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NOTAS DE AULA DE TRANSMISSÃO DE CALOR

1. Introdução: Modos de Transmissão de Calor

O que é a transmissão de calor?


Transmissão de calor (ou calor) é a energia em trânsito devido a uma diferença
de temperatura.

Existem três formas de transmissão de calor: Condução, Convecção e


Radiação.

Condução

A energia cinética de uma molécula está associada à sua temperatura; assim,


numa região de alta temperatura as moléculas tem velocidades maiores do que numa
região de baixa temperatura.
A condução ocorre devido ao aumento de energia cinética das moléculas
proporcionado por uma excitação térmica qualquer em determinada região de um
corpo. Uma mólecula com mais energia torna-se mais veloz, chocando-se com as
moléculas vizinhas. A colisão entre moléculas vizinhas dá origem a um ganho de
energia térmica pela molécula que recebeu o choque, que passa, então, a proceder de
forma idêntica àquela que colidiu com ela. Reações em cadeia vão ocorrendo no
interior do corpo e o estado térmico, à distância da região que recebeu a excitação, vai
se alterando – o calor é conduzido através do corpo considerado. Há, portanto, na
condução, um autêntico transporte de calor.

Convecção

Quando um fluido escoa sobre um corpo sólido ou no interior de um canal,


enquanto as temperaturas do fluido e da superfície sólida são diferentes, ocorre uma
transmissão de calor entre o fluido e a superfície sólida como consequência do
movimento relativo entre o fluido e a superfície; este mecanismo de transmissão de
calor é chamado de convecção.
Se o movimento do fluido é induzido artificialmente através da utilização de
elementos mecânicos tais como ventiladores, exaustores, compressores, bombas, etc,
a transmissão de calor é conhecida como convecção forçada.
Por outro lado, se o movimento do fluido for unicamente comandado pela
diferença de densidade de partículas, o processo é conhecido como convecção livre ou
natural.
Por exemplo: Quando uma partícula fluida entra em contato com uma
superfície aquecida, ela se dilata, isto é, aumenta o seu volume mantendo o peso, e,
consequentemente, torna-se menos densa. Sendo assim, a partícula afasta-se da
superfície quente, fazendo com que uma partícula mais densa , porque está fria,
aproxime-se da superfície, propiciando, portanto, um autêntico trânsito de partículas,
umas se afastando e outras se aproximando da fonte quente; são as chamadas
correntes de convecção.
Como se observa, ocorre de fato um transporte de massa, mas, como a massa
transportada altera o estado térmico, não se pode também deixar de caracterizar um
transporte de calor.

1
Radiação

A radiação térmica é a energia emitida por toda a matéria que se encontra a


uma temperatura não-nula. Estas emissões podem ocorrer a partir de superfícies
sólidas, gases ou líquidos. Independentemente da forma da matéria, as emissões
podem ser atribuídas a mudanças nas configurações eletrônicas dos atómos ou
moléculas que constituem a matéria. A energia é transportada por meio de ondas
eletromagnéticas (ou, alternativamente, fótons). Em contraste com os mecanismos de
condução e convecção, onde a energia é transferida através de um meio natural, a
radiação não necessita de um meio para propagar-se. De fato, a transferência por
radiação ocorre mais eficientemente no vácuo.
É oportuno dizer que a radiação é a forma de transmissão de calor pela qual o
Sol aquece a Terra, e o calor, uma vez absorvido pelo nosso planeta, pode ser depois
transmitido, seja por condução, convecção ou radiação.

2. Condução em Regime Permanente

2.1 Lei de Fourier

T1
T2

Q Q

∆x

Experimentalmente, para uma parede plana, observa-se que

T1 − T2
Q∝ A
∆x

onde Q = fluxo de calor atravessando a parede na direção indicada


A = área da seção reta (constante) na direção de escoamento do fluxo de calor.
∆x = espessura da parede
T1 , T2 = temperaturas mantidas constantes nas faces paralelas à distância ∆x.

Ao substituir-se o material da parede, mantendo-se todas as demais situações


absolutamente iguais, constata-se que o fluxo de calor se altera para cada material.
Assim, pode-se dar um aspecto matemático à observação experimental acima através
da introdução de um coeficiente que depende do material, chamado de coeficiente de
condutividade térmica (k):

kA
Q= (T1 –T2) , dado em W ou, no sistema britânico, Btu/h.
∆x

2
Evidentemente, esta expressão não se aplica para outras formas de parede, já que foi
deduzida para a situação de área constante. De uma forma geral, raciocinando-se com
elementos infinitesimais, pode-se escrever

dT
q=-k , onde q = Q/A (em W/m2 ou , no sistema britânico, Btu/(h .ft2))
dx

que é uma expressão de caráter absolutamente geral, denominada Lei de Fourier.

