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Samuel,

que você tenha coração


para sentir o impossível como hipótese,
e vontade para querer
que o improvável aconteça.
O presente livro pode ser comparado a um rio, construído por vários afluentes. Os cursos
sobre a Revolução Russa, administrados por mim, desde 1981, no Departamento de História
da Universidade Federal Fluminense. A pesquisa sobre os projetos socialistas
contemporâneos, realizada com o apoio de Bolsa de Estudos (Pós-Doutorado), concedida em
1992. A tese defendida em novembro de 1995 no concurso para professor titular de história
contemporânea. Cabe portanto agradecer a todos os que participaram: aos estudantes do
Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, em cujo convívio
amadureceram muitas das reflexões que agora publico, aos colegas do mesmo Departamento,
pela generosidade com que me têm concedido as licenças necessárias para as pesquisas, à
banca examinadora do concurso para professor titular, pelas sugestões e críticas, e às agências
de fomento à pesquisa: CNPq e CAPES.
Somos muito inclinados a considerar impossível o que não ocorreu. Esquecemos
frequentemente que o improvável acontece.

Edgard Morin
Nota biográfica
Daniel Aarão Reis Filho nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ) em 1946. Nos anos 60
esteve entre os que amavam a revolução, e foi por isto perseguido e preso pela ditadura militar.
Mas seus companheiros o salvaram em boa hora e, graças a eles, pôde voar para a liberdade
(junho, 1970). Impedido de fazer história, resolveu estudá-la, mas só muito mais tarde
aprenderia que ela não tem lições a dar. Mesmo assim, graduou-se na disciplina e também fez
seu mestrado na Universidade de Paris VII (1975).
Descrente das conspirações em Paris, partiu para Moçambique, onde foi professor de
história contemporânea e chefe do Departamento de História da Universidade Eduardo
Mondiane. Especializou-se desde então nas aventuras e desventuras das revoluções socialistas
(1976-1979).
De volta ao Brasil, foi aprovado em concurso para professor de história moderna
contemporânea na Universidade Federal Fluminense (1980), onde aprende e ensina até hoje.
Doutorou-se em história pela USP (1987), com uma tese autobiográfica sobre a trajetória das
organizações comunistas no Brasil. Publicou trabalhos sobre as revoluções socialistas na
Rússia, na China e na Alemanha (Brasiliense, 1981-1984), sobre a história da esquerda
brasileira: Imagens da Revolução (Marco Zero, 1985); 1968, a paixão de uma utopia (Espaço
& Tempo, 1988); A Revolução faltou ao encontro (Brasiliense, 1990); e uma crônica de viagem
ao socialismo perdido: De volta à Estação Finlândia (Relume & Dumará, 1993).
Tornou-se professora titular de história contemporânea da Universidade Federal
Fluminense, com uma tese sobre a crise dos projetos socialistas contemporâneos (1995).
Depois do atual livro, se lhe derem chance, e depois de encerrado seu atual mandato de
coordenador do Programa de Pós-Graduação em História da UFF (1998), pretende concluir
uma antologia de textos sobre a social-democracia internacional (1889-1914) e pesquisar as
relações entre intelectuais, política e poder.
Prefácio
Já no título deste livro — Uma revolução perdida —, Daniel Aarão Reis deixa-nos entrever
a mensagem que envia aos leitores: uma revolução apenas, caro leitor, mesmo que se a
considere como a mais importante de todas; mas, nunca, “a revolução” enquanto possibilidade,
pois esta sobrevive, como sempre, plantada no nosso horizonte de expectativas, pouco
importando, agora, se como utopia ou não.
Ao recortar a história de uma certa revolução, este livro permite-nos, ao mesmo tempo,
conhecer melhor certos acontecimentos e compreendê-los em si mesmos. Enriquece-nos com as
linhas mestras do curso histórico de uma das maiores experiências humanas deste século; leva-
nos à compreensão do como e do porquê do fracasso do fantástico sonho socialista de 1917 —
como veio ele a desembocar nas incertezas e decepções atuais? Cabe aí a velha pergunta: a
culpa foi do próprio sonho ou foi daqueles que não souberam interpretá-lo — e assim o
transformaram em pesadelo quase inenarrável?
O autor deste livro é professor titular de história contemporânea do Departamento de
História da Universidade Federal Fluminense (UFF), tendo publicado diversos textos sobre
temas desta área. Talvez seja esta, aliás, a marca que hoje o distingue da maioria dos docentes
que ocupam posições equivalentes a sua. Ao ler seus trabalhos, não consigo evitar a sensação
gratificante de que nem tudo está pendido, de que o trabalho desenvolvido na área de história
moderna e contemporânea da antiga Faculdade Nacional de Filosofia (com Maria Yedda
Linhares) e na própria Universidade Federal Fluminense, não foi em vão. Pode parecer uma
apologia do óbvio, mas como é raro um titular de história contemporânea que conhece, estuda,
pesquisa e escreve sobre… história contemporânea! Habituamo-nos já, há tantos anos, aos
titulares de história contemporânea — e de moderna — que só trabalham com a história do
Brasil, que quase nos havíamos esquecido da razão de ser de uma disciplina de história
contemporânea nos currículos de graduação! Daniel Aarão Reis lembra-nos então que a
formação do profissional de história não pode — ou não deveria — ser monodisciplinar. Sem
pretender com tal afirmação fazer qualquer tipo de restrição às disciplinas de história do Brasil,
minhas observações tentam somente sublinhar a necessidade de uma perspectiva histórica
ampla, não ensimesmada ou autista, dos processos históricos ocidentais e globais. Afinal de
contas, se o historiador é, ou deveria ser, um sujeito ancorado conscientemente no seu tempo,
como poderá fazê-lo se desconhece quase tudo de seu próprio mundo?
Na verdade, o autor resgata duas coisas com este livro: a legitimidade da história
contemporânea — aí incluída a “história do tempo presente” e a narrativa histórica. Quanto a
esta, há dois aspectos a realçar: a própria narrativa, como linguagem e estrutura; e a
combinação da exposição com as análises e debates das questões decisivas.
A narrativa flui solta, desembaraçada, prendendo a atenção do leitor, enquanto seu enredo
vai sendo desenvolvido ao longo dos diferentes capítulos. A maneira de contar os
acontecimentos cria expectativas aqui e ali, suscita emoções, persuade o leitor do ponto de vista
do autor, mas sem ocultar, sempre que seja o caso, a existência de outras interpretações,
diferentes. Dramas sucessivos, ou tragédia ininterrompida, o fato é que esta história da
Revolução tem início, meio e fim. As análises não cortam o fio da narrativa mas, em geral,
somente reforçam os pontos fortes das sequências de eventos. Tampouco se poderia deixar de
mencionar as “intromissões” de Daniel no seu próprio texto: observações ou comentários,
títulos, geralmente irônicos, alguns mais mordazes. Talvez Haydin-White o classificasse
segundo o tipo de ironia, se bem que nosso autor faz o possível para levar seus leitores a
compreender que não é ele, historiador, mas o próprio “socialismo real” que ensejou a ironia na
sua história.
Dirão, talvez, alguns, que Daniel Reis foi por demais implacável e impiedoso em sua
exposição de mazelas e descaminhos, ou, ainda, que de certo modo arvorou-se em juiz. Apesar
de não concordar com estas possíveis críticas, acredito que elas, ainda que fossem procedentes,
não invalidariam o essencial desta obra: hoje, mais do que ontem, precisamos conservar nossos
olhos bem abertos — para enxergar no passado um “socialismo que não foi” e, no futuro, o
socialismo que poderá vir a ser.
Cada um dos capítulos constitui um modelo de síntese: a “Santa Rússia Imperial e as
tradições revolucionárias” com suas contradições insolúveis, seus contrastes socioeconômicos e
culturais, e a progressiva estruturação dos movimentos “populista” e “social-democrata”, em
verdadeiros flashes das múltiplas forças e tendências presentes na Rússia do Antigo Regime. A
seguir, “As revoluções russas: 1905-1921” rompe com um velho hábito de periodização, desfaz
o mito da dualidade de poderes em 1917, discute interpretações contraditórias, ao mesmo
tempo que joga por terra versões teleológicas, personalistas, casuísticas, colocando em primeiro
plano o emaranhado das circunstâncias com suas idas e vindas, e as exigências de adaptação
sucessivas; afirma-se aí, como leitmotiv, a questão do campesinato, do setor agrícola, algo que
estará presente até o final do livro. Note-se, ainda, o manejo de uma bibliografia variada, não
comprometida com a demonstração de uma “tese”, pois o que importa notar são certas
“metamorfoses imprevistas” — a revolução internacional que não ocorreu, e a guerra civil
radicalizando o atraso. Há, é certo, um carinho especial pelos revoltosos de Kronstadt (1921) e
a sua proposta de uma “terceira revolução” nem burguesa nem bolchevista. Aliás, só a
conclusão deste segundo capítulo vale por todo o livro.
No terceiro capítulo — “O grande debate: os caminhos do socialismo” —, comprova-se a
habilidade do autor para reunir dados, expor contradições e conflitos, analisar impasses.
Emerge da narrativa um Stalin menos monolítico que o das versões oficiais: cínico, realista,
mas também sujeito a indecisões e até moderação. Nestes anos da NEP, o autor não deixou
passar a oportunidade para criticar o Partido Comunista da União Soviética (PCUS) — a
maneira deste pensar “democracia e socialismo”, segundo “os interesses históricos do
proletariado” (sic) — e a conhecida oposição “caricatural” entre “revolução internacional a
qualquer custo” versus “construção do socialismo num só país”. Na conclusão, um certo sabor
de déjà vu: recuperar cinquenta ou cem anos de atraso em dez — um novo “assalto aos céus”.
Os capítulos quatro e cinco: “A revolução pelo alto: construindo o socialismo num só país
(1928-1941)” e “A Segunda Guerra Mundial: a Grande Guerra Pátria (1941-1945)” são
provavelmente os pontos culminantes deste livro. Os “desvarios da coletivização” dissecam o
estereótipo do kulak, desmontam as descrições e avaliações imaginárias das “vantagens” das
fazendas coletivas, pièce de résistance entre os ideólogos do modelo soviético durante muitos
anos, inclusive entre nós. Daí a ironia com que é descrito o homo sovieticus e desmascarados
lugares-comuns sobre a Internacional Comunista, restando apenas o Terror e o culto da
personalidade do chefe.
A narrativa precisa, econômica, mas cortante e objetiva, afirma-se nos dois capítulos que se
seguem: “O apogeu do stalinismo (1945-1953)” e “Reformando o socialismo: Alcance e limites
da desestalinização (1953-1964)”. Como água gelada sobre as sensações do povo russo — de
alívio, orgulho e esperança, em 1945 desabam as decepções — de novo os planos quinquenais
com seus “dinossauros comedores de ferro e aço”; mais uma vez, as cargas e restrições sobre os
camponeses; e o Gulag em contraponto à figura mítica de Stalin. Raras vezes, uma história
como esta incluiu tantas informações e perspectivas críticas a respeito do universo do Gulag:
ex-prisioneiros de guerra, “nações colaboracionistas”, espiões reais ou potenciais, sabotadores
idem, descontentes, dissidentes. Quanto à “era Kruchev”, dominam um certo humor e ironia e a
atenção aos contrastes, a análise das resistências às possíveis reformas mas sem atribuí-las,
exclusivamente, à nomenklatura.
Por último, ao expor a “Expansão e contradições do socialismo realmente existente (1964-
1985)” e os “Tempos de perestroika e glasnost: reforma e desagregação da URSS”, Daniel
desenha, já sob Brejnev, os contornos dos variados problemas em processo de contínuo
agravamento: luzes ou trevas? expansão ou estagnação? Difícil, ainda, pronunciar-se um
veredicto. Com certeza, porém, verdadeiras mutações sociais, o combate impossível da
“balalaica contra a guitarra”, os dissidentes em ascensão. Quanto à era Gorbatchev, o livro põe
em relevo coisas como Tchernobyl (1986), e a glasnost enquanto “strip-tease da URSS”:
degradação do meio ambiente, proliferação do alcoolismo, das drogas, das máfias, da
prostituição, das crianças abandonadas. Diatribe antissocialista? Muito pelo contrário! Na
verdade, apenas a denúncia de um certo socialismo — se é que ainda o era, ou jamais o fora.
Daí o cuidado com que o autor retoma as várias “teses” sobre o caráter do “socialismo
soviético”: totalitarismo, revolução inacabada, capitalismo de Estado, esmagamento da tradição
dos “conselhos” etc. Mas haveria também a considerar o quanto o PCUS subestimou a “questão
nacional” e as novas expectativas e dificuldades reais da própria sociedade. O posfácio —
“Pós-socialismo e caos: uma sociedade à deriva” — conclui o livro e tenta também propor uma
perspectiva.
Por meio destas alusões um tanto superficiais aos capítulos deste livro, não seria possível
passar ao leitor o quanto ele é compacto, como aí se condensam, realmente, os elementos
decisivos de uma história extremamente rica e dramática. Tampouco poderia conseguir
transmitir a esses eventuais leitores o verdadeiro espírito que parece mover seu autor: nada
omitir, não deixar de criticar o criticável, não recear “dar munição ao inimigo”, pois os maiores
inimigos do “socialismo-esperança” são aqueles socialistas que ficaram — ou permanecem —
cegos e surdos às evidências. Esta não é, enfim, uma história derrotista ou desesperada; é tão-
somente a história narrada e criticamente analisada de uma experiência que não deu certo,
escrita por alguém que continua fiel ao sonho, como nós, mas não se envergonha nem se
atemoriza em contar o pesadelo nesse divã imponderável diante do qual estamos ainda de pé!

Niterói, 15 de setembro de 1997


Francisco Calazans Falcón
Apresentação
Esta narração pretende contar a história de um povo que tentou mudar o mundo. Começa
com uma viagem ao Antigo Regime, quando se fala da Santa Rússia, dos russos e de um dos
mais inamovíveis impérios da época moderna e contemporânea (cap. 1), considerado invencível
até que o venceram. Em seguida, fala-se de uma época de revoluções, quando os céus foram
assaltados (cap. 2). Mas não foi possível conquistá-los. Tornou-se então necessário resolver o
que fazer numa certa terra e num certo tempo: o grande debate sobre os rumos de um
socialismo inédito (cap. 3). Resultou em outra revolução, pelo alto, em mais violências,
inauditas, e na construção de uma modernidade cheia de patologias (cap. 4). E veio então a
prova de uma guerra imposta. Uma grande guerra, mundial. Contra todos os prognósticos,
aquele povo resistiu e graças a ele, principalmente a ele, a Besta foi dizimada, e se pôde respirar
liberdade neste mundo (cap. 5). Mas esta mesma liberdade, ele, o povo que a conquistou, não
pôde gozá-la, porque foi chamado por mitos salvacionistas para uma outra aventura de glória
estatal e miséria humana: a construção de uma superpotência (cap. 6). Neste momento, suas
proezas assombraram o mundo. Contudo, foi necessário reconhecer que as fórmulas do sucesso
já não bastavam, precisavam ser renovadas. Abriram-se horizontes novos, reformistas. A
história dos projetos de reformas, de seus devaneios, frustrações e impasses corroeu o ânimo
daquela forte gente (caps. 7 e 8), até que, num último sobressalto, pressionada interna e
externamente, amadurecida para mudanças, a sociedade empreendeu uma profunda
autorreflexao. Mas não sobreviveu ao inquérito sobre si mesma. Nem encontrou caminhos
alternativos. Desagregou-se (cap. 9). Hoje, parecendo fatigada, vive à deriva, caindo num
abismo sem fim, desencantada e desesperançada (Posfácio). Se não reunir forças para se
reerguer (ninguém a ajudará), poderá perecer. E isto, retomando o ciclo, poderá afetar o mundo
com a mesma violência que a desencadeada pelas revoluções, quando tudo começou.
A narração é oferecida a todos os que se interessam pelos negócios do mundo,
independentemente do nível de instrução formal. Se conseguir entreter e fazer pensar, terá
alcançado seus objetivos.
A Santa Rússia Imperial e as tradições revolucionárias

O IMPÉRIO TZARISTA1, em fins do século XIX, era produto de um sistema multissecular,


enraizado havia muito nas noites do tempo. As pessoas sensatas o consideravam
definitivamente estabelecido. Sua invencibilidade nunca pareceu tão sólida como às vésperas da
Primeira Grande Guerra, quando o Estado promoveu duas comemorações: o centenário da
vitória sobre a invasão napoleônica (1912) e o tricentenário da fundação da dinastia dos
Romanov (1913). Foram então devidamente festejadas a perenidade de um sistema, a força da
águia bicéfala — símbolo guerreiro — e a projeção internacional.
O poder do tzar era o lado mais fulgurante do sistema. O nexo rural entre proprietários
rurais e camponeses configurava a sua base histórica, sólida como a tradição, imutável como os
ciclos da natureza (M. Lewin, 1985). Ainda às vésperas da Primeira Grande Guerra, cerca de
85% da população vivia no mundo rural, impregnando com hábitos, costumes e valores as
aglomerações urbanas e até mesmo as grandes cidades. Mesmo Moscou, segunda cidade e
capital espiritual do Império, mantinha um típico ar rural, com suas construções de madeira e a
maciça presença camponesa. A rigor, apenas no extremo ocidente do Império, na Polônia russa,
em Lodz e Varsóvia, e na formosa São Petersburgo, Veneza gelada inventada no Golfo da
Finlândia, podia-se escapar da atmosfera camponesa.
O nexo rural era amarrado, de um lado, pelas tradições religiosas populares e pela Igreja
Ortodoxa, que tratavam dos mistérios da vida e da eternidade. E conferiam ao Estado uma aura
metafísica, à nação uma identidade, ao autocrata um caráter divino. De outro lado, e desde o
começo do século XVIII, a lendária burocracia criada por Pedro, o Grande, organizada num
rígido quadro de níveis, o tchin, semiasiática, responsável pelos segredos da vida e pelo tempo
histórico, olhos e ouvidos do tzar.
Não havia espaço para a controvérsia, muito menos para a oposição, mesmo porque o tzar
não era apenas intérprete da Providência Divina, mas também mensageiro da Razão. Uma fé,
uma nação, um tzar. Nesta sociedade, a crítica é dissidência, desrazão, crime e loucura.
Este painel congelado, culminância e fim da história, ideal supremo dos conservadores que
desejariam paralisar o tempo, era, entretanto, perturbado por movimentos e tensões
incontroláveis.
Antes de mais nada, a multiplicação das gentes, o movimento demográfico. Altas taxas de
natalidade, maiores ainda que as de mortalidade. Entre 1860 e 1870, uma progressão anual de 1
milhão de habitantes. Desde então, e até 1913, cerca de 2,4 milhões a mais por ano. Em
contraste, as instituições rígidas, camisas de força, ambicionando o controle, restringindo os
deslocamentos, impondo passaportes interiores, tentando demarcar áreas especiais, tolhendo,
concentrando a massa e a miséria na perversa combinação de baixa produtividade, altos
impostos, exações, arbitrariedades.
Ao mesmo tempo que aprisionava — ambiguidades — o regime suscitava movimentos,
geradores de tensões. Por exemplo, a multiplicação das terras, a expansão imperial, intrínseca à
lógica do sistema, rasgando horizontes, ampliando fronteiras.
A Rússia sempre foi uma nação em movimento — tropas e população —, na direção dos
quatro pontos cardeais, projetos desmesurados, à procura de espaços, riquezas, segurança e dos
anelados e sonhados portos de águas quentes. A oeste, uma parte da Polônia, partilhada com o
reino da Prússia e o Império Austro-Húngaro. A noroeste, os Estados do Báltico e a Finlândia.
A sudoeste, os Bálcãs, o programa de libertação dos eslavos do sul, sob jugo dos otomanos e
austríacos, e a perspectiva futura de integrá-los ao Império. Ao sul, as montanhas do Cáucaso.
Além, o litoral tépido do Mar Negro, e o norte da Pérsia, onde se estabeleceu uma área de
influência. E o sonho do Indico. A leste e sudeste, as vastidões siberianas, as planícies da Ásia
Central, horizontes sem fim e sem começo, a voracidade mais delirante alcançando o extremo
nordeste do continente americano, costeando o litoral até o norte da atual Califórnia. No
extremo oriente, as províncias do Amur e do Ussuri, usurpadas ao desfalecente Império do
Meio, o homem doente da Ásia, em cujo nordeste, na rica Mandchúria, firmou-se uma outra
área de influência. No seu prolongamento, a península coreana. Mais ao sul, o arrendamento de
Port Arthur, um porto de águas quentes, afinal (veja mapa no fim do capítulo).
Em média, ao longo de 300 anos, o Império tzarista registrou um avanço diário de 140 km.
Ambições, perigos (Feron, 1995).
Na sequência, a anexação de povos, Estados, grupos linguísticos, religiões, costumes e
tradições. Muçulmanos, judeus, protestantes, católicos, animistas, sem contar as inúmeras
dissidências na própria Igreja Oficial Ortodoxa. Os povos do extremo ocidente, os do Cáucaso,
os da Ásia Central, os da imensa Sibéria, o que tinham em comum? Para este mundo retalhado,
como um mosaico, o que propor? Como tratá-lo? De que forma incorporá-lo?
Desde o século XVI, pelo menos, instaurou-se a divergência entre dois programas nos
centros de decisão do Estado tzarista. De um lado, a tentação assimilacionista da política de
russificação, tudo homogeneizar segundo padrão único, ditado pelo centro, ou melhor, por um
lugar que se arvorasse em centro. Como na Europa Ocidental, em torno de Lisboa, Madri,
Londres, Paris etc. De outro, a política de coexistência de culturas e tradições diferentes,
fundada na exigência da submissão política e militar, mas respeitando identidades adquiridas, o
modelo dos velhos impérios asiáticos.
O Estado tzarista, em geral, desde Ivã, o Terrível, optou pelo segundo programa, mais de
acordo com as ambiguidades da dominação russa. Com efeito, sempre houve uma dupla, e
radical, diferença entre ela e a que seria exercida pelos Estados europeus ocidentais desde a
expansão mercantilista. E que, de um lado, Moscou tinha o mando político e militar,
incontrastável, mas quase sempre, não despertava sentimentos de inferioridade entre os povos
derrotados. Não suscitava fascínio cultural. Ao contrário: frequentemente, os russos é que se
sentiram atraídos pelo estilo de vida, pela riqueza cultural e pelo modo de ser dos povos que
dominavam. Diferença capital em relação aos Estados da Europa Ocidental: uma dominação
que não se traduz em submissão. O antigo processo de ganhar a guerra e perder a paz. A lenta
digestão do vencedor pelo vencido. De outro lado, o Estado tzarista, em sua dinâmica arbitrária,
frequentemente não distinguia entre russos e não-russos, de sorte que, ao longo do tempo — e o
fenômeno não desapareceu depois da revolução —, os russos disporão de padrões de vida, de
trabalho e de educação inferiores aos de muitos povos dominados (Kappeler, 1994).
Mas houve ziguezagues nesta orientação. Eventuais surtos de russificação se impuseram,
acompanhados por legislações restritivas e repressão bruta, em represália a revoltas nacionais,
em decorrência de ambições absolutistas ou por insegurança ou medo, sentimentos que não raro
costumam ser acompanhados por atos de força.
Em fins do século XIX, o Estado tzarista viveu a tentação de uma política centralista, de
russificação, com seu inseparável cortejo de violências, avatares paradoxais apenas na
aparência de uma política de modernização europeizante. A ironia da história: a modernização
capitalista, civilizada, dá o braço à repressão brutal, arcaica. A política da homogeneização,
ignorando particularidades, violentando tradições, consolidando o Império como cárcere dos
povos, atribuída pelo europeu ao asiático, na verdade, não é oriental, é moderna, e europeia,
ocidental.
Em sua expansão, o Império desencadeia um outro tipo de movimento, o da guerra, esta
outra forma de conduzir a política. Os objetivos imperiais implicavam, naturalmente, guerras.
Elas renderam bons dividendos ao longo do tempo. Mas o Estado tzarista, principalmente
depois de derrotar a aventura napoleônica, confirmado como grande potência europeia,
pretendeu petrificar a correlação de forças então alcançada. Potência policial de reserva,
colocou-se como guardiã da ordem restaurada: a Europa Central e Oriental sentiriam a força de
suas armas em 1848. No mundo nada se moveria sem o assentimento do Império, e este nada
queria mudar. Na perspectiva de congelar uma ordem, o Império congelou-se nela. Atrasou-se
novamente em relação às potências europeias ocidentais, perdendo a relativa paridade
alcançada pelas reformas de Pedro, o Grande, no século XVIII e que, em grande medida,
fundamentaram a possibilidade de resistência à invasão francesa do início do século XIX.
Assim, a amplitude das conquistas, o acumular de vitórias, a força do prestígio e das
alianças, entre elas a maior e a mais sólida, a Santa, ofuscou as elites, adormeceu-as num
esplêndido sonho de poder e glória.
Uma outra guerra, a da Crimeia, despertou-as do sonho para o pesadelo da realidade. O
Império não tinha soldados, mas escravos embrutecidos, nem oficiais, mas mercadores de
homens, nem propriamente exército, mas uma multidão sem ligação à fé, ao tzar, à pátria, sem
coragem cavaleiresca nem dignidade militar. Entre os soldados, a resignação e o
descontentamento recalcado. Entre os oficiais, a crueldade, o servilismo e a corrupção. A
descrição é de uma testemunha amargurada, L. Tolstoi (M. Ferro e R. Girault, 1989).
Equipamento defasado, transportes precários, logística lamentável, comando desatualizado,
o Império foi obrigado a aturar em suas fronteiras humilhante impasse diante de exércitos
anglo-franceses que vinham de longe.
O tzarismo perdera o pé da febre industrializante ocidental: em 1820, a Rússia produzia
mais ferro fundido que a França ou os Estados Unidos ou a Prússia, e o equivalente a um terço
da produção inglesa. Quarenta anos depois, a Inglaterra produzia dez vezes mais, os Estados
Unidos, três vezes mais, a França, duas vezes e meia e até a Prússia a estava ultrapassando
neste setor estratégico do mundo de então. Num outro setor chave, a produção de carvão,
enquanto a produção inglesa chegava a 67 milhões de toneladas, e a norte-americana e a
prussiana avizinhavam as 14,5 milhões de toneladas, a russa ficava abaixo das cem mil
toneladas. Uma grande potência… atrasada. Perdeu por isso mesmo a guerra e foi obrigada a
renunciar, ao menos temporariamente, a suas ambições mediterrâneas.
As elites ganharam a convicção de que era indispensável um processo de modernização,
inclusive porque revoltas camponesas apontavam no horizonte, num crescendo, agitando o
espectro de uma nova Pugatchevchina, a terrível guerra camponesa de meados do século XVIII,
liderada por Pugatchev e que chegou a ameaçar Moscou. O galo vermelho cantou então com
firmeza no campo russo, arrasando propriedades, matando senhores, abalando as bases do
sistema. O movimento foi quebrado, segundo a tradição, com inaudita violência. Esvaíra-se,
descrente em sua força e capacidade de mudança. Mas desde os anos 20 do século XIX a curva
das revoltas camponesas voltou a ameaçar: 85 sublevações entre 1826 e 1829. Nos anos 30,138.
Na década de 1840, um surto: 345 revoltas. Nos anos 50, novo ascenso: mais de 600 revoltas.
Aonde aquilo iria parar? Não seria o tempo de abrir mão de alguns anéis?
Derrotas militares e cólera camponesa. O programa de modernização brotou mais uma vez
de preocupações com a segurança, com fundamentos essencialmente estratégicos — reforçando
uma tradição.
Era preciso reformar. Um novo movimento a tensionar a velha ordem estabelecida. O leque
das mudanças: abolição da servidão, reforma do judiciário, da universidade, do exército, das
finanças públicas e, sobretudo, o deslanchamento de um processo de desenvolvimento
industrial, apoiado numa rede de estradas de ferro, induzido pelo Estado.
Entretanto, foi grande a oposição: parte substancial da nobreza e da burocracia, altos
mandos militares e autoridades eclesiásticas resistiam a uma europeização comandada pelo alto.
Argumentavam que demônios, até então congelados, poderiam ser liberados. Assim, n4os
marcos do despotismo que se queria esclarecido do reinado de Alexandre II (1855-1881),
exercitaram ao máximo a capacidade de entravar o reformismo imperial. E o fizeram com
relativo sucesso.
Assim, a principal reforma, a da abolição da servidão (1861), base de todas as demais,
destinada a fazer a Rússia entrar, afinal, no século XIX, com 60 anos de atraso, terminou por
formular uma engenharia tão complicada que descontentou a todos, salvo ao tzar. Os senhores
perderam prestígio, terra e poder. Os camponeses ganharam apenas uma fração da terra que
pretendiam, e por ela ainda tiveram de pagar caro. E não conquistaram a liberdade, porque a
terra ficou amarrada á comuna rural, a obchina, instituição ancestral que reemergiu do fundo
dos tempos, fortalecida. O Estado também melhorou as finanças, já que passou a arrecadar as
prestações pagas pelos camponeses, e não as repassou aos proprietários, porque deles já era seu
credor por empréstimos não pagos e impostos devidos.
Ou seja, hipertrofiou-se o Estado já agigantado, enfraquecendo-se as classes sociais.
Tipicamente russo. Uma renovação fracassada, uma oportunidade perdida, segundo os
contemporâneos mais lúcidos. A decepção foi enorme, e não gratuitamente o tzar reformador
terminou seus dias despedaçado por bombas e tiros.
O homem que o matou era ilustre representante de uma tradição que já tinha décadas.
Alguns a fizeram remontar a 1825, quando foi descoberta uma conspiração de oficiais do
exército que pretenderam impor ao tzar uma monarquia constitucional. Estranhamente, como
observou uma autoridade da época, falavam em nome do povo, e um de seus líderes chegou a
sonhar com a República. Passaram à história como decembristas, referência ao nome do mês
que viu o aborto de sua conspiração.

A INTELLIGENTSIA

A partir dos anos 40, sucessivas gerações de intelectuais críticos opuseram-se ao tzarismo e
às reformas parciais protagonizadas pelo Estado. O movimento criou um termo que daria volta
ao mundo: a intelligentsia. Os intelligenti, que por sua condição de radical marginalidade
perante a ordem dominante não se confundem com os intelectuais ocidentais, tinham, em geral,
como alternativa, a cadeia ou o exílio. Ou o silêncio. Nas brechas, quando era possível,
trabalhavam com a arma da palavra, agitando as consciências, tentando promover a insurreição
impossível dos espíritos. Ou com outras armas, as bombas e os revólveres, tentando matar — e
matando — representantes do sistema, na vã esperança de que isto pudesse provocar a
desestabilização da ordem. Foi por meio desta luta, insana e insanável, que tomaram forma os
primeiros projetos socialistas russos.
Quantas gerações…
A dos anos 50/60, com A. I. Herzen, D. L. Pisarev, N. P. Ogarev e, principalmente, o
estoicismo heroico de N. G. Tchernychevski, apodrecendo na cadeia, sem renunciar, sem
esquecer, nem se arrepender, um padrão de comportamento, uma referência. A dos anos 70: S.
G. Netchaev, V. I. Zassulitch, P. N. Tkatchev, V. N. Figner, P. L. Lavrov, N. K. Mikhailovski. A
dos anos 90, os fundadores do Partido Socialista Revolucionário: E. K. Brechkovskaia, V. M.
Tchernov, M. A. Natanson, entre muitos e tantos outros, como contá-los?
A obsessão de todos: fazer triunfar um socialismo rural na Rússia, baseado na
nacionalização e distribuição equitativa da terra, segundo as possibilidades de cada área, do tipo
de cultivo e do número de pessoas (bocas a alimentar, braços a trabalhar) em cada família. A
tarefa caberia às comunas rurais, federadas e emancipadas da tutela dos senhores de terra, que
seriam liquidados, e de um Estado revolucionado. Assim, a Rússia queimaria etapas, saltando
diretamente para o socialismo, e escapando da sanha do capitalismo ocidental e de sua
característica trajetória de horrores.
Ou seja, desde o início uma orientação inserida na tradição eslavófila e antiocidental. A
pedra angular de todo o edifício era a comuna rural de fortes tradições igualitaristas,
institucionalizada, como se viu, no quadro da legislação que aboliu a servidão, e reforçada com
responsabilidades fiscais, militares e policiais. Apesar disso, ou por causa disso, os laços entre
os camponeses foram ainda mais apertados, cristalizando-se o universo rural de cada aldeia, o
mir.
Do ponto de vista dos revolucionários, parodiando a célebre fórmula de Marx em relação á
dialética hegeliana, tratava-se de colocar a comuna rural sobre os próprios pés. Era preciso
incentivar a tradição insurrecional e igualitária dos camponeses russos, plasmada em inúmeras
revoltas e no trabalho cotidiano no interior da comuna. Contudo, o tempo urgia, pois estavam
em curso tendências econômicas individualistas, desagregadoras, ocidentais. Se a Rússia não
desse o salto revolucionário, corria o risco de se perder no destino europeu sem retorno da
industrialização capitalista…
Na primeira geração, sobretudo com A. Herzen no exílio londrino, houve ainda a
expectativa de uma revolução orientada pelo próprio tzar, pelo alto. A ilusão chegou a
contaminar M. A. Bakunin, num outro exílio, na Sibéria. Registre-se: uma tradição ensaiada,
bloqueada, mas não enterrada para sempre, ela voltaria mais tarde, com outros propósitos e
outra decoração.
No começo dos anos 60, contudo, depois da frustração das reformas tzaristas, constatada a
inanidade desta variante, tratava-se de trilhar o áspero caminho alternativo: ganhar a
consciência dos camponeses para a luta, para a revolta, para a revolução. Os intelligenti tinham
esta missão histórica, porque detentores do saber e da vontade revolucionária. Era preciso
compartilhá-los com os camponeses, fermentar a tradição de sublevações e guerras do mundo
rural, apenas adormecida, mas latente, à espera de circunstâncias propícias. Uma questão de
fazê-la desabrochar. Uma responsabilidade porque, se não o fizessem, ninguém mais poderia
fazê-lo. Um dever, quase uma dívida, já que, a rigor, o saber adquirido nos estudos só fora
possível em virtude dos sacrifícios consentidos pelo povo trabalhador. Orientação neste sentido
foi defendida por N. Tchernychevski, desde 1862, e estampada no manifesto de uma primeira
organização secreta: Terra e Liberdade {Zemlia i Volia). Com esta consciência, e armados
destes propósitos, foram ao povo — narod — e ganharam um lugar e um nome na história:
narodniks, os populistas.
Um autor chamou este processo de rousseaunismo coletivo (F. Venturi, 1972). Disseminou-
se com nuances pelo mundo rural, fixando valores e tendências que se enraizaram no tempo:
tradições. Alguns privilegiaram a formação de grupos fechados, conspiratórios, prontos para a
ação, aparentados com certas tendências anarquistas partidárias da ação direta de vanguarda (S.
Netchaev). Outros preferiram enfatizar o trabalho de organização. Na mira, o assalto ao poder,
blanquistas2 russos (P. Tkatchev). E ainda houve os que apostaram na propaganda, e se viram
como fermentos de um processo lento e árduo de convencimento (P. Lavrov).
Os camponeses, de modo geral, os receberam com receio e hostilidade, e com delações. Os
revolucionários não haviam estimado, na justa medida, a força do patriotismo de aldeia, o
universo (mir) fechado dos preconceitos populares rurais contra os homens das cidades e,
especialmente, contra os homens do verbo, não raramente identificados com o coletor dos
impostos e com a autoridade em geral. Aquelas propostas emancipatórias, que perigos não
continham, como confiar nelas? Combinando-se com a atenção da polícia política, as denúncias
camponesas provocaram terríveis golpes no movimento de ida ao campo, desmantelando-o.
Assim, entre 1873 e 1877, nada menos que 1.611 narodniks foram presos, 844, condenados.
Menos de 10% tinham origem camponesa. A grande maioria provinha de famílias de nobres, de
sacerdotes —popes —, de funcionários ou de comerciantes. Em nome do povo, e de seus
interesses, os filhos ricos da cidade queriam levantar os miseráveis do campo. A grande
aventura, incompreendida, incompreensível.
Constatado o fracasso, os debates a respeito das alternativas projetaram uma outra
orientação, já antevista, e preconizada, por S. Netchaev. Da mesma forma como a proposta de
ida ao povo afirmara-se na esteira do fracasso de uma primeira vaga de ações nos anos 60, entre
as quais houvera um atentado à própria figura do tzar, em 1866, agora, a desilusão da ida ao
povo voltou a empurrar o pêndulo na direção oposta, reforçando os partidários dos atalhos das
ações diretas de vanguarda. Nasceu, então, como alternativa à segunda Terra e Liberdade,
refundada em 1876, uma nova organização, fechada, conspiratória, determinada, em nome do
povo, a desestabilizar o regime por meio de atentados: A Vontade do Povo (Narodnaia Volis).
Foi ela, entre muitos outros atentados, que eliminou o tzar Alexandre II, em 1881.
Assim, a tradição populista enfeixou duas vertentes básicas: a da organização de tipo
molecular, baseada na propaganda, e a da ação de vanguarda. Mantiveram constante
intercâmbio, eventualmente laços organizativos, mútuo apoio, programas fundamentalmente
comuns. Ao longo do tempo, e apesar de repetidos reveses, as ideias disseminaram-se,
sobretudo no campo, entre a suboficialidade (M. Mallia, 1980) da intelligentsia: empregados
dos conselhos municipais, os zemstva, técnicos rurais, popes rebeldes, professores de instrução
primária, taverneiros, camponeses mais instruídos etc.; mas também nas cidades, entre
estudantes e camadas médias da população, atraindo os inconformados, agrupando os rebeldes.
Herdeiros diretos destas tradições fundaram, em 1902, o Partido Socialista Revolucionário,
muito mais um movimento, ou uma confederação de grupos, de estatuto mais ou menos fluido,
do que propriamente um partido (J. Baynac, 1971).

MODERNIZAÇÃO E ATRASO

No alvorecer do século XX, embora ainda fundamentalmente imerso no universo rural, o


Império já não se resumia ao mundo agrário. Num outro movimento, que faria, estremecer as
estruturas arcaicas, o processo de modernização capitalista da Rússia dera significativo salto
para a frente, apesar das resistências, das contradições e, muitas vezes, da própria vontade
manifestada pelos tzares. Com efeito, os dois últimos imperadores, por ocasião dos respectivos
coroamentos, reafirmariam solenes compromissos com as tradições de autocracia.
O problema é que, para se manter e para se defender de inimigos externos e internos, o
tzarismo precisava das tecnologias e dos meios de produção desenvolvidos pelo capitalismo
ocidental. Seria cegueira estúpida não o reconhecer. Sobretudo depois da guerra da Crimeia,
seria impossível deixar de admiti-lo, a sobrevivência do regime estava em jogo.
Assim, principalmente a partir dos anos 90, o crescimento capitalista registrou uma notável
aceleração de ritmo, alavancado pela construção de uma ampla rede de estradas de ferro e por
alguns setores industriais de ponta: metalurgia, siderurgia, petróleo, carvão, prioritários numa
perspectiva estratégica. Entre 1888 e 1913, o Império alcançou um crescimento médio de 5%
ao ano. Todos os índices econômicos, embora desiguais, encontravam-se em alta, apesar da
recessão de 1901-1903 e dos movimentos revolucionários de 1904-1905. E verdade que a
indústria leve e a agricultura não acompanhavam a média, mas o conjunto da atividade
econômica, ao longo de pouco mais de um terço de século, parecia indicar que o Império
despertava de sua tradicional letargia.
Na raiz dos sucessos, uma política estatal continuada, desde os anos 80, definida pelos
chefes de governo S. Witte (1892-1903) e P. Stolypin (1906-11). Estímulo e proteção à
atividade econômica e industrial. Tarifas alfandegárias altas, reserva de mercado, orçamento
equilibrado, moeda forte, política fiscal severa, indireta, naturalmente, arregimentação
agressiva do capital estrangeiro (investimentos e empréstimos), encomendas diretas (indústria
bélica) e, quando era o caso, controle estatal: dois terços da rede de estradas de ferro pertenciam
ao Estado.
O capitalismo russo assumiu feição própria, acentuando algumas características já presentes
na história do Império: Estado hiperdimensionado, rede bancária altamente monopolizada (seis
bancos, todos sediados em São Petersburgo, detinham mais de 50% dos depósitos à vista),
presença maciça do capital estrangeiro, sobretudo nos setores de ponta (42% e 50% de
participação nas indústrias metalúrgica e química) e uma burguesia nativa ainda pouco
expressiva, mas bastante ávida, apoiada pelo Estado e ganhando terreno (P. Lyashchenko,
1949).
Havia contradições e desníveis no processo, e um ponto fraco em meio àquela
prosperidade: a agricultura. Embora o país estivesse se transformando num dos maiores celeiros
do mundo, as exportações crescentes de cereais para a Europa ocidental não resultavam de uma
expansão harmoniosa, mas eram obtidas à custa da fome e da miséria dos mujiques.
P. Stolypin, desde 1906, tentou uma política agressiva no sentido de liberar os demônios do
apetite individual. Pretendeu criar uma camada de pequenos proprietários privados, destinada a
configurar uma base agrária de sustentação do regime, enfraquecendo simultaneamente as
tradições igualitaristas da comuna rural e os controles dos grandes proprietários, muitas vezes
acusados de absenteísmo e ineficiência.
Os atingidos acusaram o golpe e ofereceram uma resistência tenaz. Por cima, os grandes
proprietários tinham medo de perder mão de obra. Por baixo, a comuna rural receava um
processo de completa desagregação. Não conseguiram impedir de todo o processo de
privatização: as explorações particulares passaram de 2,8 milhões, em 1905, para 5,5 milhões,
em 1914, desenvolvendo-se, além disso, um forte movimento cooperativo no campo. Mas
fizeram de tudo para se opor a ele. Em grande medida, o conseguiram. Quando Stolypin caiu
vítima de um obscuro atentado, em 1911, não foi chorado nem pelos proprietários nem pelos
camponeses agarrados ao mir. Sua política não teve continuidade, sintoma da prevalência dos
interesses que ela contrariava.
Ou seja, apesar dos resultados alcançados, a política stolypiniana não alterou o panorama
qualitativo da economia agrícola. Como um conjunto — salvo alguns setores, como o do açúcar
—, o campo continuou caracterizado por baixíssimos índices de produtividade e consumo.
Assim, se o Império já começava a ser periodicamente atacado por crises típicas do capitalismo
avançado, o que indicava uma crescente interdependência com o mercado internacional, ainda
continuava vítima de crises de abastecimento, expressão clara da força e da fraqueza do antigo
regime.
Observado no contexto internacional, o crescimento capitalista russo evidenciava graves
limitações, apesar do progresso alcançado. O estudo comparado das performances de alguns
setores estratégicos (energia, aço, estradas de ferro, carvão, algodão), entre 1860 e 1910,
evidencia a posição secundária do Império tzarista, em décimo lugar, longe, atrás não apenas
das grandes potências da época (EUA, Inglaterra, Alemanha, França e Japão) mas também de
Bélgica, Suécia, Suíça e Espanha. Um quadro ainda mais desfavorável poderia ser desenhado se
fossem levados em consideração apenas os índices de produtividade no campo. Já outros
cálculos, tomando como referência apenas o volume total da produção bruta, são capazes de
apresentar resultados mais lisonjeiros, mascarando as realidades contrastadas de um imenso
país de grande população, na aparência uma potência, na realidade um gigante de pés de barro.
A polêmica sobre o real avanço e impacto do desenvolvimento capitalista na Rússia no
período está longe de se esgotar, no entanto. Em meio a estatísticas frequentemente precárias e
incompletas, a escolha de certos índices e não de outros conduziu a diferentes conclusões,
apontando o progresso e/ou o atraso do país, o que será essencial, por sua vez, para justificar
opções e preferências, ou para confortar premissas e preconceitos políticos e doutrinários (A.
Nove, 1990).
Na verdade, a combinação de estágios diferenciados de desenvolvimento podia reunir, em
espaços contíguos, o que havia de mais avançado e mais atrasado no mundo de então, do ponto
de vista econômico e tecnológico. Na bacia carbonífera do Donetsk, na Ucrânia, coexistiam
indústrias metalúrgicas de primeiríssimo nível internacional e o arado de madeira, empregado
ainda por 50% das explorações agrícolas vizinhas. Da mesma forma, ombreavam
moderníssimas refinarias de açúcar e o trabalho semisservil dos mujiques. E o que dizer das
indústrias de material de precisão de São Petersburgo, ou da indústria petrolífera de Baku,
detentoras do que havia de mais avançado em seus respectivos setores, ocupando operários
organizados e vivendo em condições de vida de um outro século? Outros exemplos poderiam
ser referidos indefinidamente, evidenciando etapas distintas, entrelaçadas, mundos
contraditórios, alternativos, mas interativos.
Os contrastes tomavam o cotidiano, invadindo todas as dimensões da vida.
Qual a relação entre rudes mujiques comendo com as mãos o sumário pão preto e sorvendo
a pesada vodka, e refinados aristocratas manejando com a mais sutil das elegâncias finos
cristais, caules de cálices, nos quais experimentavam vinhos especiais? Entre a santa aura da
pesada e austera religiosidade dos graves monastérios e o animismo mágico das rússias
profundas? Entre a fala crua de um povo cru, exprimindo-se numa língua conhecida pela
capacidade de desfiar grosserias em variantes inimagináveis, e uma elite que trocava
confidências em francês, meio da suprema elegância de expressão do século XIX? Entre as
moças rendadas do Smolny, aprestando-se para uma educação superior, e as outras, nas
margens dos rios, rebocando barcos atolados, grossas correias em volta dos pescoços
atarracados, animais de carga? Quais os elos entre os bailes das perucas coloridas e perfumadas,
delicadas pratarias, laços de fita, galões e lustres, e as fétidas cantinas, pratos de metal fosco e a
sopa rala, onde se amontavam seres indistintos, carrancudos?
E a graça dos balés (S. Diaghilev), dos bailarinos (M. Fokin) e das bailarinas (A. Pavlova,
M. Kchessinskaia)? A profundidade do teatro e o talento de diretores, cenógrafos, atores e
atrizes (A. Benois, L. Bakst, M. Andreieva, A. Tchekhov)? A fulguração da ópera (S.
Prokhofiev), a renovação da poesia (V. Maiakovski, A. Akhmatova, O. Mandelstan, A. Block),
a complexidade da literatura (M. Gorki, L. Tolstoi), a densidade da música (N. Rimski-
Korsakov, S. Rachmaninov, A. Scriabin, I. Stravinski), o vanguardismo da pintura (M.
Larionov)? A alta cultura fermentava nos teatros, óperas e bulevares de São Petersburgo.
Exprimia-se em padrões comparáveis aos das capitais mais avançadas do mundo. O brilho das
elites e a sociedade fosca. Como vicejavam tais flores naquele pântano? A convivência das
pérolas e dos porcos, uma elite tão civilizada com uma sociedade tão bruta, atrasada e chula.
Para as elites, viver aquela situação era um constrangimento. Não por acaso procuravam
respirar em viagens frequentes às estações de água suíças e alemãs e à Cote d’Azur, onde a
generosidade dos nababos russos era conhecida. Tão pródigos quanto mesquinhos eram os
mujiques, para o lado dos quais, terminadas as férias, era sempre necessário retornar. Aqueles
contrastes, alguns pensavam, eram abismos. Mas, se estavam ali há séculos, por que não
poderiam eternamente durar?
Progresso e atraso alimentando-se mutuamente, num processo de desenvolvimento desigual
e combinado (L. Trotski), uma perigosa mistura. Segundo as circunstâncias, a combinação
poderia se transformar em nitroglicerina pura.

A SOCIAL-DEMOCRACIA

O capitalismo era um certo tipo de progresso, sem dúvida. Mas também a acentuação das
tradicionais contradições. E a criação de novas. Já tão recentes e demasiadamente acirradas na
combinação de épocas e tempos históricos.
Chamando atenção para o potencial revolucionário que o processo encerrava, surgiu uma
outra vertente do socialismo russo: a social-democracia.
Brotou, como era quase inevitável, da tradição populista, em fins dos anos 70. Num
primeiro momento, tomou a forma, ainda indistinta, de uma severa condenação à ação direta de
vanguarda proposta pelos que se aprestavam a organizar a Narodnaia Volia (Vontade do Povo).
O que se deveria fazer, argumentaram os precursores da nova vertente que nascia, era um
trabalho de profundidade, a longo prazo, procurando elevar a consciência camponesa. A partir
daí, alguns evoluíram rapidamente para o estudo das obras de K. Marx e de F. Engels e se
aproximaram de uma orientação social-democrata. Em 1883, já no exílio, fundaram o grupo
Emancipação do Trabalho e uma editora: a Biblioteca do Socialismo Contemporâneo, destinada
a divulgar as novas ideias na Rússia. Retomavam, de uma outra forma, agora da Suíça, a
tradição que A. Herzen fundara no exílio londrino, desde os anos 50. A produção e a tradução
de textos, jornais, panfletos, brochuras, com o objetivo de contrabandeá-los para o interior do
Império, para que cumprissem a função de despertar os espíritos no sentido da revolta contra a
ordem estabelecida.
Na época, as relações da tradição populista com K. Marx e seu pensamento já tinham uma
certa história, marcada por algumas ambiguidades. Os narodniks apreciavam em O Capital a
crítica devastadora ao capitalismo, encontrando nele argumentos suplementares para a
condenação daquele abominável regime. Era preciso evitá-lo na Rússia e, no caso de uma
revolução, impedir que a burguesia liderasse a luta contra o tzarismo. Uma revolução, mas que
fosse de caráter social e não apenas de mudanças políticas, que poderiam ser reduzidas à mera
substituição da autocracia por uma monarquia constitucional, ou por uma república, mas sob
hegemonia burguesa. A democracia política seria uma balela sem igualdade econômica, este era
o ponto forte da tradição populista, e não se podia esperar de burgueses, fossem os mais
progressistas, qualquer proposta no sentido da democracia real, a democracia econômica (A.
Walicki, 1984).
Na intensa correspondência mantida com os populistas, K. Marx, em certo momento,
chegou a admitir a hipótese de uma revolução socialista na Rússia, queimando etapas, com a
comuna rural desempenhando o papel de ponto de partida para a regeneração social do país. No
entanto, seria necessário satisfazer duas condições indispensáveis: a de que as estruturas
comunais da obchina pudessem ser preservadas das tendências desagregadoras em curso e,
mais importante ainda, a de que a revolução russa ocorresse num contexto de revolução
internacional, liderada pelos países capitalistas avançados. Assim, depois da vitória comum, o
proletariado ocidental avançado poderia vir em auxílio da Rússia atrasada^ garantindo a
transição ao socialismo. Sem esta segunda condição, enfatizou Marx, falar em saltar etapas não
passava de uma ilusão utópica, reacionária, no sentido próprio do termo.
Os populistas, naturalmente, leram a seu modo as reflexões de Marx. Privilegiaram a
referência à comuna como base viável de um processo social revolucionário e a hipótese do
salto por sobre a etapa capitalista.
Não foi este, no entanto, o ponto de vista dos marxistas russos do Grupo da Emancipação
do Trabalho. Até por uma questão de afirmação de identidade, tenderam a assimilar o marxismo
de acordo com os parâmetros evolucionistas-deterministas do Anti-Dühring^ de F. Engels, o
catecismo típico do ambiente intelectual e das formulações teóricas da Internacional Socialista,
fundada em 1889.
G. V. Plekhanov, melhor do que ninguém, ao longo dos anos 80 e 90, encarnou a ortodoxia
marxista russa. O projeto socialista não mais se apoiaria no campesinato, mas na classe
operária. Não mais nas tradições rurais, mas no progresso urbano, não na comuna rural, mas na
fábrica.
As condições existentes impunham aos russos uma revolução política pela derrubada da
autocracia. Uma primeira etapa, necessariamente dirigida pela burguesia, resultaria, de
preferência, numa república democrática, na qual o capitalismo e a classe operária encontrariam
plenas condições de desenvolvimento, materiais e políticas. Só então, e na sequência, é que se
colocaria a possibilidade da revolução socialista, numa segunda etapa, entrar na ordem do dia.
No processo, o partido social-democrata da classe operária, a ser formado, deveria concentrar
todas as energias no sentido de aprofundar a consciência revolucionária do proletariado.
Participando com a máxima consequência da luta pela derrubada da autocracia, lutando por
instituições republicanas, políticas e jurídicas, abstendo-se de participar de qualquer governo
dominado pela burguesia e, a partir da proclamação da república, mas só então, preparando as
condições para o advento do socialismo (G. Plekhanov).
Estas teses provocaram uma guerra aberta entre marxistas e populistas.
Não houve mais trégua. Para os marxistas, os populistas não passavam de abnegados
socialistas utópicos, não se dando conta das exigências do progresso, dopados por ilusões
reacionárias. Para os populistas, os marxistas perdiam o pé das particularidades russas,
entregavam-se aos braços do capitalismo, intoxicados por posturas ocidentalizantes. Num certo
momento, as propostas dos marxistas legais, assim chamados porque se dispuseram a negociar
a publicação legal de seus textos — e também porque não acreditavam na viabilidade das ideias
socialistas no mundo russo ainda dominado pelo atraso—, reforçaram as acusações de
conformismo histórico, lançadas contra os marxistas em geral. Pouco importava que os
marxistas legais também fossem denunciados pelos social-democratas ortodoxos. Na luta
ideológica então aberta, em meio a acusações mútuas, que rapidamente derivavam em insultos,
uns e outros excomungando-se como contrarrevolucionários, objetivamente fazendo o jogo
político do inimigo, não havia muito lugar para nuances.
Dois fenômenos auxiliaram os partidários da proposta social-democrata. De um lado, o
crescente prestígio do pensamento de Marx, cada vez mais divulgado, e associado, em toda a
Europa, à crítica e á luta contra o capitalismo. Multiplicavam-se os grupos de estudos nas
cidades, parcialmente alimentados pela literatura que vinha do exílio político. De outro lado, os
movimentos grevistas operários, já nos anos 80, desdobrando-se em organizações clandestinas.
Os primeiros partidos tomaram corpo na década de 90, refletindo o descontentamento
social, encontrando nos marxistas acolhida e estímulo. Em 1892, surgiu o Bund, organização
dos judeus marxistas. Dois anos depois, na Polônia russa, formou-se um outro partido social-
democrata, também inspirado pelo marxismo. Em São Petersburgo, em 1895, no contexto de
uma greve dos tecelões, apareceu a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária, uma
organização política que reunia intelectuais marxistas e lideranças operárias. Foi rapidamente
desmantelada, mas estabeleceu um marco. Um pouco mais tarde, em 1898, uma primeira
tentativa de fundar um partido social-democrata, também desorganizada pela polícia política,
indicava o amadurecimento do vírus.

BOLCHEVIQUES E MENCHEVIQUES

Em fins de 1900, articulou-se mais uma proposta, a de um jornal, o Iskra (Faísca),


destinado a tecer laços organizativos e programáticos entre os grupos social-democratas, a
partir das bases seguras do exílio.
Faziam parte do grupo inicial os veteranos dos anos 80: G. Plekhanov, P. Axelrod e V.
Zassulitch, além de revolucionários mais jovens, mas já experimentados em lutas e cadeias: V.
Ulianov, I. Martov e Potressov. A rede foi armada, afirmando-se desde logo a liderança de V.
Ulianov, conhecido segundo o pseudônimo com que passou á história: Lenin.
Lenta e persistentemente, cresceu a rede Iskra. Pouco mais de dois anos depois já se pôde
pensar na convocação de um novo congresso da social-democracia. Ele se realizou em julho-
agosto de 1903, reunindo 51 delegados com direito a voto, no exílio, em duas etapas, Bruxelas
e Londres.
O Congresso parecia destinado ao sucesso. Confirmou o programa da revolução russa em
duas etapas, de acordo com os cânones fixados por G. Plekhanov, definiu orientações para as
lutas sociais, consolidou um território político-teórico, distinguindo-se das tendências
socialistas rivais, sobretudo a dos populistas. Um desenrolar tranquilo, previsto.
Entretanto, na última parte dos trabalhos, surgiu uma divergência quanto à redação do
artigo primeiro dos estatutos. Tratava-se de saber quem poderia ser considerado filiado ao
partido, com direito a voto nas deliberações. Questão importante, nela estavam em jogo
distintas concepções organizativas.
Lenin e Martov apresentaram propostas diferentes.
O primeiro defendeu uma concepção mais estrita: atribuía a condição de filiado apenas
àqueles que, aceitando o programa e a direção partidárias, participassem efetivamente de uma
das organizações do partido. Uma posição coerente com as ideias defendidas num pequeno
ensaio, publicado em abril de 1902, Que fazer? (Chto Delat?), em que se formulava a visão de
um partido vertebrado por militantes profissionais, em condições de enfrentar os rigores da luta
clandestina. Por outro lado, e num plano mais geral, retomava-se, com ênfase e de modo
bastante nítido, as ideias de K. Kautski sobre a função dos militantes social-democratas,
portadores da doutrina e do programa socialistas.
Não é incomum uma certa confusão a propósito destas questões, mas é preciso distingui-las.
De um lado, a relação partido-vanguarda política/movimentos sociais. De outro, as condições
de vinculação/ filiação ao partido. Lenin, abrigando-se extensivamente sob a autoridade teórica
de K. Kautski, apontou as limitações da dinâmica espontânea da classe operária, condenada ao
trade-unionismo, ou seja, ao sindicalismo. Daí o papel essencial da social-democracia para a
elevação da consciência proletária, trazendo de fora para dentro a perspectiva revolucionária
socialista. Esta tese, carregada de elitismo, não mereceu maiores controvérsias. Estas foram
explodir, no entanto, em relação à problemática da filiação partidária.
I. Martov propôs uma outra alternativa, com critérios de organização mais frouxos: filiados
seriam todos os que concordassem com o programa e trabalhassem segundo as orientações da
direção do partido, dispensando-se a obrigatoriedade de participação numa das organizações
partidárias.
Uma diferença quase imperceptível, mas que tinha certa importância, como se observou
acima. Houve um debate longo e apaixonado a propósito do assunto. Quando as propostas
foram a voto, I. Martov ganhou a maioria por uma apertada margem: 27 a 24 votos.
Entretanto, pouco depois, os delegados judeus do Bund, ao terem sua solicitação de
autonomia no partido rejeitada, abandonaram o congresso, acompanhados, em seguida, pelos
chamados economicistas, também inconformados com a condenação de suas posições. Eram
oito delegados, e todos haviam votado com I. Martov na polêmica dos estatutos.
Assim, quando o Congresso abordou o último ponto da agenda, a questão decisiva da
composição da direção política, os partidários de V. Lenin tinham 24 votos e os de I. Martov
apenas 19. Ou seja, a maioria (bol’chinstvó) tornara-se minoria (men’chinstvo), e a minoria,
maioria. Um jogo? Uma ilusão? O resultado foi contado em votos: o comitê central e o jornal
do partido (Iskra) ficaram com maioria de partidários de Lenin, uma reviravolta imprevista.
Martov a considerou inaceitável, denunciou o resultado e não aceitou ser minoria no
Comitê Central e na direção do jornal. Virou a mesa. E desencadeou a cisão.
Pouco depois do congresso, porém, nova reviravolta. G. Plekhanov, que votara no
congresso com Lenin, inclinou-se pelos adversários, modificando a correlação de forças no
comando do Iskra (constituído, segundo decisão do congresso, por V. Lenin, I. Martov e G.
Plekhanov). A minoria restabeleceu-se como maioria. Como se V. Lenin, dormindo majoritário,
acordasse minoritário. Como I. Martov em circunstâncias análogas, amargou o fel, denunciou
os procedimentos e também virou a mesa. Fundou um outro jornal, Avante! (Vperiod!),
aprofundando a divisão da social-democracia.
De um lado, V. Lenin e seus correligionários, que se apropriaram do termo maioria
(bol’chinstvo), entrando para a história como os bolcheviques, embora nem sempre, como se
verá, tivessem maioria na social-democracia russa, apesar de mais organizados e eficientes no
trabalho prático. De outro lado, I. Martov e seus partidários, que acabaram aceitando a
politicamente pouco invejável alcunha de mencheviques (de minoria, men’chinstvo).
Muito já se escreveu sobre estes episódios. Considerando o desdobrar dos acontecimentos,
não raras avaliações foram influenciadas pelas tentações da história retrospectiva, descrevendo
as cisões de 1903 como contendo em si mesmas todas as divergências ulteriores. Conclusões
problemáticas porque, apesar da virulência tipicamente russa dos propósitos e dos insultos, as
relações entre bolcheviques e mencheviques ainda conheceram outras, e inesperadas,
peripécias. Mesmo porque a cisão não foi aceita pela Internacional Socialista, nem muito
menos por inúmeras bases partidárias no interior do Império, que não alcançavam a sutileza das
diferenças que tanto apaixonavam as lideranças exiladas.
No entanto, é impossível negar que as cisões exprimiram divergências e que os debates
febris provocaram fundas feridas, difíceis de sanar. Em 1905, apesar das pressões favoráveis a
uma reunificação, bolcheviques e mencheviques realizaram, ainda no exílio, congressos
políticos distintos, cristalizando a separação.
Assim, quando a revolução social apontou no horizonte e a tempestade se desencadeou,
aqueles que tanto tinham sonhado e trabalhado para que ela viesse encontravam-se divididos e
particularmente enfraquecidos para participar com sucesso dos acontecimentos.

