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MINISTÉRIO DA DEFESA

GABINETE DO MINISTRO
COMISSÃO DE ÉTICA

Trabalhos
vencedores do
I Concurso de
Ensaios sobre
Gestão da Ética
Pública
no âmbito do
Ministério da
Defesa

Programa Educacional de Desenvolvimento


do Caráter do Servidor Público – a educação como mecanismo de
fortalecimento da gestão ética pública
1o lugar
Major-Aviador José Luiz Pinto Marques Filho, do Comando da Aeronáutica

Reflexões sobre a ética como valor a ser resgatado


pela Administração Pública e por toda a sociedade
2o lugar
Capitão-Tenente Victor Carvalho Gervásio, do Comando da Marinha

Administração pública, transparência


e responsabilidade no século XXI
3o lugar
1o Tenente da Reserva Não-Remunerada
Silvina Maria da Conceição Sebastião, do Comando da Aeronáutica

Brasília, 2008
2

MINISTÉRIO DA DEFESA
GABINETE DO MINISTRO
COMISSÃO DE ÉTICA

TRABALHOS VENCEDORES DO
I CONCURSO DE ENSAIOS SOBRE
GESTÃO DA ÉTICA PÚBLICA
NO ÂMBITO DO MINISTÉRIO DA DEFESA

Edital aprovado na forma da Portaria no 684/MD, de 15 de maio de 2006,


e da Portaria no 873/MD, de 26 de junho de 2006

Resultado do Concurso homologado na forma da Portaria no 1.310/MD,


de 5 de outubro de 2006

Brasília, 2008
3

Copyright © Ministério da Defesa


Comissão de Ética

Esplanada dos Ministérios, Bloco “Q”, 8o andar, sala 815


70049-900 – Brasília – DF – Telefones (61) 3312-4101 e 3312-8896
ética@defesa.gov.br

Comissão Julgadora do Concurso


(designada pela Portaria no 1.310/MD,de 5 de outubro de 2006)

Adriano Silva Mota


Afonso Oliveira de Almeida Miranda
Afranio Perez Aquino
Antonio Jorge Ramalho da Rocha
Dulce Maria de Sousa Santos Rosa
Francisco Ribeiro Alberto Brick
João Faustino Neto
Janaína Dutra Ferreira
José Luiz Halley
Luiz Felipe Raphael dos Santos
Marcos Nunes Soares
Mauro Sérgio Bogéa Soares
Otto Uwe Voget
Vanja Lúcia Bormann de Souza Lira

Organização do Concurso

Adriano Portella de Amorim


Jovellanos Alves Pereira da Costa
José Raimundo Júnior

Revisão dos trabalhos vencedores do Concurso

Marcos Nunes Soares

Organização e revisão da publicação

Adriano Portella de Amorim

Catalogação bibliográfica

Miraildes Alves Regino

Normalização Bibliográfica BIB/DEADI/SEORI


T758 Trabalhos Vencedores do I Concurso de Ensaios sobre Gestão da
Ética Pública no Âmbito do Ministério da Defesa. Brasília : Ministério
da Defesa, Comissão de Ética, 2008.

38 p.

1. Ética – Administração Pública. I. Brasil. Ministério da Defesa.


Comissão de Ética.
CDU 172.2:35
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Apresentação

O I Concurso de Ensaios sobre Gestão da Ética Pública no Âmbito do Mi-

nistério da Defesa teve por objetivos fundamentais a sensibilização e a formulação de

idéias e de práticas sobre gestão ética, em consonância com as orientações da Comissão

de Ética Pública, com a finalidade de estimular a reflexão sobre o papel e a importância

da ética na Administração Pública, de forma a poder contribuir para o implemento de mu-

danças positivas que conduzam ao aperfeiçoamento institucional, visando ao atendimento

dos anseios da sociedade.

No intuito de fortalecer os aspectos institucionais, o Concurso delineou,

como temas centrais da Administração Pública, a transparência e a responsabilidade, os

desafios ao fortalecimento de padrões éticos e os mecanismos de prevenção contra a

corrupção.

É, portanto, com muita satisfação que na presente publicação são

apresentados os trabalhos vencedores do Concurso, para o fim de levar ao público em

geral uma singela contribuição ao aprimoramento das funções dos órgãos públicos, que

esperamos refletir na melhor atuação institucional, mediante boas práticas que tenham por

fim último a consecução do interesse público.

Adriano Silva Mota


Presidente da Comissão de Ética
do Ministério da Defesa
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Sumário

Programa Educacional de Desenvolvimento do Caráter do Servidor Público – a


educação como mecanismo de fortalecimento da gestão ética pública
1o lugar
Major-Aviador José Luiz Pinto Marques Filho, do Comando da Aeronáutica .......... 6 - 15

Reflexões sobre a ética como valor a ser resgatado pela Administração Pública
e por toda a sociedade
2o lugar
Capitão-Tenente Victor Carvalho Gervásio, do Comando da Marinha ..................... 16 – 26

Administração pública, transparência e responsabilidade no século XXI


3o lugar
1o Tenente da Reserva Não-Remunerada
Silvina Maria da Conceição Sebastião, do Comando da Aeronáutica ....................... 27 – 38
6

PROGRAMA EDUCACIONAL DE DESENVOLVIMENTO


DO CARÁTER DO SERVIDOR PÚBLICO: A EDUCAÇÃO COMO
MECANISMO DE FORTALECIMENTO DA GESTÃO ÉTICA PÚBLICA

José Luiz Pinto Marques Filho1

1. Introdução

Os séculos XX e XXI nos remeteram a novas reflexões filosóficas a respeito da

conduta ética e moral do homem. Hoje são muitos os problemas e as teorias da ética

contemporânea. As transformações radicais levadas a cabo nesse período trouxeram consigo,

também, a necessidade de mudanças comportamentais significativas do homem frente à natureza,

que dá sinais de esgotamento e desequilíbrio do seu meio ambiente; à ciência, que chega no

domínio do patrimônio genético da raça humana; à mídia, que por meio da tecnologia da

informação penetra nos mais recônditos lugares do nosso planeta e tem poder decisivo na

formação da opinião pública; à política, função vital e intrínseca de uma nação, que urge pelo

aprimoramento ético, sem o qual continuará permeada de vícios e distorções graves na sua

condução; e ao Estado, que potencializa a vida em sociedade de uma nação, necessitando ser

dinâmico e eficiente para dar respostas mais rápidas às demandas geradas pelos novos tempos.

O Estado, por meio da sua administração, gerencia o patrimônio público e presta

serviços à sociedade. O Brasil, país continente, possui em seu território riquezas de todos os

gêneros, apresentando-se como um dos maiores potenciais econômicos do planeta, mas que ainda

possui contrastes e desigualdades sociais que nos desafiam para uma tomada de decisão que

possa acelerar a reversão desses quadros. A responsabilidade do Estado na condução desse

processo é imensa e requer sua mobilização total e imediata.

O homem, enquanto servidor do Estado, não deve esquecer da sua condição de

cidadão pertencente à sociedade que clama por melhorias e bem estar. Não há como haver

1
Major Aviador da Força Aérea Brasileira (FAB). Autor do trabalho vencedor do I Concurso de Ensaios sobre
Gestão da Ética Pública no âmbito do Ministério da Defesa.
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transferência de responsabilidade de qualquer parte. A melhoria da nação começa na vontade de

cada indivíduo que a compõe. Contudo, para que isso possa acontecer em sua plenitude, é

necessário que esse indivíduo desperte sua consciência e entenda que suas ações compõem o

quadro sócio-cultural em que vive, tornando-o co-responsável.

A educação, processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e

moral do ser humano, visa sua melhor integração individual e social e é o instrumento mais

adequado para a transformação que almejamos.

Inseridos nesse contexto é que nos engajamos no presente ensaio, ampliando

conceitos da gestão de ética pública, com o intuito de identificar sua importância, assim como

propor, em linhas gerais, caminhos viáveis para o seu fortalecimento.

A administração pública é a interface entre o Estado e a sociedade, originando-se

daí as características que deve possuir nesse terceiro milênio.

2. Administração Pública, transparência e responsabilidade no século XXI

A responsabilidade inerente à administração pública é imensa e tem, no contexto

sócio-cultural do século XXI, um redimensionamento em função da necessidade surgida pelo

advento da comunicação e informação, que exige uma interação cada vez maior entre o Estado e

a sociedade, recaindo sobre esses aspectos um dos maiores desafios para a gestão da ética

pública. Torna-se fundamental à administração pública uma gestão ética capaz de fornecer à

sociedade um serviço transparente, eficiente e de qualidade.

