os in- a faturação do mês de junho foi dramáti- de rotas aéreas, estando também previsto o Vai ainda haver mais três professores por
ficado que até agora estava em vigor é subs- formais, poderão receber uma nova pres- ca, com mais de 24% das empresas a regis- apoio à reconversão de alojamento local em agrupamento e está prevista a contratação
tituído por um novo apoio ao emprego, que tação de 438,81 euros, tendo de ter con- tarem perdas superiores a 40%, 22% com arrendamento acessível. Há ainda mecanis- de 600 assistentes operacionais e mais 200
já não permite ao empregador suspender os tribuído para a Segurança Social durante quebras homólogas superiores a 60% e 12% mos como a venda de património imobi- assistentes técnicos. Fica suspensa a devo-
contratos de trabalho, mas dá hipótese de pelo menos três anos. Os trabalhadores in- com uma quebra acima dos 90%”, avança liário a fundos de investimento e posterior lução dos manuais escolares entregues aos
haver redução dos horários de trabalho. As- dependentes que já fizeram descontos e que a AHRESP, que diz ainda que o acesso ao arrendamento. alunos no ano letivo 2019/2020.
segura ainda aos trabalhadores o pagamen- estão a receber o apoio à redução de ativi- lay-off simplificado para apoio ao paga- Em termos fiscais, os setores do aloja- Quanto ao ensino superior, passa a haver
to de 66% do vencimento correspondente dade, no valor mínimo de 219,4 euros, vão mento de salários “tem sido uma constante mento e da restauração ficam isentos do um regime excecional para a atribuição das
poder aderir ao novo apoio extraordinário, desde abril”, e “mais de 87% das empresas pagamento por conta de IRC até dezembro bolsas de estudo, que considerará os rendi-
que será pago de julho a dezembro. e não terão de fazer demonstração de que- mentos de todos os membros do agregado
bra de faturação superior a 40%. familiar dos estudantes nos 12 meses ante-
O GOVERNO ESTIMA riores ao pedido do apoio.
U M A QU E DA D O PI B D E 6 , 9 % E ST E A N O, O REGRESSO
DA EDUCAÇÃO
MOSTRANDO-SE PRESENCIAL
O diagnóstico. Quem tem filhos em idade
O T I M I S TA PA R A 2 0 2 1 , QUA N D O PRE V Ê U M escolar sabe bem pelo que passou desde que
as escolas fecharam em março. A telescola
e as aulas síncronas – em videoconferên-
CRESCIMENTO DE 4,3% cia com os professores – não foram, nem

156 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 157
ESTADO DO RETÂNGULO

15 MILHÕES DE EUROS. A TAP, PROBLEMA


F O I O VA L O R QU E O G OV E R N O ETERNO
O diagnóstico. Se antes da pandemia a saú-
de da transportadora aérea nacional não ACUDIR AOS MEDIA
D E S T I N O U PA R A já era propriamente a melhor, ficar com os O diagnóstico. Os meios de comunicação
O APOIO A ALGUNS MEIOS aviões em terra piorou ainda mais o estado já não eram propriamente um modelo de
de coisas. No primeiro trimestre de 2020, saúde económica, com a queda das vendas
incluindo dois meses sem sentir os efeitos de jornais e revistas e a perda da publicidade
da paragem, a TAP apresentou prejuízos sugada pelas grandes plataformas como o
DE COMUNICAÇÃO SOCIAL de 395 milhões de euros. Em março, com Facebook ou o Twitter. A pandemia veio ainda
o encerramento de aeroportos e a parali- piorar a situação. Com a economia parada não
A SAÚDE PARA sação do transporte aéreo, a TAP cancelou há anunciantes e houve meios
ALÉM DA COVID-19 a maioria dos seus voos e pôs os trabalha-
TRANSPORTES de comunicação social que tiveram mesmo
O diagnóstico. O setor que esteve na linha dores em lay-off, aderindo às medidas de de optar pelo lay-off parcial.
da frente do combate à pandemia merece apoio às empresas lançadas pelo Governo DEMASIADO O tratamento. 15 milhões de euros. Foi este
PÚBLICOS

N
todos os louvores. O confinamento permi- para mitigar o impacto da pandemia. Em o valor que o Governo destinou para o apoio
tiu que os serviços não ficassem sobrecarre- abril, o empresário David Neeleman, acio- O diagnóstico. O teletrabalho deixou os a alguns meios de comunicação social, através
gados pela covid-19, mas, ao mesmo tempo, o Gabinete de Estratégia, Planeamento e nista privado da transportadora, disse es- transportes públicos a meio gás, mas, com de publicidade institucional, e a polémica
quase 1,4 milhões de consultas ficaram por Avaliação Culturais (GEPAC), o setor cul- tar “totalmente disponível” para colaborar o desconfinamento gradual, veio o aumen- instalou-se instantaneamente. A começar
fazer no SNS por causa da pandemia e 51 tural empregava 160.600 pessoas em Por- com o Governo numa solução para a TAP e to da sua utilização, principalmente nas pelos critérios, que deram a maior fatia à
mil cirurgias foram adiadas. tugal em 2018, e um em cada quatro destes assegurou que a companhia tinha propos- áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. E Impresa (SIC) e à Media Capital (TVI) – 3
No fim de maio, a ministra da Saúde, trabalhadores exercia atividade por conta tas competitivas para se financiar e que o foi na região da capital que ficaram ligados milhões de euros para cada – seguindo-se a
Marta Temido, anunciou que 30% das própria. Ou seja, 40 mil trabalhadores serão que precisava era de “uma garantia estatal”. ao aumento dos casos de infeção pelo novo Cofina (que, não obstante ter encerrado uma
consultas e cirurgias tinham já sido remar- independentes. Dois meses depois, a garantia estatal aca- coronavírus por causa da sobrelotação que das suas publicações – a revista Máxima –, viu
cadas, mas com o aumento, em junho, dos Durante os meses do confinamento, a bou por se transformar numa seminaciona- impossibilita o distanciamento social. serem-lhe atribuídos 1.691.006,87 euros)
casos positivos na região de Lisboa, as ci- ministra da Cultura, Graça Fonseca, foi lização. No primeiro dia de julho, a Autoridade e Global Media (1.064.901,66 euros). O
rurgias e consultas não urgentes voltaram acusada pelos profissionais do setor de ser O tratamento. O Governo aprova, em da Mobilidade e dos Transportes admitiu Governo defendeu a validade dos critérios
a ser suspensas em todos os hospitais dos Nas contas do bastonário, mais de 50% da virtualmente inexistente pela falta de res- Conselho de Ministros, uma resolução que que tem havido sobrelotação nos transpor- sem nunca os revelar realmente e houve
concelhos de Lisboa, Amadora, Sintra, atividade – consultas, cirurgias, exames – postas às questões e às necessidades dos reconhece o interesse público subjacente à tes públicos de passageiros do País, com a contas mal feitas: o Observador, que recusou
Loures e Odivelas. foi adiada e terá de ser recuperada, assim agentes culturais, com a grande polémica a operação de auxílio à TAP no valor de até passagem do estado de emergência para o categoricamente o apoio, teria direito a 19
O tratamento. O Orçamento Suplemen- como realizadas as marcações já efetuadas: vir do anunciado e rapidamente descartado 1.200 milhões de euros e anuncia que che- de calamidade, devido ao aumento de uti- mil euros que, afinal, eram 90 mil. Corrigido
tar inscreve um reforço adicional do orça- “Em termos de orçamento, estamos a falar TV Fest, um festival de música portuguesa gou a acordo com os acionistas privados lizadores. “Não era previsível que aconte- o engano, o jornal online manteve a recusa,
mento do SNS de 504,4 milhões de euros, o de três meses – 25% de um ano. Se eu apli- na RTP, cujos bizarros critérios de seleção da TAP, passando assim a deter 72,5% do cesse isto. É uma coisa nova, estavam os acompanhado pelo económico ECO.
que dá um aumento de 13% do orçamento car este quarto de ano ao orçamento, signi- o mataram ainda à nascença. capital da companhia aérea, por 55 milhões serviços mínimos, de repente começa a ava- Quando o assunto parecia ter ficado
do SNS face a 2019. Ainda assim, o valor fica que, para recuperar metade do que era O tratamento. No Orçamento Suplemen- de euros, pagos à Azul de David Neeleman, lanche de utilizadores de transportes”, foi a esquecido, no fim de maio o constitucionalista
é considerado insuficiente pelo bastonário a atividade desses três meses, são necessá- tar está contemplada uma linha de apoio que deixa a companhia. justificação que o presidente da AMT, João José de Melo Alexandrino pôs em causa a
da Ordem dos Médicos, defendendo que rios 1.250 milhões de euros.” social aos trabalhadores independentes do Carvalho, deu aos deputados da comissão constitucionalidade do apoio por, entre
a recuperação da atividade devido à co- Por sua vez, os profissionais de saúde setor cultural no valor de 30 milhões de eu- de Economia, Inovação, Obras Públicas e outras razões, ofender o princípio da
vid-19 exige pelo menos 1.250 milhões de que estiveram na linha da frente vão ter ros que, segundo Graça Fonseca, não será Habitação. independência dos media perante o poder
euros. “Esperava mais de um orçamento direito a mais um dia de férias por cada atribuído através de concurso. O tratamento. O Orçamento Suplemen- político e por ser matéria da competência
suplementar para a saúde”, diz Miguel Gui- 80 horas de “trabalho normal” e mais um O Programa de Estabilização Económica tar determinou a transferência, a título do parlamento sobre a qual o Governo legislou
marães, para quem as fragilidades do SNS dia de férias por cada 48 horas de trabalho e Social já previa também um apoio extra extraordinário, de até 94 milhões de euros sem autorização. Alexandrino entregou a
foram atenuadas nos últimos meses porque suplementar durante o estado de emergên- de 1.314 euros, a distribuir em três pres- para o apoio à reposição da oferta de trans- sua exposição à Entidade Reguladora para
toda a atividade foi concentrada no comba- cia, estando ainda previsto um prémio de tações, para os trabalhadores precários do portes públicos. As áreas metropolitanas de a Comunicação Social (ERC), que até ao
te à pandemia. desempenho correspondente a 50% do sa- setor, medida que o Sindicato dos Traba- Lisboa e do Porto e as comunidades inter- fecho desta edição da GQ não tinha ainda
lário-base bruto. lhadores de Espetáculos, Audiovisual e dos municipais são os alvos da medida. l divulgado o seu parecer.
Músicos considerou insuficiente embora
admitisse ser o caminho para chegar ao que
A CULTURA o setor cultural exige: “Repor os rendimen-
tos da totalidade das pessoas.”
QUE DESAPARECEU A MINISTRA DA CULTURA,
O diagnóstico. Se há palavra que resuma o
estado em que ficou a cultura por causa da
pandemia só pode ser calamidade. Festivais GRAÇA FONSECA, FOI ACUSADA PELOS
e concertos cancelados, teatros fechados,
produções de cinema paradas, museus en-
cerrados. A situação fica ainda pior se tiver- PROFISSIONAIS DO
mos em conta o elevado número de traba-
lhadores independentes no setor. Segundo SETOR DE SER VIRTUALMENTE INEXISTENTE
158 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 159
Calças em algodão,
Jacquemus.
MODA

