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As consequências e riscos do novo espírito do Capitalismo na sociedade

global contemporânea.

Resumo
Este texto tem o objetivo de discutir frente aos textos lidos e as discussões estabelecidas em aula pela disciplina
optativa Pensamento Sociológico Contemporâneo II, discorrer sobre a atualidade dos debates em torno da ideia
do novo espírito do capitalismo e as consequências para a sociedade contemporânea. Exporemos uma breve
análise de como o capitalismo a partir da década de 1970, mediante sua crise estrutural desenvolveu uma nova
forma e metamorfoseou o seu substrato, mudando drasticamente a sua estrutura interna e devido a esta crise
estrutural, provocou uma mudança em seus paradigmas e bases, inclusive alterando a sua forma de reprodução e
seu sistema de acumulação de capital.

Palavras-Chave: Capitalismo. Crise Estrutural. Sociedade Contemporânea.

Abstract
This text has the objective of discussing with the texts read and the discussions established in class by the
elective course Sociological Thought Contemporary II to discuss the current debates about the idea of the new
spirit of capitalism and the consequences for contemporary society. We will briefly analyze how capitalism from
the 1970s, through its structural crisis developed a new form and metamorphosed its substrate, drastically
changing its internal structure and due to this structural crisis, provoked a change in its paradigms and bases,
including altering its form of reproduction and its system of capital accumulation.

Keywords: Capitalism. Structural Crisis. Contemporary Society.

Introdução

O presente artigo visa discorrer sobre uma análise de como o sistema capitalista a partir da
década de 1970, mediante a sua crise estrutural interna reformulou e ressignificou em seu
cerne interno a sua estrutura, mudando desde a sua base produtiva (abandona a plataforma
Fordista-Taylorista e passa a se valer de uma nova plataforma flexível ou do modelo japonês
de produção da Toyota) e altera a sua forma de acumulação de capital (de acumulação
industrial financeira para a acumulação flexível financeira).
Atualmente, a partir do último quarto do século XX, a sociedade contemporânea é
dimensionada pelas novas determinações e por um novo espírito do capitalismo. Nesta
passagem do capitalismo industrial para o capitalismo flexível, o sistema incorpora em seu
cerne interno uma nova fase globalizada e hegemônica. Simultaneamente, entretanto,
assistimos a ocorrência de fenômenos econômicos, políticos, sociais e ambientais inusitados
que nos levam a considerar que o capitalismo globalizado entrou em uma nova etapa que
requer novas categorias para ser compreendido adequadamente.
Com o advento da globalização e do desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia aplicada,
principalmente nos âmbitos das engenharias de comunicação, eletrônica, transporte e
materiais, estes fatores permitiram ao capitalismo atual um desenvolvimento sem precedentes
na história da Humanidade. Através destas Tecnologias conquistou a mundo e o dominou
totalmente, imprimindo aos Estados nacionais e sociedades humanas, sua lógica econômica e
hegemônica. Através de seus mecanismos destruiu fronteiras físicas e culturais destinando o
mundo a um fluxo infinito de dados, informações, materiais e pessoas, processos que se
realizam muitas vezes em tempo real.
O capitalismo e a globalização adentraram em todos os tecidos sociais e legitimaram seus
processos de dominação, criando instrumentos de controle e uma linguagem de representação
que espalha pelo globo a sua mentalidade e ideologia. Através de uma engenharia social
sofisticada desenvolve uma lógica interna que afeta as subjetividades dos seres humanos,
imprimindo aos mesmos seus processos de consenso, ou seja, mediante as críticas que sofre,
em seu processo de regulamentação e legitimação de suas ações, absorve as mesmas e, as
ressignificas, demonstrando-as como de seu interesse, e desta forma vai aglutinando e
destruindo qualquer possibilidade de contradição e crise.
Segundo os autores Luc Boltanski e Éve Chiapello, em sua obra O Novo Espírito do
Capitalismo (2009) “a verdadeira crise não é do capitalismo, mas sim da crítica ao
capitalismo”, para eles “o capitalismo prospera e a sociedade cada vez mais se degrada”. O
capitalismo em essência não deixou de lado o seu fator propulsor de produção de
desigualdades e miséria, em seu processo por busca de mais lucros, subordinou os Estados
nacionais a aceitarem as suas políticas econômicas, que traz consigo o enfraquecimento da
atuação dos Estados nacionais nas diretrizes que permeiam as relações do mundo do trabalho,
causando a produção do fenômeno da flexibilização e o fim em muitos países de alguns
direitos sociais e trabalhistas. Estes fatores associados a quebra ou falência dos projetos de
Estado de Bem-estar social de inúmeros países, culminam em fortes crises que lançam ao
mundo um contingente inumerável de pessoas ao desemprego e miséria, e geram crises
humanitárias sem precedentes em muitos destes países.
Para além disso, em sua busca frenética por mais lucros, o capitalismo gera intensos conflitos
militares em áreas estratégicas do globo (países do Oriente Médio, da África e sudeste
asiático), na busca por recursos escassos e bens materiais primários – como petróleo e
minerais raros, não levando em conta, os custos sociais e ambientais destas regiões, e
causando neste processo os fenômenos de grandes imigrações de pessoas, destas localidades
em guerra para os grandes centros europeus e EUA.
Devido a tal fator a sociedade humana e o meio ambiente tem sido vitimadas nas últimas
décadas por graves crises sociais, econômicas e ambientais que colocam em risco a garantia
da vida no planeta. Os fenômenos do capitalismo e da globalização em sua atual configuração
reformulou a base da sociedade, de sua concepção clássica de sociedade industrial de classes a
transforma naquilo a que Ulrich Beck, em sua obra Sociedade de Risco: Rumo a uma outra
Modernidade (2010) conceitua como uma “sociedade de risco”, cuja proposta o autor nos leva
a uma reflexão crítica em torno dos conflitos e incertezas gerados pela sociedade
contemporânea na busca incessante em prol da ideia de desenvolvimento e progresso
científico.
Neste artigo procuraremos discorrer sobre os impactos que o capitalismo e a globalização
imprime a sociedade contemporânea, a fim de considerar as alterações que estes processos
operam na produção de subjetividade em razão de novas formas de acúmulo de valor;
explicitaremos a noção do advento de um novo espírito do capitalismo, de um intenso
processo de globalização, do uso da ciência como valor econômico e de produção de riscos
como condição da reprodução insaciável do sistema capitalista por mais lucros.

