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Apresentação

Responda a estas perguntas:


Você está sempre de mau humor?
Você está sempre criticando tudo e todos?
Você se demora em recordações dolorosas?
Você tem uma perspectiva negativa de proporções globais?
Se alguém diz “bom-dia”, você pensa: “Não pode haver nada de bom neste dia”?
Se você respondeu sim a estas perguntas, este livro é para você!
Você é um negaólatra.

A autora, Carol Cannon, apanhou-se pensando que Deus a havia separado para carregar
um fardo mais pesado do que a média, porque Ele sabia que ela era capaz de fazê-lo.
Quando finalmente acordou e percebeu sua atitude de superioridade, ficou estarrecida.
Sua vida se transformara em um ciclo de infelicidade. Aos 45 anos de idade, ela estava
(em suas próprias palavras) “estafada pelas preocupações e pelo trabalho excessivo”.
Sabia que precisava mudar, mas não conseguia. Já nessa época, ela era uma terapeuta
licenciada para o tratamento de alcoólatras e viciados em drogas, mas não reconhecia
como vicioso seu próprio comportamento.
Foi tempo perdido ler todos os livros de autoajuda disponíveis no mercado. Quanto mais
ela tentava controlar seu comportamento, mais perdia o controle. O negativismo solapava
seu caráter, sabotava valiosos relacionamentos e subvertia sua espiritualidade. Ela teve
que admitir a derrota. Carol não percebeu, mas esse foi o primeiro passo para sua
recuperação. E, se você também cultiva um ciclo de negativismo e infelicidade, aqui está a
ferramenta para mudar sua vida.

Carol Cannon é cofundadora e diretora do programa The Bridge to Recovery (A Ponte


Para a Recuperação), em Bowling Green, no estado de Kentucky, Estados Unidos. Trata -
se de uma organização destinada a pessoas que sofrem de dependências. Ela é graduada
em Religião e tem mestrado em Educação e Aconselhamento pela Universidade Andrews.
Carol e seu esposo, Paul, têm dois filhos.
Título original em inglês:
HOOKED ON UNHAPPINESS

Copyright © da edição em inglês:


Pacific Press, Nampa, EUA.
Direitos internacionais reservados.

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1ª edição neste formato


Versão 1.1
2013

Coordenação Editorial: Marcos De Benedicto


Editoração: Neila D. Oliveira e Vinícius Mendes
Tradução: Delmar Freire
Design Developer: Renan Martin e Fernando Lima
Capa: André Rodrigues
Imagem da Capa: © arquiplay77 | Fotolia

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio, sem prévia autorização
escrita da Editora.
14068/28186
Dedicatória
Com muito amor e esperança, dedico este livro à próxima geração de pessoas em recuperação:
meus filhos, Paul e Kurt, e meus netos Austin, Cody, Katie, Levi e Lila.
Introdução
No minuto em que acorda, pela manhã, Pam cataloga suas dores e sofrimentos de modo que esteja
pronta a dar uma descrição detalhada para a primeira pessoa que encontre. No café da manhã,
ela responde ao amigável “tudo bem, mãe?” do filho adolescente com um gemido. Ela não dormiu
bem. Está exausta e a dor no ombro piorou. Enquanto mastiga seu cereal, Pam pensa de forma
obsessiva em sua lista de coisas para fazer. Um problema ainda não resolvido perturba-lhe a
mente, juntando-se à massa amorfa que já dá voltas em sua cabeça. Seu rosto adquire uma
expressão preocupada. Como se ouvisse a deixa, seu esposo pergunta o que há de errado. Ela
começa então um rosário de queixas. Quando levanta o rosto, o marido já desapareceu.

V ocê conhece pessoas bondosas, gentis e de altos padrões morais que parecem sofrer as
torturas da condenação eterna? Elas se orgulham de ser pobres de espírito. Parecem
apreciar ser perseguidas por causa da justiça. A Bíblia diz que existe tempo para tudo – felicidade,
alegria, dor e tristeza. Mas, para essas almas infelizes, a nuvem de melancolia nunca se dissipa. Elas
não conseguem escapar do atoleiro do desânimo, não importa o quanto tentem fazê-lo. Não
conseguem não ser infelizes.
Alguns tentam livrar-se dos sentimentos negativos por meio da análise. Outros tentam contra-atacar
seu pessimismo com afirmações positivas. Os que pensam que Deus requer que Seus seguidores
sejam incrivelmente felizes o tempo todo decoram uma infinidade de versos da Bíblia ou oram sem
cessar para se guardarem dos demônios do desânimo. Se isso não funciona, sentem-se culpados e
ficam ainda mais deprimidos.
Se você ou algum querido se encaixa nessa descrição, eu tenho boas notícias: A infelicidade
incurável não é um fracasso de sua fé. Tampouco é um sinal de fraqueza ou de perversidade. E,
definitivamente, não é culpa sua. Se você sofre (e eu quero dizer “sofre mesmo”) de infelicidade
crônica, há esperança. Existe cura para o negaolismo. Se você passou a vida inteira lutando contra a
melancolia, a ruína e o desespero, não há nada a perder e muito a ganhar
com a leitura deste livro.
A fim de verificar se você é um negaólatra de carteirinha, faça a seguinte pergunta a si mesmo:
Você está mal-humorado na maior parte do tempo? Critica tudo e todos ao seu redor? Passa o tempo
mergulhado em recordações dolorosas? Você tem uma perspectiva negativa de proporções globais?
Quando alguém lhe diz: “Bom-dia”, você pensa: “O que haverá de bom nisso?”1
Se queixar-se for o seu passatempo favorito, se você transformou o desabafo e a lamentação em
uma forma de arte, este livro é para você. É possível romper com o hábito da infelicidade crônica.
Embora eu tenha sido criada à sombra de várias instituições religiosas, não pude deixar de notar
que as igrejas são, muitas vezes, celeiros do vício da infelicidade e da abnegação (martírio)
indevida. Francamente, não acredito que as igrejas tenham exclusividade nessa síndrome de
infelicidade e martírio. O vício da infelicidade é uma doença – um miasma de atitudes, crenças e
comportamentos doentios que tem se infiltrado em nossa sociedade inteira, do salão de beleza à sala
de reuniões de uma empresa, do supermercado ao ginásio esportivo. Todos adoramos criticar,
reclamar e antecipar o desastre. Deus nos livre de nossa autopiedade!
Um recado para os leitores com orientação religiosa: Embora me considere uma cristã
conservadora, escolhi não transformar este livro em uma oportunidade para apresentar argumentos
moralizantes ou um púlpito de onde eu possa pregar acerca de minhas convicções religiosas. Estou
agradecidamente embebida com as tradições dos programas de Doze Passos, que são profundamente
espirituais, mas sugerem que “não temos opinião sobre questões externas”. A religião pode ser uma
parte da espiritualidade, mas não é um sinônimo dela.
Uma palavra de agradecimento aos meus companheiros de recuperação, meu patrocinador e meus
colegas – do passado e do presente – do The Bridge to Recovery [A Ponte para a Recuperação]. Um
agradecimento especial para Nancy Green, minha assistente pessoal, e para Paul, meu parceiro
eternamente otimista.

1 Sheri e Bob Stritof, “Is Negativity Hurting Your Marriage?”, http://marriage.about.com/cs/communicationkeys/a/negativity.htm.


Acho que prefiro ver apenas o lado escuro das coisas. O copo está sempre metade vazio. E
quebrado. E acabei de cortar o lábio nele. E também trinquei um dente.
Janeane Garofalo

A lgum tempo atrás, um amigo meu que está sempre alegre e animado me informou que eu era
a pessoa mais pessimista que ele conhecia. Como é? Então quer dizer que não é normal ver
a vida através de lentes tingidas de uma cor sinistra? Eu achava que era apenas uma pessoa realista!
Minha família e meus amigos (um punhado de ridículos otimistas) já conheciam o meu negativismo.
O carteiro e o entregador de jornais provavelmente também já sabiam disso, mas eu mesma não
percebia o quão negativa eu era, e tampouco considerava minha atitude algo pouco saudável. Eu era
a última pessoa no meu mundo a reconhecer que era uma prisioneira da infelicidade.
Tal como os insetos são atraídos pela chama, minha atenção e energia também se voltavam para as
crises e o caos, para a tragédia e o trauma. Eu não podia imaginar como todos à minha volta podiam
ficar tão alheios às duras realidades da vida. O céu estava desabando, a terra se desintegrando
debaixo de nossos pés, e as ondas quebrando sobre nós. Como é que ninguém se preocupava?
Quem quer que estivesse no comando obviamente precisava de um assistente pessoal, mas eu não
via nenhum candidato para aquele cargo na fila. Bem, eu estava disposta a fazer esse favorzinho.
(Que tal esse tamanho ato de grandeza?) Então, indiquei a mim mesma como assistente do Todo-
poderoso e tratei de resgatar e de consertar tudo e todos os considerados problemáticos. Enquanto
tentava arrumar o Universo de acordo com o meu gosto, achando que ele era sinônimo do gosto de
Deus, eu me desapercebi do óbvio: Era eu quem ficara fora de controle. Era eu quem ficara louca.
Até imagino a manchete: “Lunática tenta salvar o mundo!”

Prisioneira da Infelicidade
Em meus esforços compulsivos de controlar o Universo, minha vida tornou-se incontrolável. O
tempo todo, eu me preocupava com toda a dor e todo o sofrimento ao meu redor. Isso me dava a
ilusão de que eu controlava tudo, permitindo que gerenciasse pessoas e circunstâncias dentro dos
confins de minha mente.
Minha constante obsessão criava uma ansiedade enorme, a qual demandava mais preocupação, o
que gerava uma ansiedade ainda maior. Se não estava alarmada ou aborrecida com alguma coisa, eu
achava que estava desconectada da realidade! Fiquei como um cachorrinho nervoso correndo atrás
do próprio rabo. O ficar preocupada tornou-se um círculo sem fim. Fiquei amarrada em nós
proverbiais.
A ponderação sobre as piores possibilidades colocava-me no modo “lutar ou fugir,” o que causava
um fluxo de adrenalina. Eu poderia até ter ficado viciada em anfetaminas. Quando o fluxo de
adrenalina diminuía, eu ficava exausta e deprimida, tal como Elias, depois de sua agitada experiência
no Monte Carmelo.1
Mais tarde, meu sistema endócrino emperrou na quinta marcha. Eu não conseguia mais relaxar e
deixar que Deus tomasse conta. Convencida de que Ele precisava de minha ajuda, eu trabalhava vinte
e quatro horas por dia, sete dias por semana.2 A depressão que vinha depois do porre resultante de
preocupações e do trabalho excessivo era comparável à síndrome de abstinência de um viciado
quando o efeito da droga passa. Eu ficava num estado de esgotamento causado pelo fluxo de
adrenalina. Para livrar-me dessa desagradável “ressaca”, eu simplesmente engatava a quinta marcha
e me lançava em outro projeto a toda velocidade!
Para manter um suprimento de adrenalina consistente, acrescentei ao meu repertório o zelo pelos
outros. Resgatar pessoas fazia com que eu trabalhasse mais, mantivesse-me preocupada por mais
tempo e tivesse mais controle de tudo. Era uma combinação perniciosa. Consegui fazer progresso:
passei de (1) enxergar o lado negativo de cada situação para (2) preocupar-me com as consequências
desastrosas de fracassar no conserto de tudo o que estava quebrado e de um bocado de outras coisas
que não estavam quebradas, para (3) implorar que Deus fizesse milagres, para (4) esforçar-me até
não mais poder a fim de responder às minhas próprias orações. Esse ciclo deu-me um senso de
propósito. Talvez eu tenha levado demasiadamente a sério o programa Abelhinhas Laboriosas, do
Clube dos Aventureiros.
Uma ansiedade de fazer esbugalhar os olhos me assediava não somente ao despertar, como também
na hora de dormir. Quando conseguia vencer um determinado desafio e, assim, momentaneamente
remover a causa das minhas preocupações, eu obtinha alívio temporário. Alguns segundos mais
tarde, outra crise se abatia, e eu ficava quase maluca tentando remediá-la, ou procurando resgatar
todos os que precisassem de mim.
Você consegue identificar-se com essa descrição? Agrada-me pensar que não estou sozinha nessa
loucura. Manter o foco nos problemas dos outros me ajudava a evitar meus próprios medos. As
alterações químicas ocorridas no cérebro quando eu estava nessa rotina eram intoxicantes. Para que
um traficante? Eu mesma manufaturava meus próprios estimulantes!
São grandes as probabilidades de que eu tivesse um problema neurológico e não soubesse – um
déficit bioquímico que eu vinha compensando inconscientemente. John Ratey, professor de
psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Harvard, acredita que o comportamento
dependente está associado a um sistema de novidade e recompensa defeituoso que ele chama de
síndrome da deficiência de recompensa.3 Aparentemente, eu já tinha esse problema antes mesmo que
ele tivesse um nome! Quando usuários de drogas sobrecarregam o organismo com álcool, maconha,
cocaína e heroína, essas substâncias acabam atrapalhando as comunicações entre os neurônios
existentes no cérebro. Ao sobrecarregar meu organismo com atividades e processos estimulantes, eu
igualmente atrapalhava as comunicações entre os neurônios do meu cérebro. Eu – uma dependente de
drogas! Quem podia saber?

Os tempos de infância
Será que me tornei uma dependente de adrenalina sozinha? Teria sido minha a ideia de fazer da
vida uma declaração sacrifical? Será que eu mesma inventei o meu vício de ser infeliz? Na verdade,
acho que meu avô paterno forneceu o gene dominante. Vovô tinha uma personalidade alarmista que
contribuiu para que eu me tornasse fisiológica e psicologicamente vulnerável desde o meu
nascimento, ou até antes. De acordo com o autor John Power, “o processo de osmose pelo qual os
filhos absorvem a visão da realidade dos pais, na verdade começa com influências uterinas ou pré-
natais”.4 Aparentemente, a predisposição ao negativismo de um viciado em infelicidade nasce antes
mesmo do bebê!
Minha mãe, uma legítima norte-americana, engravidou de mim quando Pearl Harbor foi atacada
pelos japoneses, em 1941. Esse evento deve tê-la deixado tão abalada quanto nós ficamos por
ocasião dos ataques de 11 de setembro de 2001. As tempestades que abalaram a hiperamigdaloide de
seu cérebro afetaram o meu ambiente fetal. (A excitação da amígdala está relacionada com
sentimentos de estresse e ansiedade.) Os hormônios do estresse da minha mãe correram pelo meu
corpo, o que deve ter criado as condições para eu ter sido uma criança ansiosa. Se isso for verdade,
eu não estava sozinha.
Alguém pode perguntar quantas das crianças nascidas hoje são afetadas bioquimicamente pelo
terrorismo, por tsunamis e outras tragédias. Não tenho dúvida de que fui formada para ser uma
pessoa nervosa, ansiosa e negativa. Um artigo publicado pelo New York Times, em novembro de
1996, valida isso. Citando um estudo relatado pela influente revista Science, o artigo do Times ligou
um gene específico às pessoas que são neurologicamente mais vulneráveis a eventos estressantes da
vida do que outras.5
Sensível às ameaças físicas e emocionais do meu universo, dei meus primeiros passos em um
estado de apreensão irreprimível. Era como crescer na zona de conflito de uma família alcoólatra –
um lugar onde os filhos vivem num constante temor acerca do que vai acontecer em seguida.
A década de 50 não foi de felicidade para mim – um contraste com o clima de “happy days”
vigente. Durante os anos de escola primária, fui exposta às notícias diárias sobre a guerra da Coreia.
Fascinada com as profecias bíblicas, meu avô insistia que aquele conflito – uma guerra não
declarada – era um cumprimento dos avisos sobre guerras e rumores de guerras contidos nas
Escrituras, o que significava que a segunda vinda de Cristo era iminente. Tínhamos que estar
preparados para a vinda do Senhor, para que não fôssemos destruídos no lago de fogo que
consumiria os maus quando Jesus viesse. “Por isso, menina, é melhor você ser boazinha. Se Deus não
der um jeito em você, Papai Noel o fará.”
Os sermões temperados com fogo e enxofre do meu avô me assustavam tanto quanto a guerra.
Muitas crianças educadas em lares religiosos são expostas a crenças semelhantes. Eu posso ter sido
mais sensível do que uma criança média – sei lá. Só sei que eu vivia em um estado constante de
terror. Hoje, compadeço-me de crianças que são prematuramente expostas a doutrinas da igreja que
geram medo. Recentemente, perguntei ao meu esposo, um pastor especializado em aconselhamento,
qual ele achava ser a idade ideal para uma criança aprender sobre a teologia do fim dos tempos.
“Por volta dos vinte e cinco anos de idade,” ele respondeu.
Quando adolescente, eu sequer podia imaginar o uso de nosso sedativo nacional, o álcool, para
aliviar meus medos. Diziam-me que beber era um pecado cuja punição era a morte. Se você beber,
não haverá apelação: vai direto para o lago de fogo, ou para o inferno, ou para o purgatório, ou será
deixada sozinha em um campo onde todos os demais serão arrebatados (dependendo da interpretação
profética abraçada por sua igreja).
Tive que encontrar uma maneira de anestesiar meus sentimentos – algo que não fizesse Deus ficar
todo carrancudo. Passei, então, a procurar um jeito de melhorar minha ecologia emocional sem
incorrer na ira dEle ou na de meu pai. Quanto aos estágios clássicos do desenvolvimento moral de
Lawrence Kohlberg, eu estava dentro do padrão.6 Como uma pré-adolescente, eu não era moralmente
amadurecida o suficiente para buscar a Deus. Meu interesse era apenas evitar o lago de fogo e a
tribulação que o precedia.
Se eu tentasse ser perfeita, se soubesse como conseguir a aprovação tanto de Deus como do meu
pai, talvez eu tivesse uma chance maior de sair viva daquela situação. Aha! Talvez eu pudesse me
tornar tão indispensável para Deus que Ele não teria outro jeito senão me poupar. Esse esquema de
sobrevivência não era uma escolha aleatória. Era, na verdade, muito criativa. Tanto a hereditariedade
como o ambiente ditaram minha decisão.
Não apenas o futuro me aterrorizava; o presente também era bastante intimidador. Meu pai estava
apertado financeiramente, e minha mãe sofria de depressão clínica. Numa escala de ânimo de 1 a 10,
ela registrava algo entre -2 e +1. Seu estado emocional veio a ser meu ponto de referência de
normalidade. Ela foi um modelo de negativismo para mim, e eu já era geneticamente predisposta para
aquilo também.
Lembro-me perfeitamente de sentir-me difamada e incompreendida já aos 10 anos. Quando
ingressei no ensino médio, eu já havia adotado uma visão persistentemente pessimista sobre a vida.
Eu não tinha o otimismo, o entusiasmo e a energia típicos dos adolescentes.

Tentando obter aprovação


Por achar que era meu dever fazer minha mãe e meu pai felizes, comecei a exagerar em tudo o que
fazia. Tornei-me não apenas uma absoluta workaholic, como também uma legalista de primeira,
esforçando-me ao extremo para obter aprovação e aceitação tanto de Deus como dos homens. Eu
buscava justificar minha existência no aqui e agora para ganhar também a salvação eterna. Seria
isso uma adolescência normal?
Lembro-me da primeira vez em que recebi um elogio por fazer um ato de bondade. Em meu
primeiro ano de ensino médio, doei duas peças de vestuário do meu escasso guarda-roupa para uma
colega necessitada. Quanto eu saiba, minha motivação era altruísta, mas quando fui elogiada
publicamente pela minha bondade, fui imediatamente fisgada pela adulação recebida. Ali estava a
afirmação que vinha buscando por toda minha vida. O cãozinho carente começou a balançar o rabo.
Dali em diante, eu estava sempre disposta a fazer quase tudo para receber um elogio.
Sistematicamente, sacrificava-me para obter aprovação levando o altruísmo a um ponto tão extremo
que quase cheguei a destruir a mim mesma, se não literalmente, ao menos figurativamente. Talvez eu
também tenha chegado perto de, com a minha bondade, matar as pessoas que “cuidavam” de mim.
Estar sempre pronta a ajudar colocava meu ego para cima ao mesmo tempo em que era um suporte
para minha decaída autoestima. Eu me iludia pensando que era altruísta por natureza.
Se pudesse me ver como os outros me viam, eu poderia ter questionado meus motivos. Eu suspirava
alto e com frequência, e queixava-me para quem estivesse disposto a me ouvir. Paulatinamente, fui
aperfeiçoando meu personagem, “a coitadinha”. Gemer e choramingar, reclamar e queixar-se são
maneiras pelas quais o mártir deixa a raiva escapar de maneira oblíqua, sugando, assim, a atenção de
insuspeitos simpatizantes. Eu me considerava uma vítima, mas não era. Eu era uma voluntária!
Em seu livro Codependents’ Guide to the Twelve Steps (Guia do Codependente Para os Doze
Passos), Melody Beattie descreve como o negativismo afetou seus relacionamentos mais chegados:
“Eu tinha muito pouco para oferecer aos meus amigos, exceto minhas perpétuas reclamações sobre a
miséria que era minha vida. Muitas das minhas amizades giravam em torno das histórias sobre
vitimização que compartilhávamos. (Chamo isso de vínculo pelo martírio.)
“Eu não tinha consciência nem de meus sentimentos... nem de minhas necessidades. Orgulhava-me
da minha habilidade de suportar sofrimentos desnecessários e privações.”7
A maneira de agir de Beattie era igual à minha. Eu me pegava pensando que Deus tinha me
escolhido para carregar um fardo mais pesado porque Ele sabia que eu podia suportá-lo. Quando
finalmente acordei e senti o cheiro da minha atitude superior, fiquei com vergonha de mim mesma.
O trabalho em excesso, o cuidado com a vida dos outros e o controle acabam se tornando um ciclo
que se autoperpetua. Perto dos 45 anos de idade, eu estava acabada e estafada de tanto trabalhar e me
preocupar. Eu sabia que precisava mudar. Tentei afastar-me daquele comportamento obsessivo-
compulsivo, mas não consegui. No começo, não percebi o que isso indicava. Naquela ocasião, eu era
uma terapeuta certificada que aconselhava dependentes de álcool e de drogas, mas não reconhecia
meu próprio comportamento como dependente. Já ouviram falar de ilusão e negação?

Admitindo a derrota
A verdade é que eu estava com o mico do mártir em minhas costas. Na verdade, era um gorila
gigante – o King Kong barbado, como costumava dizer um carismático pregador. Acorde e caia na
real, senhorita! Você está espiritualmente falida e precisa de ajuda profissional com urgência!
Isso foi vinte anos atrás. Gostaria de poder dizer que liguei imediatamente para um terapeuta para
marcar uma consulta, mas não foi o que aconteceu. Eu não estava saudável a este ponto. Em vez
disso, passei vários meses esforçando-me futilmente para me consertar. Afinal, eu sou uma
profissional da área e deveria ser capaz de me curar. Engano! Ávida alisadora dos bancos da igreja,
presumi que se tivesse bastante fé, Deus me curaria instantaneamente. Eu não queria perder meu
tempo e o dinheiro dEle com terapia (uma pequena manipulação aqui); e então, em vez disso, orei
fervorosamente.
Enquanto isso, por ser uma pessoa orientada pela salvação por obras, eu lia todos os livros de
autoajuda que havia no mercado. No entanto, não era capaz de colocar em prática suas sugestões.
Terry Kellogg, autor e conselheiro, diz que o conhecimento apenas faz do dependente um prisioneiro
mais informado. Não me diga! Eu não podia transformar boas ideias em comportamento novo porque
não havia ainda experimentado nem a dor adequada nem um senso de ausência de poder pessoal. Eu
chegara ao fim da linha e nem havia sequer experimentado suficiente desconforto para tornar-me
humilde e pronta para aprender algo. Meu plano de recuperação caseiro foi um absoluto fracasso.
Quanto mais eu tentava controlar meu comportamento, mais perdia o controle. Puf, puf. Shug, shug.
Eu era como uma locomotiva que não conseguia subir a serra. Meses depois, finalmente derrotada,
internei-me em um centro de tratamento com base em um hospital para tratar meu vício e minha
codependência – um diagnóstico amplo que reúne cuidado compulsivo de pessoas, controle, martírio,
e outras dependências “limpas”. Meus melhores pensamentos, comportamentos e minhas crenças me
levaram para aquele lugar.
Workaholic inveterada, cuidadora compulsiva e mártir benevolente, eu não tinha a menor ideia de
como parar com as dependências que por tanto tempo eu negara. Eu precisava admitir a derrota. Eu
não percebia, mas esse foi meu primeiro passo para a recuperação.
O negaolismo solapava meu caráter, sabotava relacionamentos valiosos para mim e subvertia
minha espiritualidade, exatamente como faz o alcoolismo. Os danos que as dependências limpas
infligiram em meu corpo e minha alma eram idênticos aos que a dependência química inflige a
alcoólatras e drogados. Fui parar em um centro de tratamento repleto de alcoólatras porque, assim
como eles, eu estava sofrendo de uma doença mortal. Meu problema era maior do que eu, maior do
que todos os recursos interiores que eu pudesse reunir. Eu tinha uma doença primária, crônica,
progressiva e fatal que eu não podia curar por mim mesma. Eu não conseguia dar um basta ao meu
comportamento descontrolado nem tampouco administrar suas consequências.

A recuperação é um processo
Onde minhas tentativas de obter conhecimento fracassaram na minha recuperação, o programa
espiritual dos Alcoólicos Anônimos teve sucesso. Enquanto estava em tratamento, fui chamada para
assistir às reuniões dos AA. Ali, descobri que o mesmo programa que funciona para os alcoólatras
também funciona para os negaólatras – e para os dependentes de comida, os viciados em
relacionamentos, os controladores compulsivos, etc.
Uma vez que todas as dependências são basicamente um suicídio à prestação, passei a considerar o
vício da infelicidade como o avô de todos os vícios. Obviamente, não estou utilizando aqui o termo
vício no sentido estritamente técnico. O martírio, a infelicidade, a responsabilidade pelos outros, o
controle e muitos outros comportamentos codependentes são hábitos profundamente arraigados que
podem ou não, por si mesmos, ser considerados como desordens viciosas. Essas coisas certamente
não são descritas dessa forma nos léxicos dos profissionais de saúde mental! No que diz respeito à
recuperação, todavia, elas respondem positivamente aos programas de Doze Passos. É por isso que
eu considero a maioria dos comportamentos excessivos como vício e os trato como tal em minha
vida pessoal e profissional.
Os hábitos antigos e arraigados não desaparecem da noite para o dia. Você não consegue
simplesmente dispensá-los ou enxotá-los. A recuperação é um processo, não um evento. Eu comecei
a mudar quando aceitei o fato de que não podia derrotar meus problemas com uma mão apenas.
Pouco a pouco, acordei para o fato de que não havia nenhum mal em admitir a derrota. Na verdade,
era até um alívio. Eu podia parar de tentar realizar o impossível. Isso não estava mesmo
funcionando! Descobri que aquela sensação de falta de poder era simplesmente o reconhecimento da
minha necessidade de ajuda. Bem-vinda ao mundo real, Carol!
Hoje, comemoro a libertação do meu vício em infelicidade um dia de cada vez. Não estou curada,
mas não encontro mais deleite no martírio, na obsessão, na preocupação, nem no estado depressivo.
Não me entrego ao abandono. Prefiro a paz e a serenidade à insanidade do trabalho excessivo, ao
cuidado compulsivo com os outros e à autopiedade desmedida. Aprecio e respeito a mim mesma.
Não me sinto mais compelida a ir atrás de problemas nem implorar por fardos para carregar.
Em seu livro Fully Human, Fully Alive [Plenamente Humano, Plenamente Vivo], John Powell
descreve pessoas cujas vidas são como uma perene procissão fúnebre.8 Assim era a história da
minha vida. Eu não me sentia uma pessoa normal a menos que estivesse sendo negligenciada ou
rejeitada. Eu ficava “alta” quando estava “fatigada, abatida e dolorida” – uma frase de um dos
cânticos evangélicos favoritos do meu workaholic avô. Dei um basta para isso. Terei uma recaída?
Sim, mas ultimamente não tenho me castigado por causa disso.
Embora a recuperação tenha altos e baixos, e embora o processo de crescimento e mudança seja
desafiador, é mais fácil buscar ter saúde e felicidade do que ficar indefinidamente dando corda para
a infelicidade. Abrir mão de velhas atitudes e desenvolver novas habilidades é algo demorado, mas
o resultado final faz com que o esforço seja compensador. Negaólatras podem, sim, recuperar-se!
Qualquer um que deseje parar de ser negativista pode abster-se de reclamar, banir suas preocupações
e recusar-se a ficar choramingando – um dia de cada vez.
Nas páginas que se seguem, vou apresentar uma lista de características do mártir, explicar o que
causa o negaolismo, mostrar como ele se revela nos relacionamentos pessoais e descrever como
livrar-se do hábito da infelicidade. Repare que utilizarei os termos vício em infelicidade, martírio,
negativismo, negaolismo e infelicidade de maneira intercambiável.
Embora considere o hábito de pensar, acreditar e comportar-se negativamente tão grave como o
alcoolismo, quero manter um espírito positivo aqui. Ficar soluçando por causa do vício em
infelicidade seria sucumbir a ele. Quero enfatizar o lado bom, embora reconheça haver o lado ruim.
Eu detestaria ver alguém ficar deprimido como resultado da leitura de um livro sobre o vício da
infelicidade! Não é isso que tenho em mente. Assim, vamos rir pelo menos na mesma medida em que
choramos; dancemos ao ritmo de uma música mais apimentada, ao invés de uma canção melancólica.
Longe de nós levar-​nos – ou o processo de nossa recuperação – tão a sério.
Eu seria uma fingida se escrevesse sobre o vício da infelicidade sem incluir minha própria história.
Ela começa com o estado de impotência. Qualquer dos personagens no capítulo 2 poderia ser eu
mesma.