Obs: o sinal negativo é adicionado para assegurar que o valor de q (ou Q) seja uma
quantidade positiva quando o fluxo de calor estiver na direção crescente de x. Como o
calor flui da região de temperatura mais alta para a de temperatura mais baixa , a
temperatura decresce na direção crescente de x, e, consequentemente, dT/dx é
negativo. Assim, q (ou Q) torna-se uma quantidade positiva devido a presença do
sinal negativo.

Exemplo 1: Determine o fluxo de calor q e a taxa de transferência de calor através de


uma placa de ferro de área A = 0,5 m2 e espessura L = 0,02 m [k = 70 W/(moC)]
quando uma de suas superfícies é mantida a T1 = 60oC e a outra a T2 = 20oC .

Solução: Neste problema o gradiente de temperatura dT/dx é constante e assim a


distribuição de temperatura T(x) através da placa é linear. Então o fluxo de calor q é
determinado por

dT
q=-k
dx

T2 − T1 20 − 60
= -k = -70 = 140 kW/m2
L 0 ,02

Assim o fluxo de calor está na direção crescente de x já que o resultado é positivo. A


taxa de transferência de calor Q através de uma área A = 0,5 m2 é calculada por

Q = A q = 0,5 X 140 = 70 kW

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2.2 Coeficiente de Condutividade Térmica

O fator de proporcionalidade k que surge na Lei de Fourier exprime a maior


ou menor facilidade que um material apresenta à condução de calor.
A dimensão de k é: W / (m oC) ou, no sistema britânico, Btu/ ( h.ft.oF).
Os valores numéricos de k variam em extensa faixa e os principais fatores
capazes de influir nessa diversificação são constituição química, estado físico e
temperatura.
Existe uma diferença grande na faixa de valores para condutividade térmica
dos vários materiais empregados em Engenharia.

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Tabela 1– Condutividade de vários materiais a 0 oC

Condutividade térmica
k
o
Material W/m. C Btu/h.ft.oF

Metais
Prata (pura) 410 237
Cobre (puro) 385 223
Alumínio (puro) 202 117
Níquel (puro) 93 54
Ferro (puro) 73 42
Aço carbono, 1% C 43 25
Chumbo 35 20,3
Aço cromo-níquel (18% Cr, 8% Ni) 16,3 9,4

Sólidos não-metálicos
Quartzo, paralelo ao eixo 41,6 24
Magnesita 4,15 2,4
Mármore 2,08-2,94 1,2-1,7
Arenito 1,83 1,06
Vidro, janela 0,78 0,45
Carvalho 0,17 0,096
Serragem 0,059 0,034
Lã de vidro 0,038 0,022

Líquidos
Mercúrio 8,21 4,74
Água 0,556 0,327
Amônia 0,540 0,312
Óleo lubrificante SAE 50 0,147 0,085
Freon 12, CCl2F2 0,073 0,042

Gases
Hidrogênio 0,175 0,101
Hélio 0,141 0,081
Ar 0,024 0,0139
Vapor de água ( saturado) 0,0206 0,0119
Dióxido de carbono 0,0146 0,00844

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Entre gases e metais altamente condutivos, como o cobre ou a prata, o valor de
k varia de um fator de cerca de 10.000.
Quanto à temperatura, para alguns materiais em certas faixas de temperatura, a
variação do valor de k é suficientemente pequena, podendo ser desprezada. Mas, em
muitos casos, a variação de k com a temperatura é importante. Por exemplo, a
temperaturas muito baixas o valor de k varia rapidamente com a temperatura e as
condutividades térmicas do cobre, do alumínio ou da prata atingem valores 50 a 100
vezes maiores do que os valores à temperatura ambiente.

