Você está na página 1de 19

QUADRINHOS, IDENTIDADE E REDES SOCIAIS: A IDENTIDADE DAS REDES

SOCIAIS PELOS TRAÇOS DE ANDRÉ DAHMER

Fernanda de Alcântara Pestana Bazan

Universidade de São Paulo, Mestranda, São Paulo, Brasil

RESUMO

Este artigo propõe uma análise sobre como as tiras de André Dahmer na série “Quadrinhos dos
Anos 10” refletem o papel das redes sociais na transformação da concepção de identidade desta
sociedade. Com base nos conceitos de construção de identidade de Hall (1997), Woodward (2000) e
Martino (2010), o artigo examina as tiras cômicas cujo conteúdo enfoca o ambiente virtual,
especificamente as redes sociais, partindo dos resultados parciais da dissertação de pós-graduação
“As transformações de uma década nos traços de André Dahmer: comunicação, tecnologias e
relações sociais nos Anos 10”. A partir de uma visão interdisciplinar, o artigo aborda os estudos de
histórias em quadrinhos que consideram as tiras cômicas objeto legítimo para provar esta mudança
de comportamento (Vergueiro, 2017) (Santos e Vergueiro, 2014) e os estudos de comunicação, que
há muito tempo discutem o lugar das mídias na criação e manutenção da identidade individual e
coletiva (Deboard, 1997) (Capurro, Eldred e Nagel, 2013). Assim, a partir da metodologia de
pesquisa de análise de conteúdo (Bardin, 1977), este trabalho divide-se em duas partes: a primeira
consiste em expor a perspectiva acadêmica sobre identidade nos estudos de quadrinhos, seguida de
considerações sobre a pesquisa sobre histórias em quadrinhos no Brasil com a análise de conteúdo
de tiras da série “Quadrinhos dos Anos 10”. A intenção é entender como estas novas plataformas e
redes sociais vêm influenciando o homem na construção do “eu” e do “outro” na visão de André
Dahmer.

PALAVRAS-CHAVE​​: Redes sociais; identidade; Quadrinhos​.

INTRODUÇÃO

Dentro dos estudos de comunicação, há muito se discute o lugar das mídias na criação
e manutenção da identidade individual e coletiva da sociedade da qual se está inserido. Com
o advento da internet e sua popularização em diversas esferas sociais, a perspectiva sobre a
identidade ganha novas interpretações, contribuindo com as teorias da comunicação em
suas acepções da identidade no sentido de algo que se produz, como uma mensagem. O
conceito é que o indivíduo passa a ter mais controle da narrativa ou discurso do que se “é”,
ao mesmo tempo que perde domínio de parte desta identidade que é reelaborada por outras
pessoas que a recebem e a ressignificam. Com a globalização incondicionada da mensagem,
uma nova noção de individualidade e coletividade começa a surgir e se estabelecer nos
meios de comunicação.
Para entender esta dinâmica de construção de identidade dentro das redes sociais,
entende-se que a identidade é arquitetada a partir de escolhas, obrigações sociais e
determinações psíquicas. Assim, segundo o pesquisador Luís Mauro Sá Martino, “não é
sobre quem você é, mas como a identidade que você chama de sua tem sido construída a
partir de milhares de escolhas, acasos, problemas e soluções inventadas continuamente na
vida cotidiana” (MARTINO, p. 13, 2010).
A partir da reflexão de “quem se é”, a identidade é transformada em mensagem ou
informação, tornando-se moeda de troca. Embora este valor de troca possa ser virtual, esta
não é particularidade de nossa sociedade pós-internet. Como um dos pilares do estudo de
sociedade na era digital, o pesquisador Manuel Castells já apontava em seus estudos esta
constante na história humana:
“o termo sociedade da informação enfatiza o papel da informação na sociedade.
Mas afirmo que informação, em seu sentido mais amplo, por exemplo, como
comunicação de conhecimentos, foi crucial a todas as sociedades, inclusive à
Europa medieval que era culturalmente estruturada e, até certo ponto, unificada
pelo escolasticismo, ou seja, no geral, uma infraestrutura intelectual (ver
SOUTHERN, 1995). Ao contrário, o termo informacional indica o atributo de uma
forma específica de organização social em que a geração, o processamento e a
transmissão da informação tornam-se as fontes fundamentais de produtividade e
poder devido às novas condições tecnológicas surgidas nesse período histórico.”
(CASTELLS, 1999, p. 64-65).