O Cosmos capitalista e o seu novo espírito

O conceito clássico para o termo “cosmo”1 em sua acepção mais comum, emprestado das
ciências astronômicas, definimos como: “espaço universal, composto de matéria e energia e
ordenado segundo suas próprias leis; universo” e da filosofia clássica grega como: “a
harmonia universal; o universo ordenado em leis e regularidades, organizado de maneira
regular e integrada”. O Capitalismo em seu atual estado, criou para si, um “cosmos”, em que
imprime ao mundo globalizado as suas regularidades e leis, de uma forma que não visa
apenas ao ordenamento do mundo, mas também a sua dominação total. Em seu processo de
consolidação absorveu toda as formas de contradição, crises e crítica, e se autotransformou,
ressignificando muitas de suas categorias e conceitos.
O capitalismo remodelou sua estrutura e que pode ser pensada basicamente como o seu
“coração” sendo o Mercado Global Financeiro e seu “cérebro”, em boa medida os conselhos
das grandes corporações transnacionais e bancárias (a riqueza dos 80 mais ricos deste mundo
é a mesma, se juntada, das 3,5 bilhões de pessoas mais pobres), permeado pelo seu novo
espírito, sua nova gramática social, sua ideologia neoliberal e sua mentalidade do Manager,
ou da lógica da administração empresarial. O capitalismo durante quase toda a sua história,
com certa exceção às últimas cinco décadas, vivenciou um período de intensas mudanças ao

1 Dicionário Eletrônico Houaiss (2009).


longo de sua caminhada em direção a supremacia hegemônica e dominação total do mundo
globalizado.
Desde os seus primórdios com os processos de mercantilização, protecionismo e acumulação
primitiva sempre deparou-se com crises cíclicas e passageiras (superprodução de
mercadorias), que de certa maneira, não mudaram internamente os seus mecanismos
estruturais, mas, durante a década de 1970, uma nova forma metamorfoseou o seu substrato,
mudando drasticamente a sua lógica interna e devido a esta “crise estrutural interna”,
provocou uma mudança em seus paradigmas e bases, inclusive alterando a sua forma de
reprodução e seu sistema de acumulação de capital.
Segundo Boltanski & Chiapello (2009), estes autores analisaram a crise estrutural do
capitalismo dos anos da década de 1970 e a partir de então traçaram o perfil de um novo
espírito do capitalismo, em uma análise inédita da literatura produzida pela gestão
empresarial. A partir de meados da década de 1970, o capitalismo renuncia ao princípio de sua
plataforma produtiva fordista-taylorista, onde havia uma organização hierarquizada e
cristalizada de trabalho e passa a desenvolver uma nova estrutura em rede, mais flexível e
verticalizada permitindo aos seus atores uma maior autonomia relativa do trabalho, mas tal
transformação acometeu o mundo do trabalho e lançou-o em uma crise, à custa de garantias
materiais, ambientais e humanas incalculáveis.
A partir dos anos de 1970, a plataforma produtiva fordista-taylorista, o Welfare State
keynesiano e o Pacto Capital-Trabalho, que permitiu aos países centrais e ao capitalismo
industrial e financeiro atingir o seu pleno desenvolvimento, começou a dar mostra de
esgotamento. Estabelecendo assim uma “crise estrutural do capitalismo”, um quadro clínico
mortuário que se evidenciou com a queda acentuada e estrutural da taxa de lucro; com o
desgaste da plataforma acumulativa e produtiva do modelo fordista-taylorista; com a falência
do modelo de Estado de Bem-estar social; crescimento excessivo da esfera financeira –
determinando e “colocando o capital financeiro como campo prioritário para a especulação,
na nova fase do processo de internacionalização” (ANTUNES, 2002, p. 30); intensificação
dos processos das fusões entre empresas ocasionando maior concentração de capitais; e o
esgotamento dos Estados nacionais incrementou uma onda acentuada, principalmente nas
décadas de 1980/90 de inúmeras privatizações de suas empresas estatais.
Essa crise que se intensificou com os fortes ataques das políticas neoliberais, deliberadas
pelos governos dos EUA e Grã-Bretanha e pelo enfraquecimento da extinta URSS, iniciou um
processo de reestruturação produtiva e inaugurou uma nova era, o capitalismo deixa de lado a
base do modelo de acumulação produtiva do fordismo-taylorismo e implanta a forma da
acumulação flexível (Sistema Toyota de Produção), esta nova fisionomia acompanhado do
intenso processo de privatização das empresas estatais do Estado, levou às falências milhares
de empresas e colocou milhões de trabalhadores nas ruas, intensificando e elevando as taxas
de desemprego em inúmeros países, este fato acarretou profundas modificações na morfologia
social e nas relações do mundo do Trabalho, ocasionando crises e esgotamentos nas relações
entre a Política, sindicatos e trabalhadores.
A reestruturação do capitalismo ao longo das últimas décadas, que, como vimos, ocorreu em
torno dos mercados financeiros e dos movimentos de fusão e aquisição das multinacionais
num contexto de políticas governamentais favoráveis em material fiscal, social e salarial,
também foi acompanhada por fortes incentivos ao aumento da flexibilização do trabalho.
A desregulamentação dos mercados financeiros, sua descompartimentação, a
falta de intermediação e a criação de “novos produtos financeiros”
multiplicaram as possibilidades de lucros puramente especulativos, por meio
dos quais o capital cresce sem passar por um investimento em atividades
produtivas. (BOLTANSKI & CHIAPELLO, 2009, p. 21)