Esperança Para Hoje


Muitos viciados em infelicidade acham que sua incapacidade de ser felizes é insolucionável. E
seus amigos e familiares acham que isso é indesculpável! Em realidade, não é nem uma coisa nem
outra. Se você é um viciado em infelicidade, dê um tempo para você. Não é errado admitir que você
tem um problema maior do que você mesmo e maior que todos os recursos interiores que possa
reunir. Render-se a sua necessidade de ajuda não é o mesmo que sucumbir à fraqueza. Dê permissão
a si mesmo para acabar com a fútil batalha contra o pensamento negativo. Não dá para superar o
hábito de pensar demais com seus próprios pensamentos. Em vez disso, busque ajuda e apoio
externos. Quando parar de tentar fazer o impossível, você abrirá a porta para uma infinidade de
novas oportunidades.

Autoanálise
1 . Quais dos incidentes ou questões mencionados nesse capítulo lhe parecem familiares? Baseado em sua própria experiência, com
quais desses incidentes ou dessas questões você mais se relaciona ou se identifica?
2 . Escolha uma ou mais palavras relacionadas a sentimentos para descrever como você foi afetado pelo que acabou de ler: (a) feliz,
(b) magoado, (c) triste, (d) aliviado, (e) com raiva.
3 . Você está disposto a abraçar sua própria verdade? Se assim for, escreva um parágrafo descrevendo o que pensa e sente a respeito
de uma ou mais lembranças dolorosas de sua infância.
4 . Se você se sentiu angustiado ou acabrunhado depois de ler este capítulo, considere a possibilidade de conversar com um amigo
próximo ou um terapeuta sobre sua reação. Adie a leitura do capítulo 2 até que tenha tido tempo para integrar seus sentimentos.

1 Ver 1 Reis 19:4.


2 Minha teologia naquele tempo permitia apenas um Deus masculino. Não penso mais no meu Todo-poderoso em termos de gênero.
3 John Ratey, A User’s Guide to the Brain: Perception, Attention, and the Four Theaters of the Brain (Nova York: Random House,
2001), p. 118, 123. Embora seja inquestionável que a química do cérebro desempenhe um papel em nossos problemas emocionais,
minha ênfase aqui é no assumir a responsabilidade pela mudança. Isso inclui ter uma avaliação viável de um profissional médico para
ver se existe indicação para medicações.
4 John Powell, Fully Humans, Fully Alive: A New Life Through a New Vision (Niles, Illinois: Argus Communications, 1976), p. 63.
5 Edward M. Hallowell, Worry (Nova York: Ballentine, 1997), p. xiv.
6 Lawrence Kohlberg teorizou que existem seis estágios do desenvolvimento moral. Nos primeiros estágios, as crianças são motivadas a
engajar-se em comportamentos socialmente aceitáveis por medo de castigo ou consequências. Elas não são suficientemente maduras
para tomar decisões éticas baseadas em pensamentos e intenções de alto nível.
7 Melody Beattie, Codependents’ Guide to the Twelve Steps (Nova York: Simon & Schuster, 1990), p. 10.
8 Powell, Fully Human, Fully Alive, p. 21.
Consumidos que são pelos sentidos, os voluptuários sempre começam se lançando ao abismo com
evidente manifestação de frenesi. Eles sobrevivem, todavia, e voltam mais uma vez para a
superfície, desenvolvendo a rotina do abismo: “Agora são quatro horas. Às cinco, terei meu
abismo.”
Sidonie Gabrielle Collete

Patsy, a perfeita

P atsy é uma das mulheres mais queridas que conheço. Ela se antecipa às necessidades das
pessoas e as satisfaz antes mesmo que percebam ter alguma carência. Ela é tão capaz de
perceber e de satisfazer os desejos de seus amigos mais chegados que os beneficiários de sua
generosidade muitas vezes a acusam de ser clarividente. Seus amigos e familiares não conseguem
sequer imaginar como é que ela sempre percebe o que eles querem ou almejam antes deles próprios.
Patsy gosta da aprovação dessas pessoas e sente prazer em ser elogiada. Mas quando seus
“beneficiários” deixam de recompensá-la com sua gratidão, ela acha que se aproveitaram dela e se
desmancha em autopiedade. Em seus momentos de maior fraqueza, ela se aborrece com o fato de que
seus amigos e familiares esperam muito dela, embora seja precisamente isso que ela lhes tem
ensinado fazer. Secretamente, ela se ressente de ter que se esforçar muito para deixar todos felizes. E
quanto mais ela pensa sobre isso, mais infeliz se sente.

Rebecca, a justa
Rebecca é uma Joana D’Arc moderna. Quando adolescente, contra a vontade dos pais e do pastor
de sua igreja, ela casou-se com um rapaz muito bonito e charmoso, que logo mostrou ser um
alcoólatra abusivo. Mais tarde, para reparar o erro, Rebecca voltou para a igreja de sua infância,
onde passou a ser admirada como a perene sofredora esposa de um incrédulo.
Como o esposo egoísta não conseguia durar em nenhum emprego, Rebecca era forçada a trabalhar
para sustentar a si mesma e aos filhos. O marido não lhe dava um centavo sequer. Todo o dinheiro
que ganhava era gasto com bebidas. Por anos a fio, ela trabalhou duro para alimentar e vestir sua
família. Enquanto isso, o esposo não levantava um dedo sequer, embora com frequência levantasse o
punho!
Rebecca não tomou nenhuma atitude a respeito do alcoolismo do esposo nem agiu para proteger-se,
ou às filhas contra seu abuso. Ela tolerou o intolerável comportamento do esposo por 21 anos sem
quase nenhuma queixa. Ela não fazia ideia de que estava martirizando a si mesma e as suas filhas.
Tampouco reconhecia que as estava ensinando a chafurdar nas preocupações (passividade) em vez de
proteger-se contra os maus-tratos (proatividade).
Suas filhas achavam normal a relação disfuncional dos pais, pois era tudo o que conheciam. Elas
memorizaram o repertório relacional do pai e da mãe – brigar, gritar, acusar, envergonhar. Também
reproduziam a atitude desrespeitosa do pai para com a mãe e aprenderam a imitar sua expressão
chorosa, a postura de autocompaixão e os padrões de pensamentos negativos.
As meninas de Rebecca esperavam ser abandonadas e abusadas, e, até agora, têm tido sucesso em
encontrar namorados prontos a fazer-​lhes esses favores. Alheias ao fato de que estão repetindo um
padrão estabelecido pela geração anterior, elas se tornaram a própria mãe e indubitavelmente se
casarão com homens iguais ao pai.

O desesperançoso e desamparado Harry


A história de Harry é diferente, embora igualmente traumática. Ele tinha nove anos quando sua mãe
morreu. Devastado pela prolongada enfermidade e morte prematura dela, Harry carecia de atenção e
afeto. Quando seu pai se casou de novo, ele ficou radiante. Mas sua felicidade durou pouco. Sua
madrasta tinha seus próprios três filhos para cuidar, além de Harry e seus irmãos. Ela não tinha nem
tempo nem paciência suficientes para lidar com a situação.
Harry logo notou a causa principal da frustração de sua madrasta. Inflexível e com uma língua
afiada, ela era mais severa com Harry do que com as demais crianças. Ela nunca perdia uma
oportunidade para humilhá-lo. Ele absorveu a atitude negativa dela e tornou-se um saco de pancadas
de vergonha, tristeza e baixa autoestima. Essas características foram esculpidas em sua
personalidade. O impacto era visível. Na escola, ele já tinha aquela aparência de cãozinho surrado.
Como se não bastasse, Harry tinha uma deficiência de aprendizado. Ele era disléxico antes do
tempo em que a dislexia era bem entendida pelos educadores. Seus colegas caçoavam dele sem
piedade. Os professores o acusavam de não se aplicar o suficiente nos estudos e garantiam que ele
não daria para nada se não tomasse jeito. Os sentimentos de inadequação e inferioridade de Harry se
multiplicavam exponencialmente.
De alguma maneira ele sobreviveu ao tormento psicológico de sua infância. No último ano do
ensino médio, Harry conheceu uma jovem talentosa e inteligente chamada Martha. Sensível a suas
feridas e atraída por sua carência, Martha sentiu-se compelida a resgatá-lo de sua sorte. Uma
cuidadora desde a primeira infância, ela possuía o dom de resgatar e consertar as pessoas. Com pai e
mãe alcoólatras, e mais cinco irmãos e irmãs, ela desempenhava o papel de mãe na sua família, e o
fazia muito bem. Martha vinha criando seus irmãos melhor do que seus próprios pais.
Harry ficou seduzido pelas qualidades maternais de Martha. Depois de um curto noivado, os dois
se casaram. A jovem esposa entrou em ação imediatamente. Ser mãe era o que ela sabia fazer de
melhor. Determinada a ajudar o esposo a alcançar seu potencial e convencida de que se ela
acreditasse nele o suficiente, ele também acreditaria em si mesmo, ela fez o máximo possível para
ser uma esposa amorosa e apoiadora. Contudo, na primeira vez em que ela questionou o julgamento
de Harry, a lua de mel acabou. Ele considerou o questionamento dela uma crítica, ficando
desproporcionalmente magoado e zangado.
Por ter aprendido a desdenhar de si próprio durante sua infância, daquele dia em diante Harry
passou a absorver tudo o que Martha dizia, através de um filtro mental negativo. Os comentários dela
reforçavam suas dúvidas a respeito de si mesmo. Poucas coisas que ela dizia ou fazia não o
deixavam ofendido. Martha enfrentou o problema tornando-se mais sutil e manipuladora ao fazer
sugestões, o que ele reconheceu imediatamente, ficando imensamente ressentido. Dali em diante, as
coisas foram ladeira abaixo. Ela ficava zangada – ele reagia. E, como diz o ditado, “quando um não
quer, dois não brigam.”

Roger, o furiólatra
Abandonado ao nascer, Roger foi adotado por um casal que desejava um filho desesperadamente.
Entretanto, a despeito do fato de ter sido escolhido, Roger se sentia rejeitado.
Por ser ele o único filho, seus pais adotivos depositaram nele todas as suas esperanças e os seus
sonhos. Roger ficava assoberbado com as exigências de perfeição totalmente fora da realidade.
Embora tentasse seu melhor para atendê-las, ele nunca o conseguia. Logo, Roger começou a
identificar-se como um fracassado e teceu essa percepção no tapete de sua personalidade.
Parafraseando as palavras de Susan Howatch, aquilo se espalhou como uma mancha na textura de sua
personalidade.1
Na fase adulta, o autoconceito negativo de Roger criou sérios problemas. Ele não conseguia lidar
com nada que considerasse uma humilhação. Se os amigos vinham com conselhos, ele achava que
eles o consideravam um estúpido e se ofendia com isso. Se os seus patrões lhe davam instruções, ele
achava que o estavam chamando de incompetente e respondia asperamente. Se a sua esposa tinha uma
opinião diferente da dele, ele presumia que ela não o respeitava. Em todas essas situações, ele reagia
com fúria descontrolada. As pessoas próximas a ele se horrorizavam com sua raiva. Roger perdeu
quatro esposas, inúmeros amigos e vários empregos porque facilmente se sentia ameaçado. Ele não
percebia que suas atitudes negativas estavam afastando as pessoas, o que acabava sendo um
empecilho para que ele alcançasse suas metas.

Maravilhosa Grace
Esposa, mãe, membro ativo de uma organização de mulheres comprometidas em promover o bem
social e presidente de uma Associação de Pais e Mestres, Grace é a rainha de todas as cuidadoras.
Ela se faz indispensável para todos. O pastor de sua igreja insiste que não pode prescindir dela. Ela
arruma a igreja, prepara o boletim, preside a comissão social, dirige o coro e lidera os jovens. Todas
as semanas, depois do culto, ela convida o pregador e todos os visitantes de outras localidades para
almoçar em sua casa. Uma santa!
Não importa o que precise ser feito na igreja ou na comunidade, Grace é a pessoa para fazê-lo – e
muito benfeito. Felizmente, ela possui uma van. Hoje, ela foi buscar uma dúzia de varas de cortina e
mais oitenta metros de tecido para confeccionar as cortinas da capela dos jovens. Assim que terminar
de costurá-las, ela vai esperar que alguém lhe acene empaticamente com a cabeça, enquanto ela
reclama das dificuldades de sua vida. Os filhos dela são frequentemente requisitados para cumprir
esse papel. Quase todos os dias, eles são submetidos a um discurso dramático sobre os infortúnios
do momento. Não é de admirar que eles fiquem frustrados cada vez que sua mãe se apresenta como
voluntária para mais uma tarefa monstruosa. Como pode esquecer tão rapidamente? Por que ela
continua fazendo isso? Os filhos já perderam a capacidade de ser empáticos com ela.
Recentemente, quando a filha adolescente parecia relutar para comparecer a mais uma sessão de
autopiedade promovida por Grace, ela teve que ouvir o seguinte comentário: “Criar filhos é um
trabalho sem agradecimentos.” A moça saiu correndo e gritando.

Fatores em comum
Grace, Roger, Harry, Rebecca e Patsy têm muito em comum. Eles são prisioneiros da infelicidade.
Treinados para pensar e agir de maneiras autoderrotistas, eles são viciados em infelicidade e no
martírio (abnegação indevida). Por mais estranho que possa parecer, eles encontram significado,
identidade e valor sendo vítimas. Esse tipo de martírio não deve ser confundido com a abnegação
saudável, a generosidade ou a tolerância respeitosa às esquisitices de outras pessoas, pois isso é
algo totalmente diferente.
O martírio doentio é uma condição neurótica que envolve abnegação extrema e outros
comportamentos autodegradantes e autodestrutivos que sejam (1) excessivos, irracionais e fora de
controle; (2) prejudiciais para o indivíduo e seus queridos; (3) conduzidos por motivos
inconscientes; (4) repetidos mesmo diante de consequências negativas óbvias; e, apesar de tudo, são
(4) a fonte principal de significado e identidade do viciado em infelicidade.
Patsy, a “clarividente”, por exemplo, acredita que seu único real valor está naquilo que ela faz
pelos outros. Existe um motivo oculto em sua generosidade. Se as pessoas não aplaudem suas boas
ações, ela se sente privada de sua dose de entorpecente. As necessidades infantis não atendidas de
Harry e Roger os programaram para procurar companheiras maternais. No entanto, eles não
conseguem tolerar ser questionados ou controlados, que são comportamentos típicos dos pais. Eles
querem ser alimentados, mas não importunados.
Rebecca acha que a única maneira de conseguir atenção é se fazer de vítima. A recompensa é a
simpatia que recebe. E Grace? Grace apenas deseja ter o reconhecimento das pessoas e fará
praticamente tudo para consegui-lo.
Eu compreendo que todos esses indivíduos são bem-intencionados. Eles são minha gente. Pertenço
ao mesmo clube que eles. Eu comecei a ficar “alta” com infelicidade ainda jovem. Por ser uma
criança ultrarresponsável, amadureci antes do tempo. Orgulhosa por levar a vida tão seriamente, não
conseguia entender como alguém podia rir e se divertir enquanto a metade da população do planeta
passa fome ou morre por conta de terremotos e inundações. Eu já havia elevado a sobriedade ao
status de arte refinada ainda aos 13 anos de idade.
Em 1997, participei de uma reunião de ex-alunos durante a qual Virgínia, uma colega do ensino
médio, fez-me lembrar de uma conversa que tivemos 40 anos antes, no segundo semestre do terceiro
ano. Eu já havia cursado duas matérias da faculdade durante o verão anterior e mais duas no primeiro
semestre, e estava me preparando para entrar na universidade aos 16 anos, perdendo, assim, os
melhores anos da minha adolescência.
Quando contei meus planos para Virgínia, ela perguntou por que eu estava com tanta pressa. O pai
dela era professor universitário, mas de alguma maneira ela sabia que adolescentes precisam
divertir-se. Ela não conseguia imaginar por que eu estava correndo daquele jeito, e eu não conseguia
me imaginar fazendo menos. Informei-lhe que tinha que ser dessa maneira. Eu tinha um imperativo
interior que insistia em que eu terminasse a faculdade em três anos para economizar o dinheiro dos
meus pais. Eu já começara a deixar de levar em consideração minha saúde física e meu bem-estar
social por uma causa inglória.
Minha experiência pessoal e os casos acima mencionados ilustram um ponto simples: muitas
pessoas têm sido instruídas a pensar, acreditar e comportar-se como derrotadas. Professores, pais e
outras figuras autoritárias, de maneira pouco inteligente, modelam atitudes e atos capazes de
machucar. Inconscientemente, eles comunicam mensagens incorretas para as crianças; estas, por sua
vez, traduzem-nas em visões negativas e apáticas sobre si mesmas, o mundo em volta delas e as
pessoas desse mundo. Se ninguém fizer de maneira diferente, elas desenvolvem uma condição que eu
chamo de vício em infelicidade. Não é um quadro bonito de se ver; mas, definitivamente, não é culpa
delas, como veremos a seguir.
Esperança Para Hoje
Recentemente, ouvi alguém dizer que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Não gostei
nem um pouco da frase! Discordei porque ela interferiu no meu negativismo. Até aquele ponto, eu
estivera firmemente convencida de que havia virtude e nobreza no sofrimento. A ideia de que a dor é
inevitável, e o sofrimento, opcional, fez um buraco na minha identidade como vítima. Ao enfrentar o
fato de que não podia me livrar facilmente de minhas atitudes e crenças, eu não tive escolha a não ser
pedir ajuda. Reconheci que não poderia fazê-lo sozinha. Encontrei muitas fontes maravilhosas de
sabedoria, força e ânimo quando busquei ajuda. Um especialista disse que todos temos a capacidade
de remodelar ou reajustar o cérebro. Em realidade, eu precisava de um transplante de cérebro
completo. Ainda estou trabalhando nisso. Enquanto isso, estou me livrando do papel de vítima – um
dia de cada vez e pela graça de Deus.

Autoanálise
1 . Que vícios ou dependências doentias você acha que estiveram presentes no seu lar, durante sua infância? Dependência química?
Alimentação compulsiva? Vício em trabalho? Vício em sexo ou em relacionamentos?
2 . Escreva algumas linhas descrevendo como você foi afetado pelas situações acima.
3 . Reescreva sua descrição, deixando-a o mais engraçado que puder. Ou, então, desenhe uma caricatura de você mesmo quando era
criança, tentando lidar com uma situação difícil.
4 . Se você se encontra acabrunhado ou estressado por causa do conteúdo deste capítulo, não prossiga com a leitura. Faça uma pausa
de alguns dias. Considere a opção de falar com alguém de sua confiança ou um terapeuta sobre seus sentimentos.

1 Susan Howatch, Glittering Images (Nova York: Fawcett Crest, 1987), p. 131.
Esta é minha postura depressiva. Quando você está deprimido, sua maneira de ficar de pé faz uma
tremenda diferença. A pior coisa que você pode fazer é endireitar-se e levantar bem a cabeça, pois
assim vai começar a sentir-se melhor. Se quiser obter alguma alegria da sua depressão, é assim
que você tem que ficar de pé.
Charlie Brown

P ermita-me apresentar um dos melhores negaólatras que conheço – um cavalheiro chamado


Ned. Casado, pai de três filhos, Ned era a personificação da dor e da miséria bem
disfarçadas quando o conheci. Ele estava tão deprimido que, se houvesse caído em uma sarjeta ou em
uma cova aberta, e um transeunte começasse a lançar terra sobre ele, Ned não teria movido sequer
um músculo para evitar ser enterrado vivo. Esse homem alternava entre dois extremos emocionais:
ora chorava de dar pena, ora efervescia de fúria. No entanto, somente as pessoas mais próximas a ele
sabiam de suas drásticas mudanças de humor.
Durante toda a sua infância e adolescência, Ned foi sistematicamente açoitado – verbal e
fisicamente – por seus pais e colegas. Quatro ideias foram implantadas em sua mente: você é feio,
estúpido, não tem nenhum valor, é um fracassado. Ned incorporou essas mensagens errôneas em seu
sistema de crenças.
Uma vez que seus pais tinham oito filhos para sustentar, ele trabalhou na firma familiar desde
criança, até tornar-se um adulto, sem nunca ter sido pago. Ele ganhava moradia e alimentação, mas
não um salário – nem mesmo gratidão. Isso aprofundou-lhe a noção de que não tinha nenhum valor.
Aos 33 anos, ele conheceu uma moça na igreja e apaixonou-se por ela. Após um curto namoro,
casaram-se. Emily, sua esposa, não havia reparado que Ned tinha uma falta de autoestima tão severa
que tudo o que ela fazia para que ele se sentisse melhor caía em um poço sem fundo. Ele esperava
que ela lhe desse o senso de valor que lhe faltava, mas o seu déficit emocional era maior que a
dívida nacional. Emily não tinha como quitá-la.
Por sentir-se muito inadequado, Ned desdenhava de cada conquista de sua esposa, uma mulher
extremamente inteligente e talentosa. Na cabeça dele, o sucesso dela ampliava seu fracasso. Por isso,
começou a sabotar os esforços dela, chegando ao ponto de interferir nos estudos de pós-graduação
dela jogando no lixo o horário das provas finais que lhe chegara pelo correio! Pobre rapaz. Não era
sua intenção ser tão estúpido. Entender sua história é compreender seu dilema.
Embora fosse um rapaz muito talentoso, Ned sentia-se inadequado. Ele precisava de uma esposa
que compensasse suas fraquezas, mas a detestava por isso na mesma proporção em que detestava a si
mesmo. Para elevar sua autoestima, Ned começou a colecionar queixas contra Emily. Seus
ressentimentos foram crescendo até chegarem ao ponto de ocupar-lhe todos os pensamentos. Ele
tornou-se cada vez mais impertinente e absorto em si mesmo.
Obcecado para encontrar defeitos, Ned se focalizava nos erros de Emily – tanto reais como
imaginários. Ela reagia ficando na defensiva, e os dois se engalfinharam em uma luta mortal pelo
poder. Cada um se sentia compelido a provar que o outro estava errado para que se sentisse certo.
Como era de se esperar, os filhos foram envolvidos no meio dessa guerra encoberta. Um religioso
fundamentalista, Ned sempre considerou que era um dever sagrado dos filhos prover-lhe o respeito
do qual sentia falta; mas, por não respeitar a si mesmo, era difícil para os filhos também respeitá-lo.
Quanto mais ele forçava, mais desagradável seu comportamento se tornava, e menos respeito eles
tinham pelo pai.
Quando teria começado esse ciclo de autodestruição? Na infância. Ned desempenhava o papel de
vítima a ponto de tornar aquilo sua própria identidade. Abusado na primeira adolescência, ele
continuava a aceitar – e até a convidar, de maneira inconsciente – a perseguição, depois de adulto. A
certa altura, ele descobriu que ajudar as pessoas jogava sua autoestima para cima. Dali em diante,
passou a levar seu comportamento de abnegação ao extremo, oferecendo suas habilidades para
indivíduos e instituições sem nada cobrar, vendendo seus consideráveis talentos por muito pouco ou
nada, enquanto sua família literalmente passava fome. De forma voluntária, ele permitia que os
outros levassem vantagem sobre ele, o que diminuía ainda mais seu senso de valor. Por fim, Ned
ficou viciado em vender-se por pouco para angariar aprovação, embora seu comportamento fosse
autodegradante e autodestrutivo. Ele sabia que sua família passava por privações materiais, mas não
conseguia parar. Ele não podia mudar seu comportamento.
Hoje, Ned está irremediavelmente viciado em infelicidade. Ele é um controlador compulsivo, uma
vítima de primeira hora e um mártir. Ele é viciado em padrões de pensamento, crenças e
comportamento negativos que estão destruindo seus relacionamentos e ameaçando sua vida. Ned é
um refém de suas autopercepções negativas. A sombra da morte paira sobre ele e obscurece a vida
de seus queridos. Exausto pela contínua luta pelo poder, esgotado de recursos emocionais, ele está
falido espiritualmente, e sua família, profundamente aflita. E o pior de tudo é que Ned é um suicida
iminente.
Essa história é tão triste que detesto contá-la. Mas situações como essa são mais comuns do que
pensamos. Existem muitas pessoas machucadas como Ned e Emily, as quais estão lutando com
problemas incompreendidos que nunca pediram. E elas perderão a batalha se não conseguirem ajuda.
Tragicamente, as baixas serão seus filhos.
A boa notícia é que existem possibilidades de recuperação. Conheço centenas de famílias que
foram recuperadas de maneira notável, começando com um membro da família que teve coragem de
mudar. A filha de 16 anos de um importante administrador da igreja escreveu-me um bilhete de
“muito obrigado” poucas semanas depois de seu pai passar pela instituição terapêutica onde
trabalho. Ela escreveu: “Agora eu tenho um pai. Pela primeira vez em minha vida, tenho um pai.”

