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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC/SP

Claudia Silva Fernandes

Cenografia e ethos discursivo em o


Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi

MESTRADO EM LÍNGUA PORTUGUESA

SÃO PAULO
2013
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC/SP

Claudia Silva Fernandes

Cenografia e ethos discursivo em o


Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da


Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como exigência parcial para a obtenção do título de
MESTRE em Língua Portuguesa, sob a orientação
do Professor Doutor Jarbas Vargas Nascimento.

SÃO PAULO
2013
Banca Examinadora

____________________________________

____________________________________

____________________________________
Por que é que vocês estão procurando entre os mortos
quem está vivo? Ele não está aqui, mas foi
ressuscitado!
Lucas 24:5b-6 a

A ilusão leva o homem a se julgar corpo carnal. Mas o


corpo carnal não é o homem. Na sua imagem verdadeira,
o homem é filho de Deus, é Vida imortal.
Sutra Sagrada Palavras do Anjo,
Masaharu Taniguchi.
AGRADECIMENTOS

A Deus, Pai querido, que sempre ouve minhas orações e me orienta;

A Cristo Jesus, que me guia amorosamente;

Ao meu orientador e admirável, Dr. Jarbas Vargas Nascimento, que me recepcionou,


amigavelmente, na PUC-SP e me apresentou a Análise do Discurso;

À minha mãe querida, Maria do Carmo Silva Fernandes;

A minha admirável irmã, Simone Silva Fernandes;

Aos Mestres do Programa de Estudos Pós-Graduados em Língua Portuguesa, pela


dedicação;

À Banca Examinadora do Exame de Qualificação, pelas preciosas orientações;

À CAPES, pela bolsa de estudos que me proporcionou realizar mais um sonho:


cursar o Mestrado;

Aos meus amigos, especialmente, Nair Feld, Jorge Torresan, Patrícia Gimenez
Camargo e Rodrigo Leite, por me ajudarem e por terem palavras motivadoras,
sempre que precisei.
Dedicatória

À minha filha amada, Gabriela Fernandes de Melo.


RESUMO

Este trabalho está inserido nos postulados da Análise do Discurso de linha francesa
e tem como tema o exame da constituição da cenografia e do ethos discursivo no
processo de revelação do sujeito enunciador em o Artigo do Mestre Masaharu
Taniguchi, publicado na revista Pomba Branca da Seicho-No-Ie. Esse tema mostra-
se relevante, pois buscamos entender a forma como os sujeitos interagem em um
discurso utilizado para a propagação e a manutenção de valores e conceitos
institucionais. Para tanto, tomamos como base as abordagens de Dominique
Maingueneau sobre interdiscurso, cena enunciativa e ethos discursivo. A
investigação realizada utiliza um procedimento teórico-analítico, em que analisamos
a cena enunciativa, em sua tripartição em cena englobante, genérica e cenografia,
bem como a forma de desvelamento do ethos discursivo. Nosso estudo apontou o
papel da interdiscursividade na organização do discurso da Seicho-No-Ie,
principalmente, o atravessamento dos campos discursivos da religiosidade, do
pedagógico, do científico, entre outros e a imagem construída pelo sujeito
enunciador que é a de um mestre que atua em uma cenografia de sala de aula para
conseguir a adesão do co-enunciador.

Palavras-Chave: Análise do Discurso, interdiscurso, cenografia, ethos discursivo.


ABSTRACT

This study is based on the postulates by the French line of the Theory of Disiscourse
and has as theme the examination of the scenography as well as the discourse ethos
in the process of revelation of the enunciator subject in Master Masaharu
Taniguchi's Article, published in Seicho-No-Ie’s Pomba Branca (White Dove)
magazine. Such theme proves to be relevant, since we aimed at understanding the
way how subjects interact in a discourse used for the propagation and maintenance
of institutional values and concepts. For this purpose, we elected as basis
Dominique’s Maingueneau approach on interdiscourse, enunciative scene and
discoursive ethos. The carried out investigation deals with a theoretical analytical
procedure in which we analyze the enunciative scene, in its tripartition in englobing
scene, generic and scenography as well as the form of unveiling of the discoursive
ethos. Our study emphasized the role of interdiscoursivity in the organization of
Seicho-No-Ie’s discourse, especially the crossing of the discoursive fields of
religiosity, pedagogical and scientific ones, among others, as well as the fact that the
image constructed by the enunciator subject is the one of a master who acts in the
scenery of a classroom with the target of achieving the adhesion of the co-
enunciator.

Key words: Discourse Analysis, interdiscourse, scenography, discoursive ethos.


SUMÁRIO

CONSIDERAÇÕES INICIAIS ..................................................................................... 1

CAPÍTULO I – CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DO DISCURSO DA SEICHO-NO-IE

1.1 A construção da Seicho-No-Ie no Japão ........................................................... 4

1.2 Masaharu Taniguchi: as ‘revelações divinas’ do fundador ................................ 8

1.3 As bases filosóficas e religiosas da Seicho-No-Ie ............................................ 10

1.4 Práticas filosófico-religiosas e seus desdobramentos ...................................... 16

1.5 A construção da Seicho-No-Ie no Brasil............................................................ 21

1.6 A religiosidade na Seicho-No-Ie........................................................................ 32

1.7 Pomba Branca – A Revista da Mulher Feliz .................................................... 36

CAPÍTULO II - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. A Análise do Discurso e seu enfoque interdisciplinar .................................... 48

2.2. Discurso e Interdiscurso ................................................................................ 54

2.3. Gênero de Discurso ....................................................................................... 63

2.4. Gênero de Discurso: artigo de revista ........................................................... 73

2.5. Cena enunciativa ........................................................................................... 77

2.6. Ethos discursivo ............................................................................................. 81

CAPÍTULO III - CENAS DA ENUNCIAÇÃO E ETHOS NO DISCURSO DE O

ARTIGO DO MESTRE MASAHARU TANIGUCHI

3.1. Constituição da amostra .................................................................................... 86


3.2. Procedimentos metodológicos .......................................................................... 98

3.3. Análise ............................................................................................................... 98

3.3.1 Interdiscursividade ............................................................................... 99

3.3.2 A cenografia e o ethos discursivo ....................................................... 109

CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 132

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 135

GLOSSÁRIO DE TERMOS ESPECÍFICOS DA SEICHO-NO-IE ........................... 145

ANEXOS.................................................................................................................. 147
1

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

As interações dos sujeitos, em sociedade, são, sempre, permeadas pela


linguagem e o resultado dessas trocas, nas mais variadas esferas sociais, é a
produção de discursos. Dessa forma, considerando-se o contexto, no qual seus
sujeitos se encontram inseridos e suas finalidades específicas, temos o discurso da
Seicho-No-Ie, na revista Pomba Branca – A revista da Mulher Feliz que se trata de
uma produção discursiva, muito peculiar, dentro da esfera do religioso, possível de
ser examinado do ponto de vista da Linguística, com seus métodos específicos de
análise. Consideramos para a análise, desse discurso, o arcabouço teórico da
Análise de Discurso (AD), de orientação francesa.

A Seicho-No-Ie (doravante SNI) é considerada uma ‘nova religião japonesa’


que se baseia numa postura filosófica de otimismo na vida e que tem como objetivo
despertar o Divino, inerente ao ser humano, por meio da palavra, a fim de
concretizar o modelo perfeito de vida, a imagem verdadeira, o Jissô.

A SNI teve, inicialmente, uma abrangência étnica e, em seguida, expandiu-se


entre os não-descendentes de japoneses, por meio de suas publicações, que, ainda,
são o principal veículo de doutrinação. O sincretismo, sua marca peculiar, também,
tornou viável a aproximação com os brasileiros, os quais, em si, já estão inseridos
em uma tendência sincrética, no plano religioso, que engloba católicos, evangélicos,
cultos de origem africana e religiões de procedência oriental.

Apesar de uma produção vasta, a SNI possui poucos estudos sobre seus
discursos, principalmente, sob o ponto de vista da Linguística. Um dos instrumentos
de divulgação de seus ensinamentos é a revista mensal Pomba Branca publicada
pela Associação Feminina Pomba Branca, que traz artigos que particularizam
aspectos da vida cotidiana, sob o ponto de vista filosófico e espiritual.

Dessa publicação, selecionamos da seção Artigo do Mestre Masaharu


Taniguchi, os discursos O pecado não existe, do exemplar número 320, de março de
2012 e O pensamento iluminador e as ciências naturais, do exemplar número 332,
de março de 2013.
2

Fizemos tais escolhas, pois esses discursos apresentam a fala de Masaharu


Taniguchi, fundador da SNI, foram produzidos em outro momento histórico e social,
no Japão, foram recortados e inseridos na revista Pomba Branca, no mês em que se
homenageia as mulheres, com o propósito de doutrinar e de conseguir a adesão das
leitoras.

Examinamos a construção da cenografia e a constituição do ethos discursivo,


no processo de revelação do sujeito enunciador, com o intuito de verificarmos em
que medida os indícios textuais, que constroem a cenografia, fazem emergir o ethos
discursivo, legitimando-o e conferindo credibilidade ao discurso materializado na
coluna selecionada.

Esse estudo se justifica, tendo em vista que o discurso, assinado por


Masaharu Taniguchi e produzido, segundo ele, sob inspiração divina, serve para
manter e para transmitir valores e conceitos da instituição. Além disso, trata-se de
um rico material de pesquisa, na medida em que os discursos funcionam como
propagadores de sentidos e de informações tão aceitos pelos analistas, que tratam
dos diversos tipos de discursos que circulam na sociedade.

Nesse exame, ultrapassamos os aspectos formais para chegarmos aos


efeitos de sentido, aliando as condições sócio-históricas de produção e as
formações discursivas materializadas. Para tanto, selecionamos a Análise do
Discurso de linha francesa, nas perspectivas apontadas por Dominique
Maingueneau, que trata do ethos ligado, crucialmente, ao ato enunciativo e da
cenografia.

Postulamos como objetivos: identificar os indícios textuais que constroem a


cenografia e a forma de desvelamento do ethos discursivo no discurso da SNI;
verificar como esse discurso projeta a imagem do enunciador e como tal imagem
articula valores e modos de vida na dimensão religiosa proposta pela instituição.

Essa dissertação estrutura-se em três capítulos. No Capítulo I, apresentamos


as condições de produção do discurso da SNI, como a sua história, no Japão e no
Brasil, a trajetória de seu fundador, Masaharu Taniguchi, as bases filosóficas e
religiosas, bem como seus conceitos e práticas. Além disso, discorremos sobre a
Revista Pomba Branca, de onde extraímos o corpus.
3

No Capítulo II, apresentamos o arcabouço teórico ao qual nos filiamos.


Inicialmente, enfatizamos o caráter interdisciplinar da Análise do Discurso, focando
nos estudos de Maingueneau sobre o interdiscurso, as cenas enunciativas e o ethos
discursivo.

Por fim, no Capítulo III, explicamos a constituição do corpus e os


procedimentos metodológicos empregados para o exame e para a seleção de nosso
objeto de estudo, desenvolvemos, também, as análises da cenografia e do ethos
discursivo no discurso da coluna Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi..

Ao final são apresentadas as Considerações Finais, seguidas das


Referências Bibliográficas, do Glossário de termos usados na SNI e dos Anexos.
4

CAPÍTULO I

CONDIÇÕES DE PRODUÇÃO DO DISCURSO DA SEICHO-NO-IE

1.1 A construção da Seicho-No-Ie no Japão

Para adentrarmos na coluna Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi, objeto de


análise desta pesquisa, temos, antes, que compreender as feições mais gerais da
doutrina, o seu início, no Japão e o seu desenvolvimento, no Brasil, bem como
refletir sobre a estruturação da Revista Pomba Branca, instrumento de divulgação de
seus ensinamentos, na qual se veicula a mencionada seção.

A SNI surgiu no Japão, em 19301, mais, precisamente, na cidade de Kobe,


principal cidade portuária do país. A doutrina tem origem nas ‘revelações divinas’
que seu único fundador, Masaharu Taniguchi (1893-1985), diz ter recebido por Deus
e que se empenhou em divulgá-las por meio das revistas intituladas Seicho-No-Ie 2.
Tais publicações resultaram na confecção da obra Seimei no Jissô (A Verdade da
Vida), em 1932, uma coleção de 40 volumes, que apresenta a doutrina fundamental.

Taniguchi nasceu em Kobe, em 22 de novembro e, aos quatro anos de idade,


foi adotado e criado por uma tia. Aos 37 anos, casou-se com Teruko Emori (1899-
1988), atuou como tradutor de livros técnicos na empresa americana Vacuum Oil
Company e, com essa idade, lançou sua doutrina por meio de revistas com o apoio
da esposa. A utilização da imprensa escrita, por ele, insere-se em um aspecto
comum da sociedade japonesa, já acostumada ao letramento e à leitura de

                                                            
1
A doutrina surgiu, em um período de instabilidade econômica e social, no Japão. Ao longo dos anos 1930 a
1940, diante da política territorial expansionista instituída pelos seus Imperadores, o país buscou por matéria-
prima para o seu desenvolvimento industrial e por pontos geográficos no Pacífico, os quais eram considerados
importantes para a comercialização e para os negócios com os países do Ocidente. Dentro dessa política
expansionista territorial japonesa, esse país enfrenta a China e, em diversos momentos, a Indochina, a Malásia,
a Filipinas, a Birmânia e alguns outros pontos geográficos que possuem portos marítimos e comerciais na região
do Pacífico. Paralelamente, a esses fatos, o Japão já era reconhecido como um país importante na região da
Ásia e articulado com países da Europa, como Alemanha, Itália, Holanda, da América, como os EUA. No
entanto, essa política imperialista sofreu retaliações de países ocidentais, os quais praticaram o embargo de
exportações de matéria-prima ao Japão e, mais adiante, na Segunda Guerra Mundial, o bombardeio de seus
territórios.
2
Em uma tradução livre “Lar do Progredir Infinito”.
5

publicações3; bem como revela a inclinação do próprio idealizador à produção de


textos, possibilidade reforçada pela escolha do curso de literatura inglesa iniciado,
mas não concluído, na Universidade de Waseda, em Tókio. Ele estudou diferentes
áreas do conhecimento como a Filosofia, a Psicologia e a Religião.

Taniguchi, em suas obras, relata que passou por problemas familiares,


econômicos, existenciais e que vivenciou muitos problemas sociais. Com o intuito de
entender o porquê do sofrimento humano, buscou esclarecimentos para suas
dúvidas em diversos tipos de filosofias e religiões e sentiu-se atraído pelas obras de
Oscar Wilde, Arthur Schopenhauer, Willian James e pelas teorias de Psicanálise.
Entrou, ainda, em contato com os ensinamentos do Dr. Franz Anton Mesmer
(fundador do Mesmerismo), de Phineas Parkhurst Quimbye (fundador do Novo
Pensamento Americano), de Ernest Holmes (fundador da Ciência Religiosa). Foi
membro das seitas Oomoto, Itto-em e estudou os ensinamentos do Budismo,
Cristianismo entre outros.

Segundo Taniguchi (2012, p. 6), a intenção não era iniciar um movimento


religioso, mas veicular, na sociedade japonesa, princípios filosóficos, como revelam
os escritos, ainda de hoje, os quais traduzem e transmitem as ideias originais do
fundador, acerca da SNI:

é uma filosofia que transcende o sectarismo religioso, pois


acredita que todas as religiões são luzes de salvação que
emanam de um único Deus.

À medida que se publicavam as edições da revista, surgidas da necessidade


de seu fundador em compartilhar suas revelações, Taniguchi começou a receber um
grande número de cartas de leitores que relatavam que, após lerem os exemplares,
curas milagrosas de doenças ocorriam. De acordo com Albuquerque (1999), devido

                                                            
3
O papel e o ideograma são tradições chinesas milenares, nas quais o Japão se baseou, inicialmente, para
veicular seus contos e suas poesias. A educação japonesa, aberta a todas as classes, o que inclui o letramento,
data de meados de 1800. A imprensa periódica, como conhecida, atualmente, surgiu, aproximadamente, em
1860. Na década de 1930, o Japão possuía uma educação universal, com preceitos nacionalistas, cuja literatura
enfatizava os feitos dos Imperadores.
6

a essa repercussão, as atividades dele começaram ser consideradas religiosas, pelo


governo e palestras foram proferidas em outras cidades, como Tókio.

Após 11 anos da impressão da primeira revista e diante da quantidade de


adeptos, no Japão 4 , em 1941, a instituição foi, oficialmente, registrada pelo
Ministério da Cultura como entidade religiosa. Albuquerque (1999) afirma que isso
ocorreu para fortalecer o governo imperial diante das crises internas e das guerras
com as quais o país se envolvia e que outras denominações, que também apoiavam
o governo, passaram por isso, convivendo com as já religiões tradicionais como o
xintoísmo e o budismo. Contudo, o fundador Taniguchi (2007, p. 317), ao longo de
sua produção literária, continuou a considerá-la como um movimento de iluminação
da humanidade.

Sobre essa oficialização como religião, Albuquerque (1999) apresenta que a


SNI surgiu em um contexto de reconstrução do Japão, durante as guerras com os
povos do Pacífico e a II Guerra Mundial. Nesse sentido, a doutrina fortalecia a
tradição japonesa e valorizava a imagem do Imperador, reforçando a estrutura
ideológica do sistema familiar japonês.

Segundo Albuquerque (op.cit., p.20), desde a sua origem, a instituição


acompanhou as oscilações sociopolíticas e deu apoio às ideologias dominantes.
Nesse contexto, Taniguchi prega que o homem virtuoso adapta-se às circunstâncias,
ou seja, vive conforme as diretrizes sociais, culturais, econômicas, políticas e,
também, religiosas do seu presente – a ideia de sincretismo religioso será
desenvolvida mais adiante.

Ainda cabe mencionar que o surgimento de novas doutrinas e práticas


espirituais, no Japão, bem como a oficialização delas, levou os estudiosos, como
Paiva (2005, p.210), a chamarem esses movimentos de ‘novas religiões japonesas’
por se caracterizarem como:

                                                            
4
Ao longo de sua existência, no Japão, a SNI atingiu números expressivos de adeptos: até 1954, por exemplo,
teve 1.461.604 membros. In: <http://en.wikipedia.org/wiki/Statistics_for_major_new_religions_in_Japan>.
Acessado em 17 de janeiro de 2013.
7

grupos religiosos que surgiram desde os anos finais da


era Tokugawa5, têm seu centro espiritual na pessoa e no
ensinamento pretensamente singular de um fundador,
proveniente do povo comum, e se orientam para a
conquista de novos membros a partir das massas.

Nesse sentido, a SNI, por meio de um fundador comum, transmite


ensinamentos únicos, para além das filosofias e religiões existentes, para a grande
massa urbana e rural japonesa.

André (2008, p.10) lembra que a instituição converteu-se numa das ‘novas
religiões japonesas’ mais populares no país, ao lado de alguns templos budistas. A
organização tem seu pleno estabelecimento, na década de 1970, com o crescimento
no número de adeptos e assinantes, acompanhado pelo aumento de núcleos locais.
Seu objetivo era alcançar um milhão de assinantes.

Conforme afirmam Mullins & Kisala 6 , é difícil saber com precisão quem é
“adepto" de uma nova religião japonesa, pois os padrões para se tornar um membro
ou para ser considerado um, diferem entre os movimentos. Dados estatísticos
mostram que a SNI tinha três milhões de adeptos, em 1985, e que, em 1989, tinha
80.000. Segundo os autores, essa discrepância nos números não foi devido à perda
massiva de adesão, mas a diferentes maneiras de calcular o número de membros.
Assistir a algumas palestras ou a rituais ou preencher um formulário para tal fim, por
exemplo, pode ser critério para uma pessoa ser considerada uma adepta.

Segundo levantamento feito, em 31 de dezembro de 2010, pela sede, no


7
Japão , há, na SNI, 1.683.227 adeptos, desses, 1.032.108 são de outros países e
                                                            
5
Era Tokugawa ou período Edo, tem seu final em meados de 1860 e é marcada pela transição do período feudal
para o período industrial.
6
Problemas estatísticos semelhantes foram encontrados na Kofuku no Kagaku, que afirmou, no início de 1990,
ter-se tornado o maior movimento no Japão (10.000.000), superando Soka Gakkai (considerada a maior e com
milhões de seguidores). De fato, em 1991, funcionários da Kofuku admitiu que, aproximadamente, 90% de seus
membros, apenas, eram assinantes de sua revista mensal. Uma estimativa mais realista desse movimento, em
meados dos anos de 1990, revelou que havia entre 100.000 e 300.000 membros ativos ( Mullins, R. MARK &
KISALA, ROBERT. Social crisis and religion in contemporary Japan. In:
<http://cla.calpoly.edu/~bmori/syll/Hum310japan/KisalaandMullins.html>. Acessado em 20 de outubro de 2012.
7
In: <http://www.jp.seicho-no-ie.org%2Findex.html>. Acessado em 19 de janeiro de 2013.
8

651.119 são do Japão. Há, ainda, 22.995 preletores: 7.202, em outros países e
15.793 atuam no Japão.

Desde a sua oficialização, a SNI conseguiu se estabelecer pelo Japão,


contudo, não foram encontrados dados precisos sobre as cidades receptivas da
filosofia. De acordo com Pizzinga8 (2009), a partir de 1962, Taniguchi iniciou várias
viagens internacionais, pela Europa e pela América, para divulgar seus trabalhos e
suas revelações, pessoalmente. Visitou os Estados Unidos, por três vezes, o
Canadá, o México e o Brasil, este, por duas vezes, acompanhado de sua esposa
Teruko.

1.2 Masaharu Taniguchi: as ‘revelações divinas’ do fundador

Taniguchi comenta, em suas obras, que em sua busca pela paz interior e pela
compreensão de alguns de seus problemas, começou a meditar e, que após pedir a
Deus, que revelasse a Verdade, recebeu a seguinte revelação divina:

A matéria é nada. O corpo físico é nada. Todos os


fenômenos, no mundo da matéria, são nada. O que existe
verdadeira e eternamente é Deus e Sua manifestação. O
homem é, na realidade, um filho de Deus. Ele não é
matéria, mas existência espiritual. O homem já é um ser
perfeito. Tudo em nosso ambiente é simplesmente o
reflexo de nossa própria mente (Revista Pomba Branca,
número 284, p.35).

Taniguchi (2007, p.272) afirma que, após receber as ‘revelações’,


compreendeu que ele:

                                                            
8
Doutor em Filosofia, Mestre em Educação, Professor de Química, membro da Ordem Maaat, membro dos
Iluminados de Kemet, membro da Ordem Rosacruz, Iniciado do Sétimo Grau do Faraó. In:
<http://svmmvmbonvm.org/aum_muh.html>. Acessado em 15 de novembro de 2012.
9

era um ser divino, um ser búdico, desde o princípio


dos tempos e que, a partir daí, apesar das muitas
dificuldades enfrentadas, dedicaria-se à
transmissão de suas revelações.

Desde então, ele se denominou ‘mestre’, sendo, até os dias de hoje,


identificado, assim, pelos praticantes de sua filosofia.

Em 13 de dezembro de 1929, dia em que, pela segunda vez, fora roubado e


perdera suas economias, para a divulgação de seus ensinamentos, ele decidiu criar
a Fundação da Sociedade para a Difusão do Pensamento Iluminador. Sobre essa
situação, ele diz que:

aquele momento crucial fez com que eu alcançasse o


verdadeiro despertar e tomasse a firme decisão de
começar a trabalhar para a divulgação da Verdade,
mesmo não tendo vigor físico nem dinheiro. (TANIGUCHI,
2007, p.292).

Em primeiro de março de 1930, Taniguchi9 redige e elabora a primeira Revista


Seicho-No-Ie, cujo trabalho de comunicação e distribuição gratuita foi feito por sua
esposa. Dessa forma, é dado início ao que ele denomina: Movimento de Iluminação
da Humanidade. O objetivo da SNI, segundo ele (2007b, p.19), em palestra
proferida, em 1934, na sede Central no Japão, é dizer à humanidade que no Jissô
(ser verdadeiro) do homem já existe de tudo e que, portanto, ele deve buscar tudo
no seu interior e não no exterior.

Após seu falecimento, em 1985, Seicho Taniguchi, seu genro, torna-se o


Supremo Presidente da SNI. Hoje, o atual vice-presidente da instituição é Masanobu
Taniguchi, neto do líder. André (2008, p. 5) enfatiza que essa continuidade da

                                                            
9
Taniguchi produziu os 40 volumes da coleção A Verdade da Vida (obra que possui a base do ensinamento da
SNI) e mais de 400 livros, escritos, segundo ele, sob ‘inspiração divina’.
10

estrutura de poder e o nome familiar tornam-se um capital simbólico e conferem


legitimidade aos especialistas/sacerdotes do campo religioso.

1.3 As bases filosófico-religiosas da Seicho-No-Ie

O termo Seicho-No-Ie, literalmente, significa “a casa do desenvolvimento”,


porém, costuma-se interpretar como “o lar do progredir infinito”. Taniguchi (2008,
p.11) afirma que não se trata do lar dele, mas de todos os lares que obedecem ao
princípio da manifestação da vida e destaca que quando um membro de uma família
se torna leitor da revista Seicho-No-Ie, todos os demais membros tornam-se Seicho-
No-Ie. Nesse sentido, o próprio leitor passa a se tornar um ‘lar’, um locus de
desenvolvimento constante.

A sua proposta é estabelecer o reino do céu na Terra, porém para que isso
aconteça, é preciso que todos se empenhem e progridam espiritualmente. Sobre o
estabelecimento do “paraíso”, neste mundo terreno, Taniguchi (2008, p.60) afirma
que:

isso dependerá muito do esforço dos fervorosos adeptos


e leitores que se reuniram inicialmente na Seicho-No-Ie.
Todo desenvolvimento é gradual [...] como obra inicial da
construção do paraíso na Terra, a Seicho-No-Ie divulga à
humanidade, através de publicações, a correta filosofia
de vida, o correto modo de viver e o correto modo de
educar.

Segundo o líder, pelo correto modo de viver, ou seja, pela correta filosofia, os
sofrimentos deixarão de existir e, por meio do método educacional da SNI, as
pessoas, desde a infância, viverão de acordo com a natureza divina delas e
manifestarão talentos que lhe são inatos. Para tanto, ele preconiza que é preciso
saber utilizar a mente, pois por meio da conscientização da ‘imagem verdadeira’
(filho de Deus) é que os problemas serão dissipados.
11

Da apresentação dessas características, compreendemos como afirma Osaki


(1990, p.37), que a doutrina se fundamenta em um princípio filosófico do idealismo
que afirma supremacia absoluta do espírito sobre a matéria.

O corpo humano é visto como uma construção do pensamento, assim como a


realidade social o é também; por conseguinte, as doenças, os males físicos, os
percalços da vida e o pecado são frutos, também, dessa construção. Dessa
maneira, Taniguchi acredita que a prática de seus ensinamentos pode fazer com
que o ser humano, por meio do autocontrole mental, projete imagens de saúde,
bondade, gratidão, dentre outros, que proporcionarão bem-estar e satisfação para si,
para o próximo e para o meio onde vive/convive.

Sobre essa realidade, criada pelo pensamento, o fundador a chama de


espiritual e explica, em suas obras, que somente existe Deus, que é a Suprema
Realidade e o que Ele criou. Devido a Deus ser espírito, sua criação, somente,
existe no mundo espiritual, que é denominado de Jissô. Ademais, nesse
ensinamento, o que é apreendido pelos cinco sentidos do ser humano é considerado
como se fossem sombras ou reflexos da mente e, a realidade material, ou seja, a
realidade concreta seria a imagem de um filme cinematográfico projetada em uma
tela.

No diálogo entre as obras originais do fundador e as pesquisas de estudiosos


sobre a SNI, (OSAKI, 1990, ALBUQUERQUE, 2001 e CASTILHO, 2006),
averiguamos que, para a criação desse ensinamento, foram utilizados diversos
conhecimentos. Das religiões, foram usados elementos do Budismo, do Cristianismo
e do Xintoísmo; das crenças populares japonesas, a adoração aos antepassados e o
culto à alma dos mortos. Taniguchi recebeu influência, também, da Ciência Cristã,
corrente do Novo Pensamento americano e de correntes do pensamento ocidental,
entre elas a psicanálise freudiana, que serviu de apoio na elaboração de sua
psicologia de educação infantil e a filosofia idealista alemã que foi reinterpretada
com base na filosofia panteísta do Budismo.

Além dessas correntes, o líder introduziu conhecimentos das ciências físicas,


dando, dessa forma, em seus princípios, um caráter científico. Sobre isso, Taniguchi
afirmou que:
12

até o século XIX, a religião e a filosofia podiam se


fundamentar em princípios alheios à ciência, mas a partir
do século XX, principalmente da segunda metade, já não
está sendo possível pregar arbitrariamente crenças
dissociadas das ciências (Prefácio do livro Mistérios da
Vida, 1951).

Esse sincretismo é justificado pelo fundador, ao pregar que o papel da religião


é reconciliar os homens entre si. Daí a SNI divulgar que sua função é promover a
reconciliação entre os homens e, também, reconciliar as religiões entre si.

A reconciliação das religiões e a intenção de ser o centro integrador delas são


traduzidas no emblema (Enkan) da SNI, figura 1, é composto por três elementos que
estão relacionados, por sua vez, a três grandes religiões: o Xintoísmo, o Budismo e
o Cristianismo.

figura 1

Na parte externa, existe o sol que representa o Xintoísmo. No nível


intermediário, há a lua que simboliza o Budismo. No último nível, há a estrela que
representa o Cristianismo. Sobre a suástica (swastica – antigo símbolo oculto de
poder) representada na lua, os líderes dizem que ela exprime a ideia de movimento
com suas setas, identificando as leis universais em que o esquerdo avança e o
direito recua. O lado esquerdo simbolizaria o positivo, o masculino; o direito, o
13

negativo, feminino10. O verde simboliza a Vida e o florescimento do homem na terra.


As trinta e duas linhas do halo do Sol representam as trinta e duas boas fases de
Buda.

Paiva (2005, p.211), ao analisar a referência às três religiões nesse emblema,


explica que, mesmo com essa união, a SNI continua sendo considerada uma das
‘novas religiões japonesas’ e comenta ainda que:

essa tripla referência não coloca a Seicho-No-Ie na


esteira de nenhuma dessas formas religiosas, pois sua
doutrina provém de revelação pessoal ao fundador e a
organização do grupo religioso é autônoma.

O termo ‘novas religiões japonesas’ é definido por Arai (apud Paiva 2005,
p.210) como:

grupos religiosos que surgiram desde os anos finais da


era Tokugawa, têm seu centro espiritual na pessoa e no
ensinamento pretensamente singular de um fundador,
proveniente do povo comum, e se orientam para a
conquista de novos membros a partir das massas.

Paiva (2005) acrescenta, ainda, que as ‘novas religiões’ fazem suas


orientações para o momento presente, o mundo de agora e não para o futuro, por
meio de práticas de aparência mágica.
                                                            

10
   A distinção entre positivo (masculino) e negativo (feminino) é fundamentada no Taoismo, tradição filosófica e
religiosa originária da China, que enfatiza a vida em harmonia com o Tao. Para essa filosofia, o mundo é
composto pelos elementos opostos Yin e Yang que se complementam, que estão em infinito movimento e que
são equilibrados por Tao. Yang é considerado a força positiva do bem, da luz e da masculinidade, já o Yin é a
essência negativa do mal, da morte e da feminilidade. Os taoistas acreditam que esses elementos não podem
existir separados e que nenhum deles é mais importante ou melhor que o outro ( BLOFELD, 1995 & TSAI,1997).
14

A intenção da SNI, ao integrar várias religiões em seus ensinamentos, é


receber pessoas de várias crenças, sem que elas abandonem sua religião de
origem, pois, de acordo com o fundador (2008a, p.18):

a filosofia da Imagem Verdadeira é uma filosofia que


prega a identidade de todas as religiões na sua essência.
Do mesmo modo que o alimento nutre as pessoas, a
nossa filosofia nutre alma de todos que a assimilam,
qualquer que seja sua religião.

Ainda sobre esse sincretismo religioso que permeia a instituição, Davis (1970,
p.55), ao escrever a biografia de Masaharu Taniguchi, diz que o fundador recorreu
às escrituras de todo o mundo para modelar uma filosofia praticável que possa ser
aceita pelas pessoas de todas as crenças religiosas.