F L O W E R
B O Y / /
W H E R E
T H I S
F L O W E R
B L O O M S
Uma ode ao movimento e à vontade de ser livre outra vez. Uma carta, escrita em imagens,
endereçada à natureza, à liberdade e à esperança que ela tanto inspira. Uma interpretação
lírica e poética do corpo humano que é um só com as flores e com o azul do céu.
Fotografia de Kosmas Pavlos. Styling de Johanna Bouvier.
MODA

Camisa em algodão,
Christoph Rumpf. Calças
em pele, Wendy Jim.

Na página ao lado,
camisa e calças em
algodão, tudo Hvala Ilija.
Camisa em poliéster,
Jana Wieland.
MODA
Na página ao lado, camisola e
camisa em algodão, calções em
poliéster, tudo Louis Vuitton.
MODA

Camisa em algodão,
Dries Van Noten. Calças
em algodão, Loewe.
MODA

Top em poliéster, Dries Van Noten.

Na página ao lado, casaco e calças em


denim, tudo Maison Margiela.

MODELO/BAILARINO: TRISTAN RIDEL @WIENER


MODELS. GROOMING: MAX ARTEMIS. ASSISTENTE
DE FOTOGRAFIA: XENIA TRAMPUSCH. IMAGEM
DIGITAL: DIENACHBARIN.AT.
COVID-19

bairro, cabeleireiros e alguns serviços de


atendimento ao público. Duas semanas
depois, veio a segunda fase: restaurantes e
cafés reabriram, embora limitados a 50% da

J
lotação, bem como as lojas até 400 metros
quadrados, museus e monumentos. Os alu-
nos do 11º e do 12º ano regressaram à es-
cola, os mais pequenos às creches e os lares económica aumentavam quase diariamen-
voltaram a ter visitas. Descontando um au- te, incluindo o PIB, a dívida pública ou o
mento brusco de novos casos entre os dias défice, mas também números das áreas da
6 e 8 de maio, quando chegaram às cinco produção, das vendas, da hotelaria e restau-
centenas, tudo parecia bem encaminhado e ração. Dos Açores vinha uma boa notícia,
pronto para a terceira fase do desconfina- com o anúncio do fim da última e maior ca-
mento, com a reabertura de cinemas e tea- deia de transmissão local de covid-19.
Junho chegou ao fim com 42.141 casos e
tros, a “descontinuação” do teletrabalho, É preciso enfrentar a crise e o Governo
1.576 mortos, números oficiais para Por-
o regresso às praias com o início oficial da aprova um conjunto de medidas sociais e
tugal. Durante todo o mês, o País viveu a
época balnear e também do futebol, embora económicas, o Programa de Estabilização
chamada terceira fase do desconfinamento,
sem público nas bancadas: a 3 de junho, o Económica e Social (PEES). Entre as vá-
com a reabertura de centros comerciais,
Portimonense–Gil Vicente reatou a I Liga. rias medidas anunciadas pelo primeiro-mi-
salas de espetáculo, cinemas, ginásios,
A mesma sorte não teve o râguebi, despor- nistro está a prorrogação do subsídio social
piscinas e Lojas do Cidadão, depois dos
to em que evitar o contacto físico, natural- de desemprego, apoios a atividades cultu-
restaurantes e do pequeno comércio ter
mente, é uma impossibilidade: os campeo- rais, o prolongamento do regime de lay-off,
regressado à atividade, mesmo com restri-
natos nacionais de seniores terminaram isenções do pagamento de IRC e apoios
ções. Todo o País? Não! Uma área metropo- sem campeão, sem subidas e sem descidas. para idosos e trabalhadores sem proteção
litana atacada pelo irredutível vírus resiste Um pouco por toda a Europa, o pior pa- social. É, ainda, aprovada a contratação de
à libertação e a vida não é nada fácil para os rece ter passado. Em Itália, a nação sobre mais profissionais de saúde e o prolonga-
From: Paulo Narigão Reis.\r\n habitantes de Lisboa, Sintra, Loures, Ama- quem a covid-19 se abateu primeiro, com mento, até ao fim de março de 2021, da mo-
dora e Odivelas. toda a sua força, as fronteiras foram rea- ratória que permite suspender o pagamento
Mandar quase toda a gente para casa até bertas a 3 de junho para visitantes do con- das prestações de empréstimos bancários.

N Ã O VA I F I C A R
foi fácil, tirá-la de lá em segurança nem por tinente. Moscovo reduziu parcialmente o
Subject: isso. Fechámos cedo e impedimos que o confinamento após uma queda nos novos
vírus viajasse sem controlo. Foi bem feito, casos pela primeira vez em nove semanas, E N T R E TA N T O ,

TUDO BEM,POIS NÃO? NAS AMÉRICAS


avisado e até deu direito a elogios externos enquanto o Reino Unido se preparou para
. \r\n que, naturalmente, lá tratámos de exage- relaxar o lockdown, apesar das preocupa- O epicentro da pandemia já se tinha trans-
rar: um parágrafo no meio de um artigo do ções do órgão consultivo científico do Go- ferido para a América e por lá continuou ju-
New York Times não será propriamente verno e da gestão disparatada do Governo nho adentro, quando o Brasil assumiu defi-
um panegírico ao engenho antipandémico de Boris Johnson, sobrevivente do vírus. nitivamente o indesejável segundo lugar no
Na Grécia, foram suspensas as restrições ranking mundial da covid-19, atrás apenas
Message: A Europa respira e desconfina, nacional…
O pior – março e abril – ficou para trás. para hotéis, cinemas ao ar livre, campos de dos Estados Unidos, onde ainda se encon-
Olhando para a tabela diária de novos infe- golfe e piscinas públicas. tra um quarto do número total de infetados
Portugal incluído, mesmo que Lisboa tados, um gráfico que, tal como o da curva e de vítimas mortais, apesar de só terem 4%
epidemiológica, todos aprendemos a ler, da população global. O mundo já se habi-
estrague o retrato de país-modelo no há um dia que salta à vista: a 10 de abril,
Portugal estabeleceu o seu recorde diário
DE NOVO A CRISE
Em Lisboa, António Costa foi ao parla-
tuou por esta altura a ver Jair Bolsonaro
e Donald Trump como idiotas de serviço,
mento admitir que os custos económicos mas a incompetência e a negação com que
combate à doença. Mas a pandemia de infetados pelo novo coronavírus: foram
1.516 novos casos, mais meio milhar do que e sociais provocados pela covid-19 “são enfrentaram a pandemia são obviamente
o dia imediatamente abaixo, 31 de março, absolutamente brutais” e diz que todos os criminosos.
acelera nos Estados Unidos, na América quando foram registados 1.035 novos casos. indicadores apontam para uma queda-“re-
corde” do Produto Interno Bruto (PIB) e
Nos EUA, o Partido Republicano, trans-
Depois disso, o País não voltou a transpor formado num incompreensível culto a Do-
do Sul, na Índia. Atinge os 10 milhões a barreira do milhar de novos casos diários,
embora o número de novas infeções nunca
uma subida “exponencial” do desemprego.
Os números e as estimativas sobre a queda
nald Trump, bem foi tentando desviar a res-
ponsabilidade da Casa Branca. Pelo menos
dois senadores norte-americanos acusaram
de infetados e o meio milhão de mortos. tivesse deixado de aumentar.
Maio trouxe a primeira fase do descon- a China de ocultar dados à OMS que pode-
finamento e a retoma, cautelosa, da ati- riam ter alterado o curso do surto de corona-
Não há volta a dar: para já, temos vidade económica. Reabriram as lojas de vírus numa altura em que, supostamente, já
partilhavam informação. A culpa de Pequim
mesmo de nos habituar a viver com no começo disto tudo é inegável, mas a res-
ponsabilidade dos números que fazem dos
Estados Unidos o triste campeão da pande-
o v í r u s . \ r\ n” , mia é toda de Trump e dos seus minions.

JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 173


COVID-19

Marcelo Rebelo de Sousa vem dizer que o O AU M E N TO SINAIS DO FUTURO


aumento da doença na região de Lisboa foi O controlo que não existe de todo nos Es-
particularmente forte nas áreas da constru- DO NÚMERO tados Unidos. O número de casos ultrapas-
ção civil e do trabalho temporário, mas des- sa os dois milhões, enquanto o número de
dramatiza e afirma que no resto do País há DE CASOS mortos atinge os 110.000. E o vírus regres- certeza de quando o México decide fechar
sinais de uma descida lenta. N A R E G I ÃO sa à casa de partida: a 12 de junho, a Chi- a fronteira com os Estados Unidos para im-
A descida, lenta ou não, não convence a na divulga o primeiro caso de transmissão pedir a passagem de americanos que fogem
D E L I S B OA

N
maior parte dos pais e mães portugueses: a local em semanas – um homem de 52 anos do congelamento certo. A fita é muito ante-
Federação Nacional de Professores divulga que disse que não deixava Pequim há mais rior a Trump, o homem que quer construir
um estudo segundo o qual menos de um JÁ N ÃO É de duas semanas e não contactara com nin- um muro para tapar o vizinho do Sul e que,
terço das crianças da educação pré-escolar NENHUM guém de fora da capital. O Governo chinês agora, vê os seus concidadãos – assim como
regressou ao jardim de infância. não quer voltar a facilitar e passa a realizar A 21 de junho, Espanha reabre as suas fron- os de Jair Bolsonaro no Brasil – impedidos
A 7 de junho, atinge-se globalmente mais MISTÉRIO testes em massa em Pequim. teiras para a maioria dos países europeus de entrar na União Europeia.
um valor redondo: o número global de mor- A 13 de junho, dia de Santo António, e também para a Grã-Bretanha, quando o Quatro meses depois – se elegermos
tos ultrapassa os 400.000, de acordo com um facto para a história: três meses após estado de emergência do coronavírus ter- março como o mês em que tudo se precipi-
a Universidade Johns Hopkins. Cerca de a primeira morte, todos os dias morreram mina. A reabertura da fronteira portuguesa tou – podemos acreditar, como diz o meme
30% desses casos, ou dois milhões de infe- pessoas com a doença. A Europa está, en- fica para 1 de julho, numa cerimónia ibéri- que nos foi forçado até ao enjoo, que vai
No Brasil, Jair Bolsonaro vale só por ele ções, estavam nos EUA. tretanto, em modo de reabertura. Várias ca ao mais alto nível, com Rei, Presidente tudo ficar bem? A verdade é que não, não
um tratado de – não tenhamos medo das Por cá, são publicados no Diário da Re- nações, incluindo França, Alemanha, Gré- e os dois primeiros-ministros. Já os portu- podemos. Nem em Portugal nem à escala
palavras – imbecilidade perante uma doen- pública cenários macroeconómicos do Go- cia e Suíça, voltam a abrir as suas fronteiras gueses estão proibidos de entrar, ou pelo global. A pandemia “não está nem perto
ça que, em apenas quatro meses, infetou 10 verno, que integram o PEES. O PIB deve para os cidadãos europeus. O mesmo não menos sujeitos a restrições de entrada, em de terminar”, disse no último dia de junho
milhões de pessoas e matou meio milhão cair 6,9%, a taxa de desemprego será de acontece na Ásia, onde Índia e Paquistão dez países europeus. Como a Dinamarca, o presidente da OMS. A vacina é ainda
em todo o planeta, números que, na reali- 9,6%, as exportações devem descer 15,4%. das restrições de desconfinamento a partir vivem o dia mais mortal da pandemia a 17 que anuncia que as fronteiras vão conti- uma miragem, o verão vai passar sem que
dade, devem pecar por defeito. A começar de dia 15 para a área de Lisboa, mantém até de junho, com mais de 2.000 e 140 mortes, nuar fechadas para cidadãos de Portugal, a primeira vaga tenha realmente passa-
pelo uso de máscara, que tanto o Presidente ao fim do mês a situação de calamidade e respetivamente. Um dia depois, a Indoné- e da Suécia, uma vez que ambos têm taxas do e, chegando ao outono/inverno, é bem
brasileiro como o seu modelo inspirador em CÁ E LÁ mantém encerradas as fronteiras terrestres sia regista 1.331 novas infeções por coro- de infeção superiores a 20 casos por 100 mil possível que a covid-19 se junte às gripes
Washington veem como coisa pouco más- No dia 8 de junho, é arremessada uma lança com Espanha até dia 30 de junho. Aprova navírus, o maior aumento diário desde o habitantes. e constipações e deixe os sistemas de saú-
cula e uma afronta política. Por isso mes- na Oceania: o Ministério da Saúde da Nova também o Orçamento Suplementar para início do surto, elevando o número total de de em estado de sítio. E, claro, a economia.
mo, não é de estranhar que, a 6 de junho, Zelândia diz que o país que fica nos nossos 2020, que entrega no mesmo dia no Parla- casos para 42.762. Portugal, dependente como está do turis-
quando o OMS reviu a sua posição sobre antípodas não tem mais nenhum caso ativo mento. A proposta reforça o orçamento do A realidade é que a pandemia está em ADEUS, TURISMO mo, vai sentir o embate e o sofrimento só
o uso de máscaras e recomendou que fos- de coronavírus. Três pontos para Jacinda SNS em 500 milhões de euros, um apoio fase de aceleração, como confirma o dire- É precisamente esta a história que marca os será anestesiado pelos remédios da União
sem utilizadas em locais lotados, mesmo ao Ardern, provavelmente a melhor chefe de máximo de 1.200 milhões de euros à TAP, e tor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghe- últimos dias de junho. Enquanto a Europa Europeia, isto se Ursula von der Leyen,
ar livre, Bolsonaro decidisse imitar o ídolo governo do planeta. Entretanto, a história suspende os artigos da Lei das Finanças das breyesus, afirmando que os 150 mil novos reabre, há uma guerra não declarada pelos Angela Merkel e Emmanuel Macron não
e ameaçar retirar o Brasil da organização, da pandemia continua a ser reescrita. A 9 Regiões Autónomas relativos ao equilíbrio casos registados a 18 de junho constituem o turistas que, em hordas ou em menor quan- perderem a vontade. l
acusando-a de ser “partidária” e “política”. de junho, um estudo da Harvard Medical orçamental e aos limites de endividamento número mais alto verificado num único dia. tidade – o tempo o dirá –, se preparam para
Do outro lado do mundo, outra nação gi- School sugere que o novo coronavírus já es- regional. Uma luz ao fundo do túnel, entretanto: ir de férias. E, de repente, Portugal, esse
gantesca enfrentava o embate da covid-19: tava a alastrar na China em agosto de 2019. Depois das polémicas do 25 de Abril e do um esteroide barato e amplamente uti- exemplo que mereceu todos os encómios em
a 5 de junho, a Índia registou um recorde O aumento do número de casos na re- 1º de Maio, o Dia de Portugal é assinala- lizado, a dexametasona, torna-se o pri- março e abril, vê-se ultrapassado pelos rivais
diário de novos casos, com mais de 9.800 gião de Lisboa já não é nenhum mistério. do no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, meiro medicamento encontrado capaz de mediterrânicos: Espanha, Itália e Grécia.
infeções. No fim do mês, a Índia era já o O desconfinamento progressivo pôs mais com apenas dois oradores e seis convidados. reduzir drasticamente o risco de morte O Governo ainda diz que os números es- O G OV E R N O
quarto país do mundo em número de infe- pessoas em circulação, principalmente nos Marcelo Rebelo de Sousa diz que é tempo por covid-19 mas, apesar do otimismo dos tão altos porque Portugal é dos países que AINDA DIZ QUE
tados e a um passo de ultrapassar a Rússia transportes públicos que ligam os conce- de Portugal acordar para a nova realidade cientistas e da OMS, falta ainda a essen- mais testes realizam, o que sendo verdade,
no último lugar do pódio maldito. lhos limítrofes da capital. Follow the money, resultante da pandemia e fazer as mudanças cial peer review que ditou o destino da hi- não conta a história toda: que o nosso país, OS NÚMEROS
ou seja, a atividade económica. Como esta- que se impõem, sem voltar às soluções do droxicloroquina, o remédio prescrito pelo com a região de Lisboa à frente, regista um
mos em semana de feriados – três, todos de passado. grande especialista Donald Trump: a OMS aumento nos casos positivos. E a realização E S TÃO A LT O S
MISTÉRIOS seguida, mesmo sem festas populares –, o Para os lisboetas não se deixarem cair na anuncia que os testes do medicamento, uti- dos jogos finais da Liga dos Campeões, a tal PORQUE
DE LISBOA Governo reúne-se mais cedo. Aprova o fim tentação dos Santos Populares, são anun- lizado contra a malária, em pacientes que que António Costa ofereceu como prémio
Chegada ao fim a primeira semana de ju- ciadas restrições de horário para restau- contraíram covid-19 foram interrompidos aos profissionais de saúde – a prova de que PORTUGAL
nho, um padrão começou a emergir em rantes, cafés e pastelarias. O medo que a após novos dados e estudos não mostrarem todos os políticos, mais cedo ou mais tarde,
Portugal: o número de casos teimava em capital saia para rua para festejar o Santo qualquer benefício. acabam por resvalar para o populismo fácil
É D O S PA Í S E S
não descer, registando mesmo ligeiros au- António leva a exageros securitários das –, de pouco servirão de consolo, já que não QUE MAIS
mentos que, ainda por cima, se concentra- autoridades, que mandam retirar enfeites serão jogados com público nas bancadas.
vam na região de Lisboa. Marta Temido, a das ruas como se fossem um feitiço capaz de No dia 28 de junho, a pandemia de co- TESTES
ministra da Saúde, admitia a subida do nú-
mero de casos positivos na Área Metropoli-
transformar os habitantes de Lisboa em pe-
rigosos foliões… Mas é inegável que há um
vid-19 ultrapassa uma nova fronteira, com
o número de mortos a chegar a 500 mil pes-
REALIZAM
tana de Lisboa, mas afastava a imposição de problema na região e, na véspera de Santo soas, enquanto o número de casos em todo
medidas mais restritivas. Ainda assim, con- António, o Sindicato Independente dos o mundo ultrapassa os 10 milhões. E por
tinuava suspensa a atividade não urgente Médicos diz que a falta de estratégia para a falar em fronteiras, um momento de supre-
em hospitais de Lisboa, Amadora, Sintra, região de Lisboa e Vale do Tejo está a amea- English ma ironia. Quem viu o filme-catástrofe O
Loures e Odivelas. çar o controlo da pandemia. version Dia Depois de Amanhã recordar-se-á com