________________
1 A palavra tzar corresponde melhor ao fonema russo original (tz) que existe em português.
Não se justifica, assim, copiar a grafia tradicional czar, imposta pelas línguas que desconhecem
o fonema tz.
2 De A. Blanqui, revolucionário francês do século XIX, sempre acusado de supervalorizar a
eficácia da ação dos grupos organizados para o êxito do processo revolucionário. Nas
polêmicas da social-democracia, o blanquismo era associado à ênfase nas ações conspiratórias
das vanguardas políticas em detrimento da importância dos movimentos sociais.
Mapa: O Império Russo • 1914
As revoluções russas: 1905-1921

AS ONDAS da primeira revolução, de 1905, vieram sem aviso prévio, e surpreenderam os


homens do poder, que não contavam com ela, os revolucionários, que aspiravam por ela, e os
próprios protagonistas, que começaram a fazê-la sem disso ter uma clara consciência.
O Estado tzarista, apesar dos relatórios de sua eficiente polícia política, subestimou o
potencial de radicalização das contradições sociais. Embora com perspectivas opostas, não
poucos revolucionários, entre os mais radicais, também não enxergaram vir a tormenta, não
hesitando em caracterizar, um ano apenas antes da explosão, e não sem razão, a população russa
como uma “massa amorfa, sem consciência de classe” (M. Ferro e R. Girault, 1989).
E, no entanto, os germes favoráveis a sublevações e a enfrentamentos decisivos estavam
plantados com firmeza nas terras do Império. Fermentava-os um poder surdo aos clamores da
sociedade. O galope rápido do capitalismo, sobretudo a partir dos anos 90 do século XIX,
irrigara o terreno, amadurecera as contradições. Uma guerra considerada inútil, afinal, conduziu
as tensões ao ponto do desespero, quando então as pessoas tornam-se sensíveis a propostas
revolucionárias.
Assim, as circunstâncias que levaram à revolução foram criadas pelo próprio Estado tzarista
ao definir e perseguir com cega obtusidade uma política expansionista no extremo oriente. Os
sucessos alcançados a partir de meados do século XIX, e que se materializaram na conversão
do nordeste da China — a rica região da Mandchúria — em uma área de influência dos
interesses imperiais russos, obliteraram a capacidade de análise, fizeram desprezar os avisos
dos conselheiros mais prudentes, consolidaram no tzar e seus generais o desprezo ao inimigo.
Ora, os japoneses estavam perto do teatro de operações, os russos, longe. Haviam se
preparado para a guerra com cuidado e método. Estavam em jogo, para eles, não apenas
interesses econômicos, mas a afirmação de um império nascente, o orgulho de uma nação, a
sorte de um continente, do qual já começavam a se julgar os salvadores e os protetores. O tzar e
os homens de negócio, diante do perigo iminente, reagiram com a arrogância típica dos que se
consideram superiores. Afinal, o que poderiam aqueles homens pequenos, amarelos e asiáticos
contra as tradições da potência russa?
Puderam muito. No início de 1904, atacaram de surpresa Port Arthur, a sentinela do império
nos mares quentes da China. Não a tomaram, mas destruíram a esquadra russa local. Sitiaram a
cidade e desferiram ofensivas por terra.
Foi um ano de provações: derrotas, cercos, sítios, humilhações. E de privações: a escassez,
as dificuldades, as mortes, o medo. Em nome de quê? Naquela guerra longínqua, em que não
estava ameaçado o solo sagrado da pátria, a entrega da vida tomava que sentido?
Enquanto os liberais levantavam a cabeça e, na forma de banquetes, começavam a exibir
programas e reivindicações, os trabalhadores da cidade de São Petersburgo, apertados pela
fome e pelo frio, entravam em greve. Eram mais de 200 mil no começo de 1905, quase um ano
depois do começo da guerra. Incentivados por uma associação de obscuras ligações com a
própria polícia, resolveram então levar queixas e reclamações ao próprio tzar. Em um domingo,
9 de janeiro de 1905, aglomeraram-se em frente ao Palácio de Inverno, sede e símbolo do
poder, e levantando ícones e gravuras — santas e poderosas — expuseram súplicas: “Se Tu
continuas surdo… morreremos aqui mesmo, nesta praça, diante de Teu palácio…”
Morreram mesmo. Centenas? Milhares? O poder reconheceu 92 mortos. E milhares de
feridos. O tzar nem estava no palácio. Os cossacos e a polícia, surdos, abriram fogo. Ali estava
a resposta do Estado.
Quebrou-se um encanto.
Ao longo do ano de 1905, aquele Império de pessoas carentes, resignadas, embrutecidas,
amedrontadas, aprisionadas, transformou-se subitamente numa sociedade em movimento,
exigente, que se organizava e propunha programas e alternativas.
Três ondas de greves, nucleadas pelos operários: a primeira, em janeiro e fevereiro; a
segunda, em maio; a terceira, em setembro e outubro; arrastando milhões de trabalhadores, em
torno da realização do programa que a social-democracia já concretizara, pelo menos em seus
pontos essenciais, nos países capitalistas mais avançados do ocidente e do centro da Europa. A
greve de massas como arma política. E no interior de uma destas greves, numa cidade ao norte
de Moscou, Ivanovo-Voznesensk, a criação, pelos operários, em maio de 1905, de uma forma
de organização original, o soviet (conselho), constituído por representantes (deputados) dos
operários, eleitos nas próprias fábricas, sem mandato fixo, revogáveis a qualquer momento.
Como a cidade era pequena, para não chamar a atenção, os deputados deste primeiro soviete
reuniam-se nos bosques e campos vizinhos. Chegou a ter 151 deputados eleitos. Durou 72 dias
e se autodissolveu. A lenda conta que a social-democracia russa pouco influiu no processo,
reservando-lhe apoio mitigado ou desconfiança.
Foi uma iniciativa local, ninguém a imaginou destinada a maior ressonância. Entretanto, por
estar sintonizado com aspirações insatisfeitas de representação política e sindical, o exemplo
ganhou a Rússia, o mundo e a história. Na sequência, como que por contágio, como uma praga,
a forma soviética se espalhou. Até o fim do ano, os sovietes, parlamentos plebeus por
excelência, pululavam em dezenas de grandes e pequenas cidades. O mais importante foi
constituído em São Petersburgo. Não durou mais de dois meses, sendo dissolvido pela polícia,
que prendeu todas as lideranças numa operação-relâmpago. A esta altura, as elites já haviam
compreendido o perigo que representavam, e os movimentos e partidos socialistas, o potencial
que daí poderia advir para uma revolução popular (O. Anweiller, 1972).
No campo, desde a primavera, os mujiques, principalmente nas províncias do centro da
Rússia, também se puseram em movimento, reivindicando e invadindo as terras. Organizaram
uniões e punham em questão os impostos e a mobilização militar. Em maio, formou-se uma
primeira união pan-russa de camponeses. Em julho, o primeiro congresso pan-russo, com uma
centena de deputados, de 22 províncias, comprometeu-se com a Assembleia Constituinte e a
abolição da propriedade privada da terra.
Na retaguarda, exprimindo uma insatisfação ainda difusa entre os combatentes, os
marinheiros revoltaram-se nas bases navais do Mar Negro (episódio do encouraçado Potemkin,
perenizado pelo filme de Eisenstein) e do Golfo da Finlândia (Kronstadt). Exigiram o fim dos
castigos corporais, respeito aos cidadãos que diziam haver embaixo dos uniformes da Marinha
de Guerra, melhores soldos e condições de trabalho.
Brechas na ordem. Por elas começaram a penetrar as ondas dos diferentes movimentos
nacionais, de natureza diversa, mas que iriam concorrer para a desagregação geral. No ocidente,
os poloneses ocuparam a vanguarda da luta, desde o início. E pagaram muito caro por isso, em
vidas humanas e em destruição material. A agitação se estendeu por toda a parte: aos
finlandeses, aos bálticos, aos povos do Cáucaso, da Ásia Central, da Sibéria. Reivindicações de
autonomia — cultural e política —, propostas federalistas, fumaças de independência. Um
prenúncio.
Entre as próprias elites, o descontentamento tomou corpo, formando-se em toda a parte
uniões profissionais, que se federaram em maio na União das Uniões, cujo programa também já
exigia a Assembleia Constituinte baseada no sufrágio universal.
Numa primeira fase, o tzar pretendeu ignorar esta pressão múltipla. Depois, negaceou,
formulando concessões pífias, consideradas insuficientes pela sublevação em curso. Jogava na
reversão da sorte da guerra. A última cartada foi o envio de uma grande esquadra que, partindo
do Báltico, ainda em 1904, daria uma volta ao mundo, contornando a Europa e a África, até
chegar ao estreito de Tsushima, entre a Coreia e o Japão, para ser surpreendida, aniquilada e
afundada por uma desconhecida armada japonesa. Este périplo transoceânico, fantástico e
fantasmagórico, de uma esquadra singrando os mares, impávida, longe, enquanto a revolução
explode em terra firme, distante, é um símbolo das astúcias, das intransigências e dos delírios
do tzar. Sua derrota é um sinal dos tempos, ou da revogação de um certo tempo. E obrigou o
tzar a negociar e a conceder.
O Manifesto publicado em 17 de outubro continha, pela primeira vez, concessões
correspondentes às pressões da sociedade. Reconhecimento das liberdades fundamentais,
ampliação do corpo eleitoral, atribuição do controle sobre a legislação a um Parlamento
{Duma) eleito. Muitas questões, astutamente, permaneceram envolvidas na neblina da
ambiguidade. A principal delas referia-se à Constituição. Salvo os anarquistas, era o eixo
central dos programas de todos os partidos e movimentos, dos liberais aos mais radicais social-
democratas e socialistas revolucionários. Ora, em suas promessas, o tzar nada dissera a
respeito. Como também nada disse sobre as relações entre a Duma e a autocracia.
Entretanto, as promessas do tzar tiveram impacto. Sobretudo entre as elites liberais, que já
começavam a temer o ímpeto das greves de massa e a perturbação frequente da ordem. As
uniões existentes nas grandes cidades e nas províncias, agrupando profissionais liberais,
empregados das administrações civis e camadas intermediárias da sociedade, acompanharam o
raciocínio moderado: era melhor suspender o movimento, consolidar as conquistas anunciadas,
ampliando-as, se fosse o caso, no interior do quadro institucional agora aberto.
O refluxo que esta atitude implicava seria consideravelmente reforçado pela suspensão das
operações de guerra no extremo oriente. As conversações em direção à assinatura de um acordo
ainda seriam difíceis, mas a simples interrupção da sucessão das derrotas, da matança e das
humilhações anulou a ação desagregadora provocada por uma guerra impopular e desastrosa. E
tendeu a paralisar o impulso da onda camponesa de invasão de terras.
Assim, o movimento grevista desencadeado em outubro não chegou a ganhar a consistência
esperada pelas lideranças do soviete de São Petersburgo. Isolou-se. E foi presa fácil da
repressão governamental. Nesta altura, em rápidos movimentos de tropas, regimentos eram
transferidos das frentes militares para guarnecer os pontos mais quentes do Império.
Reprimiram o próprio povo com a fúria do ressentimento acumulado pelas derrotas e
humilhações diante do estrangeiro. Não tinham reunido condições, como forças armadas, de
fazer frente ao exército regular do inimigo, agora seriam capazes, como polícia, de matar a
revolução.
Foi o que fizeram ante a greve insurrecional de dezembro em Moscou, convocada por um
soviete jovem, de menos de um mês, e esmagada a ferro e fogo em poucos dias. Um último
canto de cisne. O interessante é que só muito depois se constatou que ali ocorrera o derradeiro
ato de uma revolução. Com efeito, tanto o poder como os revolucionários imaginaram a
hipótese de outras ondas naquela série, iniciada em janeiro, e que parecia interminável. E
verdade, ainda houve sobressaltos, estremecimentos. Mas aquela revolução chegara ao fim.

LENIN E TROTSKI

A revolução de 1905 teve uma repercussão mundial. As greves de massas, o surgimento da


forma soviética de organização, o movimento camponês pela terra, a participação das
nacionalidades não-russas, as revoltas dos marinheiros, a intervenção contraditória dos liberais,
a questão da guerra em suas relações com a revolução, todo este processo, como sempre em
casos análogos, questionou princípios, abalou certezas, inovou questões, impôs mudanças.
Os revolucionários russos tentaram dar conta dos novos desafios nos anos que se seguiram.
Entre os social-democratas, as duas tendências, formadas desde 1903, foram obrigadas a
superar suas divisões, diante de renovadas pressões da Internacional e das próprias bases
internas. A reunificação foi procedida em abril de 1906, quando se realizou o IV Congresso, em
Estocolmo, e ainda eram muito vivas as expectativas de novos surtos revolucionários.
Estiveram presentes 110 delegados, 62 mencheviques e 46 bolcheviques. O Comitê Central, de
maioria menchevique, foi eleito após concerto das direções das duas frações. Em maio do ano
seguinte, em Londres, um novo congresso pareceu consolidar a fusão (mera aparência; de fato,
foi a última vez que social-democratas de todos naipes se reuniram num congresso único).
Entre os 336 delegados, representando 147 mil filiados, graças a acordos com os socialistas
poloneses e letões, os bolcheviques ganharam a maioria da direção.
Nos debates, a principal questão, que envolveu todas as demais, referiu-se a contradições
imprevistas evidenciadas no calor da revolução, entre as propostas do programa aprovado em
1903 e as características dos movimentos sociais em luta.
L. Trotski e V. Lenin trataram do assunto em termos diferenciados. Ambos apontaram a
debilidade de participação da burguesia e das vertentes partidárias representativas de seu
universo de referências, os constitucionalistas-democráticos (os kadetes) e os outubristas. Em
suma, sua falta de vocação para assumir a liderança de um processo revolucionário consequente
pela derrubada da autocracia e pela instauração de uma república democrática no país.
No entanto, apesar disso, não se pretendeu reformular a definição ortodoxa tradicional. Não
se propôs, assim, nenhuma mudança de concepção sobre o caráter da revolução necessária. Ela
continuou sendo vista, segundo os termos consagrados, como uma revolução democrático-
burguesa, ou seja, suas tarefas históricas estavam ligadas à instauração das instituições
econômicas, políticas e jurídicas já prevalecentes na Europa Ocidental. Agora, configurada a
inapetência revolucionária burguesa, caberia ao proletariado (L. Trotski) ou, numa outra versão,
à aliança operário-camponesa (V. Lenin), hegemonizada pelo proletariado, a direção do
processo.
Trotski previu um processo de revolução permanente: a execução mesma das tarefas
históricas deslocaria do poder a burguesia em proveito da ditadura do proletariado. V. Lenin
defendeu a hipótese de uma revolução ininterrupta em que, de acordo com a correlação de
forças, a transferência de poder tenderia a se fazer em favor de uma ditadura democrática
operária e camponesa. Ambos estavam de acordo com o fato de que a revolução russa seria
apenas o prólogo de uma revolução mundial, sem a qual estaria fatalmente destinada a
desaparecer.
Em Lenin, uma sensibilidade mais apurada em relação à necessidade da aliança com o
campesinato e, um pouco mais tarde, com as nações não-russas. Em Trotski, uma ênfase maior
na ação decisiva do proletariado urbano e na dimensão internacional da revolução. Apenas
nuances? No futuro, marcos de identificação e de reconhecimento. Embora não alterando o
programa, ambas as propostas mudavam o enfoque tradicional das duas etapas. Segundo os
padrões da ortodoxia da Internacional Socialista, inovavam e, a rigor, podiam ser consideradas
heréticas.
A questão agrária ocupou um segundo lugar em ordem de importância. No IV Congresso, a
proposta menchevique da municipalização da terra com a distribuição sob controle dos poderes
locais, democraticamente eleitos, acabou sendo aprovada, contra a ideia defendida por alguns
bolcheviques, aos quais acabou se aliando Lenin, prevendo a nacionalização com a distribuição
sob controle dos camponeses. Os mencheviques observaram maliciosamente que a proposta
bolchevique assumia o ponto de vista dos socialistas-revolucionários, ou seja, dos populistas.
Na verdade, os populistas limitavam-se a abraçar uma tradição camponesa, igualitarista,
favorável à perspectiva distributivista, cujo marco histórico era a comuna rural: a terra deveria
ser distribuída segundo os braços disponíveis para o trabalho e as bocas existentes para
alimentar.
Um imbróglio, porque esta orientação contradizia a ortodoxia social-democrata ocidental,
para quem, de fato, a pequena propriedade camponesa não tinha lugar. O avanço do
capitalismo, de qualquer forma, a destruiria. Lamentável, mas assim haviam decidido as leis da
história. Ou seja, seria reacionário, no sentido próprio do termo, um anacronismo, agitar um
programa agrário de defesa dos interesses dos pequenos camponeses. Entretanto, no Império
russo, a esmagadora maioria da população ainda habitava o campo. Os mujiques constituíam a
massa fundamental da nação e tinham uma orientação distributivista, evidenciada na revolução
de 1905, por meio dos movimentos sociais no campo e nos congressos camponeses. Como se
aliar com eles sem incorporar o seu programa? Lenin e os bolcheviques propunham a aliança,
mas formulavam ressalvas: estariam sempre tentando caracterizar, em termos marxistas, as
divisões de classe no campo e entre os camponeses. Assim, haveria que distinguir uma camada
de camponeses pobres, os bedniaks e os batraks (camponeses com pouca terra e proletariado
agrícola). Era sobretudo com esta camada, e não com o conjunto do campesinato, que o
proletariado se aliaria no curso da revolução. Uma sutileza a que poucos prestaram atenção,
mas que seria crucial.
Mesmo com ressalvas, era possível assumir um programa distributivista? Os bolcheviques
não estariam capitulando diante do populismo? Ou apenas recorriam a um compromisso para
salvar a aliança com os camponeses? O compromisso era um expediente tático, a ser revisto
quando permitissem as circunstâncias? Ou era uma proposta de aliança a ser mantida em
qualquer hipótese? Questões lançadas ao tempo, só o futuro, se fosse o caso, poderia
responder…
A concepção de partido também voltou a ser considerada. No congresso de reunificação,
apesar da maioria menchevique, foi aprovado o princípio em torno do qual houvera tanta
polêmica em 1903. Uma concessão apenas simbólica, porque o partido social-democrata
assumira um caráter de massas no contexto dos movimentos de 1905, agrupando algumas
dezenas de milhares de filiados. O próprio Lenin, mais tarde, procurou relativizar as propostas
de um partido constituído apenas por profissionais e rigidamente centralizado. No entanto,
muitos, entre os bolcheviques, continuaram privilegiando a eficiência, marca de um partido de
vanguarda, missionário, alguns não hesitavam em dizer: militar.
A verdade é que, mesmo no contexto da reunificação, as frações bolchevique e
menchevique não chegaram a se dissolver, longe disso. Para os mencheviques, os bolcheviques
continuavam associados a tendências conspiratórias, blanquistas russos, mais próximos dos
socialistas-revolucionários do que da social-democracia internacional. Para os bolcheviques, os
mencheviques tinham decisão revolucionária de menos, e respeito demais pelas formas
jurídicas da república democrática. Em nome da ortodoxia das duas etapas não se permitiam
ver a realidade russa e seu potencial revolucionário original.
Em consequência, mantiveram-se, dentro do partido, os centros de cada fração — os
mencheviques menos organizados, pela própria natureza de suas proposições. Entretanto,
apesar das críticas mútuas e de sua contundência, é fato que apenas as principais lideranças,
sobretudo no exílio, atribuíam real profundidade ás divergências, algumas ainda apenas
virtuais.
Também sobre a questão nacional importantes contradições foram registradas. No processo
de 1905, o movimento das nacionalidades não-russas evidenciara um claro potencial
revolucionário, no sentido da desagregação da ordem autocrática. Aí também havia problemas
com a ortodoxia do socialismo internacional, que sempre mostrou uma enorme dificuldade para
tratar desta questão, considerada burguesa, porque associada ao tempo histórico da ascensão e
afirmação do capitalismo. Ela seria resolvida pelo socialismo internacionalista, a quem não
competia, até por uma questão de coerência, cultivá-la e prolongá-la. Ora, Lenin, que não
costumava hesitar quando se tratava de arregimentar aliados para destruir o inimigo, chegou a
propor, para grande escândalo dos mais ortodoxos, o reconhecimento da autodeterminação das
nações não-russas, livres, pela revolução, para proclamar a secessão. O que a tradição e o
capitalismo haviam unificado, os bolcheviques propunham agora, em nome do socialismo,
desagregar. Uma heresia não perdoada por Rosa Luxemburgo, com quem Lenin manteve acesa
polêmica sobre o assunto. Mais um entorse aos paradigmas das teses ocidentais. Mais um
reconhecimento das condições concretas da situação concreta do Império tzarista.
Como um redemoinho, a revolução de 1905 virou pelo avesso inúmeras definições,
algumas já consagradas. Contudo, assim como aparecera de forma surpreendente, esvaziou-se
de forma totalmente inesperada. A conjuntura das esperanças revolucionárias cedo foi
substituída, desde 1907, por um período de contrarrevolução, marcado pelas políticas
modernizantes stolypinianas (1906-1911), pela progressiva conversão da Duma em um
arremedo caricatural de Parlamento e por uma feroz e eficiente repressão aos questionamentos
da ordem.
Os partidos socialistas, empurrados para a clandestinidade, o exílio e a cadeia, não
resistiram à pressão dos múltiplos fatores desfavoráveis, inevitáveis numa fase de profundo
refluxo, e tenderam à desagregação.
No contexto de um exílio cada vez mais denso, sem horizontes, campearam a desesperança,
as querelas mesquinhas, envolvidas num quadro de ressurgência de tendências místicas e
estampidos de suicídios. O desencanto contaminou quase todos, impondo um processo de
decomposição às oposições revolucionárias. Após uma conferência malograda, em 1908, o
próprio Comitê Central social-democrata praticamente desapareceu, depois de uma última
reunião, em 1910. Um tempo de resistência, em que apenas não naufragar já significava uma
vitória. Os bolcheviques, pelo próprio caráter de suas concepções partidárias — embora
também se enfraquecendo —, conseguiram evitar graus mais altos de dispersão, visíveis entre
os mencheviques e outros grupos, ditos liquidacionistas, porque céticos em relação à hipótese
de construção de um partido social-democrata nas circunstâncias de então. Talvez por esta
razão, os liderados por Lenin puderam participar melhor do processo de recuperação dos
movimentos sociais, novamente ativos a partir de 1910.
Foi assim, num quadro de extrema fragmentação, que uma Comissão de Organização,
controlada pelos bolcheviques, convocou uma conferência das organizações social-democratas.
O evento, pouco expressivo, realizou-se em Praga, em janeiro de 1912, e pretendeu eleger um
novo Comitê Central e reestruturar o partido, o que gerou denúncias das demais correntes e
amargas controvérsias, não sanadas pela Internacional, que se manteve equidistante, não
reconhecendo na tentativa bolchevique o caráter de uma (re)fundação do partido social-
democrata russo. Do ponto de vista teórico e político, a chamada Conferência de Praga não fez
história. Mas, do ponto de vista organizativo, representou mais uma cunha no sentido da cisão.
Em suma, às vésperas da Primeira Grande Guerra, a social-democracia russa, de um ângulo
internacional, era uma tendência periférica, dividida e extraordinariamente turbulenta.
Aparentemente, tinha uma programa geral muito claro, ortodoxo, compartilhado por todos,
fixado em 1903 e até então não modificado. Rezava ele que a Rússia estava destinada a uma
revolução burguesa, democrática, quando seriam estabelecidas as bases políticas, econômicas e
jurídicas a partir das quais seria lícito pensar e lutar por uma revolução socialista.
Circulavam, contudo, formulações heréticas, não-oficiais, mas suficientemente
disseminadas para se constituírem, se fosse o caso, em referências alternativas. A ditadura
democrática operário-camponesa e a revolução ininterrupta de Lenin, a revolução permanente
de Trotski, as propostas bolcheviques sobre a questão nacional eram algumas das bombas em
estoque, à espera de circunstâncias propícias. Coisas de russos, diriam os social-democratas
ocidentais.
As divergências quanto às concepções de organização partidária tinham voltado à tona e
permaneciam vivas, envenenando os debates. Combinadas com o refluxo das lutas sociais e a
opacidade de um interminável exílio, constituíam um coquetel explosivo de intrigas, dissensões
e injúrias que faziam o desgosto da Internacional Socialista. A social-democracia russa era um
pequeno partido, partido. Exilado. Enfraquecido.
Depois de 1910-11, no entanto, os mais otimistas tinham razões para detectar o
renascimento de uma certa esperança.
Do lado do poder, se o crescimento do capitalismo industrial batia recordes, após a crise que
se encerrou em 1903, não parecia capaz de atenuar as contradições sociais, ao contrário. No
plano político, o sistema parlamentar não ganhara credibilidade, a Duma não passava de uma
caricatura, submetida aos caprichos do tzar. O projeto modernizador das estruturas agrárias,
ressalvados alguns substanciais avanços, não mais vigia. O assassinato de seu autor, P. Stolypin,
em 1911, fora simbólico. Ou seja, o Estado tzarista, em meio às forças dinâmicas que ele
mesmo suscitava, continuava comprometido com a autocracia, e decidido a assim permanecer.
A partir de 1911, a sociedade dava mostras de um novo dinamismo. Os estudantes
protestavam por autonomia e liberdade. O movimento operário tomava o freio nos dentes,
sobretudo depois que um protesto nas minas do Lena foi violentamente massacrado, gerando
centenas de mortos (1912) e uma vaga de descontentamento. No primeiro semestre de 1914, as
estatísticas davam conta de 1,5 milhão de grevistas. A promessa de uma nova revolução?
Foi então que explodiu a Primeira Grande Guerra, “o melhor presente que o tzar poderia
nos dar”, segundo Lenin. A história atenderia, afinal, as esperanças dos revolucionários?

FEVEREIRO, 1917

A guerra, um bom augúrio? Os movimentos sociais do primeiro semestre de 1914


autorizavam as esperanças dos mais otimistas. Além disso, a memória de 1905 associava, de
forma nítida, os fenômenos da guerra e da revolução.
Entretanto, em vez de realizar sonhos, os primeiros momentos da guerra decepcionaram. A
União Sagrada tornou-se realidade em todos os países beligerantes envolvidos. Os socialistas
arrastados, muitos a contragosto, outros nem tanto, pela euforia guerreira nacionalista. Na
própria Rússia, apesar da resistência dos deputados social-democratas da Duma, a maioria da
população e de seus representantes aderiu com entusiasmo à defesa da pátria.
Aos que negavam esta opção, restou o isolamento. Entre os socialistas russos, como em
toda a parte, explodiram as divergências. Em relação à questão central da guerra, não era
possível chegar a acordo. Distinguiram-se quatro grandes vertentes. Havia os partidários da
guerra: argumentavam que uma vitória alemã representaria o fim do socialismo internacional.
Entre estes, e para surpresa geral, encontravam-se os velhos Plekhanov e Kropotkin,
verdadeiros estandartes da ortodoxia social-democrata e do anarquismo, acompanhados por
uma parte considerável dos socialistas-revolucionários. Outros diriam que a defesa da pátria era
uma imposição tática, as grandes massas do povo eram favoráveis, não havia como se opor.
Nem por isso viam a guerra com bons olhos. Numa posição que se queria mais equilibrada,
encontraram-se os que também se rendiam à necessidade da defesa nacional, mas enfatizando a
luta pela paz, sem anexações nem indenizações: a grande maioria de mencheviques, como I.
Martov, lideranças independentes, como Trotski, alguns socialistas-revolucionários e até
mesmo muitos bolcheviques. Autodenominaram-se internacionalistas, embora chamados de
defensivistas pelos adversários. Finalmente, no extremo, os mais radicais propunham que os
revolucionários deveriam lutar, em toda a parte, e ativamente, pela derrocada dos próprios
governos, no sentido de aprofundar a crise e, de acordo com os termos da resolução do
congresso da Internacional de 1907, converter a guerra imperialista em guerra civil, contra o
capitalismo. Aí se encontravam a maioria dos bolcheviques, dirigidos por Lenin, muitos
anarquistas e alguns socialistas-revolucionários. Preferiam identificar-se como
internacionalistas autênticos, mas eram chamados de derrotistas.
Com a União Sagrada, ruíra a imponente Internacional Socialista. Para alguns, a falência
definitiva de uma proposta. Para muitos, apenas um parêntese. Nas diversas articulações
internacionais que tiveram então lugar entre os socialistas, fosse para formular propostas de luta
pela paz, fosse para denunciar a guerra, as nuances do socialismo russo estiveram presentes.
Contudo, o enfraquecimento político de todas elas, no terreno das lutas sociais que se travavam
no Império, conferia-lhes pouca representatividade. Além disso, diante da adesão dos povos à
guerra, as oposições ao conflito, pelo menos até 1917, tiveram peso muito pouco relevante.
Assim, as conferências alternativas de Zimmerwald, em 1915, e de Kienthal, no ano seguinte,
não conseguiram falar mais alto do que os canhões, muito pouco se ouviu de suas propostas.
Lenin encontrava-se na extrema esquerda destas conferências, fazendo parte da chamada
esquerda de Zimmerwald, ou seja, a esquerda da esquerda. Em atenção, porém, a múltiplas
pressões, e às evidências do processo social, abandonou as posições derrotistas e passou a
cingir-se aos termos da resolução de 1907 da Internacional Socialista: transformação da guerra
imperialista em guerra civil.
O desenvolvimento da guerra exacerbou as contradições sociais e políticas no Império, que
se acentuaram de forma muito mais drástica e radical do que nos demais países beligerantes.
Desde 1915, o tzarismo afundou-se em sucessivas derrotas. O próprio chefe das forças armadas
prussianas, Von Hindenburg, diria que, quando das batalhas contra os russos, os soldados
alemães eram obrigados a deslocar montes de corpos inimigos para atirar sobre as novas vagas
de atacantes. No enfrentamento entre metralhadoras prussianas e baionetas russas, reconhecia
não ser possível calcular as perdas russas: cinco ou oito milhões? A diferença das cifras
propostas dá a indicação do desprezo que o Estado tzarista conferia à vida dos seus mujiques
(Moynaham, 1994).
Enquanto isso a economia evidenciava carências estruturais. O abastecimento degringolava.
Faltavam munições nas trincheiras e pão nas cidades. A fome rondava. O caos. A guerra, que
todos esperavam curta e vitoriosa, estava sendo longa e desagregadora. Já antes do fim de 1915,
havia 4 milhões de perdas reconhecidas, entre mortos, feridos, prisioneiros e desaparecidos.
Uma carnificina.
Diante da insensibilidade do Estado e da inépcia do Alto Comando das forças armadas, a
sociedade começou a se movimentar num processo notável de auto-organização. Enquanto os
generais depositavam suas esperanças nos espaços considerados intransponíveis, na lama, no
general inverno e em São Nicolau, desde 1915, o chamado Bloco Progressista, na Duma,
solicitou a formação de um governo responsável perante o Parlamento.
Mas o movimento transbordou, alcançando os zemstva (assembleias territoriais e regionais
da nobreza) e as dumas (assembleias urbanas censitárias) municipais, que se federaram ao
arrepio da lei e assumiram tarefas governamentais, conjuntamente com o movimento
cooperativo, com a Cruz Vermelha e outras associações semelhantes.
Da resignação ao descontentamento, à cólera. Em 1916, reapareceu um forte movimento
grevista. Aumentaram as pressões e as conspirações favoráveis a uma revolução de palácio: o
governo era apenas estúpido ou havia traição no ar?
Entre as elites, sempre em dúvida, multiplicaram-se as críticas à condução da guerra e ao
próprio tzar. Mas não ousavam atacá-lo abertamente ou conspirar com eficácia para derrubá-lo.
As intrigas voltaram-se contra a imperatriz e Rasputin. Ela era suspeita por ser nascida alemã.
Ele, um siberiano de obscuras e humildes origens, adquirira súbita e notória influência junto á
Corte e à imperatriz em particular, em virtude de seus supostos dotes de homem milagreiro.
Fazia e desfazia ministros, e houve a suspeita de que nutrisse também simpatias pela Alemanha.
Estaria conspirando por uma paz em separado? Num assomo de coragem um grupo de nobres o
matou. Foi o máximo a que se chegou. A ação simbolizou os limites históricos e políticos de
uma classe que já não parecia capaz de propor alternativas.
A situação decompunha-se, mas ninguém, contudo, em nenhum campo, esperava por um
rápido desenlace. Nem mesmo Lenin, que, numa palestra a jovens socialistas suíços,
pronunciada em Zurique, menos de dois meses antes da irrupção da tormenta, chegou a dizer,
cético, que ele, como velho, não teria provavelmente a possibilidade de assistir à vitória da
revolução.
Mas teve.
Nos últimos dias de fevereiro1, cinco dias de movimentos sociais intensos em Petrogrado2
bastaram para derrubar uma dinastia eterna de três séculos de existência. O inesperado. A
revolução.
Na expressão de contemporâneos, uma revolução anônima, sem líderes ou partidos
dirigentes. E feliz, pela harmonização e pelo congraçamento de vontades. O grande responsável
por todos os males, problemas e dificuldades, o tzar, devidamente demonizado, fora removido,
abrindo os horizontes para todos os sonhos.
Caberia agora à sociedade dar forma e cor aos anseios para que pudessem ser concretizados
pelo novo governo que emergiu, o governo da Duma, provisório, enquanto não fosse convocada
a tão desejada Assembleia Constituinte, inscrita em quase todos os programas que previam a
derrocada da autocracia. Ao lado do governo, reemergiu uma outra instituição, proposta havia
12 anos, no contexto de uma outra revolução: o conselho (soviet) de deputados operários e
soldados de Petrogrado. A sombra de 1905 desligava-se do passado e vinha habitar o presente.
A palavra estava concedida a todos que desejassem dela dispor. Livre, como nunca o fora,
para povos obrigados e acostumados ao silêncio. Surpreendentes o dinamismo e a vontade com
que todos procuraram apossar-se dela. Por meio de todo o tipo de associações, conselhos e
organizações, formularam queixas, críticas, demandas, propostas, apresentando, como seus
antepassados de mais de um século, os cahiers de doléance3 da revolução russa (Marc Ferro,
1967).
O que reclamava o povo que vinha de derrubar a autocracia russa?
Os operários queriam o reconhecimento da jornada de trabalho de oito horas, a segurança
do emprego, seguros sociais, eliminação das multas escorchantes e das humilhações (revistas
desonrosas, arrogância no tratamento), livre organização, inclusive nas fábricas, e um reajuste
de 20% a 30% que lhes permitisse ter “três libras de pão por dia, um par de sapatos a cada seis
meses, uma sopa nas refeições”. Em suma, e em outras palavras, algo semelhante ao programa
mínimo da social-democracia europeia. Escassas referências, em toda uma primeira fase, ã
revolução ou ao socialismo.
Os camponeses retomaram o programa de 1905. Queriam terra, toda a terra. Que fosse
concedida aos que a trabalhavam, sob controle dos comitês agrários, em vias de constituição
desde março. Parecia disseminar-se a consciência de que, afinal, chegara o tempo da utopia:
uma grande e equitativa distribuição da terra.
Os soldados foram comedidos. Fizeram questão de esclarecer que não eram covardes, não
deixariam de defender a pátria, sobretudo agora que sua defesa confundia-se com a da
revolução. Contudo, manifestaram um profundo desejo no sentido de que tudo se fizesse por
uma paz justa. Um grupo de representantes, que não passou à história porque anônimo,
formulou, em nome da seção militar do soviete de Petrogrado, um texto sem pompa nem
circunstância, cujo título diz tudo da aparente modéstia de seus autores: a ordem de serviço
(prikraz) n° 1. Em termos quase anódinos, sem eloquência nem solenidade, determinou-se o
tratamento respeitoso para todos nas forças armadas, garantiram-se as liberdades dos soldados,
mesmo fardados, e, sobretudo, estabeleceu-se o controle dos comitês de soldados sobre o
movimento das tropas e das munições, ou seja, revolucionou-se completamente a estrutura das
forças armadas. Alguns dias depois, o Alto Comando e os oficiais conseguiram a formulação de
um prikraz n° 2, atenuando a amplitude das competências atribuídas aos comitês dos soldados.
Mas o estrago já estava feito. Nunca mais a disciplina e a hierarquia reinaram como antes.
Finalmente, as nações não-russas também se puseram em movimento. Dos bálticos aos
buriata-mongóis, em assembleias rapidamente improvisadas, reivindicaram o reconhecimento
de sua personalidade, quase todos falando em autonomia, cultural e/ou política, alguns, mais
audaciosos, já reclamando a independência.
Na Ucrânia, desde o início de março, surgiram várias organizações nacionalistas rivais. Pela
maior representatividade, afirmou-se a Rada, que, antes do fim do mês, já exigia a autonomia
interna e, a partir de junho, a independência nacional. Ao mesmo tempo, movimentos nacionais
na Polônia, Finlândia, Letônia e Lituânia passaram igualmente a defender a independência. Os
armênios, com medo dos turcos, hesitavam, mas os judeus do Bund reclamaram autonomia ou
ajuda para a criação de uma entidade na Palestina (sionistas). Na Ásia Central, os muçulmanos,
embora divididos em varias vertentes, e defendendo fórmulas diversas (autonomistas,
nacionalistas reformistas, conservadores, revolucionários, pan-islamistas socialistas, pan-turcos
etc.), inclinavam-se também pela secessão, imediata ou a prazo (H. C. d’Encausse, 1978).
À liberdade da palavra associou-se a radicalização do processo de auto-organização da
sociedade, um movimento já em curso desde antes de fevereiro, mas fundamentalmente
limitado, até então, às elites dirigentes e às camadas intermediárias bem-pensantes. A maré
agora extravasara. Os desorganizados por natureza e tradição também se organizavam,
frequentemente em mais de uma organização.
Assim, a Rússia não viveria, ao longo do ano revolucionário de 1917, como contou mais
tarde a história revolucionária oficial, um processo de duplo poder, mas de múltiplos poderes,
entrecruzando-se, em curto-circuito, uma cacofonia, numa indisciplinada e indisciplinável
Babel. O poder, decididamente, saíra dos palácios e dos solenes edifícios públicos, fragmentara-
se. Estava em toda a parte e não se centralizava mais em lugar nenhum. Nos quartéis, nas
fábricas, nos comitês, nos conselhos, nos sindicatos, em todas as organizações que germinavam
incessantemente. Caíra na rua. Para os que se haviam acostumado a observar o poder de baixo,
uma extraordinária novidade. Para os de cima, o caos. O mundo pelo avesso, de ponta-cabeça.
Uma vertigem.
Diante da efervescência, o governo provisório respondia com pedidos de moderação e
serenidade. Era preciso restabelecer a ordem, sem a qual seria impossível promover as
reformas. E fixar uma agenda, um calendário. Primeiro, ganhar a guerra. Havia terras russas
sob a bota teutônica. Quem seria capaz de abandonar os irmãos, subjugados pelo inimigo?
Depois de feita a paz, convocação e eleição de uma Assembleia Constituinte, soberana para
promover as reformas reclamadas, inadiáveis. Enquanto isso, o governo constituía comissões de
estudo para processar as reivindicações e preparar propostas a serem submetidas à Assembleia
Constituinte.
O contraste. De um lado, os movimentos sociais, uma intensa e vibrante onda que vinha das
bases da sociedade, eloquente até quando plasmada em fórmulas simples, quase simplórias:
uma sopa em todas as refeições, um sapato a cada seis meses… De outro, a ponderação, a
medida, a sabedoria de um calendário lógico como os interesses dos que apenas estavam
dispostos a conceder os anéis.
A história deste contraste é a história do ano vermelho de 1917. De fevereiro a outubro, e
das sucessivas crises, escandindo um processo de radicalização. Como um filme, passando cada
vez mais rápido.
O primeiro tremor veio com a crise de abril.
O ministro das Relações Exteriores do governo provisório, P. Miliukov, um liberal, em
declarações públicas, reafirmou o compromisso da Rússia revolucionária com as alianças e os
objetivos de guerra definidos antes da vitória da revolução. O momento não poderia ter sido
pior escolhido: as comemorações do 1º de maio (18 de abril, no calendário juliano). Uma
provocação? Soldados e operários foram imediatamente para as ruas, exigindo a demissão do
ministro. Depois de difíceis negociações, as lideranças kadetes aceitaram a saída de P. Miliukov
e o governo aceitou comprometer-se com a ideia de que a Rússia estava em guerra lutando pela
paz. Mas houve uma exigência, em contrapartida: que se formasse uma coalizão com
representantes dos sovietes. Uma demanda que remontava aos dias seguintes à vitória contra a
autocracia e cujo objetivo explícito era comprometer os sovietes com a ação governamental.
Assim, o governo provisório deixou de ser apenas uma emanação da Duma para ser expressão
também dos sovietes. Houve hesitação entre os revolucionários. Em princípio, os sovietes
constituíam uma instituição de controle, de vigilância, não deveriam comprometer-se com o
governo provisório. Afinal, aceitou-se o acordo, seis deputados soviéticos ingressaram no
governo: formou-se, em 5 de maio, a primeira coalizão.
A maré dos movimentos sociais crescia e se organizava. Em maio, reuniu-se o primeiro
congresso dos camponeses da Rússia: mais de mil delegados reafirmaram as teses igualitaristas
e distributivistas tradicionais. Em junho, seria a vez dos sovietes urbanos, de soldados e
operários, realizarem um primeiro congresso. Entre mais de mil delegados, 285 diziam-se
socialistas-revolucionários, 248 mencheviques, apenas 105 bolcheviques.
A temperatura subia. No campo, as agências administrativas registravam a febre. Março: 49
rebeliões em 34 distritos. Abril: 378 rebeliões em 174 distritos. Maio: 678 rebeliões em 236
distritos. Junho: 988 rebeliões em 280 distritos.
As nações não-russas agitavam-se. Os programas de sempre, em situações de crise:
autonomia, independência, o fantasma da secessão.
Nas cidades, greves e mais greves. Ao lado dos sovietes de fábricas, outras organizações: os
sovietes de bairros, as milícias, os comitês de fábrica, os sindicatos.
E então veio a crise de julho.
O governo provisório, para sair do marasmo, convocou a sociedade para a organização de
uma ofensiva, a última. Kerenski, deputado da Duma Imperial antes da revolução de fevereiro,
membro do primeiro governo provisório, no qual, desde o início, fora considerado um
representante dos sovietes, e cuja estrela subia com o aprofundamento da crise, preparou o
clima, arengando tropas e retaguarda: era preciso um derradeiro e decisivo esforço para salvar
os irmãos submetidos pelos soldados do Kaiser. Depois de um começo indeciso, que suscitou
esperanças, a ofensiva foi um fracasso lamentável, virou morticínio e debandada.
As notícias chegaram a Petrogrado como um rastilho, criando uma atmosfera de
enfrentamentos. Adivinhando a tormenta, os ministros kadetes simplesmente demitiram-se do
governo, evitando assumir responsabilidades. Os acontecimentos precipitaram-se. De 3 a 5 de
julho, soldados, operários e marinheiros em Petrogrado exigiram todo poder aos sovietes,
proposta assumida desde abril pelos bolcheviques e que vinha ganhando terreno, sobretudo
entre os setores mais radicais dos movimentos sociais urbanos.
Uma onda de pressão abateu-se sobre o governo provisório, agora praticamente apenas
assumido pelos representantes dos sovietes e por Kerenski. Sobre o real caráter desta crise, e
destes movimentos, a polêmica não cessou. Na versão dos liberais, os bolcheviques insuflaram
o movimento, instrumentalizaram o desespero das massas para tentar um golpe de Estado. Na
dos bolcheviques, tratou-se de uma revolta espontânea, que eles, longe de insuflar, tentaram
controlar, evitando enfrentamentos decisivos, considerados ainda prematuros.
O rescaldo pareceu fatal aos bolcheviques. O governo conteve a revolta com unidades
trazidas das frentes militares, reorganizou-se, no quadro de uma segunda coalizão, com
Kerenski guindado à suprema posição. Diversas lideranças bolcheviques, como L. Kamenev, ou
aliados, entre os quais Trotski, foram presos. A imprensa partidária, empastelada. Lenin,
acusado de ser um agente a soldo dos alemães, obrigado à clandestinidade.
Quando os bolcheviques pareciam liquidados, ocorreu a crise de agosto. O governo da
segunda coalizão procurou apoio nas forças conservadoras, agora revitalizadas. E convocou
para Moscou uma Conferência de Estado. Moscou, e não Petrogrado, a escolha não fora
gratuita, visou fugir do torvelinho dos acontecimentos e de Petrogrado, a vermelha. A seleção
dos participantes também falava por si mesma: entre quase 2.500 delegados, apenas 429
deputados dos sovietes. Mas o respaldo que o líder do governo buscava foi dado a Kornilov, o
comandante do exército, aparentemente republicano, mas com vocação mal disfarçada para
ditador. Sentindo-se forte, o general tentou o golpe de Estado. Mas Kerenski não entrou no
jogo, resistiu, e conclamou o povo a reagir, em nome da legitimidade do governo.
Os sovietes constituíram, então, uma frente única de defesa da revolução, reabilitando os
bolcheviques, libertando os líderes presos. Os kadetes (constitucionalistas-democráticos),
comprometidos com o golpe, desmoralizaram-se. Os líderes moderados dos sovietes, inclusive
Kerenski, que haviam patrocinado e nomeado Kornilov, enfraqueceram-se. Do episódio,
renasceram, como das cinzas, os bolcheviques, que, desde abril, denunciavam a conciliação
com o governo provisório e com as forças conservadoras. E se fortaleceram os sovietes, de cuja
mobilização dependera a salvação da revolução. Enquanto isto, o movimento camponês, em
plena ofensiva, desconhecendo as manobras urbanas, invadia e tomava terras. Uma viragem.
Formou-se, afinal, mais uma, a terceira, coalizão. O governo tentou uma última cartada: a
Conferência Democrática, também chamada de Pré-Parlamento. Um arremedo. Os sovietes,
cada vez mais exigentes, descrentes do governo e com amplo respaldo popular, bolchevizavam-
se, ou seja, convertiam-se à tese de que deveriam assumir todo o poder.
Decomposição acelerada das Forças Armadas. Poder na rua. Desagregação geral. Profundo
cansaço. Desgaste generalizado. Tempo de radicalização. Foi-se a atmosfera do congraçamento
de fevereiro, em que era possível sonhar num futuro risonho e fraternal. Agora é fratura em vez
de continente. Divisão no lugar da harmonia. Caos e não ordem. Da revolução anônima à
revolução bolchevique.
Como evoluíram os projetos socialistas no ano em que a Rússia enlouqueceu?
Os mencheviques, de acordo com a ortodoxia definida em 1903, reconheceram em
fevereiro a anunciada — e prevista — revolução democrático-burguesa. O marxismo triunfava,
confirmando-se como teoria científica. A história realizara a Profecia. Os sovietes fiscalizariam
o novo regime até a promulgação da Constituição. Depois, se autodissolveriam para que se
pudesse empreender, no quadro republicano, juridicamente institucionalizado, a luta pelo
socialismo. Como no figurino estabelecido pelos países civilizados. Mesmo quando resolveram
participar das coalizões governamentais, podiam vestir o manto da ortodoxia, pois ela
autorizava o procedimento, em circunstâncias excepcionais. Grande parte dos socialistas
revolucionários, confirmando evolução desenhada desde o começo do século, aderiram ao
esquema.
Os bolcheviques, num primeiro momento, tenderam a fazer uma leitura semelhante dos
acontecimentos. Os responsáveis recém-instalados em Petrogrado chegaram a censurar — e a
não publicar — as primeiras cartas de Lenin, que chegavam com explícitas orientações em
sentido contrário. “Nenhuma ilusão no governo provisório”, “todo o poder aos sovietes de
operários e camponeses pobres”, assim bradava o velho exilado nas cartas de longe, escritas
ainda da Suíça4. Pouco mais tarde, estas teses, chamadas de abril, porque discutidas numa
conferência bolchevique realizada neste mês, ganharam o partido, unificando-o politicamente.
A revolução democrático-burguesa, argumentou Lenin, estava na ordem do dia. Mas suas
tarefas históricas só poderiam ser cumpridas no quadro de uma revolução que apontasse para o
socialismo. Aí o proletariado deveria ocupar uma posição central. Entretanto, a sua fraqueza
relativa o impedia de postular o poder isoladamente. Era preciso encontrar aliados e, neste
sentido, seria lícito mobilizar todas as forças de desagregação em operação dentro do sistema.
O campesinato, naturalmente, em primeiro lugar. Os soldados, camponeses fardados. E as
nações não-russas.
O proletariado, ou seja, o seu partido — em outros termos, os bolcheviques — deveriam
assumir as reivindicações dos aliados tais como eles as formulavam, mesmo que para isto
tivessem de rever, ou mesmo abandonar, as próprias propostas /Entorses à ortodoxia, no caso,
seriam bem-vindos, mesmo porque, segundo gostava de dizer Lenin, o marxismo não era um
conjunto de dogmas, mas um guia para a ação. A adesão dos bolcheviques ao programa agrário
defendido pelos deputados camponeses e a defesa incondicional da aliança com estes últimos
foram energicamente sustentadas por Lenin em pessoa nos congressos dos camponeses, em
maio e em novembro de 1917. Não foi tarefa fácil, porque existia uma grande desconfiança em
relação aos bolcheviques.
A nova revolução somente se viabilizaria na medida em que todo o poder fosse assumido
pelos sovietes. Por sua própria natureza e composição, representavam de forma viva os
interesses dos operários e camponeses, ou seja, a ditadura democrática operário-camponesa,
revolucionária, único poder capaz de cumprir as tarefas históricas da revolução.
A revolução russa era apenas o prólogo de um vasto processo internacional, em cujo centro
estaria — deveria estar — o proletariado e a revolução socialista alemães. Sem o Ocidente, em
qualquer caso, a revolução russa não tinha esperanças, condenava-se ao fracasso.
A rigor, esta arquitetura, como já se observou, fora explicitamente sugerida após a
revolução de 1905. Dela se aproximavam as ideias expostas por Trotski sobre a revolução
permanente. Natural, portanto, apesar de todas as ríspidas polêmicas anteriores, que Trotski e
seus correligionários, agrupados até então em organização própria, a Interdistrital, se
aproximassem de Lenin e ingressassem no partido bolchevique, por ocasião do seu VI
Congresso, realizado na clandestinidade em julho de 1917.
Os bolcheviques, formando um partido relativamente pequeno, minoritário em quase todas
as instâncias representativas, assumiram incondicionalmente as propostas de realização
imediata das aspirações das grandes massas do povo russo e também das nações não-russas. No
clima incendiado de 1917, considerando-se a radicalização dos movimentos sociais, as
tergiversações governamentais, os repetidos desastres militares e a bancarrota consequente, que
se acentuava, eles seriam os grandes beneficiários da exasperação das contradições sociais e
políticas.
Nunca seria demais insistir que o processo dito de bolchevização dos sovietes ganhou força
e acelerou-se apenas depois do fracasso do golpe de Kornilov, em fins de agosto de 1917,
quando se evidenciaram as ambiguidades e a incapacidade política das coalizões
governamentais. Por bolchevização entenda-se que os sovietes aderiram às propostas dos
bolcheviques, mas não necessariamente que os deputados estivessem ingressando em massa no
partido. Uma nuance nem sempre clara. Por outro lado, é importante frisar, o que também não
era lembrado no discurso revolucionário oficial, enquanto existiu, que duas outras formações
políticas assumiram igualmente a realização imediata dos interesses dos movimentos sociais: os
anarquistas e os socialistas revolucionários de esquerda.

OUTUBRO E A GUERRA CIVIL

Assim, quando a revolução russa de outubro tornou-se vitoriosa, não foi apenas obra dos
bolcheviques, genialmente dirigidos por Lenin, embora ela seja impensável sem os primeiros, e
não esteja em questão o gênio de Lenin, sobretudo a rara agilidade em se adaptar a uma
realidade cambiante, a energia e a capacidade de calcular e assumir riscos e de decidir, mesmo
com margens estreitas, quando estava em jogo o poder.
A revolução foi produto de um conjunto de movimentos sociais que, na defesa de seus
interesses, convergiram objetivamente, numa situação de crise muito particular, hiperativada
pela derrocada militar e pela notável incapacidade dos sucessivos governos provisórios.
Nesta perspectiva, a revolução não se limitou à insurreição de outubro, realizada e
rapidamente decidida em Petrogrado, na noite de 24 para 25 de outubro de 1917. A insurreição
foi certamente um elo decisivo, mas apenas um elo, de um processo revolucionário muito mais
vasto, cuja efetiva decolagem começou em agosto-setembro de 1917 e se estendeu até fins de
1920, quando o poder bolchevique se consolidou.
A rigor, quatro processos sociais precisam ser considerados antes da insurreição, do início
do segundo semestre a outubro de 1917. Eles decidiram a mudança fundamental na correlação
de forças políticas.
Desde agosto, uma onda avassaladora do movimento camponês, como já referido, realizou
a revolução agrária na prática. O galo vermelho, mais uma vez, cantou forte: as terras dos
proprietários (pomechtchiks), da Igreja e as propriedades particulares em geral, até mesmo dos
pequenos e médios proprietários, foram expropriadas. Se em julho anotaram-se 1.777 casos de
violência no campo, entre 1º de setembro e 20 de outubro houve uma notável progressão: 5.140
casos registrados. Sem contar os que simplesmente aconteceram, sem registro oficial. O velho
sonho igualitarista do camponês russo, afinal, realizava-se. A terra fora nacionalizada, subtraída
ao mercado, não poderia mais ser objeto de compra e venda. Pertencia agora a todos os que
nela trabalhavam, e somente a eles. E deveria ser igualitariamente distribuída, segundo
parâmetros fixados unicamente por cada comitê agrário, e não mais pelo governo ou pelos
homens da cidade. Além disso, ficava proibido o trabalho assalariado. Cada camponês usaria as
próprias mãos e seus instrumentos de trabalho, podendo contar, no máximo, com a ajuda da
família. Com o desaparecimento dos grandes proprietários extinguiu-se um dos polos
tradicionais do nexo rural. Emergiu das cinzas do passado a comuna rural, a grande vitoriosa,
sem dúvida, da revolução agrária (M. Lewin, 1985).
Por outro lado, sob o duplo eco do troar dos canhões alemães e do canto do galo vermelho,
as Forças Armadas russas desagregaram-se num redemoinho enlouquecedor. Não se contavam
mais os desertores, mas os que não desertavam. Os camponeses fardados abandonavam
trincheiras e fardas para participar da distribuição igualitária da terra. Nas cidades, desaparecera
praticamente o exército, pois os soldados, muito bem informados, não mostravam nenhum
entusiasmo pela hipótese de transferência para as frentes de combate.
Além disso, as nações não-russas afirmaram, sucessivamente, por meio de organizações
recém-criadas, o direito à autodeterminação dos povos. Cada qual queria ter sua própria
assembleia constituinte e decidir, segundo seus interesses, a forma de relacionamento com a
Rússia. Em fins de agosto de 1917, em Kiev, na Ucrânia, delegados de 13 nações não-russas
aprovaram resolução no sentido da autodeterminação e de assembleias constituintes soberanas e
separadas em cada nação. Ou seja, para a grande maioria tratava-se de deliberar sobre o
momento e as modalidades da secessão.
Finalmente, nas cidades, num outro movimento e num contexto alucinado de greves e
locautes, inúmeros sovietes de comitês de fábrica assumiram o controle de empresas
abandonadas pelos proprietários. Exprimindo politicamente a exasperação, desde setembro,
vários sovietes, a começar pelo de Petrogrado, passaram a aprovar resoluções favoráveis á
tomada do poder: todo o poder aos sovietes.
E neste quadro de extrema desagregação que se realizou a insurreição de outubro e só esta
visão de conjunto poderia permitir a compreensão da rapidez com que foi assegurada a vitória
em Petrogrado.
A terceira e última coalizão, em que se apoiava (mal) o governo provisório, estava suspensa
no vazio, sem força, incoerente, desfeita.
Os bolcheviques tiveram a audácia e a decisão, e estavam melhor organizados nos grandes
centros urbanos para assumir o poder. Arguiam, em seu favor, defendendo a legitimidade de
suas ações, o caráter profundamente democrático de um novo governo, sustentado nos sovietes
reconhecidos pela grande maioria dos soldados e dos trabalhadores urbanos. Em relação às
lutas sociais no campo, diziam-se dispostos a atender as aspirações das organizações
reconhecidas pelos camponeses, os comitês agrários.
Assim, se a vitória local da insurreição foi decidida por um golpe de audácia, oportuno, por
uma tática ofensiva e pelo adequado comando de operações, ela se tornou vitoriosa
politicamente apenas por meio do reconhecimento das reivindicações dos movimentos sociais.
O primeiro governo revolucionário eleito pelo II Congresso dos Sovietes, o Conselho dos
Comissários do Povo, por meio do Decreto sobre a Terra reconheceu de forma explícita as
reivindicações camponesas e seria, por isso — e apenas por isso —, apoiado, mesmo assim não
sem desconfianças.
Com efeito, não bastou o Decreto. Foi ainda necessária a promessa formal do fiel
cumprimento do chamado “mandato imperativo dos 242 delegados”, aprovado em agosto de
1917, uma espécie de carta da revolução agrária russa, já executada na prática, quando se
realizou a insurreição de outubro, mas não admitida juridicamente pelo governo de Kerenski.
A intervenção de Lenin no congresso camponês, realizado em dezembro de 1917, mais de
um mês depois da realização da insurreição de outubro, foi decisiva. Ainda recebido com
suspeita e incredulidade, o líder revolucionário exorta, persuade, tenta convencer. Mas o
congresso não aceita ouvi-lo como chefe de um novo governo, emanação de um congresso
soviético, mas apenas na qualidade de delegado da fração bolchevique no congresso. Em suma,
até aquele momento, os deputados camponeses não reconheciam formalmente o governo
revolucionário. Um índice das reais relações de força existentes, e da situação periclitante, à
beira do abismo, em que se encontravam os comissários do povo.
De forma análoga, foram atendidos os interesses dos demais movimentos sociais, de
soldados, de operários e das nações não-russas. O Decreto sobre a Paz estabelecia um
armistício imediato e propunha a abertura de negociações por uma paz sem anexações e
indenizações. O Decreto sobre o Controle Operário reconhecia as reivindicações dos comitês de
fábrica e associava estas organizações à direção da produção. A Declaração dos Direitos dos
Povos da Rússia proclamou a igualdade total das nacionalidades e o direito de cada uma e de
todas à secessão.
Foram estes compromissos que permitiram ao governo revolucionário reunir forças para
lutar contra as forças conservadoras e respectivos apoios externos, tanto nas breves, porém
violentas, escaramuças após outubro, sobretudo em Moscou, como ao longo da guerra civil, até
fins de 1920. Mesmo porque os partidários da antiga ordem, não tendo nada aprendido, nem
esquecido, sempre se recusaram a atender as demandas e reconhecer os direitos de camponeses,
operários e povos não-russos.
E neste quadro que devem se situar os debates sobre o real caráter da Revolução de
Outubro: golpe ou revolução?
Os políticos liberais da época, e a historiografia liberal desde então, não cessaram de
martelar o aspecto golpista da tomada do poder em Petrogrado pelos bolcheviques. Nostálgicos
da alternativa capitalista então derrotada, nunca foram capazes de analisar em profundidade os
fundamentos da falência das sucessivas políticas, sempre pelo alto, que pretenderam
modernizar o Império sem alterar, ou alterando de forma lenta e segura, quase imperceptível, as
estruturas sociais e políticas dominantes.
Com efeito, o reformismo frustrado de Alexandre II, que deixou a abolição da servidão na
metade do caminho, as políticas modernizantes de Witte e Stolypin, embora tendo feito avançar
a Rússia em direção ao século XX, não foram suficientes para romper as amarras com o Antigo
Regime, que a prendiam ao passado.
Assim, a alternativa de um modelo constitucional-democrático nunca chegou a se
consolidar, apesar, ou por causa, do susto provocado em 1905. Os mais otimistas chegaram a
imaginar que a Duma Imperial poderia evoluir no sentido de um Parlamento nos moldes
ocidentais. Mas foi exatamente o contrário o que ocorreu. Entre 1906 e 1914, apenas se
instaurou uma caricatura de regime representativo.
Por outro lado, é ainda mal esclarecida, para dizer o mínimo, a resistência com que as
diversas coalizões provisórias encararam as reinvidicações dos movimentos sociais, cada vez
mais impacientes. Escudando-se no álibi de uma futura assembleia constituinte, cuja
convocação era sempre postergada em nome dos imperativos de uma guerra que nunca
terminava, os sucessivos governos depois de fevereiro, na verdade, foram profundamente
antidemocráticos, recusando-se a implementar o que a sociedade suplicava (em fevereiro),
reclamava (a partir de abril-junho) e exigia (desde agosto-setembro). Afinal, esta obtusa
insensibilidade levou a alternativa liberal à perda.
Numa outra vertente, socialistas de diversos matizes (socialistas revolucionários e
mencheviques) também questionaram a oportunidade da insurreição de outubro, denunciando
os métodos considerados golpistas utilizados pelos bolcheviques. Alguns argumentos desta
polêmica, que passaremos a considerar, não deixam de ter consistência. De fato, ao considerar o
curso dos acontecimentos desde fevereiro, e as alianças que se constituíram entre os
bolcheviques e os movimentos sociais, não é possível deixar de assinalar que se tratou de um
processo não linear, e não isento de ambiguidades.
Com efeito, a questão do poder e do papel dos sovietes, desde 1905, evidencia mudanças de
ângulos de análise. Num primeiro momento, os social-democratas, e particularmente os
bolcheviques, cultivaram uma certa desconfiança, substituída depois pela ideia de que os
sovietes na Rússia poderiam vir a ser a forma por excelência do poder proletário. Na
conferência realizada em abril de 1917, os bolcheviques consagraram a orientação de todo o
poder aos sovietes (Teses de Abril). Os bolcheviques, então minoritários na estrutura soviética,
reconheceram a necessidade de ganhar os sovietes para empreender, por intermédio deles, a
revolução.
Alguns meses mais tarde, entretanto, em julho de 1917, o VI Congresso dos bolcheviques,
reunido na clandestinidade, e perseguido pelas autoridades eleitas no primeiro congresso dos
sovietes, em junho, modificou a orientação de abril, aderindo à ideia de entregar o poder aos
conselhos de comitês de fábrica e ao partido bolchevique (que já tinha maioria neste tipo de
estrutura). Um mês depois, nova reviravolta: após o frustrado golpe de Kornilov, reatualizou-se
a ideia do poder aos sovietes, confirmada pelo processo em curso de bolchevização destas
instâncias. Nesse meio tempo, Lenin, elaborando na clandestinidade, chegou a propor a forma
soviética como a reencarnação do Estado tipo Comuna, antevisto por Marx à luz da insurreição
parisiense de 1871. No entanto, finalmente a insurreição de outubro, por insistentes apelos de
Lenin (mesclados a acusações de traição a quem não estivesse de acordo), aprovados pelo
Comitê Central dos bolcheviques, foi decidida e desencadeada antes da reunião do II Congresso
dos Sovietes, que a aceitou e validou, como fato consumado. Como se sabe, a insurreição
ocorreu na noite de 24 para 25 de outubro, véspera da abertura do II Congresso dos Sovietes.
No entanto, foi graças a manobras protelatórias de Trotski, então presidente do Soviete de
Petrogrado, que a insurreição não se realizou muitos dias antes da reunião dos sovietes, porque
a decisão para realizá-la imediatamente foi tomada em 10 de outubro e reafirmada em 16 do
mesmo mês.
Por outro lado, em relação à Assembleia Constituinte, os bolcheviques cultivaram também
uma posição ambígua. De fato, na perspectiva aberta pela transferência de todo poder aos
sovietes, não havia mais espaço para a Constituinte. Entretanto, talvez pela força e tradição
desta reivindicação, os bolcheviques não chegaram a riscá-la do programa. Manteve-se ali, um
pouco esvanecida, como um móvel velho, sem serventia previsível, mas que ainda não se joga
fora, seja porque não há certeza sobre sua não-utilização futura, seja porque não se sabe
exatamente o destino que lhe deve ser dado, seja para não ofender os sentimentos dos que se
sentem a ele apegados. Em consequência, participaram das eleições para a Constituinte em
novembro de 1917, mas convocadas antes da insurreição. Diante dos resultados desfavoráveis,
e do propósito da maioria eleita de qualificar a Assembleia como soberana, questionando o
governo revolucionário, reapareceu o espectro de um poder alternativo.
Os bolcheviques moveram-se com rapidez. O governo revolucionário formulou uma
Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado e exigiu da Assembleia que
explicitasse uma atitude a respeito.
Diante do negaceio dos constituintes, optou-se pela solução de força: a dissolução da
Assembleia, pouco depois de instalada, em janeiro de 1918.
Os sovietes não tiveram o mesmo destino, mas muito rapidamente se transformaram numa
câmara de registro, divulgação e assimilação das decisões do partido bolchevique. O banimento
dos demais partidos, formalizado em 1921, consolidou uma tendência afirmada ao longo da
guerra civil. Em suma: os sovietes deixaram de ser um Parlamento plebeu pluripartidário para
se converterem numa engrenagem do poder monopolizado pelos bolcheviques. A supremacia
do partido sobre os sovietes, já visível na decisão insurrecional, sem consentimento antecipado
e explícito destes últimos, evoluiu (ou involuiu) para a ditadura do partido único (M. Ferro,
1982).