A criação de novos produtos financeiros e sistemas de investimentos, nada mais é que, repor
perpetuamente em jogo o capital no circuito econômico com o objetivo de extrair lucro, ou
seja, aumentar o capital que será, novamente, reinvestido, sendo esta a principal marca do
capitalismo atual, aquilo que lhe confere a dinâmica e a força de transformação. Independente
de seus atores, seja ele o capitalista (acionistas), principalmente aqui definido como aquele
que tem capital de investimento e poder político para realizar as manobras necessárias nos
cenários que o mundo globalizado enseja, ou, no caso dos trabalhadores assalariados, que na
atual configuração do sistema perderam a sua essência primordial, e seu único valor para o
sistema se entrelaça na condição de se tornarem consumidores em potencial de suas
mercadorias e artefatos econômicos (serviços de bancos, linhas de créditos especificamente
para consumo, etc) e se tornaram apenas massa de manobra para as grandes corporações
transnacionais. Ambos, independente de sua condição no processo são apenas instrumentos
das relações econômicas, e que de certa forma, se tornaram vítimas dos efeitos do capitalismo
globalizado, que na acepção do fato, se tornou um ente incontrolável e insaciável na busca
frenética por mais lucro.
O capitalismo, sob muitos aspectos, é um sistema absurdo: os assalariados
perderam a propriedade do resultado de seu trabalho e a possibilidade de
levar uma vida ativa fora da subordinação. Quanto aos capitalistas, estão
presos a um processo infindável e insaciável, totalmente abstrato e
dissociado da satisfação de necessidades de consumo, mesmo que supérfluas
(BOLTANSKI & CHIAPELLO, 2009, p. 38).
Em seu atual momento, o capitalismo com o advento e o desenvolvimento da Ciência e da
tecnologia avançada, criou para si e para a dominação do globo – os sistemas abstratos, nas
quais torna refém a sociedade e os indivíduos, ou seja, em sua busca infindável de mais lucro
(especulativo e virtual), ao valer-se da Ciência (exemplo: o caso do agronegócio: algumas
empresas ao abrir seu capital, seus títulos e ações para os mercados financeiros, legitima a
especulação no processo, ou seja, o acionista vende uma determinada produção, que ainda
nem foi plantada e confiante na Tecnologia (sistemas abstratos), que lhe garante previsões
futuras, se lança no processo mesmo ciente de um certo nível de risco, e probabilidades
possíveis sobre o clima e mercados, promove a difusão dos mercados futuros). Para além
disso, ao validar as suas ações e estratégias, durante o processo (especulação-lucro virtual)
legitima a ideologia capitalista que justifica o engajamento dos atores no capitalismo.
A qualidade do compromisso que se pode esperar depende, antes, dos
argumentos alegáveis para valorizar não só os benefícios que a participação
nos processos capitalistas pode propiciar individualmente, como também as
vantagens coletivas, definidas em termos de bem comum, com que ela
contribui para todos (BOLTANSKI & CHIAPELLO, 2009, p. 39).

O novo espírito do capitalismo é justamente o conjunto de crenças associadas à ordem


capitalista neoliberal que contribuem para justificar e sustentar essa ordem, legitimando os
modos de ação e as disposições coerentes com ela. Essas justificações, sejam elas gerais ou
práticas, locais ou globais, expressas em termos de virtude ou em termos de justiça, dão
respaldo ao cumprimento de tarefas mais ou menos penosas e, de modo mais geral, à adesão a
um estilo de vida, em sentido favorável à ordem capitalista. Nesse caso, pode-se falar de
ideologia dominante, contanto que se renuncie a ver nela apenas um subterfúgio dos
dominadores para garantir o consentimento dos dominados e que se reconheça que a maioria
dos participantes no processo, tanto os fortes como os fracos, apoia-se nos mesmos esquemas
para representar o funcionamento, as vantagens e as servidões da ordem na qual estão
mergulhados.
Se nos for permitido um resumo rápido, mas capaz de explicar um pouco
melhor o desenrolar da história das teorias econômicas que nos interessa
aqui, pode-se dizer que a incorporação do utilitarismo à economia
possibilitou considerar como ponto pacífico que “tudo o que é benéfico ao
indivíduo é benéfico à sociedade. Por analogia, tudo o que engendra um
lucro (portanto, serve para o capitalismo) também serve para a sociedade
(BOLTANSKI & CHIAPELLO, 2009, p. 44)

Nesta perspectiva econômica, só o acumulo e crescimento das riquezas, independente de


quem seja o seu beneficiário (de preferência que detenha poder econômico e político), é
considerado critério do bem comum. “Evidentemente, seria pouco realista não incluir no
espírito do capitalismo seus três pilares justificativos fundamentais: progresso material, modo
de organização social favorável ao exercício das liberdades econômicas e compatível com os
regimes políticos liberais” (BOLTANSKI & CHIAPELLO, 2009, p. 45). Em seu processo de
dominação o capitalismo através de seus interesses e instrumentos criados para a legitimação
de sua política, criou para si e copiada do Mercado Global uma linguagem e constituição que
de certa forma será aglutinada pelas constituições de inúmeros Estados nacionais, pautas de
projetos políticos, discursos de líderes internacionais, discursos de atores da mídia e
esportistas, que são cooptados e muito bem valorizados para serem exemplos a serem
seguidos.
Na qualidade de ideologia dominante, o espírito do capitalismo tem, em
princípio, a capacidade de permear o conjunto das representações mentais
próprias de determinada época, de infiltrar-se nos discursos políticos e
sindicais, de formar representações legítimas e esquemas de pensamento a
jornalistas e pesquisadores, de tal modo que sua presença é ao mesmo tempo
difusa e geral (BOLTANSKI & CHIAPELLO, 2009, p. 84)