174 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 175
CORPO
SHOPPING • GROOMING • SEXO

Des Olhos de
est cul p a t a s
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FOTOGRAFIA: KURT HUTTON / GETTY IMAGES; D.R.

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176 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 177
CORPO COSMÉTICA

perda transepidérmica de água (em inglês


usa-se a sigla TEWL). O gel é ainda rico em
vitaminas A, B, C, D e E e minerais como FORA
magnésio, potássio e zinco.
DA CAIXA

T
Historicamente, a planta é usada na me-
al como a moda, a beleza também dicina ayurvédica e os primeiros registos Baba de caracol É TUDO BANHA
se rege por tendências que po- datam de 16 a.C. no Papiro Ebers (antigo É, literalmente, o que o nome indica: secre- DA COBRA?
dem ir do design da embalagem Egito) e também faz parte da medicina tra- ções produzidas pelos caracóis, que servem Quando ouvimos falar de ingredientes
aos ingredientes que compõem dicional herbalista em muitos países. para que eles se movam e para que se colem estranhos lança-se o debate: funciona
o produto. No meio dessas tendências, há O uso tópico de aloé vera não tem regis- a superfícies. ou é banha da cobra? Mas que raio é
ingredientes que sobressaem: quer seja por- tos de efeitos colaterais significativos, mas O uso deste ingrediente na cosmética foi Canabidiol banha da cobra? Houve uma altura em
que, de facto, funcionam e surgem estudos os estudos também não apontam resultados descoberto nos anos 60 pelo médico espa- Apresenta-se nos rótulos como óleo ou ex- que a banha da cobra era, de facto, um
a comprová-lo ou porque são… estranhos. positivos extraordinários para além da hi- nhol Rafael Iglesias. O médico aplicou aos trato de CBD ou cânhamo e pode ser extraí- ingrediente da medicina ou da cosmética?
Só nos últimos anos, ouvimos falar dos dratação. Um estudo publicado em 1996 caracóis a terapia de radiação usada para do das várias plantas de canábis (Cannabis Sérum Perfectionist Pro, José Carlos Vilhena Mesquita, professor
€96, Estée Lauder.
benefícios milagrosos da baba de caracol, indicou que o uso de gel de aloé vera apre- eliminar células cancerígenas e verificou sativa, Cannabis indica e Cannabis rude- da Faculdade de Economia da Universidade
das propriedades milenares do aloé vera e sentou efeitos positivos no tratamento de que conseguia estimular a produção de ralis). Ao contrário do tetra-hidrocanabi- do Algarve, escreveu que a banha da cobra
das inovadoras qualidades do óleo de caná- psoríase em 0,5% dos pacientes. secreções e que, ao aplicar as secreções em nol (THC), o CBD não é psicoativo, mas é “tudo aquilo que sendo um simples
bis. Resta saber se se trata de uma patranha Já o uso da planta em suplementos die- humanos, também aceleravam a cicatriza- as suas propriedades anti-inflamatórias e placebo se difunde e propaga publicamente
ou se estes ingredientes incomuns têm mes- téticos e laxantes foi proibido nos EUA ção da pele. antiacne chamaram a atenção da indústria como algo comprovadamente eficaz,
mo lugar no rótulo dos produtos de beleza. pela Food and Drug Administration e no Nos anos 80, uma família chilena que ti- da cosmética – um estudo publicado em seguro, poderoso e miraculosamente
Brasil pela ANVISA, a não ser que os pro- nha um viveiro de caracóis reparou que a 2014 pelo Journal of Clinical Investigation infalível” e que o “vendedor de banha
dutos passem por um rigoroso processo de pele das suas mãos estava mais macia, que referiu que este extrato ajuda a diminuir a da cobra identifica alguém que
Sérum Black Tea,
produção, dado que a aloína, um composto as feridas cicatrizavam mais depressa e que produção de sebo, uma das causas da acne. é mentiroso, charlatão”.
€88, Fresh.
encontrado em algumas espécies de aloé, as cicatrizes eram menos visíveis. O filho Os especialistas têm concluído que o se- Mas se recuarmos até à origem do
pode ser tóxica. Tanto no uso tópico como mais velho da família, Fernando Bascunan, gredo do CDB está também na sua capa- ingrediente, iremos parar à antiguidade
quando ingerida, a possível toxicidade da começou a estudar os benefícios da baba de cidade antioxidante, reunindo vitaminas clássica. Em Roma, o fascínio pelo
planta diminui quando a aloína é removi- caracol e, 15 anos depois, fundou a primeira A, B, D e E. Os antioxidantes ajudam no exótico e o encanto pelo misticismo
da no processamento. O sumo de aloé vera marca de cosméticos a usar este ingrediente combate aos radicais livres, causadores de acabaria por se estender à medicina. Foi
também é comummente usado em produtos como base dos seus produtos. manchas, linhas e rugas. também na Roma antiga que se tornou
Aloé vera que pretendem apoiar o sistema digestivo, A baba de caracol é rica em ácido hialu- O surgimento da CBD nos cosméticos Esfoliante Sweet almond and comum ver curandeiros a vender poções,
É uma planta suculenta típica de climas mas não há provas científicas nem regula- rónico, ácido glicólico, glicoproteínas e veio também aliar-se à tendência da clean oatmeal, €28,99, Organic & Botanic. unguentos e xaropes a que mais tarde
tropicais e é conhecida pelas suas proprie- mentação que apoiem a teoria. peptídeos de cobre e, por isso, hidrata, es- beauty e da preferência por produtos na- dariam o nome de teriaga (que se define
dades calmantes, antitérmicas e anti-infla- timula a recuperação da pele e disfarça a turais e o ingrediente começou a surgir em como “mistura complexa de muitos
matórias. Provavelmente já se cruzou com aparência de rugas. rótulos que vão das marcas de nicho, como ingredientes que se supunha ser eficaz
alguns produtos com extrato de aloé vera e, Mais recentemente, a indústria cosméti- a Herb Essentials, às grandes corporações, contra muitas doenças e contra mordeduras
em muitos casos, esses produtos são after- ca da Coreia do Sul, famosa pelos avanços como Kiehl’s e The Body Shop (grupo de animais venenosos” no Dicionário
sun ou géis que servem para acalmar a pele tecnológicos e uso inovador de ingredien- L’Oréal) e Origins (grupo Estée Lauder). Priberam da Língua Portuguesa).
escaldada depois de um dia de praia. tes que a deixam no leme das tendências O Cult Beauty, site que dá conta das Ainda mais tarde, teriaga tornar-se-ia
O gel de aloé vera – quer seja extraído de beleza, começou a produzir cremes com tendências de beleza um pouco por todo Bálsamo de limpeza Bee sinónimo de banha da cobra.
manualmente da planta ou em fórmulas baba de caracol e, a partir de 2011, a ten- o mundo, apontou o CBD como a próxi- Venom, €75,45, Rodial. Segundo José Carlos Vilhena Mesquita
feitas em laboratório – protege a pele da dência começou a popularizar-se. No Japão, ma corrida ao ouro e a consultora Jefferies em A Banha da Cobra – Uma Patranha
por exemplo, é até possível ir a uma clínica projetou que, durante a próxima década, com História, a banha da cobra chegou
de estética e deixar que os pequenos gastró- os produtos à base de CBD vão originar mesmo a existir e a ganhar a fama de
podes se passeiem pelo seu rosto. uma faturação a rondar os 25 mil milhões ingrediente milagroso.
ESCOLHAS
de dólares. Como acontece com grande parte da
Quanto à eficácia do ingrediente, ainda história quando se recua tantos milhares de
não há certezas, mas a boa notícia é que Creme Skin Caviar, anos, não podemos ter certezas da origem
Se ficou curioso, nada como experimentar. os especialistas também não encontraram €402, La Prairie.
deste produto. Mas o professor escreve que
efeitos negativos no seu uso. Ou seja, se provavelmente terá vindo da Ásia Menor,
gosta de um produto com CBD pode usá-lo chegando a Roma com os mercadores
sem preocupações, mas os efeitos positivos turcos. Já na altura o segredo era a alma do
do produto podem ser do canabidiol ou de negócio e o conceito de rótulo e de lista de
qualquer outro ingrediente. Por exemplo, ingredientes não existia. No entanto, apesar
um óleo de CBD pode hidratar a pele ape- de esse ser o seu nome, não se sabe o que
nas por se tratar de um óleo e não necessa- era a banha da cobra, qual a composição
riamente por conter extrato de canábis. ● da banha da cobra nem se, de facto, banha
Tónico Aloé Máscara Hello, Creme Advanced Snail Essência facial Gel calmante Óleo facial Emerald, da cobra seria um dos ingredientes. Era,
Vera, €17,90, Calm, €29,45, Origins, 92 All in One Cream, Snail Bee, €28,80, Aloe 99%, €8,75, €43, Herbivore, em
no entanto, “um medicamento universal
Mario Badescu, em lookfantastic.pt €31,45, COSRX, Benton, em notino.pt Holika Holika, herbivorebotanicals.com
em sephora.pt em lookfantastic.pt em lookfantastic.pt. com sucesso contra a dor, a inflamação,
a intoxicação e a febre”.