________________
1 As jornadas de fevereiro, que derrubaram a autocracia russa, realizaram-se entre 23 e 27
de fevereiro de 1917. Vigorava então na Rússia o calendário juliano, com uma defasagem de 13
dias em relação ao calendário gregoriano, adotado em quase todo o resto da Europa. A Rússia
ajustou o calendário à hora do Ocidente a partir de 1º de fevereiro de 1918. As datas aqui
referidas, e até fevereiro de 1918, correspondem ao calendário juliano.
2 O Estado, no início da guerra, e num assomo de patriotismo, russificara o nome da cidade
de São Petersburgo, mudando-o para Petrogrado, cidade de Pedro.
3 Cahiers de doléances des Etats généraux: literalmente, cadernos de reclamações/queixas
dos Estados Gerais, nos quais se relacionaram as críticas, as reivindicações e as propostas da
população francesa por ocasião da convocação dos Estados Gerais de 1789.
4 Depois de difíceis negociações com os alemães, Lenin deixou a Suíça em 27 de março,
atravessando a Alemanha de trem. Houve acordo, descumprido pelos bolcheviques, de que, nas
escalas alemãs do trem não se faria nenhuma agitação revolucionária, daí a lenda do trem
blindado. Lenin chegou a Petrogrado em 3 de abril (datas russas).
As relações com os camponeses também apresentaram curvas e meias-voltas e, não
raramente, inversão radical de mão.
Em outubro, como se observou, houve o reconhecimento dos interesses dos camponeses. O
que não desfez a desconfiança, ostensiva, dos mujiques.
Ao mesmo tempo, as resoluções do governo revolucionário insistiam frequentemente na
problemática do campesinato pobre (bedniaks), sem terra ou com pouca terra, marcando uma
diferenciação social no âmbito da aldeia que, justamente, a revolução agrária golpeara. Como
se recorda, embora os bolcheviques, sobretudo depois de 1905, defendessem uma aliança com
os camponeses, no quadro da ditadura revolucionária democrática operária e camponesa
(Lenin), nunca deixariam de insistir na existência de divisões de classe no campo. Neste
sentido, batraks e bedniaks (proletários do campo e camponeses pobres) não poderiam ser
confundidos com seredniaks e kulaks (camponeses médios e ricos). Este jogo seria mantido até
outubro. Por outro lado, o governo cobrava a necessidade de uma reciprocidade entre campo e
cidade, ou seja, a expectativa de que os camponeses abastecessem devidamente as cidades em
troca do reconhecimento de seus interesses.
Contudo, os fluxos comerciais campo—cidade diminuíram drasticamente, as cidades não
tendo como efetuar um pagamento efetivo pelos produtos agrícolas, sobretudo cereais. Assim,
desde 1918 o governo começou a recorrer cada vez mais a uma política agressiva de
requisições de cereais. Surgiram os destacamentos de ferro: homens armados que, pela força,
expropriavam os camponeses, levando cereais para alimentar as cidades.
As contradições foram num crescendo, entre os camponeses, representados pelos socialistas
revolucionários (SRs) de esquerda, que inclusive tinham posições no governo, e os homens da
cidade, o governo, os bolcheviques. Os SRs de esquerda, afinal, retiraram-se do governo, em
protesto pela assinatura em março de 1918 do tratado de Brest-Litowski, pelo qual a Rússia
revolucionária saía da guerra fazendo enormes concessões à Alemanha.
As tensões aumentaram até que, no contexto da radicalização das carências de
alimentos/requisições de cereais, desferiu-se um verdadeiro golpe, em maio de 1918. Os
bolcheviques tentaram, então, por meio de um decreto, dividir o movimento camponês e a
comuna rural, atraindo os chamados camponeses pobres contra os camponeses ricos, ou kulaks,
acusados de estocar e especular ilegalmente com gêneros de primeira necessidade. Aos
primeiros, caso denunciassem os segundos, o decreto prometia terras e percentuais dos cereais
eventualmente encontrados.
Ausente da história oficial, e mesmo pouco referido na literatura especializada, o decreto foi
aprovado pelo Conselho dos Comissários do Povo em 9 de maio de 1918, ratificado pelo
Comitê Executivo Central dos Sovietes em 13 de maio e publicado no dia seguinte sob o título:
“Atribuições ao Comissariado do Povo para o Abastecimento de plenos poderes extraordinários
com vistas à luta contra a burguesia rural que dissimula estoques de trigo e se serve deles para
fins de especulação.” Falar na época em burguesia rural no campo, além de um entorse às
realidades sociais, era um atentado à aliança formada em 1917. Lenin insistiria sobre as três
palavras de ordem fundamentais naquele momento: centralização do abastecimento, união do
proletariado e união das organizações de camponeses pobres no campo: estava aberta uma
primeira temporada de caça aos camponeses ricos, os kulaks.
A manobra teve efeito de fole soprando no fogo: o incêndio pegou. Os SRs de esquerda
chamaram a guerra civil contra os bolcheviques, lançando atentados e tentando, em vários
pontos, alguns com temporário sucesso, derrubar o poder existente. O movimento deu impulso
à guerra civil, cujos indícios vinham se acumulando desde novembro de 1917, e que seriam
agora amplificados com o desfecho de ofensivas brancas contrarrevolucionárias e o
desembarque, em várias regiões do território russo, de tropas estrangeiras. Ao norte, ingleses,
em Mursmansk e Arkangelsk. Ao sul, franceses, no Mar Negro, em Odessa. No extremo
oriente, japoneses e norte-americanos, em Vladivostok.
Em 1919, reconhecendo as dificuldades da política implementada e o perigoso isolamento
em que se encontravam, os bolcheviques voltaram atrás e renunciaram às medidas de maio de
1918, arquivando a categoria dos camponeses pobres e voltando a se situar diante dos
camponeses nos termos de outubro de 1917. A decisão teve um efeito extremamente positivo,
recriando condições para novamente atrair o apoio camponês, mesmo porque os brancos, ao
contrário, rejeitavam radicalmente quaisquer concessões à revolução agrária.
Mais uma vez, como em 1917, a intransigência obtusa das elites do Antigo Regime
empurrou o campesinato para os bolcheviques. A análise da propaganda dos dois campos em
que se afunilou progressivamente a guerra civil é eloquente. De um lado, adaptados às
exigências da polarização imposta pelo conflito, os cartazes bolcheviques, vermelhos,
concentrados na denúncia do mal causado pela trindade perversa de capitalistas gananciosos &
generais cruéis & popes (padres ortodoxos) insensíveis aos reclamos e sofrimentos do povo. De
outro, a propaganda branca, dedicada a exaltar a mãe-pátria (para a qual tinham pouco ligado
durante a guerra), as figuras dos seus generais (detestados) e a denunciar as atrocidades dos
bolcheviques (atrocidades que todos cometiam). O contraste: de um lado, a mobilização dos
espíritos fundada sobre a promessa do atendimento imediato de reivindicações e sobre a
denúncia clara de inimigos visíveis; de outro, palavras e denúncias vazias, não raramente ao
arrepio do que os movimentos sociais exigiam.
Tentativas de estabelecimento de uma terceira alternativa não conseguiram afirmar-se, salvo
em regiões localizadas, e temporariamente. Os SRs de esquerda (e alguns anarquistas) quase
sempre ficaram imprensados entre vermelhos e brancos. Apenas na Ucrânia, sob comando de
Makhno, os anarquistas conseguiram consolidar uma outra via, mas em aliança com os
bolcheviques. Depois da guerra civil, no entanto, os que não aceitaram a ordem de
desarmamento foram esmagados ou obrigados a partir para o exílio.
Assim, durante a guerra civil, ameaçados pelos brancos, os camponeses acabaram apoiando
os bolcheviques, apesar das requisições, consideradas nas circunstâncias um mal menor,
sobretudo depois da revogação das medidas de maio de 1918.
Entretanto, logo que se tornou clara a derrota do Antigo Regime, voltariam a reagir com
violência à violência das medidas governamentais. O galo vermelho voltaria a cantar, agora
contra o governo revolucionário que, pressionado e sem alternativas, formulou, em resposta
improvisada, uma série de decretos, depois conhecidos como a Nova Política Econômica
(NEP).
A questão nacional também registrou idas e vindas. No início, reconhecimento. A
Declaração dos Direitos dos Povos da Rússia, de 2 de novembro de 1917, era tudo o que as
nações russas queriam: direito à independência e à secessão. Mas o governo revolucionário, em
seguida, introduziu uma nuance, distinguindo entre os povos a categoria de massas
trabalhadoras e exploradas. O caso ucraniano foi emblemático. Depois de admitir a existência
da República Popular da Ucrânia e o seu direito à secessão, o governo revolucionário condenou
a Rada (Assembleia ucraniana) por não assumir a estrutura soviética na Ucrânia e matizou seus
propósitos, denunciando o jogo duplo da Rada, que impedia o seu reconhecimento na qualidade
de “representante plenipotenciário das massas trabalhadoras e exploradas” da República da
Ucrânia. Mas de quem era efetivamente o jogo duplo?
Na verdade, os bolcheviques só reconheceriam os direitos nacionais caso proclamados
pelos sovietes representativos das massas trabalhadoras e exploradas. Ora, os sovietes eram
estruturas urbanas, existentes apenas nas grandes cidades, coincidentemente constituídas por
forte presença — quando não a maioria — de russos que, independentemente de filiações
partidárias, tinham dificuldades em conceber ou simplesmente não queriam ouvir falar de
separação da Mãe Rússia. Na medida em que se tornassem os únicos ou os principais
interlocutores do poder, não haveria independência nem secessão.
O impasse acabou engolfado pela guerra civil. Quando abaixou a fumaça da metralha, onde
o sentimento antirrusso combinava-se com a força militar (com apoio político e material das
potências capitalistas ocidentais), houve a independência. Foi o caso da periferia ocidental do
ex-Império tzarista: Finlândia, Polônia e Estados bálticos. Onde não havia força militar para
defender o desejo de independência, ou melhor, onde a força dos bolcheviques era maior, as
nações não-russas tiveram de se submeter: Ucrânia, Cáucaso e Ásia Central. Aos
inconformados restou o recurso das guerrilhas desesperadas e o banditismo, em ação, às vezes,
até fins dos anos 20. Importa, contudo, registrar o descrédito de muitas elites nacionalistas, em
grande parte servis aos alemães, enquanto estes tiveram força, ou seja, até novembro de 1918,
ou hostis às reivindicações camponesas. Mas na Geórgia, por exemplo, o destino da elite
nacional, apesar de popular e comprometida com o socialismo, foi o mesmo: submissão pela
força, eliminação ou exílio.
Até a base social urbana da insurreição de outubro, formada pela aliança entre os operários,
a Guarda Vermelha e os soldados aquartelados nas grandes cidades, sobretudo em Petrogrado,
passou por dificuldades no processamento de seus interesses. No início, não houve dúvidas.
Todo o programa de reivindicações foi aceito, inclusive o controle operário, devidamente
regulamentado por decreto próprio. Em relação à propriedade das indústrias, o governo tendeu
a aceitar a progressiva estatização, muitas vezes por pressão dos trabalhadores. Há evidências,
ao contrário das teses simplórias que registraram a estatização como expressão de um leninismo
totalitário desde o começo, de que o próprio Lenin pensava, durante toda uma primeira fase, em
expropriar apenas certos setores estratégicos, e trabalhar com os donos das indústrias,
assessorados, quando fosse o caso, por comissários vermelhos. Cedeu, no entanto, à pressão dos
trabalhadores, que enxergavam na estatização, e não sem razão, a garantia do emprego e o
abrigo contra a cadência infernal da indústria privada e contra as costumeiras arbitrariedades,
como humilhações, multas etc.
Num segundo momento, já em 1918, vieram medidas significativas no sentido do
enquadramento da chamada classe guia. Os sovietes de comitês de fábricas, estruturas muito
dinâmicas, de curta porém intensa tradição revolucionária, foram submetidos aos sindicatos,
valorizados pelos bolcheviques, e se tornaram rapidamente uma correia de transmissão do
Estado. No contexto da guerra civil as condições de vida e de trabalho degradaram-se de forma
drástica. A classe operária como tal desmilinguiu-se, provocando o esvaziamento das cidades,
perdendo mais de metade dos efetivos, enquanto os melhores e mais combativos de seus
representantes iam para o exército e/ou para a administração do Estado. Neste quadro não foi
difícil argumentar que, em 1920, desapareceram os operários de outubro (Deutscher, 1967).
Assim, quando alguns sindicatos e sovietes operários, sob liderança menchevique,
empreenderam greves salariais e políticas, no começo de 1921, puderam ser esmagados sob a
alegação de que não estavam sintonizados com os interesses históricos do proletariado, cuja
captação e formulação pertenciam exclusivamente aos bolcheviques. Uma evolução notável: os
revolucionários já não se reconheciam na base social original da revolução.
Em suma, no processo de ascensão ao poder, os bolcheviques tenderam a aguçar a
sensibilidade em relação aos interesses dos movimentos sociais. Procuraram estabelecer com
estes uma sintonia fina. Sempre, no entanto, resguardando sua autonomia em relação à
sociedade. No universo de referências por eles cultivados, os bolcheviques se viam menos
como expressão da sociedade em movimento do que como intérpretes de uma teoria
revolucionária. Somente nesta medida é que é possível compreender as complexas evoluções
dos bolcheviques em relação aos sovietes. O mesmo se pode dizer a respeito da insurreição de
outubro. Parece evidente que foi realizada sem prévia e formal consulta democrática.
Entretanto, se estivesse em jogo apenas um golpe bem executado, os bolcheviques, mesmo
vitoriosos em Petrogrado, acabariam sendo rapidamente derrotados. Conseguiram manter-se
nos controles da máquina estatal porque souberam formular decretos e leis que correspondiam
fundamentalmente aos interesses dos amplos movimentos sociais.
Em outras palavras: a insurreição de outubro foi um golpe vitorioso, mas não vitorioso
porque golpista, mas porque se combinou com o atendimento a reivindicações das amplas
maiorias. Neste sentido, em larga medida, realizava-se a democracia, enquanto prevalência da
vontade das maiorias. Paradoxalmente, os críticos democráticos dos bolcheviques naquele
momento, liberais e socialistas, recusavam-se a realizar as exigências majoritárias, daí porque
suas denúncias não tiveram credibilidade, embora formalmente pertinentes.
Numa fase seguinte, e sempre que o imaginaram possível, os bolcheviques tenderam a
exercitar a margem de autonomia autoatribuída pela teoria, comportando-se, segundo a
correlação de forças, real ou imaginada, com maior ou menor desenvoltura em relação à
dinâmica da sociedade. Foram assumindo, nesta lógica, atitudes e políticas cada vez mais
ditatoriais, embora comprometidas com a mudança da ordem e a transformação do Antigo
Regime.
No polo oposto, os brancos nunca ofereceram senão ditadura e reação. E nenhuma proposta
de mudança. Numa vertente que se quis intermediária em certo momento, apresentaram-se
liberais e socialistas moderados. O problema deste campo, muito nuançado, é que não teve
tempo histórico para afirmar um perfil diferenciado. E o mais grave é que não soube, ou não
quis, ou não foi capaz, de empreender as mudanças exigidas pela sociedade quando as
circunstâncias foram propícias. Quando quiseram agir, só restava espaço para a denúncia e o
protesto. Nas condições russas que então passaram a prevalecer, um exercício possível apenas
no exílio.
Fios partidos. Evoluções contraditórias. Contrastes entre intenções e gestos. Resultados
inesperados. Interação difícil entre concepção e realização. Dois fenômenos seriam apontados,
desde o início, como determinantes para as metamorfoses imprevistas.
Primeiro: a revolução internacional não acontecera. Um prenuncio neste sentido fora já
registrado com a assinatura da paz de Brest-Litowski, em março de 1918. Como explicar as
concessões abomináveis aos alemães? A paz revolucionária não era baseada na fórmula de que
não haveria anexações nem indenizações? A Rússia revolucionária não estava admitindo a
perda de territórios e o pagamento de compensações financeiras e materiais ao inimigo? Foi
possível então sustentar o caráter excepcional da opção, as circunstâncias haviam imposto o
acordo, mero expediente tático para salvar uma revolução débil que naufragava. Por outro lado,
a imobilidade de cadáver do proletariado alemão (segundo a análise de Rosa Luxemburgo)
autorizava a manobra. Mesmo porque a melhor maneira de garantir os interesses da revolução
internacional era impedir a derrocada da revolução russa. Mas o que dizer dos acordos secretos
firmados ainda em 1918 com o Estado imperial alemão? Menos de um ano depois da denúncia
espetacular dos tratados secretos elaborados pelo Estado tzarista, a Rússia revolucionária
recorria aos expedientes condenados da diplomacia tradicional. Enfatizou-se mais uma vez, é
verdade, que se tratava de algo essencial para “salvar a revolução”. Mais um expediente
“excepcional”. E se a exceção se transformasse em regra?
Em fins de 1918, porém, com a vitória da revolução alemã e a fuga do Kaiser, a história
pareceu recobrar coerência, e entrar nos eixos das previsões de Lenin e de Trotski. O tratado de
Brest foi devidamente rasgado (uma tira de papel) e os horizontes, aparentemente, se abriram
para a revolução internacional, que teve um esboço de confirmação com as insurreições em
Budapeste, na Baviera, e com os movimentos sociais no norte da Itália e em outras partes da
Europa Ocidental. No fogo da guerra civil, criou-se a Internacional Comunista, ou III
Internacional, conforme passou à história, em março de 1919. Os bolcheviques estavam então
numa situação desesperada, e o congresso teve um valor apenas simbólico, mas nem por isso
deixou de fixar uma perspectiva, um compromisso. Mais tarde, no verão de 1920, numa
conjuntura bem mais favorável — apesar das derrotas de 1919 (esmagamento dos movimentos
revolucionários na Hungria e Alemanha) —, o II Congresso da nova Internacional, com mais de
200 delegados representando 35 partidos comunistas, reafirmou solenemente a ideia
internacionalista, ainda tendo como centro a Europa, mas já tratando de incorporar as lutas dos
povos dominados pelas potências capitalistas avançadas.
O Estado soviético, no entanto, minimamente consolidado, começou a se inserir e a
participar do jogo das relações internacionais. Sem abandonar a perspectiva — e a esperança —
de uma revolução internacional, passou a assinar tratados comerciais e diplomáticos, num jogo
tão complexo e diversificado de contatos e compromissos que, às vezes, já não se sabia se
estavam merecendo preferência os interesses da revolução internacional ou os do Estado
soviético. Porém, os mais críticos tendiam a calar-se na crença, ainda comum, de que uns e
outros eram indissociáveis, inclusive porque quase todos mantinham a confiança na iminência
de uma nova onda revolucionária.
Mas tal não foi o caso, na realidade. E a Revolução Russa, que seria apenas o prólogo de
uma revolução mundial, ficou isolada num mundo hostil.
Segundo: a guerra civil radicalizou o atraso. Retrocesso econômico, exposto num terrível
declínio de todos os índices. Produto bruto industrial: menos dois terços. Grande indústria:
queda de quatro quintos. Carvão e petróleo: diminuição também de dois terços. Ferro, aço,
açúcar, exportações: queda de quase 100%. Produção de energia elétrica e toneladas
transportadas pelas estradas de ferro: menos três quartos. Produção agrícola: diminuição de
quase metade. Importações: menos 80%.
E mais importante do que qualquer de todos os índices: as epidemias, as mortes inúteis, a
desmoralização, o cansaço, o desgaste e, acima de tudo, o sombrio fenômeno do
entrecruzamento do terror vermelho e do terror branco, atrocidades maciças. A brutalização das
relações sociais. A patologia social. Como estimá-la? (N. Werth, 1993)
No quadro deste desespero e desta desesperança é que surgiu a bizarra formulação do
comunismo de guerra. Repousava em ideias simples, comuns em tempos de absoluta carência e
despojamento. Instituiu o mais absoluto igualitarismo. Decretou a proibição de qualquer
empreendimento privado, na produção ou no comércio, de resto inexistentes, ao menos em
termos legais. Expropriou os camponeses de todos os excedentes. Liquidou com a moeda, que,
de qualquer forma, já se transformara em mero papel pintado. Na base da escassez
reinauguraram Esparta, e desejaram batizar a invenção de comunismo — de guerra. Alguns
chegaram a falar na militarização do trabalho e de toda a vida. O conceito que, na formulação
de Marx, figurava a sociedade do futuro e da abundância subitamente se transmudava,
instalava-se no presente, e passava a nomear a escassez. Ainda uma vez, da necessidade,
virtude.

KRONSTADT, A ÚLTIMA REVOLUÇÃO

Da ideia de instaurar um pesadelo sobre a terra, os bolcheviques foram acordados por


insurreições camponesas, por greves operárias e, principalmente, por mais uma revolução, a de
Kronstadt, em março de 1921.
Desde que a vitória contra os brancos pareceu consolidada, tornou-se cada vez mais difícil
fazer os camponeses suportarem requisições, impostos extraordinários e restrições ao comércio
privado. A tentativa de manter estas medidas, sob o argumento de que eram essenciais para a
reconstrução do país, e para a guerra contra a miséria e a fome, consideradas as novas frentes
de batalha, levou a revoltas no campo, esporádicas, no primeiro semestre de 1920, e
sistemáticas de meados para o fim do ano. O descontentamento acumulado e represado pelo
medo maior às políticas de restauração dos brancos, depois da derrota destes últimos, começou
a se manifestar com força, inquietando o governo revolucionário.
Uma oposição do mesmo tipo, surda, passou a ser registrada também nas cidades, e mesmo
entre os operários de Petrogrado. Em fevereiro teve início na capital da Revolução um
movimento grevista com reivindicações relativas à melhoria das condições de vida e de
trabalho. Apesar de reprimida pelos bolcheviques com violência, a onda se ampliou, atingindo
fábricas importantes e até as célebres empresas Putilov. Por outro lado, apareceram algumas
reivindicações políticas: fim das restrições aos deslocamentos dentro do país, liberdades
garantidas para a expressão do pensamento e para a manifestação pública, abandono da
proposta de militarização do trabalho, ainda relativamente popular entre os bolcheviques.
Foi neste quadro que os marinheiros de Kronstadt, a partir de 2 de março de 1921, e em
solidariedade aos operários em greve, declararam-se em rebelião contra o governo.
A tradição revolucionária da base naval de Kronstadt vinha de longe. Em 1905,
desempenharam papel de relevo na revolução. Desde fevereiro de 1917, e ao longo do ano
vermelho que então se iniciou, foram uma força das mais radicais no processo em curso. Não
gratuitamente, bolcheviques e anarquistas adquiriram influência considerável no soviete de
Kronstadt.
Em todos os movimentos e crises que agitaram Petrogrado — em abril, em julho, em agosto
e na Revolução de Outubro — os marinheiros de Kronstadt, sempre armados, eram
considerados a força de choque por excelência do que havia de mais revolucionário na
sociedade russa em ebulição. Por causa disso, muitos de seus líderes alcançaram, depois de
outubro, posição de destaque no aparelho administrativo e militar do governo dos comissários
do povo.
Agora, mais uma vez, os marinheiros de Kronstadt levantavam-se contra a ordem vigente.
Os manifestos e os programas publicados pelos rebeldes, desde o início, foram claros:
solidariedade aos grevistas de Petrogrado, liberdade de manifestação para todas as correntes
políticas, acompanhada da libertação de todos os presos políticos, e a formação de uma
comissão independente para investigar as denúncias, que já então circulavam, sobre a existência
de campos de trabalhos forçados. Exigiram também eleições para renovar o conjunto dos
sovietes existentes, com voto universal e secreto, e controladas por instituições pluripartidárias,
independentes do Estado.
Uma simples revolta?
Os bolcheviques tentaram negociar. Atenderam a algumas das reivindicações formuladas
pelas greves de Petrogrado, conseguindo que o movimento nas fábricas refluísse. Mas os
marinheiros, ao contrário dos operários, nada cederam em troca de satisfações parciais.
Armados e mobilizados, exigiram a realização de suas demandas.
O filme, então, começou a passar muito rápido, porque aquilo estava se tornando um
abscesso intolerável, rondava o perigo de contaminação. Os bolcheviques formularam um
ultimatum, 72 horas depois do início do movimento. Rendição ou aniquilamento. Como os
amotinados não depuseram as armas, começou o bombardeio da base, já em 7 de março.
A revolta converteu-se em revolução. Num novo manifesto, os marinheiros anunciaram o
início de uma terceira revolução. Mais uma vez, a tentativa de uma via alternativa: contra o
regime burguês e sua constituinte e contra o regime do Partido Comunista (os bolcheviques
tinham assumido este nome desde 1918) e sua polícia política, associado ao capitalismo de
Estado. Insistiram em eleições livres para os sovietes e na criação de sindicatos não controlados
pelo Estado.
Para os bolcheviques, não havia mais dúvida: era a contrarrevolução. Aproveitaram-se do
fato de que, no exílio, forças brancas de todas as tendências e insatisfeitos de todos os
quadrantes tudo faziam para se apropriar do processo, alguns não hesitando em insinuar ou
anunciar influências ou posições, de fato inexistentes no interior da revolta, para operar um
amálgama entre todas as forças de oposição, rotuladas como contrarrevolucionárias. Naquela
noite todos os gatos seriam pardos. E assim, prenunciando processos futuros, os marinheiros de
Kronstadt não passariam de agentes, conscientes ou inconscientes, da contrarrevolução
internacional.
A luta, terrível, continuou até 18 de março, quando a revolução foi destroçada. Milhares de
mortos e feridos dos dois lados, mais de 2.500 prisioneiros entre os marinheiros, deportados ou
fuzilados.
Na história oficial comunista, durante décadas, a revolução dos marinheiros de Kronstadt
foi desmoralizada como o subproduto de uma articulação branca e de uma conspiração
reacionária internacional contra o nascente e alquebrado poder revolucionário. Só os ingênuos,
segundo os bolcheviques, poderiam cultivar equívocos a respeito. Na contracorrente, uma
pequena e impertinente literatura, quase sempre de inspiração anarquista, lutou, em vão, para
convencer os inocentes e os interessados de todos os matizes de que ali se jogara a sorte de uma
revolução de bravos — perdida.
Sobre as cinzas da base naval de Kronstadt, tendo esmagado a ferro e fogo os últimos
alentos da grande onda de 1917, os bolcheviques foram obrigados, porém, a considerar os
interesses defendidos pelos vencidos.
Passaram, então, a tentar reconstruir o pacto firmado em outubro-novembro de 1917. Os
camponeses ficaram com o campo, reconhecido o triunfo da Comuna Rural. As relações
mercantis foram restabelecidas: compra, venda, moeda, desigualdades. Os bolcheviques,
conservando o controle dos setores estratégicos da economia, se retiraram para os castelos do
poder, sós, partido único na sociedade, vontade única no partido.
Qual o significado desta engenharia? Um recuo tático? Uma nova estratégia? A
ambiguidade das formulações permitia leituras múltiplas. O futuro deslindaria os rumos. A
revolução entrava em pausa. Aos soluços, por meio de medidas sucessivas, tomou corpo a
chamada Nova Política Econômica, a NEP.
De sorte que, entre 1917 e 1921, acontecimentos vertiginosos tinham virado pelo avesso as
intenções e modificado profundamente os projetos.
Uma revolução em nome do internacionalismo nacionalizara-se. O prólogo se transformara
em epílogo. Destinada a avançar no rumo de um mundo de abundância, a sociedade estava
agora arrasada, brutalizada. Um processo “mil vezes mais democrático do que a mais
democrática das democracias burguesas”, como gostava Lenin de se referir aos sovietes,
evoluíra para uma ditadura política de partido único, um espécime até então ignorado.
A classe operária, considerada pelos bolcheviques como base social principal da revolução,
minguara nos infortúnios da guerra civil. O camponês, um colossal aliado, emergiu como os
simples emergem nas lutas que arrasam as sociedades complexas: fortalecido. O mujique
realizara o velho sonho: tinha o controle da terra e podia distribuí-la sem a interferência do
Estado. A comuna rural, a antiga obchina, surgiu como grande vitoriosa. A vingança histórica
do populismo russo. Contudo, estranhamente, o partido que encarnara este projeto, em suas
várias vertentes, estava marginalizado, perseguido, banido da vida legal, e só podia manifestar-
se como espectro, por meio dos próprios bolcheviques.
Os bolcheviques, ali estavam eles. Figuravam-se ainda como vanguarda da revolução
mundial, mas eram apenas sobreviventes. Sob o comando de Lenin a nau não soçobrara, mas
mudara de rumo e já ninguém mais sabia o destino daquela viagem. Os bolcheviques, com seus
casacos de couro, ingênuos e ainda confiantes, terríveis em seu poder e aura de invencíveis.
Cercados na Rússia, e, na Rússia, cercados,1 em seus castelos, meditavam sobre as ironias e as
astúcias da história.

________________
1 A fórmula, referida à esquerda armada brasileira dos anos 60, é do professor Carlos
Vainer.
O grande debate: os caminhos do socialismo

EM 1921, RESTAVAM os escombros, a carência, a ruína. A fome que assolou o país no


inverno de 1921-22 matou cerca de 5 milhões de pessoas, obrigando o governo revolucionário a
aceitar ajuda internacional para minorar seus efeitos. O descontentamento e as revoltas rurais
(insurreições camponesas) e urbanas (greves e Kronstadt) impuseram mudanças. A terrível
utopia do comunismo de guerra tornara-se inviável. Era preciso negociar e pactuar com os
camponeses organizados nas comunas rurais.
O processo tomou forma aos soluços, como se os bolcheviques, contrariando íntimas
convicções e perspectivas, estivessem sendo obrigados a reconhecer uma realidade inescapável.
A primeira e decisiva medida foi a substituição da política de requisições por um imposto, a
ser pago em gêneros, pois as circunstâncias da época, de absoluto despojamento, de completa
quebra dos circuitos comerciais, de desaparecimento na prática da moeda, não aconselhavam o
tributo em dinheiro. Assim, de uma forma aparentemente prosaica, fixando um imposto in
natura, estabeleceu-se a base de um novo marco de convivência entre o governo revolucionário
e os camponeses.
Pago o imposto, os camponeses seriam livres para administrar, como desejassem, o
excedente. Estava aberta a via para a liberdade do comércio: de início, um pequeno atalho,
abrindo-se, com o tempo, num caminho mais amplo e seguro, garantido por legislação
específica. Aos poucos, outros decretos permitiram o restabelecimento da pequena propriedade
privada e o assalariamento na indústria e nos serviços, respeitados certos limites. Ainda em
1922, a Lei Fundamental de Utilização da Terra pelos Trabalhadores e o Código Agrário
consagravam juridicamente a virada.
O governo também tentou atrair o capital estrangeiro, criando áreas de investimento e
programas de estímulos, acenando com a oportunidade de empreendimentos de caráter misto. A
iniciativa não prosperou, mais pela desconfiança do capital estrangeiro, escaldado com as
expropriações de 1917-18, do que pela falta de vontade do Estado soviético. Assim, em 1928,
as empresas internacionais detinham apenas 0,6% da produção total, sobretudo no setor de
exploração de madeiras nobres.
A nova política agrária, no entanto, teve êxito. Estimulados, os braços camponeses
repuseram-se em movimento. E preciso recordar que 82% da população habitava as áreas
rurais, 77% ganhava a vida trabalhando diretamente a agricultura, 86,7% da população
economicamente ativa estava na agricultura (ML Lewin, 1985): a grande massa do país. Com
os arados de madeira e as técnicas rudimentares, por isso mesmo não comprometidos pela
devastação da guerra civil, deslancharam a recuperação econômica pelo mais essencial: a
produção de cereais.
Já em 1925, comparados aos de 1913, o melhor ano antes da Primeira Grande Guerra, os
resultados eram plenamente satisfatórios em relação à área semeada e à colheita de grãos: 104,3
milhões de hectares e 72,5 milhões de toneladas respectivamente, apenas 1% e 10% a menos do
que os resultados alcançados no excelente ano de 1913. A criação de gado, outro importante
índice para medir a melhoria das condições de vida do povo, sobretudo agora que a terra, toda a
terra, pertencia aos camponeses, apresentava também resultados encorajadores. Se o rebanho de
equinos ainda permanecia bem menor do que antes da Primeira Grande Guerra — 27,1 milhões
contra 35,5 milhões de cabeças —, os rebanhos de bovinos e suínos já superavam as melhores
marcas anteriores: 62,1 milhões e 21,8 milhões de cabeças, contra 58,9 e 20,3 milhões,
respectivamente.
A indústria teve uma recuperação mais lenta e desigual. Contavam, como freios, a
sofisticação de certos setores de base, os mais modernos, e a consequente dependência do
mercado internacional. Ora, na medida em que, desde 1914, não houvera renovação do parque e
as importações estavam na prática paralisadas, faziam-se sentir o desgaste e a obsolescência.
Em 1926, apenas a produção de energia elétrica superou, e com folga, a de 1913: 3,5 milhões
de quilowatts contra 1,9 milhão de quilowatts. Outros setores, como carvão (menos 5%), ferro
fundido (menos 40%) e aço (menos 25%), ainda patinavam em níveis inferiores aos do período
anterior à Grande Guerra (A. Nove, 1990).
Mesmo a indústria leve, prioritária na formulação da NEP, e fundamental para a avaliação
das condições de vida da população mais pobre, enfrentava dificuldades, embora relativamente
recuperada. Considerando uma base 100, relativa a 1913, alguns de seus setores apresentavam
rendimento ligeiramente superior: calçados (103), fósforos (104), sal (109), ou quase igual:
querosene (98). Mas outros ainda estavam longe dos patamares anteriores à guerra: algodão
(87), tecidos em geral (81), açúcar (77).
Se fosse possível, em imagens, desenhar a paisagem da Rússia revolucionária de então,
teríamos a seguinte situação: nas infinitas estepes, formigueiros de pequenos camponeses no
trabalho, irrigando com milimétricos excedentes microrredes de comércio varejista. Dezenas,
centenas de milhares de pequenas ações produtivas e comerciais, evoluindo em padrões de
relativa liberdade econômica. Dentro de certos limites, desejados, inclusive, pelos próprios
camponeses: a interdição da compra e da venda da terra, garantida pela nacionalização, e do
assalariamento de mão de obra. No entanto, em função da relativa prosperidade alcançada, os
mais dinâmicos e abastados já começavam a driblar as proibições por meio de operações
camufladas de arrendamento da terra e aluguel da força de trabalho dos camponeses menos
bafejados pela sorte.
Nas alturas e nos desfiladeiros, cercando as planícies, cercados por elas, as grandes
indústrias, o sistema bancário, o comércio atacadista e o comércio exterior, considerados
estratégicos, controlados pelo Estado centralizado do partido único bolchevique (desde 1921).
Entre a planície e as alturas, laços que se teciam, múltiplos contatos, pontes,
entrecruzamento de veias, tensões, coagulações, circulações, um sistema vital que se
estruturava e tomava um nome: Nova Política Econômica, a NEP.

A NEP

O que era a NEP? Qual a sua natureza? Seus objetivos? Um recuo temporário, um
expediente tático? Ou uma nova concepção, uma nova orientação estratégica? Um pacto de
curta duração? Ou uma proposta de aliança, um modelo? Uma forma de coexistência,
temporária, ou um modo de convivência, permanente? Olhos nos olhos, planícies e alturas se
miravam, se mediam, se avaliavam, estas questões não poderiam ficar em suspenso por um
longo tempo.
Houve um primeiro alarme com a chamada “crise das tesouras”, em 1923. Os produtos
agrícolas, devido à relativa abundância, promovida pela rápida recuperação da produção de
cereais, registraram preços em queda, enquanto subiam os dos produtos industriais, ainda
relativamente escassos e monopolizados. Como as hastes de uma tesoura, afastando-se, as
diferenças dos preços ameaçaram os interesses dos camponeses. De uma diferença calculada
em 1, em 1913, saltara-se para 2,38 em 1923-24.
Em consequência, os camponeses, donos de seus meios de produção, e tendo assegurado o
consumo básico, começaram a se retrair, retirando-se para o autoconsumo e para a estocagem, à
espera de melhores condições. Com efeito, ao pequeno produtor somente interessava vender os
microexcedentes se, em troca, pudesse adquirir os produtos manufaturados básicos de que
necessitava: fósforos, sal, querosene, tecidos, instrumentos de trabalho, entre outros. O dinheiro
seria de pouca valia — papel pintado — se não tivesse o poder de se converter em produtos. O
governo compreendeu as questões em jogo e interveio, restabelecendo termos de troca mais
equilibrados. A crise foi conjurada, ficou a advertência, piscando, em forma de presságio,
insistente. Mesmo porque, até 1927, apesar de todas medidas, a distância das hastes da tesoura
permaneceu doendo no bolso do camponês, quase o dobro do que em 1913: 1,82.
Por não ter tido a vontade, ou a capacidade, ou as condições de conjurá-la de forma
definitiva, os bolcheviques se veriam, anos mais tarde, confrontados novamente à mesma crise,
e ela então voltaria em forma de tempestade.
Entretanto, em 1925-26, fechadas, ao menos parcialmente, as hastes da tesoura, a NEP
parecia estar navegando em velocidade de cruzeiro. O que não significava inexistência de
problemas. Ao contrário: eles apareciam à luz do dia. Nas cidades, um desemprego
relativamente alto. Crianças na rua, mendigos. Especulação, delinquência, traficância,
corrupção.
E o mais dramático: o quadro geral de atraso envolvendo a sociedade. O consumo de
energia nos trabalhos agrícolas falava por si mesmo. Energia animal: 73,7%; humana: 24,3%;
mecânica: apenas 2%. As atividades econômicas no campo, responsáveis por quase 50% da
renda nacional, consumiam menos de 1% da eletricidade produzida. Dados acachapantes,
exprimindo atrasos acumulados, multisseculares.
Alguns se atormentavam em conjecturas pessimistas: era para isto que se fizera a
revolução? Instalava-se um clima moroso, retratado em tons cinzentos pelo melancólico Walter
Benjamin, em sua viagem a Moscou, em 1927.
Alcançada a recuperação, como prosseguir para além deste ponto? De onde viriam os
recursos para o desenvolvimento econômico e para a construção do socialismo? No campo, as
poucas iniciativas de empreendimentos coletivos, ou coletivizantes, reclamavam de isolamento,
falta de apoio. Em 1927, eram ainda uma gota d’água no oceano, ocupando apenas 1,7% de
área semeada, contra 98,3% lavrada pelos camponeses individuais. No âmbito das comunas
rurais, havia denúncias no ar: os camponeses mais ricos, os kulaks, estariam tomando as terras
dos mais pobres, enriquecendo à custa do trabalho alheio, quebrando o pacto igualitário
pressuposto e proposto pela nacionalização da terra.
A revolução internacional não acontecera.
A concepção de que um estado-maior ultracentralizado conseguiria, por sua iniciativa
disciplinada, suscitar enfrentamentos decisivos, superando a traição social-democrata, esbarrou
na dinâmica reformista da classe operária da Europa Central e Ocidental, de onde os
bolcheviques continuavam esperando uma revolução internacional redentora. Assim, as 21
condições, aprovadas em 1920, prescrevendo rigorosas normas de recrutamento, de
funcionamento e de exclusão para cada um e para todos os partidos comunistas, desencadearam
apenas processos autofágicos de destruição.
A trajetória do Partido Comunista alemão foi emblemática. Do começo de 1920 a 1923,
uma sucessão de expurgos alcançou esquerdistas e direitistas. No início de 1920, o grupo Levi
afirmou-se, e expurgou os esquerdistas. Pouco mais tarde, caiu, por não concordar com as 21
condições. Ascendeu então o grupo Brandler-Thalheimer, derrubado em 1923, acusado de
direitismo por um novo grupo que será, por sua vez, depurado, por esquerdismo. Uma dinâmica
infernal, provocando uma sangria desatada de militantes e dirigentes, enfraquecendo
decisivamente a capacidade de ação do partido.
A revolução internacional não aconteceria, pelo menos num futuro previsível. Certo, os
povos asiáticos estavam em ebulição, mas as concepções europocêntricas dos bolcheviques não
permitiam ver nisso algo mais do que uma força auxiliar. Não havia o que esperar, obviamente,
do capitalismo internacional, além de uma coexistência pacífica, necessariamente temporária,
imposta pelas circunstâncias. A velha questão colocada por Tchernychevski, retomada por
Lenin, voltava a rodopiar: o que fazer (Chto delat)?
Tempos de perplexidade e dúvidas.
Diante dos bolcheviques, isolados no poder, múltiplas questões não resolvidas pelos
teóricos do socialismo e para as quais era impossível buscar auxílio na experiência do
capitalismo.
Tempos de controvérsias porque, apesar do caráter ditatorial do regime, o ineditismo dos
problemas e a ausência de uma ortodoxia abriam brechas e conferiam uma certa margem para a
formulação e a discussão de alternativas. Por outro lado, é preciso também observar que ainda
não haviam se tornado ostensivas, e formalmente definidas, as ambições dos bolcheviques em
controlar todos os aspectos da vida social: das artes e da literatura até a vida privada dos
cidadãos.
Para piorar as coisas, uma dificuldade suplementar: os bolcheviques já não contavam com
seu grande líder, Lenin. Depois de três derrames, saíra praticamente de cena a partir de maio de
1923, morrendo em janeiro do ano seguinte. Não sem antes deixar, em notas ditadas,
considerações críticas em relação a todos os principais líderes do partido. Stalin foi
particularmente visado, em função de acerbas divergências com Lenin sobre o encaminhamento
da questão nacional, mas, na verdade, nenhum dos mais importantes dirigentes (Trotski,
Bukharin, Zinoviev e Kamenev) saiu ileso da metralhadora, sempre ferina, do pensamento de
Lenin. O chamado “testamento” de Lenin não chegou a ser publicado, obviamente, mas
circulou entre os quadros dirigentes, reforçando a sensação de mal-estar.

AS PROPOSTAS

É uma empresa arriscada, a de tentar apanhar numa breve síntese o amplo e diversificado
painel de propostas em jogo, inclusive porque estavam cada vez mais sobredeterminadas pela
questão central do poder, que influencia a composição de alianças, condiciona as propostas,
privilegia ângulos de análise, seleciona e altera os fatos e modifica (falsifica) até mesmo dados
estatísticos.
Contudo, neste inextricável emaranhado de veredas, onde nem sempre quem se encontra no
centro do palco tem o domínio e o controle consciente dos acontecimentos, seria possível
destacar duas grandes alternativas, que nortearam o conjunto dos debates, conferindo-lhes
sentido. Foram defendidas, de forma mais completa, por N. Bukharin e E. Preobrazhensky.
Para Bukharin, a NEP deveria ser pensada nos termos de uma aliança (smychka) a longo
prazo entre operários e camponeses. Disso dependeria não só a solidez do poder bolchevique
mas também a paz e a prosperidade. A coletivização da produção agrícola não deixava de ser
um objetivo, a prazo, mas a ele os camponeses acederiam gradualmente, sempre pela
persuasão, em etapas: da produção individual à ajuda mútua, depois, à cooperação, de consumo
e de produção, com diferenciadas formas, cada vez mais complexas, de organização coletiva: o
toz, o artel e, finalmente, a kommuna. No toz, os camponeses conservavam os bens,
principalmente a terra, e os instrumentos de trabalho. Mas lavravam em comum, dividindo os
resultados de acordo com o aporte de bens e de trabalho de cada um. No artel, subdividido, por
sua vez, em gradações, já passavam a existir níveis de coletivização de bens e de instrumentos
de trabalho, que alcançavam o estágio mais elevado na kommuna.
Todas estas modalidades, cooperativas, e mais as fazendas estatais, empresas diretamente
controladas pelo Estado, consideradas as mais elevadas formas de coletivização, em que os
camponeses se converteriam em operários agrícolas, deveriam ser incentivadas, mas seria
irrealista não fazer recair a ênfase, em toda uma primeira fase, nas estruturas menos complexas
de cooperação: as cooperativas de consumo, em que já havia uma notável experiência social, e,
no âmbito da produção, o toz. No sentido mais amplo, pedagógico, a cooperação deveria ser
vista como uma “escola” no sentido da coletivização.
Bukharin reconhecia ser provável, ainda por algum tempo, a hipótese de um
desenvolvimento econômico em ritmo relativamente lento. O socialismo avançaria a “passos de
tartaruga”, assim exigiam as circunstâncias da aliança operário-camponesa. Rejeitando políticas
comprometidas com taxas mais altas e imediatas de crescimento econômico, Bukharin opunha
à ideia dita de “desenvolvimento máximo”, essencialmente voluntarista, o conceito de
“desenvolvimento ótimo”, baseado no respeito aos interesses dos camponeses. Sendo a União
Soviética (constituída juridicamente desde 1922) um país maciçamente rural — e os dados
estatísticos confortavam aparentemente seu ponto de vista —, a possibilidade do
desenvolvimento teria de passar pela prosperidade e pelo enriquecimento do camponês.
Por outro lado, no plano internacional, tendo em vista o refluxo da revolução proletária nos
centros capitalistas avançados, abriam-se amplas possibilidades de aproximação e aliança entre
os bolcheviques e os países colonizados ou submetidos a outras formas de dominação do capital
internacional. Ou seja, enquanto não se reatualizasse a revolução esperada, o cerco à União
Soviética seria contornado pela aliança entre a pátria da revolução socialista e os povos
camponeses. Formulações realistas, mas inusitadas. No plano doutrinário, uma antecipação do
maoismo, na fronteira da heresia (S. Cohen, 1974).
Preobrazhensky não rejeitava, em tese, o princípio da aliança com os camponeses. Contudo,
criticou o caráter utópico e um tanto vago das propostas de Bukharin. Considerando o bloqueio
implacável do capitalismo internacional, insistiu no fato de que a União Soviética contava
apenas com suas próprias forças. Para garantir um desenvolvimento econômico autônomo,
essencial inclusive em termos da garantia da integridade territorial, era preciso investir na
construção e no aperfeiçoamento da indústria pesada. De onde viriam os recursos? Não
poderiam ser extraídos da classe operária, base principal do poder bolchevique e já suportando
condições de vida e de trabalho relativamente precárias, apesar das melhorias promovidas. Eles
teriam de vir da economia privada e do campo na forma de um tributo e de uma política de
trocas que avantajasse os interesses da indústria. Era lamentável, mas as hastes da tesoura
haveriam de permanecer relativamente abertas.
O tributo, sem dúvida, constituía uma forma de exploração, mas era inevitável, e mesmo
indispensável. Assim como, segundo Marx, as economias capitalistas prósperas haviam
decolado a partir de um processo de “acumulação primitiva”, baseada na expropriação dos
camponeses e do mundo colonial, o socialismo também teria de passar por uma fase elementar
de acumulação: a acumulação socialista primitiva.
A proposta de Preobrazhensky negava a inexorabilidade da repetição da trajetória do
capitalismo europeu, que veio ao mundo “jorrando sangue da cabeça aos pés”. Ao contrário, e
considerando os mecanismos de poder e de controle macroeconômico de que dispunha, o
governo revolucionário poderia dosar taxas de acumulação e ritmos de crescimento de forma
planejada, de modo a equilibrar interesses e manter a paz social interna, mesmo com
transferência de recursos e riquezas do campo para a cidade.
Havia ainda uma questão de tempo histórico a considerar. Duas ordens de problemas
deveriam ser contempladas. De um lado, era preciso contar com uma conjuntura de
contradições entre as potências capitalistas. Até quando esta relativa bonança iria perdurar? Não
era necessário aproveitá-la para conferir à URSS condições de sustentar um ataque de uma
aliança eventual do capital internacional? Ora, isto seria impensável, com chances de êxito, se a
URSS se mantivesse como um país de base agrária. Por outro lado, alcançada a recuperação
promovida pela NEP, o governo revolucionário gozava de uma certa popularidade que poderia
se esvair no momento seguinte. Não seria, aqui também, o caso de aproveitar o momento
favorável e desencadear o processo da acumulação socialista primitiva?
De qualquer forma, não havia alternativa: “Quanto mais um país que passe à organização
socialista da produção for economicamente atrasado e de caráter camponês (…) mais deverá
contar, para a acumulação socialista, com a exploração das formas pré-socialistas de
economia.” Adiar a decisão, argumentou Preobrazhensky profeticamente, significava apenas ter
de tomá-la em condições internas e/ou externas mais adversas.
Lenin, já desaparecido, ressuscitou nos debates, ao lado de ambos os contendores. Nenhum
deles, no caso, estava mentindo ou falsificando a história. Na verdade, desde 1921, quando os
primeiros decretos da futura NEP foram emitidos, Lenin interveio de modo ambíguo no debate.
Defendeu-a como essencial para garantir a estabilidade do poder revolucionário, mas a
retrataria, não raras vezes, como uma “retirada” imposta pelas circunstâncias. E nunca deixou
de lembrar que “a liberdade do comércio, mesmo que no início não esteja ligada aos guardas
brancos, leva, infalivelmente, e apesar de tudo, ao guardabranquismo, à vitória do capital e sua
completa restauração”. Era preciso cuidado, por outro lado, para que as concessões da NEP não
desembocassem no termidor1 da revolução russa. Palavras sombrias, que se gravaram no
universo de referências dos bolcheviques, caracterizando a NEP como um mal necessário,
inevitável como um remédio amargo. Dela, tão logo fosse possível, os revolucionários
deveriam se livrar…
Ou seja, em toda uma primeira fase a NEP apareceu nos escritos e declarações de Lenin
como algo provisório, um “recuo tático”, imposto por circunstâncias desfavoráveis. Também
era fora de dúvida que a adoção da nova política não diluíra o ódio visceral aos capitalistas e ao
capitalismo. E não revogara a convicção, legada pela ortodoxia social-democrata, de que o
pequeno camponês era um reacionário histórico, um tipo social condenado, engendrando,
contínua e inexoravelmente, o capitalismo.
Entretanto, em outros textos, sobretudo num dos últimos, sobre a cooperação, há uma
defesa clara de uma proposta a longo prazo de aliança com os camponeses. Respeito por seus
interesses. Sugestão de avanços lentos e graduais, pela persuasão e pelo exemplo, no processo
de coletivização do campo (S. Cohen, 1974, e R. Linhart, 1976).
Assim, na guerra de citações, havia textos e trechos de autoridade que podiam ser
esgrimidos por ambos os lados.
Os bolcheviques oscilavam.
Bukharin impressionava, quando citava as últimas indicações de Lenin. A necessidade da
aliança (smychka) estava claramente definida. Eram as derradeiras propostas do grande líder,
como ignorá-las? E também o conselho de prosseguir rumo a formas coletivas de produção com
prudência, passo a passo, por meio das cooperativas. Além disso, e apesar dos pesares, a NEP
fora responsável pela recuperação da União Soviética. Abandoná-la não seria precipitar-se no
imponderável? Certo, a metáfora da tartaruga não fora a mais feliz, mas não era o caso de
avançar mais devagar e com mais segurança? A garantia do poder revolucionário não se
baseava na paz interna? Como defender o país de um eventual ataque externo se não houvesse
uma firme aliança com o camponês? Romper a aliança significaria desencadear uma repressão
ilimitada, seria impossível, então, estabelecer fronteiras para ela. A que abismos a revolução
não se lançaria se resolvesse abandonar a NEP e o apoio do mujique?
O paradoxo é que o pensamento inovador na polêmica, seguramente o de Bukharin, parecia
arregimentar, entre os militantes e na sociedade, o que havia de mais conservador. Tolerava e
estimulava os ganhos privados dos camponeses, e o vespeiro de especuladores que se grudava,
como parasita, nestes empreendimentos, o que não chegava a ser exaltante, do ponto de vista
socialista. Num plano mais geral, apoiava-se na ideia de uma trégua: explorar melhor o já
conquistado, consolidar os ganhos, retomar o fôlego, considerar o cansaço e o desejo de paz de
todos e de cada um.
Já os argumentos de Preobrazhensky seduziam na medida em que suscitavam as tradições
social-democratas, presentes em cada bolchevique. De fato, não havia uma íntima associação
entre socialismo, classe operária e industrialização? As altas chaminés com seus grossos rolos
de fumaça eram símbolos do progresso e do futuro. Bastava conferir a propaganda soviética
para constatar a difícil compatibilidade entre este imaginário e o do arado de madeira, manejado
pelo mujique tradicional na paisagem infinita e melancólica das vastas estepes. Por outro lado,
todos aceitavam a ideia de que a revolução não estaria segura sem uma sólida base econômica.
Guerra moderna, conceito ampliado de logística e sofisticada infraestrutura industrial eram
termos indissociáveis. Como enfrentar a inevitável agressão internacional? Com as foices e os
martelos?
Os camponeses, apesar de todas as recentes e altissonantes declarações sobre a necessidade
da smycbka, eram a encarnação do passado, da reação no sentido próprio da palavra, não-
confiáveis, inimigos à espreita. Se dependesse deles, e enquanto isso durasse, o poder
bolchevique seria frágil. Certo, ninguém negava a relativa recuperação da União Soviética, mas
a situação ainda era bastante lastimável, sobretudo nas cidades: desemprego, desigualdades,
mendicância, arrivismo, delinquência. Tantos sacrifícios consentidos para chegar a isto? Não
seria o caso de avançar para novos horizontes? Aqui vibrava a corda heroica, épica, voluntarista
dos bolcheviques, apenas adormecida…

A INDÚSTRIA GANHA FORÇA

Até 1927, o partido aprovou as propostas defendidas por Bukharin, pelo menos
formalmente, Mas era uma aceitação dividida, ambígua, porque, ao mesmo tempo, cultivava
uma alternativa voluntarista, industrializante, que, aliás, aparecia nas próprias formulações de
Bukharin e, especialmente, nas de Stalin.
Assim, desde 1921 criou-se um centro de planejamento, o Gosplan. Embora, no início,
limitado a elaborar estatísticas, tornou-se clara, progressivamente, sua vocação para dirigir o
conjunto da economia nacional. Ao mesmo tempo, desde 1926, os recursos destinados a
investimentos ligados à indústria pesada começaram a ser denunciados como contrários aos
princípios em que se baseava a NEP. Haviam passado de 900 milhões de rublos para 991
milhões e, pouco mais tarde, para 1,06 bilhão. Nos anos seguintes, novos saltos, para 1,3 bilhão
e 1,67 bilhão, o que não correspondia, em absoluto, ao aumento proporcional da arrecadação,
apenas mais 6,3%.
A alocação desproporcional de recursos para a indústria pesada, comparada ao crescimento
da produção nacional e da arrecadação de impostos, levava ao declínio da importância da
indústria leve e, em consequência, ao desabastecimento relativo do campo. A contrapartida
previsível, a curto ou a médio prazo, seria a redução da oferta de cereais (leia-se alimentos)
para as cidades. Ora, o desenvolvimento da indústria pesada supunha uma oferta ascendente de
alimentos. Como na história do cobertor curto, estava sendo difícil cobrir ao mesmo tempo a
cabeça e os pés.
Ambiguidades podiam ser detectadas nos debates e nas resoluções das conferências e dos
congressos do partido realizados entre 1925 e 1927, associados, de forma geral, ao triunfo das
concepções bukharinistas, favoráveis à permanência da NEP. Ainda em 1925, foi esgrimido o
argumento de que o Plano Industrial “deve ser construído por cima, e não por baixo”. Neste
mesmo ano, em janeiro, uma intervenção de J. Stalin rejeitava uma “NEP política”, insistindo
no sentido de que o partido não “virasse as costas para as cidades”. Em 1926, novamente Stalin
afirmou a ideia de que “o centro de gravidade é a indústria” e que “devemos fazer de nosso país
agrícola um país industrial, e quanto mais cedo isto se realizar, melhor”. Como ficaria a NEP se
estas afirmações gerassem consequências práticas?
Por ocasião da XV Conferência do Partido, em outubro-novembro de 1926, uma resolução
falou da necessidade de “fortalecer a hegemonia da indústria socialista sobre o conjunto da
economia” e da necessidade de “alcançar e superar os países capitalistas mais avançados num
período histórico relativamente mínimo”. Como fazê-lo à velocidade da “tartaruga”?
Por outro lado, multiplicaram-se alusões e declarações hostis aos kulaks, aos especuladores
e aos parasitas. Em dezembro de 1927, no XV Congresso do Partido, que formalmente
consagrou o triunfo de Bukharin, Stalin permitiu-se afirmar que inexistiam alternativas ao
processo de “unir as pequenas propriedades dos camponeses (…) em grandes unidades,
baseadas no cultivo comum, cooperativo, coletivo, da terra” (E. H. Carr e R. W. Davies, 1969, e
A. Nove, 1990).
Ou seja, ao lado das solenes declarações, tornadas ritualistas, de respeito às linhas gerais da
NEP, aos interesses dos camponeses e aos métodos baseados no “diálogo” e no “exemplo”,
apareciam contradições, dissonâncias, ameaças apenas veladas, uma outra direção.

A QUESTÃO DO PODER

Confusão de propósitos? A verdade é que não se estava diante de uma mera polêmica entre
especialistas de teoria de desenvolvimento, no âmbito de uma academia de ciências (onde,
aliás, também nunca faltaram os mal-entendidos). Na realidade, outros debates e lutas se
desenrolavam ao mesmo tempo, interferindo com interpelações específicas.
Em primeiro e principal lugar, como já se adiantou brevemente acima, a luta implacável e
cada vez menos camuflada entre os sucessores de Lenin pelo controle do poder, no partido e no
Estado, aberta, a rigor, desde 1922, quando do primeiro derrame do principal líder.
Nenhum texto ou votação, nenhuma declaração ou resolução partidária, deixavam de se
relacionar com disputas que tinham o poder como alvo. Neste sentido, não eram refinadas
análises que determinavam manobras e alianças, estas é que determinavam aquelas. Assim, o
vale-tudo do jogo bruto pelo poder que pode desgostar, às vezes, os finos historiadores das
ideias era parte integrante do processo de formulação do projeto socialista, embora, em si
mesmo, frequentemente mais confundisse do que esclarecesse as propostas em discussão.
Ataques, contra-ataques, afastamentos súbitos, estranhas aproximações, reviravoltas numa
espiral. As lutas, com suas sutilezas, nem sempre conseguiam ser compreendidas pelos
militantes medianos, quanto mais pela sociedade, sobretudo porque, depois do X Congresso do
Partido, em 1921, um conjunto de normas tolheu os debates abertos, tentando construir o mito
de um partido monolítico, infenso a fraturas internas. Os que saíssem da linha eram objeto de
pesadas sanções, incluindo-se a expulsão dos quadros partidários, a que não estavam imunes
nem mesmo os membros do Comitê Central. Apesar das restrições, ou por causa delas, quando
os debates alcançavam o público, já vinham com tal radicalidade que apenas os já iniciados não
se surpreendiam.
Foi com surpresa que se tomou conhecimento do livro de Trotski, Lições de Outubro,
publicado em 1923, com violentos ataques a Kamenev e Zinoviev. A troika, formada pelos dois
e por Stalin, pôde parecer natural a muitos. Mas a reviravolta que juntou os dois primeiros a
Trotski, no quadro da chamada Oposição Unificada, em 1926, deixou quase todos atônitos.
Porém, o mais surpreendente, sem dúvida, foi a aparentemente fantástica reviravolta de
Stalin, em 1928-29, quando abandonou a aliança com Bukharin e aderiu, na prática, às teses de
Preobrazhensky, radicalizando-as quase à caricatura. A maioria dos correligionários de Trotski,
inclusive o próprio Preobrazhensky, encontravam-se nesta altura presos e/ou exilados, acusados
de indisciplina e rebeldia em relação às orientações partidárias. Contudo, e apesar dos
conselhos e protestos do ex-chefe do Exército Vermelho, preferiram trocar as cadeias ou o
exílio por postos de responsabilidade, chamados por Stalin, já no contexto da revolução pelo
alto de fins dos anos 20. De alguma forma se reconheceram no projeto do I Plano Quinquenal.
Embora envolvendo altas doses de cinismo e de realismo político (realpolitik), a manobra
de Stalin só pôde ser concretizada após a neutralização de Trotski e de seus aliados, consagrada
apenas em dezembro de 1927, quando se realizou o XV Congresso do Partido bolchevique.
Entretanto, a leitura atenta dos pronunciamentos de Stalin, desde 1923-24, conforme já
enunciado rapidamente acima, mostra como ele se distinguia, a cada passo, das teses mais
ousadas de Bukharin, procurando sempre posições intermediárias. Em relação às duas questões
mais importantes em debate, a da terra (coletivização versus pequenas propriedades) e a da
industrialização (prioridades e ritmos), Stalin, em várias ocasiões, procurou encontrar um meio
termo entre o extremismo de Bukharin e o de Preobrazhensky, assim como entre o esquerdismo
de Trotski e o direitismo de Bukharin.

DITADURA E DEMOCRACIA

De um certo ângulo, a questão da democracia também ocupou aí um lugar, mas


subordinado, na medida em que os bolcheviques compreendiam e aceitavam, bastante bem, o
caráter ditatorial do regime, dominado por um partido único, no qual estavam proibidas as
frações. Aqui, mais uma vez, o marco é o X Congresso e o famoso informe de Lenin sobre “A
unidade e o desvio sindicalista e anarquista em nosso partido”. Tais características seriam
inclusive exportadas, numa tentativa de modelar as estruturas orgânicas de todos os partidos
filiados ao movimento comunista internacional, segundo as draconianas 21 condições já
referidas, impostas aos partidos que pretendessem filiar-se à Internacional Comunista (F.
Claudin, 1971).
A perspectiva ditatorial, portanto, era um denominador comum às propostas em jogo sobre
estratégias de desenvolvimento econômico. Nem Bukharin nem Preobrazhensky, em momento
algum, questionaram a supremacia do partido único, ou as principais regras internas. A
convicção do partido como vanguarda histórica da revolução e da construção do socialismo,
arraigada na tradição social-democrata anterior à Primeira Grande Guerra, constituía patrimônio
comum, acima de quaisquer dúvidas. Trotski resumiria este ponto, de forma lapidar, ao afirmar:
“Pouco importa que meu partido tenha ou não razão. O que sei é que ninguém pode ter razão
contra o partido, porque a história não oferece outra via para a realização da verdade.” Uma
armadilha lógica da qual muitos sequer se deram conta, mesmo diante do pelotão de
fuzilamento.
O fechamento do partido em relação à sociedade, o fechamento do Comitê Central perante a
sociedade partidária, e o do bureau político em relação ao Comitê Central, eram apenas etapas
últimas de um processo mais geral, social, que já havia passado pela desvitalização dos comitês
de fábrica, pelo controle centralizado da imprensa e das manifestações culturais em geral, pela
estatização dos sindicatos e dos sovietes, pela interdição da greve e dos movimentos sociais
autônomos, considerados intoleráveis porque contrários aos interesses do proletariado e da
revolução.
Quando o primeiro expurgo em larga escala se realizou — a tsitcha (limpeza) de 1921 —,
reduzindo, em nome da revolução, os efetivos partidários de 732 mil para 515 mil militantes, as
organizações autônomas criadas pela e na sociedade, num período anterior, estavam já
controladas, sem capacidade crítica, inofensivas. Na sombra, emergiu o poder dos secretários e
dos funcionários (apparatchiks), quadros permanentes, cujos nomes começavam apenas a
aparecer: E. Iaroslavski, secretário na Sibéria; L. Kaganovitch, no Turquestão; S. Kirov, no
Azerbaijão; S. Kossior, sucessor de E. Iaroslavski; A. Mikoyan e S. Ordjonikidze no Cáucaso e
na Transcaucásia; V. Kuibichev, na Comissão de Controle; A. Solts, sucessor de V. Kuibichev;
V. Molotov, secretário do partido desde 1921 e, finalmente, o super-secretário, o secretário-
geral, desde 1922, destes homens disciplinados, eficientes, que compensavam a falta de oratória
e de brilho com uma grande capacidade de concentração e de trabalho: Josef Stalin.
Nesta paisagem que se queria uniforme, de que valeriam episódicas conclamações à
democracia e ao exercício dos valores democráticos? Periodicamente, quando se encontravam
em posições periclitantes, ou na iminência de serem vítimas de operações de limpeza, ou
prisão, algumas lideranças bolcheviques reivindicaram níveis mais altos de ventilação, ou
democratização, das estruturas partidárias e estatais. O caráter instrumental — às vezes patético
— de tais apelos, ou denúncias, era bastante evidente.
Faltou credibilidade a Trotski, defensor em outros momentos de medidas rigidamente
centralistas, partidário da preeminência do partido acima de quaisquer outras considerações ou
circunstâncias, para levantar a bandeira da democracia depois que teve início o processo que o
levaria ao banimento e ao exílio. O mesmo se pode dizer de Kamenev e Zinoviev, que apenas se
lembraram das virtudes do livre debate quando precisaram de ar para veicular suas propostas,
mas então, por suas próprias ordens, o debate livre fora sufocado. Ou de Bukharin, quando
apontou o perigo iminente do poder total do abominável secretário-geral, comparado a um novo
Gengis Khan, depois de ter erradicado, em aliança com ele, as oposições partidárias.
Contudo, os combates de retaguarda destes dirigentes não deixaram de ter significado e
relevância histórica. Na verdade, tiveram grande valor, ao revelarem, ou ressaltarem,
fenômenos e processos não muito claros aos observadores contemporâneos. Primeiras brechas,
mostrando rachaduras, cuja evidência seria, com o tempo, impossível velar.
Por sombria ironia, a figura emergente de Stalin podia exibir títulos de defensor da
democracia: não fora ele quem se opusera ao expurgo de Kamenev e Zinoviev, exigido por
Trotski, em outubro de 1917? Que pedira moderação a Trotski, quando dos ataques em 1923?
Que impedira o expurgo do próprio Trotski, exigido por Zinoviev e Kamenev em 1924? Em
meio às lideranças brilhantes e de brilhante retórica, não se projetara ele cultivando a imagem
do dirigente calmo, capaz de ouvir, mediano e moderado, um modesto e exemplar bolchevique?
A confusão das referências.
De modo geral, porém, o padrão do pensamento bolchevique sobre a relação entre
democracia e socialismo passaria sempre pelo conceito dos interesses históricos do
proletariado, vinculados ao ser proletário, segundo uma determinada interpretação de Marx. A
revolução e seus desdobramentos eram questões de ciência. Cabia ao partido do socialismo
científico elucidá-las. Uma vez fixada a verdade da ortodoxia partidária, eventuais resistências,
mesmo majoritárias, não passavam, não poderiam passar, de propostas ilusórias,
contrarrevolucionárias (“Não se pode ter razão contra o partido”). Como ceder a elas em nome
da democracia se, justamente, o partido interpretava os interesses históricos da maioria?

A REVOLUÇÃO INTERNACIONAL

Em outra dimensão, a avaliação das possibilidades da revolução internacional também fez


parte das questões em jogo. Como se constatou, foi penoso o reconhecimento de que a
revolução internacional não viria, ao menos a curto prazo. Dolorosa surpresa. Imprevista.
Até 1923, houve disputas e lutas a propósito da sorte da revolução alemã. Havia denúncias
no ar: alguns dirigentes estariam colocando os interesses da revolução russa na frente dos
interesses da revolução internacional. Mas já não fora assim por ocasião da paz de Brest-
Litowski? E o que dizer dos acordos secretos, assinados ainda em 1918? Ou das misteriosas
negociações diplomáticas com Estados ditatoriais, mas considerados do “campo anti-
imperialista”, como, por exemplo, a Turquia de Mustafá Kemal?
Enquanto Lenin dirigiu o Conselho dos Comissários do Povo, as divergências, querendo
explodir, mantiveram dentro de certos limites.
Depois do seu desaparecimento, porém, vieram à tona, envenenando os debates. De um
lado, a ênfase ortodoxa na necessidade da revolução internacional. Sem ela a revolução russa
estava perdida. Tudo o que os revolucionários pudessem fazer estava hipotecado pelo atraso e
pelo isolamento. De outro, a ideia de que os bolcheviques deveriam concentrar energias na
construção do socialismo nos limites da União Soviética, enquanto uma nova onda
revolucionária internacional não ocorresse.
A polarização, como sempre acontece nestes casos, soterrou as nuances e caricaturou ambos
os lados: revolução internacional a qualquer custo, ou construção do socialismo num só país,
atribuídas a Trotski e a Stalin, respectivamente. A rigor, pelo menos formalmente, nenhuma
formulação pretendeu abandonar a revolução internacional nem a construção do socialismo na
União Soviética. Restava a questão da ênfase, de modo algum desprezível. Entre os
bolcheviques tendeu a prevalecer, desde cedo (Brest-Litowski, março/1918), a ideia de que o
seu dever revolucionário era o de cuidar da revolução na Rússia. Esta era a maior contribuição
que podiam oferecer à revolução internacional. A nacionalização da proposta internacional de
revolução. Mas não era esta, mais uma vez, a tradição forjada no âmbito da social-democracia
internacional? A revolução socialista conduzida por cada partido nacional? A inviabilidade da
exportação de revoluções e seus modelos? A revolução internacional era concebida nestes
marcos como um processo objetivo. Aconteceria. Como um cataclismo natural. Se não
acontecesse, e enquanto não acontecesse, os revolucionários em cada país poderiam, no
máximo, incentivá-la, mas não criá-la, ou fazê-la. E verdade que uma inversão foi ocorrendo,
quase imperceptivelmente. Por ela, aos revolucionários de todo o mundo, enquanto não
sobreviesse a revolução internacional, caberia defender os interesses da União Soviética. Salvar
a pátria da revolução e lutar pela revolução internacional, tarefas indissociáveis. Mais uma
armadilha da lógica.

