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INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS

Departamento de Filosofia
Disciplina: Ética
Curso: BACH
Prof. Daniel Toledo
Semestre/ano: 1º/2018
Aula 6:
A valoração moral
O ato de valoração em geral pressupõe necessariamente a relação entre três
elementos: 1. o objeto valorado; 2. um valor atribuível; 3. um sujeito ou instância
valorativa (que atribui valor).
Uma segunda observação importante a se destacar inicialmente quanto ao
exercício geral de valoração repousa no fato de não haver qualquer objeto, ato ou pessoa
que possua um valor em si, assim como também não subsiste por si mesmo um valor
absoluto de maneira substancial. Isto significa que a relação entre os elementos
supracitados só pode se dar, isto é, só pode ter algum sentido dentro de determinados
contextos (culturais, históricos, sociais, políticos, estéticos, religiosos, etc.) que
conferem os critérios de mensuração e avaliação para a dinâmica de aplicação dos
valores.
A escala de valores é assim um referencial construído culturalmente, ainda que a
disposição humana de fundo para estabelecer contato com a realidade por meio de
referenciais que fixem o grau de significatividade dos elementos que a compõem possa
ser compreendida como uma propriedade essencialmente ontológica (existencial).

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Será somente então dentro de todo este horizonte primário de compreensão que
as relações valorativas poderão alcançar sentidos pontualmente morais. E para
avançarmos com essa delimitação em especial, devemos atentar ainda para a
observância de que, em termos práticos, não pode haver uma valoração moral
absolutamente livre de interseção com outras formas de valorações provenientes dos
demais domínios do universo humano em sua integralidade. Se eu, por exemplo, julgo
como moralmente depreciativa a exploração do trabalho infantil, esse julgamento não se
dá isento das ressonâncias que essa ação considerada moralmente aviltante provoca
também em outros campos, como o econômico e o político, dentre outros.
Assim, a decupagem que exploraremos aqui deve ser entendida como de ordem
metodológica para fins analíticos, sem perder de vista que, na transposição do teórico
para o prático, essa esfera moral deve ser reconhecida como parte de um universo mais
amplo, que a engloba e a influencia, promovendo com isso, inclusive, conflitos de
orientações. Se assim não fosse, não nos encontraríamos recorrentemente, como de fato
ocorre em nossa vida prática, acossados por dilemas morais diante de interesses de
ordens outras, voltados para demandas que não se restringem ou não se deixam reger
exclusivamente pela nossa consciência moral.
A valoração se dá sempre através da relação entre os interesses pessoais e os
coletivos. Todavia, as formas concretas por meio das quais se estabelece essa relação
tende a receber uma maior determinação social frente aos desejos individuais. Isto pela
própria imposição do estado de cultura pelo qual sempre já nos encontramos
performaticamente condicionados enquanto seres sociais. Assim, também quanto ao
aspecto moral, o domínio público tende a prevalecer em relação às vontades de cada
um. Daí comumente se atribuir um maior valor moral àquele ou àquilo que melhor
contribui para o bem público ou para a ordem social.