178 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 179
men in grey.tif @ 16,7% (Layer 1, CMYK/8) CABELOS CORPO

M E N
Y
Já sabe que não vai ter assim tanto trabalho

E
com a manutenção e, quanto ao corte, tam-

R E
bém não há respostas mágicas. Pode optar

G
m teoria, sabemos que os cabe- por um corte curto e esperar que ele cres-

IN
los brancos chegam com a idade. ça num tom mais homogéneo ou assumir o
Mas também sabemos que essa look em que as raízes brancas se misturam
idade pode ser mais tarde ou mais com a sua cor natural.
s cedo e nem é raro conhecermos alguém Por fim, se achar que ainda não está na
s p r i meiro ns, que foi visitado pelo monstro sal e pimenta hora de se juntar aos cavaleiros prateados,
o é
. D e s cobriu mais, parab ge na casa dos 20. opte por uma coloração gloss – aqui o com-
a e r
u o di ntes d o Geo
Entre as dores nas costas, a visão menos promisso é baixo, a tinta sai gradualmente 1. Cabelo sem brilho
.
Chego brancos. A figuras com Day-Lewis nítida e o aumento de peso, até podemos com as lavagens sem manchar os fios bran- Depois da lavagem, para continuar o
s s l
cabelo se a ilustre ere e Danie boémia,
pensar nos cabelos brancos como o mal cos, comprando-lhe tempo para pensar no tratamento e devolver brilho e vitalidade
- G da menor do envelhecimento – e, sejamos
juntou y, Richard culpar a vi rtigo.
assunto. ● aos fios pode usar um condicionador
sinceros, ter cabelo branco quer dizer que leave-in em creme ou spray ou um sérum de
e e a
Cloon – e antes d –, leia este temos cabelo. tratamento.
s s
Depoi ica e o stres
O cabelo grisalho surge porque, com a
t idade, os melanócitos começam gradual- 2. Cabelo amarelado
a gené nha. mente a produzir menos melanina e, even- O FO L Í C U LO Os cabelos brancos têm tendência a ficar
a Salda D A Q U E S TÃ O
Por An tualmente, morrem. “Sem dúvida que os amarelados devido à oxidação, seja por
homens têm mais facilidade em lidar com os Há vários fatores que podem ser responsáveis causa do sol, seja porque não estamos a
cabelos brancos”, conta o hairstylist Cláudio pelas mudanças na cor do cabelo. Há, por usar os produtos certos. Para anular esses
Pacheco. Talvez porque não faltam exem- exemplo, ligações entre o pigmento capilar e tons indesejados, o segredo é usar champô
plos de cabelo grisalho bonito e bem cuida- a nutrição (sabia que a subnutrição extrema que tenha pigmento azul ou roxo.
do. E Cláudio ajuda a perceber como. “Os pode fazer com o que os cabelos fiquem
cuidados são basicamente os mesmos que os avermelhados?) e há também estudos que 3. Cabelo seco
dos outros cabelos (lavar, tratar e proteger), ligam as mudanças hormonais, particularmente Os cabelos brancos podem ter um aspeto
mas há produtos específicos para cabelos nos níveis de testosterona, progesterona e mais seco e opaco porque a ausência de
brancos: champôs e condicionadores com estrogénio, ao surgimento de cabelos brancos. melanina faz com que a fibra capilar não seja
pigmento azul/violeta que ajudam a con- O couro cabeludo, por exemplo, também capaz de produzir queratina suficiente para
trolar a oxidação do cabelo para que ele não se altera com a idade: os vasos sanguíneos se manter nutrida. Aposte na hidratação.
fique amarelo”, explica o especialista. que abastecem as raízes diminuem e,
consequentemente, fornecem menos nutrientes 4. Cabelo desnutrido
ao cabelo, podendo causar cabelos brancos. A Para além da ausência do pigmento, as
genética também tem a sua parte de influência, agressões da poluição, vento e sol podem
podendo ditar a quantidade, a localização e a deixar os cabelos quebradiços e sem vida.
idade em que os cabelos brancos começam a Para lhes devolver proteínas e aminoácidos,
surgir. E os cabelos brancos também não são use um condicionador ou uma máscara de
todos iguais nem todos igualmente claros, há hidratação intensa.
cabelos que têm a raiz mais escura ou manchas
mais claras e isto pode estar relacionado com
o estado nutricional e hormonal do sangue
na altura em que aquela parte do cabelo foi
produzida.

1. Condicionador leave-in N.º 202, €17,50,


Depot, em cidalia-cabeleireiros.com
2. Champô Serie Expert Silver, €11,45,
L’Oréal Professionnel, em lookfantastic.pt
3. Condicionador Resistance Therapiste,
€22,45, Kérastase, em lookfantastic.pt
4. Condicionador de manutenção No.5,
€30,45, Olaplex, em lookfantastic.pt 1 2 3 4

