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24/7

capitalismo
tardio e os fins
do sono/
jonathan crary/
tradução joaquim toledo jr.
Para Suzanne
Ou então fazemos do dia um espantalho,
Do nosso mundo comum, pontas soltas e confusão
w. h. auden
Sou especialmente grato a Sebastian Budgen por seu apoio a esse
projeto e pelas sugestões valiosas ao longo de sua realização.
A oportunidade de testar partes deste trabalho em forma de
conferências foi de imensa ajuda para mim. Gostaria de agrade-
cer a Jorge Ribalta, Carles Guerra e ao Museu de Arte Contem-
porânea de Barcelona por me oferecerem o local onde apresentei
pela primeira vez parte do conteúdo deste livro. Agradeço tam-
bém a Ron Clark e aos participantes do Programa de Estudos In-
dependentes do museu Whitney por suas reações desafiadoras
aos meus seminários. Entre os que generosamente me convi-
daram para falar estão Hal Foster, Stefan Andriopoulos, Brian
Larkin, Lorenz Engell, Bernhard Siegert, Anne Bonney, David
Levi Strauss e Serge Guilbaut e os alunos do curso de belas-artes
da Universidade de British Columbia.
Agradeço também, por diversas formas de ajuda, a Stephanie
O’Rourke, Siddhartha Lokanandi, Alice Attie, Kent Jones, Molly
Nesbit, Harold Veeser, Chia-Ling Lee, Jesper Olsson, Ceciliz Grön-
berg e o falecido Lewis Cole. Devo a meus filhos Chris e Owen tudo
que me ensinaram. Este livro é para minha esposa Suzanne.
Q
uem já viveu na costa oeste da América do
Norte deve saber que todo ano centenas de
espécies de pássaros migram, em função das
estações, para o norte e para o sul, voando
por várias distâncias ao longo da plataforma
continental. Uma dessas espécies é o pardal de coroa branca.
Sua rota os leva do Alasca ao norte do México no outono,e de
volta ao norte na primavera. Diferente da maioria dos outros
pássaros, esse tipo de pardal tem uma capacidade bastante
incomum de permanecer acordado por até sete dias durante
as migrações. Esse comportamento sazonal lhes permite voar
e navegar durante a noite e procurar por alimento durante o
dia sem descansar. Nos últimos cinco anos, o Departamento
de Defesa dos Estados Unidos gastou quantias enormes de di-
nheiro para estudar essas criaturas. Com recursos do governo,
pesquisadores de diversas universidades, notadamente em
Madison, no estado de Wisconsin, têm investigado a atividade
cerebral dos pássaros durante esses longos períodos de vigília,
com a esperança de obter conhecimentos aplicáveis aos seres
humanos. O objetivo é descobrir como as pessoas poderiam fi-
car sem dormir e funcionar produtiva e eficientemente. O ob-
jetivo inicial é simplesmente a criação do soldado sem sono, e
o projeto de estudo dos pardais de coroa branca é apenas uma
pequena parte de um esforço militar mais amplo para obter do-
mínio ao menos parcial sobre o sono humano. Inspirados pela
divisão de pesquisas avançadas do Pentágono (Darpa), cientistas