Outro motivo que pode ter levado a adesão das pessoas à SNI, é a diluição
da ideia de pecado, que é considerado fruto do pensamento e uma ilusão. Segundo
os ensinamentos do líder, estudos no campo da psicanálise, afirmam que os
problemas enfrentados pelas pessoas são formas de autopunição, devido o ser
humano ter sedimentado no subconsciente tal ideia. As dificuldades são, para ele, o
resultado da projeção de uma punição (social ou do próprio eu) por alguma
atitude/ação apreendida, socialmente e/ou espiritualmente, como negativa pelo
indivíduo.

Para Taniguchi (2008, p. 27), se esse conceito for eliminado do


subconsciente, os infortúnios deixarão de acontecer. Para tanto, é necessário que o
homem se conscientize de que ‘é filho de Deus, perfeito em sua essência, para que
ele consiga, assim, mudar a realidade em que vive’. Dessa forma, a tese sustentada
pela SNI é a de que a ‘imagem verdadeira’ do homem é ‘filho de Deus’, é o ‘Jissô’, já
que:
15

o conscientizarmos o fato de que a Imagem Verdadeira da


Vida é perfeita e harmoniosa, passa a atuar a força
curadora da Grande Vida e se processa a cura metafísica
(cura divina).

Cura metafísica é, para ele, a maneira de curar as infelicidades sem a


necessidade de recorrer a métodos materiais. Taniguchi (2008) explica, ainda, que
escolheu usar esse termo, a fim de evitar que o seu método fosse equiparado aos
métodos de cura espiritual ou de cura pela aplicação da palma da mão.

Sobre esses métodos de cura, Davis (1970) afirma que eles não têm
identificação com a hipnose, a sugestão, o magnetismo ou com outra forma de cura
mental ou magia. Para ele, a idéia central dessa filosofia é mostrar que somente o
despertar espiritual pode libertar as pessoas da limitação.

Nesse âmbito, segundo os ensinamentos, as pessoas traçam suas vidas por


meio da mente, tendo em vista que os cinco sentidos trabalham na perspectiva da
captura das projeções da mente humana, chamadas de ilusão. Esse mundo captado
pelos sentidos, ou seja, o mundo material é identificado como ‘mundo fenomênico’,
de ‘sombra’, conforme observamos em Taniguchi (2010, p.62):

os cinco sentidos do homem não veem senão o ‘mundo


da projeção’. Desejando purificar o ‘mundo da projeção’,
deveis purificar a matriz da mente e eliminar as nódoas da
ilusão.

Diante desse aspecto, para Taniguchi (2010), existem duas verdades: a vertical
e a horizontal. Ele prega que a primeira é a existência infinita, apenas, de Deus e de
Sua criação e que, devido ao ser humano fazer parte dessa criação, ele é possuidor
da mesma natureza de seu Criador. Dessa convicção, veio a seguinte afirmação: ‘o
homem é filho de Deus’. O que não tiver a natureza divina trata-se de manifestação
da mente humana, não tendo, assim, existência eterna, mas temporária.
16

A segunda verdade ensinada é sobre o mundo apreendido pelos sentidos, ou


seja, ‘o mundo fenomênico’ que, para ele, trata-se de projeção da mente humana, ou
seja, uma ‘ilusão’ com começo, meio e fim, sendo, portanto uma realidade efêmera.
São exemplos de ‘ilusões’: o envelhecimento, as enfermidades, a morte, o pecado,
entre outras. As práticas propostas pela SNI seriam o meio para purificar a mente,
para que, assim, o homem ‘projete’, ‘crie’ uma realidade sem tais infortúnios.

1.4 Práticas filosófico-religiosas e seus desdobramentos

A base doutrinária da SNI, como dito, consiste em fazer o ser humano


manifestar sua natureza divina de filho de Deus, seu aspecto real, o Jissô. Para
tanto, são organizadas práticas para difundir seus ensinamentos e para compartilhar
suas crenças, que se aliam a características pedagógicas, pois, segundo Davis,
(1990, p.115):

o propósito da organização é o de educar o povo através


da palavra escrita, preleções, aulas, conselhos pessoais e
pela instrução na arte e na prática da Meditação
Shinsokan.

Para que o ‘mundo da projeção’ seja modificado, é ensinado aos seguidores a


‘purificação da mente’, ou seja, o Shinsokan, definido como ‘a arte da meditação
contemplativa’. Trata-se de uma prática diária que deve ser feita ao acordar e à
noite, ao dormir, com o intuito de se estabelecer uma conexão com a natureza divina
que, por sua vez, será refletida na vida cotidiana.

Além dessa meditação, é necessário que os adeptos leiam, também,


diariamente, a Sutra Sagrada Chuva de Néctar da Verdade que contém a síntese
dos ensinamentos e é considerada a ‘escritura sagrada’ da SNI. Nela, há as
revelações divinas, que Taniguchi diz ter recebido, em forma de poema, que estão
organizadas em nove capítulos: Vida, Deus, Espírito, Matéria, Realidade, Sabedoria,
Ilusão, Pecado e Homem.
17

Sobre livros sagrados, vale lembrarmos sua frequente presença nas principais
religiões e que seus autores, geralmente, afirmam que receberam ‘revelações
divinas’ para produzí-los. Esses escritores são considerados, muitas vezes, pelos
adeptos, pessoas iluminadas, profetas que se comunicam com Deus, com anjos,
com deuses, entre outros. Para exemplificarmos, citamos os livros sagrados das
principais religiões: a Bíblia, no Cristianismo; o Alcorão, no Islamismo; a Torá e a
Bíblia, no Judaísmo; a codificação de Allan Kardec, no Kardecismo.

A importância da leitura da sutra e da prática da Meditação Shinsokan é


enfatizada nas obras e incentivada em palestras, em cursos, como sendo
responsáveis por uma série de ‘milagres’. Essa divulgação estimula os adeptos a
inserirem essas práticas, no dia a dia, por serem o meio utilizado para purificar a
mente e, por conseguinte, mudar o ambiente, que, conforme já dissemos, é uma
‘projeção da mente’.

Dentre as técnicas acima citadas e outras apresentadas aos adeptos,


destacamos: o agradecimento constante a todas as pessoas, coisas e fatos, o
elogio, as repetições de frases, a purificação da mente, a maratona de leitura de
sutras, o oferecimento de cultos aos familiares falecidos ou não e às crianças
abortadas. Os frequentadores são incentivados, ainda, a irem às Academias de
Treinamento Espiritual para aprimorarem os ensinamentos, pois lá são oferecidos
seminários, cursos, palestras e, também, são organizadas várias cerimônias.

Merece, também, destaque, por ser muito divulgada, a Oração para a Cura
Divina, mais conhecida como Forma Humana. Trata-se de um formulário de pedido
de orações, em duas vias. A primeira fica na sede central e a segunda, com o
interessado. Nele, há uma relação de quinze ‘desejos’ para que o solicitante opte por
aquele(s) que atende a seus anseios, como por exemplo: manifestar a imagem
verdadeira (manifestar o Deus interior), ter saúde, alcançar a prosperidade, ter
harmonia entre outros. Feita a(s) escolha(s), ele é quem decide o tempo de duração
da oração: um mês, três meses, seis meses ou um ano. Em horários determinados,
as orações são feitas seis vezes por dia, sendo, a última, realizada pelo presidente
doutrinário da América Latina.
18

Em todas as práticas estabelecidas, a leitura de alguma obra de Taniguchi ou


de trechos dela estão, frequentemente, presentes. Nesse sentido, não é por acaso
que a literatura seja o meio de divulgação predominante da doutrina, havendo
centenas de livros publicados e vendidos para os adeptos, na sede e nos núcleos
ou, ainda, no próprio site. Dentre essa vasta produção, destacamos as revistas
Fonte de Luz, direcionada para os homens; Pomba Branca, para as mulheres e
Mundo Ideal, para os jovens. Há ainda os jornais, Querubim, para as crianças e
Círculo da Harmonia (Enkwan) para divulgar as principais atividades da SNI, que
apresenta, também, uma versão on-line. Sobre a comercialização das obras, fora
desse ambiente, verificamos que nas livrarias11, os poucos livros comercializados
são encontrados na seção religiosa ou de autoajuda. Isso nos mostra que a doutrina
não fica restrita a um único campo.

Para que a instituição acompanhe as transformações, pelas quais a


sociedade passa e para que divulgue seus ensinamentos para um grande número
de pessoas, os dirigentes e os preletores fazem uma releitura da vasta obra do
fundador, adaptando-a ao momento atual. No que se refere às adaptações feitas, é
importante destacarmos que apesar das mudanças, relacionadas às questões
cotidianas, os dirigentes, para validarem o próprio discurso, baseiam-se na tradição
do sensei (que significa professor e, literalmente, quer dizer aquele que veio antes),
tendo como fundamento o retorno às origens e aos vários textos sagrados ou que
foram sacralizados, posteriormente (DINIZ, 2005).

Ao visitarmos a sede e os núcleos da SNI, verificamos que, além das


publicações, são utilizados, para propagar seus ensinamentos, CD’s com gravações
de palestras proferidas, com canções e com orações, calendários de mesa ou de
parede, chamados Palavras de Luz, muito conhecidos por terem, para cada dia,
frases extraídas das obras. São usados, ainda, pingentes, fitas cassetes e kits, para
homens, para mulheres ou para crianças, organizados por temas, como:
prosperidade, saúde, amor etc.

                                                            
11
Informações obtidas nos sites: <http://www.livrariasaraiva.com.br/pesquisaweb/pesquisaweb.dll/pesquisa?ID>,
da livraria Saraiva e http://www.livrariacultura.com.br/Produto/Busca?Buscar=masaharu%20taniguchi> da livraria
Cultura. Acessados em 19 de janeiro de 2013.
19

Além dessas estratégias de divulgação, os membros, para aderirem ao que é


propagado, recebem orientações acerca de “As Sete Declarações Iluminadoras”
que, conforme Taniguchi (2008), contêm os valores maiores da doutrina e servem de
base para o trabalho de difusão da organização. Nesse âmbito, transcrevemos as
declarações, a seguir:

1. Declaramos transcender todo sectarismo religioso e, reverenciando a Vida,


viver em fiel obediência à Lei da Vida.
2. Acreditamos que a lei da manifestação da vida é o caminho do progredir
infinito e acreditamos também que é imortal a Vida que se aloja em cada
indivíduo.
3. Estudamos e publicamos a Lei da criação da Vida, para que a humanidade
possa seguir o verdadeiro caminho do progredir infinito.
4. Acreditamos que o amor é o alimento da Vida e que a oração, as palavras de
amor e o elogio constituem o poder criador da palavra que concretiza o amor.
5. Acreditamos que, como filhos de Deus, possuímos em nosso interior a
possibilidade infinita e que podemos atingir o estado de absoluta liberdade
com o uso controlado do poder da palavra.
6. Para melhorarmos o destino da humanidade por meio do poder criador das
boas palavras, publicamos a revista Seicho-No-Ie e livros sagrados, que
contém boas palavras.
7. Baseados na correta filosofia da vida, no correto modus vivendi e no correto
modo de educar, organizamos movimentos concretos que dominem doenças
e todas as demais formas de sofrimento humano, para construir na face da
Terra o Reino dos Céus de amor mútuo e cooperação.

Essas declarações são lidas e explicadas, pelos preletores, para o público, em


reuniões, em seminários, em treinamentos, sendo, também, elucidadas, em algumas
obras e, comumente, servem de tema de palestras.

Diante desse cenário, para reiterar o compromisso dos adeptos com a instituição
e reforçar sua ideologia, Taniguchi (1995, p.39) elaborou, ainda, as oito normas
fundamentais dos praticantes que são lidas, em voz alta, nas reuniões:
20

1º. Agradecer a todas as coisas do Universo.


2º. Conservar sempre o sentimento natural.
3º. Manifestar o amor em todos os atos.
4º. Ser atencioso para com todas as pessoas, coisas e fatos.
5º. Ver sempre as partes positivas das pessoas, coisas e fatos e nunca suas
partes negativas.
6º. Anular totalmente o “ego”.
7º. Fazer da vida humana uma vida divina e avançar crendo sempre na vitória
infalível.
8º. Iluminar a mente, praticando a meditação Shinsokan todos os dias sem falta.

Notamos que essas normas prescrevem o comportamento que os adeptos


devem ter, diante das situações do cotidiano, para que eles adotem uma postura
passiva, diante dos percalços do dia-a-dia, diferenciando-se, assim, daqueles que
não são praticantes dos ensinamentos.

Assim, no que tange as práticas filosófico-religiosas, Osaki (1990, p.43) comenta


que a SNI é considerada, à primeira vista, uma super-religião muito rica em todos os
aspectos religiosos. No entanto, ele a avalia como sendo bem pobre nas suas
manifestações, rituais e cerimônias de culto. O pesquisador justifica sua opinião,
pois leva em conta a recomendação feita, pela doutrina, aos adeptos de outras
religiões, para que se mantenham fiéis aos cultos de sua religião de origem.

Ele lembra, ainda, que essa ‘nova religião japonesa’ não possuía um objeto
especial de culto e que, somente depois de muito tempo, adotou como objeto de
culto e veneração pública um símbolo sagrado: a palavra Jissô. Essa palavra está
inscrita em um quadro (explicitado pela figura 2) afixado no alto da parede central do
salão, onde ocorrem as palestras, de maneira bem visível, com o intuito de fazer os
adeptos recordarem a presença de Deus. Ao entrarem no local, eles fazem um sinal
de reverência diante do Jissô, fazem preces e participam das cerimônias.
21

Figura 2

Vale ressaltar que, durante o ano, ocorrem festividades especiais, em datas


consideradas consagradas, que são revestidas de solenidade, no aspecto religioso
bem como no aspecto social. Entre elas, destacamos: a festa de Ano Novo, em
primeiro de janeiro; a fundação da SNI, comemorada em primeiro de março; a data
natalícia do fundador, em 22 de novembro; a comemoração dos mortos, no começo
da primavera e do outono e as grandes purificações nos meses de junho e de
dezembro.

1.5 A construção da Seicho-No-Ie no Brasil

A trajetória da SNI, no Brasil, iniciou em 1932, quando um imigrante japonês


recebeu a Revista Seicho-No-Ie12 e a distribuiu para algumas pessoas. Em 1933,
Daijiro Matsuda, lavrador japonês, residente perto de Duartina, interior de São Paulo,

                                                            
12
A revista pode ter chegado com outros imigrantes japoneses e ter se disseminado no Brasil, timidamente, já
que Kobe, a cidade das primeiras manifestações dessa doutrina, possui o maior porto do Japão e é o local de
onde partiu o primeiro navio de imigrantes japoneses em 1908, assim, como os demais até os idos de 1941. A
imigração de japoneses, para o Brasil, tem como marco oficial 18 de junho de 1908, quando o navio Kasato-maru
aportou em Santos. No período de 33 anos, até 1941, cerca de 1.500 japoneses chegaram ao Brasil com o
propósito de enriquecerem, rapidamente, para assim regressarem à terra natal. Cabe ressaltar, que esses
imigrantes japoneses partiram de um Japão, cujo cenário político-religioso caracterizava-se pelo retorno do poder
imperial, com o término do regime feudal e pela proclamação do Xintoísmo como religião do Estado e da Nação,
pelo imperador Meiji, dessa forma, o budismo deixou de ter liberdade de ação sobre a sociedade. Nesse período,
que compreende de 1904 a 1941, Osaki (1999) diz que os santuários e as celebrações de cultos eram de total
responsabilidade do governo, o cristianismo era perseguido e a crise econômica se lastreava, por conta de
embargos e gastos com guerras.
22

após a leitura do livro A Verdade da Vida (Seimei no Jissô), disse ter sido curado de
disenteria amebiana. Ele e o irmão Miyoshi Matsuda entraram em contato com a
SNI, do Japão, para obterem uma assinatura da revista. A partir de então, eles
começaram a tratar das doenças de seus vizinhos e a disseminarem o movimento,
atraindo japoneses da região.

Os originais das primeiras revistas que aportaram, no Brasil, eram em


japonês. Com isso, a leitura feita, por esses primeiros imigrantes, não sofre com as
interferências de uma tradução para outra língua, sem ter, portanto, as marcas locais
e temporais da língua portuguesa.

Vale ressaltar que a primeira revista foi editada no Japão, em 1930, portanto a
distância temporal entre o produzido e o publicado é pequena, de dois anos, o que
nos faz pensar sobre uma concomitância de tempos entre o Brasil e o Japão, quanto
à difusão dos ensinamentos de Taniguchi, pela SNI, nesses países.

Devido aos exemplares chegarem sem tradução e à difusão dos


ensinamentos ser fruto de uma iniciativa individual desses primeiros irmãos
japoneses, Albuquerque (1999) ressalta que, no início, os imigrantes japoneses
eram o público principal e que não havia a supervisão da sede, no Japão. As regiões
de Gália e Duartina13 se tornaram o centro de difusão e os divulgadores que surgiam
interpretavam, livremente, os ensinamentos sem receber orientação da matriz. No
entanto, as reuniões organizadas pelos pregadores retraem-se, durante a Segunda
Guerra, e o contato com a doutrina restringe-se à leitura das revistas, pois ocorre um
desligamento da sede nesse período. Não obstante, ocorre, nesse momento, a
formação de novos grupos de adeptos ao movimento14.

                                                            
13
Os dois municípios de Gália e Duartina, respectivamente, tornaram-se unidades administrativas, em 1928 e
1930, eles juntos somam 10.000 habitantes. O reconhecimento público, dessas cidades, coincide com a ida de
imigrantes japoneses para a região que, apesar de serem poucos, trabalhavam na produção de seda e no
desenvolvimento da agricultura nessas cidades.
14
Em relação ao Brasil, a SNI surge, em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. Dentre as diversas
características do Estado brasileiro, salientamos aquelas que coibiram as práticas da difusão da doutrina
japonesa, com a perseguição ao comunismo, no Brasil, principalmente, no campo, onde a política era
latifundiária. Com a Segunda Guerra Mundial, os adeptos, ainda, enfrentavam dificuldades na chegada de novas
revistas da SNI.
23

Por conseguinte, Osaki (1990, p.18), ao estudar o surgimento das religiões


japonesas no Brasil, lembra a existência de três momentos históricos 15 que
mudaram a vida religiosa do povo japonês. Aqui, destacaremos o terceiro momento,
marcado pela derrota do Japão, na Segunda Guerra Mundial (1938-1945) e pela
divulgação da nova Constituição que decretou a liberdade de culto no país, bem
como a separação entre religião e Estado e a oficialização das ‘novas religiões
japonesas’. Dentre essas novas religiões que surgiram, no Brasil, Osaki (1990)
destaca a Instituição Religiosa Perfect Liberty (PL), a Igreja Messiânica do Brasil, a
Tenrikyo, a Sokagakkai, a Oomotokyo, a Sukyo Mahikari, no entanto, a SNI, por ser
a pioneira, conseguiu o maior número de seguidores.

Esse momento de transformação, pelo qual o Japão passou, refletiu na


organização da colônia japonesa que se estabelecia no Brasil, pois, após a Segunda
Guerra, os imigrantes dividiram-se em dois partidos: os que aceitavam a derrota do
Japão e os que consideravam o Japão invencível.

De acordo com Davis (1990), essa divisão provocou vários conflitos, com
vítimas fatais, porém, com o término dessa situação, a maioria dos imigrantes
preferiu permanecer no Brasil a voltar para o Japão e sofrer as consequências da
Guerra. Esse, portanto, foi o momento ideal para as ‘novas religiões’ agirem em
favor desses estrangeiros.

Os encontros são reiniciados, em 1946, e o centro das atividades da SNI é


transferido para a cidade de São Paulo, devido o movimento migratório dos
japoneses para a capital e o aumento de imigração de estrangeiros, em decorrência
dos conflitos no Japão, no final da II Guerra Mundial.

                                                            
14
No primeiro momento, século VII, houve a introdução e domínio do Budismo, no país, que resultou na fusão
xintô-budismo. O poder era militar e a figura do imperador não se destacava, trata-se do regime feudal que teve
a duração de seis séculos. No segundo momento, de 1908 a 1941, houve o retorno do poder imperial com o
término do regime feudal e a proclamação do Xintoísmo, como religião do Estado e da Nação pelo imperador
Meiji e, assim, o Budismo deixou de ter liberdade de ação sobre a sociedade. Nessa época, os santuários e as
celebrações de cultos eram de total responsabilidade do governo e o cristianismo era perseguido. No terceiro
momento, o Xintoísmo deixou de ser a religião oficial, ocorrendo o ressurgimento das religiões, que eram
oprimidas pelo governo imperial. O Cristianismo teve seu espaço conquistado e o Budismo pôde reabrir seus
templos. Nesse cenário, da reforma Meiji, houve o surgimento de várias novas religiões japonesas – dito,
anteriormente, sobre a oficialização de outras denominações, como a própria Seicho-No-Ie.
24

Nesse sentido, conforme Albuquerque (1999), em 1951, a matriz japonesa


reconhece a sede brasileira e envia o representante, Katsumi Tokuhisa, para a
unificação dos grupos existentes. Nesse período, é estabelecida a Sociedade
Religiosa Seicho-No-Ie do Brasil, na cidade de São Paulo. As atividades começam a
ser supervisionadas pela sede nipônica e esse intercâmbio aumenta. São habilitados
39 pregadores regionais e, após treinamento, Miyoshi Matsuda - irmão de Daijiro
Matsuda, curado em 1933 - retorna do Japão com o título de “Pregador Residente”.

Diante desse aspecto, segundo Castilho (2006), em agosto de 1952, o


governo brasileiro, ao reconhecer a SNI como sociedade religiosa, impulsiona a
propagação dos ensinamentos da SNI aos não-descendentes de japoneses. Sobre
isso, Albuquerque (1999, p.22) lembra que a instituição, até então, configurava-se no
Brasil como uma religião voltada para o patrimônio étnico-cultural da comunidade
nipônica e que, com sua oficialização no país, ela iniciou sua abertura para a
sociedade brasileira.

No período, de 1950 a 1960, houve iniciativas de integração com a sociedade


brasileira que enfatizavam o patriotismo com a intenção de preservar os valores na
colônia japonesa. Em 1955, foi criada a Academia de Treinamento Espiritual, em
Ibiúna, interior de São Paulo e a Associação de Moços (Seinen-Kai). Em 1956,
realizou-se o primeiro Congresso Nacional da Associação das Senhoras (Shirohato-
Kai) e, a partir de 1958, houve a preocupação de se traduzir as sutras e as revistas.
Notamos que, nessa época, os preletores pregavam, ainda, em língua japonesa, os
ensinamentos doutrinários sistematicamente.

Por conseguinte, Albuquerque (1999) observa que, a partir da década de 60,


do século XX, a instituição empenhou-se em aumentar o número de adeptos e a
diversificar suas atividades. Em virtude disso, houve um crescimento significativo no
número de pessoas que se filiavam à SNI: de aproximadamente 8.500 adeptos, em
1961, para 15.630, em 1966. A maior parte deles é da classe média, mulheres e
jovens, brasileiros e nisseis, sendo a maioria, ligados ao espiritismo kardecista e à
teosofia 16 . Devido a essa demanda, a instituição começou a organizar reuniões,

                                                            
16
Teosofia se constitui na sabedoria presente nas grandes religiões, filosofias e nas principais ciências da
humanidade. Pode ser encontrada, em maior ou menor grau, na origem dos variados sistemas de crenças ao
longo da história (BLAVATSKY, 2004).
25

especialmente, para esse público e criou o Departamento de Divulgação em


Português. Essas ações mostram que esses novos membros eram importantes para
o movimento.

Nesse âmbito, Albuquerque (2001) e Castilho (2006), ao tratarem das formas


usadas pela SNI, para ganhar espaço no Brasil, dizem que a instituição utilizou três
estratégias em períodos distintos para alcançar seu objetivo. A primeira, de 1950 a
1960, em que se adotou uma postura nacionalista, durante e após a Segunda
Guerra, no Brasil e no Japão, além disso, foi priorizado o alinhamento à situação
política brasileira pós-1964: elogiando o governo militar e o apoiando, em suas
publicações, como sendo fonte de estabilidade e ordem social – tal qual a doutrina
fazia no Japão. Essa postura se tratava de uma maneira de buscar a legitimação na
sociedade brasileira, tendo em vista que a instituição começava seu trabalho de
expansão, no Brasil e, por isso, precisava negociar, com as autoridades, o
desenvolvimento de suas atividades.

A partir daí, André (2008, p. 7) ressalta que esse aspecto se diferencia do que
acontecera, na primeira metade do século XX, quando o Estado Novo de Getúlio
Vargas empreendeu uma política repressiva em relação aos imigrantes japoneses,
considerados súditos do eixo comunista.

A segunda estratégia era do ponto de vista doutrinário e consistia em publicar,


na revista Acendedor, traduções de artigos de Taniguchi que tratavam de temas
cristãos comuns aos brasileiros, como, por exemplo, os significados da cruz, da
ressurreição, da Páscoa etc. Nesse âmbito, Castilho (2006) afirma que, no período
de1970 a 1980, intensificaram-se, as traduções e os seminários em língua
portuguesa e que, além disso, a SNI permitia que as pessoas tivessem duas
religiões, o que era comum no Japão, porém, pouco praticado e/ou assumido no
Brasil.

Sendo assim, conforme os estudos de Waragai (2008), acerca das


interferências culturais, na tradução de textos das religiões nipônicas, da mesma
forma que aconteceu com os missionários jesuítas, os missionários japoneses
encontraram dificuldades para propagarem sua religião para além dos imigrantes do
26

Japão e de seus descendentes. Eles perceberam que mudar o idioma – do japonês


para o português – não era suficiente, pois, mesmo com essa mudança idiomática,
as mensagens não tinham sentido, uma vez que contextualizavam o universo
japonês.

Diante disso, para resolver esse problema, foi decidido que, para ultrapassar
essa barreira, seria necessário adaptar os textos religiosos para o contexto dos
brasileiros sem ascendência japonesa. Para Waragai (2008), assim como os
jesuítas, esses missionários, para atingirem seus objetivos, tiveram que abrir
concessões como, por exemplo, criar ou suprimir ritos para atender às necessidades
dos adeptos.

Waragai (2008), ao discorrer sobre os textos traduzidos da SNI, afirma, ainda,


que os tradutores, sempre, estão atentos ao contexto brasileiro e que, apesar de,
muitas vezes, a tradução não ser feita de maneira literal, há a preocupação em se
manter o cerne dos ensinamentos, adaptado à realidade do Brasil.

A terceira estratégia foi adequar a doutrina aos problemas e demandas locais,


para que se adaptasse ao contexto brasileiro, a partir de 1990. Diferentemente, de
outras religiões orientais, que não se abriam para os brasileiros, a SNI executou
muitas ações, com o intuito de buscar a aproximação e a identificação com quem
não tivesse familiaridade com a cultura do Japão ou com brasileiros e não-
descendentes de japoneses, dentre elas destacamos: a tradução de trechos que
implicam a compreensão dos ensinamentos, como Jissô (Imagem Verdadeira), a
entoação do canto da Shinsokan (meditação) em língua portuguesa, deixando de ser
obrigatório em japonês, em 2004, a inauguração da Academia de Treinamento
Espiritual, em Curitiba, Paraná e a iniciativa de trabalhos sociais e filantrópicos.

Ao observar este cenário, Albuquerque (1999) ressalta que, com o intuito de


validar suas práticas e de obter maior adesão, houve uma grande dedicação em
campanhas de distribuição de revistas em repartições públicas, em delegacias, no
Corpo de Bombeiros, em hospitais, entre outros, que teve como lema o
agradecimento aos serviços prestados. Ademais, a SNI fundou a Liga dos Novos
Educadores para atingir os professores e procurou inserir, na política, pessoas
formadas por ela.
27

A SNI, também, tentou atrair mulheres e empresários, organizando


seminários. Para eles, os temas abordados eram sobre prosperidade, para elas, os
assuntos discorridos considerados importantes se organizavam em temas
relacionados à culpa sexual dos cônjuges, à finalidade da mulher, entre outros.

Nesse sentido, Albuquerque (1999) e Castilho (2006) lembram que o


desenvolvimento, junto aos brasileiros, foi marcado por visitas da liderança da sede
japonesa, do fundador, com sua esposa (em 1973) e do sucessor, seu genro, Seicho
Taniguchi (em 1970 e em 1977). Houve, também, a adesão dos primeiros preletores
brasileiros, em 1978, a inauguração das Academias de Treinamento Espiritual em
Santa Tecla, no Rio Grande do Sul, em 1982 e em Santa Fé, na Bahia, em 1989.
Aconteceu o lançamento da revista Pomba Branca, em 1985, ano da morte do
fundador, e houve a 1ª Convenção Nacional de Educadores, em 1989.

Dessa forma, Paiva (2005), ao pesquisar sobre a fenomenologia da pertença


à SNI, em jovens e adultos brasileiros de ambos os sexos, verificou que aqueles são
atraídos, conscientemente, para essa ‘nova religião’ pela libertação da culpa e do
clima de pecado. Já os adultos, mais especificamente, os homens, foram atraídos
pela ampliação da visão religiosa, enquanto as mulheres tinham interesse de
melhorarem interiormente. Após analisar as informações obtidas, ele descreve,
resumidamente, o adepto brasileiro como sendo:
 

alguém outrora mortificado e diminuído pela consciência


de ser pecador; essa consciência é aguçada pela repre-
sentação de um Deus exterior, distante e arbitrário. Ser
pecador inclui não só um profundo sentimento de culpa,
mas também a desestima pessoal. Nos jovens, esse
sentimento se prolonga em desânimo […]. Nos adultos, o
sentimento se revela na crítica ao negativismo católico
perante a vida (PAIVA & NAKANO, 1987, p. 56 apud
Paiva, 2005).
28

Ele explica, ainda, que as diferenças constatadas decorrem de motivações


particulares: os jovens, aparentemente, procuram uma elevação da autoimagem; os
homens, por outro lado, estão em busca da verdade e as mulheres buscam a
solução de problemas pessoais e familiares.

Diante dessa realidade, Paiva (op.cit., p.212) comenta que não foi encontrada
nessa ‘nova religião’ a xenofilia, que disporia os convertidos a aceitarem,
positivamente, ‘coisas do Japão’, não foi encontrada nenhuma predisposição
particular favorável à cultura japonesa.

Assim como no Japão, a SNI sincretizou elementos da cultura e da


sociedade, na qual estava inserida, por serem necessários para o desenvolvimento
da doutrina, para a tradução dos textos e para a compreensão dos conceitos
difundidos. Para esta modalidade de sincretismo, que vai muito além da religião,
como explorado anteriormente, Paiva (op.cit., p.215), em seu estudo sobre a
inserção das novas religiões no Brasil, sob a perspectiva da psicologia, afirma que o
sincretismo favorece à

produção de novos insights, a partir do encontro entre


culturas, capazes de favorecer a expansão da
personalidade, a tolerância entre os grupos e a
diversidade de modos de ser.

Nesse âmbito, sobre o conceito de sincretismo, assim como Clarke (2008, p.


4), entendemos que não seja, apenas, uma mistura. Em seus estudos acerca das
diversas formas de sincretismo e antissincretismo praticadas pelas religiões
japonesas, no Brasil, ele acredita que a definição de sincretismo como mistura
requer mais explicações, por não dar conta do que ocorre quando as religiões se
encontram e participam dos rituais umas das outras ou quando chegam a se
respeitar e, de certa forma, compartilhar as mesmas crenças. Para ele, do ponto de
vista dos atores envolvidos geralmente não existe a intenção de simplesmente
reunir, sem uma atenção cuidadosa, diferentes crenças.
29

Por conseguinte, Clarke (op.cit., p.25) defende que, muito mais que ‘misturar’,
as religiões descobrem similaridades subjacentes muito significativas, que tornam,
assim, as diferenças irrelevantes ou que mantêm o compartilhamento de rituais
como algo separado da aceitação intelectual que diz respeito à doutrina, não
ocorrendo, nos adeptos, nenhuma mistura em nível intelectual, em suas mentes,
pois eles sabem quando alguma prática não tem a ver com a sua doutrina.