Um exemplo a ser especificado é o uso da linguagem na definição da “coisa pública”, quando


pensado o termo “coisa pública” nos remete a ideia de campo político, uma coisa que precisa
da mediação da Política para definir o seu uso, valor e apropriação pelo indivíduo ou grupo, e
a falta de esclarecimento de tal consenso leva a sociedade ao conflito de interesses. Quando
pensado o público como sendo de interesse comum, ou como exercício definirmos como
“coisa comum”, nos remete a ideia de campo do Mercado, o bem é comum a todos, domina
aquele que tiver maior poder econômico, ou seja, o bem pode ser negociado, e passa a
exprimir a ideia de mercadoria, embora em sua essência, é algo público.
A sua nova linguagem segue a ideologia neoliberal e palavras como os termos indivíduo,
liberdade individual, segurança privada, seguro de saúde, plano de aposentadoria pessoal,
Estado mínimo, contrato, plano de carreira entre outros termos, são associadas a sua nova
dinâmica, a sua nova linguagem e adentram ao tecido social por sua rede intermediada pela
mídia e por uma engenharia social que cada vez mais define e valoriza os quadros de talentos
e sucesso que atendem a sociedade capitalista atual. A dominação de uma linguagem permite
ao capitalismo determinar quem são seus aliados e seus inimigos, e com o apelo da mídia cria
os heróis e inimigos públicos, que podem ser desde indivíduos que cometeram crimes graves
às ideologias partidárias e políticas contrárias ao seu sistema.
O novo espírito do capitalismo “apresenta duas faces, uma voltada para a acumulação do
capital flexível e financeiro, e a outra para princípios de legitimação” (BOLTANSKI &
CHIAPELLO, 2009, p. 84) de seus ideais do neoliberalismo. O processo das políticas
econômicas neoliberais da reestruturação produtiva ganha força e obriga os países capitalistas
centrais e periféricos a um intenso processo de flexibilização da plataforma produtiva e das
relações de trabalho, passando a enfatizar as vantagens das novas formações produtivas;
melhora na produtividade, maior lucratividade, pouca rigidez na produção, desmonte de
grandes parques industriais, empresas mais enxuta e flexibilidade do tempo (menos horas
trabalhadas na fábrica).
O neoliberalismo passou a ditar o ideário e o programa a serem
implementados pelos países capitalistas, inicialmente no centro e logo depois
nos países subordinados, contemplando reestruturação produtiva,
privatização acelerada, enxugamento do Estado, políticas fiscal e monetária
sintonizadas com os organismos mundiais de hegemonia do capital, como o
FMI e o BIRD, desmontagem dos direitos sociais dos trabalhadores,
combate cerrado aos sindicalismos de esquerda, propagação de um
subjetivismo e de um individualismo exacerbados, dos quais a cultura “pós-
moderna” é expressão, animosidade direta contra qualquer proposta
socialista contrária aos valores e interesses do capital etc. (ANTUNES, 2002,
p. 187).

O assentimento da ideia de precarização, perpassa e informa a degradação das condições de


trabalho do novo padrão flexível, em que os direitos sociais e trabalhistas foram não só
flexibilizados e destituídos, mas dispostos em função das necessidades do mercado
consumidor, configurando o assim as bases do chamado modelo toyotista de produção, em
que o operário tornou-se polivalente, diversificado, atuando na lógica do Just in time2,
integrado em equipe e trabalhando em prol do controle de qualidade total.
A flexibilização do sistema produtivo e a flexibilidade da própria organização do trabalho
terminaram intensificando a exploração do trabalho, principalmente com a ocidentalização do
modelo japonês, que, por estar muito mais sintonizado com a lógica econômica neoliberal em
contrapartida ao modelo da social-democracia, enfraqueceu ainda mais o Estado de bem-estar
social, provocando encolhimento dos fundos públicos e uma drástica redução dos direitos e
das conquistas sociais válidas para a população em geral.
Em contrapartida a globalização exerceu um papel fundamental ao permitir que as grandes
corporações transnacionais deslocassem suas plantas produtivas para territórios com mão de
obra barata e isenções fiscais, dispersos ao longo do globo, geralmente mantendo os seus
centros de administração e poder em cidades financeiras e onde exercem influência no poder
político e econômico, de forma decisória em escalas mundiais. O fenômeno da globalização

2 Just in time (JIT) é um sistema de administração da produção que determina que nada deve ser produzido,
transportado ou comprado antes da hora certa. “Just in time” é um termo inglês, que significa literalmente “na
hora certa” ou “momento certo”. Este sistema pode ser aplicado em qualquer organização e é muito importante
para auxiliar a reduzir estoques e os custos decorrentes do processo. O “Just in time” é o principal pilar de
diversas fábricas, em especial de carros, como por exemplo o sistema Toyota de produção.
em expansão caminha paripassu com a evolução do novo espírito capitalista, pois em seu
processo de dominação produz os seus instrumentos de dominação por meio da criação de
seus próprios sistemas simbólicos; no caso da globalização – a produção simbólica de signos
universais e dominantes, como meios de comunicação e de uma linguagem própria e
universal; no caso do novo espírito do capitalismo – de uma literatura própria e interna ao seu
sistema de referências que agem como “estruturas estruturantes” (BOURDIEU, 1989, p.8) na
produção de seu universo simbólico.
Em sua análise mais dissecada podemos notar que a globalização e o capitalismo, por meio da
comunicação em rede da Internet criaram em seu núcleo interno uma linguagem e língua
própria, que na acepção de Ferdinand de Saussure – “a língua é compreendida como um
sistema estruturado e fundamentalmente tratada como condição de inteligibilidade da palavra”
(BOURDIEU, 1989, p. 8). O capitalismo e a globalização encontraram na linguagem
matemática uma forma de produzir uma língua universal que é traduzida para qualquer idioma
humano ou híbrido. Através da Tecnologia avançada da eletrônica e o uso dos meios de
comunicação em rede, esta linguagem foi desenvolvida por meio de códigos numéricos e
algorítimos matemáticos, que deram um caráter ontológico a este processo de
desenvolvimento e formação de uma linguagem universal, que permite a todos, no mundo
contemporâneo, se entenderem e se comunicarem através de múltiplas redes e símbolos.
Com o desenvolvimento desta linguagem universal e de suas tecnologias, que podemos
categorizar como instrumentos de conhecimento e de comunicação, que de acordo com Pierre
Bourdieu, em seu livro O Poder Simbólico (1989) discorre sobre o poder estruturante destes
instrumentos na produção de sistemas simbólicos de poder e dominação. Bourdieu estabelece
que o poder simbólico é um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma
ordem e dar um sentido imediato do mundo (e, em particular, do mundo social). Os símbolos
produzidos por estes dois fenômenos – a globalização e o capitalismo atual; se complementam
em sua lógica de aglutinar, estruturar e dominar o mundo social e suas demais esferas, são os
instrumentos por excelência da “integração social” da sociedade capitalista e global. Através
da produção de seus símbolos eles tornam possíveis o “Éthos3 capitalista” e dão um “senso
global” acerca do sentido do mundo social e implementam os fundamentos para a reprodução
da ordem social, no caso capitalista e da globalização, constituem um “poder simbólico” e
real, dentro da ideia de uma lógica de integração legitima sua dominação imprimindo ao
mundo social sua condição de ser integrador absoluto.
3 Conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da
cultura (valores, ideias ou crenças), característicos de uma determinada coletividade, época ou região. In:
Dicionário eletrônico Houaiss (2009).
O poder simbólico como poder de constituir o, dado pela enunciação, de
fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e,
deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo; poder quase mágico
que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou
econômica), graças ao efeito específico de mobilização, só se exerce se for
reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário. Isto significa que o poder
simbólico não reside nos sistemas simbólicos em forma de uma
“ilocutionary force” mas que se define numa relação determinada – e por
meio desta – entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos, quer
dizer, isto é, na própria estrutura do campo em que se produz e se reproduz a
crença (BOURDIEU, 1989, p. 14).