As raízes do negaolismo
Como você definiria o negaolismo? Eu o considero uma moldura de referência habitual – um
sistema de filtragem mental profundamente arraigado – através do qual tudo parece negativo e
sombrio. Para as pessoas que foram criadas em um ambiente de vícios e abusos, essa perspectiva
vem naturalmente. É como uma segunda natureza. Adultos que sofreram experiências dolorosas
quando crianças e que foram incapazes de expressar seus sentimentos abertamente têm uma pesada
carga de emoções acumuladas. Esses sentimentos funcionam como um bloqueio para essas pessoas.
Alguns anos atrás, pedi ao meu filho de 29 anos, Kurt, que me enviasse um e-mail com um pesado
arquivo contendo fotografias que, a meu pedido, ele havia escaneado. Por alguma razão, eu não
conseguia baixar o arquivo que ele enviara. Meu computador chiou e piscou laboriosamente por dez
minutos, e, então, recebi uma mensagem dizendo: “É uma pena, mas seu arquivo é muito pesado.”
Liguei para Kurt, e ele gentilmente dividiu-o em dois e enviou outra vez o material. Tampouco
desta vez consegui baixar os arquivos. E isso porque eu não percebi que a transmissão original ainda
estava ocupando a linha, atrapalhando a passagem de novas mensagens. Quando deletei o arquivo
causador do problema, ele reapareceu. Mais uma vez, deletei o primeiro arquivo e esvaziei a lata de
lixo. Presumindo que o tal arquivo já estava no caminhão de lixo, reiniciei, triunfante, o computador.
Com o computador outra vez ligado, vi que a mensagem original estava de volta. Deletei-o mais
uma vez. Ele reapareceu. Se tem uma coisa que eu sou é persistente; mas os computadores desdenham
da persistência. Eu não conseguia eliminar aquele arquivo. Como não sou muito ligada em tecnologia
(já deu para perceber?), eu não tinha a menor ideia do que fazer. Finalmente, ocorreu-me aceitar
minha impotência – minha incapacidade de resolver o problema sozinha – e liguei para o apoio
técnico. O profissional especializado falou que meu sistema estava travado. Aquele arquivo era
pesado demais para mover-se. Era por isso que eu não conseguia livrar-me dele.
O negaolismo é assim. As experiências traumáticas da vida criam sentimentos dolorosos que se
acumulam e criam uma carga de emoções negativas que bloqueiam a linha e se reciclam
interminavelmente. Isso pode ter a ver com o fato de que o próprio cérebro tem uma inclinação para
as notícias ruins. De acordo com uma pesquisa feita na Universidade do estado de Ohio, nosso
cérebro reage mais fortemente aos estímulos negativos do que aos positivos. A quantidade de
atividade elétrica é maior quando ouvimos algo negativo do que quando ouvimos algo positivo.1 Por
vezes, todavia, isso pode trabalhar contra nós. Se o sistema de alarme interno torna-se hipersensível,
e o ciclo se inicia constantemente, temos um problema.

Razões pelas quais o vício em infelicidade é de difícil diagnóstico


Como no alcoolismo, os viciados em infelicidade são os últimos a saber que seu comportamento é
problemático. Os outros conseguem notar os sintomas a quilômetros de distância, mas eles não
conseguem. É difícil diagnosticar o negaolismo porque (1) ninguém quer ser infeliz; (2) os viciados
em infelicidade não gostam de ser infelizes; (3) isso não é divertido; e, em muitos casos, (4) eles
cresceram na presença de uma vítima ou um mártir – um dos pais ou avós que se queixavam
demasiadamente – e não querem ser iguais a eles. Deus os livre de jamais serem chorosos e ranhetas
como a tia Eloise.
Os coviciados em infelicidade – pessoas que cresceram na companhia de um parente negaólatra –
têm aversão aos queixosos. A última coisa que querem é tornar-se um deles, o que os leva a negar
seu próprio negativismo. Infelizmente, eles não podem ser outra coisa senão viciados em
infelicidade, pois as crianças aprendem aquilo com que convivem.
Lembre-se de que os vícios se ocultam na negação. O negaolismo não é exceção. Isso não é
divertido. Enquanto muitos vícios prometem (e entregam) prazer, no começo, o vício da infelicidade
não o faz. Quando confrontados com a natureza habitual de seu comportamento, os negaólatras
reagem defensivamente. “Como poderia eu ser viciado em infelicidade? Eu não gosto de ser infeliz,
ora!” É verdade. Eles não gostam. Mas o sentir-se infeliz é algo familiar e, portanto, reforça a
confiança.
Leslie, uma esteticista de 50 anos de idade que está tratando seu negaolismo, fez essa irônica
confissão: “Por anos, eu reclamei do negaolismo de minha mãe! No entanto, literalmente, eu fiz de
mim mesma uma pessoa infeliz por conta da infelicidade de minha mãe.”
Negaolismo básico
O negaolismo é um processo aditivo profundo que envolve:
• evitar tudo o que seja positivo ou prazeroso – fenômeno também conhecido como anorexia de
prazer;
• buscar, de maneira inconsciente, a crítica, a traição, a rejeição, a culpa – qualquer coisa negativa
ou dolorosa;
• dar um significado negativo a eventos neutros ou até mesmo positivos;
• ficar preocupado com insultos presentes e passados;
• reclamar para aliviar sentimentos desconfortáveis, em vez de buscar lidar com o problema que
causou o desconforto.
Você não gostaria de ter esse vício? Pergunto para grupos de pessoas que sofrem de variados
vícios e de combinações de dependências (alcoolismo e dependência de drogas aliados à desordem
alimentar, por exemplo) se alguma delas gostaria de trocar de sintomas com um viciado em
infelicidade. Ninguém jamais se apresentou como voluntário.

Anorexia de prazer
Viciados em infelicidade obtêm prazer evitando o prazer. O termo bulimiarexia, que corresponde à
autoprivação de alimento alternada com episódios de condescendência seguida de devolução da
comida ingerida, é uma metáfora apropriada para o vício da infelicidade. Viciados em infelicidade
privam-se da alegria do convívio social e passam pela condescendência seguida da eliminação por
meio de queixas e de busca pela simpatia alheia. Eles se contentam com as migalhas da autopiedade
e com a pena que os outros sentem deles, quando poderiam estar se esbaldando com a fartura dos
relacionamentos positivos. E fazem isso inconscientemente. Eles podem ter uma noção vaga de que
algo está errado, mas não sabem o que fazer a respeito.

Atração para a dor


A atração do mártir para pessoas abusivas é lendária. O indivíduo com propensão a se fazer de
vítima prefere relacionar-se com “gente ruim”, pois as pessoas boas e normais não são excitantes.
Inexoravelmente atraídos a moças e rapazes perversos, os viciados em infelicidade parecem não
entender por que seus relacionamentos sempre terminam em desastre. Não podem imaginar por que
as mesmas coisas acontecem com eles repetidas vezes.
Alguns viciados em infelicidade são atraídos a vocações ou distrações perigosas, dolorosas ou
estressantes como o vício em trabalho, o perfeccionismo, o exercício compulsivo e excessivo, etc.
Outros infligem dor a si mesmos por meio da automutilação ou escolha de parceiros que abusam
deles fisicamente, sexualmente ou psicologicamente. Obviamente, não fazem isso de maneira
consciente ou deliberada.

Obsessão com insultos – reais ou imaginários


Os viciados em infelicidade são sujeitos a uma variação da lei de Murphy: se alguma coisa pode
ser mal-entendida ou mal-interpretada, essa coisa será mal-entendida ou mal-interpretada. Lembra-se
da inclinação negativa do cérebro? Um bom viciado em infelicidade é capaz de mapear uma série de
possíveis interpretações para as palavras ou os atos de alguém, e, em exatos três segundos, sair com
o pior significado possível. Uma vez que os negaólatras têm apenas um banco de dados negativo para
fazer retiradas, essa interpretação é inevitável.
No ápice de minha carreira de mártir, compareci a um evento social onde interpretei o cumprimento
do anfitrião como uma sutil declaração de rejeição. Embora nossas relações estivessem meio
estremecidas, ela me havia convidado para um piquenique. Quando cheguei, ela cumprimentou-me
dizendo que os outros convidados estavam no quintal. Presumindo que ela não queria que eu ficasse
na mesma sala que ela, fiquei ofendida e saí bufando para o quintal. Dado o meu estado mental, não
havia nada que ela pudesse dizer ou fazer para deixar-me contente. Francamente, eu até entenderia se
ela não quisesse ficar comigo na mesma sala, pois eu era demasiadamente infeliz.
Recentemente, alguém igualmente interpretou mal minhas ações. Uma tarde, ao dar uma aula sobre
educação de adultos, fiz um gesto ao acaso na direção do lado esquerdo da classe. Momentos depois,
uma aluna que estava sentada naquele lado acusou-me de ter dirigido meus comentários a ela. A
garota sentiu-se traída. Fiquei muito chocada com isso. Certamente tenho culpa em alguns crimes
maiores, mas, naquela ocasião, eu era totalmente inocente. Finalmente, compreendi como minha
paranoia deve ter afetado as pessoas ao meu redor.

Reclamações fúteis
Fred desenvolveu o hábito de manifestar sua raiva de um modo passivo-agressivo no trabalho. Ele
reclama dos erros de seus colegas para outros empregados em vez de falar com as pessoas
envolvidas. Queixar-se para uma terceira pessoa reduz a intensidade dos sentimentos reprimidos o
bastante para que não se trate do assunto diretamente. Fred desperdiça tanta energia emocional
enquanto reclama que não consegue mobilizar assertividade o suficiente para tratar da questão
diretamente, no momento adequado. Fazer queixas e reclamar com seus colegas, em vez de falar
diretamente com a principal parte envolvida, é uma parte do interminável problema de Fred.
Cassie, que é casada com um dependente de sexo por 16 anos, cometeu o mesmo erro. Aqui está a
descrição que ela faz do seu caso:

Por conta da dependência do meu marido, minhas emoções acumuladas se intensificavam a cada
dia que passava – igual ao vapor de uma panela de pressão. Como uma bondosa esposa cristã,
pensava que era errado fazer comentários ou queixas sobre o meu marido. Mas a dor e a raiva
dentro de mim estavam lentamente destruindo minha vida.
Quando não pude mais suportar aquele estresse, procurei uma senhora muito querida para, em
confiança, abrir-lhe meu coração. Ela ouvia-me com empatia, aconselhava-me e orava comigo.
Depois disso, senti-me melhor. Aquelas sessões despressurizavam a intensidade de uma crise
imediata. Eu saía de lá aliviada, resignada, determinada a suportar como antes a mesma insanidade.
Assim, voltei para mais um round da batalha, orgulhosa de mim mesma por ter achado uma maneira
de continuar a viver com aquela situação intolerável. Ao longo do nosso casamento, esse quadro se
repetiu muitas e muitas vezes.

Os viciados em infelicidade que saem por aí colocando para fora suas frustrações diante de
simpáticos ouvintes podem até não perceber, mas, ao desarmar seus sentimentos dessa maneira, eles
dissipam a energia necessária para criar mudanças capazes de corrigir a situação que causou o
sofrimento! Mais cedo ou mais tarde, eles terão que decidir quanta energia querem gastar em queixas
fúteis. Talvez eles pudessem canalizar um pouco dessa energia para a solução criativa de problemas
ou para uma saudável imposição de limites. Mas isso seria muito fácil e eficaz. Lembre-se do
conselho de Charlie Brown: “Se quiser obter alguma alegria da sua depressão, é assim que você tem
que ficar de pé.”
No capítulo seguinte, veremos como os mártires agem para mostrar sua dependência da
infelicidade. Aperte os cintos, pois o assunto não é nada agradável. Enquanto isso, arme-se com o
claro conhecimento de que ninguém, não importa o quão melancólico e “para baixo” seja, deseja o
vício da infelicidade para si. As pessoas caem de maneira natural no negaolismo. Por isso mesmo é
que merecem uma grande dose de empatia e de respeito humano.

Esperança Para Hoje


Não faz muito tempo, vi o título de um livro que proclamava o fato de que a felicidade é uma
escolha. Pode ser uma opção para algumas pessoas, pensei, mas para mim, não é. Não faz sentido
ficar tentando ser alegre e divertido! Eu sabia como fazer de mim mesma alguém asquerosamente
infeliz, mas não sabia como invocar uma atitude positiva. Depois disso, encontrei um grupo de
pessoas que entendiam como era estar enjauladas em uma “cidade de negativismo”. Eles não me
espancaram por ser tão negativa, mas me asseguraram que era possível mudar. E eles estavam certos.

Autoanálise
1 .Você consegue ver como as circunstâncias anteriores sobre as quais Ned não teve controle moldaram sua personalidade? Faça uma
lista de três traços de personalidade positivos e outros três negativos que ele desenvolveu como resultado de influências exercidas
durante sua infância. Como a experiência de Ned se compara às situações da sua própria infância?
2 . Pense em uma ocasião, ao longo de sua juventude, em que a atenção e aprovação de alguém fez você sentir-se bem consigo
mesmo. Tente relembrar aquele sentimento e desfrute alguns momentos de gratidão para com a pessoa que lhe deu aquele presente.
3 . Comemore o que existe de positivo. Faça uma lista de cinco a dez das suas características mais admiráveis.
4 . Elimine o que existe de negativo. Visualize alguém que, seja por palavras ou por ações, diminui seu valor. Escreva uma declaração
para refutar a opinião ou ação dessa pessoa. Por exemplo: “Quando eu tinha cinco anos de idade, você me disse que eu não servia
para nada, tio Harry. Você estava errado. Eu sou uma pessoa bondosa, prestativa e generosa.” Ou então: “Quando você me disse que
eu não ia dar certo para nada, Sr. Black, eu acreditei no senhor. Mas o senhor estava errado, pois sou uma pessoa de valor.”

1 Hara Marano, “Our Brain’s Negative Bias”, Psychology Today, 20 de junho de 2003.
Ainda estou por ver algum problema, por mais complicado que seja, o qual, ao ser visto da
maneira certa, não fique ainda mais complicado.
Paul Anderson

E xiste um personagem no desenho animado O Ursinho Puff que é o negativismo


personificado: Bisonho, o burrinho pessimista. Bisonho é o protótipo do viciado em
infelicidade. Ele vê o lado negativo de tudo. Se vai haver um piquenique, ele diz que vai chover.
Quando o vento sopra, ele tem certeza de que sua casa vai cair. Se vão dar uma festa na Floresta dos
Cem Acres, ninguém vai convidá-lo. Ele não merece coisas boas. Ele não vale muita coisa. E assim
por diante. Bisonho nunca esgota os motivos para ser infeliz.1 E nem os demais viciados em
infelicidade.
Vamos dar uma olhada no modus operandi de um mártir.

Supondo o pior
Supor o pior é o que os mártires fazem de melhor. Eles esperam o desastre, antecipam a
infelicidade, esperam ser abusados ou abandonados e assumem a ideia de que todos estão contra
eles. Eles sabem exatamente qual é a motivação dos outros, pois possuem uma misteriosa capacidade
de ler as mentes. E nunca erram! O problema é que eles acreditam em suas suposições e agem de
acordo com elas. Um grande erro! O antídoto: Pare de confiar no seu pensamento.

Absorvendo a censura e a culpa


Muitos mártires acham que merecem ser maltratados e, quando isso acontece, culpam a si mesmos.
Ficam, então, obcecados com o que fizeram para originar o abuso, para saber, assim, como evitar que
o mesmo erro se repita. Isso os coloca à mercê de pessoas abusivas e os mantem presos no ciclo da
violência física e verbal.
Esses abusadores sempre se comprazem em pôr a culpa na vítima para justificar o delito. As
vítimas nunca acertam, mas continuam tentando. Sua disposição de aceitar a culpa e continuar
buscando aprovação (implorando pelas migalhas da mesa de seus senhores) é que acaba atraindo
gente perversa. Abusadores mais espertos sabem que uma boa vítima vai tolerar quase tudo e nunca
irá embora. As vítimas são mantidas como reféns dos ofensores por seu próprio sentimento de culpa
e abandono. Veja como isso acontece:
Quando uma criança é abusada física ou psicologicamente, o abusador (ou abusadora) normalmente
insiste em que ela fez algo para merecer aquilo. A criança indefesa aceita a culpa e passa a carregar
um fardo de vergonha que não lhe pertence.
Um elemento que recusa reconhecer seu ato vergonhoso precisa pôr a culpa em alguém. Então, ele a
descarrega em sua vítima, que obedientemente a aceita, passando a ver a si mesma como tola,
estúpida, sem valor e problemática. É quase impossível convencer pessoas assim de que não são
tolas, estúpidas e problemáticas. Pode acreditar! Já tentei. Apelar para a razão com um viciado em
infelicidade e tentar mudar suas autopercepções negativas é como tentar roubar uma bola das mãos
de um experiente jogador de futebol americano.

Restabelecendo a “disciplina” severa


Você já ouviu um grupo de adultos sem filhos especular sobre as causas da delinquência juvenil em
nossa sociedade? Com frequência, eles põem a culpa na falta de disciplina. Ao colocarem a
disciplina e o castigo físico no mesmo patamar, eles teorizam que, se os filhos sofrerem castigos
físicos com mais frequência, terão um melhor comportamento. As pesquisas não endossam essa
teoria. Na realidade, ocorre justamente o contrário. Tratamento duro gera tratamento duro! Se a
disciplina é entendida como o ato de disciplinar – ensinar, guiar – então posso concordar com o fato
de que as crianças precisam dela. Mas se for considerada punição, tenho que discordar. Estou
convencida de que punir os filhos violentamente e deixar de guiá-los com gentileza são as causas
básicas da fúria, da violência, do abuso do cônjuge e dos filhos, dos vícios, das dependências e da
mentalidade de vítima.
Devo mencionar que os efeitos da violência verbal podem ser tão profundamente prejudiciais
quanto os efeitos da violência física. “Problemas de autopercepção e autoaceitação, de
relacionamento com outros e de cosmovisão em adultos podem ser entendidos como consequências
lógicas de maus-tratos durante a infância. [...] Muito (se não a maior parte) do que pensamos ser uma
psicopatologia em um adulto, reflete, na verdade, reações de longo prazo ao abuso infantil.”2
Já estabelecemos que muitos ofensores de cônjuges ou de filhos racionalizam seu comportamento
acusando a vítima de ter-lhe provocado a raiva. Mesmo se uma vítima realmente despertar a ira do
ofensor, isso não justificará o espancamento! Não quer dizer, tampouco, que as vítimas não sejam
responsáveis pela sua parte no problema se, de fato, provocaram o parceiro. A provocação verbal
não é algo correto, mas ela não justifica o abuso como resposta. Ninguém leva outra pessoa a agir
violentamente. E ninguém merece ser abusado, não importa quão ruim for o seu comportamento.
Crianças malcomportadas, como também adultos desencaminhados, merecem ser guiados e
orientados de maneira amável e gentil – não ser abusados.
A propósito, o conceito bíblico de não poupar a vara aos filhos é uma alusão à vara que os pastores
usavam para proteger suas ovelhas dos animais selvagens. Em minha opinião, o ideal bíblico é
proteger os filhos dos males que os ameaçam e não espancá-los por seus feitos ruins.
As crianças que sofrem maus-tratos frequentemente desenvolvem uma mentalidade de vítima da
qual é difícil livrar-se. Crianças malcomportadas precisam ser tratadas como cordeiros inocentes –
protegidas ferozmente, guiadas e corrigidas com gentileza e respeito. Um exemplo clássico da
irracionalidade da punição física é o do adulto que dá um tapa no filho para ensiná-lo a não bater no
irmão!
Há uma enorme diferença entre a prática prejudicial de bater nos filhos para discipliná-los e a
saudável prática de estabelecer limites claros e empregar as consequências naturais para ensinar-
lhes o comportamento apropriado. Infelizmente, muitos pais se justificam com as expressões “que
vergonha, é culpa sua, você fez por merecer,” que são um álibi culturalmente aceitável para o abuso
de filhos em muitos sistemas sociais. Muitas vítimas ou mártires aceitam e reciclam essa atitude na
criação dos próprios filhos, perpetuando, dessa forma, o problema.

Aceitando o inaceitável e tolerando o intolerável


É impossível descrever a frustração da família de um viciado em infelicidade. É como escrevi no
meu livro Never Good Enough: Growing Up Imperfect in a “Perfect” Family [Nunca Está
Suficientemente Bom: Crescendo Imperfeito em uma Família “Perfeita”]: “Nunca vi fúria como a de
uma criança que passou anos vendo sua mãe afundada na impotência da autopiedade, lamuriando-se
pela maneira como o marido alcoólatra negligencia sua família. [...] Ela se queixa constantemente,
mas continua a tolerar comportamentos intoleráveis. Ela é como um capacho em que se lê: “Bem-
vindo!” Sua posição é certamente dolorosa, mas, por conhecer apenas essa realidade, ela a aceita
como sua sina e nada faz para mudar.”3
Os filhos que presenciam adultos tolerando comportamentos intoleráveis aprendem a desempenhar
o papel de vítima. Agindo como atores substitutos, eles imitam o comportamento da vítima e decoram
o script dela, passando a representar o mesmo papel (de vítima). Alguns chegam a aperfeiçoar a
representação original, desempenhando sua parte ainda melhor do que seu modelo jamais o fez, isto
é, com mais habilidade e maior autodestrutividade.
Creio que é direito de cada menino e menina ter um lugar seguro neste mundo. As crianças a quem
não se proveu um lugar assim passam a entender que não devem merecê-lo – que não são dignas de
proteção. Essa ideia errônea passa a ser parte de sua cosmovisão. A assim chamada mentalidade de
vítima é carregada de enganos, dos quais não é fácil livrar-se.

Preocupação sem fim


Inconscientemente, os viciados em infelicidade procuram circunstâncias problemáticas com que se
preocupar. Eles fazem declarações como: “Estou morrendo de preocupação,” ou “adoeci de
preocupação”. Tais frases são mais do que simples metáfora! Eive, uma supervisora de enfermagem,
fez um interessante comentário com uma de suas colegas: “Quando criança, minha mãe repetia uma
frase sofrida: ‘Estou afundada nas profundezas.’ Agora, eu estou tendo problemas para livrar-me da
minha habitual atitude negativa que ‘peguei’ da minha mãe.”
Ficar remoendo as preocupações reforça o pessimismo do negaólatra. Em alguns casos, ele pode
ter boas razões para preocupar-se. A legitimidade de seu problema não é o problema. O problema é
o extremo aonde chega essa ruminação e as consequências que isso traz. A aflição emocional cria
ansiedade, que acaba ficando registrada no corpo. A ansiedade crônica prejudica a saúde. Quanto
mais a pessoa fica “remoendo” o problema, mantendo-o na sua cabeça em busca da solução, maior é
o estresse. E quanto maior o estresse, maior a ansiedade. Cuidado, estou ficando tonta!
Um exemplo da conexão mente/corpo é a já reconhecida ligação entre asma e distúrbios associados
à ansiedade. Pesquisadores da Universidade Columbia sugeriram recentemente, no American
Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, que pessoas que sofrem distúrbios associados a
estresse pós-traumático são duas vezes mais propensas à asma.4
O Dr. Edward Hallowell, psiquiatra, autor e professor da Escola de Medicina da Harvard, acredita
que a preocupação pode dominar o cérebro do indivíduo e induzi-lo a um transe tóxico.5 Um estado
obsessivo é um estado alterado de consciência.
A fixação das pessoas tem uma base psicológica. Ela começa quando uma parte do cérebro (a
amígdala) percebe algum perigo e envia um alarme para outra parte do cérebro (o córtex pré-frontal).
O córtex pré-frontal começa a analisar o problema e cria um circuito, o qual passa a reverberar entre
os dois e é de difícil interceptação.6 Sim, senhor, nós, os viciados em infelicidade sabemos tudo a
respeito do problema! Somos presas do ciclo do descontentamento.
A ansiedade tem um efeito adverso sobre nosso bem-estar social. Quanto mais alto o nível de
tensão, maior a possibilidade de que nos comportemos de maneiras autodestrutivas. As preocupações
deixam as pessoas em seu pior estado – não no melhor.
Pessoas normais, que reconhecem a futilidade das preocupações, conseguem parar em um
determinado ponto, mas os viciados em infelicidade não conseguem parar. Se eles não têm alguma
coisa pessoal para lhes atormentar, eles se preocupam de maneira vicária, ou seja, ficam obcecados
com os problemas dos outros. Se não conseguem achar alguma coisa no ambiente próximo a eles para
se aborrecerem, vão se arrumar com a moral do presidente, com a gramática do pastor ou com a
condição geral da sociedade.
Você já assistiu a uma negatona (maratona de negaólatras) ao estilo antigo? Quando um grupo de
mártires se reúne para uma sessão de autocomiseração, eles podem gastar um bocado de tempo e
energia execrando a condição da sociedade. Eu costumava me regozijar com esses banquetes de
preocupações. Hoje em dia, bato em retirada assim que ouço alguém dizer: “Onde esse mundo vai
parar?”
Outro dia, estava comparando anotações com alguns companheiros de vício quando um deles
sugeriu que tivéssemos uma sessão de brainstorm sobre como preocupar-se melhor. Criamos uma
lista-mestre de coisas que nos deixam preocupados e obcecados de modo a não perder mais tempo
gerando problemas novos todos os dias. Ver apêndice B para uma “Lista Exaustiva (e Cansativa) de
Coisas para Deixá-lo Preocupado ou Infeliz.”

Colecionando ressentimentos
Os mártires nunca esquecem um insulto. Eles podem contar repetidas vezes cada detalhe muito
depois do fato ocorrido: o dia da semana e a data, a maneira como o ofensor estava vestido, onde
estava assentado e o que disse. Como sugeri anteriormente, existe uma explicação bioquímica.
Quando acontecem eventos traumáticos como o assassinato do presidente Kennedy ou a morte de
Elvis Presley, nosso cérebro é inundado de substâncias químicas que imprimem detalhes daqueles
fatos de maneira mais profunda na memória da que ocorre nos traumas “normais”. Eles ficam
gravados em nossa mente, criando, às vezes, “buracos” que são quase impossíveis de consertar.7
Muitas pessoas lembram precisamente onde estavam e o que estavam fazendo quando viram na
mídia as primeiras imagens dos aviões atacando o World Trade Center, em Nova York. Algumas
pessoas registram e gravam experiências menos dramáticas da mesma maneira.
Outra razão para os viciados em infelicidade poderem se lembrar de coisas negativas tão
claramente é o fato de que eles a repetem o tempo todo em sua mente. Sandy fez a seguinte confissão
para seu padrinho do programa Emoções Anônimas: “Fico obcecada por todas as coisas terríveis
que me aconteceram, até que me sinto tão mal que passo a me sentir bem.” Essa percepção lhe
ocorreu como resultado de seu trabalho na EA.
Logo que entrou para participar do programa, Sandy estava muito mal. Seu esposo havia pedido o
divórcio depois de estarem casados por 15 anos. Seus filhos eram rudes e mal-agradecidos. Suas
finanças eram um desastre. Ela era motivo de risadas em seu círculo social. Dez meses mais tarde,
pela graça de Deus e com o apoio de seus colegas de recuperação, é difícil reconhecê-la como
aquela mulher amargurada do passado.
No momento em que um mártir conhece alguém, ele mal pode esperar para contar-lhe a história
patética do dia. É o quebra-gelo habitual. Ele preenche os vazios do diálogo com queixas
dramatizadas e efeitos sonoros apropriados – gemidos, grunhidos, lágrimas e choramingos. Seus
amigos já ouviram tanto suas histórias chorosas que podem recitá-las palavra por palavra. Alguns
deles já estavam calejados. Quando ela começava a falar, eles reviravam os olhos e se retiravam.
Pam é um caso à parte. No minuto em que acorda, pela manhã, ela cataloga suas dores e seus
sofrimentos de modo que esteja pronta a dar uma descrição detalhada para a primeira pessoa que
encontre. No café da manhã, ela responde ao amigável “tudo bem, mãe?” do filho adolescente com
um gemido. Ela não dormiu bem. Está exausta, e a dor no ombro piorou. Enquanto mastiga seu cereal,
Pam pensa de forma obsessiva em sua lista de coisas para fazer. Um problema ainda não resolvido
lhe perturba a mente, juntando-se à massa amorfa que já dá voltas em sua cabeça. Seu rosto adquire
uma expressão preocupada. Como se ouvisse sua deixa, seu esposo pergunta o que há de errado. Ela
começa então um rosário de queixas. Quando levanta o rosto, o marido já desapareceu. Dá para
entendê-lo.
Uma mulher, dona de casa, foi traída por seu companheiro. Todos ficaram sabendo da infidelidade
dele. Não é que todos na igreja ou na comunidade não soubessem do escândalo e precisassem ser
informados. No entanto, o único assunto do qual ela falava era o da traição do marido. Anos depois
do divórcio, ela continuava sua campanha de desacreditá-lo. Os amigos dela ficaram tão cansados de
ouvir seus delírios sobre os pecados do ex-marido que começaram a evitá-la. Sua atitude se refletia
até mesmo na aparência: ela ficou parecida com caqui marinado em sumo de limão.
Naturalmente, é preciso reconhecer que uma traição pode mudar a vida da pessoa traída para
sempre, e essa pessoa pode reexperimentar a traição cada dia que passa.8 De acordo com o Dr.
Hallowell: “Quando as pessoas ficam emocionalmente afligidas por um evento, [...] elas podem
nunca esquecê-lo ou colocá-lo de lado. Para elas, torna-se impossível ‘melhorar’ completamente
porque seu cérebro mudou, ficando marcado pela experiência por que passaram.” No entanto, ele
acrescenta uma nota que pode ajudar: “O cérebro que foi mudado de modo negativo pode mudar
novamente de maneira positiva.”9 Graças a Deus por isso!
Mãe e dona de casa, Renee admitiu para sua melhor amiga que havia desenvolvido o hábito de
guardar os relatos dramáticos sobre os eventos do dia para contar para o marido ao ele chegar em
casa à noite, vindo do trabalho. Quando percebeu que tudo o que dizia era tingido de negatividade,
ela decidiu tentar contar-lhe apenas as boas notícias. “Descobri que era quase impossível ser
positiva. Foi ali mesmo que fiquei sabendo que eu era uma viciada em infelicidade.” Depois disso,
Renee matriculou-se em um programa de recuperação, e hoje é uma das pessoas mais positivas que
conheço – um maravilhoso lembrete de que a recuperação é possível.