Capítulo
estão conduzindo testes experimen-
tais de técnicas de privação de sono

um
em diversos laboratórios, incluindo
substâncias neuroquímicas, terapia
genética e estimulação magnética transcraniana. O objetivo entre homem e máquina. Simultaneamente, as Forças Arma-
de curto prazo é o desenvolvimento de métodos que permitam das têm financiado diversas outras áreas de pesquisas do cére-
a um combatente ficar sem dormir por pelo menos sete dias, bro, incluindo o desenvolvimento de uma droga contra o medo.
e, no longo prazo, duplicar esse período, preservando níveis Haverá ocasiões em que, por exemplo, drones armados com
altos de desempenho mental e físico. Formas existentes de in- mísseis não poderão ser usados e esquadrões da morte de sol-
duzir a insônia têm sido acompanhadas por déficits cognitivos dados resistentes ao sono e à prova de medo serão necessários
e psíquicos deletérios (a diminuição da atenção, por exemplo). para missões de duração indefinida. Como parte desses esfor-
Esse foi o caso do uso difundido de anfetaminas na maioria ços, a remoção de pardais de coroa branca dos ritmos sazonais
das guerras do século xx, e mais recentemente de medica- do meio ambiente da costa do Pacífico deve auxiliar o projeto de
mentos como o Provigil. A busca científica nesse caso não é imposição ao corpo humano de um modelo maquínico de dura-
por formas de estimular a vigília, mas de reduzir a necessidade ção e eficiência. A história mostra que inovações relacionadas
de sono do corpo. à guerra são inevitavelmente assimiladas na esfera social mais
Por mais de duas décadas, a lógica estratégica do planeja- ampla, e o soldado sem sono seria o precursor do trabalhador
mento militar dos Estados Unidos tem sido direcionada à remo- ou do consumidor sem sono. Produtos contra o sono, quando
ção do indivíduo vivo de muitas partes do circuito de comando, propagandeados agressivamente por empresas farmacêuticas,
controle e execução. Gastam-se incontáveis bilhões de dólares se tornariam primeiro uma opção de estilo de vida, e ao fim,
no desenvolvimento de sistemas de mira e assassinato robóti- para muitos, uma necessidade.
cos e de operação remota, com resultados desanimadoramente Mercados 24 / 7 e infraestrutura global para o trabalho e o
evidentes no Paquistão, no Afeganistão e em outros lugares. consumo contínuos existem há algum tempo, mas agora está
No entanto, apesar das reivindicações extravagantes por novos sendo criado um assunto que diz respeito a seres humanos para
paradigmas de material bélico e as referências constantes de fazê-los coincidir mais intensamente.
analistas militares ao agente humano enquanto “gargalo” dis-
funcional de operações avançadas de sistemas, a necessidade
militar de grandes contingentes humanos não vai diminuir No fim dos anos 1990, um consórcio espacial russo-europeu
no futuro próximo. A pesquisa sobre privação de sono deve ser anunciou seus planos de construir e colocar na órbita terrestre
entendida como parte de uma busca por soldados cujas capa- satélites que refletiriam a luz do Sol para a Terra. O esquema
cidades físicas se aproximarão cada vez mais das funcionalida- exigia uma corrente com vários satélites em órbitas sincroniza-
des de aparatos e redes não humanos. O complexo científico- das com a do Sol, a uma altitude de 1700 quilômetros, cada saté-
-militar tem se dedicado ao desenvolvimento de formas de lite equipado com refletores parabólicos retráteis feitos de
12 “cognição ampliada” que prometem aprimorar a interação um material finíssimo. Quando completamente abertos, 13
cada satélite-espelho, com duzentos metros de diâmetro, teria a do consumo global de energia. Seja como for, esse empreendi-
capacidade de iluminar uma área de 25 quilômetros quadrados mento, ao fim inviável, é um exemplo particular de um ima-
da Terra com uma luminosidade quase cem vezes maior do que ginário contemporâneo para o qual um estado de iluminação
a da Lua. O impulso inicial do projeto era fornecer iluminação permanente é inseparável da operação ininterrupta de troca e
para a exploração industrial e de recursos naturais em regiões circulação globais. Em seus excessos empresariais, o projeto é
remotas com longas noites polares na Sibéria e no leste da Rús- uma expressão hiperbólica de uma intolerância institucional a
sia, permitindo trabalho noite e dia ao ar livre. Mas o consór- tudo que obscureça ou impeça uma situação de visibilidade ins-
cio acabou expandindo seus planos para incluir a possibilidade trumentalizada e sem fim.
de fornecer iluminação noturna para regiões metropolitanas
inteiras. Calculando que poderiam ser reduzidos os custos de
energia da iluminação elétrica, o slogan da empresa era “luz do A privação de sono tem sido uma das formas de tortura sofri-
dia a noite toda”. A oposição ao projeto surgiu imediatamente das pelas vítimas de custódia extrajudicial e por outros presos
e de diversas direções. Astrônomos expressaram receio de que desde 2001. Os fatos envolvendo um detido em particular foram
houvesse consequências para a maior parte da observação es- amplamente divulgados, mas o tratamento que ele recebeu foi
pacial a partir da Terra. Cientistas e ambientalistas declararam semelhante ao destino de centenas de outros detidos cujos ca-
que haveria consequências fisiológicas prejudiciais tanto para os sos não são tão bem documentados. Mohammed al-Qahtani foi
animais quanto para os humanos, uma vez que a ausência de al- torturado de acordo com as especificações do que é agora conhe-
ternância regular entre dia e noite interromperia vários padrões cido como o Primeiro Plano de Interrogatório Especial do Pentá-
metabólicos, incluindo o do sono. Houve também protestos de gono, autorizado por Donald Rumsfeld. Al-Qahtani foi privado
grupos culturais e humanitários, que alegaram que o céu no- de sono pela maior parte do tempo durante dois meses, quando
turno é um bem comum ao qual toda a humanidade tem direito, foi submetido a sessões de interrogatório que chegavam a durar
e que desfrutar da escuridão da noite e observar as estrelas é um vinte horas. Ele ficou confinado em cubículos onde era impos-
direito humano básico que nenhuma empresa pode anular. No sível deitar, iluminados com lâmpadas de alta intensidade e
entanto, se é realmente um direito ou um privilégio, ele já está equipados com alto-falantes de onde saía música a todo volume.
sendo violado para mais da metade da população mundial em Essas prisões eram chamadas de Dark Sites [Locais Escuros] pela
cidades que estão continuamente envoltas em uma penumbra comunidade de inteligência das Forças Armadas, apesar de um
de poluição e iluminação de alta intensidade. Defensores do pro- dos locais em que Al-Qahtani esteve encarcerado ter como co-
jeto, todavia, afirmaram que tal tecnologia ajudaria a diminuir dinome Camp Bright Lights [Campo Luzes Brilhantes]. Não é,
o uso noturno de eletricidade e que a perda do céu noturno certamente, a primeira vez que a privação de sono é uti-
14 e sua escuridão seria um preço pequeno a pagar pela redução lizada por norte-americanos ou seus colaboradores. É um 15
equívoco, de certa maneira, destacar a técnica, porque, para entre outras. Pesquisas de opinião indicam que a maioria dos
Mohammed al-Qahtani e muitos outros, a privação de sono era norte-americanos aprova a tortura em algumas circunstân-
apenas parte de um programa maior de espancamentos, humi- cias. As discussões na grande imprensa rejeitam unanime-
lhações, reclusão prolongada e simulações de afogamento. Mui- mente a afirmação de que a privação de sono é tortura. Ao
tos desses “programas” para prisioneiros extrajudiciais eram contrário, é considerada uma forma de persuasão psicológica,
feitos sob medida por psicólogos de Equipes de Consultoria de aceitável para muitos tanto quanto a alimentação forçada de
Ciência do Comportamento a fim de explorar vulnerabilidades prisioneiros em greve de fome. Como relatou Jane Mayer em
emocionais e físicas individuais por eles identificadas. seu livro The Dark Side [O lado escuro], a privação de sono era
Aplica-se a privação de sono como tortura há muitos séculos, justificada cinicamente nos documentos do Pentágono pelo
mas seu uso sistemático coincide historicamente com a dispo- fato de que soldados da divisão de elite Seals da Marinha norte-
nibilidade de luz elétrica e a existência de meios de amplifica- -americana eram obrigados a participar de missões simuladas
ção continuada do som. Utilizada rotineiramente pela polícia nas quais passavam dois dias sem dormir.1 Vale lembrar que o
de Stálin nos anos 1930, a privação de sono era normalmente a tratamento dos assim chamados prisioneiros de “alto interesse”
parte inicial do que os torturadores da nkvd [Comissariado do em Guantánamo e em outros lugares combinava formas ex-
Povo para Assuntos Internos] chamavam de “esteira rolante” — plícitas de tortura com controle completo sobre a experiência
a sequência organizada de brutalidades, de violência gratuita, sensorial e perceptiva. Os detentos eram obrigados a viver em
que danifica irreparavelmente seres humanos. Ela induz à psi- celas permanentemente iluminadas, sem janelas, e a usar ven-
cose depois de um período relativamente curto, e após algumas das para os olhos e tampões para os ouvidos, que bloqueavam
semanas começa a causar danos neurológicos. Em experimen- a luz e o som sempre que eram conduzidos para fora de suas
tos, ratos morrem depois de três semanas de insônia. Ela con- celas, a fim de impedir qualquer consciência de dia ou noite ou
duz a um estado de extremo desamparo e submissão, em que a de qualquer estímulo que fornecesse pistas de seu paradeiro.
extração de informações relevantes da vítima é impossível, e no Esse regime de privação perceptiva muitas vezes se estende
qual ela confessará ou inventará qualquer coisa. A negação do ao contato diário entre prisioneiros e guardas, nos quais os
sono é uma desapropriação violenta do eu por forças externas, o últimos sempre estão inteiramente paramentados, de luvas
estilhaçamento calculado de um indivíduo. e capacete com visores espelhados de acrílico impedindo que
Os Estados Unidos estão, sem dúvida, envolvidos há tem- o prisioneiro tenha qualquer relação visual com um rosto ou
pos na prática de tortura, diretamente ou por meio de gover- 1  Jane Mayer,
mesmo com um pedaço de pele à mostra. São
nos fantoches, mas foi notável, no período pós-11 de Setembro, The Dark Side. técnicas e procedimentos pensados para indu-
Nova York:
a facilidade com que a prática foi recolocada sob a luz da Doubleday, 2008,
zir estados abjetos de submissão, e um dos
16 visibilidade pública como apenas mais uma controvérsia p. 206. níveis no qual isso ocorre é a fabricação de 17
um mundo que exclui radicalmente a possibilidade de cuidado, cionam 24 / 7 há décadas. Apenas recentemente a elaboração e a
atenção ou consolo. configuração da identidade pessoal e social foram reorganizadas
a fim de se adaptarem à operação ininterrupta de mercados, re-
des de informação e outros sistemas. Um ambiente 24 / 7 parece
Essa constelação específica de eventos recentes oferece um um mundo social, mas é na verdade um modelo não social de
ponto de vista prismático para algumas das diversas consequên- desempenho maquínico e uma interrupção da vida que não re-
cias da globalização neoliberal e de processos mais extensos da vela o custo humano exigido para sustentar sua eficácia. Deve
modernização ocidental. Não quero atribuir a esse conjunto um ser distinguido do que Lukács e outros no início do século xx
sentido explicativo especial; ao contrário, ele fornece um acesso identificaram como o tempo vazio e homogêneo da moderni-
provisório a alguns dos paradoxos do mundo-da-vida ininter- dade, o tempo do calendário ou linear dos países, do mercado
ruptamente em expansão do capitalismo do século xxi — para- financeiro ou da indústria, que excluíam toda esperança e proje-
doxos que são inseparáveis das mudanças nas configurações de tos individuais. O que é novo é o amplo abandono da pretensão
sono e vigília, luminosidade e escuridão, justiça e terror, e das de que o tempo possa estar acoplado a quaisquer tarefas de longo
formas de exposição, falta de proteção e vulnerabilidade. Pode- prazo, inclusive a fantasias de “progresso” ou desenvolvimento.
-se contestar que escolho fenômenos excepcionais ou extremos; Um mundo 24 / 7 iluminado e sem sombras é a miragem capita-
mesmo assim, não estão desligados do que são hoje trajetórias e lista final da pós-história, de um exorcismo da alteridade, que é
condições normativas em diversos outros lugares. Uma delas é a o motor de toda mudança histórica.
inscrição geral da vida humana na duração sem descanso, defi- 24 / 7 é um tempo de indiferença, contra o qual a fragilidade
nida por um princípio de funcionamento contínuo. É um tempo da vida humana é cada vez mais inadequada, e dentro do qual
que não passa mais, para além das horas do relógio. o sono não é necessário nem inevitável. Em relação ao traba-
Por trás do vazio da frase de efeito, 24 / 7 é uma redundân- lho, torna plausível, até normal, a ideia de trabalhar sem pausa,
cia estática que contradiz sua própria relação com as tessituras sem limites. Alinha-se com o inanimado, com o inerte ou com
rítmicas e periódicas da vida humana. Remete a um esquema o que não envelhece. Enquanto exortação publicitária, decreta
arbitrário e inflexível de uma semana de duração, subtraído do a disponibilidade absoluta e, consequentemente, o caráter in-
desdobramento de qualquer experiência variada ou cumulativa. cessante das carências e sua incitação, mas igualmente sua ma-
Dizer “24 / 365”, por exemplo, não é a mesma coisa, pois a ex- nutenção perpétua. A ausência de restrições ao consumo não é
pressão sugere, com certo preciosismo, uma temporalidade es- simplesmente temporal. Já passou a época em que a acumula-
tendida ao longo da qual algo pode de fato mudar, e ao longo da ção era, acima de tudo, de coisas. Agora nossos corpos e identi-
qual eventos inesperados podem ocorrer. Como indiquei dades assimilam uma superabundância de serviços, ima-
18 acima, muitas instituições no mundo desenvolvido fun- gens, procedimentos e produtos químicos em nível tóxico 19
e muitas vezes fatal. A sobrevivência individual a longo prazo é uma redução do patamar de oito horas da geração anterior e (por
sempre dispensável se a alternativa pode admitir, mesmo que incrível que pareça) de dez horas do começo do século xx. Em
indiretamente, a possibilidade de interlúdios sem compras ou meados do século xx, o conhecido provérbio de que “passamos
sua instigação. Da mesma forma, 24 / 7 é inseparável da catás- um terço de nossas vidas dormindo” parecia uma certeza axio-
trofe ambiental, dada a exigência de gasto permanente e des- mática, uma certeza que continua sendo minada. O sono é um
perdício sem fim para sua manutenção e a interrupção fatal dos lembrete ubíquo, mas ignorado, de uma pré-modernidade que
ciclos e estações dos quais depende a integridade ecológica. jamais foi completamente superada, do universo agrícola que
Em sua inutilidade profunda e passividade intrínseca, com as começou a desaparecer há quatrocentos anos. O escândalo do
perdas incalculáveis que causa ao tempo produtivo, à circulação e sono é o enraizamento em nossas vidas das oscilações rítmi-
ao consumo, o sono sempre estará a contrapelo das demandas de cas de luz solar e escuridão, atividade e descanso, de trabalho
um universo 24 / 7. A imensa parte de nossas vidas que passamos e recuperação, erradicadas ou neutralizadas em outros âmbitos.
dormindo, libertos de um atoleiro de carências simuladas, sub- O sono possui, claro, uma história densa, assim como tudo que
siste como uma das grandes afrontas humanas à voracidade do é supostamente natural. Jamais foi algo monolítico ou imutá-
capitalismo contemporâneo. O sono é uma interrupção sem con- vel, e ao longo de séculos e milênios assumiu diversas formas
cessões no roubo de nosso tempo pelo capitalismo. A maioria das e padrões. Nos anos 1930, Marcel Mauss incluiu tanto o sono
necessidades aparentemente irredutíveis da vida humana — fome, quanto a vigília em seu estudo de “técnicas corporais”, no qual
sede, desejo sexual e recentemente a necessidade de amizade — foi mostrou que comportamentos aparentemente instintivos eram
transformada em mercadoria ou investimento. O sono afirma a na verdade aprendidos de diversas maneiras por imitação ou
ideia de uma necessidade humana e de um intervalo de tempo educação. No entanto, ainda assim é possível supor que havia
que não pode ser colonizado nem submetido a um mecanismo características comuns do sono na enorme diversidade de socie-
monolítico de lucratividade, e desse modo permanece uma ano- dades agrárias pré-modernas.
malia incongruente e um local de crise no presente global. Ape- Em meados do século xvii, o sono se desligou da posição
sar de todas as pesquisas científicas, frustra e confunde qualquer estável que ocupara nas concepções aristotélicas e renascen-
estratégia para explorá-lo ou redefini-lo. A verdade chocante, in- tistas, hoje obsoletas. Sua incompatibilidade com noções mo-
concebível, é que nenhum valor pode ser extraído do sono. dernas de produtividade e racionalidade passou a ser notada,
Não surpreende que, em todo lugar, esteja em curso uma e Descartes, Hume e Locke foram apenas alguns dos filósofos
degradação do sono, dada a dimensão do que está economica- que desprezavam o sono por sua irrelevância para o funciona-
mente em jogo. Ao longo do século xx houve incursões regulares mento da mente e para a busca de conhecimento. O sono se
contra o tempo de sono — o adulto norte-americano médio desvalorizou em face do privilégio conferido à consciên-
20 dorme agora aproximadamente seis horas e meia por noite, cia e à vontade, a noções de utilidade, objetividade e ações 21
em interesse próprio. Para Locke, o sono era uma interrupção durante a noite para checar mensagens ou informações. Uma
lamentável, ainda que inevitável, das prioridades que Deus es- figura de linguagem recorrente e aparentemente inócua é o
tabeleceu para os seres humanos: serem industriosos e racio- “sleep mode”, inspirada nas máquinas. A ideia de um aparelho
nais. No primeiro parágrafo do Tratado da natureza humana de em modo de consumo reduzido e de prontidão transforma o
Hume, o sono é comparado à febre e à loucura como exemplos sentido mais amplo do sono em uma mera condição adiada ou
de obstáculos ao conhecimento. Em meados do século xix, a diminuída de operacionalidade e acesso. Ela supera a lógica do
relação assimétrica entre sono e vigília passou a ser caracteri- desligado / ligado, de maneira que nada está fundamentalmente
zada segundo modelos hierárquicos nos quais o sono era tra- “desligado” e não há nunca um estado real de repouso.
tado como uma regressão a um modo inferior e mais primitivo, O sono é uma afirmação irracional e intolerável de que pode
no qual a atividade cerebral supostamente superior e mais haver limites à compatibilidade de seres vivos com as forças
complexa era inibida. Schopenhauer é um dos raros pensado- supostamente irresistíveis da modernização. Um dos truísmos
res que viraram essa hierarquia contra si mesma e afirmaram conhecidos do pensamento crítico contemporâneo é que não
que apenas no sono pode-se encontrar “o verdadeiro cerne” da existem características naturais inalteráveis — nem mesmo a
existência humana. morte, segundo os que preveem que em breve estaremos todos
O status incerto do sono deve ser compreendido em relação transferindo os dados de nossas mentes para uma forma digital
à dinâmica particular da modernidade, que invalida qualquer de imortalidade. Acreditar que existam quaisquer traços essen-
organização da realidade em conceitos binários complementa- ciais que distinguem os seres vivos das máquinas é, dizem-nos
res. A força homogeneizadora do capitalismo é incompatível críticos célebres, ingênuo e delirante. Por que alguém protes-
com qualquer estrutura inerente de diferenciação: sagrado- taria, pode-se argumentar, se novas drogas nos permitissem
-profano, carnaval-dia de trabalho, natureza-cultura, máquina- trabalhar por cem horas seguidas? Períodos de sono mais flexí-
-organismo e assim por diante. Assim, tornam-se inaceitáveis veis e reduzidos não permitiriam maior liberdade pessoal e or-
quaisquer persistentes noções do sono como algo de certa forma ganização da própria vida de acordo com necessidades e desejos
“natural”. As pessoas continuarão a dormir, claro, e mesmo as individuais? Menos sono não permitiria mais oportunidades
megalópoles em expansão terão intervalos noturnos de relativo de “viver a vida ao máximo”? Alguém poderia contestar que os
sossego. No entanto, o sono é agora uma experiência desligada seres humanos foram feitos para dormir à noite, que os nossos
de ideias de necessidade e natureza. Ao contrário, e como tantas corpos estão alinhados com a rotação diária de nosso planeta
outras coisas, é tratado como uma função variável, mas contro- e que comportamentos que reagem às estações e à luz do Sol
lada, que só pode ser definida instrumental e fisiologicamente. existem na maioria dos organismos vivos. A resposta provavel-
Pesquisas recentes mostram que cresce exponencialmente mente seria: isso é uma bobagem “new age” perniciosa, ou
22 o número de pessoas que acordam uma ou mais vezes pior, uma nefasta ânsia heideggeriana por alguma conexão 23
com a Terra. No paradigma neoliberal globalista, dormir é, de forças que valorizam o indivíduo que está constantemente
acima de tudo, para os fracos. envolvido, operando, interagindo, comunicando, reagindo ou
No século xix, após os piores abusos no tratamento aos processando em algum meio telemático. Em regiões afluen-
trabalhadores ao longo da industrialização europeia, os ad- tes do planeta isso ocorreu, afirmam, em meio à dissolução da
ministradores das fábricas se deram conta de que seria mais maioria das fronteiras entre tempo privado e profissional, entre
lucrativo oferecer aos trabalhadores quantidades modestas de trabalho e consumo. Em seu paradigma conexionista, o maior
tempo de descanso a fim de torná-los produtores mais eficazes prêmio é conferido à atividade em si mesma, “estar sempre fa-
e sustentáveis no longo prazo, como mostrou Anson Rabinbach zendo algo, movimentar, mudar — é isso o que confere prestí-
em seu trabalho sobre a ciência da fadiga. Mas nas últimas dé- gio, em oposição à estabilidade, que é muitas vezes sinônimo
cadas do século xx e até o presente, com o colapso de formas de inação”.3 Esse modelo de atividade não é uma transformação
controladas ou mitigadas de capitalismo nos Estados Unidos e do paradigma anterior da ética do trabalho, mas um modelo de
na Europa, desapareceu a necessidade interna de repouso e re- normatividade completamente novo, que exige temporalidades
cuperação enquanto componentes do crescimento econômico e 24 / 7 para sua realização.
da lucratividade. O tempo para o descanso e a regeneração dos Para retornar brevemente ao projeto já mencionado: o
seres humanos é simplesmente caro demais para ser estrutural- plano de colocar na órbita terrestre enormes refletores de luz
mente possível no capitalismo contemporâneo. Teresa Brennan solar que eliminariam a escuridão da noite tem algo de absurdo,
cunhou o termo “biodesregulamentação” para descrever as dis- como a sobrevivência de um projeto de baixa intensidade tec-
crepâncias brutais entre o funcionamento temporal de merca- nológica, mecânico, saído dos livros de Júlio Verne ou da ficção
dos desregulamentados e as limitações físicas intrínsecas aos científica do começo do século xx. Na verdade, as primeiras
seres humanos obrigados a se conformar a essas demandas.2 tentativas de lançamento fracassaram — em uma ocasião, os
O declínio no valor de longo prazo do trabalho vivo não ofe- refletores não abriram corretamente, e em outra a presença
rece incentivo a que repouso ou saúde sejam prioridades econô- de nuvens densas sobre a cidade escolhida para o teste impediu
micas, como mostram os debates recentes a respeito de políticas uma demonstração convincente de seu potencial. Suas ambi-
de saúde. Existem agora pouquíssimos interlúdios significa- ções talvez pareçam relacionadas a um
3  Luc Boltanski e Ève
tivos na existência humana (com a exceção colossal do sono) Chiapello, The New
conjunto amplo de práticas panópticas
que não tenham sido permeados ou apropria- Spirit of Capitalism. desenvolvidas nos últimos duzentos anos.
dos pelo tempo de trabalho, pelo consumo ou 2 Globalization
Teresa Brennan,
and its
Londres: Verso, p. 155
[ed. bras.: O novo espí-
Isto é, remetem à importância da ilumi-
pelo marketing. Em sua análise do capita- Terrors: Daily Life in rito do capitalismo, trad. nação no modelo original do Panóptico
lismo contemporâneo, Luc Boltanski e the West. Londres:
