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Bodega do

Norte

Michele de Sá

Campo Grande – MS
2020
É permitido fazer o download deste livro e compartilhá-
lo, desde que sem alterações, sem fins comerciais e
atribuindo o devido crédito à autora.
Apresentação

Em julho de 2006, deixávamos o Rio de


Janeiro para morar em Manaus, no Amazonas,
sem a menor ideia do que seria a vida longe dos
familiares – apenas meu esposo e eu. Nunca
havíamos morado em outro estado e a
novidade nos deixava com um misto de alegria
e curiosidade, além de um pouco de medo
também. Ele, militar do Exército Brasileiro,
havia sido transferido para a 12ª. Região Militar,
na Ponta Negra; eu, professora da Faculdade de
Letras da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), passei a integrar o corpo
docente da Universidade Federal do Amazonas
(UFAM) em exercício provisório para
acompanhamento de cônjuge.
Os quase sete anos que vivemos em
Manaus foram uma época de significativo
aprendizado, de novas amizades e muito
trabalho. Procuramos aproveitar todas as
oportunidades de conhecer outros lugares
do norte do Brasil sempre que surgiram.
Foi um período que nos rendeu boas memórias
e que marcou nossas vidas para sempre. Durante
este tempo, escrevi os poemas que compartilho
neste livro. Toda vez que releio cada um deles é
como se eu estivesse de volta.
Em dezembro de 2012, deixei de morar no
norte – mas o norte continua até hoje morando
em mim.

Boa leitura!

A autora
Sumário

Apresentação ......................................................... 3
Panela de barro ...................................................... 8
Aeroporto Eduardo Gomes ................................ 9
Iranduba ............................................................... 10
Mandioca .............................................................. 12
São Gabriel da Cachoeira .................................. 14
Ciclo da borracha ................................................ 15
Mucura ................................................................. 17
Manto ................................................................... 20
X-Caboquinho ..................................................... 21
Galo-da-serra ....................................................... 22
Serpente Mãe do Mundo ................................... 23
Que só .................................................................. 25
Naiá e Narciso ..................................................... 26
Canarana ............................................................... 29
Muiraquitã ............................................................ 31
Tucunaré .............................................................. 32
Iaçã ........................................................................ 34
Monte Roraima ................................................... 36
Pororoca ............................................................... 38
Guaraná ................................................................ 40
Manaos Railway ................................................... 42
Palácio da Justiça ................................................. 44
Teatro Amazonas ................................................ 46
Luar da Amazônia .............................................. 48
Boto ...................................................................... 49
Encontro das Águas ........................................... 51
Uirapuru ............................................................... 52
Réquiem das árvores .......................................... 54
Bodega do
Norte
Panela de barro

Sobe
o calor
da terra
deixando
a carne
mole.

O fogo
aumenta.
Abre-se
aos poucos
a tampa
– e chove.

8
Aeroporto Eduardo
Gomes

As tristes tartaruguinhas
olhavam o movimento:
entrando e saindo gente,
barulho a todo momento.

Crianças, carros, bagagens,


uns dias, mais; outros, menos,
os apressados passavam
diante dos olhos pequenos.

As tristes tartaruguinhas,
longevas do seu esperar,
fitavam as muitas estrelas
– quem dera poder voar!

9
Iranduba

Quase se afogam
as copas das árvores.

Vai e vem uma ave só,


que não acha pouso,
sem arca para onde voltar.

A água que jorra da embarcação


desenha um arco-íris no rio.

As mumbubas,
só elas queimam,
e brotam de galhos
só eles secos.

10
Não adianta fechar as cercas
nem trancar as portas.
Tudo é o rio,
o rio só,
o grande ladrão.

Só a canarana deita e descansa


e recebe a chuva inclemente.

Só um menino nadando,
no nada, no chão iluminado
que reflete a lua, o frio
e a profundeza do céu.

11
Mandioca

Na brancura de sua pele,


Mani foi alvo da febre
que faz o sangue jorrar.
Pobre Mani: diferente,
prostrou-se tão de repente,
índia da cor do luar.

Enterram-na junto ao rio,


entoam-lhe um canto frio,
a tribo sofre a chorar.
Do céu Mani era um dom,
seu coração era bom,
vivia ao mundo a alegrar.

