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LICENCIATURA EM DIREITO

TRABALHO INDIVIDUAL DE TCC

ENQUADRAMENTO TEÓRICO: DIVERSIDADE DE PARADIGMAS E DE


TEORIAS SOBRE A REALIDADE SOCIAL/JURÍDICA ANOLANA

Alberto Carlos Mangenda

Professor: André Artur Dalama Tchipaco, Ph.D

LUBANGO
2020
Resumo
O presente trabalho tem como tema Enquadramento teórico, diversidade de paradigmas
e de teorias sobre a realidade social ou jurídica angolana, cujo objectivo é compreender
a relevância do enquadramento teórico em trabalhos acadêmicos bem como conhecer as
teorias ou paradigmas de elaboração de um trabalho acadêmico ou científico. O
enquadramento teórico é um meio indispensável para todo trabalho de investigação
científica, pois, proporciona ao pesquisador identificar os limites das generalizações e as
variáveis que podem afetar o estudo a realizar. Ademais, também é imperioso a selecção
de paradigmas ou teorias que busquem relacionar e dar sentido aos factos a serem
estudados, e que facilitam a produção e desenvolvimento de conteúdos, cabendo-lhes
legitimar e aprovar os factos à medida que vão surgindo. Concernente a metodologia
para elaboração deste trabalho, recorremos a pesquisas bibliográfica e documental.
Tendo em conta a característica do trabalho, não organizamos em capítulos,
restringimo-nos a apresentá-lo em uma única parte. Na elaboração de trabalhos
acadêmicos é salutar que o aluno saiba justificar o problema levantado, fazendo recurso
ao enquadramento teórico ou conceptualização, tendo como suporte teorias científicas
que corroboram com o facto a ser estudado. Estas teorias adequam-se aos diversos
paradigmas, que na realidade angolana são utilizados os paradigmas mais comuns no
âmbito social ou jurídico e que podem ser associados a pesquisa quantitativa ou a
pesquisa qualitativa.

Palavra-chave: Enquadramento teórico; Paradigma positivista; Paradigma


interpretativo.
Sumário

INTRODUÇÃO..................................................................................................................3
1-Enquadramento Teórico.................................................................................................4
1.1 -Paradigmas de pesquisa na realidade social e jurídica angolana............................5
1.2- Paradigma positivista..................................................................................................6
1.3- Paradigma interpretativo...........................................................................................7
CONCLUSÃO....................................................................................................................9
Referências........................................................................................................................10
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INTRODUÇÃO

A ideia que se tem enquadramento teórico e de paradigma é uma prática recorrente no


dia-a-dia de um investigador científico, pois têm como finalidade garantir a validade e
veracidade do estudo ou pesquisa. A pesquisa científica se inicia por problemas, para os
quais devemos apresentar hipóteses como tentativas de solução que requerem provas.
Para que seja provada uma hipótese, deve ser a princípio verificável e seguir critérios
teóricos que a fundamentem.

Todo facto científico deve estar vinculado a uma determinda corrente epistemológica,
que por sua vez, visa atribuir primazia ao desempenho teórico no processo de pesquisa,
principalmente nos momentos da ruptura com o senso comum e da construção do
objecto de estudo. Toda teoria apresenta-se como uma matriz que dirige a investigação.

O presente estudo tem como tema: Enquadramento teórico e diversidade de paradigmas


e de teorias sobre a realidade social/jurídica angolana, destacando o papel que estes
elementos representam na elaboração de um trabalho científico. O tema insere-se na
disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso e temos como objectivos específicos:
descrever as fases de um enquadramento teórico e identificar os principais paradigmas
ou teorias que devem constar num trabalho de pesquisa científica.
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1-Enquadramento Teórico

O enquadramento teórico caracteriza-se pela conceptualização de um tema ou


um domínio de investigação, tendo início quando o investigador trabalha uma ideia no
sentido de orientar a sua investigação. Essa ideia pode resultar de uma observação, da
literatura, de uma inquietação pessoal, ou mesmo de um conceito. Contudo, para que o
estudo seja realizável é imperioso que o seu domínio seja delimitado e conceptualizado.
Esta conceptualização só é possível mediante teorias levantadas por outros autores que
visam apresentar uma base de fundamentação sobre o facto ou problema levantado.
Kaplan, (1975:302) citado por Markoni e Lakatos, (2003:121), considera uma teoria
com sendo "um meio para interpretar, criticar e unificar leis estabelecidas, modificando-
as para se adequarem a dados não previstos quando de sua formulação e para orientar a
tarefa de descobrir generalizações novas e mais amplas" deste modo, o objectivo
fundamental de uma teoria em trabalhos de pesquisa é o de procurar compreender e
explicar os fenómenos de maneira conceptual.