Routledge, 2003,
Ivone C. Benedetti. São
Paulo: wmf Martins
de Jeremy Bentham, que propunha
24 Ève Chiapello apontaram para o leque pp. 19-22. Fontes, 2009, p. 193]. a inundação dos espaços com luzes a 25
fim de eliminar as sombras e criar condições de controle graças Blanchot, é tanto o próprio desastre quanto a consequência
à visibilidade completa. Mas por décadas outros tipos de satéli- do desastre, caracterizado pelo céu vazio, no qual não se vê ne-
tes realizaram, de maneiras muito mais sofisticadas, essas ope- nhuma estrela ou sinal, em que qualquer referência se perde e
rações de vigilância e coleta de informação. Um panopticismo nenhuma orientação é possível.5 Mais concretamente, é como
modernizado se expandiu muito além das ondas visíveis de luz, um estado de emergência, quando um conjunto de refletores é
em direção a outras regiões do espectro, para não mencionar repentinamente aceso no meio da noite, aparentemente como
os diversos tipos de escâneres não óticos e sensores térmicos resposta a circunstâncias extremas, mas que permanecem acesos,
e biológicos. O projeto do satélite deve ser visto talvez como a transformados em condição permanente. O planeta é repensado
perpetuação de práticas mais claramente utilitárias que tive- como um local de trabalho ininterrupto ou um shopping cen-
ram início no século xix. Em sua história da tecnologia de ilu- ter de escolhas, tarefas, seleções e digressões infinitas, aberto o
minação, Wolfgang Schivelbusch mostra como o amplo desen- tempo todo. A insônia é o estado no qual a produção, o consumo
volvimento da iluminação pública por volta da década de 1880 e o descarte ocorrem sem pausa, apressando a exaustão da vida e
atingiu dois objetivos inter-relacionados: reduziu ansiedades o esgotamento dos recursos.
antigas a respeito dos perigos associados à escuridão noturna e Último obstáculo — na verdade, a última das “barreiras natu­
expandiu a duração e, portanto, a lucratividade de muitas ativi- rais”, para usar a expressão de Marx — à completa realização
dades econômicas.4 A iluminação noturna foi uma demonstra- do capitalismo 24 / 7, o sono não pode ser eliminado. Mas pode
ção simbólica do que os defensores do capitalismo prometeram ser arruinado e despojado e, como meu exemplo inicial mostra,
ao longo de todo o século xix: seria a dupla garantia de segu- existem métodos e motivações para destruí-lo. O dano ao sono é
rança e de ampliação das possibilidades de prosperar, melho- inseparável do atual desmantelamento da proteção social em ou-
rando para todos, supostamente, o tecido da existência social. tras esferas. Assim como o acesso universal à água potável tem
Nesse sentido, o estabelecimento triunfal de um mundo 24 / 7 sido destruído pela poluição e pela privatização no mundo todo,
é uma realização daquele projeto anterior, mas com benefícios somadas à valorização comercial da água engarrafada, não é di-
e prosperidade que se acumulam principalmente em favor de fícil ver um processo similar de produção da escassez em relação
uma poderosa elite global. ao sono. As incursões contra ele criam as condições de insônia
24 / 7 mina paulatinamente as dis- nas quais o sono deve ser comprado (mesmo que paguemos por
tinções entre dia e noite, entre claro e 4  Wolfgang Schivelbusch, um estado quimicamente modificado que é apenas uma aproxi-
escuro, entre ação e repouso. É uma zona Disenchanted Night: The
Industrialization of Light 5  Maurice Blanchot, The
mação ao sono real). As estatísticas sobre
de insensibilidade, de amnésia, de tudo in the Nineteenth Century, Writing of the Disaster, o aumento do uso de barbitúricos mos-
que impede a possibilidade de ex- trad. Angela Davies.
Berkeley: California
trad. Ann Smock. Lincoln:
Nebraska University
tram que, em 2010, compostos como
26 periência. Parafraseando Maurice University Press, 1988. Press, 1955, pp. 48-50. Ambien ou Lunesta foram receitados 27
para cerca de 50 milhões de norte-americanos, e muitos outros tornar uma mera resignação diante da noite, diante do desastre.
milhões compraram outros tipos de produtos que induzem ao Não é nem público nem completamente privado. Para Lévinas, a
sono. Mas seria equivocado imaginar uma melhora nas condi- insônia sempre paira entre a introspecção e a despersonalização
ções atuais que permitiria às pessoas dormir profundamente e radical; não exclui o interesse pelo outro, mas não oferece uma
acordar refeitas. A essa altura, mesmo um mundo organizado noção clara de um espaço para sua presença. É onde enfrenta-
de maneira menos opressiva dificilmente eliminaria a insônia. A mos a quase impossibilidade de viver humanamente. A insônia
falta de sono assume seu sentido histórico e sua tessitura afetiva deve ser distinguida do fardo da vigília, com sua atenção quase
particular em relação às experiências coletivas externas a ele, e insuportável ao sofrimento e à enorme responsabilidade que
a insônia é hoje inseparável de muitas outras formas de desapro- ele impõe.
priação e ruína social em curso no mundo todo. Privação indivi- Um mundo 24 / 7 é desencantado, sem sombras nem obscu-
dual em nosso presente é parte de uma condição generalizada e ridade ou temporalidades alternativas. É um mundo idêntico a
mundial de perda. si mesmo, um mundo com o mais superficial dos passados, e
O filósofo Emmanuel Lévinas é um dos diversos pensadores por isso sem espectros. Mas a homogeneidade do presente é um
que tentaram compreender os sentidos da insônia no contexto efeito da luminosidade fraudulenta que pretende se estender
da história recente.6 A insônia, afirma, é uma forma de imagi- a tudo e se antecipar a todo mistério ou ao desconhecido. Um
nar a extrema dificuldade da responsabilidade individual face mundo 24 / 7 produz uma equivalência aparente entre o que
às catástrofes de nosso tempo. Parte do mundo modernizado está imediatamente disponível, acessível ou utilizável e o que real-
no qual vivemos é composta da visibilidade ubíqua da violência mente existe. O espectral é, de alguma maneira, a intrusão ou
inútil e do sofrimento humano que ela causa. Essa visibilidade, irrupção no presente por algo que está fora do tempo e pelos fan-
em todas as suas formas híbridas, é um clarão que desestabiliza tasmas do que não foi descartado pela modernidade, de vítimas
toda condescendência e impede a desa- 6  Sobre algumas das muitas que não serão esquecidas, da emancipação não realizada. As ro-
tenção regeneradora do sono. A insônia discussões de Lévinas sobre tinas 24 / 7 podem neutralizar ou absorver diversas experiências
insônia, ver Existence and
corresponde à necessidade de vigilân- aExistents, trad. A. Lingis.
de retorno desnorteadoras que poderiam virtualmente minar o
cia, à recusa de ignorar o horror e a Pittsburgh: Duquesne Uni- caráter substantivo, bem como a identidade do presente e sua
injustiça que assolam o mundo. É a in- versity Press, 2001 [ed. bras.:
Da existência ao existente,
aparente autossuficiência. Uma das abordagens mais premoni-
quietação do esforço de evitar ignorar o trad. Paul Albert Simon e tórias do lugar do espectral em um mundo iluminado, sem dia
sofrimento alheio. Mas essa inquietação Ligia Maria de Castro Simon.
Campinas: Papirus, 1998];
ou noite, é o filme Solaris, de Andrei Tarkóvski, de 1972. É a
é também a ineficácia frustrante de uma e Otherwise than Being or história de um grupo de cientistas em uma nave espacial que
ética da vigilância; o ato de testemu- Beyond Essence, trad. A. 
Lingis. Pittsburgh: Duques­ne
percorre a órbita de um planeta enigmático para verificar,
28 nhar e sua monotonia podem se University Press, 1998. em sua atividade, possíveis inconsistências em relação a 29
teorias científicas existentes. Para os habitantes do ambiente in- que, ainda que de maneira tímida, ofereciam salvaguarda ou
tensamente iluminado e artificial da estação espacial, a insônia proteção. A exploração desses problemas na obra de Hannah
é uma condição crônica. Nesse ambiente hostil ao descanso e ao Arendt é importante. Por muitos anos, ela usou imagens de luz
retiro, e no qual se leva uma vida exposta e externalizada, o con- e visibilidade em suas análises sobre o que era necessário para
trole cognitivo entra em colapso. Sob essas condições extremas, toda vida política digna do nome. Para um indivíduo ter rele-
os indivíduos são surpreendidos não apenas por alucinações, vância política, deve haver um equilíbrio, um movimento pen-
mas pela presença de fantasmas, chamados no filme de “visi- dular entre a exposição ofuscante, áspera, da atividade pública
tantes”. O empobrecimento sensorial do ambiente da estação es- e a esfera protegida, blindada, da vida doméstica ou privada, do
pacial e a perda do tempo diurno afrouxam os vínculos com um que ela chama de “treva da existência resguardada”. Em outro
presente estável, permitindo que o sonho, enquanto portador da momento ela se refere à “meia-luz que ilumina a nossa vida pri-
memória, seja realocado na vigília. Para Tarkóvski, essa proxi- vada e íntima”. Sem o espaço ou o tempo da privacidade, longe
midade do espectral e da força viva da rememoração possibilita da “luz implacável e crua da constante presença de outros no
ao indivíduo permanecer humano em um mundo desumano, e mundo público”, não se pode alimentar a singularidade do eu,
torna a privação de sono e a exposição pública suportáveis. Sur- um eu que pudesse fazer uma contribuição substancial para os
gido dos espaços tímidos de experimentalismo cultural dos anos debates a respeito do bem comum.
1970 na União Soviética, Solaris mostra que o reconhecimento e Para Arendt, a esfera privada devia ser distinguida da busca
a afirmação desses retornos fantasmagóricos, depois de repeti- individual de felicidade material na qual o eu é definido por suas
das negações e repressões, é um caminho em direção à possibili- aquisições e por aquilo que consome. Em A condição humana, ela
dade de liberdade e felicidade. desenvolveu esses dois conceitos em termos de um equilíbrio
Uma corrente da teoria política contemporânea afirma que a rítmico entre exaustão e regeneração: a exaustão que resulta do
exposição pública é uma característica constitutiva fundamen- trabalho ou da atividade no mundo e a regeneração que ocorre
tal, ou trans-histórica, do indivíduo. Antes de ser autônomo regularmente no interior de um ambiente doméstico acolhedor
ou autossuficiente, um indivíduo não pode ser entendido a não e protegido. Arendt sabia muito bem que seu modelo de relações
ser em relação ao que está fora dele, a uma alteridade que o en- mutuamente amparadas entre público e privado raramente ha-
frenta.7 Apenas nesse estado de vulnerabilidade pode haver uma via sido realizado ao longo da história. Mas ela via as possibilida-
abertura para as relações de dependência que des de tal balanço profundamente ameaçadas pela ascensão de
mantêm a sociedade. No entanto, vivemos 7 Jean-Luc Ver, por exemplo,
Nancy, The
uma economia na qual “todas as coisas devem ser devoradas e
em um momento histórico no qual essa con- Inoperative Commu- abandonadas quase tão rapidamente quanto surgem no mundo”,
dição nua de exposição foi desarticulada nity. Minneapolis:
Minnesota University
tornando impossível qualquer reconhecimento comparti-
30 de sua relação com formas comunais Press, 1991. lhado de interesses ou objetivos comuns. Escrevendo em 31
meio aos anos 1950 marcados pela Guerra Fria, ela teve a pers- caracterizam as pessoas como desprovidas de iniciativa, como
picácia de dizer: “se não passássemos realmente de membros de autômatos passivos à mercê da manipulação ou do controle de
uma sociedade de consumidores, já não mais num mundo, mas seu comportamento, são normalmente consideradas redutoras
simplesmente seríamos impelidos por um processo em cujos ci- ou irresponsáveis.
clos perenemente repetidos as coisas surgem e desaparecem”.8 Ao mesmo tempo, a maioria das noções de despertar polí-
Ela estava igualmente ciente de como a vida pública e a esfera de tico é considerada igualmente perturbadora, por sugerir um
trabalho eram experiências alienantes para a maioria das pessoas. processo de conversão repentino e irracional. Basta lembrar o
Existem muitas afirmações semelhantes e relacionadas, principal slogan eleitoral do partido nazista no começo da dé-
como “Deus nos proteja da visão única e do sono de Newton”, cada de 1930: “Deutschland Erwache!” — Despertai, Alemanha!
de William Blake, “sobre as nossas mais nobres faculdades se Mais remota historicamente é a epístola de são Paulo aos roma-
espalha um sonho repleto de pesadelos”, de Carlyle, e “o sono nos: “Tanto mais que sabeis em que tempo estamos vivendo: já
arrasta toda a nossa vida diante de nossos olhos”, de Emerson, chegou a hora de acordar [...] deixemos as obras das trevas e
até “o espetáculo expressa nada mais do que o desejo de sono vistamos a armadura da luz!”. Ou, mais recente e tediosamente,
da sociedade”, de Guy Debord. Seria fácil reunir centenas de o chamado das forças anti-Ceauscescu em 1989: “Despertai, ro-
outros exemplos dessa caracterização às avessas da parte des- menos, do sono profundo em que fostes colocados pelas mãos
perta da experiência social moderna. Imagens de uma socie- de um tirano”. Despertares políticos e religiosos são tratados
dade de adormecidos vêm da esquerda e da direita, da alta e da em termos perceptivos, como uma habilidade recém-adquirida
baixa cultura, e têm sido um elemento constante no cinema, de de ver, através de um véu, um estado verdadeiro das coisas, de
O gabinete do Dr. Caligari a Matrix. Essas evocações do sonam- discriminar um mundo invertido de outro que está na ordem
bulismo em massa têm em comum a associação de comporta- correta, ou de recuperar uma verdade perdida que se torna a
mentos rotineiros, habituais ou de quase transe, à debilitação negação daquela da qual despertamos. Perturbação epifânica da
ou redução das capacidades perceptivas. A maioria das teorias insipidez entorpecida da existência rotineira, despertar é recu-
sociológicas dominantes sugere que os indi- perar a autenticidade em oposição ao ócio entorpecido do sono.
víduos modernos vivem e agem, ao menos 8  Hannah Arendt, Nesse sentido, o despertar é uma forma de decisionismo: a ex-
intermitentemente, em estados que são en- The Human Condition.
Chicago: Chicago
periência de um momento redentor que parece interromper o
faticamente distintos do sono — estados de University Press, tempo histórico, no qual um indivíduo é submetido a um encon-
autoconsciência nos quais é possível avaliar 1958, p. 134 [ed. bras.:
A condição humana,
tro transformador com um futuro até então desconhecido. Mas
acontecimentos e informações como partici- trad. Roberto Raposo. toda essa categoria de imagens e metáforas não condiz mais com
pantes racionais e objetivos da vida pú- São Paulo: Forense
Universitária, 2010,
um sistema global que nunca dorme, como se para garantir
32 blica ou cívica. Quaisquer posições que p. 147]. que nenhum despertar potencialmente perturbador nunca 33
mais seja necessário ou relevante. Se algo sobrevive da icono- Um dos exemplos vívidos da insegurança do estado de na-
grafia do pôr e do nascer do sol, é em torno daquilo que Nietzs- tureza no Leviatã de Thomas Hobbes é a vulnerabilidade de um
che identificou como a demanda, formulada por Sócrates, por indivíduo adormecido diante dos inúmeros perigos e predado-
“uma permanente luz diurna da razão”.9 Mas desde os tempos de res que se deve temer a cada noite. Assim, uma obrigação ru-
Nietzsche tem havido uma transferência enorme e irreversível dimentar da comunidade é oferecer segurança para aquele que
da “razão” humana às operações 24 / 7 de redes de processamento dorme, não apenas contra perigos reais, mas — igualmente im-
de informação e à transmissão sem fim de luz por circuitos de portante — contra a ansiedade que geram. A proteção daquele
fibra ótica. que dorme pela comunidade ocorre no interior de uma recon-
Paradoxalmente, o sono é uma imagem para a subjetividade figuração maior da relação social entre segurança e sono. No
sobre a qual o poder é capaz de operar com a menor resistência início do século xvii, ainda se pode encontrar os resquícios de
política possível e uma condição que finalmente não pode ser uma hierarquia imaginada que distinguia as capacidades sobre-
instrumentalizada ou externamente controlada — que evade ou -humanas do senhor ou do soberano — cujos poderes oniscien-
frustra as demandas da sociedade de consumo global. Assim, não tes, ao menos simbolicamente, não sucumbiam às condições
é preciso lembrar que os muitos clichês do discurso social e cul- desabilitadoras do sono — dos instintos somáticos de homens e
tural dependem de um sentimento monolítico ou vazio do sono. mulheres trabalhadores. No entanto, em Henrique v, de Shakes-
Maurice Blanchot, Maurice Merleau-Ponty e Walter Benjamin peare, e Dom Quixote, encontramos tanto a formulação quanto
são apenas alguns dos pensadores do século xx que refletiram o esvaziamento desse modelo hierárquico. Para o rei Henrique,
sobre a profunda ambiguidade do sono e sobre a impossibilidade a distinção relevante não é apenas entre o sono e a vigília, mas
de encaixá-lo em qualquer esquema binário. Claramente, o sono entre uma vigilância perceptiva mantida ao longo da “noite to-
deve ser entendido em relação às distinções entre público e pri- talmente vigiada” e a sonolência profunda, bem como a “mente
vado, entre o individual e o coletivo, mas sempre levando em con- vazia”, do pequeno proprietário ou do camponês. Sancho Pança,
sideração sua permeabilidade e proximidade. Meu principal argu- de outro ponto de vista, divide o mundo entre aqueles que,
mento é que, no contexto de nosso próprio presente, o sono pode como ele próprio, nasceram para dormir e aqueles que, como
representar a durabilidade do social, e seu senhor, nasceram para vigiar. Em ambos os textos, ainda
que o sono pode ser análogo a outros li- 9 Twilight
Friedrich Nietzsche,
of the idols, trad.
que subsistam as obrigações associadas à posição na hierarquia,
miares nos quais a sociedade poderia de- R. J. Hollingdale. Londres: existe uma consciência paralela da obsolescência e da persistên-
fender ou proteger-se a si mesma. Como Penguin, 1968, p. 33 [ed.
bras.: Crepúsculo dos ídolos ou
cia meramente formal desse modelo paternalista de vigilância.
o estado mais privado e vulnerável de to- como se filosofa com o martelo, A obra de Hobbes é um indício importante de uma transfor-
dos, o sono depende crucialmente trad. Paulo César de Souza.
São Paulo: Companhia das
mação da garantia de segurança e das necessidades daque-
34 da sociedade para se sustentar. Letras, 2006, p. 22]. les que dormem. Novos tipos de perigo tomaram o lugar 35
daqueles que preocupavam Henrique e o senhor de Sancho Pança, há uma inversão do antigo modelo de proteção soberana: aqui,
e esses perigos são tratados em um acordo contratual não mais a vigilância inútil e a vigília aflitiva do agrimensor marcam sua
fundado em uma ordem natural de posições terrenas e celestes. inferioridade e irrelevância para os funcionários sonolentos da
As primeiras grandes repúblicas burguesas, assim como a comu- burocracia do castelo. “A construção”, uma história da redução
nidade imaginada por Hobbes, eram excludentes, pois existiam da existência humana à busca obsessiva e ansiosa de autopre-
para servir às necessidades das classes proprietárias. Assim, a servação, é um dos retratos mais lúgubres, em toda a literatura,
segurança oferecida àquele que dorme diz respeito não apenas à da vida como solidão, desligada de qualquer reciprocidade. É
segurança física ou corporal, mas à proteção de sua propriedade uma visão sombria da vida humana na ausência de comuni-
e de seus bens enquanto está dormindo. Ainda, a ameaça poten- dade ou sociedade civil, infinitamente distante das formas co-
cial ao sono pacífico da classe proprietária viria dos pobres e dos letivas de vida dos recém-criados kibutzim pelos quais Kafka se
indigentes, enquanto entre aqueles cujo sono cabia ao rei Henri- sentia tão atraído.
que zelar estavam incluídos os inferiores, até mesmo o “escravo A ausência completa de proteção ou segurança para aque-
infeliz”. A relação entre propriedade e o direito ou privilégio de les que mais precisam ficou terrivelmente evidente no desastre
um sono tranquilo tem suas origens no século xvii e permanece na fábrica de produtos químicos em Bhopal, na Índia, em 1984.
em vigor hoje nas cidades do século xxi. Os espaços públicos são Pouco depois da meia-noite de 1o. de dezembro, um vazamento de
agora totalmente planejados com o fim de impedir o sono, mui- gases altamente tóxicos de um tanque de armazenamento pre-
tas vezes incluindo — com uma crueldade própria — o formato cariamente mantido matou dezenas de milhares de moradores
serrilhado de bancos e outras superfícies acima do chão que im- da região — a maior parte deles dormia no momento do acidente.
pedem que um corpo humano se deite sobre eles. O fenômeno Outros milhares de pessoas morreram nas semanas e meses se-
disseminado, mas socialmente ignorado, dos sem-teto urbanos é guintes, e houve um número ainda maior de feridos ou inválidos
sinal de inúmeras privações, mas poucas são mais agudas do que para toda a vida. O desastre de Bhopal é até hoje a revelação defini-
os riscos e inseguranças do sono desabrigado. tiva do desacordo entre a globalização corporativa e a possibilidade
Em um sentido mais amplo, no entanto, o contrato que de segurança e sustentabilidade para as comunidades humanas.
pretendia oferecer proteção a qualquer pessoa, proprietária ou Nas décadas seguintes, a insistente negação de responsabilidade
não, foi quebrado há muito tempo. Na obra de Kafka encontra- ou de justiça em relação às vítimas pela empresa Union Carbide
mos a ubiquidade das condições que Arendt identificou como a confirma que o próprio desastre não pode ser tratado como um
ausência de espaços ou tempos nos quais pode haver repouso e acidente e que, no contexto das operações corporativas, as vítimas
regeneração. O castelo, “A construção” e outros textos trazem à eram inerentemente supérfluas. Certamente, as consequências
tona a insônia e a vigilância obrigatória que acompanham do incidente teriam sido igualmente horríveis se ele tivesse
36 as formas modernas de isolamento e alienação. Em O castelo ocorrido durante o dia, mas o fato de ter acontecido à noite 37
24/7
ressalta a vulnerabilidade sem par da pessoa adormecida em um anuncia um tempo sem tempo,
mundo do qual desapareceram ou foram enfraquecidas antigas um tempo sem demarcação
garantias sociais. Diversos pressupostos fundamentais a respeito material ou identificável, um
da coesão das relações sociais se aglutinam em torno da questão do tempo sem sequência nem
sono — na reciprocidade entre vulnerabilidade e confiança, entre recorrência. Implacavelmente redutor, celebra a alucinação da
exposição e proteção. É crucial a dependência da guarda de outros presença, de uma permanência inalterável composta de opera-
para a despreocupação revigorante do sono, para um intervalo pe- ções incessantes e automáticas. Pertence ao momento posterior
riódico no qual se está livre de temores, e para um esquecimento à transformação da vida comum em objeto da técnica. Também
temporário “do mal”.10 À medida que a corrosão do sono se inten- repercute indireta, mas poderosamente, como uma intimação,
sifica, pode ficar mais claro como a solicitude que é essencial para como o que alguns teóricos chamam de “palavra de ordem”.
aquele que dorme não é qualitativamente diferente da proteção Para Deleuze e Guattari, a mot d’ordre é um comando, uma ins-
que é exigida por formas mais imediatamente óbvias e agudas de trumentalização da linguagem que tem como objetivo preservar
sofrimento social. ou criar a realidade social, e cujo efeito, ao fim, é gerar medo.1
Slogan imaterial e abstrato, a implacabilidade 24 / 7 repousa, no
entanto, em sua temporalidade impossível. É sempre uma con-
denação e depreciação da fraqueza e da inadequação do tempo
humano, com suas tessituras confusas, irregulares. Apaga a
relevância e o valor de todo intervalo ou variação. Ao anunciar
a conveniência do acesso perpétuo, disfarça sua anulação da pe-
riodicidade que deu forma à vida da maioria das culturas por
1  Gilles Deleuze e
milênios: o ritmo diário de acordar e dormir
Félix Guattari, e as alternâncias mais longas entre dias de
A Thousand Plateaus,
10  Roland Barthes, trad. Brian Massumi.
trabalho e dias de devoção ou descanso, que
The Neutral, trad. Minneapolis: para os habitantes da Mesopotâmia, hebreus
Rosalind E. Krauss e Minnesota Univer-
Denis Hollier. Nova sity Press, 1987,
antigos e outros resultou em uma semana
York: Columbia pp. 107-09 [ed. bras.: de sete dias. Em outras culturas antigas, em
University Press, Mil platôs: Capitalismo