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Tabela 2 – Tipos de isolantes e aplicações

Tipo Faixa de Condutivida Massa Aplicação


Temperatura de Térmica Específica
o
C 10-3W/moC kg/m3
1 Superisolante evacuado -240 a 1100 0,0015-0,72 Variável Muitas
2 Espuma de uretano -180 a 150 16-20 25-48 Tubos quentes e
frios
3 Espuma de uretano -170 a 110 16-20 32 Tanques
4 bloco de vidro celular -200 a 200 29-108 110-150 Tanques e tubos
5 Manta de fibra de vidro -80 a 290 22-78 10-50 Tubos e conexões
para revestimento
6 Manta de fibra de vidro -170 a 230 25-86 10-50 Tanques e
equipamentos
7 Contorno pré-moldado de -50 a 230 32-55 10-50 Tubulações
fibra de vidro
8 Folha de elastômero -40 a 100 36-39 70-100 Tanques
9 Placa de fibra de vidro 60 a 370 30-55 10-50 Tubos e conexões
10 Contorno pré-moldado de 40 a 100 36-39 70-100 Tubos e conexões
elastômero
11 Manta de fibra de vidro -5 a 70 29-45 10-32 Linhas de
com barreira contra refrigeração
condensação
12 Jaqueta de fibra de vidro até 250 29-45 24-48 Tubulações
sem barreira contra quentes
condensação
13 Prancha de fibra de vidro 20 a 450 33-52 25-100 Caldeiras, tanques,
trocadores de calor
14 Prancha e bloco de vidro 20 a 500 29-108 110-150 Tubulações
celular quentes
15 Prancha e bloco de 100 a 150 16-20 24-65 Tubulações
espuma de uretano
16 Contorno pré-moldado de até 650 35-91 125-160 Tubulações
fibra mineral quentes
17 Manta de fibra mineral até 750 37-81 125 Tubulações
quentes
18 Bloco de lã mineral 450 a 1000 52-130 175-290 Tubulações
quentes
19 Prancha de bloco de 230 a 1000 32-85 100-160 Tubulações,
silicato de cálcio caldeiras,
revestimentos de
chaminés
20 Bloco de fibra mineral até 1100 52-130 210 Tanques e
caldeiras

Para o caso dos materiais ditos isolantes, o que reduz bastante o coeficiente de
condutividade térmica é a introdução de poros ou espaçamentos, uma vez que o ar é
um péssimo condutor.

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2.3 Resistência Térmica

Da mesma forma que uma resistência elétrica está associada à condução de


eletricidade, uma resistência térmica pode ser associada à condução de calor.
Definindo resistência como a razão entre a diferença de potencial (força) motriz e a
correspondente taxa de transferência, obtém-se para o caso da eletricidade

V2 − V1
Relet =
I

∆x
Como Relet = ρ , sendo ρ a resistividade; ∆x, o comprimento do condutor;
A
1
A a sua seção reta; e ρ = , onde σ é a condutividade elétrica, tem-se
σ
V2 − V1 ∆x
R elet = =
I σA

Procedendo-se de forma análoga para o calor, conclui-se a partir da Lei de


Fourier para uma parede plana de espessura ∆x, que a resistência térmica na condução
(resistência térmica condutiva) é

∆x
R cond =
kA

e a unidade de resistência térmica é oC / W, ou, no sistema britânico, hoF/Btu .

2.4 Paredes Compostas

Em muitos casos, como em equipamentos industriais tais como frigoríficos,


fornos, ou em problemas de isolamento térmico, há necessidade de se empregar
paredes que se constituem por justaposição de camadas de materiais diferentes,
dando-se a isto o nome de parede composta.

8
Q

quando mais de um material está presente, como neste caso, o fluxo de calor poderá
ser escrito como

T2 − T1 T −T T − T3
Q = - kA A = - kB A 3 2 = - kC A 4
∆x A ∆x B ∆xC

observe que o fluxo de calor deve ser o mesmo através de todas as seções.
Resolvendo estas equações simultaneamente, o fluxo de calor é dado por

T1 − T4
Q=
∆x A K A A + ∆x B K B A + ∆x C K C A

em outras palavras,

diferença de potencial térmico


fluxo de calor =
resistência térmica

ou seja, o denominador desta expressão é, de acordo com a analogia elétrica, a


resistência térmica total da parede.

Rt = RA+RB+RC
ou

∆x A ∆x B ∆xC
= ∑
x
Rt = + +
KAA KB A KC A KA

Neste caso, a resistência térmica total é a soma dos três termos do


denominador. Esta situação é esperada porque as três paredes lado a lado agem como
três resistências térmicas em série.
A analogia elétrica pode ser empregada para resolver problemas mais
complexos envolvendo resistências térmicas em série e em paralelo. Aqui, é
necessário calcular a resistência térmica equivalente da montagem em paralelo para, a
seguir, recair no problema da resistência térmica em série.