À vista disso, Verger (apud Clarke, 2008, p.35), ao discorrer sobre esse
envolvimento, considera-o mais como um processo de “justaposição” do que como
sincretismo e cita, para exemplificar, os praticantes do Candomblé, religião afro-
brasileiras, pertencentes, por exemplo, das tradições católicas, que se esforçam em
não misturar o que consideram católico com o que consideram ser de origem
africana, por terem consciência das diferenças entre o catolicismo e sua religião.

Assim sendo, o crescimento fenomenal dos adeptos das novas religiões


japonesas, entre as décadas de 70 e 80, do século XX, segundo Clarke (2008)
começou a diminuir, no início dos anos 90 e, em meados dessa década, começaram
aparecer sinais visíveis de declínio. A partir daí, vieram novas maneiras de se
pensar a questão do recrutamento e da expansão, já que algumas das novas
religiões se reformularam para aparentarem ser mais budistas do que antes, pois
acreditavam que essa nova imagem seria mais atraente, agora, aos brasileiros,
enquanto outras, despiram suas roupagens budistas ou xintoístas.

A SNI, da mesma forma que muitas novas religiões japonesas, não quer que
o movimento se descreva como uma religião, sob o argumento de o termo religião
ter sido, conforme Clarke (op.cit., p.42), corrompido pelo uso que dele fizeram os
sucessivos governos, desde os tempos de Meiji (1868-1912) até o fim da II Guerra
Mundial. Para o estudioso, isso torna a identidade da SNI no Brasil ambígua,
permitindo, assim, uma maior flexibilidade no que diz respeito ao recrutamento e
filiação. Pessoas de outras religiões sentem-se à vontade ao ouvir ou praticar o que
é ensinado, no entanto, ele afirma que, seguramente, a ambiguidade pode, também,
afugentar aqueles que estão buscando, logo de início, uma identidade religiosa,
claramente, definida.

Diante desse aspecto, para se aproximar mais dos brasileiros, atualmente, a


SNI utiliza o rádio, a televisão, a internet e as redes sociais como o orkut, o facebook
30

e o twiter para a divulgação de seus ensinamentos, sendo a única, das novas


religiões japonesas, a usar a mídia no cenário religioso brasileiro. Essa visibilidade
atrai um público variado e aumenta o desafio da organização que é o de estar
atualizada para auxiliar as pessoas que a procuram, sem perder a conexão com a
base da doutrina: despertar a natureza divina, por meio da palavra, a fim de
manifestar a perfeição da vida, a imagem verdadeira, o Jissô.

Existem regionais, núcleos e associações locais que divulgam a doutrina na


América Latina, na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, além de estar presente
em São Paulo e no interior, a SNI atua em, aproximadamente, 20 estados e tem
como diretora-presidente, a preletora Marie Murakami. Em todos esses locais, assim
como na sede, há livrarias para que os adeptos ou os visitantes adquiram as
diversas publicações ou outros produtos como pingentes, broches, adesivos, entre
outros.

Sobre a distribuição de adeptos, ela é sentida na posição que a SNI ocupa em


alguns censos. Considerada uma ‘religião oriental’, em alguns casos 17 , é a mais
popular dentre a Soka Gakkai e a Igreja Messiânica Mundial, possuindo 27.784
adeptos. Somando essas informações com os dados do censo de 2000 e 201018,
constatamos um aumento na diversidade religiosa, no Brasil, de 462 mil adeptos
dessas ‘novas religiões’, nesse período. Desse modo, percebemos que esse
crescimento tem uma peculariedade: a grande quantidade de não-japoneses e de
mulheres – o que desperta o nosso interesse em analisar uma coluna dedicada a
esse público feminino19.

                                                            
17
Segundo o Novo Mapa das Religiões (2011), análises feitas pela FGV em 2011. In:
<http://www.cps.fgv.br/cps/bd/rel3/REN_texto_FGV_CPS_Neri.pdf >. Acessado em 20 de janeiro de 2013.
18
IBGE / Censo 2000 e 2010. In:
<http://www.ibge.gov.br/estadosat/temas.php?sigla=sp&tema=censodemog2010_relig>. Acessado em 20 de
janeiro de 2013.
19
Dados do censo 2000, pela primeira vez, mostraram a presença de cerca de 151 mil brasileiros que se
autodeclararam fiéis de seis “novas religiões japonesas”: da Igreja Messiânica, 109.310 pessoas; da Seicho-No-
Ie, 27.784; da Perfect Liberty, 5.465, da Tenrikyo, 3.785 da Mahicari, 3.054 e da Hare Krishna. A pesquisa do
IBGE revelou, também, que as mulheres lideram a adesão a essas novas religiões: para cada 100 adeptas, há,
apenas, 64 homens” (O ESTADO DE S. PAULO, 2003). Já, o último censo, realizado em 2010, pelo IBGE,
revelou que há cerca de 311 mil adeptos nas ‘novas religiões japonesas’: 184 mil mulheres e 127 mil homens e,
na pesquisa organizada por cor ou raça, segundo os grupos de religião, os dados mostraram que há 171 mil
brancos e 44 mil amarelos. Não foram citadas as igrejas do censo anterior, com exceção da Igreja Messiânica
(incluída nesses números), pois as estatísticas, ainda, não foram liberadas pelo IBGE.
31

Ainda sobre sua participação no Brasil, em janeiro de 2010, a SNI recebeu a


Certificação ISO 14001- International Organization for Standardization, que
estabelece diretrizes sobre a área de gestão ambiental dentro de empresas. Essa
preocupação com assuntos ambientais provoca simpatia entre adeptos e não-
adeptos que, por meio de reuniões e pela mídia, são conscientizados e estimulados
sobre a cultura de defesa do meio ambiente. Em seu slogan (figura 3): o modo feliz
de viver em harmonia com a natureza é evidenciado o seu interesse pela
preservação ambiental:

Figura 3

Com o intuito de preparar pessoal para assumir a responsabilidade pelo


Movimento Internacional de Paz e de dar continuidade à propagação de seus
ensinamentos, a SNI oferece, desde 2011, bolsas de estudo no Japão20 para todos
os líderes ou membros da Missão Sagrada que tenham participado de reuniões, na
associação local, por mais de um ano.

Assim, para preservar sua história, foi inaugurado, em 11 de novembro de


2006, o Museu Histórico da SNI no Brasil, na Academia Sul-Americana de

                                                            
20
Informação obtida no site da Seicho-No-Ie: <http://www.sni.org.br/materia-bolsa-de-estudos.asp>. Acessado
em 02 de fevereiro de 2012.
32

Treinamento Espiritual em Ibiúna, SP. Lá estão expostos objetos utilizados por


Taniguchi em sua estada, no Brasil, em 1963 e 1973, há, também, fotos, referentes
ao início do movimento, no Brasil, entre outras lembranças que mantém a memória
viva entre os japoneses.

Diante desse contexto, Castilho (2006) diz que a SNI, ao se expandir no Brasil
e ao se aproximar da sociedade brasileira, não tem, somente, dado destaque às
características da cultura nipônica, mas, concomitantemente, tem mantido os
princípios da doutrina preconizados pelo fundador. Ademais, essa aproximação
proporciona o contato com os mais variados temas, como alimentação,
comportamento, educação, saúde, meio ambiente, política, entre outros.

1.6 A religiosidade na Seicho-No-Ie

Apesar de a SNI não ser vista como religião, notamos a presença da


religiosidade em seu discurso, ou seja, encontramos uma disposição para abordar
temas religiosos e para usar elementos de diversas religiões. Essa tendência se
justifica, pois segundo Masaharu Taniguchi (2007c, p. 16):

a Seicho-No-Ie não defende o sectarismo, opondo-se a


outras religiões. Para ela o xintoísmo é ótimo, o budismo
é ótimo, o cristianismo também é ótimo [...]. Vindo à
Seicho-No-Ie, qualquer pessoa sendo, budista ou
xintoísta, passa a entender a essência de sua respectiva
religião.

Por não ser considerada uma religião sectária, essa religiosidade é legítima e
atraente para sua atuação. Essa estratégia está relacionada às relações de poder, já
que seus representantes se tornam livres para criarem meios que a legitima.
Ademais, ao serem utilizados temas que fazem parte do universo religioso, são
definidos os modos de produção de sentido de seu discurso.
33

Taniguchi (2007c) explica que recorre aos ensinamentos de várias religiões,


pois todas são vistas como luzes de salvação irradiadas de um único Deus. Assim,
na Judéia, irradiou-se há dois mil anos a luz da salvação, nascendo Jesus; e na
Índia irradiou-se essa mesma luz há três mil anos, nascendo Sakyamuni
(TANIGUCHI, op.cit., p. 17).

Tendo como característica, essa aceitação religiosa, são comuns, nas obras,
em palestras e em cerimônias referências à Kojiki (mitologia japonesa), à Bíblia, às
escrituras budistas, aos ensinamentos e as práticas de seitas japonesas como Shin,
Zen, Shingon. Conforme Taniguchi (2008, p. 21), devido a esse “acolhimento”, não
se deve falar mal delas, pois a SNI se funde com a essência de todas as religiões.

Como exemplo dessa identidade religiosa, foi publicado, em 1960, o livro


Preleções sobre a interpretação do Evangelho segundo João: à luz do ensinamento
da Seicho-No-Ie. Nesse livro, há a transcrição de várias preleções, sobre o
Evangelho de João (Novo Testamento), feitas na Academia de Treinamento
Espiritual em Akasaka, Tóquio.

No prefácio dessa obra, o autor afirma que o Evangelho segundo João deve
ser lido dezenas e centenas vezes, para que se compreenda os ensinamentos e a
personalidade espiritual de Cristo. Além disso, ele comenta que apesar de não
pertencer a nenhuma igreja cristã, ele leu a bíblia, sob inspiração divina, e
apreendeu sobre a Vida de Cristo, e complementa, afirmando que as pessoas que
pertencem às igrejas tradicionais, talvez, não estejam conseguindo apreender a Vida
de Jesus.

Consequentemente, conforme Taniguchi (2009) argumenta, muitas religiões


cristãs ocultam o valor da Vida de Jesus e, por isso, movimentos, como a SNI,
pregam o valor intrínseco de Cristo, ou seja, pregam a Verdade comum a todas as
religiões. Além disso, ele adverte que a SNI não deve ser considerada uma
miscelânia de religiões, já que:

a sua doutrina se baseia em interpretações inéditas que


se manifestaram em forma de revelações divinas e que
34

dão vida à Bíblia como também às escrituras budistas


(TANIGUCHI, 2009, p. 255).

Assim sendo, para o autor (op.cit., p. 239), por exemplo, é uma blasfêmia
dizer que o homem, um impuro filho do pecado, seja filho de Deus. Ele faz referência
ao ensinamento cristão, que se baseia no antigo testamento (Gênesis 3:23), que
afirma que o homem passou a ter o pecado original desde a expulsão de Adão e de
Eva do paraíso. Ele afirma que o homem não é descendente de Adão e Eva, que
desobedeceram às ordens de Deus para não comerem o fruto proibido e postula que
o homem não é pecador, pois nasceu de Deus e é filho de Deus e que, portanto,
nesse ensinamento cristão, a relação homem/Deus está comprometida, devido a
ambos estarem separados.

Taniguchi (2007, p. 155) comenta que devido a essa ideia de pecado original
a humanidade passou considerar o ser humano “pó da terra” - um mero corpo
material - e a considerar o mundo um aglomerado de elementos materiais, sendo
essa crença, a origem do sofrimento das pessoas.

Sobre a materialidade, na SNI, ensina-se que o homem não é matéria, pois


ele é espírito, é a Imagem Verdadeira (Jissô) e que, por isso, ele é perfeito, é
harmônico, é saudável, é feliz, é livre de sofrimento e de dor. Essa convicção é
decorrente da seguinte interpretação do primeiro texto da Bíblia - Gênesis:

o primeiro capítulo de Gênesis refere-se à Imagem


Verdadeira perfeita do homem espírito. Já o segundo
capítulo vê o homem como uma criatura imperfeita,
formada do pó da terra. Isso constitui a primeira ilusão da
humanidade, o primeiro pecado (TANIGUCHI, 2007, p.
155).

Dessa forma, para o fundador, as religiões cristãs não cumprem o papel de


fazer surgir o Cristo interior inerente em todos os homens, pois, sem esse
35

conhecimento, o ser humano não conseguirá iniciar o processo de modificação de


sua realidade exterior. Para ele, o não reconhecimento dessa natureza espiritual do
ser humano, implica cometer o mesmo pecado praticado por Adão e por Eva. Nessa
perspectiva religiosa, a relação homem/religião estaria comprometida, por não
desempenhar o seu papel.

No entanto, para Taniguchi, o homem não precisa abrir mão de suas


convicções religiosas, para praticar o que lhe é ensinado. As pessoas devem
incorporar os seus ensinamentos ao cotidiano. Notamos, assim, a presença do
sincretismo, da pluralidade, que nos remete à heterogeneidade.

Nessa interação com um público que possui credos distintos ou na divulgação


da ideia de um convívio harmonioso entre todos, com suas diferenças e/ou
semelhanças, percebemos a forma pela qual é representado o sincretismo na SNI,
pois ao igualar o “nós” e os “outros”, preconiza-se que não há separação entre as
pessoas, mas uma continuidade, uma parte de nós e, por isso, não ocorre a
categorização de raças nem de religiões.

Sobre a palavra religião, etimologicamente, ela vem do latim relegere (reler) e


quer dizer aqueles que cumpriram cuidadosamente com todos os atos de culto
divino e, por assim dizer, os reliam atentamente (ABBAGNANO, 2001, p. 814). Esse
vocábulo pode ter sua origem da palavra religare (religar, ligar novamente) ligar
novamente valores religiosos dos quais as pessoas haviam se afastado em meio às
diversas opções oferecidas pela realidade (WILGES, 1994, p.15).

Nessa perspectiva, na SNI, é explicado que as religiões, ao pregarem a


existência de um único ‘eu’, separado do ‘outro’, transmitem a existência de uma
única cultura, de uma raça, de um único Deus, o que impossibilita o convívio com a
diversidade, principalmente, com o vasto campo religioso.

Para que ocorra a interação, é ensinada a necessidade de se reconhecer a


existência do outro como sendo um ser criado por Deus e a sua semelhança. Dessa
forma, prega-se que o ‘eu’ e o ‘outro’ somos um. Deus e eu somos um (TANIGUCHI,
2009, p. 43). Ao ser feita essa afirmação, todas as pessoas são igualadas, dando a
entender que não há separação entre nós e os outros, mas uma continuidade.
Sendo assim, prega-se que os homens estão perpassados uns pelos outros.
36

Percebemos, dessa maneira, que a instituição se caracteriza pelo não


seguimento restrito das doutrinas das demais religiões, no entanto, em seu discurso,
é criado um efeito de sentido que, leva o leitor a inferir um sincretismo.

Além disso, as orientações espirituais e a relação com Deus não são tratadas
de forma autoritária (Deus manda), pois o homem é ensinado a não ser ver como
um ser inferior ao Criador, mas como alguém que consegue interagir com Deus de
maneira livre, sem as ‘ameaças’ concretizadas pela figura do inferno, de castigo, de
punição, caso a doutrina não seja obedecida.

Ademais, ensina-se que o homem deve controlar, racionalmente, sua vida e,


com esse “ideal libertário”, deve enxergar a possibilidade de se reconhecer como
uma nova criatura, sem culpa, livre, independente, enfim, deve-se enxergar como
criador e não como criatura, já que é filho do Criador.

1.7 Pomba Branca – A Revista da Mulher Feliz

Um dos instrumentos de divulgação dos ensinamentos filosóficos e religiosos


da SNI é a revista Pomba Branca. Nela se encontra a coluna Artigo do Mestre
Masaharu Taniguchi que será o objeto de análise para nossa pesquisa. Essa
publicação destina-se a mulheres e contém matérias relacionadas ao lar e assuntos
considerados como pertencentes ao universo feminino, como educação dos filhos,
culinária entre outros. Nela, há artigos, que particularizam aspectos da vida da
mulher do ponto de vista espiritual, de autoria do fundador; de sua esposa, Teruko
Taniguchi; de sua filha, Emiko Taniguchi; de sua neta Junki Taniguchi e de seu
genro e atual presidente, Seicho Taniguchi.

Cabe ressaltar, ainda, que os artigos produzidos, pelos demais membros da


família do fundador, são de transferência de ‘sabedoria’ entre o ‘mestre e seus
discípulos’ o que permite que a SNI prossiga. Em todas as obras, escritas por outros
autores, são feitas menções aos ensinamentos de Taniguchi ou por meio de relatos,
de testemunhos, de experiências vividas na doutrina ou por referências a outros
títulos traduzidos ou não para a língua portuguesa. Enfim, nenhum autor se
posiciona como transmissor de suas próprias revelações, apenas reproduzem, com
uma linguagem mais atual, a vivência espiritual do líder-fundador.
37

No Japão, a Associação Shirohato (figura 4), tradução Pomba Branca, surgiu


em 1935 e de acordo com relato da senhora Tsuneko Matsumoto 21 , sobre o
surgimento da entidade, ele ocorreu a partir de reuniões informais com algumas
mulheres e, entre elas, estava Teruko Taniguchi, esposa do fundador da SNI. Ela
ressalta, ainda, que, a partir da segunda reunião, que passou a ser na “casa da
colina”, residência da família Taniguchi, o esposo estava presente nos encontros e
não obstante de intensos afazeres, passamos a receber orientações, pessoalmente.

Slogan Associação Pomba Branca - Japão


Figura 4

Ela lembra, também, que veio do “mestre” a seguinte orientação de


expandirem as reuniões:

a Associação Pomba Branca veio até o momento


efetuando atividades internas. [...] doravante, deverá
atuar, também, do lado horizontal, trabalhando ativamente
em atividades externas, de mãos dadas, seguindo mais
as características femininas de amor e paz, assim
mantendo um equilíbrio entre o interior e o exterior
(Revista Pomba Branca – edição especial – 2004, p.39).

                                                            
21
Relato extraído da revista Pomba Branca (2004, p.38), edição especial, da comemoração do Jubileu de Ouro
da Associação Pomba Branca (1954-2004).
38

Após ouvirem dele o que tanto esperavam, as senhoras se reuniram,


informalmente, na ‘casa da colina’ e, após debates, na presença dele e de sua
esposa, decidiram “fazer da Associação Pomba Branca a Associação das Senhoras
da Seicho-No-Ie, em âmbito nacional”. A partir daí, surgiu o Departamento das
Senhoras e a associação separou-se, da SNI, em 13 de fevereiro 1936.

O nome Pomba Branca, conforme relato da senhora Teruko22, presente em


diversas obras e no site da organização, surgiu na seguinte ocasião:

eu usava, na ocasião, um broche com o formato de


pomba branca, para prender a faixa do quimono. O
Mestre observou o broche e disse:- Que tal o nome de
“Pomba Branca?” Ela simboliza a pureza, a delicadeza a
paz [...] uma figura realmente feminina. - Ótimo! Acho
muito bom! – respondi. E assim surgiu a denominação
Associação Shirohato (Revista Pomba Branca 23 - em
japonês – nº. 424, p. 58).

                                                            
22
Informação obtida no site <http://www.sni.org.br/pomba_branca/>. Acessado em 11 de novembro de 2012.
23
Capa da revista Pomba Branca, em japonês, de fevereiro 2013. Extraída do site
<http://www.ssfk.or.jp/gekkansi/backnom/b/sirohato.htm>l. Acessado em 10 de fevereiro de 2013.
39

Revista Pomba Branca – Japão – fev.2013.

Sobre a importância da revista Pomba Branca, Masaharu Taniguchi (2004,


p.6), 24 no artigo Ensinamentos de Luz para as Mulheres, publicado na primeira
edição dessa revista, diz que é uma publicação que visa a levar felicidade a todas as
mulheres, iluminando-as e promovendo a união delas e que, apesar dele não ser
mulher, está disposto a liderar um movimento que vise à felicidade de todas as
mulheres, porque sou dirigente da Seicho-No-Ie. O lar do crescimento infinito.

Ele, nesse primeiro artigo, orienta as leitoras sobre como deixarem seus
maridos satisfeitos em seus lares, afirmando que o segredo de um lar feliz está na
expressão sorridente que a mulher mostra quando fala com o marido e com os
demais membros da família e que um lar é infeliz quando a mulher, em vez de se
mostrar satisfeita com o marido e os filhos, fica reclamando deles o tempo todo.

                                                            
24
Destacamos, também, que o fundador escreveu centenas de textos para o público feminino e, muitos deles,
estão reunidos, hoje, em obras que contém coletâneas de seus artigos. Entre eles, destacamos as obras A
Razão de ser da Mulher, volumes 1 e 2, que contêm artigos que abordam questões diversas, referente à vida
cotidiana, como divórcio, maternidade, sexo, trabalho, traição, entre outros; A felicidade da mulher, volumes 1 e
2, neles há 365 itens, destinado à cada dia do ano, que abordam, do ponto de vista espiritual, a postura mental
para a mulher ser feliz.
40

Destacamos, ainda, que os textos produzidos, para a revista, eram


direcionados a mulheres japonesas, da década de 40 do século XX,
especificamente, do final, da Segunda Guerra, de 1945, em diante, época,
classificada por ele, no prefácio dos volumes 1 e 2, da obra A Razão de ser da
Mulher como conturbada, de transição da era antiga para a moderna e por conta
disso, são cometidos muitos exageros.

Sua constatação, de que se trata de um período ‘conturbado’, explica-se pelo


fato de que a mulher japonesa, até o início dos 1930, aprendia a ser subordinada
aos homens (pais, irmãos, esposos, sogros). Mesmo que letrada, os ensinamentos
escolares, religiosos e familiares orientavam-nas para que fossem obedientes e
servis à sociedade, então, machista.

Além disso, as leis constitucionais, do Japão, reforçavam a diferença entre


direitos masculinos e femininos25, bem como outros aspectos culturais, também, o
fazem, como o casamento arranjado, antes da mulher completar 20 anos e a
responsabilidade integral diante da sua família e de seu marido, dando-lhes toda a
assistência.

A partir da Segunda Guerra Mundial, a participação do Japão nas lutas, com


seus homens indo à frente de batalha, é criado um ambiente favorável à participação
feminina, no mercado de trabalho, em crescente industrialização e há um
encorajamento pelas notícias do Ocidente, sobre a emancipação feminina. Por
conseguinte, a inserção no mundo produtivo, desperta, nas mulheres japonesas, que
eram submetidas a condições precárias, o desejo de lutarem por direitos sociais
mais igualitários.

Nesse sentido, apesar da ‘conturbação’ social, Taniguchi (2010) diz estar


admirado, também, com a conscientização feminina do pós-guerra, pois, a partir
desse momento, houve vários movimentos de valorização da mulher, de ampliação
dos seus direitos e de defesa à livre expressão.

                                                            
25
A Constituição, de 1947, e o Código Civil, de 1948, favorecem a instituição de igualdade entre homens e
mulheres. Em 1985, a título de exemplo, tem-se a primeira lei que prega a igualdade no trabalho entre homens e
mulheres, em 1999, houve revisão dessa mesma lei, ampliando os artigos para outros aspectos da sociedade.
41

Todavia, ele adverte que tal mudança não deve ser apenas de reação ao
sistema machista do passado, já que em toda mobilização reacionária, sempre se
acaba cometendo excessos (TANIGUCHI, 2010, p. 7). Assim, no que se refere ao
movimento feminista, ainda, no prefácio, de 1966, do livro A Razão de ser da
Mulher, volume 2, ele, ao continuar sua análise, afirma que:

o verdadeiro movimento [...] deve ser aquele em que a


mulher se posiciona em seu devido lugar de mulher e
desenvolve naturalmente sua condição feminina, tal como
foi criada pela Natureza, reconhecendo a essência da
mulher verdadeira e vivificando corretamente essa mulher
verdadeira.

Taniguchi (2010, p. 7) explica, ainda, que a verdadeira mulher é aquela que


conhece sua missão e vive de acordo com essa missão, pois ela é antes de tudo,
um ser humano que é, ao mesmo tempo, do sexo feminino; ela não é um homem.

Ele postula, também, que ela se tornou um ser humano deformado que não é
homem nem mulher, quando decidiu reagir ao sexo masculino e, para que não
existam essa deformação e a desigualdade feminina ou masculina, é preciso que
haja a união das características de ambos os gêneros e não o domínio de uma
sobre a outra. Para ele, devido a essa confusão de papéis, as pessoas não têm
discernimento sobre o modo correto de viver nem sobre a correta razão de ser das
mulheres.

Diante desse contexto, para ensinar sobre esse modo correto de viver e de
ser, Taniguchi recorre à mitologia japonesa (2008b, pp. 18-19), segundo a qual da
união do deus Izanagi com a deusa Izanani, nasceram as oito ilhas que compõem o
Japão e os mais de trinta deuses que nelas habitam, como dos ventos, dos rios, das
montanhas etc. Ele explica, também, que o mundo é formado pela união do polo
negativo com o positivo, respectivamente, identificados como natureza Izanani
(feminino) e natureza Izanagi (masculino). Dessa união, sobressai a natureza
42

feminina, tal qual ela é, pacífica e com o dom superior no amor; e a masculina,
conquistadora e com o dom superior na sabedoria.

Taniguchi, como vimos, recorre, também, à Bíblia para conscientizar a mulher


sobre seu papel, fazendo referência a Adão e à Eva – elemento do sincretismo que
dá base à composição textual da SNI.

Nesse sentido, dos 40 livros da coleção A Verdade da Vida, escrita por


Taniguchi, o volume 29, intitulado Educação da Mulher, é específico para as
mulheres. Ele explica, no prefácio dessa obra, que dedicou esse volume às
mulheres, devido aos anteriores se destinarem a todos os seres humanos (homens,
mulheres, crianças, adultos ou idosos) e não abordarem o “caminho específico da
mulher”.

Assim, o autor comenta que o subconsciente de toda a humanidade, durante


séculos, admitiu a ideia de que o homem é superior à mulher e exemplifica, citando
que no Japão era costume dos pais tratarem as filhas como criaturas frágeis e
inferiores, pois na doutrina budista, a mulher não pode alcançar o Nirvana e que na
doutrina cristã a mulher (Eva) se deixou enganar pela serpente e seduziu o homem
para o caminho do pecado (TANIGUCHI, 2011).

Dessa forma, é preciso tirar a influência negativa dessas idéias que subjugam
a mulher para que ela possa evoluir ainda mais, logo orienta as senhoras membros
da Associação Pomba Branca que expulsem do subconsciente da humanidade o
velho mito de que a mulher é fraca e inferior (TANIGUCHI, 2011, p.28).

No Brasil, a revista Pomba Branca foi traduzida a partir de 1985 (ano do


falecimento do fundador). A primeira revista a circular no país foi a Acendedor
(1965), hoje, denominada Fonte de Luz, direcionada ao público masculino que
aborda assuntos como saúde, prosperidade e harmonia familiar; a terceira, Mundo
Ideal, para jovens de 13 a 35 anos. A partir de 2011, foi inserido, na capa dos
exemplares, o slogan: A Revista da Mulher Feliz.
43

A revista manteve as características originais e conseguiu a adesão dos


brasileiros, inclusive, dentre aqueles que já professavam outras religiões. Ademais,
tornou-se um eficiente meio de divulgação e de arregimentação de novos fiéis, pois
essa publicação, assim como toda a literatura da SNI, sistematiza e divulga a
doutrina em todo território nacional.

Sobre a importância dos exemplares, Godoy & Castilho (2007, p. 11), em


seus estudos sobre a espiritualidade e a cura nas novas religiões japonesas, ao
discorrerem sobre a SNI, afirmam que:

esse movimento religioso [...], por meio de uma revista,


tornou-se significativo pelo centramento e cultivo da
palavra em diferentes direções. Criou-se uma marca de
distinção das demais NRJ26: a religião da palavra.

Por ter esse enfoque, a instituição possui associações que são responsáveis
por essas publicações. No caso da revista de onde extraímos o nosso corpus, a
Associação Pomba Branca é o departamento responsável por sua edição e que atua
no Brasil, desde 1954, oferecendo atividades e divulgando os ensinamentos ao
público feminino com mais de 35 anos. Inicialmente, os assuntos abordados, nos
exemplares, estavam relacionados ao desempenho da mulher no lar como esposa e
como mãe. Nos dia de hoje, temas como atuação no mercado trabalho, ganham
destaque. Há ainda, nessa associação, os departamentos da Sabedoria, dirigido
para mulheres, na 3ª idade, das Mães e o departamento Infantil.

                                                            
26
NRJ – abreviatura de Novas Religiões Japonesas.
44

Slogan Associação Pomba Branca - Brasil

Os assuntos tratados, na versão brasileira da revista, são, em sua maioria, os


mesmos na versão japonesa. Ainda que a sociedade feminina brasileira apresente
nuances diferenciadas como, por exemplo, a luta pelos direitos civis mais
igualitários, que datam do final do século XIX, que ocorreu, muito, antes dos direitos
femininos japoneses, bem como a participação feminina, em manifestações
públicas, por melhores condições de trabalho, já em meados de 190527, e, tantas,
outras características, relativamente, mais avançadas, em contraposição à cultura
japonesa, a Associação, nos idos de 1950, e a revista, em 1980, consegue atingir as
leitoras-adeptas à doutrina da SNI.

Em seus aspectos gerais, a revista Pomba Branca possui um total de 35


páginas e é oferecida, na matriz e nas sedes regionais, a um custo de R$ 2,0028,
sendo vendida, também, no site da SNI e por assinatura. Nas palestras proferidas,
bem como nas demais publicações, a revista é divulgada e os adeptos são
estimulados a adquirirem-na, tanto para uso próprio quanto para serem doadas a
outros leitores. Eles, ainda, são orientados a deixarem exemplares, em lugares de
acesso público, para que possam ser lidas, como, por exemplo, em balcões e em
mesas de consultórios médicos, em salões de beleza, dentre outros.

Nessa média de 35 páginas, a revista é composta, pela capa, geralmente,


ilustrada com a imagem de uma flor e, em seu verso, há um fragmento de texto,
                                                            
27
Não é nosso intuito, detalharmos a situação feminina, no Japão e no Brasil, já que, para uma pesquisa
comparativa, são necessários estudos, mais aprofundados sobre a questão, o que envolve uma leitura, mais
atenta, sobre aspectos culturais de um país e de outro. Aqui, apenas, a título de exemplo, são citadas
ocorrências factuais, como a da conhecida eclosão, em São Paulo, da greve das costureiras, ponto inicial para o
movimento por uma jornada de trabalho de 8 horas, em todo o Brasil, em 1907; como o voto feminino, no Japão,
em 1945 e, no Brasil, em 1932.
28
Valor estipulado, em 2013, na capa.
45

extraído de uma das obras de Taniguchi, que pode ser utilizado como mentalização
e/ou oração. Na contracapa, são divulgados os eventos dos meses seguintes.

No que se refere à organização dos exemplares, há as seguintes colunas:


Editorial, Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi, Artigo do Professor Seicho
Taniguchi, Artigo da Professora Junko Taniguchi, Aprimoramento das Mães,
Educação, Gastronomia, Nova visão do casamento, Relato de Experiência,
Meditação Shinsokan, Cartão de Bênçãos e Biografias do fundador e de sua esposa.
Essas seções estão presentes com regularidade, com exceção, de um ou outro
exemplar com temas especiais.

Há, no rodapé, das páginas ímpares, situadas do lado direito, frases para
reflexão que são extraídas das obras do fundador. Além disso, no espaço
publicitário, são divulgadas as programações da SNI existentes nas emissoras de
rádio, de televisão e do site e, ainda, são vendidos alguns livros e assinaturas das
revistas Fonte de Luz, Pomba Branca e Mundo Ideal, além do Jornal Querubim.

No site da instituição, no link Associação Pomba Branca, é mencionado que


há, na organização, um conteúdo vasto para todas as fases da mulher e, além disso,
é divulgado que esse departamento ensina, para o público feminino, como manter
um clima saudável, no ambiente em que se vive, por meio de uma ‘fisionomia
alegre’, pois a face reflete o que se passa no interior das pessoas.

É pertinente destacarmos que, ainda hoje, são feitas traduções de muitos


textos originais do fundador e de seus ‘discípulos familiares’ para a língua
portuguesa. Contudo, outros textos de colaboradores são veiculados na revista, os
quais fazem uma releitura das obras de Masaharu Taniguchi e selecionam temas
que mais se adaptam às questões atuais, como aborto, desentendimento entre
casais, educação dos filhos etc.