Estabelecido que a identidade não é definida apenas pelo indivíduo e que sua
representação não está ditada – pelo menos não diretamente – pela sociedade digital tal qual
a conhecemos hoje, é preciso entender ainda que a identidade individual no ambiente
virtual não se resume entre o que seria “realidade” e “digital”, já que a noção de realidade
abrange outros conceitos. Diante deste quadro, optou-se por entender como objeto as
histórias em quadrinhos por sua representação imagética, mas principalmente pelos
significantes e significados do discurso aplicado pelo autor das tiras.
No presente artigo, importa o fato de os personagens não saberem que quem se “é”
difere do que “se pensa que é” e da maneira como os demais vão entender o que o indivíduo
“pensa que é”, porque, seja dentro ou fora das redes sociais, na construção de um perfil (ou
persona), o indivíduo se define não somente em relação a si mesmo, mas também em
relação aos outros, aos grupos com quem convive e situações políticas, sociais e
econômicas nas quais se vive. Esta relação entre indivíduo e sociedade na internet
influencia inclusive a percepção de que tornar-se visível, mais do que um interesse, passa a
ser algo relacionado à sobrevivência.
A construção de perfis e personas na internet, mais do que qualquer outra mídia,
permite a invenção de identidades, já que o “ser” pode significar apenas “representar”. Ao
se ter contato através de uma tela pelo texto, imagens e sons, ou seja, por uma
representação, temos descrição do que a pessoa em questão “pensa que é”. Por envolver
vários destes dados, qualquer proposta de entender estas identidades deve ser
multidisciplinar, e o que este artigo propõe é entender como as pessoas têm se definido nas
redes sociais a partir da análise de algumas das tiras de André Dahmer. Mas ainda que os o
comportamento individual tente se colocar como exclusivo, a busca de uma identidade
“única” torna-se algo uniforme nas redes sócias, resultando em uma identidade global:
“Trata-se [agora] de uma identidade global, na qual elementos de várias origens
diferentes se aglutinam, se influenciam mutuamente, se definem e redefinem
conforme o uso. Na globalização a cultura é desterritorializada na sua produção e
recepção, as expressões culturais são retiradas de seu contexto original e
reapropriadas de maneira diferente em cada lugar; os significados da cultura são
disseminados de forma desigual, ao mesmo tempo em que as apropriações são
altamente contextuais” (Martino, 2010, p.63)

ESTUDOS DOS QUADRINHOS PARA ENTENDER A IDENTIDADE


A escolha das histórias em quadrinhos para perceber as mudanças que a internet têm
provocado no homem está presente no projeto de mestrado “Quadrinhos dos Anos 10”,
principalmente com a crítica que o autor André Dahmer faz normalmente em apenas três
quadros. A decisão pelas tiras cômicas como objeto neste projeto dentro do universo teórico
das histórias em quadrinhos se baseia na defesa do pesquisador Paulo Ramos (2009) de que
cartuns, charges e tiras consistem em gêneros dentro dos estudos das histórias em
quadrinhos e que se diferenciam de acordo com sua forma de distribuição, linguagem e
público. Neste sentido, Ramos ressalta a peculiaridade das tiras, uma vez que “no universo
dos quadrinhos, não seria equivocado dizer que as tiras constituem um mundo próprio. Essa
singularidade toda ajuda a justificar a necessidade de um olhar particularizado sobre elas”
(RAMOS, 2017, p. 7).
Esta crítica está presente em diversas obras quadrinhísticas, no cerne dos trabalhos
que envolvem a crítica cotidiana e a arte, como aponta Moacy Cirne:
“Ao nível gráfico, cumpre destacar a importância da relação cartum/quadrinhos para
a prática quadrinizante brasileira e latino-americana. Mas esta relação, que tem suas
mediações narrativas e visuais, não é exclusiva, nem esgota o que de melhor existe
em nossa produção de quadrinhos. O cartum tem um discurso próprio. Entre nós,
contudo, o quadrinho cartunístico é uma realidade semiológica (...)” (CIRNE, 1982,
p.23).