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No circuito acima, a resistência equivalente às três resistências em paralelo RB, RC e
RD é dada por

1 1 1 1
= + +
Req R B RC R D

1
ou Req =
1 1 1
+ +
R B RC R D

Exemplo 2: Uma parede é constituída de 3 camadas justapostas: uma camada de


tijolo refratário [ k = 1 W/moC ]; uma intermediária de tijolo isolante [ k = 0,08
W/moC]; e uma camada de tijolo comum [ k = 0,70 W/moC]. Se a face externa do
material refratário está a 1150 oC e a externa do material comum está a 38 oC,
pergunta-se: Qual o fluxo de calor que atravessa a parede composta, sabendo-se que
as espessuras das camadas são:
x1 = 0,6 m (refratário);
x2 = 0,9 m (isolante);
x3 = 0,3 m (comum);
enquanto a altura e a largura da referida parede são respectivamente 3m e 5 m?

Solução:
x1 x x
Rt = + 2 + 3
K1 A K 2 A K3 A

1  0 ,6 0 ,9 0 ,3  o
Rt =  + +  = 0,82 C/W
3⋅5  1 0 ,08 0 ,70 
1150 − 38
Q= = 1356 W
0 ,82

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Exemplo 3: Considerando o exemplo anterior, colocando-se na camada central de
material isolante um vazio de ar simetricamente disposto e com 2,50 m de altura,
pode-se vericar qual será o novo fluxo de calor admitindo-se Kar = 0,01 W/moC ?

Solução:

A resistência equivalente na camada central pode ser obtida por

1 1
Req = = = 2,77 oC/W
1 1 1 0 ,08 ⋅ 5 ⋅ 0 ,25 0 ,01 ⋅ 5 ⋅ 2 ,5 0 ,08 ⋅ 5 ⋅ 0 ,25
+ + + +
R B RC R D 0 ,9 0 ,9 0 ,9

Logo, a resistência térmica total será:

 0 ,6 0 ,3  o
Rt =  + 2 ,77 +  = 2,84 C/W
 3⋅5 ⋅1 3 ⋅ 5 ⋅ 0 ,70 

e, consequentemente, o fluxo de calor, com a introdução do vazio de ar é:

1150 − 38
Q= = 391,5 W
2 ,84

Obs 1: Muitos materiais de construção são vendidos com espessuras normalizadas, de


modo que é possível obter sua resistência térmica diretamente de tabelas sem ter que
calculá-la pela expressão ∆x / k A.

Obs 2: Isolantes e o fator R.


Para a classificação do desempenho de um isolamento, é prática comum na
indústria de construção referir a resistência a 1m2 de área, definindo um fator R como

∆T
R=
Q A

Observe que tal resistência R, com unidades m2 oC/W, difere do conceito de


resistência térmica discutido acima pois aqui é usado um fluxo de calor por unidade
de área. Assim a relação entre este fator R e a resistência témica que vinha sendo
utilizada, Rcond, para o caso de condução, é dado por RcondA= ∆x / k = R.

Exemplo 4: A parede de uma casa pode ser aproximada por uma camada de 4
polegadas de tijolo comum [k = 0,7 W/moC] seguida de uma camada de 1,5 polegadas
de gesso [k = 0,48 W/moC]. Que espessura de isolamento de lã de rocha [k = 0,065
W/moC] deve ser adicionada para reduzir a transferência de calor através da parede
em 80 por cento?

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Solução:
A perda total de calor é dada por

∆T
Q=
Σ Rt

Como a perda de calor pelo isolamento de lã de rocha é somente 20 por cento


(80 por cento de redução) da perda sem isolamento

Q com isolamento ΣRt sem isolamento


= 0,2 =
Q sem isolamento ΣRt com isolamento

Temos para o tijolo e para o gesso, por unidade de área,

∆x 4 ⋅ 0 ,0254
Rt = = = 0,145 m2 oC/W
k 0 ,7
∆x 1,5 ⋅ 0 ,0254
Rg = = = 0,079 m2 oC/W
k 0 ,48

e assim, a resistência térmica sem isolamento é


R = 0,145 + 0,079 = 0,224 m2 oC/W

0 ,224
Portanto, R com isolamento = = 1,122 m2 oC/W
0 ,2
e isto representa a soma da resistência térmica encontrada anteriormente com a
resistência de lã de rocha, ou seja,

