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INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS

Departamento de Filosofia
Disciplina: Ética
Curso: BACH
Prof. Daniel Toledo
Semestre/ano: 1º/2018
Aula 7:
O dever moral
Comprometido com aquele princípio ético normativo de fundo, o dever moral é
o resultado da imposição da consciência moral sobre o agente moral quanto à sua
responsabilidade pessoal de, a partir do seu livre exercício de resolução autônoma,
orientar suas ações e comportamentos efetivos em função da afirmação de elevação de
seus ideais enquanto finalidade última da humanidade.
Esta orientação é o que confere também a fundamentação das ações morais em
seu nível concreto, isto é, prático e efetivo. Logo, uma vez acolhida essa imposição, este
“mandamento” – ou, melhor dito, imperativo – moral constitui-se para o seu agente
como uma necessidade condicional, na medida em que se perfaz como condição
primeira e última para o referencial norteador de suas práticas comportamentais.
Neste plano radical da consciência reflexiva, o dever moral não é mais
proveniente de uma espécie de aconselhamento externo, mas antes do nível de uma
ordem absoluta. Mas isto tão somente esta imposição se justifique através do livre e
resoluto exercício de acolhimento da consciência moral reflexiva. “Só por esse caminho
o dever se imporá, de maneira categórica e sem condições, ao respeito do agente moral.
E, ao contrário, se não existe esta suprema justificação da obrigação moral, o dever
poderá aparecer como um conselho de prudência e de sabedoria, como a fórmula da
honra e da dignidade pessoal, porém não como uma ordem propriamente dita, que se
imponha à consciência sem réplica e nem escapatória”1.

1
JOLIVET, R. Filosofia moral. Rio de Janeiro: Agir, 1966, p. 24.

1
Logo, ainda que o cumprimento do dever moral possa ser recusado
resolutamente após o livre exercício de reflexão da consciência moral, a própria
necessidade dessa confrontação como tal para que somente então se possa optar por
repudiar ou acolher o dever moral é que o torna irrenunciável em última instância.
Sob esta perspectiva, a noção de lei moral só pode ser referendada pelo exercício
reflexivo de liberdade de apropriação e acolhimento dessa imposição exercida pelo
dever moral. Neste sentido, a própria liberdade humana – fundamental para a nossa
dimensão relacional – será, em medida significativa, regulada pelo dever moral,
conquanto que observemos que será este dever o parâmetro de fundo para se definir o
bom ou mau uso dessa liberdade.
Consequentemente, o dever moral deve aqui ser compreendido como
essencialmente autônomo, posto que este livre exercício de acolhimento ou recusa não
deve se pautar por qualquer referencial externo (resultados, motivações, recompensas
etc.), devendo antes se deixar guiar pelos princípios normativos éticos da consciência
moral.
Todavia, deve-se resguardar o caráter fundamental da liberdade moral em
virtude do fato de que o dever moral pode ser recusado em prol de outros fins que não
se mostrem concordes ao princípio ético. Opção essa que, sob a ótica aqui apresentada,
conduziria a uma má ação ou má conduta morais.
Em resposta, a confrontação consciente com o dever moral exigirá não só a
explicitação da resolução a ser feita, como também a sua efetivação prática em termos
de conduta e comportamento morais. É por isso que, diante do dever moral, a
consciência moral não mais permite ao seu agente não ser sempre de alguma forma
moral ou imoral.

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Os elementos externos à ética formal, que empiricamente compõem a
moralidade aplicada, podem apenas servir ao agente moral como meios para a sua ação
moral, e nunca como fins a serem atingidos, sob o risco de suplantar os ideais morais
formais e assim, enviesar ou desvirtuar os princípios formais. Dessa forma, a alegria
pela qual o agente moral pode, por exemplo, ser acometido por praticar uma boa ação
moral (isto é, uma ação conforme seus princípios éticos e seus ideais morais) ou a qual
ele provoca sob uma pessoa que se beneficia dessa sua boa atitude tem apenas um
caráter reforçativo ou estimulante para a sua ação, servindo como parâmetro apenas em
termos sensíveis e sociais enquanto referencial de medida externa, ou seja, restrita ao
âmbito empírico (social, cultural etc.), ainda que seja de ordem pessoal. A felicidade ou
a satisfação eventualmente decorrente de uma ação moral comprometida com seus
princípios éticos formais é assim apenas uma possível consequência dessa ação, e não a
motivação principal ou a finalidade maior da mesma.
A execução do dever moral é fundamental ainda para a concreção do sentido
prático orientado para o cumprimento do ideal moral projetado como tal pela
consciência moral a partir da necessidade de realização dos seus princípios éticos
formais de fundo. Dessa forma, o dever moral é elemento crucial para se rechaçar o
risco de incorrer no relativismo ético, posto que é através da sua imposição pela
consciência moral (imposição acolhida pelo livre exercício reflexivo) que a
responsabilidade moral pode se constituir para aquém dos interesses subjetivos.
Para isso, contudo, o dever moral só é efetivado na medida em que torna
próprios os atos que, através de suas dinamicidades e configurações empíricas,
mostram-se como reflexos ou desdobramentos dos princípios éticos normativos que lhes
conferem o lastro teórico formal em relação ao qual devem ser reportados sob o objetivo
de contribuir para o fomento daqueles fins que se constituem como ideais para a
consciência moral.
Do cumprimento regular do dever moral resulta a virtude enquanto constituição
do caráter moral. A construção deste caráter deve ser erigida pelo indivíduo de maneira
fundamentalmente autônoma, uma vez que o dever moral é um dever diante dos
princípios acolhidos pelo livre exercício da consciência moral.