Capítulo
2005, p. 37 [ed. bras.: e esquizofrenia, trad.
Roma e no Egito,
O neutro, trad. Ivone Aurélio Guerra Neto havia semanas de
Castilho Benedetti. e Célia Pinto Costa.

dois
São Paulo: Martins, São Paulo: Editora 34,
oito e dez dias orga-
38 2003, p. 82]. 1995, pp. 58-60]. nizadas em função
dos dias de mercado e das fases da lua. O fim de semana é o re- dispositivos e aparelhos têm impacto em formas de sociabili-
síduo moderno desses sistemas antigos, mas até essa marca de dade de pequena escala (refeições, conversas ou salas de aula)
distinção temporal é erodida pela imposição da homogeneidade talvez tenham se tornado lugares-comuns, mas o dano cumula-
24 / 7. É claro que essas distinções anteriores (os dias da semana, tivo é, ainda assim, considerável. Habitamos um mundo onde a
feriados, descansos sazonais) persistem, mas seu sentido e legi- ideia de experiência compartilhada atrofiou e onde as gratifica-
bilidade estão sendo removidos pela indistinção monótona 24 / 7. ções ou recompensas prometidas pelas opções tecnológicas mais
Se 24 / 7 pode ser provisoriamente caracterizado como uma recentes, por sua vez, jamais são alcançadas. Apesar das decla-
palavra de ordem, sua força não vem de sua exigência por obe- rações onipresentes da compatibilidade, ou mesmo harmonia,
diência real e por conformidade com sua natureza apodítica. Na entre o tempo humano e as temporalidades dos sistemas em
verdade, a eficácia 24 / 7 está na incompatibilidade que desvela, rede, disjunções, fraturas e desequilíbrio contínuo compõem a
na discrepância entre um mundo-da-vida humano e a evocação experiência real dessas relações.
de um universo aceso e sem interruptores. É claro que ninguém Deleuze e Guattari comparam a palavra de ordem a uma
pode fazer compras, jogar games, trabalhar, escrever em seu “sentença de morte”. Histórica e retoricamente, a comparação
blog, fazer downloads ou enviar mensagens de texto 24 / 7. No talvez esclareça seu sentido original, mas um juízo assim enun-
entanto, uma vez que não existe momento, lugar ou situação no ciado continua a operar dentro de um sistema no qual o poder
qual não podemos fazer compras, consumir ou explorar recur- é exercido sobre corpos. Eles também notam que a palavra de
sos em rede, o não tempo de 24 / 7 se insinua incessantemente ordem é simultaneamente um “grito de alerta [e] um chamado
em todos os aspectos da vida social e pessoal. Já não existem, por à fuga”. A dupla face 24 / 7 anuncia sua absoluta incompati-
exemplo, circunstâncias que não podem ser gravadas ou arqui- bilidade com a vida. 24 / 7 não apenas incita no indivíduo um
vadas na forma de imagens ou informações digitais. A promo- foco exclusivo em adquirir, ter, ganhar, desejar ardentemente,
ção e adoção de tecnologias wireless, que aniquilam a singula- desperdiçar e menosprezar, mas está totalmente entremeado
ridade dos lugares e dos acontecimentos, é simplesmente um a mecanismos de controle que tornam supérfluo e impotente
efeito colateral de novas exigências institucionais. A espoliação o sujeito de suas demandas. A transformação do indivíduo em
das tessituras complexas e das indeterminações da vida humana objeto de escrutínio e regulação ininterruptos é uma constante
por 24 / 7 incita, simultaneamente, uma identificação insusten- essencial da organização do terror estatal, bem como do para-
tável e autodestrutiva com suas exigências fantasmagóricas; so- digma militar-policial da dominância total.
licita um investimento sem prazo, mas sempre incompleto, nos Para dar um de muitos exemplos possíveis, a ampliação do
diversos produtos que facilitam essa identificação. Não elimina uso de mísseis drones não tripulados é possível graças a um sis-
experiências externas a ele ou independentes dele, mas tema de coleta de informações que a Aeronáutica norte-
40 as empobrece e diminui. Os exemplos de como o uso de -americana chama de Operação Olhar de Górgona. É um 41
conjunto de recursos de vigilância e de análise de dados que “vê” com um campo onipresente de operações e expectativas ao qual
24 / 7 sem pestanejar, indiferente ao dia, à noite ou ao clima, e estamos expostos e nos quais a atividade ótica individual é trans-
que é letalmente alheio à especificidade dos seres vivos que são formada em objeto de observação e administração. No interior
seus alvos. O terror 24 / 7 é evidente não apenas nos ataques de desse campo, a contingência e a variabilidade do mundo visível
drones, mas também nas incursões noturnas de Forças Especiais, não são mais acessíveis. As mudanças recentes mais importan-
a princípio no Iraque e agora no Afeganistão e em outros luga- tes estão relacionadas não às formas mecanizadas de visualização,
res. Dotados das informações logísticas fornecidas pelo sistema mas à desintegração da capacidade humana de ver, em especial
de satélites do Olhar de Górgona, equipados com aparelhos de da habilidade de associar identificação visual a avaliações éticas
visão noturna sofisticados e aparecendo sem aviso prévio em he- e sociais. Com um menu infinito e perpetuamente disponível de
licópteros furtivos e silenciosos, equipes dos Estados Unidos rea- solicitações e atrações, 24 / 7 incapacita a visão por meio de pro-
lizam ataques noturnos em vilas e assentamentos com o objetivo cessos de homogeneização, redundância e aceleração. Apesar de
assumido de assassinato seletivo. Tanto os drones quanto as in- afirmações em contrário, assistimos à diminuição das capacida-
cursões noturnas despertaram reações furiosas fora do comum des mentais e perceptivas em vez de sua expansão e modulação. A
entre a população afegã, não apenas por suas consequências ho- situação hoje é comparável ao clarão típico da iluminação de alta
micidas, mas também pelo aniquilamento calculado da própria intensidade ou à névoa cerrada, nos quais não há variações tonais
noite. No contexto das culturas tribais do Afeganistão, a destrui- suficientes que permitam fazer distinções perceptivas e nos orien-
ção do intervalo comunitariamente compartilhado de sono e res- tarmos em função de temporalidades compartilhadas. O clarão,
tauração, e a imposição, em seu lugar, de um estado permanente nesse caso, não é o brilho literal, mas a aspereza ininterrupta do
e inescapável de medo, é parte dos objetivos estratégicos mais estímulo monótono, no qual uma ampla gama de capacidades re-
gerais. É uma aplicação paralela, em uma população maior, das ceptivas é congelada ou neutralizada.
técnicas psicológicas empregadas em Abu Ghraib e em Guantá- Em Elogio do amor (2001), de Jean-Luc Godard, uma voz em
namo, que, com formas mecanizadas de terror, abusam da vul- off pergunta: “Quando o olhar entrou em crise?” (“Quand est-ce-
nerabilidade do sono e dos padrões sociais que os mantêm. -que le regard a basculé?”), e procura uma resposta possível com
Ainda que eu tenha oferecido diversas caracterizações 24 / 7 a outra questão: “Terá sido dez, quinze ou mesmo cinquenta anos
partir de imagens de uma iluminação perpétua, vale insistir que atrás, antes da televisão?”. Não há resposta à vista, uma vez que
a utilidade dessas imagens é limitada se entendidas literalmente; nesse e em outros filmes recentes Godard deixa claro que a crise
24 / 7 denota a destruição do dia tanto quanto diz respeito à ex- do observador e da imagem é cumulativa, com raízes históri-
tinção da escuridão e da obscuridade. Por devastar toda condi- cas sobrepostas, desvinculadas de quaisquer tecnologias espe-
ção de luminosidade exceto as funcionais, 24 / 7 é parte de cíficas. Elogio do amor é uma meditação de Godard sobre
42 uma imensa incapacitação da experiência visual. Coincide memória, resistência e responsabilidade intergeracional, 43
e no filme o diretor deixa claro que algo fundamental mudou sem precedentes é acompanhada pela comparação insistente com,
na maneira como vemos, ou deixamos de ver, o mundo. Parte por exemplo, “a era de Gutenberg” ou “a Revolução Industrial”.
desse fracasso, sugere, brota de uma relação problemática com Em outras palavras, as descrições dessa ruptura afirmam simul-
o passado e com a memória. Estamos imersos em imagens e taneamente uma continuidade com padrões e sequências mais
informações a respeito do passado e suas catástrofes recentes — amplos de mudança tecnológica e inovação.
mas também somos cada vez menos capazes de lidar com esses A ideia de que estamos em meio a uma fase de transição,
vestígios, de forma que nos permitiria superá-los em nome de passando de uma “era” a outra, e apenas no começo da nova,
um futuro compartilhado. Em meio à amnésia coletiva insti- é frequentemente repetida. Isso pressupõe um interlúdio in-
gada pela cultura do capitalismo global, as imagens se tornaram certo de adaptações sociais e subjetivas que podem se estender
um dos muitos elementos esvaziados e descartáveis que, por por uma ou duas gerações, antes que uma nova era de relativa
serem arquiváveis, não são jamais jogados fora, contribuindo estabilidade se firme. Uma das consequências de representar a
para um presente cada vez mais congelado e sem futuro. Às ve- contemporaneidade global como uma nova era tecnológica é a
zes, Godard parece ter esperança na possibilidade de imagens aparente inevitabilidade histórica atribuída a mudanças econô-
que não podem ser apropriadas pelo capitalismo, porém, mais micas de larga escala e a microfenômenos da vida cotidiana. A
do que qualquer outra pessoa, jamais superestima a imunidade concepção da mudança tecnológica como um processo semiau-
de qualquer imagem à recuperação e à neutralização. tônomo, impulsionado por um processo de autopoiesis ou de
Um dos pressupostos mais tediosamente repetidos em discus- auto-organização, faz com que muitos aspectos da realidade
sões a respeito da cultura tecnológica contemporânea é que teria social contemporânea sejam aceitos como circunstâncias neces-
ocorrido um deslocamento histórico em um intervalo de tempo sárias, inalteráveis, como se fossem fatos da natureza. O posi-
relativamente curto, no qual novas tecnologias de informação e cionamento equivocado dos produtos e aparelhos mais visíveis
comunicação teriam suplantado um amplo conjunto de formas em uma linhagem explicativa que inclui a roda, o arco ogival, o
culturais mais antigas. Essa ruptura histórica é descrita e teori- tipo móvel e assim por diante, omite as técnicas mais importan-
zada de diversas maneiras, incluindo análises da passagem da pro- tes inventadas nos últimos 150 anos: os diversos sistemas para a
dução industrial a processos e serviços pós-industriais, das mídias administração e controle de seres humanos.
analógicas às digitais ou de uma cultura fundada na imprensa a A caracterização pseudo-histórica do presente como Era
uma sociedade global unificada pela circulação instantânea de Digital, supostamente homóloga a uma Idade do Bronze ou Era do
dados e informações. Na maioria das vezes, tais periodizações de- Vapor, perpetua a ilusão de uma coesão unificadora e duradoura
pendem de paralelos comparativos com períodos históricos ante- entre os inúmeros e incomensuráveis elementos constitutivos
riores caracterizados segundo inovações tecnológicas especí- da experiência contemporânea. O trabalho propagandís-
44 ficas. Assim, a afirmação de que entramos em uma era nova tico e intelectualmente espúrio de futuristas como Nicholas 45
Negroponte, Esther Dyson, Kevin Kelly e Raymond Kurzweil são dos últimos 150 anos é inseparável da “revolução contínua” das
exemplos flagrantes das numerosas versões dessa ilusão. Subjaz formas de produção, circulação, comunicação e construção de
a esse pressuposto o truísmo popular de que os adolescentes e as imagens. No entanto, durante esse século e meio, houve, em
crianças de hoje habitam harmoniosamente a inteligibilidade áreas específicas da vida econômica e cultural, diversos inter-
inclusiva e sem arestas de seus universos tecnológicos. Essa ca- valos de aparente estabilidade, quando certas ordens institucio-
racterização geracional supostamente confirma que, em algumas nais pareciam sólidas ou duradouras. O cinema, por exemplo,
décadas ou antes disso, uma fase de transição terá se encerrado e enquanto forma tecnológica, parecia dotado de alguns elemen-
haverá bilhões de indivíduos dotados de níveis similares de com- tos e relações relativamente fixos desde fins dos anos 1920 até os
petência tecnológica e pressupostos intelectuais básicos. Esta- anos 1960 ou 1970. Como discuto no capítulo 3, a televisão nos
belecido o novo paradigma, haverá inovação, mas nesse cenário Estados Unidos dos anos 1950 até os anos 1970 parecia dotada
ela ocorrerá no interior dos parâmetros conceituais e funcionais de consistência material, assim como as formas de experiência
estáveis e duradouros dessa era “digital”. No entanto, a realidade a ela associadas. Esses períodos, nos quais certas características
bastante diversa de nosso tempo se caracteriza pela manutenção básicas pareciam permanentes, permitiam que críticos elabo-
calculada de um estado de transição contínuo. Diante de exigên- rassem teorias do cinema, da televisão e do vídeo segundo o
cias tecnológicas em transformação constante, jamais haverá um pressuposto de que essas formas ou sistemas possuíam certas
momento em que finalmente as “alcançaremos”, seja enquanto características essenciais que as definiam. Em retrospecto, o
sociedade ou enquanto indivíduos. Para a imensa maioria das pes- que era frequentemente considerado essencial era na verdade
soas, a relação perceptiva e cognitiva com tecnologias de informa- um conjunto de elementos temporários de constelações maiores
ção e comunicação continuará distante e impotente dada a veloci- cujo ritmo de transformação era variável e imprevisível.
dade com que surgem novos produtos e com que os sistemas são De maneira semelhante, desde os anos 1990 assistimos a
completamente reconfigurados. Esse ritmo intensificado impede diversas tentativas ambiciosas de identificar as manifestações
que nos familiarizemos com qualquer ordem específica. Alguns definidoras ou intrínsecas das “novas mídias”. Mesmo os esfor-
teóricos da cultura insistem que tais condições podem facilmente ços mais inteligentes são frequentemente limitados por seus
oferecer as bases para a neutralização do poder institucional, mas pressupostos implícitos, condicionados por estudos de momen-
não há evidências concretas que fundamentem essa visão. tos históricos anteriores, de que a tarefa central é esboçar e ana-
Basicamente, não é um estado novo de coisas. A lógica da lisar um novo paradigma ou regime tecnológico / discursivo e,
modernização econômica em jogo hoje pode ser remetida dire- mais importante, que esse regime é derivável dos próprios apa-
tamente a meados do século xix. Marx foi um dos primeiros a relhos, redes, instrumentos, códigos e arquiteturas globais cor-
entender a incompatibilidade intrínseca do capitalismo rentes. Mas devemos enfatizar que não estamos, como tais
46 com formações sociais estáveis ou duradouras, e a história análises sugerem, passando simplesmente de uma ordem 47
dominante de sistemas maquínicos e discursivos a outra. É bas- sidade de aparelhos portáteis baseados no toque, e anular assim
tante revelador que livros e ensaios sobre as novas mídias escritos qualquer reivindicação histórica especial de tudo que veio antes.
há apenas cinco anos já estejam obsoletos, e qualquer texto escrito Mas se e quando tais aparelhos forem introduzidos (e serão, sem
hoje com os mesmos objetivos se tornará obsoleto em ainda me- dúvida, considerados revolucionários), eles simplesmente tor-
nos tempo. No momento, a operação e os efeitos particulares de narão mais fáceis a perpetuação do mesmo exercício banal de
novas máquinas ou redes específicas são menos importantes do consumo ininterrupto, isolamento social e impotência política,
que a redefinição da experiência e da percepção pelos ritmos, velo- em vez de representar um ponto de virada historicamente re-
cidades e formas do consumo acelerado e intensificado. levante. E também circularão por apenas um breve intervalo,
Para tomar um de muitos exemplos possíveis da produção antes que sejam inevitavelmente substituídos e atirados aos tec-
crítica recente: há alguns anos, um especialista alemão em mí- nolixões globais. O único fator consistente que liga a sucessão,
dia afirmou que o telefone celular equipado com tela representa de resto incoerente, de produtos de consumo e serviços é a in-
uma ruptura “revolucionária” com formas tecnológicas prévias, tegração cada vez mais intensa de nosso tempo e atividade aos
incluindo todos os telefones anteriores. Ele argumentou que, parâmetros de intercâmbio eletrônico. Gastam-se bilhões de
por causa de sua mobilidade, da miniaturização da tela e de dólares em pesquisas dedicadas a reduzir o tempo de tomadas
sua capacidade de exibir dados e vídeo, o aparelho era um “de- de decisões, a eliminar o tempo inútil de reflexão e contempla-
senvolvimento genuinamente radical”. Mesmo que estejamos ção. Essa é a forma do progresso contemporâneo — a prisão e o
dispostos a compreender a história da tecnologia como uma se- controle implacáveis do tempo e da experiência.
quência demarcada por invenções e rupturas, a relevância desse Como muitos já notaram, a forma que a inovação assume
instrumento em particular terá vida inevitável e marcadamente no capitalismo é a simulação contínua do novo, enquanto as re-
curta. É mais útil entender tal aparelho como apenas mais um lações de poder e de controle existentes permanecem, na prática,
elemento de um fluxo transitório de produtos compulsórios e as mesmas. Por boa parte do século xx, a produção de curiosida-
descartáveis. Formatos de tela diferentes já estão no nosso ho- des, apesar de seu caráter repetitivo e nulo, era frequentemente
rizonte, alguns incluindo a realidade aumentada de interfaces vendida de maneira a satisfazer a imaginação social de um fu-
translúcidas e pequenos aparelhos que podem ser acoplados na turo mais avançado ou pelo menos diferente do presente. No
região da cabeça, nos quais uma tela virtual coincidirá com o quadro do futurismo de meados do século xx, os produtos com-
campo de visão do usuário. Estão igualmente em desenvolvi- prados e incorporados à vida pareciam vagamente relacionados
mento formas de computação por gestos, nas quais, em vez de a evocações populares da prosperidade global futura, da substitui-
um clique, os comandos serão feitos por um aceno, um movi- ção benigna do trabalho humano pela automação, da exploração
mento da cabeça ou o piscar de um olho. Em breve esses espacial, da erradicação do crime e de doenças e assim por
48 recursos poderão deslocar a aparente ubiquidade e a neces- diante. Havia pelo menos a crença equivocada em soluções 49
tecnológicas para problemas sociais insolúveis. Agora, o ritmo a distribuição de conteúdo, seriam impostas à vida humana de
acelerado dessas mudanças aparentes elimina o sentimento de forma muito mais abrangente no século xx.
padrões temporais compartilhados que poderiam fundamen- Por outro lado, em algum momento do final do século xx é
tar a antecipação, ainda que nebulosa, de um futuro diferente possível identificar uma constelação de forças e entidades dis-
da realidade contemporânea. 24 / 7 é estruturado em torno de tintas das do século xix e suas fases sequenciais de moderniza-
objetivos individuais de competitividade, promoção, aquisição, ção. Na década de 1990, a integração vertical havia se transfor-
segurança pessoal e conforto à custa dos outros. O futuro está mado por completo, como provam os exemplos das inovações
tão à mão que só pode ser imaginado como idêntico à luta pelo da Microsoft, Google e outras empresas, ainda que alguns res-
ganho ou pela sobrevivência individual no mais superficial dos quícios de estruturas hierárquicas mais antigas tenham per-
presentes. sistido ao lado de modelos de implementação e controle mais
Pode parecer que meu argumento contém duas linhas in- flexíveis e capilarizados. Nesse novo contexto, o consumo de
consistentes. Por um lado afirmo, com outros autores, que a tecnologia coincide com estratégias e efeitos de poder e se torna
forma da cultura tecnológica contemporânea ainda corres- indistinguível deles. Certamente, por boa parte do século xx, a
ponde à lógica da modernização, conforme seus desdobramen- organização das sociedades de consumo esteve ligada a formas
tos ao final do século xix — isto é, que algumas características de regulação e obediência sociais, mas agora a administração do
fundamentais do capitalismo do começo do século xxi ainda comportamento econômico é idêntica à formação e perpetuação
podem ser vinculadas aos projetos industriais de Werner von de indivíduos maleáveis e submissos. Uma lógica mais antiga de
Siemens, Thomas Edison e George Eastman. Esses nomes po- obsolescência programada continua em funcionamento, dando
dem representar emblematicamente o desenvolvimento de im- impulso à demanda por substituição ou aprimoramento. No en-
périos corporativos verticalmente integrados que reconfigura- tanto, mesmo que a dinâmica por trás da inovação de produtos
ram aspectos cruciais do comportamento social. Suas ambições ainda esteja ligada à margem de lucro ou à competição entre
premonitórias eram realizadas graças a (1) uma compreensão empresas pelo domínio de um segmento do mercado, o ritmo
das necessidades humanas como algo em constante mutação e acelerado do “aprimoramento” ou da reconfiguração de sistemas,
expansão; (2) uma concepção embrionária da mercadoria como modelos e plataformas é parte crucial da reinvenção do sujeito
algo potencialmente convertível em fluxos abstratos, seja de e da intensificação do controle. Docilidade e desligamento do
imagens, sons ou energia; (3) medidas eficazes de redução do emprego não são subprodutos indiretos da economia financeira
tempo de circulação; e (4), no caso de Eastman e Edison, uma global; estão entre seus objetivos principais. Há uma relação
visão precoce mas clara da reciprocidade econômica entre cada vez maior entre as necessidades individuais e os progra-
“hardware” e “software”. As consequências desses mode- mas funcionais e ideológicos onde todo novo produto está
50 los do século xix, especialmente ao facilitar e maximizar embutido. Esses “produtos” não são apenas os aparelhos ou 51
instrumentos físicos, mas os diversos serviços e interconexões perder, sejam recursos ou força de trabalho, elas se tornam sim-
que rapidamente se tornam o padrão ontológico dominante ou plesmente descartáveis. No entanto, o atual aumento de casos
exclusivo da nossa realidade social. de escravidão sexual e o crescente mercado de tráfico de órgãos
Mas esse fenômeno contemporâneo de aceleração não é e partes do corpo sugerem que o limite externo da descartabi-
simplesmente uma sucessão linear de inovações, na qual cada lidade pode ser ampliado de maneira lucrativa a fim de corres-
item obsoleto é substituído por um novo. Cada substituição é ponder às demandas de novos setores do mercado.
sempre acompanhada por um aumento exponencial do número Esse ritmo constante de consumo tecnológico, na forma em
de escolhas e opções disponíveis. É um processo contínuo de dis- que se desenvolveu nas últimas duas ou três décadas, impede a
tensão e expansão, que ocorre simultaneamente em diferentes passagem de um período significativo de tempo no qual o uso de
níveis e em diferentes lugares, um processo no qual há uma determinado produto, ou combinação de produtos, poderia se
multiplicação das áreas de tempo e experiência que são anexa- tornar familiar o suficiente a ponto de simplesmente integrar
das a novas tarefas e demandas envolvendo máquinas. A lógica o pano de fundo de objetos em nossas vidas. As capacidades
do deslocamento (ou obsolescência) é conjugada a uma amplia- operacionais e de desempenho viram prioridades que ultrapas-
ção e diversificação dos processos e fluxos aos quais o indivíduo sam a importância de qualquer coisa que possa ser considerada
se vincula efetivamente. Toda aparente novidade tecnológica é “conteúdo”. Em vez de ser um meio para um conjunto maior
também uma dilatação qualitativa de acomodação e dependên- de fins, o aparelho é um fim em si mesmo. Sua função é con-
cia a rotinas 24 / 7; também é parte de um aumento na quanti- duzir o usuário a uma realização ainda mais eficiente de suas
dade de aspectos sob os quais um indivíduo é transformado em próprias tarefas e funções de rotina. É sistemicamente impossí-
uma aplicação de novos sistemas e esquemas de controle. vel que haja compensação ou pausa, na qual um período maior
No entanto, devemos reconhecer que, no momento presente, de preocupações ou projetos transindividuais possam vir à luz.
as experiências individuais de funcionamento da economia O brevíssimo tempo de vida de determinado aparelho ou combi-
global são bastante diferentes. Nos setores cosmopolitas do nação de aparelhos envolve o prazer e o prestígio associados à
planeta, as estratégias de incapacitação que utilizam técnicas sua posse, mas inclui, simultaneamente, uma consciência de
obrigatórias de personalização e autoadministração digital flo- que o objeto à mão é maculado desde o início pela transitorie-
rescem mesmo entre grupos de baixa renda. Ao mesmo tempo, dade e pela decadência. Ciclos mais antigos de reposição eram
os inúmeros seres humanos que vivem no ou abaixo do nível de pelo menos suficientemente longos para que a ilusão consensual
subsistência não podem ser integrados às novas exigências dos de semipermanência pairasse por algum tempo. Agora, a brevi-
mercados e se tornam irrelevantes ou dispensáveis. A morte, dade do interlúdio, antes que um produto de alta tecnologia se
em seus muitos disfarces, é um dos subprodutos do neo- transforme literalmente em lixo, exige que duas atitudes
52 liberalismo: quando as pessoas já não têm mais nada a contraditórias coexistam: por um lado, a necessidade de 53
e / ou o desejo iniciais pelo produto, mas, por outro, uma iden- senta como essencial para a organização burocrática de nossas
tificação afirmativa com o processo de cancelamento e substi- vidas, que estão repletas de um número crescente de rotinas e
tuição. A aceleração da produção de novidades incapacita a me- necessidades que não escolhemos. A privatização e a compar-
mória coletiva e significa que a evaporação do conhecimento timentação de nossas atividades nessa esfera podem sustentar
histórico não mais precisa ser imposta de cima para baixo. As a ilusão de que podemos “ser mais espertos do que o sistema”
condições cotidianas de comunicação e acesso à informação e planejar uma relação única ou superior com essas tarefas,
garantem o apagamento sistemático do passado como parte da mais empreendedora ou aparentemente menos comprometida.
construção fantasmagórica do presente. O mito do hacker solitário perpetua a fantasia de que a relação
Para alguns esses ciclos breves gerarão inevitavelmente a assimétrica entre indivíduo e rede pode oferecer uma vantagem
ansiedade de estar fora de moda e frustrações de diversos tipos. para o primeiro. Na realidade, há uma uniformidade imposta e
No entanto, é importante reconhecer a existência de incentivos inescapável no nosso trabalho compulsório de autoadministra-
atraentes para que nos alinhemos a uma sequência contínua, ba- ção. A ilusão de escolha e autonomia é uma das bases desse sis-
seada em promessas de cada vez maior eficiência, mesmo que tema global de autorregulação. Ainda encontramos em muitos
todos os benefícios substantivos sejam sempre adiados. Atual- lugares a afirmação de que a ordem tecnológica contemporâ-
mente, o desejo de acumular objetos é menos importante do nea é essencialmente um conjunto de ferramentas neutro que
que a confirmação de que nossa vida coincide com os aplicativos, pode ser usado de diferentes maneiras, inclusive a serviço de
aparelhos ou redes disponíveis e intensamente propagandeados. uma política emancipatória. O filósofo Giorgio Agamben refu-
Desse ponto de vista, os padrões acelerados de aquisição e des- tou tais afirmações respondendo que “hoje não haveria um só
carte não são algo a lamentar, mas um sinal concreto de nosso instante na vida dos indivíduos que não seja modelado, conta-
acesso aos fluxos e habilidades cuja demanda é maior. De acordo minado ou controlado por algum dispositivo”. Ele argumenta
com Boltanski e Chiapello, fenômenos sociais aparentemente convincentemente que “é totalmente impossível que o sujeito
estáticos, ou cujo ritmo de mudança é lento, são marginalizados do dispositivo o use ‘de modo correto’. Aqueles que têm discur-
e destituídos de valor ou interesse. Devemos evitar atividades sos similares são, de resto, o resultado
nas quais o tempo despendido não pode ser alavancado por inter- 2  Giorgio Agamben. do dispositivo midiático no qual estão
What Is an Apparatus?, trad.
faces e seus links, ou nos dedicar apenas esporadicamente a elas. David Kishik e Stefan Peda­
aprisionados”. 2