1,122 = 0,224 + Rlr


∆x ∆x
Rlr = 0,898 = =
k 0 ,065
∆xlr = 0,0584 m = 2,30 in

2.4.1 Sistemas Radiais

Mais uma vez é usada a Lei de Fourier, inserindo-se a relação de áreas


apropriada. Como a área para fluxo de calor em sistemas cilíndricos é

Ar = 2 π r L

a Lei de Fourier fica

dT
Qr = - 2 π k r L
dr

onde a temperatura vale Ti na superfície interna (r = ri) e Te na superfície externa ( r =


re). Desta forma,

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2πkL( Ti − Te )
Q=
ln( re / ri )

e a resistência térmica neste caso é

ln( re / ri )
Rt =
2πkL

Aqui, o conceito de resistência térmica também pode ser usado para paredes
cilíndricas compostas, da mesma forma que para paredes planas. Por exemplo, para o
sistema de três camadas mostrado abaixo, a solução é

2πL( T1 − T4 )
Q=
ln( r2 / r1 ) / k A + ln( r3 / r2 ) / k B + ln( r4 / r3 ) / k C

Exemplo 5: Um tubo de parede grossa de aço inoxidável ( 18%Cr, 8%Ni, k = 19


W/moC) com 2 cm de diâmetro interno e 4 cm de diâmetro externo é coberto com
uma camada de 3 cm de isolamento de amianto ( k = 0,2 W/moC). Se a temperatura
da parede interna do tubo é mantida a 600 oC e a superfície externa do isolamento a
100 oC, calcule a perda de calor por metro de comprimento.

Solução: o fluxo de calor é dado por

Q 2π ( T1 − T2 ) 2π ( 600 − 100 )
= = = 680 W / m
L ln( r2 / r1 )k aço + ln( r3 / r2 ) / k ami 5
(ln 2 ) / 19 + ln( ) / 0 ,2
2

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3. Convecção Forçada

3.1 Generalidades

O efeito global da convecção pode ser expresso através da Lei de Newton do


resfriamento

Q = h A ( Tp –T∝)

onde Q = taxa de transferência de calor ( W)


A = área superficial ( m2)
Tp = temperatura da parede (oC)
T∝ = temperatura do fluido (oC)
h = coeficiente de transferência de calor por convecção (W/m2 oC)

O coeficiente de transferência de calor é algumas vezes chamado de


coeficiente de filme ou de película devido à sua relação com o processo de condução
na fina camada de fluido estacionário junto à superfície. Este coeficiente depende
tanto da viscosidade do fluido quanto das propriedades térmicas do fluido
(condutividade térmica, calor específico, massa específica) . Na tabela abaixo, estão
indicados os valores aproximados de coeficientes de transferência de calor por
convecção.

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Tabela 3 – Valores aproximados de coeficientes de transferência de calor por
convecção

h
2o
Modo W/m . C Btu/h.ft2.oF
Convecção natural, ∆T = 30oC
Placa vertical em ar 4,5 0,79
0,3 cm de altura
Cilindro horizontal em ar 6,5 1,14
5 cm de diâmetro
Cilindro horizontal em água 890 157
2 cm de diâmetro

Convecção forçada
Ar a 2 m/s sobre uma placa 12 2,1
quadrada de 0,2 m de lado
Ar a 35 m/s sobre uma 75 13,2
placa quadrada de 0,75 m
de lado
Ar a 2 atm escoando num 65 11,4
tubo de 2,5 cm de diâmetro
a 10 m/s
Água a 0,5 kg/s escoando 3500 616
num tubo de 2,5 cm de
diâmetro
Escoamento cruzado de ar 180 32
a 50 m/s sobre um cilindro
de 5 cm de diâmetro

Água em ebulição
Em vaso aberto 2500-35000 440-6200
Escoando no interior de 5000-100000 880-17600
um tubo

Condensação de vapor de
água, 1 atm
Superfícies verticais 4000-11300 700-2000
Sobre tubos horizontais 9500-25000 1700-4400

Na realidade, a análise da transferência de calor por convecção baseia-se na


determinação de h. Para situações complexas, a determinação é experimental. Quando
não se dispõe de resultados experimentais, a análise teórica pode ser utilizada na
obtenção de correlações. Em engenharia utilizam-se principalmente as correlações,
que são apresentadas em termos de parâmetros adimensionais. Os parâmetros
adimensionais mais comuns nas correlações de engenharia são:

ρV D
Número de Reynolds Re =
µ

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µ cp
Número de Prandtl Pr =
k

hD
Número de Nusselt Nu =
k

Para configurações de escoamento particulares, a relação entre os números de


Reynolds, Prandtl e Nusselt pode ser expressa por

Nu = C Ren Prm

3.2 Coeficientes de Filme para Fluidos no Interior de Tubulações

Assim, por exemplo, para fluidos escoando em tubulações lisas, como o ar, a
água e refrigerantes, obtém-se a fórmula

Nu = 0,023 Re0,8 Prn


com n = 0,4 se o fluido estiver se aquecendo
ou n = 0,3 quando o fluido estiver se resfriando.