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O dever moral, uma vez acolhido neste seu caráter impositivo, determina que os
meios se adequem ao fim, e nunca o contrário. De tal forma que os meios empregados
para se executar a atividade moral são de ordem estritamente configuradora, ao passo
que os princípios e os fins é que devem atuar como elementos reguladores da mesma.
Neste sentido, os meios empregados para a concreção da ação moral correspondem
apenas à exteriorização ou ao preenchimento efetivo dos deveres morais ditados pela
consciência moral em conformidade aos princípios formais éticos tendo em vista os
ideais morais como fins últimos.
Todavia, essa exteriorização não pode fazer com que o dever moral, de foro
essencialmente íntimo, se reduza à formatação de um corpo canônico dogmático, sob o
risco de se comprometer a sua autonomia, devendo assim as doutrinas e regramentos
externos ser submetidos à consciência moral comprometida com seus princípios éticos e
fins ideais para ter a sua integral legitimidade assegurada, e não o contrário.
O postulado teórico do dever moral é de ordem universalista, isto é, deve poder
ser pressuposto como uma potencialidade inata à natureza moral humana em sua
integralidade (humanidade). Todavia, a sua possibilidade de efetivação é de caráter
contingencial, ou seja, depende de condições externas para a sua exequibilidade. Essa
fratura entre o teórico-formal-geral e o prático-concreto-específico tem sua origem
reportada àquela mesma dimensão conflitual na qual se insere a relação entre a
liberdade moral e a responsabilidade moral:
Vê-se, assim, que a promulgação da lei natural supõe duas condições
necessárias e suficientes, a saber: primeiramente, que os princípios mais
gerais das leis, nos quais toda a lei está virtualmente contida, possam
manifestar-se a uma razão suficientemente desenvolvida, e, em seguida, que
a razão humana tenha naturalmente o poder de deduzir dos princípios
gerais as conclusões práticas essenciais necessárias para ordenar
moralmente a conduta. Porém, de modo algum é necessário que todos os
homens sejam moralmente aptos a deduzir essas consequências, nem que
estejam naturalmente imunes da ignorância e do erro, que podem insinuar-se
na dedução das conclusões remotas e complexas. Porquanto a ignorância e o
erro, como a desigualdade das inteligências, estão igualmente na natureza.
Equivale isto a dizer que a capacidade racional deve ser entendida com
todas as suas condições internas e externas (e particularmente sociais) que
encerra a natureza humana2.

2
JOLIVET, R. Filosofia moral. Rio de Janeiro: Agir, 1966, pp. 108-109.

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Uma vez munido da capacidade formal do exercício prático da moralidade
comprometida com os seus princípios éticos de fundo, o agente moral, diante de seus
deveres morais, já não mais pode alegar ignorância quanto aos seus preceitos
comportamentais, pois esta só pode ser imputada – ainda que parcialmente – àquelas
“consciências” ainda não providas das condições externas necessárias para o cultivo da
consciência moral enquanto processo formativo do sujeito, dependentes em estreita
medida dos processos pedagógicos de ordem socioculturais.
O dever moral, em eventual desacordo com as leis externas, deve poder,
hipoteticamente (ideativamente), atuar sobre essas leis permitindo-se, com isso, a
reapropriação das mesmas, seja na forma de reinterpretação, de alteração ou mesmo de
recusa3.
De toda forma, o dever moral é, antes de tudo, uma obrigação que o agente
moral firma com a sua própria consciência moral; sem com que se deixe de observar, no
entanto, aquele princípio ético normativo de fundo voltado para a integridade ideal de
uma noção mais elevada de humanidade em relação ao qual a alteridade em última
instância não deve ser instrumentalizada para finalidades específicas4.
Logo, qualquer concepção de coação a ser aplicada neste caso deve ser
compreendida a partir do imperativo categórico que a consciência moral impõe ao
agente moral a partir do seu livre exercício de acolhimento reflexivo, e nunca por
referência a sanções externas.

3
“Se o legislador permite que se opere essa transformação, e, com maior razão, se aprova as mudanças
introduzidas, é evidente que o novo costume modificará ou mudará justamente a lei existente”. JOLIVET,
R. Filosofia moral. Rio de Janeiro: Agir, 1966, p. 120.
4
“Um credor rico pode, por equidade, ter o dever estrito de adiar a cobrança de uma dívida que
acarretaria a miséria a um devedor insolvente de boa-fé”. JOLIVET, R. Filosofia moral. Rio de Janeiro:
Agir, 1966, p. 123.