Com o desenvolvimento das redes mundiais de comunicação, a internet e as intranet’s das


grandes corporações e instituições financeiras; as imigrações e fluxos contínuos de dados,
informações e pessoas impõem ao mundo social uma força especial que torna visível o
horizonte de referência destes instrumentos. Estes instrumentos são cooptados e relacionados
aos interesses das classes dominantes, e por meio destes, as classes dominantes produzem
seus símbolos de dominação e suas ideologias, que servem-se de interesses particulares
intrinsecamente a si e tendem a se apresentar ao mundo, como interesses universais, comuns a
todos e que todos serão beneficiados.
Uma falácia, pois o real interesse da classe dominante é a subordinação da classe dominada, e
por esta razão, produz sua própria cultura dominante. Uma cultura dominante que é
disseminada por seu meio de comunicação e sua tecnologia, sabendo que a comunicação e as
relações de poder são inseparáveis e são determinadas pela forma de acumulação de capital –
material, virtual e simbólico, que quando são colocados na conta, determinam sua legitimação
e poder, de umas sobre as outras.
Embora caminhem conjuntamente, a globalização e o capitalismo, não são dependentes um do
outro, um pode existir sem o outro, embora juntos, são hegemônicos e totalitários, ambos são
sistemas de forças poderosas e pontos de equilíbrio dinâmico nas mediações de campo
político, social e econômico. Mas em seu espírito interno são forças livres e incontroláveis,
ultrapassam os limites e fronteiras das relações humanas, seja qual for o campo de ação, uma
esfera de poder que não tem Estado, indivíduo ou grande corporação transnacional que o
detenham, um processo que tem seu limite apenas nas condições primárias dos recursos do
planeta, talvez este seja o único limite para estes fenômenos, o esgotamento total dos recursos
do planeta Terra.
A globalização e a sociedade de risco

Em sua obra intitulada Globalização: As Consequências Humanas, de 1999, o sociólogo


polonês Zygmunt Bauman demonstra uma detalhada história da globalização, desde o
desenvolvimento de computadores e o surgimento da Internet, da comunicação em tempo real
e das consequências desta tecnologia para as relações humanas e sua sobrevivência. As
fronteiras físicas foram derrubadas ou ressignificadas neste processo, mas, doravante ao efeito
sobre o espírito humano, estamos cada vez mais cerceados de nossa liberdade e subjetividade,
nosso campo de atuação foi delimitado, em nosso narcísico sonho de ser um ente global e
livre; embora aparentemente e enganosamente parecíamos estarmos na direção das ações
humanas, construímos um novo mundo em que não somos capazes de ditar os acontecimentos
ou prever os riscos eminentes das consequências globais e catastróficas da globalização e do
capitalismo em suas esferas de poder – político, econômico, científico e militar.
A “globalização” está na ordem do dia; uma palavra da moda que se transforma
rapidamente em um lema, uma encantação mágica, uma senha capaz de abrir as
portas de todos os mistérios presentes e futuros. Para alguns, “globalização” é o
que devemos fazer se quisermos ser felizes; para outros, é a causa da nossa
infelicidade. Para todos, porém, “globalização” é o destino irremediável do
mundo, um processo irreversível; é também um processo que nos afeta a todos
na mesma medida e da mesma maneira. Estamos todos sendo “globalizados” —
e isso significa basicamente o mesmo para todos (BAUMAN, 1999, Pg. 7).