12
Porém – linda é a natureza –
devido à sua beleza,
Mani renasceu raiz,
branca raiz incultiva,
forte, farta e nutritiva,
mandioca – o povo diz.

(Menção honrosa – 2° CONCURSO INTERNACIONAL DE


LITERATURA DA Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil,
2017)

13
São Gabriel da
Cachoeira
A bela adormeceu os cachos
no leito da alvorada.
O sol lhe dá um beijo,
a lua, nada:
observa, sempre abatida,
morta de enciumada.

O sol escolhera a bela


para sua namorada.
E ela – nem é com ela –
bem quietinha, ali deitada,
molha seus cachos nas pedras
na manhã ensolarada.

14
Ciclo da borracha

Casei
catei tudo com ela
cacei caminho de rio
cantei pra espantar pirilampo
cavei buraco na selva
caba e cobra matei
calei dor e pobreza
cada dia sonhei
que ela seria rainha
e me faria seu rei

15
Calado, queimando borracha,
cansado e pensando no céu
- caboclo pobre se lasca –
calor triscando nas unhas
carente de amor e juízo
cambaleando, deixei
cabana, menino na cama,
terçado passei nela e nele
e o que tinha de vida
apaguei.

16
Mucura

Lá vem de novo a mucura,


feia que nem um rato,
sapateando no teto,
vem, me levando à loucura.

Bicho de suma feiúra,


mucura, você é do mato;
deixe meu teto quieto!
pare com essa tortura!

Dançam à luz da ribalta,


fazem o seu espetáculo:
“Mucuras no campanário!”
só o campanário é que falta.

17
Passinhos, música alta,
põem suas caudas de báculo
a girar no sentido horário;
a mais velha se exalta,

grunhe qualquer coisa feia


(talvez seja um xingamento),
são dois pra lá, dois pra cá,
espaca, saracoteia.

Vai e vem pulando, e apeia,


prossegue no movimento,
volta pra logo chamar
as outras, e ainda meneia.

Minha casa não tem paz,


pois elas, em cantos tétricos,
como corvos, são cevadas
pelas sombras cavernais!
18
Não sei quanto sou capaz
de ouvir os gritos elétricos
das mucuras animadas
me dizendo: “Nunca mais!”

19
Manto

O manto verde parece plano.


Parece plano – mas, grande engano:
quem anda nele sabe o terreno,
sabe o sereno, sabe o veneno,
e sobe a escarpa de mato feita,
que a fauna enfeita, onde a relva deita.

O céu não entra cá nesta terra,


que é palco de guerra e o mato encerra.
E, ainda que pesem as copas densas,
copas suspensas em ramas tensas,
a passarada seu canto entoa,
e o som ecoa, a música voa.
O verde plano parece um manto.

20
X-Caboquinho

Tucumã, meio sem-graça,


foi paquerar um queijinho
que estava meio salgado
de tanto ficar sozinho.

De dois meios, fez-se o inteiro:


os dois juntos, escondidos,
dentro do pão, se amassando,
amando-se, distraídos.

21
Galo-da-serra

Eis o galo-da-serra
exibindo sua cor de rei:
“Cheguei! Cheguei! Cheguei! Cheguei!”

Esquivaram-se as outras aves


(não querem comentar nada):
“Que metido, esse camarada...”

Longe se pode ver:


ao crepúsculo se mistura
pequena altiva criatura.

Se ave, se sol, se céu,


eis mais um mistério na terra:
o tom rubro-coral da serra.
22
Serpente Mãe do Mundo

Descia Orellana
o Amaru Mayu,
a “Serpente Mãe do Mundo”.
Cheio de si mesmo,
seu nome ao rio deu:
seu ego dourado o levava,
sua macha serpente o iludia
e para o infinito o impelia
e, quando ele não esperava,
na pasmaceira do dia,
enquanto o rei Orellana
dormia,
cansado de ser real,
zás!

23
Acabou-se a ilusão.
As icamiabas vieram.
Lançaram nas águas suas
o nome do usurpador.

Vai-te embora,
vai para o fim do mundo
e diz que Amaru Mayu,
a Serpente Mãe do Mundo,
tem senhoras, tem donas:
é o rio das Amazonas.

24
Que só

O Amazonas é um lugar que só,


tem um luar bonito que só
e uma chuva brava que só
e um calor forte que só
e um rio negro que só.