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No balanço do cotejamento entre o individual e o social, é evidente que, ao
menos no plano teórico, há de se buscar pela harmonia entre ambos de tal forma que as
determinações coletivas atendam às necessidades de cada indivíduo e este, por sua vez,
concorra para o reforço dessas determinações. Contudo, em se havendo divergência de
interesses, como via de regra ocorre, tende-se a sacrificar o individual em prol da
coletividade. De tal forma que a moral pública ou social costuma se constituir,
mormente, como a efetivação deste sacrifício. É como se o Estado encarnasse ou
representasse uma consciência moral coletiva projetada como parâmetro último de
conduta em relação à qual as consciências morais individuais mostrassem-se capazes de
se adequar às suas exigências formais comportamentais. Ao menos no que tange, é
claro, às sociedades democráticas. Daí, inclusive, não se poder negar ser a moralidade –
ou, talvez melhor dito, o moralismo! – um vigoroso instrumento de coesão social e
também de dominação ideológica.
Por mais que seja óbvio afirmar que toda norma funda um dever, é inegável que
a valoração moral se dá justamente em atendimento ao cumprimento desses deveres.
Como o valor moral atribuído a cada ação nunca se dá livre de sua relação com outras
formas de valoração, como já assinalamos, é justamente em consideração ao juízo moral
que acerca de si será feito que o sujeito da ação escolhe proceder conforme a norma.
Mas isto, evidentemente, sob o aspecto externo, isto é, prático, pois segundo já
exploramos, o exercício da consciência moral, de foro íntimo, deixa-se guiar por outro
critério de normatividade, a saber, aquele ideal teórico, de tal forma, inclusive, que boa
parte dos dilemas morais vividos por cada um de nós tem origem nesse diapasão entre
as dimensões heteronômica e autônoma. Conflito para o qual se alcança a solução tão
somente a partir da harmonia ou “coincidência” entre os ditames da consciência moral e
as leis instituídas de fora.
É neste sentido que a conduta moral é livre e obrigatória ao mesmo tempo. A
liberdade de ação está dada pela possibilidade de escolha entre as valorações morais
atribuíveis à ação, assim como o caráter coercitivo da mesma é imposto pela
necessidade de afirmação e sustentação de determinada ordem de valores.

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O alcance valorativo da ação moral depende de sua inserção no quadro social.
Isto significa que uma ação só pode ser considerada moralmente boa ou má por meio da
pressuposição de que implicará consequências sobre as demais pessoas. O próprio
critério distintivo para se estabelecer quando uma ação é de natureza moral e quando
não o é depende desse aspecto relacional, pois, se opto, por exemplo, entre ir ao cinema
ou ficar em casa lendo um livro, a ação resultante de tal decisão, por mais que implique
na adoção de certa atitude comportamental, não poderá, rigorosamente falando, ser
classificada – e, consequentemente, valorada – como um ato moral pelo simples fato de
não acarretar efeitos que afetem diretamente ao campo de ação em conjunto. É claro
que, em termos estritos, uma das opções pode, em detrimento da outra, contribuir para
que se promova em mim algum tipo de aperfeiçoamento moral, mas este só poderá ser
efetivado – e julgado – conquanto se integre na ordem coletiva.
Ora, se a valoração moral é o próprio exercício de efetivação da consciência
moral, e se essa validação depende de sua adequação ao meio coletivo, resta evidente
que a consciência moral, por mais autônoma que possa e deva ser, é constituída também
pelas diretrizes que delimitam o universo concreto (cultural) no qual cada sujeito se
perfaz ao longo da vida. A valoração moral se insere assim no espaço aberto pelo
conflito entre a autonomia e a heteronomia morais, entre a liberdade íntima e a coação
externa de ações. “Assim, pois, em suas decisões e no uso que faz de sua liberdade de
escolha e de ação, o indivíduo não pode deixar de expressar as relações sociais no limite
das quais assume pessoalmente uma obrigação moral”1. Dessa forma, é inegável que são
os tipos predominantes das relações sociais vigentes que determinam em considerável
medida o horizonte valorativo da consciência moral.
Outra dinâmica do espírito humano que concorre para a tese de que o exercício
de valorar é uma atividade essencialmente constitutiva da consciência moral repousa no
fato de que essa consciência, na medida em que implica um reconhecimento de seu
papel frente à realidade na qual está imersa, não pode deixar de projetar sentidos
referenciais que lhe sirvam de padrão de orientação comportamental voltado para
determinados fins que lhe assegurem certo domínio sobre essa realidade. Assim, o
caráter teleológico da consciência em geral é que lhe confere a propriedade moral em
última instância.