A globalização em sua nova formação estrutural totalizante forçou impiedosamente aos países
do globo a abertura de suas fronteiras por meio de acordos econômicos, políticos e sociais,
visando um fluxo permanente e infinito de informações, recursos e pessoas. Com a
ressignificação das fronteiras físicas (territoriais) e subjetivas (ideologias, barreiras culturais,
barreiras sociais, mentalidades e psiquismo individual) fortaleceu os centros de produção de
significados e valor, transformando estes em elites extraterritoriais e segregando os outros
espaços de disputa, causando uma progressiva ruptura de comunicação entre estes atores, e
criando um grande divisor – países ricos com tecnologia avançada tornando-se cada vez mais
globais e países em desenvolvimento, forçados a serem cada vez mais locais e subordinados.
Com o deslocamento destas forças e concentração nos centros elitistas, a atual polarização
tem muitas dimensões; este novo centro produz uma desigualdade social e econômica sem
precedentes na história humana, com implicações políticas, ambientais e sociais que colocam
os países numa saia justa na luta por reconhecimento, sobrevivência e garantias de recursos
primordiais para o desenvolvimento e sustentabilidade de seus povos.
A globalização permitiu ao indivíduo moderno uma mobilidade extraterritorial e um aumento
da esfera de sua liberdade individual. A mudança constante de suas localidades em busca de
melhores condições de trabalho e vida, e com o fim das fronteiras físicas e/ou parcialmente
acordados os fluxos imigratórios ou acesso regulado pelos estamentos econômicos das
grandes corporações transnacionais e bancárias, e por fim com a flexibilização do mundo do
trabalho; o sistema capitalista em paripassu com a globalização impôs ao indivíduo moderno
uma lógica que traz seus próprios males, a perda da consciência de coletividade, ou seja, com
a globalização e a fragmentação do mundo do trabalho corporativo e industrial, os indivíduos
estão cada vez mais desenraizados de suas origens e marginalizados de suas identidades
políticas e socioculturais, tornando-se meramente forças livres de trabalho, sem direitos
legitimados e aceitando condições precarizadas de trabalho e remuneração, que como
processo final degrada a sua condição humana e consciência de pertencimento a algo e, o
desenraíza de suas origens e tradições.
Dado o cenário acima mencionado, com a desregulamentação de muitos direitos trabalhistas e
sociais, o indivíduo influenciado por uma força oculta estabelecida pela mídia e interesses de
grandes corporações, tendem cada vez mais solicitar junto aos seus Estados nacionais e/ou
governos vigentes a garantia de seus recursos (trabalho, moradia, saúde, educação, outros) e
direitos (regulamentação e proteção). O que coloca em xeque a qualidade e a eficiência da
Política e suas instituições em nosso contexto atual, que outrora era a detentora do poder e
ditava as regras do jogo, atualmente em sua luta por determinações, regulamentação ou
desregulamentação, sofre com o jogo de interesses e sanções econômicas impostas pelas
grandes corporações e as instituições internacionais do Mercado (FMI, Banco Mundial, OIT e
OMC).
A maioria dos países foram duramente atingidos pelas últimas crises do Capitalismo
Financeirista dos últimos anos, o que acarretou reduções drásticas em suas plataformas
produtivas e de serviços agregados, levando os Estados nacionais a repensarem seus projetos
políticos e sociais e colocá-los em segundo plano frente a primazia dos projetos econômicos,
mas como boa parte destes Estados apresentam grandes problemas econômicos e necessitam
de grandes empréstimos para resgatarem sua capacidade produtiva e atrair novamente
investimentos de capitais, muitos se rendem as lógicas e regras das imposições do FMI e
Banco Mundial, o que leva estes a propagação de cortes e reajustes nas esferas dos gastos
sociais. Esta ação causa uma profunda revolta por parte da população em relação aos seus
representantes políticos, que tornam-se lentos e reacionários as exigências e demandas
apresentadas pela sociedade civil, que cada vez mais orientadas pelas imposições da ideologia
capitalista e do advento da supressão da esfera pública pela privada acha seus governos
ineficientes e corruptos, levando a esfera política a uma corrosiva crise de representação e a
desqualificação dos ideais democráticos.
Diante de tal fato, a globalização e o capitalismo atual nos coloca diante de um paradoxo: os
seus instrumentos e instituições permitiram aos indivíduos e as sociedades contemporâneas
caminharem em prol do desenvolvimento e da emancipação do conjunto da humanidade, mas
produziu em seus cernes internos vários dramas que colocam em risco a vida humana e não-
humana do planeta. A Ciência e a Tecnologia estão em um patamar nunca visto na história da
humanidade, criou formas lógicas avançadas de sistemas abstratos, que aparentemente tem
respostas para as mazelas da sociedade, mas é uma falsa ideia se assentar nesta proposição de
segurança e garantia; assim como o capitalismo e a globalização, a Ciência tornou-se um ente
abstrato que coloca em risco o seu entorno, a sociedade humana e o meio ambiente.
Em sua obra, Sociedade de Risco: Rumo a uma outra Modernidade (2010), o sociólogo
alemão Ulrich Beck nos apresenta uma análise e diagnóstico de nosso tempo, às vezes, um
pouco distópico, mas em grande medida nos aponta uma tese em que a sociedade industrial de
classes, caracterizada pela produção e distribuição de bens, em alguns países do Ocidente, e
também a consolidação da Democracia e da expansão de direitos sociais, foi ultrapassada e
deu passagem para a “sociedade de risco” e está atingindo sua plena maturação na medida em
que a Ciência e a Tecnologia criaram em seu processo um cenário que não dão conta mais de
suas predições e controle de riscos, o que de certa forma geram grandes incertezas e
consequências incalculáveis para a vida humana e para o meio ambiente.
Na modernidade tardia, a produção social de riqueza é acompanhada
sistematicamente pela produção social de riscos. Consequentemente, aos
problemas e conflitos distributivos da sociedade da escassez sobrepõem-se
os problemas e conflitos surgidos a partir da produção, definição e
distribuição de riscos científico-tecnologicamente produzidos (BECK, 2010,
p. 23).