Com o desenvolvimento de inovações tecnológicas constantes, é difícil a definição


dos estudos da internet como algo “novo”, ou mesmo dizer com precisão quais seriam os
primeiros ​webcomics brasileiros, com características verdadeiramente voltadas a esta nova
plataforma. A lógica não linear das plataformas digitais perante os métodos acadêmicos
permite certa flexibilidade para falar do trabalho de André Dahmer como algo original
quanto à perspectiva de identidade, que se cria não apenas no ambiente digital mas também
fora dele, usando a internet como ferramenta na construção da identidade fora da esfera
digital.
A escolha das tiras de André Dahmer vem da contribuição do autor para debater pelo
humor esta identidade ligada à maneira de como se explica o mundo na década de 2010 e na
simplificação de narrativas que se constroem a respeito da realidade imaginária do autor.
Estas narrativas estão interligadas às identidades refletidas nos personagens, fabricadas por
meio da marcação da diferença entre os pensamentos das pessoas em concordar (ou não)
com os valores colocados desta década. Para Woodward (2012), essa forma de retratação é
uma das chaves para entender a importância do estudo de identidade, pois:
“a marcação da diferença ocorre tanto por meio de sistemas simbólicos de
representação quanto por meio de formas de exclusão social. A identidade, pois, não
é o oposto da diferença: a identidade depende da diferença - a simbólica e a social -
e são estabelecidas, ao menos em parte, por sistemas classificatórios”
(WOODWARD, 2012, p. 40).

A entrada dos quadrinhos na internet abriu um campo de possibilidades até então


pouco exploradas devido às limitações dos espaços impressos para esta arte. O preço foi a
infinidade de materiais produzidos de qualidade que se perdem, além da autoridade
atribuída aos seus usuários de internet com um suposto poder julgar os artistas com
ferramentas como “curtir” e “compartilhar” no processo de comunicação. Estas estratégias
de comunicação têm sido usadas não somente nas relações pessoais, mas como uma forma
de contato entre políticos e cidadãos, servindo inclusive como recurso de engajamento
cívico (Murtha, F. Ituassu, A. Capone, L. Leo, L. Rovere, RL, 2016).
A convergência entre quadrinhos e redes sociais permite que os usuários não somente
criem vínculos com o personagem de uma história, mas com o próprio autor, unindo muitas
vezes os dois em uma única representação. E as críticas que o autor expressa não deixam de
ser algo que incomoda o público, já que “desenhista” é também uma forma de expressar sua
identidade a partir de uma característica. Tudo isto colocado, o que segue abaixo são
algumas interpretações dos quadrinhos de Dahmer com base no que ele vê como identidade
nas redes sociais nos dias de hoje.
As Ciências Humanas se empenham arduamente na descoberta de como se dão as
relações do homem na sociedade e esbarram nos Estudos da Comunicação quando chegam
ao questionamento sobre o que acontece com o ser humano no uso das tecnologias de
comunicação. A pergunta vai muito além da comunicação ou da tecnologia, uma vez que o
aperfeiçoamento de novos dispositivos afetam não somente nossa percepção, mas também a
recriação das sensações e interferem na mente humana.
Figura 1 – DAHMER, 2016, p.135
Na crítica da Figura 1, o autor expõe a sensibilidade e dinâmica das relações humanas
– neste caso, uma relação amorosa entre um casal. Dentro do conceito de identidade
apresentado por Kate Woodward (2007), o sujeito do quadrinho, ao tirar foto de um
“adeus” de sua esposa, mostra sua preocupação com o compromisso com o registro (nas
redes sociais), muito maior do que a tentativa de salvá-la; é esta a transformação do sujeito
de 2010, cuja identidade social e psíquica foi alterada pelas redes sociais, comportamento
apontado pela esposa antes de se jogar. Os laços entre o pessoal e o social, o “eu” e a
“sociedade”, sofrem uma alteração do conceito da própria existência, caso também presente
na Figura 2.

Figura 2 – DAHMER, 2016, p.8

Na Figura 2 fica ainda mais claro o discurso sobre as relações humanas e a presença
da internet não como intermediário, mas como terceiro sujeito, tomando o lugar da presença
física. Utilizando ainda conceito de Kate Woodward (2007) sobre identidade, a tecnologia
mostrada pelo computador mostra que a transformação não ocorre somente no discurso
desta identidade, mas também em seu ambiente físico e social. Da perspectiva do geógrafo
Milton Santos (1994), podemos incluir também a ideia de presença do “ser-aí” colocada em
questão: o “estar” resume-se ao físico ou à ubiquidade onipresente da imagem virtual?
Aplicando à figura 2: o personagem está conversando com a pessoa do segundo quadrinho,
pretensamente ao seu lado, ou apenas “não escutando-a”, fazendo parte das pessoas
conectadas?