A informação é a chave do sucesso, tornando-se um pré-requisito para a gestão da

ética pública. A transparência, realizada pela abertura total à sociedade da sua estrutura e

funcionamento, é imprescindível. A prestação de conta ao povo implica na obrigação de “fazer a

coisa bem feita”.

Nesse aspecto, houve grandes avanços nos últimos anos, com o desenvolvimento

de vários projetos voltados para a divulgação dos trabalhos realizados e dos resultados obtidos. A
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mídia permanecerá como ferramenta fundamental para a ampliação desse processo e deve

continuar a receber investimentos para o aumento dos meios disponíveis.

A utilização da rede mundial de computadores, a internet, apesar de já estar sendo

ocorrendo, tem um potencial maior e deve ser explorada com mais eficácia. O Sistema Brasileiro

de Televisão Digital Terrestre, que já está na sua fase de implantação, terá, também, destaque na

função de promover a interação entre a administração pública e a sociedade. É necessária a

formação de uma comissão para o delineamento das estratégias apropriadas para esse importante

veículo de comunicação.

Deve-se atentar, porém, para um ponto fundamental: a utilização de máquinas e

sistemas não cumpre o objetivo ético proposto para a gestão pública. Além de não abrangerem a

totalidade dos serviços, há a questão da frieza desses mecanismos de interação (homem-

máquina). A força da administração pública está nos seus homens, que são o seu cartão de

visitas. Como conseqüência, o contato entre funcionários públicos e sociedade é o carro chefe

para a credibilidade de qualquer instituição pública.

Com isso a reflexão ética mais profunda e ampla é uma necessidade oriunda da

própria diversidade e complexidade dos segmentos da ação humana nos nossos dias. Os desafios

para o fortalecimento do comportamento ético na administração pública são muitos, mas devem

ser encarados de frente e com as condições adequadas.

3. Desafios ao fortalecimento de padrões éticos na Administração Pública Federal

A Administração Pública Federal compõe-se de um quadro de funcionários

oriundos da sociedade, por meio de concursos públicos, que não têm mensurados os seus valores

éticos e morais no ato das suas efetivações como servidores, nem tampouco os fatores

motivacionais que os levaram a ingressar no serviço público. Daí decorrem questões relativas ao

comprometimento com o serviço, entusiasmo na consecução das suas atividades e realização

profissional e financeira. A combinação desses fatores pode influenciar seus comportamentos.

Associada a isso, está a sensação de estabilidade do servidor público federal, gerada pelo fato de
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não enxergar próxima de si a demissão, levando-o, por vezes, a um comodismo e a um não

comprometimento com resultados, portanto, a atitudes antiéticas.

É evidente que o homem, recrutado do seio da sociedade, traz consigo os

costumes sociais. Todavia o filósofo Ortega y Gasset afirma que “os costumes não podem ser

reformados ou copiados de outros povos. O que é bom ou mau é o caráter dos homens e este sim

pode ser passível de reforma e melhoria. A ação da cultura pode melhorar o caráter dos homens e

este sim pode ser objeto de reforma e melhoria. A ação dos elementos da cultura pode melhorar o

caráter dos homens, mas não os costumes de um povo. A reforma possível e desejável de se fazer

é moral e envolve o caráter dos homens” (Ortega y Gasset, 1994). Para levá-la adiante, Ortega y

Gasset aponta a educação. Através dela, os homens podem desenvolver novos comportamentos,

aperfeiçoar hábitos e construir um melhor caráter.

As modificações importantes de um grupo social nascem, na avaliação de Ortega

y Gasset, da reforma do caráter, pois ela possui um nítido componente moral. O que há para ser

reformado ou melhorado no espaço da cultura é a disposição dos homens para escolherem e

preferirem as boas coisas. É aí que se deve atuar para obter efeito, e nenhuma ação dará bons

frutos se não considerar a possibilidade de os indivíduos realizarem boas escolhas. A moral se

sustenta, pois, na liberdade interior de cada homem.

Diante do exposto, fica claro que o maior desafio no fortalecimento do padrão

ético do funcionalismo público está na educação do seu servidor e na sua formação ética. Isso

demanda da Administração Pública a importantíssima capacidade de se tornar uma escola de

moral e ética, tornando-se uma transmissora desses valores éticos e morais, tanto dentro do seu

ambiente de trabalho, quanto no meio social.

Podemos identificar, também, nos “Dez Mandamentos da Gestão Ética”

(Comissão de Ética do Ministério da Defesa) a profundidade dos valores e ações que devem ser

perseguidos pelos servidores públicos:

amar a verdade, a lealdade, a probidade e a responsabilidade como


fundamentos de dignidade pessoal; respeitar a dignidade da pessoa humana; ser
justo e imparcial no julgamento dos atos e na apreciação do mérito dos
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subordinados; zelar pelo preparo próprio, moral, intelectual e, também, pelo


dos subordinados, tendo em vista o cumprimento da missão institucional; acatar
as ordens legais, não ser negligente e trabalhar em harmonia com a estrutura do
órgão, respeitando a hierarquia, seus colegas e cada concidadão, colaborando e
aceitando colaboração; agir, na vida pessoal e funcional, com dignidade,
decoro, zelo, eficácia e moralidade; jamais tratar mal ou deixar à espera de
solução uma pessoa que busca perante a Administração Pública satisfazer um
direito que acredita ser legítimo; cumprir e fazer cumprir as leis, os
regulamentos, as instruções e as ordens das autoridades a que estiver
subordinado; agir dentro da lei e da sua competência, atento à finalidade do
serviço público; e buscar o bem-comum, extraído do equilíbrio entre a
legalidade e finalidade do ato administrativo a ser praticado.

É evidente que para a análise reflexiva e crítica desses mandamentos, por parte do

servidor, é preciso haver no seu interior um substrato adequado para o processamento do seu

pensamento.

Conclui-se que a Administração Pública e seu funcionalismo não podem esquivar-

se da responsabilidade pela gestão da ética, cabendo à primeira o empenho pelo fortalecimento

desses valores por meio da educação, e ao segundo o comprometimento com o seu

comportamento ético. A transparência das ações desenvolvidas é fundamental e traz consigo o

dever de querer “fazer a coisa certa” frente ao crivo popular, assim como a criação de

mecanismos eficazes de prevenção e combate à corrupção.

4. Mecanismos de prevenção à corrupção na Administração Pública

Mais importante do que a política de coerção e de controle da conduta ética dos

seus servidores é a tarefa da educação, que deve vir primeiro, iniciando o processo. Antes de se

pensar em vigiar e punir é preciso educar.

Os dispositivos legais existentes contêm as regras deontológicas e os

procedimentos que devem ser adotados pela Administração e pelo servidor. O Código de Ética

do Servidor Público Federal e o Estatuto dos Militares estabelecem os valores e atitudes

comportamentais desejáveis, que encerram questões muito complexas e que exigem uma

preparação prévia do terreno para que as sementes semeadas possam dar os bons frutos

desejados.
11

Cabe ressaltar que nos dias atuais os programas educacionais voltados para o

servidor público não atendem ao objetivo até aqui proposto. As palestras, seminários e simpósios

realizados abrangem uma pequena parcela do funcionalismo e não transmitem os conhecimentos

necessários para a sedimentação dos valores éticos que se fazem necessários para o exercício

ético das suas funções.

Como nos indica Ortega y Gasset, “o trabalho a ser realizado é no caráter do

indivíduo, portanto o único mecanismo capaz de gerar a mudança comportamental desejada é a

educação.”

Nesse tópico concentra-se o âmago da proposta para a gestão da ética pública: a

criação de programas educacionais de desenvolvimento do caráter do servidor público, cuja

linha-mestra passamos a apresentar, priorizando mais a generalidade do que a particularidade de

suas ações.

Esses programas, atrelados aos outros dispositivos já existentes, com suas devidas

adaptações, oferecerão as condições necessárias para se trilhar um caminho seguro, com

resultados duradouros.

Os programas de desenvolvimento devem ser para toda a carreira e abranger todos

os servidores, abordando/tratando os temas de acordo com o nível de cada segmento.

Levando-se em conta a diversidade cultural, religiosa e social característica do

servidor, é necessário que cada órgão faça uma avaliação diagnóstica, pós-ingresso, a respeito

das expectativas e convicções do funcionário em relação à carreira que inicia.

Nessa pesquisa diagnóstica não interessa a identificação do funcionário no

formulário utilizado por ele para consignar suas considerações, sendo, contudo, importante

identificar o seu nível funcional, para que as ações posteriores possam trabalhar os conteúdos

utilizando-se da linguagem e metodologias mais adequadas a cada nível.