A NEP: ENCRUZILHADAS

Anos 20, anos de debates apaixonados. As propostas entrecruzavam-se, resultando em


medianas, incorporando diferentes dosagens de posições diversas. Ambiguidades.
A NEP e seu hibridismo. As alturas estatizadas, planejadas e centralizadas. As planícies
livres, mas vigiadas. Uma economia semiaberta, abrindo-se. Um poder político quase fechado,
fechando-se. Nesta mistura de elementos, até quando seria possível manter o equilíbrio?
Os bolcheviques continuavam a hesitar.
Formalmente, a NEP resistiu aos ataques e às propostas alternativas. Bukharin, apesar de
alguns senões, pareceu conservar o papel de formulador da política partidária. Em determinados
momentos, na elaboração de certas fórmulas para efeito propagandístico, como, por exemplo,
quando exortou os camponeses a “enriquecerem-se”, Bukharin foi veladamente censurado e
obrigado a recuar. Neste momento, como em outros, Stalin aproveitaria para se demarcar
claramente do aliado. Contudo, de maneira geral, a proposta básica da NEP de manter a aliança
entre operários e camponeses nos limites definidos em 1921-22 foi aprovada por ampla maioria
no XV Congresso do Partido, em dezembro de 1927.
No entanto, como já se observou, as pressões avolumaram-se pela aprovação de um
primeiro Plano Quinquenal, no qual as prioridades e sobretudo os ritmos de crescimento e
investimento eram completamente incompatíveis com as exigências da NEP. O
acompanhamento dos debates sobre as sucessivas versões do I Plano Quinquenal evidencia a
progressiva predominância de posições cada vez mais voluntaristas, o que teria óbvias
implicações do ponto de vista da manutenção dos delicados equilíbrios da NEP (E. H. Carr e
R.W. Davies, 1969).
Não se tratava de um fenômeno isolado. Com efeito, sombreava-se o quadro das frustrações
e críticas quanto a aspectos importantes da situação econômica e social do país. O atraso, as
desigualdades, as carências, e os tradicionais bodes expiatórios: especuladores, nepmen2 e
kulaks. Se Bukharin ocupava constantemente o proscênio, pertenciam a Stalin os comandos da
máquina partidária e, por extensão, dos aparelhos do Estado. A concentração de poderes
confirmou-se com o alijamento dos principais rivais, incoerente e fugazmente agrupados na
Oposição Unificada: marginalização política de Kamenev e Zinoviev, banimento e exílio de
Trotski (em Alma-Ata, desde 1927, expulso para a ilha de Prinkipo, na Turquia, em 1929).
A NEP e os precários e instáveis equilíbrios.
Em janeiro de 1928, como em 1923, os alarmes das relações campo-cidade voltaram a soar.
Como sempre, não se tratava de um raio em céu azul. Os indícios preocupantes se
multiplicaram: declínio da superfície semeada, da produção de cereais e da produção mercantil.
As instituições estatais de comércio atacadista, que tinham como função adquirir grãos para
garantir os objetivos de exportação e o abastecimento das cidades e das Forças Armadas, não
estavam conseguindo atingir as metas estabelecidas. O hiato entre o programado e o que estava
sendo conseguido aumentava sem cessar e alcançava níveis catastróficos.
Já no ano agrícola de 1926-27 apareceram indícios inquietantes. Em comparação com o
melhor ano anterior à Primeira Guerra, 1913, a produção comercializada caíra em cerca de
50%. Os camponeses médios e pobres, responsáveis por cerca de 85% da produção, só estavam
jogando no mercado 11,2% do que produziam.
No ano seguinte, as coisas, que já estavam ruins, pioraram. Em julho e agosto, os dois
primeiros meses em que os órgãos estatais realizaram as operações de compra dos cereais,
ainda foi possível equilibrar a situação. Mas, desde então, as metas não foram mais alcançadas.
Em setembro de 1927, uma diferença ainda irrisória, menos 3% em relação ao mesmo mês do
ano anterior; em outubro, um baque, menos 30%; no mês seguinte, um rombo, menos 56%. O
mesmo se repetiu em dezembro. Comprava-se muito menos do que no ano anterior, enquanto
os planos exigiam mais.
Ainda uma vez as causas eram evidentes: carência de produtos industrializados, agravada
por preços desestimulantes para os produtos agrícolas. Depois de pago o imposto, o mujique
preferia estocar, ou simplesmente não semeava, recolhendo-se ao casulo do autoconsumo. O
espectro da resistência passiva, a “greve camponesa”.
Em janeiro de 1928, as compras de grãos chegaram a apenas 300 milhões de poods, contra
428 milhões no ano anterior. Muitas áreas, como na região dos Urais, não chegaram a alcançar
dois terços das metas fixadas. A situação crítica estendeu-se também à não menos sensível
produção de matérias-primas industriais. O acompanhamento, mês a mês, segundo as fontes
soviéticas, mostra a deterioração rápida e constante dos problemas (S. Grosskopf, 1976).
Era preciso providenciar medidas de emergência. Recolocou-se em marcha a velha e
familiar engrenagem: a política de requisições apoiada nos destacamentos policiais. O país
começara a entrar, quase imperceptivelmente, em novas áreas de turbulência. Sem que a grande
maioria tivesse disto a menor consciência, iniciavam-se os primeiros trabalhos de parto do
modelo soviético de construção do socialismo. Mesmo na alta liderança é possível questionar, e
é matéria de polêmica, se o próprio Stalin tinha clareza a respeito dos desdobramentos que
haveriam de vir. Talvez vagas antevisões, pressentimentos, mas dificilmente uma previsão
acabada.
No fim do primeiro semestre de 1928, afinal, os resultados desejados foram alcançados,
silos e armazéns cheios, metas atingidas. Mas à custa de um severo golpe nas relações de
precária confiança estabelecidas entre os camponeses e o poder.
Houve protestos no âmbito do partido. Bukharin e seus aliados no partido e no governo
denunciaram que os princípios aprovados no congresso de dezembro anterior estavam sendo
pisoteados na prática, sem consulta democrática ao partido. Propuseram alternativas. A maioria
pareceu hesitante, querendo recuar. A NEP foi formalmente reafirmada, condenando-se os
excessos cometidos no cumprimento de uma política emergencial.
Entretanto, em 1928-29, o quadro de dificuldades voltou a se configurar. Novas medidas
emergenciais foram tomadas, agora no sentido de controlar uma alegada conspiração dos kulaks
contra o poder soviético. Politizavam-se e radicalizavam-se as contradições entre os interesses
econômicos. O que estava em jogo, passou a argumentar o governo, era a sobrevivência do
regime e a construção do socialismo soviético. Era preciso estar num desvio de direita para não
enxergar o caráter crítico da situação.
Em abril de 1929, numa reunião do Comitê Central, aprovou-se o I Plano Quinquenal4, na
versão ótima. Preobrazhensky, nos melhores arroubos, nunca ousara tão alto. Em cinco anos, a
partir de outubro de 1928, os investimentos cresceriam 237%, a renda nacional 506%, a
produção industrial 136%, a produção de energia elétrica 335%, a de carvão 111%, a de
petróleo 88%, a de aço 160%, a de roupas de lã 178%, a de bens de consumo 104%, a produção
agrícola 55% (A. Nove, 1990). Um delírio.
Houve novos protestos, agora quase patéticos, abafados pelo entusiasmo ilimitado que
tomava conta das lideranças bolcheviques: chegara o momento de um novo assalto aos céus. O
retorno da aventura épica: “Não havia fortaleza que não pudesse ser conquistada pela vontade
de verdadeiros bolcheviques.” Stalin, com sua voz monótona, animava os militantes: “Temos
cinquenta ou cem anos de atraso em relação aos países desenvolvidos. Devemos recuperá-lo em
dez anos. Ou conseguiremos, ou afundaremos.” Não lhe ocorreu a hipótese de conseguir e
afundar.
As enormes dificuldades e resistências à realização do Plano, que certamente surgiriam no
campo, não seriam mais enfrentadas com medidas de emergência., mas com uma nova política,
baseada na liquidação dos kulaks como classe e na coletivização acelerada das terras e das
pessoas. Os marcos mais importantes no itinerário que leva à adoção desta política remontam
ao Pleno do Comitê Central e à XVI Conferência do Partido, em abril de 1929, que aprovaram
o I Plano Quinquenal e condenaram o desvio de direita, encarnado agora por Bukharin e pelos
que ainda a ele se mantinham fiéis, como A. Rykov e M. Tomski. Seguiram-se os decretos de
junho e julho que organizaram a requisição de cereais na Rússia e na Ucrânia e o artigo de
Stalin, “A grande virada”, publicado pelo Pravda por ocasião do 12° aniversário do triunfo
bolchevique. E, finalmente, os planos de coletivização de terras e animais, aprovados em
dezembro, acompanhados por mais um vibrante artigo de Stalin, em 27 de dezembro de 1929,
concitando à liquidação dos kulaks como classe.
Assim, ao contrário das primeiras previsões, que estimavam necessário e possível
coletivizar apenas 15% das terras nos cinco primeiros anos do I Plano, programou-se agora a
coletivização total, entre 1930 e 1933, das principais áreas agrícolas do país: o baixo Volga, as
terras negras da Ucrânia, o norte e a Sibéria ocidental. Terras, pessoas e até animais, não
escapando nem mesmo as aves de terreiro. Com efeito, as diretrizes coletivizantes previam
enquadrar 100% dos animais de tração e do gado bovino, 80% dos suínos e 60% dos caprinos e
dos galináceos.
O abandono da NEP. A grande virada. Uma nova revolução.5

________________
1 Segundo o calendário instaurado pela Revolução Francesa, os meses ganharam novos
nomes. Em 9 e 10 termidor, Robespierre foi derrubado do governo e guilhotinado, colocando-se
um fim à fase mais radical da Revolução. No imaginário social-democrata, a palavra passou a
ser associada à vitória da contrarrevolução.
2 Nepmen ou homens da NEP. O termo tinha carga pejorativa e designava os especuladores
e todos os que enriqueciam por meio de métodos nem sempre ilegais, mas considerados
ilegítimos.
3 O I Plano Quinquenal data, formalmente, de 1º de outubro de 1928. Até 1930, o ano
fiscal-econômico na URSS começava em 1º de outubro. Apenas a partir de então é que há uma
correspondência entre o ano fiscal e o calendário gregoriano.
4 É curioso constatar, no entanto, que os bolcheviques sempre se recusaram a reconhecer
que estavam mudando radicalmente de política, admitindo no máximo uma redefinição,
imposta pelas circunstâncias cambiantes.
A revolução pelo alto: construindo o socialismo num só país (1928-
1941)

A GRANDE VIRADA, anunciada em novembro de 1929 pelo artigo de Stalin, encerrou


uma fase. A NEP não entraria mais para a história, segundo desejavam Bukharin e seus aliados,
como uma nova concepção de construção do socialismo ou uma nova estratégia para a
revolução internacional, a longo prazo. Mas como uma pausa, um parêntese, um recuo
temporário.
Em seu lugar, instaurou-se, de forma hesitante no início, e com cada vez mais força e
decisão nos momentos seguintes, um processo inaudito de mobilização e de estatização da
sociedade, uma economia comandada ou mobilizada (J. Sapir, 1990), diretamente controlada e
impulsionada pelo poder político, uma revolução pelo alto. A ofensiva, e neste caso a
terminologia militar era perfeitamente adequada, teve duas direções principais: a coletivização
do campo e a industrialização acelerada, com ênfase em polos determinados, a saber, indústria
pesada, armamentos, produção de energia e extração mineral.

A COLETIVIZAÇÃO DO CAMPO E AS COLHEITAS DO DESESPERO

As sucessivas medidas emergenciais, tomadas desde o início de 1928, aparecem, em


perspectiva, como as primeiras escaramuças de uma guerra declarada apenas em fins de 1929,
quando o estado-maior bolchevique tomou decisões que mudaram a qualidade do
enfrentamento: da política de requisições, outra maneira de nomear impostos extraordinários,
passou-se à coletivização da terra, na forma de cooperativas (kolkhozes) e fazendas estatais
(sovkhozes), e à liquidação dos chamados kulaks.
Duas comissões, no Comissariado do Povo para a Agricultura e no Bureau Político, atuando
de forma conjunta, fixaram o calendário da coletivização e da caça aos kulaks, especificando
metas e proporções para cada área, e visando especialmente os “celeiros” do país: o baixo e o
médio Volga, o norte do Cáucaso, a Ucrânia e a Sibéria Ocidental. Tais decisões, é interessante
observar, apesar da notória importância, não foram ratificadas, sequer formalmente, por um
congresso do partido ou dos sovietes. Neste sentido, representaram um marco simbólico de
transferência de poder do partido para as altas instâncias do Estado.
Não mais a vigilância desconfiada, mas a ofensiva aberta. Desfez-se o esboço de aliança,
rompeu-se a trégua. Das alturas, os bolcheviques partiram para o assalto das planícies.
Ao longo do ano de 1929, apesar do concurso da propaganda e dos incentivos de toda a
ordem, o progresso da coletivização alcançara patamares modestos: apenas 7,3% das
explorações agrícolas estavam coletivizadas em 1º de outubro daquele ano. A partir daí, o ritmo
acelerou-se, tornou-se frenético: 13,2% em 1º de dezembro; 20,1% em 1º de janeiro de 1930;
34,7% em 1º de fevereiro; 50% em 20 de fevereiro; 58,6% em 1º de março (N. Werth, 1992).
Em cerca de cinco meses, do início de outubro de 1929 ao fim de fevereiro de 1930, quase
60% dos mujiques foram agrupados em organizações coletivas de produção. Cumprira-se a
resolução do Comitê Central do partido bolchevique, de novembro de 1929, segundo a qual “a
construção do socialismo, sob direção do proletariado, pode ser realizada a uma velocidade
ainda desconhecida na história”.
Ao mesmo tempo, e em consequência, começou a deportação maciça de algumas centenas
de milhares de camponeses, com as respectivas famílias, para as regiões inóspitas da Ásia
Central e do Grande Norte. Cartas e relatórios de autoridades soviéticas, locais e regionais,
então confidenciais, e só recentemente publicadas, atestaram com minúcia e eloquência as
arbitrariedades, as injustiças e o verdadeiro caos que se abateu sobre as aldeias russas.
A imposição e a resistência. Um furacão de morte e de destruição. Uma orgia de sangue e
de sofrimento.
O próprio Stalin vacilou. Falou em vertigem. Em 2 de março de 1930, um dia apenas depois
da publicação das alucinantes estatísticas dando conta de que 60% dos camponeses já se
encontravam coletivizados, o Pravda divulgou um artigo de sua autoria em que se deplorava a
vertigem do sucesso.
A coletivização tinha ido longe demais. Os camponeses chacinavam o gado e se recusavam
a empreender as semeaduras de primavera. Um desastre. Fez-se então a crítica aos dirigentes
locais por terem cometido arbitrariedades. Haviam interpretado mal ou aplicado mal as
diretrizes do Centro. Ninguém poderia ou deveria ser obrigado a ingressar nas organizações
coletivas de produção. Os excessos.
Entre os dirigentes de baixo escalão e os destacamentos policiais, a desorientação, o
atordoamento. As metas tinham sido transmitidas por escrito. Como acusá-los, agora, por tê-las
realizado? Entre os mujiques, nas organizações coletivas de produção, a debandada. Nos quatro
meses seguintes, a proporção das explorações coletivizadas já caíra para 21%, menos de um
terço das metas alcançadas no início do mês de março. Foi preciso então retornar aos excessos.
O emprego alternado e combinado de pressões políticas, fiscais e a repressão pura e simples fez
a curva coletivizante retomar o sentido ascendente. Um ano depois, já se haviam recuperado os
patamares mais altos de 1930. Em seguida, sempre apertando as cravelhas, de modo continuado
e sistemático, chegou-se, em fins de 1935, ao percentual de 98% de mujiques trabalhando _em
formas coletivas de produção.
Um processo demencial pela grandiosidade das transformações operadas, a ausência de
limites como política (M. Lewin, 1985).
É possível encontrar alguma lógica em toda esta loucura?
Os resultados econômicos apontavam, aparentemente, em sentido contrário. Com efeito, o
nível alcançado pelo setor estratégico da produção de cereais em 1928, último ano em que, mal
ou bem, prevaleceram as orientações da NEP, não seria mais superado, até 1939. A
produtividade, no melhor dos casos, permaneceu estagnada. As próprias fontes soviéticas,
consultadas, revelam os impasses de uma política desastrosa. Em 1928, a colheita de cereais
atingiu a cifra de 73,3 milhões de toneladas. Em 1929, ligeira queda, para 71,7 milhões. No ano
seguinte, um crescimento de cerca de 10% levou a colheita para 77,1 milhões de toneladas.
Queda brusca em 1931, para 69,4 milhões. Estagnação, na prática, em 1932: 69,8 milhões.
Ainda uma ligeira queda em 1933: 68,4 milhões. Outra diminuição, em 1934: 67,6 milhões.
Poço sem fundo, em 1935: 62,4 milhões de toneladas, um resultado mais de 15% inferior ao de
1928. Para o ano de 1936, não há estatísticas disponíveis. Em 1937, houve um ano excepcional
do ponto de vista climático, foi possível colher 87 milhões de toneladas. Chegara, afinal, a
bonança, como anunciaram as agências de propaganda do Estado soviético? Os frutos doces da
semeadura amarga? Os dois anos seguintes, 1938 e 1939, com resultados em torno de 67
milhões de toneladas, evidenciaram o contrário. Dez anos depois de iniciada a coletivização, a
agricultura soviética continuava produzindo bem menos do que no ponto de partida.
Num outro procedimento, um autor construiu médias quinquenais desde o período anterior
à Primeira Grande Guerra, no intuito de oferecer um quadro que escapasse das variações
sazonais, permitindo uma avaliação mais equilibrada. Assim, para o período de 1909-13,
encontrou a média de 72,5 milhões de toneladas. O quinquênio 1928-33, que corresponde ao
período do I Plano Quinquenal, projetou um resultado de 73,6 milhões de toneladas. Entre
1933-37, praticamente o mesmo resultado: 72,9 milhões de toneladas (M. Lewin, 1985).
Aparentemente, a montanha, depois de medonhos estremecimentos, havia parido um rato.
No capítulo da produção de origem animal, a catástrofe foi ainda maior. M. Cholokhov
descreveria, em obra-prima, as sinistras festas báquicas, em que a matança indiscriminada de
animais assinalou a recusa do mujique em entregar o gado à regência coletiva (estatal) dos
kolkhozes. Todos os rebanhos sofreram pesadas perdas. E, no entanto, a criação de animais, em
geral, apresentava, em 1928, uma notável recuperação: índice 137, para uma base 100, em
1913. A partir daí, começou o declínio: 129, em 1929; 100, em 1930; 93, em 1931; 75, em
1932; 65, em 1933. Ou seja, no período do I Plano Quinquenal, os rebanhos decresceram em
mais de 50%. Um cataclismo. Desde então, uma lenta recuperação. As vésperas da Segunda
Guerra Mundial, em 1940, o índice era de 114, ainda inferior em cerca de 17% ao de 1928, o
último ano da NEP.

A GUERRA AOS KULAKS

A desorganização da economia agrícola, por mais impressionante, empalidecia de


importância diante do processo de deportação de milhares de camponeses, apontados como
kulaks, subkulaks, pró-kulaks, ou ainda kulakizantes. Uma engrenagem infernal agravada pelo
fato de que eram bastante fluidos os contornos do que se desejava caracterizar como kulak.
Mas o que era efetivamente um kulak? O termo designava um personagem social
específico: os camponeses ligeiramente abastados. Chamá-los de ricos é quase uma liberdade
de expressão, na fronteira do abuso. Na verdade, porém, diferenciavam-se no quadro da aldeia
russa, marcada pela miséria e pelo atraso. Tinham um ou dois animais, pequenos excedentes
regulares, comercializados no mercado, estoques de sementes, alguma poupança, às vezes, o
que lhes permitia emprestar aos demais e exercer sobre eles pressão, quando não violência, para
cobrar o devido (kulak = punho). Possuíam, além disso, algumas letras, ou as tinham por
intermédio dos filhos, o que lhes acrescentava prestígio. A massa dos camponeses votava ao
kulak sentimentos ambíguos: frequentemente inveja (pela posição), ódio (pelos juros cobrados e
exações praticadas), mas também gratidão (pelos eventuais socorros prestados em situações de
emergência). Por outro lado, é importante não esquecer que, diante dos homens da cidade, a
aldeia e a comuna rural não raramente apresentavam-se como um bloco, sem falhas, um
universo (o mir) ou, num ângulo pejorativo, o patriotismo de aldeia.
Os kulaks, como categoria específica, ganharam força no período anterior à Primeira
Grande Guerra, sobretudo devido aos incentivos das políticas agrárias reformistas
stolypinianas, implementadas entre 1906 e 1911.
No entanto, com a vitória da revolução camponesa de 1917, sua importância social e
econômica tendeu a diminuir, o que foi acentuado pelo processo arrasador de nivelamento por
baixo provocado pela guerra civil, entre 1918 e 1920. Ascenderam maciçamente, então,
bafejados pela nacionalização e redistribuição da terra, os camponeses pobres (bedniaks) e os
camponeses médios (seredniaks). O triunfo do igualitarismo tradicional no quadro da comuna
rural reforçada.
E verdade que os anos da NEP haviam relançado as desigualdades. Mas ainda era muito
difícil, sob qualquer ângulo (contratação de assalariados, propriedade de animais ou de
máquinas e implementos agrícolas), falar de uma camada de camponeses ricos na União
Soviética em fins dos anos 20.
Mais uma vez, as decisões políticas precederam e condicionaram as análises da estrutura
social. Em Moscou, determinava-se o nível de coletivização a ser alcançado em cada região, em
cada distrito. Metas mensais, devidamente quantificadas, eram fixadas, avaliadas, cobradas. As
autoridades locais, ou os destacamentos de ferro, enviados das cidades, tinham a obrigação de
deskulakizar, sem incorrer em excessos, naturalmente. Em último caso, e não eram poucos
estes últimos casos, a mera resistência à coletivização já era suficiente para um camponês ser
etiquetado como kulak. Caso não fosse possível enquadrá-lo nos parâmetros econômicos típicos
do kulak, sempre era possível estabelecer uma associação qualquer, o que explica em larga
medida o súbito aparecimento de uma profusão de termos aparentados: subkulak, pró-kulak,
semikulak, kulak na prática, kulakizante etc. Na verdade, estava sendo apanhada na rede da
expropriação a multidão dos camponeses médios, os seredniaks, cujos minúsculos excedentes
faziam falta às agências atacadistas do Estado.
Assim, a repressão e a deportação acabaram atingindo proporções gigantescas. Fontes
russas, em avaliações formuladas no início dos anos 90, admitiam a hipótese de 1 milhão de
famílias deportadas, cerca de 5 milhões de pessoas. E o trauma das prisões, da privação dos
direitos civis, da marginalização (inimigos do povo), da separação das famílias, da maldição do
exílio, fenômenos não sujeitos à quantificação, embora muito reais, nunca puderam entrar nos
quadros estatísticos.

CONTROLE ESTATAL

Tanto sofrimento e dispêndio de energia, violência e subversão de tradições para tão magros
resultados econômicos. Puro desencadear de paixões irracionais? Ou seria possível apontar o
que o Estado pescou nesta tempestade?
Um resultado qualitativo: a erradicação da propriedade privada no campo.
Os pequenos camponeses não estariam mais, em cada micro-operação econômica,
engendrando o abominável regime capitalista. A solução final da maldita questão, a morte,
afinal, do pequeno camponês, este sujeito histórico essencialmente reacionário, o fim da velha
comuna rural, a liquidação para sempre dos incômodos aliados, o horizonte aberto para a
construção do socialismo num só país.
Em consequência, ampliação exponencial da capacidade do controle do Estado. Em cada
unidade coletivizada, a possibilidade de saber quanto, o que, como e quando vão produzir. Se
os resultados não aparecerem, ai dos camponeses, porque as cotas obrigatórias e os impostos
serão computados segundo as estimativas oficiais e não de acordo com os resultados
efetivamente alcançados. Em qualquer caso, quando — e se — as metas não forem atingidas, os
responsáveis já estavam definidos: kulaks, ou cúmplices pró-kulaks, sabotadores, ainda
travestidos, camuflados, ocultos, seria preciso desentocá-los, sob pena de toda a comunidade
correr o risco da deskulakização, porque a responsabilidade, nestes tempos febris, tornou-se
novamente coletiva, como nos tempos do tzarismo.
Além disso, resultados econômicos. Eles seriam alcançados.
O agrupamento de milhões de pessoas em algumas dezenas de milhares de unidades
coletivas de produção, permitindo um controle preciso, viabilizou o processo por meio do qual
foi possível espremer os camponeses, extraindo deles cotas anuais fixas, às vezes ascendentes,
mesmo que a produção estivesse estagnada ou em declínio.
As chamadas entregas obrigatórias para o Estado (cotas mínimas, fixas, contra pagamento
também fixado antecipadamente) registraram curva ascendente ao longo dos anos 30. Em 1928,
ainda no quadro das medidas emergenciais então formuladas, atingiram 10,8 milhões de
toneladas. No ano seguinte, num aumento abrupto, de mais de 50%, chegaram a 16,1 milhões.
Em 1930, novo salto, para 22,1 milhões; em 1931, 22,8 milhões. Em 1932, 18,5 milhões. Entre
1933-37, a média foi comparativamente alta, de 27,5 milhões de toneladas. Em percentuais, em
relação ao total das colheitas, a proporção evoluiu da seguinte forma:

Ao mesmo tempo, voltavam-se a abrir as hastes da tesoura: enquanto os preços agrícolas


permaneceram inalterados entre 1928 e 1953, o rublo desvalorizou-se cerca de 10 vezes. Assim,
segundo os registros oficiais, entre 1933 e 1938, o custo real médio, por quintal1 de grão, estava
em torno de 27 rublos. Mas as instituições estatais pagavam aos kolkhozes apenas 6 rublos pelo
quintal de centeio, 9 a 10 rublos pelo de trigo e 4 a 5,5 pelo de aveia. Depois de guerra, já em
1953, as autoridades reconheceram que os preços oficiais pagavam somente dois quintos do
custo da produção dos cereais e um quarto do custo dos produtos de origem animal. Apenas
esta disparidade, repetida ao longo de tantos anos, já teria significado um formidável tributo.
Impostos, normais e extraordinários, cotas obrigatórias, multas, aluguéis de máquinas e
pagamentos dos serviços prestados pelas Estações de Máquinas e Serviços (MST), equipadas e
controladas pelo Estado, deterioração dos termos de intercâmbio entre produtos manufaturados
e agrícolas, um arsenal completo de medidas para quebrar a espinha do mujique russo,
reduzindo-o definitivamente à condição de servo das unidades de produção. Na melhor das
hipóteses, um cidadão de segunda classe.
Estavam asseguradas as bases da acumulação socialista primitiva. Permitindo o
abastecimento de cidades e parques industriais em expansão. Viabilizando exportações
crescentes para pagar, no mercado internacional, as compras de matérias-primas industriais,
máquinas e equipamentos, técnicos e engenheiros, de modo a cumprir as metas nobres do
planos quinquenais.
A resistência foi feroz. Individuais, desesperadas. Emboscadas, em grupo, articuladas.
Recusas suicidas ao enquadramento. Manifestações cegas. Matança do gado. Assassinatos de
autoridades. Fugas. Sabotagens ás instalações dos kolkhozes e às máquinas impostas. Furto de
cereais. E, quando a resistência ativa foi abatida, os recursos últimos, a inação, o descaso, o
desperdício, a apatia, o desinteresse.
O campo e o camponês pagaram caro pela rebeldia. A escassez endêmica combinava-se
com surtos brutais de total carência, a fome. A de 1932-33, na Ucrânia, vitimou milhões de
pessoas, sobretudo as mais vulneráveis, velhos e crianças. Numa estranha simbiose,
combinavam-se a construção do futuro, o socialismo, com as crises típicas do Antigo Regime,
materializadas na fome.
As pressões, afinal, tiveram de ser relaxadas. Impôs-se a alternativa de conceder a cada
mujique um pequeno pedaço, um lenço de terra para cultivo próprio. O Estatuto dos Kolkhozes,
em 1935, admitiu a atribuição de lotes, não maiores do que um quarto de hectare ou meio
hectare por família. Também foi reconhecido, a cada família, o direito a uma vaca e a um
número especificado de bezerros, porcos e ovelhas, assim como a uma quantidade ilimitada de
aves (!). Daí o camponês retiraria parte substancial da sua efetiva remuneração (sobrevivência).
Por outro lado, a partir das brechas dos mercados livres eventualmente autorizados, depois de
pagas as cotas e os impostos, proviria uma fração considerável do abastecimento da sociedade.
Assim, em 1938, embora os pequenos lotes correspondessem a apenas 3,9% da terra arada,
garantiram, além da sobrevivência dos camponeses, quase metade da produção total de víveres
(45%), 52,1% da produção de batatas, a maior parte dos legumes e frutas, quase metade do
gado, 71,4% do leite, 70,9% da carne, 43% da lã…
O aparente paradoxo da disparidade entre a produtividade da grande unidade coletivizada
(na verdade, estatizada) e do pequeno lote privado oferecia a evidência econômica do caráter
forçado do processo de coletivização. No mesmo movimento, mostrava o desapego pelo
kolkhoz e a defesa tenaz do interesse privado, considerado liquidado pelo discurso oficial da
coletivização.
A permanência da mentalidade particularista, individual, descompromissada com os rumos
e os interesses gerais da sociedade. Como Jonas, sobrevivendo nas entranhas da baleia. Milhões
de Jonas, estes camponeses agarrados aos pequenos lotes concedidos, estranhos no ninho destas
milhares de baleias, os kolkhozes e os sovkhozes criados pelo Estado.
Uma outra função econômica da coletivização, e da formidável pressão que a envolveu
desde o início, foi a expulsão dos camponeses da terra. O movimento tomou tal amplitude que
as autoridades foram obrigadas a tomar providências enérgicas: restabeleceram a tradição
abominada dos passaportes internos, outra invenção do regime tzarista, então em desuso.
Assim, os camponeses somente podiam deixar o kolkhoz com autorização, por escrito, da
direção da unidade, nomeada pelo Estado. Os camponeses a chamavam, maliciosamente, de
carta de emancipação, querendo com isto significar que encaravam a implantação do sistema
coletivo de produção como equivalente à restauração do regime da servidão, juridicamente
abolido desde 1861.
Ainda assim, havia os que escapavam das formas de produção coletiva. Em certa medida,
desde que não ultrapassassem certos limites, tratava-se de algo desejado pelo Estado, pois o
surto industrializante programado exigia braços, muitos braços. Nas cidades e nos inumeráveis
canteiros de obras, os mujiques tangidos de suas terras representariam mão de obra resistente e
pouco exigente, embora nada eficaz para efetivar operações minimamente sofisticadas, pelo
menos em toda uma primeira fase.
Muitos outros não teriam esta sorte. Surpreendidos em situação ilegal, sem a devida carta
de emancipação, fornecida pela autoridade competente, capturados nas malhas dos controles
sem fim, iriam juntar-se aos deportados e aos presos (zeks) de toda a espécie, que formigavam
nos trabalhos forçados de abertura de canais, construção de estradas de ferro, exploração de
madeiras nobres e de minas de ouro, enfrentando condições insalubres e duríssimas de trabalho
em regiões de clima gelado, inóspitas.
A importância econômica dos trabalhos forçados, reconhecida mais tarde pelo próprio
governo soviético, é até hoje de difícil mensuração. Com o tempo, mesmo os mais inocentes
não puderam continuar ignorando sua existência, sobretudo depois dos relatos minuciosos e
insuportáveis dos anos 70 (A. Soljenitsin, 1974-76, e V. Chalamov, 1969-72). A denúncia do
inenarrável.
Nas fábricas, nas obras de infraestrutura, nos grandes canteiros, construindo o socialismo
soviético, apesar deles mesmos, ali estariam os mujiques, desenraizados, expropriados,
tributados. Transformando a natureza e a sociedade, transformando-se, transformados.

A INDUSTRIALIZAÇÃO ESTATIZADA: O GRANDE SALTO PARA A FRENTE

Quando Preobrazhensky esgrimia com Bukharin, nos anos 20, defendendo a necessidade de
um planejamento mais centralizado e sistemático da economia, e de um investimento prioritário
e mais considerável no setor industrial, talvez nunca tenha imaginado, nos mais fulgurantes
delírios, a natureza que o processo assumiu, os ritmos, as metas e os mitos que, mais tarde, daí
a apenas alguns anos, dominaram a União Soviética.
Um golpe brusco, logo no início, determinou a sorte das pequenas industrias e serviços
privados, empurrados para a órbita do Estado. A combinação de pressões fiscais e políticas,
sem ignorar naturalmente a repressão e os excessos, em rápidos passos, liquidou os correlatos
do kulak nas cidades: os pequenos empresários, o vespeiro de atravessadores e especuladores e
a nuvem de clientes e parasitas que viviam ao redor. Continuariam a vicejar, mas nas margens,
nos interstícios da ilegalidade, controlados e perseguidos pela mão pesada da polícia política,
sujeitos, a qualquer momento, a desaparecer no abismo das cadeias e dos campos.
Simultaneamente, o vendaval, num crescendo, desde 1929, quando foi aprovada a proposta
da variante ótima para o I Plano Quinquenal (1928-1933). Os técnicos do Planejamento
(Gosplan) haviam preparado diversas alternativas. Aos poucos, as sugestões mais cautelosas,
realistas, foram sendo corrigidas, sempre para cima. Assim, as estimativas originais, já
marcadas pelo voluntarismo, perderam-se, substituídas pelo reino da decisão incondicionada. O
quadro abaixo mostra a trajetória da vontade sem limites:

Energia, indústria pesada e infraestrutura de transportes receberam a máxima prioridade,


78% dos investimentos totais (A. Nove, 1990). E esta alternativa ainda foi emendada,
novamente para cima, em 1932, quando prevaleceu a proposta de realizar o Plano Quinquenal
em quatro anos. O voluntarismo em estado puro, ignorando todos os limites, os da natureza e os
da condição humana.
Entretanto, a onipotência da vontade recaiu quase exclusivamente sobre alguns setores, bem
determinados. Assim, sempre em ascensão, e merecendo os maiores cuidados dos três planos
quinquenais que ritmam a vida da União Soviética de fins dos anos 20 aos começos dos anos
4C, encontram-se as indústrias de construção mecânica, as que trabalhavam para a defesa,
dedicadas a produzir armas, munições e equipamentos de guerra, a metalurgia pesada, os
transportes — estradas de ferro e canais —, a produção de energia elétrica (barragens), a
extração de carvão e petróleo, em suma, os dinossauros comedores de ferro e aço.
As atividades ligadas à defesa nacional desempenharam papel especial. Entre 1933 e 1940,
houve um notável crescimento da importância relativa do setor, ocupando um espaço cada vez
maior na escala das prioridades, insaciável. De 1933, quando se contentou com apenas 3,4% do
orçamento, até 1940, quando abocanhou quase 33%, toda uma trajetória, sinalizando opções
estratégicas.
No centro das atenções, os chamados grandes projetos. Por eles, era preciso tudo fazer,
todos os sacrifícios seriam consentidos: os complexos metalúrgicos de Kuznetsk e de
Magnitogorsk, as imensas fábricas de tratores de Kharkov e Tcheliabinsk, as de automóveis de
Moscou e de Nijni-Novgorod, a usina hidrelétrica de Dnieprprogress, a estrada de ferro
estabelecendo a ligação entre o Turquestão e a Sibéria, o Turksib, o canal Volga-Mar Branco. E,
como vitrine, a pirâmide de Stalin: o metrô de Moscou, inaugurado em 1935, de imponentes e
marmóreas estações.
Era preciso realizá-los a qualquer custo, no mais breve prazo. A técnica decide tudo, os
ritmos tudo decidem, slogans da época, todo um programa. Os resultados, embora inflados e
mistificados pela propaganda, e nem sempre condizentes com as estimativas, fascinaram os
russos e o mundo, principalmente porque, ao longo dos anos 30, os países capitalistas mais
avançados apresentavam imagens de crise, de depressão, de estagnação. As cifras e os
percentuais, assim, atraíram a atenção, quando não a admiração, de aliados e simpatizantes, dos
que se queriam neutros, e até de inimigos mais empedernidos.
Num plano secundário, quando não francamente negligenciados, ficaram os setores da
chamada indústria leve e da construção civil, encarregada de prover, entre outras prioridades, as
moradias e a infraestrutura urbana para uma população que se concentrava nas cidades a taxas
de crescimento geométrico. Com efeito, enquanto a população total evoluía de 147 milhões
para 170 milhões de habitantes (cerca de 15% mais) entre 1926 e 1939, a população urbana, no
mesmo período, deu um salto de 112%, saindo de 26 para 56 milhões de habitantes. Alguns
grandes centros tiveram duplicada sua população, sem falar nas cidades que surgiram do nada,
como Magnitogorsk. Em relação à população total, os urbanoides haviam passado de 18% a
33%.
Para estas atividades econômicas voltadas para o consumo imediato da população, no
entanto, a versão ótima do I Plano Quinquenal não havia reservado prognósticos promissores.
Ao contrário, chegou-se ao ponto, no caso da indústria têxtil, de corrigir para baixo as
estimativas originais. O que não quer dizer que a indústria de bens de consumo não tenha
progredido, mas os aumentos nesta área foram largamente insuficientes em relação à demanda.
Assim, em 1936, apenas 6% de urbanoides dispunham de mais de um cômodo para viver,
40% dispunham de apenas um cômodo, 24% de parte de um cômodo, 5% viviam em cozinhas e
corredores e 25% alojavam-se em dormitórios: barracas, barracos, tendas etc. Um estado
lamentável, é verdade, mas seria um anacronismo compará-lo com o dos trabalhadores da
Europa Ocidental ou dos Estados Unidos. No exercício de qualquer comparação, é preciso
considerar os índices e o estado existente na Rússia tzarista antes de 1914, ou de países em
situação análoga, como a índia ou a Turquia.
De todo modo, uma demanda reprimida, insatisfeita.
Entretanto, apesar destes senões, tomara a imaginação da sociedade, e não gratuitamente, a
ideia de que houvera um grande salto para a frente. Algo em torno de oito mil indústrias tinham
surgido ao longo dos anos 30. Não era apenas um crescimento quantitativo, mas qualitativo,
com o aparecimento de novos setores: química, eletrotécnica, aeronáutica, automóveis,
construção de máquinas.
Um crescimento desenfreado, báquico (N. Jasny, 1961).
Um tremendo esforço, uma economia sob comando, tensa, mobilizada, quase militarizada.
Os sofrimentos impostos, os desperdícios em todos níveis, a improvisação, a depredação
ecológica, as obras deixadas pela metade, ou abandonadas. Era quase uma ironia chamar a isto
de uma economia planejada (J. Sapir, 1990).

O HOMO SOVIETICUS

Mas, na base da sociedade, frequentemente ocultados pela dança dos números e das
estatísticas triunfantes, quem eram os trabalhadores anônimos que construíam o socialismo num
só país? Apenas objetos do poder? Vítimas dos golpes abruptos de um destino incontrolável e
que lhes parecia escapar completamente, ou, de alguma forma, também coprotagonistas da
revolução pelo alto?
Um turbilhão dominou a trajetória do homo sovieticus nos anos 30.
Mobilidade espacial: do campo para a cidade, das áreas tradicionais de ocupação para as
áreas novas, de toda a parte para os campos de concentração da Ásia Central e do Grande
Norte. Uma sociedade em movimento, em fluxo contínuo. O desenraizamento. O exílio.
Mobilidade social, nas cidades. Horizontal, traduzida nas constantes mudanças de emprego,
da pequena para a grande indústria, e entre as indústrias, com altas taxas de turn-over
(tekuchka). Da produção para os serviços e vice-versa. Vertical, do aprendizado à chefia,
também expressa numa constante evolução, da produção e dos serviços para a administração,
para o partido, para o poder.
Assim, em fins dos anos 20, ainda em vigor a NEP, quase 60% dos trabalhadores
encontravam-se empregados em pequenas indústrias. Dez anos depois, 76,5% estavam em
empresas de mais de 500 empregados, um terço em fábricas de mais de 10 mil empregados. Por
outro lado, neste período, foi extraordinária a margem de ascensão para os chamados praktiki,
formados no batente, e que assumiram frequentemente, por absoluta falta de opções, a direção
de serviços e mesmo de fábricas. Cerca de 650 mil operários deixaram as fábricas para se tornar
empregados, funcionários ou para seguir diferentes tipos de estágios ou cursos. Encetando a
progressão dos escalões inferiores para os superiores, da periferia para o centro, da base para o
topo na escala do poder. Eram praktiki 89% dos chefes imediatos, 60% dos técnicos de todas as
categorias, 41% dos engenheiros e até mesmo 27% dos engenheiros-chefe das fábricas. Em
meados dos anos 30, os praktiki formavam cerca de 50% dos quadros dirigentes nas indústrias
(M. Lewin, 1985).
Mobilidade, enfim, nas hierarquias da sociedade.
No âmbito da família, hierarquia mais tradicional e nuclear, o despedaçamento da figura
maior do patriarca, com a migração maciça das mulheres para o mercado do trabalho. Em 1936,
constituíam 40% da força de trabalho, um ano depois, representavam 82% dos novos
assalariados. Sobrecarregadas de tarefas no quadro da dupla jornada de trabalho (doméstica e
profissional), estariam longe do retrato da mulher emancipada e feliz da propaganda oficial,
mas só o fato de terem escapado do controle estrito e estreito de pais e maridos já assumia um
significado histórico.
Os jovens também se beneficiaram da explosão da rigidez da família tradicional. Na época,
45% da população da URSS tinha menos de 20 anos. Incorporados ás brigadas de construção
das novas cidades, nas campanhas de alfabetização e de instrução, acorreram em massa para as
organizações comunistas de jovens (Konsomol), generosos e entusiasmados, voluntários.
Imaginavam construir um mundo novo. Na prática, pelo menos, emancipavam-se da sufocante
tutela da família autoritária, em que predominava de forma incontrastável a autoridade do pater
familias.
Um outro movimento ampliaria as oportunidades: o fantástico desenvolvimento do sistema
educacional, combinado com a criação acelerada de novos postos de trabalho. Novos horizontes
para os que desejavam adquirir conhecimentos. Entre 1928 e 1941, o total de diplomados
universitários nos vários ramos da educação nacional saltou de 233 mil para 908 mil. Entre os
formandos no nível secundário os dados registraram crescimento igualmente expressivo: de 288
mil para 1,49 milhão. Sem contar os milhares que estudavam nos sistemas de educação à
distância e nos cursos de extensão, escolas noturnas e faculdades operárias (rabfaks). O número
de matrículas nesta última modalidade de ensino pulou de 50 mil para 285 mil em apenas
quatro anos, entre 1928 e 1932.
Muito rapidamente, a informação e o saber converteram-se em recursos e condições
indispensáveis para o acesso ao poder. Nas unidades de produção, num contexto de pleno
emprego, mesmo os níveis elementares de treinamento, ou uma formação no batente (os
praktiki), significavam promessas de ascensão.
Neste processo, a massa de trabalhadores cindiu-se em diferenciações internas, desintegrada
em camadas: os novos recrutas, recém-chegados, em ondas sucessivas, tangidos pela
coletivização forçada; os incorporados no processo de recuperação de meados dos anos 20; os
mais velhos, que sobraram da devastação da guerra civil e da sucção do aparelho
administrativo, civil e militar. Sem falar nas diferenças geracionais e de gênero, ampliando as
nuances. E nos privados de direitos (lichentsy), elementos estranhos, inimigos do povo,
incorporados compulsoriamente. Cada uma destas cisões era uma brecha, tornando vulneráveis
as linhas que os operários poderiam erguer em defesa de seus interesses.
A situação foi agravada com a adoção do salário por peça e dos estímulos materiais ás
performances extraordinárias. Novas divisões. Em 1933. 75% dos trabalhadores eram pagos de
acordo com normas de produção frequentemente fixadas de forma arbitrária, fora do alcance da
grande maioria. Em 1938, 60% não conseguiram cumprir as normas. O resultado foi a queda do
salário médio real: em 1937 correspondia a pouco mais de metade do de 1928. Enquanto isso,
beneficiando os trabalhadores de choque (udarniks, os trabalhadores de elite, os mais dedicados
a atingir altos padrões de disciplina e produtividade), salários diferenciados, rações especiais e
outras benesses extraordinárias, fundamentais em sociedades regidas pela escassez: alojamentos
e escolas especiais, colônias de férias etc.
A partir do verão de 1935, a tendência pareceu consolidar-se com c lançamento do
movimento stakhanovista, derivado do nome do mineiro A. Stakhanov, emérito quebrador de
recordes e das normas de produção nas minas de carvão. Em novembro de 1935, reuniu-se a
primeira conferência de trabalhadores de vanguarda, chamados, desde então, stakhanovistas. O
ano seguinte foi chamado de ano stakhanovista. Muitos críticos denunciaram a formação de
uma nova aristocracia operária. Qualificação polêmica. O que parece fora de dúvida é que se
constituiu uma camada específica, com dinâmica e interesses próprios, enfraquecendo as
defesas já enfraquecidas dos trabalhadores.
Os grandes beneficiários estavam na cúpula da pirâmide social: funcionários graduados da
máquina estatal e do aparelho partidário, dirigentes de empresas, engenheiros, administradores,
pesquisadores, planejadores, oficiais das forças armadas, professores, médicos e técnicos
qualificados. Compreendiam, segundo diferentes cálculos, de 7 milhões a 13 milhões de
pessoas, ou seja, entre 4% e 7,5% da população total. Molotov, em 1939, falou de 9,5 milhões.
Quadros do partido, do exército e da polícia (1,5 milhão), chefes de empresas rurais e urbanas
(1,7 milhão), engenheiros e técnicos qualificados (1 milhão), a: estava o núcleo dos novos
gestores, dos que decidiam.
Nestes níveis os salários eram consideravelmente maiores, podendo um técnico qualificado
chegar a ganhar de 80 a cem vezes o salário médio operário. Mesmos os escalões inferiores
tinham privilégios: um secretário de célula, numa unidade de produção, podia ganhar o dobro
do salário médio operário. Mas naquelas circunstâncias o que valia mesmo não era o dinheiro
vivo, mas as vantagens extraordinárias: habitações melhores, acesso a lojas especiais, transporte
particular, prioridades no acesso a benesses escassas etc.
Os novos gestores correspondiam a 21% dos delegados ao XVII Congresso do Partido
Comunista da União Soviética, em 1934. Cinco anos mais tarde, em 1938, quando se reuniu o
XVin Congresso, já seriam 54% dos delegados. Também neste ano, 70% dos novos recrutas
originavam-se deste setor, enquanto os operários, ligados diretamente à produção, não
passavam de 15% do total de filiados. Nas altas esferas, o partido estimulava o recrutamento. O
inverso também era verdadeiro: tornou-se difícil alcançar um alto cargo se o candidato não
possuísse a carteira de filiado. Assim, em fins dos anos 30, 97% dos diretores de fábricas, 82%
dos chefes na construção civil, 40% dos engenheiros do país pertenciam aos quadros do partido.
Enquanto isto, em 1941, às vésperas do início da Segunda Guerra Mundial, apenas 6% dos
filiados estariam diretamente vinculados à produção.
Observe-se, fato notável, que quase metade destes que ocupavam posições de prestígio e de
poder era originária de famílias operárias ou camponesas. Alguns falariam em plebeização do
poder. Outros, na emergência de uma suboficialidade de intelectuais (M. Malia).
Em busca do futuro, o salto para a frente promoveu a interpenetração de épocas, o
entrecruzamento de estágios de desenvolvimento. O mujique é apresentado ao trator norte-
americano, cujo desenho e concepção foram adquiridos e adotados, nem sempre com sucesso,
considerando-se a diferença de circunstâncias. O trabalho compulsório combinava-se com a
técnica mais refinada, importada na pessoa de engenheiros e técnicos estrangeiros. Os praktiki e
os engenheiros. A marreta tradicional e as máquinas mais modernas, importadas da Alemanha e
dos Estados Unidos.
O arquétipo era o complexo metalúrgico de Magnitogorsk. As fotografias e os filmes —
porque mostram — falam melhor do que os textos. A picareta e a pá, a torre e o torno, os altos
fornos e as foices e os martelos. Construída do nada, sem raízes, a nova cidade, da mais
refinada técnica, da solidariedade e da generosidade do trabalho voluntário, do homem novo. As
promessas de emancipação. Ao lado, ao mesmo tempo, no mesmo movimento, os prisioneiros
(zeks), malditos, amaldiçoando o sistema, sob os rigores da lei e sob controle das armas,
também ali estariam eles, participando com suas pragas, com suas chagas, suas penas. As
certezas dos cárceres.
E assim, quase com as próprias mãos, sob os rigores do clima e numa austeridade espartana
de tendas e barracas, de rações e de trabalho pesado, 60% de voluntários vermelhos e 40% de
degredados, muitos dos quais deskulakizados, construiriam o modelo do futuro. Em contraste, o
impulso da liberdade e a compulsão da prisão.
Uma sociedade em movimento, areias movediças. Como dar um sentido a este moto
contínuo? A este redemoinho permanente?

OS MITOS DA CONSTRUÇÃO DO SOCIALISMO NUM SÓ PAÍS

Sociedade alguma teria despendido tanta energia sem o impulso de referências, de ideias-
força que lhe dessem segurança e determinação. A mitologia em que se apoiou o modelo
soviético, embora formalmente comprometida em construir um futuro incomparável, trabalhou
com tradições bem enraizadas no passado imperial.
A defesa, antes de tudo.
Desde tempos ancestrais, os russos viveram as ambiguidades e os perigos dos quais não
conseguiram escapar os povos das encruzilhadas, quase sempre dilacerados entre os vizinhos
opostos, frequentemente assumindo a ideia messiânica de sintetizá-los.
Entre a Ásia e a Europa, ora inclinando-se para oeste, ora para leste, sempre rejeitados e
ressentidos pela marginalização imposta, atacados e devastados por ambos os lados, os russos
nunca foram, nem conseguiram ser, asiáticos ou europeus, apenas russos. Um destino pensado
com revolta, nunca assumido.
Assim, o expansionismo incessante e a extensão das fronteiras, em todas as direções da rosa
dos ventos, hauriram legitimidade da condição do suposto cerco, histórico e geográfico. Ora
uma pura fantasia das elites, apenas destinada a atenuar contradições sociais e políticas
emergentes. Ora algo muito real e concreto, tomando a forma da invasão de exércitos inimigos.
Ora um patchwork de fantasias e realidades, dificultando a análise, fazendo míope a visão.
A perspectiva obsessiva em defender a primeira pátria do socialismo constituiu a viga
mestra da política internacional soviética, mobilizando-se neste sentido, não sem traumas, o
conjunto do movimento comunista internacional, convocada a responsabilidade de cada um e
de todos os comunistas ao redor do mundo. Convite estendido aos homens de bem e aos
partidários do progresso social e da paz. Nestes termos, a defesa do país converteu-se na defesa
do Bem contra o Mal. Do futuro contra o passado. Da ciência contra a ignorância. A União
Soviética, gradualmente, deixou de ser um instrumento de defesa da revolução mundial para
que o processo da revolução mundial se tornasse um instrumento de sua defesa.
O pacto germano-soviético, de agosto de 1939, tornou-se o acontecimento símbolo desta
política e deste modelo, mas não o único, nem o mais importante para todos. Depois dele, e
enquanto durou, o movimento comunista precisou silenciar a luta e a propaganda antinazistas, à
custa, em determinados países, de graves danos para suas estratégias, alianças, índices de
popularidade e até mesmo para suas próprias identidades. Os mesmos efeitos seriam
provocados pelas reviravoltas bruscas, que frequentemente tinham como origem e razão de ser
dissensões entre os comunistas russos, mas que acabavam projetando sua sombra longe, com
exigências de adaptações e redefinições.
Não se trata de acompanhar acriticamente uma certa literatura, inspirada pela Guerra Fria
entre capitalismo e socialismo, desde o triunfo de 1917, que insistiu na interpretação
reducionista segundo a qual os comunistas de todo o mundo não passavam, ou não passaram,
pelo menos até um certo momento, de marionetes de Moscou. Nesta linha de raciocínio,
histórico-policial, para a qual contribuíram, não poucas vezes, as próprias dissidências
comunistas, o ouro de Moscou, ou o seu cérebro, puxavam os cordéis em cada lugar,
determinando rumos e fazendo dos diversos partidos nacionais clones do irmão/camarada mais
velho, o PCUS. Na verdade, a análise cuidadosa de cada partido saberá, sempre, encontrar
razões próprias para as orientações gerais predominantes em cada momento, para as quais a
inegável influência soviética servirá mais de legitimação — teórica e política — do que
propriamente de fator exaustivo de explicação. Neste sentido, os segredos da história de cada
partido precisarão ser desvendados a partir de suas condições próprias e não nos arquivos da
Internacional Comunista ou do Comitê Central do PCUS.
Entretanto, isto não quer dizer que o mito da fortaleza sitiada do socialismo não
desempenhasse, para os comunistas em todo o mundo, um importância capital. Para os russos,
embora colorido de vermelho, era um mito que mergulhava fundas raízes em uma longa
tradição. Nos anos 30, não foi necessário esperar a ameaça palpável da besta nazista para
contrair em torno de um tema visceralmente familiar um anel de alianças entre o poder e o
povo.
O Estado soviético, era preciso defendê-lo. Stalin aproveitou o ensejo para reatualizar,
segundo as novas circunstâncias, a teoria marxista sobre o assunto. Assim, no contexto da
construção do socialismo num só país, as previsões marxistas sobre o desaparecimento das
classes sociais e sobre a extinção do Estado passaram por redefinições drásticas: as classes
desapareceriam por meio da intensificação extrema na luta entre elas, e o Estado se extinguiria
por meio de seu radical fortalecimento. Singular contribuição à dialética…
Os russos precisavam defender-se, não fora sempre assim?
Era necessário, em consequência, conquistar a emancipação da URSS em relação ao
mercado internacional, a libertação da dependência do capitalismo hostil. A garantia da
integridade territorial e nacional ameaçada por uma agressividade latente, não raro explícita, da
pane de setores das sociedades capitalistas avançadas, tolerados, quando não açulados,
instrumentalizados ou assumidos pelos próprios governos.
Aqui se tocava a corda do nacionalismo, particularmente viva entre os russos. Ao longo dos
anos 30, foi muito sensível a vaga de patriotismo. Estimulada como expressão de
internacionalismo, numa estranha dialética, onde se demonstrava que, em determinados casos,
um exacerbado nacionalismo poderia estar associado com o mais profundo internacionalismo,
sendo mesmo sua condição, atingiu todos os escalões da sociedade. E os manuais de história e
de ciências exaltavam as contribuições dos russos à história da humanidade: pletora de
invenções científicas, vultos ilustres em todas as áreas das ciências, das artes e das técnicas.
Nesta perspectiva, foi possível apresentar até mesmo os tzares como conquistadores e
modernizadores e o próprio expansionismo do Estado tzarista como objetivamente progressista.
Mas não se tratava de uma doutrina antiga, apenas requentada.
Positivamente, a proposta de construir o socialismo num só país apontava para uma síntese
inteiramente nova, original, nem exatamente asiática, nem verdadeiramente europeia, uma
utopia na terra, aqui c agora. “Eu vi o futuro e ele funciona”, diria um viajante entusiasmado.
Nada menos que um homem novo — o homem novo —, sovieticus. Neste registro,
mobilizaram-se a paixão revolucionária do ano vermelho de 1917, a superação dos
ressentimentos e da depressão do isolamento, das frustrações com os meios-tons da NEP e,
mais uma vez, ainda que por um outro ângulo, a tradição messiânica russa.
A União Soviética estava ingressando em mais um, e certamente o mais violento, momento
de modernização acelerada de sua história. Industrialização, urbanização, chaminés, altos-
fornos, estradas de ferro, hidrelétricas. A velocidade da técnica, dos ritmos. Em certo sentido,
mais um salto para a frente, em busca da civilização europeia. Em muitos aspectos, seria
possível estabelecer analogias com a obra de Pedro, o Grande, em fins do século XVII, inícios
do século XVIII. Ou com a de Catarina, a Grande, ou, ainda, com a do tzar reformista do século
XIX, Alexandre II. São Petersburgo, janela aberta para o Ocidente, com seus palácios e colunas
de mármore, belos e cuidados jardins e largas avenidas, com suas elites falando francês, fora o
símbolo mais visível deste anelo e desta ambição ocidentalizantes.
Estas comparações, se sugeridas, seriam recusadas. Agora, não. Não mais janelas
ocidentais. Em vez de São Petersburgo, Moscou, farol vermelho para todo o mundo. As elites
revolucionárias falariam russo, e o ensinariam ao movimento comunista internacional, porque o
russo passara a ser a língua da revolução. A modernização que a Europa fizera em séculos de
amadurecimento, jorrando sangue da cabeça aos pés, a Rússia revolucionária a faria em dez
anos, em enlouquecidas hemorragias. Mas chamaria a isto de construção do socialismo. Num só
país.
Era preciso encontrar um líder para esta aventura, que a pudesse dirigir, e no qual ela
pudesse encarnar-se, personalizar-se, pois ideias demasiado abstratas precisam de homens,
concretos, para mobilizar as gentes.
Nesta veia, os russos também tinham tradições.
Nos combates encarniçados, multisseculares, contra ocidentais e orientais, os russos
guerrearam, defendendo-se e atacando, modernizaram-se, deram saltos para a frente, e para trás,
sempre sob a direção de homens supostamente providenciais, chefes políticos, militares,
reverenciados, temidos, tiranos, venerados, amados, armados. Não gratuitamente, os grandes da
galeria de vultos históricos, desde A. Nevski, passando por Pedro, o Grande, Suvorov e
Kutuzov, foram reabilitados e projetados, em série, muitos dando seus nomes a ordens e
condecorações militares, para suscitar a admiração e a convicção de que a corrente não se
partira, nem se poderia interromper, e de que os heroicos esforços atuais também tinham um
chefe, um continuador, um guia: Stalin. Um homem, especial, moldado em aço.
Desde 1929, quando do cinquentenário de Stalin, o culto já tomara proporções até então
desconhecidas. Iria ainda mais longe, sempre mais. até alcançar níveis inimagináveis,
dificilmente concebíveis para os observadores que se situem fora e longe daquele momento. Na
exata medida em que se desagregava a sociedade, no turbilhão das metas e dos números, nos
planos quinquenais que se cumpriam em quatro anos, mesmo em suas variantes ótimas,
naquelas areias movediças em que se tinha tornado a União Soviética, naquele caos,
potencializou-se a figura de um centro personalizado. Naquela aparente desordem, havia um
princípio de ordem: Stalin, o chefe incontestado, infalível, o maquinista da locomotiva da
história, o Lenin de nossos dias, o chefe das classes operárias do mundo inteiro, o gênio
incomparável da nossa época, o maior homem de todos os tempos e de todos os povos… Como
um antigo imperador asiático, raro aparecia. Mas era onipresente. Como um dirigente máximo
de uma nação moderna, trabalhava intensamente no controle de todos os dossiês mais
importantes, bem informado. Mas não descurava dos detalhes, porque deles dependia muitas
vezes o sucesso das grandes decisões. Incansável, ponderado, sempre enérgico, quando assim
exigiam as circunstâncias, implacável, se fosse o caso. Entre tantas figurações, incontáveis,
havia uma que tinha a força das coisas simples, e dava um quadro da época: era um lâmpada
acesa, num gabinete do Kremlin. Nas escuras noites de Moscou, mesmo quando todos
dormissem, sabia-se que aquela luz mantinha-se viva, um símbolo. E assim, nas angústias e
aflições que cercavam o parto do novo mundo que surgia, todos podiam ficar tranquilos, aquela
luz não se apagava: Stalin velava.
Não se pense que o movimento de admiração, o culto a personalidade do chefe, infectou
apenas os simples de imaginação. Doutores e filósofos, intelectuais refinados, grandes chefes e
dirigentes políticos e militares, pragmáticos, também prestaram reverência. E revolucionários
de todo o mundo, homens provados na audácia, nas travessias do sacrifício e no enfrentamento
sereno da morte, tinham nele, no chefe máximo, em Stalin, a referência-guia, o modelo, o
estímulo, o consolo.
E, em círculos mais amplos, a espiral atingia até mesmo os adversários, os críticos, os
inimigos, numa cascata de elogios e reconhecimento.
Assim, os mitos da defesa, da modernização e da providencial personalidade do chefe,
enfeixados, reelaborando e reatualizando antigas tradições, impregnaram a sociedade,
mobilizaram e agregaram as vontades, como forças gravitacionais, positivas, deuses da vida.

O TERROR: REPRESSÃO E MOBILIZAÇÃO

Entretanto, ao lado deles, do outro lado, desempenhando um papel igualmente decisivo, a