Mais explicitamente,

0 ,8 n
k V D ρ   µ cp 
h = 0,023     , válida para escoamento turbulento, ou seja,
D  µ   k



Re > 2300.
Quando as diferenças de temperatura no escoamento forem muito grandes,
pode haver uma variação apreciável nas propriedades do fluido entre a parede do tubo
e a região central do escoamento. Para gases, a viscosidade aumenta com o aumento
da temperatura, enquanto a viscosidade do líquido diminui com o aumento da
temperatura. Esta variação nas propriedades pode ser levada em consideração através
da seguinte expressão:

0 ,14
 µ 
Nu = 0,027 Re 0,8
Pr 1/3  
µp 
 

3.3 Coeficientes de Filme Simplificados ou Estabelecidos para Fluidos de Uso


Corrente:

A literatura sugere as seguintes modificações de maior precisão ou mais


simplicidade propostas por pesquisadores para as situações abaixo:

Coeficiente de filme para óleos em tubos:


V
P/ aquecimento do óleo, h = 0,034 , onde V em ft/h e µ em lb/ft.h
µ 0 ,63
P/ resfriamento do óleo, h (resfriamento) = ¾ h(aquecimento)

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Coeficiente de filme para água em tubos:
V 0 ,8
P/ temperaturas até 180oF, h = 0,00134 (T+100) , onde T é a
D 0 ,2
temperatura média da água, em oF; V é a velocidade da água, em ft/h; D é o diâmetro
interno, em ft.

Coeficiente de filme para ar em tubos:

( ρ V )0 ,8
h = C 0 ,2
, onde ρ é dado em lb/ft3; V em ft/h; D em ft; e C
D
através da temperatura média do ar podendo ser obtido na tabela abaixo
Temperatura C Temperatura C
o
( F) (oF)
50 0,00361 600 0,00434
100 0,00368 800 0,00460
150 0,00376 1000 0,00485
200 0,00383 1200 0,00501
300 0,00397 1400 0,00513
400 0,00411 1600 0,00531
500 0,00424 1800 0,00549

Coeficiente de filme para água escoando por gravidade através de tubos


verticais:

1/ 3
 12 w 
h = 120   , onde w é a vazão da água em um tubo, em lb/h; Di
 π Di 
diâmetro interno, em ft.

Obs:

1. As fórmulas acima só tem validade se o fluido não mudar de estado físico


durante a troca de calor. Havendo condensação ou ebulição será necessário o emprego
de outras expressões.
2. Para o caso de serpentinas, a experiência mostra que o valor do coeficiente
de filme aumenta em relação ao dos tubos retos em cerca de 20%, sendo válido então
dizer que h (serpentina) = 1,2 h ( tubo reto).

3.4 Resistência Térmica

Pode-se também fazer uma analogia elétrica com o processo de convecção


reescrevendo a Lei de Newton do resfriamento como

T p − T∞
Q=
1 / hA

onde o termo 1/hA é a resistência de convecção.

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4. Aplicação Simultânea de Condução e Convecção

4.1 Coeficiente Global de Transferência de Calor

Considere a parede plana mostrada na figura abaixo, exposta a um fluido


quente A em um dos lados e a um fluido mais frio B no outro lado. O calor transferido
é dado por

kA
Q = h1 A (TA-T1) = (T1-T2) = h2 A (T2-TB)
∆x

Este processo de transferência de calor pode ser representado pelo seguinte circuito de
resistências:

e o calor total transferido é calculado como a razão entre a diferença total de


temperatura e a soma das resistências térmicas

T A − TB
Q=
1 / h1 A + ∆x / kA + 1 / h2 A

O calor total transferido pelos mecanismos combinados de condução e convecção é


frequentemente expresso em termos de um coeficiente global de transferência de
calor U, definido pela relação

Q = U A ∆Ttotal

onde A é uma área adequada para a transferência de calor. Desta forma, o coeficiente
de calor global para este exemplo é