Nos programas, os aspectos filosóficos da ética devem ser aprofundados e os

valores éticos devem ter seus conceitos bem sedimentados no indivíduo. A filosofia, a
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sociologia, a antropologia e a psicologia serão as ferramentas básicas para a transmissão dos

conhecimentos.

Quanto ao corpo docente especializado e o local para a transmissão dos

conteúdos, a Administração Pública buscará parcerias com suas próprias instituições de ensino

ou, na impossibilidade destas, com instituições privadas.

Como o programa educacional contempla toda a carreira do servidor, não haverá

interrupção. Cada nível funcional ou hierárquico estará contemplado com módulos educacionais

específicos, que devem possuir uma fase básica e uma avançada. Na fase básica, que trabalhará

os valores éticos fundamentais para a convivência em harmonia com o meio social em que está

inserido, o programa começará a desenvolver mais profundamente as questões mais relacionadas

ao bom desempenho na sua carreira, aperfeiçoando cada vez mais o seu caráter. A fase avançada

tem caráter permanente e ambas as fases terão reforços com debates, palestras, simpósios e

seminários sobre ética.

A carga horária será definida de acordo com o nível de cada segmento e os

horários para a aplicação do programa estarão a cargo de cada órgão, podendo-se viabilizar

horários dentro do expediente ou fora dele. Da mesma forma, caberá a cada órgão a separação e

definição dos grupos que receberão a formação, procurando sempre evitar prejuízo ao serviço

público prestado.

A tecnologia do século XXI vai ser a melhor aliada para a consecução dos

programas que serão desenvolvidos. O ensino à distância está cada vez mais eficiente e também

poderá ser utilizado para a transmissão de pacotes de conhecimento. As vídeo-conferências

poderão abranger vários locais de uma mesma instituição, ou de várias, com transmissão

simultânea.

A responsabilidade do Estado pela gestão da ética pública, vinculada à

necessidade de prestar contas à sociedade, demanda vários desafios a serem enfrentados, dentre

eles a criação de mecanismos eficazes contra os comportamentos antiéticos dos seus servidores.

Como já cuidamos desses pontos, cabe-nos vislumbrar suas conseqüências.


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5. Visão prospectiva

Após a implantação dos programas de educação ética e moral, o desempenho do

funcionalismo sofrerá gradualmente uma melhora, ocasionando o dinamismo da máquina

pública, evitando desperdícios e aumentando a sua eficiência. Conseqüentemente, haverá uma

redução gradativa do número de funcionários necessários para o funcionamento. A redução do

número de servidores acarretará a redução de gastos com o funcionalismo público pelo Estado,

viabilizando o aumento do investimento na melhoria dos programas de desenvolvimento do

caráter existentes e, também, no direcionamento de mais dinheiro para a consecução das políticas

sociais.

Outro aspecto que merece atenção está ligado aos questionamentos que poderão

ser feitos a respeito do cunho ideológico e político que poderão ser dados aos programas de

desenvolvimento do caráter dos servidores públicos. Quanto a isto não podemos deixar de levar a

termo a proposta apresentada em função desse questionamento e, para que não haja tal

interferência, as comissões de ética dos vários órgãos formarão um conselho de ética, onde terão

representação e condições de analisar, de maneira geral, como cada setor está conduzindo seus

programas. Nesse conselho haverá a participação de representantes da sociedade, que não sejam

servidores públicos.

4. Conclusão

O século XXI nos impõe uma reflexão filosófica acerca da ética. Em virtude das

mudanças radicais que lhe são inerentes, os avanços tecnológicos, o meio ambiente, a

informação, a ciência, a política e o Estado têm uma nova perspectiva frente à demanda gerada.

A ética insere-se nestas questões como um mecanismo regulador e norteador necessário, dando o

suporte das ações humanas desenvolvidas dentro de uma sociedade que anseia por uma vida mais

tranqüila e segura.
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Ao Estado cabe, por meio dos seus órgãos administrativos, apresentar-se como o

maior responsável e interessado na gestão da ética pública, trabalhando de maneira incessante e

transparente para o seu aperfeiçoamento.

Os desafios para o alcance da perfeição ética na Administração Pública são

conhecidos e mensuráveis, contudo a variável mais importante é o ser humano, sendo, portanto, a

atenção ao seu servidor o fator mais importante para a virada ética esperada.

Somente a educação poderá trazer o fortalecimento ético das instituições públicas.

A filosofia, a antropologia, a sociologia e a psicologia, são as ferramentas fundamentais para a

formação moral do homem, inserido dentro de um contexto sócio-cultural, fazendo-o entender de

maneira consciente o seu papel dentro do grupo.

Corroboramos com o pensamento do filósofo Ortega y Gasset de que não

podemos modificar os costumes, mas sim o caráter dos homens. Portanto, a base da proposta

para a gestão da ética na Administração está na efetivação dos programas educacionais de

desenvolvimento do caráter do servidor público.

A educação, como principal meio de fortalecimento da ética na gestão pública,

fará do Estado um fomentador de conduta moral para a sociedade, invertendo a imagem que hoje

carrega.

A corrupção, mal que graça na gestão pública, terá, no desenvolvimento do caráter

dos servidores, o seu maior inimigo.


15

BIBLIOGRAFIA

BRASIL. Lei no 6.880, de 09 de dezembro de 1980. Dispõe sobre o Estatuto dos Militares.

_______. Decreto no 1.171, de 22 de junho de 1994. Código de Ética Profissional do Servidor


Público Civil do Poder Executivo Federal. Brasília, 1994.

_______. Ministério da Defesa. Portaria no 580/MD, de 10 de outubro de 2002. Regimento


Interno da Comissão de Ética do Ministério da Defesa. Brasília, 2002.

_______. Ministério da Defesa. Dez mandamentos da gestão da ética pública. [on line]
Disponível na internet via WWW. URL: https://www.defesa.gov.br/comissao
etica/index.php?page=dez mandamentos.

FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

MAURÍCIO DE CARVALHO, José (org.). Problemas e teorias da ética contemporânea. Porto


Alegre: EDIPUCRS, 2004.

ORTEGA Y GASSET, José. Reforma del caráter, no reforma de costumbres. Obras Completas,
v. X. reimpresión. Madrid: Alianza,1994.
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REFLEXÕES SOBRE A ÉTICA COMO VALOR A SER RESGATADO


PELA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E POR TODA A SOCIEDADE

Victor Carvalho Gervásio2

Há muito tempo, a sociedade almeja uma felicidade que parece distante, quando

observamos, ao longo da História, as mais diversas misérias e vicissitudes pelas quais tem

passado, inúmeras ainda sem aparente solução. Porém, a busca por uma vida mais ditosa é algo

que sempre fez parte do imaginário humano e, na vida diária, o homem procura ser mais feliz, ou

viver mais conformado, atendendo mais ou menos plenamente às suas necessidades e buscando a

satisfação de seus ideais.

Saliente-se que, apesar de toda evolução tecnológica, o ser humano não se

aprimorou na mesma velocidade impedindo, desta forma, a extirpação das mazelas que assolam a

humanidade desde os primeiros tempos, pondo em risco a existência humana e desequilibrando o

planeta Terra.

É notória a crise de valores que assola a humanidade, na qual conceitos éticos são

relegados, sempre que se contrapõem a outros interesses. Reascende-se, dia a dia, não obstante os

variados percalços, o anseio de melhoria de vida por parte dos indivíduos da sociedade. Nesse

diapasão, trazemos à baila a reflexão de Geraldo Alckmin Filho quando prefacia, com

sensibilidade, a obra “Ética dos Governantes e dos Governados” de autoria do aplaudido mestre

Gabriel Chalita, a saber: “A cada ano novo, revigoram-se as nossas esperanças e disposição para

corrigir nossos erros e melhorar nossas vidas”. E continua noutro momento:

é essencial notar que – embora em velocidade menor – cresce na paralela do


desenvolvimento tecnológico um extraordinário movimento de conscientização
das pessoas e povos a respeito de seus direitos e responsabilidades na
organização de sociedades mais democráticas, mais justas, mais solidárias e
mais prósperas.

2
Capitão-Tenente da Marinha do Brasil. Autor do trabalho classificado em segundo lugar no I Concurso de
Ensaios sobre Gestão da Ética Pública no âmbito do Ministério da Defesa.
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Ao que parece, o indivíduo busca melhorar-se, ser mais humano, mais justo, mais

correto, tenta atingir a meta de tornar a vida em sociedade mais consentânea com os preceitos da

ética.