Tem um monte de descida que só


e a subida é que dá dó.
Tem floresta espessa que só,
uma bicharada que só,
que faz uma zoada que só.
Meu bem está na selva
e eu, triste que só.

Aqui, só.
25
Naiá e Narciso

Quem mandou, Narciso?


Quem mandou se apaixonar?

Narciso estava amando


tão profundamente
que na profundeza das águas
lançou-se, já afogado,
buscando o maior desejo
que sua vida breve lhe deu.
Achá-lo foi sua maior alegria
e total destruição.
Quem mandou se apaixonar?

Quem mandou, Naiá?


Quem mandou se apaixonar?
26
Naiá era índia moça, bela,
que os guerreiros da tribo
queriam caçar.
Foi Jaci, a Lua, quem a caçou
– a Lua, esta caçadora de todas as eras.
Naiá viu Jaci nas águas,
achá-la foi sua maior alegria
e total destruição.
Quem mandou se apaixonar?

Quem mandou, Narciso?


Quem mandou, Naiá?

Pois as águas espelhadas,


(Que mágica têm? Não sei)
chorando por causa da dor
dos amantes não-amados,
não podiam ser cruéis,
27
não queriam ser de túmulo
para uma coisa tão linda
que é o amor apaixonado.
Ninguém mandou se apaixonar.

Quem mandou, Narciso?


Quem mandou, Naiá?

Resolvem que Narciso e Naiá


merecem continuar vivos,
tão bonitos, os dois.
Bonitos, que parecem flores.
Narciso tem cores mil;
Naiá é vitória-régia,
rainha das águas calmas.
Homenagem a algo tão lindo
como o amor apaixonado,
que ninguém manda.

28
Canarana
(A Guimarães Rosa)

Vai, voadeira, risca o rio,


abre em V as águas ricas.
vai, voadeira, rasga as águas,
faz-me ver além da limpeza e
do pretume que enche o leito.

Vem, vento, e joga água


nos cabelos desgrenhados,
vem, vento, faz que eu feche
meus olhos diante da foz,
do fel, do fundo, do vão.

29
Ao sabor da água e do vento,
feito canarana,
o ser-não-sendo
cortado pela voadeira
e a terceira margem do rio
deixando o caboclo louco.

30
Muiraquitã

Recebe, amor, o meu presente


neste Dia dos Namorados:
um colar dourado e um pingente
– com um sapinho desenhado –

O que ele te fala, quando olhas


dentro dos olhos cravejados
de pedras verdinhas do rio?
Por que te deténs, assustado?

Entendes a sua mensagem?


Entendes o meu desejar?
Entendes? A lua está cheia
e eu, cheia de sede de amar.

31
Tucunaré

Pescador, quer briga boa?


Vá pegar tucunaré,
que ele desliza macio,
sacode e puxa você
nas embaladas do rio.

Vá, porém, olhe não seja


pescado pelo danado;
pescador gosta de história...
se mentir muito é pecado
e desmerece a vitória.

32
Pescador, quer emoção?
Vá pegar tucunaré,
que ele nada tão veloz,
o fio enrosca seu pé
e dá, dez vezes, dez nós.

Vá, porém, olhe não seja


pescado pelo matreiro;
que ele te pesca, eu já sei.
Eita, peixim sorrateiro!
Das águas do rio, é o rei.

33
Iaçã

Tempo de fome – o cacique deu ordem:


mate-se toda criança nascida
pra conservar o restante da taba.
Iaçã, filha do cacique, sofria.
Nascera-lhe uma menina saudável,
forte – porém, morreria nas mãos
do próprio avô, pela lei carniceira.

Não se deve presumir que concordem


as mães com tal medida desmedida,
e a dor (de morrer no filho) não acaba,
pois não resta esperança ou alegria.
Fado infeliz, de frieza infindável,
morte – e Iaçã se afastou dos irmãos,
do próprio pai, na ânsia carpideira.
34
Porém, antes que os primeiros acordem,
a menina aparece à mãe ferida,
em sonho, em semblante de icamiaba,
chama-a para fora, na manhã fria,
dá-lhe um beijo na fronte laureável.
Norte – pra lá a menina atira uns grãos.
A mãe acorda, abraçada à palmeira,

palmeira como nunca então se viu!