Carentes de atenção
Existe algo que distingue os mártires. Eles exibem uma expressão dolorosa no rosto, o sorriso é
pouco mais que uma careta, a testa está sempre franzida, os ombros ficam curvados, e estão sempre
com enxaqueca. Em sua peça The Great White Hope [A Grande Esperança Branca], Howard Sackler
descreve esses indivíduos como “rostos espremidos expelindo infelicidade”.10

Atraindo perseguição
A mente do mártir parece atrair os mísseis dos ofensores. Eles não se sentem bem a menos que lhe
façam mal. Desapercebidamente, eles predispõem seus amigos, parentes, chefes, colegas e até os
estranhos a persegui-los. Seu modo de agir é um apelo para que as pessoas em sua volta lhes façam
mal, de maneira que se sintam bem (se é familiar, então é confortável).
Relacionar-se com viciados em infelicidade pode ser algo extremamente difícil.11 Se você é desses
que gostam de agradar sempre, nem pense em casar-se com um mártir! Qualquer um cuja autoestima
dependa da aprovação do cônjuge ficará maluco na companhia de um mártir, pois o único jeito de
satisfazê-lo é com ofensas. A única maneira de agir certo é fazer o que é errado. Isso é de
enlouquecer. Tenho visto muitos parceiros de viciados em infelicidade perguntarem-se, perplexos,
como puderam ficar mais uma vez com a pecha de vilões. A certa altura, eles começam a ter dúvidas
sobre sua própria sanidade mental.

Mendigando simpatia
Os mártires sofrem em silêncio para evocar a simpatia dos outros. Poucos percebem que se trata de
um artifício. O comportamento deles é tão sutil que nem eles conseguem perceber o que estão
fazendo. Diane, uma professora do ensino médio, fez esta sincera declaração: “Quando eu era uma
ativa viciada em infelicidade, meu constante desafio era arrumar meu rosto de tal maneira que os
outros notassem minha infelicidade e perguntassem o que havia de errado, de maneira que eu pudesse
me lamuriar sem punição.” As pessoas que testemunham esse tipo de comportamento reconhecem
inconscientemente que estão sendo manipuladas e desenvolvem uma urgência inexplicável de ir até a
garagem ou organizar as gavetas da cômoda.

Fingindo estar desamparado


Poucos viciados em infelicidade são capazes de pedir aquilo que precisam de maneira direta. Em
vez disso, encontram alguém com os recursos que estão buscando, seja tempo, dinheiro, ou alguma
habilidade, e ficam o mais próximo possível daquela pessoa. Então, em alto e bom som, falam sobre
todas as suas preocupações.
Quando a dona Sara nota que a despensa está vazia, em vez de aproximar-se de alguém que pode
ajudar e pedir-lhe de forma direta, ela choraminga em voz alta para uma outra pessoa: “Olha, eu nem
sei mais o que fazer. Meu marido perdeu o emprego, e eu servi as últimas migalhas de pão que tinha
na janta de ontem.” Se sua representação for suficientemente convincente, o benfeitor puxará a
carteira antes que a dona Sara chegue à metade do seu discurso. Muitas pessoas prósperas conhecem
bem esses mártires lamurientos. Eles revelam que, se aquela alma oprimida estivesse de cabeça
erguida e pedisse o que necessita sem se rebaixar, eles não se incomodariam. Mas, ao ela assumir
uma postura de derrotada, ao se posicionar perto do benfeitor em potencial e começar a falar bem
alto, o ouvinte sente que está sendo manipulado. Isso é degradante tanto para a pessoa necessitada
como para o doador escolhido. Não é nenhuma vergonha passar necessidade, mas é melhor pedir
ajuda sem perder o respeito próprio!

Cuidar de outros e, então, queixar-se


Alguns viciados em infelicidade sentem-se compelidos a resgatar e a consertar os outros em
detrimento de si mesmos, de seus familiares e até das pessoas a quem estão ajudando! Chamamos
isso de fazedores do bem compulsivos. Sua benevolência pode ser uma maneira sutil de jactarem-se.
Os mártires trabalham exageradamente e, depois, exibem sua exaustão na manga como um distintivo
de honra. Patsy, a cuidadora anteriormente descrita, e Grace, a amistosa senhora da igreja, são
exemplos perfeitos.
Autocastigo, abnegação e autossabotagem
Os viciados em infelicidade são facilmente reconhecidos por suas atitudes de “coitadinhos.” Eles
transmitem paranoia e insegurança. Eles se autocensuram e utilizam linguagem autodegradante. Eles
suspiram, parecem patéticos, agem como se estivessem desamparados e negligenciam o cuidado
pessoal. Julgam a si mesmos sem nenhuma misericórdia, espancam-se, ficam o tempo todo
desculpando-se por seu comportamento, recusam aceitar o perdão de Deus e dos homens, adoecem e
não procuram cuidados médicos, não cuidam de suas necessidades humanas mais básicas e esperam
que os outros cuidem delas. Seria engraçado se não fosse tão triste. Talvez eu possa ver graça nisso
agora, pois comecei a mudar. Obviamente, a descrição acima é um autorretrato. Eu sou a mísera
criatura original. Você já devia ter suspeitado.
Os viciados em infelicidade têm maneiras perversas de sabotar a si mesmos – atirando no próprio
pé. Eles procrastinam, recusam-se a estabelecer metas realistas e não planejam, o que acaba sendo
um empecilho para suas ambições. Eles expressam sua raiva dos outros magoando a si mesmos ou
sacrificando-se indevidamente, o que é outra forma de autopunição ou autonegligência. Dar mais do
que se pode em termos de dinheiro, tempo ou esforço é um suicídio físico e emocional.
Quando nossos filhos eram jovens, meu marido e eu nos sacrificávamos tanto que eles hesitavam
em pedir-nos o que eles precisavam, pois não queriam causar-nos mais estresse. Embora o espírito
de abnegação seja um traço admirável, ele pode também mascarar o egotismo. Alguns fazedores do
bem compulsivos usam as pessoas como objetos com quem praticam seus atos de virtude. E quando é
que você sabe que está fazendo isso? Estudaremos a diferença entre o cuidado saudável e o “tomar
conta” prejudicial no capítulo 8.

Expressando sentimentos de maneira passiva e agressiva


Os negaólatras deixam escapar seus sentimentos de maneira oblíqua, na forma de um
comportamento passivo-agressivo. Derek, um jovem empreiteiro, deu à sua esposa, Terry, algumas
incumbências em uma tarde em que ele estava sobrecarregado de trabalho. Quando Terry respondeu
que estava muito ocupada, ele tentou conquistar sua simpatia. Ela não respondeu como ele desejava,
e ele passou a acusá-la de não dar valor ao fato de que era por ela que ele trabalhava tão duro. Terry
era agradecida por isso, mas não tinha nem tempo nem energia para carregar os fardos do marido.
Com ar irônico, Derek acrescentou: “Eu achava que uma esposa amorosa gostasse o bastante do seu
marido a ponto de ajudá-lo.” Terry manteve sua posição. Derek passou a agredi-la verbalmente.
Quando nem isso a intimidou, ele perdeu as estribeiras e começou a empurrá-la.
Os métodos empregados por Derek, em ordem ascendente, foram: dar pistas, reclamar, causar
vergonha, falar com sarcasmo e empregar violência física. Por nunca ter sido ensinado de outra
forma, não surpreende que tenha usado essas táticas. Ele não sabia como aceitar um “não” como
resposta sem levar aquilo para o lado pessoal. Levar para o lado pessoal é um sintoma importante do
vício em infelicidade.

Autocomparação desfavorável
Para o negaólatra, comparar-se com os outros é um “barato” garantido. Janis compartilhou esse
dilema com seu grupo de estudos bíblicos: “Eu desenvolvi o hábito de comparar-me
desfavoravelmente com meus colegas desde pequena. Obcecada com minha aparência, comecei a
olhar para as outras meninas de maneira competitiva aos dez anos de idade. Até hoje, quando olho
para outra mulher, sempre me comparo com ela. Acho que ela é mais magra, mais bonita, mais bem
vestida ou mais inteligente que eu. Não consigo aceitar-me como sou nem aos outros como eles são.
Não consigo relacionar-me com eles, pois estou muito ocupada colocando-me para baixo!”
A luta de Janis não é incomum nem confinada às pessoas que conhecemos no dia a dia. Repare
nessa declaração feita por uma artista muito atraente e conhecida: “Olho para a Liv Tyler e penso:
‘Isso não é justo’, pois não consigo encontrar sequer um defeitinho nela. E, além de tudo, ela é
supersimpática.”

Martírio: um comportamento que se aprende


Os mártires não têm escolha a não ser fazer o que sempre fazem. Suas atitudes, crenças e seus
comportamentos negativos são aprendidos durante a infância e tornam-se profundamente arraigados.
Mas é possível mudar. Mark, casado e pai de três filhos, é uma testemunha disso. Embora se
comporte razoavelmente bem no trabalho, ele regride para um adolescente imaturo, facilmente
ameaçado, quando está em casa. Por que isso? Ao crescer na companhia dos pais – ambos
alcoólatras ativos – e do irmão viciado em drogas, Mark foi severamente abusado e negligenciado.
Um especialista declarou que filhos que não recebem carinhoso cuidado dos pais nunca se tornam
adultos. Uma vez que Mark não recebeu quando pequeno educação e cuidados adequados, ele
continuou a ser uma criança imatura, dentro de um corpo de adulto.
Mais tarde, ele percebeu que seu comportamento fora de controle estava sendo um mau exemplo
para seus filhos. Ele sentia-se muito mal pelo estresse que causava a sua esposa. Temendo que ela
perdesse a paciência e o deixasse, ele, de maneira sincera, tentou mudar, mas não teve sucesso.
Desesperado, Mark consultou um terapeuta, que recomendou-lhe que iniciasse imediatamente um
programa de tratamento de longo prazo para que, assim, pudesse lidar com seus acessos de fúria.
Após um período internado, ele continuou as sessões de aconselhamento em consultório e também
participou de reuniões dos Doze Passos, bem como de um grupo de gerenciamento da raiva que se
reunia uma vez por semana.
Mark estava disposto a ir até onde fosse necessário para romper seus padrões de comportamento
negativo. Inspirado pelo seu exemplo, pelo menos outros treze membros de sua família e parentes
buscaram aconselhamento ou tratamento, e iniciaram sua própria jornada em busca da saúde e da
plenitude. A cura pessoal de Mark está sendo passada para a terceira e quarta gerações. Isso ilustra
algo em que sempre acreditei: o vício e a codependência são doenças contagiosas. Mas a
recuperação também é contagiosa!

Esperança Para Hoje


Passei muita vergonha refletindo sobre meus dias de glória como viciada em infelicidade. Um
habilidoso terapeuta ensinou-me a rir disso mandando-me dizer: “Estou muito, muito mal! Rá-rá-rá,
ré-ré-ré, ri-ri-ri” e repetir isso até que eu desse uma boa gargalhada. Fiz uma caricatura de mim
mesma correndo por todas as partes, implorando que as pessoas me deixassem cuidar delas para que
pudesse me sentir bem comigo mesma. No fim do dia, eu voltava para casa exausta, parecendo um
gato vira-lata que acabara de brigar com outro gato. Aquela imagem mental me fazia rir e chorar. Às
vezes, eu me retratava como uma menininha determinada que apenas tentava obedecer às regras.
Então me imaginava pegando aquela menina, colocando-a em meu colo e dizendo-lhe como ela era
boazinha. Depois, assegurava-lhe que não era preciso se esforçar tanto para fazer com que eu a
amasse.

Autoanálise
1 . Revise os comportamentos típicos dos negaólatras relacionados neste capítulo. Faça uma lista dos seus próprios comportamentos de
mártir.
2 . Volte à sua lista e acrescente os nomes das pessoas (ou pessoa) que modelaram esse tipo de comportamento em você. A seguir,
sorria e confirme o fato de que, embora não tenha sido sua escolha ser modelado negativamente, agora você pode mudar e crescer.
3 . Agora pode ser um bom momento para colocar este livro de lado por alguns dias e passar a integrar os fatos e os sentimentos que o
livro levantou em você, especialmente se os está enfrentando pela primeira vez. Durante esse intervalo, dedique dez minutos por dia
para fazer um diário sobre seus sentimentos.

1 A. A. Milne, Winnie-the-Pooh (Nova York: Dell Publishing, 1974), p. 84-102.


2 Lucy Berliner, em prefácio de Child Abuse Trauma: Theory and Treatment of the Lasting Effects, por John N. Briere (Newbury
Park: Sage Publications, 1992), ix.
3 Carol Cannon, Never Good Enough: Growing Up Imperfect in a “Perfect” Family (Nampa: Pacific Press, 1993), p. 125.
4 Amanda Gardner, “Vietnam Vets Study Links Asthma and PTSD”, HealthDay News for Healthier Living Web site,
http://www.healthday.com/Article.asp?Aid=610052. Acesso: 23 de novembro de 2007.
5 Edward Hallowell, p. 60.
6 Ibid., p. 59, 60.
7 Ibid., p. 64.
8 Edward Hallowell, p. 94.
9 Ibid., p. 64, 65.
10 Howard Sackler, The Great White Hope, citado em Melody Beattie, Codependent No More (Center City: Hazelden Foundation,
1987), p. 2.
11 Ver “Como Lidar com Queixosos Crônicos” no Apêndice F.
As pessoas ficam tão habituadas a preocupar-se que, se você as salva de um afogamento e traz a
um banco de areia para secarem ao sol e ainda lhes dá um chocolate quente com bolo, elas ficarão
preocupadas com a possibilidade de terem apanhado um resfriado.
John Jay Chapman

C omo é que os viciados em infelicidade ficam tão negativos? Quem os programa para ser
vítimas? Como uma sociedade, estamos começando a entender o alcoolismo, mas não temos
a menor noção do que seja o negaolismo. Viciado em infelicidade? Você está maluco? Isso não tem a
menor graça. E nem faz ninguém sentir-se bem. Quem bebe toma uma segunda dose de uísque porque
a primeira foi prazerosa, mas o negaolismo não causa o menor prazer. Ou causa? Será que sentir-se
mal faz algumas pessoas se sentir bem? Isso é exatamente o que acontece.
Uma pesquisa recente sobre o funcionamento do cérebro humano sugere uma explicação biológica
para o negativismo crônico. Cada vez que um mártir, ou viciado em infelicidade, pune a si mesmo,
ele libera peptídeos opiáceos no sistema – um poderoso fluxo de adrenalina que deixa a pessoa
maravilhosamente aterrorizada e com uma arrebatadora agonia.1 Sabe-se, já de algum tempo, que
existem fatores bioquímicos que contribuem para que uma pessoa seja vulnerável ao alcoolismo.
Hoje, já sabemos que o mesmo é verdade em relação ao negaolismo.
Isso quer dizer que os viciados em infelicidade estão fadados a ser infelizes pelo resto da vida?
Nada disso. De acordo com o Dr. John Ratey, professor e clínico de psiquiatria da Escola de
Medicina da Universidade de Harvard, as pessoas sempre têm a capacidade de remodelar seu
cérebro. Não somos prisioneiros nem dos nossos genes nem do nosso ambiente. É possível, ao longo
da vida, recompor os circuitos elétricos do cérebro humano.2
Não nos tornamos vítimas por causa de fatores hereditários nem por causa de nossa história
familiar. Se a Mãe Natureza nos pregou uma peça, ou a sorte conspirou contra nós, não podemos usar
a genética ou o ambiente como desculpa para continuarmos com nossa infelicidade! Podemos e
devemos fazer o que estiver ao nosso alcance para levar adiante a recuperação.

A evolução do negaolismo
O aprendizado social contribui para a formação de hábitos negativos. Existem várias maneiras de
criar um miniviciado em infelicidade: (1) seja um modelo de ansiedade e negativismo para seu filho
enquanto ele ainda for jovem; (2) deixe de demonstrar um conjunto saudável de limites, ensinando-o,
dessa forma, a fazer-se automaticamente de vítima; (3) seja física e psicologicamente abusivo e
negligente; (4) comece a sabotar sua autoestima fazendo-o passar vergonha indevidamente: e (5)
espere que ele ocupe o segundo lugar em relação às obsessões, compulsões e vícios dos pais.
Passemos a examinar essas cinco variáveis.

Sendo um modelo
Quando os filhos têm um pai, uma mãe, um avô ou uma avó que é um modelo de abnegação extrema
ou doentia, eles aprendem a sacrificar-se desnecessariamente. Fazedores de bem compulsivos obtêm
significado e identidade tomando conta de todo mundo, menos de si mesmos – muitas vezes em
detrimento de si próprios e de seus queridos. Eles consideram algo normal e até necessário esse
cuidado excessivo com os outros e não conseguem agir diferente, especialmente quando acham que o
bom comportamento é o bilhete de entrada para o sucesso, as riquezas ou a vida eterna. Eu falo por
experiência própria!
Aqui está um caso verdadeiro tirado do meu livro pessoal de erros. Alguns anos atrás, comecei a
fazer sozinha o trabalho de recuperação de uma alcoólatra em um momento em que ela estava
totalmente bêbada. Quando ela me ligou do bar onde se encontrava, a quilômetros de distância, saí
para buscá-la. Ela estava tão embriagada que, no caminho para casa, tentou saltar do carro enquanto
eu dirigia a noventa quilômetros por hora. Tive que atracar-me com ela para conseguir mantê-la
dentro do carro, que derrapava para um lado e para o outro, embora fosse a passageira – não a
motorista – que estivesse bêbada.
Naquele tempo, meus filhos ainda eram pequenos. Arrisquei minha vida, desconsiderando minha
própria segurança e o bem-estar dos meus filhos, que teriam ficado órfãos se o pior tivesse
acontecido. Meu comportamento foi tolo e inconsequente. Será que aprendi a lição? Claro que não.
A primeira vez que isso ocorreu, minha ingenuidade poderia até ser desculpável, pois eu sabia
muito pouco a respeito dos efeitos do álcool. Mas, quando a mesma coisa aconteceu outra vez, eu já
tinha uma ideia melhor sobre o que esperar. Apesar disso, de novo saí sozinha para resgatar a mulher
bêbada. Tive os mesmos resultados. Se me fizer de boba uma vez, você deve envergonhar-se. Se me
fizer de boba duas vezes, eu é quem devo envergonhar-me!
Uma vez que os mártires foram ensinados a machucar a si próprios para ajudar os outros, eles
persistem em resgatar e reparar as pessoas, mesmo quando percebem que eles mesmos, ou alguém
próximo a eles, podem se ferir. Temendo que lhes seja confiscado o direito de existir no presente ou
de receber a recompensa eterna se fizerem menos, eles vão em frente. Ao estar dispostos a dar a vida
por outro, estão levando um conceito bíblico positivo a um extremo pernicioso. É assim que nascem
os vícios e as dependências.
A família de Penny é um exemplo clássico. Seus pais, missionários, sacrificaram-se por uma causa
na qual verdadeiramente acreditavam. A sinceridade deles era inquestionável. Penny passou a
infância vivendo em condições primitivas em países do terceiro mundo. Quando adulta, ela escolheu
não seguir as pegadas dos pais. Casada e mãe de quatro adolescentes, ela desfruta o conforto de uma
bela casa localizada em um bairro diferenciado. Mas Penny sente um estranho senso de culpa por não
viver de acordo com o exemplo altruísta dos pais. Para compensar, ela se dedica de forma exagerada
à caridade social. Demasiadamente ocupada e altamente estressada, ela nunca está emocionalmente
disponível para sua família e nunca tem tempo para as pessoas mais importantes para ela.

Limites tênues ou inexistentes


As crianças reproduzem as atitudes de desamparo e desesperança dos adultos ao redor delas, os
quais se queixam da vida, mas nada fazem para mudá-la. Influenciadas para não serem assertivas,
elas tornam-se adolescentes tímidos, incapazes de erguer a voz e falar em seu próprio favor. Suas
auras de incerteza e indecisão atraem pessoas prontas a aproveitar-se delas, assumindo o direito de
dirigir e controlar suas vidas.
Os adolescentes superprotegidos ou supervigiados estão sendo preparados para tornar-se vítimas
desamparadas. Kim, uma adorável estudante de um internato vinda de uma próspera família havia
sido mimada e protegida quando criança. Seus pais tomavam todas as decisões por ela. Quando
entrou na faculdade, ela era tão dependente deles que precisava telefonar para casa várias vezes por
dia para pedir orientações e apoio. Embora seu pai e sua mãe não tencionassem infantilizá-la, Kim
sentia-se desamparada e insegura. Ela não tinha nenhuma confiança em si mesma nem em sua
capacidade de tomar decisões. Era desarmada e perigosa.
Não surpreende que Kim foi incapaz de dizer não quando alguém lhe ofereceu drogas. Em um curto
espaço de tempo, ela ficou totalmente viciada. Ao seu favor, pode-se dizer que ela logo procurou
ajuda. Já faz três anos que Kim tem se envolvido em programas de Doze Passos, e não somente está
limpa e sóbria, como também tornou-se uma jovem confiante, comportada, que não mais depende de
pessoas ou de substâncias para encontrar significado e valor.

Abuso físico ou psicológico


Quando uma criança é diretamente abusada ou forçada a presenciar o abuso de outros, ela aprende
a fazer tanto o papel da vítima como o do ofensor. Ela é ensinada a maltratar as pessoas e a permitir
que elas a maltratem. Hank é um desses casos. Fisicamente abusado quando ainda pequeno pelo pai,
um alcoólatra violento, e sexualmente abusado por um padre aos 13 anos de idade, ele adotou a
postura de vítima. No entanto, guardava muita raiva em seu interior. Pouco depois de casar-se, aos
22 anos, a raiva de Hank começou a atingir as pessoas próximas a ele – sua esposa, em primeiro
lugar, e, depois, os filhos. Se eles não atendiam cada um de seus desejos, ele tornava-se violento
verbal e fisicamente. Ele racionalizava sua violência insistindo que eram sua esposa e seus filhos
que a causavam ao se recusarem a atender suas exigências.
A esposa de Hank finalmente apresentou queixa à polícia e conseguiu um mandado judicial que o
forçava a manter distância dela. Por sua vez, ele insistia que, assim fazendo, ela estava abusando
dele. O quê? Como é que Hank pôde aparecer com uma racionalização irracional como essa? Eu
digo como foi: ao presenciar o pai embriagado espancando a mãe, ele aprendeu o papel do abusador.
Ao ver a mãe sofrendo em silêncio, ele aprendeu o papel da vítima. Agora, ele fica nesse vaivém,
alternando os papéis de vítima e de abusador dentro de seu relacionamento mais chegado.
Depois de mais uma de suas desagradáveis explosões, Hank sente-se mal por magoar as pessoas a
quem ama. Se elas o evitam por medo ou desconfiança, ele aperta o botão da autopiedade, passando
a implorar a simpatia delas. Uma vez pagas as penitências com presentes, flores e promessas
sinceras, ele conquista de volta a boa vontade de todos. Mas, outra vez se torna o maníaco rabugento
de antes. Isso exemplifica o conhecido “ciclo de violência”.
Hank é um homem de sorte. Depois de ter apresentado queixa à polícia e de obter o mandado
judicial, sua esposa recorreu a uma agência local especializada em ajudar vítimas da violência
doméstica. Um conselheiro sugeriu que ela e o marido assistissem às aulas de comunicação e que
cada um consultasse individualmente um terapeuta. Alguns meses mais tarde, eles passaram a fazer
terapia para casais com um experiente conselheiro matrimonial. Além disso, eles se matricularam
nos grupos de Doze Passos apropriados, arranjaram seus padrinhos e seguiram rigorosamente os
passos dos programas. Já faz dois anos que Hank vem frequentando um grupo de gerenciamento da
raiva duas vezes por semana. A violência em seu lar chegou ao fim, e o relacionamento deles
permanece intacto.

Falta de autoestima
Muitos viciados em infelicidade foram roubados ainda na infância – roubaram-lhes seu senso de
valor. A corrosão de sua autoestima pode ter sido tão sutil que eles sequer tomaram conhecimento.
Alguns a negam completamente. Outros reconhecem que foram maltratados ou negligenciados, mas
não fazem a ligação desse aspecto de sua história com as incertezas e dúvidas acerca de si mesmos
que experimentam no presente. E quase sempre eles dão algum tipo de desculpa para justificar os
abusadores.
A história de Allison é um bom exemplo e tem um final feliz. Allison, uma jovem mãe, sentia que
seus filhos não conseguiriam desenvolver identidades saudáveis se ela não tivesse uma sólida noção
do seu valor pessoal. Sendo uma sobrevivente do abuso verbal, Allison passou a frequentar um
terapeuta que usava a bem estabelecida técnica de redução da sensação de vexame para ajudá-la a
expurgar as mensagens degradantes colocadas em sua cabeça pelo pai. No processo de recuperação
de sua identidade, ela também recuperou seu senso de humor.
Um dia, quando ela e o marido folheavam um velho álbum de fotografias, eles se depararam com
uma foto de Allison e o pai, tirada quando ela tinha 11 anos. Allisson comentou com uma risadinha:
“Aqui sou eu e o papai. Ele está tosquiando minha autoestima.” Nessa ocasião, Allisson já estava
livre de ressentimentos. Ela sabia que o sentimento de vergonha que o pai lhe havia impingido era
uma coisa dele, não dela. Aquilo deixara de dominar sua vida e de ditar seu autoconceito. É isso aí,
Allison!
Em alguns casos, a tendência de duvidar de nós mesmos vem das exigências de perfeição fora da
realidade impostas sobre nós durante a infância. Em ambientes perfeccionistas, as crianças passam
vergonha por cometer erros. Uma vez que não dá para serem outra coisa a não ser humanas e,
portanto, imperfeitas, elas pensam ter algum tipo de problema quando cometem uma gafe. Ao
chegarem na fase adulta, elas veem até o menor erro como um pecado mortal. Alguns adultos que são
filhos do vício e do abuso têm sido julgados e criticados, provocados e espicaçados até não ficar
mais nada, a não ser um zero descascado.