18
1
U=
1 / h1 + ∆x / k + 1 / h2

Esta formulação também é válida para um cilindro oco, que troca calor por convecção
interna e externamente, como representado pelo circuito abaixo:

Observe, porém, que neste caso a área para convecção não é a mesma para os dois
fluidos porque dependem do diâmetro interno do tubo e a da espessura da parede.
Neste caso, o fluxo total de calor é dado por

T A − TB
Q=
1 ln( re / ri ) 1
+ +
hi Ai 2π k L he Ae

Os termos Ai e Ae representam as áreas das superfícies interna e externa do tubo. O


coeficiente global de transferência de calor pode ser baseado tanto na área interna
quanto na área externa.

1
Ui =
1 Ai ln( re / ri ) A
+ + i
hi 2π k L he Ae

1
Ue=
Ae 1 Ae ln( re / ri ) 1
+ +
Ai hi 2π k L he

A tabela abaixo mostra alguns valores típicos do coeficiente global.

Tabela 4- Valores aproximados dos coeficientes globais de transferência de calor

Situação física U
2o
Btu/h.ft . F W/m2.oC
Parede com superfície externa de tijolo 0,45 2,55
aparente, revestida internamente de
gesso, não-isolada
Parede estrutural, revestida
internamente de gesso:
Não isolada 0,25 1,42
Isolada com lã de rocha 0,07 0,4
Janela de vidro simples 1,10 6,2
Janela de vidro duplo 0,40 2,3

19
5. Radiação

Como mencionado anteriormente, a transferência de calor por radiação se dá


através de ondas eletromagnéticas. Ao atingir uma superfície, estas ondas podem ser
absorvidas, refletidas ou transmitidas.
A energia irradiada por uma superfície é definida em termos de seu poder
emissivo (W/m2) . Através da termodinâmica é possível mostrar que o poder emissivo
de um radiador perfeito, denominado corpo negro, é dado por

En = σ Tsup4

onde σ = constante de Stefan-Boltzman = 5,669 X 10-8 W/m2.K4


T = temperatura absoluta, K

O fluxo de calor emitido por uma superfície real é menor do que aquele emitido por
um corpo negro à mesma temperatura e é dado por

E = ε σ Tsup4

onde ε é uma propriedade radiante da superfície conhecida por emissividade, 0 ≤ ε ≤


1, que fornece uma medida da capacidade de emissão de energia de uma superfície
em relação a um corpo negro.
Por outro lado, a radiação pode também incidir sobre uma superfície a partir
do meio que a circunda, sendo oriunda de uma fonte especial, como o Sol, o de outras
superfícies às quais a superfície de interesse esteja exposta.
Independentemente da fonte, chama-se de irradiação G a taxa em que todas
estas radiações incidem sobre uma área unitária da superfície. Parte da radiação
incidente, ou toda ela, pode ser absorvida pela superfície, aumentando a energia
térmica do material. A propriedade radiante conhecida por absortividade, α, permite
avaliar a taxa por unidade de área em que a energia radiante é absorvida por uma
superfície. Assim,

Gabs = α G , onde 0 ≤ α ≤ 1

Um caso que ocorre com frequência diz respeito à troca de radiação entre uma
pequena superfície a Tsup e uma superfície isotérmica a Tamb muito maior, que envolve
completamente a menor. Pode-se mostrar que, para tal condição, a irradiação pode ser
aproximada pela emissão de um corpo negro a Tamb, ou seja, G = σ Tamb4. Se a
superfície for considerada uma superfície dita cinza (α = ε), a taxa líquida de
transferência de calor por radiação a partir da superfície, por unidade de área de
superfície, é dada por

Q
q= = ε σ (Tsup4- Tamb4)
A

Observe que esta expressão fornece a diferença entre a energia térmica que é liberada
devido à emissão de radiação e aquela que é ganha devido à absorção de radiação.