Os vestígios culturais e sociais da época em que foram escritos,


originalmente, em meados de 1936, no Japão, e traduzidos, em 1985, no Brasil,
pelos seus ‘discípulos’, não afastam as leitoras brasileiras. A cooptação, dessas
‘leitoras-adeptas’, dá-se mais pela maneira discursiva da própria revista, como um
todo e pela coluna Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi, objeto desta pesquisa.
46

Diante desse aspecto, destacamos que uma das características dessas


leitoras é a religiosidade, já que, normalmente, as mulheres são mais religiosas que
os homens, mesmo diante das mudanças sociais pelas quais lutaram, como por
exemplo, a participação no mercado de trabalho. Pesquisas censitárias demonstram
que elas são mais sensíveis à mudança de religião, não deixando, assim, de
praticarem uma crença – seja ela qual for29.

Isto posto, contata-se que a SNI comercializa, nas livrarias da sede e dos
núcleos, obras cujo conteúdo visa ensinar, na prática, o correto modo de viver, que
conforme Taniguchi prega seria viver como um ser espiritual, como um filho de
Deus, isento de doença, de pecado e da morte. No site da SNI, no link, intitulado
mulher, são divulgadas a assinatura Revista Pomba Branca e diversas obras do
fundador e de alguns preletores.

Ressaltamos, ainda, que as publicações de outros autores, apenas,


reproduzem os ensinamentos, adaptando-os a contextos do universo feminino, como
o desejo de casar, de ter filhos, a sexualidade, entre outros. Dessa forma, é mantida
a essência da doutrina, que tem, como já foi dito, base nas ‘revelações divinas’ que
o fundador afirma ter recebido.

Em suma, o discurso produzido pela revista Pomba Branca é originado, de


acordo com os ensinamentos transmitidos na SNI, por intermédio de uma ‘revelação
divina’ e transmitido de ‘mestre’ para ‘discípulos’. Pautado pelo sincretismo religioso
e científico, os textos produzem, no leitor, a crença da evolução constante do ser,
independente de sua realidade social e cultural – aliás, lembramos que a realidade,
para a SNI, é a projeção objetiva de categorias mentais do sujeito, que dão margem
para a construção de uma realidade saudável ou não.

Logo, para o analista do discurso, é importante estudar esse conteúdo


discursivo, a fim de compreender como o sujeito enunciador se mostra, como ele se
constrói e de que forma ele evoca o co-enunciador para que haja a interação. Além
dessa análise, examinar como esse co-enunciador se manifesta e como ele adere a
                                                            
29
Segundo o Novo Mapa das Religiões (2011), análises feitas pela FGV em 2011. In:< www.fgv.br/cps/religião>.
Acessado em 10 de fevereiro 2013.
47

esse conteúdo, sendo questões que serão aprofundadas no capítulo dedicado à


análise da coluna Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi. Para tanto, fizemos um
levantamento teórico-metodológico, para subsidiar nosso estudo, que será
apresentado a seguir.
48

CAPÍTULO II

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Análise do Discurso e seu enfoque interdisciplinar

Para examinarmos como se dá a construção da cenografia e a constituição do


ethos discursivo, na seção Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi, da revista Pomba
Branca, apresentaremos os pressupostos teórico-metodológicos que darão suporte
para a análise dos discursos selecionados por esta pesquisa. Para dar conta de
nossa proposta, recorremos à Análise do Discurso de linha francesa, mais
especificamente, aos postulados de Maingueneau sobre o primado do interdiscurso,
a cenografia e o ethos discursivo.

A Análise do Discurso (doravante AD) surgiu na década de 60 do século XX,


época de grandes transformações políticas, culturais e intelectuais, que coincide,
também, com o auge do estruturalismo linguístico. Nesse período, a língua era
estudada como uma estrutura formal, submetida ao rigor do método e aos pareceres
da ciência e com uma deliberada exclusão do sujeito, não sendo, assim, apreendida
na sua relação com o mundo, ou seja, em funcionamento.

Nesse sentido, Castanho (2009) explica que o cenário para o surgimento da


AD foi de uma França abatida pela segunda Guerra Mundial e que estava inserida
em um continente dividido pelo capitalismo, representado pelos Estados Unidos e
pelo socialismo, da União Soviética. Nesse contexto de transformação
socioeconômica, ela desponta para revolucionar os paradigmas do estruturalismo
que, naquela conjuntura, não atendiam aos novos objetivos de estudos que surgiam.
Vale destacar que não ocorreu uma total ruptura com as teorias vigentes, pois,
inicialmente, houve uma fase de continuidade das correntes teóricas existentes.

Assim, segundo Mussalim (2003), nessa época, ocorria a relação entre três
domínios disciplinares: a linguística, o marxismo e a psicanálise. Nesse contexto, o
lexicólogo e linguista Jean Dubois e o filósofo Michel Pêcheux, apesar de serem
49

pesquisadores de áreas distintas, vislumbraram a possibilidade de estudar as


relações de poder estabelecidas, politicamente, na sociedade dessa época.

A partir desse cenário, Pêcheux (apud Mussalin, 2003) realiza, inicialmente,


rupturas com as pesquisas estruturalistas, que consideram a língua como objeto de
estudo, não sendo apreendida em sua relação com o mundo, mas apenas na
estrutura interna, de um sistema fechado sobre si mesmo. Para o filósofo, o sujeito e
os sentidos não são individuais, pois há a intervenção de questões sociais, históricas
e ideológicas. Para ele, as condições de produção do discurso – contextos – são
constitutivas de significações. Ele contempla, assim, a linguagem em uso, como
prática social e a produção de sentido do discurso, como sendo o resultado do
processo de interação social.

Assim, constata-se que a AD recebe influências da Sociologia, mais


especificamente, de Althusser que faz uma releitura de Marx, ao afirmar que a
ideologia tem existência material e deve ser estudada em sua materialidade. Assim,
a linguagem é considerada o lugar privilegiado para a ideologia se manifestar
(materialismo histórico).

Segundo Mussalin (2003), a AD é influenciada, também, pela psicanálise


lacaniana. A autora explica que Lacan recorre ao estruturalismo linguístico para
fazer uma releitura de Freud e tentar abordar com mais precisão o inconsciente. À
vista disso, Lacan considera que o inconsciente se estrutura com uma linguagem e
que é dele, que emanam os discursos de pai, de mãe, de família, enfim, do Outro. O
sujeito lacaniano (dividido, mas estruturado a partir da linguagem) ocupa um lugar
social e concebe textos como produto de um trabalho ideológico não consciente. A
tarefa do analista é fazer vir à tona esse discurso do Outro, já que é esse sujeito que
será estudado.

Nesse sentido, esse conjunto de trabalhos da linguística, do materialismo


histórico e da psicanálise contribui para o surgimento de uma disciplina como a AD,
que privilegia os efeitos de sentido, as condições de produção e a recepção textual.

Diante desse aspecto, Mussalim (2003) e Brandão (2004) explicam que a AD,
inicialmente, procura entender o momento político no qual surgiu, ao analisar os
discursos produzidos. Além de estudos puramente linguísticos, ou melhor, além de
50

apreender a língua sem se relacionar com o mundo, os analistas, em uma


abordagem discursiva, passam a considerar aspectos externos à língua, como, por
exemplo: os elementos históricos, sociais, culturais, ideológicos que cercam a
produção de um discurso e nele se refletem; o espaço que esse discurso ocupa em
relação a outros discursos produzidos e que circulam na comunidade (BRANDÃO, p.
6).

As pesquisas querem ir ao encontro do sujeito que, até então, era descartado,


para abrir, dessa forma, um campo de questões no interior da própria Linguística,
sobretudo, nos conceitos de língua, historicidade e sujeito, deixados à margem pelas
correntes em voga na época.

Assim sendo, Maingueneau (2007) postula que a AD não é uma extensão da


Linguística, mas uma reconfiguração do conjunto de saberes e que, devido a esse
traço interdisciplinar, ela oferece muitas possibilidades para os analistas do discurso.
Daí, o linguista francófono afirmar que, por muitos pesquisadores acreditarem que
esse campo é heterogêneo, ele pode ser considerado como um espaço constituído
por um amplo leque de abordagens que competem entre si em um mesmo nível, ou
melhor, há tantas análises do discurso quanto há analistas, existindo, assim, uma
dificuldade em defini-la (MAINGUENEAU, 2007, p. 13).

Ao levar em consideração essa heterogeneidade e as transformações pelas


quais a linguagem passou e passa, a AD está em constante crescimento, não
sendo, portanto, uma disciplina estática e inflexível nem muito menos fechada.

Por conseguinte, Marcuschi (2008, p. 38), ao estudar o surgimento das novas


tendências hifenizadas ou genitivas, a partir dos anos de 1950 e 1960, por meio de
estudos com perspectivas interdisciplinares, comenta que a Linguística, do século
XX, foi multifacetada e plural e que, apesar de ter inúmeros desdobramentos, não é
conclusiva. Por isso, existem, ainda, muitas questões que deverão ser aprofundadas
pelos estudiosos do século XXI, devido aos desafios de se entender os usos
linguísticos, ainda desconhecidos, no campo tecnológico e nas interações virtuais,
por exemplo.
51

Nesse âmbito, ao caracterizar os desmembramentos teóricos do século XX,


Marcuschi (2008) cita que vários estudos de natureza discursiva, dedicados em
analisar o discurso bem como suas condições enunciativas, interagem com outras
linhas de pesquisas como a etnografia da comunicação, a análise da conversação, a
linguística de texto, entre outras, o que revela, para ele, a presença da
interdisciplinaridade e o interesse na observação da linguagem em funcionamento.

Por conseguinte, o estudioso lembra que a AD, em sentido estrito,


inicialmente, era comprometida, como vimos, com o estruturalismo de Pêcheux, e
alimentada pela teoria linguística, pelo marxismo e a psicanálise, porém, hoje,
existem várias análises do discurso, como a Análise Crítica do Discurso (ACD) e a
AD francesa. Serão os procedimentos teórico-metodológicos desta última que
utilizaremos para atender aos objetivos delimitados nesta pesquisa.

Dessa forma, Cano (2012, p. 7), ao refletir sobre a essência interdisciplinar da


AD, afirma que:

a interdisciplinaridade não pressupõe apenas uma


reflexão teórica ou metodológica, mas também um sujeito
interdisciplinar, que olha o mundo numa perspectiva mais
integralista e menos fragmentada.

Nesse sentido, ao analisarmos o discurso da SNI, não conseguiríamos


cumprir nossos objetivos apenas com os fundamentos da linguística, por isso, faz-se
necessário acessarmos outros conhecimentos para atingirmos nossas metas.

Assim, Cano (2012) lembra que esses conhecimentos não estão justapostos,
somente, pois eles se entrelaçam e dão espaço para uma nova análise. No entanto,
eles são submetidos às restrições da AD, da mesma forma que a Linguística, e
deverão atender aos seus objetivos para tratar de seu objeto: o interdiscurso. Para
ele, de maneira geral, a AD objetiva examinar os lugares sociais dos
52

coenunciadores 30 , por meio dos dispositivos de enunciação, e estudar o uso da


linguagem nas situações reais de comunicação, tendo em vista que a interação
social é responsável por determinar as escolhas linguísticas por parte dos
interlocutores.

Devido a sua amplitude, é difícil apreender a diversidade de estudos


existentes sobre o discurso: para alguns, as pesquisas se dividem em diversas
abordagens e para outros em diversas disciplinas. Dessa maneira, para
Maingueneau (2007), as pesquisas sobre discurso implicam uma interação entre
dois grandes princípios de agrupamento dos pesquisadores que devem coexistir: um
é o agrupamento por disciplinas do discurso e por correntes e o outro é o
agrupamento por territórios (por objetos de estudo). Todavia, eles não são isentos
de problemas, pois dão a falsa impressão de que cada estudioso possui seu grupo.
Portanto, devido a sua complexidade, não há um procedimento único.

Por isso, Maingueneau (2007, 2008 a) postula que os analistas do discurso


lidam com dois tipos de unidades: a tópica (territorial e transversa) e a não tópica,
enfatizando a heterogeneidade da AD dividida em dois procedimentos: o analítico e
o integrativo.

Consequentemente, a unidade tópica (territorial ou discurso tópico) refere-se


a um recorte no fluxo de palavras que estão em circulação em alguns setores da
sociedade, como os discursos político, publicitário, jurídico etc. Essa unidade
equivale ao que é dito do campo discursivo, no entanto, os discursos utilizados
precisam recorrer a outros para se autolegitimarem. Trata-se, portanto, de um
espaço de entrada para os discursos validados (paratópicos) e os não validados
(atópicos).

Além disso, os diversos gêneros, típicos desses discursos, precisam de


espaços legitimados para sua circulação, produção e recepção, pois discursos
tópicos englobam variados gêneros e tipos de discursos que:

                                                            
30
Serão usados os termos: co-enunciador para se referir ao destinatário do discurso e coenunciador para
designar tanto enunciador como co-enunciador como corresponsáveis pela cena de enunciação.
53

são tomados numa relação de reciprocidade: todo


tipo é um agrupamento de gêneros, todo gênero só
se define como tal por pertencer a um determinado
tipo (MAINGUENEAU, 2007, p.30).

Nesse momento, a unidade transversa (discursos atópicos) também é


utilizada pelo analista, tendo em vista que ela atravessa os textos pertencentes a
variados gêneros de discurso. Trata-se de discursos não validados, não legitimados,
já que vivem à margem e atravessam os discursos legitimados. Esses discursos não
se configuram como campo, pois não existem sozinhos, no entanto, é possível usá-
los, já que foi a sociedade que os criaram como, por exemplo, o discurso da
violência, o discurso racista, o machista ou o pornográfico.

Assim sendo, as unidades não tópicas ou discursos paratópicos têm um modo


de dizer que se autodefine e, por isso, não precisam de outros discursos. São
discursos que dão o sentido da vida, possuem um dizer absoluto como o religioso, o
filosófico, o literário, o científico e o bíblico, não necessitam recorrer a outros
discursos para se justificarem, pois eles por si só fazem isso. Essas unidades são
construídas pelo analista e não dependem de fronteiras pré-estabelecidas pela
sociedade, ou seja, não coincidem com a atividade social, embora englobem
enunciados inscritos na história, o que a diferencia da unidade transversa.

Desse modo, segundo Maingueneau (op.cit., p.37), a AD não se limita às


unidades tópicas, pois considera a relação do discurso com o interdiscurso tendo em
vista que o interdiscurso trabalha o discurso que, a seu turno, redistribui esse
interdiscurso que o domina. Ele lembra que, na sociedade, percorrem várias
palavras com grande poder de ação que atravessam vários espaços discursivos e
que é preciso, portanto, aceitar a instabilidade da AD. Essa disciplina, por estudar
esses espaços nas inúmeras práticas sociais, é empírica e altera suas hipóteses de
análise de acordo com a evolução dos diferentes tipos de discursos que circulam na
sociedade.

Logo, para estudarmos o interdiscurso, Maingueneau propõe a tríade:


universo discursivo, campo discursivo e espaço discursivo que serão abordados
mais adiante.
54

2.2 Discurso e Interdiscurso

O discurso não se refere a pronunciamentos, a um texto, a uma frase


proferida nem à retórica ou a outras formas de uso da língua em contextos sociais
diversos. Não obstante, ele não ser nem a língua, nem o texto, nem a fala, o
discurso precisa dos elementos linguísticos para se materializar. Dessa forma, ele se
encontra na exterioridade, no social, e envolve questões que não são, exatamente,
de natureza linguística.

Nesse âmbito, Fernandes (2008, p.13), ao discorrer sobre discurso, comenta


que, quando são pronunciadas, as palavras estão impregnadas de aspectos sociais
e ideologias, sendo possível, dessa maneira, observarmos, no dia a dia, sujeitos em
discordância sobre um mesmo assunto. Essas posições divergentes revelam-nos
que eles assumiram lugares socioideológicos e que a forma material desses lugares
é a linguagem. Portanto, percebemos que o discurso precisa da língua e da
linguagem para se materializar, ou seja, para exteriorizar-se.

Diante desse contexto, Charaudeau & Maingueneau (2008, pp.170-172)


comentam que o termo “discurso” tem sido muito propagado nas ciências da
linguagem e que tal proliferação é o sintoma de uma modificação na maneira de se
conceber a linguagem. Para eles, o “discurso” tem, implicitamente, uma posição
contrária à concepção da linguagem e da semântica e essa alteração é resultado da
influência de várias correntes da pragmática.

Consequentemente, Maingueneau (2008, p.15) diz que, devido à noção de


discurso ser utilizada, com acepções distintas; para aproximar-se da perspectiva da
AD, o discurso será entendido como uma dispersão de textos, cujo modo de
inscrição histórica permite definir como um espaço de regularidades enunciativas.
Esse conceito admite que o falante seja constituído como sujeito dentro do discurso.

A partir desse cenário, Maingueneau (2010, p. 26) e Charaudeau (2008,


p.128) consideram que o discurso é ao mesmo tempo uma atividade condicionada
(pelo contexto) e transformadora (desse mesmo contexto) dada a abertura da
interação e, por isso, precisamos pensar além da oposição texto/contexto, pois a
atividade linguageira é determinada pelo contexto e social e é em si uma prática
social, sendo um fenômeno social.
55

Dessa forma, Fernandes (2008, p.13) afirma que as escolhas lexicais e seu
uso revelam a presença de ideologias que se opõem e, além disso, revelam a
presença de discursos diferentes, que expressam o posicionamento de grupos de
sujeitos sobre um mesmo tema. Tais escolhas, inseridas em discursos específicos,
ultrapassam os significados prescritos nos manuais, pois para os sujeitos os
sentidos decorrem de sua ideologia, da maneira pela qual eles compreendem a
realidade política e social da qual fazem parte. Então, para a constituição do sentido,
que é integrante do discurso, a linguagem não deve ser vista como um suporte para
transmitir informações.

Maingueneau (1997, p. 20) salienta, ainda, que ela permite construir e


modificar as relações entre os interlocutores, seus enunciados e referentes. Para
ele, a linguagem deve ser considerada como interação social, na qual o outro tem
um papel fundamental na constituição do sentido. Essa concepção surgiu de uma
dependência em relação às questões da enunciação e da pragmática, que apesar
de diferentes, convergem para recusarem a concepção de linguagem, como sendo
um simples suporte para transmitir informações e a aceitam como o que permite
construir e modificar relações entre interlocutores, seus enunciados e seus
referentes.

Isto posto, constata-se que o discurso, como vimos, constitui-se no social e


implica uma exterioridade à língua, não sendo, somente, de natureza linguística,
pois estão presentes nele aspectos ideológicos e sociais. Nesse âmbito, Fernandes
(2008) comenta que, em diversas situações, o sujeito se posiciona, podendo haver,
assim, posições divergentes, conflituosas e esses posicionamentos implicam
diferenças quanto à ideologia dos sujeitos, dos grupos sociais em uma mesma
sociedade. Em virtude disso, existem os conflitos, já que o sujeito, ao escolher
inscrever-se em um espaço socioideológico e não em outros, enuncia a partir de sua
inscrição.

Fernandes (2008, p. 17) ressalta que, nessa exterioridade, coexistem,


concomitantemente, diferentes discursos, o que implica diferenças quanto à
inscrição do sujeito em um espaço socioideológico e não em outro. Dessa escolha,
por um e não por outro, surgem os conflitos, pois o sujeito, quando se mostra,
enuncia a partir de sua inscrição ideológica; de sua voz surgem discursos que se
56

encontram na exterioridade. É interessante destacar que o que nos possibilita falar


de discurso é o social e o ideológico que existem na história. Portanto, pensar os
discursos, é pensar em seus processos histórico-sociais de constituição.

Acerca do discurso visto como uma ação social do sujeito, Orlandi (2010,
p.16) observa que ele (o discurso) é um objeto sócio-histórico em que o linguístico
intervém como pressuposto, por conseguinte, estudá-lo, na perspectiva da AD,
implica pensar o sentido, saber como um texto, como uma música, por exemplo,
produzem efeitos sentidos. Para ela, é preciso ver como eles estão investidos de
significância para e por sujeitos e não, somente, analisar o significado de palavras,
já que implica interpretar os sujeitos em ação, produzindo sentido em suas
atividades sociais.

Esses sentidos são produzidos devido aos sujeitos ocuparem lugares sociais
diferentes e, por isso, uma palavra ou uma figura, por exemplo, pode ter sentidos
diferentes em conformidade com o local ocupado por aqueles que a usam.

Dessa forma, Fernandes (2008, p.19) explica que a noção de sentido é


interligada ao lugar de onde o sujeito enuncia e é compreendida como um efeito de
sentidos entre sujeitos em interlocução. Conforme a posição assumida pelos
sujeitos, a enunciação tem um efeito de sentido e não outro, dessa forma, o sentido
é um efeito de sentido da enunciação entre A e B, é o efeito da enunciação do
enunciado. Isto, considerando que A e B representam diferentes sujeitos em
interlocução, inscritos em espaços socioideológicos específicos.

Diante desse aspecto, constatamos que o discurso, para produzir sentidos,


insere-se na história e a constrói. A análise de um discurso, na língua materializada,
visa, portanto, identificar os sentidos dos discursos, considerando suas condições
sócio-históricas, ou seja, as condições de produção. O analista tem que ultrapassar
as estruturas linguísticas para chegar ao discurso, a outros espaços, para que possa
compreender do que se forma essa exterioridade. Para Maingueneau (2008, p. 20),
não se deve analisar o discurso por si mesmo, mas o espaço de trocas entre vários
discursos, convenientemente, escolhidos, ou seja, o interdiscurso.
57

Fernandes (2008, p. 19) explica que os sujeitos enunciadores31 do discurso


estão em lugar histórico-social que envolve o contexto e a situação e intervém a
título de condições de produção do discurso. Esse lugar se trata de um objeto
imaginário socioideológico e, não de uma realidade física e o sujeito mencionado
não é o ser empírico, com existência particular, mas um ser social.

Assim, o discurso, utilizado pelo sujeito, revela o seu lugar social e transmite
outros discursos que fazem parte de uma realidade histórica e social. Dessa forma,
para compreendermos o sujeito discursivo, é preciso entender quais são os
discursos utilizados para sabermos sua inscrição socioideológica.

Logo, quando o sujeito faz uma escolha lexical, ele integra um conjunto de
sujeitos cuja natureza ideológica revela seu posicionamento. Esses sujeitos se
opõem a um outro conjunto de sujeitos dispersos, no âmbito social, contrários ao
seu posicionamento, estes, por conseguinte, utilizarão outra palavra para mostrar
sua posição. Notamos, assim, que o sujeito discursivo é heterogêneo.

Desse modo, Maingueneau (2011, pp. 53-55) e Charaudeau (2008, pp. 170-
172), ao discutirem essa noção de discurso, enumeram oito características
essenciais. A primeira, é que o discurso supõe uma organização que se situa além
da frase, pois ele mobiliza estruturas de outra ordem, não se manifestando somente
por sequências de palavras de dimensões superiores à frase. Os discursos,
enquanto unidades transfrásticas, submetem-se a regras de organização, vigentes
em um grupo social determinado: regras para produção de uma narrativa, de um
diálogo etc.

A segunda característica é que o discurso é “orientado” não apenas porque é


concebido em função de uma perspectiva assumida pelo locutor, mas por se
desenvolver no tempo em função de uma finalidade, podendo, supostamente,
chegar a algum lugar. Ele, também, pode se desviar durante o seu curso, retomar a
direção inicial, fazer antecipações e retomadas, evidenciando, assim, um locutor que
monitora sua própria fala. Todavia, esse desenvolvimento acontece em condições

                                                            
31
Enunciação, aqui, é tratada como posição ideológica no ato de enunciar e que integra a enunciação, lugar
sócio-histórico-ideológico de onde os sujeitos dizem e marcam o momento e ato de dizer (ORLANDI, 2010, p.
20). Enunciação, na concepção discursiva, é um acontecimento, em um tipo de contexto, apreendido na
multiplicidade de suas dimensões sociais e psicológicas (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2008, p. 193).
58

diferentes: se o enunciado é dito e controlado por um único enunciador, ele é


monologal, se o enunciador se inscreve em uma interação na qual possa ser
interrompido, ele é dialogal.

A terceira característica é que o discurso é uma forma de ação, já que falar é


uma forma de agir sobre o outro e não somente uma maneira de representar o
mundo. Nesse sentido, Maingueneau (2005) diz que foi difundida a ideia, na década
de 60 do século XX, pelos filósofos Austin e Searle, de que toda enunciação
constitui um ato que visa a modificar uma situação. Esses atos, em um nível
superior, integram-se em discursos de um gênero que tem como objetivo provocar
uma mudança no destinatário. De forma mais ampla, a própria atividade verbal
encontra-se relacionada com atividades não verbais (MAINGUENEAU, 2011, p. 53).

A quarta característica é que o discurso é interativo, tendo em vista que são


mobilizados dois parceiros (coenunciadores). Mesmo que não haja destinatário (co-
enunciador), toda enunciação é marcada pela interatividade constitutiva, uma troca
implícita ou explicita, em que se admite a presença de uma outra instância de
enunciação, a que produz o próprio discurso. Os estudiosos ressaltam que, nessa
perspectiva, a conversação é um dos modos mais importantes de manifestação do
discurso, não sendo considerado o discurso propriamente dito.

A quinta característica é que o discurso é contextualizado, pois ele existe


somente dentro de um contexto e contribui para defini-lo, podendo modificá-lo.

A sexta característica é que o discurso é assumido por um sujeito que se põe


como fonte dos pontos de referência pessoais, temporais, espaciais, remetendo-se a
um eu (o enunciador) e, indicando, concomitantemente, a atitude a um tu (o seu co-
enunciador). Estudar essa subjetividade presente nos discursos é um dos
diferenciais da AD.

A sétima característica é que o discurso tem normas, denominadas de leis do


discurso. Portanto, todo ato de linguagem implica determinadas normas particulares,
até mesmo uma pergunta envolve regras; dessa forma, todo ato de enunciação deve
ser elaborado, justificando seu direito de apresentar-se da maneira como se
apresenta. Trata-se de um trabalho de legitimação indissociável do exercício da
palavra.
59

A oitava característica é que o discurso é assumido no interdiscurso, já que


ele só adquire sentido no interior de um universo de outros discursos, por meio do
qual ele constrói seu sentido. Todo enunciado é interpretado na relação com todos
os outros tipos de enunciados, que estão sendo parafraseados, citados,
comentados. Situar um discurso em um gênero implica colocá-lo em relação com a
infinidade de outros discursos, ou seja, implica uma atividade interdiscursiva.

Assim, os discursos, por se constituírem na heterogeneidade, somente, são


apreendidos pelo confronto (embate/polêmica) estabelecido com outros discursos.
Logo, para compreendermos melhor a constituição do discurso, entenderemos sua
origem, que se dá no interior do interdiscurso.

Para a AD, o falante se inscreve em lugares sociais nos quais alcança sua
identidade e as escolhas de suas palavras revelam seu lugar e seus
posicionamentos (formações discursivas) em que coexistem diversos
posicionamentos, aparecendo, assim, o interdiscurso. Por estar relacionado à
memória, esse espaço de trocas permite que o que já foi dito tenha sentido em suas
palavras, pois o sujeito não é a fonte de seu dizer e o discurso, somente, adquire
sentido, ao se relacionar com outros discursos em uma relação de
confronto/embate/polêmica. Daí ser impossível definir exterioridade entre o sujeito e
seu discurso.

Diante desse aspecto, Maingueneau (2008, p. 31), para estudar o discurso,


elabora sete hipóteses, das quais destacamos a primeira: o primado do
interdiscurso, que está inscrita na perspectiva de uma heterogeneidade constitutiva,
que amarra o Mesmo do discurso e seu Outro, e se aproxima do princípio dialógico
de Bakhtin que revela o caráter constitutivo da interação enunciativa, ou seja, o
discurso como interação entre sujeitos. Para o autor, propor esse tipo de primado é:

incitar a construir um sistema no qual a definição da


rede semântica que circunscreve a especificidade de
um discurso coincide com a definição das relações
desse discurso com seu Outro. No nível das condições
de possibilidade semânticas, haveria, pois, apenas um
60

espaço de trocas e jamais de identidade fechada


(MAINGUENEAU, 2008, pp. 35-36, grifos do autor).

Assim, ao afirmar que a interdiscursividade é constitutiva do discurso,


reconhece-se, também, que todo discurso resulta de um trabalho sobre outros
discursos. O “outro” é o não-dizível de um discurso é aquela parte de sentido que foi
necessário sacrificar para constituir a própria identidade (MAINGUENEAU, 2008,
p.37).

Nesse sentido, Maingueneau explica, ainda, sobre essa interação, que cada
discurso:

introduz o Outro em seu fechamento, traduzindo seus


enunciados nas categorias do Mesmo e, assim, sua
relação com esse Outro se dá sempre sob a forma do
“simulacro” que dele constrói (MAINGUENEAU, op.cit., p.
21).

O autor, ao postular que o interdiscurso precede o discurso, propõe a análise


de um espaço de trocas entre diversos discursos, adequadamente, escolhidos. Para
ele, o discurso não se origina sozinho; por isso, deve ser posto em relação com
outros, além disso, os diversos discursos, que compõem o espaço de troca,
constituem-se de forma dependente uns dos outros e adequada no interior do
interdiscurso.

Como o discurso se constrói em uma rede de outros discursos, Orlandi (2010,


p. 33) afirma que interdiscurso é todo conjunto de formulações feitas e já esquecidas
que determinam o que dizemos. A autora esclarece que para as palavras terem
sentido, é preciso, que elas já façam sentido. Sendo assim, o interdiscurso está
relacionado à memória, uma vez que ele permite que os dizeres, que já foram ditos,
tenham sentido em nossas palavras. Notamos, então, que o discurso se manifesta
61

em outra dimensão que ultrapassa o som, a sintaxe, o texto escrito, não sendo,
dessa forma, apreendido, concreto, palpável.

Devido ao discurso ser atravessado por outros discursos, ele, dificilmente,


será homogêneo e a manifestação dessa heterogeneidade discursiva pode ocorrer
de duas maneiras: por meio da heterogeneidade mostrada e da heterogeneidade
constitutiva. Conforme explicam Charaudeau & Maingueneau (2008, p. 261), a
primeira é localizável, de fácil apreensão, ou seja, são deixadas ou não, marcas na
superfície linguística como, por exemplo, as aspas entre as palavras, o discurso
citado. A segunda não deixa marcas de sua relação com outros enunciados, não
sendo, então, apreendida linguisticamente, o discurso é dominado pelo interdiscurso
[...] ele se constitui através de um debate com a alteridade.

Portanto, Maingueneau (2008), ao associar o interdiscurso à gênese do


discurso, considera a existência de um já dito que se constitui no outro do discurso.
Dessa forma, todo discurso faz circular o que já foi enunciado, ou seja, o primado do
interdiscurso pressupõe a presença do Outro, que se manifesta por meio da
heterogeneidade enunciativa. O postulado do primado do interdiscurso tem como
diferencial considerar as condições sócio-históricas de produção.

Consequentemente, para a orientação dialógica não se limitar somente aos


enunciados que se referem a citações, Maingueneau (op.cit. p. 37) diz que é preciso
ir além da distinção de heterogeneidade mostrada e constitutiva é preciso revelar a
relação com o Outro, independentemente, de qualquer forma de alteridade marcada.
O Outro, que não precisa ser localizável, encontra-se na raiz de um Mesmo que não
tem plenitude autônoma. Esse Outro é a unidade de sentido que o discurso
sacrificou para constituir sua identidade.

Dessa forma, para que o interdiscurso não se inscreva na perspectiva de uma


heterogeneidade constitutiva, como postula Bakhtin, Maingueneau propõe um
quadro metodológico, para que se entenda melhor essa noção, substituindo o termo
pela tríade universo discursivo, campo discursivo e espaço discursivo.

A noção de universo discursivo refere-se ao conjunto de formações


discursivas que interagem em um momento dado, à totalidade dos discursos, ao
conjunto de todos os discursos existentes. É de pouca utilidade para o analista, pois
62

representa um conjunto finito e, por isso, serve para definir o horizonte, a partir do
qual serão construídos domínios possíveis de serem estudados, os campos
discursivos (MAINGUENEAU 2008, p. 33).