A submissão a essas condições é quase irresistível por causa tella. Palo Alto: Stanford Preocupar-se com as proprieda-
University Press, 2009,
do temor ao fracasso social e econômico — o medo de ficar para p. 21 [ed. bras.: “O que é um
des estéticas da imagem digital, como
trás, de ser considerado antiquado. Os ritmos do consumo tec- dispositivo”, in O que é o con- muitos teóricos e críticos, é esquivar-
temporâneo, trad. Vinícius
nológico são inseparáveis das exigências de autoadminis- Nicastro Honesko. Chapecó,
-se da subordinação da imagem a
54 tração contínua. Todo produto ou serviço novo se apre- rs: Argos, 2009, p. 48]. um campo extenso de operações e 55
exigências não visuais. A maioria das imagens é hoje produzida fixação do interesse visual em sequências ou fluxos de informa-
e posta a circular a serviço da maximização da quantidade de ções gráficas, são amplamente empregados. Cada visita casual a
tempo gasto com formas habituais de autogestão e autorregula- uma única página da internet pode ser minuciosamente anali-
ção individual. Fredric Jameson afirmou que, com o colapso de sada e quantificada em função de como o olho a percorre, pausa,
toda distinção relevante entre o que costumávamos chamar de se move e dá mais atenção a algumas áreas em detrimento de ou-
esferas do trabalho e do lazer, a obrigação de olhar para imagens tras. Mesmo no espaço físico de grandes lojas de departamento,
é hoje central para o funcionamento da maioria das institui- escâneres de rastreamento do olhar fornecem informações
ções hegemônicas. Ele aponta como, até meados do século xx, detalhadas sobre o comportamento individual — por exemplo,
o imaginário da cultura de massas forneceu frequentemente determina por quanto tempo olhamos para produtos que não
maneiras de contornar as proibições do superego.3 É claro que compramos. Há tempos existe um campo de pesquisa de ergo-
hoje mais imagens, dos mais diversos tipos, são olhadas, vistas, nomia ótica generosamente financiado. Passiva e muitas vezes
do que em qualquer outro período, mas no interior do que Fou- voluntariamente, colaboramos para nossa própria vigilância e
cault descreveu como uma “rede de observação permanente”. para a coleta de nossos próprios dados. Isso resulta, inevitavel-
A maioria dos conceitos historicamente acumulados do termo mente, em procedimentos mais sofisticados para a intervenção
“observador” é desestabilizada sob tais condições: isto é, quando sobre o comportamento individual e coletivo. Ao mesmo tempo,
atos individuais de visão são interminavelmente solicitados e as imagens estão basicamente em continuidade a todas as for-
convertidos em informações que tanto serão utilizadas para o mas não visuais de informação com as quais entramos em con-
aprimoramento das tecnologias de controle quanto virarão uma tato. A instrumentalização da percepção sensorial é apenas um
forma de valor excedente em um mercado baseado na acumula- dos elementos envolvidos nas atividades cumulativas de acesso,
ção de dados sobre o comportamento do usuário. Há uma sub- armazenamento, formatação, manipulação, circulação e troca.
versão de pressupostos muito mais literal a respeito da posição Fluxos incalculáveis de imagens estão onipresentes 24 / 7, mas
e da capacidade de ação do observador no leque cada vez maior o que ocupa a atenção individual, na verdade, é a administra-
de meios técnicos de transformar os próprios atos de visão em ção das condições técnicas que as rodeiam: todas as determina-
objetos de observação. ções de entrega, exibição, formato, armazenamento, upgrades e
As formas mais avançadas de vigilância e análise de dados acessórios que se multiplicam.
utilizadas pelas agências de inteligência são agora também in- Encontramos em todos os lugares o pressuposto compla-
dispensáveis para as estratégias de marketing 3  Fredric Jameson. cente e absurdo de que esses padrões sistêmicos “vieram para fi-
de grandes empresas. Telas e outros displays Comunicação na car”, e que tais níveis de consumo tecnológico podem ser esten-
que rastreiam os movimentos oculares, Film Society of Lin-
coln Center. Nova
didos a toda a população do planeta, hoje com 7 e em breve
56 assim como as durações e os pontos de York, 12 jun. 2011. 10 bilhões de pessoas. Muitos dos que celebram o potencial 57
transformador das redes de comunicação se esquecem das for- A tarefa de tal policiamento é realizada, notavelmente, por
mas opressivas do trabalho humano e da devastação ambiental aquela classe de acadêmicos e críticos que Paul Nizan chamou
dos quais suas fantasias de virtualidade e desmaterialização de- de chiens de garde [cães de guarda]: hoje os cães de guarda são
pendem. Mesmo entre as vozes plurais que afirmam que “outro os intelectuais e escritores tecnófilos ansiosos pela atenção dos
mundo é possível”, aparece muitas vezes a conveniente concep- meios de comunicação e sedentos por recompensas e acesso aos
ção de que a justiça econômica, o arrefecimento das mudanças que detêm o poder. Evidentemente, existem muitos outros obs-
climáticas e a criação de relações sociais igualitárias podem de táculos poderosos à imaginação coletiva de relações criativas en-
alguma maneira coexistir com empresas como Google, Apple tre tecnologia e realidade social.
e General Electric. Desafios a essas ilusões se chocam com pa-
trulhas intelectuais dos mais diferentes tipos. Há uma proibição
real não apenas à crítica do consumo tecnológico obrigatório, O filósofo Bernard Stiegler escreveu amplamente sobre as con-
como também à elaboração teórica de maneiras de empregar os sequências do que é para ele a homogeneização da experiência
recursos e capacidades tecnológicos existentes a serviço de ne- perceptiva na cultura contemporânea.4 Suas preocupações es-
cessidades humanas e sociais, em vez de servirem às exigências tão especialmente voltadas para a circulação global de “objetos
do capital e do império. O conjunto restrito e monopolizado de temporais” produzidos em massa, entre os quais, segundo ele,
produtos e serviços eletrônicos disponíveis em determinado mo- estão filmes, programas de televisão, música popular e video-
mento tenta se fazer passar pelo fenômeno total da “tecnologia”. clipes. Stiegler cita a difusão do uso da internet em meados dos
Mesmo uma recusa parcial das ofertas intensamente comercia- anos 1990 como um ponto de virada decisivo (o marco para ele é
lizadas por empresas multinacionais é tratada como oposição à 1992) no impacto desses produtos audiovisuais industriais. Nas
própria tecnologia. Caracterizar a ordem atual, ao fim inviável últimas duas décadas, segundo o autor, eles foram responsáveis
e insustentável, como tudo menos inevitável ou inalterável, é por uma “sincronização em massa” da consciência e da memó-
incorrer em uma forma contemporânea de heresia. Estão proi- ria. A padronização da experiência em tão larga escala, afirma,
bidas as opções de vida críveis ou visíveis fora das demandas de implica a perda da identidade e da singularidade subjetivas;
comunicação e consumo 24 / 7. O questionamento ou descré- também conduz ao desaparecimento desastroso da participação
dito do que é hoje o meio mais eficiente de gerar aquiescência e criatividade individuais na construção dos símbolos que tro-
e docilidade, de promover o próprio interesse como a razão de camos e compartilhamos entre nós. Sua noção de sincronização
ser de toda atividade social, são rigorosamente marginalizados. é radicalmente diferente do que chamei
A elaboração de estratégias de vida que poderiam desvincular a 4  Ver Bernard Stiegler, De de temporalidades compartilhadas, nas
la Misère symbolique, v. 1:
tecnologia da lógica de ganância, acumulação e espoliação L’Époque hyperindustrielle.
quais a copresença de diferenças e
58 ambiental é alvo de proibições institucionais contínuas. Paris: Galilée, 2004. alteridade poderia oferecer a base 59
para públicos ou comunidades provisórios. Stiegler conclui que da atenção em operações e respostas repetitivas que sempre se
há uma destruição contínua do “narcisismo primordial” que é sobrepõem a atos de olhar e de escutar. Não é a homogeneidade
essencial para que um ser humano seja capaz de cuidar de si e dos produtos de mídia que perpetua a segregação, o isolamento
de outros e aponta para os muitos episódios de assassinatos / sui- e a neutralização dos indivíduos, mas os arranjos compulsórios
cídios em massa como resultados nefastos desse dano psíquico nos quais esses elementos, assim como muitos outros, são con-
e existencial generalizado.5 Ele propõe urgentemente a criação sumidos. O “conteúdo” visual e auditivo é na maioria das vezes
de contraprodutos que sejam capazes de reintroduzir a singula- um material efêmero, substituível, que, além de sua condição
ridade na experiência cultural e de alguma forma desconectar o de mercadoria, circula para habituar e validar nossa imersão
desejo dos imperativos de consumo. nas exigências do capitalismo do século xxi. Stiegler tende a
O trabalho de Stiegler é um exemplo do abandono das descri- caracterizar a mídia audiovisual em termos de um modelo re-
ções mais otimistas de meados da década de 1990 sobre as rela- lativamente passivo de recepção, derivado em alguns aspectos
ções entre globalização e novas tecnologias da informação. Mui- do fenômeno da televisão aberta. Um de seus exemplos revela-
tos à época previam o surgimento de um mundo multicultural dores é a final da Copa do Mundo de futebol, quando bilhões de
de racionalidades locais, de pluralismo diaspórico e multicên- pessoas assistem ao mesmo tempo às mesmas imagens na tv.
trico, baseado em esferas públicas eletrônicas. Segundo Stiegler, Mas essa noção de recepção ignora que os produtos de mídia
essa esperança era baseada em uma compreensão equivocada atuais podem ser ativamente manejados e manipulados, troca-
do processo de globalização. Para ele, os anos 1990 abriram ca- dos, avaliados, arquivados, recomendados, “seguidos”. Todo ato
minho para uma era hiperindustrial, e não pós-industrial, na de ver é formado por camadas de opções ativas, escolhas e res-
qual a lógica da produção em massa se alinhou repentinamente postas simultâneas e interruptivas. A ideia de passarmos longos
a técnicas que, de maneira sem precedentes, combinaram fabri- blocos de tempo exclusivamente no papel de espectadores está
cação, distribuição e subjetivação em escala planetária. fora de moda. Esse tempo é valioso demais para que não o ala-
Apesar de boa parte do argumento de Stiegler ser convin- vanquemos com diversas fontes de solicitação e escolhas que
cente, creio que o problema dos “objetos temporais” é secun- maximizam as possibilidades de monetização e que garantem a
dário em relação à ampla colonização sistêmica da experiência acumulação contínua de informações a respeito do usuário.
individual que venho discutindo. O mais importante agora não Também é importante levar em consideração outras indús-
é o aprisionamento da capacidade de atenção trias eletrônicas de objetos temporais, embora seus efeitos sejam
por um objeto delimitado — um filme, um pro- 5 Acting
Bernard Stiegler,
Out, trad.
mais indefinidos e indeterminados: apostas online, pornografia
grama de televisão ou uma música —, cuja re- Patrick Crogan. na internet e videogames, por exemplo. Os impulsos e apetites
cepção em massa parece ser a grande preo- Palo Alto: Stanford
University Press,
em jogo aqui, com suas ilusões de domínio, vitória e posse,
60 cupação de Stiegler, mas a transformação 2009, pp. 39-59. são modelos cruciais para a intensificação do consumo 24 / 7. 61
Um exame cuidadoso dessas formas mais voláteis provavel- enormes contingentes, em todos os continentes, dos que com-
mente traria complicações às conclusões de Stiegler a respeito pram e usam substâncias ilegais, sejam opiáceos e derivados da
da prisão do desejo e do colapso do narcisismo primordial. É fato coca ou uma entre as inúmeras drogas sintéticas. Assim, por
que o postulado da sincronização global em massa por Stiegler um lado, há uma vaga uniformidade de resposta e comporta-
tem nuances e não pode ser reduzido à ideia de todos pensando mento entre os usuários de um produto farmacêutico específico;
ou fazendo a mesma coisa; e é baseado em uma fenomenologia mas, por outro, há a colcha de retalhos global de populações
consistente, se obscura, da retenção e da memória. No entanto, de usuários de drogas diferentes, muitas vezes próximas fisica-
à sua ideia da homogeneização industrial da consciência e seus mente, mas compostas de afetos, impulsos e incapacidades al-
fluxos podemos contrapor a compartimentação e fragmentação tamente distintas. O problema das drogas faz surgir a mesma
de zonas de experiência compartilhadas em micromundos fa- dificuldade trazida pelos objetos de mídia — a impossibilidade
bricados de afetos e símbolos. A quantidade inimaginável de in- e a irrelevância de isolar um fator determinante como único
formação disponível pode ser aplicada e organizada a serviço de responsável pela alteração da consciência. Existem compostos
qualquer coisa, pessoal ou política, não importa se aberrante ou mutáveis e indistintos de elementos tanto na ingestão de fluxos
convencional. Graças às possibilidades ilimitadas de filtragem e eletrônicos quanto na de neuroquímicos.
personalização, indivíduos fisicamente próximos podem habi- Minha intenção não é tratar do extenso tópico da relação en-
tar universos incomensuráveis e sem comunicação. No entanto, tre drogas e mídia — ou testar a hipótese conhecida de que todo
a grande maioria desses micromundos é, apesar de seus conteú- meio de comunicação é uma droga, e vice-versa. Antes, quero
dos manifestamente diferentes, monotonamente semelhante chamar a atenção para como os padrões de consumo gerados
em seus padrões e segmentações temporais. pelas mídias e pelos produtos de comunicação atuais estão tam-
Existem outras formas contemporâneas de sincronização bém presentes em outros mercados globais em expansão — por
em massa não diretamente ligadas a redes de comunicação e exemplo, naquele controlado pelas grandes empresas farma-
informação. Um exemplo crucial é dado pelas consequências cêuticas. Nesse caso, também é acelerado o ritmo com que são
do tráfico mundial de drogas psicoativas, legais e ilegais, assim introduzidos produtos novos e supostamente aprimorados. Ao
como o apagamento das fronteiras entre seus diversos tipos mesmo tempo, multiplicam-se os estados físicos ou psicológi-
(analgésicos, tranquilizantes, anfetaminas e assim por diante). cos para os quais cada droga nova é produzida e comercializada
As centenas de milhões de pessoas que tomam novos coquetéis como tratamento eficiente e obrigatório. Assim como no caso
contra depressão, condições bipolares, hiperatividade e diver- de aparelhos e serviços digitais, há uma invenção de pseudone-
sas outras designações formam um conjunto variado de indiví- cessidades ou deficiências para as quais novas mercadorias são
duos cujos sistemas nervosos foram modificados de forma soluções essenciais. Some-se a isso o fato de que a indús-
62 semelhante. O mesmo pode ser dito, evidentemente, dos tria farmacêutica, em parceria com as neurociências, é um 63
exemplo vivaz da financeirização e terceirização do que costu- relativamente baixo, uma nova insipidez floresce em quase todos
mávamos chamar de “vida interior”. Nas últimas duas décadas, os lugares onde o consumo acelerado se tornou a norma — não
um leque cada vez maior de estados emocionais tem sido cres- apenas em determinados estratos profissionais, grupos sociais
centemente patologizado com o objetivo de criar novos e amplos ou faixas etárias. Paul Valéry previu parte desse processo já nos
mercados para produtos até então desnecessários. As tessituras anos 1920, quando afirmou que a civilização tecnocrática levaria
oscilantes dos afetos e emoções humanos, que são apenas suge- por fim à eliminação de qualquer forma de vida indefinida ou
ridas imprecisamente pelas noções de timidez, ansiedade, de- não mensurável que se encontrasse no interior de suas esferas de
sejo sexual instável, distração ou tristeza, foram indevidamente operação.6 Ser insípido é tornar-se “suave”, em contraposição à
convertidas em distúrbios e colocadas na mira de remédios ideia de um molde que a palavra “conformidade” sugere em mui-
enormemente lucrativos. tos casos. Os desvios são aplainados ou apagados, conduzindo a
A produção paralela de formas de conformidade social é um algo que não é “nem irritante nem revigorante” (segundo o dicio-
dos muitos vínculos entre o uso de drogas psicotrópicas e instru- nário Oxford). Isso ficou mais evidente na última década, apro-
mentos de comunicação. Mas a ênfase exclusiva na docilidade ximadamente, com o desaparecimento ou a domesticação do
e no apaziguamento ignora as fantasias de ação e iniciativa que que era antes um leque muito maior de sinais de marginalidade
também são pressupostos dos mercados de ambas as categorias cultural ou da condição de outsider. A onipresença de ambientes
de produtos. O uso difundido de remédios para transtorno de 24 / 7 é uma das condições desse aplainamento, mas 24 / 7 deve
déficit de atenção e hiperatividade (tdah) é frequentemente ser entendido não apenas como um tempo homogêneo e sem
motivado pela esperança de melhorar o desempenho e com- variação, mas como uma diacronia desativada e abandonada.
petitividade no trabalho — e, de forma mais severa, o vício em Existem, certamente, temporalidades diferentes, mas o leque e
metanfetamina está muitas vezes ligado a ilusões destrutivas de a profundidade das distinções entre elas diminuíram, e a faci-
desempenho e autoengrandecimento. Uma uniformidade gene- lidade de substituição de uma por outra se converte em norma.
ralizada é, inevitavelmente, um dos resultados da escala global Unidades de duração convencionais e antigas persistem (como
dos mercados em questão e de sua dependência nas ações coe- “horário comercial” ou “de segunda a sexta”), mas sobrepostas a
rentes ou previsíveis de grandes populações. Ela é obtida não elas estão todas as práticas de administração do tempo individual
pela criação de indivíduos semelhantes, como costumavam 6  Paul Valéry, “Remarks
possibilitadas pelas redes e mercados 24 / 7.
afirmar as teorias sobre a sociedade de massas, mas pela redu- on Intelligence”. Collected No passado, formas de trabalho repeti-
Works of Paul Valéry,
ção ou eliminação de diferenças, pelo estreitamento do espectro v. 10, trad. Denise Folliot
tivo, apesar de tediosas e opressoras, nem
de comportamentos que podem funcionar de maneira eficiente e Jackson Mathews. sempre impediram as satisfações decor-
Bollingen Series, Prince-
ou bem-sucedida na maioria dos contextos institucionais ton: Princeton University
rentes do domínio limitado ou da
64 contemporâneos. Assim, acima de um estrato econômico Press, 1962, pp. 80-83. operação eficiente de ferramentas e 65
maquinário. Como mostram os historiadores, os sistemas mo- há um nivelamento generalizado de todos os usuários, transfor-
dernos de trabalho não teriam se desenvolvido sem o cultivo de mados em objetos indistintos da mesma expropriação em massa
novos valores que, no contexto da industrialização, substitui- de tempo e práxis.
riam aqueles que davam fundamento ao trabalho manual ou A habituação individual a esses ritmos trouxe consequên-
artesanal. O sentimento de realização em um produto final do cias sociais e ambientais devastadoras e resultou na norma-
trabalho se tornou cada vez menos possível nas condições ofere- lização coletiva desse deslocamento e descarte ininterruptos.
cidas pelas grandes fábricas. Em vez disso, surgiram formas de Porque a perda é continuamente criada, uma memória atro-
encorajar a identificação com os próprios processos mecânicos. fiada deixa de reconhecê-la como tal. Muda a composição fun-
Parte da cultura da modernidade se formou em torno da afir- damental das narrativas de vida. Em vez de uma sequência
mação da possibilidade de gratificação individual derivada da convencional de lugares e eventos associados a família, tra-
imitação de ritmos, eficiência e dinamismo impessoais da me- balho e relacionamentos, o fio condutor principal de nossas
canização. No entanto, o que eram compensações ambivalentes histórias de vida agora são as mercadorias eletrônicas e ser-
ou meramente simbólicas nos séculos xix e xx se tornaram um viços de mídia por meio dos quais toda experiência é filtrada,
conjunto mais intenso de satisfações tanto reais quanto imagi- gravada ou construída. À medida que desaparece a possibili-
nadas. Por causa da permeabilidade, ou mesmo da indistinção, dade de um único emprego ao longo da vida, o trabalho mais
entre os tempos de trabalho e de lazer, as habilidades e gestos duradouro para a maioria das pessoas é o desenvolvimento de
que seriam restritos ao local de trabalho são agora parte univer- nossa relação com aparelhos. Tudo que antes era vagamente
sal da tessitura 24 / 7 de nossa vida eletrônica. A ubiquidade das considerado “pessoal” é reconfigurado de maneira a facilitar a
interfaces tecnológicas inevitavelmente conduz os usuários a invenção de si mesmo a partir de um aglomerado de identida-
buscar maior fluência e adaptação. Mas a competência adqui- des que existem apenas como efeitos de arranjos tecnológicos
rida com cada aplicativo ou ferramenta particulares é na ver- temporários.
dade uma maior harmonização com as exigências funcionais in- Os quadros de referência pelos quais o mundo pode ser
trínsecas para reduzir continuamente o tempo de cada troca ou compreendido continuam a perder sua complexidade, esva-
operação. Os aparelhos solicitam um tipo de manuseio, destreza ziados de tudo que seja não planejado ou imprevisto. Inúme-
e conhecimento aparentemente ininterruptos, que são gratifi- ras, antigas e polivalentes formas de troca social foram trans-
cantes e podem também impressionar os outros como habili- formadas em sequências rotineiras de solicitação e resposta.
dade superior de fazer uso eficiente ou recompensador de recur- Ao mesmo tempo, o leque do que constitui uma resposta se
sos tecnológicos. O sentimento de engenhosidade individual dá torna convencional e, na maioria dos casos, é reduzido a um
a convicção temporária de que estamos do lado vencedor pequeno inventário de gestos ou escolhas possíveis. Dado
66 do sistema, de alguma forma saindo à frente; mas, ao fim, que nossas contas bancárias e nossas amizades podem ser 67
administradas por operações e gestos maquínicos idênticos, própria vida é indicada pelos títulos dos diversos guias best-
há uma crescente homogeneização do que eram áreas de ex- -sellers que nos dizem, com uma fatalidade sombria, quais são
periência completamente não relacionadas. Ao mesmo tempo, os mil filmes que devemos ver antes de morrer, os cem destinos
todos os bolsões remanescentes de vida cotidiana não dedica- turísticos que devemos visitar antes de morrer, os quinhentos
dos a fins quantitativos ou aquisitivos, ou que não podem ser livros que devemos ler antes de morrer.
adaptados à participação telemática, tendem a ser depreciados
e deixam de ser desejáveis. Atividades da vida real que não têm
seu correlato online se atrofiam ou perdem sua relevância. Há
uma assimetria insuperável que degrada todo evento ou troca
local. Graças à infinidade de conteúdo acessível 24 / 7, sempre
haverá online algo mais informativo, surpreendente, engra-
çado, divertido, impressionante do que qualquer outra coisa
nas circunstâncias reais imediatas. É hoje um fato que a dis-
ponibilidade ilimitada de informação ou imagens triunfa ou
prevalece sobre qualquer comunicação ou exploração de ideias
em escala humana.
Segundo o coletivo Tiqqun, nós nos tornamos habitantes
inócuos e flexíveis das sociedades urbanas globais.7 Mesmo
na ausência de qualquer compulsão, escolhemos fazer o que
nos mandam fazer; permitimos que nossos corpos sejam ad-
ministrados, que nossas ideias, nosso entretenimento e todas
as nossas necessidades imaginárias sejam impostos de fora.
Compramos produtos que nos foram recomendados pelo mo-
nitoramento de nossas vidas eletrônicas, e voluntariamente
deixamos feedbacks para outros a respeito do que compramos.
Somos o sujeito obediente que se submete a todas as formas de
invasão biométrica e de vigilância. E que ingere
comida e água tóxicas. E vive, sem reclamar, na 7  Ver Tiqqun,
vizinhança de reatores nucleares. A abdi- Théorie du Bloom.
Paris: La Fabri-
68 cação completa da responsabilidade pela que, 2004. 69
N
a abertura de La Jetée (1962), Chris Marker apre-
senta um futuro pós-apocalíptico, no qual os seres
humanos que sobreviveram habitam espaços abar-
rotados sob cidades em ruínas, permanentemente
exilados da luz do dia. Nesse futuro próximo, as au-
toridades realizam experiências desesperadas com formas pri-
mitivas de viagem no tempo, em busca de ajuda para escapar de
sua condição enclausurada. A deterioração e a perda de memó-
ria de todos, exceto alguns indivíduos, complementam o estado
de crise. O protagonista e sujeito das experiências foi escolhido
pela sua capacidade de reter uma imagem do passado. La Jetée
claramente não é uma história sobre o futuro, mas uma medita-
ção sobre o presente, nesse caso o início dos anos 1960, que Mar-
ker retrata como um tempo obscuro, à sombra dos campos de
extermínio, da destruição de Hiroshima e da tortura na Argélia.
Como o trabalho contemporâneo de Alain Resnais (Hiroshima
meu amor), Jacques Rivette (Paris nos pertence), Joseph Losey
(Malditos), Fritz Lang (Os mil olhos do dr. Mabuse), Jacques Tour-
neur (The Fearmakers) e muitos outros, o filme quer perguntar:
como permanecer humano diante de um mundo desolador,
quando os laços que nos conectam foram desfeitos e as formas
malévolas de racionalidade estão em pleno funcionamento?
Apesar de a resposta de Marker para essa questão permanecer
vaga, La Jetée afirma o caráter indispensável da imaginação para
a sobrevivência coletiva. Para Marker, isso implica misturar as
capacidades visionárias tanto da memória como da criação, o