Este conjunto de riscos geraria “uma nova forma de capitalismo, uma nova forma de
economia, uma nova forma de ordem global, uma nova forma de sociedade e uma nova forma
de vida pessoal” (BECK, 2010, p. 7). A sociedade de risco caminha paripassu diretamente
com os processos do novo espírito do capitalismo e da globalização: os riscos são
democráticos e globais, afetando as sociedades humanas e classes sociais em todo o globo
sem respeitar fronteiras de nenhum tipo. Os processos que passam a delinear-se a partir dessas
transformações são ambíguos, coexistindo grande concentração de renda nas mãos de poucos
e maiores concentrações de pobreza em larga escala e produzindo uma massa de famintos e
miseráveis sem precedentes, as disputas do campo político e econômico tem produzido um
crescimento de nacionalismo e fundamentalismos religiosos, crises econômicas globais, e
aumentado os conflitos armados e guerras locais e, por fim, potencializando as catástrofes
ecológicas e tecnológicas.
Em seu livro, Beck (2010) nos aponta num primeiro momento os riscos ecológicos (com
impacto imediato sobre a Biosfera terrestre), químicos e nucleares (principalmente o seu uso
militar na fabricação de armas de destruição em massa) e os riscos genéticos (advindo dos
avanços da Bioengenharia e do seu uso na produção de sementes transgênicas e pesquisas
médicas em seres humanos e outras espécies animais e vegetais); de acordo com o autor,
muitos destes riscos são consequências das ações de indústrias de grande porte, laboratórios
de pesquisa avançada, multinacionais, complexos industriais bélicos, grandes corporações
transnacionais e governos dos países mais rico do globo. Beck (2010) em suas últimas
análises sobre a sociedade de risco englobou às categorias acima mencionadas, a categoria
dos riscos econômicos, que em grande medida nos apresenta suas trágicas consequências ao
mundo do trabalho e as economias dos países do globo, com as suas constantes crises
financeiras e queda de mercados financeiros internacionais.
A sociedade de riscos traz consequências em seus processos na qual não são utilizadas
medidas protetoras para a manutenção e garantia lógica da proteção da vida. Esta é conduzida
por uma lógica inversa a garantia da vida; seus interesses são predominantemente econômicos
e são amplamente protegidas pelas leis e constituições, muitas vezes, elaboradas por
conselhos de grandes corporações e individualizados juridicamente por instituições de caráter
globais, cuja força de lei é instituído e minimizados politicamente por seus representantes
legais e colocados nos centros de decisões majoritários – de Congressos Nacionais a
Conselhos Internacionais (Banco Mundial, FMI, ONU, OTAN, Fóruns Mundiais, entre
outros) que visam apenas os fins puramente econômicos.
Os riscos científicos são expostos e legitimados por sub-políticas em grandes Fóruns de
Encontros Mundiais, com as mais abrangentes questões de ordem e agendas que classificam
os níveis de riscos submetidos à Humanidade; tais como conflitos armados, veto ao uso de
armas de destruição em massa, genocídios e programas de combate às mazelas naturais (fome,
miséria, desastres naturais) que afligem o espírito humano; ou legitimam o uso de tecnologias,
como a biotecnologia e a engenharia genética na produção de sementes transgênicas, testes de
novos medicamentos e vacinas em processos bioéticos complicados, que em prol da ideia de
prevenção, colocam em risco a vida humana.
Neste conjunto de fatores, Beck (2010) nos aponta especificamente três grandes ameaças, de
caráter global e total, que afetam toda a esfera da vida no planeta, fatores que podem ou não
serem complementares entre si: Primeiramente aponta os “conflitos tipos bads” que envolve
os riscos pertinentes a destruição ecológicas decorrente do abuso sucessivo de testes
científicos e produtos tecnológicos a que a natureza é submetida em prol do desenvolvimento
industrializado, do progresso científico e da tecnologia avançada; riscos tais como o
aquecimento global, efeito estufa, poluição (solo, atmosfera, mananciais aquíferos),
destruição de ecossistemas orgânicos por testes militares e científicos, abuso de agrotóxicos,
buraco na camada de ozônio e os riscos recorrentes ao uso da engenharia genética na
produção de sementes transgênicas e nas pesquisas médicas em animais, plantas e seres
humanos.
Em segundo lugar aponta os “riscos de caráter humanitários” relacionados a pobreza,
habitação, alimentação, saneamento, saúde, perda de espécies e destruição de habitats,
esgotamento de recursos naturais, como água, combustíveis fósseis. E em terceiro coloca na
conta os “riscos decorrentes ao uso de tecnologia NBC (nuclear, biological, chemical)” na
produção de armas químicas e nucleares de destruição em massa, testes clínicos de vacinas e
medicamentos e/ou produção de certos tipos de doenças (a tecnologia biomédica avançada
reproduz ou altera o DNA e a propriedades mortíferas de alguns vírus e bactérias); o autor
alerta que tais riscos são mediados por cenários conflitantes e amplamente vinculados aos
efeitos políticos e militares de países fundamentalistas e potencial uso por facções terroristas
espalhadas pelo mundo.
A grande eminência de um destes riscos acometerem a sociedade humana é o fato desta
classificação e diagnóstico demonstrar que tais riscos não precisam ser necessariamente de
escala global, terá como consequência final o efeito global, mas, na realidade, grandes áreas
ou partes do mundo estão permeadas por conflitos de caráter local e emaranhadas por
questões de ordem étnicas, raciais, culturais, escassez de recursos e disputas por poder
(Político, econômico, territorial) e influências de grupos religiosos fundamentalistas e de
células terroristas em ascensão (geralmente associadas a ideologias contra a ocidentalização
do mundo e abuso do poder dos grandes centros capitalistas).
A partir de 2008, a crise econômica e financeira que atingiu o mundo globalizado tem
intensificado e produzido em muitos Estados nacionais a necessidade de recuperar as suas
economias, a crise produziu graves implicações políticas, trabalhistas e sociais. Os Estados
nacionais apresentam grandes dificuldades de recuperar e controlar as suas economias, frente
a este desafio, tendem a reduzir seus custos sociais para retomar a sua matriz produtiva
lucrativa, e em alguns casos suas políticas econômicas têm demonstrado ineficiência, e
agravado o cenário, repercutindo em taxas exorbitantes de desemprego, inflação alta e PIB
retroativo. As politicas econômicas ineficazes tendem a causar sérios conflitos na relação
capital-trabalho e mediante ao fenômeno da individuação e da flexibilidade das novas formas
de trabalho reproduz na sociedade uma tamanha desigualdade social e econômica que leva
muitos governos ao caos político, conflitos armados e a ruptura das estruturas burocráticas
essenciais a manutenção da vida (trabalho, segurança, alimentação, aposentadoria), que no
fim, aprisionam e jogam milhões de sere humanos à pobreza e a miséria.
O capitalismo vive um novo momento caracterizado por uma natureza flexível, que ataca as
formas rígidas da burocracia, as consequências da rotina exacerbada e os sentidos e
significados do trabalho; criando uma situação de ansiedade e incerteza nas pessoas, que não
sabem os riscos que estão correndo, colocando em teste o próprio senso de pertencimento e
caráter pessoal. Beck (2010) apontou como sendo um processo de individuação três fatores
básicos, que ele coloca como proposições universais.
(…) desprendimento em relação a formações e vínculos sociais estabelecidos
historicamente, no sentido de contextos de domínio e provimento
(“dimensão da libertação”), perda de seguranças tradicionais, com relação a
formas sabidas de atuação, crenças e normas de direcionamento (“dimensão
do desencantamento”) e – com o que o sentido do conceito se converte em
seu contrário – uma nova forma de enquadramento social “dimensão do
controle e da reintegração”) (BECK, 2010, p. 190).