Campo discursivo é definido como um conjunto de formações discursivas que


se encontra em concorrência. Trata-se de um recorte feito pelo analista, de acordo
com seus objetivos. Devido aos campos discursivos não serem evidentes, delimitá-
los implica operar com escolhas e enunciar hipóteses. Por exemplo, se
pensássemos no discurso religioso, poderíamos colocá-lo no interior de um campo
do discurso publicitário, já que se trata de uma abstração. Nesse sentido,
Maingueneau (2008, p. 34) explica que:

é no interior do campo discursivo que se constitui um


discurso, e levantamos a hipótese de que essa
constituição pode deixar-se descrever em termos de
operações regulares sobre formações discursivas já
existentes. O que não significa, entretanto, que um
discurso se constitua da mesma forma com todos os
discursos desse campo; e isso em razão de sua evidente
heterogeneidade.

Como o campo discursivo não existe sozinho, porque todo enunciado do


discurso dialoga com outro, é impossível analisá-lo em sua totalidade, sendo
necessário, assim, que o analista isole, no campo, os espaços discursivos.

O espaço discursivo, por sua vez, é um subconjunto de formações discursivas


que o analista põe em relação, da maneira que julgar importante, para confirmar ou
não as hipóteses levantadas por ele.
63

2.3 Gênero de discurso

Os estudos de Bakhtin (2006, p. 262) são importantes para as pesquisas


relacionadas a gênero. O estudioso utiliza o termo gênero de discurso e o define
como tipos relativamente estáveis de enunciados que podem ser orais ou escritos,
além disso, ele acrescenta que a natureza do gênero de discurso está relacionada à
esfera da atividade humana a que ele pertence. Para ele, o ser humano se
comunica, fala e escreve, por meio de um grande repertório de gêneros. Tais
gêneros nos são dados quase da mesma forma com que nos é dada a língua
materna, a qual dominamos, livremente, até começarmos o estudo da gramática.

Essa grande variedade de gêneros de discurso, que vai desde um breve


diálogo do cotidiano a produções literárias e científicas, decorre da necessidade de
atender às mais variadas esferas sociais, que fazem uso da língua com fins
específicos. Devido a essa heterogeneidade, Bakhtin (2006) classificou os gêneros
de discurso de primários (simples) e secundários (complexos).

O primeiro é espontâneo e está relacionado à fala, às conversas do dia a dia;


o segundo, por sua vez, surge de um convívio cultural mais complexo e está
relacionado à escrita, sendo, dessa forma, mais elaborado, mais organizado, como
um romance, texto científico, entre outros. Muitas vezes, o gênero primário, ao ser
incorporado e transformado em gênero secundário, perde sua relação com o mundo,
é o caso, por exemplo, de um diálogo inserido em um romance, que passa a ser um
acontecimento artístico-literário e não da vida cotidiana.

Nesse âmbito, o estudioso deve levar em consideração, para uma análise


eficiente, a inter-relação entre os dois gêneros, bem como, seu processo histórico, já
que a historicidade é constitutiva de todo enunciado. A partir de sua análise, é
possível apreender efeitos de sentidos e maneiras de se ver o mundo.

Por conseguinte, os gêneros de discurso, por serem estáveis, são


constituídos de regularidades que estão interligados, como o conteúdo temático, o
estilo e a estrutura composicional, que os tornam reconhecíveis em um determinado
campo de atividade humana. O conteúdo temático refere-se aos temas que possam
ser abordados; o estilo trata-se das escolhas linguísticas feitas pelo enunciador para
64

a produção de um gênero; a estrutura composicional está relacionada aos aspectos


textuais e formais do gênero, é a forma do que pode ser dito.

Desse modo, Bakhtin (op.cit., p. 272) postula, ainda, que os gêneros são elo
da cadeia muito complexa de outros enunciados, evidenciando o caráter dialógico de
seus estudos. Para o autor, o dito já-aqui possui partes do dito antes, ou seja, partes
de outros enunciados usados para a interação humana e implica uma resposta do
outro, assim como ocorre no diálogo. Essa dialogia liga o enunciado a outros elos,
na corrente complexa da comunicação/interação, sendo, a historicidade, a marca
constitutiva do enunciado concreto.

Nessa perspectiva, esse princípio dialógico não considera o outro passivo, no


momento da interação, pois, no enunciado concreto, o momento do outro interagir
dá-se pela alternância dos sujeitos falantes, que, por sua vez, somente ocorre
devido ao enunciado pressupor um sujeito falante, um destinatário dotado de atitude
responsiva.

Conforme Bakhtin (2006), cada ato de enunciação é composto por várias


“vozes”, ou seja, cada discurso é composto por diversos discursos. A polifonia
(vozes que “dialogam” dentro do discurso), é construída, historicamente e
socialmente e, a partir dela, é estabelecida/construída a consciência individual do
falante. As pessoas pensam devido ao contato permanente com os pensamentos
dos outros e estes são expressos no enunciado. Podemos afirmar, então, que os
gêneros de discurso mantêm diálogos com outros, produzidos anteriormente a eles
e que assim, eles não são criados pelo homem, mas apreendidos por ele. Nesse
sentido, os gêneros mudam e têm mais flexibilidade que a língua.

A partir desse cenário, o linguista considera, assim, o enunciado resultante de


uma “memória discursiva”, ou seja, repleto de enunciados usados em outras épocas,
em outras situações, que o locutor inconscientemente utiliza para formular seu
discurso. A enunciação caracteriza-se, dessa forma, pela alternância de atos de fala,
numa relação dialógica, sendo esse princípio dialógico da linguagem que orientará a
AD.

Verifica-se, então, que Maingueneau segue a noção bakhtiniana para


descrever uma variedade de enunciados produzidos na sociedade, no entanto, ele
65

propõe reflexões sobre o conceito e a categorização dos gêneros de discurso. Para


ele, a categoria gênero de discurso é considerada, para além da simples
exterioridade entre “texto” e “contexto”, como um dispositivo de comunicação ao
mesmo tempo social e verbal, historicamente definido (MAINGUENEAU, 2008a, p.
137).

Maingueneau (op.cit., p. 138) explica, ainda, que serão chamados de gêneros


as práticas verbais como o jornal do cotidiano, os programas de televisão entre
outros, que estejam relacionadas a uma determinada sociedade e não as categorias
como a narrativa, a descritiva, a polêmica etc. Ele privilegia as condições materiais
de comunicação, os papéis dos participantes, os contratos implícitos entre eles, o
suporte material, entre outros.

Diante dessa perspectiva, para Maingueneau (2011), o texto pertence a uma


categoria de discurso e devido à grande quantidade de produções textuais em uma
sociedade, sua denominação é apoiada em critérios heterogêneos. As categorias
variam conforme o uso que se faz dela e, algumas denominações não pertencem ao
léxico corrente, por serem próprias de certas profissões. Para ele, devido ao gênero
estar ligado ao cotidiano das pessoas, ele não pode ser desconsiderado pelo
analista, pois este deve receber as diferentes maneiras de apreensão do discurso
que dão origem a diferentes tipologias. Ele defende que os gêneros pertencem a
tipos de discursos diferentes, que estão associados a muitos setores do cotidiano.

O autor explica, ainda, que as categorias correspondem às necessidades do


cotidiano e, por isso, os analistas do discurso devem dar atenção a elas, todavia,
não podem se contentar com esses gêneros, se quiserem definir critérios rigorosos.
O rigor não impede, no entanto, que sejam aceitos variados critérios que
correspondam a diversas formas de apreender o discurso, visto que há tipologias de
diferentes ordens. Destacaremos as tipologias comunicacionais e as tipologias de
situação, já que, para Maingueneau (2011), o analista do discurso não deve ignorá-
las.

Para Maingueneau (2011, p. 59 e 2008a, p. 42), as tipologias


comunicacionais ou funcionais indicam a orientação comunicacional do enunciado e
são classificadas em funções da linguagem e funções sociais, ou seja, os discursos
são divididos de acordo com sua finalidade. Essas classificações oscilam entre a
66

atualização de funções abstratas, como a tipologia de Jakobson (1969): as funções


referencial, emotiva, conativa, fática, metalinguística e poética e de funções de
ordem social em que antropólogos ou sociólogos distinguem as funções necessárias
à sociedade: a charada tem função lúdica, o sermão, a função religiosa.

Por conseguinte, as tipologias de situação de comunicação ou situacionais


são construídas a partir de gêneros de discurso definidos a partir de critérios sócio-
históricos (Maingueneau, 2008a, p. 42), ou melhor, são dispositivos de comunicação
que aparecem quando estão presentes em setores da atividade social, como o
telejornal, o sermão, o editorial etc.

Apesar dessa noção de gênero ter vindo dos antigos poetas e retóricos
gregos e ser bastante recente, por influência de Bakhtin, tem sido usada para
descrever uma multiplicidade de enunciados produzidos na sociedade, conforme
comenta Maingueneau (op.cit. p.152). Assim, como a sociedade está em constante
mudança, os gêneros de discursos, por seu caráter historicamente variável, diferem-
se, desse modo, das tipologias comunicacionais. O estudioso explica que:

‘tipo’ e ‘gênero’ são assim duas faces da mesma


realidade: um tipo de discurso é constituído de
gêneros, todo gênero se destaca sobre o fundo de
um tipo de discurso determinado (MAINGUENEAU,
op.cit., p. 42).

Sobre os gêneros de discurso, Maingueneau (op.cit., p. 151), também, explica


que essa noção tem papel de destaque nas análises de discurso, já que refletir
sobre os textos sem levar em conta os lugares sociais aos quais pertencem ou
refletir sobre os lugares sem considerar o texto, significa que o discurso não está
sendo abordado a partir do ponto de vista da análise do discurso.

Nesse âmbito, os gêneros de discurso pertencem a diversos tipos e não se


limitam a apenas alguns, já que os tipos de discurso são associados a inúmeros
setores de atividade social (MAINGUENEAU, 2011, p. 65). Para conceber um
67

gênero e sua tipologia de discurso, um conjunto de condições de êxito deve ser


atendido, para que possa fazer parte de uma atividade de forma eficiente, como:

• uma finalidade: todo gênero é produzido com uma finalidade que é definida,
ao se responder à indagação implícita: “estamos aqui para dizer ou fazer o
quê?”. Identificá-la é importante para que o destinatário tenha um
comportamento adequado perante a uma prática social (gênero de discurso);

• o estatuto de parceiros legítimos: corresponde aos papéis que o enunciador e


o co-enunciador devem assumir, daí a necessidade de se determinar de
quem parte e a quem se dirige o discurso;

• o lugar e o momento legítimos: correspondem ao lugar e ao momento em que


o gênero está inserido: a missa ocorre na igreja, a aula em uma escola, mas,
dependendo, da finalidade, esses locais podem ser transgredidos.

Em relação ao tempo de um gênero de discurso, ele implica uma


periodicidade: um curso, um telejornal, por exemplo, são periódicos; no entanto, um
panfleto não tem essa periodicidade; uma duração de encadeamento, que é a
duração da realização de um gênero de discurso, em um jornal impresso, tem, pelo
menos, duas durações de leitura de um artigo: verificam-se os elementos
destacados em negrito, maiúsculas, para, eventualmente, ser feita uma leitura.

• o suporte material: trata-se do modo de existência, do modo de


manifestação material dos discursos.

• uma organização textual que se refere aos modos de encadeamento dos


constituintes de um gênero de discursos, em diferentes níveis, da frase a
suas partes maiores. Compete à linguística textual estudar essa
organização que todo discurso possui.

Notamos a presença desse conjunto de condições de êxito na coluna Artigo


do Mestre Masaharu Taniguchi, conforme demonstramos a seguir:
68

• finalidade: transmitir os ensinamentos de Taniguchi para a captação de


seguidores;

• papéis assumidos: são de mestre, de professor para o enunciador e de


aluno para o co-enunciador;

• lugar e momento legítimos: o texto foi inserido na coluna Artigo do Mestre,


no entanto, os coenunciadores se deparam com uma aula;

• tempo: a periodicidade da revista Pomba Branca é mensal. No entanto, as


obras de onde foram extraídos os textos - que compõem o corpus para o
desenvolvimento dessa pesquisa - podem ser lidas em qualquer época
(atemporais). Sobre a duração de encadeamento, são verificadas,
inicialmente, as imagens, o ‘olho’ do texto, frases no rodapé das folhas do
lado direito, para, depois, se ler os textos. Em relação à continuidade,
pode-se ler o texto inserido na revista de uma só vez ou lê-lo de onde ele
foi recortado, já que no final da coluna é mencionada a fonte de onde o
texto foi extraído. Sobre a duração de validade presumida, ela é
indeterminada, pois tanto a revista quanto a coluna podem ser lidas em
qualquer período.

Diante desse aspecto, Maingueneau (2011), ainda, aponta três metáforas


para caracterizar o gênero: o contrato, o papel e o jogo, tomados, respectivamente,
de três domínios: o jurídico (contrato), o teatral (papel) e o lúdico (jogo) que serão
explicados a seguir.

• O contrato refere-se às normas de sistematização do discurso, que são


usadas pelo locutor e reconhecidas pelos interlocutores. Caso essas
regras sejam desobedecidas, o interlocutor precisará saber o motivo.

• O papel se refere aos diversos papeis sociais desempenhados nas


atividades sociais, como por exemplo, uma mulher em casa exerce o
69

papel de mãe, no entanto, na empresa onde trabalha exerce o papel


de executiva.

• O jogo é o cruzamento das duas metáforas citadas acima: existe um


contrato (as regras) e há papeis (os jogadores). Assim como em um
jogo, um gênero implica certas regras preestabelecidas, todavia, suas
normas não são rígidas como a de um jogo, pois:

elas (as regras do gênero) possuem zonas de variação,


os gêneros podem se transformar. Além disso, o gênero
de discurso raramente é gratuito, ao passo que um jogo
exclui as finalidades práticas, visando apenas ao lazer
(MAINGUENEAU, op.cit., p. 70).

Notamos que o discurso inserido na revista é apresentado como sendo do


gênero artigo - Artigo de Mestre Masaharu Taniguchi. O contrato está bem claro
entre os coenunciadores, pois o enunciador assume o papel de quem detém o
poder, ao se autodenominar mestre e o co-enunciador assume o papel de aprendiz.

Nesse âmbito, devido à diversidade de gêneros de discursos, o autor


distingue três regimes para essa noção: os gêneros autorais, impostos pelo autor ou
pelo editor; os gêneros rotineiros que são os favoritos para os analistas do discurso
como as revistas, as palestras, entre outros, e os gêneros conversacionais, que são
instáveis, já que sua estrutura se modifica durante a conversação (Maingueneau,
2008a, p. 155).

O linguista francófono afirma que essa divisão dos gêneros em três regimes
pode ser utilizada para fins didáticos, no entanto, não está correta dos pontos de
vista terminológico e empírico, por isso ele modifica essa tripartição e propõe dois
regimes genéricos, submetidos a regras distintas: gênero conversacional e gênero
instituído, este no lugar dos gêneros autorais e dos gêneros rotineiros. Para ele,
esses regimes podem estar juntos em um mesmo ato de fala.
70

Sobre os gêneros instituídos, Maingueneau (2008a, p.155) diz que eles


formam um conjunto heterogêneo e que estão associados a uma “cena genérica”
que:

atribui papéis a atores, prescreve o lugar e o momento


adequados, o suporte e a superestrutura textual para um
texto de um gênero particular.

Nesse sentido, o discurso analisado neste trabalho se enquadra como gênero


instituído, pois se constitui a partir de um quadro enunciativo formalizado
institucionalmente.

O estudioso lembra, ainda, que muitos desses gêneros possuem outro tipo de
cena, que depende das escolhas de quem os produz: a cenografia. Para ele, a cena
genérica é parte de um contexto, trata-se da cena o que gênero indica, e a
cenografia é produzida no texto, no entanto, nem todos os textos a possuem. A lista
telefônica, por exemplo, obedece às regras de sua cena genérica, por outro lado, a
publicidade escolhe as cenografias conforme as estratégias do marketing. O
estudioso, ao levar em conta a variedade de gêneros instituídos, distingue vários
graus:

- gêneros de primeiro grau são aqueles que não variam: certidões de nascimento,
listas telefônicas, entre outros;

- gêneros de segundo grau são produzidos pelos falantes e obedecem a um rigoroso


roteiro: notícias na TV, correspondência de negócios etc;

- gêneros de terceiro grau são tolerantes a variações e dão ao falante a


possibilidade de criarem cenografias: um guia de viagens pode ser elaborado por
meio de uma conversa, por exemplo;

- gêneros de quarto grau requerem a invenção de cenografias, obedecendo às


estruturas do gênero escolhido: propaganda, programas de entretenimento etc.;
71

- gêneros de quinto grau não seguem formatos preestabelecidos, pois isso depende
da maneira pelo qual o autor coloca sua identidade em jogo. Um autor religioso pode
chamar seu texto de meditação, por exemplo.

Dessa forma, a proposta feita por Maingueneau, para que partamos para esse
“regime de genericidade” em duas categorias, tem como propósito a possibilidade de
distinguir regimes de produção textual, no contexto da interdiscursividade, pois
assim saberemos que a escolha de um gênero e não de outro, nas atividades
discursivas, não é aleatória, mas, com objetivos específicos. Para Maingueneau
(2008), todo gênero modifica a situação da qual participa e, para ele, o co-
enunciador tem seu comportamento influenciado pela finalidade do gênero
produzido.

Então, escolher uma categoria genérica é muito mais que escolher uma
estrutura textual, pois é impossível elaborar um gênero de interação a cada situação
da qual fazemos parte, para tanto buscamos a estabilidade de alguns gêneros, pois
eles podem tornar a interlocução mais eficaz.

Diante desse cenário, as características do gênero de discurso são ampliadas


pelo pesquisador, ao estudar as cenas da enunciação, a saber: a cena englobante, a
cena genérica e a cenografia, que serão aprofundadas mais adiante. Percebemos
assim que, para ele, não se deve priorizar somente os aspectos estruturais do texto,
mas o gênero também, pois é por meio dele que enunciador e co-enunciador
interagem e desempenham papéis sociais.

No que se refere ao corpus selecionado, vimos que os editores da revista


escolhem e recortam textos de obras do fundador e os inserem na seção
denominada Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi:

- do livro Lições para o cotidiano, foi extraído O pecado não existe. A obra data de
1954, foi escrita em Tókio, teve sua primeira edição em português, em 1979, sua 11ª
edição foi revisada em 1996, estando, hoje, na 16ª impressão. Esse texto foi inserido
na revista Pomba Branca de março de 2012.

- do livro Comande sua vida com o poder da mente, foi extraído O pensamento
iluminador e as ciências naturais. A obra foi escrita em 1948, editada em 1988, sua
72

1ª edição, em português, foi em 1998 e está, hoje, na 16ª impressão. O texto foi
posto na revista Pomba Branca de março 2013.

Apesar de não serem artigos, de não serem produzidos para o suporte revista
Pomba Branca, de não serem escritos para as mulheres do século XXI e não
pertencerem ao momento histórico, político e social em que foram publicados os
exemplares, eles são inseridos nas publicações, em uma ‘moldura’, em uma
estrutura de artigo de revista e recebidos como tal.

Os editores não explicitam seus critérios nem objetivos em relação às


escolhas feitas para a publicação, todavia há uma intenção em optar por um texto e
não por outro e inseri-lo na seção Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi que tem um
propósito implícito. Essa coluna poderia ser identificada como: aula do Mestre
Masaharu Taniguchi, dicas do Mestre Masaharu Taniguchi, palestras do Mestre
Masaharu Taniguchi etc., no entanto:

sobram, ainda, alguns gêneros para os quais as


finalidades, como critério primeiro, são
inadequadas, que desafiam as atribuições de
propósitos comunicativos (SWALES, apud
Maingueneau, 2008a, p. 157).

Sendo assim, a seção Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi não é apenas um


espaço para a publicação de textos extraídos de obras do fundador, falecido em
1985, ou uma estrutura textual. Trata-se de uma prática social, já que o gênero
artigo de revista traz papéis que são desempenhados por quem escreve e por quem
lê. No discurso em análise, como já mencionamos, o enunciador assume o papel de
mestre, de quem sabe o que diz e o co-enunciador assume o papel de aprendiz.
73

2.4 Gênero de discurso: artigo de revista

Antes de aprofundarmos nossos estudos no gênero de discurso artigo de


revista, abordaremos a questão do suporte, uma vez que para Maingueneau (2011,
pp. 71-83) é preciso reservar um lugar importante ao modo de manifestação material
dos discursos, ao seu suporte, bem como a seu modo de difusão: enunciados orais,
no papel, radiofônicos, na tela do computador etc.

O suporte ou mídium é uma dimensão essencial da comunicação verbal, não


obstante ser desprezada pelos analistas que estavam habituados, nas análises
literárias, apenas, a considerarem o texto como sequências de frases possuidoras
de sentido. Sobre essa indiferença, Maingueneau (op.cit., p. 71) observa que o
mídium não é um simples ‘meio’, de transmissão do discurso, mas que imprime um
certo aspecto a seus conteúdos e comanda os usos que dele podemos fazer. Dessa
forma, por não ser um mero instrumento que serve para transportar mensagens, é
relevante que o observemos, pois, se houver uma modificação nele, modifica-se o
conjunto de um gênero de discurso.

O autor orienta que, apesar de ser importante, não podemos, somente,


considerá-lo, é preciso levar em conta o todo, ou seja, o conjunto do circuito que
organiza a fala. Um gênero sempre será transportado por um suporte e o modo de
transporte e de recepção do enunciado condiciona a própria constituição do texto,
modela o gênero de discurso (Maingueneau op.cit., p. 72).

Dessa forma, a revista impressa Pomba Branca, da qual extraímos nosso


corpus, é um suporte genérico mensal que contém: artigos, relatos de experiência,
receitas, reportagens acerca de algum evento da SNI, notícias, divulgação de
produtos e de eventos.

Trata-se, assim, de uma publicação para mulheres, que difere de outras para
esse público, já que seu objetivo é divulgar os ensinamentos e as práticas da
instituição. Dessa forma, ela não possui o mesmo posicionamento de outros
exemplares femininos que circulam na sociedade.

Como vimos, anteriormente, os textos são recortados e inseridos na revista


como se fossem do gênero artigo e podem, nesse suporte, influenciar muitas
pessoas, todavia não se tratam de artigos produzidos para a revista, tratam-se,
74

muitas vezes, de transcrições de palestras proferidas, de orientações sobre como


fazer meditação, de consultas e orientações espirituais etc., todos extraídos de
capítulos de livros do fundador. Por analisarmos o discurso extraído dessa coluna,
julgamos relevante aprofundar nossos estudos sobre o gênero artigo de revista.

Nesse sentido, Rodrigues (apud Cano, 2012, p. 126) lembra que existem
pesquisas que mostram que os gêneros que circulam na mídia são denominados de
artigo, sem o serem. Sobre isso, ele comenta que, por várias vezes o termo artigo é
usado para designar qualquer material que aparece nos jornais ou revistas, não
estando, nesses casos, vinculado à concepção de gênero.

Para Rabaça & Barbosa (2001), o artigo é um texto jornalístico interpretativo e


opinativo, não muito extenso em que uma ideia é desenvolvida ou um assunto é
comentado a partir de uma fundamentação.

Nesse âmbito, devido a esse gênero circular em jornais e revistas, debates


sobre temas polêmicos são comuns e, por isso, desperta o interesse de muitas
pessoas para a leitura, todavia, Silva (2008, p. 70) ressalta que:

os leitores do artigo de opinião, de modo geral, são


pessoas que frequentemente leem determinado jornal ou
revista e estão, de algumas forma, interessadas na
questão polêmica por ele abordada, ou porque as afeta de
maneira direta, ou porque se interessam pela discussão
dos assuntos em pauta no meio social. No Brasil, país em
que a leitura é um hábito de poucos cidadãos, pode-se
afirmar que os leitores de artigos de opinião constituem
uma elite sociocultural.

Contudo, os leitores da seção Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi são,


predominantemente, mulheres, pois a revista Pomba Branca é direcionada para
esse público. As leitoras que não são adeptas encontram o posicionamento do
fundador da SNI acerca de vários assuntos do cotidiano e conhecem, assim, os
75

ensinamentos divulgados na SNI. Para as leitoras adeptas/seguidoras, a leitura é


uma prioridade, já que Masaharu Taniguchi representa ‘o mestre espiritual’ que
transmite os ensinamentos, ou seja, elas leem para receberem um direcionamento,
uma orientação sobre a maneira de agir nas situações do cotidiano.

Assim, sobre o papel dos leitores, Maingueneau (2008a, p.174) diz que os
destinatários podem significar muitas coisas: o público real (as pessoas que leem o
texto), o público genérico (o público para quem o texto é destinado), o leitor modelo
(o tipo de leitor que pode ser inferido das propriedades do texto), o leitor invocado
aquele, explicitamente, especificado pelo texto. Para ele, o modo como o gênero
circula evidencia o público.

Dessa forma, o autor afirma que os vários gêneros existentes são feitos para
serem lidos por dois públicos: um de primeiro grau, que lê significados literais e outro
de segundo grau, que é capaz de extrair proposições implícitas de um texto, que
para pessoas comuns, pode parecer unívoco. É o público especialista que
compartilha do mesmo código que os produtores dos textos e, também, podem fazer
interpretações, para, posteriormente, transmiti-las para o público de primeiro grau.

Isto posto, os textos da seção apreendidos como artigo de revista, podem,


influenciar leitores de primeiro grau (simpatizantes) e de segundo grau (praticantes),
no sentido de fazê-los refletir sobre determinado assunto ou alterarem pontos de
vista sobre alguma situação ou tomarem posição, no que diz respeito a uma religião,
por exemplo.

Por conseguinte, a ‘moldura’ de gênero artigo de revista, na qual os textos


estão inseridos, pode organizar e direcionar o modo de as leitoras receberem as
mensagens transmitidas na revista. Essa influência se dá, também, por meio do
conteúdo temático religioso, pelo suporte revista, pelo seu enunciador em um papel
de mestre e pelo seu caráter opinativo (persuasivo).

Diante disso, Reis (2009, p. 52) comenta que devido aos gêneros se
apresentarem como tipos relativamente estáveis de enunciados, é esse
‘relativamente’ que garante seu caráter de indefinição. Para ela, é preciso levar em
conta o fato de o gênero não ser algo “engessado” em uma forma pré-estabelecida,
daí a importância da situação comunicativa para a sua configuração.
76

Portanto, o discurso de Masaharu Taniguchi, inserido na seção Artigo do


Mestre Masaharu Taniguchi, pode gerar diferentes efeitos de sentido e pode
produzir ações nos leitores, tais como: refletir sobre um comportamento, modificar
conceitos relacionados à igreja, ao pecado, à morte, à família, entre outros, devido
ao seu conteúdo divino/sagrado, a seu enunciador e aos tons pedagógico e religioso
que são, predominantemente, opinativos e autoritários.

Consequentemente, Reis (2009, p. 49), em sua análise sobre as


características do gênero artigo de revista, observou que esse texto de circulação
pública, apesar de ser pouco fluido, pertence ao tipo dissertativo32 e se caracteriza,
principalmente, pelo fato de possibilitar a exposição de ideias, o desenvolvimento de
raciocínios, o encadeamento de argumentos bem como a tomada de conclusões.

Mesmo não sendo possível encontrar nenhuma constante sobre seus


prováveis elementos constituintes, no que se refere à sua estrutura, Reis (2009)
notou, no entanto, que a maioria tem em comum: a assinatura do texto pelo seu
autor, que pode estar no momento que o inicia, ou em seu término, a presença do
nome da seção da revista, de um título e, no jargão jornalístico, um ‘olho’33 (pequeno
enunciado retirado do texto que aparece após o título) ou ‘bigode’ (um enunciado,
com uma informação complementar que não está presente ao longo do texto).

Em sua pesquisa, Reis (2009) observou, também, a existência de artigos


divididos em tópicos, assemelhando-se em alguns momentos a cartas de leitores
respondidas por escritores de uma redação, mas que mesmo assim receberam o
nome de artigo. Outros, ainda, eram formados por duas colunas, cada uma contendo
posicionamentos contrários acerca de um tema. Quanto ao tamanho, parece não
haver consenso: há artigos que possuem uma, duas, ou mesmo meia página.
Alguns possuem fotografias que ilustram os textos, outros não.

Quanto à função geral do gênero artigo de revista, ou seja, quanto à sua


forma de circulação social, Reis (2009) afirma que ele se fundamenta na discussão

                                                            
32
Consideramos o artigo um texto argumentativo, porém mantivemos a tipologia apresentada pela autora.
33
Sobre ‘olho’, Lage (2001, p.53) afirma que algumas vezes, em matérias muito longas de revistas ou
suplementos, destacam-se frases do texto como elemento gráfico inserido no meio da composição, em corpo
maior. O objetivo, aí, é duplamente estético e de motivação da leitura.
77

de um tema qualquer, escolhido pelo autor e que, geralmente, apresenta um caráter


crítico-discursivo que leva o leitor, muitas vezes, a produzir reflexões.

Logo, para a autora, o artigo de revista refere-se a uma matéria escrita, na


qual, frequentemente, o autor expressa uma opinião sobre algum tema ou sobre o
resultado de estudos ou de pesquisas que tenha sido feitos sobre ele. Portanto,
trata-se de um texto, predominantemente, opinativo, que pode se dirigir ao público,
em geral, como é o caso dos artigos das grandes revistas de circulação semanal ou
pode, ainda, se dirigir a um público específico como, por exemplo, nas publicações
sobre áreas específicas do conhecimento, tais como revistas científicas.

2.5 Cena enunciativa

Para verificarmos como se dá a organização do discurso da coluna Artigo do


Mestre Masaharu Taniguchi e de que forma o co-enunciador a apreende,
consideraremos os estudos sobre a cena de enunciação.

Inicialmente, levaremos em conta a noção de texto postulada por


Maingueneau (2011, p. 85), para quem texto não é um conjunto de signos inertes,
mas o rastro deixado por um discurso em que a fala é encenada. Para ele, o
enunciador constrói o cenário de seu dizer, encenando sua própria fala. Sobre essa
encenação, Charaudeau & Maingueneau (2008) afirmam que o discurso se coloca
em cena e instaura um espaço instituído no qual o enunciado ganha sentido.

Nesse sentido, Maingueneau (2005, 2008a, 2011) postula que o discurso


pressupõe uma cena de enunciação para poder ser enunciado e o discurso deve
validar essa cena em sua própria enunciação. Vale ressaltar, que analisaremos esse
quadro, porém o foco não está na situação empírica (a revista, o fundador da SNI ou
as leitoras da revista), em primeiro plano está a análise de como os coenunciadores
se constroem e se revelam na cena de enunciação. Para tanto, o estudioso propõe
que se observe as três cenas, que compõem a cena de enunciação: a cena
englobante, a cena genérica e a cenografia.

Para Maingueneau (2005), a cena englobante se refere ao tipo de discurso:


religioso, publicitário, político, entre outros e é de onde surge o estatuto pragmático
78

do texto (estatuto de parceiros), o tempo e o espaço. É por ela que olhamos a cena
de enunciação e, por isso, deve oferecer condições para que o co-enunciador
identifique o tipo de discurso produzido, porém, essa cena sozinha, não é suficiente
para garantir as especificações das atividades discursivas (verbais) em que os
sujeitos estão envolvidos. Devido a todo discurso ser enunciado, pelo gênero do
discurso, essa cena não oferece mais elementos para a análise. Será a cena
genérica que revelará outros elementos.

A cena genérica corresponde aos gêneros de discurso particulares,


socialmente conhecidos e que as pessoas de determinado grupo têm na memória.
Maingueneau (2011, p. 86) afirma que cada gênero de discurso define seus próprios
papéis, no entanto, uma carta comercial, uma receita médica, por exemplo, podem
ser planejados com outros objetivos, além daqueles que lhe são comuns. Essa
estratégia é utilizada, comumente, pela publicidade que utiliza, em anúncios,
diferentes estruturas genéricas, como telefonemas, receitas, entre outras, com a
finalidade de interagir com determinado público.