Seus frutinhos, escuros, reluzentes,
frutinhos que choram – Iaçã sorriu,
ela os teria ali perto, presentes.
O cacique, aturdido, decidiu
que não seriam mortos os nascentes.
Iaçã com açaí a tribo nutriu.

35
Monte Roraima

Sempre existiu uma era


na qual os homens eram
plenamente felizes.
Ela – pena – já era.

Foi-se, e veio o proibido,


veio a árvore vetada,
a avidez por seu fruto,
a vã curiosidade.

“Um cacho foi tirado,


caiu uma grande chuva,
saiu da terra um monte.
Parecia uma mesa
brotada do trovão.”
36
Roraima é o nome dele,
dizem assim os índios.
Ninguém encontrou o fruto,
ninguém achou o ladrão,
só se sabe uma coisa:
Perfeição não combina
com a tal mortalidade.

De que vale a mesa


posta através dos séculos,
com frutos incessantes,
luzentes e intangíveis,
se o grande monte chora?

37
Pororoca

Aves quietas, vento calado.


os caboclos guardam os barcos
o universo emudece para ver
o duelo.

Na hora em que encontrares


as águas do oceano,
elas serão mais que uma muralha
e tu mesmo então crescerás
e transporás a grande embocadura
e lembrarás que teu destino
é a vastidão.
Lembra-te de que és rio
e rios não voltam, nem desistem.

38
Aves caladas, vento quieto.
Os caboclos já fugiram,
o universo umedece,
emudece,
por causa de
um duelo.

E tudo é apenas água.


E as ondas assustam, mas passam.
E o teu curso revive,
e das árvores arrancadas
não se tem mais lembrança:
novas árvores virão.
E em breve estarás de novo
diante do grandioso.
E tuas águas serão parte dele,
serás parte da amplidão.

39
Guaraná

Tua vivacidade, mauezinho,


foi ela que te matou.
Foi tua alegria em tempos de desgraça,
foram teus pezinhos ligeiros,
foram tuas risadas,
foi teu cantar.

Jurupari não podia


te ver feliz, mauezinho.
e teus arilos brilhantes,
quais joias bravas no breu,
tornavam os homens mais fortes.

40
Jurupari não podia
te ver dançar, mauezinho,
e suas garras horrendas,
terríveis, ríspidas, rudes,
cresciam de inveja,
no desejo de ser mauezinho

Foi a inveja de ti, mauezinho,


que matou Jurupari.

Jurupari não podia


nem te ver, bom mauezinho.
mas a natureza é bela,
a terra não te acabou:
só te gerou guaraná.

41
Manaos Railway

O bonde parou.
Vazio de gente.
Cheio de história,
o bonde – plenivíduo.

Tem a história da moça triste


que imaginava namorados.
Tem a história do pai de família
que perdeu o emprego
no dia do seu aniversário.
Tem a história do indiozinho
que achava que o bonde era um bicho.
Tem a história da mãe
que enjoou no bonde
e era mais um indiozinho.
42
Tem a história do rapaz
que estendeu seu lenço à moça triste
e foram felizes para sempre.
Tem a história da contadora de histórias
que pegava o bonde para ver
as histórias dos outros.
Tem a história do deputado
que perdeu o bonde da história.

O bonde passou,
o bonde parou;
a cidade inteira se mexe.
O bonde – plenivíduo –
tem mais da cidade de outrora
do que a cidade de hoje
tem, de seu bonde, em memória.

43
Palácio da Justiça

Os doutores aproveitam o intervalo


para nova discussão:
“É lícito amar sem ser amado
ou não?”

Depois de apreciadas
as divergentes opiniões,
os testemunhos colhidos,
a doutrina e a jurisprudência,
depois de mil datas-vênias
e outras expressões delicadas
de “discordo das considerações
de Vossa Excelência”,
Marinildes, em sua moldura,
única mulher entre eles,
44
observa o rumo da prosa,
com seu olhar de reprovação.

Uma vez negado o amor,


cabe recurso?
Algo de tamanho valor
pode ser deveras gratuito?
Ou obriga a uma compensação?

E as entrevias
do que é de fato
e do que é de direito
faziam bigodes coçarem
e cenhos franzirem.
Os corações (ah, os corações!),
estes calavam-se,
que de direito
eles nada sabem.

45
Teatro Amazonas

As árvores brincam de roda


na Praça São Sebastião.
suas copas, Copélias,
movem-se verdes sempre,
sempre Verdis,
durante as Quatro Estações,
Vivaldíssimas.