Façamos, inicialmente, uma análise sobre o termo ética, cujo conceito tem sido

debatido entre os estudiosos de todos os tempos e cujo conteúdo vem sendo almejado a fim de

que a vida dos indivíduos se torne mais justa, honesta, proba e, portanto, mais ditosa.

Assim, passaremos a analisar os diversos conceitos de ética e suas acepções de

acordo com alguns estudiosos.

O renomado Aurélio Buarque de Holanda, com os cuidados dos atualizadores de

seu léxico, traz o ensinamento que se segue: “Ética [Do lat.ethica < gr.ethiké.]. S. f. Filos.

Estudos dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do

ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo

absoluto. [Cf. bem (1) e moral (1).].”

A Mestra Maria Helena Diniz nos ensina com clareza: “Ética – (...) d) conjunto de

prescrições admitidas por uma sociedade numa dada época”. E continua: “Ética Política. Na

linguagem filosófica, é a que visa a educação do povo e a cultura da natureza inteligente (Diderot

e Lalande )”.

O conhecido Dicionário Jurídico De Plácido e Silva define o termo do seguinte

modo: “Ética. Derivado do grego ethikos, é definida como a ciência da moral”.

No Dicionário Jurídico Aquaviva encontramos o detalhado conceito que se segue:

Ética Jurídica/conceito de ética – O termo ética é de origem grega, de êthos,


comportamento. O sentido de êthos passou, com o tempo, por modificações,
denominando, inicialmente, o local da morada, habitação, passando depois a
significar a atitude do homem perante a sociedade, seus valores espirituais em
relação ao mundo. A partir de Aristóteles (384 – 322 a.C.), o termo denomina o
caráter de cada pessoa, seu modo de ser derivado da vida social. (...). Etocracia.
Forma ideal de governo fundada na moral.

Conforme se depreende da leitura do texto, etocracia é um termo análogo ao termo

ética e que concorre com este. O texto assim prossegue: “(...) Nenhuma sociedade pode

sobreviver sem normas de conduta; há que haver um mínimo ético, sem o qual ela se desagrega”.
18

Três requisitos de ordem ética se impõem na preservação do grupo social: a)

disciplina, a exigir poder e autoridade capazes de garantir a ordem; b) adaptação à vida social, ou

seja, aceitação do grupo às normas nele vigentes; c) autonomia da vontade, baseada nos

princípios fundamentais da lei moral e de uma escala de valores que cada qual deve adotar

livremente.

Em síntese: a) a ética observa o comportamento humano e aponta seus erros e

desvios; b) formula princípios básicos aos quais deve subordinar-se a conduta do homem, onde

quer que se encontre; c) a par de valores genéricos e estáveis, a ética é ajustável a cada época e a

cada circunstância; d) a ética depende da filosofia, pois cada sistema moral baseia-se em outro,

de natureza filosófica e, conseqüentemente, ela varia com as filosofias.

Concluindo: a ética não deve ser considerada como fonte de pesadas e enfadonhas

obrigações, mas como uma filosofia moral dignificante.

Na festejada Enciclopédia Mirador encontramos a feliz definição do termo, como

se observa a seguir:

Ética, s.f. ( gr. etike ). 1. Parte da Filosofia que estuda os valores morais e os
princípios ideais da conduta humana. É ciência normativa que serve de base à
filosofia prática. 2. Conjunto de princípios morais que se devem observar no
exercício de uma profissão; deontologia. (...).

Desta feita, parece-nos que ética é a apreciação das condutas do indivíduo em

sociedade, seus valores, sua postura diante dos fatos. É a qualidade de ser correto, probo. É a

característica daquele que é nobre, honesto, justo.

Ética e governo estão, portanto, intimamente ligados já que os governantes,

atuando na busca da satisfação do interesse público, aquele que devem bem representar, tem a

obrigação de agir sob a égide da moralidade e da probidade, com justeza e honradez, com

imparcialidade, transparência e caráter. E tal dever, saliente-se, não é norteado apenas em

premissas ideais ou em conceitos etéreos, já que a conduta do homem público é, e deve de fato

ser efetivamente, observada de perto pelos órgãos de investigação e fiscalização existentes seja

de cunho social, como a imprensa, como as entidades comunitárias, seja os constitucionalmente


19

organizados, como o Poder Judiciário, o Ministério Público e os Tribunais de Contas que, com o

respaldo da Lei Maior (a Constituição da República Federativa promulgada em 5 de outubro de

1988 ) e das leis referentes ao tema, como, verbi gratia, a Lei no 1.533, de 31 de dezembro de

1951 (com as alterações produzidas pela Lei no 9.259, de 09 de janeiro de 1996) que dispõe sobre

o Mandado de Segurança e seu rito; a Lei no 4.717 de 29 de junho de 1965, que regula a ação

popular; a Lei no 7.347, de julho de 1985, que disciplina a ação civil pública de responsabilidade

por danos causados ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico,

estético, histórico, turístico e paisagístico, entre outros temas; a Lei no 8.429, de 2 de junho de

1992, lei de Improbidade Administrativa, que dispõe sobre as sanções aplicáveis aos agentes

públicos nos casos de enriquecimento ilícito no exercício de mandato, cargo emprego ou função

na administração pública direta, indireta ou fundacional, entre outros temas; a Lei no 8.666, de 21

de junho de 1993, que institui normas para licitações e contratos da Administração Pública, entre

outros temas; a Lei Complementar no 101, de 4 de maio de 2000, Lei de Responsabilidade Fiscal,

que estabelece normas de finanças públicas voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal,

entre outros temas, controlam a atividade do governante, sobretudo no que tange a observância

dos princípios de impessoalidade, moralidade, finalidade e interesse públicos por parte dos

administradores públicos em suas gestões.

Ao que nos parece, então, merecem breve análise os conceitos de Governo e de

Administração Pública, a fim de que possamos melhor desenvolver o tema.

O renomado e saudoso mestre Hely Lopes Meirelles nos ensina, com maestria em

seu conhecido Direito Administrativo Brasileiro, hoje atualizado por eminentes mestres, que

governo e administração são termos que, embora muitas vezes sejam confundidos, expressam

conceitos diferentes. Assim leciona o brilhante autor:

Governo – Em sentido formal, é o conjunto de poderes e órgãos


constitucionais; em sentido material, é o complexo de funções estatais básicas;
em sentido operacional, é a condução política dos negócios públicos. Na
verdade, o Governo ora se identifica com os Poderes e órgãos como
manifestação da Soberania. A constante, porém, do Governo é a sua expressão
política de comando, de iniciativa, de fixação de objetivos do Estado e de
manutenção da ordem jurídica vigente. O Governo atua mediante atos de
Soberania ou, pelo menos, de autonomia política na condução dos negócios
20

públicos. Administração Pública – Em sentido formal, é o conjunto de órgãos


instituídos para consecução dos objetivos do Governo; em sentido material, é o
conjunto das funções necessária aos serviços públicos em geral; em acepção
operacional, é o desempenho perene e sistemático, legal e técnico, dos serviços
próprios do Estado ou por ele assumidos em benefício da coletividade. Numa
visão global, a Administração é, pois, todo o aparelhamento do Estado
preordenado à realização de serviços, visando à satisfação das necessidades
coletivas.

E, mais adiante, complementa:

Conceito de Administração – O conceito de Administração Pública não oferece


contornos bem definidos, quer pela diversidade de sentidos da própria
expressão, quer pelos diferentes campos em que se desenvolve a atividade
administrativa. (...). Em sentido lato, administrar é gerir interesses, segundo a
lei, a moral e a finalidade dos bens entregues à guarda e conservação alheias.
Se os bens e interesses geridos são individuais, realiza-se administração
particular; se são da coletividade, realiza-se administração pública.
Administração pública, portanto, é a gestão de bens e interesses qualificados da
comunidade no âmbito federal, estadual ou municipal, segundo os preceitos do
Direto e da Moral, visando ao bem comum.

Faz-se mister, assim, uma zelosa reflexão sobre a necessidade premente de

fortalecimento dos padrões éticos na sociedade como um todo, especialmente, na Administração

Pública, particularmente na Administração Pública Federal, que compõe os órgãos do governo,

reflexo da nação em que vivemos, já que os homens públicos que o compõem são representantes

diretos da população e guardam conseqüentemente os mesmos valores deste povo. Forma-se,

assim, uma relação simbiótica entre os valores éticos do agente público e do povo. Como

assevera o eminente e culto mestre Emerson Garcia que “Um povo que preza a honestidade terá

governantes honestos. Um povo que, em seu cotidiano, tolera a desonestidade e, não raras vezes,

a enaltece, por certo terá governantes com pensamento similar”.