Esses dois tipos de cenas são chamados por Maingueneau (op.cit., p. 87) de
quadro cênico do texto. Nele é definido o espaço estável no interior do qual o
enunciado adquire sentido – espaço do tipo e do gênero do discurso. Todavia, o
leitor não se depara com ele, diretamente, mas com a cenografia, ou seja, com uma
espécie de “cilada” que desloca o quadro cênico para um segundo plano.

Dessa forma, para Maingueneau (2008 a) a situação de enunciação não é,


com efeito, um simples quadro empírico, um objeto de decoração, como se o
discurso ocupasse o interior de um espaço já construído e independente desse
discurso, ela se constrói como cenografia por meio da enunciação. Para ele,

é a enunciação que, ao se desenvolver, esforça-se


para construir progressivamente o seu próprio
dispositivo de fala (MAINGUENEAU, 2011, p. 87).
79

A cenografia se refere ao processo de inscrição que envolve um enunciador,


um co-enunciador, um ethos, um código linguageiro, um lugar e um momento da
enunciação. Ela é, ao mesmo tempo, quadro e processo e não uma simples cena,
conforme esclarece Maingueneau (2008a, p. 51):

aqui - grafia é um processo de inscrição legitimante que


traça um círculo: o discurso implica um enunciador e co-
enunciador, um lugar e um momento da enunciação que
valida a própria instância que permite sua existência. Por
esse ponto de vista, a cenografia está, ao mesmo tempo,
na nascente e no desaguadouro da obra.

Dessa forma, a cenografia é instituída pelo discurso, adaptando-se a ele, não


sendo imposta pelo gênero de discurso. Nesse sentido, trata-se de um espaço em
construção, que vai surgindo no próprio acontecimento e envolvendo o co-
enunciador, que deve se persuadir de que é aquela cenografia e nenhuma outra,
que corresponde ao mundo configurado pelo discurso (op.cit., p.118). Assim,
cenografia é:

ao mesmo tempo, origem e produto do discurso; ela


legitima um enunciado que, retroativamente, deve
legitimá-la e estabelecer que essa cenografia, de onde se
origina a palavra é precisamente a cenografia requerida
para contar uma história, denunciar uma injustiça etc.

Nesse âmbito, Maingueneau (2011) ressalta que, em muitos casos, a cena de


enunciação reduz-se às cenas englobante e genérica, porque existem gêneros
pouco suscetíveis de cenografias variadas, como o que ocorre em gêneros como o
80

despacho administrativo, a receita médica, a correspondência administrativa, entre


outros.

Por outro lado, há gêneros (publicitários, literários, filosóficos) que, devido a


seus propósitos comunicativos, exigem a escolha de uma cenografia que não é
imposta pelo tipo ou pelo gênero de discurso, sendo criada pelo próprio discurso:
trata-se da cena apropriada para um determinado discurso, para validá-lo, torná-lo
pertinente. Isso ocorre, pois a cenografia é uma dimensão criativa do discurso, na
qual se engendra o simulacro de um momento, de um espaço e dos papéis sociais
conhecidos e compartilhados, culturalmente. Se a cenografia for bem explorada, o
leitor pode ser pego em uma armadilha de, por exemplo, receber um texto como se
fosse uma poesia e não como uma receita.

Por conseguinte, a cenografia de um discurso é reconstruída pelo co-


enunciador com a ajuda de diversos indícios: o reconhecimento do gênero do
discurso, os registros e níveis de linguagem, o ritmo etc., além disso, nela, a figura
do enunciador, o fiador e co-enunciador são associadas a um momento (cronografia)
e a um lugar (topografia), dos quais o discurso supostamente surge.

Portanto, a cenografia será desenvolvida, plenamente, se puder controlar seu


próprio desenvolvimento, mantendo uma distância em relação ao co-enunciador, já
que este não poderá agir imediatamente sobre o discurso, como é o caso da escrita.
O mesmo não ocorre, por exemplo, em um debate, no qual os participantes devem
reagir, rapidamente, a situações inesperadas provocadas pelo interlocutor. Nesse
caso de interação viva, o que passa ao primeiro plano é, na maioria das vezes, a
ameaça das faces e o ethos (MAINGUENEAU 2008 a, p. 118).

Nesse sentido, Cano (2012, p.74) afirma que a cenografia trata-se de uma
estratégia que se utiliza de uma série de recursos linguístico-discursivos de
envolvimento do co-enunciador. Por isso, julgamos ser relevante identificar os
indícios textuais, no discurso na seção Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi, que
constroem a cenografia pedagógica, pois se trata de uma estratégia escolhida pelo
enunciador que pretende conseguir a adesão do co-enunciador.
81

Além disso, notamos, nesse discurso, que há uma interação na cena (que a
leitura propiciou) que constrói uma imagem para a SNI e para Masaharu Taniguchi,
criando, assim, uma instância de enunciador. O co-enunciador interage com essa
imagem, corporifica-a e a incorpora, em outras palavras, ele entra em contato, na
cenografia, com o ethos discursivo que será abordado a seguir.

2.6 Ethos discursivo

Abordaremos a noção de ethos discursivo, a fim de verificarmos como a


imagem do enunciador é projetada no discurso da SNI e como ela articula os valores
e os modos de vida, na dimensão religiosa, proposta pela instituição. Diante desse
aspecto, Amossy (2011 a, p. 9) afirma que todo ato de tomar a palavra implica a
construção de uma imagem de si. Ressaltamos que a imagem não está relacionada
a papeis sociais, mas ao que se diz no discurso.

Desse modo, Charaudeau & Maingueneau (2008), para esclarecerem essa


noção, explicam que o termo ethos vem da retórica aristotélica e, traduzido, significa
personagem. Trata-se da imagem de si que o orador constrói na interação com o
outro, não de sua pessoa real.

Consequentemente, Eggs (2011), ao discorrer sobre o ethos na retórica


Clássica, diz que essa ideia começou a ser discutida por Aristóteles em seus
trabalhos sobre a Arte Retórica, nos quais ethos corresponde a um meio técnico de
persuasão, em que o orador, por meio de sua maneira de dizer, pode conquistar a
confiança do público, mostrando, em seu discurso, um caráter honesto.

Nota-se que essa perspectiva se distancia da definição apresentada pelos


retóricos tradicionais romanos para quem ethos corresponderia ao caráter real do
locutor, um dado preexistente fundado na autoridade individual e institucional do
orador (sua reputação, seu estatuto social) e não ao caráter representado por meio
do discurso, conforme explicam Charaudeau e Maingueneau (2008, p. 220).

Por isso, Eggs (op.cit., p. 40) comenta, também, que Aristóteles inovou ao
incluir essa noção como uma possibilidade persuasiva, ao postular que o ethos
constitui praticamente a mais importante das provas. Para o retórico, o discurso é
82

construído com base na trilogia comunicativa: logos, pathos e ethos. O logos refere-
se à linguagem, ao discurso; o pathos diz respeito ao convencimento do ouvinte e o
ethos refere-se ao aspecto moral ou ético que o orador deixa ‘transparecer’ pelo
discurso.

Essa trilogia das provas de persuasão mostra que um discurso se apoia no


orador que revela uma imagem ao auditório e esse público, por sua vez, é
sensibilizado por emoções e por paixões movidas por quem está com a palavra. O
orador, dessa forma, alcança o seu objetivo: conseguir a adesão dos ouvintes,
devido a seu discurso ser eficiente. É nesse sentido que o ethos corresponde ao
caráter do orador representado por meio do discurso e não essencialmente ao seu
caráter real.

A partir desse quadro, Eggs (op.cit., p. 31) explica, também, que, nessa
perspectiva, o lugar que engendra o ethos é, portanto, o discurso, o logos do orador,
e esse lugar se mostra apenas mediante às escolhas feitas por ele e as formas de
se expressar resultam de escolhas entre as inúmeras possibilidades linguísticas e
estilísticas. Segundo o autor, ainda, para Maingueneau, essas escolhas referem-se
às maneiras do orador se exprimir, ou seja, o ethos é mostrado e não dito,
explicitamente.

Assim, essa ideia inspira as ciências da linguagem, devido à evolução


ocorrida nas condições de exercício da palavra proferida em público e Maingueneau
(2008 a, 2008 b, 2010, 2011) leva essa noção para a AD, reinterpretando-a e
acrescentando a ela um caráter discursivo.

Logo, segundo Maingueneau (2008 a, 2008 b), o ethos é uma noção


discursiva, pois se constitui por meio do discurso, não sendo uma imagem do locutor
exterior à fala; é um processo interativo de influência sobre o outro e é uma noção
híbrida (sociodiscursiva), um comportamento socialmente avaliado, já que está
integrada a uma conjuntura sócio-histórica determinada.

Por conseguinte, o ethos está crucialmente ligado ao ato de enunciação,


mas é inegável que o público construa uma imagem (ethos) do enunciador antes
que ele se manifeste (MAINGUENEAU, 2008 b, p. 15, 2011 a p. 71). Por isso, o
linguista distingue o ethos discursivo (mostrado) do ethos pré-discursivo ou ethos
83

prévio, sendo esse entendido como imagem construída antes do enunciador tomar a
palavra.

Ressaltamos, ainda, que o estudioso reconsiderou essa diferença e não


contempla mais a distinção ethos discursivo/ethos pré-discursivo, pois para
Maingueneau, tudo se dá no discurso, devido a termos uma noção prévia de quem é
o enunciador e, com esse conhecimento, criamos uma instância com a qual se
interage.

Nesse sentido, Maingueneau (2008 a, p. 64 e 2008 b, p. 17) deixa clara sua


perspectiva de estudo ao afirmar que o ethos será considerado para além da
persuasão por meio de argumentos, essa noção de ethos permite refletir sobre o
processo mais geral de adesão dos sujeitos a determinado posicionamento, trata-se
de uma noção discursiva constitutiva da cena de enunciação. O foco da AD não é o
orador ou escritor empírico, pois se analisa, observa-se a imagem construída pelo
enunciador com a qual o co-enunciador interage na cena de enunciação.

Dessa forma, Maingueneau (2008a, 2011) postula que a noção de ethos


permite articular corpo e discurso em uma dimensão diferente das oposições
empíricas: oral e escrito. A instância subjetiva que se manifesta por meio do discurso
é concebida como uma ‘voz’, associada a um ‘corpo enunciante’.

Para ele, todo texto escrito possui, mesmo quando o nega, uma vocalidade
que pode ser relacionada a um ‘fiador’, uma instância subjetiva (não se trata do
locutor extradiscursivo) que, por meio de seu tom, atesta o que é dito. O tom serve
para o oral e o escrito, sendo responsável por fazer o co-enunciador construir uma
representação do corpo do enunciador, ou seja, por fazer emergir essa instância que
afiança o que diz.

Percebemos, assim, que, enquanto a retórica relacionou o ethos à oralidade,


Maingueneau (2008 a, p. 65) aborda-o em uma concepção mais encarnada, pois
além de recuperar a dimensão verbal, considera o conjunto de determinações físicas
e psíquicas associadas ao fiador pelas representações coletivas. Dessa forma, ao
fiador são atribuídos um caráter e uma corporalidade, a esse último, está associada
uma aparência física, ao primeiro, traços psicológicos. Ademais, o ethos implica uma
forma de mover-se no espaço social, uma disciplina tácita do corpo, apreendida por
84

meio de um comportamento. Ele é apreendido pelo co-enunciador que possui


representações sociais, estereótipos, que são reforçados ou transformados na
enunciação.

Diante dessa circunstância, a apreensão do co-enunciador implica um “mundo


ético”, sendo muito mais que uma simples identificação a uma personagem fiadora,
pois o co-enunciador “incorpora” o fiador que, por sua vez, acessa e faz parte de um
“mundo ético”, ativado por meio da leitura, que se trata de um estereótipo cultural
composto por determinado número de situações estereotípicas relacionadas a
comportamentos.

Sendo assim, Maingueneau (2008a,) cita, como exemplo, a publicidade


moderna que se apóia em estereótipos (mundo ético dos executivos, dos artistas
entre outros) e explica que se incluíssemos um cantor em um clip, ou seja, em um
mundo musical, isso teria o efeito de inserir o fiador em um mundo ético específico.

Logo, a maneira pela qual o co-enunciador, em posição de intérprete,


apropria-se do ethos ou a ação do ethos sobre o co enunciador, é chamada por
Maingueneau (2008 a, p. 65, 2011, p. 99) de incorporação, que ocorre em três
registros: a enunciação da obra dá um corpo ao fiador; o destinatário, por sua vez,
incorpora-o e essas duas incorporações permitem a constituição de um corpo da
comunidade imaginária daqueles que aderem ao mesmo discurso. O corpo do fiador
nem sempre está explicitado, todavia, o texto o “mostra” por sua maneira de dizer,
ao fazer o co-enunciador entrar em determinado mundo ético que, por sua vez, ativa
o fiador pelos estereótipos existentes.

Para o pesquisador, o fiador é uma imagem construída pelo co-enunciador


com base em indícios textuais de diversas ordens, pelos estereótipos que ele traz e
pelo tom do discurso. Nesse sentido, em nível discursivo, é possível criar uma
imagem de um fiador que não tem semelhanças com o enunciador.

Portanto, não se trata de um autor empírico, que decide desempenhar um


papel de sua escolha, em função dos efeitos que pretende produzir sobre seu
auditório. Tudo está em nível do discurso, pois é o posicionamento, no qual o
enunciador está inserido, que o faz assumir um determinado modo de enunciação,
um ethos. O discurso “cria” o corpo de um fiador que, por meio de sua enunciação,
85

produz certos efeitos na comunidade discursiva pressuposta que, ao mesmo tempo,


é validada por aquele discurso.

Para Maingueneau (2008b, p. 29) não se deve reduzir a interpretação dos


enunciados a uma simples decodificação, já que alguma coisa da ordem da
experiência sensível se põe na comunicação verbal. O co-enunciador é:

apanhado por um ethos envolvente e invisível [...] ele


participa do mundo configurado pela enunciação, ele
acede a uma identidade de algum modo encarnada,
permitindo ele próprio que um fiador encarne.

Nesse âmbito, o ethos implica uma experiência sensível do discurso que


mobiliza a afetividade do co-enunciador. Trata-se de um comportamento que articula
verbal e o não-verbal, provocando, no co-enunciador, efeitos multissensoriais.
Maingueneau explica, ainda, que essa adesão ocorre pelo apoio recíproco do
conteúdo apresentado e da cena de enunciação. Para ele, a AD deve se interessar
pelo construído, com seus possíveis efeitos de adesão, e não com a persuasão
exercida por ele.

Assim, Cano (2012), ao comentar sobre a adesão, afirma que o co-


enunciador adere a um ethos, a um fiador e não a uma ideia e essa percepção não
está em um nível linguístico, mas em um nível interdiscursivo. O corpo aderido está
no interior de formações discursivas que possuem traços ideológicos que se opõem
a um corpo localizado em outras formações discursivas que possuem outros traços.

Diante do exposto, esse trabalho visa a depreender os efeitos de sentido da


seção Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi, por meio da construção da cenografia
e do ethos discursivo, pois esse discurso, marcado, predominantemente, pela
presença do discurso pedagógico e de outros, influencia o comportamento das
leitoras. Terminado esse percurso teórico, iniciaremos a análise do corpus, a seguir.
86

CAPÍTULO III

CENAS DA ENUNCIAÇÃO E ETHOS NO DISCURSO DE O ARTIGO DO MESTRE


MASAHARU TANIGUCHI

3.1 Constituição do corpus

Neste capítulo, apresentaremos o corpus selecionado para nossa pesquisa e


analisaremos os discursos da seção Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi, da
revista Pomba Branca. Para tanto, foram considerados os fundamentos teórico-
metodológicos expostos nos capítulos anteriores, para apreendermos os efeitos de
sentido provocados pelo interdiscurso e para verificarmos como o enunciador
constrói as cenas que servem como legitimantes de seu próprio discurso e a
maneira pelo qual é revelado o ethos discursivo.

Por conseguinte, selecionamos, para nossa análise, dois discursos extraídos


da revista mensal Pomba Branca: O pecado não existe e O pensamento iluminador
e as ciências naturais, respectivamente, de março de 2012 e de 2013, por ser o
período do ano em que se comemora o dia da Mulher. Essa seleção se deu por
meio da leitura de alguns exemplares que circularam no período de janeiro de 2008
a maio de 2013.

Nesse sentido, escolhemos essa revista por ser um veículo doutrinário


mensal, com uma tiragem de 200.000 exemplares, por ser escrita para mulheres e
por ser bem aceita por tal público; e a coluna Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi
por conter textos produzidos nas décadas de 1940 e de 1950, extraídos de obras do
fundador e inseridos no contexto atual, por meio dessa publicação.

Diante desse quadro, a seleção dos artigos foi realizada com o intuito de
apresentarmos um recorte significativo do discurso elaborado na SNI, visto que a
coluna se marca como um gênero de discurso que atende a funções específicas da
doutrina quer sejam as de ordem pedagógica, simbólica, reparadora ou
mobilizadora, para dar conta de seus objetivos institucionais.
87

O recorte O pecado não existe trata do tema pecado e, nele, Taniguchi


postula que, para se eliminar a ideia de pecado, é preciso adquirir a convicção de
que temos boas qualidades e de que possuímos a natureza divina em nosso interior.

Abaixo, segue a transcrição do texto:

O PECADO NÃO EXISTE

Muitas pessoas afirmam que a religião é necessária porque existe o pecado


no homem. Entretanto, nós afirmamos que o homem não é pecador e que não há
pecado. Muitos religiosos são contra essa nossa afirmação. Mas, se o mundo foi
criado por Deus e se Deus é absoluto e perfeito, não existe o pecado. O pecado
não existe porque nunca foi criado. Se existisse o pecado no mundo criado por
Deus, a culpa seria do próprio Deus. E um ser tão imperfeito não seria Deus. No
entanto, muitos religiosos insistem em que o homem é pecador e repetem sem
cessar: “Pecadores..., pecadores...”. Se a humanidade pudesse melhorar com a
afirmação de que é pecadora, não teríamos nenhuma objeção; mas o fato é que
com isso jamais poderá melhorar. A ideia de que “há pecado” está causando
inúmeras doenças. Isto se explica como uma forma de autopunição.

O dr. Karl A. Menninger, em seu livro O Homem Contra Si Mesmo, destaca os


efeitos da autopunição, atribuindo inclusive a causa das guerras ao desejo
inconsciente de autopunição. É comum a toda humanidade a ideia de que “o
pecador não poderá pagar seus pecados a não ser através de sofrimentos”. Por
isso, enquanto não for eliminada da mente humana a ideia de pecado, os
homens continuarão a punir a si próprios e a sofrer, fazendo guerras, realizando
lutas de classe, provocando atrito no lar e contraindo doenças.

O referido livro do dr. Karl A. Menninger traz uma história interessante. Um


menino, certo dia brincava inocentemente atirando pedras, e uma delas acertou e
danificou uma imagem de Cristo que havia no parque. “Céus! Que maldade eu
fiz!” – pensou o menino, que foi tomado de profunda consciência de culpa. Ficou
88

fortemente gravada no seu subconsciente a convicção: “Eu cometi uma falta


grave contra Cristo. Oh! Que Pecado! Sou um grande pecador!”.

Passaram-se vários anos. Ele já era adulto, quando, uma tarde, tomou um
bonde. O sol da tarde refletiu-se na cruz de uma igreja e brilhou ofuscante. A
intensa luz vinda dessa cruz penetrou nos olhos do moço, que então se lembrou
de que, quando criança, havia danificado com uma pedra a imagem de Cristo.
Ele não se lembrou com nitidez. A recordação não veio claramente à tona do seu
consciente, mas a ideia “eu sou pecador”, que estava oculta no subconsciente,
foi despertada pela luz vinda da cruz. E, devido à consciência de que o pecador
deve ser punido, ele ficou cego no primeiro instante em que o raio de luz ofuscou
seus olhos.

Deus, que é amor, jamais iria castigar um homem e torná-lo cego só porque
uma pedra acertou casualmente a estátua de Cristo quando ele, na infância,
simplesmente, brincava de jogar pedras. O fato de ele ter ficado cego não se
deve a uma punição de Deus; deve-se à sua própria convicção de pecador e à
sua ideia de punição segundo a qual o pecador deve pagar os seus pecados
através de sofrimento e infelicidades. Se fosse eliminada da sua mente a
convicção de pecador, os seus olhos seriam curados. Muitas pessoas sofrem de
doenças e outras formas de infelicidade para punirem a si próprias.

Como vimos, quando o homem mantém o pensamento de que ele é pecador,


chega inevitavelmente a ferir a si próprio. Logo, torna-se necessário eliminar da
mente da humanidade a ideia de pecado. Religiões e religiosos surgiram para
eliminar o pecado, mas será impossível eliminá-lo se eles continuarem a insistir
na ideia de pecado. Cristo nos ensina o seguinte no Evangelho Segundo João:
“No princípio era o Verbo (Palavra) e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era
Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e nada do que foi feito se fez sem
ele”. A palavra é criadora. Por isso, se ficarmos constantemente falando que o
pecado existe, ele jamais poderá ser extinguido. Por exemplo, se todo mundo se
dirigir a um ex-presidiário que já cumpriu sua pena e lhe disser: “Você é um
criminoso, é um mau elemento, é um pecador...”, ele nunca poderá regenerar-se.
89

Terá dificuldades para conseguir emprego, e não lhe restará outra alternativa
senão a voltar à prática do crime.

Segundo o comentário de um juiz, aquele que foi preso e condenado várias


vezes por reincidência não consegue regenerar-se e geralmente volta a cometer
crimes porque manteve gravado em sua mente o pensamento de que é um
criminoso; mas aquele que obtém uma suspensão de pena quando comete um
crime pela primeira vez, dificilmente volta a delinquir. Uma vez recebida a marca
de “criminoso”, a tendência é piorar cada vez mais.

Há anos, li sobre o caso de um menino chamado Eddie, assaltante de oito


anos de idade, recolhido na “Cidade das Crianças” dirigida pelo padre
Flannagan. Como não podia permanecer preso por ser menor de idade, foi
levado para essa “cidade de recuperação”. O padre Flannagan, mesmo diante de
um criminoso, não via o crime e, vendo-o como filho de Deus, afirmava: “Você é
um filho de Deus”. Pelo poder desse pensamento e dessas palavras, ele
conseguia recuperar meninos delinquentes; mas as suas palavras não ecoavam
no menino Eddie. Ele dizia: “Eddie, você é filho de Deus, você é perfeito e
bondoso, é uma criatura maravilhosa”, mas o menino se rebelava: “Qual filho de
Deus?! Eu sou criminoso. Não sou perfeito nem bondoso. Se pensa que vai me
‘enrolar’ em esses absurdos e disparates, está muito enganado!” O padre
Flannagan já não sabia o que fazer e orou: “Senhor, que devo fazer para orientar
este menino?” Nesse momento, recebeu a inspiração divina e então disse ao
menino:
- Eddie, você sabe se a obediência é uma qualidade ou um defeito?
- É claro que a obediência é uma qualidade. Quem é que não sabe disso? Só
que eu não possuo nem um pingo de qualidade porque sou um malfeitor.
Esta foi a resposta do menino.
O padre disse, então:
- Não é verdade. Não existe ninguém tão obediente como você. Se você praticou
uma maldade, foi simplesmente porque você teve “professores” maus. Você teve
como “professores” os criminosos e malandros e agiu obedecendo fielmente ao
que eles mandaram. Se consegue obedecer fielmente até aos malfeitores, é
90

porque você é muito obediente. Portanto, basta você trocar de professor, você só
terá que ser bom, pois é muito obediente.

Ao ouvir isso, o menino percebeu: “É verdade! Eu tenho essa qualidade! Sou


obediente! Eu obedecia fielmente às ordens daquele chefe de malandros. Sou
obediente, tenho espírito de obediência dentro de mim. Tenho uma coisa boa
dentro de mim. Eu não sou mau, não sou pecador; eu sou bom!”.

Assim ele despertou. Quando percebeu que não era pecador e que possuía
boas qualidades dentro de si, começou a manifestar a natureza divina que habita
o interior do ser humano, regenerou-se e tornou-se uma pessoa exemplar.

Esta é uma prova de que o pecado se extingue quando o homem é libertado


da ideia de que ele é pecador e adquire a convicção de que possui boas
qualidades, a natureza divina, em seu interior.

TANIGUCHI. M. O pecado não existe. In: Pomba Branca – A Revista da Mulher


Feliz. Ano: XXVII, nº. 320, março 2012, pp. 4-7.

No recorte, O pensamento iluminador e as ciências naturais, o autor afirma


que o Espírito é Deus e que Ele está presente em tudo e em todos, sendo
onipresente, amor e sabedoria.

Transcrevemos o texto a seguir:


91

O PENSAMENTO ILUMINADOR E AS CIÊNCIAS NATURAIS

Que é espírito?

Deus é espírito. E o espírito é a origem de tudo, é a essência, é a força que


cria todas as coisas. Ele é a força que coloca em ação as eletricidades negativa e
positiva, é a força da gravitação universal, é força que mantém a atração entre o
Sol e seus planetas, é o amor invisível de Deus que une os seres humanos. É a
Vida invisível que faz desabrochar as flores de cores variadas. O Espírito é
invisível justamente por ser onipresente. Tudo quanto vemos é a concretização do
Espírito. Por trás de todas coisas existe a força superior que as criou cada qual
com a forma própria e as mantém em seus respectivos estados. Diante desta
afirmação, o leitor certamente compreenderá que o Espírito é a força superior que
existe no âmago de tudo, transcendendo a força da matéria e do homem. E essa
força superior é de natureza mental. Ela já existia antes mesmo do surgimento do
Universo físico – portanto só pode ser força de natureza mental e não de natureza
física. Podemos, pois, dizer que o Espírito é força cognitiva, é mente que raciocina,
é Vida que detém o poder de criar. Por conseguinte, podemos também dizer que o
princípio da Vida, que confere força vital a plantas e animais e promove o seu
crescimento, é a corrente da sagrada Vida imanente no Universo. Essa corrente da
Vida é o próprio Espírito, é a própria mente do Universo.

O Universo está vivo.

Nele sentimos a pulsação de Deus.

Nele sentimos a respiração de Deus.

O que sustenta este mundo é a mente dotada de sensibilidade.

Alma do mundo é Deus.

Todos os fenômenos da Natureza são manifestações da Vida.

Na seiva que flui no tronco da videira,

Nas células germinadores que existem nos grãos,


92

Nos botões de flores que brotam nas ramagens,

Pulsa vigorosamente a Vida de Deus.

O Espírito é um e é onipresente

Vivemos no Universo vivo, onde a Vida pulsa incessantemente. Este Universo


foi criado pelo Espírito único que rege a criação. A Vida latente nas rochas, a Vida
que flui nas plantas, a Vida que pulsa no homem e nos outros seres vivos – toda
forma de Vida provém de uma única fonte; portanto, tudo e todos são
fundamentalmente uma só Vida. Se a base que sustenta todas as existências reais
não fosse uma só, nós, seres vivos, teríamos de viver em mundo caótico onde
agiriam separadamente e a esmo diversas forças contraditórias. E, se os seres
vivos tivessem surgido de origens completamente diferentes, não seria possível
nenhum entendimento entre eles e teriam de viver em eterna desarmonia. E não
haveria, também, nenhuma interação entre os átomos e a matéria, não haveria
princípios de fissão e fusão, e os átomos se manteriam “isolados” uns dos outros.
Mas as pesquisas científicas da era moderna tornaram claro que os átomos agem
segundo o princípio da fissão e da fusão, interagindo de modo harmonioso, e que a
estrutura molecular das microscópicas partículas materiais é idêntica a do
gigantesco sistema solar. Este fato comprova que a “essência que constitui a base
do Universo” – o Espírito – é uma só.

Espírito é amor

O Espírito do Universo é Vida onipresente, e é também amor, pois as leis da


Natureza por ele criadas são generosas e podemos aproveitá-las em nosso
benefício. O fogo nos beneficia proporcionando-nos calor e possibilitando-nos
preparar nossa comida. O Sol, generoso, dá-nos luz, calor e Vida. A eletricidade é
nossa aliada e nos proporciona luz, calor e força motriz. Há casos em que o fogo
destrói casas, o Sol mata as pessoas com seu calor abrasador, e a eletricidade
fulmina as pessoas. Isso ocorre quando o ser humano contraria as leis da
Natureza (ou seja, as leis que regem a ação do Espírito do Universo). Portanto,
93

podemos dizer que o Espírito, isto é, a força do Universo, é basicamente força do


amor. Contanto que não transgrida as leis da Natureza, o Espírito beneficia todas
as pessoas fazendo nascer o Sol sobre bons e maus e mandando a chuva sobre
justos e injustos. Ele é o bom pastor; é o sábio conselheiro; é o nosso Pai eterno.
O nosso pensamento iluminador não conflita com as ciências naturais, pois as
ciências naturais descobrem as leis que regem as ações do Espírito do Universo e
contribuem para que possamos desfrutar as dádivas generosas provenientes Dele.

O Espírito é sabedoria

O Espírito está dentro de nós, constituindo a sagrada força vital, e nos guia
em todas as circunstâncias. Ele é nosso pastor, e quando buscamos sua
orientação, nos conduz a verdes pastos e a águas tranquilas. Recebendo do
Espírito a sabedoria, podemos descobrir novas e maravilhosas leis do mundo
natural, bem como ter idéias para novos inventos e, assim, desfrutar da mais
ampla vida.

O Espírito é, portanto, Vida que nos vivifica, amor que nos consola, sabedoria
que nos orienta. O imenso amor do Universo, manifestando-se em nós através da
estrutura cósmica, pulsa em nosso coração. Assim, vivemos envoltos pelo sagrado
amor de Deus, que nos acalenta em Seu colo e jamais nos abandona.

Mentalização para captar a admirável sabedoria de Kannon (Kanzeon


Bosatsu), a deusa da misericórdia.

Quem quiser visualizar o poder de Kanzeon Bosatsu durante a meditação


deve mentalizar como segue:

Neste momento, contemplo este mundo em que vivo como sendo


manifestação da admirável sabedoria de Kannon.

As estrelas que cintilam no céu são os olhos de Kanzeon Bosatsu que zela
por mim. O vento que sussurra entre as copas das árvores, o murmúrio das águas
dos riachos, esses e outros sons da Natureza são palavras que Kanzeon Bosatsu
94

usa para se comunicar comigo. Todas as forças da Natureza manifestam-se para


me vivificar. O mundo em que vivo não é um mundo desconhecido para mim. Eu
compreendo este mundo, e ele me compreende. Por isso, nada tenho a temer.
Nesse momento abasteço-me na fonte da força imanente no Universo. Estou em
perfeita sintonia com todas as forças do Universo e sigo pelos caminhos tranquilos
orientado pelo amor e pela sabedoria do próprio Universo. Na Sutra de Kannon
está assim escrito; “Mesmo quando fores cercados por malfeitores prestes a te
atacar brandindo as espadas, se mentalizares os poderes de Kanzeon Bosatsu,
brotará misericórdia no coração deles; mesmo que alguém tente envenenar-te, se
mentalizares os poderes de Kanzeon, o veneno se voltará contra essa pessoa;
mesmo que sejas acuado por uma fera e te vires na iminência se ser atacado por
terríveis garras, se mentalizares os poderes de Kanzeon, a fera se afastará e,
rapidamente, tomará outro rumo”. Kanzeon Bosatsu é a sabedoria que purifica o
Universo e é a grande misericórdia que protege todas as coisas do Universo.
Como sigo ao lado de Kanzeon-Bosatsu, não deparo com nenhuma força que se
oponha a mim. Com sua grande misericórdia, Kanzeon me ama, me orienta e me
infunde nova força vital. A admirável sabedoria de Kanzeon está presente em
todos os seres e em todas as coisas. Por isso, tudo e todos neste mundo estão em
perfeita harmonia.

TANIGUCHI. M. O pensamento iluminador e as ciências naturais. In: Pomba


Branca – A Revista da Mulher Feliz. Ano: XXVIII, nº. 332, março, 2013, pp. 4-7.

Ao examinarmos dezenas de revistas, constatamos a seguinte diagramação:

- nas folhas pares, do lado esquerdo, há em cima, à esquerda, um ideograma dentro


de um semicírculo, ao seu lado há a identificação do nome da seção em itálico (em
cada exemplar, as cores variam) que possui um traço horizontal em toda sua
extensão. Logo abaixo, quando se trata da seção artigo, há uma foto de rosto do
autor, em uma moldura redonda ou quadrada. Do lado direito do retrato, está o título
do artigo, em itálico, com fontes maiores e coloridas e, abaixo, no centro das folhas,
95

estão os textos formatados em colunas. No rodapé, à esquerda, estão o número dá


pagina, o nome da revista, o mês e o ano.