esconjuração das carências e dos desvios, a identificação dos bodes expiatórios, a demonização
do inimigo, os deuses da morte, o Terror.
No contexto da Revolução Russa, e desde 1918, o Terror, vermelho, foi um recurso ampla e
abertamente utilizado, logo após a insurreição vitoriosa de outubro e, particularmente, nos anos
da guerra civil, em oposição ao outro Terror, branco, contrarrevolucionário. E, no entanto, em
seus inícios, como quase sempre, os revolucionários vitoriosos tinham sido relativamente
generosos. Chegaram mesmo a soltar para a liberdade generais tzaristas, e disso se
arrependeriam, pois eles voltariam comandando exércitos, para matar a revolução.
Os atentados à vida de dirigentes bolcheviques, entre os quais o que quase custou a do
próprio Lenin, em julho de 1918, deram a senha que oficializou a generalização da violência. A
odisseia da temível Comissão Extraordinária para o Combate à Contrarrevolução e à
Sabotagem, a Tcheka. Os julgamentos expeditivos, os tribunais que instruíam, julgavam,
sentenciavam e executavam; o uso da tortura, os fuzilamentos em massa de reféns e
prisioneiros. A carnificina da família imperial foi o símbolo mais evidente desta fase, a indicar
que os mais altos personagens não estavam livres da longa mão do Terror. Seu primeiro chefe,
depois patrono, F. Dzerjinski, resumiu o horror daquelas práticas ao admitir que a elas só
podiam aderir, e nelas sobreviver, os santos e os canalhas.
Com a NEP, a espada do proletariado seria embainhada?
Pelo menos, desde 1922, mudou de nome, parecendo institucionalizar-se: Administração
Política Unificada do Estado (OGPU). O caráter extraordinário da Tcheka seria revisto? A
aprovação dos primeiros códigos e uma certa valorização das normas jurídicas indicavam este
rumo, apropriado em tempos de trégua. A exceção deixava de ser a regra, embora certas
instâncias, como a do partido, continuassem existindo acima, ou fora, das regras. Ou com suas
próprias regras.
Foi exatamente neste âmbito, o do partido bolchevique, agora único, que começaram
imediatamente, desde 1921, as primeiras operações de depuração, ou de expurgo, ou, como os
bolcheviques as chamaram, de limpeza (do verbo russo tchistit: limpar, purificar).
Impressionaram pela amplitude, atingindo dezenas de milhares de pessoas, reduzindo os
efetivos partidários. Aparentemente, o processo foi despolitizado: procurou-se apenas
marginalizar elementos desclassificados, acusados de vícios comuns: arrivismo, alcoolismo,
corrupção etc. Aderir ao partido não significava mais optar por uma vida de riscos e de
sacrifícios. Ao contrário, o partido tornara-se a principal avenida de acesso ao poder e às
benesses, em todos os níveis. Era preciso, portanto, defendê-lo, limpá-lo da escumalha.
Instaurou-se um clima de medo, de insegurança, de delação. Os militantes foram chamados, em
cada célula, a identificar os desviados e a indicá-los à execração, expulsando-os. Um tremendo
abalo, inclusive porque, naquelas proporções, se tratava de um processo inédito. Depois, a
calma. Ao longo da NEP, os efetivos partidários retomaram lentamente uma curva ascendente,
recuperando, por volta de 1927, os patamares do fim da guerra civil. Entretanto, periodicamente
desde 1921, embora em menor escala, ocorreram processos de limpeza, pequenos
estremecimentos, como que preparando e anestesiando um corpo para cirurgias maiores. Não
chegara ainda o momento da colheita, mas não se deixava de semear.
Quanto à sociedade, dois grandes impactos repercutiram nos inícios do I Plano Quinquenal,
em 1928 e 1930, respectivamente: os processos das minas de Chakhty e do Partido Industrial.
No primeiro, mais preciso, um grupo de engenheiros foi acusado de sabotagem. Apontados à
ignomínia pública, vários foram condenados, seis, fuzilados. Um tumor: descoberto e lacerado.
O segundo já tomou proporções inusitadas. Centenas de quadros dirigentes, técnicos, eram
agora flagrados numa conspiração maior, de estranhas ramificações, envolvendo empresas
internacionais, estados-maiores estrangeiros e aventureiros de vida obscura. Mobilizações
sociais, confissões em cascata, novos fuzilamentos. Era preciso aperfeiçoar a vigilância. O
inimigo faria de tudo para impedir o sucesso do Plano. Ele estava de volta, solto, mas
camuflado, infiltrado, espreitando.
Para contê-lo e destruí-lo, o Terror voltou com toda força, e em todas as direções.
De modo geral, chamaram e magnetizaram a atenção, inclusive da opinião pública
internacional, os chamados Grandes Processos de Moscou, obra de investigação do NKVD —
Comissariado do Povo para o Interior, nova sigla (desde 1934), para atividades que se tornavam
familiares. Entre 1936 e 1938, em três versões, liquidaram a maioria dos altos dirigentes da
revolução de 1917.
O primeiro, entre 19 e 24 de agosto de 1936, teve 16 acusados, entre eles G. Zinoviev, L.
Kamenev, G. Evdokimov e I. Bakaiev, todos condenados à morte e imediatamente executados.
Menos de seis meses depois, o segundo, entre 23 e 30 de janeiro de 1937, com 17 acusados,
entre os quais, I. Piatakov, G. Sokolnikov, L. Serebriakov, K. Radek: 13 condenações à morte e
4 pesadas penas de prisão. Finalmente, o terceiro, entre 2 e 13 de março de 1938, envolveu 21
acusados. No banco dos réus: N. Bukharin, A. Rykov, N. Krestinsky, C. Racovski, G. Iagoda:
18 condenações à morte e três longas penas de prisão.
Aí estavam incluídos partidários das diversas oposições que se haviam formado desde os
tempos da guerra civil: da oposição operária à tendência de Trotski e de Preobrazhensky, dos
partidários de Kamenev e Zinoviev aos que se alinharam com Bukharin. Era preciso quebrá-las,
a todas, extirpando suas raízes. Os que já estavam no exílio eram condenados sem julgamento e
assassinados, como Trotski, abatido em agosto de 1940, no México, pela mão longa do NKVD.
Processos públicos, abscessos de fixação, verdadeiros circos romanos. Quase que
exclusivamente baseados nas confissões dos acusados, foram acompanhados por toda a
população, mobilizada em comícios e manifestações. Os inimigos do povo tinham ido longe
demais, alcançando até mesmo as mais altas esferas do partido e do Estado, conspirando em
complexas tramas e em sofisticadas organizações com as potências capitalistas. Sabotagem
econômica, espionagem, tentativas de assassinato, golpes de Estado, pérfidas consciências, que
a inveja e o despeito de derrotados tinham levado para o campo da reação e da traição. Agentes
contrarrevolucionários pagos, cães enraivecidos, indignos de pena, as massas exigiam e
imploravam sua perda.
Os comunistas de todo o mundo surpreendiam-se, mas não duvidavam. A imprensa
internacional duvidava, mas não se surpreendia. E fazia bater com força todos os instrumentos
da propaganda: aquilo tudo era a mais pura expressão do regime socialista. Na contracorrente,
os inconformados de sempre denunciaram a enormidade, contestaram o princípio de as
confissões, visivelmente extorquidas, serem tomadas como provas, uma tradição do Antigo
Regime. Investigando por conta própria, evidenciaram a falsificação de fatos e versões. Vozes
no deserto, desqualificadas pela inocência dos que não queriam saber e pelo interesse dos que
tudo sabiam. O Estado soviético alegaria que, ao colocarem em questão a pátria do socialismo,
faziam, objetivamente, o jogo do inimigo.
Mas os grandes processos foram apenas a ponta de um colossal iceberg.
Na verdade, desde o abandono da NEP, o Terror abateu-se sobre a sociedade inteira. E
apanhou em sua sinistra rede, em todos os níveis, todas as classes e categorias sociais.
Vitimou os camponeses ao longo da coletivização forçada, agrupando pela força a maioria e
deportando para regiões longínquas centenas de milhares de pessoas, negadas como pessoas,
privadas de direitos, quando não da própria vida. Servos modernizados dos kolkbozes e/ou
amesquinhados nos pequenos lotes onde lhes era lícito cuidar do seu miserável quinhão, os
camponeses seriam apenas, e para sempre, e no melhor dos casos, como já se disse, cidadãos de
segunda classe.
Acuou operários, destroçando suas principais linhas de defesa. O Código do Trabalho,
vigente no período da NEP, que atribuía aos sindicatos o seu tradicional papel de defesa dos
interesses imediatos dos trabalhadores, foi revogado, abrindo espaço para uma legislação
draconiana e para uma série de decretos antioperários, restringindo direitos e criminalizando
com terrível severidade qualquer tipo de falta.
Desde 1931, as vantagens sociais passaram a se vincular à duração do tempo de trabalho.
Apertaram-se as medidas de controle sobre o deslocamento das pessoas: além do passaporte
interno, instaurou-se a obrigação de todos os cidadãos se registrarem no posto policial mais
próximo da residência (a propiska). Em 1932, entrou em vigor uma severa lei contra o
absenteísmo e passaram a ter vigência novas normas, estabelecendo o salário por peça. Além de
um novo Código Penal, criminalizando faltas cometidas na produção. Assim, a transgressão do
contrato de trabalho passou a ser passível de dois a quatro meses de prisão. Pequenos furtos e
problemas de alcoolismo também eram punidos com cadeia. A ausência injustificada, sujeita a
multas e a trabalho suplementar. Num plano mais geral, a pena de morte incidirá para os
maiores de 12 anos. E ainda restabeleceram o espectro, mais um que vinha dos tempos tzaristas,
da responsabilidade coletiva, da solidariedade penal familiar. Pelo crime pagavam os que
praticavam a ação criminosa, seus cúmplices e os que dela sabiam, ou deviam saber.
Neste quadro, os sindicatos, transformados em correias de transmissão, cuidaram cada vez
mais, e progressivamente, da produção e da disciplina.’ Suas funções básicas: mobilizar os
trabalhadores para garantir as metas do Plano e gerenciar o sistema assistencial. Para que, e
como, iriam os trabalhadores lutar contra o seu Estado? Coerentemente, as greves passaram a
ser punidas com penas de prisão não inferiores a um ano, com confisco parcial ou total de bens,
de acordo com a gravidade do caso. Em certos casos, previa-se o fuzilamento. A estrutura
triangular de comando das empresas, baseada na representação do partido, dos operários e da
gerência, que teve alguma força enquanto durou a NEP, embora mantida formalmente, tendeu a
esvair-se enquanto instância de poder.
O princípio da direção única (edinonatchalie) generalizou-se, com os chefes investidos de
poderes discricionários, impostos de cima para baixo, responsáveis apenas perante as
autoridades superiores que os haviam nomeado. L. Kaganovitch apreciava uma fórmula que fez
escola: “Quando o diretor de uma fábrica adentra o recinto de trabalho, o chão deve tremer.” E
tremia mesmo. Até para mudar de local de trabalho, dependia-se do chefe, do seu
consentimento. Era ele que guardava em suas mãos a preciosa carteira de trabalho, instrumento
indispensável para a obtenção de qualquer emprego. As anotações registradas podiam
determinar ou selar um destino.
O Terror não poupou as nações não-russas. Golpeou profundamente, e sobretudo, a
Ucrânia, vitimada por terrível fome no início dos anos 30, sangrada em sucessivas operações de
limpeza. Mas também as repúblicas do Cáucaso e a Bielo-Rússia. Por toda a parte
desencadearam-se operações de limpeza contra elites políticas e administrativas nacionais não-
russas, acusadas de desvios nacionalistas e chauvinistas, incapazes de incorporar as
perspectivas internacionalistas próprias do socialismo. A ejovschina, do nome de N. Ejov, chefe
da NKVD e sucessor de Iagoda, daria impulso à utopia uniformizadora do homo sovieticus.
E eliminou milhares de quadros superiores da sociedade. Em nome das exigências de uma
suposta ciência proletária, estabelecendo uma coleção de normas padronizadas de expressão,
castrando a criatividade e a liberdade de pesquisa e discussão. Sofreram particularmente as
ciências humanas, responsáveis pela elaboração crítica a respeito da própria sociedade, a
história, principalmente a história contemporânea, firmemente controlada pelo partido, seu
intérprete por excelência, mas a sombra dos controles e da censura se estendeu por sobre o
conjunto das atividades científicas.
Com o tempo, e considerando a imprescindibilidade do concurso de tantos cérebros
desterrados, a polícia política criou condições, nos próprios campos de prisioneiros, para o
prosseguimento de linhas de pesquisa científica. Não poucas invenções e descobertas foram
realizadas por ilustres detentos…
Foi um tempo difícil para a cultura e para as artes em geral. O entusiasmo e a criatividade, a
imaginação e o delírio com que muitos artistas haviam aderido à revolução, trabalhando
ativamente nas seções de agitação e propaganda (agit-prop) durante a guerra civil, a relativa
floração de iniciativas e de tendências que ainda persistiram enquanto durou a NEP, deram
lugar, a partir dos anos 30, a associações nacionais rigidamente centralizadas, controladas de
perto pelos órgãos dirigentes do partido, agrupadas e uniformizadas pela nova doutrina oficial:
c realismo socialista. Os artistas passaram a ser convidados a descrever de um modo positivo as
características dos povos soviéticos, os desafios enfrentados pela sociedade, as perspectivas que
se abriam para o futuro. Aos descontentes e insatisfeitos restou o caminho da marginalização.
Quando não eram vítimas das operações de limpeza. Ou então se antecipavam, retirando-se da
vida ativa, pelo silêncio, ou da vida simplesmente, pelo suicídio. Os dos poetas S. Essenin, em
1925, e V. Maiakovski, em 1930, terão sido sombrias advertências, escolhas determinadas por
avaliação angustiada e pessimista dos tempos que haveriam de vir. Retomava-se o caminho do
exílio. Promessas de dissidência (R. Medvedev, 1972).
Também não escaparam as Forças Armadas, dizimadas em seus quadros superiores, quando
foram condenados experimentados oficiais em todos os níveis, abrindo claros insanáveis e que
enfraqueceram profundamente a capacidade de defesa da URSS no início da Segunda Guerra
Mundial.
O grande processo, neste âmbito, realizou-se a portas fechadas, em maio-junho de 1937.
Condenou à morte, por traição e espionagem, o marechal M. Tukhatchevski e mais sete
generais, entre os quais I. Iakir, I. Uborevitch, R. Eideman, V. Putna e A. Kork. Em dois anos, a
limpeza alcançou três dos cinco marechais, 13 entre 15 comandantes de exércitos, 11 vice-
comissários da Defesa, 75 dos 80 membros do Conselho Militar Supremo, 57 em 85 chefes de
corpos de exércitos, 110 em 195 comandantes de divisão, 35 mil dos 80 mil oficiais (A.
Nekritch, 1968).
Nem no próprio partido havia segurança. Altos dirigentes, direções intermediárias,
secretários de células, simples militantes, eram objeto de sucessivas operações de limpeza.
Dos 1.966 delegados ao XVII Congresso do Partido, em 1934, 1.108 foram atingidos até
1938. O Comitê Central eleito em 1934 tinha 139 membros. Nada menos de 98 desapareceram
nas limpezas realizadas. Nos níveis intermediários e de base houve proporções semelhantes.
Até mesmo quadros dirigentes de primeira linha, identificados, desde o início, com a orientação
geral da revolução pelo alto, como V. Tchubar, R. Eikhe, S. Kossior, I. Rudzutak, P. Postychev,
todos membros do Bureau Político, foram sugados por um processo que parecia ter saído de
controle. Sem contar o misterioso assassinato de S. Kirov, ainda não devidamente esclarecido.
E os suicidados e enfartados: M. Tomski, V. Kuibichev, S. Ordjonikidze.
A destruição da memória, e a resultante quebra na transmissão de saber e experiência,
correspondeu a uma transferência de poder para a órbita do Estado e tendeu a fazer do Partido
Comunista um aglomerado com iniciativa e influência limitadas, com dirigentes nomeados
pelas instâncias superiores, só perante elas responsáveis. Atrofiou-se, em consequência, a
capacidade de iniciativa dos quadros e militantes. O insuspeito chefe da Administração da
República russa no começo dos anos 30, S. Syrtsov, assim se referiu ao processo de
desvitalização em curso: “Prendemos as mãos e os pés de um homem com toda a espécie de
regras; o empurramos para dentro de uma garrafa, fechamos com uma rolha e colamos uma
etiqueta do governo. E, então, começamos a reclamar: por que este homem não mostra
nenhuma energia ou iniciativa?” (M. Lewin, 1985).
O enfraquecimento do partido como instância de poder pode ser evidenciado no singelo fato
de que o Congresso partidário, reunido em 1939, só voltou a ser convocado em 1952. Treze
anos, dois congressos. A comparação com os anos críticos das revoluções e da guerra civil não
resiste à análise: entre 1917 e 1921, cinco anos, igual número de congressos. Sem falar na
qualidade dos debates. Antes, o campo do contraditório, das acerbas polêmicas, das votações,
muitas vezes apertadas. Depois, os discursos formais, o reino monótono das votações unânimes.
Nem o Comitê Central escapou. Na teoria, conservou-se como máxima instância executiva, na
prática simplesmente deixou de ser convocado por longos anos.
As perdas envolvidas, como contabilizá-las? Em relação ao partido, bá controvérsias. No
capítulo “O apogeu do stalinismo”, procederemos a este debate com números atualizados,
colhidos nas estatísticas disponíveis pela recente abertura de arquivos. O que importa aqui é a
menção a uma determinada qualidade de atmosfera, pesada, em que ninguém estava a salvo.
Nenhuma categoria social. Do mais alto dirigente ao simples cidadão, todos encontravam-se à
mercê da espada do proletariado, agora novamente desembainhada.
O Terror deteve, impediu, controlou, inibiu. São as facetas mais visíveis e conhecidas, mas
não as únicas. Talvez, não as mais importantes.
Porque o Terror também coesionou, pelo medo, e mobilizou, no exercício da perseguição e
da delação, e em escala frenética, uma sociedade carente, que não sabia, ou não queria saber, ou
estava cansada de saber, das razões dos problemas, e que precisava, por isso mesmo, encontrar
bodes expiatórios para tantas dificuldades cotidianas.
A espionite. A caça aos contrarrevolucionários enrustidos: detectá-los e desmascará-los. As
reuniões, manifestações, assembleias, as intermináveis discussões, em todos os níveis da
sociedade, com o intuito de desmascarar os sabotadores, os agentes encapuzados, a soldo dos
inimigos. A atenção, os cuidados.
Em suma, o Terror não pode ser avaliado apenas como atividade da polícia política e das
agências estatais. Vitimizando a sociedade, pelo alto, o Terror é também obra da sociedade, em
movimento, mobilizada (N. Werth, 1984). Uma destruição construída, socialmente. Na célula, o
militante que delatava as obscuras relações de um companheiro com antigas oposições. Na
fábrica, o operário desconfiado que apontava um colega por negligência, um sabotador. Na hora
de fazer a lista de acusados, a secretária que acrescentava um nome, desafeto pessoal, elevado,
ou rebaixado, à condição de inimigo do povo. E assim, em círculos concêntricos, o
contramestre que acusava o diretor, e era por este denunciado, o suboficial que percebia o
oficial em atos não muito claros, os vizinhos que se miravam, as amizades que se tensionavam.
Até na família instaurou-se um clima de suspeita com a consagração simbólica do filho que
não vacilou no cumprimento do dever de vigilância e denunciou o próprio pai, virando herói do
movimento dos pioneiros. Nem a fuga, este último recurso do desespero, era possível,
sancionada com a morte, caso fosse abortada a tentativa. Quanto aos que se abstivessem de
denunciá-la, considerados cúmplices de alta traição, ajustariam as contas com o Estado na
cadeia.
Desdobrando-se em ambiguidades, com as grandes foices, o Terror inibia mas ativava. E era
duplamente democrático.
De um lado, porque alcançava a todos, indistintamente. Todos, com efeito, estavam ao
alcance de seu longo braço. Assim é possível entender o júbilo que precedia e acompanhava a
queda de dirigentes das administrações e das empresas, tiranetes quase sempre detestados,
periodicamente removidos. E o ódio (apenas orquestrado?) que transbordava das manifestações
e comícios, clamando pelas cabeças coroadas. O caráter popular do Terror exprimiu-se numa
dinâmica formalmente antiburocrática, da qual só estava livre o Grande Tirano.
De outro lado, o Terror era ainda democrático quando se constituía na única forma de
promoção de mudança nos postos de direção. Foi apenas em virtude do Terror, graças a ele,
que, em fins dos anos 30, pôde aceder ao centro do palco a geração dos N. Kruchev, A.
Kossiguin, L. Brejnev, A. Gromiko, L. Kaganovitch, A. Mikoyan, A. Andreev, A. Jdanov. Em
1939, 80,5% dos secretários regionais e 93,5% dos secretários locais haviam ingressado no
partido depois de 1924. Mais de 90% eram apenas adolescentes no ano vermelho de 1917.
Renovação, mobilidade. Uma sociedade fechada, mas aberta.
Como formação política e teórica, estes homens terão o manual da história do PCUS e
alguns textos de Stalin. Inexperientes mas cheios de vida e determinação, com invulgar
capacidade de trabalho, organizadores, criaturas do sistema, autores, homens em condições de
“cumprir qualquer ordem do camarada Stalin!”.
E assim, contra todas as expectativas, se fez um imenso país, uma superpotência,
modernizada, “construindo uma modernidade própria, e contraindo no processo algumas
patologias mórbidas” (M. Lewin, 1985).
Um perfil, um modelo, um universo.

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1 Antiga unidade de peso, equivalente a mais ou menos 58 quilos.
A URSS e a Segunda Guerra Mundial: a Grande Guerra Pátria
(1941-1945)

A GUERRA DA ALEMANHA NAZISTA contra a União Soviética teve início na


madrugada do dia 22 de junho de 1941. Desencadeava-se a chamada Operação Barba Ruiva,
com o objetivo de destruir rapidamente as forças militares soviéticas e atingir, ainda antes do
fim do ano em curso, uma linha imaginária entre o Volga, no centro e no sul, e a cidade de
Arkangelsk, ao norte. Segundo os planos nazistas, seriam aniquiladas a frota do Báltico, a
maior parte das tropas soviéticas, cuja retirada seria impedida, tomadas as principais cidades e
regiões da Rússia Ocidental, inclusive Leningrado e Moscou.
Mais uma blitzkrieg, agora em escala muito mais vasta do que todas as anteriores guerras de
movimento desfechadas pelo Reich, desde 1939. Ataques rápidos, envolventes. Pelo ar, a
tentativa de arrasar, de saída, a capacidade da aviação militar inimiga. Por terra, o avanço
impetuoso das colunas blindadas e mecanizadas, na conquista frenética de espaços.
Os resultados iniciais foram espetaculares, além das previsões mais otimistas: em pouco
mais de uma semana, os alemães haviam tomado Minsk, e menos de um mês depois já estavam
em Smolensk, a apenas 250 quilômetros de Moscou.
Os russos, surpreendidos, colheram duras derrotas. Forças desbaratadas, esmagadas, aviões
despedaçados em terra, civis em fuga. Entre os que tiveram um mínimo de condições, as
atitudes habituais diante destas circunstâncias: a resistência desesperada e, quando foi possível,
a retirada organizada. Entre os não-russos, sobretudo nos chamados novos territórios, ou seja,
recentemente anexados, como nos países bálticos, no leste da Polônia e na Bessarábia, não foi
raro ver a população receber os invasores com neutralidade ou, em alguns casos, até mesmo
com simpatia. O mesmo aconteceu em algumas regiões no ocidente da Ucrânia e ali onde o
processo de coletivização e os atos arbitrários e desmandos correlacionados tinham se
verificado de forma mais crua.
A guerra entre a Alemanha nazista e a União Soviética durou quase quatro anos. Numa
primeira fase, de junho de 1941 a março de 1942, houve a grande ofensiva alemã para tomar e
destruir a capital soviética, Moscou. A segunda fase, da primavera de 1942 a fevereiro de 1943,
foi o tempo do ataque em direção ao Volga e ao Cáucaso: a cidade-chave agora era Stalingrado.
A reviravolta, iniciada então, com a vitória soviética, seria confirmada pela batalha de Kursk no
verão de 1943. A partir daí, e até Berlim, ninguém deteria os russos. Ao longo de todas estas
fases, os nazistas estiveram cercando Leningrado, reduzindo-a a um monte de escombros e
mortes, sem conseguir dobrá-la.
Quatro momentos, quatro nomes, emblemáticos: Leningrado, Moscou, Stalingrado e Kursk.
Estas cidades, as lutas em torno delas e por elas, contam a história da guerra germano-soviética.
Leningrado, ao norte, foi logo no início atacada. Percebendo que ali haveria uma resistência
encarniçada, os alemães preferiram avançar, deixando-a cercada. Resolveram estrangular os
habitantes com paciência e método. A batalha por Leningrado passou a ter mais um valor
simbólico — o que não deixava de ser importante — do que estratégico: era a cidade batizada
com o nome do fundador da república soviética, o berço da revolução.
A cidade resistiu ao cerco durante 29 meses, quase 900 dias, sem interrupção. Cerca de 1
milhão de mortos. Havia um corredor único, por sobre o gelo, o caminho da vida, através do
qual víveres e munições eram encaminhados aos sitiados. No mais, rações de sobrevivência e
uma decisão enlouquecida de resistir até o fim asseguraram o ânimo de uma cidade considerada
perdida. Quando, afinal, já em 1944, foi possível desapertar o abraço nazista, a cidade estava
em ruínas, traumatizada, despovoada, mas não vencida.
A seguir, Moscou, no centro da Rússia, a tradicional capital da ortodoxia cristã,
reconvertida em capital da revolução mundial pelos bolcheviques desde 1918, sede do poder
comunista. Desde outubro de 1941, quando Goebbels, ministro alemão da propaganda, declarou
que a guerra estava prestes a terminar, Moscou estava numa situação bastante delicada. Em
consequência, arquivos, instituições e famílias ilustres chegaram a ser transferidos para leste,
em busca de uma outra linha de resistência. Um começo de pânico desenhou-se. Mas, numa
reviravolta surpreendente, conseguiu-se deter uma última ofensiva alemã para capturar a
cidade, em novembro de 1941.
Uma série de circunstâncias contribuiu para este sucesso decisivo: de um lado, uma vontade
obstinada de resistir, sem a qual nenhuma vitória teria sido possível. A reunião em que se
comemorou, nos subterrâneos do metrô de Moscou, na estação Maiakovskaia, o 24° aniversário
da revolução, na noite de 6 para 7 de novembro de 1941, na presença de Stalin, coesionou as
elites do partido e do Estado. No dia seguinte, caindo a neve, o desfile aberto, ao som de gritos
de guerra na Praça Vermelha, as tropas saindo diretamente do desfile para as trincheiras e para
as linhas de combate, deu impulso e moral à população da cidade e do país. Moscou não podia
cair. Era preferível vê-la totalmente arruinada, mesmo porque, no caso de uma rendição, não era
outro o destino que o inimigo lhe reservara.
A cidade resistiu com êxito igualmente pela capacidade de organizar um comando eficiente,
de mobilizar reservas descansadas, equipadas com armas e vestuário adaptados ao terreno, ao
frio glacial, às condições prevalecentes de um inverno terrivelmente duro. No lado oposto, os
alemães estavam exaustos, com armamentos e uniformes inadaptados, linhas de abastecimento
demasiadamente estendidas, sem reservas, um princípio de dúvida na costumeira arrogância. Os
russos salvaram sua querida cidade. Em março, a frente de combate estabilizou-se a algumas
dezenas de quilômetros a ocidente. Os alemães não retomariam a ambição de tomar a capital
soviética.
A partir da primavera de 1942, os nazistas mudaram de alvo. Visariam agora o Volga, as
terras férteis do norte do Cáucaso e a região petrolífera de Baku. No caminho, uma cidade-
chave: Stalingrado. Com o nome do chefe máximo soviético, a cidade tinha um valor simbólico
equivalente, nas circunstâncias, ao de Leningrado.
O Volga foi avistado pelos nazistas desde agosto. A batalha engajou-se. E durou até o início
de fevereiro de 1943. O maior entrevero da Segunda Guerra Mundial. Em seu momento
culminante, em novembro de 1942, lutaram pouco mais de 2 milhões de soldados de ambos os
lados (1,106 milhão de russos e 1,011 milhão de alemães). Não foi um enfrentamento entre dois
exércitos regulares apenas. Ou entre duas propostas de sociedade. Foi uma guerra pela
sobrevivência. Os dois contendores, olho no olho, cada um dos quais nutrindo pelo outro ódios
ancestrais, alimentados pela tradição oral de poemas, relatos e canções, pelos discursos das
autoridades e pelos livros de história, reatualizados pelos horrores do momento.
O caráter elementar e essencial de uma luta.
De parte a parte, a perspectiva absolutamente desesperada de prevalecer a qualquer custo.
Se perdessem Stalingrado, os russos sabiam que, de todo modo, estariam perdidos. E os
alemães, em caso de derrota, intuíam que desceriam um plano inclinado sem retorno, de volta a
Berlim. E aí conheceriam o reverso da medalha da pura brutalidade que, até então, estavam
impondo aos povos que dominavam.
Daí a utilização de todos os recursos disponíveis. Todas as armas e artimanhas. Do
canhoneio e do bombardeio à distância ao combate a faca e a baioneta, corpo a corpo, centenas
de milhares de homens, mulheres e crianças transformando a cidade num verdadeiro inferno de
ruínas, de ferro retorcido, de cimento incandescente, onde a disputa de cada casa, de cada
fábrica, de cada palmo de terreno era objeto de tomadas e de retomadas, seguidamente
mudando de mãos, e mais uma vez de mãos mudando, num torvelinho de chamas, fumaça e
fedor, matanças e explosões ensurdecedoras, em atrocidades de que só os seres humanos seriam
capazes. Num certo momento, era como se fugissem da cidade até os cães e os ratos, todos os
animais. Ficaram apenas os russos e os alemães.
Quando os russos, afinal, venceram, fizeram cerca de cem mil prisioneiros. E apreenderam
vasto equipamento militar. Mas estes números não tinham a menor importância diante do
caráter simbólico da vitória. Mais tarde, tornou-se muito claro que ali começara a grande
reviravolta. Após Stalingrado, a Segunda Guerra Mundial tinha mudado de rumo. O começo do
fim da besta nazista.
E ainda houve Kursk, uma espécie de confirmação em aço do que fora obtido em carne e
sangue, alma e coragem, em Stalingrado. A nova batalha começou em 5 de julho de 1943, numa
língua de terra, espichada para dentro das linhas alemãs, de 120 quilômetros de largura e 130
quilômetros de comprimento, o arco de Kursk. Os alemães concentraram cerca de 1 milhão de
soldados, milhares de peças de artilharia, tanques e aviões para o que seria a revanche de
Stalingrado. Já os russos prepararam 8 linhas de defesa, numa profundidade de 250-300
quilômetros. O principal enfrentamento, em torno da aldeia de Prodjorovka, chegou a reunir
cerca de 1.200 tanques de ambos os lados. Alvejaram-se mutuamente, até a exaustão e à
queima-roupa. No conjunto, a batalha durou menos de uma semana. Quando os russos
venceram mais uma vez, as últimas ilusões de um eventual triunfo nazista dissiparam-se. A
guerra ainda iria durar, seria terrivelmente cruenta, mas já tinha vencedores e vencidos
definidos.
Depois de Kursk, os exércitos soviéticos tomaram a iniciativa estratégica, para não mais
perdê-la, e se transformaram em rolo compressor. No início de 1944, já em março, na frente sul
as fronteiras de 1939 tinham sido alcançadas. A reconquista de Sebastopol deu o tom do novo
curso da guerra: levara 220 dias para cair, mas foi retomada em apenas 5 dias de combates.
Seguiu-se a penetração rápida, começando pela Romênia, nos países da Europa Central. Em
agosto deste ano, os russos já estavam em território alemão, na Prússia Oriental. A agonia durou
ainda quase um ano, até 2 de maio de 1945, quando os alemães, já tendo perdido Berlim,
solicitaram o armistício. A rendição incondicional, conforme exigência dos Aliados, foi
assinada em 8 de maio.
Para derrotar o nazismo uma poderosa coalizão se formara, reunindo as forças da União
Soviética, dos Estados Unidos da América do Norte e da Inglaterra. Entretanto, havia poucas
dúvidas em relação a que país suportara o maior fardo durante a guerra.
As estimativas das perdas humanas oferecem um quadro incontestável. Embora cada ser
humano não tenha equivalente e seja um universo em si mesmo, perdas diferenciadas num
conflito armado afetam de modo diverso as sociedades envolvidas, sobretudo quando
ultrapassam determinados patamares críticos. Ora, enquanto a União Soviética perdeu cerca de
20 milhões de habitantes, entre civis e militares, Estados Unidos, Inglaterra e França, reunidos,
tiveram perdas de cerca de 1,3 milhão de pessoas. É uma diferença significativa, sobretudo ao
considerar-se que às baixas por morte se associaram, necessariamente, outras perdas, de difícil
mensuração, por invalidez permanente ou temporária, ou por traumatismos vários, próprios ou
de parentes próximos. Como contabilizá-los? Em meados dos anos 50, mais de dez anos após o
fim da guerra, muitas regiões na URSS ainda não haviam recuperado os níveis demográficos de
1940.
Quanto às destruições materiais, é difícil estabelecer um paralelo.
Os Estados Unidos não sofreram nenhum tipo de bombardeio, não tendo sido tocados
diretamente pelos horrores da guerra. Ao contrário. O parque industrial e as infraestruturas
correspondentes conheceram uma prosperidade sem igual, graças ao influxo das demandas
bélicas. A rigor, somente durante a guerra, e graças a ela, é que os EUA conseguiram superar os
nefastos efeitos da crise de 1929 e da depressão consequente. De certo modo, a guerra —
bendita guerra — salvou a economia norte-americana.
Inglaterra e França endividaram-se pesadamente. Perderam a condição de grandes potências
e sofreram consideráveis prejuízos materiais. Mas nada de comparável às destruições
provocadas pelos nazistas nas regiões soviéticas ocupadas. Cidades inteiras arruinadas,
milhares de aldeias arrasadas. Os soviéticos, após o conflito, classificaram 1.710 cidades e
cerca de 70 mil aldeias como destruídas, quase metade do espaço urbano, 1,2 milhão de
habitações urbanas e 3,5 milhões de habitações rurais gravemente avariadas ou simplesmente
riscadas do mapa. A infraestrutura de transportes e comunicações foi violentamente abalada:
perdas totais ou graves avarias foram registrados em 65 mil quilômetros de trilhos, 15.800
locomotivas, 428 mil vagões, 4.280 barcos e em metade de todas as pontes nos territórios
ocupados. O gado equino perdeu dois terços de seu estoque, o suíno quase 85% (A. Nove,
1990). E as fábricas, os implementos agrícolas, as barragens, as estradas… Nas regiões
ocupadas, os nazistas haviam destruído tudo de uma forma tão eficaz que, em 1943, depois de
libertada a Ucrânia, constatou-se que apenas 1,2% de seu potencial industrial anterior ao início
da guerra estava em condições de operação imediata.
Para o conjunto do país, os dados, em todos os níveis, não podiam ser mais sombrios.
Mesmo a agricultura, supostamente mais capaz de resistir à devastação provocada por um
conflito bélico moderno, inclusive por seus meios técnicos rudimentares, apresentava um
quadro desolador. Em relação à estratégica produção de cereais, decisiva para a alimentação do
povo, a área semeada reduzira-se, entre 1940 e 1945, em 25 milhões de hectares, cerca de 23%.
Além disso, e mais grave, a produtividade por hectare plantado caíra cerca de 35%. Em
consequência, os resultados das colheitas globais apresentavam queda de um pouco mais de
50%.
O mesmo quadro para os efetivos do gado. Em queda livre, em todas as categorias: bovinos
(menos de 20%), equinos (menos 50%), suínos (menos 30%).
As estatísticas industriais ofereciam também um quadro de conjunto preocupante, mesmo
que se incluíssem as regiões não ocupadas, que, além de não passarem por grandes destruições
físicas, conheceram, nas condições da guerra, um rápido progresso. Assim, em todos os setores
estratégicos — carvão, eletricidade, petróleo, aço, ferro, cimento, tratores, açúcar, têxteis —
registraram-se quedas e perdas, em números aproximados, de menos 10% (carvão) a menos
70% (cimento) e 80% (tratores).
Os dados estatísticos não medem com exatidão os fenômenos, são apenas índices. A vitória
fora conquistada a um custo extraordinariamente elevado. Incomensurável. Este custo marcaria
a sociedade por gerações, de uma forma irremediável, acrescentando traumas e patologias
inenarráveis.
A GRANDE GUERRA PÁTRIA: INTERPRETAÇÃO E POLÊMICAS

A guerra, terminada, deu início às polêmicas.


A vitória soviética, como interpretá-la? O discurso oficial, do governo, a tomou como
evidência da superioridade do sistema socialista soviético em relação ao nazismo e, de forma
geral, ao capitalismo. O que acontecera em Stalingrado não fora gratuito: exprimia as virtudes
de um sistema. Outros, de um outro ângulo, impertinentes, argumentaram que, se não fossem os
erros cometidos pelo governo, os nazistas talvez não tivessem promovido tantas devastações,
nem chegado tão perto de Stalingrado. E ainda haveria os que, do outro lado do mundo,
enfatizaram a contribuição dos Aliados, particularmente dos Estados Unidos. Por meio dos
empréstimos e doações, baseados nos acordos de lend-lease1 armas e munições, sem falar na
Segunda Frente, aberta em junho de 1944, no norte da França, teriam também desempenhado
papel decisivo na luta para abater o nazismo. Nesta linha de interpretação, sem os Aliados
ocidentais a URSS teria sido derrotada.
Nestas polêmicas, periodicamente reatualizadas, com novos dados e temas para debate, é
possível chegar a algumas avaliações e conclusões.
A primeira grande questão diz respeito às surpreendentes derrotas soviéticas na primeira
fase da guerra, quase levando ao seu prematuro fim, com a tomada de Moscou.
Já houve referência, acima, aos avanços espetaculares dos nazistas entre junho e novembro
de 1941. A URSS perdeu nestes poucos meses vastos territórios, responsáveis por 63% da
produção de carvão, 68% de ferro fundido, 58% de aço, 60% de alumínio, 84% do açúcar, 38%
dos cereais, 60% do gado suíno, além de 41% das ferrovias (A. Nove, 1990). Quando a
ofensiva alemã foi contida às portas de Moscou, a produção industrial totalizava apenas 51,7%
da produção de 1940. A recuperação se iniciou apenas a partir de março de 1942.
Drásticas perdas. Inevitáveis?
O discurso oficial, na época, atribuiu as primeiras derrotas basicamente à surpresa do ataque
(perfídia nazista) e à superioridade alemã (desenvolvimento objetivo das forças produtivas).
Com a morte de Stalin, a nova direção colegiada, sobretudo depois do informe secreto de N.
Kruchev, passou a jogar a responsabilidade sobre o ditador. Não sob sua direção, conforme
sempre dissera o discurso oficiai, mas apesar dela, o povo soviético tinha vencido.
Examinemos os argumentos.
Em 1941, de fato, a Alemanha nazista possuía superioridade industrial militar, dada não
apenas pelo seu potencial produtivo mas pelo de seus aliados, pelo dos países neutros com
quem mantinha florescente comércio e também pelo conjunto dos territórios ocupados e
avassalados. Assim, a civilizada Europa parecia entre inerme e fascinada diante do nazismo. De
armas na mão, apenas a Inglaterra resistia, isolada, à onda da suástica. Essas circunstâncias
conferiam aos nazistas maior força econômica e superioridade militar, quantitativa e
qualitativamente.
Mas não é possível alegar falta de conhecimento sobre o ataque. Nem atribuir as primeiras
derrotas apenas a responsáveis isolados, ou a Stalin.
Não deveria ter havido surpresa.
Com efeito, antes do início da ofensiva, ainda em 1941, redes de espionagem soviéticas
informaram com minúcias a respeito de movimentos e concentrações de tropas, preparando-se
para a Operação Barba Ruiva. O que seria confirmado por outras fontes, inglesas e norte-
americanas.
Mas o governo soviético não considerou estas informações. Preferiu vê-las como expressão
de manobras de contrainformação, de intoxicação, promovidas pelos serviços de inteligência
ingleses com o objetivo de afastar a URSS da Alemanha, ligadas diplomática, política e
militarmente pelo pacto germano-soviético de agosto de 1939, do qual falaremos adiante.
Na semana que precedeu o ataque nazista, não houve nenhuma preparação da sociedade,
sequer para a eventualidade do mesmo. Nada. Mesmo depois de iniciada a ofensiva, unidades
guarda-fronteiras receberam ordem para não responder àquilo que os chefes, em Moscou,
pensavam não passar de provocações. Assim, as primeiras medidas sérias de defesa foram
tomadas apenas várias horas depois da abertura, de fato, das hostilidades. O próprio Stalin teria
ficado atônito. Na realidade, só veio a público, mais de dez dias depois, em mensagem pelo
rádio, em 3 de julho, em que se pronunciou pela mobilização maciça da sociedade contra o
invasor.
Não deveria ter havido surpresa. Mas houve.
Como explicar o fato de que as informações sobre a invasão não tenham sido levadas em
conta? Para além da caça inútil a bodes expiatórios, trata-se de compreender a política que
orientava o Estado soviético e que permitiu negligenciar informações que se revelaram vitais
para a segurança e a sobrevivência do país.
É preciso recuar um pouco no tempo, até 1933, quando o nazismo ascendeu ao poder na
Alemanha.
Hitler tinha várias razões, todas elas devidamente explicitadas em sua obra magna, Minha
luta (Mein Kampf), e em sua carreira política, para querer a liquidação da URSS. De um lado,
era uma pátria de referência para os eslavos de todo o mundo, e para os russos em particular,
considerados, todos, sub-raças, a serem avassaladas pelos alemães. Os russos deviam morrer
para que os alemães sobrevivessem, este era um slogan banal entre os nazistas. De outro lado, e
mais terrível ainda, a URSS era a pátria da revolução comunista, incompatível com a doutrina
nazista. Finalmente, desde a revolução de 1917, segundo denunciavam os nazistas, haveria
cumplicidades entre judeus e comunistas. Era preciso extinguir uns e outros. Assim, o líder
nazista, tão logo assumiu o poder, cortou as cordiais e intensas relações diplomáticas,
comerciais, políticas e militares que a Alemanha até então mantinha com a URSS.
Diante da ameaça palpável, a URSS reorientou sua política de relacionamento com o
mundo capitalista, procurando isolar o nazismo. Enquanto, desde 1935, a Internacional
Comunista tentava mobilizar o movimento comunista para a constituição de frentes únicas
antifascistas em todo o mundo, inclusive renunciando, a curto prazo, a programas
revolucionários, o Estado soviético investiu na articulação de um sistema de alianças com a
França e a Inglaterra.
A opinião pública e as elites políticas oscilavam, nestes dois países. Havia pressões,
sobretudo na França, para que se operasse uma aproximação política com a URSS. Em sentido
contrário, forças não negligenciáveis simpatizavam abertamente com a alternativa fascista ou,
numa perspectiva pragmática e maquiavélica, pretendiam instrumentalizá-la contra o Estado
soviético. Aos poucos, uma alternativa conciliatória diante do nazifascismo foi predominando.
A política de não-intervenção diante da Guerra Civil Espanhola falou por si mesma. E foi
confirmada numa sequência de acontecimentos e atitudes: na passividade com que se assistiu à
anexação da Áustria, na conferência de Munique, em setembro de 1938, no abandono da
Tchecoslováquia, e, finalmente, em setembro de 1939, quando França e Inglaterra, apesar dos
tratados, nada fizeram pela Polônia, a não ser uma drôle de guerre2, apenas declarada, mas sem
consequências, gerando uma situação incerta. Não havia mais paz, contudo ainda não começara
a guerra.
A URSS, naturalmente, não assistiu passivamente ao jogo complexo em que se
combinavam a defesa dos valores democráticos e a sedução pelos Estados fascistas. Também os
soviéticos procuraram aproximar-se de Hitler, tentando jogá-lo contra os países capitalistas
ocidentais. Se isto fosse possível, os soviéticos poderiam assistir de palanque ao devoramento
mútuo dos capitalistas, uma velha ambição da política de coexistência pacífica inaugurada pela
NEP no início dos anos 20.
Os nazistas jogaram o jogo e fizeram seus cálculos. Para surpresa de muitos, acabaram
assinando um pacto com os soviéticos, em agosto de 1939. Um mês depois, um novo tratado,
de delimitação de fronteiras e de amizade. Na época apenas suspeitados, protocolos secretos
estabeleceram uma verdadeira divisão da Europa Central e Oriental em esferas de influência. A
Polônia foi partilhada. Os Estados bálticos (Lituânia, Estônia e Letônia), a Bessarábia e a
Finlândia, como nos tempos do tzarismo, voltariam à dominação de Moscou.
As denúncias anglo-francesas de que o eixo Berlim-Moscou estava prenhe de guerra e
voltado contra a liberdade e a democracia tinham fundamento mas não deixaram de ser
hipócritas, além de patéticas. Na realidade, a URSS fizera o que eles haviam tentado fazer, no
mínimo desde o acordo de Munique, em 1938, quando entregaram a Tchecoslováquia ao
nazismo; a rigor, desde a Guerra Civil Espanhola, quando a República espanhola foi
abandonada à sanha do franquismo, aliado explícito do nazifascismo.
Tranquila a leste, pelos tratados assinados, a Alemanha nazista teve liberdade de manobra
para atacar, arrasar e vencer a França em maio-junho de 1940. A verdade é que para esta
estranha derrota (M. Bloch) contribuíram os próprios franceses, muitos dos quais cultivavam
abertas simpatias pelo fascismo. Na sequência, todo o continente europeu foi avassalado,
restando apenas a Inglaterra, contra a qual se desencadeou uma grande ofensiva aérea.
A resistência inglesa, entretanto, surpreendeu. A besta nazista vacilou. Suspendeu os planos
de uma difícil e problemática invasão por mar, através do Canal da Mancha e, vagarosamente,
voltou sua enorme máquina militar contra a URSS.
Stalin e o governo soviético cometeram aí um grosseiro erro de avaliação. Arrimaram-se
nos pactos assinados com Hitler, superestimando os interesses econômicos envolvidos. Com
efeito, a partir de agosto de 1939, fora retomado, com a Alemanha nazista, o florescente
comércio estabelecido entre a URSS e a República de Weimar desde o início dos anos 20
(Tratado de Rapallo). Levaram a sério a divisão da Europa Central e Oriental em áreas de
influência. Imaginaram-na como um dado destinado ao longo prazo. Empreenderam, inclusive,
tentativas no sentido de consolidar e ampliar acordos diplomáticos.
Em consequência, a propaganda comunista, incluindo-se o conjunto dos partidos aliados,
concentrou o fogo em denúncias contra os imperialismos anglo-franceses, originadores de
guerras. Não se falava mais em fascismo. A palavra quase desaparecera do dicionário político
soviético.
Só voltaria a circular na tarde de 22 de junho de 1941… horas depois da invasão.
Decididamente, os soviéticos não quiseram compreender que os rumos da política nazista
estavam sendo, mais uma vez, alterados. Deixaram-se aprisionar nos termos dos acordos e,
sobretudo, nos dos protocolos secretos. Esqueceram-se de que, nas relações internacionais
presididas pela real politik, os tratados não passam de “tiras de papel” (Lenin). Podiam ser
rasgadas, como o foram, tão logo se alterasse a correlação de forças ou se redefinissem as
prioridades da política de cada país.
Assim, tenderam a confiar nos fundamentos de sua diplomacia e simplesmente não
acreditaram que uma nova reviravolta pudesse ocorrer. Logrados por suas convicções,
desarmados perante a hipótese de uma nova guerra, negligenciaram as informações que
anunciavam a iminência do ataque.
Daí a surpresa do 22 de junho.
Mas para a derrocada da primeira fase da guerra, até novembro de 1941, houve o concurso
de outras circunstâncias. Em primeiro lugar, a capacidade militar russa estava profundamente
abalada em virtude das extensas operações de limpeza, efetuadas na segunda metade dos anos
30 e que haviam aniquilado boa parte da alta oficialidade disponível. Quando da invasão
nazista, apenas 7% dos oficiais tinham diplomas de estudos militares superiores, 37% ainda não
haviam terminado seus estudos, 75% dos oficiais e 70% dos comissários políticos exerciam
funções há apenas um ano (A. Nekritch, 1968).
Por outro lado, a atmosfera geral prevalecente na sociedade não estimulava a iniciativa e a
capacidade crítica, essenciais para enfrentar as circunstâncias de surpresa, retirada e derrota. E
não se deve esquecer ainda, como já foi referido acima, a absoluta falta de entusiasmo das
populações recém-anexadas a ocidente e a insatisfação de todos os que tinham na memória as
brutalidades cometidas no processo de coletivização forçada.
E, no entanto, contrariando os mais pessimistas, foi possível resistir ao nazismo e vencê-lo.
Como compreender o fenômeno?
O discurso oficial atribuindo os méritos da vitória à genialidade do camarada Stalin não
sobreviveu muitos anos à sua morte. Depois de 1956, como já se disse, Kruchev chegou a
formular a proposição inversa: a vitória fora obtida apesar de Stalin. E tratou de enfatizar o
papel do partido que, no entanto, não se reuniu uma única vez em toda a guerra. Uma
interpretação, portanto, no mínimo problemática. No discurso da vitória, em 1945, Stalin,
embora georgiano de origem, fez questão, de uma forma talvez um pouco brutal, de ressaltar o
papel desempenhado pelos russos em particular. Depois de sua morte, predominou a ideia de
atribuir a vitória a todos os povos chamados soviéticos, um termo difuso, sobretudo porque a
estrutura soviética já estava há muito completamente desvitalizada, mas que tinha a vantagem
de diluir as identidades nacionais, embaralhando responsabilidades, evitando caça às bruxas e
autoglorificações de tipo nacionalista.

O CONFLITO: AVALIAÇÕES

Houve também polêmicas sobre as lições do conflito. Seria possível deduzir dos resultados
da guerra a superioridade do regime socialista soviético?
Na realidade, o que a invasão nazista pôs em jogo foi a sobrevivência, antes e acima de
tudo, dos povos eslavos, dos russos em particular. Isto se tornou muito claro desde cedo. E o
compreenderam muito bem, e muito rapidamente, os povos destinados ao abatedouro.
Os especialistas demonstraram ter havido dúvidas e divergências entre os nazistas. O que
fazer com aqueles povos? Formar uma constelação de Estados satélites? Fundar colônias,
escravizando a maior parte? Ou fazer com os eslavos o que os europeus já haviam feito com os
índios americanos e, parcialmente, com os negros africanos, ou seja, genocidá-los?
Quando a invasão foi desencadeada, porém, já não havia dúvidas. O Plano Ost, aprovado
por Hitler, previa a matança não apenas de comunistas e de judeus, mas a destruição física da
maioria de russos e não-russos. Tratava-se de arrasar civilizações e culturas. Riscar cidades do
mapa. Moscou, por exemplo, e muitas outras cidades, deveriam ser completamente destruídas.
Os nazistas não deixaram prosperar a ilusão ingênua de que tinham vindo libertar os povos do
jugo dos comunistas. Eles tinham vindo para exterminar. E passaram, com método, organização
e disciplina, germanicamente, das intenções aos atos. O mal, em sua banalidade (H. Arendt).
Nem mesmo resistiu de pé a expectativa de que os nazistas iriam derrogar a obra da
coletivização forçada. Ao contrário. Ali onde sobrou algo da destruição e da rapina, amarga
ironia, mantiveram os kolkhozes e os sovkhozes centralizados, instituições consideradas, com
razão, adequadas à expropriação coletiva dos produtores diretos. Não era para isto que haviam
servido sob domínio do Estado soviético?
Os planos previam a deportação de 30 milhões de pessoas. O desmembramento da URSS:
os Estados bálticos reservados para as raças nórdicas; a Ucrânia e o Cáucaso para os colonos
alemães; Baku, uma colônia militar. Os russos e os eslavos não passavam de aglomerados de
animais, mais desprezados do que odiados, os que sobrassem deveriam trabalhar como escravos
a serviço da raça superior.
Daí o caráter elementar da guerra.
Perseguição e terror em massa. Luta pela sobrevivência. Não houve outra alternativa, senão
resistir. Mesmo porque o governo soviético não admitia e não tolerava rendições, equiparadas à
traição pura e simples. O prisioneiro russo, na melhor das hipóteses, morria logo, fuzilado. Na
pior, morria lentamente, como escravo dos alemães. Quando não sob tortura, ou como cobaia,
vítima de experiências científicas. Barbarizados pelo inimigo, injuriados pelos compatriotas
como colaboradores — este termo infame e infamante —, cedo render-se deixou de ser uma
perspectiva preferível à morte.
E então os russos resistiram. Com uma decisão que iria surpreender o próprio invasor.
Desde o início, em Brest, durante quatro semanas. Em Odessa, 73 dias. Em Sebastopol, oito
meses. Em Leningrado, toda a guerra. Em Moscou, quantos meses. Em Stalingrado, quanto
tempo, até conseguirem virar a sorte da guerra. Resistir para não sucumbir. Sucumbir, se fosse o
caso, mas não se entregar, uma regra de conduta, uma lição de vida, uma imposição das
circunstâncias.
Não foi uma luta pelo socialismo ou por sistemas sociais, embora estas ideias e ideais
possam ter animado a muitos. Mas as grandes maiorias reagiram pelo canto de terra em que
moravam, pelos familiares que prezavam, pela vida ameaçada. Lutaram com fúria de animais
contra a fúria animalesca dos nazistas. A fúria de animais racionais. O horror puro.
Nesta luta pela sobrevivência, pela defesa da vida, da aldeia, da cidade, da pátria e da
independência, os russos se superaram e ganharam, mais uma vez, a admiração do mundo.
As instituições estatais e partidárias souberam adaptar-se com habilidade e agilidade às
novas condições. A Grande Guerra Pátria não foi um slogan vazio. Toda a energia passou a
estimular os sentimentos patrióticos, a veneração pela tradição e pelos ancestrais, pela terra
“sagrada”, pelo “glorioso passado russo”. O culto aos antepassados heroicos, aos mitos
fundadores, de Alexandre Nevski a Suvorov e Kutuzov, a glória aos que souberam resistir à
invasão estrangeira. As ordens militares, as medalhas, a atribuição dos méritos, a redescoberta
dos galões, a reentronização das hierarquias, das condecorações. E assim se deixou de lado a
formosa melodia da Internacional, trocada por um hino nacional, autenticamente russo.
E o reencontro com a religião e suas instituições. A reemergência do Santo Sínodo. A
reconciliação com as figuras dos popes. O reconhecimento do consolo que só a Fé propicia. A
bênção cristã aos que partiam para as trincheiras e para a morte. A tolerância religiosa
revisitada.
Num outro plano, o afrouxamento nos laços de controle do camponês. Maior liberdade para
cultivar os pequenos lotes privados e para comerciar os eventuais excedentes em mercados
livres, novamente tolerados, a preços igualmente livres, promovendo, no profundo terror da
noite da guerra, o ressurgimento de uma camada de camponeses relativamente privilegiados,
impulsionada pela enorme disparidade entre os preços oficiais, estabilizados artificialmente, e
os permitidos nos mercados negros, agora liberados de qualquer controle. E o murmúrio,
passado de boca em boca, de uma promessa messiânica: o desmantelamento do sistema de
propriedade coletiva se, e quando, o alemão fosse esmagado.
A mobilização em torno de valores mais amplos, slogans sedutores, tradições enraizadas,
combinada a uma política ampla de concessões, tinham exercido uma atração formidável,
possibilitado o reagrupamento de forças antes disparatadas, fragmentadas, marginalizadas e
ressentidas. Mas tudo isto não seria suficiente se não fosse o trabalho de organização
empreendido. Para isto, a experiência adquirida ao longo dos três primeiros planos quinquenais
fora de enorme valia, permitindo uma notável concentração de recursos materiais e humanos.
A prática centralizada do recenseamento, do planejamento de objetivos e metas a alcançar,
da definição de métodos de controle, os padrões alcançados de disciplina militarizada, a noção
das sanções, e um aparelho próprio para aplicá-las, tudo isto, desde o início, e em plena
derrocada da primeira fase, seria acionado para que se pudesse evitar a catástrofe total. Uma
economia de guerra, mobilizada, não era dessa forma que já se movia a União Soviética desde
que se iniciou a revolução pelo alto, na transição dos anos 20 para os anos 30?
Os planos de evacuação, por exemplo. Verdadeiras proezas de rapidez e de eficiência.
Como a desmontagem da usina de aço de ZaporozhstaF, transferida em 16 mil vagões. Ou o
gigantesco gerador da turbina da usina de Zuevo, desmantelado e carregado em apenas oito
horas (A. Nove, 1990). Centenas de empresas em movimento, 1.523 indústrias, das quais 1.360
de grande porte, de oeste para leste, para os Urais, para a Sibéria Ocidental, para a Ásia Central
e para o Casaquistão, para longe das frentes de batalha e das regiões ocupadas, para onde, em
segurança, poderiam contribuir para a salvação de povos agora ameaçados de extinção. Com as
usinas, as pessoas, os trabalhadores, às vezes com suas famílias, mais de 10 milhões de pessoas
foram emigradas de suas regiões de origem para destinos desconhecidos.
Novamente a mobilidade espacial e social. A metáfora de uma sociedade de areias
movediças, tangida, compelida, sempre em movimento. Com o deslocamento de homens para
as frentes de batalha, mais de 50% da força de trabalho na retaguarda passou a ser de mulheres,
15% de menores de 18 anos.
A centralização conheceu níveis inéditos, adaptados à guerra e às suas necessidades. Assim,
pouco mais de uma semana depois da invasão, foi constituído o Comitê de Defesa do Estado,
sob comando de Stalin, e do qual, em diferentes momentos, tomaram parte V. Molotov, L.
Beria, K. Vorochilov, G. Malenkov, L. Kaganovitch, A. Mikoyan, N. Voznessenski e N.
Bulganin. A ele se subordinariam todas as instituições sociais e políticas, inclusive o partido.
Desde agosto de 1941, fez adotar um plano emergencial, até o fim de 1942. A partir daí, planos
anuais, globais, econômico-militares e outros mais, setoriais, a mais longo prazo, reservando
um peso cada vez maior para a indústria bélica (de 15% para 55%, entre 1940 e 1942),
asseguraram as condições logísticas para a vitória.
E permitiram, administrando a escassez, que se suportassem as duríssimas condições de
vida e de moradia. Militarização do trabalho, semana de sete dias, horas extras. Racionamento
estrito do abastecimento, com a criação de cinco categorias de ocupações (trabalho pesado,
trabalho ordinário, trabalho de escritório, dependentes, crianças menores de 12 anos),
desaparecimento na prática da moeda. Em suma, o retorno ao igualitarismo espartano dos
tempos da guerra civil.
Numa atmosfera assim rarefeita, não haveria lugar para práticas democráticas, mesmo
formais. A Juventude Comunista, entre 1936 e 1949, não realizou um só congresso. Os
sindicatos organizaram um apenas, em 1942, para tratar de produção e produtividade. Quanto
ao partido, também não realizou uma só reunião geral durante a guerra. Mesmo o Comitê
Central não realizou nenhuma reunião em todos os anos de guerra. O contraste em relação ao
período da guerra civil, entre 1918 e 1921, com congressos partidários anuais, que diferença…
O Partido Comunista, a rigor, transformou-se numa ampla frente patriótica popular. Seus
efetivos saltaram de 2 milhões de membros, em 1938, para 5,5 milhões em 1945. A Juventude
Comunista contava então 15 milhões de filiados. Socialismo soviético e patriotismo russo
enfim reconciliados, como ficariam nesta melodia as notas entoadas pelas nações não-russas?
Uma última polêmica, que reaparece frequentemente: qual a parte dos Estados Unidos da
América na conquista da vitória? Uma certa historiografia ocidental tendeu a supervalorizar o
papel do auxílio concedido por meio dos acordos de empréstimo mencionados. Se não fossem
os milhares de veículos, as armas, as munições, os alimentos enlatados (as conservas), os
minerais estratégicos, a URSS teria perdido a guerra. A historiografia soviética ridicularizou
este ponto de vista. O armamento era obsoleto. O auxílio, apenas uma fração não essencial do
esforço de guerra. Cifras e dados são esgrimidos de lado adiado, tentando oferecer provas.
Uma análise menos parcial haverá de reconhecer o peso do auxílio norte-americano em
alguns aspectos de importância: veículos leves (caminhões e jipes), decisivos para imprimir a
velocidade de que a máquina de guerra soviética carecia; alimentos em conserva,
indispensáveis nas mochilas dos soldados em permanente movimento, mesmo que os soldados
russos, irônica e amargamente, chamassem de segunda frente às latinhas de corn-beef, sem falar
nos metais não-ferrosos, nas máquinas-ferramentas, no material de comunicação e nas
locomotivas. Auxílios indispensáveis, certamente, mas que não devem conduzir à
supervalorização da contribuição norte-americana (A. Nove, 1990, e N. Werth, 1990).
Em suma, quem salvou a URSS foram os próprios soviéticos. Os armamentos pesados,
mais decisivos (canhões, tanques e aviões), usados nas várias campanhas que terminaram em
Berlim, eram, essencialmente, de procedência soviética. No conjunto, as armas de origem
inglesa e norte-americana não excederam, segundo especialistas, 15% do material utilizado. E,
em todo caso, foram manejadas por soldados russos e soviéticos. Sem eles, nada teria sido
possível. Em sua mobilização, motivação e organização, pouco influíram os aliados ocidentais.
Em maio de 1945, com o esmagamento do nazismo, o poder e o prestígio da URSS
alcançaram um clímax. O culto ao grande chefe, Stalin, venerado e adorado, atingiu o
paroxismo. Havia uma esperança difusa de que as coisas, agora, poderiam melhorar. O pior já
passara. Entretanto, o sistema soviético passara pela prova da guerra: não apenas sobrevivera,
mas saíra dela aureolado, fortalecido…

________________
1 Desde 1941, acordos propostos pelos EUA a seus aliados prevendo, em forma de
empréstimos, a entrega de equipamentos e material bélico para o esforço de guerra contra o
nazismo.
2 Drôle de guerre, expressão francesa usual na época, pode ser traduzida por estranha
guerra, porque, embora declarada, não gerava consequências práticas de ordem militar.
O apogeu do stalinismo (1945-1953)

Quando a paz foi assinada houve, entre os povos da URSS, particularmente entre os russos,
sentimentos confusos de alívio e orgulho.
Alívio, porque cessara, afinal, a devastação. Chegara ao fim o que, às vezes, parecera
interminável, o longo e traumatizante cortejo de matanças e destruições. Ao mesmo tempo,
orgulho: a autossatisfação por terem sido os principais responsáveis pela vitória. Ninguém
poderia questionar o fato de que o sucesso fora conquista de uma aliança, mas só a
desinformação, ou muita má vontade, deixaria de reconhecer que a URSS suportara o peso
principal da guerra e que, portanto, a ela cabiam os maiores méritos pela derrocada da besta
nazista.
Agora, a promessa de melhores dias. Mais tranquilos e relaxados. A URSS adquirira um
imenso prestígio no mundo inteiro. Tornara-se, apesar da guerra, ou por causa dela, a segunda
força industrial e militar do planeta, uma das duas superpotências às quais estariam entregues a
supervisão dos destinos dos Estados e das nações. Não era mais uma fortaleza sitiada.
Desde fins dos anos 20, havia sido uma sucessão de terríveis dificuldades: a coletivização,
as fomes, os sacrifícios consentidos ou impostos, as perseguições, os ritmos alucinantes, a
severa disciplina. Depois, a invasão alemã, a ameaça à própria sobrevivência, os bombardeios,
os fuzilamentos, os enfrentamentos, mortes, ferimentos e mutilações, fugas e separações,
racionamentos e mais fome, longas jornadas de trabalho, ainda sacrifícios, mais apertos,
constrangimentos de toda a espécie, escassez. No entanto, graças ao esforço sobre-humano de
todos, o pior passara, e tinha sido possível espantar e vencer os perigos. Pela frente, dias
melhores, sem dúvida, aguardariam uma população ferida, mas consciente de seus feitos, e
orgulhosa.
Nunca, talvez, a URSS conhecera, de forma tão generalizada e profunda, tal anseio e
confiança numa paz duradoura. Um senso comum.
O triste, no entanto, é que estas tendências não foram compartilhadas pelos cálculos e pela
lógica do poder, nem ajudadas pelas circunstâncias que se seguiram.
Com efeito, de início em nome da reconstrução, e, um pouco mais tarde, já no contexto da
Guerra Fria que emergiu, novamente sob o argumento da defesa nacional, as grandes linhas dos
planos quinquenais, experimentadas ao longo dos anos 30, foram retomadas com o tradicional
vigor.
As exigências da reconstrução eram previsíveis e indubitáveis, sobretudo nos territórios que
tinham sido ocupados pelos nazistas: reparar estradas, trilhos, caminhos, pontes e
equipamentos, reerguer cidades e os respectivos serviços urbanos, reinstalar e reciclar pessoal,
empresas e linhas de produção. A rigor, o trabalho neste sentido já começara antes da guerra
terminar, desde o início da libertação da União Soviética, em 1943-44.
Mais inesperado foi o brusco início da Guerra Fria. Muito rapidamente, o processo de uma
tensa bipolarização passou a dominar as relações internacionais, e de uma forma tão drástica
que, nas décadas seguintes, seria difícil recuperar a atmosfera da aliança que derrotara o
nazismo e que, de certo modo, fincara raízes nas sociedades, que demoraram a perceber as
contradições e disputas que se tornaram agudas na fase final da guerra entre os Estados
vencedores.
O clima da conferência de Yalta, em fevereiro de 1945, já não se reproduziu no encontro de
Potsdam, nas cercanias de Berlim, em julho-agosto do mesmo ano. Ainda em agosto, os
Estados Unidos jogaram as bombas atômicas sobre o Japão, apenas comunicando a seus aliados
a decisão e, de certo modo, como foi interpretado desde aquele momento, ameaçando-os com
esta nova energia destrutiva, então só por eles dominada. Ao mesmo tempo, suspenderam os
acordos lend-lease que formularam os parâmetros jurídicos favoráveis à ajuda material aos
aliados e à URSS, enquanto durara a guerra.
A partir daí, uma sucessão de conferências fracassadas, envenenadas por desencontros,
rivalidades e antagonismos, configurando um quadro sombrio. Em março de 1946, na presença
do novo presidente dos EUA, W. Churchill pronunciou o célebre discurso de Fulton, em que se
referiu à “cortina de ferro” que estaria descendo sobre a parte do mundo controlada pela URSS.
Em seguida, a Doutrina Truman, de contenção da expansão soviética (containment), o Plano
Marshall, do qual se excluiu, e foi excluída, a URSS e quase toda a área da Europa Central sob
ocupação do exército soviético.
Na sequência, a constituição de dois blocos políticos, econômicos e militares, agrupados em
organizações distintas (OTAN e Pacto de Varsóvia, Comunidade Econômica Europeia/CEE e
Conselho de Ajuda Mútua/Comecon), ensejando inclusive, do lado comunista, o relançamento
de uma caricatura de organização internacional, destinada a uma curta e infrutífera trajetória, o
Bureau de Informação Comunista/Kominform.
O processo foi num crescendo, a política do taco a taco, o ciclo infernal das ações e das
reações em cadeia, aparentemente incontroláveis, como se forças lógicas e invencíveis
estivessem se afirmando: na Europa, a crise de Berlim, em 1948, a constituição das duas
Alemanhas, em 1949, o encerramento da experiência dos governos de frente nacional,
incluindo os comunistas, na Itália e na França, e a formação acelerada das mal chamadas
democracias populares na parte central e oriental do continente. No extremo oriente, o triunfo
dos comunistas na China, em 1949, e a guerra da Coreia, a partir de 1950.
O mundo fechado da bipolarização. A ambição de gigantescos tentáculos que, a partir daí,
tentariam tudo absorver, liquidando aspirações de autonomia, fazendo de todos os
acontecimentos meros epifenômenos de uma disputa maior e central, independentemente da
vontade e da perspectiva das lideranças, dos movimentos e das sociedades envolvidas.
A pesquisa histórica ainda deverá elucidar de modo mais claro o agenciamento destas
circunstâncias, de como forças políticas e militares nos dois campos souberam afirmar-se,
revertendo as aspirações de paz, toldando a memória das tragédias da guerra, ganhando as
populações para a tensão, o medo, a histeria e o risco de novos, terríveis e imprevisíveis
conflitos.
Um presidente norte-americano, D. Eisenhower, ex-chefe militar, falaria mais tarde, e
vagamente, da formação de um complexo industrial-militar, ameaçando o regime de liberdades
construído nos EUA. No lado soviético, também se consolidou, inclusive e principalmente sob
o influxo da guerra, um sistema equivalente, constituído pelos complexos de unidades de
produção vinculados à indústria de armamentos e de meios de produção, os dinossauros
comedores de ferro e aço.
DE VOLTA À ECONOMIA MOBILIZADA

É no quadro destas relações internacionais e do predomínio destas tendências que se situa a


evolução da URSS e do socialismo soviético depois de 1945.
Os objetivos prioritários do IV Plano Quinquenal, previsto para cobrir o período de 1946 a
1950, inseriram-se nesta pauta de preocupações: reconstrução e defesa. Mais uma vez,
retomando a tradição dos anos 30, a opção pelos setores industriais de base, comprometidos
com a produção dos chamados meios de produção: energia elétrica, extração mineral (carvão e
ferro), infraestrutura de transportes e comunicações, aço, metalurgia pesada. No quinquênio,
87,9% dos investimentos direcionaram-se neste sentido, contra apenas 12,1% para os setores de
produção de bens de consumo, incluindo construção civil e alimentação (A. Nove, 1990). Ora,
considerando-se as extremas dificuldades e carências provocadas pela guerra, pode-se ter uma
estimativa de quão duras haverão de ter sido as condições de vida e de trabalho de uma
população cujas provações acumuladas nos anos anteriores seria impossível exagerar.
A volta da economia de comando, mobilizada (J. Sapir, 1990).
Mais uma vez, o peso principal do esforço recaiu sobre os ombros dos camponeses,
transformados em assalariados no quadro das fazendas estatais, os sovkhozes, ou em membros
das chamadas cooperativas, os kolkhozes. A rigor, apesar das diferenças jurídicas, e como já se
observou, o conjunto das organizações rurais era firme e estritamente controlado pelo Estado,
que fixava suas metas de produção e normas de trabalho, definia os preços de produtos,
insumos e mão de obra e nomeava, sem debates ou controles, as direções administrativas e
políticas.
O modelo fora fixado nos anos 30. E retomado com toda a força depois de 1945.
Em movimentos rápidos, o Estado revogou os aspectos principais das concessões feitas aos
camponeses no fogo do conflito, um pacto apenas delineado e já golpeado. O decreto de
setembro de 1946 determinou o retorno ao domínio dos kolkhozes, ou seja, do Estado, de 14
milhões de hectares e 140 mil cabeças de gado, cujo controle e gestão haviam sido transferidos
aos camponeses e suas famílias (A. Nove, 1990). A reforma monetária de dezembro do ano
seguinte, criando um rublo novo, equivalente a dez antigos, e obrigando a população a trocar a
moeda antiga pela nova, enxugou drasticamente as disponibilidades acumuladas pelos
camponeses. Ao mesmo tempo, a política geral de preços sufocava os interesses rurais,
mantendo frequentemente os dos produtos agrícolas abaixo do custo. Para se ter uma ideia, os
preços para grãos e carnes em 1952 eram menores que os de 1940. Neste último ano pagava-se,
em média, pelo quintal de grão, 8,63 rublos. Doze anos depois, apenas 8,25 rublos. Ora, ao
longo deste período, os custos do quintal nas fazendas estatais aumentaram de 29,70 rublos para
62 rublos! Os preços oferecidos pela batata, alimento essencial da população, junto com o trigo,
conseguiram ser menores que o custo do transporte até o ponto de venda (A. Nove, 1990).
Quanto à remuneração do trabalho dos camponeses, mal dava para a sobrevivência.
Para garantir a implementação desta política, houve uma proliferação de agências estatais
de controle, nada menos do que três ministérios especializados, além de um Conselho de
Kolkhozes, sem contar as estações de máquinas e serviços (MST) e o reforçamento de seus
departamentos políticos. Em 1952, embora tenha havido o reconhecimento quanto a excessos
burocráticos, o Estado estava empenhado em aprofundar o processo de coletivização. A
orientação tomou duas direções: a ampliação do nível de concentração, com a criação de
gigantescos kolkhozes (redução de 252 mil para 75 mil unidades) e a reorganização do trabalho
com a definição da brigada (cerca de 100 pessoas) como unidade básica, em vez do tradicional
zveno, que reunia entre seis e dez pessoas. Tudo em nome da socialização da produção, do
avanço para o futuro. Ao mesmo tempo, no fundo do quadro, como justificativa, havia um
projeto delirante de formar agrocidades (agrogoroda), com o argumento de que a concentração
de recursos facilitaria a organização dos serviços, em suma, de que a vida dos mujiques iria,
afinal, melhorar.
O voluntarismo tomou ainda outras formas, como a do Plano para a Transformação da
Natureza, de outubro de 1948. Previu-se, em 20 anos, a construção de uma imensa rede de
canais, sem falar numa política ambiciosa de reflorestamento, trabalhos a serem executados,
naturalmente, pelos próprios camponeses.
Mas as políticas não passavam pela prova dos resultados, como se obstáculos imprevistos
se erguessem. As previsões e planos não se realizaram. Em 1940, as colheitas não alcançaram
80% das estimativas. Em 1948, foram inferiores a 60%. No ano seguinte, um pouco menos,
56%. Entre 1950 e 1952, registraram-se ligeiras melhoras, mas em 1953, mais uma vez, os
resultados não bateram: corresponderam a apenas 70% das estimativas. A colheita neste ano
fora inferior à de 1940 e apenas levemente superior à de 1914.
A pecuária apresentava também um quadro sombrio. Em relação a um índice 100, referente
a 1914, o rebanho de bovinos, em 1953, alcançou 103, o de suínos, 104, o de ovinos, 105.
A agricultura coletivizada, como sistema, decididamente não funcionava. As metas eram
alcançadas à custa de uma severa expropriação dos camponeses, espremidos, como já dizia S.
Kirov nos anos 30, pelos impostos, pela política de preços e pelas entregas obrigatórias. Já os
pequenos lenços de terra, gerenciados livremente pelos camponeses, apesar de execrados
política e ideologicamente, sem nenhum estímulo econômico ou fiscal, e ocupando apenas 4%
da superfície cultivada, continuavam responsáveis por mais de 50% da produção de legumes e
de batatas, além de garantir o básico do sustento da mão de obra rural. Nos discursos,
estigmatizados como fatores de atraso. Na prática, sua vitalidade era a contraprova das
debilidades do sistema estatal.
As autoridades, nas frequentes autoavaliações, continuavam responsabilizando o clima, os
problemas de organização, o excesso de burocracia, as falhas humanas, a má vontade e a
sabotagem. Na verdade, permanecia a restrição global ao camponês, de conteúdo civilizatório, e
que justificava todas as discriminações. Em sua última obra, publicada em 1952, relativa aos
problemas da economia socialista, Stalin insistiu no remédio: era preciso mais coletivização.
Reminiscências do passado, as tradições rurais do pequeno camponês estavam condenadas
mesmo a perecer. Nada mais natural que pagassem pelas dores do parto da sociedade socialista.
Talvez por isto mesmo é que, no campo, os homens, e às vezes as próprias plantas (A. Nove),
se recusassem a obedecer aos planos e às orientações do camarada Stalin.
Os resultados do IV Piano Quinquenal, em 1950, confirmaram a força e a fraqueza da
economia mobilizada.
Os dinossauros comedores de ferro e aço, beneficiados pela distribuição preferencial dos
investimentos, registraram recordes, ultrapassando largamente os patamares alcançados antes
da Segunda Guerra Mundial, em 1940. A produção de carvão passou de 165,9 para 261,1
milhões de toneladas. A de petróleo, de 31,1 para 37,9 milhões de toneladas. A de aço, de 18,3
para 27,3 milhões de toneladas. A de eletricidade, de 48,3 para 91,2 bilhões de quilowatts.
Resultados semelhantes foram colhidos pela produção de tratores, de ferro fundido e de
cimento. Quanto aos setores da indústria bélica, de difícil mensuração, em função do segredo
das estatísticas, é possível, por alguns índices, atestar seu crescimento. Assim, os efetivos das
Forças Armadas, entre 1948 e 1955, chegaram a duplicar, aumentando de 2,874 milhões para
5,763 milhões de homens. Outro sinal: enquanto as despesas totais do Estado, entre 1950 e
1952, cresciam menos de 15%, as militares aumentavam em quase 45%.
Enquanto isso, os setores destinados à produção de bens de consumo, como de hábito,
permaneceram retardatários. Assim, a produção bruta agrícola, em 1950, ainda não alcançara os
níveis anteriores à guerra. Nem a produção de algodão, de couro ou de açúcar. A de lã registrara
acréscimo, mas a colheita dos grãos, de importância estratégica, como se viu, patinava,
desrespeitando os planos e as previsões.
As virtudes e os vícios de um sistema.
O V Plano Quinquenal, embora devesse começar a partir de 1951, somente teve suas
grandes linhas publicadas, e formalmente aprovadas, no XIX Congresso do Partido Comunista,
em outubro de 1952. Não se previu nenhuma alteração significativa de prioridades e de
métodos. As relações internacionais, argumentavam os líderes, não permitiam relaxamento de
nenhuma espécie. A Guerra Fria rondava com seus perigos letais. A URSS não poderia ser
novamente apanhada de surpresa, não haveria outro 1941. Nem que fosse necessário apertar,
mais uma vez, e ainda mais, o torniquete das carências e dos sacrifícios.
As estimativas, como sempre, apontaram curvas ascendentes em todos os níveis. Do
produto nacional bruto (+ 60%), passando pelo aumento real das remunerações no campo (+
40%) e na cidade (+ 35%), aos saltos impressionantes previsto para o aço, o ferro, o carvão, o
leite, as colheitas dos grãos etc.
Expectativas otimistas. Não era esta a essência de uma economia planejada, imune às crises
e aos sobressaltos das economias capitalistas?
A população reagiu diversamente a este horizonte. No início, logo depois da guerra, pareceu
haver uma certa conformidade, e até entusiasmo, diante das exigências impostas: afinal, o
enorme esforço a ser despendido para reconstruir a economia e a sociedade era mesmo
inevitável. Progressivamente, no entanto, considerando-se a permanência de duríssimas
condições de trabalho, a ausência de estímulos, sistemas muito estritos de controle, perspectivas
limitadas, certas resistências começaram a se manifestar, exprimindo-se passivamente, por meio
de formas simples e elementares, notórias desde os anos 30: negligência, descaso,
despreocupação com a qualidade de serviços e produtos.