Neste momento histórico, tão ou mais importante que o fomento ao controle dos

atos administrativos, é a necessária preocupação com a elevação dos padrões éticos do agente

público. Ações de cunho ético devem ser incentivadas e divulgadas, pois não se pode esquecer

que as palavras só possuem valor se associadas aos exemplos. As palavras dissociadas dos

exemplos não possuem qualquer peso, quando não são qualificadas como mentirosas ou são

consideradas lamentáveis falácias.


21

A sociedade está carente de bons exemplos. O reconhecimento e a valorização

pelos escalões superiores da Administração Pública das boas ações, aliada a uma ampla

divulgação, levará a uma nova postura por parte dos súditos, quiçá atos de honestidade

perpetrados pelos representantes do povo serão repetidos pelos representados, que enxergarão

nos seus representantes homens honestos.

A ética carece ser vivenciada, pois como dito, dissociada de exemplos não possui

qualquer significado. Nos tempos de antanho, quando “a palavra valia mais que o fio de cabelo

do bigode”, os grupos de educação pareciam contar com maior apoio das autoridades, hoje

parecem esquecidos. Deve-se incentivar, valorizar e dar visibilidade à participação, notadamente

dos representantes do povo, em atividades que possuem fundo de aprimoramento ético como,

por exemplo, movimento de escoteiros, Rotary Club, entre outros grupos beneficentes. Só os

exemplos são capazes de fazer a história. Incentivar pelo exemplo, conferindo a devida valoração

e visibilidade, é um modo eficaz de se lograr uma depuração ética da Administração Pública e da

sociedade.

Hodiernamente, verifica-se a profusão da corrupção. A imprensa diuturnamente

empresta ao tema vasto período de tempo, dando a impressão que a corrupção a cada dia

aumenta. Na realidade, a corrupção sempre existiu, mas não havia a divulgação que existe

atualmente e conseqüentemente, sempre pareceu não existir.

Não é razoável desconsiderar o papel da imprensa em nosso momento histórico.

Ressalta-se agora o seu importante papel, formadora de opinião por excelência: divulga valores

éticos que são absorvidos pela sociedade e possibilita o acompanhamento pelo povo dos atos

perpetrados pelos agentes públicos.

A conscientização do povo sobre a necessidade da participação popular é de

fundamental importância para o exercício da democracia e o sucedâneo combate à corrupção. A

valorização de padrões éticos deve ser fomentada em todas as esferas da sociedade, em especial

junto aos agentes públicos.


22

A consolidação dos ditames éticos na Administração Pública como um todo,

notadamente na Administração Pública Federal, em decorrência de seu grande contingente e de

suas complexas divisões, apresenta desafios, é certo. Porém, isto não deve esmorecer o ensejo de

buscar soluções para a quaestio, uma vez que tais desafios são transponíveis, de possível

superação. É necessário, para tanto, a participação de toda a comunidade nos seus mais variados

níveis e setores a fim de que seja possível uma nova apresentação da temática e uma renovada

visão sobre o relevante e especial assunto.

Há, de fato, inquestionável crise de valores que assola diversos setores da

Administração Pública do país, empresas públicas e privadas, Administração Direta e até mesmo

altos escalões do poder e não se dissocia o agente público que se comporta de forma ímproba da

instituição a que este pertence. A reprovação manifestada pela sociedade atinge toda instituição a

que este servidor pertence, a instituição é acoimada pela mesma pecha imputada ao servidor. Mas

é importante, e mesmo premente, separar-se o joio do trigo.

Sopesando o exposto, entendemos que se deve incentivar a criação de órgãos de

controle administrativos que tenham por finalidade receber, filtrar e encaminhar as notícias de

irregularidade levadas ao seu conhecimento, mantendo ou não, conforme a situação, o sigilo da

fonte da informação.

Tão importante quanto a criação é dar ampla publicidade de sua existência e

função, incentivando o seu uso principalmente pelos servidores públicos que convivem com as

dificuldades e possuem profundo conhecimento do funcionamento da máquina administrativa.

Deve-se, ainda, como modo de desestimular os atos de corrupção perpetrar ampla

divulgação dentro do âmbito administrativo das inspeções internas existentes e os resultados

alcançados, deixando sempre clara a intenção de aprimorar o combate à corrupção e renovar os

padrões éticos no Poder Público.

Faz-se mister, ainda, divulgar para a comunidade em geral os atos corretos e éticos

dos servidores e homens públicos em geral,bem como as suas ações que respeitam a probidade e

a finalidade públicas, incentivando, desse modo, tais condutas e demonstrando à população em


23

geral o que, por vezes, não chega ao conhecimento comum: a extrema doação, dedicação e zelo

com o que certos servidores e ocupantes do poder atuam em prol da sociedade.

Assim, parece-nos claro que o Governo, através de seus diversos órgãos,

investidos de determinadas competências, uns para legislar, outros com o escopo de fiscalizar e

investigar e, ainda, outros com o fim de julgar e condenar tem papel preponderante e de

inquestionável relevância na tarefa de prevenir a corrupção e, mesmo, combatê-la com afinco e

com disposição exemplar, atuando, desse modo, em direção ao fortalecimento dos padrões éticos

na Administração Pública. Contudo, cabe, igualmente à sociedade como um todo, e a todos os

níveis de nossa comunidade, nos mais diversos campos, a contribuição para que a imoralidade, a

improbidade, a corrupção, nas grandes e nas pequenas nuances deixem de ganhar corpo e se

esvaziem, chegando a um patamar tolerável, já que, ao que tudo indica, sempre existirão ainda

que em menor escala. Nesse particular, lembramos da lição do excelente autor, o Promotor de

Justiça Dr. Emerson Garcia, quando nos presenteia com as suas felizes palavras:

(...) é indispensável a paulatina implementação de um processo de


conscientização, o que possibilitará a mobilização das diferentes camadas
sociais contra um inimigo comum: a corrupção. (...) O combate à corrupção não
haverá de ser fruto de mera produção normativa, mas sim o resultado de uma
consciência democrática e de uma lenta e paulatina participação popular, o que
permitirá uma contínua fiscalização das instituições públicas, reduzirá a
conivência e, pouco a pouco, depurará as idéias daqueles que pretendem
ascender ao poder. Com isto, a corrupção poderá ser atenuada, pois eliminada
nunca o será.

Reforçando a tese de que apenas a lei não logrará solucionar todos os problemas

de conduta existentes na vida de nossa sociedade, lembramos a notável lição do renomado

mestre, o Ministro do Superior Tribunal de Justiça Francisco de Assis Toledo:

Quando se diz que a tarefa do Direito Penal é a luta contra o crime, afirma-se
algo verdadeiro, conforme admitimos linhas atrás. Todavia, não se pode dizer
que essa missão seja exclusiva do Direito Penal. Pelo menos na luta preventiva
contra o crime estão (ou deveriam estar) envolvidos cada um a seu modo,
importantes setores da vida comunitária: família, escola, órgãos assistenciais,
sobretudo os de proteção ao menor etc.
24

Desse modo, não há como falar de prevenção à corrupção ou fortalecimento de

valores éticos sem que nos atenhamos a relevantes questões como o necessário e urgente

planejamento familiar, o amparo à criança abandonada e àquelas pertencentes às camadas menos

favorecidas, a reforma do sistema penitenciário vigente, a implementação de normas, bem como

sua correta e eficaz aplicação, referentes à inclusão nos programas escolares de temas como a

filosofia, a ética, a cidadania, o que já se observa em certos estabelecimentos privados, e até

públicos, de ensino, bem como em instituições de cunho religioso ou de caráter filantrópico, mas

que merece ganhar maiores dimensões abrangendo todo o ensino fundamental e médio,

divulgação e observância dos preceitos, pelos órgãos de fiscalização e controle e por toda a

sociedade, constantes no Estatuto da Criança e do Adolescente, notadamente no que tange

àqueles previstos no Título IV do Livro II, Parte Especial, relativos às medidas pertinentes aos

pais ou responsáveis de menores, economicamente hipossuficientes ou não (isto é, pertencentes a

todas as camadas sociais), bem como os preceitos constantes na Lei Penal referentes aos delitos

de abandono material e moral (sobretudo este), a fim de que haja a devida conscientização por

parte dos genitores ou daqueles que sejam responsáveis pelos menores da extrema relevância de

que se reveste a educação, não apenas a acadêmica, mas especialmente a ético-moral, a que

prima pelo resgate dos valores nobres como o respeito, a solidariedade, a preservação de

patrimônios públicos, a honestidade.