A conexão do vício
No livro Never Good Enough [Nunca Suficientemente Bom], escrevi que o vício da infelicidade é
desenvolvido muito antes que o negaólatra se case com um “perseguidor” ou tenha filhos que venham
a desenvolver problemas sociais e emocionais.3 Os filhos de alcoólatras e de outros viciados
crescem em meio a mentiras, incertezas, desapontamentos, promessas não cumpridas e esperanças
desvanecidas. Suas feridas e cortes são abertos, visíveis. Esse tipo de sistema familiar disfuncional
aparenta ser disfuncional.
Os filhos que crescem em famílias perfeccionistas enfrentam críticas, duplos padrões, vergonha e
espíritos quebrantados. Suas feridas estão cobertas, sem sangue. Esse tipo de sistema disfuncional
aparenta ser funcional. “Tanto os filhos do alcoolismo como os filhos do perfeccionismo vivem na
terra do medo e do tremor. Seu sistema de crenças é baseado em uma simples premissa: a vida é
dolorosa, e isso os predispõe ao vício da infelicidade.”4 O legado do negativismo é passado de
geração em geração.
No tempo em que vivíamos na terra de “Ozzie e Harriet”,5 o mundo (e a tela da TV) era preto e
branco. Pensávamos que o alcoolismo causava disfunção familiar. As famílias dos não alcoólatras
viviam às mil maravilhas – ou assim parecia. Nada disso! Agora sabemos que qualquer tipo de
preocupação ou pressão da parte dos pais pode resultar em negligência ou abuso dos filhos.
Impingir culpa e vergonha aos filhos é um procedimento operacional padrão em sistemas abusivos,
se o foco estiver no álcool ou num processo com efeitos similares aos das drogas, tais como vício em
trabalho, perfeccionismo, sexolismo ou relacionamentos viciosos. Para os filhos criados nesses tipos
de ambientes, a infelicidade é um estilo de vida. “Sentir-se bem, experimentar o prazer, esperar pelo
melhor, olhar para o lado bom da vida... são coisas totalmente estranhas para eles. Crescem
esperando o que consideram inevitável. Como herdeiros de um legado de negativismo, são
programados para esperar pelo pior. Com frequência, suas próprias expectativas agem como
profecias autorrealizadas.”6

A mentalidade de mártir
Por causa da maneira com que foram programados, os negaólatras acreditam que (1) todos estão
contra eles, (2) todos estão falando sobre eles, e (3) todos pensam mal deles. Eles estão convencidos
de que podem ler a mente das pessoas, mas nunca leem nada positivo nas ações delas. Repito: contar
com o pior é o que os mártires fazem de melhor! Os amigos e familiares se cansam de seus medos
descabidos e de suas falsas suposições. O resultado é que seus piores medos acabam se
materializando. Eles são abandonados.

Filtros pessimistas
Está lembrado de Harry e Roger, os mártires descritos anteriormente? Considere a situação deles à
luz dessa declaração: “O filtro pessimista do mártir dá um significado negativo a eventos neutros e
até mesmo positivos. O sentido negativo que ele confere às situações provoca uma cadeia de reações
emocionais que ativa o desastre que ele preconizou, seja ele qual for. Alguns mártires são tão
viciados em se sentir péssimos que podem até sabotar qualquer coisa boa que possa acontecer,
transformando-a em uma catástrofe.”7 Isso era verdade no caso de Harry e Roger. Eles não
conseguiam lidar com nada que fosse positivo.
E tem o caso da mulher que reclamava sobre a irresponsabilidade do marido alcoólatra, mas
continuava a tolerá-lo. Ela precisava tanto de um perseguidor em sua vida que se iludia acreditando
que não poderia sobreviver financeiramente sem ele, embora ele fosse um passivo financeiro. Ela
sabia fazer essa conta, mas estava tão absorta na manutenção de sua identidade como vítima que
perdeu de vista o óbvio: um alcoólatra que não contribui com nada para a família – seja fisicamente,
emocionalmente ou financeiramente – não é um ativo dessa família.

A atitude de desamparo e desesperança


A mentalidade do mártir é caracterizada por uma atitude de desamparo e desesperança. Esse estado
mental fica tão arraigado que a pessoa literalmente não consegue livrar-se do papel de vítima.
Muitos indivíduos ficam chocados com os relatos mostrados na mídia sobre mulheres que aceitam
o flagrante abuso de seus parceiros e nada fazem para proteger a si mesmas e aos filhos. Ao lerem
sobre mães que, em conluio com namorados ou padrastos, abusam dos próprios filhos, ficam
estarrecidas. É bem provável que esse comportamento seja um subproduto de uma relação viciosa
combinada com o vício em infelicidade.
Pouquíssimos profissionais reconhecem o comportamento de vítima como um vício ou
dependência, tratando-o como tal. Lembra-se da mãe solteira que foi notícia nos jornais alguns anos
atrás por ter afogado os filhos em um lago e depois alegou que eles haviam sido sequestrados? De
acordo com algumas reportagens, o namorado dela não queria uma companheira que tivesse filhos.
Ela, então, alterou sua identidade – a de mãe – para agradá-lo. Isso é dependência; isso é vício.

Ambientes religiosos obsessivos


Lynn cresceu em uma família religiosa conservadora que lhe disse, tanto verbal quanto não
verbalmente, que ela não valia muito e que suas necessidades não eram importantes. Nada tinha
maior importância do que Deus e a igreja. Seu pai, um pastor e administrador, era reverenciado por
muita gente. Quando Lynn era pequena, sua mãe lhe disse em tom de sussurro que o papai era um
homem de Deus. Lynn e seus irmãos não podiam pôr os pés em seu escritório porque ele podia estar
escrevendo um sermão ou orando. Ela sabia muito bem que não devia importuná-lo com suas
necessidades infantis.
Já adulta, Lynn ainda se desculpa por incomodá-lo quando precisa de sua atenção. “Meu pai gozou
da atenção, do tempo e do afeto de todo mundo, mas não deu nada disso para a família”, ela disse.
Quando ela se formou na instituição denominacional em que ele trabalhava, o pai de Lynn não
compareceu à cerimônia, embora seu escritório ficasse do outro lado do campus.
Pouco depois de se formar, Lynn casou-se com um colega de classe chamado Danny. Determinada a
ter um lar cristão exemplar, ela ficou chocada ao descobrir que seu lindo marido tinha um
temperamento violento – algo que ele conseguira esconder com sucesso durante o tempo de namoro.
Quando Danny começou a bater nela, Lynn não contou o fato para ninguém. Mais tarde, ela foi
aconselhar-se com o pai, que impacientemente a exortou a perdoar o esposo e tentar ser uma esposa
melhor para não ser agredida outra vez! Como é o negócio? Estamos falando de sua filha, meu
senhor!
Lynn percebia que a reputação da família junto à comunidade era a maior preocupação do seu pai.
Ele parecia muito mais interessado na maneira com que as pessoas iriam olhar para ele, se o
casamento da filha terminasse em divórcio, do que com a segurança dela. Querendo ou não, ele
sacrificou Lynn no altar do seu próprio ego. Preferiu que ela arriscasse a vida a manchar a imagem
da família.
No Antigo Testamento, nações inteiras foram condenadas por causa da prática de sacrificar
crianças inocentes aos ídolos. Lynn foi sacrificada à religiosidade viciosa do pai, a qual, neste caso,
tornara-se um ídolo. O pai de Lynn insistia que, por ela ter arrumado a cama, agora deitasse nela. E
foi exatamente o que ela fez, até que desenvolveu uma depressão suicida. Felizmente, ela pôde
buscar ajuda em um compassivo psiquiatra e, graças a Deus, foi salva.

Ambientes alcoólatras
O ambiente de Kate era semelhante ao de Lynn, mas o vício na casa dela era o alcoolismo, em vez
do igrejismo. Kate passou a infância cuidando de sua mãe todas as vezes que o pai a espancava. Ela
enfaixava os ferimentos da mãe e a colocava na cama. Muitas vezes, teve que levá-la para o pronto-
socorro. Mais tarde, seus pais se divorciaram.
Você pode imaginar a frustração de Kate quando sua mãe se casou com um espancador após outro –
cinco, ao todo. Quando Kate finalmente procurou ajuda profissional para lidar com sua própria dor e
raiva, sua mãe estava no meio de seu último divórcio. Kate mudou o curso do seu futuro buscando
ajuda profissional. Mais tarde, sua mãe também buscou tratamento.

O impacto da dependência e do abuso


Com dois anos de idade, Lisa foi deixada aos cuidados de um primo enquanto seus pais estavam no
trabalho. Eles não faziam ideia de que o rapaz a estava molestando sexualmente. Quando ela mostrou
sinais de problemas emocionais, eles jamais consideraram sequer a possibilidade de ela estar sendo
abusada. O abuso nunca fez parte do seu vocabulário. Desprotegida, a pequena Lisa foi forçada a
aceitar mais abusos. Ao ser estuprada, na adolescência, ela não sabia que o certo era resistir, gritar
por socorro ou pedir que alguém a protegesse.
Aos 13 anos, ela havia sido molestada por um professor, um vizinho e um outro parente. Em longo
prazo, o impacto desses eventos quase custou-lhe a vida. Até recorrer à ajuda profissional, aos 30
anos de idade, Lisa sofreu de depressão, ansiedade, anorexia e uma desordem associada ao desejo
sexual. Semelhantes exemplos de negligência e abuso infantis podem ser dados para famílias nas
quais outras dependências “limpas” são praticadas, inclusive a do jogo, dos gastos compulsivos, da
dependência de relacionamento e do vício em internet.
Uma vez, vi um cartoon que mostrava uma garotinha com aparência desanimada, dentro do
escritório do pai, com o polegar enfiado na boca. Ela estava arrastando seu cobertorzinho e
esperando pacientemente que seu pai a notasse. Enquanto isso, ele continuava com o olhar fixo na
tela do computador, dizendo: “Querida, não perturbe o papai quando ele estiver na sala de bate-
papo!”

Escolher ou não escolher


Será que Lisa, Kate e Lynn queriam ser vítimas? Será que elas escolheram tornar-se viciadas em
infelicidade? Penso que não. Mas até que recebessem a ajuda médica e a psicológica, elas não
tiveram alternativa. Se existe apenas uma opção no cupom de voto, não existe escolha!
Por definição, compulsão é um comportamento sem escolha consciente, um comportamento que
ultrapassa a mente racional e responde aos mandados ou aos não santos mandamentos aprendidos na
infância, um comportamento tão automático que o indivíduo age sem pensar.
Quando dependências de qualquer espécie – química ou não – estão presentes no lar, os filhos
sofrem. Eles desenvolvem uma cosmovisão negativa e pessimista. Muitos viciados em infelicidade
aprenderam a vitimizar-se como resultado de terem sido sacrificados involuntariamente durante a
infância, em nome da obsessão, do vício ou de uma doença mental não tratada. Como ilustração, aqui
está uma assim chamada piada russa, que não é nada engraçada.
Filho: “Pai, agora que a vodca ficou mais cara, você vai beber menos?”
Pai: “Não, meu filho; mas com certeza você vai comer menos.”
A negligência das necessidades físicas ou emocionais básicas da criança é típica do ambiente em
que há dependência. Isso é comum para todas as dependências – não apenas a dependência química.
O mais impressionante é que, quando os filhos do vício e do abuso desenvolvem problemas de
relacionamento ou seus próprios vícios, a sociedade põe a culpa neles. E eles culpam a si mesmos.
Não compreendem que foram lançados no papel de vítima ainda crianças e, portanto, programadas
para a autodestruição. Eles não sabem que têm outra opção, nem acham que não há problema em
buscar ajuda. Eles não acreditam que merecem viver. Não admira que muitas vítimas-​mártires tentam
acabar com sua infelicidade tirando a própria vida!
Sabemos hoje que existem alternativas. Quando o vício da infelicidade é tratado como uma doença
primária, crônica, progressiva e potencialmente fatal utilizando-se de uma abordagem terapêutica que
inclui programas de Doze Passos, aconselhamento e intervenção médica (quando indicada), a
recuperação de alta qualidade e relacionamentos saudáveis tornam-se possíveis. Isso aí tem o meu
voto!

Esperança Para Hoje


Em nossa sociedade, caracterizada pelo “levantar-se pelos seus próprios meios”, muitas pessoas
pensam que, pelo motivo de não podermos mudar o passado, devemos simplesmente deixá-lo para
trás e seguir em frente. Por isso, existem dezenas de adultos cujas feridas da infância estão
profundamente enterradas em seu interior, afetando-os sem que percebam. Esses indivíduos
necessitam de um amigo compassivo que possa garantir-lhes que não são causadores de seu abuso,
que não havia nada que poderiam ter feito para evitá-lo, que não foi culpa deles, e que não mereciam
ser machucados, nem precisam continuar sofrendo. Embora esse tipo de conforto seja tão difícil de
dar e receber, está facilmente disponível em lugares como Alcólicos Anônimos e Neuróticos
Anônimos. Por experiência própria, o fato de estar livre para lamentar minhas perdas e sentir genuína
tristeza ajudou-me a não sentir pena de mim mesma (autopiedade).

Autoanálise
1 . Faça uma lista das pessoas próximas a você que eram tristes, depressivas ou obviamente preocupadas quando você era criança.
Qual percentual do tempo elas ficavam infelizes? Elas faziam algo para mudar suas circunstâncias, ou apenas reclamavam?
2 . Em sua infância, alguém próximo de você chegou a ferir-se para ajudar outros?
3 . Alguém costumava tolerar comportamentos intoleráveis aceitando o inaceitável? Como você se sentia ao presenciar isso?
4. Em que medida você acha que esses indivíduos influenciaram suas crenças e seus comportamentos?

1 Chérie Carter-Scott, “Do You Live or Work With a Negaholic?”, Negaholics.com, http:negaholics.com/live_with_a_negaholic.html.
2 John Ratey, A User’s Guide to the Brain, p. 17, 36, 38.
3 Carol Cannon, Never Good Enough, p. 123.
4 Ibid.
5 Seriado da TV Americana (muito popular durante os anos 50 e 60) que retratava em forma de comédia as situações vividas pela
família Nelson (Ozzie, Harriet, David e Ricky).
6 Ibid., p. 124.
7 Ibid.
Ao enfrentar um problema complicado, você poderá resolvê-lo mais facilmente reduzindo-o à
seguinte pergunta: Como será que o Zorro resolveria isso?
Brady

O título original deste capítulo era “Química Cerebral para Idiotas”, mas mudei-o porque não
queria alimentar o vício da infelicidade de ninguém. Você deveria tentar escrever um livro
sobre infelicidade! Que tal uma tese otimista sobre o pessimismo? Sorriso.
Vamos agora estudar a relação entre a química do cérebro e o negativismo crônico. Tentarei
descrevê-la de uma maneira que as pessoas que não têm doutorado possam entender. Se eu o fizer de
um jeito meio esquisito, é porque não sou doutora em medicina nem tenho um PhD.
Há mais de 25 anos, especialistas sabem que existem fundamentos biológicos para vários tipos de
problemas sociais e domésticos.1 “Desde o costumeiro preocupado que se atormenta com uma
incessante busca daquilo que poderá não dar certo na vida até o sobrevivente de um passado
traumático que é incapaz de deixar a dor ir embora e o autopunitivo perfeccionista que vive com
medo até mesmo das pequenas falhas, pessoas que se preocupam em excesso abundam em todos os
estágios da vida,” diz o Dr. Edward Hallowell, coautor do livro Driven to Distraction2 [Levado à
Distração]. Pesquisadores identificaram o que ocorre nas células nervosas do preocupado crônico.
Eles sabem quais são os neurotransmissores responsáveis e que remédios podem acalmar a
tempestade.3

Nosso sistema operacional


O trabalho do cérebro é processar dados, fazer julgamento de valores, estabelecer metas e planos,
processar decisões, armazenar memórias, gerar lembranças, abastecer a criatividade e manter os
sistemas do corpo funcionando automaticamente. À medida que o hard drive de um indivíduo estiver
mal instalado ou o seu software mal programado, o pensamento dele ficará distorcido. Imagens
deturpadas aparecerão na mente – semelhantes àquelas figuras confusas que aparecem no monitor
quando você clica o botão errado. Pensamentos embaralhados produzem sentimentos embaralhados –
ou confusão emocional.
Muitos computadores têm bloqueadores de pop-up, firewalls, proteção de vírus e outros
mecanismos que relatam e reparam problemas. Não é o caso do computador mental. Não podemos
checar o hard drive de nossa cabeça, ativar o solucionador de problemas, desinstalar e reinstalar
programas, escanear vírus, instalar sistemas de segurança, aumentar a memória ou atualizar
periféricos. Não seria uma beleza se pudéssemos fazer tudo isso? Dá licença que agora eu vou
deletar minhas mensagens antigas, remover meus arquivos temporários e desfragmentar meu cérebro.
É um minuto só.

Química cerebral básica


Já pedindo desculpas aos cientistas e aos técnicos em informática por simplificar em demasia um
ecossistema mental complexo, gostaria de comparar o cérebro humano a um computador encharcado
no qual mensagens elétricas são transmitidas por meio de bolhas cheias de fluido. Reconheço que
essa é uma analogia limitada do ponto de vista neuroquímico, mas, por ora, ela vai nos ajudar.
Os mensageiros químicos do cérebro humano são chamados de neurotransmissores. O
funcionamento do cérebro é baseado na presença ou ausência dessas substâncias e no seu correto
equilíbrio. A ansiedade e a depressão resultam de desequilíbrios. Talvez você reconheça os nomes
de alguns dos mensageiros químicos ou das endorfinas mais comuns: serotonina, dopamina e
noripinefrina. O fluxo desses mensageiros químicos é que determina o estado de humor de um
indivíduo e sua suscetibilidade às dependências ou a problemas emocionais.
O sistema operacional do cérebro é bastante delicado. As mensagens passam velozmente pela parte
ramificada de uma célula cerebral chamada axônio, sendo então levadas pelo neurotransmissor para
as ramificações de outra célula cerebral que “recebe” a mensagem. O humor da pessoa é afetado pela
quantidade e pela combinação de substâncias químicas presentes e pelo tempo em que permanecem
no espaço entre as células do cérebro, antes que sejam reabsorvidas pelas enzimas designadas para
isso.
O abuso de drogas afeta essas variáveis, como também traumas da infância, os quais podem reduzir
permanentemente a produção de serotonina pelo cérebro e fazer com que a pessoa seja mais
inclinada ao negativismo, à depressão, à impulsividade e até mesmo à violência. Esses indivíduos,
como também as pessoas mais próximas deles, obtêm grande benefício ao buscarem ajuda
profissional. Se existe ameaça de violência, não se deve hesitar em buscar ajuda. O indivíduo que
representa um perigo para si mesmo ou para os outros precisa de atenção médica imediata.

Anatomia craniana
O cérebro é divido em cinco segmentos, cada um deles especializado em administrar vários
processos do pensar e sentir. São eles: o sistema límbico, o giro do cíngulo, a amígdala cerebral, o
lobo frontal e os gânglios da base. De acordo com especialistas, muitas das dificuldades associadas
à ansiedade, depressão, sensibilidade social extrema e preocupações excessivas estão relacionadas a
esses sistemas do cérebro. Quando eles não funcionam apropriadamente, as pessoas não conseguem
administrar muito bem suas emoções.
O Dr. Daniel Amen, neurocientista clínico, psiquiatra, diretor de uma clínica de saúde
comportamental e autor do livro Change Your Brain, Change Your Life [Transforme seu Cérebro,
Transforme sua Vida], diz que o funcionamento apropriado do cérebro de uma pessoa determina o
quão feliz ela é, quão eficiente se sente e quão bem ela interage com outros, inclusive com Deus.4
Note esta incrível declaração: “Se as funções cerebrais não estiverem otimizadas, é difícil ter
sucesso em qualquer aspecto da vida, seja nos relacionamentos, seja no trabalho, nos estudos, nos
sentimentos sobre si mesmo e até nos sentimentos sobre Deus – não importa o quanto se tente.”5
Originalmente orientado pela ideia de que uma infância cheia de estresse podia criar problemas
durante a vida inteira, hoje o Dr. Amen acredita que os problemas emocionais e sociais das pessoas
também têm relação com a fisiologia do cérebro. Até recentemente, por causa da falta de ferramentas
mais avançadas para o estudo das funções do cérebro, podíamos apenas especular sobre o papel do
cérebro nos problemas de personalidade. Hoje, sabemos que há esperança para o tratamento de
problemas que pensávamos estar em nossa cabeça.6
Usando tecnologia da medicina nuclear, conhecida como SPECT – sigla em inglês para Single
Photon Emission Computed Tomography (Tomografia Computadorizada por Emissão de Fóton
Único) – pesquisadores têm encontrado evidências de padrões cerebrais correlatos tanto com
tendências depressivas como obsessivas. Eles estão aprendendo mais sobre os efeitos do uso de
substâncias químicas, ferimentos na cabeça e até mesmo de hábitos de pensar negativamente sobre o
cérebro.7
Alguns sistemas cerebrais específicos afetam nosso humor e nossa personalidade. As pessoas que
lutam contra o mau humor e o negativismo frequentemente têm problemas no sistema límbico – a
parte do cérebro que determina o tom emocional de uma pessoa. Quando o sistema está funcionando
normalmente, o indivíduo se sente positivo e esperançoso. Mas se esquenta um pouquinho, o
negativismo assume o controle.
“Quando o sistema límbico profundo está inflamado, os resultados são dolorosas sombras
emocionais”, diz o Dr. Amen.8 Este é o filtro através do qual interpretamos os eventos diários. Se o
sistema estiver superativo, é provável que interpretemos eventos neutros através de um filtro
negativo. Se está funcionando normalmente, é provável que a interpretação seja neutra ou positiva.9
Tanto a hipoatividade quanto a hiperatividade são mediadas por nossa singular química do cérebro.
A tensão pré-mestrual (TPM) é um exemplo clássico desse princípio da mancha emocional.10 Quem
poderia imaginar?
É no sistema límbico profundo que as pessoas armazenam as memórias emocionais altamente
carregadas. Quanto mais trauma experimentam na vida, mais negativamente orientadas elas se
tornam.11 (Adoro quando pesquisadores validam minhas opiniões!) O Dr. Amen declara que “o
pessimismo realmente pode ser um problema do sistema límbico profundo, pois [...] quando essa
parte do cérebro está trabalhando demais, o filtro emocional fica colorido pela negatividade”.12
Quando outra área do cérebro – os gânglios da base – está superativa, ela gera ansiedade e
nervosismo. E quando o giro cingulado está superativo, as pessoas ficam presas em certos padrões
ou ciclos de pensamentos e crenças.13 É confortador saber que existem razões fisiológicas para nossa
inclinação à infelicidade, não é mesmo?
As pessoas podem melhorar o funcionamento do cérebro fazendo exercícios cognitivos, ingerindo
alimentos nutritivos, tomando remédios, socializando-se e fazendo uso de muitas outras ferramentas e
técnicas que estão incluídas nas boas terapias e nos programas de Doze Passos. Mesmo se formos
geneticamente predispostos ao negativismo, podemos fazer alguma coisa. Existe ajuda disponível, se
estivermos dispostos a buscá-la. À medida que nossa capacidade de funcionar estiver prejudicada,
temos que buscar ajuda de profissionais de primeira linha.
John, um viciado em informática, de 30 anos de idade, que não consegue se relacionar com ninguém
por causa de sua natureza depressiva, não estava disposto a tomar a medicação que lhe
prescreveram, pois considerava isso um sinal de fraqueza. Agora vem o dilema!
Quando as emoções negativas de John se tornaram tão intensas a ponto de ele pensar em suicídio,
ele procurou um pastor para ajudá-lo. O pastor sugeriu que ele passasse por uma completa avaliação
psiquiátrica e o incentivou a seguir as recomendações do médico, concordando ou não com elas. O
médico prescreveu um antidepressivo, o qual John relutantemente concordou em tomar. A medicação
o ajudou a quebrar o padrão de pensamento negativo e a beneficiar-se do aconselhamento. Após dois
anos de terapia, John está quase zerando a dosagem da medicação, sempre sob a supervisão de seu
médico.
O psicólogo Daniel Goleman explica por que as medicações são necessárias em alguns casos:
Quando as emoções de um indivíduo são de grande intensidade e perduram além de um ponto
apropriado, elas se manifestam nos seus extremos mais angustiantes – a ansiedade crônica, a fúria
incontrolável, a depressão. Nas situações mais severas e intratáveis, a medicação, a psicoterapia
ou as duas coisas juntas podem ser necessárias para recuperar o paciente. [...] É possível que a
agitação crônica do cérebro emocional fique tão intensa que não seja possível superá-la sem
ajuda farmacológica. Para pessoas com preocupações tão severas a ponto de se transformarem em
fobia, transtorno obsessivo-compulsivo, ou síndrome do pânico, seria prudente utilizar medicação
para interromper o ciclo. Faz-se necessária a reciclagem dos circuitos emocionais por meio de
terapia para reduzir a possibilidade de que transtornos de ansiedade venham a ocorrer outra vez,
quando a medicação for suspensa.14

O fator ambiente
Com os genes certos, o ambiente certo e muita prática, quase todo mundo pode tornar-se um
viciado em infelicidade. Se repetido com bastante frequência e durante longo tempo, o negativismo
torna-se compulsivo. Veja, por exemplo, os viciados em infelicidade retratados no capítulo 2: Grace
exagera em tudo o que faz e então vai queixar-se para quem quiser escutar. Ela aprendeu esse
comportamento com a mãe, que sacrificou seu bem-estar pessoal e ignorava as necessidades dos
filhos para manter o abusivo esposo fora da cadeia.
Patsy, a compulsiva cuidadora dos outros, compromete-se acima de suas possibilidades e depois
sente pena de si mesma – algo que via seu pai fazer com frequência. Rebecca, a esposa coalcoólatra,
aceita o comportamento nocivo do esposo, pois se sente moralmente obrigada a assim fazer. Por
acreditar que o divórcio seja um pecado, ela não vê outra opção a não ser aceitar o comportamento
inaceitável dele. Uma amiga de sua igreja lhe disse que, se ela morrer como resultado de ser
espancada, terá morrido por uma causa nobre – e ela acreditou! Ela não considerou a possibilidade
de estar arrastando suas filhas para dentro do seu caixão.
Se Rebecca tivesse limites intelectuais saudáveis, ela teria a capacidade de avaliar as opiniões de
outras pessoas e decidir por si mesma o que pensar. Por lhe faltarem esses limites, ela é incapaz de
separar opiniões humanas de ordens divinas. É possível desenvolver limites saudáveis por meio de
terapia individual e/ou em grupo.
Roger, que foi adotado em um lar perfeccionista, tinha problemas para aceitar orientações, pois sua
autoestima é mais baixa que barriga de cobra em trilha de carroça. Harry, que era o bode expiatório
de sua avó, reagia com exagero às críticas. Todos esses indivíduos têm o vício da infelicidade.