180 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 181
CORPO CUIDADOS

GUIA DE GROOMING
PARA O CORPO
Depilar aqui, aparar ali… Afinal qual é a melhor DICAS BÓNUS
Deixe as lâminas de lado
forma de abordar o grooming corporal se todas as As lâminas exigem toda uma rotina que
partes do corpo merecem atenção? Primeiro, tenha preferimos evitar: de trocar frequentemente
os aparelhos certos à mão (falaremos sobre eles as lâminas, ao duche quente para preparar a
pele, a carradas de creme de barbear, duche
mais à frente). Segundo, leia este artigo. pós-depilação. Para além disso, corre o risco
Por Adam Hurly. de cortes e, consequentemente, de infeções.
Por estas e por outras razões, um aparelho
A ZONA PÚBICA elétrico de grooming corporal é a melhor arma
Diga não à lâmina para uma rotina low-maintenance. Se o objetivo
Não ponha uma lâmina perto do seu material. a atingir for suavidade máxima e duradoura,
O PEITO Não ponha uma lâmina no seu material. Para ganhe coragem e opte pela cera.
Não rape os pelos púbicos, use um aparador ou creme
A não ser que se queira transformar numa depilatório. O aparador permite que apare os Não use a máquina de barbear
pedra-pomes para a sua cara metade, evite pelos como preferir: aparar num comprimento Queremos poupar tempo sem comprometer
usar uma lâmina no peito. Para além disso, vai curto e uniforme ou deixar zonas com mais pelo a higiene. Em vez de usar a mesma máquina
poupar-se a ter de depilar metade do corpo e outras com menos. para a cara e para as axilas, invista num segundo
todos os dias. aparelho que seja pensado e desenhado para
Cuidado com os genitais os pelos do corpo. Até porque há diferenças:
Para suavidade, use creme depilatório Afaste o creme depilatório. Não ponha creme as máquinas de barbear têm acessórios para
Se quiser atingir aquele look de nadador, depilatório no seu material. Não ponha um um aparar e desenhar detalhado da barba,
comece por usar creme depilatório para aparador diretamente no seu material (a pele enquanto os aparadores corporais são feitos
dissolver o pelo logo na raiz – isto vai desta zona é muito fina e pode ficar presa nas para deslizar melhor em zonas grandes,
permitir-lhe ganhar tempo antes de os pelos lâminas do aparador. OUCH!). Em vez disso, use como o peito, e permitem que escolha vários
começarem a crescer e vai fazer com que não uma cabeça de precisão (ou até um aparador comprimentos de pelo.
cresçam afiados e duros. Faça primeiro um teste nasal) para aparar pequenas áreas de cada
numa zona pequena para ver como a pele reage. vez. Reforçamos: não toque com o aparador Vá com calma
Se correr bem, avance. diretamente na pele. Pode sempre cortar mais se achar que ainda
AS COSTAS está longo. E apesar de isso acrescentar uns
Cera é o último recurso Use o aparador minutos à rotina, vai poupar-lhe dias (ou até
Vai doer e muitas vezes pode resultar em É a alternativa mais segura, dado que a lâmina ENTÃO E AS PERNAS semanas) de espera até que os pelos atinjam
borbulhas, mas para evitar a maioria dos pode originar a acne. Se for flexível, pode tentar E OS BRAÇOS? o comprimento ideal – e quando já estiver
problemas, visite um salão de estética e faça-o OS OMBROS dar conta da tarefa sozinho. Se não peça ajuda Nesta zona, a pele é muito menos irritável do familiarizado com a rotina até saberá de cor
alguns dias antes da data em que quer exibir o Aqui a opção é descartar as lâminas e apostar para aparar os pelos desta zona. Repita a cada que noutras partes do corpo e o pelo é bastante qual é o comprimento ideal de cada zona. Além
peito depilado (para que vermelhidão, irritação num aparador. Os ombros passam o dia dentro 15 dias. mais fino, por isso, pode usar o que preferir: disso, não tente apressar o processo ao esfregar
e sensibilidade tenham tempo de desaparecer). das T-shirts e, como a pele não respira, é aparador, lâmina, creme depilatório ou cera. o aparador na pele porque a pressão também
A melhor parte é que pode passar até seis suscetível a acne. Escolha a opção mais baixa do Experimente o creme depilatório. terá impacto no corte.
semanas sem se preocupar. aparador e depile contra o crescimento do pelo. Se quiser umas costas megamacias, creme
Repita uma vez por semana. depilatório ou cera são as melhores opções. Faça uma revisão final
Aparar é a melhor opção Depois da primeira passagem e de decidir qual
Se os pelinhos do peito não o incomodam ESCO LHAS GQ é o comprimento ideal, poderá ter deixado
e só quer controlar o comprimento, use um O PESCOÇO O RABO Aparador corporal ER-GK60, para trás algumas zonas – até porque há partes
aparador corporal. Manter o pelo curto mas Trate a parte da frente do pescoço como Completamente proibido rapar ou aparar. €78,79, Panasonic. do corpo em que não é fácil conseguir uma
Aparador corporal Bodygroom
flexível evita que acariciá-lo seja como passar a extensão do rosto. Independentemente do Será como ter dois pedaços de lixa a roçar um BG7025/15, €79,90, Philips. depilação uniforme. No fim, use uma cabeça de
mão num pedaço de lixa. comprimento da barba, é preciso ajudar a no outro devido à fricção dos movimentos e Aparador corporal Multigroom precisão para qualquer correção necessária. Se
defini-la aparando o pescoço. Tente desenhar vai deixar a pele sensível durante semanas até MGK3042, €49,90, Braun. for preciso, até pode usar um pente fino como
um U que ligue a parte de trás das orelhas e o pelo crescer… Se quiser mesmo remover Creme depilatório, €13,60, protetor: penteie os pelos contra o crescimento
Collistar Man.
passe dois dedos acima da maçã de adão. Pode tudo, use creme depilatório. Se for corajoso, para que eles fiquem levantados e corte-os com
Lâmina Classic Razor,
usar a máquina de barbear para esta tarefa. experimente a cera, mas procure ajuda de um €32, Edwin Jagger. a máquina. ●
Quanto à parte de trás, recomendamos que profissional – de certeza que as mulheres da sua
deixe a tarefa para o barbeiro. vida lhe poderão aconselhar uma esteticista. [Versão portuguesa editada para a GQ Portugal.]

182 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 183
SEXO CORPO

Você está cansado, com fome e francamen-


te irritadiço e acaba por dizer: “Posso só
ter cinco minutos para relaxar quando
chego a casa?” E imediatamente vê a exci-
tação a ser sugada dos olhos da sua parcei- mesmo que não queira fazer sexo nesse pre-
ra antes de ela se virar para o outro lado, ciso momento. Obviamente, o seu parceiro
completamente derrotada. Porra. Agora sabe disso pela lógica, mas o que você quer
magoou-a e tem de gastar tempo que po- é que ele se sinta desejado, pois acabou de
deria estar a usar numa lasanha congelada tereótipo injusto, mas pode fazer com que expressar o seu desejo por si. Se estiver com
a desculpar-se. ser recusada por um homem acarrete muito vontade, outro toque físico que não seja
Obviamente, embora compreensível, é mais carga emocional. Porém, mesmo nas sexo geralmente funciona bem – uma mas-
desagradável e às vezes doloroso ser rejeita- relações mais saudáveis e acesas, os impul- sagem nas costas, abraços ou uma sessão
do quando tenta iniciar sexo com o parcei- sos sexuais nem sempre coincidem e é por de beijos por exemplo. Se não estiver com
ro. Por outro lado, também não é bom estar isso que é crucial que os casais aprendam a vontade, pode alcançar o mesmo objetivo
no papel de quem rejeita. Você não a quer comunicar um “mmmmm, esta noite não, verbalmente. Sente-se e fale sobre o seu dia
dececionar ou deixá-la a sentir-se indeseja- querida” da maneira certa. com a ajuda de uma garrafa de vinho. Não
da. Na tentativa de evitar esses sentimen- A chave para dizer não sem que a sua é complicado: o seu parceiro quer-se conec-
tos desagradáveis, iniciar relações sexuais amada mergulhe numa espiral de insegu- tar consigo. Tente não ignorar essa parte.
geralmente torna-se um ato sobrecarrega- rança tem tudo a ver com a forma como a
do. Muitas pessoas temem que, se rejeita- rejeição acontece. Atenção é tudo; o que de-
rem sexo com muita frequência, o parceiro seja é, no fundo, deixar lentamente o ar sair Sugira outra coisa
nunca mais vá tentar, por isso talvez con- do balão sexual da sua parceira, em vez de o que tenha vontade de fazer.
cordem com sexo mesmo que não estejam furar de repente com uma agulha. Dizemos- Se estiver realmente de mau humor e não
muito no mood a fim de evitar uma dece- -lhe como fazer isso da melhor maneira. quiser ter absolutamente nada a ver com
ção. Estudos demonstram que fazer sexo o seu parceiro nesse momento, precisa de
para evitar problemas na relação prejudica uma alternativa. Pode, por exemplo, suge-
mais do que ajuda, especialmente em rela- Deixe 100% claro rir algo que o seu parceiro goste de fazer,
ções com sexo menos frequente. A solução? que não está com vontade. mas para fazerem noutra altura. “Desculpa,
Aprenda a rejeitar o seu parceiro de forma Primeiro que tudo, nunca precisará de um tenho a certeza que isto é desagradável,
a que nenhum dos dois fique a remoer sen- motivo para recusar sexo, da mesma forma mas eu preciso mesmo de um tempo sozi-
timentos negativos em relação ao outro o que não precisa de um motivo para não nho agora. Amo-te muito e espero que este
resto da noite. querer comer cereais ao pequeno-almoço. fim de semana possamos ___________.”
Existe, obviamente, uma diferença gigan- Se deseja apresentar uma razão, ótimo, Preencha o espaço em branco com algo que
tesca entre agradar-lhe a ideia de ter sexo, mas você não é nem se deve sentir obriga- os dois gostem de fazer, seja de cariz sexual

O A S U A mas ainda não estar completamente excita- do a tal. Também não precisa de mascarar ou não. Sugira aquilo que gostaria de fazer.

D
do, e simplesmente não querer ter sexo. a sua vontade; esta é a única pessoa com “Vamos aconchegar-nos no sofá e terminar

R Q U A N X O . ..
O sexo em que um ou ambos os parceiros quem tem um relacionamento sexual. Seja de ver o Ramy.”

A Z E R S E não têm vontade logo desde o início (mas honesto e claro. Não deixe espaço para a No entanto, também pode sugerir algo

O Q U E FR A Q U E R F A Z E
em que não se importam de brincar e de ver outra pessoa pensar que só quer ajuda para

ÃO
sexual, se quiser. Só porque não quer ter

O C Ê N onde é que isso vai dar) foi apelidado de entrar no clima, se, de facto, simplesmen- sexo com penetração aqui e agora não im-

PA R C E I EV
“sexo de manutenção”. Alguns casais pro- te não está no clima. Pode apenas começar pede necessariamente outras atividades
gramam este sexo de manutenção e outros com alguma versão de: “Hoje não estou adjacentes ao sexo. Talvez esteja só cansa-
‘tropeçam’ nele quando um deles preferiria com vontade.” do demais para dar o seu melhor. Ou talvez
ligeiramente acabar de ler o Long Bright Ri- saiba que não conseguirá envolver-se por-
ver, de Liz Moore, em vez de iniciar contac- que acabou de se masturbar. Seja qual for