A difusão e a compreensão dos assuntos precitados, e suas conseqüências, é

requisito imprescindível para o desenvolvimento de um governo democrático comprometido com

o bem do povo.

O acima exposto pode ser facilmente comprovado pela própria definição de

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira sobre o termo Democracia:

Democracia. (Do gr. Demokrata.) (...) 2. Doutrina ou regime político baseado


no princípio da soberania popular e da distribuição eqüitativo do poder, ou seja,
regime de governo que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato
eleitoral, pela divisão dos poderes e pelo controle da autoridade, i.e, dos
poderes de decisão e de execução; (...).
25

A conscientização do povo, titular do poder, sobre a necessidade de sua

participação nos processos decisórios do regime democrático, é de fundamental e inquestionável

importância, e é extremamente relevante para a consolidação dos valores éticos na sociedade

atual.

Esperamos, desta forma, que tais medidas venham a auxiliar, preventiva e

repressivamente, no combate à corrupção, esse mal que tanto nos fere e incomoda, mas

lamentavelmente, ainda tão presente em nossa vida social.


26

BIBLIOGRAFIA

AQUAVIVA. Dicionário Jurídico Brasileiro. 7ª ed. São Paulo: Editora Jurídica Brasileira Ltda.,
p. 644-646.

CHALITA, Gabriel. Ética dos Governantes e dos Governados. São Paulo: Max Limonad, 1999,
p. 15-17.

DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. São Paulo: Saraiva, v. 2, 1998, p. 437.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio – O Dicionário da Língua Portuguesa.


3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999, 2126 p.

GARCIA, Emerson; ALVES, Rogério Pacheco. Improbidade Administrativa. 3ª ed. rev.ampl.


Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006, 981 p.

MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro. 25ª ed. São Paulo: Malheiros,
2000, 765 p.

MIRADOR Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Editora Mirador Internacional, 1975,


p.760.

SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 15ª ed. Rio de Janeiro: Forense , 1999. v., p.328.

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMUNENSE. Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação.


Apresentação de Trabalhos Monográficos de Conclusão de Curso.- 8ªed. Ver.por Estela dos
Santos Abreu e José Carlos Abreu Teixeira. –Niterói: EdUFF. 2005, 90 p.
27

ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA: TRANSPARÊNCIA


E RESPONSABILIDADE NO SÉCULO XXI

Silvina Maria da Conceição Sebastião3

Estudos antropológicos e sociológicos nos mostram que o homem é, por natureza,

um ser sociável, com necessidade imperiosa de viver em grupos, de se organizar em sociedades.

A vida em sociedade, porém, requer a existência de regras comuns impostas aos membros dos

grupos, pois, caso contrário, a convivência seria impossível. A vontade comum do grupo deve

prevalecer sobre as vontades individuais.

Na evolução da vida em comunidades, descobriu-se também que os grupos

necessitavam de líderes, chefes que lhes administrassem suas decisões e que disciplinassem a

melhor forma de estabelecer regras sobre a convivência de seus membros, sobretudo quanto à

maneira de utilização do bem comum, tudo isso para a sobrevivência pacífica do grupo.

Assim é que, ao longo da história da humanidade, os diversos povos foram

representados por líderes, reis, chefes tribais e governos nas suas mais variadas formas,

arbitrários ou não.

As sociedades definiram-se, estruturaram-se e adquiriram bens comuns, além dos

bens naturais já existentes. Com isso, é crescente a necessidade de que esses bens sejam

administrados de forma adequada, que os direitos individuais e coletivos reconhecidos no

ordenamento jurídico aos administrados sejam respeitados, tudo para que o bem comum

prevaleça. Daí a existência da Administração Pública, que pode ser definida como um conjunto

governamental estruturado em órgãos públicos e agentes públicos, detentores de cargos e

empregos públicos, cuja finalidade é dar execução aos planos governamentais, gerenciar o

3
1o Tenente da Reserva Não-Remunerada da Força Aérea Brasileira (FAB). Autora do trabalho classificado em
terceiro lugar no I Concurso de Ensaios sobre Gestão da Ética Pública no âmbito do Ministério da Defesa.
28

patrimônio público e cuidar para que os direitos fundamentais sejam respeitados. Na definição de

Hely Lopes Meirelles,

a Administração Pública, em sentido formal, é o conjunto de órgãos instituídos


para a consecução dos objetivos do Governo; em sentido material, é o conjunto
das funções necessárias aos serviços públicos em geral; em acepção
operacional, é o desempenho perene e sistemático, legal e técnico, dos serviços
próprios do Estado ou por ele assumidos em benefício da coletividade. Numa
visão global, a Administração é, pois, todo o aparelhamento do Estado
preordenado à realização de serviços, visando à satisfação das necessidades
coletivas4.

Nesse contexto, o administrador público em geral possui uma responsabilidade de

grande monta e considerável nobreza: cuidar da coisa pública. E não é possível ao administrador

administrar a coisa pública sem que atue diretamente no patrimônio público. Possui o agente

público, em razão do cargo ou emprego que ocupa, grande facilidade de manipulação dos bens

públicos, dos processos administrativos onde atua ou de que tem a guarda. Essas facilidades

fazem com que determinados agentes de índole duvidosa, ao invés de bem administrar a coisa

pública, utilizem-na indevidamente para o seu próprio bem-estar, ou para o bem-estar de uma

minoria. A isso podemos chamar de corrupção na Administração Pública, que pode ter como

grande aliado o sigilo dos atos públicos, a falta de prestação de contas aos administrados sobre o

que se faz com a arrecadação e a ausência de motivos justificáveis para as contratações de

pessoal, de serviços públicos, exonerações de servidores ou demissões e punições disciplinares.

A nossa atual Constituição Federal, no entanto, dota a Administração Pública de

notável transparência e responsabilidade. Isso significa que os administrados possuem amplo

acesso aos atos da Administração Pública para que possam acompanhar e controlar, com os

mecanismos constitucionais e legais existentes, a maneira como os agentes públicos estão

conduzindo o patrimônio público e gerindo a administração em geral.

Essa transparência traduz-se no princípio constitucional expresso da publicidade,

contido no artigo 37, caput, da Constituição, ao qual toda a Administração Pública, direta e

4
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro, 31ª ed. São Paulo, Editora Malheiros, 2005, p. 64.
29

indireta, de qualquer dos poderes da União, dos Estados e dos Municípios, está obrigada a

obedecer. Isso significa que os poderes executivos e legislativos federais, estaduais ou

municipais e o poder judiciário federal ou estadual, quando atuando administrativamente, estão

adstritos ao dever de observância ao princípio da publicidade.

Sobre tal princípio, importante se faz os ensinamentos de Marino Pazzaglini Filho,

a seguir:

O princípio da publicidade consiste no acesso difuso do público às informações


relativas às atividades do Estado (fatos, atos, contratos, normas, decisões e
informações em geral), seja por divulgação nos meios de comunicação oficial e
particular, seja pelo fornecimento de dados de interesse geral ou individual,
quando requeridos nos órgãos ou entidades públicas, sob pena de
responsabilidade.

(...) A publicidade, enfim, é o instrumento pelo qual a Administração Pública


torna “público”, dando divulgação à sociedade ou prestando informações aos
interessados, todo o conteúdo da atividade administrativa não sigilosa:
regulamentos, programas, planos, atos administrativos (de administração,
permissão, licença, autorização, aprovação, dispensa, homologação, visto,
lançamento tributário, etc.), licitações, contratos administrativos (de obras
públicas, de prestação de serviços, de fornecimento de coisas móveis, de
concessão de obras, serviços e de uso de bem público, etc.) e informações
constantes de seus arquivos.5

Além de obrigar a Administração Pública a conferir publicidade aos seus atos, a

Lei Maior, no Título referente aos Direitos e Garantias Fundamentais, no Capítulo que trata dos

Direitos e Deveres Individuais e Coletivos, reconheceu a todos o direito de obter informações

dos órgãos públicos, de peticionar e requerer certidões sobre os atos da administração. Esses

direitos estão expressamente consagrados no artigo 5o, incisos XXXIII e XXXIV.

No que tange ao direito à informação, o inciso XXXIII citado estabelece que

todos têm direito de receber dos órgãos públicos informações de seu interesse
particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestados no prazo da lei,
sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja
imprescindível à segurança da sociedade e do Estado.