Capítulo
que é feito pela imagem do protago-
nista privado da visão, vendado. Ape-

quatro
sar de a maior parte da narrativa do
filme consistir de imagens recordadas
ou imaginadas, um de seus pressupostos originais é esse modelo é “verdadeira”, em sentido afetivo, por sua capacidade de tornar
de um vidente cujas habilidades visuais regulares foram desati- verdadeira a intensidade de um momento vivido ou recordado.
vadas em circunstâncias que remetem à tortura e a experiências Por exemplo, quando o protagonista tem suas primeiras lem-
médicas desumanas da guerra e dos anos que a seguiram. branças (ou sonhos) do passado, não há dúvidas a respeito do
Marker se afasta aqui de concepções da visão “interior” que estado ontológico dessas imagens geradas internamente: são
pressupõem a autonomia e a autossuficiência de um vidente. pássaros “reais”, crianças “reais”, aparentemente mais autênti-
Em La Jetée, a liberdade subjetiva daquele que vê é limitada, em cos do que a prisão subterrânea que o cerca. Marker realiza sua
parte até direcionada, pela compulsão externa de sua situação, e obra em um momento em que, na França como em outros paí-
a recuperação (ou criação) extraordinária de imagens mentais ses, há uma consciência crescente dos efeitos entorpecentes de
ocorre em uma sobreposição ambígua de escassez e medo, de uma cultura padronizada e saturada de imagens. Ao resistir às
um lado, e o fluxo maravilhoso de uma vida interior, do outro. restrições e à administração técnica do presente, La Jetée exibe a
Marker está claramente familiarizado com as explorações pre- dificuldade extrema e a euforia de sua vocação central: “imagi-
cedentes do sonho e do devaneio (de Rousseau a Nerval, Proust, nar ou sonhar um outro tempo”. Marker defende a necessidade
Bachelard e outros), mas o devaneio do protagonista de La Je- de tal projeto visionário, mas também revela sua fragilidade e,
tée não é simplesmente a suspensão aleatória de si em um fluxo talvez, seu fracasso inevitável. Mas, para a década de 1960 que
de consciência. Na verdade, sua deriva entre imagens é sempre começava e para a geração seguinte, ele localizou um momento
contrabalanceada pelas exigências de um presente arruinado, utópico, não no futuro ainda por ser realizado, mas na imbrica-
pela ansiedade do estado de emergência e pela utilização do bio- ção de memória e presente, na inseparabilidade vivida de sono
poder para forçar sua cooperação mnemônica. Marker talvez e vigília, de sonho e vida, em uma visão onírica da vida como a
esteja aludindo ao poeta surrealista Robert Desnos, conhecido promessa inextinguível do despertar.
por sua capacidade de cair em estados de sono profundo pró- O momento mais célebre de La Jetée acontece quando a se-
ximos ao transe, durante os quais emitia jorros verbais oníricos. quência estática de fotogramas é brevemente suplantada pela
O mediúnico Desnos, que apresentava um programa de rádio so- ilusão cinematográfica de olhos humanos se abrindo, como
bre sonhos bastante popular nos anos 1930, estava condenado a se saíssem do sono. Essa aparência de vida animada (também
uma situação não muito diferente daquela retratada na abertura criada a partir de imagens estáticas) parece uma resposta indi-
de La Jetée: foi deportado para Auschwitz em 1944, transferido reta a Psicose (1960), de Hitchcock. Nesse filme de dois anos an-
para outros campos, e morreu de tifo dias após o fim da guerra. tes, Marker deve ter visto a tomada que Hitchcock faz de Janet
Muito da riqueza do filme de Marker vem do distancia- Leigh, depois do assassinato no chuveiro, esparramada de olhos
mento, em sua fotografia, de noções empíricas de reali- abertos no chão do banheiro. A impressão, mesmo depois
102 dade ou concepções realistas dessa mídia. Uma imagem de vermos a cena diversas vezes, é que um fotograma foi 103
utilizado para sugerir a imobilidade de um cadáver — um ator ponentes intimamente ligados da experiência de meados do
teria sido incapaz de suprimir de forma tão completa a moti- século xx. Na velha casa dos Bates, todas as identificações tradi-
lidade e o tremor na musculatura de olhos e rosto em uma to- cionais de lugar, família e continuidade foram reduzidas a uma
mada de mais de 25 segundos. Antes do corte da câmera, uma resistência mórbida a qualquer alteração da matriz doméstica
gota de água cai em seu cabelo, demonstrando abruptamente imaginária. Tempo, desenvolvimento e maturação foram inter-
que o rosto imóvel, cujos olhos estão abertos, foi mostrado em rompidos naquele espaço que lembra um museu, amplificado
“tempo real”, correspondendo ao som do chuveiro aberto. Em pelo recurso de Norman à taxidermia. Inventada nos anos 1820,
sua excelente análise dessa sequência, Laura Mulvey levanta a taxidermia já foi descrita como um exemplo de um paradigma
questões que também são relevantes para La Jetée: da “ressurreição”, no qual diferentes técnicas produzem a ilu-
são de vida a partir de algo morto ou inerte.2 A taxidermia está
O paradoxo, no cinema, da fronteira incerta entre imobilidade e presente tanto em Psicose como em La Jetée como um “efeito de
movimento também encontra uma visibilidade fugaz. A imobili- realidade” que é inerente à ilusão cinematográfica e fotográfica.
dade do cadáver é um lembrete de que os corpos vivos e em movi- Mas se Norman é o proprietário-curador da casa na colina
mento do cinema são apenas fotogramas animados e que a homo- “historicamente preservada”, é também o gerente daquele em-
logia entre imobilidade e morte volta para assombrar a imagem blema central do desenraizamento e da mobilidade modernos,
em movimento.1 o motel. Em seu anonimato degradado, o motel surge como um
terreno de importância lateral, sem profundidade, de fluxo e de
Mas o que liga Marker a Hitchcock nesse contexto é a forma permutabilidade, de uma vida temporária e provisória, nutrida
pela qual a relação particular de ambos com a base estática do apenas pela circulação do dinheiro, cujo objetivo principal é “ex-
movimento cinematográfico faz parte de intuições mais profun- pulsar a infelicidade”. As camadas verticais da casa de família
das a respeito da tessitura da experiência social contemporânea. petrificada e a deriva horizontal entre motel-estrada-desman-
Tanto La Jetée como Psicose revelam, no começo dos anos che de automóveis são partes interdependentes de um mundo
1960, como a transformação ou o congelamento da vida em coi- partido e cada vez mais inanimado. As palavras de abertura do
sas ou imagens perturba o padrão de tempo histórico no qual cine-romance La Jetée traduzem sua proximidade temática a um
toda mudança é possível. O caráter sombrio de Psicose vem elemento crucial da história de fundo em Psicose: “Esta é a histó-
da colisão devastadora de uma tentativa patológica de parar o ria de um homem marcado por uma imagem de infância, pela
tempo e as identidades no presente com o cará- 2  Ver Stephen
cena violenta que o perturbou...”. No entanto,
ter desenraizado e anônimo da modernidade. O 1  Laura Mulvey, Bann, The Clothing a configuração de memória, tempo e imagem
amálgama hitchcockiano de lar ancestral e Death 24x a Second.
Londres: Reaktion,
of Clio. Cambridge:
Cambridge Univer-
oferecida por Marker indica sua afiliação
104 motel de beira de estrada reúne dois com- 2006, pp. 87-88. sity Press, 1984. a uma herança intelectual muito dife- 105
rente, distante da ambivalência de Hitchcock em relação ao de- de ressonância magnética da atividade do córtex visual em pes-
sejo. A memória, para o indivíduo, pode estar danificada ou in- soas adormecidas para gerar imagens digitais que supostamente
completa, mas, como as estátuas arruinadas na visita ao museu representam os seus sonhos. Filmes de alto orçamento como
em La Jetée, contém pelo menos possíveis caminhos para a liber- A origem, de Christopher Nolan, aprofundam a noção de que os
dade individual. Mesmo a taxidermia no filme de Marker — ba- sonhos são realmente um produto que pode ser usado e manipu-
leias e outros mamíferos, uma amostra de história natural — não lado como outros tipos de conteúdo midiático. O apelo de fanta-
é uma natureza-morta perturbadora, mas um vislumbre, no sias como essa é reforçado pelo anúncio de desenvolvimentos no
presente, da ausência de tempo. Os objetos não são uma forma campo de pesquisas sobre o cérebro: por exemplo, a afirmação de
simbólica de sobrevivência face ao caráter destrutivo do tempo, que escâneres cerebrais em aeroportos e outros locais logo serão
mas uma apreensão do maravilhoso, de um real que está fora da capazes de detectar “pensamentos nocivos” de possíveis terroristas.
dualidade de vida / morte ou vigília / sonho. A evidente improbabilidade, ou o absurdo, de projetos como
Mas as rotas de fuga em La Jetée estão ameaçadas por poderes esses serem realizados importa menos do que a maneira como dão
institucionais que instrumentalizam o protagonista, transfor- forma e regulam a imaginação contemporânea. Está em curso
mando-o em objeto temporariamente útil, relegado em seguida uma grande transformação imaginária do sonho em algo como
ao status de coisa descartável. Em termos redutores, os elemen- um software de mídia ou um tipo de “conteúdo” ao qual, em
tos narrativos do filme de Marker podem ser ligados a um grande princípio, poderíamos ter acesso instrumental. Essa noção gene-
número de cenários de ficção científica, a partir dos anos 1950, ralizada de acessibilidade deriva de elementos da cultura popu-
no qual sonhos ou memórias são apresentados como fenômenos lar que surgiram em meados dos anos 1980 na ficção ciberpunk,
passíveis de exame e intervenção externos. (Em La Jetée: “A polí- mas que rapidamente contaminaram uma sensibilidade coletiva
cia do campo espionava até sonhos”.) Mas, na última década ou mais ampla. De diversas maneiras, houve o desenvolvimento
além, o que estava geralmente restrito aos limites especulativos de figurações para novos tipos de interface ou circuitos ligando
de um gênero de ficção popular se tornou parte de uma imagi- a mente ou o sistema nervoso a operações e fluxos de sistemas
nação coletiva, nutrida e reforçada por muitas fontes. Em sua externos. A ideia de uma conexão neurológica real a uma rede
forma básica, é o pressuposto difundido de que os sonhos podem ou matriz global refletia, na maioria dos casos, a valorização de
ser transformados em objeto, de que são entidades à parte que, estados intensos de exposição, seja a fluxos de imagens, de infor-
com o desenvolvimento da tecnologia necessária, poderiam ser mações ou de códigos. Um dos efeitos dessa imposição de um
gravados e de alguma maneira reproduzidos ou baixados. Nos modelo de input / output é a homogeneização da experiência
últimos anos, a imprensa divulgou de forma sensacionalista interna e dos conteúdos das redes de comunicação, e a redução
pesquisas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e completa do caráter infinitamente amorfo da vida mental
106 do Instituto Max Plank, em Berlim, que usavam dados a formatos digitais. O romance Altered Carbon (2002), de 107
Richard K. Morgan, é um exemplo de uma ampla categoria de vida individual e social, criando um campo de condições mar-
ficção atual que trata a consciência individual como algo que cadamente diferentes das décadas passadas. Ainda na década de
pode ser digitalizado, baixado, armazenado, instalado em um 1960, a crítica à cultura de consumo identificou as linhas gerais da
novo corpo e ter a capacidade de interagir com bancos infinitos dissonância entre ambientes saturados de imagens e produtos e o
de dados. Ao mesmo tempo, narrativas que apresentam em deta- indivíduo que, embora enredado em sua superficialidade e falsi-
lhes níveis tão delirantes de exposição são normalmente tratadas dade, percebia ainda que vagamente a discrepância fundamental
como fábulas de poder, apesar da total assimetria entre o indiví- desses ambientes em relação a seus desejos e necessidades vitais.
duo e a escala inconcebível da “rede”. A lição, em seus diferentes Consumiam-se sem cessar produtos que inevitavelmente deixa-
disfarces, demonstra como o heroísmo empreendedor é capaz de vam de cumprir suas promessas originais, ainda que fraudulentas.
ultrapassar essa assimetria e tirar proveito de suas incomensu- Agora, no entanto, a existência de uma divergência entre o mundo
rabilidades para nosso benefício individual. O problema, nesse humano e o funcionamento de sistemas globais capazes de ocupar
caso, não deve ser interpretado como a permeabilidade entre cada hora de vigília de nossas vidas parece uma ideia datada e im-
uma vida interior imaculada e técnicas e processos externos. An- pertinente. Há muita pressão para que os indivíduos reimaginem
tes, é sinal de uma tendência maior de reconceber todas as face- e reconfigurem-se a si mesmos, identificando-se com as uniformi-
tas da experiência individual como contínuas e compatíveis com dades e valores das mercadorias, bem como dos vínculos sociais
as exigências do acelerado consumismo 24 / 7. Ainda que o ato de desmaterializados nos quais estão tão profundamente imersos.
sonhar sempre escape de tal apropriação, ele é inevitavelmente A reificação chegou ao ponto de o indivíduo precisar inventar uma
representado culturalmente como um software ou conteúdo concepção de si que otimiza ou viabiliza sua participação em am-
destacável do eu, algo que pode circular eletronicamente ou ser bientes e velocidades digitais. Paradoxalmente, isso significa as-
publicado como vídeo na internet. É parte de um conjunto maior sumir um papel inerte e inanimado. Essas expressões específicas
de processos no qual tudo que já foi considerado pessoal tem de talvez pareçam profundamente inadequadas para oferecer uma
ser recriado e distribuído a serviço do acréscimo de valor mone- descrição da emulação e da identificação com os acontecimentos
tário ou prestígio às nossas identidades visuais. e processos instáveis e intangíveis com os quais nos envolvemos
Apesar das críticas de que foi alvo nas últimas décadas, é óbvia por meio da tecnologia. Porque não podemos literalmente entrar
a importância do conceito de reificação, ou qualquer abordagem em nenhuma das miragens eletrônicas que formam o mercado co-
a ele relacionada, para a compreensão do capitalismo global e da nectado do consumo global, somos obrigados a inventar compati-
cultura tecnológica. De um ponto de vista marxista ou não, não bilidades fantasmagóricas entre o humano e um reino de escolhas
há como ignorar o quanto a internet e as comunicações digitais que é profundamente incompatível com a vida.
se tornaram o motor da financeirização e mercantilização Não é possível harmonizar seres vivos reais com as de-
108 implacáveis de um número cada vez maior de esferas da mandas do capitalismo 24 / 7, mas existem inúmeros in- 109
centivos para suspender ou disfarçar ilusoriamente algumas das o romance de Dick, animais vivos são uma das mercadorias
limitações humilhantes da experiência vivida, seja emocional ou mais raras, uma vez que a maioria foi extinta devido ao colapso
biológica. Figurações do inerte ou do inanimado também operam ambiental e à radiação nuclear. Grandes corporações investem
como um escudo protetor ou entorpecente, que impede o reco- nos poucos que restam, e apenas os muito ricos podem possuí-
nhecimento do caráter dispensável da vida nos arranjos econômi- -los. O máximo que uma pessoa de classe média pode comprar é
cos e institucionais contemporâneos. Há uma ilusão difundida de um animal cibernético artificial, no geral idêntico a um animal
que, quanto mais a biosfera terrestre é aniquilada ou irreparavel- vivo, com a exceção de que ele não tem consciência da existência
mente danificada, os seres humanos podem magicamente se dis- de pessoas e é capaz apenas de respostas programadas, perma-
sociar dela e transferir suas interdependências à mecanosfera do necendo no fundo uma coisa irredutível e insensível. Daí a im-
capitalismo global. Quanto mais nos identificamos com os subs- portância, no livro, da lista de preços regularmente publicada
titutos eletrônicos virtuais do eu físico, mais parecemos simular com os valores correntes de qualquer espécie de animal vivo so-
nossa desobrigação do biocídio em curso por todo o planeta. Ao brevivente (o Catálogo Sidney de Animais & Aves). Dick relata o
mesmo tempo, nos tornamos assustadoramente indiferentes à momento no qual o personagem principal vê um guaxinim de
fragilidade e à transitoriedade das coisas vivas reais. verdade na vitrine dos escritórios de uma empresa de robótica:
No mercado contemporâneo, os diversos produtos e serviços
que prometem “reverter o processo de envelhecimento” não ape- Não era surpresa o que sentia, mas algo mais parecido com um anelo.
lam para o medo da morte, mas antes oferecem maneiras super- Em silêncio, afastou-se da moça em direção à jaula mais próxima. Já
ficiais de simular as propriedades e temporalidades não humanas lhes sentia o cheiro, os vários odores das criaturas, de pé, sentadas,
das zonas digitais que habitamos durante boa parte do dia. Da ou, no caso do que pareceu ser um guaxinim, adormecidas.
mesma maneira, a crença de que podemos subsistir independen- Nunca em toda sua vida vira ele antes um guaxinim. [...] Numa
temente da catástrofe ambiental é paralela às fantasias de sobre- reação automática, tirou do bolso seu muito consultado catálogo
vivência ou prosperidade individual no contexto da destruição da Sidney e olhou o guaxinim, com todas as sublistagens. Os últimos
sociedade civil e da eliminação de instituições que guardem qual- preços, claro, constavam em itálico: como os cavalos de Percheron,
quer aparência de proteção social ou de apoio mútuo, seja educa- nenhum existia à venda no mercado, por qualquer preço. O catá-
ção pública, serviço social ou saúde para os necessitados. logo Sidney simplesmente mencionava o preço ao qual fora feita a
Esse remapeamento da experiência de reificação pode ser última transação envolvendo um guaxinim. Era astronômico.
ilustrado pela disparidade de duas obras relacionadas, uma
dos anos 1960 e outra dos anos 1980: o romance O caçador de A própria etiqueta de preço, o valor em dólares, é o locus de um
androides, de Philip K. Dick, e o filme Blade Runner, diri- anseio profundo e de vazio emocional. Mesmo abstrata-
110 gido por Ridley Scott. No futuro próximo em que se passa mente, o preço se torna o signo sobrecarregado de nosso 111
sentimento de assombro e desejo por algo vivo e vulnerável anos 1990. Em vez de rastrear a cisão entre o eu e seu meio, o
como nós mesmos, algo capaz de superar o que Dick chama de filme afirma a assimilação funcional do indivíduo aos circui-
“a tirania do objeto”. tos e mecanismos de um campo expandido de mercantilização.
Boa parte de sua obra de ficção é uma análise pungente do Torna emocionalmente confiável o limiar sombrio no qual os
custo subjetivo de viver em uma realidade submetida a anula- produtos tecnológicos das corporações se convertem em objetos
ção e demolição contínuas. Dick é o cronista eminente de um de nossos desejos, de nossas esperanças. O filme dá corpo aos es-
mundo fantasmagórico, saturado de mercadorias e colorido paços indiferenciados nos quais máquinas e humanos são inter-
pela transitoriedade e pela perda. Os romances de Dick, espe- cambiáveis, nos quais distinções entre vivo e inanimado, entre
cialmente os escritos entre 1964 e 1970, normalmente acompa- memórias humanas e implantes de memórias fabricadas, per-
nham um indivíduo que, de forma limitada, resiste, mas no dem o sentido. A desorientação distópica de Blade Runner pode
geral apenas luta, para sobreviver à deterioração do mundo em parecer representar a tessitura de um paraíso perdido, mas já
curso. Sua obra oferece uma das grandes análises literárias dos não existem recordações para sequer lamentar essa perda.
custos psíquicos da reificação, do que ele chama de “uma abs- Muitas décadas depois, uma indiferenciação semelhante im-
tração maligna peculiar” da cultura do capitalismo de meados pregna a maioria das áreas na cultura tecnológica de massa. A
do século xx. Dick descreve um campo social que foi repetida- representação ficcional dos sonhos como algo que pode ser aces-
mente refeito e modernizado, mas que preserva uma imagem sado e transformado em objeto é apenas parte do pano de fundo
de um presente estratificado e coberto pelos detritos ou pela per- na demanda infindável pela terceirização de nossas vidas para
sistência abjeta de fases anteriores da modernização. Na obra de formatos digitais pré-fabricados. Em uma hiperexpansão da ló-
Dick, estamos presos, em meio a coisas inexoravelmente conde- gica do espetáculo, ocorre uma remontagem do eu que resulta
nadas, a uma inutilidade esquálida que se insinua como condi- em um novo híbrido de consumidor e objeto de consumo. Se
ção da experiência humana. algo tão privado e aparentemente interior como o sonho é agora
Mas a recusa em capitular com as leis de uma existência rei- objeto de máquinas de ressonância sofisticadas, podendo ser
ficada em O caçador de androides abre espaço para algo muito di- imaginado na cultura de massa como conteúdo que pode ser bai-
ferente na versão cinematográfica. A descrição, no romance, da xado, há então poucos obstáculos à objetificação daquelas partes
destruição ininterrupta e mesquinha da experiência individual da vida individual que podem ser mais facilmente realocadas em
é transformada em uma celebração desenganada da petrificação formatos digitais. Todos, dizem-nos — não apenas empresas e
e da “abstração maligna” frente à qual Dick recuou. Lançado du- instituições —, precisam de uma “presença online”, de exposição
rante os primeiros anos da era Reagan-Thatcher, Blade Runner é 24 / 7, a fim de evitar a irrelevância social ou o fracasso profissio-
um esboço da reconfiguração da cultura de consumo glo- nal. Mas a promoção desses supostos benefícios acoberta a
112 bal emergente que se estabeleceria mais solidamente nos transferência da maioria das relações sociais a formas mo- 113
netizadas e quantificáveis. É também uma mudança das condi- Apenas no século xvii esse elemento singular do sonho começa
ções da vida individual que tornam a privacidade impossível e a ser marginalizado e cair em descrédito. O sonho não pode ser
que nos transformam em local permanente de coleta de dados acomodado em concepções da vida mental baseadas na per-
e vigilância. Acumulamos um mosaico de identidades substi- cepção sensorial empírica ou no pensamento racional abstrato.
tuíveis que subsistem 24 / 7, sem dormir, continuamente, como Mesmo antes, em meados do século xv, com o desenvolvimento
personificações inanimadas mais do que como extensões do eu. de técnicas de representação elaboradas e quantificadas com o
Inanimado aqui não significa a ausência literal de movimento, objetivo de excluir a falta de lógica e a inconsistência das visões
mas antes uma liberação simulada dos estorvos de estar vivo que oníricas, a possibilidade de um jogo entre sonho e vigília na arte
são incompatíveis com a circulação e com a troca. O empobreci- europeia fora rejeitada. Certamente, atitudes antissistêmicas
mento sensorial, a redução da percepção do hábito e as respostas em relação ao sono e ao sonho persistiram nas franjas de um
programadas, são resultados inevitáveis de nosso alinhamento Ocidente em processo de modernização, apesar do processo
aos inúmeros produtos, serviços e “amigos” que consumimos, amplo de expropriação e incapacitação nos séculos xviii e xix,
administramos e acumulamos durante a vigília. quando o sonho foi separado de todo vínculo residual com vi-
sões de mundo mágico-teológicas. A capacidade imaginativa do
sonhador foi implacavelmente erodida, e o papel do visionário
Algumas das questões mais básicas em torno do sono e do sonho, foi deixado para uma minoria tolerada de poetas, artistas e lou-
ainda relevantes hoje, foram colocadas por Aristóteles. Ele re- cos. A modernização não poderia continuar em um mundo po-
sistiu à tentação de tratar o sono como um estado monolítico, voado por um grande número de indivíduos que acreditavam no
apenas o contrário da vigília, porque a experiência para aquele valor ou potência de suas próprias visões ou vozes internas.
que dorme não cessa. Ele queria saber o status preciso dos dados A partir do século xix, novas indústrias da imagem (e depois,
perceptivos chamados de sonho. Em que medida são processos do áudio) transformaram de maneira fundamental a própria
de imaginação, sensoriais ou apenas psicológicos? Aristóteles possibilidade de experiências “visionárias”. Nas décadas de 1830
e seus contemporâneos, assim como a maioria das sociedades e de 40, aumentou o número de pesquisas a respeito das caracte-
pré-modernas, criaram distinções qualitativas entre os tipos de rísticas da visão humana consideradas “subjetivas” ou pertencen-
sonhos — por exemplo, entre aqueles que pareciam apenas re- tes ao corpo como resultado de causas ou ações internas. A catego-
petir as emoções e eventos do passado recente e os sonhos mais ria mais importante era a de pós-imagens produzidas na retina,
raros que pareciam ter força profética ou de revelação. Apesar fenômenos ligados ao sistema nervoso e aos olhos, vividamente
de toda a diversidade de concepções desde a Antiguidade até os discerníveis para o sujeito de olhos fechados. Uma grande quanti-
anos 1500, aceita-se quase universalmente que o sonho é dade de estudos científicos sobre a duração das pós-imagens
114 algo intrínseco à vida dos indivíduos e das comunidades. conduziu rapidamente ao desenvolvimento de tecnologias 115
por meio das quais a experiência perceptiva podia ser externa- dominava durante a vigília, quando a vida psíquica ainda era
mente produzida para um novo tipo de consumidor visual.3 En- jovem e inepta, parece ter sido banido para a vida noturna [...]
tre elas, o fenacistoscópio, o zootropo e mais tarde uma varie- O sonhar é uma parcela de vida psíquica infantil superada.”5 O
dade de outros divertimentos pré-cinematográficos. No entanto, sonho era motivo de inquietação para Freud tanto quanto os
uma classe bastante diferente de eventos visuais subjetivos tam- estados de transe, e seu trabalho nesse campo é um leito de Pro-
bém foi explorada, a partir dos anos 1830, muitas vezes pelos custo no qual ele tentou domar o que estava além de seu con-
mesmos pesquisadores. Muito mais resistentes à quantificação trole e compreensão. Ainda que estejamos há algum tempo na
e ao controle, ficaram conhecidas como imagens hipnagógicas: era pós-freudiana, versões redutoras de suas ideias se tornaram
acontecimentos visuais multiformes (frequentemente insepará- senso comum para muitos que jamais leram sequer uma pala-
veis de outros sentidos) exclusivos de um estado de consciência vra de sua obra.
que paira entre a vigília e o sono. No entanto, o conhecimento O truísmo amplamente aceito de que todo sonho é a expres-
a respeito desse fenômeno de evasão não tinha claramente ne- são confusa e disfarçada de um desejo reprimido é uma redução
nhuma aplicação prática ou comercializável, e ao final do século colossal da multiplicidade de experiências do sonho. A predispo-
xix o estudo de imagens hipnagógicas cessou, ou se restringiu sição de boa parte da cultura ocidental para aceitar as linhas gerais
principalmente a pesquisas sobre condições patológicas, esta- dessa tese é apenas evidência de quanto a primazia do desejo e da
dos de dissociação ou distúrbios de perso- 3  Ver meu livro Tech- necessidade individuais penetrou e deu forma à autocompreensão
nalidade. Como um posfácio, quase um niques of the Observer. burguesa no começo do século xx. Como disseram Ernst Bloch e
século depois, Italo Calvino observou que Cambridge, ma: mit
Press, 1991 [ed. bras.:
outros, a natureza dos desejos e impulsos passou por mudanças
a civilização como um todo estava prestes Técnicas do observador: históricas enormes nos últimos quatrocentos anos.6 Isso sem fa-
a “perder uma faculdade humana funda- Visão e modernidade no
século xix, trad. Verrah 5  Sigmund Freud, The
lar de um período ainda maior durante
mental: a capacidade de focar visões de Chamma. Rio de Janeiro: Interpretation of Dreams, trad. o qual a noção de “desejo individual” tal-
Contraponto, 2012]. James Strachey. Nova York:
olhos fechados”.4 Avon, 1965, p. 606 [ed. bras.:
vez não tivesse sentido algum. Pouco
O momento mais pleno de consequên- 4  Italo Calvino. Six A interpretação dos sonhos, mais de um século depois, não é difícil
trad. Renato Zwick. Porto
cias para a desvalorização do sonho talvez Memos for the Next Alegre: l&pm, 2013, p. 595]
ver a irrelevância de algumas afirma-
tenha ocorrido no último ano do século Millenium. Cambridge,
ma: Harvard University
ções de Freud. É impossível agora ima-
xix, quando Freud terminou A interpreta- Press, 1988, p. 92 [ed. 6  Ernst Bloch. The Principle ginar um desejo ou uma vontade indi-
Seis propostas para of Hope, v. 1. Cambridge, ma:
ção dos sonhos. Aqui ele caracterizou o so- bras.:
o novo milênio. Lições ame- mit Press, 1986, pp. 49-50 [ed.
vidual tão inconfessável que não possa
nho, em uma formulação famosa, como ricanas, trad. Ivo Barroso. bras.: O princípio esperança, ser conscientemente reconhecido e rea-
uma protegida arena de irracionali- São Paulo: Companhia
das Letras, 2002, pp.
v. 1, trad. Nélio Schneider.
Rio de Janeiro: Contraponto,
lizado de forma substituível. Hoje,
116 dade primitiva: “Aquilo que outrora 107-08]. 2005, pp. 53-54]. durante as horas de vigília, reality 117
shows e sites da internet reproduzem em detalhes todo romance realista. Estimulado pela obra de Freud, mas ciente de seus limi-
ou tensão familiar “proibidos”, enquanto a pornografia online e tes, Breton imaginou uma reciprocidade ou circulação criativa en-
games violentos satisfazem qualquer desejo antes inominável. O tre eventos da vigília e os sonhos, que seria parte de uma revolução
inconfessável, agora, nesse ambiente, é qualquer desejo pela re- no terreno da vida cotidiana. Sua intenção era desfazer qualquer
versão de condições onipresentes de isolamento social, injustiça oposição entre agir e sonhar, e afirmar que um nutria o outro. Mas
econômica e compulsório interesse próprio. no início dos anos 1930, quando Breton escreveu, essas propostas
Mas a privatização dos sonhos por Freud é apenas um si- colidiram com pressupostos predominantes na esquerda, segundo
nal de uma supressão maior da possibilidade de seu significado os quais o compromisso com a práxis revolucionária parecia ser a
transindividual. Por todo o século xx, pensou-se que os anseios antítese do sonho enquanto mero anseio impotente pela mudança.
estivessem ligados exclusivamente a necessidades individuais — O curso subsequente dos eventos na Europa nos anos 1930 tornou
desejar a casa dos sonhos, o carro dos sonhos ou férias. Freud a relevância política das propostas de Breton mais improvável.
foi um dos muitos para quem o grupo ou comunidade desem- Mesmo assim, suas páginas em Os vasos comunicantes, nos quais
penhava apenas um papel regressivo na economia dos desejos, e imagina Paris vista ao amanhecer do alto da Sacré-Coeur, são uma
sua obra é apenas um exemplo do horror burguês à multidão, ou evocação extraordinária dos anseios e poderes coletivos latentes de
à horda, cujas ações grupais eram recusas inevitavelmente im- uma multidão de indivíduos adormecidos.7 Ele capta, no limiar
pensadas e infantis da responsabilidade individual madura. Mas entre escuridão e luz, entre a restauração do sono e o dia de tra-
a redução psicanalítica não apenas proíbe anseios e necessidades balho, uma colaboração ainda por vir entre trabalho e sonho que
que transcendam o desejo e a vontade individuais de possuir; ela animará a “eliminação do mundo capitalista”. Não é de admirar
também recusa a possibilidade do sonho como uma convergên- que Freud reagisse a esse texto, enviado a ele por Breton, com in-
cia incessante e turbulenta do presente vivido com fantasmas de compreensão condescendente.
um futuro fugidio e ainda indiscernível. Cerca categoricamente Mas pelo menos a psicanálise se interessou, ainda que de
todo sonho, todo anseio, em um campo fechado de eventos es- maneira limitada, pelo sonho, tratando-o como um estado
quecidos dos primeiros anos de nossas vidas, e incapacita ainda que podia fornecer indiretamente conhecimento de processos
mais o indivíduo que sonha ao restringir ao analista a capacidade inacessíveis à investigação empírica (pelo menos antes das no-
de compreendê-los. Os sonhos talvez sejam veículos de anseios, vas ferramentas das ciências neurológicas).
mas os anseios em questão são os desejos humanos insaciáveis de 7  André Breton, Muito mais predominantes hoje são o desdém
Communicating
exceder o confinamento isolador e privatizante do eu. Vessels, trad. Mary
e a indiferença que tratam o sonho como um
Entre as poucas vozes no século xx a fazer a defesa da impor- Ann Caws e Geoffrey mero ajuste autorregulatório da sobrecarga
T. Harris. Lincoln:
tância social do sonho, uma das mais conhecidas era André Nebraska University
sensorial da vigília. O conteúdo especí-
118 Breton, apoiado por seus pares, como Desnos, do grupo sur- Press, 1990. fico do sonho, seja semântico ou afetivo, 119
é essencialmente irrelevante para as explicações neuroquímicas. encarceramento em massa de milhões de afro-americanos tem
Com a exceção de literatura new age e terapias centradas no so- origem nas consequências dos levantes urbanos dos anos 1960.
nho como caminho para o “crescimento interin” ou autoconhe- Mas uma contrainsurgência paralela, que tomou forma no