Esta conceptualização para Fortin (1999:39) citado por Carla silva (2011:23), vai
então traduzir-se a “um processo, a uma forma ordenada de formular ideias, de as
documentar em torno de um assunto preciso, com vista a chegar a uma concepção clara
e organizada do objecto em estudo”. E o enquadramento teórico, também designado por
referencial teórico será essa conceptualização que irá fortalecer o estudo em diversas
maneiras, isto é: permitirá ao leitor avaliar as afirmações teóricas; conecta o pesquisador
ao conhecimento existente e ajuda a identificar os limites das generalizações e as
variáveis que podem afetar o estudo.

Em virtude de sua natureza aplicável, uma boa teoria é de grande valor


justamente porque cumpre um objetivo principal que é de explicar o significado, a
natureza e os desafios associados a um determinado fenômeno, para que esse
conhecimento possa permitir uma actuação mais informativa e eficaz.

A primeira parte de um artigo acadêmico, uma monografia, dissertação, tese ou


outros, após os elementos pré-textuais e respetiva introdução é o enquadramento
teórico. Que deve conter dois ou três capítulos, que definem o contexto sócio-técnico do
estudo que pode ser teórico, ou prático. Assim, de modo geral estamos a falar dos
seguintes capítulos:
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Capítulo 1: Neste capítulo deve conter o contexto e história do problema a


resolver ou a caraterização do objetivo a atingir, a sua origem, evolução e atualidade.
Aqui, devem aparecer dados que permitam compreender a dimensão e a relevância do
problema nas suas dimensões técnicas ou sociais.

Capítulo 2: É o capítulo da teorização ou de conceitos assentes no modelo de


análise. Que devem permitir compreender ou explicar a problemática associada através
de teorias, modelos ou outra estrutura que exista na literatura e  que permita endereçar
ou colocar em prática a acção pretendida no trabalho.

Capítulo 3: Deve conter as estratégias, metodologias, técnicas de


desenvolvimento ou de criação que permitem preparar e fundamentar as atividades da
parte prática.

No fim do enquadramento deve ser tecida uma síntese final que prepara o leitor
para a parte empírica do projeto. Mas que acima de tudo, para além de preparar
concetualmente o leitor para o trabalho desenvolvido, apresenta os argumentos teóricos
que irão ser usados para suportar ou explicar as atividades e resultados da prática.

1.1 -Paradigmas de pesquisa na realidade social e jurídica angolana.

A partir de diferentes visões ontológicas e epistemológicas, geram-se diferentes


paradigmas de pesquisa que podem ser adotados em uma determinada área de
investigação.

Existe vários paradigmas associados a diferentes pesquisas, neste estudo


abordaremos os dois principais paradigmas mais aplicados no contexto da pesquisa
social ou jurídica na realidade angolana, que são: o paradigma positivista associado à
pesquisa quantitativa e o paradigma interpretativo associado à pesquisa qualitativa.

Antes de mergulharmos no assunto sobre paradigmas, que é o escopo principal


desta parte do nosso trabalho, é necessário clarificar o termo pesquisa no seu âmbito
mais geral e de forma mais particular, deste modo , pesquisa refere-se a indagação ou a
procura de algo e o motor que move uma pesquisa é a pergunta, como por exemplo:
qual é a relação que existe entre o crime de peculato e o crime de corrupção? Para
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responder esta pergunta, precisamos procurar respostas através de procedimentos


racionais e por meio da observação ou de factos vividos; é a esta procura por respostas
que consideramos por pesquisa. Numa abordagem mais elaborada, a “pesquisa é o
processo formal e sistemático de desenvolvimento do método científico, cujo objetivo
fundamental é descobrir respostas para problemas mediante o emprego de
procedimentos científicos.” (Gil, 2008) cujo objectivo fundamental é resolver
problemas e solucionar dúvidas. A pesquisa visa também a produção de conhecimento e
consequentemente a aprendizagem.