É
to físico às 10h da noite. Numa quarta-feira. Reconheça e incentive o motivo, pode dizer exatamente o que tem
Como dizer atenciosamente uma experiência familiar para -se bastante desanimado – só quer ver The Muitas mulheres foram programadas para a intimidade do momento. vontade de fazer. “Não me apetece fazer
todos nós: a sua viagem de trans- Bachelor e reclamar com a personagem de acreditar que os homens heterossexuais Todos nós queremos ser desejados, espe- sexo agora, mas adoraria tomar um banho
“hoje não” sem que a sua portes até casa demorou mais de Hannah Ann, mas a sua parceira tem ou- querem os seus corpos 24 horas por dia, sete cialmente em termos sexuais. Parte daquilo quente contigo”, funciona perfeitamente.
amada mergulhe numa uma hora em vez dos 35 minutos tros planos. dias por semana, o que é obviamente um es- que é desagradável numa rejeição sexual
espiral de insegurança. habituais, o que não ajudou a acalmá-lo Ela faz olhinhos, esfrega as mãos em cima é que você não está apenas a ser rejeitado O que quer que faça, por favor, não seja
depois de o seu chefe ter gritado consigo de si e sussurra-lhe ao ouvido que esteve pela conexão física, mas também pela emo- aquele homem que olha para o telefone e
Por Sophia Benoit. sobre um erro que não foi da sua respon- com tesão o dia todo no trabalho a pensar cional. Um estudo mostrou que os efeitos murmura: “Hoje não, querida, talvez outro
Ilustração de Simon Abranowicz. sabilidade e que o obrigou a saltar o almo- no seu corpo e você sabe exatamente o que negativos de ser rejeitado por um parceiro dia”, enquanto a sua parceira faz um strip-
ço para o ajudar a resolver. Além disso, é se passa: ela quer fazer sexo. Naquele mo- duram mais do que os efeitos positivos de o tease. Esse tipo é o pior de todos. l
muito provável que tenha dado um mau mento. Esse tipo de avanço muito urgente seu parceiro dizer sim ao sexo. Por seu lado,
jeito ao ombro ontem durante o treino e do preciso-de-ti-agora seria normalmente – os parceiros que aceitavam ou rejeitavam
esteja a chocar uma gripe, mas ainda não isto é, em qualquer outro momento – mais sentiam-se bastante bem, provavelmente
consegue dizer com certeza. De qualquer que bem-vindo. Mas neste momento pare- por se sentirem desejados pela outra pessoa.
forma, chega a casa ao fim do dia a sentir- ce-se com algo que requer muito esforço. Informe o seu parceiro que o ama e deseja,

184 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 185
MOTORES
NOVIDADES • HISTÓRIA • DESIGN
RX: O LUXO
DO FUTURO
O SUV de bandeira da Lexus tem sido uma
verdadeira inspiração para os restantes
modelos do segmento da marca japonesa,
como são os casos do intermédio NX, lançado
em 2014, e do compacto UX, que chegou ao
mercado o ano passado. A 5.ª e mais recente
geração do Lexus RX 450h é uma autêntica
lição acerca das características que mais
tornam a marca distinta: design arrojado,
construção artesanal takumi em pormenores
de luxo e aplicação de avançadas tecnologias
em níveis cada vez mais altos de segurança,
desempenho, conforto e entretenimento
a bordo. Uma das principais novidades
da nova geração é a variante acrescentada
do “primeiro híbrido de luxo do mundo”,
o RX L, com sete lugares.

CONDUZIR EM GRANDE
Cada um à sua maneira, eis três grandes modelos acabados de chegar ao mercado.
Dimensões, qualidade, inovação, potência, design, tecnologia: descubra as características
que fazem de cada modelo um automóvel de eleição.
Por Diego Armés.

186 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 187
MOTORES NOVIDADES

PUBLISHED BY CONDÉ NAST A.P.C.  – consultar www.apc.fr. ACNE STUDIOS – con-


sultar www.acnestudios.com. ADIDAS – consultar www.
Chief Executive Officer Roger Lynch
adidas.pt. ALBERTA FERRETTI – consultar www.alberta-
Chief Operating Officer & President, International Wolfgang Blau
Global Chief Revenue Officer & President, U.S. Revenue Pamela Drucker Mann ferretti.com. ALEXANDER MCQUEEN – consultar www.
U.S. Artistic Director and Global Content Advisor Anna Wintour alexandermcqueen.com. BALENCIAGA  – ver Fashion
Chief of Staff Samantha Morgan Clinic.  www.balenciaga.com. BERLUTI  – consultar  www.
Chief Data Officer Karthic Bala berluti.com. BOTTEGA VENETA  – consultar  www.bot-
Chief Client Officer Jamie Jouning tegaveneta.com. BURBERRY – consultar www.burberry.
com. CARRERA – consultar www.carreraworld.com.
CONDÉ NAST ENTERTAINMENT
CELINE – consultar www.celine.com. CHRISTIAN LOU-
President Oren Katzeff BOUTIN – consultar www.christianlouboutin.com. CRIS-
Executive Vice President–Alternative Programming Joe LaBracio TOPH RUMPF – consultar @christoph_rumpf. DAVID
Executive Vice President–CNÉ Studios Al Edgington BECKHAM EYEWEAR – consultar www.davidbeckha-
Executive Vice President–General Manager of Operations Kathryn Friedrich meyewear.com. DIADORA – consultar  www.diadora.
com. DIOR MEN’S COLLECTION – ver Fátima Mendes e
Fashion Clinic ou consultar www.dior.com. DOCKERS  –
CHAIRMAN OF THE BOARD
Jonathan Newhouse consultar www.dockers.com. DOLCE & GABBANA – ver
Fashion Clinic, Fátima Mendes e Stivali ou consultar www.
dolcegabbana.com. DR. MARTENS – consultar  www.
WORLDWIDE EDITIONS drmartens.com. DRIES VAN NOTEN – consultar www.

EXTRAVAGÂNCIA DE VERÃO France: AD, AD Collector, Glamour, GQ, Vanity Fair, Vogue, Vogue Collections, Vogue Hommes
Germany: AD, Glamour, GQ, GQ Style, Vogue
driesvannoten.com. FENDI – consultar www.fendi.com.
FRED PERRY  – consultar  www.fredperry.com. GIVEN-
A Porsche fez questão de tentar animar o verão disponibilizando três modelos India: AD, Condé Nast Traveller, GQ, Vogue
CHY –  ver Fátima Mendes ou consultar www.givenchy.
Italy: AD, Condé Nast Traveller, Experienceis, Glamour, GQ, La Cucina Italiana,
variantes do 911 Targa. Depois dos Coupé e Cabriolet, chega o Targa de tração com. GUCCI – Lisboa: Av. da Liberdade 180. www.gucci.
Vanity Fair, Vogue, Wired
integral (Targa 4 e Targa 4S). A silhueta do 911 poucas alterações sofreu desde Japan: GQ, Rumor Me, Vogue, Vogue Girl, Vogue Wedding, Wired com. H&M – consultar www2.hm.com. HEARTCORE –
o lançamento em 1963. Quanto à potência do Targa 4, na versão simples, os 385 Mexico and Latin America: AD Mexico, Glamour Mexico, Lisboa: Rua do Loreto 37. HERMÈS – Lisboa: Largo do
cv permitem-lhe atingir os 289 km/h, indo dos 0 aos 100 km/h em 4,2 segundos; GQ Mexico and Latin America, Vogue Mexico and Latin America Chiado 9, 1200-108, ou consultar www.hermes.com.
Spain: AD, Condé Nast College Spain, Condé Nast Traveler, Glamour, HUBLOT – ver Boutique dos Relógios Plus. HVALA ILIJA –
a versão 4S, com 450 cv, chega aos 304 km/h e vai dos 0 aos 100 em 3,6 GQ, Vanity Fair, Vogue, Vogue Niños, Vogue Novias
segundos. Ambos estão equipados com uma caixa de oito velocidades consultar @hvala_ilija. JANA WIELAND – consultar www.
Taiwan: GQ, Interculture, Vogue
e um sistema de condução inteligente. United Kingdom: London: HQ, Condé Nast College of Fashion and Design,
janawieland.at. JACQUEMUS – consultar www.jacque-