Relacionamentos orientados pelo negativismo


Os mártires têm uma autoestima abaixo de zero. Eles têm um núcleo de vergonha que nunca
desaparece. No trabalho, eles consideram as instruções como insulto e a crítica ou correção como
rejeição. Em casa, é impossível agradá-los, pois não querem ser agradados – a satisfação é um
empecilho para sua infelicidade. Imagine estar casado com algum dos personagens mencionados
acima.
Patsy e Grace nunca diminuem o ritmo de suas atividades o suficiente para sentir suas dores. Elas
ficam tão anestesiadas pelo torpor que experimentam ao ferir-se ajudando outros que nunca sabem
que estão extremamente exaustas. Suas famílias têm que se contentar com o que sobra depois de
terem despendido o melhor de suas energias agradando as pessoas e buscando aprovação. Muitos
fazedores do bem compulsivos são conduzidos ao martírio, mas poucos são chamados!
As esposas, os filhos, amigos e colegas de trabalho de Harry e Roger vivem pisando em ovos. Se
dizem algo que possa ser interpretado de maneira negativa, eles serão abusados verbal ou
fisicamente em resposta. Dificilmente eles ousam fazer uma pergunta inocente por temer que ela seja
considerada um insulto. Note estes diálogos típicos que ocorrem em lares onde reina o martírio:
Esposo: “Tive um dia terrível no trabalho. Estou exausto!”
Esposa: “E você pensa que eu não estou cansada? Só para você saber, acordei cedinho para ajudar
Suzie a estudar para o recital de piano dela. Então, levei as crianças para a escola e consertei o
telhado, tudo isso antes de ir para o jogo de futebol do Junior – sozinha.”
*****

Esposo: “Querida, você pegou minhas camisas na lavanderia?”


Esposa: “Como é que eu podia saber que você queria que eu pegasse suas camisas? Não tenho
como ler sua mente. E você sabe muito bem que tenho muito o que fazer. Só porque não tenho um
emprego não quer dizer que eu não esteja sempre morrendo de trabalhar. Só falta você querer que
eu conserte o seu galinheiro.”
*****

Esposa: “Qual é o nosso saldo no banco, querido?”


Esposo: “Por que você quer saber? Dinheiro! Todo mundo nesta família só sabe pensar em
dinheiro. Eu aqui sou uma máquina de fazer dinheiro.”
*****

A filhinha: “Mamãe, algum problema com você?


Mãe: “Não é nada, não!” (Continua soluçando.)
*****

O filhinho: “Mamãe, posso ir brincar na casa do Billy?”


Mãe: “De jeito nenhum! Você tem que arrumar a casa, meu filho. Lembra o que aconteceu na
última vez em que você não ajuntou seus brinquedos antes do seu pai chegar em casa? Ele ficou
bravo, foi para o bar e ficou três dias sem pisar em casa, e foi tudo por sua causa.”

O martírio como um comportamento sem escolha


Olhando para o auge dos meus tempos de mártir, sei que não escolhi ser infeliz. Minha
incapacidade de ser positiva não se devia à falta de vontade de sê-lo. Se um desejo sincero de mudar
fosse o suficiente para conseguir a transformação, eu teria superado meu negativismo num piscar de
olhos. Os mártires não querem ser infelizes da maneira como as pessoas com resfriado querem
espirrar e pessoas com viroses querem vomitar. As pessoas resfriadas espirram porque estão
resfriadas. Os alcoólatras bebem porque são alcoólatras. E os mártires são infelizes porque têm uma
predisposição neurológica para a infelicidade – não por serem maus, estúpidos ou perversos.
Se as pessoas aprendem aquilo com que convivem, se verdadeiramente mais lições são
“apreendidas” do que “aprendidas”, de acordo com o que teorizam os educadores, então talvez a
compulsão seja um comportamento sem escolha – um procedimento que passa por cima da mente
racional e responde aos mandados inconscientes aprendidos na infância, sendo tão automático que o
assumimos sem pensamento ou intenção conscientes.
Se eu conheço alguma pessoa que não quer ser do jeito que é, essa pessoa é o viciado em
infelicidade. Mesmo assim, eles não têm a força necessária para mudar. Na verdade, isso é uma boa
notícia. Quando estamos convencidos da nossa própria fraqueza e despidos de nossa
autossuficiência, dispomo-nos a volver nossa vontade e nossa vida para uma fonte externa de
sabedoria e poder.15 E essa é a solução suprema, meus amigos.

Esperança Para Hoje


A fraqueza é capacitadora. Admiti-la faz com que paremos de tentar o impossível – vencer nossas
dependências e vícios sozinhos – e então começar a fazer o que é possível, a saber, buscar fontes
viáveis de ajuda para um problema maior que nós mesmos. É uma marca de coragem que ajuda a
evitar o aprofundamento do vício de infelicidade. Somente quando os viciados em infelicidade
param de tentar realizar o impossível é que eles conseguem reunir os recursos necessários para lutar
de maneira efetiva contra sua doença.

Autoanálise
1 .Muitos viciados em infelicidade começam a pensar e a comportar-se de maneira dependente ou pré-dependente quando ainda são
jovens. Olhe para o passado e tente se lembrar da primeira vez em que você arriscou se ferir para ajudar alguém. Você foi
recompensado de alguma maneira?
2 .Agora, tente se lembrar da primeira vez em que alguém próximo sugeriu que você estava sendo egoísta ao pedir que uma
necessidade legítima sua fosse atendida. De que maneira seu pedido pode ter incomodado o adulto que fez você se sentir
envergonhado por causa de sua carência?
3 .Crianças e adultos têm o direito de expressar suas necessidades e seus desejos?
4 .Saber que suas carências expressas eram legítimas lhe traz conforto hoje? Neste mesmo momento, permita-se sentir empatia pela
criança que você foi e expresse seus sentimentos escrevendo uma carta de simpatia para si mesmo, quando ainda pequeno.

1 Edward M. Hallowell, Worry, p. xiv.


2 Ibid.
3 Ibid.
4 Daniel Amen, Change Your Brain, Change Your Life: The Breakthrough Program for Conquering Anxiety, Depression,
Obsessiveness, Anger, and Impulsiveness (Nova York: Time Books, 1998), p. 3.
5 Ibid., p. 8.
6 Ibid., p. 3.
7 Ibid., p. 4.
8 Ibid., p. 38, 39.
9 Ibid.
10 Ibid., p. 39.
11 Ibid., p. 40.
12 Ibid., p. 43.
13 Ibid., p. 9.
14 Daniel Goleman, Emotional Intelligence: Why it Can Matter More Than IQ (Nova York: Bantam, 1995), p. 57, 58, 69.
15 Ver Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira [CD-Rom]), p. 300.
O que há de mais chato sobre os mártires é que eles olham para os que não o são de cima para
baixo.
Samuel Behrman

Q uer dizer que o mico do martírio ou da infelicidade pulou para suas costas! Quando você
menos espera é que ele aparece e já começa a falar no seu ouvido. Blá, blá, blá, blá. Pense
como suas autoconversas negativas influenciam suas atitudes, as quais, por sua vez, afetam seus
relacionamentos mais próximos. Com uma coisa você pode contar: elas não os melhoram.
Quando eu estava fazendo meu mestrado, encontrei uma monografia sobre casamentos entre dois
alcoólatras. O estudo analisava por que tantos alcoólatras se casam com outros alcoólatras. Parece
estranho, não é mesmo? A resposta é simples: Os alcoólatras movimentam-​​se nos mesmos círculos
sociais. Eles se ajuntam em festas, bares e AA. Com base na lei das médias, alguns se apaixonam (ou
tornam-se codependentes) e se casam.
Dizem os especialistas que gente doente não atrai gente saudável, e gente saudável não atrai gente
doente.1 Tudo dentro de mim se rebela contra essa noção (será que estou levando-a para o lado
pessoal?), mas é provável que seja verdade. Se gente doente não atrai gente saudável, e gente
saudável não atrai gente doente, então alcoólatras ou pessoas de outra forma emocionalmente
indisponíveis serão atraídas para alcoólatras ou pessoas de outra forma emocionalmente
indisponíveis. Vêm daí os relacionamentos de dois alcoólatras, dois workaholics e dois negaólatras.
Pense nessas possibilidades quando for escolher alguém!
É bem conhecido o fato de que, em uma sala cheia de gente, se apenas dois apresentarem
distúrbios, esses dois acabarão se encontrando, com toda a certeza. Eles têm um radar subconsciente.
É tiro e queda! Amor à primeira vista. Uma noite encantadora, os olhares de duas pessoas feridas se
cruzando em meio à multidão, e começa o foguetório. A batalha judicial vem mais tarde.
Alcoólatras se encontram em bares, festas e reuniões dos AA; viciados em infelicidade se
encontram nos AL-ANON ou CoDA (CoDependentes Anônimos), na igreja ou na academia. O
resultado? Um casamento de dois mártires. Os viciados em infelicidade são atraídos para outros
viciados em infelicidade e para qualquer outro que possa fazê-los infelizes. E quem pode conseguir
isso tão bem quanto um alcoólatra inveterado ou um drogado?
Viciados em infelicidade são capacitadores fabulosos para alcoólatras e drogados. Capacitar, no
contexto de dependência, é ajudar alguém a continuar doente – fazendo tudo o que for preciso para
perpetuar o comportamento dependente. Os mártires são o sonho de qualquer bêbado. Eles pagam o
aluguel do alcoólatra ou drogado, compram carros para eles, pagam fiança quando são presos, pagam
pensão, emprestam-lhes o cartão de crédito, etc.

Orgulhoso por estar “para baixo”


Uma vez que dois viciados em infelicidade oficializam sua união, eles imediatamente entram em
ação. Agora, é uma competição – cada um concorrendo pela posição mais baixa! Por quê? Porque
quando estão para baixo, eles se sentem para cima. Considerando que isso é uma manipulação, ser
desprezível pode trazer poder.
Por não haver dois casamentos exatamente iguais, os sintomas não precisam ser idênticos para que
eles sejam igualmente dependentes da infelicidade. Ambos manifestarão seus sintomas de maneira a
convencer-​​se de que a outra pessoa está muito, muito doente, mas que ele ou ela está superbem! Vêm
daí a “Bela” e a “Fera”, o “Bonzinho” e a “Vilã,” a “Santa Mãezinha” e o “Mau Rapaz”, o “Papai
Amoroso” e a “Filha Desnaturada”.
Desconhecendo que estão aprisionados em um ciclo aditivo, cada um mantém uma atitude de
autojustificação para com o outro. A esposa se convence de que é superior a seu parceiro para poder
escapar da dor e da vergonha de sua própria vitimização. As pessoas que defendem rigorosamente o
seu direito de fazer isso, assim fazem porque se sentem problemáticos e sem nenhum valor. Eles têm
que ser bem certinhos ou serão esmigalhados em um milhão de pedaços. Os mártires têm tanto medo
de estar errados que preferem morrer a admitir um erro. Estão convencidos de que você, eu ou Deus
os rejeitarão caso admitam sua falibilidade.
Os que não conseguem aceitar sua humanidade acabam isolados e sozinhos, pois é quando
compartilhamos nossa humanidade que nos conectamos emocionalmente com os outros. São nossas
gafes e esquisitices que os outros acham interessantes – não nosso perfeccionismo. A autojustiça do
mártir cria aquilo que ele ou ela mais teme. Ele ou ela termina só no meio do Universo.

A síndrome do vexame
Os casamentos entre mártires rapidamente se deterioram e se tornam sociedades de mútua
atribuição de culpa. Tentar gerenciar e controlar o comportamento um do outro torna-se o aspecto
dominante da relação. Cada parceiro compara o outro desfavoravelmente em relação a si mesmo.
Então, de uma posição de grande superioridade, cada um se focaliza em consertar (por meio do
controle) o outro. É uma luta de poder sísmica. Em alguns casos, a adrenalina gerada pela batalha
torna-se, por si só, viciante.
Algumas falsas percepções servem de abanador para as brasas. Ambos os mártires estão
convencidos de que (1) o outro não o ama de fato; (2) que suas necessidades não são atendidas e
provavelmente nunca serão; (3) que, se o parceiro realmente se importasse, seria capaz de ler sua
mente e atender perfeitamente, todas as vezes, cada um de seus desejos; (4) que eles estão em
desvantagem no relacionamento; (5) que estão se esforçando muito mais do que o parceiro – do que,
naturalmente, o parceiro não gosta nem um pouco; e (6) que eles se sacrificam mais do que o cônjuge
jamais faria. Em outras palavras: “Eu sou muito mais santo e nobre do que você. Ai de mim!”

A cidade da autopiedade
Nos casamentos de mártires, os parceiros são tão saturados de autopiedade e autocomiseração
quanto uma esponja dentro de um balde cheio de água. Embora cada um deles seja responsável por
gerar seus próprios sentimentos, ambos acreditam que a outra pessoa é quem o faz sentir-se dessa
maneira. Por não existirem barreiras emocionais, um culpa o outro por sua dor e seus problemas.
Vamos ficar atrás da porta e escutar algumas conversas típicas de mártires queixando-se do cônjuge.
Esposa: “Eu já tentei dizer para meu marido como quero ser tratada, mas ele não me escuta.”
Esposo: “Minha esposa não me deixa fazer nada. Sou um prisioneiro.”
*****
Aqui está outro exemplo. Esposa (falando de maneira irônica): “Para ele (dizendo
desdenhosamente) não tem nenhum problema fazer isso e aquilo, mas se sou eu, então não pode.” De
novo, uma pessoa saudável provavelmente faria algo a respeito do padrão duplo em vez de apenas
queixar-se, mas não um mártir. Os mártires saboreiam tanto a sua infelicidade que dificilmente farão
algo que resolva o problema que os está tornando tão infelizes.
*****

Esposa: “Ele nunca me ouve. Tudo que eu digo entra por um ouvido e sai pelo outro.”
Esposo: “As conversas bobas dela me cansam e eu acabo me desligando.”
*****

Esposa: “Ele sempre defende os parentes (irmã, ex-esposa, filhos do primeiro casamento) em vez
de me defender. Ele nunca toma o meu partido, nunca fica do meu lado.”
Esposo: “Ela já está crescida. O que ela precisa é aprender a cuidar de si mesma.”
*****

“Meu marido me acha burra porque eu não terminei a faculdade. Por que ele acha que eu parei? Eu
parei para poder trabalhar em tempo integral para que, assim, ele pudesse terminar a faculdade de
medicina!”
“Meu marido e meus filhos não se contentam com nada que eu faço para eles.”
“Minha esposa pensa que é minha mãe.” Ou, “Meu marido me trata como se eu fosse uma
menininha boba.”
“O que um homem precisa fazer para ser respeitado aqui nesta casa?”
“Eu sempre tenho que dizer para ele o que precisa ser feito na casa. Por que ele não assume alguma
responsabilidade? Estou cansada de ter que ficar lembrando de tudo para ele. Mas se não for assim,
as coisas ficam por fazer. [Suspiros].”
*****

Aqui está um diálogo típico entre um mártir e a corretíssima esposa. Tente não rir alto.
Esposa: “Estou com uma tremenda dor de cabeça.”
Esposo: “Por que você não toma um comprimido de Tylenol?”
Esposa: “Ah, eu não gosto desse remédio.”
Esposo: “Então fique quieta aí e ‘curta’ sua dor de cabeça.”
Essas falas são engraçadas porque soam muito familiares. Elas são exatamente como as conversas
que muitos de nós já tivemos com nossos cônjuges ou ouvimos nossos pais repetindo muitas vezes!
Realmente não há nada de novo debaixo do sol.

A linguagem do “amor”
Sem se dar conta, os mártires usam a linguagem passiva-agressiva para dramatizar seus papéis de
coitadinhos. A escolha de palavras é sutilmente enganadora e autovitimizadora.
“Não me deixam fazer nada.”
“Minha mulher me disse que eu sou um imprestável.”
“Sou o culpado de tudo o que acontece por aqui.”
Ao usar a voz passiva, o orador se posiciona como a vítima: “Isto está sendo feito contra mim. Sou
totalmente inocente.” Alguns mártires até evitam usar o nome do parceiro ao se queixarem dele
enquanto cerram os dentes. Ou então pronunciam o nome da pessoa como se estivessem dizendo um
palavrão.

Drogando-se até a morte


Muitos casais parecem estar viciados na luta pelo poder. Eles literalmente lutam até morrer. Esse
vício pode ser tão forte como o da cocaína. De um ponto de vista bioquímico, “vencer” uma briga
provoca um torpor comparável ao da cocaína. Lembra-se do filme A Guerra dos Roses? É uma ótima
ilustração desse caso.
Eu entendo que a cocaína é a única droga que animais de laboratório deliberadamente administram
a si mesmos até morrerem. Tenho visto mártires que são tão inclinados a vencer uma discussão que
estão dispostos a lutar até a morte do relacionamento. Talvez o cantor country americano Kenny
Chesney estivesse descrevendo casamentos de dois mártires quando cantou as palavras: “Você
venceu. Eu venci. Nós perdemos.”2
Em alguns casamentos de dois mártires, um ou ambos os parceiros são intelectualmente
conhecedores do fato de que estão colocando seu relacionamento em risco, e mesmo assim persistem
em brigar sem aparente consideração por qualquer coisa santa ou razoável. Eles não se importam em
machucar-se, não importa o quanto, e mostram pouca preocupação por qualquer um que possa ser
afetado por suas constantes arengas, como as crianças inocentes. Eles atacam as falhas do outro e
defendem suas razões com um sentimento de vingança suicida, em termos de relacionamento. Como
um viciado em drogas, uma vez que começam, não conseguem mais parar.
Alguns viciados em infelicidade sorriem docemente e modulam a voz, mas quando surge a
oportunidade, cravam a faca entre as costelas do parceiro. O que importa para eles é vencer. Gregory
Lester descreve isso com precisão em seu livro Shrunken Heads [Cabeças Encolhidas]. Referindo-
se ao clima no lar durante sua infância, ele diz: “O problema era que, apesar de todos agirem,
falarem e insistirem que tudo estava bem, todos se sentiam mal – com frequência muito mal –
praticamente o tempo todo. [...] Ah, e não esqueçamos os pingentes de gelo da relação entre meus
pais, que viviam se provocando e se espicaçando com varas de três metros de comprimento.”3
Esse é o exemplo supremo de impotência. Atracados em um combate mortal, esses casais parecem
ter prazer em ser infelizes e em certificar-se de que seus parceiros também sejam. Eles preferem
ficar atormentando um ao outro em vez de mudar. Nem pensam em divorciar-se, pois gostam demais
de torturar e ser torturado. Alguns continuam com esse padrão por toda a vida. Lá pelas bodas de
ouro é que começam a perguntar-se por que jogaram fora tantos anos.

O sacrifício supremo
O supremo sacrifício que dois mártires podem fazer – e que não difere de ser queimado numa
estaca – é permanecer juntos apenas por amor aos filhos. Eles não percebem que seus filhos se
culparão pela infelicidade dos pais. Enquanto isso, os pais ficam usando as crianças como desculpa
para fazerem o que já queriam fazer: punir um ao outro eternamente.
Parece que eles não entendem que não estão fazendo nenhum favor para os filhos sendo infelizes
enquanto não buscam crescer em seu relacionamento matrimonial. Se realmente se preocupassem
com as crianças, eles procurariam ajuda, cresceriam e aprenderiam como se relacionar. Os viciados
em infelicidade que estão dispostos a fazer o que for preciso para interromper seu comportamento
vicioso podem recuperar-se! Do ponto de vista psicológico, moral e social, essa é a melhor opção.
Algumas pesquisas sugerem que filhos de pais divorciados e filhos de pais que permanecem juntos,
mas infelizes, têm os mesmos tipos de problemas de autoestima mais tarde na vida. Por quê? Os
filhos de casais que ficam juntos, apesar de sua infelicidade, são apanhados no fogo cruzado. Ainda
estou para encontrar um adulto ou uma criança que tenha sido criada em um ambiente hostil como
esse e que aprecie o nobre sacrifício dos pais. Tanto um caso quanto o outro evidenciam a
necessidade de o casal resolver seus problemas de relacionamento.
Veja bem, não estou argumentando em favor do divórcio. Ao contrário, o casal deveria fazer todo o
possível para permanecer unido. Estou argumentando em favor do crescimento e da busca de um
relacionamento saudável. Para conseguir isso, os pais podem ter que procurar ajuda profissional a
fim de interromper seus vícios e suas codependências. Isso pode ser feito – se ambos estiverem
dispostos a fazer terapia individual, entrar em grupos de Doze Passos e trabalhar juntos com um
profissional qualificado.
Em alguns casos é virtualmente impossível lidar diretamente com os problemas de relacionamento
até que cada parceiro tenha trabalhado bastante em seu crescimento pessoal na terapia ou nos
programas de Doze Passos. Em geral, as pessoas não estão qualificadas para trabalhar como casal
até que tenham lidado com seus próprios problemas de imaturidade no aconselhamento individual.
Uma vez que tenham feito isso, conseguirão os recursos necessários para beneficiar-se do
aconselhamento como casal.
Obter ajuda profissional requer investimento de tempo e dinheiro. E não é nem confortável nem
conveniente. Mas se você acha que não pode despender o tempo ou o dinheiro necessários para a
terapia, talvez deva considerar a alternativa. O divórcio custa muito mais. Você e os seus filhos
valem muito mais do que o que vai custar a ajuda profissional! Por favor, não venda a si mesmo
nem aos seus filhos por qualquer preço! Perdoe-me por estar fazendo um pequeno sermão aqui.
Tenho fortes convicções sobre esse assunto por razões pessoais e históricas.
Concluo com um testemunho. Tendo trabalhado com mais de quatro mil alcoólatras, viciados em
trabalho e outros tipos de dependentes – e seus familiares – nos últimos 33 anos, conheço centenas
de casais cujos matrimônios estão florescendo hoje porque tiveram coragem de fazer o que era
necessário para crescer como indivíduos e para aprender como ter uma relação feliz e funcional.
Entre eles, o meu próprio matrimônio.

Esperança Para Hoje


Um relacionamento só pode ser tão saudável quanto a disposição e a capacidade que ambos os
parceiros possuem de torná-lo saudável. Quando ambos estão comprometidos em fazer o que for
necessário para transformar seus hábitos negativos de pensar, de acreditar e de comportar-se em
habilidades sociais positivas e maduras, todos ganham. Só pensar e desejar é insuficiente. Apenas a
fé, sem as obras – esforço no processo da cura – não fará o trabalho. A fé mais as obras o farão.

Autoanálise
1 . Seus pais brigavam (luta pelo poder) muito? Eles foram um modelo para você de saudável resolução de diferenças? Ou as brigas
deles eram infrutíferas?
2 . Você desenvolveu um senso de pressentimento quando eles estavam zangados um com o outro? Você tinha medo de que um deles
fosse embora e nunca mais voltasse? Se um deles de fato foi embora, você se culpou?
3 . Se o alcoolismo ou outro tipo de dependência era presente em seu lar, por favor, procure uma reunião de Filhos Adultos de
Alcoólatras (F.A.A.) onde você possa compartilhar seus sentimentos com outros que tenham a mesma origem. Veja o Apêndice C
para mais detalhes.

1 Earnie Larsen, Stage II Recovery (Nova York: HarperOne, 1987).


2 Kenny Chesney, “You Win, I Win, We Lose”, I Will Stand (BNA Entertainment, 1997). Ênfase do autor.
3 Gregory Lester, Shrunken Heads: The Insane, the Profane, and the Profound on the Road to Becoming a Psychologist
(Houston: Ashcroft Press, 2005), p. 3.
O pessimista é aquele que, tendo de escolher entre o menor de dois males, fica com os dois.
Oscar Wilde

A maioria dos mártires chega a um ponto em que eles não são mais vítimas; são voluntários.
Convencidos de que são responsáveis pela saúde e felicidade de todos (isto é, de todos
menos a deles mesmos), fundamentam seu valor na habilidade de sacrificar-se com pouca ou
nenhuma consideração por sua própria saúde e segurança.
Tenho conhecido muitas pessoas adoráveis que se estribam no personagem do cuidador em busca
de significado, identidade e valor. Francamente, sou uma delas. Antes da minha recuperação, eu era
emocionalmente dependente da dose de autoestima que obtinha no resgate e cuidado das pessoas. Eu
tinha necessidade de ser necessária. Eu nem pensava em abster-me de ministrar para os outros,
mesmo que minha vida ou o bem-estar dos meus queridos dependesse disso (e muitas vezes
dependia)!
Kelly, uma adolescente de 16 anos, descreveu uma conversa entre ela e sua mãe, diálogo esse que é
uma dolorosa recordação para mim: “Minha mãe pensa que é a Madre Teresa. Ela corre o tempo
todo ajudando as pessoas, dando-lhes estudos bíblicos, comprando roupas, móveis e tudo mais para
elas. Ela nunca está em casa. Ontem, eu lhe disse que gostaria que ela passasse menos tempo
ajudando os outros e mais tempo saindo comigo e com o papai. Eu não acreditei no que ela disse:
‘Como posso fazer menos do que faço, sendo que Jesus deu a vida por mim?’ Como eu podia
responder? Dez minutos depois, ela saiu de novo para atender mais uma das incumbências de Deus.”
A determinação de cumprir o dever cristão dessa bem-intencionada mulher seria aceitável se ela
tivesse se sacrificado sem sacrificar a família. Mas isso era impossível. Ela transformou as pessoas
em projetos, e, quando assumia um projeto, ela não o largava. Ela era levada a fazer cada vez mais.
Parece uma boa dependência, não é? Só que, mesmo diante das óbvias consequências negativas, ela
continuava com aquele comportamento autodestrutivo. A crença que alimentava seu constante esforço
era a de ser responsável não apenas pela felicidade do próximo como também pela salvação deles.
Ela não é a primeira pessoa a agir com base no mandato bíblico de maneira extrema em vez de
adotar uma abordagem equilibrada e moderada.
A propósito, suas tentativas de resgatar e recuperar as pessoas às vezes eram invasivas e mal
recebidas. As pessoas que eram objetos dos seus cuidados se ofendiam com seus ferrenhos esforços
para “salvá-los”. Um maior número de interessados na verdade acaba se afastando de Deus – ao
invés de ser atraídos para Ele – por conta desse tipo de comportamento. Mas os cuidadores
empenhados em salvar alguém simplesmente ignoram o fato. Tome nota: em nossos esforços para
fazer nosso “dever cristão”, precisamos respeitar os limites pessoais dos indivíduos.

Motivos mistos
Os cuidadores correm o risco de se tornarem campeões do Grande Prêmio dos mártires. Alguns
deles também são perfeitos lamentadores. Raramente eles desempenham um serviço para Deus, para
a igreja ou para o país sem esperar uma recompensa, seja ela eterna ou não. E se os seus sacrifícios
passarem despercebidos ou se não forem devidamente apreciados, eles prontamente começarão a se
queixar. É como diz o Dr. Paul Tournier em seu livro A Place for You [Um Lugar para Você]: “Um
tipo de egoísmo mais ou menos consciente está sempre à espreita por detrás do prazer trazido pela
dedicação de alguém aos outros.”1 Em outras palavras, o que parece ser altruísmo pode ser egoísmo
se fazemos aquilo para nos sentirmos bem.
Quer dizer então que todos os que fazem algo de bom para outra pessoa estão sendo egoístas? De
maneira alguma. O que quero dizer é que, quando sentimos que devemos ser úteis, precisamos
examinar nossos motivos. Se estamos fazendo alguma coisa que outra pessoa pode realizar, ou algo
que ela não pediu que fizéssemos, ou que tenha um impacto negativo em nós ou em nossa família,
precisamos nos conter.
A alternativa apropriada é cuidar da nossa própria vida e orar pelos outros, em vez de ficar
tentando resgatá-los. Ore em seus aposentos. Não anuncie do púlpito nem publique no jornal local.
Muitos mártires consideram um insulto você dizer que orou por eles, especialmente se for em
público.