Figura 3– DAHMER, 2016, p.59


A figura 3 exalta o que vimos anteriormente sobre a imagem projetada, como
mensagem ou representação ou representações da realidade; ambos os personagens usam
roupas de época apenas para remeter o leitor da tira à ideia de romantismo. A declaração do
homem, feita de joelhos, conta com a reviravolta do último quadrinho ao mostrar que
distingue seu “eu” projetado na rede social do Facebook, com o “eu” presente; é uma
espécie de transparência artificial de si mesmo, criada para ser vista, de uma subjetividade
compartilhada. Lembra Luís Mauro Sá Martino:

“No virtual não é mais necessário estabelecer laços entre o real e o imaginário… é uma imagem
voltada para o outro, um público. É difícil, se não impossível, avaliar até que ponto essa criação
é consciente” (Martino, 2010, p.123)

Nesta criação de uma identidade virtual, é possível se transplantar ou fugir do que se


“é” sem que um atrapalhe o outro. Um espaço que não é o da representação, mas da
simulação, “uma fragmentação caleidoscópica das representações da realidade”
(MARTINO, 2010, p. 42), ou, como defendem outros estudiosos mais recentes, algo
próximo do conceito ​whoness,​ ideia também colocada na figura 4. A popularização e
acessibilidade de ferramentas para a criação de identidades também está relacionada ao
barateamento e acesso a diversos dispositivos conectados – afinal, se antes uma pessoa
precisava de todo um aparato material e intelectual para entrar na internet, hoje basta ter um
domínio suficiente de um celular para colocar em prática quaisquer ideias a respeito da
rede.

Figura 4 – DAHMER, 2016, p.198

Este conceito está presente também na mensagem de que “todos mentem na internet”,
que não é nova, mas passou por algumas fases até chegarmos ao conceito de ​fake news tal
qual conhecemos hoje. Tendo as narrativas pessoais como uma das mais poderosas
configurações de identidade, seria impossível diante da realidade humana não construir ou
projetar os desejos em cima desta identidade que não é mais facilmente conferível. A
pergunta de “até que ponto essa narrativa é verdadeira?” não faz sentido, já que a verdade
não faz diferença para a visão do autor de si mesmo. A figura 4 faz humor exatamente
nisso: pessoalmente, para ambos, não importa se o perfil era uma mentira, mas para a
senhora, fisicamente, ter uma pessoa que mente sobre sua afeição pode importar muito.
Figura 5 – DAHMER, 2016, p.191

Na figura 5 é possível observar uma perspectiva diferente sobre alguns conceitos das
relações humanas e tecnologia. A primeira e mais evidente é o uso da palavra
“compartilhar” e sua extensão de significado. Enquanto o primeiro personagem, desenhado
como alguém com boas condições sociais, usa o termo compartilhar para uma divulgação
de conteúdo, o segundo pensa no sentido humanitário ou religioso da palavra.

A crítica social sobre a ideia da ausência de caridade e altruísmo social é um tema que
é bastante presente nos trabalhos de Dahmer. Embora sejam muitas as causas com que as
pessoas se engajam no mundo virtual, a preocupação com o que está exposto na sua frente,
em sua realidade presencial, cede lugar a vídeos de entretenimento barato (como vídeos de
gatinhos) ou mesmo caridade em lugares distantes de sua realidade. A própria ideia de
comunidade foi alterada na reconfiguração da distância: hoje, sua comunidade é aquela com
a qual você tem uma mútua afinidade e não ao espaço geográfico. Neste sentido, vale
lembrar uma passagem de Hall:

“Há a produção do eu como um objeto do mundo, as práticas de autoconstituição, o


reconhecimento e a reflexão, a relação com a regra, juntamente com a atenção
escrupulosa à regulação normativa e com os constrangimentos das regras sem os quais
nenhuma subjetivação é produzida” (Hall, 1997, p. 125)
Figura 6 – DAHMER, 2016, p.310

A figura 6 apresenta alguns elementos da reflexão sobre compaixão e proximidade,


embora aqui trate com mais especificidade a banalização da violência e como expressar a
identidade na cultura em que a vida normal precisa ser extraordinária. Luís Mauro Sá
Martino trabalha com o conceito de como esta expectativa pelo comentário altera a própria
escrita. “Em alguns casos, a expectativa de ver os textos a respeito do que era postado se
tornava um dos motivos da exibição em si”. Um dos questionamentos para esta dinâmica da
internet seria, portanto, a necessidade de registrar cada fato como paliativo para a dinâmica
do cotidiano, cada vez envolta da velocidade da vida contemporânea. Temos a pergunta: o
que seria mais brutal e, logo, daria mais visibilidade - uma selfie com um pobre ou uma
selfie com um cadáver?