SÉRIE 6 GT Vogue Business; Britain: Condé Nast Johansens,


Condé Nast Traveller, Glamour, GQ, GQ Style, House & Garden, LOVE, Tatler,
mus.com. JIL SANDER – consultar  www.jilsander.com.
JIMMY CHOO – consultar www.jimmychoo.com. KENZO
RENOVADO The World of Interiors, Vanity Fair, Vogue, Wired
United States: Allure, Architectural Digest, Ars Technica, basically, Bon Appétit,
– consultar www.kenzo.com. LACOSTE – consultar www.
lacoste.com. LANVIN – ver Fátima Mendes e Mrporter
O BMW Série 6 Gran Turismo, Clever, Condé Nast Traveler, epicurious,Glamour, GQ, GQ Style, healthy ish , HIVE, Pitchfork,
lançado em 2017, foi agora ou consultar www.lanvin.com. LOJA DAS MEIAS – Lis-
Self, Teen Vogue, them., The New Yorker, The Scene, Vanity Fair, Vogue, Wired
boa: Amoreiras Shopping Center. LOEWE – Lisboa: Av. da
retocado de modo a aproximar-se
Liberdade, 185; El Corte Inglés, Av. António Augusto de
da identidade atual dos restantes
PUBLISHED UNDER JOINT VENTURE Aguiar, 31.  www.loewe.com. LOUIS VUITTON  – Lisboa:
modelos da gama. Com chegada Brazil: Casa Vogue, Glamour, GQ, Vogue Av. da Liberdade, 190 A. www.louisvuitton.com. MAISON
prevista ao mercado português Russia: AD, Glamour, Glamour Style Book, GQ, GQ Style, Tatler, Vogue MARGIELA – ver Tem-Plate ou consultar www.maisonmar-
para este mês de julho, o série 6 giela.com. MASSIMO DUTTI – Lisboa: Av. da Liberdade
GT surgirá munido da tecnologia 193, 1250-096, ou consultar www.massimodutti.com.
PUBLISHED UNDER LICENSE OR COPYRIGHT COOPERATION
mild‑hybrid, que permite uma Australia: GQ, Vogue, Vogue Living
MANGO – consultar shop.mango.com. MONTBLANC  –
redução e emissões de CO2, além Bulgaria: Glamour Lisboa: Aeroporto, Al. das Comunidades Portuguesas. Av.
de ter algum efeito no desempenho China: AD, Condé Nast Center of Fashion & Design, Condé Nast Traveler, da Liberdade, 111; El Corte Inglés, Av. António Augusto de
do motor. Por fora e à vista, o que GQ, GQ Style, Vogue, Vogue Film, Vogue Me Aguiar, 31.  www.montblanc.com. Ver Torres Joalheiros.
Czech Republic and Slovakia: La Cucina Italiana, Vogue NIKE  – consultar  www.nike.com. OFF-WHITE  – consul-
sobressai neste BMW revisto e Germany: GQ Bar Berlin tar  www.off---white.com. PALOMO SPAIN – consultar
retocado é o “duplo rim”, a clássica Greece: Vogue
www.palomospain.com. PRADA – consultar www.prada.
grelha da marca da Baviera, que, Hong Kong: Vogue
Hungary: Glamour com. PRINGLE OF SCOTLAND – consultar www.prin-
à semelhança do que aconteceu glescotland.com. ROLEX – ver Torres Joalheiros ou con-
Iceland: Glamour
com a restante gama, ganha novas Korea: Allure, GQ, Vogue sultar www.rolex.com. SAINT LAURENT – ver Fashion Cli-
dimensões. Na traseira, os retoques Middle East: AD, Condé Nast Traveller, GQ, Vogue, Vogue Café Riyadh, Wired nic ou consultar www.ysl.com. SCHIAPARELLI – consultar
dão a impressão de sublinhar a Poland: Glamour, Vogue www.schiaparelli.com. STELLA MCCARTNEY – consultar
largura do carro. A BMW consegue Portugal: GQ, Vogue, Vogue Café Porto www.stellamccartney.com. TAG HEUER – ver Torres Joa-
Romania: Glamour
retocar o modelo sem mexer demais Russia: Tatler Club, Vogue Café Moscow
lheiros ou consultar www.tagheuer.com. TEZENIS – con-
no que já estava certo. Serbia: La Cucina Italiana sultar www.tezenis.com. TOD’S – Lisboa: Av. da Liberda-
South Africa: Glamour, Glamour Hair, GQ, GQ Style, House & Garden, House & Garden Gourmet de 196, 1250-147.  www.tods.com. TUDOR  – ver Torres
Thailand: GQ, Vogue Joalheiros ou consultar www.tudorwatch.com. UNIQLO
The Netherlands: Glamour, Vogue, Vogue Living, Vogue Man, Vogue The Book – consultar www.uniqlo.com. VALENTINO  – ver Fátima
Turkey: GQ, La Cucina Italiana, Vogue Mendes ou consultar www.valentino.com. VERSACE – Lis-
Ukraine: Vogue, Vogue Café Kiev
boa: Av. da Liberdade 238A. www.versace.com. VETE-
MENTS – ver Mr Porter, ou consultar www.vetementswe-
Condé Nast is a global media company producing premium content bsite.com. VIVIENNE WESTWOOD – consultar www.
with a footprint of more than 1 billion consumers in 31markets. viviennewestwood.com. Y-3  – consultar  www.store.y-3.
condenast.com com. WENDY JIM – consultar www.wendyjim.com.

188 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 189
CLÁSSICO MOTORES

O DROMEDÁRIO LEVE E FELIZ


O colorido e bem-disposto Méhari foi lan-
çado em 1968, aproveitando os chassis do

DE PLÁSTICO seu contemporâneo Citroën Dyane 6 – ou-


tro clássico que nos merece o maior respei-
to – e o motor do celebérrimo 2 Cavalos.
Estamos, portanto, perante um peso pluma
Méhari, o “dromedário rápido”, foi a designação que

H
– pesava uns incrivelmente leves 535 qui-
a francesa Citroën escolheu para um dos seus mais icónicos ouve uma época, um tempo los – e tinha um motor de 600 centímetros O PLÁSTICO
veículos. Este trepador de dunas, companheiro ideal para distante, em que chegar à praia cúbicos. Nos dias que correm, olhamos para o plásti-
num peculiar descapotável com Tudo neste carro era económico, sim- co com receio ou até com aversão, depois de
um verão cheio de sol, marcou mais do que uma geração. corpo de plástico ABS, usual- ples e engraçado. Concebido para ajudar termos passado duas décadas a olhar com
Por Diego Armés. mente cor de laranja, era uma coisa real- os cidadãos a gozar a vida, pode dizer-se desconfiança. Mas isso tem a ver com o exa-
mente cool de se fazer. O Citroën Méhari – que o Méhari teve um sucesso muito ra- gero de usos que, entretanto, fomos dando a
é dele que se trata –, que herdou o seu nome zoável, tendo chegado a vender quase 150 essa matéria infame. Nos tempos áureos do
dos dromedários méhari (uma palavra que, mil exemplares durante o seu (pelo menos Méhari, o plástico era muito menos utiliza-
em árabe, resulta da expressão que significa para nós) demasiado curto período de vida: do do que é hoje, e, na indústria automóvel,
“lesto” ou “ágil”) é um dos mais peculiares a marca francesa cessou o seu fabrico em a sua aplicação era praticamente residual.
veículos a ter cruzado as estradas. Dizia-se 1988, deixando um vazio no mercado até O material fibroso em que a carroçaria era
“o” ou “a”? Era um jipe ou um utilitário hoje por preencher. fabricada chama-se acrilonitrila butadieno
ligeiro? Ou seria um SUV cheio de graça estireno e foi desenvolvido cerca de 20 anos
e de criatividade? Era descapotável, isso antes do surgimento do Méhari. A resistên-
nunca deixou dúvidas – a sua cobertura cia do material e a facilidade com que era
era, aliás, completamente amovível: tirava- possível moldá-lo foram determinantes na
-se as correias e dobrava-se aquela mistura A legenda original da foto, de 1968, escolha da Citroën.
de lona e plástico do modo que fosse mais dizia o seguinte: “O novo Citroën
conveniente –, e permitia inclusivamente Méhari, destinado aos agricultores.” O SUCESSOR
baixar o para-brisas, de maneira a deixar os A tendência não é de agora: construtores
ocupantes completamente à mercê dos ele- populares pegam nos seus modelos mais
mentos, que é como quem diz “de cabelos icónicos (e geralmente económicos) que
ao vento, a sentir o vento no rosto”. tenham sido descontinuados algures num
tempo em que acalentavam o sonho da mo-
dernidade e reformulam-nos por completo,
deixando apenas algumas características
reconhecíveis do automóvel original. A Ci-
troën fez isso mesmo: lançou recentemente
o E-Méhari, um SUV descapotável total-
mente elétrico concebido a partir do C-4
que remete vagamente para o velhinho de
plástico. Porém, e por muito charmoso que
este novo seja, nunca terá o encanto do seu
antepassado. l

FOTOGRAFIA: KEYSTONE-FRANCE / GETTY IMAGES; D.R.


O MÉHARI
FOI LANÇADO
EM 1968,
A P R OV E I TA N D O
OS CHASSIS
DO SEU
Apresentação de mais uma versão CONTEMPORÂNEO
do novo Citroën Méhari, a 16 de maio
de 1968. Sublinhamos: de Maio de 68. C I T R O Ë N DYA N E 6
190 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020 JULHO / AGOSTO 2020 GQPORTUGAL.PT 191
ÚLTIMA HORA

ENNIO MORRICONE
POR DIEGO ARMÉS. FOTO DE ROBIN LITTLE.

1928–2020

O grande compositor e maestro italiano do cinema deixou-nos precisamente no dia em que fechamos esta edição. Com mais de meio
milhar de bandas sonoras assinadas (são 520 no total), Ennio Morricone tem uma das mais ricas e vastas obras musicais da Sétima Arte.
A trilogia western spaghetti de Sergio Leone Por Um Punhado de Dólares, Por Mais Alguns Dólares e O Bom, o Mau e o Vilão, juntamente
com outros filmes do mesmo género, tornaram-no célebre, mas a sua criação inclui A Missão, Cinema Paraíso, Os Intocáveis, Sacanas
Sem Lei e Os Oito Odiados, entre muitos outros dignos de referência. Os Oito Odiados valeu ao mestre Morricone, em 2016,
o tão merecido e constantemente adiado (foi nomeado cinco vezes antes de ganhar) Óscar de Melhor Banda Sonora – o adiamento
era de tal modo injusto que Morricone foi, entretanto, agraciado com um Óscar honorário em 2007. Despedimo-nos do génio sabendo
que um assobio insolente há de ecoar pela eternidade. l

192 GQPORTUGAL.PT JULHO / AGOSTO 2020


Estas riscas contam uma história.
Sobre um rebelde.
E um guerreiro.
E um encontro de vontades.
Apresentamos o Oris x
Momotaro.

Feito sem reservas.


Feito para a batalha urbana.

Oris x Momotaro