Comportamentos do cuidador
Cuidadores classe A
• tentam ser indispensáveis para os outros;
• antecipam-se às necessidades dos outros e as atendem;
• fazem pelas pessoas aquilo que elas mesmas deviam fazer;
• doam de maneira desrespeitosa, ou seja, sem consultar as preferências dos receptores;
• doam sem permissão – empurram seus conselhos e sua assistência sem que eles sejam solicitados;
• dão para receber algo em troca, seja apreciação, agradecimento ou uma injeção de autoestima;
• doam para ter o controle, usando o seguinte raciocínio: “Depois de tudo o que fiz por você, eu
tenho o direito de dizer o que você tem que fazer”;
• doam generosamente, mas se queixam depois, o que é uma forma sutil de vangloriar-se.

Quando seu casamento de sete anos acabou, Kevin, um enfermeiro de quase 40 anos, começou a
agir como um cuidador de maneira a ocupar o tempo que passava sozinho e a preencher sua
necessidade de sentir-se necessário. Por ser muito versátil, ele se prontificava a ajudar amigos e ex-
pacientes da maneira como podia. Ele reformava suas casas, consertava seus carros e aparelhos
domésticos. Ele era mais popular do que o moço da Brastemp, pois nunca cobrava um centavo dos
seus “clientes”!
Pelo próprio ofício, Kevin era um cuidador profissional, mas outras formas de cuidado tornaram-se
sua distração. Sua necessidade de atenção e aprovação o levava a trabalhar cada vez mais duro. Ele
não se preocupava em ganhar dinheiro. Agradar as pessoas já era um pagamento mais que suficiente.
Sua agenda começou a ficar cada vez mais agitada. Ele se encontrava sempre muito cansado por
causa do excesso de trabalho e por não dormir o suficiente. Para manter o ritmo, Kevin passou a
consumir mais cafeína. Quando se machucou, retirando o motor do carro de seu primo, ele
acrescentou analgésicos ao regime. Daí em diante, foi só ladeira abaixo. Kevin passou a ingerir
comprimidos regularmente para evitar a dor e o cansaço trazidos pelo seu comportamento excessivo.
Mais tarde, tornou-se um viciado inveterado, o que quase custou-lhe a carreira e a própria vida.
As consequências do comportamento cuidador de Matthew foram diferentes das de Kevin. Casado,
pai de cinco filhos, Matt era um líder na igreja e na comunidade. Quando o pastor incentivou os
membros da igreja a saírem em busca de pessoas necessitadas e as trouxessem para o Senhor,
atendendo primeiro suas necessidades materiais e, depois, convidando-as para a igreja, Matt
começou a procurar alguém que precisasse de ajuda.
Logo ele conheceu o candidato ideal – Tony, um adolescente problemático que estava na busca
desesperada por uma figura paternal. Quando a esposa de Matt, Maria, soube que o problemático
adolescente tinha a mesma idade de sua filha, ela, com muito jeito, falou com Matt sobre os riscos de
fazer amizade com ele. Apesar da advertência, Matt persistiu e chegou até a convidar o rapaz para
morar na casa deles. Depois, passou a permitir que ele fizesse coisas que não eram permitidas a seus
filhos.
Sua família ficou confusa com aquele padrão duplo, pois Matt estava transigindo com os valores e
princípios que ele mesmo havia inculcado neles. A mãe implorou que Matt encaminhasse o moço a
um profissional qualificado que pudesse ajudá-lo, mas Matt não se dispunha a fazer isso, mesmo que
fosse para proteger seus filhos.
O fato de que ele não conseguia parar de cuidar do garoto, apesar de reconhecer que isso colocava
em risco os próprios filhos, fala muito alto sobre a natureza problemática do comportamento
cuidador de Matt. Ele fez do objetivo de resgatar e recuperar Tony sua mais alta prioridade. E o fez
em detrimento de si mesmo e de sua família, continuando a fazê-lo mesmo diante de consequências
adversas. Esse é o marco da dependência. Não demorou muito, sua filha fugiu com o rapaz e acabou
se envolvendo com drogas.
Matt não está sozinho em seu zelo mal aplicado. Meu esposo e eu temos nos martirizado de maneira
semelhante e, por isso, colocamos em risco o bem-estar dos nossos filhos. Um deles, já adulto,
contou-​nos que, quando tinha 18 anos, nossa obsessão em ajudar pessoas com problemas o levou a
acreditar que ele mesmo precisava ser problemático para ter nossa atenção! Aquilo foi um alerta
para nós. Mas não fizemos nada a respeito. Somente anos mais tarde é que viemos a dar atenção ao
alerta.

As consequências do martírio “profissional”


Como conselheira, tenho visto muitos filhos de pastores e missionários que foram sacrificados por
causas pelas quais os pais verdadeiramente se dedicaram. Embora a sinceridade dos pais seja
inquestionável, não havia meios de eles preverem o impacto do seu comportamento autossacrifical na
vida de seus filhos. Esses jovens correm sérios riscos: baixa autoestima, dúvida paralisadora,
inépcia social, problemas conjugais, dependências, codependência, depressão clínica e transtornos
de ansiedade. A mensagem que eles absorveram na infância foi: “Você é importante, mas não tão
importante quanto...”
Existe uma linha muito tênue entre estabelecer um exemplo de altruísmo para o filho e ser um
cuidador compulsivo. Nós, pais, nem sempre reconhecemos o risco que estamos correndo. Quem
dera eu ganhasse um dólar para cada pastor ou esposa de pastor, missionário ou esposa de
missionário, administrador da igreja ou esposa do administrador da igreja que já me disse: “Quem
dera eu soubesse como minhas decisões iriam afetar meus filhos! Por que ninguém me contou?”
Faço eco para a frustração deles. O fato de querermos sacrificar nossa vida por Deus ou pelo país
não nos dá o direito de martirizar nossa inocente prole. Sei de pais que têm insistido em permanecer
em perigosas bases missionárias em países destroçados por conflitos civis, expondo, dessa maneira,
seus filhos à violência. Houve um tempo em que eu mesma considerava isso apropriado. Não mais.
Tenho visto as consequências de longo prazo na vida de muitos adultos, filhos de pais altruístas.
Meus sinceros cumprimentos aos dedicados humanitários que deram a vida em devotado serviço
em favor das pessoas física e espiritualmente famintas da Terra. Mas oro para que seus filhos não
tenham que sofrer indevidamente. Identifico-me com a luta para equilibrar as necessidades da família
com as exigências do ministério cristão. Eu nunca quereria empilhar culpa sobre as pessoas cujos
filhos sofreram consequências negativas quando elas estavam fazendo o seu melhor para servir a
humanidade. Se não perdoarmos a nós mesmos pelos erros que cometemos nos tempos de nossa
ignorância, estaremos nos martirizando de novo. Podemos assumir a responsabilidade ao fazer-nos
responsáveis pelo impacto do nosso comportamento sobre nossos filhos para que eles não tenham
que carregar sozinhos os fardos emocionais e espirituais da vergonha e da culpa.
Durante o recente genocídio em Ruanda, um casal de missionários que acabara de retornar para os
Estados Unidos foi entrevistado em um programa da televisão local. Assentados com seus filhos
ainda pequenos diante das câmeras, eles descreveram as atrocidades que testemunharam. Depois,
declararam que estavam insistindo com o comitê missionário de sua igreja para que os mandasse de
volta a Ruanda o mais rápido possível. Eles mal podiam esperar para retornar.
Ao ouvir aquele testemunho, fiquei nauseada. Por quê? Porque na mesma época eu estava
aconselhando uma mulher que estava deprimida e com tendências suicidas como resultado de uma
experiência semelhante, durante a infância. Quando ela tinha três anos de idade, os seus pais,
missionários, insistiram em permanecer em um país destroçado por uma guerra civil para proteger a
propriedade da missão. Depois do seu inexplicável “colapso nervoso”, 30 anos mais tarde, ela se
lembrou de ter visto armas sendo apontadas para a cabeça de seus pais por guerrilheiros, pedaços de
corpos espalhados pelas ruas e caminhões carregados de cadáveres passando pelo terreno da missão,
anos antes.
Lembrava-se de como sua família e ela se protegeram na sala de estar da casa para evitar balas
perdidas. Eles fizeram uma espécie de caverna com colchões e ficaram ali dentro por vários dias.
Uma vez, quando começaram a atirar enquanto ela brincava em uma área do terreno da missão, ela e
o pai pularam para dentro de uma vala que havia sido cavada justamente para uma ocasião dessas.
Ao saírem dali, depois que o fogo cessou, eles encontraram uma das sandálias dela no quintal. O
calçado havia sido reduzido a pedaços enquanto ela se encolhia dentro da valeta, calçando o outro
pé.
Seus pais sempre lhe asseguraram que Deus os protegeria, como o fez. Mas isso não aliviou seu
medo nem evitou que ficasse traumatizada. Como adulta, ela sucumbiu a um distúrbio pós-traumático
e quase perdeu a vida. Mais tarde, ela expressou seus sentimentos em uma carta que escreveu como
parte de sua terapia, mas que nunca foi enviada:

Papai e mamãe,
Eu estava aterrorizada, e vocês não me confortaram. Eu estava com raiva, e vocês me disseram
que era para sorrir. Eu estava com fome, e vocês pegaram comida da minha mão. Vocês me
disseram que eu não deveria ceder ao apetite. Eu estava em perigo, e vocês me disseram que Deus
nos protegeria; sozinha, e vocês disseram: “Não me incomode; tenho que ir trabalhar.” Eu estava
desnuda e sangrando por ter sido molestada por um dos filhos do caseiro, e vocês disseram que
Jesus me perdoaria. Eu estava doente, e tive que ir sozinha ao médico; pobre, e vocês pegaram meu
dinheiro para dar aos menos afortunados. Vocês me fizeram dormir no chão. Eu estava cansada e
com calor, e vocês disseram: “Se enxugue!” Eu estava errada, e vocês me bateram. Eu era filha de
vocês, e vocês nunca me conheceram. E quando eu disse que queria morrer, vocês gritaram: Por
quê?
Outra filha de missionários relatou que o terreno da missão onde ela e sua família moravam era
frequentemente invadido por ladrões; mesmo assim, seu pai deixava a esposa e os filhos sozinhos por
semanas, enquanto trabalhava em favor dos nativos. Para ela também foi assegurado que Deus
mandaria Seus anjos para protegê-los, mas ela vivia apavorada.
O medo crônico produz níveis elevados de cortisol e adrenalina, os quais induzem a sérias
consequências médicas. As crianças que vivem em um estado de estresse inexorável correm o risco
de ter problemas sociais e emocionais mais tarde na vida, alguns dos quais são atribuídos
parcialmente aos efeitos prematuros do trauma na química do cérebro. Alguns acabam pagando com a
própria vida pelo comportamento de mártir de seus pais. A sociedade desdenha de alcoólatras que
sacrificam a vida por causa da bebida. Haveria alguma diferença? Se pais bem-intencionados e
abnegados conhecessem as consequências potenciais de suas decisões, talvez se comportassem de
maneira diferente. Gosto de pensar que eu teria sido menos propensa a martirizar a mim mesma e a
minha família se, naquela época, eu soubesse o que sei agora, mas não tenho certeza. Eu não sei se
poderia fazer alguma coisa diferente, pois sou a neta de um missionário workaholic, e estava apenas
obedecendo aos regulamentos.

Matando os outros e a nós mesmos com a bondade


Os filhos que são criados em ambientes alcoólatras ou de outras dependências são ensinados a
assumir a responsabilidade pelo bem-​estar físico e emocional dos outros. Eles enfrentam
circunstâncias difíceis ao tomar conta de pessoas enquanto ainda são muito jovens, o que os expõe ao
risco de desenvolver o cuidado compulsivo de outros e os autossacrifícios indevidos na fase adulta.
Eles podem ser genuinamente bondosos e estar dispostos a fazer quase tudo para deixar os outros
felizes. Eventualmente, porém, eles começam a depender desse cuidado para manter a autoestima e o
valor próprio. Com medo de ser abandonados, tentam fazer-se indispensáveis procurando pessoas
carentes para ajudar. Alguns chegam até a colecionar “aleijados”, literalmente.
Ministros, missionários, servidores públicos, assistentes sociais, médicos e outros profissionais
que ajudam as pessoas são inclinados a esse tipo de comportamento porque muitos deles são
oriundos de famílias com histórias de alcoolismo. Os especialistas estimam que mais de 80 por cento
das enfermeiras, dos médicos, pastores e conselheiros são filhos já adultos de famílias problemáticas
ou alcoólatras, o que significa que eles são codependentes.2 Para eles, a abnegação indevida é uma
segunda natureza. Eles comprometem a saúde física e a mental e negligenciam a família para resgatar
e recuperar outros.
Em alguns casos, eles causam mais danos do que benefícios àqueles que estão tentando ajudar.
Nesse processo, eles se colocam na pista expressa para as estafas mental e física. Isso é um assunto
muito sério. Os indivíduos que tencionam ingressar em profissões ajudadoras precisam inocular-se
contra o cuidado compulsivo de outros, tratando suas próprias feridas antes de assumir seus deveres
de cuidadores profissionais. Antes de iniciar suas carreiras, eles precisam lidar terapeuticamente
com os danos que lhes fizeram na infância.
O desenvolvimento na infância e na adolescência são prejudicados pela dependência e o abuso. As
crianças que crescem nessas circunstâncias não são adequadamente nutridas – e crianças que não
recebem nutrição adequada não crescem. Elas permanecem social e emocionalmente imaturas. Se
fracassarem ao lidar com seus problemas de imaturidade antes de começar suas carreiras como
profissionais ajudadores, mais cedo ou mais tarde estarão enganando a si próprias e aos clientes,
pacientes ou paroquianos.
Além de precisarem ser inoculados antes de perseguir suas carreiras, os ajudadores profissionais
também precisam de injeções de reforço periódicas. Indefinidamente, eles devem buscar ajuda em
outros profissionais – terapeutas, supervisores, grupos de apoio dos Doze Passos e padrinhos – para
que possam proteger a si mesmos, suas famílias e seus clientes de danos.
Este excerto de uma carta escrita por uma missionária salienta a vulnerabilidade dos cuidadores
profissionais:

Eu sempre fui uma pessoa “ajudadora/resgatadora.” Talvez tenha sido por isso que meu marido e
eu aceitamos o chamado para o serviço missionário. [...] Agora somos nós que precisamos de
ajuda. Meu esposo está sofrendo com uma segunda estafa emocional e física, e eu estou
profundamente deprimida.
Como podemos conciliar o problema de “amar demais” com tudo aquilo que nos ensinaram sobre
serviço? De alguma maneira, acho que os missionários em geral precisam de ajuda. Eles têm
muitos problemas de relacionamento. Morar em um conjunto residencial e administrativo de uma
missão é a coisa mais anormal que existe! Temos visto estafa, problemas conjugais e problemas de
relacionamento entre os missionários e os nativos. Estes tendem a manter-nos no papel de
“ajudadores” porque têm necessidades inacreditáveis – enfermidades, pobreza, morte, etc. Não
trabalhamos juntos como coobreiros (iguais), e isso não é nada saudável.

Cuidado saudável versus cuidado doentio


Como distinguir entre o cuidado saudável e o cuidado doentio, na prática? Existem diferenças bem
distintas. Cuidar de forma saudável significa estar genuinamente preocupado com as necessidades
dos outros e, ao mesmo tempo, permitir que eles assumam a responsabilidade por si mesmos e seus
problemas. Não devemos apressar-nos para resgatá-los. Não precisamos nos sentir compelidos a
consertá-los. Por contraste, os cuidadores compulsivos não conseguem desprender-se
emocionalmente de qualquer pessoa que esteja sofrendo. Eles não suportam ver pessoas padecendo;
eles têm que resgatá-las.
O cuidado saudável corresponde à respeitosa preocupação por outra pessoa, compartilhando sua
experiência pessoal, sua força e esperança – sem invadir seus limites – e dando apenas quando
solicitado, ajudando sem qualquer expectativa de recompensa. O cuidado doentio corresponde ao
fazer coisas por outra pessoa, as quais podem ser feitas por ela mesma, tentar resolver seus
problemas, administrar sua vida, violar seus limites para poder resgatá-la ou consertá-la, administrar
sua vida, monitorar sua consciência. Esses comportamentos mantêm o recebedor doente, tornando-o
infantil. Como diz Melody Beattie: “O cuidar de outros aparenta ser um ato mais amistoso do que
realmente é. Requer incompetência da parte da pessoa que está sendo cuidada.”3
Para demonstrar cuidado saudável, os cuidadores precisam soltar seus queridos e seus problemas
para permitir que eles cresçam. Precisam dar um passo para trás e deixar que eles aprendam a lidar
com suas próprias dificuldades a fim de que possam desfrutar dos resultados.
Quando o filho de Joclyn tinha 30 anos de idade, ela ainda fazia o balanço do talão de cheques do
rapaz, pagava suas contas e dava as referências de crédito dela como se fossem dele para os seus
credores. Ela se sentia compelida a ajudá-lo porque ele era um viciado fora de controle. Na
realidade, ao assumir suas responsabilidades, protegendo-o das consequências de sua
irresponsabilidade, ela o estava ajudando a permanecer doente – perpetuando sua enfermidade e sua
imaturidade. Esse é um exemplo clássico de capacitação.
Não há nada de errado em dizer “não” para amigos ou parentes a fim de atender nossas próprias
necessidades. Crystal, uma proprietária de um pequeno negócio, planejou passar a tarde em casa
para colocar a correspondência em dia. Cinco minutos depois de ter chegado em casa, sentada em
sua cadeira de balanço favorita, com uma xícara de chá e uma pilha de envelopes, sua sogra ligou
pedindo que Crystal a levasse ao cabeleireiro. Ela não podia recusar, mas se ressentiu do
inconveniente. Uma boa regra é: se você não conseguir fazer alguma coisa sem ficar ressentido, não a
faça! Ou então mude sua atitude antes de fazê-la.
Nanette tem uma personalidade magnética. São tantas as pessoas que recorrem a ela com seus
problemas que seus amigos começaram a chamá-la de “Nan Landers”.4 Quando alguém lhe pede
ajuda, ela invariavelmente deixa o que está fazendo de lado e sai correndo para ajudar. Seus pais
modelaram esse tipo de comportamento quando ela era pequena. Uma vez, seu pai, um pastor,
cancelou um evento familiar muito aguardado para estar presente em uma reunião de emergência da
comissão da igreja. Anos mais tarde, enquanto Nanette chorava suas perdas em uma das sessões de
terapia, ela insistiu – com lágrimas nos olhos – que ele fizera o que era certo fazer.
Cuidadores saudáveis são pessoas felizes, contentes, serenas e tranquilas. Cuidadores doentios são
estressados, fatigados, exauridos, ressentidos. Cuidadores saudáveis são capazes tanto de aceitar
ajuda como de oferecê-la. Cuidadores compulsivos nutrem outros, mas não aceitam ser nutridos. Eles
são assertivos quando atacam uma injustiça social ou agem em favor dos outros, mas não conseguem
ser assertivos quando se trata de pedir o que querem ou precisam, preferindo retirar-se ou ficar
amuados.

Assistência que ajuda versus assistência que não ajuda


A fim de ajudar os outros de uma maneira saudável, devemos esperar que eles peçam assistência.
Impor um conselho ou ajuda não solicitada é intrusão. Não há nada de errado em consertar coisas –
mas a situação muda quando se trata de pessoas. Cuidadores compulsivos saem correndo para
lugares em que até os anjos têm medo de colocar o pé. Vicky é um exemplo clássico. Ela não suporta
ver o apartamento da filha todo desarrumado. Toda vez que vai visitá-la, acaba fazendo uma faxina
completa no apartamento, o que a deixa exausta. Depois, queixa-se amargamente com o marido. A
filha fica superofendida por causa das ações da mãe. Dar generosamente só para vangloriar-se ou
queixar-se depois é um sintoma de cuidado doentio.
Os cuidadores precisam aprender a receber tão prontamente como dão. Exaurir-se a serviço de
outros não apenas compromete seu sistema imunológico, mas também arruína sua rede de segurança
emocional. Muitos clérigos, administradores da igreja, conselheiros, políticos e médicos arruínam a
vida ao comportar-se negativamente quando sua rede de segurança emocional fica comprometida.
Isso poderia ser evitado se cuidassem melhor de si mesmos.
Um último recado para qualquer um que tenha o hábito de colocar as necessidades de outras
pessoas antes das suas próprias necessidades, ou que se machuca para servir os outros: se você tem
tentado controlar ou reduzir seu cuidado compulsivo por outros, se você tem feito o seu melhor para
praticar um autocuidado saudável e descobriu que não consegue fazer isso de maneira consistente,
por favor, pense na possibilidade de tratar o problema como um vício e procure ajuda profissional.

Esperança Para Hoje


Pesar e remorso são os marcos do vício da infelicidade. Ficar chafurdando no remorso alimenta
minha infelicidade e faz de mim uma péssima companhia. Se não quero afastar da minha vida as
pessoas que amo, preciso mudar. Mães infelizes são uma chatice. Liberdade de sentimentos de culpa
e autorreflexões sentimentais são resultados do trabalho com os Doze Passos. Com a ajuda do meu
padrinho ou de minha madrinha, eu me envolverei nesse processo para que eu não tenha de impor
minha culpa e vergonha às pessoas a quem já tenho ferido bastante com meu vício e codependência.
Meus queridos mais próximos estão dispostos a perdoar. Não tenho que pagar penitência. Chafurdar
na culpa não serve para nada, a não ser prolongar minha infelicidade.

Autoanálise
1 . Quando era jovem, você achava necessário cuidar ou prover conforto para alguém próximo de você? Como você os protegia ou
tentava minorar sua dor?
2 . Como você era recompensado pelo seu esforço?
3 . Ser bom e útil passou a fazer parte de sua personalidade?
4 . Alguma vez você levou o cuidado de outros ao extremo, a ponto de ferir-se ou infligir danos a outra pessoa?
5 . Faça uma lista de consequências negativas do seu cuidado excessivo com outros. Busque uma fonte externa de sabedoria e poder –
Deus, da maneira pela qual você O entende, ou um bom amigo – e expresse seus sentimentos de dor e remorso.

1 Paul Tournier, A Place for You (Nova York: Harper & Row, 1968), p. 109.
2 Sharon Wegscheider-Cruse citada em Ann Wilson Schaef, When Society Becomes and Addict (Nova York: Harper & Row), p. 30.
3 Melody Beattie, Codependent No More, p. 79.
4 Trocadilho em referência a Ann Landers, uma popular colunista (fictícia) que oferece conselhos desde 1943 no Chicago Sun-Times.
Na semana que vem não pode haver uma crise. Minha agenda já está cheia.
Henry Kissinger

N o capítulo 8, vimos a confusão que o martírio e o cuidado compulsivo criam quando você
mistura as duas coisas. O martírio também se mistura muito bem com várias outras
dependências: vício em trabalho, perfeccionismo, controle compulsivo, vício em religião ou
legalismo.
Cada um desses pratos mistos oferece um singular conjunto de problemas. Mas antes de falarmos
das características e consequências das várias combinações, precisamos estudar outra questão
básica: Como avaliar se um determinado estilo de vida é normal ou vicioso? Até o negativismo pode
ser normal se estiver equilibrado com uma quantidade adequada de positivismo, como diz a Dra.
Barbara Fredrickson, professora de psicologia da Universidade de Michigan. A proporção otimizada
entre o efeito positivo e o negativo é de aproximadamente três para um.1
Muitas dependências limpas entram em áreas cinzentas. Elas envolvem ações como comer,
trabalhar ou cultuar – atividades que são apropriadas e necessárias. Não podemos viver sem
trabalhar, sem desempenhar nossas tarefas razoavelmente bem, ou sem estar envolvidos em buscas
espirituais. Nessas áreas, é difícil fazer a diferença entre o comportamento normal e o dependente.
Como saber se uma relação normal com algo ou alguém se tornou uma dependência doentia? No
capítulo anterior, discutimos a diferença entre o cuidado saudável e o doentio. Aqui estão outras
preocupações: Como distinguir entre trabalhar para viver e viver para trabalhar? Existe alguma
diferença entre realizações saudáveis e perfeccionismo neurótico? Como estabelecemos a diferença
entre o controle compulsivo e a responsabilidade? E qual é a diferença entre a espiritualidade
saudável e a religiosidade obsessiva?

Viciados para todos os gostos


Algumas pessoas são tão versáteis que podem transformar qualquer coisa em um vício. Isso inclui
atividades como comer, deixar de comer, dormir, deixar de dormir, ser sexualmente promíscuo, ser
sexualmente anoréxico, exagerar nas atividades físicas, ver televisão em excesso, comprar
compulsivamente, juntar dinheiro, jogar (jogos de azar), fantasiar, jogar videogames, surfar na
internet, decorar a casa, cuidar do jardim, bordar, encerar o assoalho, falar, fazer piadas e escrever
livros.
Embora os religiosos conservadores sejam, de alguma maneira, menos propensos ao uso de drogas
e álcool, eles são mais propensos a fazer mau uso de comida, trabalho, cuidado de outros, controle e
mexericos. As pessoas podem se prejudicar de um milhão de maneiras, muitas das quais parecem
bastante inofensivas. A natureza de uma substância ou atividade qualquer não determina seu
potencial de viciar. O vício é definido não por aquilo que fazemos ou pela frequência com que o
fazemos, mas pelo motivo por que o fazemos e pelas consequências que virão.
Martirizado pelo trabalho exagerado
Tão certo quanto os viciados em infelicidade são atraídos para parceiros abusivos, eles também
são atraídos para instituições que os envolvem nesses tipos de comportamentos – controle,
manipulação, padrões duplos, triangulações e cultivo de segredos – que são típicos de famílias
disfuncionais. Muitos administradores de instituições desse tipo são viciados ativos, normalmente em
trabalho. Com frequência, a maioria dos empregados são adultos que sobreviveram ao vício e abuso
e, por isso, são muito codependentes. Em alguns casos, a agência exige uma devoção viciosa para
sua missão.2
Certa vez, ouvi um líder da igreja se vangloriar pelo fato de que as pessoas que passavam em frente
da sede administrativa da igreja a qualquer hora do dia ou da noite viam as luzes acesas e os
funcionários trabalhando duro. Não creio que ele percebeu as implicações de sua declaração.
Acender a vela em ambas as pontas leva ao desgaste prematuro. Líderes que trabalham
exageradamente põem em risco a saúde física, a emocional e a espiritual e não são modelos de
moderação e equilíbrio para sua clientela. No entanto, executivos, políticos, profissionais da área
médica, empresários e clérigos vivem assim o tempo todo. Gerações de membros da igreja têm
esperado isso de seus pastores.
Os workaholics são viciados dependentes de substâncias químicas endógenas, que são drogas
produzidas em seus próprios corpos. Diferentemente das drogas de rua, que precisam ser adquiridas
ilegalmente, a droga de escolha do workaholic está sempre à disposição, e não custa um centavo.
Embora não precise ir a bairros perigosos nem gastar dinheiro duramente ganho, o workaholic paga
um preço alto em termos de saúde física e social, assim como bem-estar emocional. Doenças
relacionadas com o estresse são o resultado inevitável: ataques cardíacos, derrames e hipertensão. É
martírio ao máximo.
A primeira vez que alguém me acusou de ser uma workaholic, considerei isso como um insulto e
respondi defensivamente: “Eu não sou uma workaholic. Eu adoro o meu trabalho.” Correto. Os
viciados em cocaína também adoram a cocaína deles! O fato de eu gostar do meu trabalho não
negava que eu estava ficando “alta” com adrenalina. Era uma confirmação disso.
Embora o workaholismo seja uma dependência aprovada em muitos grupos sociais, ele não é
menos néscio ou imoral do que o alcoolismo, quando analisado do ponto de vista da ordem bíblica
de tratarmos nosso corpo como o templo de Deus. Os workaholics motivados pela religião fariam
bem em enfrentar essa desagradável realidade.