A MOBILIZAÇÃO DA SOCIEDADE

Para enfrentar estas contradições, o sistema recorreu aos métodos habituais: campanhas,
emulação, e recriação de uma atmosfera de terror, em suas duas faces: a coação e a inibição, e a
mobilização política.
Já durante o processo de expulsão do nazismo da URSS, fora possível constatar a reativação
da máquina do Terror, insaciável. A rigor, mesmo no mais fundo da adversidade, o Terror não
desaparecera. Apenas retraíra as garras, como um bicho sob tensão e risco, encolhido sobre o
próprio núcleo, defendendo as partes vitais, à espera de melhores momentos.
Assim, enquanto pesaram as ameaças mais graves à sobrevivência do regime e da própria
população, houve um certo afrouxamento, e concessões, aberturas e tolerâncias. Durante toda a
guerra, ressurgiu com força a questão da pátria e de sua defesa, predominando esta referência
sobre a sorte da revolução internacional. E os patriotas mais zelosos eram convidados e
estimulados a ingressar no partido. Os popes foram novamente acolhidos, dado que os soldados
demandavam suas bênçãos para se fazerem matar nos combates, e foi possível um esboço de
reconciliação com os próprios camponeses, aquinhoados com medidas que faziam recordar os
longínquos tempos da Nova Política Econômica, a NEP. Em suma, como não raro, se o espectro
da morte iminente suscitara o reflexo da salvação pública, isto não quer dizer que tivesse
havido uma reflexão crítica sobre os despropósitos do Terror, sua lógica destrutiva, sua
insanidade básica. Nem propostas para controlá-lo, ou superá-lo.
Em consequência, a partir de 1943-44, com o horizonte minimamente desembaraçado, os
controles e as cravelhas voltaram a apertar. A censura e as detenções, a rondar. A polícia
política, a prender, a deportar, a matar.
Sinais inquietantes neste sentido foram dados pelas decisões, secretas na época, de deportar
algumas nacionalidades, consideradas colaboracionistas com o avanço nazista. O conceito de
solidariedade familiar e coletiva estendeu-se, passou a abarcar nações inteiras, principalmente
no norte do Cáucaso, empurrando para um exílio distante os karatchais, os kalmyks, os
tchetchenos, os inguches, os balkars, os meskhets. Na península da Crimeia, os tártaros, os
gregos, os búlgaros, os armênios tiveram sorte semelhante. Pequenas nações, no total, mais de 1
milhão de pessoas, sem discriminação de idade, sexo ou classe social, atiradas para longe de
seus lugares de origem, um padecimento.
Na realidade, antes da invasão nazista, e logo depois dela, procedimentos semelhantes
haviam sido adotados contra poloneses (380 mil), lituanos, letões, estonianos, em 1939-40, e
também, desde 1941, contra as populações descendentes dos chamados alemães do Volga
(cerca de 1 milhão de pessoas).
Deportados sem julgamento, por decisão administrativa, todos confundidos na e pela
acusação de traição. Culpados por terem nascido do ventre de suas nações.
Conquistada a paz, outros alarmes.
Em meio à euforia das comemorações, muitos não puderam delas gozar: os prisioneiros
soviéticos na Alemanha. Eram cerca de 4,1 milhões, entre os quais 2,6 milhões de civis.
Trabalhando como bestas de carga nas fábricas e nos trabalhos públicos, ou concentrados em
campos, recebendo frequentemente o pior tratamento, as piores rações e as piores torturas e
mortes, esta massa, ao voltar para a pátria, não conheceu, nem teve propriamente, paz. Foi
direcionada para uma organização específica, os campos de filtragem (fil’tratsia). Apenas 58%
passaram pelo filtro, recebendo autorização para voltar para casa, mas, mesmo assim, entre
eles, muitos foram severamente vigiados, quando não discriminados, em seus locais de moradia
e trabalho.

[FALTAM AS PÁGINAS 178 E 179]

Não há fontes exaustivas para as condenações à morte. Dois documentos oficiais


disponíveis, talvez incompletos, estabelecidos em 1954 e 1957, falam em 642.980 e 681.692
condenações à medida de suprema defesa social (pena de morte), entre 1921 e 1954.
Os presos, porém, não morriam só fuzilados. A exaustão, o frio e a fome também matavam.
Houve aí, como se pode supor, uma considerável variação, em virtude das conjunturas e das
inflexões das políticas do Estado. Assim, em 1936, teriam perecido 2,5% do total de
prisioneiros, contra um pico de 18,4%, em 1942. De modo geral, os dois primeiros anos de
prisão/deportação eram os mais vorazes em vidas humanas, principalmente entre crianças e
velhos. Entre 1942 e 1944 houve também um auge na mortalidade, em função das exigências e
da escassez generalizada, impostas pela guerra. Entre 1934 e 1953, há uma estimativa de cerca
de 2 milhões de mortos nos campos e nas colônias de trabalho.
Embora longe dos quadros mais catastróficos imaginados no contexto da Guerra Fria, que
chegaram a propor algumas dezenas de milhões de presos e mortos, é profundamente
perturbador imaginar que, em nome do socialismo e do comunismo, tenha sido construído um
sistema concentracionário com estas cifras impressionantes.
Mas os prisioneiros (zeks) não eram apenas punidos com o cárcere. Também foram
sistematicamente mobilizados para o trabalho. A orientação tinha a ver com as concepções
gerais do governo soviético, desde sua formação, que atribuíam ao trabalho funções corretivas e
reeducativas. Os desviados seriam corrigidos pela labuta. Quanto maior e mais perigoso o
desvio, mais dura a labuta. Daí porque, em determinados canteiros de obras, foi possível erguer
verdadeiros monumentos do (e ao) socialismo soviético (o canal Volga-Don, os complexos de
Magnitogorsk e de Kuznetsk, a universidade e o metrô de Moscou etc.), com o emprego
intensivo e simultâneo de mão de obra livre, voluntária, na maior parte constituída de jovens, e
de força de trabalho compulsória, coagida, formada por prisioneiros, os zeks. Não
necessariamente os primeiros se sentiam chocados ou constrangidos no trabalho, lado a lado,
com presos políticos e comuns. Afinal, estes últimos estavam se reeducando. Nada melhor,
neste sentido, do que contribuir, de alguma forma (por que não pelo trabalho?), para a
construção do socialismo.
Por outro lado, a mobilização dos zeks tinha a ver também, naturalmente, com exigências
mais prosaicas: carência de mão de obra, sobretudo para trabalhos mais pesados, como a
exploração de madeiras nobres ou a extração de ouro em ambientes hostis, do ponto de vista
climático, e dominados por absoluta carência de infraestruturas de serviços. Como o Estado não
tinha, ou não estava disposto a criar, condições especiais de remuneração, única forma de atrair
pessoas livres para realizar este tipo de tarefas, recorreu-se à solução de mobilizar os que não
tinham querer, nem direitos, as não-pessoas, os inimigos do povo.
Desde fins dos anos 30, quando L. Beria assumiu a direção do Gulag, tornou-se mais
precisa a orientação de aproveitar racional e economicamente os zeks. O responsável anterior,
N. Ejov, foi então severamente criticado. E, depois, também preso e fuzilado. As rações
previstas em sua gestão eram para prisioneiros sentados. Ora, como os zeks estavam sendo
mobilizados para o trabalho, e frequentemente para um trabalho pesado, os índices de
mortalidade começaram a crescer de forma exponencial. O exercício estava se tornando
simplesmente antieconômico, um contrassenso.
A nova administração mudou o quadro. Melhorou as rações. Organizou e disciplinou.
Exigiu a definição de planos e metas. O Gulag tornou-se um grande empreendimento
econômico. A obra clássica de D. Dallin e B. Nikolaevsky (1948), pela primeira vez, de forma
sistemática, revelou a existência deste universo, que passou a ser conhecido — salvo pelos que
não queriam ver, ou pelos inocentes, estes seres perigosos. Desde então, graças a numerosos
trabalhos (ensaios, estudos, depoimentos e novelas), sobretudo depois do processo de
desagregação da URSS, foi possível elaborar um mapa mais ou menos completo do arquipélago
concentracionário do Gulag.
Assim, em todas as grandes obras do socialismo soviético, ao lado dos homens livres, lá
estariam eles, os prisioneiros, a nação zek, na expressão de Soljenitsin, a céu aberto,
construindo canais, estradas de ferro, edifícios e monumentos; nas entranhas da terra, extraindo
minerais; nas florestas geladas do grande norte, cortando madeiras nobres; dentro das fábricas e
nos laboratórios, zeks de todos os tipos, e de todas as qualificações, do trabalhador braçal,
britando pedra, ao cientista mais sofisticado, concebendo novas invenções, do ex-kulak ao ex-
oficial, do preso ao colono especial. Muitos, principalmente entre os colonos especiais,
receberiam salários, dos quais seriam descontados, cruel ironia, 25% para os gastos com a
vigilância, pagos à administração do Gulag.
Em sua dimensão punitiva, inibitória, o Terror, mais uma vez, atingiu e devastou o partido.
Nas cúpulas e nas bases, embora não tenha chegado à escala do que ocorreu em meados dos
anos 30. No alto, a figura mais ilustre a cair foi a de N.A. Voznessenski, ministro do Plano e um
dos principais cérebros da organização da economia soviética durante a Segunda Guerra
Mundial. Depois da morte de A. Jdanov, por muitos considerada ainda em sombras, entre
agosto de 1948 e março de 1949, uma sucessão de obscuras manobras e contramanobras, até
hoje também não perfeitamente esclarecidas, levaram à sua perda. Foi julgado em segredo, com
outros membros preeminentes do partido, entre os quais um secretário do Comitê Central (A.
Kuznetsov), todos condenados à pena máxima e, pouco depois, fuzilados. Mais de duas
centenas de dirigentes, sobretudo na região de Leningrado, seriam pegos por esta rede.
Em círculos concêntricos, a onda espalhou-se. Na Ucrânia, a depuração alcançou 38% dos
secretários distritais e 64% dos presidentes de sovietes locais. Na Bielo-Rússia, nada menos do
que 90% dos secretários locais e 96% dos responsáveis administrativos. No Casaquistão, 67%
dos dirigentes do partido e do Estado. Na Geórgia, centenas de militantes, num processo que
pareceu visar o próprio Beria. No conjunto da URSS, mais de 30% dos dirigentes locais.
A organização judaica antifascista, criada durante a Segunda Guerra Mundial, foi outro alvo
abatido, também no ano de 1948, sob acusação de desvios sionistas e cosmopolitas. O principal
líder, S. Mikhoels, morreu num estranho acidente, em janeiro de 1949. Outros 11 altos
dirigentes da organização, inclusive S. A. Lozovsky, antigo bolchevique e membro do Comitê
Central, depois de confessarem atividades criminosas em processo sumário, foram executados.
As denúncias antissionistas excitaram os velhos demônios do antissemitismo, de longa
tradição na Rússia tzarista e ainda presentes. Combinaram-se com amplas campanhas de
limpeza na URSS e nas democracias populares no quadro mais geral do acirramento da Guerra
Fria (crise de Berlim, dissidência iugoslava) e do enquadramento do mundo socialista, chamado
a se agrupar, monoliticamente, em torno do socialismo soviético. Com efeito, caíram então
centenas e centenas de militantes comunistas na Tchecoslováquia (Slansky e Clementis),
Hungria (Rajk), Polônia (Gomulka), Bulgária (Kostov), em processos-espetáculo que
reproduziram em grandes linhas os espetáculos promovidos em Moscou em 1936-38. A
limpeza, como antes, em sua dupla função de inibir e mobilizar, coesionando.
No campo da cultura e das ciências, na perspectiva da consolidação do realismo socialista,
o governo e o partido estabeleceram cânones rígidos, num estranho conservadorismo de
esquerda, denunciado desde os anos 30 por comunistas já então dissidentes, como W. Reich.
Era indispensável que a literatura cultivasse os valores positivos do socialismo: o trabalho, a
abnegação, a honestidade, o patriotismo, a família. Grandes artistas e escritores pagaram pelo
não conformismo a esta doutrina: A. Akhmatova (poetisa), B. Pasternak (escritor), M.
Zoshchenko (humorista), entre muitos e muitos outros. Nas artes plásticas, recomendavam-se o
realismo fotográfico e o retratismo. Teatro e cinema foram também rigorosamente tutelados.
Nem a música escapou: Prokhofiev e Chostakovitch foram acusados de desvios ideológicos e
desencadeou-se uma caça ao saxofone, associado a um estilo decadente ocidental, o jazz.
Neste contexto de medo e de denúncias, não é estranho que tenham prosperado charlatães,
entre os quais a figura emblemática de T. Lysenko, caso especial, mas não isolado, de um
fazedor de milagres. Lysenko era um agrobiólogo que prometeu, por meio de procedimentos
insuficientemente testados, elevar de forma drástica os rendimentos agrícolas. Agitando a
proposta de uma biologia socialista, em oposição à capitalista, desqualificou os críticos como
sabotadores e trotskistas. Teve uma carreira meteórica na academia até ser desmascarado, não
sem antes causar terríveis prejuízos à agricultura e à ciência soviéticas, para não falar nas vidas
humanas que seus delírios sem limites levaram à perda.
Entretanto, o regime sabia também mobilizar. E não apenas na triste atividade da delação,
sempre incentivada e inerente à atmosfera do Terror. Mas em torno de mitos coesionadores, de
eficácia provada ao longo dos anos 30 e, particularmente, durante a Segunda Guerra Mundial.
A Guerra Fria, com sua dinâmica de ameaças nada fictícias, e seus desdobramentos e
conflitos, frios (Berlim) e quentes (Coreia), compôs um quadro ideal para o tensionamento das
energias. O nacionalismo russo teve um novo surto. O mito salvacionista da fortaleza sitiada,
em círculos concêntricos. Moscou e os russos. Os soviéticos em torno dos russos. Os demais
Estados socialistas, numa solidariedade granítica, em volta da URSS. Os comunistas de todo o
mundo, como um cinturão, em defesa do sistema socialista.
A sociedade era alvo, e participava, de constantes campanhas de agitação e propaganda,
políticas, militares, comemorativas, educativas, esportivas. Manifestações, comícios, desfiles,
paradas, rituais majestosos, visando impulsionar e coesionar o povo. Para dar conta das tarefas
produtivas, os movimentos de desafios e emulação socialistas entre empresas, cidades, regiões.
As condecorações, os quadros de honra, as ordens ao mérito.
No centro, e no alto, a figura mítica de Stalin: o Pai do mundo do trabalho, o Corifeu das
Ciências, o Guia. Em 1949, o 70° aniversário de Stalin transformou-se numa ciranda inédita de
homenagens e festividades. Um apogeu. Num outro momento, por ocasião do XIX Congresso
do PCUS, afinal reunido depois de quase 13 anos, Stalin mal falou. Já não era preciso para
obter as votações unânimes e as ovações consagradoras. O homem adquiriu dimensões
semidivinas. E parecia eterno.
Mas a solidez era apenas aparente. Contradições minavam esta força. Havia toupeiras
roendo por baixo.
No plano internacional, pelo menos em termos imediatos, a expansão do socialismo fora
contida. Em Berlim e na Coreia, fora necessário negociar, e recuar. A paridade alcançada nos
armamentos nucleares e convencionais enchia de orgulho e conferia uma grande segurança.
Mas tinha um custo. Ainda não reconhecido, talvez nem mesmo calculado, mas que pesava
enormemente nos ombros da sociedade, desgastando as vontades.
O chamado mundo socialista emitia sinais de resistência ao enquadramento num único
molde. Realidades diversas, dissonantes. Tudo se fizera para isolar o cisma dos renegados
iugoslavos. Mas não fora possível, pela primeira vez, dobrar uma rebeldia no campo
revolucionário. A descoberta de uma articulação entre Tito, Hitler e Trotski levara a técnica do
amálgama longe de mais. Era preciso ser muito inocente para acreditar naquilo. Por outro lado,
o que dizer daqueles comunistas asiáticos? Tanto no Vietnã como na China, haviam aberto o
próprio caminho de forma autônoma. O fato de os norte-americanos não o perceberem atestava
uma grande ignorância mas não a inexistência do fenômeno.
Na própria sociedade soviética havia um esboço de insatisfação. A retomada do modelo dos
planos quinquenais assegurou a reconstrução, mas frustrou expectativas. As carências em bens
de consumo, em alimentos e em equipamentos sociais contrariavam e atormentavam o
cotidiano dos cidadãos. As próprias elites, políticas e intelectuais, impulsionadas pelo sistema,
graças ao Terror, mostravam-se agora ansiosas por estabilidade e segurança.
O partido, desde a Guerra profundamente renovado, continuou atraindo filiações: cerca de 7
milhões no começo dos anos 50. Mas se tornava cada vez mais difícil distinguir os militantes
dos arrivistas, já que era impensável alcançar determinados cargos sem a devida carteirinha.
A militância envelhecera. Em 1939, apenas 18,5% tinham mais de 40 anos. Quando se
realizou o XIX Congresso, em 1952, 76,6% encontravam-se nesta faixa etária (15,5% com mais
de 50 anos). Nos organismos dirigentes, estas proporções acentuavam-se, preocupantes,
reforçando tendências conservadoras, indicando, talvez, sinais precoces de esclerose.
Há fortes indícios de que Stalin tenha pensado em enfrentar estes problemas com uma
retomada do Terror, em escala ampliada, como nos anos 30. O fato de o Comitê Central do XIX
Congresso ter aumentado, por instruções suas, naturalmente, o Bureau Político para 25 efetivos
e 11 suplentes, poderia estar relacionado à constituição de uma equipe de reserva, pronta para
substituir cabeças coroadas destinadas a tombar.
Simbólica, neste sentido, foi a descoberta de uma nova conspiração, o chamado complô dos
camisas brancas. A denúncia apareceu em janeiro de 1953, de forma sensacionalista. Médicos
terroristas, quase todos judeus, teriam causado a morte de A. Jdanov e atentado contra outras
importantes vidas (a do próprio Stalin?). Os acusados, menos um, que morreu, confessaram
imediatamente. Os traidores, é claro, não agiam sozinhos. Não passavam da ponta de um
iceberg. Na onda de antissemitismo que se seguiu, indagava-se: uma nova caça às bruxas? A
sociedade que se preparasse para contar os mortos que haveriam de vir.
Mas foi Stalin quem morreu.
A morte, afinal, recapturou a dimensão humana de Stalin, completamente perdida nos
delírios do culto extravagante. Foi um choque.
O grande tirano também estava sujeito ao fim, como o mais comum dos mortais.
Choraram os comunistas em todo o mundo. As multidões em Moscou, excitadas pela dor,
ansiosas e inquietas, precipitaram-se, em atropelos medonhos, ferindo-se, matando-se, para ver
o Homem pela vez derradeira, a última despedida.
No outro lado do país, e do mundo civilizado, os zeks comemoraram a seu modo. Em
alguns campos, houve revoltas terríveis, afogadas com brutalidade e sangue.
Assim, nas bodas do tirano com a morte compareceram os amigos com o luto e os inimigos
com a revolta. E a sociedade soviética fazia lembrar a melancólica reflexão da viúva do poeta
N. Mandelstam. Parecia formada por “seres ligeiramente desequilibrados mentalmente, não
completamente doentes, mas também não totalmente normais”.
Reformando o socialismo: alcances e limites da desestalinizacão
(1953-1964)

ENQUANTO A SOCIEDADE aturdia-se em manifestações de pranto e de dor, na cúpula


do poder movimentos rápidos, logo tornados públicos, esboçaram uma nova direção.
Menos de um mês depois da morte de Stalin, numa primeira medida, um grande impacto: a
suspensão do processo contra os médicos acusados de sabotagem e assassinato de dirigentes e a
sua imediata libertação. O complô dos camisas brancas não existira. O processo todo fora uma
farsa. As confissões, extorquidas por “métodos ilegais de inquérito”. A novidade vinha
diretamente do Ministério do Interior (MVD), e quem noticiava o assunto era o próprio Pravda.
O estupor.
Como ficaria então a doutora Timachuk, que fizera as denúncias que haviam dado origem à
trama? Perderia o prêmio Lenin que recebera pela vigilância revolucionária demonstrada?
Perdeu. E a campanha de imprensa que, durante mais de um mês, exigira a condenação dos
“espiões sujos” e dos “assassinos disfarçados em professores de medicina”? Que clamara pelo
“fim da criminosa negligência nas fileiras do partido (…) para que se pudesse liquidar
definitivamente a sabotagem”? Os responsáveis, o que aconteceria com eles? Se houve
responsáveis, nunca chegaram a ser conhecidos, muito menos punidos.
Documentos secretos, recentemente publicados (N. Werth e G. Moullec, 1994), sobre a
receptividade da população à campanha contra os médicos-assassinos, evidenciam tendências
ambíguas: de um lado, o reforço das tradicionais fobias antissemitas, mas, de outro, a descrença
em relação ao chamado complô. Como se a sociedade apresentasse algum tipo de resistência
em reingressar nos horrores de um novo ciclo de julgamentos pré-fabricados.
Agora, depois da reviravolta, em meio à surpresa geral, tornava-se difícil distinguir o falso
do verdadeiro. Enquanto alguns ainda mantinham dúvidas sobre a inocência dos acusados,
muitos se permitiram criticar abertamente os serviços de segurança, responsabilizados pelos
erros cometidos e pela violação da legalidade socialista.
E um empreendimento delicado reconstituir a trama exata de episódios de bastidores que
começaram a se desdobrar com rapidez, desenhando alianças cambiantes e novas configurações
do poder.
Há um largo consenso de que a urdidura do complô tinha como objetivo uma nova
campanha maciça de limpeza no interior do partido e da sociedade. Os anjos exterminadores de
meados dos anos 30 voltariam a ser convocados. Neste sentido, a morte de Stalin salvou a
URSS de um nova ciranda infernal de Terror.
As incertezas começam na definição exata das responsabilidades. Sabe-se que Riumin foi o
responsável direto pela organização do processo que incriminou os médicos. Pagou com a vida
por isto, o mesmo ocorrendo com Abakumov, chefe do MGB, que dirigiu as operações de
limpeza em Leningrado, que vitimaram N. A. Voznessenski e dezenas de militantes. Mas estes
homens, embora altos responsáveis, não poderiam ter agido por conta própria. E quanto a Beria,
qual o seu grau de envolvimento, se teve algum? Ou, se, ao contrário, seria um dos primeiros
grandes alvos dos novos processos-espetáculo?
O fato é que Beria, o todo-poderoso chefe da segurança, e, nesta condição, aparentemente
comprometido com a prática anterior dos chamados órgãos, converteu-se, logo depois da morte
de Stalin, num dos principais adeptos de medidas visando a desconcentração do poder, a
valorização do recurso à lei e a punição dos responsáveis imediatos pelas arbitrariedades mais
recentes e notórias. Puro oportunismo ou reação a ofensivas sub-reptícias dirigidas contra ele
próprio?
O fato é que se multiplicaram as decisões tendentes a reverter o quadro do Terror que se
anunciava, entre as quais uma sucessão de reformas nos aparelhos da polícia política. E neste
quadro que se podem relacionar punições, aposentadorias antecipadas, revisões de atribuições,
deslocamento de responsáveis, mudanças de competências, novas siglas, novos chefes,
tremores contínuos, de intensidade variável, e que culminaram na prisão (anunciada em julho
de 1953) e na condenação à morte e execução do próprio Beria (dezembro do mesmo ano). O
sentido mais geral de tudo isto: embainhar a espada do proletariado, em outras palavras, colocar
os órgãos de segurança sob o estrito controle do partido, ou ainda, numa formulação jurídica,
muito a gosto da época: restabelecer (alguma vez fora estabelecida?) a legalidade socialista.
Não foi possível observar com rigor as formalidades em todos os casos. Assim, os
responsáveis mais comprometidos com os inquéritos e processos judiciais, acostumados a
extrair as mais bizarras confissões, seriam agora convidados a confessar. E desapareceram,
condenados em julgamentos sumários e secretos. Eliminados.
Métodos semelhantes aos utilizados pelos que estavam sendo agora condenados. Não
contaminariam os propósitos reformadores? Na época, foram justificados sob o argumento de
que não havia outro recurso. Com efeito, menos de seis meses depois da morte de Stalin, a
polícia política e outros órgãos que dispunham de elevado grau de autonomia, como Estados
dentro do Estado, tinham sido desativados ou colocados sob controle.
Suprimidos, os tribunais especiais, as temíveis troika, que julgavam sem direito a recurso os
dossiês investigados pela polícia política. Dissolvido, o secretariado pessoal de Stalin, câmara
secreta que chegou a concentrar tremendo poder de decisão e de execução. Renomeada, a
instituição central da segurança, de Ministério (MGB) a Comitê (KGB). Na verdade, uma
reforma que acarretou mudanças significativas, para além de um simples acerto nominal. A
segurança perdia o status de Ministério, subordinava-se a autoridades maiores. Desde então, os
dirigentes do rebatizado KGB passaram a funcionar, em cada nível, sob o controle dos
responsáveis partidários.
Para o partido e as organizações sociais, uma série de sinais moderadores e
tranquilizadores, entre os quais uma decisão maior, a revisão do veredicto do Colégio Militar da
Corte Suprema da URSS que, em outubro de 1950, condenara, entre outros, N. Voznessenski,
A. Kuznetsov e M. Rodionov, respectivamente membros do Bureau Político, do Comitê de
Organização do Comitê Central, o Orgburo, e presidente do Soviete Supremo da URSS.
Reabilitados e readmitidos no partido, uma honra, mesmo que para muitos a medida viesse um
pouco tarde demais.
Para a sociedade, e no mesmo sentido, alguns decretos de amplas e profundas implicações:
anistia para os condenados a menos de cinco anos de prisão, ou seja, a grande maioria da
população das colônias de trabalho (ITKs). Redução pela metade das penas maiores,
alcançando o conjunto dos zeks detidos nos campos de trabalho (ITLs).
No plano geral, a afirmação, reiterada, de uma dupla inovação: a necessidade do respeito ao
caráter coletivo da direção política e ao cumprimento das leis, cuja interpretação passaria a
depender exclusivamente dos tribunais. *
Como se fluidos novos estivessem corrompendo a esclerose, uma desagregação de cristais.
Um degelo.
Ainda ao longo de 1953, numa sucessão de reuniões, o Comitê Central, revitalizado como
parlamento da direção política, formulou outra série de medidas de impacto para população:
redução de preços para produtos de consumo corrente, aumentos salariais, suspensão de
empréstimos compulsórios, perdão de dívidas, reorientação de prioridades no sentido de
atender às reivindicações básicas da população. Os dirigentes do partido pareciam identificar
com clareza as dificuldades que atormentavam o comum dos mortais e tratavam de tomar
providências corretivas, à procura, talvez, de legitimação política, atenuando os rigores da
repressão e da disciplina, implementando melhorias no abastecimento de gêneros básicos, nos
transportes públicos, nos serviços de ampla demanda social, na construção de habitações
populares.
A agricultura era o nó de quase todos os problemas. Nikita Kruchev, designado primeiro-
secretário (o termo secretário-geral caíra em desuso pela associação óbvia com a figura de
Stalin), reconheceu em público as contradições que emperravam o sistema: custos altos, preços
baixos, falta de estímulos, pletora de controles. A elevação das condições de vida da população
passava necessariamente por uma completa reformulação na organização do mundo rural.

PARTIDO E ESTADO: O FENÔMENO KRUCHEV

Na luta que então se estabeleceu entre o primeiro-ministro, G. Malenkov, e o primeiro-


secretário, Nikita Kruchev, mediram-se dois blocos institucionais: o Estado e o partido. O
primeiro, nos tempos de Stalin, quase absorvera o segundo. Agora, era como se o partido
quisesse retomar nos dentes uma autonomia nunca negada teoricamente, mas perdida na
prática. No embate, predominou o partido. Estava em sintonia com as referências teóricas que
se procuravam então valorizar, mas, sobretudo, foi a consequência do hábil jogo de manobras
conduzido por Kruchev, que soube tecer alianças entre os partidários das reformas e os
interesses constituídos da indústria de armamentos e dos setores da chamada indústria pesada.
Mas seria possível conciliar tantos interesses desencontrados? Os gigantescos dinossauros
comedores de ferro e de aço poderiam conviver sem atritos com os humanos consumidores de
trigo e de batatas?
Kruchev, com olhos inquietos e sorriso contagiante, respondeu que sim. E não apenas nos
altos círculos onde homens graves tomavam as decisões de caráter geral, mas nas ruas, nas
lojas, nos kolkhozes, nas fábricas. Porque o homem parecia multiplicar-se, estava em toda a
parte, falando, cortejando, conversando, discursando, expondo, expondo-se.
A emergência de um novo estilo. Em vez dos apparatchiks sisudos, espartilhados em
pesados sobretudos, cinzentos e compenetrados, sérios, severos, distantes, apareceu a imagem
de um bom velhinho, jovial, loquaz, capaz de levantar crianças e beijá-las, falando uma
linguagem viva, cheia de metáforas e frases de efeito, de provérbios populares e anedotas.
Encantou mais do que chocou, sobretudo porque trouxe com seu verbo promessas de
resgate e de regeneração, de coragem e de confiança, de reconciliação. A URSS enfrentaria as
dificuldades e as venceria. Antigas ressonâncias pareciam ecoar, como se velhos slogans
fossem reatualizados, espanados e colocados novamente em circulação. Quem não se lembrava
de que não havia no mundo “fortaleza capaz de resistir ao assalto de verdadeiros
bolcheviques”?
O homem tinha respostas para as perguntas e soluções para os problemas.
Todos ganhariam.
Na agricultura, a nova política assumiu três direções principais: de um lado, um complexo
de medidas para estimular o camponês a plantar. De outro lado, era preciso atacar áreas
disponíveis, mas virgens de trabalho humano, ampliando as superfícies cultivadas. Finalmente,
a ideia de concentrar a produção em novos produtos, adaptados ao solo, rentáveis, capazes de
atender num prazo mais curto às demandas crescentes da sociedade em cereais e forragens.
Satisfeitos com os melhores preços, os homens da terra aumentariam a produção,
melhorando o abastecimento das cidades. Os urbanoides, comendo mais e melhor, devolveriam
o troco, com bens de consumo corrente, espantando o fantasma da tradicional crise das
tesouras, encadeando o ciclo virtuoso da economia equilibrada e planejada. Sem prejuízos para
as alocações destinadas à defesa nacional e à indústria pesada.
Em suma, a URSS continuaria a ser forte pelas suas armas, seus tanques e canhões, sua
refinada tecnologia de guerra, pelo seu ferro e seu aço, e suas fontes de energia, mas não
deixaria de cuidar com a devida atenção de sua disciplinada e industriosa população. Não se
tratava de privilegiar de uma forma unilateral a indústria leve e os bens de consumo imediato,
subestimando a defesa, a indústria pesada e a agricultura (erros atribuídos a G. Malenkov). Mas
de atender, de forma criteriosa, as demandas dos diversos setores. Kruchev apresentou-se como
o campeão da harmonização de todos estes segmentos igualmente fundamentais para o
equilíbrio político, social e econômico do país.
As propostas inovadoras não se restringiram às fronteiras da primeira pátria do socialismo.
Para além, em círculos concêntricos, atingiram os diversos sistemas e regiões do mundo.
Na área socialista, era preciso afrouxar controles. Reconhecer autonomias e especificidades.
Foi suspensa a corrente de reparações da Alemanha (RDA) para a União Soviética, e
dissolvidas as empresas mistas estabelecidas logo depois da Segunda Guerra Mundial na RDA,
na Romênia e na China. Tinham-se tornado fontes de atrito, criando a embaraçosa impressão de
que os soviéticos reproduziam métodos próprios do capitalismo internacional. Definidas novas
linhas de crédito, com juros mais generosos, perdão de dívidas e acordos de cooperação técnica,
além de incentivos à integração econômica, no quadro de um Comecon dinamizado, com a
ambição de se tornar um mercado comum socialista, paralelo e superior à Comunidade
Econômica Europeia então emergente, capitalista e exploradora.
Num desdobramento espetacular, a reconciliação com a Iugoslávia de Tito. Como um
agente hitlero-trotskista podia ser novamente readmitido na família de Estados e comunidades
socialistas? Acusações impróprias, reconhecia-se a sua improcedência. E Nikita Kruchev fez o
impensável: tomou um avião e foi a Belgrado, onde selou a paz, bem ao seu estilo, de forma
inopinada, e com direito a beijos estalados, sonoros, na boca, à maneira eslava.
Queria isto dizer que o caminho para o socialismo era plural? Que fim levara o monólito
socialista, muitas vezes desconfortável, mas seguro? Apagavam-se os faróis da história? E as
locomotivas com seus maquinistas vigorosos? Metáforas familiares deixavam o centro do
palco, afastando-se no horizonte, na esteira de um rastro de desorientação, de angustia ou de
contentamento, de acordo com a trajetória e as expectativas de cada um.
Mal o maestro recolhera a batuta, ainda no ar a ressonância da unanimidade de praxe, e já a
cacofonia se fez ouvir. Os berlinenses explodiram em ensaio insurrecional no próprio ano de
1953. Contido pela violência, ficou sinalizando a possibilidade de desdobramentos imprevistos.
Os comunistas chineses desconfiavam dos movimentos soviéticos, aparentemente muito
rápidos, aonde levariam? E a reconciliação com Tito? Qual o seu significado?
Da Ásia vinham também novidades: o armistício de Panmunjon, embora formalmente
provisório, reinstalava a península coreana numa dinâmica de paz, embora ainda precária. No
ano seguinte, depois da vitória de Dien Bien Phu (1954), o conflito do Vietnã passou
igualmente por um processo de acordos, em Genebra, com concessões de ambas as partes.
Ninguém poderia ignorar, mesmo sem subestimar as autonomias de comunistas coreanos e
vietnamitas, que a União Soviética fora informada e, no limite, autorizara estes movimentos.
Em 1955, outras aberturas: o tratado de neutralização da Áustria e a visita de Konrad
Adeunaer a Moscou. Em esboço, uma nova política de relações internacionais com o bloco
capitalista liderado pelos Estados Unidos da América, a coexistência pacífica, querendo
resgatar a opção desenhada nos anos 20.
Numa outra dimensão, o estabelecimento de relações comerciais e diplomáticas com os
países subdesenvolvidos do mundo capitalista: um primeiro acordo com a Argentina e a triunfal
viagem de Kruchev à índia. Mesmo não tendo sido admitida na Conferência de Bandung, que
pretendeu fundar um terceiro mundo, autônomo em relação à polarização comandada pelas
duas superpotências, a União Soviética, a princípio desconfiada, começou a se propor, com uma
ousadia cada vez maior, como uma parceira destes países e lideranças que reivindicavam a
condição de neutralidade e não-alinhamento entre socialismo e capitalismo.
Mas, pelo seu simbolismo, foi entre os intelectuais russos que o vento das mudanças iria
bater com mais estardalhaço, encontrando grande repercussão midiática, tanto na União
Soviética como em todo o mundo capitalista.
O degelo, nome de uma novela escrita por Ilia Ehrenburg, tornou-se o termo aceito por
todos para caracterizar o período. Laureado (prêmio Stalin, de 1952) e fiel escritor soviético,
por meio de uma ficção, o autor pintou com cores fortes as venturas e desventuras de
intelectuais às voltas com os problemas de sempre: a fidelidade às próprias convicções e/ou às
artimanhas e às benesses do poder. Uma história de atração e repulsa, narrada ainda num tom
um tanto polarizado e sem ambiguidades. Crítica ao sistema, mas recolhendo aspectos
essenciais de seus padrões literários tradicionais, baseados nas figuras do herói positivo e do
vilão.
Mais que a qualidade literária, entretanto, pesou a ousadia do gesto e o conteúdo da história.
Outros o haviam precedido com chamamentos à necessidade de mais autenticidade e
sinceridade na poesia e na prosa. Desenhavam-se centros de resistência e questionamento,
como a revista Novi Mir (Novo Mundo).
Era como se algo se estivesse preparando nas entranhas daquela sociedade, ainda tão
tolhida, e já se manifestando nas margens menos estreitas de liberdade.

O XX CONGRESSO E O INFORME SECRETO

E foi então que aconteceu o terremoto.


Teve como cenário o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, realizado
em fevereiro de 1956. Os delegados, como de hábito, haviam aprovado as mudanças até então
propostas pelo Comitê Central, confirmando as orientações da nova liderança, agrupada em
torno de Kruchev. As ovações de praxe, unânimes.
No último dia de trabalho, porém, os delegados foram convidados a participar de uma
sessão extraordinária, de caráter dito secreto, como se, em algum lugar, ou em algum momento,
um segredo pudesse ser compartilhado por algumas centenas de pessoas.
E tomaram conhecimento, estarrecidos, de que Stalin, canonizado até então como o
principal líder e guia do socialismo contemporâneo, que, pelos seus méritos, chegara a
obscurecer os grandes do passado, e que repousava placidamente ao lado de Lenin no suntuoso
mausoléu da Praça Vermelha, pois ele mesmo, o maquinista da locomotiva da história, não
passara de um déspota liberticida, um criminoso de Estado, cruel e sanguinário, um tirano. A
catilinária não estava sendo feita por nenhuma agência imperialista, nem por nenhum líder
contrarrevolucionário, mas pelo homem mais poderoso do Partido Comunista soviético, o
próprio primeiro-secretário, e aquilo não era nenhum pesadelo, nem pudera ser antes jamais
sonhado. Como se estivesse havendo uma brusca inversão de temperatura e pressão, das
referências mais enraizadas não sobrou pedra sobre pedra, a mais pura realidade como se fora a
mais espessa das irrealidades, um verdadeiro buraco negro, tragando valores consagrados e
profundas convicções, um tormento, traduzido em indizíveis náuseas e numa euforia
catastrófica, exprimindo-se em aplausos e ovações ao homem que tivera a coragem de dizer o
que todos não sabiam que sabiam, mas sabiam, mesmo os mais inocentes.
Na tribuna, Kruchev fazia um papel shakespeariano. Sem aviso prévio, atravessava o seu
Rubicão1. E queimava caravelas, desaforado, sarcástico, insultante, mostrando as mazelas,
escarafunchando as feridas com ferro em brasa, desafiando, matando o morto pela segunda vez,
agora a sua alma.
Os termos da denúncia eram muito contundentes para permitir neutralidades. Aquilo fora
um verdadeiro golpe, um marco. Ou aparecia um Brutus e liquidava o denunciante, ou se
aprovava a denúncia e se matava, fosse pela segunda vez, o já defunto. Os delegados ao XX
Congresso inclinaram-se, com seus aplausos, pela segunda alternativa, e consolidaram, no
mesmo movimento, a liderança de Kruchev.
Mas havia uma questão maior em relação ao passado que precisava ser resolvida. Como um
homem como aquele podia ter guiado uma sociedade no rumo da construção de uma
humanidade emancipada e feliz? A resposta estava também no discurso do primeiro-secretário:
propunha-se a absolvição do Partido Comunista e do povo soviético. Ambos haviam vencido a
guerra e construído o socialismo, não guiados por Stalin, mas apesar do tirano. Ou seja, eram
tão fortes e saudáveis, o povo, o partido e o socialismo, que souberam enfrentar e superar as
piores dificuldades, inclusive a de contar, em sua máxima liderança, com um tirano
sanguinário. E, agora, o baniam da história, para sempre. Não era este o atestado da sanidade de
um corpo, sua capacidade de vencer e expelir os mais virulentos micróbios? Assim, a denúncia
não evidenciava fraqueza, mas mostrava força, liberando energias represadas, abrindo
horizontes novos.
A dialética, já disse um cético, é como o boneco joão-bobo, supõe a arte de, mesmo caindo
deitado, levantar-se sempre, e acabar de pé. Os delegados presentes àquele momento histórico,
já havia muito completamente livres de qualquer controle da sociedade, compreenderam
rapidamente que aquele discurso representava a sua emancipação dos controles arbitrários do
alto, uma garantia suplementar de poder, um seguro de que estavam, e continuariam, de pé.
Mas e a população? Como reagiria aquela gente robusta, mas inocente? Aqueles
trabalhadores dedicados, impregnados pelo culto à figura de Stalin? Aqueles militantes
abnegados, mas não necessariamente preparados para compreender as exigências da história?
Não haveria uma folha de parreira que pudesse dissimular aquela vergonha?
Inventou-se uma. O discurso de Kruchev, salvo para os congressistas, não seria distribuído,
mas apenas lido, para os convidados estrangeiros e em reuniões de comunistas e simpatizantes
por todo o país. Cópias do texto foram entregues apenas aos partidos comunistas no poder, uma
para cada um, com grandes advertências para que se tomasse a maior cautela com sua
impressão e multiplicação.
Estranha parábola: os comunistas, os homens do verbo, e do futuro, e do verbo do futuro,
diante de um texto absolutamente fundamental para a compreensão e o ajuste de contas com
seu passado recente, rebelaram-se contra Gutenberg e privilegiaram a tradição oral, rainha da
comunicação nas sociedades antigas. E chamaram de secreto um discurso público, aquela
história do sol e da peneira.
Menos de seis meses depois, evidentemente, o inevitável ocorrera, e a fala de Kruchev, que
de secreta só tinha o nome, corria mundo e estava nas páginas de todos os grandes jornais,
impressa e na íntegra. Só os soviéticos teriam de esperar ainda cerca de 30 anos para tê-la em
letra de forma. E pagar pelas perdas e danos do que disso decorreu.
Porque a discussão que se seguiu, intensa, foi bastante truncada.
De saída, pelo próprio método escolhido, o da apresentação oral. Os parágrafos subtraídos
(para não chocar), a oratória eventualmente monocórdia, as vozes inaudíveis, em amplos
espaços para grandes audiências: quantos ruídos, e silêncios, a perturbar a boa compreensão do
que estava sendo lido.
O ponto forte do discurso de Kruchev, naturalmente, era a denúncia em si mesma, e o
anedotário associado, histórias de bastidores, coloridas pela verve do orador, expressões de uma
época, mais reveladoras, às vezes, do que analises sofisticadas. Mas incapazes de substituí-las,
porque apenas mostravam (o que não era pouco), mas sem ajudar a compreender.
Por outro lado, os marcos cronológicos e a escolha dos personagens eram arbitrários,
porque baseados em critérios não explicitados. Com efeito, o primeiro-secretário foi seletivo na
escolha das vítimas a lamentar. Restringiu-se a apontar os efeitos das operações de limpeza
sobre os próprios camaradas stalinistas, a partir de 1934. Assim, dos véus que cobriam a
carnificina das sucessivas oposições e dissidências anteriores à morte de Kirov, nenhum foi
levantado. Por outro lado, nenhuma palavra crítica a respeito dos processos-espetáculo de
Moscou, nos quais morreu chacinada a fina flor do partido bolchevique dos tempos heroicos.
Mais grave do que tudo: nenhuma referência, nem reflexões, sobre o cataclismo que abalou
a sociedade a partir da coletivização forçada e da implementação dos planos quinquenais. Uma
tácita aprovação? Estranha contabilidade: a sociedade suportara os efeitos dos erros, mas eles
só eram apontados, e devidamente registrados e denunciados, quando atingiam o partido. Era
razoável manifestar pesar pelos dirigentes partidários aniquilados injustamente e sem direito de
defesa, mas onde ficava o sofrimento dos milhões de perseguidos, delatados, vigiados,
humilhados, presos, deportados? Não seria necessário dedicar algumas linhas a estes anônimos?
Afinal, o discurso não se referia a eles como o fim último das políticas partidárias e estatais, e
como a base fundamental sobre a qual se apoiava todo o processo de construção do socialismo?
Estas incongruências suscitaram dúvidas e perguntas incômodas nos debates acalorados que
se seguiram à leitura do famoso discurso: por que crimes tão graves não tinham sido
denunciados a tempo? Fora preciso esperar três anos, depois da morte de Stalin, para apurá-los?
E os dirigentes do partido, que agora denunciavam, não haviam sido companheiros do tirano,
vários por mais de uma década? Tudo ignoravam?
Se sabiam, por que não haviam antes denunciado? Apenas por medo? Ou também por
oportunismo? Ou por cumplicidade? Como explicar que um ser tão desprezível tivesse tido a
capacidade de lograr todo um partido, todo um povo, durante tanto tempo?
E o constrangimento de ter de aturar, olho no olho, os que voltavam, anistiados, dos campos
de trabalho e do exílio interno. Um mal-estar. Como ficariam os que ocupavam os cargos dos
que se haviam ido para nunca mais voltar e, no entanto, voltavam? E os delatores dos pretensos
criminosos, que já não eram reconhecidos como tais, agora reabilitados, muitos readmitidos no
próprio partido? Seriam julgados? Por quem? Pelos tribunais que haviam condenado os
inocentes por crimes inexistentes? E os milhares de carrascos, de carcereiros, de torturadores,
que ocupações poderiam assumir, em que planilhas reclassificá-los? Muitos não hesitavam em
se defender: tinham sido cidadãos exemplares e haviam cumprido fielmente as determinações
partidárias, eram bons pais de família, pessoas de bem. Como condenar esta gente ordeira e
honesta? E os povos deportados, reivindicando a volta às regiões de origem? Iriam deslocar os
que estavam em suas terras, às vezes em suas casas? E apareciam outros problemas, alguns
mesquinhos, porém delicados: os retratos, bustos e estátuas de Stalin, o que fazer com aqueles
símbolos? Não lembravam uma época que era agora necessário enterrar? E os livros de Stalin,
em que todos estudavam? Eram falsos? E falsa a gente que estudara neles o reto caminho? E o
defunto, continuaria no mausoléu?
Como tratar estas questões irritantes? Um verdadeiro entulho, imenso, monstruoso.
Removê-lo não desviaria as energias necessárias, agora mais do que nunca, à construção do
socialismo? Os comunistas não estariam se prestando a fazer o jogo do inimigo? Já não fora
realizada a autocrítica necessária? O que desejavam mais?
Muitos, efetivamente, desejavam mais, queriam ir mais longe.
O livro de V. Dudintsev, Nem só de pão, publicado em 1956, chamava a atenção, por meio
da ficção, para uma questão perturbadora: e se o problema não fosse apenas o de um tirano,
descontrolado no vértice da pirâmide, mas o da própria pirâmide? Uma realidade maior, a da
existência de um sistema burocrático, insensível, antidemocrático, impopular. Rapidamente, o
personagem-chave, o burocrata chamado Drozdov, passou a designar o conjunto, um mundo de
drozdovs, em oposição à sociedade, oprimida e vitimizada.
Outros autores aproveitaram as brechas e largaram suas sondas. Romances, novelas,
poesias, canções, memórias, toda uma literatura crítica emergiu das sombras para pensar a
história, as trevas e as luzes, as denúncias e as explicações. A praticar a catarse de uma
sociedade em busca de alternativas.
Em meio ao alarido, uma obra ultrapassou os limites: Dr. Jivago. Seu autor, Boris
Pasternak, permitiu-se ir além do stalinismo e de Stalin, colocando em questão as razões da
revolução, sua intrínseca impiedade, suas tensões desumanizantes. Nas entrelinhas, talvez
inconscientemente, suscitava-se a indagação: e se Stalin fosse apenas um desdobramento da
revolução? Como a consequência de uma causa?
Ora, todo o esforço revisionista de Kruchev baseava-se no procedimento legitimador da
volta às origens. Resgatar Lenin contra Stalin. Voltar ao princípio, aos princípios, mutilados
pelo Gengis Khan da Geórgia. Retornar à revolução para questionar as derivas. Pois bem, era
exatamente a revolução que Pasternak interpelava. Não continha ela, em germe, o monstro que
tudo destruiu?
Como se não bastasse, em virtude de ter sido devidamente censurado pela censura, o autor
cometera a vilania de passar (contrabandear) o manuscrito para o exterior. Publicado na Europa,
o livro fizera furor, transformou-se num best-seller, repercutindo na URSS pelas emissões das
rádios estrangeiras. Um intolerável jogo da contrarrevolução.
Pasternak foi criticado e expulso da União dos Escritores. Obrigado a severas autocríticas.
De nada lhe adiantou recusar, depois de aceitar, a graça do Prêmio Nobel. Morreu, poucos anos
depois, no ostracismo, enfraquecido pela doença. Um destino duplamente simbólico, pelos
limites que involuntariamente evidenciou. Os da crítica: ela não poderia alcançar a revolução,
nem ser divulgada, quando proibida, fora das fronteiras do socialismo. E os da punição:
Pasternak morrera de tristeza, mas não fuzilado.
Fronteiras não muito bem demarcadas, mas que não poderiam ser atravessadas.
Na vaga revisionista que se abateu sobre o mundo socialista, houve interpretações
extremadas a respeito das margens possíveis de manobra. O fenômeno foi mais visível na
Polônia e, sobretudo, na Hungria. Questionamentos da ordem, críticas acerbas à abominada
burocracia, mal disfarçadas invectivas contra os soviéticos, aqui e ali chamados de russos, a
lembrar antigas rivalidades e ódios nacionais guardados nas dobras do tempo.
Na Polônia, o Estado soviético teve de apelar para ameaças no sentido de enquadrar o
ânimo do movimento favorável às mudanças. Mas alguns anéis se perderam, como a libertação
de W. Gomulka, dirigente fiel, mas preso por opiniões dissidentes em limpezas anteriores e que
saiu da cadeia diretamente para o poder. Na Hungria, no entanto, a combinação de repressão e
de concessões não teve força para conter os ânimos. A oposição minou o partido, alcançou a
intelectualidade, desbordou para as ruas. Para manter o socialismo foi preciso chamar os
tanques soviéticos, que esmagaram num horror de fogo e destruição as manifestações maciças
que exigiam liberdades democráticas e independência nacional.
O estrago para o prestígio dos novos homens do poder só não foi maior porque, na mesma
conjuntura, uma coligação anglo-francesa, com apoio de Israel, tentou reviver, num último
canto de cisne, as glórias de um colonialismo que dava os últimos suspiros, mas não queria
morrer. Desembarcaram no Canal de Suez e invadiram o Egito, mas se equivocaram de século.
Pressionados pelos Estados Unidos, ameaçados pela União Soviética, retiraram-se humilhados
para a glória de Nasser e do Estado soviético que, entre as imagens de guerreiro e carrasco na
Europa Central (esmagamento da revolução húngara) e de libertador e amigo da paz no Oriente
Médio (defesa da revolução egípcia), conseguiu fazer prevalecer a segunda, pelo menos no seu
campo de influência. Quanto à Hungria, também se equivocara de tempo histórico: sua
liberdade esbarrara nos limites de Yalta, ainda vigentes. Seria preciso ainda esperar um pouco
mais de quatro décadas.
Mas o susto fora grande.
No interior da União Soviética agitaram-se as forças contrárias às mudanças propostas por
Kruchev. Das incertezas provenientes da rebelião húngara pretenderam extrair força para
questionar o poder do primeiro-secretário. Formaram maioria no Bureau Político, agora
rebatizado de Presidium, e desferiram o golpe. Mas encontraram resistência. Ao socorro de
Kruchev vieram os membros do Comitê Central, mobilizados, em manobra inédita, pelo
general Jukov, ministro da Defesa. Isto nunca acontecera, embora estivesse perfeitamente
dentro das normas escritas: uma rebelião do Comitê Central contra o Bureau Político. Kruchev
saiu vencedor e os vencidos, obrigados à autocrítica, perderam suas posições. Ganharam, como
rezava a tradição, o opróbrio: grupo antipartido, mas, na desgraça, sinal dos tempos novos,
conservaram as vidas, ou simulacro de vidas. Assim, nomearam V. Molotov, todo-poderoso
ministro das Relações Exteriores durante anos, para a embaixada soviética em Ulan-Bator,
capital da longínqua Mongólia, e L. Kaganovitch, ex-comandante-em-chefe da indústria
soviética, para dirigir uma usina no Casaquistão, e G. Malenkov, ex-primeiro-ministro do
governo, para uma fábrica de cimento nos Urais.
Consolidada a política de mudanças, tratava-se de aprofundá-la em todas as suas
dimensões, rapidamente, e de forma grandiosa, no estilo próprio de Kruchev, ao qual a
sociedade soviética e o mundo já iam se acostumando.
Na agricultura, radicalizar as mudanças previstas. As metas de aumento da superfície
cultivada (terras virgens) foram num crescendo de ambições até atingir a fantástica cifra de 35,9
milhões de hectares, equivalente ao total da terra cultivada num país como o Canadá (Alec
Nove, 1990). Ao mesmo tempo, outras medidas tentaram mudar, mais uma vez, a paisagem do
mundo rural: um novo espasmo reconcentrador na área dos kolkhozes, passando de 125 mil
para 69 mil unidades, cada vez mais gigantescos; dissolução das Estações de Máquinas e
Serviços (MST) e entrega das mesmas aos kolkhozes; extensão maciça da eletrificação ao
campo; transferência de técnicos e engenheiros para melhorar o assessoramento da produção
agrícola; permissão ao camponês de comercializar o conjunto da produção obtida em seu
pequeno lote de exploração individual ou familiar. Desta vez a agricultura soviética deixaria de
ser um fator de retardo para se converter em estímulo. Objetivo: alcançar os Estados Unidos na
produção de carne e de manteiga. Como gostava de dizer Kruchev, arrancando risos e aplausos:
“O socialismo é muito bom, mas será melhor ainda com manteiga.”
No plano geral da economia, uma reorganização radical. Para quebrar as tendências
ultracentralistas do Ministério do Planejamento (Gosplan), consideradas ineficientes, aprovou-
se a criação de 105 Conselhos Regionais de Economia (sovnarkhozes), que passaram a se
responsabilizar pelas orientações e pela coordenação das atividades econômicas em suas áreas
de jurisdição.
As previsões e os resultados obtidos observavam o padrão consagrado pela tradição: altas
taxas de desenvolvimento para a indústria pesada, os transportes e a produção de energia,
deslocando-se a prioridade, neste último setor, do carvão para a produção de petróleo e para o
gás. Associada, outra grande novidade era a ênfase na indústria química. Ao mesmo tempo,
como já foi referido, previram-se também aumentos significativos na produção de bens de
consumo corrente e na construção imobiliária.
A euforia contagiante do primeiro-secretário, sempre esbanjando otimismo em constantes
viagens pelo país, tinha como carro-chefe as proezas soviéticas no campo da corrida
aeroespacial e no da construção de mísseis balísticos intercontinentais.
Em 1957, coincidindo com o 40° aniversário da “Grande Revolução de Outubro”, e para
surpresa do mundo, a URSS iniciou, com o lançamento do primeiro satélite artificial, a série
dos Sputniks, veículos cada vez mais pesados, evidenciando o domínio de uma tecnologia
revolucionária. Na sequência, a série de Luniks, plantando a bandeira da URSS na Lua e
fotografando a sua face oculta. E o lançamento do primeiro homem ao espaço (Y. Gagarin), da
primeira mulher (V. Terechkova), do primeiro cosmonauta a passar 24 horas em órbita (G.
Titov). Apesar de todos os esforços dos EUA, a URSS manteve, em toda uma primeira fase,
aparente liderança na corrida espacial, capitalizando enormes ganhos em termos de coesão
nacional e prestígio internacional.
Foi um tempo de ouro, quando todas as promessas pareciam prestes a se concretizar.
Culminou, em 1959, com a primeira viagem de um dirigente máximo soviético aos EUA e o
encontro histórico de Kruchev e D. Eisenhower em Camp David. A coexistência pacífica e suas
ambiguidades: se, por um lado, a URSS aparecia na cena internacional com propósitos
moderados, distante o discurso radical revolucionário, por outro, não renunciava, em nenhum
momento, à perspectiva de que, um dia, o mundo todo seria socialista. A própria maneira com
que os EUA recebiam o dirigente soviético demonstrava com muita clareza o grau de
reconhecimento alcançado pela URSS na política internacional.
DISSONÂNCIAS E GOLPE: O FIM DE KRUCHEV
Entretanto, nem tudo se encaixava naquele quebra-cabeças.
No próprio mundo socialista, apareceram dissonâncias. No Oriente, os comunistas chineses,
sobretudo, não concordavam com o caráter virulento das críticas a Stalin. O homem, alegavam,
podia ter cometido erros, mas sua contribuição fora fundamentalmente positiva. Além disso,
desconfiavam da aproximação dos soviéticos com os norte-americanos. Temiam que, naqueles
jogos complexos, os interesses da China fossem negligenciados ou ignorados, no limite traídos.
Aliados à pequenina Albânia, assim chamada para evidenciar a coragem da sua luta contra o
gigante soviético, começaram a atirar petardos contra o que chamavam, de forma pejorativa, de
revisionismo soviético. No ocidente, eram os comunistas italianos que, de outro ângulo,
propunham orientações diferentes, alegando particularidades inegáveis, e esboçavam o
movimento que, mais tarde, assumiria o nome de eurocomunismo. De extremos distintos,
comunistas chineses e italianos tinham em comum a perspectiva da autonomia. Em xeque, o
monolitismo do campo socialista e a condição de vanguarda do socialismo soviético, em
filigrana, a proposta de um socialismo policêntrico.
Internamente, as reformas apresentavam problemas. As campanhas sucessivas
desencadeadas pelo primeiro-secretário combinavam-se mal com a tradição dos planos
centralizados. Os dinossauros comedores de ferro e aço iam muito bem, obrigado, como
sempre. Bombas de hidrogênio, mísseis intercontinentais e foguetes, armamentos pesados e
leves, metalurgia pesada, produção de energia, os índices estavam lá, atestando a robustez do
setor. Na vitrine, a corrida espacial marcava pontos; no mercado internacional de armas, as
soviéticas sustentavam a comparação. No preço e na prática.
Mas e a manteiga, que tornaria o socialismo “mais gostoso”?
Também como sempre, persistiam problemas nesta área. A incorporação das terras virgens,
que tinham absorvido e canalizado vastos recursos humanos e materiais, e suscitado esperanças
delirantes, apresentava resultados mitigados, quando não decepcionantes. O voluntarismo
esbarrava nos limites da natureza. Inadequação de sementes, deficiências na adubação,
assistência técnica problemática. Problemas de erosão, adaptação de produtos aos solos. Secas e
desastres ecológicos.
Do ponto de vista da organização, os kolkhozes gigantescos funcionavam bem nas planilhas
e no papel do planejamento. Mas, na prática, eram de difícil gerenciamento. A absorção das
máquinas e equipamentos estava provocando problemas de digestão: havia unidades de
produção subequipadas, outras superequipadas, a escassez numa ponta, o desperdício na outra.
Finalmente, os incentivos reais conferidos estavam sendo “compensados” por exigências ainda
maiores: de que adiantava liberar os mercados livres, se os camponeses mal tinham tempo para
cuidar de seus pequenos lenços de terra, ocupados a maior parte dos dias nas terras coletivas
(leia-se estatais)?
Os maus resultados eram saudados com invectivas às deficiências de organização e com
lamentações aos azares de um clima imprevisível.
A agricultura soviética e seus problemas permanentes.
Previsões e planos não batiam. De uma base 100, referente a 1958, fez-se a previsão de que
se chegaria, em 1965, ao índice de 170. Mas os resultados obtidos não foram além de 114 (107
para as colheitas de cereais, 123 para o gado). Agravando o quadro, em 1963, um conjunto de
circunstâncias desfavoráveis obrigou a URSS, pela primeira vez, a importar maciçamente
cereais dos decadentes países capitalistas. Um fiasco.
A organização da produção também não convencia. As referências esfumavam-se. O VI
Plano Quinquenal que, em princípio, deveria ter início em 1956, não chegou a ser formalmente
definido, nem anunciado. Houve planos anuais até 1958. Em 1959, alteraram-se os critérios, e
se formulou um plano setenal inédito, até 1965. Os conselhos regionais da economia tinham
dificuldades em coordenar suas orientações e atividades e tendiam a reproduzir, em plano
reduzido, tradições e deficiências típicas do Gosplan, com a agravante de tendências
anárquicas, compensadas por circuitos informais, no limite tolerados, mas que abriam as portas
para todo o tipo de tráficos, de influências e outros.
As reformas, decididamente, patinavam. Era preciso formular alternativas.
No XXII Congresso do Partido Comunista, realizado em 1961, Kruchev retomou a
ofensiva. Uma fuga para a frente?
Aprofundou-se de modo drástico a desestalinização. Apareceu na sala de sessões uma voz
do outro mundo, uma veterana bolchevique. Falou que vira Lenin em sonhos, e que o grande
líder estava desconsolado e desconfortado por ter, ao seu lado, no mausoléu, o abominado
tirano. Que o tirassem de lá. E os delegados, de profissão de fé ateus, materialistas convictos,
renderam-se aos argumentos do sonho e aprovaram a terceira morte de Stalin, retirado com sua
urna do mausoléu, na calada da noite, e enterrado a sete palmos de terra, em lugar sabido, junto
às muralhas do Kremlin, mas não anunciado com precisão, para evitar indesejáveis romarias.
Como se não bastasse, o poeta E. Evtuchenko pediu uma guarda reforçada no túmulo, para
impedir que o espírito do morto saísse pelas frestas da laje.
Em complemento, uma furiosa campanha de renomeações de lugares públicos, de praças a
edifícios, passando por parques e fábricas, até chegar à inexpugnável e heroica Stalingrado,
transformada na prosaica Volgogrado. O nome de Stalin tornara-se indizível, não nomearia
mais nada.
E foi autorizada pelo próprio Kruchev, em pessoa, a publicação de um pequeno grande
livro: Um dia na vida de Ivã Denissovitch, de um desconhecido autor, A. Soljenitsin.
Aparentemente simplória, a novela contava a história de um recluso nas ásperas condições de
duro trabalho num campo do Gulag.
Um dia apenas. De um Ivã qualquer.
Publicado na revista Novi Mir, mais do que nunca, depois de 1961, na vanguarda da crítica
à herança de Stalin, o texto causou um impacto devastador. Na sua simplicidade, a novela
evidenciou algumas coisas terríveis, que o próprio Kruchev, como ele próprio reconheceu mais
tarde, não estimara na devida conta. Primeiro: havia um sistema de campos na URSS. Segundo:
homens comuns, e não apenas ladrões, assassinos ou sabotadores contrarrevolucionários, o
habitavam. Terceiro: o campo operava normalmente. Ou dito de outra maneira: a norma era o
seu funcionamento, ou seja, em condições normais, o campo funcionava. Em suma: o campo
não era uma exceção, mas uma regra, era a regra. Quarto e último: era até possível, mesmo nas
condições adversas do campo, aspirar a bons momentos, e mesmo dispor deles. E com pelo
menos uma vantagem em relação aos que estavam lá fora: dentro, não se vivia a incerteza da
prisão.
Enquanto a população cambaleava atordoada pelo relato da vida de um Ivã, a
intelectualidade comprometida com as denúncias contra Stalin imaginava ter atingido o ponto
de não-retorno. A. Tvardorvski, o poeta editor de Novi Mir, exclamou eufórico: “Agora o
pássaro voou, eles não conseguirão pegá-lo de volta.”
Mas pegaram, e mais cedo do que se poderia imaginar.
Aliás, logo em seguida, o próprio Kruchev convocou os intelectuais para uma reunião, na
qual, para surpresa geral, atacou rudemente sua falta de espírito partidário, e ameaçou com
sanções, punições exemplares, expulsões. Assim era o homem, impulsivo, imprevisível, nas
margens de manobra dadas, mexia-se como elefante em loja de cristais.
A sociedade presenciava uma avalanche de propostas de reformulações e reorganizações.
Veio a estranha decisão de dividir o partido em dois setores: o industrial e o agrícola, sem que
ficasse claramente estabelecido onde ficariam os serviços. Superpondo-se, mais tarde, as
administrações territoriais da produção, entidades de menor âmbito geográfico, aparentemente
mais aptas a lidar com as dificuldades específicas de cada local. Mas quem exerceria o papel de
coordenação e controle? Decretos e mais decretos, como aplicá-los?
No âmbito do partido, aprovou-se o princípio da rotatividade nos cargos de direção:
ninguém, salvo casos excepcionais, deveria ultrapassar um limite de três mandatos. E os
dirigentes deveriam ser eleitos pelo voto secreto, estimulando-se as candidaturas plurais,
abolindo-se a tradição das indicações de cima para baixo e as votações abertas, de mãos
levantadas.
As reformas tinham um sentido: a descentralização e a democratização. Mas esbarravam em
movimentos de sentido contrário, contrarreformas.
De fato, a partir de 1962, contrariando o sentido descentralizante de uma série de decisões
anteriores, e criticando dinâmicas anarquizantes daí decorrentes, a estrutura dos conselhos
regionais de economia começou a sofrer um processo de reconcentração. Dos 105 originais,
não restaram mais do que 47 em 1963. Complicando o quadro, para efeitos do Plano, criaram-
se 17 regiões econômicas, subordinadas a um recriado Conselho Nacional de Economia, ao
lado do ressurgimento de comitês estatais, autênticos ministérios, antes desativados. Ainda não
tinham poder deliberativo, mas tendiam a isto.
Por outro lado, evidenciaram-se resistências de toda a ordem no interior do partido em
relação às reformas: a segmentação da estrutura orgânica em duas partes — industrial e agrária
— não se apoiava em nenhuma tradição e estava criando a maior balbúrdia de competências.
Quanto à proposta da rotatividade, muitos a consideravam uma camisa de força: se
determinados camaradas merecessem a confiança dos seus pares, por que deveriam ser
necessariamente substituídos? Além disso, o critério do voto secreto fazia lembrar a tradição
burguesa, incentivava o individualismo, a irresponsabilidade e a hipocrisia. Os verdadeiros
comunistas assumiam seus pontos de vista, não tinham nada a esconder, por que não votar
abertamente?
A sociedade, o Estado e o próprio partido não pareciam ainda ter encontrado um novo ponto
de equilíbrio, e uma direção clara. Moviam-se, às vezes, de forma incoerente, em sentidos
diversos, quando não contraditórios.
No plano internacional, a versão cor-de-rosa da coexistência pacífica chegara ao fim. A
conferência de Paris, em 1960, fora um fracasso, abortando, pelo menos a curto prazo,
perspectivas de um entendimento mais profundo entre as superpotências. Outros confrontos, no
Líbano (1959), no Congo (1960), no Sudeste Asiático (1960-61), em sucessão, mostraram a
força de antagonismos resistentes.
O triunfo da Revolução Cubana, em 1959, embora totalmente autônomo em relação à
política do Estado soviético, acabou reforçando seu prestígio, sobretudo depois de 1961,
quando Cuba aderiu formalmente ao campo socialista. Aqueles barbudos não eram muito
confiáveis, mas podiam se tornar uma peça importante no cenário das relações e dos conflitos
internacionais. Entretanto, quase tudo se perdera na crise dos foguetes, em outubro de 1962,
quando os soviéticos sofreram humilhante derrota, imposta por um jovem presidente norte-
americano, cuja determinação fora visivelmente subestimada por Kruchev.
No mundo socialista os estragos eram ainda maiores. A dissidência chinesa transbordara do
nível do debate ideológico entre partidos irmãos para o destempero dos insultos, para a luta
aberta, hostil, entre Estados e partidos, inclusive com ameaças veladas de outro tipo de
enfrentamentos. Os soviéticos pareciam estar perdendo o controle do comunismo europeu e,
mesmo na América Latina, apesar de toda a dependência econômica cubana, ninguém parecia
saber aonde pretendia ir a vaga de guerrilheirismo rural e urbano, incentivada pelo estranho
Ernesto Guevara.
Havia um crescente mal-estar nas esferas dirigentes. Os apparatchiks tinham naturalmente
apreciado o fim do Terror e a subordinação dos órgãos de segurança, a liberdade relativa de
expor seus pontos de vista sem intimidações, o nível alcançado de estabilidade, o elogio da
direção colegiada e da legalidade socialista. Mas a atmosfera de campanhas intermináveis, e de
contínuas reformas, de reformulações em cadeia, aquilo estava perturbando o fluxo natural das
coisas e desviando o partido de suas tarefas. Não chegara o momento de pôr alguma ordem na
casa e consolidar o que já se fizera, em vez de agitar incessantemente os espíritos com
novidades inesperadas? Aquilo não iria acabar despertando demônios mal adormecidos e
enterrados?
Sinais relativamente alarmantes começaram a pipocar no interior da própria URSS.
Revistas e panfletos circulavam clandestinamente levantando questionamentos, formulando
denúncias. Textos manuscritos, datilografados, por vezes mimeografados, anunciavam o
aparecimento de um outro nome russo que correria mundo: os samizdat (edições do próprio
autor): Sintaxis, Boomerang, Fenix, Spiral, vozes dissonantes, promessas de dissidência.
No início dos anos 60, registraram-se manifestações operárias em várias cidades: Grosny,
Drasnodra, Donetsk, Yaroslav, Jdanov, Gorki, Alexandrov, Muron, Ninney, Tangil, Odessa,
Kuybichev, Timerdam (F. Claudin, 1986). A principal, hoje bem conhecida, graças a
depoimentos recolhidos, relatos publicados e aos informes secretos da polícia política, ocorreu
em Novotcherkaask, no começo de junho de 1962. Ali, exasperados por aumentos de preços e
diminuição de salários, os operários de uma fábrica de locomotivas organizaram comícios,
pararam o trabalho, paralisaram o tráfego ferroviário. Não satisfeitos, no dia seguinte,
marcharam para o centro da cidade, onde invadiram e saquearam a sede do partido e tentaram,
mas aí sem sucesso, penetrar no prédio da milícia local e da polícia política para se apropriarem
de armas. Foram reprimidos com brutalidade, reconhecendo a polícia 23 mortes (as vítimas
falaram em cerca de 80). Um processo sumário resultou em sete condenações à suprema
medida de defesa social (morte) e em um número indeterminado de outras severas condenações
a trabalhos forçados, entre 10 e 15 anos.
A política aprovada no XXII Congresso, em 1961, enredava-se em contradições perigosas.
Não orientava, confundia, não coesionava, dividia, não tranquilizava, perturbava.
Mas nada parecia abalar a autoconfiança do primeiro-secretário. Concentrando poderes,
embalado em formas cada vez menos dissimuladas do culto à personalidade que sempre
condenara com veemência, e que agora voltavam, como se fossem uma maldição, Kruchev
continuava atirando em todas as direções, agradando e desagradando a todos, insensível ás
críticas, imune aos perigos, em marcha batida para o abismo.
O golpe que o derrubou foi dado, em outubro de 1964, em duas reuniões sucessivas:
primeiro, o Presidium ampliado do Partido Comunista votou a deposição. Depois, a plenária do
Comitê Central confirmou a decisão. A relação de desvios apontada, e depois publicada, era
esmagadora: “Estilo personalista de direção, subjetivismo, iniciativas desordenadas,
precipitação, infantilismo, fraseologia, fanfarronice, ignorância das realidades, desprezo pelas
massas…”. Mais uma vez, era impossível evitar a incômoda questão de como um homem com
tantos defeitos ganhara o acordo dos seus pares para permanecer à frente da grande potência
por tanto tempo. Kruchev denunciou a manobra, chegou mesmo a insultar os camaradas, mas
em vão, a articulação desta vez tinha sido muito bem preparada, não foi possível reverter o
quadro, como em 1957.
O golpe exprimira um amplo acordo das altas instâncias dirigentes. A sociedade, e os
próprios intelectuais, parecendo cansados de tantas reviravoltas, reagiram com indiferença. Ao
primeiro-secretário, agora destituído de todos os cargos e funções, restou o caminho de uma
aposentadoria vigiada. Sinal dos novos tempos, que ele próprio, mais do que ninguém, ajudara
a criar.