- nas folhas ímpares, do lado direito, em cima, há o nome da seção, sublinhado, à


direita. Está no rodapé, à direita, uma frase que contém um ensinamento como, por
exemplo, O que me amarra é a minha própria mente, e, ao seu lado, há o número da
página.

Em dezenas de revistas examinadas, ao analisarmos a seção, encontramos:


na primeira página, a foto de rosto, de Masaharu Taniguchi, idoso, grisalho, calvo na
fronte e, aparentemente, com um kimono preto. Ao lado do retrato, o título e, abaixo,
o texto. Na próxima página, localizada no rodapé, à direita, está uma frase que
contém um ensinamento como, por exemplo, O que me amarra é a minha própria
mente.

Sobre a diagramação da coluna escolhida, de acordo com Silva (1985),


quando recebemos uma comunicação escrita, nossa visão se fixa no lado superior, à
esquerda do papel, instintivamente, pois fomos condicionados a isso, devido à
escrita ocidental começar sempre por esse lado.
96

Diferentemente da escrita japonesa, antes de se ler textos em japonês, é


preciso conhecer o estilo de escrita e ter indicações de onde começa e termina o
texto. Há o estilo de escrita vertical, que é a forma mais tradicional, em que os textos
são escritos em colunas, lidos de cima para baixo e da direita para a esquerda,
conforme vemos na figura abaixo:

Figura extraída do site:


<http://www.linguajaponesa.com.br/estilos-de-
escrita-japonesa.html>. Acessado em
05.02.2013.

Devido à tecnologia e à influência do ocidente, esse estilo, aos poucos, está


deixando de ser utilizado.

Nesse sentido, em textos de língua portuguesa, principalmente, em jornal ou


revista, Silva (op.cit., p. 47) afirma que é possível identificar o que ele chama de
zonas de visualização, pois:

assim como a visão, instintivamente, se desloca com


rapidez em diagonal para o lado inferior oposto, a rota
básica da vista se projeta do lado superior esquerdo para
o lado inferior direito. Para isso o diagramador terá o
cuidado de preencher as zonas mortas e o centro ótico da
página com aspectos atrativos para que a leitura se torne
ordenada, com racionalidade, sem o deslocamento brutal
da visão. [...] É importante lembrar que o centro ótico ou o
97

centro real de qualquer peça impressa está situado um


pouco acima do centro geométrico, quando do
cruzamento das diagonais. A altura do centro ótico varia
de acordo com a dimensão da página, dependendo da
relação entre a largura e a altura.

A figura abaixo ilustra essa organização:

Zonas de visualização da página (SILVA,1985, p. 49).

1. Principal ou primária;

2. Secundária;

3. Morta;

4. Morta;

5. Centro ótico;

6. Centro geométrico.

Na zona primária, segundo Silva (1985), tem que haver um elemento forte -
um texto, uma foto, um título grande - para que atraia a atenção e o interesse dos
leitores. A diagramação deve preencher os espaços mortos com elementos de
grande atração visual, a fim de proporcionar e conduzir a leitura de forma confortável
e, ao mesmo tempo, rápida.
98

Essa diagramação não está presente nos volumes de onde foram extraídos
os textos, no entanto, está em toda a revista e na seção Artigo do Mestre Masaharu
Taniguchi.

3.2 Procedimentos Metodológicos

Para analisarmos os artigos escolhidos nesta pesquisa, em uma perspectiva


discursiva, cumprimos o seguinte procedimento:

- em um primeiro momento, para termos uma visão geral do discurso, fizemos


algumas leituras nos textos, para, em seguida, levantarmos as condições de
produção do discurso como: circunstâncias enunciativas (tempo/quando e
espaço/onde) e o contexto sócio-histórico de produção;

- em um segundo momento, observamos o gênero, as encenações, a relação


autor/escritor e enunciador bem como as intencionalidades, os estranhamentos e os
embates construídos no interior do discurso. Foram feitos o levantamento dos
interdiscursos e uma listagem de possíveis efeitos de sentidos gerados no/do texto.

Levantamos, ainda, nessa fase, as pistas propostas pelo sujeito-enunciador,


observando as opções interpretativas, decorrentes do posicionamento do sujeito, e
identificamos o tom do enunciador e dos outros sujeitos que se posicionam nos
artigos. O léxico e as construções linguísticas foram analisados com o objetivo de
caracterizar a instância do sujeito, as suas intencionalidades e a sua forma de
buscar a adesão, por parte do co-enunciador;

- em uma terceira leitura, relacionamos os efeitos de sentido construídos com uma


visão social e não individual, considerando o conhecimento prévio e as previsões;

- após essas etapas, avaliamos o resultado da análise e produzimos a redação final.

3.3 Análise

Aplicaremos os seguintes princípios da AD, sob a perspectiva francófona: o


interdiscurso, o ethos discursivo e a cenografia, por serem eficientes para nossa
99

proposta de compreender como os discursos selecionados se manifestam, orientam


e geram sentidos. Ressaltamos, ainda, que não fizemos nenhuma análise sob o
ponto de vista jornalístico, no entanto, para compreendermos os efeitos de sentidos,
recorremos aos estudos sobre o gênero artigo de revista e sobre a diagramação.

3.3.1 Interdiscursividade

Examinaremos, a seguir, a relação interdiscursiva que constrói os efeitos de


sentido do discurso, ou seja, os atravessamentos e a ideologia na voz do
enunciador, pois devemos olhar para o espaço discursivo (espaço de trocas) e, para
atingir nosso objetivo, escolhemos e pusemos em relação às formações discursivas
(posicionamentos) para podermos compreender os discursos selecionados.

Nesse âmbito, para procedermos à análise do corpus, entramos no universo


discursivo pelo campo do discurso pedagógico. O espaço discursivo será o discurso
da coluna Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi, publicado na revista Pomba
Branca, pois se trata de uma prática discursiva, na SNI, com as seguintes condições
de produção: os discursos são recortados de obras do fundador e inseridos nessa
coluna. São editados muitos exemplares da revista, que são direcionados,
especialmente, às mulheres que, hoje, têm ocupado espaços que, tempos atrás,
jamais poderiam ocupar e que, também, participam mais ativamente da sociedade.

Além disso, os ensinamentos veiculados, em O pecado não existe e em O


pensamento iluminador e as ciências naturais, por serem de autoria do fundador, de
uma forma ou de outra, influenciam o co-enunciador que, por meio dos discursos
recortados de obras, das décadas de 1940/1950, e inseridos nas revistas de 2012 e
2013, recebe as mensagens como se fossem atuais.

Assim sendo, consideradas as condições de produção, analisamos os


discursos utilizados pelo enunciador para obter a adesão dos co-enunciadores, por
meio dos recortes abaixo que recorrem aos discursos religioso, científico e
pedagógico, articulando-os como interdiscurso, para legitimar o posicionamento do
enunciador. Nota-se, então:
100

Interdiscursividade com o campo religioso – unidades não tópicas ou


discursos paratópicos.

Ao usar discursos desse campo, o enunciador evidencia uma das


características da SNI: o sincretismo religioso. Apesar desses discursos não terem
sido produzidos, exclusivamente, para a revista Pomba Branca, acreditamos que
eles se adaptem a esse suporte e a esse público, devido aos atravessamentos que
acessam a memória discursiva religiosa. Como veremos, a seguir:

• Marcas do Budismo:

Quem quiser visualizar o poder de Kanzeon Bosatsu34 durante a meditação deve


mentalizar como segue (O pensamento iluminador e as ciências naturais).

35
Conforme Carlos Alberto Silva , Kanzeon Bosatsu, conhecida, ainda,
por Kannon, é uma das divindades do budismo que simboliza o que Nossa Senhora
representa para os fieis do catolicismo: o espírito que orienta a Igreja Católica
Apostólica Romana.

• Marcas do discurso cristão:

                                                            
34
Taniguchi, na Sutra em 30 capítulos, menciona que cada religião dá um nome diferente ao Salvador (Cristo,
Buda etc.), porém todos eles são a grande manifestação do amor de Deus. E acrescenta: Todos eles são,
portanto Kanzeon Bosatsu, e todas as religiões são uma só. Rendo o meu louvor a Kanzeon Bosatsu, que é a
divindade padroeira da Seicho-No-Ie (TANIGUCHI, 2001, pp.19-22). 
35
Preletor da sede internacional e presidente da Associação dos Jovens, SNI. In:
<http://carlosalbertodasilvasni.blogspot.com.br/2010/04/kanzeon-bosatsu-deusa-da-misericordia.html>. Acessado
em 10.7.2013.
101

Discurso cristão

O Pecado não existe O pensamento iluminador e as


ciências naturais

Orou, Senhor, padre, cruz, igreja, Deus, Espírito, Vida, onipresente,


religião, Deus, culpa, punição de alma, Criação, Pai eterno, sagrado e
Deus, Cristo, pecados, religiosos, amor.
divina, pecador, Evangelho, castigar,
filho de Deus e espírito.

• Marcas do discurso bíblico:

Discurso bíblico36

O pecado não existe O pensamento iluminador e as


ciências naturais

Em João 1:1: No princípio era aquele Em Mateus 5:45: Dessa forma vocês
que é a Palavra, e ele estava com Deus estarão agindo como verdadeiros filhos
e era Deus. Ele estava com Deus no do seu Pai que está no nos céus.
princípio. Porque ele envia a luz do sol tanto sobre
os maus como sobre os bons, e derrama
a chuva sobre os justos e sobre os
Cristo nos ensina o seguinte no injustos.
Evangelho de João: “No princípio era o
Verbo (Palavra) e o Verbo estava com
Deus e o Verbo era Deus. Todas as [...] fazendo nascer o Sol sobre bons e
coisas foram feitas por ele, e nada do maus e mandando chuva sobre justos e
que foi feito se fez sem ele”. injustos.

Em Salmos 23, versículos 1,2: Senhor


é o meu pastor. Ele me dá tudo de que
preciso. Ele me leva aos pastos de
grama verde e macia para descansar.
Quando sinto sente, ele me leva para os
riachos de águas mansas.

                                                            
36
As referências bíblicas foram extraídas de: Nova Bíblia Viva - São Paulo: Mundo Cristão, 2010.
102

Ele é o bom Pastor que nos conduz a


verdes pastos e a águas tranquilas.

Em 1 João 4:8 : Mas se alguém não


ama demonstra que conhece a Deus,
porque Deus é amor.

No que se refere ao discurso bíblico em O Pecado não existe, o enunciador


menciona a fonte de onde extraiu o texto, acessando pela memória discursiva de
que se trata de um discurso cristão. No que diz respeito a esse discurso em O
pensamento iluminador e as ciências naturais, o enunciador se apropria dos
discursos de Mateus, de João e dos Salmos 23, adapta-os a sua formação
discursiva, todavia, o co-enunciador consegue recuperá-los no interdiscurso, pela
memória discursiva.

Notamos que o enunciador busca nesses discursos do campo religioso o que


quer ensinar: devemos obedecer a Deus, porque ele é bom e, também, para mostrar
sua formação discursiva (posicionamento) de educador e a da instituição a que ele
se filia, para poder conseguir a adesão do co-enunciador.

Além disso, por meio desses discursos, o co-enunciador tem sua crença
acionada e, esta, serve como uma espécie de ponte, que irá levá-lo a confiar e, por
conseguinte, a acreditar no que está sendo ensinado pelo enunciador:

Campo religioso crença cristã (co-enunciador) acreditar nos ensinamentos


103

Interdiscursividade com o campo científico (unidades não tópicas ou discursos


paratópicos).

O enunciador utiliza, ainda, discursos desse campo para validar seu dizer e
para construir uma imagem favorável de si, como detentor de muitos conhecimentos,
conforme vemos a seguir:

Discurso da ciência

O pecado não existe O pensamento iluminador e as ciências


naturais

Marcas da medicina Marcas da biologia

O dr. Karl A. Menninger, em seu livro O [...] Confere força vital às plantas e
Homem Contra Si Mesmo, destaca os animais [...].
efeitos da autopunição, atribuindo
inclusive a causa das guerras ao desejo
inconsciente de autopunição.
Células germinadores que existem nos
Marcas do jurídico grãos

Segundo o comentário de um juiz, Se os seres vivos tivessem surgido de


aquele que foi preso e condenado várias origens, completamente, diferentes [...].
vezes por reincidência [...].

Marcas da Física

As pesquisas científicas da era moderna


tornaram claro os princípios de fissão e
de fusão [...].

Não haveria princípios de fissão e de


fusão e os átomos se manteriam
isolados.

Estrutura molecular de partículas


materiais
104

Interdiscursividade com o campo pedagógico

Ao utilizar o discurso pedagógico, o enunciador acessa na memória discursiva a


obediência e o respeito a quem ensina. Ao integrar esse interdiscurso, ele valida o
papel de mestre, de professor, bem como a sua autoridade, como veremos a seguir:

• Marcas do pedagógico

Discurso pedagógico

O pecado não existe O pensamento iluminador e as ciências


naturais

Cristo nos ensina o seguinte no Quem quiser visualizar o poder de


Evangelho Segundo João Kanzeon Bosatsu durante a meditação
deve mentalizar como se segue
Se você praticou uma maldade, foi
simplesmente porque você teve
“professores” maus. Você teve como
“professores” os criminosos e malandros
e agiu obedecendo fielmente ao que
eles mandaram.

Nessas distintas manifestações da discursividade, verificamos a importância


da presença da interdiscursividade com os campos religioso, científico e pedagógico
para a constituição da identidade do enunciador e para a adesão do co-enunciador.
Ao usar o discurso do Outro, o enunciador o faz de um modo, que pode ser visto na
materialidade discursiva, caracterizando a heterogeneidade mostrada, conforme
vimos.

Desse modo, o discurso da SNI, para ter existência, precisa dialogar com
outros discursos, não estando, portanto, isolado. Confirmamos, assim, a hipótese do
primado do interdiscurso, pois, esses discursos, podem ser vistos como um conjunto
de discursos que mantém uma relação discursiva entre si e que estão relacionados
105

à memória do coletivo, por ser o espaço no qual os sujeitos estão inscritos e o


discurso funciona.

Assim, como vimos, um discurso se relaciona com um discurso Outro e,


quando o identificamos (heterogeneidade mostrada) no espaço discursivo, ele
delimita o seu discurso e o discurso do Outro. Porém, verificar apenas essa relação,
seria ingênuo, já que os discursos se constituem na interdiscursividade, que não é
tão evidente, por se imbricar no discurso (heterogeneidade constitutiva), e, conforme
Maingueneau, (2011, p.31) amarra, em uma relação inextricável, O Mesmo do
discurso e seu Outro.

Em relação ao discurso de O pecado não existe, fizemos os seguintes


recortes para mostrarmos a imbricação com o campo feminino:

A palavra é criadora. Por isso, se ficarmos constantemente falando que o pecado


existe, ele jamais poderá ser extinguido. Por exemplo, se todo mundo se dirigir a
um ex-presidiário que já cumpriu sua pena e lhe disser: “você é um criminoso, é
um mau elemento, é um pecador...”, ele nunca poderá regenerar-se. Terá
dificuldades para conseguir emprego, e não lhe restará outra alternativa senão a
voltar à prática do crime.

Há anos, li sobre o caso de um menino chamado Eddie, assaltante de oito anos


de idade, recolhido na “Cidade das Crianças” dirigida pelo padre Flannagan.
Como não podia permanecer preso por ser menor de idade, foi levado para essa
“cidade de recuperação”.

Esses discursos são utilizados, pelo enunciador, para elucidar as explanações


acerca do poder do pensamento negativo sobre o destino das pessoas. Porém,
apesar de a revista ser dirigida para mulheres, percebemos que o discurso presente
na coluna Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi não é feminino.
106

Essa forma de explicar, no entanto, pode acessar a memória discursiva


feminina do co-enunciador que, no papel feminino, sabe que muitas mulheres
(mães) procuram as religiões para resolver problemas com os filhos, com os maridos
e, ao se deparar com essas situações, estabelece-se um diálogo entre os
coenunciadores, facilitando, dessa forma, o ensino e a aprendizagem, por meio de
exemplificações.

Essa maneira de ‘ensinar’ acessa essa memória do co-enunciador que pode


relacionar o ex-presidiário ou o menino assaltante de 8 anos a um marido ou a um
filho, por exemplo, pois tanto a criminalidade quanto a deliquência juvenil estão
presentes na sociedade e nos lares.

Além de promover essas associações, por meio do uso dos pronomes


pessoais Eu e Nós, o enunciador se aproxima do co-enunciador. Ao usar o plural,
ele dá a entender que ambos sabem a influência das palavras na vida das pessoas:

A palavra é criadora. Por isso, se ficarmos constantemente falando que o pecado


existe, ele jamais poderá ser extinguido.

Ao usá-lo no singular, o enunciador compartilha sua experiência sobre o


assunto e faz com que o co-enunciador associe-a a um outro fato ou a uma outra
pessoa:

Há anos, li sobre o caso de um menino chamado Eddie, assaltante de oito anos de


idade, recolhido na “Cidade das Crianças”.

Portanto, essa identificação faz com que o co-enunciador se aproxime mais


do discurso e tenha a impressão de estar vendo sua vida diante de seus olhos.

A aproximação, por meio da religião, é, também, identificada no discurso de O


pecado não existe, quando o enunciador narra a história de um homem que ficou
107

cego ao se lembrar de que quando era criança tinha acertado, com uma pedra, a
estátua de Cristo, conforme vemos no recorte abaixo:

Deus, que é amor, jamais iria castigar um homem e torná-lo cego só porque uma
pedra acertou casualmente a estátua de Cristo quando ele, na infância,
simplesmente, brincava de jogar pedras. O fato de ele ter ficado cego não se deve a
uma punição de Deus; deve-se à sua própria convicção de pecador e à sua ideia de
punição segundo a qual o pecador deve pagar os seus pecados através de
sofrimento e infelicidades.

Essa história remete o co-enunciador à expressão religiosa ‘jogar pedra cruz’


que, popularmente, é usada quando a situação não está boa ou como sendo a
causa/o motivo pelo qual surgem problemas na vida de uma pessoa e ao discurso
bíblico, presente em João, capítulo 8, versículo 8, que narra a história de uma
mulher que adulterou e foi levada, pelos fariseus e pelos mestres da lei, para ser
apedrejada. Jesus Cristo, ao ser consultado pela multidão sobre a lei de Moisés, diz
“quem de vocês estiver sem pecado, que seja o primeiro a atirar uma pedra nela”.

Diante dessa circunstância, o enunciador acessa, na memória do co-


enunciador, o sentido do ato de jogar pedra (ser pecador), e, por conseguinte, a
consequência desse ato (ser punido, castigado). Assim, há a interação entre o
enunciador (aquele que ensina) e co-enunciador (aquele que aprende) e surge a
oportunidade de serem apresentados os ensinamentos da SNI.

Vemos essa ideia de castigo, de punição, nos seguintes recortes de O


pensamento iluminador e as ciências naturais:

Há casos em que o fogo destrói casas, o Sol mata as pessoas com seu calor
abrasador [...]. Isso ocorre quando o ser humano contraria as Leis da Natureza.
108

Portanto, podemos dizer que o espírito, isto é, a força do Universo [...] é a força do
amor. Contanto que não se transgrida as leis da Natureza, o espírito beneficia todas
as pessoas, fazendo nascer o sol sobre os bons e maus e mandando a chuva sobre
justos e injustos. Ele é o bom pastor, é o sábio conselheiro, é o nosso Pai eterno.

Como sigo ao lado de Kanzeon- Bosatsu, não deparo com nenhuma força que se
oponha a mim.

Nesses recortes, vemos, novamente, o enunciador acessar a memória do co-


enunciador para reforçar as ideias de que transgredir, contrariar, não traz benefícios
e que obedecer é estar protegido e é ser merecedor dos benefícios divinos. O co-
enunciador é induzido a perceber que o sofrimento não é castigo de Deus, mas a
consequência de suas ações ou o resultado de atitudes de outras pessoas, pois
Deus não castiga.

Notamos, assim, que o enunciador pretende ensinar um modo correto de agir


e que a obediência é o melhor caminho para ser merecedor de algo. Nesse papel de
mestre, de professor, ele utiliza como estratégia para a aprendizagem, diversas
experiências que a sociedade, na qual vivemos, oferece e que fazem sentido para o
co-enunciador, para que, dessa forma, a aprendizagem ocorra.

O enunciador consegue atingir seu objetivo: ensinar/doutrinar, quando o co-


enunciador faz associações com o que está sendo enunciado, ou seja, quando faz
sentido o que está sendo enunciado. Sabemos que, da mesma forma, os
professores apresentam, em sala de aula, exemplos, do cotidiano ou de outras
áreas do conhecimento, para poderem atrair o aluno e, assim, conseguirem ensinar
o que está sendo proposto.

Diante desse cenário, o enunciador se utiliza desse recurso para propagar


seus ensinamentos, pois ele traz, para seu discurso pedagógico, os discursos
científico, religioso, entre outros, além de acontecimentos do dia a dia, como: o
menino que brinca de jogar pedras, o caso do ex-presidiário que não consegue se
regenerar, o juiz que condena, os fenômenos da natureza, as leis da física etc. Tais
109

ilustrações podem ser usadas, em qualquer momento sócio-histórico, a fim de


colaborar com o processo ensino-aprendizagem.

Notamos, ainda, que o Mesmo se constitui no Outro para ensinar o correto


modo de viver da SNI - obedecer aos ensinamentos do mestre - construindo, dessa
forma o simulacro. Os discursos selecionados vão ao encontro da ideologia
dominante cristã: obedecer é melhor, quem desobedece é punido, é castigado.

Nesse sentido, devido ao ensinamento de submissão do sujeito e aos


atravessamentos, o discurso da SNI propicia que haja a manipulação por meio de
uma autoridade que é construída pelo enunciador. Esse discurso pode ser visto,
portanto, como uma forma de controlar os instintos do homem e de anulá-los, em
outras palavras, o sujeito permite ser comandado, pois, é ensinado que ao fazer
suas vontades, elas prejudicarão a si próprio e/ou ao outro. O co-enunciador, então,
não reflete sobre a palavra, mas reflete em si as palavras do enunciador, como um
espelho ou uma repetição.

3.3.2 A cenografia e o ethos discursivo

Os textos da coluna são considerados, por nós, como o rastro deixado por um
discurso em que a fala é encenada (MAINGUENEAU, 2011, p.85) e o discurso,
como sendo composto por três cenas: a englobante, a genérica e a cenografia.

Com base nisso, veremos o modo como os discursos instauram a cenografia


que, por sua vez, possibilita o desvelamento do ethos discursivo e observaremos a
forma como as ações se desenvolvem nela, tendo em vista que o enunciador tem o
objetivo pedagógico de ensinar um novo modo de vida ao co-enunciador.

Nesse âmbito, o discurso analisado se coloca em cena, constrói seu espaço


de enunciação e é recebido pelo co-enunciador como sendo do tipo filosófico (cena
englobante). Essa cena desempenha, metaforicamente, conforme Cano (2012, p.63)
a função de um portal de entrada para o interdiscurso que a cena propicia, pois
devido à dificuldade de apreender o interdiscurso, em sua dispersão, essa cena nos
ajuda apreendê-lo e colabora, também, na identificação dos papéis dos
coenunciadores e dos gêneros.
110

Dessa forma, o gênero de discurso artigo de revista instaura, por sua vez,
uma cena genérica que impõe papéis, socialmente, legitimados, pois eles
evidenciam posicionamentos e imagens que são determinados pelo campo no qual
se desenvolve o discurso. Nesta análise, por exemplo, o gênero artigo, no interior de
campo filosófico, traz papéis para quem o produz (defender uma opinião) e para
quem o lê (concordar ou discordar do ponto de vista).

Diante desse quadro, à primeira vista, nosso objeto de análise pertence ao


gênero artigo e foi produzido para a revista, mas, como vimos, foram os editores da
revista que selecionaram os textos de obras de Masaharu Taniguchi e os publicaram
como se fossem artigos, como vimos em:

Textos Extraídos de:

O pecado não existe Lições para o cotidiano: obra que contém transcrições de
palestras radiofônicas.

O pensamento iluminador Comande sua vida com o poder da mente: obra


e as ciências naturais organizada para que o leitor pratique mentalizações por
trinta dias para conseguir concluir o treinamento básico de
Meditação Shinsokan.

Devido a essa coluna ter o formato, ‘a moldura’ de artigo de revista, os


editores têm liberdade para selecionarem discursos que se adaptem a essa
estrutura e manipularem de forma criativa com essa cena, conseguindo, assim,
avançar para uma cenografia de aula, sem deixar de lado o objetivo do artigo que é
o de expressar uma opinião.

O co-enunciador, dessa forma, está diante de opiniões, no papel de aceitá-las


ou não, e está diante de uma aula, de uma palestra, no papel de aluno, aprendiz,
para aceitar o que está sendo ministrado. Os coenunciadores, portanto, são
inseridos não apenas dentro de um cenário, mas, no lugar de onde o discurso surge,
a cenografia.
111

Portanto, a cenografia de aula e a cena validada: ‘quem desobedece é


castigado’, remetem-nos a um lugar (topografia) e a um tempo discursivo
(cronografia). Esses elementos espaço-temporais fazem parte do quadro cênico e
compõem a cenografia que não se trata de um cenário de onde ocorre a
enunciação, mas da própria enunciação que se constitui e se desenvolve em si
mesma. Portanto, os textos, da coluna analisada, não servem de um simples ‘pano
de fundo’ para o que está sendo enunciado, mas colaboram para a construção dos
sentidos.

Consequentemente, da cenografia, em análise, depreendemos que o efeito


de sentido construído é de uma aula, de palestra, na qual o co-enunciador assume o
papel de aprendiz e o enunciador, o papel de mestre, de professor.

Isso se dá, pois o enunciador oferece elementos para que o co-enunciador


construa e assuma esse papel na cenografia e para que ocorra, assim, a adesão,
pois este assume as características de discente, como já vimos em O pensamento
iluminador e as Ciências Naturais, no qual o co-enunciador se depara com a
indagação O que é Espírito? que aguça a curiosidade do co-enunciador, para que,
assim, preste ‘atenção à aula’.

Nesse sentido, com o intuito de ‘prender’ a atenção do co-enunciador (aluna),


são apresentadas, como vimos, anteriormente, várias definições para espírito para
que, uma delas, esteja de acordo com as expectativas do co-enunciador para, dessa
forma, criar-se um vínculo, uma conexão.

Nesse artigo, ainda, o co-enunciador é orientado a praticar uma mentalização


para captar a sabedoria da deusa da misericórdia (Kannon), como se fosse “uma
lição de casa” para assimilar o conteúdo transmitido:

Quem quiser visualizar o poder de Kanzeon Bosatsu durante a meditação deve


mentalizar como se segue [...].

Em O Pecado não existe, o enunciador, estrategicamente, para enfatizar a


cenografia e para chamar a atenção do co-enunciador, de modo que ele assuma o
112

papel de aprendiz, apresenta o tema de “sua aula” com uma afirmação polêmica: O
pecado não existe.

A curiosidade do “aprendiz” é acionada, já que ele traz a idéia de que o


pecado existe e relaciona pecado a castigo, à punição, pois aprendeu que são
consequências da desobediência ou de uma atitude que contrarie os ensinamentos
religiosos, a Deus. O enunciador, para conseguir a aproximação do co-enunciador,
confirma essa relação, relatando os seguintes casos:

• O menino que brincava de jogar pedras e, acidentalmente, danificou uma


imagem de Cristo e quando adulto, ao ver a luz do sol da tarde refletida cruz
da torre de uma igreja, lembrou-se daquele incidente e a ideia de que era
pecador, por ter quebrado aquela imagem na infância, e que estava oculta em
seu subconsciente, veio à tona, deixando-o cego. (...) Se fosse eliminada de
sua mente a convicção de pecador, os seus olhos seriam curados.

• O menino Eddie, de oito anos que era delinquente e, por isso, era sempre
“castigado”. Por se julgar desobediente, seria natural ser punido, todavia, ao
se conscientizar de que não era pecador, regenerou-se e as punições não
foram mais necessárias.

Verificamos, assim, que a crença de que ‘sou castigado por ser


pecador/desobediente’ é acionada para que o co-enunciador participe da cenografia,
preste atenção ao que está sendo explicado. Isso ocorre, também, em O
pensamento iluminador e as ciências naturais quando o enunciador afirma que:

[...] o Sol mata com seu calor abrasador e a eletricidade fulmina as pessoas,
quando o ser humano contraria as leis da natureza.
113

Ele explica, ainda, que se as leis não forem transgredidas, o Espírito beneficia
todas as pessoas, ou seja, o enunciador ensina que ser obediente vale à pena,
reforçando a ideia propagada em todos os setores da sociedade, inclusive nas
religiões.

Dessa forma, o enunciador, por meio da cenografia, ensina o “caminho para a


liberdade”, ou melhor, que não há pecado e, por isso, não é preciso a punição, o
sofrimento. Todavia, para conseguir se libertar dos infortúnios é preciso “estar
preso”, é preciso obedecer aos ensinamentos. A cenografia, portanto, apoia-se na
seguinte cena validada, que facilita a interação entre os coenunciadores: quem
desobedece deve ser punido, castigado.

Portanto, a diluição da ideia de pecado impregnada na humanidade, é um dos


objetivos da SNI, pois, segundo os ensinamentos, as religiões ensinam, exatamente,
o oposto, ou seja, que todos são pecadores. Todavia, o estereótipo religioso de
obediência é mantido, conforme vemos em:

O pecado não existe O pensamento iluminador e as


ciências naturais

Se consegue obedecer fielmente Contanto que não se transgrida as


até aos malfeitores, é porque você leis da Natureza, o Espírito beneficia
é muito obediente. Portanto, basta todas as pessoas.
você trocar de professor. Se tiver
um bom professor, você só terá
que ser bom, pois é obediente.

O sincretismo religioso, marca da SNI, enquadra-se em uma estratégia do


enunciador, pois são utilizados ensinamentos de várias religiões, porém, com uma
“roupagem” diferente, para, assim, ocorrer uma aproximação do co-enunciador:
114

Religiões - afirmações SNI –faz a mesma afirmação,


porém, de outra forma.

Se você desobedecer será Se você obedecer será


castigado. beneficiado.

Vemos essa ideia, por exemplo,


em Gênesis 3:3 Deus disse que
não podemos comer da fruta
daquela árvore, nem sequer tocá-
la, senão morreremos.

Você é pecador. Você não é pecador.


Vemos essa ideia em Lucas 11:4:
perdoe nossos pecados, porque
nós também perdoamos aqueles
que pecaram contra nós.

Deus está dentro de nós.


Deus está no céu.

Em Lucas 11: 1: Pai-Nosso que


estais no céu

O sincretismo se dá, também, quando o enunciador utiliza os seguintes


enunciados, na parte inferior, das páginas, no lado direito:

O pecado não existe O pensamento iluminador e as


ciências naturais

1 - O que me amarra é minha própria 2 - Renasça diariamente.


mente.
3 - Viva o amor de Deus agora.

No enunciado 1, o co-enunciador assume o papel de ser responsável, de ser


o agente da situações ruins em que vive, ou seja, ele se vê como alguém que faz as
115

escolhas erradas, além disso, há uma certa semelhança com a afirmação de Jó 3:25
o que eu tanto temia acabou me acontecendo.

Nos enunciados 2 e 3, o co-enunciador se depara com ordens, pois o verbo


está no modo imperativo, e, ao ser acionada e reforçada, em sua memória, a
importância de se obedecer para conseguir o melhor, o enunciador, toma a palavra e
com a sua autoridade (de quem sabe o que diz), dá ordens. O enunciado 2 pode ser
relacionado ao que João 3:5 diz para Nicodemos: se alguém não poder nascer de
novo, nunca poderá ver o Reino de Deus.

Além disso, o enunciador se inclui no discurso ao usar o pronome pessoal


nós, sugerindo que não seja, somente, ele que pense desse modo, mas todos que
fazem parte da SNI ou não, revelando, desse modo, a ideologia da instituição.