Quanto ao sigilo, sempre que o direito de informação de um indivíduo ameaçar a

segurança da sociedade e do Estado, o segredo sobre o fato prevalecerá, em respeito ao princípio


5
PAZZAGLINI FILHO, Marino. Princípios Constitucionais Reguladores da Administração Pública, 2ª ed. São
Paulo, Atlas, 2003, p. 31/32.
30

da supremacia do interesse público sobre o privado, ou seja, o direito da coletividade em geral

deve prevalecer sobre o direito individual. Esse sigilo constitui uma das exceções ao princípio da

publicidade, exceção essa que também se verifica no artigo 5o, inciso LX, onde a Lei Maior

estabelece que “a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da

intimidade ou o interesse social o exigirem”.

O direito previsto no inciso XXXIII do artigo 5o está regulado pela Lei no 9.507,

de 12 de novembro de 1997. Essa lei considera de caráter público todo registro ou banco de

dados contendo informações que sejam ou que possam ser transmitidas a terceiros ou que não

sejam de uso privativo do órgão ou entidade produtora ou depositária das informações. A lei

ainda regula o rito processual da ação de habeas data, assegurada na Constituição Federal, no

artigo 5o, inciso LXXII. O habeas data será concedido sempre que houver violação ao direito à

informação, mais precisamente:

I – para assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa do


impetrante, constantes de registro ou banco de dados de entidades
governamentais ou de caráter público;

II – para a retificação de dados, quando não se prefira fazê-lo por processo


sigiloso, judicial ou administrativo;

III – para a anotação nos assentamentos do interessado, de contestação ou


explicação sobre dado verdadeiro, mas justificável e que esteja sob pendência
judicial ou amigável.

O inciso XXXIV da Lei Maior estabelece que

são a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas:

a) o direito de petição aos Poderes Públicos em defesa de direitos ou contra


ilegalidade ou abuso de poder;

b) a obtenção de certidões em repartições públicas, para a defesa de direitos e


esclarecimentos de situações de interesse pessoal.
31

No gozo do direito de petição, o administrado provoca a Administração Pública

interpondo petições, reclamações ou representações sempre que considerar necessário uma

providência administrativa acerca de determinadas situações ou fatos, de interesse individual ou

coletivo.

Quanto ao direito de certidão importante é, para a Administração Pública e para o

administrado, ter em mente uma exata concepção sobre as definições em que se apresenta o

instituto da certidão, visando a interposição de requerimentos corretos e deferimentos

embasados, em estrita conformidade constitucional e legal.

Hely Lopes Meirelles define as certidões administrativas como “cópias ou

fotocópias fiéis e autenticadas de atos ou fatos constantes de processo, livro ou documento que se

encontre nas repartições públicas”. E acrescenta que “podem ser de inteiro teor, ou resumidas,

desde que expressem fielmente o que se contém no original de onde foram extraídas”.6

Na doutrina de Alexandre de Moraes encontramos que o direito de certidão é o

“direito líquido e certo de qualquer pessoa à obtenção de certidão para defesa de um direito,

desde que demonstrado o seu legítimo interesse”.7

Não nos cabe aqui tender pela escolha de uma ou de outra definição para

considerar qual a mais apropriada, mas sim fazer uma análise sobre cada uma para, ao final,

concluirmos que deve haver uma junção das duas para se ter uma definição completa.

Podemos classificar as duas definições em material e formal. A primeira é a

apresentada por Hely Lopes Meirelles que define a certidão propriamente dita, na sua

materialização: cópias ou fotocópias de processos, livros ou documentos. Em outras palavras,

são papéis emitidos por um órgão público, em face do requerimento de um interessado, contendo

dados já existentes em processos, livros ou documentos daquele órgão. Consideramos formal o

conceito apresentado por Alexandre de Moraes porque se preocupou esse doutrinador em definir

o instituto à luz da interpretação dos direitos e garantias individuais: direito líquido e certo de

6
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro, 31ª ed. São Paulo: Editora Malheiros, 2005, p. 193.
7
MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional, 15ª ed. São Paulo: Editora Atlas, 2004, p. 190.
32

qualquer pessoa à obtenção de certidão. Hely Lopes define a certidão, e Alexandre de Moraes

define o direito à obtenção de certidão.

Desta forma, fazendo uma junção dos dois conceitos, chegamos à seguinte

definição: o direito de certidão é um direito líquido e certo a todos assegurados,

independentemente do pagamento de taxas, para a obtenção de cópias ou fotocópias de dados

constantes em processos, livros ou documentos de repartições públicas, devendo ser

demonstrado, para a sua expedição, o legítimo interesse do requerente.

O direito de certidão está regulado pela Lei no 9.051, de 18 de maio de 1995, lei

essa que estabelece que as certidões requeridas devem ser expedidas no prazo de 15 (quinze) dias

contados do registro do pedido no órgão expedidor.

A transparência da Administração Pública garante ao administrado o gozo de

outro direito fundamental, constante no inciso LV do artigo 5o da Constituição Federal: “aos

litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o

contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes” (grifei). Em muitos

casos, o contraditório somente será possível quando a parte contrária tiver pleno conhecimento

dos trâmites processuais e das imputações ou acusações que lhes são imputadas. A ampla defesa

pode ser obstada quando faltar publicidade aos atos de um processo administrativo. O processo

administrativo está regulado, no âmbito da Administração Pública Federal, pela Lei no 9.784, de

29 de janeiro de 1999. O legislador não deixou de se preocupar com a transparência ao

estabelecer, no artigo 2o, parágrafo único, inciso V que nos processos administrativos serão

observados, entre outros, os critérios de divulgação oficial dos atos administrativos, ressalvadas

as hipóteses de sigilo previstas na Constituição. Contempla também, a aludida lei, dentre os

direitos dos administrados, o direito de ter ciência da tramitação dos processos administrativos

em que tenha a condição de interessado, ter vista dos autos, obter cópias de documentos neles

contidos e conhecer as decisões proferidas (artigo 3o, inciso II).


33

Voltando à Constituição Federal, o inciso XXI do artigo 37 estabelece que

ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços, compras e


alienações serão contratados mediante processo de licitação pública que
assegure igualdade de condições a todos os concorrentes, com cláusulas que
estabeleçam obrigações de pagamento, mantidas as condições efetivas da
proposta, nos termos da lei, o qual somente permitirá as exigências de
qualificação técnica e econômica indispensáveis à garantia do cumprimento das
obrigações. (grifei)

Na Lei no 8.666, de 21 de junho de 1993, que regula a aludida licitação, pode ser

observada com muita ênfase a preocupação com a publicidade dos atos públicos, como o que

acontece no artigo 16:

Será dada publicidade, mensalmente, em órgão de divulgação oficial ou em


quadro de avisos de amplo acesso público, à relação de todas as compras feitas
pela Administração direta ou indireta, de maneira a clarificar a identificação do
bem comprado, seu preço unitário, a quantidade adquirida, o nome do vendedor
e o valor total da operação, podendo ser aglutinadas por itens as compras feitas
com dispensa e inexigibilidade de licitação. (grifei)

A Administração Pública está obrigada também a observar um outro princípio,

implícito, qual seja o dever de probidade administrativa. Regulando o princípio da probidade,

encontra-se em vigor a Lei de Improbidade Administrativa, Lei no 8.429, de 2 de junho de 1992,

que dispõe sobre as sanções aplicáveis aos agentes públicos nos casos de enriquecimento ilícito

no exercício de mandato, cargo, emprego ou função na Administração Pública Direta, Indireta ou

Fundacional e dá outras providências. A lei divide os atos de improbidade em três categorias: dos

atos de improbidade administrativa que importam enriquecimento ilícito, dos atos de

improbidade administrativa que causam prejuízo ao erário e dos atos de improbidade

administrativa que atentam contra os princípios da administração pública. O legislador

considerou improbidade administrativa atentatório aos princípios da administração pública a

ação do agente público consistente em negar publicidade aos atos oficiais (artigo 11, inciso IV) e

previu, como sanção, o ressarcimento integral do dano, se houver, perda da função pública,

suspensão dos direitos políticos de três a cinco anos, pagamento de multa civil de até cem vezes

o valor da remuneração percebida pelo agente e proibição de contratar com o Poder Público ou
34

receber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por

intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de três anos (artigo 12,

inciso III).