Já a pesquisa social é entendida numa vertente mais abrangente, pois envolve


necessariamente o homem como elemento principal, as suas formas de manifestação e
relação com outros homens ou instituições. A pesquisa jurídica assemelha-se à pesquisa
social por partilhar o elemento chave que é o homem mas diferem no sentido de que a
ciência jurídica apresenta um objecto essencialmente histórico, onde as “coisas”
(Durkheim) são um constante vir-a-ser, quer dizer, a realidade estudada em Direito está
intrinsecamente relacionada com as suas formas de variação e transição.

Determinado o tipo de pesquisa, surge o paradigma ou teoria que funciona como


uma luz que orientará o trabalho, o paradigma adoptado será determinado pelo
problema de pesquisa que esta sendo investigado, e também pelas suposições assumidas
pelo pesquisador. Um paradigma fornece uma estrutura que contém um grupo aceite de
teorias ou melhor, um grupo de investigadores que aceita e partilha teorias, métodos
científicos e maneiras de definir dados.

Thomas Kuhn é o filósofo da ciência que popularizou o termo paradigma.


Apesar de ter adquirido inúmeras conotações em sua obra, o que levou a restringir o
termo em dois sentidos, um mais geral, no sentido de matriz disciplinar e outro mais
específico, no sentido de exemplos compartilhados.

O conceito paradigma não significa aquilo que esta palavra significa em nosso
uso ordinário. Não é simplesmente um sinônimo de modelo. “Um paradigma é a
instância filosófica que irá informar o método de pesquisa” (Crotty, 1998 cidado por
Amarolinda 2009). Segundo Thomas Kuhn, paradigma é um “marco científico com
regras metodológicas, pressupostos ontológicos, generalidades teóricas que são aceitas
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por uma comunidade científica e a partir dos quais realizam suas atividades e
investigações” (Kuhn, 1970).

No contexto do pensamento de Kuhn, paradigma significa aquele conjunto de


conquistas científicas universalmente reconhecidas e pressupostos universalmente
compartilhados sobre o método científico, que durante um período fornecem um modelo
de problemas e soluções aceitáveis aos que pesquisam um certo campo da ciência.

1.2- Paradigma positivista

O paradigma positivista está fundamentado em uma ontologia realista, isto é,


acredita em verdades objetivas, independentes da percepção humana. Ele considera que
a realidade é composta por estruturas palpáveis, tangíveis e relativamente estáveis, ao
que Kant (1781), refere um conhecimento relacionado às experiências e visão do mundo
na perspectiva do pesquisador. Aqui dá-se bastante ênfase a objectividade que vai
consistir na percepção do mundo de modo imparcial e independente das preferências
individuais do sujeito.

O paradigma positivista enfatiza o estudo das relações entre variáveis ou


fenômenos, cujos dados devem ser objetivamente reunidos e processados, com o apoio
de métodos estatísticos, para que então possam ser extraídas previsões e relações
causais entre as variáveis-chave (Gephart, 1999; Myers, 1997 citado por Lima, 2011).

Este paradigma, procura os factos ou causas dos fenômenos sociais,


independentemente dos estados subjetivos dos indivíduos; aqui o único conhecimento
aceitável é o científico que obedece a certos princípios metodológicos únicos. Entre
suas características mais proeminentes está a sua natureza quantitativa que visa garantir
a precisão e o rigor exigidos pela ciência. Quando este paradigma é aplicado às ciências
sociais ou então jurídicas, busca que elas se tornem um conhecimento sistemático,
verificável, comparável, mensurável e replicável. Isto quer dizer que apenas os
fenômenos observáveis são o seu objeto de estudo. Por isso, os procedimentos
utilizados são o controlo experimental, a observação sistemática de comportamento e a
correlação de variáveis.
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Os estudos desenvolvidos sob o prisma positivista visam a um teste de teoria, de


forma a aumentar a compreensão preditiva do fenômeno. A abordagem positivista
também pode ser denominada empírico-analítica e suas evidências serão encontradas,
no emprego de proposições formais, de medidas quantificáveis de variáveis, de testes de
hipóteses, e de inferências sobre um fenômeno obtidas a partir de amostra de uma
população geral (Myers, 1997 citado por Lima, 2011).

A base epistemológica do paradigma positivista resulta da combinação de duas


linhas filosóficas do século XX: a lógica empirista e o positivismo lógico.

1.3- Paradigma interpretativo

No paradigma interpretativo, o pressuposto central é que o acesso a uma


realidade ocorre apenas por meio de construções sociais, como a linguagem, a
consciência e os sentidos compartilhados. Na ótica interpretativa, a ênfase é dirigida às
percepções dos sujeitos e para o significado que os fenômenos têm para estas pessoas,
ou seja, os sentidos que as pessoas lhes atribuem. Esta abordagem paradigmática de
pesquisa também pode ser denominada fenomenológico-hermenêutica.