A especialização flexível obriga os trabalhadores a um intenso processo de individuação e a


constantes mudanças em seus comportamentos sociais; obrigados pela nova dinâmica do
trabalho flexível a que são submetidos, são obrigados ao aperfeiçoamento e transformações
em suas funções e profissões, devido ao fato de, neste processo sofrem uma transformação
profunda em sua natureza. Neste processo os indivíduos são submetidos a processos de
desenraizamento de suas tradições e alteram as suas relações humanas, sofrendo constantes
mudanças em suas biografias e aglutinando em suas subjetividades as tramitações simbólicas
da ideologia capitalista.
Para além disso, com os processos cada vez mais globalizados de trabalho e relações
capitalistas de consumo imprimiram nas sociedades humanas um processo civilizador a que
são reféns e precisam ser adaptadas a tal lógica. A globalização com o desenvolvimento de
várias ciências – da tecnologia da informação, sistemas computacionais, redes de
comunicação e da eletrônica criou em seu cerne interno, parâmetros que suplantaram a
estrutura e superestrutura das sociedades humanas modernas e industriais (outrora tema de
contradições e lutas de classes sociais), encerrou em sua multifacetada transformação a
“compressão tempo/espaço”4 e a especulação financeira numa lógica interna ao novo espírito
do capitalismo – o caráter de manager, copiado da administração privada e ressignificado com
sua nova estrutura flexível, permeado por um sistema da produção enxuta, do Just in time, de
comunicação em tempo real e da maximização dos recursos em prol de uma produtividade
nunca antes vista, que encerra em seu núcleo a infinita busca por mais lucros, cada vez
maiores e sem muito custo de operação, embora com um custo socioambiental incalculável e
aumento da desigualdade em escalas globais.

Considerações finais

O presente artigo procurou demonstrar as implicações sociais e globais de um sistema


econômico que atingiu a sua plena hegemonia e sepultou todas as possibilidades contrárias a
partir do fim da URSS e da utopia do socialismo no final do século XX. A partir do processo
de reestruturação de seu modo de produção e de sua lógica de acumular cada vez mais lucros
sob suas ações, o capitalismo do início do século XXI apresenta ao mundo contemporâneo,
um novo espírito – cuja estrutura é baseada na nova literatura da gestão empresarial e das
ciências econômicas e, que impõe ao mundo a ação do Mercado Financeiro sob o controle do
Manager. Em sua nova base de acumulação, abandona a plataforma produtiva industrial fixa e
apresenta uma nova forma de acumulação flexível – capital financeiro virtual vinculado as
ações de mercados futuros.
Diante deste fato cada vez é mais corrente a ideia de que diante da ineficiência das políticas
econômicas dos Estados no Mercado, seus governos têm estabelecidos constantes cortes nos
direitos sociais e trabalhistas, direcionados pelas políticas neoliberais que ditam as regras do
Mercado Mundial atendendo em grande medida aos interesses das grandes corporações
transnacionais. Os avanços da política neoliberal desde a crise dos anos 1970 geraram uma
dinâmica de não intervenção na ordem social, que tem agravado e precarizado a condição
humana da classe de trabalhadores, desamparada pelos seus agentes históricos reivindicativos
(Partidos de Trabalhadores e Sindicatos) e sendo brutalmente violada em seus direitos por
constantes ataques de reformas trabalhistas e sociais (redução de direitos) direcionadas por
diretrizes estatais e neoliberais em grande medida por orientações de cunho econômico por
4 David Harvey, em sua obra Condição Pós-moderna (1989), enfoca a globalização através da caracterização do
processo de compressão do tempo-espaço, isto é, a presença na história do capitalismo de uma tendência à
aceleração do ritmo da vida, simultânea a uma conquista paulatina das barreiras espaciais, provocando uma
sensação de encurtamento do tempo e encolhimento do espaço. Discorre sobre a transformação e compressão do
espaço e do tempo na experiência humana foi uma das mais relevantes mudanças ocorridas com a transição do
fordismo para a acumulação flexível.
parte das grandes corporações transnacionais, que não medem os riscos e custos a que
sujeitam as sociedades.
Com o advento da globalização, do desenvolvimento da Ciência e Técnica, utilizando de uma
nova forma de linguagem adentrou em todas as esferas do substrato humano e instituiu um
novo padrão as sociedades e aos Estados. Uma poderosa ideologia fortaleceu o poder
avassalador do capitalismo – a lógica das ações neoliberais, onde os indivíduos tornaram-se
presas dos discursos em prol de estabilidade econômica, das liberdades individuais e
desenvolvimento intenso. O Mercado Financeiro e Global em sua configuração atual tem
causado danos irreparáveis e riscos que coloca em questão a sobrevivência da espécie humana
e do planeta.
O Mercado Global e Financeiro institui ao mundo suas instituições e prende os Estados em
uma rede tão emaranhada, forçando a esses atores acatar suas leis e regularidades, não
levando em conta os custos sociais e ambientais. O século XXI vivencia uma avassaladora
dominação por parte do sistema capitalista que torna-se o processo civilizador em potencial da
atualidade, imprimindo ao mundo sua lógica de poder, criando seus sistemas simbólicos de
dominação, destruindo fronteiras e culturas, sem precedentes na história humana.

Referências Bibliográficas

ANTUNES, R. Os Sentidos do Trabalho. São Paulo: Boitempo, 2002.


BAUMAN, Z. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Zahar 1999.
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Martins Fontes, 2009.
BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
HARVEY, D. Condição Pós-Moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança
cultural. São Paulo: Loyola, 2007.