1
VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. Barcelona: Editorial Crítica, 1984, p. 172.

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O julgamento moral é a classificação valorativa do resultado provocado pelo
exercício daquelas propriedades éticas inscritas no caráter humano como uma
disposição ou capacidade para a busca ou a recusa do bem projetado de maneira ideativa
pela consciência moral de cada sujeito socialmente condicionado por leis, códigos e
regras de condutas e posturas. Por conseguinte, “a moralização do indivíduo – e a sua
contribuição para a moralização da comunidade – é alcançada justamente pela aquisição
dessas disposições ou capacidades para querer o bem, e agir moralmente num sentido
valoroso”2.
A valoração moral depende estritamente de uma coerência lógica na medida em
que os juízos de valores só podem ser erigidos e sustentados dentro de uma
sistematização moral vigente. É em relação a este código de valores socialmente
instituído que as práticas e comportamentos morais específicos serão validados ou
recusados. Nestes casos concretos, o referencial é heteronômico, pois depende
efetivamente de parâmetros externos.
Colocando em termos psicológicos e subjetivos, e dentro de um enquadramento
ordinário, a tendência ferrenha que se impõe costuma ser, via de regra, a seguinte:
quando somos pretensamente críticos a determinadas posturas ou comportamentos
alheios, inclinamo-nos a estabelecer julgamentos de validade pressuposta como absoluta
(se alguém joga papel ou cospe no chão, tal ação isolada determina para o meu
imaginário representacional que este alguém é um “porco”); ao passo que,
contrariamente, quando nos tornamos objetos da crítica moral, tendemos a reagir à
mesma (quando não a recusamos por inteiro!) acolhendo-a parcimoniosamente como
relativa ou acidental (quando sou flagrado jogando papel no chão, não me considero um
porco em definitivo, mas convenço a mim mesmo, de maneira imediata, que agi
excepcionalmente daquela maneira em virtude de algum descuido circunstancial!).

2
VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. Barcelona: Editorial Crítica, 1984, p. 201.

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Em muitos casos, inclusive, as “pré-concepções” – sejam elas de ordem sensível
ou mesmo culturalmente arraigadas – é que contribuem para esta falta de distinção
crítica entre a particularidade e a universalidade, podendo, inclusive, promover a outra
face da tendência acima, como quando eu, por exemplo, tendo a exaltar a pessoa (com a
qual geralmente nutro alguma relação de passionalidade) como de caráter
essencialmente digno por ela ter praticado uma ação neste sentido, independente do meu
conhecimento das reais motivações de fundo daquela ação ou mesmo de todo o
histórico precedente de ações daquele indivíduo que me desperta emoções em virtude de
vínculos sentimentais3.
Diante disso, se fossemos aplicar aquele princípio ético normativo de fundo
como critério distintivo crucial para esse tipo de confusão do sentimento moral
apresentada, seríamos obrigados a reconhecer que a tortura (ainda a título de exemplo
figurado) não é uma má ação simplesmente por ser uma prática culturalmente
condenável, mas antes por se poder tratar de uma prática incompatível com os
princípios éticos que a minha consciência moral postula como absolutamente
impositivos e necessários para a ideia de elevação moral da humanidade em seu todo.
Isto fundamentalmente porque, como viemos ressaltando, não é o conteúdo da ação em
si o fator mais determinante para a sua classificação moral, e sim antes os princípios
pelos quais ela se rege.
Não obstante, e agora novamente contemplando a questão em termos aplicados,
se levarmos em conta que não podemos ter sentimentos pelas pessoas senão através do
prazer e do desprazer ou da satisfação e da insatisfação que elas nos provocam através
das impressões sensíveis que servirão de matéria para os nossos juízos de valores acerca
das mesmas, então somos, concomitantemente, forçados a admitir também que, se não
houvesse em nossa natureza a predisposição para o sentimento moral, não seríamos
capazes de ter as nossas emoções despertadas por meio dos contatos e vínculos pessoais
que estabelecemos enquanto existimos, independente da polaridade (bom ou ruim) que
será possibilitada por esse ajuizamento formal.

3
“Para todos os afetos vale aquilo que Aristóteles mostrou em uma clareza determinante para toda a
tradição (Retórica, livro II), a saber, que naquilo que chamamos de afetos sempre se trata de sentimentos
negativos ou positivos (prazer e desprazer), que em conformidade com seu próprio sentido constroem-se
sobre um juízo, e em verdade um juízo de valor”. TUGENDHAT, Ernst. Lições sobre ética. Petrópolis:
Vozes, 1996, p. 21.