Esse uso proporciona uma maior aproximação com o co-enunciador, dando a


entender que ambos (enunciador e co-enunciador) estão aprendendo juntos acerca
da inexistência do pecado e que possuem o mesmo ponto de vista. Esse sentimento
de pertencimento a um grupo colabora para que o co-enunciador aceite o que está
sendo postulado, como vimos em:

O pecado não existe O pensamento iluminador e


as ciências naturais

Como vimos, quando homem Vivemos em um Universo vivo.


mantém o pensamento de que ele é
pecador, chega [...] a ferir a si
próprio.
[...] as leis da Natureza, por ele
criadas são generosas e podemos
aproveitá-las em nosso beneficio.
Por isso, se ficarmos
constantemente falando que o
pecado existe, ele jamais poderá ser
extinguido. O espírito está dentro de nós.

Ao co-enunciador, são apresentados, ainda, palavras generalizantes, que


podem se referir tanto a homens quanto a mulheres, como em:
116

O pecado não existe O pensamento iluminador e as


ciências naturais

muitas pessoas leitor

o homem tudo quanto vemos

ser humano quem quiser visualizar

mente humana

a humanidade

o leitor

E são feitas referências a situações comuns em qualquer época, ou seja,


atemporais como em:

O pecado não existe O pensamento iluminador e as


ciências naturais

deparar com malfeitores desabrochar das flores

delinquência infantil resultados de pesquisas cientificas


da era moderna
rejeição da sociedade a um ex-
presidiário fogo que destrói casas

aluno desobediente

O enunciador, no papel de quem ensina, lança mão desses recursos para se


aproximar do co-enunciador, no papel de aprendiz e para seu discurso se adaptar a
qualquer contexto histórico-social e alcançar, assim, um grande número de pessoas,
como, geralmente, os professores fazem: pesquisam o conteúdo, planejam e
elaboram a aula para transmiti-la a vários alunos e utilizam, muitas vezes, situações
do cotidiano como exemplos, a fim de tornar claro o conteúdo.
117

Notamos que o enunciador faz isso, de maneira semelhante, para que seja
visto no papel de professor conhecedor e bem atualizado sobre os acontecimentos
da sociedade.

Portanto, essa é a maneira pela qual o enunciador se apresenta ao co-


enunciador e organiza seu discurso, construindo cenas onde os atores
desempenham papéis sociais, que possibilitam a transmissão da ideologia da
instituição representada pelo enunciador.

Diante desse cenário, nessa análise, depreendemos que o espaço para


aprender os ensinamentos se dá no íntimo da pessoa (mudar a mente, o modo de
pensar), ou seja, a topografia é o interior do co-enunciador. Na cronografia,
observamos que o tempo de aprender é o da obediência ao que está sendo
ensinado, porque será essa submissão que trará resultados positivos. A cenografia
reforça, portanto, o efeito de sentido de que pelo próprio esforço, pela própria
dedicação consegue-se pôr em prática o que se ensina.

A cenografia, dessa forma, revela-nos o ethos discursivo com traços


estereotipados de um homem que pode falar como articulista e como um professor,
ou seja, profissionais que têm autoridade e seriedade e que, ainda, fazem parte de
campos, socialmente, legitimados, como o jornalístico e o pedagógico,
respectivamente. Comprovamos isso pelo próprio nome da coluna: Artigo do Mestre
Masaharu Taniguchi.

Além disso, esses campos estão atravessados pelos discursos religioso,


científico, pedagógico, jurídico, entre outros, que fazem parte do posicionamento do
enunciador ‘ensinamos a viver corretamente’, ao qual haverá ou não a adesão do
co-enunciador.

Baseando-nos no primado do interdiscurso, para identificarmos o ethos


discursivo, veremos suas características enunciativas que colaboram para traçarmos
um perfil do sujeito enunciador e de seu fiador. Segundo Maingueneau (2008 a,
2008 b, 2011), ethos se refere às características do sujeito enunciador que são
reveladas pelo seu modo de enunciar e não as que ele próprio atribui a si.

Sobre as características enunciativas, vimos que o discurso pedagógico


constitui o discurso da seção Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi, devido à sua
118

ideologia: transmitir conhecimentos para a formação de sujeitos, influenciando-os.


Essa transmissão se dá por meio de um especialista em um assunto que, com base
em sua diretriz orientadora, escolhe maneiras e métodos específicos para atingir seu
objetivo: ensinar.

Nesse âmbito, o ethos discursivo, da coluna analisada, aproxima-se do ethos


pedagógico, do ethos de professor, pois o enunciador se manifesta como aquele que
tem o conhecimento, a sabedoria sobre o que ensina. Percebemos essa
semelhança no artigo O pensamento iluminador e ciências naturais, quando o
enunciador começa seu discurso com uma indagação:

O que é Espírito?

Esse modo de iniciar uma explanação trata-se de uma estratégia muito


utilizada em sala de aula, pelos docentes, que formulam uma pergunta para os
alunos e ouvem suas respostas para, a partir daí, discorrerem sobre o assunto que
será estudado no dia.

Após esse questionamento, são apresentadas várias respostas, por meio de


uma longa explicação, repleta de informações complementares, para enriquecer
“sua aula” e, assim, atingir seu objetivo:

O que é espírito?

Deus é Espírito. E o espírito é É a Vida,


a origem de tudo, é a
essência, é a força, Ele é É a força superior,
invisível.
É a força cognitiva,

É onipresente,

É amor,

É sabedoria.
119

Isso, também, ocorre em O pecado não existe, quando o enunciador, no


papel de professor, de mestre, começa sua ‘aula’ com um tema polêmico: o pecado
não existe, a partir de uma afirmação genérica:

Muitas pessoas afirmam que a religião é necessária porque existe o pecado


no homem.

Feito isso, o enunciador começa as explicações:

Explicações:

Nós afirmamos que o homem não é pecador e


que não há pecado.

Se o mundo foi criado por Deus e se Deus é


absoluto e perfeito, não existe pecado.

O pecado não existe porque nunca foi criado.

A ideia de que há pecado está causando


inúmeras doenças.

Deus é amor, não criou o castigo.

O pecado se extingue quando o homem é


libertado da ideia de que ele é pecador.

Notamos, portanto, que o conhecimento é transmitido sem dar margem à


contestação, pois são utilizados, pelo enunciador, discursos incontestáveis
(paratópicos) como o bíblico e o científico, conforme vimos em:
120

Discurso bíblico Discurso científico

Artigo: O pecado não existe Artigo: O pensamento iluminador e


as ciências naturais

Cristo nos ensina o seguinte no E, se os seres vivos tivessem surgido


Evangelho Segundo João: “No de origens completamente diferentes,
princípio era o Verbo (Palavra) e não seria possível nenhum
o Verbo estava com Deus, e o entendimento entre eles e teriam de
Verbo era Deus. Todas as coisas viver em eterna desarmonia. E não
foram feitas por ele, e nada do haveria também nenhuma interação
que foi feito se fez sem ele”. A entre os átomos e a matéria, não
palavra é criadora. Por isso, se haveria princípios de fissão e fusão, e
ficarmos constantemente falando os átomos se manteriam “isolados”
que o pecado existe, ele jamais uns dos outros. Mas as pesquisas
poderá ser extinguido. científicas da era moderna tornaram
claro que os átomos agem segundo o
princípio da fissão e da fusão,
interagindo de modo harmonioso, e
que a estrutura molecular das
microscópicas partículas materiais é
idêntica a do gigantesco sistema
solar.

Apesar de serem discursos antagônicos - no bíblico, predomina o uso da


emoção, da subjetividade e no científico, a razão, a objetividade - ambos são
utilizados para ensinar ‘o correto modo’ de agir sem criar sofrimentos.

Percebemos o uso de discursos paratópicos em sala de aula, em palestras,


em conferências etc., por ser um recurso que confere credibilidade ao discurso e ao
sujeito enunciador, de tal modo que o co-enunciador sente-se convencido de que o
que está sendo proferido é confiável, é a verdade. Para que haja esse
convencimento é necessário um tom, que confere credibilidade ao enunciador.

Assim, um professor, ao mencionar, por exemplo, sua formação acadêmica e


os cursos que participou ou ministrou ou, ainda, ao demonstrar seu domínio sobre
determinado assunto, com o intuito de reforçar que é conhecedor, é “expert” em sua
ou outras áreas, quer influenciar seus alunos, envolvê-los.

De forma semelhante, o enunciador, na construção da imagem de si, utiliza-


se de recursos para conseguir a adesão, conforme demonstramos, a seguir:
121

• em todos os exemplares, na seção, em análise, há uma foto de Masaharu


Taniguchi, do lado esquerdo da página. Nela, temos a imagem de um senhor
japonês com, aproximadamente, 65 anos, usando óculos e que, aparentemente,
está vestido de kimono. Dessa imagem, depreendemos um sujeito que tem
conhecimentos, experiência de vida e seriedade.
122

• além disso, para reforçar tal idéia, em todas as páginas há o nome da seção
Artigo do Mestre Masaharu Taniguchi, que possui o nome do fundador da SNI.

Essa repetição, por quatro vezes, na coluna, enfatiza o papel de mestre e a


autoridade do enunciador e, por ser a primeira coluna nas revistas, sua importância
é mais evidenciada.

A enunciação da SNI pode ser descrita, então, como sendo uma enunciação
de conhecimento, de sabedoria, de autoridade, de credibilidade e, esse tom de
confiança, está ligado ao caráter do professor, do mestre ou do palestrante, assim
como está no discurso da SNI, como vimos em O pecado não existe:

Como vimos, quando o homem mantém o pensamento de que ele é pecador, chega
inevitavelmente a ferir a si próprio. Logo, torna-se necessário eliminar da mente da
humanidade a ideia de pecado.

Por isso, se ficarmos constantemente falando que o pecado existe, ele jamais
poderá ser extinguido. Por exemplo, se todo mundo se dirigir a um ex-presidiário que
já cumpriu sua pena e lhe disser: “Você é um criminoso, é um mau elemento, é um
pecador...”, ele nunca poderá regenerar-se. Terá dificuldades para conseguir
emprego, e não lhe restará outra alternativa senão a voltar à prática do crime.

E como em O pensamento iluminador e as ciências naturais:

Tudo quanto vemos é a concretização do Espírito. Por trás de todas coisas existe a
força superior que as criou cada qual com a forma própria e as mantém em seus
respectivos estados. Diante desta afirmação, o leitor certamente compreenderá que
o Espírito é a força superior que existe no âmago de tudo.
123

Podemos também dizer que o princípio da Vida, que confere força vital a plantas e
animais e promove o seu crescimento, é a corrente da sagrada Vida imanente no
Universo.

É esse ethos discursivo de professor, de mestre que garante a credibilidade


do discurso, pois o sujeito enunciador, nesse papel, tem um modo de dizer que faz
com que ele se mostre assim no ato da enunciação. Essa ‘aparição’, ao ser captada
pelo co-enunciador, mobiliza a sua afetividade e, por meio desse processo interativo,
ocorre a adesão.

Dessa forma, o enunciador busca a adesão ao seu discurso, ao transmitir


informações novas e ao oferecer meios para que o co-enunciador seja o agente de
mudança de sua própria vida e de outras pessoas, como percebemos nos artigos:

O pecado não existe O pensamento iluminador e as


ciências naturais

Se fosse eliminada de sua mente a Diante dessa afirmação, o leitor certamente


convicção de pecador, os seus olhos compreenderá que o Espírito é a força
seriam curados. superior (...) transcendendo a força da
matéria.
Quando o homem mantém o
pensamento de que ele é pecador, Quem quiser visualizar o poder de Kannon
chega, inevitavelmente, a ferir a si (...) deve mentalizar como se segue.
próprio.

Para que a imagem de um sujeito possuidor de conhecimento para ensinar


seja construída e haja a adesão, ocorre um processo de incorporação em que o co-
enunciador, com base nesses indícios linguísticos, fornecidos pelo enunciador,
incorpora essa imagem de professor, de mestre.

Esse processo de incorporação, somente, ocorre devido aos estereótipos


partilhados, ou seja, o mestre detém o conhecimento, tem credibilidade e
124

compartilha o que sabe para quem quer aprender, para quem quer conhecer
determinado assunto para poder estar no comando de sua vida, dessa forma, o
ethos é corporificado por um tom de seriedade, de confiabilidade, de autoridade,
pela voz da enunciação.

Nesse sentido, a imagem do sujeito enunciador, apreendida pelo co-


enunciador por meio desse tom, desempenha o papel de fiador, que se
responsabiliza pelo discurso e que garante a autoralidade (autoria) da “aula”. Esse
fiador não se trata de um ser empírico, mas discursivo, ou seja, ele é o enunciador
que se revela no discurso ao assumir a palavra. Dessa forma, não existe ethos pré-
discursivo, pois tudo se dá no discurso. Como podemos ver em O pensamento
iluminador e as ciências naturais:

Mas as pesquisas científicas da era moderna tornaram claro que os átomos


agem segundo o princípio da fissão e da fusão, interagindo de modo harmonioso, e
que a estrutura moléculas das microscópicas partículas materiais é idêntica a do
gigantesco sistema solar. Este fato comprova que a “essência que constitui a
base do Universo” – o Espírito – é uma só.

O nosso pensamento iluminador não conflita com as ciências naturais, pois


as ciências naturais descobrem as leis que regem as ações do Espírito do
Universo e contribuem para que possamos desfrutar as dádivas generosas
provenientes Dele.

E em O pecado não existe:

Se a humanidade pudesse melhorar com a afirmação de que é pecadora, não


teríamos nenhuma objeção; mas o fato é que com isso jamais poderá
melhorar. A ideia de que “há pecado” está causando inúmeras doenças. Isto se
explica como uma forma de autopunição.
125

Ademais, como o discurso está no suporte revista Pomba Branca, da


instituição SNI, que não se mostra como religião, mas como filosofia de vida e, por
haver, também, a foto de um senhor de idade, vimos que o enunciador afiança a si
próprio por meio da instituição e da revista, que sustentam o seu dito.

Portanto, como já dissemos, a revista é direcionada para mulheres, porém


não abordamos as características empíricas das leitoras, mas seus papéis, que são
estipulados pelo enunciador, que não se trata de Masaharu Taniguchi, mas de um
mestre, de um professor, de uma pessoa que conhece o que explana e está
‘amparado’ por uma instituição e por uma revista importante naquele meio.

Nesse âmbito, o co-enunciador projetado é, inicialmente, feminino, como


vimos nas capas dos exemplares, que sempre contém a imagem de flores e o
slogan: A Revista da Mulher Feliz e pelas imagens que estão nas colunas, como
paisagens ou flores:

Culturalmente, sabemos que flores, geralmente, são associadas ou


apropriadas a mulheres, sendo assim, a feminilidade está relacionada a
comportamentos socialmente adquiridos. Muitas vezes, esses traços são
categorizados pela oposição homem/mulher, por exemplo, fisicamente, elas têm
quadris largos, menos pelos no corpo, os homens têm mais pelos, costas largas;
126

psicologicamente e comportamentalmente, elas se preocupam mais com a famílias,


com os filhos, com a casa, são empáticas, cuidam mais de si etc., eles, por sua vez,
passam muito tempo fora de casa, cuidam menos de si.

Ressaltamos que não queremos generalizar tais diferenças, pois sabemos


que os papéis, que eram, somente, de homens, atualmente, no século XXI, são
assumidos pelas mulheres ou vice-versa.

Notamos, também, uma supervalorização da imagem feminina, representada


na figura de deusa Em O pensamento iluminador e as ciências naturais, na
Mentalização para captar a admirável sabedoria de Kannon (Kanzeon Bosatsu), a
deusa da misericórdia:

Quem quiser visualizar o poder de Kanzeon Bosatsu.

Neste momento, contemplo este mundo em que vivo como sendo manifestação da
admirável sabedoria de Kannon.

[...] se mentalizares os poderes de Kanzeon Bosatsu, brotará misericórdia no


coração deles; mesmo que alguém tente envenenar-te; se mentalizares os poderes
de Kanzeon, o veneno se voltará contra essa pessoa; mesmo que sejas acuado por
uma fera e te vires na iminência se ser atacado por terríveis garras, se mentalizares
os poderes de Kanzeon, a fera se afastará e, rapidamente, tomará outro rumo”.
Kanzeon Bosatsu é a sabedoria que purifica o Universo e é a grande
misericórdia que protege todas as coisas do Universo.

O co-enunciador, ao ter sua feminilidade acionada e supervalorizada, atua


como uma aluna que está tendo aula com um professor de idade avançada que
domina o assunto abordado.

Por conseguinte, devido ao discurso estar inserido em um suporte (revista


feminina) e ao enunciador construir uma imagem de si, de mestre, de professor, o
co-enunciador, estrategicamente, é induzido ser submisso, pois, culturalmente, os
127

professores são autoridade máxima em sala de aula e, por isso, os alunos devem
submeter-se às regras estipuladas pelo docente, para não serem punidos. Essa
autoridade é reforçada em O pecado não existe, quando o enunciador deixa
evidente a importância do mestre na vida de seus alunos:

[...] se tiver um bom professor, você só terá que ser bom, pois é muito obediente.

O co-enunciador, no papel feminino submisso, entende que se for obediente,


ele será considerado bom, será aceito. Essa obediência é à figura masculina, pois é
mencionado professor, no masculino. Além disso, o enunciador, nesse papel de
mestre, de professor (homem) - imagem reforçada pela foto de um senhor - reforça,
ainda mais, a idéia de submissão.

Em O pensamento iluminador e as ciências naturais, essa idéia é reforçada,


também, quando o enunciador explica que se não transgredir as leis da Natureza:

o Espírito beneficiará todas as pessoas (...) Ele é o bom pastor; é o sábio


conselheiro; e o nosso Pai eterno.

Ele reforça, novamente, mais adiante:

Ele é nosso pastor e, quando buscamos a Sua orientação, nos conduz a verdes
pastos e a águas tranquilas.

Portanto, mais uma vez, a submissão e a obediência à figura masculina são


ativadas, pois, devido ao co-enunciador ter o desejo de melhorar sua vida, ou seja,
128

querer ser o sujeito de sua vida, ele terá que se assujeitar ao discurso masculino. Os
papéis, culturalmente, femininos são reforçados, assim como os papéis masculinos:
os homens mandam, têm autoridade, tem a última palavra e as mulheres obedecem.

Esses papéis, atualmente, foram modificados, devido à luta pela igualdade de


direitos e deveres entre homens e mulheres, no entanto, ressaltamos que os
discursos analisados são das décadas de 40 e 50 do século XX, época em que as
diferenças entre homens e mulheres eram enaltecidas. Dessa forma, o co-
enunciador tem sua memória discursiva de submissão acionada e reformulada: ser
submisso não é ruim, é bom.

Observamos, ainda, em O pensamento iluminador e as ciências naturais,


esse papel da mulher, na Mentalização para captar a admirável sabedoria de
Kannon (Kanzeon Bosatsu), a deusa da misericórdia, na qual se depreende que se
trata de uma mulher que desempenha o papel de mãe devota, que zela, protege,
abastece, tem compaixão, orienta, perdoa, ama etc., como notamos em:

As estrelas que cintilam no céu são os olhos de Kanzeon Bosatsu que zela por mim.

[...] se mentalizares os poderes de Kanzeon Bosatsu a fera se afastará [...].

Nesse momento abasteço-me na fonte da força imanente do Universo.

Kanzeon Bosatsu [...] é a grande misericórdia que protege todas as coisas do


Universo.

Com sua grande misericórdia, Kanzeon me ama, me orienta, me infunde nova força
vital.

As imagens de dependência e de abnegação são reforçadas duplamente. A


primeira vez é quando o co-enunciador, ao receber o discurso como uma meditação
e praticá-la, sentir-se-á como uma filha dependente e amparada por uma mãe que
atende prontamente ao filho:
129

Mesmo quando fores cercado por malfeitores preste a te atacar brandindo as


espadas, se mentalizares os poderes de Kanzeon Bosatsu, brotará misericórdia no
coração deles; mesmo se alguém tenta envenenar-te, se mentalizares os poderes
de Kanzeon, o veneno se voltará contra essa pessoa [...]

A segunda vez, quando o co-enunciador aceita/obedece fazer a mentalização


que o enunciador sugere, conforme verificamos em:

Quem quiser visualizar o poder de Kanzeon Bosatsu durante a meditação deve


mentalizar como segue.

O enunciador no papel de mestre, de professor ativa diversos papéis no co-


enunciador, ora de criador de sua realidade, ou seja, responsável pelo seu destino,
porém, nesse papel de fazer a sua vontade, sua realidade não é boa. Ora de
obediente à vontade divina, nesse caso, a vida se torna melhor, como podemos ver
a seguir:
130

O pensamento iluminador e as ciências naturais

Papéis acionados no co-enunciador:

Criador de sua realidade Obediente à vontade divina

Há casos em que o fogo destrói casas, o Tudo quanto vemos é a concretização


Sol mata as pessoas com seu calor do Espírito. Por trás de todas coisas
abrasador, e a eletricidade fulmina as existe a força superior que as criou
pessoas. Isso ocorre quando o ser cada qual com a forma própria e as
humano contraria as leis da Natureza (ou mantém em seus respectivos estados.
seja, as leis que regem a ação do Espírito Diante desta afirmação, o leitor
do Universo). Portanto, podemos dizer que certamente compreenderá que o
o Espírito, isto é, a força do Universo, é Espírito é a força superior que existe no
basicamente força do amor. Contanto que âmago de tudo, transcendendo a força
não transgrida as leis da Natureza, o da matéria e do homem.
Espírito beneficia todas as pessoas
Este Universo foi criado pelo Espírito
fazendo nascer o Sol sobre bons e maus e
único que rege a criação.
mandando a chuva sobre justos e injustos.
Recebendo do Espírito a sabedoria,
podemos descobrir novas e maravilhosas
leis do mundo natural, bem como ter
ideias para novos inventos e, assim,
desfrutar da mais ampla vida.

O pecado não existe

Papeis acionados no co-enunciador:

Criador de sua realidade Obediente a vontade divina

O dr. Karl A. Menninger, em seu livro O O padre Flannagan já não sabia o que
Homem Contra Si Mesmo, destaca os fazer e orou: “Senhor, que devo fazer
efeitos da autopunição, atribuindo para orientar este menino?” Nesse
inclusive a causa das guerras ao desejo momento, recebeu a inspiração divina e
inconsciente de autopunição. então disse ao menino:
- Eddie, você sabe se a obediência é uma
Muitas pessoas sofrem de doenças e qualidade ou um defeito?
outras formas de infelicidade para
punirem a si próprias. - É claro que a obediência é uma
qualidade. Quem é que não sabe disso?
Só que eu não possuo nem um pingo
131

Por isso, enquanto não for eliminada da de qualidade porque sou um malfeitor.
mente humana a ideia de pecado, os Esta foi a resposta do menino.O padre
homens continuarão a punir a si disse, então:
próprios e a sofrer, fazendo guerras,
- Não é verdade. Não existe ninguém tão
realizando lutas de classe, provocando
obediente como você. Se você praticou
atrito no lar e contraindo doenças.
uma maldade, foi simplesmente porque
você teve “professores” maus.

Depreendemos, assim, a imagem de um co-enunciador incapaz de criar,


sozinho, uma realidade satisfatória para si. Dessa forma, o enunciador é aquele que
ensinará um modo melhor de construí-la, segundo ‘a vontade divina’.

Após essa verificação de como os sujeitos se mostram, vimos o quanto é


importante a noção de ethos discursivo, pois permitiu-nos avaliar a imagem que os
coenunciadores apresentam de si e descobrirmos qual imagem se apreende dos
enunciadores nos discursos veiculados na revista.

 
132

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao término dessa pesquisa, podemos tecer algumas considerações acerca do


estudo feito sobre o discurso presente na seção Artigo do Mestre Masaharu
Taniguchi, da revista Pomba Branca, publicada pela Seicho-No-Ie do Brasil.

Nesse âmbito, inicialmente, destacamos que o discurso analisado é,


predominantemente, perpassado por discursos tópicos, como o pedagógico, por
exemplo, e por paratópicos, como o religioso, o científico, entre outros, para poder
ser aceito e legitimado. Assim, o discurso da SNI se constitui na referência que faz a
outros discursos e essa relação, permite-nos localizar as formulações que esse
discurso repete, refuta, transforma e denega.

Diante dessa circunstância, a presença desses discursos traz credibilidade ao


que está sendo enunciado, uma vez que, por meio dessa relação interdiscursiva, os
coenunciadores interagem. Porém, apesar de o discurso estar em uma revista
feminina, na edição do mês de março (período de homenagem às mulheres), ele
pode ativar diversos co-enunciadores, pois não encontramos relação com esse
momento do ano nem a predominância de marcas femininas.

Por conseguinte, verificamos a presença de uma relação de interdiscurso


complexa, porque para veicular os ensinamentos e práticas da SNI, no alcance de
novos adeptos e manutenção dos que existem, os textos selecionados e veiculados
possuem os mais variados discursos que servem de apoio para o enunciador se
posicionar.

Em nosso estudo, entendemos que os discursos foram, estrategicamente,


selecionados e inseridos nessa coluna da revista, por trazerem posicionamentos que
vão ao encontro do momento histórico-social em que estão sendo veiculados e por
estarem em consonância com a ideologia da instituição, da revista e dos adeptos.
Portanto, trata-se de um recurso planejado para se conseguir a adesão do co-
enunciador.

Nesse sentido, ao aderir o posicionamento do enunciador, que traz em sua


base o discurso pedagógico, entendemos que o co-enunciador adota um modo de
133

viver permeado pela submissão, pois nessa relação, de um lado, há o detentor e


multiplicador de conhecimentos e, de outro, há aquele que se submete a esse poder.
Todavia, apesar de os coenunciadores assumirem papéis diferentes, os
posicionamentos de ambos vão ao encontro um do outro.

Analogamente, isso se dá no discurso religioso, pois diante da presença da


palavra de Deus, o co-enunciador é colocado em uma posição inferior ao poder
instituído por meio da palavra divina e, dessa forma, ele não questiona nem duvida
acerca do que está sendo enunciado. Isso acontece, pois reconhecemos o
interesse, por parte do homem, em buscar explicações sobre sua identidade e sua
missão nesta vida. Sendo assim, ele não reflete sobre o discurso, mas ele reflete em
si o discurso.

Devido a essa marca de submissão do sujeito, o discurso religioso, assim


como o discurso pedagógico, propicia a manipulação. Dessa forma, a religião ou a
educação podem ser vistas como um modo de controlar os instintos dos homens.

Consequentemente, o suporte revista Pomba Branca, no qual o discurso


analisado está inserido, também, contribui para que ocorra essa adesão e essa
forma de dependência ao que está sendo enunciado, uma vez que se trata de um
veículo doutrinário que traz em si, valores de uma instituição que tem como objetivo
influenciar o comportamento das pessoas, nesse caso, as leitoras.

Assim, devido ao ethos ser constitutivo da cena de enunciação, consideramos


a cena englobante como sendo filosófica, a cena genérica como o gênero artigo de
revista e a cenografia de aula.

Nesse sentido, ao verificarmos a cenografia construída, identificamos a


maneira pela qual o ethos discursivo se mostrou: um sujeito, no papel de professor,
que tem características masculinas e que está comprometido em mudar o modo de
pensar de seus co-enunciadores. Portanto, a adesão ao discurso se dá nessa
cenografia que nos permite depreender a construção dessa imagem (ethos).

Diante desse aspecto, esse sujeito, situado além do texto, tem o perfil
esperado por quem assume uma abordagem pedagógica e tem uma voz que
sustenta a coluna. Esta, por sua vez, encarna, por sua própria enunciação,
134

características que estão associadas à personalidade do enunciador, ou seja, ao


ethos.

Dessa forma, por meio dos tons pedagógico, didático e autoritário, o co-
enunciador constrói uma imagem do enunciador que faz emergir uma instância
subjetiva com a finalidade de atuar como fiador do que está sendo enunciado e,
além disso, atribui um caráter e uma corporalidade a quem afiança a enunciação
analisada no percurso dessa pesquisa. A qualidade, a eficiência do ethos depende
dessa imagem construída, pois será ela que gerará uma ação sobre o co-
enunciador, ou seja, a incorporação.

Verifica-se, então, que o discurso presente na coluna revela o modo como a


instituição quer que a leitora da revista seja: submissa e religiosa. Com essa visão,
acerca do sexo feminino, a SNI, no Brasil, constrói e apresenta uma doutrina
autoritária que quer ensinar o correto modo de viver: obedecer para não criar
desarmonia. Isso é confirmado no slogan da instituição: Seicho–No-Ie - o correto
modo de viver em harmonia com a natureza.

Apesar de a SNI se adaptar à cultura brasileira, vimos que os discursos


recortados são os mesmos que foram produzidos no Japão, no século XX, apenas
com algumas adaptações feitas no momento da tradução para a língua portuguesa.
Dessa maneira, traços da cultura japonesa, como a submissão da mulher à figura
masculina transparecem no discurso, que se mostra autoritário e masculino.

Nesse cenário, mediado pelo slogan A revista da Mulher Feliz, o discurso da


obediência, da submissão é reforçado, uma vez que, na SNI, mulher feliz é aquela
que se submete aos ensinamentos e que se anula diante de suas vontades para
viver em harmonia com tudo e com todos.

Isto posto, a ideia de que obedecer é a forma correta de se viver é, mais uma
vez, ratificada quando o discurso é colocado na coluna identificada como Artigo do
Mestre Masaharu Taniguchi, construída, estrategicamente, com a foto do fundador e
com uma diagramação que conduz o modo de receber a mensagem transmitida.
Portanto, o perfil autoritário de quem está no poder de transmitir os ensinamentos e
a postura submissa esperada por quem recebe o discurso são reforçados.
135

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REVISTAS

Fonte de Luz, número 470, março/2009.

Fonte de Luz, número 471, abril/2009.

Fonte de Luz, número 488, setembro/2010.

Mundo Ideal, número 168, janeiro 2010.

Pomba Branca, número 195, setembro/2001.

Pomba Branca, edição especial, 2004.

Pomba Branca, número 273, abril/2008.

Pomba Branca, número 274, maio/2008.

Pomba Branca, número 284, março/2009.

Pomba Branca, número 286, maio/2009.

Pomba Branca, número 320, março/2012.

Pomba Branca, número 332, março/2013.


145

GLOSSÁRIO DE TERMOS ESPECÍFICOS DA SEICHO-NO-IE

Academia de Treinamento Espiritual – local para se estudar e praticar os


ensinamentos, seria um retiro espiritual.

Budismo – sistema ético, filosófico e religioso fundado por Siddharta Gautama


(Buda) na Ásia Central 563 a 483 a.C. Ensina que pelo autoconhecimento chegamos
ao nirvana.

Jissô – significa imagem verdadeira. Trata-se do aspecto real do ser humano, é o


ser espiritual feito a imagem e semelhança de Deus.

Matéria – siginifica o nada, trata-se de uma ilusão, projetada pela mente.

Meditação Shinsokan – prática contemplativa diária para contemplar o mundo da


imagem verdadeira.

Movimento de Iluminação da Humanidade – designação dada a Seicho-No-Ie pelo


fundador.

Mundo da Imagem Verdadeira - mundo perfeito criado por Deus, tal qual descrito no
primeiro capítulo e no começo do segundo capítulo de Gênesis.

Mundo fenomênico – mundo da projeção, captado pelos cinco sentidos, descrito em


Gênesis a partir do segundo capítulo.

Preletor – pessoa que, após cursos e avaliações, está habilitada para ministrar
palestras, dar orientações etc.

Revelações divinas – mensagens recebidas de Deus, em meditações, por Masaharu


Taniguchi.

Seimei no Jissô - significa A Verdade da Vida, obra com 40 volumes - a bíblia da


Seicho-No-Ie - escrita por Masaharu Taniguchi.

Seicho-No-Ie – filosofia religiosa de aplicação prática diária sem sectarismo religioso.


Em uma tradução livre significa lar do progredir infinito.

Sutra – significa ‘palavras da verdade’, não se trata de uma expressão do Budismo.


146

Sutras Sagradas – compilação de poemas escritos por Masaharu Taniguchi sob


inspiração divina.

Xintoísmo – religião do Japão, anterior ao Budismo.


147

ANEXOS

Texto: O pecado não existe


148
149
150
151
152

Texto: O pensamento iluminador e as ciências naturais


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