A ideia de selfie ao longo da História não é nova, sua perspectiva de mundo ditou o
pensamento humano durante séculos. Enquanto na Idade Média o homem se concebia
diante do olhar de Deus, no Renascimento o homem coloca-se como centro do mundo e
responsável pela construção da própria existência. A última mudança radical deste olhar,
defendem alguns estudiosos como Guy Debord, seria o que chamamos de “sociedade do
espetáculo”: este lugar em que o sujeito que se constrói para ser visto, num lugar virtual que
“se ninguém vê, é porque não existe”.
Figura 7 – DAHMER, 2016, p.195

Como este novo olhar influencia toda a sociedade, as formas de trabalho e a arte
também se tornam ditadas por estas regras, e na Figura 7 o autor brinca com a dinâmica do
trabalho em uma reflexão do próprio exercício profissional. Assim, todas as pessoas que
quiserem sobreviver no mundo virtual devem produzir em larga escala e “ser autor” através
de suas identidades estabelecidas, que devem ser documentadas, colecionadas, acumuladas
e expostas nas redes sociais, no que seria um “processo de musealização de si”
(MARTINO, 2010, p.51).

Figura 8 – DAHMER, 2016, p.130

Já na figura 8 temos uma continuidade da ​selfie n​ ão como um autorretrato privado,


mas como uma imagem de disseminação diante do outro, representado pelo medo da
finitude material. Esta é a versão de “fama” que André Dahmer trabalha na tira, tendo em
consideração que se de alguma maneira “existir” atualmente significa “aparecer”, a
exposição de si pode ser vista como uma consequência do domínio da imagem nas relações
sociais. E diante da irremediável passagem do tempo e da memória que parecem se acelerar
diante da internet, consegue-se retardar o esquecimento? Ou vivemos o infindável dilema
entre “ser alguém” e “aparentar ser alguém na mídia”?

Figura 9 – DAHMER, 2016, p.73

A figura 9 apresenta uma piada sobre o que acontece com a identidade de uma
celebridade nesta cultura virtual. Segundo Martino (2010), a criação de celebridades vem
do cinema: pessoas queriam saber mais sobre a pessoa ali na terra e seu dia-a-dia e
progressivamente faziam a diluição entre representação da personagem e identidade do ator,
tentando entender até que ponto seria possível dizer quem era quem fora da tela. A
possibilidade de não ser identificado na internet intensificou ainda mais esta curiosidade e
possibilitou a cultura de ​haters (em tradução livre, odiadores): pessoas que disseminam na
rede discursos repletos de estereótipos e preconceitos, atuando diretamente na consolidação,
exposição e intensificação de estigmas sociais. Embora estejam presentes em várias redes
sociais e fóruns, os ​haters ​ganham visibilidade no Twitter pelos dados e aproximação com
os artistas que a rede proporciona. Assim, no “mar de pessoas” da rede, no quadrinho
representadas por cobras, nadam predadores ainda piores (​haters​).
Figura 10 – DAHMER, 2016, p.305

A figura 10 é uma visão pessoal de três das redes sociais mais populares no Brasil. A
primeira se refere ao Tinder, aplicativo de encontros amorosos que ficou conhecida
subliminarmente por ter usuários com objetivos de relações sexuais casuais, indicadas pelo
autor como as “refeições rápidas”. A segunda casa seria o Twitter, conhecida no Brasil por
ter um perfil mais jovem entre os usuários. Com o limite de 140 caracteres, a rede também é
conhecida por um fluxo constante e rápido de informações, o que pode manifestar um
comportamento “compulsivo” dos usuários, tal como colocado pelo autor. Por fim, a tira
apresenta o Facebook como “diversão para idosos” pelo caráter mais leve da rede, que não
tem limite de caracteres e popularmente atrai conteúdos como vídeos de gatinhos, como já
colocado anteriormente.