20
Outra característica importante da transferência de calor por radiação é o fato
de que o posiocionamento geométrico das superfícies afeta a troca de calor por
radiação entre elas. Este posicionamento pode ser contabilizado através de um fator
de correção a ser introduzido na expressão acima, chamado fator de forma. Os
métodos para determinação do fator de forma, bem como a emissividade de diversas
superfícies, podem ser encontrados nos textos de transferência de calor.
Existem muitas aplicações para as quais é conveniente expressar a troca
líquida ou global de calor por radiação através de uma expressão da forma

Qrad = hr A (Tsup – Tamb)

onde o coeficiente de transferência de calor por radiação é

hr = ε σ ( Tsup + Tamb) (Tsup2 + Tamb2)

Se |Tsup – Tamb| << Tsup, esta relação pode ser linearizada fornecendo

hr ≈ 4ε σ Tsup3

Assim modela-se a transferência de calor por radiação de forma análoga à


transferência de calor por convecção. Observe, porém, que hr depende fortemente da
temperatura, enquanto a dependência do coeficiente de filme h em relação à
temperatura é, em geral , fraca. Entretanto, como as temperaturas são absolutas, o
valor de hr não varia significativamente para uma faixa de temperatura razoável,
podendo ser constante para efeitos práticos, o que valida a equação da transferência de
calor por radiação linearizada.

5.1 Paredes Compostas

Com a equação da taxa de transferência de calor por radiação linearizada, as


resistências térmicas para os três modos de transmissão de calor ficam:

∆x
Condução:
kA
1
Convecção:
hc A
1
Radiação:
hr A

Como a convecção e a radiação ocorrem simultaneamente em uma superfície,


é comum combinar os dois mecanismos numa só resistência. Por ocorrerem
simultaneamente, a analogia elétrica é a de duas resistências em paralelo. Assim, a
resistência equivalente a ser utilizada é Rsup = 1/ (hc+hr)A

Exemplo 5: Utilizando os dados da figura abaixo, determine a taxa de transferência de


calor em W/m2 através da parede e a temperatura da superfície externa do isolamento
se te = 0 oC e ti = 21 oC. Admita que na região isolada da parede, 20% do espaço seja
ocupado por elementos estruturais constituídos de caibros de madeira.

21
Solução:
Inicialmente, devemos calcular a resistência térmica de cada componente da
parede como função da sua espessura, condutividade térmica e área, se for um sólido,
ou como função do coeficiente de filme e da área, caso trate-se do ar, podendo ser
acrescida a resistência de radiação, se for o caso. Estes resultados estão agrupados na
tabela abaixo.

L, m k, A, m2 R*s1 R*A R*B R*C R*D R*s2


W/m K
Ar externo 1,0 0,029
Tijolo estrutural 0,09 1,30 1,0 0,070
Espaço de ar 1,0 0,170
Blindagem 0,013 0,056 1,0 0,232
Isolamento 0,09 0,038 0,8 2,96
térmico
Caibro 0,09 0,14 0,2 3,2
Revestimento de 0,013 0,16 1,0 0,08
gesso
Ar interior 1,0 0,125
subtotal 0,029 0,472 2,96 3,2 0,08 0,125

22
A resistência representada por R*A é o equivalente às três resistências em série
formadas pela parede de tijolo, o espaço de ar e a blindagem , ou seja,

R*A = 0,070+0,170+0,232 = 0,472 K/W

O isolamento térmico e o caibro formam uma resistência em paralelo, cuja


resistência equivalente é

Req = 1 / [(1/R*B) + (1/R*C)] ou Req = R*B R*C / ( R*B+R*C)

Req = 2,96 (3,2)/ ( 2,96+3,2) = 1,54 K/W

Logo, Rtotal = 0,029 + 0,472 + 1,54 + 0,08 + 0,125 = 2,24 K/W

t i − t e 21 − 0
e Q= = = 9,37 W
Rtotal 2 ,24
Q 9 ,37
ou, se desejarmos por unidade de área, q = = = 9,37 W/m2
A 1
A temperatura da superfície externa do isolamento pode ser obtida considerando-se
que o fluxo de calor que atravessa as diversas camadas é constante e, portanto,

t iso ,e − t e ti − te
Q= * *
= = 9,37 W
(R s1 +R A ) Rtotal

0 ,029 + 0 ,472
ou seja, t iso, e = 0 oC + ( 21 – 0 oC) = 4,7 oC
2 ,24

Bibliografia

1. Incropera, F. P. e DeWitt, D. P. – Fundamentos da Transferência de Calor e Massa,


4a edição, editora LTC, 1998.

2. Holman, J. P – Transferência de Calor, editora McGraw-Hill, 1983.

3. Ozisik, M. N. – Heat Transfer, aBasic Approach, editora McGraw-Hill, 1985.

4. Araújo, C. – Transmissão de Calor, editora LTC, 1978.

5. Stoecker, W. F. e Jones, J. W. – Refrigeração e Ar Condicionado, editora McGraw-


Hill, 1985.

23

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