________________
1 Expressão consagrada para designar certas decisões para as quais não há retorno.
Mapa: A União Soviética pós-Segunda Guerra Mundial
Expansão e contradições do socialismo realmente existente (1964-
1985)

A FASE QUE SE ABRE com o golpe que derrubou Kruchev, em outubro de 1964, e se
estende até o início da Perestroika, em março de 1985, quando M. Gorbatchev foi eleito
secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, ou seja, um período de um pouco
mais de 20 anos, foi, em sua época, considerada a de expansão máxima da segunda
superpotência mundial ou, como passou a falar o poder soviético, o tempo do socialismo
desenvolvido. A formulação de uma nova Constituição, aprovada em 1977, depois de uma
longa gestação de 15 anos, serviu para formalizar e simbolizar a chegada a uma nova etapa. De
um ângulo diverso, outros cunharam uma expressão até então desconhecida, mesclando crítica
e ceticismo: o socialismo realmente existente. Não fora idealizado pelos clássicos, nem
previsto, mas existia na realidade. Contra a teimosia dos fatos, alegavam, não havia
argumentos.
Para muitos, a URSS parecia invencível, dotada de um expansionismo incontrolável.
Políticos e acadêmicos tentavam compreender a força daquele Império do Mal (R. Reagan). Os
mais assustados, e os mais intransigentes, baseados nos conceitos e argumentos da teoria do
totalitarismo, aconselhavam, com imagens apocalípticas, a preparação para o pior: um regime
como o soviético só poderia ser vencido, como o nazismo, por meio de uma guerra travada de
fora para dentro, já que a sociedade, vitimizada e pulverizada pelo Estado, não estaria apta à
crítica, nem capaz de revolta. Seus cidadãos, que não eram propriamente cidadãos, por não
terem direitos nem formas autônomas de organização, robotizados ou vigiados, não estavam em
condições de alterar aquelas estruturas sufocantes, orwelianas (G. Orwell, 1984), salvo uma
minoria, os dissidentes, mais destinados ao testemunho e ao martírio do que a uma luta política
viável.
Mais tarde, a partir de 1985, numa reviravolta, estes anos começaram a ser conhecidos
como anos de trevas e de estagnação. E com estes termos, pouco lisonjeiros, passaram à
história. Pelo menos esta tem sido a tendência predominante nos discursos de políticos e nas
narrativas sobre o processo que levou à desagregação da União Soviética.
Anos de luzes ou anos de trevas? De expansão ou de estagnação? Será possível concluir
algo a respeito destas interpretações contraditórias? Os contemporâneos terão se ofuscado por
aparências e se enganado redondamente a respeito da força e do potencial da URSS? Ou o
propósito de desqualificar o período não passou de uma tentativa para legitimar a política
reformista inaugurada e liderada por Gorbatchev?
E se, embaralhando as referências, estes longos anos tivessem sido de luzes e de trevas? De
expansão e de estagnação? Apenas um aparente paradoxo, conforme tentaremos demonstrar.
REFORMAR OU ESTABILIZAR

Logo depois da queda de Kruchev, os conspiradores, vitoriosos, apressaram-se em


esclarecer seus motivos e seu programa: estabilidade e eficácia. Como a economia poderia ser
eficiente numa atmosfera de instabilidade, criada pelas sucessivas campanhas e reformas
introduzidas incessantemente pelo ex-primeiro-secretário? Por outro lado, sem eficácia não
seria possível almejar a estabilidade, já que a sociedade soviética estava desafiada a alcançar
patamares sempre mais altos de produção e de produtividade, sem os quais era previsível a
irrupção de contradições e protestos. Em suma, reafirmou-se o compromisso com as reformas
de que careciam a sociedade e a economia. O que se repudiava era o reformismo inconsequente
e voluntarista de Kruchev. Reformas, sim, porém com estabilidade, um equilíbrio delicado.
A preocupação com a estabilidade se traduziu numa série de atos restauradores.
Reafirmação do princípio da direção colegiada, distribuindo-se os encargos mais importantes
por um quarteto formado por L. Brejnev (primeiro-secretário do partido), A. Kossiguin
(primeiro-ministro do governo soviético), N. Podgorni (presidente do Soviete Supremo) e P.
Suslov (responsável supremo pela ideologia). Dissolução dos conselhos regionais da economia
(sovnarkozys) e reinstauração de ministérios centrais e de grandes comitês de Estado,
confirmando a perspectiva recentralizadora já presente nos últimos anos de Kruchev.
Finalmente, restabelecimento de um partido unificado, liquidando-se com a reforma que o
dividira em dois setores (agricultura e indústria) e com as normas democratizantes que
prescreviam limites de mandatos e novos métodos eleitorais.
A preocupação com a eficácia se concretizou com a aprovação de uma reforma econômica,
amadurecida no período anterior, e proposta por E. Lieberman. Tratava-se, na atividade de
planejamento, de superar os indicadores que se limitavam a controlar a produção bruta e as
metas quantitativas. Era preciso introduzir os pontos de vista do consumo e do consumidor,
imaginar toda uma série de incentivos materiais, inclusive para a criação e a aplicação de novas
tecnologias. Em suma, não apenas aumentar a produção, a qualquer custo, mas melhorar o
rendimento e a produtividade.
A agricultura mereceu um tratamento especial dos novos dirigentes. Este nó seria agora
desatado. Não por meio das campanhas improvisadas, típicas do período anterior, mas de um
conjunto de políticas maduramente refletidas. Aprofundamento das tendências estatizantes,
traduzido no crescimento das fazendas estatais {sovkhozes), mas atenuação dos controles sobre
as unidades agrícolas. Concessão de maior autonomia para os kolkhozianos gerenciarem seus
pequenos lotes de terra, inclusive com margens mais generosas para a criação particular de
gado e para a comercialização dos excedentes em mercados livres. Aumentos substanciais de
preços para os produtos agrícolas e, sobretudo, investimentos pesados em tecnologia: adubos
químicos, maquinaria agrícola e deslocamento de técnicos para assessorar cientificamente
kolkhozes e sovkhozes.
Entretanto, a indústria pesada e a defesa não seriam negligenciadas. Continuaram a figurar
como prioridades nos planos e nas metas de produção. Ao mesmo tempo, previram-se grandes
investimentos na Sibéria, onde se anunciavam descobertas de descomunais reservas minerais,
principalmente de petróleo e gás.
Assim, em linhas gerais, retomou-se a aliança de interesses que cimentara a ascensão de
Kruchev nos anos 50. Defesa, indústria pesada e o compromisso com o bem-estar da
população, concretizado na prioridade concedida à agricultura.
E se não fosse possível considerar na prática todas aquelas prioridades? Haveria recursos
para contemplá-las ao mesmo tempo? As aberturas simultâneas em direção à restauração
centralista e à autonomia das unidades de produção não encerrava uma insolúvel contradição?
A tradicional predominância do partido, marcada pelas campanhas e pelos estímulos morais,
poderia coexistir com a emergência de uma geração de tecnocratas, animada pelos valores da
eficiência, da produtividade e dos estímulos materiais? Na Hungria, na sequência da
normalização imposta em meados dos anos 50, uma série de experimentos haviam sido
desenvolvidos, tentando combinar estas referências aparentemente contraditórias, e com um
certo sucesso. Mas estava totalmente fora de questão tentar transplantar aquele modelo. As
tradições acumuladas, o gigantismo e a complexidade das condições da União Soviética
exigiam receitas próprias. Haveria que encontrá-las.

URSS SUPERPOTÊNCIA

Mas na esfera das relações internacionais é que foi possível construir, apesar das
contradições, os êxitos mais espetaculares ou de aparências mais sedutoras.
No Sudeste Asiático, a Guerra do Vietnã terminara, em 1975, com uma completa vitória dos
vietnamitas. Os norte-americanos deixaram a região totalmente destruída, é verdade, mas
tiveram de se retirar. Uma humilhação e uma possível lição para o futuro. Na África, depois de
perder posições consideradas sólidas no Egito, a URSS reaparecera na esteira da vitória dos
movimentos de libertação nas ex-colônias portuguesas, sobretudo em Angola (MPLA) e
Moçambique (Frelimo). Por outro lado, embora por meio do nada ortodoxo método do golpe de
Estado, em vários países constituíram-se elites políticas que procuraram aliança e apoio (armas
e assessoramento) em troca da concessão de pontos de apoio estratégicos (Etiópia). Na América
Latina, a reaproximação com os cubanos, difícil depois do desastre da crise dos foguetes
(1962), tendeu a consolidar-se, ajudada pelos créditos soviéticos e, sobretudo, pela morte do
Che Guevara e pela derrota e refluxo da alternativa guerrilheira na região. Mas, em fins dos
anos 70, a vitória sandinista e as guerrilhas salvadorenhas não anunciavam a queda de algumas
peças do dominó no quintal mesmo dos EUA? Cada um destes avanços tinha um custo do
ponto de vista das relações internacionais. A coexistência pacífica, inaugurada por Kruchev, e
mantida pelos que o derrubaram, sofria abalos, mas interesses mútuos a mantinham a salvo.
De um lado, os acordos de limitação de armas nucleares e estratégicas, SALT I e II,
assinados nos anos 70. A URSS, embora ainda inferiorizada no acesso e controle de algumas
tecnologias militares de ponta, alcançara uma paridade fundamental com os EUA. As visitas de
R. Nixon a Moscou (1972) e de Brejnev aos EUA (1973), os constantes intercâmbios e
consultas de ministros e missões, consagraram o lugar da URSS como superpotência. A
primeira metade dos anos 70 assinalou um novo auge da coexistência pacífica. Falava-se no
esboço de um condomínio mundial.
De outro lado, os acordos comerciais, quebrando a ambição autárquica soviética. Nos anos
70, o comércio entre norte-americanos e soviéticos multiplicou-se por oito. As importações
soviéticas de cereais chegaram a atingir uma média anual de 40 milhões de toneladas, no início
dos anos 80. O gasoduto ligando a Sibéria e a Europa Ocidental era outra expressão física de
uma crescente integração econômica e comercial.
Mas os maiores êxitos seriam protagonizados na própria Europa. A invasão da
Tchecoslováquia, em 1968, e a formulação da doutrina da soberania limitada, contribuição
inovadora de Brejnev à teoria do internacionalismo proletário, não tinham despertado reação
maior das potências capitalistas, salvo os habituais protestos, mais ou menos ritualísticos. Na
sequência, por meio de uma série de acordos, e do fortalecimento do Comecon e do Pacto de
Varsóvia, a URSS apertara os laços com as democracias populares da Europa Central,
enquadrando-as de uma forma que pareceu definitiva.
O melhor, contudo, ainda estava por vir. Explorando de forma hábil as ambições
autonomistas da França, que saiu da OTAN em 1966, foi possível estruturar com este país uma
série de acordos mutuamente proveitosos. Em seguida, depois da eleição de Willy Brandt
(1969), no quadro da Ostpolitik (abertura para o Leste), outros tratados, incluindo o
reconhecimento de fronteiras e da própria República Democrática Alemã (RDA). Um pouco
depois, em 1975, o acordo final da Conferência Sobre Segurança e Cooperação na Europa
(CSCE), em Helsinque. Estavam consagradas as fronteiras negociadas em Yalta, um antigo
programa da diplomacia soviética. Um sucesso.
Como se não bastasse, para assustar ainda mais os rivais, a União Soviética, também em
meados dos anos 70, começou a surgir como potência naval mundial. Seus navios de guerra e
submarinos dispunham de acesso a portos no Sudeste Asiático, no Índico, no Mar Vermelho
(Iêmen do Sul), no Atlântico, no Caribe e começavam a aparecer até mesmo no Mediterrâneo.
Quantos mares quentes… o tzarismo, nos seus melhores momentos, nunca imaginara chegar tão
longe. Sucediam-se advertências sombrias e previsões apocalípticas: aonde iria parar o
expansionismo militar soviético?

MUTAÇÕES E CONTRADIÇÕES SOCIAIS

O mais relevante ao longo deste período foram as verdadeiras mutações sociais por que
passou a União Soviética. M. Lewin (1988) teve o mérito de estudar tendências sociais que,
desencadeadas desde os anos 30, ganharam notável aceleração entre os anos 60 e 80. Em
primeiro lugar, o processo de urbanização da sociedade: em meio século, em números brutos,
um salto de 59 milhões para 180 milhões de pessoas. Em termos proporcionais, cerca de 66%
da população total vivia em cidades no início dos anos 80, mais 17 pontos percentuais em cerca
de 20 anos. No mesmo período, as cidades de mais de 1 milhão de habitantes evoluíram de 3
para 23, concentrando mais de 25% da população total, beneficiando-se de um afluxo de cerca
de 35 milhões de migrantes.
Urbanização e qualificação da mão de obra. Nos anos 50, 69% dos diretores de fábrica e
33% dos engenheiros-chefe eram formados na prática (os praktiki). Em termos formais, a
grande maioria não ia além do secundário, e mesmo assim incompleto. Em contraste, uma
geração mais tarde, no início dos anos 80, 40% da população urbana economicamente ativa era
formada por diplomados em cursos de segundo grau (cerca de 18 milhões) ou em cursos
universitários (13,5 milhões).
Estudos estatísticos desenvolvidos por autores soviéticos, considerando três gerações
(1910/1930/1950), evidenciaram a progressiva sofisticação da força de trabalho. Cada vez
menos trabalhadores manuais, cada vez mais qualificação. Quanto às novas ocupações, leve
predominância dos serviços em relação ao próprio setor industrial, desde meados dos anos 70.
As evidências mostravam uma incrível mobilidade social, uma das bases fundamentais,
certamente, do consenso estabelecido entre a sociedade e o poder.
No entanto, aquela sociedade urbanizada e qualificada gerava formas novas de socialização,
os chamados microuniversos urbanos, de difícil controle por parte do Estado. Associações
esportivas, acadêmicas, culturais, redes mais ou menos formalizadas de interesses, e até mesmo
instituições legais autonomizavam-se em relação aos centros estabelecidos em Moscou.
Milhões de pessoas participavam dos sovietes locais (2,27 milhões deputados do povo), dos
comitês de controle popular (250 mil organizações). O próprio partido, agregando cerca de 500
mil novos recrutas por ano, alcançara a soma de 17 milhões de filiados (N. Werth, 1992). Todas
estas estruturas políticas, sobretudo em seus níveis inferiores, dispunham de poderes bastante
limitados, mas, apesar disso, constituíam polos de atividades geradores de interesses
específicos, cuja dinâmica não podia ser determinada em detalhes por nenhuma instância
central.
Até mesmo no próprio coração do Estado, em seus níveis regionais, constituíram-se grupos,
clientelas, às vezes impropriamente chamados de feudos (J. Hough, 1969), sem falar nas
máfias, organizadas para a prática da corrupção e do desvio de fundos em larga escala, cuja
existência, às vezes alcançando as mais altas cúpulas do Estado, começou a ser violentamente
denunciada a partir de meados dos anos 70.
Autonomias desafiadoras da ambição que tinha o poder central de tudo controlar.
Escorrendo por entre os dedos de um Estado cuja onipotência só existia nas teorias do
totalitarismo. Mostravam uma sociedade complexa, criatura da economia mobilizada (J. Sapir,
1990), mas rebelde aos parâmetros tradicionais da criadora, capaz de redefinir orientações que
vinham do alto, reajustá-las, ou até mesmo inverter seu sentido.
Quando definitivamente contrariada, a sociedade reagia de formas diversas. Da mais
elementar, e mais antiga, presente desde quando começara a implementação dos planos
quinquenais, que se manifestava no desinteresse pelo trabalho formal (eles fingem que nos
pagam, nós fingimos que trabalhamos), na falta de empenho, na negligência, no desperdício, no
absenteísmo, no alcoolismo. Apelos patrióticos, campanhas agressivas, mobilizações
ideológicas, códigos contundentes, todo o terror, nada conseguira deter a verdadeira hemorragia
que sangrava a economia ano após ano.
A sociedade emitia outros sinais inquietantes.
As resistências nacionais, de caráter identitário, mal toleradas, às vezes maltratadas,
penetravam nas brechas permitidas pelas ambiguidades tradicionais com que a questão nacional
era tratada na União Soviética. O extremo ocidente, depois de décadas, continuava suportando
com dificuldades as orientações de Moscou. No Cáucaso, eram vivas as manifestações de
autonomia. Entre os judeus, com o fortalecimento da perspectiva de migração para Israel, um
outro problema, apoiado pela mídia internacional e pelo Congresso norte-americano,
envenenando as relações internacionais. A via era estreita entre os abismos do cosmopolitismo
e do nacionalismo, desvios intoleráveis, sempre à espreita. Por outro lado, a doutrina do
respeito às particularidades nacionais era irrenunciável, um dogma fundador do regime. Um
enredo inextricável.
E o que fazer com aquela juventude, cada vez mais seduzida pelos valores decadentes do
capitalismo? Como combater a guitarra com a balalaica? E de onde vinha o fascínio pelo
vestuário, pela música, pelos valores comportamentais, típicos das sociedades ocidentais?
Infiltrações insidiosas, mas que progrediam, apesar das denúncias dos ideólogos.
Os próprios trabalhadores, às vezes, pareciam inquietos, descontentes. Não gratuitamente
foram registradas dezenas de greves e algumas tentativas de formação de sindicatos livres (N.
Werth, 1992). Mas o KGB, conscienciosamente, cumpria suas funções. Uma combinação bem
dosada de concessões parciais e repressão conseguira controlar a situação. Mas até quando?
E havia a dissidência.
Como foi referido, um movimento ensaiado no período anterior e que floresceu nos anos
70, intensamente apoiado pela mídia ocidental. Plural em suas tendências (liberal, socialista
renovadora, mística), retomou as tradições que haviam celebrizado a luta da intelligentsia russa
no século XIX: altivez, independência, coragem, disposição ao sacrifício, até mesmo da própria
vida. Houve a perspectiva de fazer do processo contra A. Siniavski e Y. Daniel, acusados de
contrabandear literatura antissoviética, em 1966, um caso exemplar. A repetição do caso
Pasternak. Depois, veio a expulsão de A. Soljenitsin (1974) e o confinamento de A. Sakharov
(1980). Em seguida, as denúncias contra o uso de asilos psiquiátricos para internar
oposicionistas, com o Estado soviético restaurando a tradição tzarista de considerar a
divergência uma loucura. A cada prisão, um escândalo, um desgaste. A mídia ocidental mordia,
bisbilhoteira, sempre em cima, invadindo pelos ares, driblando controles e censuras e
misturadores de som. Aqueles tiros estavam saindo pela culatra. De um lado, o gigantesco
Estado, com ambições de onipotência, infiltrando, golpeando, confinando, prendendo, exilando.
De outro, uma galeria de mulheres e de homens intratáveis, não raro patéticos, a denunciar o
cinismo e a corrupção, a perda dos valores e o arbítrio, a injustiça e a mentira, escancarando
feridas, impedindo a cicatrização com seu verbo deletério. Na contracorrente, vozes obstinadas,
precursoras, ficavam ali, inextirpáveis, fermentando, augurando situações improváveis, desejos
impossíveis, vencidas, mas invencíveis.
Todos estes movimentos eram sintomas. Exprimiam dificuldades, lados ocultados pela
propaganda da grande potência, o não-dito, mas nem por isso menos existente.

SINAIS DE CRISE

As sucessivas campanhas pela disciplina, pelo espírito de partido, contra o absenteísmo, o


alcoolismo e a sabotagem com que era brindada regularmente a sociedade soviética eram pisca-
alertas. A sua recorrência indicava males permanentes, incuráveis.
Já não se falava mais em alcançar, muito menos em superar, os EUA. Os principais
indicadores econômicos despencavam. O desenvolvimento industrial, tradicional locomotiva
dos Planos, ainda apresentara, entre 1965 e 1970, um apreciável resultado: média anual positiva
de 8,4%. Contudo, entre 1981 e 1985, a média fora bem mais modesta: 3,5%. A comparação
dos planos quinquenais aplicados entre 1966 e 1980, mostra defasagens de até 10 pontos entre
metas definidas e resultados de fato alcançados. Apenas na produção de automóveis e de
petróleo foi possível honrar as expectativas. Na produção de outras fontes de energia, aço,
fertilizantes, tratores, locomotivas, construção civil, a maioria dos bens de consumo corrente,
contrastes significativos entre a flecha lançada e o alvo atingido. No décimo plano, cobrindo o
período entre 1981 e 1985, somente a produção de gás conseguiu superar as previsões (A.
Nove, 1990).
No campo, apesar dos maciços investimentos, registrou-se, para os mesmos períodos, um
declínio no crescimento de 4,3% para apenas 1,4% (médias anuais), bem abaixo do crescimento
demográfico registrado, sobretudo entre as nações não-russas. Azares climáticos, alegavam as
autoridades. Mas não se podiam esconder outros problemas, de ordem diversa: armazenamento
deficiente, estrangulamento nos transportes, deficiências na organização da produção. O
governo reagia com aumentos de preços e remunerações, afrouxamento de controles,
concessões á exploração dos lotes privados, mas era como se as reformas implementadas não
estivessem conseguindo produzir resultados. Havia ali resistências de todo o tipo, imprevistas.
Dos escalões intermediários e dos diretores das unidades de produção, sempre impostos de
cima para baixo, apegados às tradições, às metas quantitativas, aos controles. As explorações
coletivas ficavam à míngua, e não por falta de tentativas inovadoras: uniões de produção,
complexos agroindustriais, contratos coletivos com brigadas de produção, nada funcionava,
como se houvesse por ali um rei Midas às avessas: tudo se transformava em definições
administrativas, burocráticas. Haviam sido perdidos, como alguns sustentam, os laços do
homem com a terra? O fato é que os mujiques desconfiavam, e tinham razões para tanto, e só
trabalhavam com entusiasmo em seus pequenos lenços de terra.
Os especialistas contabilizavam déficits, e falavam do dinheiro gasto. Os subsídios à
agricultura tinham ultrapassado o nível dos gastos militares. Um fardo. Entre 1961 e 1975,
enquanto os investimentos em geral mal duplicaram, os alocados à agricultura quase
triplicaram, saltando de pouco menos de 20% para 26,2% do total. A coisa foi num crescendo
até alcançar cem bilhões de rublos entre 1976 e 1980 (A. Nove, 1990). Um poço sem fundo.
Outros índices macroeconômicos igualmente inquietavam. Em 20 anos, a produtividade
declinara de 6,3% para menos de 3%. Os investimentos, de 7,8% para 1,8% (N. Werth, 1992).
Enquanto, numa ponta, aumentavam os estoques de produtos não vendidos e invendáveis, por
sua má qualidade, a demanda insatisfeita gerava uma poupança crescente, ao lado de carências
estruturais aparentemente insolúveis.
A União Soviética avançara, sem dúvida, mas partira de um patamar muito baixo e, em
virtude de um processo galopante de urbanização, enfrentava situações dramáticas. O problema
é que o país já não estava conseguindo crescer nos mesmos ritmos que tinham feito a glória dos
Planos. Por outro lado, uma inflação enrustida latejava, ameaçando: dos anos 50 aos 80, a cesta
básica de consumo aumentara apenas 7% em preços oficiais, mas cerca de 100% nos preços
cobrados nos mercados livres. Os subsídios a fundo perdido cobravam sua fatura.
A doença era aparente, gerando diagnósticos.
Para alguns, superar a situação desastrosa da agricultura, condição indispensável para
qualquer avanço substantivo, demandava um programa radical de reorganização da produção.
Outros enfatizavam a questão da mão de obra. Não era mais possível esperar o crescimento pela
adição extensiva de trabalhadores, a demografia já não o permitia, principalmente na federação
russa. O aumento da produção agora dependia da elevação da produtividade. Modificar os
padrões: em vez das metas quantitativas, critérios qualitativos. Outros falavam na necessidade
de atenuar o fardo insustentável dos gastos militares. Alterar as prioridades que seguiam
privilegiando os dinossauros comedores de ferro e de aço. Ou ainda diminuir os colossais
desperdícios, inevitáveis enquanto se pretendesse reger uma economia cada vez mais
diversificada a partir do centro e do alto, sem consideração pelas particularidades locais e
regionais. Os mecanismos próprios de mercado, ainda que controlados e regulados, tinham de
ter seu lugar reconhecido para que as opções de investimento pudessem ter uma sanção
objetiva.
Mas havia também problemas de ordem política: acumulavam-se as frustrações entre as
nações no interior da União Soviética. Desde os anos 70, especialistas começaram a detectar
um potencial de desagregação. Aves de mau agouro. E a corrupção grassava, provocando
fenômenos de degeneração, aprofundando o abismo entre o discurso oficial e a prática das
próprias elites dirigentes. Os dissidentes não poupavam críticas e o KGB emitia sinais de alerta.
No quadro das relações internacionais havia contradições sombreando o horizonte. A
reviravolta protagonizada com a viagem de Nixon à China, no início dos anos 70, criara uma
triangulação inédita, retirando a China do isolamento e colocando a URSS numa situação
desconfortável, obrigada a olhar simultaneamente para Leste e para Oeste. A invasão do
Afeganistão, no início, quando foi deflagrada, em 1979, apesar de apresentada pelos soviéticos
como mero problema doméstico, enfrentara uma onda de denúncias surpreendente. Houvera um
erro de cálculo. Aquilo fora planejado para ser algo semelhante ao que ocorrera na
Tchecoslováquia, em 1968, mas em ponto menor. Pois se transformara numa questão
internacional, ensejando protestos acirrados e boicotes olímpicos, que toldaram os Jogos de
Moscou, um desastre. E o pior é que os afegãos, auxiliados pelas potências capitalistas, estavam
transformando uma operação policial-militar, prevista para uma curta duração, numa guerra de
guerrilhas longa e desgastante. Já se começara a falar que o Afeganistão seria o Vietnã da União
Soviética. Finalmente, uma onda neoliberal agressiva, antissoviética, depois de ganhar posições
na Inglaterra (M. Tatcher), elegera o presidente dos EUA (Reagan) e anunciava uma nova
espiral na corrida armamentista.
A União Soviética, tensionada, parecia necessitada de reformas. Não era um gigante
imóvel, ao contrário. Como se verificou, apresentara nos últimos 20 anos um grande dinamismo
social (urbanização, diversificação e níveis de instrução cada vez mais sofisticados) e um certo
crescimento econômico. Externamente, provocava respeito e medo. Mas seus problemas não
eram ignorados, nem poderiam ser ocultados por muito mais tempo.
Seria necessário fazer opções. Cortar nós. Eleger prioridades.
Mas a alta direção do país hesitava, parecendo acreditar na existência de margens para
protelações. Havia um processo de envelhecimento em curso. No começo dos anos 80, a média
de idade do Comitê Central atingira 60 anos, e a do Bureau Político 71, dez anos a mais do que
no começo dos anos 70, indicando entupimentos de veias.
Brejnev, quando morreu, em 1982, dava sinais indisfarçáveis de senilidade. Restabelecido
como secretário-geral do partido desde 1966, com ele ocorrera o mesmo processo de culto à
personalidade verificado com os antecessores. A acumulação de funções de mando se associara
um pendor caricatural para condecorações, honrarias e presentes. Sagrado sete vezes com a
Ordem de Lenin, três vezes com o título de Herói da União Soviética, recebera uma medalha
Karl Marx de ouro pela contribuição teórica ao aperfeiçoamento da doutrina marxista-leninista,
um prêmio Lenin da Paz e outro prêmio Lenin de Literatura, além de ter sido promovido a
Marechal da URSS. O homem, decididamente, fazia as delícias dos caricaturistas mundo afora,
abalando o prestígio da URSS.
Seguiram-se I. Andropov e K. Tchernenko, mas, embora longo para a sociedade, foi tudo
muito rápido para eles, não mais do que um ano para cada um, e a morte os levava. O primeiro
exercera a chefia do KGB por cerca de 15 anos e tinha fama de íntegro e bem informado. Mas
as reformas que apresentou pareceram mais campanhas de rearmamento moral por disciplina,
contra o alcoolismo e o absenteísmo, do que propostas à altura dos graves problemas existentes.
Quanto ao segundo, desde que assumiu o poder, a sombra da morte já parecia estar com ele.
Um tempo rigorosamente perdido.
E a União Soviética, pressionada, não estava em condições de esperar.
Tempos de perestroika e glasnost: reforma e desagregação da URSS

NEM BEM Tchernenko expirara, menos de 24 horas depois, e já o Comitê Central do


Partido Comunista da União Soviética escolhia um novo secretário-geral: Mikhail S.
Gorbatchev. Como se o país tivesse pressa em recuperar o tempo perdido com aquela
gerontocracia que não acabava mais de morrer. A rigor, desde 1975, quando Brejnev começou a
ser atacado por incurável moléstia, a URSS foi bizarramente (des)governada por personagens
minguantes, eretos apenas à custa de dosagens especiais de terapias e medicamentos, como
aves empalhadas, um viço aparente, mas a vontade morta, salvo para conservar.
Na prática, o novo secretário-geral já governava, antes de ser formalmente ungido. Por isso
foi tão rápida a sucessão.
O contraste foi muito brutal para deixar de ser registrado. Assumiu o poder um homem
cheio de vida, de vontade e, aparentemente, de ideias renovadoras. Não vinha sozinho, nem
caiu como um raio em céu azul, o que, aliás, nunca acontece. Exprimia um consenso, formado
até nas altas cúpulas, de que algo precisava mudar. No fundo do quadro, as profundas mutações
sociais, com suas exigências de adaptações, cada vez mais urgentes. E a competição
internacional, que os soviéticos chamavam revolução científico-técnica, feroz como nunca,
colocando novos e terríveis desafios: ou seriam respondidos, ou a URSS perderia, já estava
perdendo, a condição de superpotência.
Em rápidos movimentos, Gorbatchev impôs-se à atenção mundial. Pelas propostas
conciliatórias. Pelo diálogo que passou a encarnar. Pela exposição de charme, o seu e o de sua
mulher, Raissa.
Moratória unilateral dos testes nucleares, redução de 50% dos armamentos estratégicos,
plano de liquidação das armas nucleares até o ano 2000, diminuição dos mísseis intermediários,
propostas de controles drásticos sobre os armamentos convencionais. As jogadas tiraram o
fôlego dos especialistas norte-americanos e europeus, fazendo a iniciativa mudar de mãos, o
Império do Mal apareceu como um parceiro construtivo, disposto a concessões, aberto ao
contraditório. E a elegância e a desenvoltura com que se comportava, as maneiras, o fino trato,
como podia uma sociedade tão cinzenta ter sido capaz de projetar um filho tão pródigo? Um
espanto.
E o pior, um homem firme. Doce sorriso, mas dentes de aço, dele dissera o sempiterno
ministro de Relações Exteriores soviético, A. Gromiko.
Não gratuitamente levantaram-se vozes cautelosas, de advertência. Daquele gelo não
poderia surgir calor. Era uma cortina de fumaça, um engodo, uma farsa.
Mas cedo se percebeu que havia lógica naquelas propostas, e método naqueles
procedimentos.
Com efeito, a União Soviética não aguentava mais os seus fardos, entre os quais o das
despesas militares. O dinossauro crescera demais, perdera agilidade, suas gorduras ameaçavam
a sociedade e a economia. A voracidade daquelas exigências, sempre renovadas, crescentes,
contribuía para levar a superpotência à perda.
Mas havia uma outra dimensão que não escapou aos analistas mais argutos. E que a
projeção internacional, como na época de Kruchev, legitimava o mando adquirido e as
propostas de mudança esboçadas para a economia e a sociedade soviéticas. Como se o
reconhecimento do mundo capitalista aumentasse a força do líder socialista, um paradoxo, a
não ser que houvesse já latente um sentimento de inferioridade pedindo passagem. Mas isto,
então, ainda não era visível a olho nu.
O que todos podiam perceber, no entanto, era uma certa defasagem entre a audácia das
manobras internacionais e a modéstia das reformas encaminhadas para o consumo interno.
Retomou-se um discurso já antigo, em torno da necessária assiduidade ao trabalho, da
disciplina consentida, do patriotismo, da honestidade, da mobilização das vontades para a
regeneração de valores consagrados, que ninguém contestava, mas poucos praticavam.
No avesso desta pregação positiva, que tinha um caráter indisfarçável de rearmamento
moral, ou de luta ideológica, como diziam então as autoridades soviéticas, fazendo lembrar o
falecido Andropov, foi definida uma só campanha séria, com um alvo preciso: o alcoolismo.
Gerando consequências imediatas: aumento de preços e redução das vendas da vodca, principal
droga consumida pelos soviéticos, legalmente comercializada, fonte essencial de recursos para
o Estado.
A combinação dos apelos e das condenações tinha uma resultante: era preciso dinamizar o
crescimento, pisar fundo no acelerador. Superar a pasmaceira anterior, a estagnação — zastoi
—, e ingressar no reino da aceleração — uskorienie (B. Feron, 1995). Mas com cuidado. O
primeiro-ministro nomeado, N. Ryjkov, ponderava a respeito da necessidade de alcançar um
meio-termo entre o centralismo estatal e a autonomia de gestão das empresas. Nada muito
diferente das mudanças ensaiadas desde os anos 60 por Kossiguin. Nada muito distinto do que
fora proposto no curto interregno de Andropov. Realimentando os dilemas cultivados no longo
reinado de Brejnev.
Cedo se constatou a insuficiência destas referências. As mudanças necessárias exigiam algo
mais. Em consequência, a partir de outubro de 1985, afinal, apareceu uma perspectiva mais
ambiciosa, traduzida numa palavra inovadora: perestroika, ou seja, recolocar as coisas em
construção, reconstruir, ou, segundo a tradução que se tornou corrente, reestruturar.
O novo programa, exposto em livro que se tornou best-seller mundial, conseguiu ser ao
mesmo tempo preciso e genérico. Preciso na crítica aos desmandos das tradições: os
desperdícios, o quantitativismo, a negligência em relação aos consumidores, a prioridade
sempre atribuída aos comedores de ferro e de aço, o exagerado centralismo, a ambição
desmedida de controle e de comando. Genérico na proposta de alternativas. O texto rasgava
amplos horizontes, propunha altos e nobres objetivos: uma sociedade comprometida com a paz,
produtiva, emancipada e harmônica. A perspectiva de um socialismo renovado. Preocupado
com o Homem, com o h sempre maiúsculo, enfatizando uma sensibilidade diferente para
tempos que se queriam novos. A sociedade à qual se queria chegar.
Ficaram faltando definições mais prosaicas. Sobre caminhos, métodos, procedimentos.
Como exatamente superar as contradições? Em quantas etapas se pularia aquele abismo? Quais
prioridades? Como articular o ontem e o amanhã através do hoje? Em suma: as mesquinharias
que delimitam o território da ação política.
Os homens de Gorbatchev não esclareciam, de forma cabal, a respeito do futuro imediato.
Certo, no plano externo, as coisas tenderam a assumir contornos mais precisos. O novo ministro
de Relações Exteriores, E. Chevardnadze, nomeado menos de quatro meses depois da
investidura do secretário-geral, parecia afinado com iniciativas audazes, que se traduziram em
planos radicais de desarmamento e de desativação dos conflitos regionais. Mas no plano
interno, como de hábito, era mais difícil enxergar e propor saídas práticas, visíveis,
transformadoras. Enquanto o assessor especial A. Iakovlev, familiarizado com o mundo
ocidental capitalista, lançava sondas heréticas sobre as possíveis relações entre mercado e
plano, outros líderes, não menos influentes, como E. Ligatchev, segundo homem do partido, ou
como o primeiro-ministro Ryjkov, continuavam sustentando as virtudes essenciais de um
sistema que, no entanto, admitiam, precisava mudar.
Ortodoxos e renovadores coabitavam no governo e no partido, denunciando falta de clareza,
uma certa insegurança, ecletismo. Até quando seria possível manter estes extremos em
convivência harmônica?
Quando se reuniu o XXVII Congresso do Partido Comunista, em fevereiro de 1986, não foi
possível construir grandes avanços. E verdade, desde há 20 anos, os congressos do partido
tinham perdido a luz adquirida nos tempos de Kruchev. Tornaram-se o território por excelência
do previsível. Reuniam-se de cinco em cinco anos, um ritual importante pela sua capacidade de
reverberação, mas não um centro criador de políticas. O fato de que, em tempo de mudança, o
congresso não tivesse sido capaz de inovações significativas indicava a existência de equilíbrios
paralisantes, impasses.
A sociedade movimentava-se, é fato. Em margens recuperadas de liberdade, espocavam as
conhecidas críticas contra as desigualdades, os privilégios, as inércias, os desperdícios. Ao
mesmo tempo, a defesa dos aspectos positivos. Uns preferiam denunciar as carências, sem
negar os ganhos obtidos. Outros enfatizavam o que chamavam de conquistas, sem recusar as
mudanças necessárias. Questão de ênfase? Impulsionado por esta atmosfera, incentivando-a,
Gorbatchev corria o país, agitando ideias, solicitando iniciativas, mobilizando, propondo.
Reproduzia características do estilo kruchevista: a jovialidade, a capacidade de diálogo, os
banhos de massa. Mas impressionava pelo comedimento, pelo aparente domínio das questões
em debate. E a vantagem de ser mais jovem, sereno e consequente.
A partida fora dada mas, de alguma forma, o jogo não começava. No início, todos a favor
da aceleração (uskorienie). Um pouco mais tarde, ninguém contra a perestroika. Quais as
virtudes daquele programa de mudanças que a todos reunia, unânimes? Ou o acordo tinha como
base ambiguidades, em que todos podiam se encontrar? Neste caso, seria um vício. Será que
todos, efetivamente, queriam mudar? No mesmo sentido, com os mesmos ritmos? A harmonia
que precede o conflito, a história da calmaria e da tempestade. Havia ali resistências que não
diziam o seu nome.
E então houve o desastre de Tchernobyl.
Pela primeira vez, a União Soviética deixava à mostra uma grande ferida. Exposição de
misérias: o subdesenvolvimento tecnológico de uma central nuclear obsoleta, as normas de
segurança subestimadas pela negligência. Entre os que deveriam velar, a vigilância entorpecida
pela vodca. E a surpresa, a aflição e o sofrimento dos atingidos. O abandono da área,
transformada em deserto, o exílio das pessoas. Na outra ponta, a coragem e a abnegação das
equipes de socorro, sacrificando a própria vida para erguer em precárias condições o medonho
sarcófago em cimento capaz de deter o veneno daquela energia descontrolada e mortífera.
Exposição de um descalabro em carne viva. Para os soviéticos de todas as nações e para o
mundo.
Depois de Tchernobyl, mais uma palavra russa correu mundo: glasnost. Tradução exata:
publicidade de atos administrativos e jurídicos que devem ser de domínio público. No limite, a
crítica ao segredo de Estado, o direito à informação. Não gratuitamente, afirmou-se o termo
transparência, com seu sentido de permitir que fosse visto o que estava escondido nas dobras
dos insondáveis e incontrolados aparelhos burocráticos.
Os filmes de Tchernobyl, em fins de abril de 1986, levantaram véus. A força das imagens
evidenciou situações insuportáveis. A tragédia não foi mostrada apenas por amor à verdade,
mas porque seria, e foi, utilizada como alavanca poderosa numa luta política precisa a favor de
mudanças na União Soviética. Com a central atômica ucraniana explodiu boa parte de um certo
argumento conservador, sempre enfatizando os avanços do socialismo, o discurso do saldo
positivo, apesar dos defeitos, a necessidade de esconder as mazelas para não fazer o jogo do
inimigo, em suma, o antigo mito da fortaleza sitiada.
Agora, a perestroika e a glasnost iriam ganhar velocidade de cruzeiro?
Não ganharam.
É verdade, algo se fizera em termos de legislação, não se estava na estaca zero.
Em novembro de 1986, foi aprovada uma lei sobre o trabalho individual privado. Uma
primeira brecha na estatização generalizada das atividades econômicas. Especificava-se, em
detalhes, o que poderia fazer um trabalhador privado (tchastnik), no máximo com a ajuda de
sua família, em que setores poderia atuar, as restrições, os limites que não poderiam ser
ultrapassados. Tratava-se, na verdade, de trazer para a órbita da lei uma série de atividades já
desenvolvidas no mercado informal. Contudo, a linguagem dos parâmetros fixados estava mais
para controles, restrições, limites e sanções do que para liberdade e incentivos. Como se a
desconfiança sobre a chamada iniciativa particular, embora de pequeno porte, ainda dominasse
o ânimo do legislador.
O mesmo ocorreria com o estatuto das cooperativas, aprovado em maio de 1987. Os
kolkhozes, como já se observou, embora definidos juridicamente como tais, nunca assumiram,
de fato, este caráter, não passavam de unidades estatais. Com efeito, os dirigentes eram
nomeados e as metas de produção e normas de organização do trabalho eram fixadas pelo
Estado. Tratava-se de reformar esta situação, abrindo para o setor cooperativo um estatuto de
real autonomia. Mas aqui também prevaleceu o receio, o verbo tolerar continuou sendo
preferido ao verbo permitir, nem se fale num outro, liberar, associado a desvios. Assim, a
atividade privada não ganhou fôlego: em meados de 1988, não havia mais do que 370 mil
pessoas legalmente habilitadas para o trabalho individual e mais 246 mil nas cerca de 20 mil
cooperativas em funcionamento. Para um país de 280 milhões de habitantes, não chegava a
pesar. A maldição tradicional continuava marcando o lucro privado. Nesta atmosfera, o peso
proporcional das atividades autônomas não aumentou significativamente, os resultados foram
pífios, como seria de (des)esperar.
No ano seguinte, em junho, o Comitê Central e o Soviete Supremo, sucessivamente,
aprovaram uma lei de um outro caráter, sobre a autonomia da empresa.
Tratava-se, segundo o vibrante discurso de Gorbatchev ao Comitê Central, de substituir
métodos essencialmente administrativos por métodos essencialmente econômicos. Na prática,
uma retomada, que se desejava mais completa, dos projetos reformistas de A. Kossiguin,
inspirados por E. Lieberman desde meados dos anos 60. As empresas soviéticas passariam por
uma radical reforma na gestão econômico-financeira. Teriam liberdade de contratar
fornecedores e de escolher clientes. Não mais seriam avaliadas segundo os padrões vigentes,
sempre suscetíveis a distorções e falsificações, e que privilegiavam o volume ou o valor da
produção, mas pela qualidade do trabalho e pelos lucros que daí decorressem. Teriam, de
acordo com nova legislação, poderes para fixar preços (para seus produtos) e remunerações
(para seus trabalhadores e técnicos) e receberiam juros pelos depósitos que efetuassem na rede
bancária. Neste quadro, o Plano Quinquenal teria apenas um alcance indicativo, limitando-se a
fixar, para cada região, índices de produtividade que deveriam orientar as atividades das
empresas e as opções dos dirigentes.
O essencial era fazer deslanchar a produção de bens de consumo corrente. Para estimular a
agricultura e satisfazer a demanda reprimida nas cidades, absorvendo a liquidez ociosa em
poupanças forçadas.
A lei foi aprovada, com direito a grande fanfarra e publicidade, para entrar em vigor a partir
de 1º de janeiro de 1988.
Entretanto, algumas questões fundamentais ficaram em aberto, ou na obscuridade. A União
Soviética não tinha um sistema bancário e financeiro adaptado às exigências suscitadas pela
reforma, nem se tratou do assunto na legislação adotada. Não houve, também, qualquer reforma
geral de preços, nem foram suspensos os subsídios, nem conferida liberdade às empresas para
demitir empregados, nem delimitados os procedimentos exatos pelos quais os preços de venda
de seus produtos seriam fixados. Por outro lado, não se formulou uma lei de falências para
contemplar o caso das empresas que não obtivessem lucro (cerca de 25% delas, segundo
reconheciam as autoridades). Apenas se falou que deveriam fechar, reciclando-se o pessoal no
setor de serviços, na cultura e no lazer. Como se não bastasse, não se definiu nenhuma política
geral no sentido de treinar e reciclar o pessoal dirigente para os novos parâmetros.
As reformas já saíram do forno mortalmente feridas pela incoerência intrínseca de sua
formulação. Desde o início, já tinham meio caminho andado para o fracasso. Quando
enfrentaram a resistência mal dissimulada dos aparelhos e das tradições, dos privilégios
ameaçados, adernaram rapidamente, empacaram, marcos esvaziados de uma vontade mal
amadurecida.
Em suma, iniciativas abortadas, destinadas a ter reduzido impacto nas atividades
econômicas do país, incapazes de gerar o dinamismo necessário para provocar as mudanças
desejadas e propostas.

GLASNOST

A perestroika patinava. A economia não se reestruturava.


Em seu lugar, graças à glasnost, nos horizontes então abertos, imensos, a sociedade passou
a trabalhar as denúncias das mazelas do sistema.
Começou o strip-tease da União Soviética.
Num primeiro movimento, a emergência da questão ecológica, as denúncias contra o
processo de depredação da natureza. O desastre ocorrido no mar Arai, em função de projetos
megalomaníacos de irrigação. A poluição provocada pela indústria química e os processos de
erosão na exploração mal planejada das terras virgens. A ameaça iminente de morte do lago
Lagoda, uma das maiores reservas europeias de água doce. Os perigos imprevisíveis derivados
dos desvios dos rios Onega e Pechora, do Ártico, e dos rios Ob e Irtych, na Sibéria, do norte
para o sul, visando irrigar territórios gigantescos, sem nenhum cálculo a respeito do impacto
ambiental. As grandes chaminés, expelindo grossos rolos de fumaça negra, símbolos de
progresso e de modernidade, associados desde longe à classe operária e à emancipação da
sociedade soviética, tornaram-se fontes de envenenamento e degradação das condições de vida.
Os projetos, alguns faraônicos, de revolução da natureza, criticados e denunciados. O trabalho
humano, até então considerado essencialmente criador, sobretudo numa sociedade planejada e
socialista, apareceu como potência mortífera, secando rios, poluindo a atmosfera, assassinando
animais, comprometendo o futuro da atual e das próximas gerações.
Não só a natureza passava mal nas mãos do socialismo realmente existente.
Surgiu, à luz do dia, uma galeria de taras atribuídas até então apenas ao capitalismo
decadente. Como poderiam existir numa sociedade até então considerada politicamente correta?
O alcoolismo e as drogas em geral, com a radiografia de partes submersas, desvelando
realidades que a imprensa positiva não era autorizada sequer a tocar. Estatísticas sobre a
progressão do consumo de drogas pesadas, constituição de quadrilhas de traficantes, redes de
prostituição, fenômenos que se julgavam banidos, aberrações pretensamente superadas.
E as queixas a respeito da má qualidade dos produtos, tormento e frustração dos
consumidores: as roupas feias, os televisores que funcionavam apenas 15 minutos, os
liquidificadores que, ligados, punham-se a girar descontrolados, as portas que rangiam, os tubos
de dentifrício que desobedeciam à pressão dos dedos, as giletes rombudas, os lentos
automóveis, o áspero papel higiênico, uma lista interminável, e o pior é que ninguém tinha
direito a reparações e a indenizações.
Para além dos apertos materiais, os dramas humanos. A denúncia do mito das mulheres
emancipadas. E verdade, haviam acedido maciçamente ao mercado de trabalho, e isto lhes
conferia margens que não tinham na sociedade tradicional patriarcal. Mas o processo continha
uma armadilha, porque as mulheres, além de responder às exigências profissionais,
continuavam com a carga bruta das tarefas domésticas e das filas à cata dos produtos essenciais,
sempre escassos, num fenômeno que o movimento feminista ocidental chamava de dupla
jornada de trabalho. Apenas disfarçado, mas muitas vezes explícito, permanecia todo um
mundo de valores machistas, oprimindo, humilhando. Em certas situações, como na Ásia
Central, acontecia de mulheres se suicidarem, às dezenas, todos os anos, preferindo a
autoimolação como forma de escapar à sanha de certas tradições. Sem falar no flagelo do
aborto. As estatísticas oficiais anunciavam números alarmantes, derivados da falta de educação
sexual e/ou da insuficiência ou da não-disponibilidade de métodos anticoncepcionais: 30
abortos por cem mulheres entre 15 e 20 anos, 70% a 80% das primeiras concepções nas
cidades, e até 90% entre as camponesas, acabavam em aborto extra-hospitalar. A URSS, com o
equivalente a 5% ou 6% da população mundial, registrava 25% dos abortos no mundo, segundo
a Organização Mundial da Saúde, duas a quatro vezes mais do que nos demais países
socialistas, seis a dez vezes mais do que nos países capitalistas.
Os jornais falavam da existência de milhares de crianças abandonadas, vivendo em
condições deploráveis, vítimas de maus-tratos de pessoas imorais e sem princípios, escolas mal
equipadas, hospitais sem aquecimento, pessoal mal treinado. As coisas perdiam o equilíbrio.
As misérias de uma vida, tanto mais insuportáveis quanto se sabia que, ao mesmo tempo,
persistiam as desigualdades, as injustiças e os privilégios dos apparatchiks, estes comunistas
especiais, que dispunham de lojas particulares, protegidas por grossas cortinas, melhores
escolas para os filhos, colônias de férias para as próprias famílias. Na sociedade dos iguais, os
mais iguais (G. Orwell).
E a chaga da corrupção. Penetrante, invadindo todos os níveis da sociedade, principalmente
os altos escalões.
Em agosto de 1986, veio a público o escândalo da corrupção no Usbequistão, com a
condenação à morte do ministro local do Algodão. Alguns meses mais tarde, depois de tensas
negociações, a prisão de Y. Tchurbanov, genro de Brejnev e segundo homem do Ministério do
Interior por quase oito anos, acusado de desviar algo em torno de US$ 1 bilhão. Na outra ponta,
do lado usbeque, o grande padrinho era C. Rachidov, ex-dirigente da República, já falecido. O
homem recebera nada menos do que dez medalhas Lenin. Na sequência das investigações
comprovou-se que Tchurbanov e Rachidov não passavam de pontas de um imenso iceberg.
Desencadeou-se um impiedoso processo de limpeza, atingindo centenas e centenas de
dirigentes, implicando cerca de 4.500 pessoas. Mas os responsáveis pelas investigações tinham
consciência de que estavam chicoteando o mar, pois a mal chamada máfia usbeque, a rigor,
agrupava de fato dezenas de milhares de pessoas, uma sociedade inteira, envolvendo o desvio
de 4 milhões de toneladas de algodão em cerca de dez anos. A fraude ali era tão generalizada, o
crime organizado envolvia tanta gente, e durante tantos anos, que seria impossível conseguir
prisão para todos os cúmplices. Um inocente poderia mesmo perguntar: era crime aquele
costume? Ou numa outra formulação: poderia um costume ser considerado crime?
A máfia usbeque não era um caso isolado. Em outras periferias, como no Casaquistão e na
Moldávia, o fenômeno já tinha sido detectado. Sem falar nas ramificações complexas. Num
país em que todas as linhas corriam para — e vinham de — Moscou, seria extraordinário que
um fenômeno de tal porte não passasse também por lá.
Na verdade, nas brechas da economia mobilizada, nas trocas e tratativas informais e
paralelas, necessárias para o cumprimento das metas impostas, prosperava toda a sorte de
negócios e comércios, por baixo do pano, por fora da lei. Um desvio? Ou um atributo essencial
do sistema? Uma condição de sobrevivência? O bicho vinha crescendo há décadas. Stalin,
embora o tendo criado, tentara matá-lo, com violentas limpezas. Kruchev usou discursos e
apelos. A glasnost, afinal, conseguiria domar e liquidar o animal? O fato é que se tratava de
prática cada vez mais tradicional, potencializada pelo processo de localização e/ou
regionalização do poder, dado pela organização em grupos e clientelas, agrupados por laços de
lealdade, fermentando cumplicidades. Na cúpula do poder não existia o grupo (que as más
línguas, justamente, chamavam de máfia) de Dniepropetrovski, cujo chefe não era outro senão
o próprio Brejnev? O fenômeno desdobrava-se em círculos concêntricos, confirmando o
provérbio popular: mais vale ter cem amigos do que cem rublos. Houve quem falasse, ao
observar o fenômeno, de um feudalismo soviético. Como conceito, uma impropriedade, como
metáfora, jogava luz naquele baixo mundo informal, não reconhecido.
Haveria um dia, não muito distante, mas em outras condições, em que toda aquela gente
sairia das sombras.
O debate sobre o período stalinista voltou com toda a força, tratado por jornais, revistas,
novelas e peças teatrais, ampliando-se no tempo e em profundidade, em relação ao travado nos
anos 50, época do primeiro degelo. Cálculos apocalípticos batiam os recordes estabelecidos
pelos escribas da Guerra Fria, chegando a sugerir um déficit de mais de 45 milhões de vidas.
Um exagero, sem dúvida.1 Mas o fato novo é que a discussão extrapolara em muito os limites
do partido. Pediam-se as contas em nome da sociedade. Das fomes e da coletivização. Dos
massacres. No âmbito do partido, questionava-se agora a própria Revolução de 1917.
Propunha-se a reabilitação das oposições chacinadas. A figura de Trotski começou a ser
mencionada, ressurgindo das cinzas da desmemória. No tempo, avançou-se também em direção
ao período posterior a Stalin, em direção ao futuro, aos dias atuais, evidenciando-se a
permanência do arbítrio, a continuidade das injustiças. E dos campos de concentração. Como
receara o poeta, não bastara o enterro, o espírito do tirano escapara pelas frestas do mármore e
habitava ainda, em larga escala, a sociedade soviética.
B. Yeltsin, originário da região dos Urais, nomeado chefe do partido em Moscou, em fins
de 1985, reforçou com estardalhaço o movimento crítico, subvertendo os padrões tradicionais
de vida dos apparatchiks da capital e se tornando uma liderança popular na medida mesma em
que infernizava a rotina dos homens do poder. Visitando lojas, entrando em filas, andando de
ônibus, dando incertas nas repartições públicas, o homem, apenas com seu estilo, denunciava a
situação intolerável de privilégios que pareciam consolidados.
Vários outros dirigentes, como Iakovlev, no estilo de Gorbatchev, proferiam conferências,
fundamentando denúncias, defendendo os novos conceitos e abalando velhas convicções.
No mesmo sentido, retomando o papel que tiveram nos anos 50, estavam alguns jornais e
revistas, vorazmente consumidos, reabilitando a noção de imprensa livre e investigativa:
Ogoniok (V. Korotitch), Notícias de Moscou (E. Iakovlev), Literaturnaia Gazeta, Sovietskaia
Kultura, Novi Mir, Oktiabri, Argumenti i facti (V. Starkov). E os dissidentes, retornados dos
campos e de exílios sem fim. E as organizações informais, associações, clubes, círculos que,
nos embates, adquiriam consistência, reivindicando participação.
A União Soviética, instituições e partido, história e dirigentes, iam agora para o banco dos
réus e nada parecia escapar da sanha dos promotores, ou dos detratores. Para compreender o
fenômeno, seria necessário considerar algumas nuances, às vezes — mas nem sempre —
combinadas.
Havia a força de um movimento de ajuste de contas. Visível sobretudo entre os dissidentes
e os retornados dos campos. Ódio a um sistema deformado que fizera sofrer, quando não
marginalizara ou destruíra trajetórias e vidas. Era preciso agora aproveitar as brechas e infligir o
maior mal possível ao regime abominado. Se bem golpeado, ao contrário das vezes anteriores,
quem sabe ele não se levantasse mais?
Num outro ângulo, havia, igualmente, uma disposição continuada ao mimetismo, própria às
sociedades longamente censuradas, acirrada em momentos de crise de identidade. O conforto
da adesão às ideias mais fortes em cada momento. Que importava terem trocado de lugar os
signos? O mais em menos, o menos em mais?
Para além destes detalhes, havia o refúgio da segurança, estar de acordo com os ventos que
sopravam com mais força. Na contracorrente era sempre um custo necessariamente alto. Quem
estaria disposto a pagá-lo?
E ainda, numa outra abordagem, um messianismo às avessas. O fenômeno já se verificara
no anticulto de Stalin, semideus demonizado. Ampliou-se na nova conjuntura de crítica,
estendendo-se a todo o país, à história toda. Antes, a poderosa superpotência. Agora, a miséria
da impotência. Os feitos, desfeitos, viraram malfeitos. E a glória tornou-se ignomínia. A
exaltação, o arraso. E a exaltação do arraso. Em parte alguma, em tempo nenhum, houvera
tantos desastres e tanta ignomínia. O tamanho da fossa. Os chefes, tiranos. Os gênios, imbecis.
Os céus, o inferno. A revolução, um equívoco. A Grande Guerra Pátria, uma sucessão de
fracassos. A emancipação não era senão escravidão. Tábula rasa. A história fora um desvio. As
premissas, apenas em germe, mas já relativamente fortes, de um processo geral de
embasbacamento pelo estrangeiro. A falência de referências, a desestruturação cultural.
Contra estes ataques erguiam-se linhas de defesa em meio a outras tantas ambiguidades.
Um numeroso grupo, nutrido, que muitos não hesitariam em estimar em quase metade da
sociedade, rejeitou com violência as críticas. Utilizaram-se os argumentos da tradição: a
fortaleza sitiada, o não fazer o jogo do inimigo, as vantagens do socialismo. Havia ali um
condensado de patriotismo e de orgulho pelos sacrifícios, muitas vezes impostos, é certo, mas
depois de tantos anos recordados como ações consentidas, numa reação típica de ex-
combatentes. Haviam sofrido muito, e valorizavam, como é natural, as dores do passado.
Quem, como, e com que direito, vinha dizer que tudo fora em vão? Que nada valera a pena? E
também o receio da mudança. Pesquisas de opinião revelavam a insegurança da população
diante do fantasma do desemprego e da hipótese, considerada provável, de um aumento nos
ritmos e nas cadências das linhas de produção. Nos centros fabris dos Urais, quase 70% dos
trabalhadores consultados associavam a perestroika a um pouco mais ou a muito mais trabalho.
Num outro plano, a defesa das rotinas e dos privilégios. Chefes que não queriam controles
democratizados, nem publicidade sobre seus mandos e desmandos. Formou-se uma aliança
heterogênea em torno de sagrados tabus. Caso desvelados, seria uma subversão, pondo em risco
posições conquistadas e consolidadas. As denúncias precipitavam conflitos, ameaçavam a
estabilidade, aonde levariam?
Alguns, mais audaciosos, defendiam atacando. A partir de um certo momento, tornou-se
difícil distinguir quem era quem naquele jogo. Todos eram favoráveis à perestroika e à
glasnost. Mas o que significavam aquelas palavras exatamente?