A ontologia interpretativa é de interação sujeito-objeto, isto é, ela não considera


a existência de uma realidade totalmente objetiva, nem totalmente subjetiva, mas sim,
que existe uma interação entre as características de um determinado objeto e entre a
compreensão que os seres humanos criam a respeito desse objeto, socialmente, por meio
da intersubjetividade. Esta intersubjetividade é um modo compartilhado de ver o
mundo, utilizado pela ciência para decidir o quê e como deve ser estudado certo
fenômeno. O resultado deste estudo requer a compreensão de como “grupos e
indivíduos dentro deles, desenvolvem, expressam, e comunicam sentido algo que uma
observação objetiva não mediada não pode permitir" (Hatch & Yanow, 2003 citado por
Lima 2011).

A perspectiva interpretativa, enfatiza a importância dos significados subjetivos e


sociopolíticos, assim como ações simbólicas na forma como as pessoas constroem e
reconstroem sua própria realidade. A realidade é reproduzida por meio de interações
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sociais; ela não é algo “dado”, à espera de uma descoberta (Orlikowski e Baroudi, 1991
citado por Amarolinda, 2009).

A abordagem interpretativa faz recurso aos métodos, como "a observação,


entrevistas, análise de conteúdo, semiótica, etnometodologia, e análise metafórica"
(Hatch & Yanow, 2003 citado por Lima 2011).

CONCLUSÃO
Como vimos, o elemento principal de um trabalho científico é a busca por respostas e
soluções para problemas intencionalmente formulados e para o efeito é imprescindível
obedecer a um critério rigoroso que perpasse pela teorização do problema ou facto
fazendo recurso a teoria já levantadas por outros pesquisadores e que funcionem como
juiz do trabalho realizado garantindo-lhe a sua verificabilidade e a não falsificabilidade
(Karl Popper). Uma teoria é um conjunto de soluções, respostas, descrições ou
explicações para responder ao problema da pesquisa proposta por uma área do
conhecimento, neste caso social ou jurídico. O objetivo das teorias é compreender e
explicar os fenômenos de uma forma mais ampla, através da reconstrução conceitual
das estruturas objetivas dos mesmos.

É de lembrar que as teorias estão sempre presentes na elaboração de um trabalho


científico e tais teorias estão estreitamente ligadas ao que Kuhn designou por
paradigmas e cada paradigma faz exigências específicas ao investigador, incluindo as
questões que formula e as interpretações que faz dos problemas, podendo ser no âmbito
interpretativo (qualitativo) ou positivista (quantitativo).
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Referências

1- Aires, L. (2015). Paradigma qualitativo


2- Amado, P. (2016) Como desenvolver um enquadramento teórico. Disponível em
<https://pedamado.wordpress.com/2016/12/17/como-desenvolver-um-
enquadramento-teorico/ Acesso em 06/11/2020
3- Castañon, G. (2007) Introdução à epistemologia.
4- Carla Silva (2011). Repositório. Disponível em: <https://repositorio-
aberto.up.pt/bitstream/10216/26624/2/Necessidades%20dos%20pais%20de
%20recmnascidos%20prematuros%20no%20ps%20al.pdf >. Acesso em 22/11/
2020. 13h40
5- Fontainha, F. Hartmann, I. Corrêa, A. Alves, C. e Pitasse, K. (2014)
Metodologia da pesquisa.
6- Gil, A. (2008) Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 6ª Ed. São Paulo: Atlas
7- Godínez, V. (2013). Paradigmas de investigación.
8- Granja, A. Paradigmas de pesquisa científica. Disponível em
<http://www.fec.unicamp.br/~adgranja/index_arquivos/preparacao_definicao_te
ses.pdf. Acesso em 21/11/2020
9- Lima, L. (2011). Revista de Administração Contemporânea. Disponível em
<https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-
65552011000200003&lng=pt Acesso em 22/11/2020
10- Lamy, M. (2011) Metodologia de pesquisa jurídica. Técnicas de investigação,
argumentação e redação.
11- Matitz, Q. Metodologia Científica.
12- Marconi, M. e Lakatos, E. (2003). Fundamentos de metodologia científica. 5ª
Ed. São Paulo: Atlas.
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13- Saccol, A. (2014) Revista de Administração da Universidade Federal de Santa


Maria.