A preocupação com a transparência da gestão da coisa pública é crescente e tem

sofrido consideráveis avanços no Brasil. No ano 2000, surge a Lei Complementar no 101, de 4 de

maio, intitulada Lei de Responsabilidade Fiscal – LRF. Estabelece normas de finanças públicas

voltadas para a responsabilidade na gestão fiscal. A LC em comento estabelece que a

responsabilidade na gestão fiscal pressupõe a ação planejada e transparente, em que se previnem

riscos e corrigem desvios capazes de afetar o equilíbrio das contas públicas, mediante o

cumprimento de metas de resultados entre receitas e despesas e a observância a limites e

condições no que tange à renúncia de receita, geração de despesas com pessoal, da seguridade

social e outras, dívidas consolidada e mobiliária, operações de crédito, inclusive por antecipação

de receita, concessão de garantia e inscrição em restos a pagar (art. 1o, § 1o).

Com relação à transparência da gestão administrativa, o legislador na LC no

101/2000, dedicou especial atenção a esse tópico, pelo que é válida a transcrição dos artigos 48 e

49 da aludida lei:

Da Transparência da Gestão Fiscal

Art. 48. São instrumentos de transparência da gestão fiscal, aos quais será dada
ampla divulgação, inclusive em meios eletrônicos de acesso público: os planos,
orçamentos e leis de diretrizes orçamentárias; as prestações de contas e o
respectivo parecer prévio; o Relatório Resumido da Execução Orçamentária e o
Relatório de Gestão Fiscal; e as versões simplificadas desses documentos.

Parágrafo único. A transparência será assegurada também mediante incentivo à


participação popular e realização de audiências públicas, durante os processos
de elaboração e de discussão dos planos, lei de diretrizes orçamentárias e
orçamentos.

Art. 49. As contas apresentadas pelo Chefe do Poder Executivo ficarão


disponíveis, durante todo o exercício, no respectivo Poder Legislativo e no
órgão técnico responsável pela sua elaboração, para consulta e apreciação pelos
cidadãos e instituições da sociedade.

Parágrafo único. A prestação de contas da União conterá demonstrativos do


Tesouro Nacional e das agências financeiras oficiais de fomento, incluído o
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, especificando os
empréstimos e financiamentos concedidos com recursos oriundos dos
35

orçamentos fiscal e da seguridade social e, no caso das agências financeiras,


avaliação circunstanciada do impacto fiscal de suas atividades no exercício.

No mesmo ano em que foi aprovada a LRF, entrou também em vigor a Lei no

10.028, de 19 de outubro de 2000 que, dentre outras providências, passou a considerar infração

administrativa contra as leis de finanças públicas o ato de deixar de divulgar ou de enviar ao

Poder Legislativo e ao Tribunal de Contas o relatório de gestão fiscal, nos prazos e condições

estabelecidos em lei, sujeitando os infratores à pena de multa de trinta por cento de seus

vencimentos anuais, sendo o pagamento da multa de sua responsabilidade pessoal.

Sobre o assunto responsabilidade fiscal e transparência, Marino Pazzaglini Filho

nos ensina que

nos termos do caput do art. 48 da LRF, deve ser dado amplo conhecimento à
sociedade do planejamento e execução da gestão fiscal, inclusive utilizando-se
de meios eletrônicos de acesso ao público, como, por exemplo, a Internet, com
a divulgação dos seguintes documentos fiscais:

- Plano Plurianual (art. 165 da CF);


- Lei de Diretrizes Orçamentárias (art. 4o);
- Lei Orçamentária Anual (art. 5o);
- Prestação de contas e respectivo parecer prévio (art. 56/58);
- Relatório Resumido da Execução Orçamentária (arts. 52 e 53);
- Relatório da Gestão Fiscal (arts. 54 e 55); e
- Versões simplificadas desses documentos (art. 48).”8

Em 30 de dezembro de 2004 foi aprovada a Lei no 11.079, que institui normas

gerais para licitação e contratação de parceria público-privada – Lei das PPPs – no âmbito da

Administração Pública.

Trata-se de uma considerável inovação no ramo das parcerias formadas pelo poder

público com o particular, parcerias essas que até então se davam somente na forma da Lei no

8.987 de 13 de fevereiro de 1995, que dispõe sobre o regime de concessão e permissão da

prestação de serviços públicos previstos no artigo 175 da Constituição Federal. Essa lei reforçou

a necessidade de observância aos princípios da eficiência, moralidade administrativa e

publicidade ao exigir, no artigo 4o, que sejam observadas a eficiência no cumprimento das

8
PAZZAGLINI FILHO, Marino. Crimes de responsabilidade fiscal. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2002. p. 51.
36

missões de Estado e no emprego dos recursos da sociedade e transparência dos procedimentos e

das decisões. Tratando ainda da publicidade, em respeito a esse princípio a nova lei ampliou o

leque de participação dos administrados na gestão da res pública, uma vez que deverão ser

publicadas na imprensa as minutas de edital de licitação e de contrato, aceitando-se sugestões no

prazo de 30 (trintas) dias (artigo 10, inciso VI). Verifica-se ainda a presença marcante do

princípio da publicidade na disponibilização ao público dos relatórios de desempenho dos

contratos de parceria público-privada, relatórios esses que serão remetidos anualmente ao

Congresso Nacional e ao Tribunal de Contas da União por um órgão gestor de licitações (artigo

14, parágrafos 4o e 5o).

Os servidores públicos civis do Poder Executivo Federal, além do dever de

observância de toda a legislação pertinente, obviamente, estão também sujeitos à observância do

Código de Ética Profissional do Servidor Público do Poder Executivo Federal, aprovado pelo

Decreto no 1.171, de 22 de junho de 1994. O citado Código de Ética não se esqueceu de

contemplar o dever de obediência ao princípio da publicidade, considerando falta de ética

profissional a recusa à obediência, dispondo nos incisos VII e VIII o seguinte:

VII – salvo os casos de segurança nacional, investigações policiais ou interesse


superior do Estado e da Administração Pública, a serem preservados em
processo previamente declarado sigiloso, nos termos da lei, a publicidade de
qualquer ato administrativo constitui requisito de eficácia e moralidade,
ensejando sua omissão comprometimento ético contra o bem comum, imputável
a quem a negar.

VIII – toda pessoa tem direito à verdade. O servidor não pode omiti-la ou
falseá-la, ainda que contrária aos interesses da própria pessoa interessada ou da
Administração Pública. Nenhum Estado pode crescer ou estabilizar-se sobre o
poder corruptivo do hábito do erro, da opressão, ou da mentira, que sempre
aniquilam até mesmo a dignidade humana quanto mais a de uma Nação.

A transparência na Administração Pública Federal pode ainda ser verificada no

Decreto no 4.334, de 12 de agosto de 2002, que dispõe sobre as audiências concedidas a

particulares por agentes públicos em exercício na Administração Pública Federal direta, nas

autarquias e fundações públicas federais, considerando-se esses agentes públicos, os civis ou os


37

militares. No artigo 3º está caracterizada em absoluto a preocupação com a transparência no

relacionamento profissional entre os agentes públicos e os particulares em geral. Vejamos:

Art. 3o As audiências de que trata este Decreto terão sempre caráter oficial,
ainda que realizadas fora do local de trabalho, devendo o agente público:

I – estar acompanhado nas audiências de pelo menos um outro servidor público


ou militar; e

II – manter registro específico das audiências, com a relação das pessoas


presentes e os assuntos tratados.

Parágrafo único. Na audiência a se realizar fora do local de trabalho, o agente


público pode dispensar o acompanhamento de servidor público ou militar,
sempre que reputar desnecessário, em função do tema a ser tratado.

Conclusão

Os atos da Administração Pública não devem jamais fugir ao controle dos

administrados. A legislação em vigor disciplina de forma satisfatória o direito de acesso às

informações e publicidade dos atos administrativos, bem como prevê as responsabilidades de

agentes infratores que de qualquer forma violam ou tentam violar a transparência na

administração. Contudo, é imprescindível que seja feito um trabalho de conscientização junto ao

público em geral sobre a importância de conhecerem seus direitos e garantias fundamentais

previstos na Constituição Federal, a importância de fiscalizar os atos da administração, exigindo

uma conduta ética e profissional ímpar daqueles que são remunerados para bem gerir a coisa

pública. Esse trabalho de conscientização poderia ser feito através de campanhas públicas,

programas de parcerias, levando aos administrados em geral o amplo conhecimento de toda a

legislação referente à administração e o modo de exercer seus direitos e fazer prevalecer a

transparência dos atos administrativos.


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BIBLIOGRAFIA

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FEREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Direitos Humanos Fundamentais. 6ª ed. São Paulo:
Editora Saraiva. 2004.

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Malheiros, 2005.

MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional, 15ª ed. São Paulo: Editora Atlas, 2004.

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2002.

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DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo, 17ª ed. São Paulo: Editora Atlas,
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RÁO, Vicente. O Direito e a Vida dos Direitos, 5ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais,
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