DECANTAÇÕES

E. Ligatchev liderava esta ala de reformistas conservadores ou de conservadores


reformistas, era difícil precisar. O segundo homem do partido, encarregado da ideologia, corria
também o país, e em palestras e entrevistas tentava estabelecer limites e regras intransponíveis.
O alvo era a renovação do socialismo e não sua destruição.
O próprio Gorbatchev não escapava, nunca escaparia, de atitudes bifrontes. Como todo líder
carismático, incentivava e cultivava alas contraditórias. Precisava delas. Que se
entredilacerassem, ele arbitraria. E assim era possível vê-lo no ataque, pelas reformas, e na
defesa, pelo socialismo. A sua mão direita (ou era a mão esquerda?), com Yeltsin, demolindo o
edifício, sem muita atenção pelas consequências que adviriam. A mão esquerda (ou era a
direita?), com Ligatchev, favorável à reforma, mas de olho na construção, era necessário
conservá-la em seus pilares essenciais. Mas, nestas condições, seria viável reformá-la? As
referências começavam a se embaralhar. Aquele caminho parecia mais tortuoso do que se
previra.
A partir de meados de 1987, ocorreram as primeiras decantações.
Um novo pleno do Comitê Central, em junho, permitiu a Gorbatchev efetuar mudanças em
postos-chave da cúpula partidária. Foi quando Iakovlev, considerado um reformista radical,
crítico feroz do centralismo estatal, partidário de concepções heréticas sobre a possibilidade de
combinar mercado e socialismo, assumiu a direção do chamado trabalho ideológico. Ao mesmo
tempo, aprovaram-se os princípios da legislação, já referida, garantindo a autonomia das
empresas.
O processo ameaçou cobrar ritmos novos, mais acelerados.
Mas foi um engano.
Apesar do crescente prestígio de Gorbatchev em todo o mundo, com seu livro batendo
recordes de vendagem, a superexposição de sua imagem invadindo todas as casas, os planos de
desarmamento e de paz, as capas das revistas, the man of the year da Time, o charme e o
encanto, apesar de tudo isto, talvez por causa disto, as reformas vacilavam na União Soviética.
De um lado, por trás da unanimidade, a reação da inércia e da passividade. Mas não só.
Também o ataque aos reformistas mais decididos. Entre eles, o símbolo de todos, que,
justamente, se encontrava em Moscou, em plena ofensiva: Yeltsin. Tinha tudo, e dava todos os
pretextos, para se tornar um bode expiatório. O homem parecia até sentir um certo prazer nesta
posição.
O conflito aconteceu a partir de outubro, em outro pleno do Comitê Central. Não sentindo
vir a catástrofe, nem percebendo seu isolamento, Yeltsin atacou duramente a lentidão da
perestroika, a falta de decisão dos dirigentes, a conciliação com os erros e os crimes do
passado. Foi politicamente massacrado. Gorbatchev, criador da criatura, presidiu à destruição.
Como nos velhos tempos, Yeltsin recuou, perdeu cargos e funções e fez autocrítica dos erros
cometidos. Uma humilhação. No futuro a cobraria, com juros e correção monetária.
Depois da limpeza de Yeltsin, o processo pareceu fazer uma pausa.
No mês seguinte, Gorbatchev, em discurso comemorativo do 70° aniversário da Revolução
Russa, permitiu-se rasgar um elogio ao núcleo dirigente histórico do Partido Comunista, tendo
à frente Stalin, que, apesar de outros desvios, vencera a oposição de Zinoviev e Kamenev,
partidários da cisão. Em seguida, em encontro com intelectuais, distribuiu críticas aos radicais
de todos os lados, confortado numa posição de liderança distante de extremos igualmente
equivocados.
Mas não formulou um programa claro. Era uma estranha força, a sua. Como se extraísse
seiva do vigor dos contendores em equilíbrio, mas lhe faltasse programa próprio, e direção.
A curva descendente do prestígio do programa de reformas alcançou um ponto crítico em
março de 1988, com a publicação, pelo jornal Rússia Soviética (Sovietskaia Rossia), da carta
aberta de uma obscura professora, Nina Andreeva, violentamente hostil à perestroika. Criticava
uma suposta caça aos stalinistas, levantava-se contra as restrições ao modelo soviético,
inaugurado pela revolução pelo alto de fins dos anos 20, contra as denúncias aos desmandos de
Stalin durante a Segunda Guerra Mundial. Os atuais reformadores, alegou a autora, eram os
herdeiros das classes derrubadas pela revolução de 1917. Nas brechas, tentavam levantar a
cabeça e destruir o legado dos anos 30: a industrialização, a coletivização e a revolução cultural
que fizeram da URSS uma grande potência. Como o primeiro país socialista do mundo poderia
tolerar um tal contrassenso?
Aquela carta teve o efeito de uma bomba. Voltou o silêncio aos meios de comunicação.
Deixaram de comunicar, simplesmente. Ficaram na expectativa, especulando: quem autorizara
a publicação? Que forças ela representava? Fechara-se a cortina da perestroika e da glasnost?
A luz, afinal, voltou, pouco mais de três semanas depois, mas novamente pelo alto, por
meio de um editorial do Pravda, não assinado, ou seja, autorizado pelas mais altas instâncias,
arrasando as críticas da professora Andreeva, acusada de partidária de hábitos do passado e
interesses egoístas, acostumados a viver das desigualdades e que não estavam empenhados em
mudar coisa alguma. Por outro lado, criticava-se a passividade da imprensa e dos partidários
das reformas por não terem reagido à altura.
A orquestra voltou a tocar, mas o episódio permaneceu em relativa obscuridade. Era fácil
perceber o dedo e o interesse de Ligatchev, representante máximo de todos os conservadores.
Mas e Gorbatchev? Teria tido conhecimento antecipado da carta aberta? Qual sua posição em
toda aquela história? Claro, a hesitação da maioria, à espera de sinais do alto, fora emblemática
de uma certa cultura política, e da correlação de forças então prevalecente. Sobre os detalhes da
manobra, porém, seus reais objetivos e os responsáveis envolvidos, nunca foi possível alcançar
um perfeito esclarecimento.
O fato é que as mudanças vinham sendo anunciadas desde março de 1985, mais
concretamente desde outubro daquele ano, quando fora lançada a perestroika, porém afora o
importantíssimo debate em curso, com todas as dilacerações decorrentes, não se avançara
grande coisa nas reformas estruturais de que tanto carecia a União Soviética, segundo o
consenso estabelecido entre os homens do poder e a sociedade.
Um pouco mais de dois anos e, no entanto, não se vislumbravam resultados tangíveis.
Como se uma inércia pegajosa estivesse entravando as engrenagens.
Elegeu-se, então, a XIX Conferência Pan-soviética do Partido Comunista, convocada para
fins de junho de 1988, como cenário para que afinal se formulassem e aprovassem,
democraticamente, passos concretos no sentido de avanços substantivos para superar a
pasmaceira ambiente. As teses publicadas para debate retomaram as linhas gerais do processo
em curso: a crítica ao centralismo, o estímulo à iniciativa, total liberdade de discussão e crítica
e a construção de um Estado de Direito, com respeito aos direitos e garantias individuais. A
novidade era uma reforma política em que se enfatizava a definição de instituições estatais
autônomas em relação aos controles partidários. As autoridades do Estado passariam a ser
responsáveis apenas perante as assembleias que as elegessem.
O estudo da Conferência, que se realizou de 28 de junho a 2 de julho de 1988, autênticos
estados gerais soviéticos, o que ali se falou e se discutiu, com as intervenções sendo publicadas
na íntegra pela imprensa, dão um quadro bastante aproximado do que aquela sociedade queria e
recusava.
Gorbatchev deveria estar num de seus melhores dias quando apresentou à conferência seu
informe de abertura. Desenhou, com a maestria que lhe era peculiar, os grandes objetivos.
Falando, o homem parecia formular uma utopia.
O socialismo soviético passaria a ter o homem como medida de todas as coisas, uma
proposta humanista por excelência. Uma economia complexa, em que se combinariam
diferentes formas de propriedade, social e individual, pública e privada, conferiria eficiência e
dinamismo às atividades produtivas. Do ponto de vista da gestão, ao lado de um centro
responsável pelas questões gerais, unidades de produção largamente autônomas, regidas pelas
demandas do mercado. A justiça social seria garantida a todos os cidadãos, mas a retribuição
dependeria do trabalho, superando-se os vícios do igualitarismo. Haveria um poder popular
autêntico, controlado pelos trabalhadores, a autogestão socialista, democracia e legalidade, num
quadro de abertura e transparência. Entre as nações soviéticas, igualdade e respeito mútuo,
internacionalismo e fraternidade, sem divisionismos e preconceitos mesquinhos. No plano
internacional, a cooperação e a interação entre povos civilizados, o respeito às identidades e à
autodeterminação, a não-ingerência. Sujeito deste processo, dotado de uma alta cultura e moral
elevada, gozando da abundância material e da riqueza intelectual, o povo soviético.
Um amplo e belo horizonte. A plateia ficou encantada.
Para viabilizar estes grandes planos, Gorbatchev propôs a eleição de um Congresso de
Deputados do Povo, formado por 2.250 deputados, responsável pela eleição de um Soviete
Supremo, com cerca de 500 deputados, o qual, por sua vez, elegeria, por voto secreto, um
presidente dotado de amplos poderes. Numa arquitetura complicada, mas engenhosa, 750
deputados seriam eleitos diretamente pelos cidadãos, nos distritos existentes. Outros 750, pelas
nações, segundo a proporção da população. Os demais, pelas instituições sociais e políticas, a
serem definidas pelo partido. Criava-se, assim, uma reserva, para abrigar eventuais candidatos
escassos de votos mas ricos de experiências, ou de poder. Em cada nível, os responsáveis do
partido eram convidados a se candidatar e, se não fossem eleitos, a renunciar a seus poderes.
Mas para cada nível, haveria múltiplas candidaturas, tanto para a estrutura soviética como para
o partido. Os mandatos eram fixados em cinco anos, com apenas uma reeleição, salvo casos
excepcionais.
A criação de um novo centro de poder, ungido pela vontade de todos. Um presidente eleito
por este centro já não deveria contas a quem quer que fosse, salvo aos seus eleitores. Um golpe
no partido, não era preciso grande argúcia para desvendar o propósito. Mas legitimado pelo
próprio partido, se os delegados o aprovassem.
Em suma: os delegados eram chamados a compartilhar generosos propósitos e a criação de
uma estrutura nova e alternativa de poder que lhes escaparia tendencialmente do controle.
Como um convite ao suicídio.
A cacofonia que se seguiu lembrava uma grande feira, e exprimiu uma sociedade em crise,
atordoada, eufórica, atormentada, esperançosa. Aquela transição levaria aonde exatamente?
Pelo pente fino dos milhares de delegados — a palavra solta e livre — passaram todas as
instituições, mazelas e problemas da sociedade. Versões opostas pareciam referir-se a realidades
distintas, mas falavam de uma mesma sociedade. A imprensa: para uns, hipercrítica, fazia o
jogo do inimigo; para outros era ainda muito condescendente. Os ministérios centrais: ou
máfias organizadas, sugando o trabalho produtivo da nação, ou pilares da construção do
socialismo, sem os quais tudo derivaria para a anarquia. A educação e a saúde: sólidos baluartes
da União Soviética, ou estruturas viciadas, habitadas pela incompetência e por deficiências e
insuficiências crônicas, insanáveis. A crítica e a defesa dos funcionários. A reivindicação do
controle (a transparência) e do segredo (a segurança). A virulência contra os privilégios
acumulados, segundo alguns, defendidos, por outros, como justas recompensas. A perestroika e
seus ritmos. Devagar ou depressa demais?
Em todo o debate, a descoberta do contraditório. Aplausos e vaias. Urros, uivos,
imprecações, assobios. Os delegados descobriam o sabor, a angústia e as incertezas do debate
livre.
Presidindo a Babel, sereno, Gorbatchev, como um mestre-escola, distribuía incentivos e
críticas aos extremismos de todos os bordos, tronando acima dos desvarios: conservar,
mudando; avançar, sem demasias; exercitar a memória, sem nostalgia; descentralizar, sem
esquecer o centro; centralizar, sem exageros; defender a verdade, sem aspirações ao monopólio.
Em suma: evitar os excessos. Assim era o homem, largo e profundo, in medium, virtus,
procurando o conforto do centro, instalando-se nele.
Mas seria esta a melhor qualidade para o líder de um processo reformista?
O fato é que as resoluções da XIX Conferência consagraram as propostas de Gorbatchev.
Passaram a reforma política e o Congresso dos Deputados do Povo como órgão máximo da
soberania da URSS: sufrágio secreto, em todos os níveis, mandatos de cinco anos, autorizada
apenas uma reeleição. Seria inscrito na Constituição o princípio da publicidade {glasnost):
direito à informação, livre acesso às reuniões dos comitês do partido e aos documentos oficiais
(salvo os que interessassem à segurança nacional). Aprovada uma reforma jurídica, com a
criação de um Conselho Constitucional para controlar a adequação das leis e os direitos e
garantias individuais. E mais outros Conselhos para acompanhar a luta contra a burocracia e
suas mazelas e para tratar das relações entre as nações soviéticas. O partido, solenemente,
comprometia-se a não tolerar a volta dos vícios associados ao stalinismo e ao período da
estagnação.
Mudanças políticas, sem dúvida. Mas praticamente nada a respeito dos grandes desafios
que tinham gerado a perestroika. E que se afirmara, nos altos círculos do poder, a ideia de que
nenhuma reforma econômica teria fôlego sem ganhar previamente ampla legitimidade política.
Gorbatchev tinha uma fórmula para isto: era preciso ganhar a alma do povo soviético para o
socialismo. As resistências tenderiam a ser vencidas por incontestáveis maiorias definidas pelo
voto secreto. Tratava-se de aferir democraticamente a vontade geral. Se ela se inclinasse pela
mudança, como parecia viável, quem ousaria se opor?
De qualquer forma, a Conferência realizara uma travessia. Estava criada uma estrutura de
poder alternativa, autônoma em relação ao partido. Se este não quisesse caminhar no sentido do
futuro, arcaria com as consequências.
Tratava-se, agora, de ganhar as eleições para o Congresso do Povo, previstas para a
primavera do ano seguinte. E, na sequência, outras eleições, para os sovietes locais e regionais
em toda a URSS.
O país, maravilhado com a atmosfera de liberdade conquistada, parou para discutir. Havia
ali analogias, recordavam vagamente um outro ano de debates febris, 1917. Tentações. Depois
de décadas, era como se a caixa de Pandora estivesse sendo mais uma vez aberta.
Enlouqueceriam novamente os mal chamados povos soviéticos?
Não enlouqueceram.
Mas tomaram gosto pelos debates, inclusive porque novas temáticas, pelo menos para a
grande maioria, agitavam os espíritos. Nunca jornais e revistas venderam tanto, nem emissões
de rádio e televisão foram tão ouvidas e vistas, quanto naqueles meses que precederam as
eleições para o Congresso dos Deputados do Povo.
Já não se tratava mais de apenas discutir a trajetória de personalidades, mas de um sistema.
Estalou o verniz uniformizante que cobria aquele mundo diverso. Os desvios ganharam novo
nome: alternativas. Passou a ser possível, e prezada, a diferença em relação á linha oficial.
Pluralismo e mercado deixaram a prateleira das heresias e converteram-se em objetos correntes
de reflexão, quem sabe se, devidamente regulamentados, pudessem melhorar a vida, ao
contrário do monolitismo e do plano centralista, geradores contumazes de inibição e de
repressão. E se as disfunções de toda a ordem fossem expressão não de um estilo de trabalho
viciado mas dos interesses de uma elite constituída?
Pensando bem, aquilo era realmente socialismo?2
Uma autoridade no assunto, nada menos do que o diretor dos Arquivos Históricos, uma
espécie de guardião da memória nacional, I. Afanassiev, veio a público declarar que não
acreditava que existisse socialismo na URSS, nem mesmo um socialismo deformado. Depois de
70 anos, o que se via era escassez e racionamento, ponto de chegada de uma estrada sempre
inglória. E, mesmo após quase quatro décadas da morte de Stalin, estavam todos ainda
aprendendo o que era democracia, como adolescentes, e, finalizava cruelmente o autor, tirando
notas medíocres. O socialismo realmente existente em alguma curva do caminho deixara de
existir. Sequer existira em algum momento?

O SOCIALISMO EM QUESTÃO

O questionamento tinha precedentes ilustres.


No plano acadêmico, a sovietologia e a kremlinologia norte-americana construíram a
hegemonia do conceito de totalitarismo para caracterizar a sociedade soviética. A polarização
entre o Estado onipotente e a sociedade atomizada. Um conceito de vida longa, que passou por
muitas metamorfoses. Enunciado como signo positivo, como proposta salvadora pelos fascistas
nos anos 20, retomado como crítica e condenação do sistema soviético por interpretações
socialistas de esquerda nos anos 30 (B. Suvarin), o conceito foi reelaborado depois da Segunda
Guerra Mundial nos Estados Unidos por H. Arendt3 para abranger simultaneamente o
nazifascismo, ex-inimigo derrotado, e o comunismo soviético, um ex-aliado que se tornara um
inimigo mortal. Para os crentes do totalitarismo, socialismo era aquilo mesmo, um mundo de
terror e de medo, que precisava ser abatido.
Na tradição revolucionária, Trotski e o movimento trotskista, desde fins dos anos 20,
insistiram na tese da revolução inacabada (I. Deutscher, 1967). A base econômica socialista
apropriada por uma burocracia usurpadora. Seria preciso recuperar o destino roubado, por meio
de uma revolução política, mas, essencialmente, o regime soviético continuava sendo
considerado socialista. É verdade que, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, o velho
revolucionário chegou a dizer que, se o conflito que se aproximava não levasse de roldão a
maldita burocracia, seria necessário repensar o conjunto da problemática. A morte o impediu de
fazer a tentativa, e nenhum discípulo ousou tomar o caminho sugerido (L. Trotski, 1966).
Toda uma série de dissidências, desde os anos 20, trilharam variantes desta interpretação.
Era preciso corrigir as deformações de um regime cujo caráter socialista não se negava.
Num outro registro, porém, desde que ocorreu a revolução de 1917, dirigentes da
Internacional Socialista recusaram-se a associar o regime soviético ao socialismo. K. Kautski
recorreu a categorias diversas, como que hesitando diante da esfinge: capitalismo de Estado,
nova classe burocrática, contrarrevolução termidoriana, bonapartismo, fascismo… (K. Kautski,
1921).
A tradição conselhista, com outras referências, e no outro extremo do espectro político,
embora derrotada e marginalizada, também negou ao regime soviético qualquer parentesco,
mesmo longínquo, com o socialismo (K. Korsch).
A hipótese do capitalismo de Estado foi considerada já pelos socialistas revolucionários e,
no interior mesmo do partido bolchevique, por alguns comunistas de esquerda. Os anarquistas
russos não hesitaram em adotá-la. A eliminação da autonomia das organizações associadas ao
controle operário teria assinalado a emergência do fenômeno, antes mesmo da consolidação do
poder revolucionário (P. Avrich, 1979).
Mais tarde, nos anos 60, os maoistas retomaram a tese a seu modo e, na universidade,
alguns lhe deram lustre acadêmico. A mal chamada burocracia não era uma casta, ou um
estrato, ou uma elite, mas uma classe, e dominante. Gerenciava excedentes do sobretrabalho
das massas soviéticas de uma forma análoga à da burguesia, pela exploração. Além disso, na
economia, a forma-mercadoria, incluindo-se aí a força de trabalho, naturalmente, atestava a
vigência do modo de produção capitalista (Ch. Bettelheim, 1974)
A partir dos anos 50, sobretudo depois das denúncias de Kruchev, abriram-se outras
propostas de diagnóstico, tendo como ponto forte a indagação sobre a sucessão necessária entre
capitalismo e socialismo. Em que livro sagrado estava escrito que, depois da destruição do
capitalismo, teria de surgir o socialismo? E se fosse possível surgir um outro animal, ainda não
catalogado, com aspectos de capitalismo e socialismo, mas não redutível a estes sistemas?
Nesta direção houve os que associaram o regime soviético a tiranias antigas, aparentadas
com formas asiáticas, ressuscitadas e redefinidas: o Estado onipotente, os grandes trabalhos, a
mobilização da sociedade, fragmentada e formada por homens-formigas (H. Morel, 1977).
E os que preferiram conceituá-lo plenamente inserido na modernidade, como um sistema
tecnoburocrático, condicionado pelo baixo nível de desenvolvimento das forças produtivas,
pelo atraso técnico e econômico, pelo isolamento internacional da revolução (F. Claudin, 1972).
E assim, com algumas décadas de atraso, a sociedade soviética retomava o debate sobre a
natureza do sistema que ajudara a construir.
Outros temas, recorrentes, dominaram a apaixonada e apaixonante campanha eleitoral do
inverno de 1988-1989, as primeiras eleições verdadeiramente livres desde o longínquo ano de
1917, quando as populações do velho Império tinham experimentado de forma intensa, mas
fugaz, as incertezas da liberdade.
Questões gerais, de alto nível de abstração, como as relações entre o mercado e o
socialismo. Até que ponto, numa sábia dosagem, seria possível compatibilizar estes termos que
uma certa tradição via como antagônicos. E o pluralismo político: não colocaria em questão o
dispositivo constitucional que estabelecia o partido único? E os manuais de história, cuja
circulação fora suspensa, quem haveria de redigir os novos? Num outro nível, assuntos
prosaicos, relativos ao cotidiano das pessoas comuns e correntes, como, por exemplo, creches,
hospitais, anticoncepcionais, salários. E a avaliação e as denúncias das taras e dos desvios:
alcoolismo, prostituição, drogas, tráficos de todos os tipos.
Gorbatchev, mais uma vez, bem no seu estilo, estava em toda a parte, cidades, fábricas,
minas e kolkhozes, animando as pessoas, suscitando a discussão, incitando a crítica. Antes do
fim do ano de 1988, em outubro, colhera outra grande vitória na cúpula do partido, afastando
ou neutralizando adversários (Ligatchev), promovendo homens de confiança para postos-
chaves.

A PERESTROIKA E SUAS CONTRADIÇÕES


No entanto, havia um certo descontentamento no ar. Não apenas entre os que já começavam
a amaldiçoar a perestroika pelas ameaças que trazia em sua esteira: controles desconhecidos,
votos secretos, distúrbios. Mas no conjunto da sociedade aumentavam as queixas e críticas
contra as dificuldades do abastecimento, o fantasma da escassez. O próprio Comitê Central
admitira que, em diversas regiões, a situação alcançara níveis intoleráveis. Certo, a URSS era a
primeira produtora de petróleo e de açúcar do mundo, mas de que adiantava isto, se não era
possível encontrar gasolina e se o açúcar estava racionado desde outubro? As pessoas
começaram a dizer que, ao abrir a geladeira, não encontravam a perestroika.
Em fins de agosto, o governo fixara por decreto o crescimento da produção dos bens de
consumo até 1990 e se permitiu prever um aumento de 18% para as indústrias leves entre 1991
e 1995. Todos os itens do vestuário registrariam curva ascendente, alguns mais de 100%. A
produção de aparelhos de televisão, por exemplo, chegaria a 13,5 milhões de unidades, contra
os 3,5 milhões do presente. A carência em peças de reposição para automóveis desapareceria
em um ano, no máximo em dois. Estimativas ou profecias? A tradição voluntarista. Nas
estatísticas e no papel o país ia sempre muito bem. O problema é que, na passagem para a
prática, faltavam passarelas, havia ali algum emperramento, as coisas não se desdobravam
como se imaginava.
E as penúrias agravavam-se. Afinal, a perestroika viera para melhorar ou para piorar?
Gorbatchev responsabilizava as heranças, o passado. Mas já se vivia o tempo das reformas
há quase quatro anos, até quando seria possível jogar sobre o passado a responsabilidade pelas
angústias do presente?
Uma outra catástrofe, desta vez um terremoto, na Armênia, em dezembro de 1988,
evidenciou novamente as carências, parecia que a colossal União Soviética não passava de um
país subdesenvolvido: precariedade dos socorros, falta de medicamentos, erros grosseiros
(corrupção?) no planejamento da construção dos prédios. Os partidários da perestroika tiraram
do desastre argumentos a favor: a prova de que o sistema anterior não era o melhor dos
mundos. Na oposição, outros olhos viam as coisas de modo diverso: aquilo testemunhava a
falência da perestroika, não se renovara coisa alguma, ao contrário, ia-se de mal a pior.
O quarto ano das chamadas reformas estava acabando de forma preocupante. A lei da
autonomização das empresas parecia não ter entrado em vigor. Ficara no papel. As outras
formas de atividades privadas produziam apenas 0,5% do volume de bens e de serviços. O
capital internacional não aportara, havia somente 13 joint-ventures em operação. Crescera a
dívida pública, as exportações estagnavam, mas aumentavam as importações. As lojas estavam
vazias.
Começara a se formar uma frente antirreformista. Uns, preocupados em defender os
privilégios conquistados. Outros, a posição ocupada pela URSS no mundo. Todos viam as
reformas como ameaças. Denunciavam a maneira desrespeitosa como uma certa imprensa
tratava os valores nacionais. Estavam caluniando o povo soviético, chegara a hora de reagir.
Os partidários das reformas, de seu lado, radicalizavam-se. Formou-se a sociedade
Memorial, dedicada a resgatar a memória das vítimas do stalinismo. No começo de 1989, já
existia em mais de cem cidades. Lutava para caracterizar os crimes cometidos por Stalin como
de lesa-humanidade, ou seja, imprescritíveis. A. Sakharov, em liberdade desde o fim de 1987,
denunciava o caráter trágico e atroz da história soviética. L. Abalkin, diretor do Instituto de
Economia da Academia das Ciências, falava da URSS como uma paisagem lunar, cheia de
crateras, para reformar aquilo seriam necessárias uma ou duas gerações.
Uma vaga de filmes aparecera, criticando duramente a hipocrisia, o arrivismo, as mazelas
do stalinismo, evidenciando os problemas existenciais de uma sociedade sofrida, as sequelas da
guerra no Afeganistão, as destruições ecológicas, o trabalho forçado.
Uns acusavam: todos (no partido) votaram em Stalin. Outros retrucavam: sem Stalin,
teríamos ganho a guerra? Aqui se publicava um texto de Soljenitsin com denúncias à
cumplicidade da sociedade com as autoridades. Ali se conclamava a cólera popular contra o
autor do Arquipélago Gulag.
O monólito em desagregação. As fraturas de uma sociedade.
Em 1988 a colheita de cereais foi um fracasso: 195 milhões de toneladas, quase 20% a
menos do que em 1978, dez anos antes. O racionamento da carne já atingia oito das 15
repúblicas e 26 regiões na Federação Russa. O de açúcar e de manteiga alcançava 32 e 53
regiões da Rússia, respectivamente.
Apesar de todos estes pesares, ou por causa deles, a participação nas eleições de março de
1989 foi maciça. Contudo, os resultados geraram interpretações diversas. Os partidários da
aceleração das reformas foram vitoriosos nos grandes centros urbanos. Em Moscou, houve um
verdadeiro plebiscito em favor de Yeltsin. Expurgado do Bureau Político, humilhado na XIX
Conferência do Partido, apresentou-se como o herói das massas desprotegidas contra a opressão
do governo, da tradição, do sistema. Foi triunfalmente eleito, com 89,4% dos votos. Seu
sucessor na direção do partido em Moscou teve sua candidatura derrotada. Em outras
circunstâncias, Yeltsin estaria definitivamente liquidado. Na melhor das hipóteses, com direito a
uma tranquila aposentadoria. Na atmosfera da perestroika, um renascimento das cinzas.
Expressão de uma certa saturação com o regime em vigor. Com efeito, uma pesquisa de opinião
pública revelou um detalhe inquietante para os partidários da renovação do socialismo: apenas
11% dos eleitores consideravam a fidelidade ao sistema vigente como um critério determinante
para a definição do voto.
Contudo, na URSS profunda, as coisas não se passaram do mesmo modo. Em 25% das
circunscrições houve candidaturas únicas, porque a lei facultava, mas não impunha, a
multiplicidade de candidatos. Nas 17 regiões do Casaquistão, por exemplo, os primeiros-
secretários foram candidatos únicos, dissuadindo-se a oposição de concorrer com candidatos
alternativos. Apenas um golpe das elites? Ou havia um consentimento, mesmo que passivo, da
sociedade?
Em muitos lugares, porém, foi possível assistir a debates contraditórios e efetuar escolhas.
Claro, como já sabemos, todos se diziam partidários das reformas. Cabia à população saber ler
e ouvir nas entrelinhas. A rigor, o método não lhe era estranho.
Uma outra novidade do processo eleitoral, pouco estimada imediatamente, mas de
profundas consequências a curto prazo: o fortalecimento das diversas identidades nacionais no
interior da União Soviética, sobretudo nos países bálticos, com a constituição e a vitória das
frentes populares e dos comunistas reformadores.
Gorbatchev, no deslanchar da perestroika, e traindo sua alma russa, subestimara gravemente
a chamada questão nacional, como ele próprio viria a reconhecer mais tarde. Ela iria se
impondo com o tempo, à custa de tiros e bombas, carnificinas e explosões sociais.
O primeiro alarme soara na Ásia Central, no aparentemente tranquilo Casaquistão, em
dezembro de 1986. A tentativa de infringir uma certa tradição, impondo um russo como
primeiro-secretário do partido local,4 gerara uma violenta cólera em Alma-Ata, capital da
república, obrigando Moscou a contemporizar e a recuar. Menos de seis meses depois,
apareceu, de forma midiática, uma organização nacionalista russa: Memória (Pamiat). Um
discurso ultrarradical, quase caricatural, permitiu a muitos desconsiderar o fenômeno. Mas o
movimento tinha representatividade, e não gratuitamente foi recebido por Yeltsin, na época
todo-poderoso chefe do partido em Moscou. Logo em seguida, em junho de 1987, na capital da
Letônia, Riga, uma grande manifestação nacionalista, reivindicando o reconhecimento da
identidade da república báltica. Em setembro do mesmo ano, uma disputa futebolística, em
Kiev, capital da Ucrânia, entre um time russo e outro local, gerou verdadeira batalha campal
entre os torcedores, com fortes conotações nacionalistas. Um pouco mais tarde, novas
manifestações na Estônia e na Lituânia.
Sinais de vida (e de morte): o vírus do nacionalismo estava à solta.
O fenômeno tomou outro vulto a partir de fevereiro de 1988, quando manifestações em
Erevan, de cunho nacionalista, exigiram a unificação da região do Alto Karabakh à Armênia. O
imbróglio fora criado por Stalin, quando incluíra na jurisdição da república do Azerbaijão o
Alto Karabakh, majoritariamente habitado por armênios, que se queixavam de discriminação e
perseguição por parte dos azerbaijanos. A medida ficara entalada, exigindo reparação. Era o que
agora estavam reivindicando os armênios.
No Azerbaijão, a população sentiu-se ameaçada e reagiu com massacres (pogroms), arma
tradicional do nacionalismo cego. O rastilho pegou forte e incendiou uma verdadeira guerra
civil no Cáucaso, um tumor invencível, que desafiou até o fim da União Soviética todas as
mediações e ameaças de intervenção. Os homens de bom senso lamentaram e criticaram aquele
fanatismo de uma outra época, mas o fato é que ele revelou a força das identidades nacionais,
exigindo reconhecimentos que tardavam.
Múltiplos focos de tensão se desenharam. No extremo ocidente, os pequenos países bálticos
e a Moldávia, incorporados à força em 1940, graças aos acordos com os alemães,
reincorporados a partir de 1944, no bojo da contraofensiva dos exércitos soviéticos,
reivindicavam símbolos e bandeiras, alguns já falavam em secessão. Em novembro de 1988, o
Parlamento estoniano proclamou o primado de suas leis sobre as da URSS. A decisão foi
imediatamente revogada pelo Soviete Supremo, mas o alerta estava dado. Em fevereiro do ano
seguinte, em outra onda, o movimento nacionalista lituano proclamou seu direito à
autodeterminação.
No Cáucaso, a Geórgia, a Armênia e o Azerbaijão engalfinhavam-se. Em fins de 1988,
manifestações nacionalistas sucediam-se nas capitais da região: Tbilisi (Geórgia), Erevan
(Armênia) e Baku (Azerbaijão). No curso de uma delas, em abril de 1989, o exército soviético
abriu fogo contra os manifestantes, matando 16 pessoas. Houve escândalo, outras
manifestações e pedidos de desculpa. Mas o mal estava feito.
Na Ásia Central, a identidade muçulmana, embora recolhida, já manifestava também suas
razões. No entanto, e mais grave para a estabilidade da URSS, entre os próprios povos eslavos
houve o estalar de insatisfações: na Ucrânia, sobretudo, mas também na Bielo-Rússia, sem
nenhuma tradição estatal. Na Federação Russa, pequenos povos se agitavam, sensíveis à
pregação pela autonomia e mesmo pela independência. Finalmente, entre os próprios russos,
prosperava a ideia de que aquele império era um fardo, estas nações eram parasitas, porque
haveriam os russos de aturá-las? Que cada um seguisse seu caminho.
O homo sovieticus, construído no tempo do socialismo desenvolvido, parecia mais do que
nunca um mito.
Entretanto, apesar de estremecida, a URSS parecia dispor de muitas reservas. E o
crescimento do prestígio e do poder de Gorbatchev indicava que havia um líder no leme.
Com efeito, as duas sessões do Congresso dos Deputados do Povo, reunidas em maio de
1989 e março de 1990, aprovaram todas as reformas políticas que ele propusera, entre as quais
a criação da presidência da República para a qual foi eleito, com uma soma extensa de poderes
para que pudesse implementar as tão desejadas reformas econômicas. As instituições estatais
autonomizaram-se em relação ao partido, que perdeu, inclusive, em 1990, a cobertura do
dispositivo constitucional que lhe conferia um papel de direção política na sociedade e no
Estado. Os horizontes pareciam desobstruídos para que a perestroika tomasse vida.
No plano internacional, o homem acumulava impressionante popularidade. Segundo
pesquisas, tornou-se o político mais popular na Europa. Todos tinham agenda para recebê-lo:
presidentes, primeiros-ministros, rainhas e reis, o próprio papa. Sucediam-se os acordos de
desarmamento, compreendendo armas convencionais e nucleares. Fora possível empreender a
extraordinária transição das chamadas democracias populares para fora da órbita soviética, sem
que fosse necessário passar por nenhum conflito sangrento. Na Polônia, o Solidariedade
assumira o poder. Na República Democrática Alemã, grandes manifestações tinham levado à
queda o todo-poderoso E. Honecker. Na Hungria, eleições livres eram convocadas. A queda do
Muro de Berlim, em novembro de 1989, simbolizara o processo, atordoando o mundo. Pouco
depois, viria a revolução de veludo na Tchecoslováquia e a revolução violenta na Romênia. Em
seguida, a reunificação alemã e a ação conjunta com os EUA na Guerra do Golfo consolidaram
uma nova atmosfera. Como reconhecimento, no ápice da glória, Gorbatchev foi agraciado com
o prêmio Nobel da Paz de 1990.
Mas na União Soviética havia sinais de desgaste.
De fato, quando fora eleito presidente da URSS pelo Congresso dos Deputados do Povo,
em março de 1990, recolheu 70,7% dos votos, uma apreciável maioria, mas longe dos 94,35%
obtidos um ano antes, quando consagrado como presidente do Parlamento soviético. Em 1990,
houve 495 deputados que votaram contra ele, e mais 54 votos nulos. A medida de uma
corrosão.
Além disso, começaram a espocar tensões sociais. Em julho de 1989, um amplo movimento
grevista nas minas de carvão espalhou-se pela Ucrânia. Prolongou-se por quase duas semanas e
deu a senha para que toda uma série de manifestações se desencadeasse pelo país. No verão
seguinte, novas grandes greves. Protestavam contra os baixos salários e o desabastecimento. As
prateleiras das lojas estavam cada vez mais vazias. A escassez e as filas, a queda na
produtividade do trabalho, o racionamento, o mercado negro, aspectos que atormentavam as
mulheres e os homens comuns. A perestroika viera em nome da qualidade e da eficácia, mas as
condições de vida recusavam-se a melhorar.
Na cúpula, sucediam-se as equipes econômicas. No início, Gorbatchev confiara no brain
trust do Instituto de Novossibirsk, dirigido por A. Aganbeguian e T. Zaslavskaia. Passara
depois para a equipe do diretor do Instituto de Economia da Academia de Ciências, L. Abalkin.
Em seguida, foi a vez de S. Chatalin e N. Petrakov. Finalmente, G. Iavlinsky e sua assessoria
norte-americana. Propostas, planos, poções, um cruzamento de ideias geniais, mirabolantes,
miraculosas. Nada, ou quase nada, funcionava. As reformas eram anunciadas com muita
fanfarra, frequentemente transformavam-se em decretos ou leis, mas era como se fossem
lentamente deglutidas por um pântano qualquer, que tudo tragava, sem apelação.
Havia inimigos por todo o lado: o partido sentia-se golpeado, reagia com a inércia e a má
vontade; a administração, ameaçada, emperrava; os militares estavam desgostosos com a
debandada do Afeganistão e da Europa Central e desorientados com a explosão nacionalista; os
camponeses, desconfiados, não demonstravam entusiasmo em relação às propostas de atribuir
terras por contratos a longo prazo, como se tivessem perdido o ânimo da livre empresa, embora
ninguém pudesse asseverar que o tivessem possuído em algum momento; até mesmo os
operários resolviam entrar em greve.
Como se não bastasse, os preços do petróleo, principal produto de exportação e gerador de
divisas, não ajudavam, despencando as cotações, aumentando os déficits, provocando inflação.
O capital internacional não acorria, os financiamentos e os empréstimos não aportavam, salvo a
conta-gotas.
A DESAGREGAÇÃO

Neste ambiente deletério aprofundou-se a gravidade da mal chamada questão nacional,


anunciando o processo de desagregação da União Soviética.
Os programas autonomistas e independentistas tinham saído extremamente fortalecidos das
eleições ocorridas em 1989-90. Nos parlamentos republicanos, bafejados pelos ventos da
descentralização e da democratização em todos os níveis, agrupavam-se forças favoráveis à
secessão.
Na ponta da luta pela independência nacional os países bálticos, Lituânia, Letônia e
Estônia, levantaram, por intermédio de seus parlamentos, uma série de reivindicações, e
começaram, muitas vezes, a implementá-las, até ao arrepio da lei: bandeiras, hinos e símbolos
próprios, autonomia cultural e contábil, pluralismo político de fato, com a criação de frentes
populares, soberania das leis da república em relação às soviéticas. Não era incomum ver os
próprios comunistas locais, às vezes com um certo retardo, assumirem estas lutas e
promoverem a separação de suas organizações políticas em relação ao Partido Comunista da
União Soviética.
Na Lituânia, num gesto de ousadia, e para surpresa de todos, o Parlamento proclamou a
independência do país em março de 1990. Houve escândalo. Gorbatchev reagiu com dureza,
ameaçou boicotes. Até mesmo líderes ocidentais, como F. Mitterrand e H. Kohl, solicitaram
moderação aos lituanos. Havia o medo de uma deriva incontrolada, aonde aquilo poderia parar?
Os lituanos, depois de uma queda de braço, foram obrigados a recuar, e suspenderam os efeitos
de sua declaração, mas apenas para conversar sobre as formas de implementá-la, e não para
discutir o princípio de sua validade.
No Cáucaso, a guerra civil entre armênios e azerbaijanos, em torno da região do Alto
Karabakh, mobilizava os sentimentos nacionalistas até o nível do paroxismo, com direito a
matanças e progroms. Movimentos semelhantes ocorriam na Ásia Central, sucedendo-se
explosões de ódio nacional com dezenas de mortos no Usbequistão e no Casaquistão
(junho/89), no Tadiquistão (fevereiro/90), na Quirguízia (junho/90).
Em toda parte, os parlamentos proclamavam a soberania das nações, ou seja, a
predominância de suas leis sobre as da União, um meio caminho em direção à independência. A
Moldávia e o Usbequistão declararam a sua em junho de 1990; a Armênia, o Turquemenistão e
o Tadiquistão seguiram o mesmo caminho em agosto; o Casaquistão, em outubro.
Enquanto o governo soviético apagava os incêndios nas periferias próximas e distantes,
ameaçando, negaceando, negociando, em suas costas, de forma imprevista, mas fulminante, do
próprio núcleo eslavo da URSS, considerado tradicionalmente como o mais sólido,
despontaram tendências centrífugas. Desde julho de 1990, os parlamentos da Ucrânia e da
Bielo-Rússia proclamaram a soberania. E o Parlamento russo, depois de eleger triunfalmente
Yeltsin seu presidente, em maio de 1990, proclamou a soberania no mês seguinte, por 907 votos
a 13.
Se cada parte, e todas as partes, punham suas leis acima das da União, que sorte a Sorte
reservara a Gorbatchev e à União que ele dirigia?
Os analistas não conseguiam acreditar no que viam. Aquilo era pura retórica, um jogo de
cena, para melhorar as condições de barganha, ou se tratava de um movimento mais profundo,
um desmantelamento? Decididamente, a teoria política não previra aquele cenário para o
desmonte de uma superpotência.
Havia sinais contraditórios, dificultando a leitura dos acontecimentos. Ora Gorbatchev
parecia conservar a decantada força, como por ocasião do XVIII congresso do PCUS, em julho
de 1990, quando conseguiu assestar novos golpes no partido, desfigurando-o como organização
política e afastando-o efetivamente do controle do Estado, ao proibir, salvo para si próprio, a
acumulação de cargos partidários e estatais.
Ou quando o Soviete Supremo, em setembro, voltou a lhe conferir poderes extraordinários
para implementar as necessárias reformas econômicas por decreto. Ora parecia enfraquecido e
desorientado, ao se retirar do palanque, vaiado em plena Praça Vermelha, nas comemorações do
1º de Maio, ou quando submetido a pressões violentas no encontro dos comunistas russos,
prévio ao Congresso que se realizou em julho.
O homem demonstrara uma enorme capacidade e gênio tático para concentrar poderes, mas
lhe faltava algo na hora de concretizar políticas. Possivelmente, por falta de um programa claro.
Ou por insuficiência de convicções que, se as tinha, talvez as estivesse perdendo.
É provável que a ação das forças nacionalistas e o fantasma da desagregação tenham
assustado. O fato é que o Parlamento soviético e seu líder, Gorbatchev, sentiram o chão fugir
aos seus pés. Organizaram a virada. A coisa começou, como é comum nestes casos, com
previsões apocalípticas e chamamentos à salvação pública. Senão, banhos de sangue poderiam
acontecer. Ou, se fosse o caso, para evitá-los, a necessidade de uma ditadura. Ao mesmo tempo,
formulou-se o projeto de um novo pacto federativo, publicado para debate em novembro de
1990, incorporando muitas das demandas apresentadas pelos parlamentos republicanos, A
União das Repúblicas Soberanas. Não mais socialistas, a ver se continuariam sendo soviéticas.
Afinal, haveria negociação ou ditadura?
Era como se as duas opções estivessem sendo preparadas. As circunstâncias indicariam o
caminho.
O fato é que nos meses seguintes passaram a fazer parte do governo, ocupando postos-
chaves, homens decididos a impedir a implosão da União Soviética, mesmo se fosse necessário
recorrer à força. No Ministério do Interior, B. Pugo. No KGB, V. Kriutchkov. Na chefia do
governo, como primeiro-ministro, V. Pavlov. A. Bessmertnykh nas Relações Exteriores, em
substituição a E. Chevardnadze, fiel ministro de Gorbatchev desde o início da perestroika e que
pedira demissão denunciando a iminência de um golpe (dezembro de 1990). Para coroar, um
desconhecido personagem, G. Ianaev, foi quase imposto por Gorbatchev a um renitente
Congresso de Deputados do Povo. Ocuparia a vice-presidência, um cargo não previsto, mas
criado com obscuros propósitos. Uma equipe dura para uma política dura, mas com um aceno:
haveria um referencio sobre um novo tratado da União. Ao povo caberia a última palavra. Se
decidisse pelo sim, a União, reformulada, continuaria na estrada. Senão, com o acordo da
maioria, entraria para o museu da história.
Já em janeiro a polícia estava novamente nas ruas para prender os especuladores e garantir a
ordem e a disciplina. Tropas foram enviadas para os países bálticos onde houve conflitos e
matanças de nacionalistas na Lituânia e na Letônia. Um discurso e uma prática de combate.
E a perestroika e a glasnost, indagavam todos? Acabara a peça ou era o fim de mais um
ato?
Contudo, Gorbatchev, que ordenara o envio das tropas, descomprometeu-se oficialmente
com os tiros, mandou instaurar inquéritos. Os militares tinham ido longe demais, a questão dos
excessos.
Em 17 de março de 1991, houve o referendo anunciado. Gorbatchev cantou vitória: 76,4%
da população votara que sim, desejavam que a União fosse mantida. O problema é que seis
repúblicas não participaram da consulta: Lituânia, Letônia, Estônia, Geórgia, Moldávia e
Armênia. Os lituanos, aliás, em fevereiro, já haviam decidido pela independência, por
esmagadora maioria (90,5%). Por outro lado, em diversas repúblicas, como na Ucrânia, o
referendo incluíra outras perguntas, sobre a soberania local e regional, que relativizavam em
muito o sim favorável às pretensões da União.
Assim, cada um interpretava como entendia os resultados. Nesta atmosfera, a Geórgia não
hesitou em proclamar a própria independência em 9 de abril.
Mas o voto pela União, com todos os senões, e o medo de conflitos, acabaram pesando na
abertura de conversações pela formulação de um novo tratado da União.
Foi uma barganha dura, iniciada em abril numa das dachas presidenciais, em Novo-
Ogarevo. Antes do fim do mês, foi possível chegar a uma declaração comum, dita,
sintomaticamente, dos 9 + 1. O primeiro número referia-se a nove repúblicas: as três eslavas
(Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia), as cinco da Ásia Central (Turquemenistão, Tadiquistão,
Casaquistão, Usbequistão e Quirguízia) e a do Azerbaijão, no Cáucaso. A unidade restante
referia-se à União.
O texto era vago o suficiente para agradar a todos, mas insuficiente o bastante para dar
qualquer solidez a um projeto de União que pudesse ser levado a sério.
Outras reuniões se produziram, sem resultados tangíveis. Debates acalorados, exaustivos,
infrutíferos.
Neste meio tempo, numa eleição baseada no sufrágio universal, Yeltsin foi escolhido logo
no primeiro turno, em 12 de junho, com 57,3% dos votos, presidente da República russa.
Ganhou com isto uma representatividade e uma legitimidade inéditas na história de todas as
Rússias. Os dados da situação se modificavam a seu favor, inclusive porque, nas mesmas
eleições, e também pelo voto universal, foram eleitos prefeitos em Leningrado e Moscou
identificados com sua orientação (A. Sobtchak e G. Popov, respectivamente). Yeltsin iria,
naturalmente, fazer uso disto no jogo bruto pelo poder. Começou a fazer declarações de que os
impostos arrecadados na Rússia pertenciam à República e não à União. O mesmo em relação
aos recursos naturais. Manifestava uma intenção clara no sentido da dissolução da União, mas,
por alguma razão, provavelmente por ainda não se sentir seguro das suas forças, ou da fraqueza
do inimigo, resolveu contemporizar e continuar debatendo a respeito do novo tratado da União.
Afinal, depois de muitas tratativas e contradanças, chegou-se a um texto, publicado em 14
de agosto de 1991, para ser assinado uma semana depois. Era de uma imprecisão antológica e
não garantia coisa alguma a ninguém. Impostos, jurisdições, até mesmo a questão da
representação diplomática internacional, nada estava definido com clareza.
As forças conservadoras reagiram, aliás, já vinham reagindo. Desde a primavera, em
ofensiva aberta, os homens do governo atacavam as repúblicas, as forças nacionalistas, o
próprio Gorbatchev. Deblateravam contra o fim do socialismo na Europa Central, consolidado
pela dissolução da comunidade econômica socialista (Comecon) e do Pacto de Varsóvia (junho
e julho de 1991), contra o servilismo diante das potências capitalistas, deploravam o
desabastecimento, exigiam poderes extraordinários. Condenaram com a maior veemência o
novo tratado da União e ameaçaram com ações preventivas. Era estranho porque, embora no
governo, tinham um discurso de oposição.
Numa última reunião do Comitê Central, não faltaram enfrentamentos. As lideranças da
perestroika já não falavam, havia muito, em defesa ou renovação do socialismo. Propôs-se até a
derrogação do princípio da luta de classes, como se isto pudesse depender de uma decisão
política ou administrativa. A transição ocorrera de forma não muito clara, aos soluços. A rigor,
aqueles homens estavam perdendo referências que nunca tinham sido profundamente
compreendidas. Aquela história de alguém que abandona algo que nunca chegou a conhecer, ou
a ter. A reviravolta de Gorbatchev em direção aos conservadores a partir de fins de 1990
encobrira de certo modo as coisas. Contudo, desde que se reabriram as conversações para um
novo pacto da União, em Novo-Ogarevo, todos os dirigentes republicanos, e mesmo o próprio
Gorbatchev, falavam abertamente em ressuscitar o mercado livre, e se referiam aos milagres
que se poderia esperar de um processo decidido de privatização, de uma reforma financeira
radical, da associação com o Banco Mundial e com o FMI, cujos assessores era preciso ouvir,
cujas orientações era necessário acatar.
Havia uma atmosfera de golpe de Estado. A. Iakvolev demitiu-se do governo denunciando
as tramas neste sentido. Mas Gorbatchev parecia alheio a tudo. Sua ida, em julho, à reunião do
Grupo dos 7, o G-7, que agrupa os países capitalistas mais ricos do planeta, formado pelos
EUA, Canadá, Japão, França, Inglaterra, Alemanha e Itália, foi de um patético inenarrável. O
homem foi inquirido por G. Bush como um mau aluno por um severo mestre-escola. Queria
empréstimos e financiamentos. Ganhou tapinhas nas costas e agrados. A ajuda viria apenas com
reformas drásticas na URSS, se é que se podia ainda falar em URSS.
E então, em meio a este medonho redemoinho, Gorbatchev, talvez desorientado, ou
simplesmente um homem cansado… saiu de férias. Se foi este o caso, terá adotado a tática do
avestruz. Mas pode ser também que se decidiu afastar por cálculo, na expectativa de que os
contendores se entredilacerassem, para que ele pudesse surgir, in extremis, como o árbitro. Aí
terá feito um cálculo errado.
Como anunciado, os golpistas deram o golpe.
A análise do comunicado que leram à nação tem interesse. Tentaram passar uma versão
semilegal. Gorbatchev estava doente, solicitara uma licença, como Kruchev em 1964, os
mesmos termos. Uma delicadeza? Ou uma confissão de fraqueza? Não falaram em nome do
partido, muito menos no do socialismo. Mas na necessidade de preservar a União.
Faltou-lhes, porém, força para implementar as medidas elementares que asseguram êxito a
qualquer golpe, mesmo em repúblicas bananeiras: tropas e tanques nas ruas, controle das
comunicações, prisão das lideranças potenciais de oposição. Só conseguiram deter Gorbatchev
em sua dacha de veraneio, mas nem foram capazes de impedir que recebesse comunicações do
exterior. Não é que não soubessem dar ordens, é que elas não eram cumpridas.
Nas brechas, Yeltsin assumiu a defesa da legalidade. Correu para o Parlamento russo e de lá
organizou a resistência. Na prática, empolgou pouca gente, a maioria da população olhou de
longe aquele tumulto. Houvera uma fase de grande participação e interesse, visível até meados
de 1989. Depois, os sinais de apatia foram ganhando terreno, as pessoas oprimidas pelo peso
das carências, das filas e da escassez. É verdade, todos podiam agora exprimir o pensamento
com relativa liberdade, caíra a censura, livros e autores proibidos estavam nas prateleiras, todas
as vítimas do arbítrio reabilitadas por decreto. Mas as geladeiras estavam vazias, os serviços
públicos degradavam-se, o racionamento apertava. Assuntos elementares, os decretos nada
podiam contra eles. Aquela sucessão de crises parecia fatigar.
Assim, o golpe virou suco mais por sua fraqueza do que pela força dos opositores, embora a
fraqueza de uns e a força dos outros sejam lados de uma mesma moeda. Uma desintegração,
simplesmente. Fazendo recordar um outro, longe no tempo, em 1917, igualmente desferido em
agosto, e que também deu início à desintegração de um outro Estado.
Gorbatchev ainda tentou equilibrar-se. Mas as circunstâncias passaram a ser muito
desfavoráveis. Diante das câmeras de televisão, sofreu uma humilhação ao lhe ser lembrado
que todos os homens escolhidos por ele para fazer parte do governo haviam participado direta
ou indiretamente do golpe. Ele próprio não estaria de alguma forma relacionado com a
tentativa? A suspeita ficou no ar. Tudo se complicava porque Yeltsin e seus aliados tinham
outros interesses e, para agravar, cultivavam antigos ressentimentos.
A partir daí o filme rodou muito rapidamente.
Acelerou-se o desmoronamento. Como um colossal dominó, desagregou-se a grande
potência com a velocidade de carro desgovernado em ladeira íngreme, despedaçando-se pelas
periferias, desplumando-se. As declarações de independência, pelos parlamentos nacionais e/ou
por referendos, dão o ritmo da queda. Às duas que já haviam se antecipado (Lituânia e Geórgia,
em março de 1990 e abril de 1991), se seguirão as demais, logo depois do golpe frustrado,
numa vertigem: Estônia (20 de agosto), Letônia (21 de agosto), Ucrânia (24 de agosto), Bielo-
Rússia (25 de agosto), Moldávia (27 de agosto), Casaquistão e Quirguízia (28 de agosto),
Azerbaijão (30 de agosto), Usbequistão (31 de agosto), Tadiquistão (9 de setembro), Armênia
(21 de setembro) e Turquemenistão (26 de outubro).
Na solidão do Kremlin, Gorbatchev não se resignava a passar à história. Não haveria um
espaço para um tipo qualquer de União, mesmo debilitada, de onde, numa outra conjuntura,
fosse possível tudo recomeçar? Em outubro, ainda presidiu, neste sentido, um tratado
econômico entre oito repúblicas.
Mas agora as coisas aconteciam num outro ritmo. O Partido Comunista foi posto na
ilegalidade. Ele mesmo solicitou ao Comitê Central autodissolver-se, e demitiu-se do cargo, já
meramente simbólico, de secretário-geral. O KGB também foi dissolvido, enquanto Yeltsin
recebia plenos poderes do Parlamento russo para efetuar as reformas econômicas.
No começo de dezembro, os dirigentes das três repúblicas eslavas, Rússia, Ucrânia e Bielo-
Rússia, em reunião realizada em Minsk, declararam extinta a URSS e anunciaram a fundação
de uma Comunidade de Estados Independentes (CEI), aberta às repúblicas que haviam
constituído a URSS. Gorbatchev nem sequer foi consultado. Pouco depois, e sem cerimônias,
Yeltsin, em nome da República da Rússia, apropriou-se do Kremlin, do Ministério das Relações
Exteriores, das representações diplomáticas pelo mundo afora.
Faltava pouco para o epílogo, mas Gorbatchev ainda lutava para ter um assento reconhecido
na CEI, como presidente da URSS. E dava declarações e entrevistas, mobilizava assessores e
fazia planos.
Mas chegara o fim.
No dia 21 de dezembro de 1991, recebeu um comunicado dos dirigentes de 11 repúblicas
que, reunidas em Alma-Ata, no Casaquistão, acabavam de formalizar a fundação de uma nova
Comunidade. Nela, para ele, não haveria lugar. Reiteravam-lhe simplesmente que a União
Soviética e suas funções haviam deixado de existir.
Quatro dias depois, Gorbatchev, ainda um pouco atordoado, e não conseguindo disfarçar
um certo cansaço, anunciou e assinou sua demissão.
O verdadeiramente inacreditável acontecera: a União Soviética deixara de existir.
Num ambiente carregado, os russos desvencilhavam-se do passado e davam incertos passos
em direção ao futuro.

________________
1 O assunto, de acordo com as pesquisas e os dados mais recentes, foi tratado no capítulo
“Reformando o socialismo”.
2 No início dos anos 80, Vladimir Palmeira escreveu um livro cujo titulo era quase igual a
este: URSS, existe socialismo nisto?
3 É preciso enfatizar que a autora não foi responsável pela criação do conceito nem pelos
abusos e desatinos que em seus nomes (dela e do conceito) cometeram ideológos e fanáticos da
Guerra Fria e inocentes e renegados de todos os bordos. Por outro lado, registre-se que há uma
historiografia, também norte-americana, ou produzida nos EUA, mas crítica ao uso do conceito
(M. Lewin, J. A. Getty, G. T. Rittersporn, entre outros).
4 Desde os anos 50, adotara-se o critério de o primeiro-secretário do partido em cada região
ser originário da mesma. Um russo poderia ser, e frequentemente era, segundo-secretário, mas
nunca o primeiro. Não se tratava de um dispositivo legal, mas de um costume. Com o tempo,
tomou força de lei.
Mapa: Repúblicas e nacionalidades
Posfácio • Pós-socialismo e caos: uma sociedade à deriva

APESAR do cansaço e da apatia crescentes, a maioria da população pareceu esperançosa


depois da derrota do golpe de agosto de 1991. Para além da tradicional necrofilia, a
participação no enterro dos três jovens mortos por manobras desastradas de tanques, na noite
que precedeu o fim da aventura golpista, significou um voto de confiança nas novas
autoridades. Desta vez, afinal, podia-se esperar, as reformas salvadoras viriam.
Passou a dominar uma atmosfera de embasbacamento diante do que se entendia como a
trajetória exemplar das sociedades capitalistas ocidentais: elas tinham tudo, riqueza, poder e
conforto para suas populações. Em uma palavra, eram civilizadas. Tratava-se de esquecer o
passado e imitá-las, quanto mais rápido, melhor.
Foi nestes marcos, e com o aval das agências internacionais (Banco Mundial e FMl), que
uma política radical, de tipo neoliberal, começou a ser aplicada na Rússia. As grandes
orientações rezavam: liberação total dos preços, combate rigoroso ao déficit público e à
inflação, restrição do crédito, verdade cambial (que levou a um rublo sobrevalorizado), política
de privatizações, enfim, nenhuma novidade em relação à cartilha recomendada e que, desde os
anos 80, tem produzido efeitos por todo o mundo.
Com nuances, recuando em determinados momentos por condicionamentos político-
eleitorais, ziguezagueando aqui e ali em virtude de pressões sociais, ora mais dogmática, ora
mais pragmática, esta política tem sido mantida até o momento.
Os resultados foram desastrosos.
Houve um terrível processo de desindustrialização, reduzindo-se a atividade industrial em
cerca de 50% em relação ao patamar de 1990, este último já registrando o impacto de uma
involução dramática a partir dos impasses da perestroika, desde 1987-1988. Causa e
consequência desta situação, uma brutal queda na taxa de investimentos, estimada, em 1995,
em apenas 8% do Produto Nacional Bruto (chegava a ultrapassar os 20% nos áureos tempos
dos Planos Quinquenais). As consequências sociais não tardaram: desemprego crescente, de
difícil estimativa pela precariedade das estatísticas oficiais, empenhadas em dissimular o
fenômeno, mas que alcança, segundo os estudiosos do assunto e as agências especializadas,
algo em torno de 10 milhões a 12 milhões de pessoas, sem contar o emprego informal e o
subemprego. Concentração brusca da renda: em certas regiões, beneficiando as que se dedicam
ao comércio e aos serviços financeiros (Moscou e São Petersburgo), e na sociedade, projetando
uma nova classe de especuladores e rentistas, os chamados novos russos. O fenômeno se
processou numa velocidade vertiginosa: as cifras aqui também oferecem matéria para polêmica,
mas há um certo consenso de que os 10% mais ricos estariam concentrando algo em torno de
40% da renda nacional, enquanto na base da pirâmide os 10% mais pobres se (des)contentariam
com apenas 1,5%. A esperança de vida ao nascer, de 64 anos para homens e de 74,4 anos para
mulheres em 1990, já então em queda livre em relação a 1985-86, caiu, em 1993, para 58 anos
e 68 anos, para homens e mulheres, respectivamente.
Sofreram mais os aposentados, estudantes subvencionados e as carreiras ligadas ao serviço
público: educação, saúde, administração civil, militares, cujas pensões, bolsas de todo o tipo e
salários não resistiram ao duplo aperto das altas de preços e dos insuficientes reajustes,
principalmente nos primeiros meses da terapia de choque. A consequência foi a aceleração
brusca da degradação, já em curso, destes serviços. O aspecto mais trágico é a decadência do
setor de saúde, com incidência direta no aumento dos índices de mortalidade e no declínio, já
referido, da esperança de vida. Mas há outros, de difícil mensuração quantitativa, como, por
exemplo, o desmantelamento dos institutos e das equipes de pesquisa. Para construí-los, uma
longa e difícil maturação.
Para destruí-los, rapidez, bastando cortar verbas e conceder salários aviltantes.
No capítulo das privatizações, a desenvoltura dos novos tzares da política econômica (E.
Gaidar, B. Fiodorov e A. Tchubais) assombrou o mundo. A privatização referente às empresas
de pequeno porte (comércio a varejo, serviços e artesanato) ocorreu logo em 1992,
compreendendo algo em torno de 100 mil empresas e um pouco mais de dois terços do parque
imobiliário residencial. Mas foi na privatização de maior porte, implementada a partir de 1993,
que os escândalos mais inacreditáveis ocorreram. Nada menos de 14 mil grandes empresas, por
meio de procedimentos escabrosos, foram então praticamente entregues de mão beijada aos
compradores que se apresentaram, nem sempre de forma lícita.
Do embasbacamento a sociedade passou ao estupor. E à crise de referências.
Mas a terapia de choque, além de deixar o doente agonizante, não foi capaz de curar a
doença, pelo menos segundo o conceito de saúde dos médicos que administravam os
medicamentos.
Com efeito, a inflação, sem considerar as fases de pique febril, manteve ao longo deste
período uma taxa de 3-4% ao mês. E, acima de tudo, a famosa economia de mercado, utopia
dos donos do poder, não chegou a se materializar, longe disso.
É verdade que o Estado diminuiu seu papel de modo abrupto, entre 1992 e 1995. Antes,
controlava 90% da força de trabalho, hoje, apenas 13%. Entretanto, nenhuma classe de
empresários schumpeterianos1 apareceu para ocupar o vácuo assim criado. Como resultado da
política de privatizações, e segundo as próprias estatísticas oficiais, emergiu no país uma
economia mista. Os dados disponíveis sobre a repartição da propriedade das ações indicam as
seguintes proporções: 43% com os assalariados, 17% com a direção das empresas, 11% com o
próprio Estado e 29% com investidores externos às empresas (russos ou estrangeiros). Com
maior frequência do que se poderia imaginar, ou desejar, os diretores das fábricas tornaram-se
donos dos negócios. Na agricultura a coisa não se passou melhor. As condições não foram
propícias para a emergência de uma classe de farmers, pequenos e médios proprietários.
Com efeito, as explorações individuais/familiares não passam de 11% do total (dados de
1995). A esmagadora maioria dos kolkhozes considerou mais prudente manter a condição
jurídica anterior, agora, exercendo-a de fato. E foi este o caminho que tomou a maior parte dos
sovkhozes, as fazendas estatais. Assim, também no campo, constituiu-se uma economia
predominantemente mista: cooperativas, contratos com empresas externas etc.
Uma análise sobre os investimentos realizados entre 1991-94, nas 75 regiões da Federação
Russa, confirma o fenômeno: em apenas sete os investimentos foram predominantemente
privados. Em 18, o Estado continuou como principal investidor e nas outras 50 o papel passou a
ser assumido pelas empresas mistas. Estas empresas responsabilizavam-se em 1994 por 62%
dos investimentos e por 51% do emprego.
Ora, esta economia mista funciona com critérios e dispositivos que colidem com a política
econômica oficial. Enquanto isto, as linhas gerais da política macroeconômica neoliberal
inviabilizam o desenvolvimento das condições microeconômicas das quais têm necessidade
para dar certo (J. Sapir, 1996, p. 51-52). Como demonstra o autor, uma justaposição de
tendências contraditórias, um choque de lógicas opostas, entravando-se reciprocamente, em
suma, o caos.
Por outro lado, o país está longe de ter criado instituições dignas de qualquer tipo de crédito
(moral, legal ou financeiro), e que são essenciais para o funcionamento de um, ou de qualquer,
mercado. Não há regras claras e estáveis, necessárias aos cálculos e às decisões econômicas. O
próprio Estado desrespeita alegremente os decretos, alguns secretos, que formula. Apesar de
sua inspiração neoliberal, não se furta, às vezes, e não tão raramente, em retomar tradições
tipicamente soviéticas, como a de não cumprir orçamentos aprovados, determinar entregas
obrigatórias, mudar súbita e arbitrariamente acordos realizados etc.
Das sombras, emergiram as mal chamadas máfias, de antiga tradição, como já se observou.
Da desordem existente, fazem a sua ordem e estabelecem seu reinado, consolidado pelo
processo de decomposição das Forças Armadas.
Este é um outro aspecto inquietante da deriva atual por que passa a sociedade pós-socialista,
revelado e radicalizado pela guerra da Chechênia. Tropas mal pagas, múltiplos centros de
poder, milícias bancárias, unidades cossacas informais, autênticos corpos francos em formação,
ex-combatentes ressentidos (os afegãos e os tchetchenos, ou seja, participantes frustrados destas
duas últimas — e vexatórias — guerras travadas pelo Estado). Neste caótico caleidoscópio, as
Forças Armadas tradicionais, segundo estimativas abalizadas, só contam com um terço dos
homens armados do país.
A sociedade, desorientada, tem reagido dispersa e diversamente ao processo. Expressão do
desencanto e do descontentamento, em fins de 1992, o Congresso dos Deputados do Povo
obrigou o governo a recuar nos aspectos mais gritantes da terapia de choque, afastando-se,
então, E. Gaidar do comando da política econômica.
Mas, apesar disso, Yeltsin foi vitorioso nos dois plebiscitos organizados em 1993, em abril e
em dezembro, quando 58% e 53% dos votos, respectivamente, aprovaram a proposta de um
presidencialismo forte. Nesse meio tempo, as contradições agravaram-se com o Parlamento, o
que resultou na dissolução do mesmo por Yeltsin, com direito a resistência, cerco e bombardeio
(setembro-outubro de 1993). Tudo em nome da democracia, naturalmente. E sacramentado
pelos Estados civilizados.
Entretanto, a comparação das eleições legislativas de 1993 e 1995 evidenciou um quadro de
resistência crescente. O principal aspecto é o declínio do partido político liberal liderado por E.
Gaidar. Em 1993, foi o maior partido individual, fazendo 96 deputados. Dois anos depois,
somente 9 deputados elegeram-se por esta legenda. Em contraposição, um novo partido
comunista (KPRF), refundado em 1992 juntando os cacos do anterior, elegeu, em 1995, 157
deputados, tornando-se o maior partido da Duma (um crescimento de quase 150% em relação a
1993, quando elegera apenas 65 deputados). Combinando-se com outras forças políticas, que
reivindicam igualmente as referências comunistas, ou que estão de acordo em criticar as
políticas governamentais, um bloco oposicionista atinge cerca de 37% dos votos na Duma. Em
posições centristas, um outro partido, Iobloko (Maçã), liderado por G. Iavlinski, pode ter a
chave do futuro da Rússia. Elegeu 33 deputados em 1993 e 45 em 1995. Se viesse para a
oposição, poderia desequilibrar. Por enquanto, porém, tem preferido permanecer indeciso,
embora crítico aos aspectos mais caricaturais da política do governo.
A fragmentação da oposição em diversas vertentes, como se observa, e o enfraquecimento
institucional do Parlamento, garantido pela Constituição de 1993, relativizam em muito a
eficácia das alternativas atuais a Yeltsin, não por acaso reeleito presidente da república em
junho de 1996.
Assim vai a Rússia, à deriva.
O esmagamento do separatismo da Chechênia, efetuado com a bênção constrangida dos
Estados civilizados, agora com receio de uma balkanização perigosa e incontrolável da Rússia,
foi, apesar dos custos políticos e econômicos altíssimos, uma advertência a tendências
análogas. A curto prazo, a integridade da Rússia está mantida.
Mas até quando? Até quando a sociedade suportará os efeitos depredadores das políticas
neoliberais, mesmo ajustadas recentemente por setores mais pragmáticos?
A Rússia, desgovernada e desorientada, sofre o abismo da desestruturação cultural.
Fatigada por um longo século de provações indescritíveis, descrente das leis da história e
das panaceias ocidentalizantes, deverá recorrer às suas últimas reservas para escapar de novos
mitos salvacionistas e de outros anjos exterminadores.

________________
1 De J. Schumpeter, economista alemão. Em suas análises do capitalismo, uma classe de
empresários independentes é figurada como característica essencial do sistema.
Mapa: Europa e Ásia após o fim da URSS • 1997

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