São elas o coro das tragédias,


a risada das comédias,
e no Natal se enfeitam
para a chegada do Messias.

46
Chamam os transeuntes ao espetáculo
em rapsódias, valsas, polcas, marchinhas,
samba, chorinho e boi.

Um minuto, um Minueto;
e continua a Dança das Horas,
desde a manhã de Peer Gynt
até os últimos Noturnos acordes
que despertam as almas à arte.

(Poema publicado na Antologia do 1o. Prêmio Cassiano Nunes


– Concurso Nacional de Poesias, da Biblioteca Central da
Universidade de Brasília – 2009)

47
Luar da Amazônia

Tudo para pra ver,


pairando, a pura, alta e branca
senhora do firmamento.
Nada te suplico, ó dômina,
senão olhar para ti
no calor da noite ampla,
no amplexo de um halo rútilo
que me conserva cativo,
no teu semblante elegíaco
que de repente me lança
todo pra dentro de mim.

48
Boto

Bota o boto na ciranda,


quero ver ele dançar,
quero ver jogar seu charme
e as mocinhas conquistar.

Bota a boto bem no meio,


quero ver ele fugir;
nós queremos ver o boto
dançar tanto, até cair.

Bota o boto na fogueira,


quero ver ele queimar,
chamuscar chapéu e charme
e o seu rosto revelar.

49
Bota o boto na berlinda,
vamos ver o que ele tem;
já brincou, agora pague
a merenda do neném.

50
Encontro das Águas

A negra cheia de curvas descia,


voluptuosa e farta,
em seu vestido verde.
Viçosa, seguia
na certeza do encontro.

Ele fazia gosto


e via a beleza de longe.
“Não demora, vai ser minha!”
E ela se atira, molejando,
nos braços de seu amor.

Os dois se enroscam pra sempre,


um amplexo úmido e vasto,
cada qual com sua cor.
51
Uirapuru

Vem teu ninho, uirapuru, fazer


junto ao meu regaço, onde amanhece…
sozinha eu busco em vão me esconder
do gélido orvalho; vem, me aquece!

Eu corro, uirapuru, na floresta,


a ver se ouço a doce melodia
do canto que me põe a alma em festa,
infestada de melancolia.

Eu corro, uirapuru, no frescor


das matas inda virgens, a ver-te,
para entregar-me, enfim, e esconder-te

52
nos braços, no aconchego do amor,
para ouvir teu canto todo dia,
a vida toda, pura eufonia.

(Publicado em “Os 50 Melhores Sonetos – 2014”, obras


selecionadas no 8o. Festival de Sonetos Chave de Ouro da
Academia Jacarehyense de Letras.)

53
Réquiem das árvores

Ao pé das árvores descansam


aqueles que de mais cortá-las
não cessam.

Requiem aeternam dona eis, Domine,


et lux perpetua luceat eis.

Nem sempre se chora por elas.


De vez em quando vem o mundo
a vê-las.

Requiem aeternam dona eis, Domine,


et lux perpetua luceat eis.

54
Sobe ao céu a escura fumaça.
Ocasião de sacrifício?
Desgraça.

Confutatis maledictis,
Flammis acribus addictis.

55
Sobre a autora

Michele Eduarda Brasil


de Sá é atualmente
professora dos cursos de
Letras da Universidade
Federal do Mato Grosso
do Sul, onde desempenha
suas atividades docentes.
Carioca, morou ainda em
Manaus-AM e Brasília-DF,
antes de se mudar para
Campo Grande-MS, onde
reside desde dezembro de 2018. Participou de vários
concursos literários, com destaque para o Concurso de
Contos Ulysses Serra 2019 (1º lugar), Prêmio SESC de
Poesia Carlos Drummond de Andrade 2018 (finalista), 2º
Concurso Internacional de Poesia da ALACIB -
Academia de Letras, Artes e Ciências do Brasil 2015
(menção honrosa) e X Concurso Contos do Tijuco da
ALAMI - Academia de Letras, Artes e Música de
Ituiutaba 2014 (1º lugar). Publica seus trabalhos em
português no blog Littera pulsa, que mantém desde
dezembro de 2019, e em inglês no blog Michele’s
Literatuesday, criado no início de 2020.

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