cimento, a maioria das pessoas ignora e não se interessa por sua final dos anos 1970, era fundamentalmente ideológica, apesar
própria produção periódica de sonhos, que talvez pareça, na su- de seu amplo escopo. Seu alvo era uma constelação provisória de
perfície, uma série de versões lamentavelmente fragmentárias formas de sociabilidade que deviam ser destruídas ou deforma-
ou deficientes de como a mídia de massa representa o sonho. das para produzir aquiescência ao desenvolvimento global de
Estamos em uma era na qual há uma proibição geral de an- formas mais hostis do capitalismo financeiro e da expansão da
seios não ligados à aquisição, à acumulação e ao poder individuais. monetização da vida cotidiana. Entrelaçado aos movimentos es-
Em um mundo 24 / 7, esses limites são tanto impostos pelo próprio pecificamente políticos dos anos 1960 havia um leque amplo de
indivíduo quanto de fora, mas a possibilidade de autorregulação desafios informais às exigências institucionais por privatização,
é o resultado de desenvolvimentos que remontam a muitas déca- segregação social, à ganância do consumismo e à manutenção
das. Assim como atacou o tipo de compromisso social associado ao de hierarquias de classes. Eram desafios colocados de forma vaci-
New Deal, o neoliberalismo também exigiu o desmantelamento lante, ingênua, incompleta — por meio de ações e da criatividade
e a erradicação das conquistas políticas e sociais concretas dos de novas coletividades e subjetividades, mas também pela defesa de
anos 1960. Um leque de esperanças, ideias e práticas retrospectiva- comunidades existentes. Entre elas estavam a ocupação temporá-
mente associadas às culturas dos anos 1960 nos Estados Unidos e ria e a ativação de espaços sociais, a demanda por noções desin-
em partes da Europa teve de ser eliminado ou posto em descrédito. dividualizadas do corpo e do eu, experimentos com linguagem e
Como disseram,de forma convincente, Immanuel Wallerstein e formas alternativas de troca, a criação de novas sexualidades e a
outros, é um equívoco não retratar 1968 como a crista de uma re- preservação de marginalidades definidas não por um centro re-
volução mundial sem precedentes em escala, composta de lutas pressivo, mas pelas suas próprias formas instáveis de organização.
plurais em muitas esferas com determinantes complexos. Igual- Das muitas camadas da cultura e da política dos anos 1960,
mente, os últimos trinta anos ou mais têm de ser entendidos como diversos fenômenos difundidos e inter-relacionados exigiram
uma longa fase de contrarrevolução contínua. Obviamente, a di- reação e erradicação resolutas no longo prazo. O principal, talvez,
mensão das insurreições antissistêmicas na Ásia, América Latina tenha sido a compreensão coletiva e individual a que se chegou,
e nos guetos urbanos dos Estados Unidos exigiu o uso massivo de a partir de experiências diretas nos anos 1960, de que a felici-
formas interconectadas de violência econômica, penal e militar dade poderia não estar relacionada a propriedade, aquisição de
ao longo desse período — formas de violência que continuam a produtos ou status individual, e poderia, em vez disso, emergir
evoluir no presente, à medida que uma nova onda de lutas diretamente da vida compartilhada e da ação de grupos. As
120 e “primaveras” começou a se formar. Por exemplo, o atual palavras de Gary Snyder, ditas em 1969, representam uma 121
das muitas articulações desse éthos difundido, ainda que de vida de sonhos praticamente enterrados do século xix, quando a pos-
breve: “A verdadeira riqueza é não precisar de coisa nenhuma”. sibilidade de um socialismo de auxílio mútuo, de um mundo
Igualmente ameaçadoras ao poder foram as novas formas de asso- desprovido de propriedade privada, floresceram como elementos
ciação que introduziram uma permeabilidade ainda que limitada visíveis de uma imaginação coletiva contestada.
de classes sociais e um conjunto de afrontas à sacralidade da pro- O impulso principal da contrarrevolução foi a eliminação ou
priedade privada. Os incentivos e promessas quiméricos de mobi- a financeirização de arranjos sociais que haviam previamente
lidade ascendente começaram a perder seu efeito sobre os jovens, oferecido apoio a muitos tipos de atividades cooperativas. De-
e houve contestações generalizadas, ainda que difusas, à centrali- vido à apropriação de espaços e recursos públicos pela lógica do
dade e à necessidade do trabalho. “Abandonar” escola ou trabalho mercado, as pessoas foram expropriadas de diversas formas co-
era mais fundamentalmente desafiador em um nível sistêmico letivas de apoio mútuo e compartilhamento. Uma prática sim-
do que muitos gostariam de admitir. Os anos 1980 assistiram ao ples e difundida de cooperação como a carona foi transformada
começo de uma campanha contínua pela transformação da po- em um evento de alto risco com consequências temerosas, pos-
breza material em algo vergonhoso e repulsivo. O movimento sivelmente letais. Agora chegamos ao ponto de termos leis em
antiguerra havia gerado uma identificação ampla com o pacifismo partes dos Estados Unidos que criminalizam a doação de comida
e empatia pública com as vítimas da guerra; mas nos anos 1980 as para moradores de rua ou para imigrantes sem documentos.
condições que alimentavam essas correntes tiveram de ser elimi- Fredric Jameson e outros revelaram os detalhes do funcio-
nadas e substituídas em todas as áreas por uma cultura da agres- namento de uma proibição cultural, no nível estrutural, que
sividade e da violência. O fato de milhões de norte-americanos impede até mesmo a imaginação de alternativas ao isolamento
supostamente liberais ou progressistas agora assumirem que desolador da experiência individual na dinâmica competitiva
“apoiam as tropas”, enquanto permanecem em silêncio a respeito da sociedade capitalista. As possibilidades de uma vida não mo-
dos milhares assassinados em guerras imperialistas, atesta o su- nádica ou comunitária se tornam impensáveis. Em 1965, uma
cesso dessas medidas reacionárias. A partir dos anos 1980 e desde imagem negativa típica da vida coletiva era, por exemplo, a dos
então de maneira contínua, esses eventos dos anos 1960 e seus bolcheviques instalando famílias soturnas de trabalhadores na
participantes foram ferozmente convertidos em caricaturas ocas, casa espaçosa e impecável do dr. Jivago no filme de David Lean.
em objetos de ridículo, demonização e banalização. Mas a exten- No último quarto de século, o comunitário tem sido apresen-
são e a crueldade das falsificações históricas são uma indicação do tado como o pior dos pesadelos. Por exemplo, em um retrato
perigo que a cultura dos anos 1960 representou, mesmo após sua neoconservador recente da Revolução Cultural chinesa, as me-
morte. Apesar de as experiências do período com formas de co- didas contra a propriedade privada e os privilégios de classe e em
munitarismo parecerem talvez novas em relação à esquerda favor de formações sociais coletivas são comparadas aos
122 dos anos 1930 e 1940, elas foram em parte o ressurgimento crimes mais monstruosos da história mundial. Em uma 123
escala menor, há as incontáveis narrativas das comunidades, bitam — um problema não menos agudo hoje do que quando
similares a cultos, de convertidos obedientes controlados por foi escrita, no final dos anos 1950. Entre seus diversos temas in-
loucos homicidas e manipuladores cínicos. Ecoando temores ter-relacionados, abordava a nossa relativa incapacidade de ver
burgueses finisseculares, após 1871, a ideia de comunidade de- a natureza da nossa situação no mundo. Para o bem ou para o
rivada de qualquer forma de socialismo continua a ser sistemi- mal, Sartre tomou a decisão de usar a expressão, um tanto pe-
camente intolerável. A cooperativa, enquanto conjunto vivido sada, “prático-inerte” como categoria crucial da realidade social.
de relações, não pode ser mostrada — só pode ser representada Mas o caráter desajeitado desse neologismo transmite algo do
como uma paródia das relações de dominação existentes. De paradoxo da vida pública e privada zumbindo com uma quan-
muitas formas diferentes, o ataque a valores de coletividade e tidade inimaginável de atividade, enquanto toda essa animação
cooperação é articulado por meio da noção de que a liberdade e atividade inquietas estão a serviço de uma paralisia real, da
é estar livre de qualquer dependência em relação aos outros, manutenção da inércia das relações existentes.
enquanto na verdade vivemos uma sujeição mais completa ao O prático-inerte foi assim a maneira de Sartre designar o
funcionamento “livre” dos mercados. Como mostrou Harold mundo cotidiano sedimentado, institucional, constituído pela
Bloom, a verdadeira religião norte-americana é “ser livre de energia humana, mas que se manifesta como o imenso acúmulo
outras pessoas”. Nos círculos acadêmicos, o ataque da direita de atividade passiva rotineira. Funciona como uma ilusão coletiva
à cooperação é reforçado pela moda intelectual de denunciar a que transforma a experiência da solidão e da impotência indivi-
ideia ou possibilidade da comunidade por suas supostas exclu- duais em algo aparentemente natural ou inevitável. “O campo
sões e tendências fascistas latentes. Uma das principais formas prático-inerte é o campo de nossa servidão [...] às forças ‘maquina-
de controle dos últimos trinta anos tem sido garantir que não das’ e aos aparelhos ‘antissociais’.” Seu termo central para essa
haja alternativas visíveis a padrões privatizados de viver. impotência é “serialidade”, e com ele Sartre oferece sua análise
A Crítica da razão dialética, de Jean-Paul Sartre, uma das monumental da produção contínua da solidão como um lastro
grandes obras de pensamento social dos anos 1960, oferece uma fundamental do capitalismo. A serialidade é a dispersão da cole-
descrição poderosa de como um mundo-da-vida monádico é tividade em um agregado de indivíduos emancipados que se rela-
perpetuado e tornado invisível. Mas esse livro, depreciado ou cionam entre si apenas na base de identidades ocas ou narcísicas.
ignorado durante o auge da desconstrução nos Estados Unidos Aos exemplos famosos de Sartre, de permanecer em uma fila
na era Reagan-Thatcher, é notavelmente relevante para as tes- para tomar um ônibus, ficar preso no trânsito e fazer compras
situras transformadas do cotidiano contemporâneo. Central no supermercado, poderíamos acrescentar a quantidade incom-
à Crítica é sua meditação a respeito das estratégias sistêmicas preensível de tempo gasto hoje em atividades e trocas eletrônicas
de separação que impedem que a realidade objetiva da sem sentido. Seja em meados do século xx ou hoje, a seria-
124 vida cotidiana seja percebida pelos indivíduos que a ha- lidade é a produção entorpecente e incessante do mesmo. 125
É o peso de todas as contrafinalidades que inexoravelmente agem bilidade, e muitas seções da Crítica são dedicadas a longas análi-
contra nossas próprias intenções, amores e esperanças. ses da emergência de grupos fundidos em lutas revolucionárias
Não por acaso, Sartre — como muitos outros críticos euro- e anticoloniais específicas. Para Deleuze e Guattari o modelo de
peus — se valeu de Técnica e civilização, de Lewis Mumford, um Sartre é “profundamente correto”.9 Eles o veem como a inversão
estudo histórico de formas racionalizadas de organização social de ideias feitas a respeito da luta de classes: para Sartre, a esponta-
que dependiam da automatização do comportamento, do treina- neidade de classe não existia; apenas a espontaneidade do grupo.
mento de homens para funcionarem de forma habitual e repeti- Ser tão somente membro de uma classe ou de um partido político
tiva. Sartre descreve não apenas o isolamento individual, mas a era permanecer preso a uma identidade serial. Apenas um ato
serialidade que subjaz a situações de caráter manifestamente co- perceptivo — um modo não habitual de olhar –poderia disparar a
letivo ou grupais. Ele usa a noção de “recorrência” para explicar derrubada do prático-inerte, pelo reconhecimento esclarecedor
como formas de conformismo e homogeneidade de massa são de nosso próprio pertencimento imediato e vivido a um grupo de
geradas na cultura imaterial ou material. Sua análise extraordi- indivíduos com as mesmas experiências materiais e subjetivas.
nária do rádio oferece um modelo vital e relevante para debates Para resumir, significa discernir, em um momento carregado de
recentes sobre as consequências das redes sociais e de telecomu- amargura ou raiva, uma condição comum e uma interdependên-
nicação. O rádio era um exemplo do que ele chamou de “ajunta- cia. É necessário um salto de consciência para apreender nos ou-
mentos indiretos”, e produzia “somente a unidade fora de si na tros nosso próprio alheamento, e essa descoberta seria a base da
matéria orgânica dos indivíduos: mas determina-os na separa- “liquidação da serialidade” e sua “substituição pela comunidade”.
ção e garante, na medida em que estão separados, a comunicação Era uma nova visão da realidade a fim de incluir a compreensão
entre eles pela alteridade”.8 É pena que seu plano para um estudo de que existem objetivos e projetos compartilhados, que aquilo
da televisão no segundo volume da Crítica jamais tenha sido rea- que mais queremos não pode ser obtido individualmente, mas
lizado, apesar de suas notas para essa seção terem sobrevivido. apenas pela práxis comum de um grupo, mesmo que o grupo ou
O projeto sartriano de compreensão histórica converge com comunidade assim formado seja historicamente passageiro.
um tipo muito diferente de grupo em sua teo- 8  Jean-Paul Sartre, 9  Gilles Deleuze
De maneira óbvia, essa seção da Crítica
rização do “grupo fundido” ou “grupo em fu- Critique of Dialectical e Félix Guattari, levanta questões cruciais a respeito da na-
são”. É apenas por meio dessa formação privi- Reason, v. 1, trad. Alan
Sheridan-Smith.
Anti-Oedipus, trad.
Mark Seem. Nova
tureza ou possibilidade de movimentos re-
legiada e precária que existe uma rota possível Londres: Verso, 1976, York: Viking, 1977, volucionários hoje, e sobre como grupos
271 [ed. bras.: Crítica p. 256 [ed. bras.: O
para fora do pesadelo da serialização e do iso- p.da razão dialética, anti-Édipo: Capitalismo
realmente se formam. Também pergunta
lamento. Seu aparecimento na história signi- trad. Guilherme João e esquizofrenia, trad. se formas atuais de segregação eletrônica e
fica a realização de um grupo cuja práxis de Freitas Teixeira.
Rio de Janeiro: dp&a,
Luiz B. L. Orlandi.
São Paulo: Editora 34,
administração perceptiva são parte de
126 é capaz de criar novas formas de socia- 2002, p. 376]. 2010, p. 340]. condições que poderiam inibir ou des- 127
viar os processos que Sartre examina. De que maneiras os novos zado”. Debord viu que, por volta dos anos 1960, o capitalismo
estratos das redes de comunicação e sua miríade de aplicações são havia produzido o colapso sistemático da faculdade de encontro
essencialmente novos estratos do prático-inerte, novas apro- (rencontre) e “a substituição daquela faculdade por uma alucina-
priações da vida cotidiana a cuja estrutura mutável a seriali- ção social, uma ilusão de encontro”.10
dade é intrínseca? Todas as interações eletrônicas 24 / 7, todas as A relevância contemporânea desses textos, especialmente
imersões em massa no nível micrológico na cultura tecnológica em um momento em que afirmações extravagantes e ambíguas
contemporânea podem ser facilmente consideradas uma nova são feitas em nome do potencial revolucionário das mídias so-
unidade negativa de passividade e alteridade. ciais, está em nos permitirem indagar sobre quais tipos de en-
Outro livro dos anos 1960 bastante diferente abordava al- contros são de fato possíveis hoje. Mais especificamente, quais
guns desses temas de maneira igualmente relevante para os são os encontros que podem levar a novas formações, a novas
eventos políticos de então. Apesar das inimizades sectárias da capacidades de insurgência, e onde podem ocorrer — em quais
época, seria inútil afirmar que A sociedade do espetáculo, de De- espaços ou temporalidades? Quanto da troca e da circulação
bord, de 1967, não era marcada por algumas das formulações de informação eletrônicas hoje é uma amplificação colossal do
de Sartre na Crítica. É claro que, no lugar das determinações do que Sartre chamou de “inversão da práxis em atividade prático-
grupo em fusão, Debord retraça o destino histórico dos conse- -inerte”? Quanto da energia investida em blogar, no mundo todo
lhos de trabalhadores. No entanto, as questões imediatamente — por cerca de centenas de milhões de pessoas, muitas vezes uti-
vitais que ambos os autores enfrentam dizem respeito às cir- lizando a linguagem da resistência — é equivalente ao autismo
cunstâncias que impedem ou ampliam as possibilidades de ação em massa identificado por Debord?
10  Guy Debord, The Society
política coletiva. Sua urgência é ainda maior dados a continui- of the Spectacle, trad. Donald
Obviamente, o ativismo político sig-
dade e os desdobramentos dos eventos insurrecionais que come- Nicholson-Smith. Nova nifica usar de forma criativa ferra-
York: Zone Books, 1995, pp.
çaram em 2011 na Tunísia, no Egito, em Wisconsin, na Espanha, 152-53 [ed. bras.: A sociedade
mentas e recursos materiais, mas não
em Oakland, no Bahrein, no parque Zuccotti e em outros luga- do espetáculo, trad. Estela dos deveria implicar imaginar que as pró-
Santos Abreu. Rio de Janeiro:
res. Vale a pena lembrar os parágrafos finais do livro de Debord, Contraponto, 1997, pp. 139-40.
prias ferramentas possuam valores re-
onde o problema da comunicação é colocado em primeiro plano. A tradutora brasileira optou dentores intrínsecos. Lênin, Trótski e
por solução diversa da que foi
Ele não é o único a enfatizar o vínculo entre as palavras “comu- mantida aqui: “[...] eis o que
suas coortes utilizaram cada uma das
nidade” e “comunicação”, onde a comunicação não é a transmis- é preciso compreender como tecnologias de comunicação disponí-
uma organização sistemática
são de mensagens, mas, de alguma maneira, um éthos de com- da ‘falha da faculdade de encon-
veis em 1917, mas eles jamais as ele-
partilhamento. O espetáculo, escreve, é a expropriação daquela tro’, e como a sua substituição varam à condição de determinantes
por um fato alucinatório social:
possibilidade; é a produção de um tipo de comunicação a falsa consciência do encon-
privilegiados e sacrossantos de
128 unidirecional que ele define como “um autismo generali- tro, a ‘ilusão do encontro’”]. toda uma constelação de eventos 129
históricos, como fizeram alguns ciberativistas ao exaltar o papel histórico de peso. Filmado principalmente na Polônia e na Rús-
das mídias sociais em movimentos e levantes políticos recentes. sia no primeiro ano e meio após a dissolução da União Soviética,
A mistificação e a atribuição de capacidades quase mágicas às re- revela um mundo em suspensão, no limiar de um futuro inde-
des são semelhantes à fé em um esquema Ponzi11 que automati- terminado, mas ainda assolado por padrões e hábitos de longa
camente redimiria os fracos e oprimidos. Os mitos da natureza data. Lançando mão de tomadas longas, é um retrato extenso de
igualitária e capacitadora dessa tecnologia foram cultivados certas tessituras da vida cotidiana, sugerindo às vezes uma seria-
por uma razão. Agências de polícia da ordem global só podem lidade sartriana. Em seu ensaio sobre D’Est, Akerman fez a fa-
agradecer a preferência dos ativistas pela concentração de sua mosa declaração de que sentiu necessidade de fazer o filme “en-
organização em torno de estratégias ligadas à internet, por meio quanto havia tempo” (“tant qu’il en est encore temps”).12 Em certo
das quais voluntariamente se arrebanham no ciberespaço, onde sentido, ela quis dizer que precisava terminar o projeto antes
vigilância estatal, sabotagem e manipulação são muito mais fá- que fosse tarde demais, antes que forças culturais e econômicas
ceis do que nas comunidades e localidades reais onde encontros transformassem o tema de seu trabalho em algo diferente, até
reais ocorrem. Se o objetivo é a transformação social radical, as mesmo irreconhecível. Mas, dadas as escolhas que ela fez a res-
mídias eletrônicas em sua forma atual, amplamente disponí- peito do que filmar, “enquanto há tempo” é também uma forma
veis, não são inúteis — mas apenas quando são subordinadas a de dizer: enquanto ainda existe um mundo de tempo comum,
lutas e encontros que ocorrem em outro lugar. Se as redes não um mundo sustentado pela habitação e compartilhamento do
estão a serviço de relações já existentes, forjadas a partir de ex- tempo e seus ritmos, no antigo sentido da palavra quotidien.
periências e proximidade compartilhadas, apenas reproduzirão Como muitas pessoas no início dos anos 1990, Akerman en-
e reforçarão as segregações, a opacidade, as dissimulações e o tendeu que o colapso da União Soviética e de seu controle sobre
interesse próprio inerentes ao seu uso. Qualquer turbulência o Leste Europeu facilitaria a globalização final do Ocidente e a
social cujas fontes primárias estejam 11  Em 1920, o ítalo-ameri- implantação de seus valores e exigências em toda parte. Por isso
no uso de mídias sociais será, de modo cano Charles Ponzi criou seu filme foi feito com a consciência do interregno fugaz que do-
inevitável, historicamente efêmera e um esquema em pirâmide
para especulação com selos
cumentava. Akerman se dá conta de que as oposições que supos-
inconsequente. em supostas transações in- tamente sustentavam o mundo bipolar da Guerra Fria haviam
ternacionais. Num primeiro
momento, a remuneração
se tornado ilusórias, mas ainda assim afirma que “o Leste” em
rápida atraiu milhares de seu filme preservava formas culturais úni-
pequenos investidores e 12  Chantal Akerman,
D’Est [Do Leste], filme de Chantal Aker- rendeu milhões de dólares a “On D’Est”. Bordering
cas e antigas que estavam prestes a ser elimi-
man realizado entre 1991 e início de 1992, Ponzi, mas a fraude logo veio on fiction: Chantal nadas pela expansão do capitalismo ocidental.
a público e as autoridades Akerman’s D’Est. Min-
possui uma percepção intensa das monetárias desbarataram o neapolis: Walker Art
Ainda que Akerman alertasse para o
130 circunstâncias desse momento esquema. [n. e.] Center, 1995, p. 17. perigo de toda lógica simplista de antes e 131
depois, D’Est é o testamento de um mundo social, ainda que dani- tais senão cruas de disciplina stalinista permitiam que muitos dos
ficado, anterior à imposição da financeirização, da privatização e ritmos subjacentes do tempo social permanecessem inalterados.
da atomização social neoliberal. É um filme sobre a vida em um As formas de controle que acompanharam a ascensão do
ambiente no qual “ainda há tempo”, antes do não tempo 24 / 7 de neoliberalismo nos anos 1990 eram mais invasivas em seus efei-
acumulação compulsória, de escolha individual. tos subjetivos e em sua devastação das relações compartilhadas
D’Est registra viagens pelo território ao longo das estações, do e coletivamente sustentadas. 24 / 7 apresenta a ilusão de um
verão ao inverno. O filme também se move entre espaços públicos tempo sem espera, de uma disponibilidade instantânea, de per-
abarrotados, ocupados coletivamente, e as tessituras muito dife- manecer isolado da presença dos outros. A responsabilidade por
rentes dos espaços domésticos protegidos, o que remete a Arendt. outras pessoas que a proximidade implica pode agora ser facil-
Mas, acima de tudo, D’Est transmite a sensação do tempo de es- mente contornada pela administração eletrônica de nossas ro-
pera. Faz isso de maneira mais comovente em suas longas tomadas tinas e contatos diários. O mais importante, talvez, é que 24 / 7
em movimento de pessoas de pé em filas ou esperando em esta- causou a atrofia da paciência e da deferência individual que são
ções de trem. Akerman mostra o ato de esperar em si mesmo, sem essenciais a qualquer forma de democracia direta: a paciência
objetivo, jamais revelando o motivo que levou uma multidão a se de escutar os outros, de esperar nossa vez de falar. O fenômeno
enfileirar. Como mostrou Sartre, a fila é um dos muitos exemplos dos blogs é um exemplo — entre muitos — do triunfo do modelo
banais nos quais o conflito entre o indivíduo e a organização da so- unidirecional de diálogo consigo mesmo, no qual a possibili-
ciedade é sentido, mas no plano do impensado ou não visto. Aker- dade de jamais ter de esperar e escutar outra pessoa foi elimi-
man certamente nos deixa ver a fila à maneira de Sartre, como nada. Blogar, não importa com qual intenção, é assim um dos
uma pluralidade de separações que se tornam “negação da recipro- muitos sinais do fim da política. A espera real hoje — no trânsito,
cidade”. Mas uma de suas realizações mais reveladoras é também em filas de aeroporto — intensifica o ressentimento e a compe-
mostrar o ato de esperar como essencial para a experiência de estar tição com o próximo. Um dos truísmos mais superficiais e, no
junto, para a possibilidade incerta da comunidade. É um tempo entanto, penetrantes a respeito da sociedade de classes é que os
no qual encontros podem acontecer. Misturada às contrariedades ricos nunca precisam esperar, e isso alimenta o desejo de imitar
e frustrações está a dignidade humilde e trivial da espera, de ser sempre que possível esse privilégio particular da elite.
paciente por respeito aos outros, pela aceitação tácita do tempo O problema da espera está ligado à questão maior da incom-
compartilhado por todos. O tempo suspenso, improdutivo da patibilidade do capitalismo 24 / 7 com quaisquer comportamen-
espera, de esperar nossa vez, é inseparável de qualquer forma de tos sociais dotados de padrões rítmicos de ação e pausa. Isso inclui
cooperação ou reciprocidade. Todas as décadas precedentes de po- toda interação social que envolva compartilhamento, reciproci-
der autoritário não haviam erradicado certas características dade ou cooperação. Subjacente a todos eles está o modelo
132 persistentes da comunidade, em parte porque as formas bru- de “revezamento”, que exige estados alternados de asser- 133
tividade e aquiescência. Nos anos 1920, o filósofo social George nulidade e esterilidade calamitosa da práxis 24 / 7. No entanto,
Herbert Mead procurou nomear os elementos constitutivos das apesar de todas as razões pelas quais o sono não pode ser explo-
sociedades humanas — aqueles sem os quais a sociedade não seria rado nem assimilado, não chega a ser um enclave fora da ordem
possível. Para Mead, eles são: vizinhança, solicitude e coopera- global existente. O sono sempre foi permeável, impregnado
ção. “A atitude fundamental de ajudar a outra pessoa que está em pelos fluxos da atividade da vigília, apesar de hoje estar mais
dificuldades, que está doente ou vivendo algum outro infortúnio, desprotegido do que nunca dos ataques que o corroem e dimi-
pertence à própria estrutura dos indivíduos em uma comunidade nuem. Apesar dessa degradação, o sono é a recorrência em nos-
humana.”13 Mead também insiste que, por milhares de anos, es- sas vidas de uma espera, de uma pausa. Afirma a necessidade do
ses valores foram igualmente a base das trocas econômicas: “Há adiamento e a recuperação em outros termos ou a retomada do
um compartilhamento da situação de necessidade, cada um colo- que quer que tenha sido protelado. O sono é uma remissão, uma
cando-se na posição do outro no reconhecimento do valor mútuo liberação da “permanente continuidade” de todas as tendências
que a troca tem para ambos”. A obra de Mead pode ser criticada em que estamos imersos quando acordados. Parece óbvio demais
por sua impregnação a-histórica, mas aqui a universalização do afirmar que o sono exige um desligamento periódico das redes e
núcleo cooperativo do mundo social traz à tona com clareza o aparelhos para que entremos em um estado de inatividade e inu-
desacordo entre o capitalismo do século xx e a própria sociedade. tilidade. É uma forma de tempo que nos leva a outro lugar que
Também oferece um pano de fundo relevante para o diagnóstico não às coisas que possuímos ou de que supostamente precisamos.
de Bernard Stiegler da patologia global contemporânea que im- Segundo minha análise, o sono moderno inclui o intervalo
possibilita o cuidado com os outros ou consigo mesmo. antes do sono — o momento em que permanecemos deitados na
Como indicado antes, o sono é uma das poucas experiências semiescuridão, esperando indefinidamente pela tão desejada
restantes na qual, saibamos ou não, nos abandonamos ao cui- perda de consciência. Durante esse tempo suspenso, recupera-
dado de outros. Por solitário e privado que o sono pareça, ainda mos capacidades perceptivas que são desativadas ou ignoradas
não foi separado da trama de apoio mútuo e de confiança, por durante o dia. Involuntariamente, readquirimos uma sensibi-
mais danificados que esses vínculos estejam. É também uma li- lidade e capacidade de atenção a sensações tanto internas como
beração periódica da individuação — um externas em uma duração não mensurável. Escutamos sons de
desemaranhar noturno da trama frouxa 13  George Herbert Mead,
Mind, Self and Society.
trânsito, um cachorro latindo, o zumbido do ruído branco de
das subjetividades rasas que habitamos e Charles W. Morris (org.). uma máquina, sirenes da polícia, o barulho dos canos do aque-
administramos durante o dia. Na desper- Chicago: Chicago Univer-
sity Press, 1934, p. 258 [ed.
cimento, ou sentimos os tremores dos nossos membros, a pul-
sonalização da letargia, aquele que dorme bras.: Charles W. Morris sação do sangue nas nossas têmporas e as flutuações granulares
Mente, self e socie-
habita um mundo comum, uma en- (org.), dade. São Paulo: Ideias e
de luminosidade da retina que vemos quando estamos de
134 cenação compartilhada de retiro da Letras, 2010]. olhos fechados. Acompanhamos uma sucessão de pontos 135
de foco temporário aleatórios e de atenção passageira, e os avan- A persistência anormal do sono deve ser entendida em relação
ços vacilantes de incidentes soníferos. O sono coincide com a à destruição contínua dos processos que possibilitam a existên-
metabolização do que ingerimos durante o dia: drogas, álcool, cia no planeta. Dado que o capitalismo não pode impor limites
todos os detritos da interação com telas luminosas; mas tam- a si mesmo, a noção de preservação ou conservação é uma im-
bém a enxurrada de ansiedades, temores, dúvidas, desejos, fan- possibilidade sistêmica. Nesse contexto, a inércia restauradora
tasias de fracasso ou sucesso total. Essa é a monotonia do sono do sono se coloca contra a letalidade de toda a acumulação, a
e da insônia, noite após noite. Em sua repetição e sinceridade, é financeirização e o desperdício que devastaram tudo aquilo que
um dos remanescentes irredutíveis da vida cotidiana. costumava ser de domínio comum. Agora existe apenas um so-
Uma das muitas razões pelas quais as culturas humanas nho, que supera todos os outros: o de um mundo compartilhado
associaram o sono à morte é que ambos demonstram a conti- cujo destino não é terminal, um mundo sem bilionários, que
nuidade do mundo em nossa ausência. No entanto, a ausência tem um outro futuro que não a barbárie do pós-humano, e no
única e temporária daquele que dorme sempre contém uma liga- qual a história pode assumir outras formas além dos pesadelos
ção com o futuro, com uma possibilidade de renovação e, assim, reificados da catástrofe. Talvez — em muitos lugares diferentes,
de liberdade. É um intervalo no qual vislumbres de uma vida em muitos estados disparatados, inclusive na fantasia e no de-
não vivida, ou de uma vida adiada, podem vir à consciência de vaneio — a imaginação de um futuro sem capitalismo comece
forma sutil. A esperança noturna pelo estado insensível do sono como um sonho. Seriam insinuações do sonho como interrup-
profundo é ao mesmo tempo a antecipação de um despertar que ção radical, como recusa do peso impiedoso do nosso presente
poderia trazer em si algo imprevisto. Na Europa após 1815, du- global, do sono que, no nível mais mundano da experiência
rante muitas décadas de contrarrevoluções, reversões e desvir- cotidiana, pode sempre esboçar os contornos de renovações e
tuamento das esperanças, alguns artistas e poetas intuíram que começos mais plenos de consequências.
o sono não era necessariamente uma evasão ou fuga da histó-
ria. Shelley e Courbet, por exemplo, entenderam que o sono era
outra forma de tempo histórico — que seu abandono e sua apa-
rente passividade também incluíam a agitação e a inquietude da
transformação que era essencial para o advento de um futuro
mais justo e igualitário. Agora, no século xxi, a perturbação do
sono possui uma relação mais problemática com o futuro. Loca-
lizado em algum lugar na fronteira entre o social e o natural, o
sono garante no mundo a presença dos padrões sazonais e
136 cíclicos essenciais à vida e incompatíveis com o capitalismo. 137
sobre o autor  Jonathan Crary é desde 1989 professor de
Arte Moderna e Teoria na Universidade de Columbia (eua). Seus
estudos têm como foco principal a formação da cultura visual
contemporânea. Colabora em revistas como Artforum, October,
Cahiers du Cinéma e Domus, entre outras. Em 1986, foi um dos
fundadores da Zone Books, que publicou autores como Michel
Foucault, Gilles Deleuze e Giorgio Agamben. No Brasil, já foram
traduzidos dois de seus principais livros, Técnicas do observador –
Visão e modernidade no século xix (Contraponto, 2012) e Suspen-
sões da percepção – Atenção, espetáculo e cultura moderna (Cosac
Naify, 2013).