Conclusão

O conceito de identidade proporciona muitas perspectivas e interpretações, assim como a


iminente evolução da tecnologia. A ideia de trabalhar com esses dois conceitos para
entender a complexidade de algumas tiras de André Dahmer, acrescida do sentimento de
pertencimento e desenrolar da história recente, é o motivo pelo qual os quadrinhos são uma
forma eficiente para entender diversos assuntos. A maneira como algumas tiras cômicas
podem traduzir e ressignificar conceitos fazem dos quadrinhos uma importante ferramenta
de cultura e história.
A liberdade de propor as histórias em quadrinhos em um estudo apenas é possível
pela luta de muitos apreciadores da arte que fizeram história nas últimas décadas, e incluir
os estudos de identidade e internet apenas acresce à Academia, em sua forma mais pura de
liberdade de expressão e cultura do saber. Este artigo propôs elucidar alguns conceitos e
ideias sobre identidade desta geração virtual, com ênfase nas ilustrações de André Dahmer,
um dos desenhistas que mais representa a ascensão das ​webcomics humorísticas. Com a
base teórica sugerida, é possível confirmar as conexões e interações além da linguagem
escrita nas tiras – mensagens que muitas vezes passam despercebidas até mesmo pelo
criador da obra, tal como se dão as interações simbólicas.
Cada uma destas áreas do saber tem suas particularidades quanto à apropriação de
seu sentido, e obviamente este artigo apenas tenciona algumas perguntas feitas pelo
desenhista sobre o contexto social atual diante das transformações da internet. Entretanto,
ao entender e encarar esses desafios, a proposta colocada aqui traz inúmeras possibilidades
de aprendizado sobre as relações humanas e suas significações.
BIBLIOGRAFIA

CAPURRO​, Rafael; ​ELDRED​, Michael; ​NAGEL​, Daniel. ​Digital Whoness:Identity,


Privacy and Freedom in the Cyberworld​​; Deutsche Nationalbibliothek; 2011-2013

CASTELLS, Manuel. ​A sociedade em rede​​. São Paulo: Paz e Terra, 1999. v. 1.


CIRNE, Moacy. ​História e crítica dos quadrinhos brasileiros​​. Rio de Janeiro: Europa,
Funarte, 1990.

__________. ​Uma Introdução Política aos quadrinhos​​. Rio de Janeiro: Ed.


Achiamé/Angra, 1982.

DAHMER, André.​ Quadrinhos dos Anos 10​​. Rio de Janeiro: Desiderata, 2008.

DEBORD, Guy. ​A sociedade do espetáculo – ​Comentários sobre a sociedade do


espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

HALL, Stuart. Quem precisa de Identidade? (1997). In: SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.)
Identidade e diferença​​: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.

KARHAWI​, Issaaf. Egomuseu: (auto)representação nas redes sociais. COMUNICON,


2015. Disponível em:
<​https://lookaside.fbsbx.com/file/Espetacularizacao_do_Eu_e_selfies_um_ens.pdf?token=
AWxLC14UaWuj9eGWlFzPS8sE5t-iH6L0jHXDEeyEdhndV16pt8PnGasT4X8E4Q7XuW
yVpZoSmMEeJ-kr1_bt2pT0HL2E4VnNwFsx8YWX979TFkfmRkUzOG8GeXlwJSJ6S97
GxyUO3HCNEo6JB7zfauK7ZRmG2lMWuz86M_cfr800GhN-x82HosAkOV5JvTAt_XQ2
D7rHr1hK80XF_DssXrP1​> Acesso em 07/01/2018.

MARTINO, Luís M.S. ​Comunicação e Identidade​​. São Paulo: Paulus, 2010.


RAMOS, Paulo. ​A leitura dos quadrinhos.​​ São Paulo: Contexto, 2009.
__________. ​Tiras no Ensino​​. São Paulo: Parábola Editorial, 2017.

SANTOS, Milton. ​Espaço e método​​. São Paulo: Nobel, 1994.


SIBILIA, Paula. ​O show do eu: A intimidade como espetáculo​​. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2008.

Woodward, Kate. ​Understanding identity​​. Londres: Arnold, 2007.


WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In:
SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.) ​Identidade e diferença​​: a perspectiva dos estudos
culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.

Você também pode gostar