139
Coleção Exit  Como pensar as questões do século xxi?
A coleção Exit é um espaço editorial que busca identificar e ana-
lisar criticamente vários temas do mundo contemporâneo. No-
vas ferramentas das ciências humanas, da arte e da tecnologia
são convocadas para reflexões de ponta
coordenação sobre fenômenos ainda pouco nomea-
florencia ferrari dos, com o objetivo de pensar saídas
milton ohata para a complexidade da vida de hoje.

141
© Cosac Naify, 2014
First published in English by Verso Books, 2013 © Jonathan Crary

Coordenação editorial milton ohata


Assistente editorial livia lima
Preparação mariana delfini
Revisão maria fernanda alvares e eliane santoro
Projeto gráfico elaine ramos e flávia castanheira
Produção gráfica aline valli e mariana tavares geraldo

Nesta edição, respeitou-se o novo


Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

Crary, Jonathan [1951- ]


24 / 7 – Capitalismo tardio e os fins do sono: Jonathan Crary
Título original: 24 / 7 – Late Capitalism and the Ends of Sleep
Tradução: Joaquim Toledo Jr.
São Paulo: Cosac Naify, 2014
144 pp.

isbn 978-85-405-0699-2
cosac naify
1. Questões e práticas sociais  2. Modernidade 
rua General Jardim, 770, 2o. andar
3. Capitalismo e sociedade: crítica  i. Título.
01223-010 São Paulo sp
cdd 304.19
cosacnaify.com.br [11] 3218 1444
Índices para catálogo sistemático: Atendimento ao professor [11] 3823 6560
1. Ciências sociais: questões e práticas 304.19 professor@cosacnaify.com.br
fonte Edita
papel Alta alvura 90 g / m2
impressão Loyola

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