Trabalhar para viver versus viver para trabalhar


Pensei em pedir para outra pessoa escrever esta parte, pois não tenho muita certeza de que tenha
resolvido totalmente esse problema em minha própria vida. O fato é que sou e sempre serei uma
workaholic – algo que não tenho como esquecer. Na verdade, isso pode até ser o que me qualifica
para escrever sobre o assunto! A literatura sobre os Alcoólicos Anônimos sugere que o máximo pelo
que um alcoólatra em recuperação pode esperar é uma suspensão diária dos seus sintomas, contanto
que mantenha um programa espiritual. Não me envergonho de dizer que, um dia de cada vez e pela
graça de Deus, sou uma cuidadora, controladora, workaholic e mártir em recuperação.
Antes de começar a me recuperar, não percebi que as pessoas normais não começam a pensar no
minuto em que acordam, pela manhã. Eles não se penduram no computador para abrir uma agenda
com uma lista de coisas para elas mesmas e para os demais ao seu redor (cônjuge, filhos,
empregados) fazerem antes do café da manhã. As pessoas normais existem à parte do trabalho. Elas
não definem a si mesmas pelo seu papel profissional. Elas não aceitam mais responsabilidades do
que possam assumir. Elas não ficam obcecadas com o trabalho quando não estão em seus locais de
trabalho. Elas não levam trabalho para fazer em casa durante os feriados. Elas não têm que terminar
um projeto antes de poderem parar ou fazer uma pausa. Elas podem fazer com que as tarefas
esperem. Elas tomam tempo para ir ao banheiro. Elas saem para caminhar e sentir o aroma das
flores. Mesmo se puderem terminar uma tarefa hoje, elas são capazes de adiá-la para amanhã sem se
sentir culpadas. Elas trabalham para viver. Elas não vivem para trabalhar.
Gosto do slogan simples que aprendi nos Workahoicos Anonymous: “Sou o suficiente. Tenho o
suficiente. Faço o suficiente.” Amém.

Colocando o perfeccionismo em perspectiva


Fazer o que é certo e acreditar na coisa certa sempre tem sido importante para mim. Quando era
criança, eu era exageradamente conscienciosa. Na escola primária, eu gastava maços de papel
recopiando várias vezes minhas tarefas de matemática até que as margens ficassem bem retas e as
colunas de números absolutamente alinhadas. Na adolescência, passei a exigir demais de mim,
terminando o ensino médio aos 16 anos e me formando na faculdade aos 19. Durante os próximos 20
anos, meu perfeccionismo chegou ao ponto de afetar minha saúde mental e ferir as pessoas próximas
de mim.
O perfeccionismo tem que ver com a necessidade de estar certo. Tecnicamente, não há nada de
errado em estar certo, mas ficar obcecado com o estar certo é questionável. Não é saudável fazer do
estar certo e do ser justo nossa única fonte de significado, identidade e valor. Quando medimos nosso
próprio valor e julgamos o valor dos nossos pares pela qualidade do nosso desempenho ou do
desempenho deles, o perfeccionismo assume, quando muito, uma qualidade ofensiva, um dos piores
tipos de dependência.
De acordo com a literatura dos Alcoólicos Anônimos, a exigência compulsiva pela perfeição pode
ser um sintoma neurótico tão difícil de lidar quanto a compulsão do alcoólatra para beber.3 Posso
testificar quanto a esse fato. O perfeccionismo não é atrativo. Ele não atrai as pessoas para nós; ele
as afasta de nós. As pessoas fogem dos perfeccionistas porque se sentem muito defeituosas em sua
presença. Elas se irritam com a “chatice” do perfeccionista e com a sutil arrogância do
perfeccionismo em geral.
Em um encantador livro intitulado The Art of Imperfection [A Arte da Imperfeição], Veronique
Vienne diz: “Nossas idiossincrasias inerentes são, na verdade, mais cativantes para os outros do que
as nossas realizações mais gloriosas. A história está cheia de pessoas incompetentes que foram
amadas, trapalhões com traços de personalidade encantadores e gente inepta que deliciava seus
seguidores com suas despretensiosas presenças. O segredo? Aceitar as falhas com a mesma graça e
humildade com que são aceitas as melhores qualidades.”4
Não existe uma penalidade por não sermos capazes de andar sobre a água, ela acrescenta. Alguém
pode impressionar ao pedir um segundo prato de sobremesa em um jantar com a namorada e ao
acender o forno ao preparar um prato especial. Observe o toque de realismo: “Você é um advogado
esperto, mas os seus filhos o adoram porque você faz caretas assustadoras. Você acaba de ser eleito
presidente da empresa, mas o seu melhor amigo diz: ‘Você passou a perna em todos eles, não foi?’”5
Vienne oferece uma chamativa descrição de um mundo imperfeito, uma sociedade na qual as
pessoas não gastam uma extraordinária quantidade de tempo e energia reclamando furiosamente com
sua sorte sempre que cometem um erro. Elas podem “esbarrar nos móveis, perder prazos, confundir-
se no caminho do aeroporto, esquecer de retornar ligações e aparecer em festas um dia antes sem
ficar indevidamente aborrecidas consigo mesmas”.6 Embora muita gente acredite no ditado “errar é
humano”, muitos se consideram a exceção à regra. “O que é suficientemente bom para você não é
suficientemente bom para mim. Cometer erros? Não debaixo dos meus olhos!”7 Eles se apegam a
essa atitude, embora ela não lhes traga paz ou serenidade e tampouco aumente sua popularidade.
Nota: Existe um Deus, e eu não sou Ele. Em última análise, a salvação ou felicidade de alguém não
depende do meu exemplar comportamento. As pessoas gostam de conviver com seres humanos como
elas próprias, não com esteios de perfeccionismo patológico. Nossa humanidade é que nos qualifica
para sermos úteis aos outros – não nossa infalibilidade.
Isso não equivale a dizer que buscar a excelência seja ruim ou que abraçar valores morais altos
seja errado. Mas se queremos ter uma fé cativante, um testemunho viável, temos que descer do nosso
pedestal! Vienne diz: “Sempre que estiver em uma encruzilhada moral, faça o que é certo. Mas não se
considere especial, superior ou heroico por ter princípios. Se, por outro lado, você não consegue ser
tão ético quanto pensa que deve ser, não finja estar surpreso.”8
Como se dá a conexão entre o perfeccionismo e o vício da infelicidade? Sendo incapazes de
aceitar sua falibilidade, os perfeccionistas se colocam sob uma enorme pressão. Eles estão sempre
obcecados com seu desempenho. Tirar 10 não é o suficiente – eles têm que estar no topo da classe.
Perseguem a excelência como se a vida deles dependesse disso – e às vezes é exatamente isso.
Conheço alguns perfeccionistas, inclusive eu mesma, cujos primeiros pensamentos sobre suicídio (no
meu caso, aos 13 anos) vieram na esteira de um desempenho que deixou a desejar.

Como saber se você é um perfeccionista


Por meio de uma autoavaliação, repare como você reage às suas falhas. Você se sente sem valor
quando não tem um desempenho perfeito? O seu humor entra em parafuso? Você nega suas falhas e
culpa os outros para manter sua ilusão de perfeição? Você utiliza um comportamento infalível para
proteger o ego prejudicado? Se for assim, você é um perfeccionista. Não desanime. Você pode
mudar.

Em busca da imperfeição
Alguns perfeccionistas, especialmente os que praticam o perfeccionismo no contexto da religião,
precisam começar pela avaliação de sua teologia, desenvolvendo uma compreensão mais precisa do
caráter de Deus. Espera-se que descubram que o amor e a aprovação de Deus não oscilam em função
do seu desempenho.
Algumas sugestões para conseguir a abstinência do perfeccionismo:
• Pare de gerenciar sua imagem. Deixe cair a máscara e aceite o fato de que você é perfeitamente
imperfeito.
• Comemore o progresso – não o perfeccionismo.
• De vez em quando, faça apenas o mínimo. Aplique menos esforço que o costumeiro para atingir
uma meta.
• Vista uma roupa descombinada ou manchada sem ficar se desculpando ou se explicando.
• Acalme a crítica interna – suspenda o fogo contra você mesmo e os outros.
• Ponha o foco nas coisas boas, puras e amáveis que existem em você ou em outra pessoa.
• Evite estar sempre no comando. Deixe que outra pessoa assuma o comando.
• Peça e aceite ajuda com mais frequência.
• Se você não tiver sucesso em algo logo no começo, não tente de novo.
• Diga “não sei,” “não tenho certeza,” ou “prefiro não” várias vezes ao dia.
• Ore pedindo humildade.
• Ria de si mesmo ao tropeçar e cair – e não se esqueça de contar o fato para os amigos.
• E lembre-se: não finja estar surpreso quando cometer um erro!

Assumir o comando do eu versus controlar os outros


Quanto mais nos sentimos compelidos a administrar e controlar as pessoas e as circunstâncias,
mais temos que nos sacrificar, ignorar nossas próprias necessidades, ou colocar em risco nossa
saúde e segurança a fim de cumprir nossa missão. Você e eu somos responsáveis por nossas próprias
vidas, e não é nossa função administrar a vida das outras pessoas. Pense nisso: no minuto que
começo a tentar controlar o seu comportamento, estou operando sob a premissa de que sei o que é
melhor para você, ou de que reparto o conhecimento da vontade de Deus.
Mesmo que tivesse conhecimento da vontade de Deus para sua vida, eu não saberia qual é o melhor
momento nem o melhor caminho (inclusive os desvios) que você deve seguir ao longo da sua
jornada. Eu não sei o que é melhor para você, e se eu assumir o controle daquilo que você diz, pensa,
sente ou crê, estarei assumindo o papel de Deus – um papel para o qual não estou, em absoluto,
qualificada.
Como é que os mártires manipulam e controlam? Dando ordens diretas ou indiretas, fazendo planos
sem consultar as pessoas afetadas, exigindo em vez de pedir, assumindo o direito de administrar a
vida das pessoas e não aceitando um não como resposta. “Irmã Matilde, se a senhora não aceitar o
cargo de Diretora da Escola Cristã de Férias este ano é provável que fiquemos sem uma Escola
Cristã de Férias dessa vez.” Não está certo causar vergonha a alguém por ele dizer não.
Os manipuladores insinuam em vez de pedir diretamente; eles discutem, acusam, causam embaraço
e usam seu charme pessoal para impor seu gosto, fazer política, envolver-se em abuso verbal ou
físico, sutilmente ameaçar os outros e comportar-se de modo passivo-agressivo quando tudo falha.

Controle doentio: administrar a vida de outros


O controle negativo ou doentio corresponde à invasão dos limites de outra pessoa, ao cuidado da
vida delas, ao pretenso direito de administrar a vida delas – saúde, maneira de falar, modos, crenças,
costumes – à tentativa de forçar resultados e interpretar a vontade de Deus para elas e, procurando
ser sua consciência ou seu Poder Superior.
Qual é a relação do controle com o vício da infelicidade? Os controladores compulsivos só ficam
felizes (satisfeitos) quando conseguem que todo mundo aja corretamente. Acreditam que só existe
uma maneira de fazer as coisas e somente eles sabem qual é. Em situações sociais, os controladores
frequentemente assumem o papel autoconferido de “chefões”. Eles tomam sobre si responsabilidades
de liderança que não lhes foram conferidas, ficando exaustos por tentar arrumar pessoas e
circunstâncias de acordo com seu gosto. Quando as pessoas não cedem aos seus desejos, eles ficam
infelizes e deixam infelizes os que estão por perto. Preciso dizer mais?
Os controladores impulsivos podem causar um grande estrago no ambiente de trabalho, nas igrejas,
comissões e reuniões administrativas. Se as coisas não acontecem do jeito deles, todo mundo paga.
Tenho visto amargura e ressentimento em igrejas e outros grupos sociais por conta de pequenas
diferenças de opinião que vão se reciclando por duas ou mais gerações, mantendo um espírito de
dissensão até muito tempo depois de os detalhes da querela inicial já terem sido esquecidos. Creio
que isso é um sintoma do vício de cuidar e controlar não diagnosticado e não tratado.

Controle saudável: assumir o comando do eu


É possível controlar de maneira saudável? Sim, é possível. O controle positivo e saudável é o
autocontrole – que diz respeito ao comando da própria vida e ao próprio bem-estar, como também o
bem-estar dos filhos menores.
Um dos maiores desafios de nossa vida adulta é romper o hábito de controlar e ficar cuidando da
vida de nossos filhos já crescidos. Por considerar o Alcoólicos Anônimos como o jardim de infância
de um afastamento saudável, eu o recomendo para todos os pais que estejam tentando abster-se de
administrar a vida dos filhos, mesmo que os filhos nunca tenham ingerido alguma bebida alcoólica ou
droga.

Espiritualidade saudável versus vício da religiosidade (legalismo)


A interação entre o vício da religiosidade e o martírio é, de alguma maneira, natural. Em certas
circunstâncias, sacrificar a vida pelo Senhor ou por uma boa causa é apropriado e necessário, mas
somente quando se é espiritualmente chamado para assim fazer – não quando se é levado pelo vício
e pela codependência. Reconhecer a tênue linha entre esses dois extremos requer uma tremenda
autoconsciência e maturidade espiritual.
Muitos heróis espirituais foram chamados para o martírio – João Batista, o apóstolo Paulo,
Estêvão, etc. Numerosos pioneiros de movimentos religiosos de sucesso como Martinho Lutero,
Tiago e Ellen White, Joseph Smith, Joseph Bates e outros fizeram sacrifícios enormes em favor de
outros. Muitos heróis nacionais correram grandes riscos e fizeram incríveis sacrifícios por causas
nas quais acreditavam – Madre Teresa, Martin Luther King Jr. e Nelson Mandela, só para citar
alguns.

A abnegação saudável
As pessoas que praticam uma espiritualidade saudável são livres para fazer boas escolhas quanto
ao comportamento abnegado e manter equilíbrio e moderação em suas disciplinas religiosas,
inclusive a de dar. Mas os que praticam o vício da religiosidade são propensos a levar seu
comportamento abnegado ao extremo, muitas vezes se automartirizando desnecessariamente. Ou
então, fazem o que é certo pela razão errada: para ganhar a salvação, obter aprovação ou gerenciar
sua imagem. Muitos vão além dos seus limites. Trabalham para o Senhor num frenesi demoníaco,
castigando a si mesmos e a outros em sua tentativa de administrar o Universo.
Os que racionalizam e justificam esses comportamentos com base em Deus e na igreja estão
distorcendo o que deveria ser a parte mais positiva da vida, transformando-a em um instrumento de
autoabuso – algo que aprendi por experiência própria. Não acho que é isso que Deus tem em mente.
Felizmente, o Deus que conheço não condena as pessoas que consciente ou inconscientemente fazem
essas coisas mais do que a outros viciados.
O vício em religião não é melhor nem pior do que a dependência química. Todas as dependências
trazem consequências. Todo viciado precisa e merece perdão, misericórdia e graça. Infelizmente, os
viciados em infelicidade têm problemas para aceitar isso, o que é um dos sintomas mais sérios da
dependência. Falaremos mais a esse respeito.

Esperança Para Hoje


Deus, ajuda-me a aceitar Tua graça, regozijar-me na Tua bondade e lembrar-me de que Tua
aceitação não é condicional. Ajuda-me a não condenar a mim mesmo nem a ninguém por sermos
humanos e, portanto, imperfeitos. Ajuda-me a considerar os erros que cometo como nada mais, nada
menos do que oportunidades de aprender e crescer. Acima de tudo, dá-me o dom da moderação e
equilíbrio. E ajuda-me a não desanimar e a não fingir-me de surpreso ao cometer erros.

Autoanálise
1 . Havia algum workaholic ou perfeccionista em sua família de origem? Como essa pessoa racionalizava o comportamento dela? Você
aderiu à sua filosofia?
2 . A partir de uma perspectiva da parte que está ferida dentro de você, escreva uma carta expressando a tristeza e solidão que sentiu
quando a pessoa mais próxima não esteve física ou emocionalmente disponível para você.
3 . Em sua vida de adulto, você já se privou – ou privou seus queridos – do tempo e da atenção que você e eles merecem por estar tão
ocupado na busca da perfeição? O que isso lhe custou?
4 . Permita-se chorar suas perdas. Encontre uma foto sua enquanto menino (ou menina) e leia sua carta para essa pessoa. Se a música
o ajuda a ficar sintonizado com seus sentimentos, ligue o seu som durante esta atividade. (Esta sugestão não é apenas para as
mulheres; os homens também precisam chorar suas perdas.) Compartilhe seus sentimentos com um amigo de sua confiança.

1 Z. Stambor, “‘Appropriate’ Negativity Necessary for People to Prosper”, American Psychological Association Online,
http://www.apa.org/monitor/nov05/appropriate.html. Acesso: 22 de agosto de 2007.
2 Anne Wilson Schaef e Diane Fassel, The Addictive Organization (San Francisco: Harper & Row, 1990), p. 118.
3 Al-Anon Family Group, One Day at a Time in Al-Anon (Nova York: Al-Anon World Services, 1958), p. 358.
4 Ibid.
5 Ibid.
6 Ibid.
7 Ibid.
8 Ibid.
Existem dois dias na semana com os quais nunca me preocupo: o ontem e o amanhã.
Robert Burdette

S ão poucas as necessidades do mártir: alguma coisa para fazê-lo bastante infeliz e alguém a
quem possa culpar por sua infelicidade. No capítulo 9, vimos como o vício da infelicidade
está vinculado a certas dependências limpas e como estas exacerbam uma à outra. Mas uma sinergia
ainda mais dramática ocorre quando a pessoa duplamente dependente se vicia também em uma
substância ou atividade suja como drogas, álcool e sexo. Essas pessoas têm uma justificativa já
pronta para ficarem altas, uma desculpa lógica para seu mau comportamento. Seu perturbador oficial,
normalmente o cônjuge ou o pai e/ou a mãe, fornece-lhes o álibi perfeito para suas bebedeiras, as
drogas, os casos extraconjugais, etc.
Os aborrecimentos de cada dia estimulam a adrenalina requerida para empurrar os mártires
duplamente viciados para dentro dos infernos em que eles se sentem mais confortáveis. Além disso,
dão a eles uma razão “válida” para dar rédeas à sua dependência favorita: “Você também beberia se
tivesse uma mulher como a minha”, insistem eles. “Se o seu marido fosse igual ao meu, você também
comeria muito, ou seria supercontroladora, ou trabalharia exageradamente.” “Você também teria
amantes, jogaria compulsivamente, ou também assistiria a filmes pornográficos se sua esposa fosse
tão gorda como a minha, ou se seu marido fosse tão chato como o meu, ou se seus filhos fossem tão
malcomportados como os meus.”
A maioria das reclamações dos viciados em infelicidade se encaixa em uma das seguintes
categorias: enfermidades físicas, preocupações financeiras, problemas sociais e insultos à psique do
passado. Eu costumava pensar que esses recitais de órgão (ai, meu fígado!) eram fenômenos da
velhice, mas agora eu sei que mártires jovens podem reclamar do nervo ciático e se apoderar de
nossas melhores reclamações. O queixume crônico mantém o viciado em infelicidade inerte, o que
assegura a persistência do problema, fornecendo assim muita ração para mais queixas.
O que o negaólico tem que fazer para se abster do mau comportamento? Em que ponto ele pode
interromper o ciclo? E, por tudo o que é sagrado, do que ele está tentando se abster?

O desafio de distinguir abstinência de “uso”


A recuperação começa com a abstinência, um conceito frustrantemente vago para alguém que sofre
de dependências limpas. Alcoólatras se abstêm da bebida colocando a rolha na garrafa e mantendo-a
ali. Viciados em drogas se abstêm deixando seus braços livres das agulhas, ou se recusando a tomar
os comprimidos, fumar o baseado ou cheirar o pó. Mas, espere aí, como é que o viciado em
infelicidade pode se abster?
Como temos visto, a maioria das dependências envolve comportamentos dentro do estilo de vida
que não podem ser suspensos sem que a pessoa sofra graves consequências – comer, trabalhar,
exercitar-se, relacionar-se com pessoas, e assim por diante. A abstinência significa moderação e
equilíbrio em vez da contenção total do comportamento. Isso impõe um considerável desafio. Como
diz Santo Agostinho: “A abstinência completa é mais fácil do que a perfeita moderação.” Por isso,
vamos mostrar um grande sorriso de simpatia aos viciados em infelicidade, pois é muito mais difícil
para eles definir e praticar a abstinência do que para os demais viciados.
Alguns grupos de Doze Passos deixam a definição de abstinência para o indivíduo, cujo “interesse
próprio iluminado” determina quando e como abster-se.1 Não tenho certeza do significado de
interesse próprio iluminado, mas o interpreto como autoentendimento – estar ciente das próprias
fraquezas, ser honesto sobre as coisas que geram a vontade de praticar o vício e a disposição de
evitar pessoas e lugares perniciosos, bem como as coisas que deixam a pessoa predisposta a praticar
o comportamento dependente.
Examinemos, então, o significado de uso. Isso vai ajudar-nos a distinguir entre abstinência e
fingimento. O material a seguir será reiterado em um substancial checklist no Apêndice D. Por isso,
fique tranquilo e continue a leitura – ou vá diretamente ao Apêndice D e pule o restante deste
capítulo. Melhor ainda, faça as duas coisas, menos o que eu disse sobre pular o restante deste
capítulo.
Para viciados em drogas e alcoólatras, a abstinência precoce significa o impedimento do uso pela
força e raça – ao segurar com toda força os braços de uma cadeira para não ceder à vontade. As
pessoas dependentes de substâncias químicas sabem que não farão nenhum progresso em sua
recuperação se não mantiverem as substâncias que viciam fora do corpo, pois é a introdução delas
que ativa o desejo. Assim, com um bocado de ajuda dos companheiros que têm se mantido sóbrios,
eles, “na força e na raça”, evitam o uso, nas primeiras semanas ou nos primeiros meses, frequentando
as reuniões dos Doze Passos, saindo com os padrinhos, enturmando-se com pessoas sóbrias em vez
de amigos “usuários”, e evitando circunstâncias perniciosas. Qual é a consequência direta disso para
os viciados em infelicidade? O que seria vício para eles?

Colocar-se para baixo


É no ato de colocar-se para baixo, ou se autodenegrir, que o viciado em infelicidade se torna
usuário. Aqui está um exemplo: quando meu filho mais novo tinha seis anos, minha mãe veio
visitar-​nos por algumas semanas. Uma manhã, ela se ofereceu para preparar o café da manhã. Depois
de misturar a massa com minha batedeira elétrica portátil, ela ejetou os misturadores de metal na pia
e deixou cair a batedeira no chão. O “caríssimo” aparelho (custou pouco menos que cinco dólares)
se espatifou completamente! Minha mãe murmurou entre os dentes: “A vovó, sempre fazendo essas
burradas...” Mais tarde, meu filho me perguntou: “Por que a vovó está sempre se denegrindo?”
Avance a imagem para 26 anos depois. Eu estava visitando o mesmo filho – já crescido, casado,
pai de um filho. Um dia, enquanto eu enxugava a louça, deixei cair um pires, que se despedaçou no
chão da cozinha. “Eu estou sempre fazendo burradas assim”, eu murmurei. Meu filho disse: “Mãe,
você está se denegrindo exatamente como a vovó fazia.” Nada como pequenas coisas para causar
grandes impressões, não é?
Hoje, considero um vício os atos de colocar-me para baixo e de ficar encontrando falhas passadas.
Estou me abstendo ao recusar-me consciente e deliberadamente a ficar envergonhada, criticar minhas
decisões, ou consignar-me ao purgatório quando cometo um erro.
Outro comportamento de mártir é ser exagerado na atenção às solicitações dos outros. Insegura e
cheia de incertezas consigo mesma, Naomi se coloca em uma posição inferior na maioria das
situações sociais. Uma das maneiras pelas quais ela faz isso é se desculpar exageradamente por tudo.
Embora estivesse tratando de sua codependência, seu terapeuta a colocou em um recesso do hábito
de desculpar-se por tudo. Um dia, ela resvalou em seu velho costume, sendo imediatamente
repreendida por isso, o que a levou a desculpar-se por desculpar-se! Sua atitude era
autodepreciativa. As pessoas mais próximas dela se incomodavam com isso. Não é errado assumir a
responsabilidade por nossas falhas, mas não temos que ficar nos desculpando por nossa existência! O
hábito de desculpar-se por tudo pode ser uma forma de vício.

Ofender-se
Isso envolve ler a mente dos outros e presumir insultos onde eles podem ou não ter existido. Levar
coisas que as pessoas dizem ou fazem para o lado pessoal sem pedir-lhes esclarecimento antes de
chegar a conclusões negativas é outra forma de vício.
Vonda, uma consultora de investimentos que é uma negaólica com vários meses de abstinência do
seu vício em infelicidade, descreveu um incidente que indicou um real crescimento: “Ontem, em uma
reunião do meu departamento, fiz uma piada leve sobre mim mesma. Um dos meus colegas
aproveitou a ocasião para fazer outro comentário jocoso, mas agora com uma insinuação sarcástica.
Por um segundo, senti como se tivesse levado um tapa no rosto. Fiz, então, uma pausa e decidi
conscientemente não interpretar suas palavras ou intenções negativamente.” Isso, sim, é abstinência!

Chamando a atenção
O mal de chamar a atenção é que a maioria dos viciados em infelicidade faz isso de maneira
inconsciente. Eles nem percebem quando estão se lamentando e se queixando e, muito menos, que o
fazem para chamar a atenção dos outros. É muito provável que ficarão chocados e magoados se
alguém mencionar que estão tornando pública sua carência.
É difícil confrontar a busca de atenção, pois a própria tentativa de alertar o mártir sobre o que ele
está fazendo já satisfaz sua necessidade de ser perseguido, o que reforça sua atitude negativa –
exatamente o que não queremos fazer. A pessoa que realmente merece simpatia é o terapeuta (eu,
nesse caso), que está se esforçando para ensinar um novo comportamento para um viciado em
infelicidade. Grande parte do esforço empregado para apontar o comportamento da busca de atenção
cai em ouvidos moucos. Tais esforços são, na verdade, contraproducentes. Perdoem-me se eu estiver
me permitindo um momento de autopiedade.

Melancolia e desespero
Existem duas atividades que alimentam o presságio e a melancolia: o preocupar-se (ou o permitir
que um pensamento fique girando em nossa cabeça enquanto tentamos achar uma solução) e
“pioralizar” (generalizar tudo, sempre presumindo o pior). Resultado: uma atitude de total desespero
e desamparo. A Dra. Chérie Carter-Scott, autoridade internacional na superação do negativismo,
rotula as pessoas que fazem isso de “queixosos que recusam ajuda”.2 Elas atraem os cuidadores para
uma armadilha, falando de maneira obsessiva sobre seus problemas, e, depois, rejeitam ou recusam-
se a aceitar as sugestões oferecidas.
Os queixosos que rejeitam ajuda desprezam conselhos e discutem com as pessoas que tentam ajudá-
los. No minuto em que alguém oferece uma solução viável para seu dilema, elas pulam para o outro
lado da questão e começam a debatê-la. Carmem é um exemplo clássico. Por ser uma criança
problemática, tanto a mãe como a avó a mimaram desde sua infância. Suas intermináveis dificuldades
eram uma constante fonte de crise para as duas e, ao mesmo tempo, promoviam-lhes crescimento. O
ato de gravitar em torno de Carmem dava-lhes um senso de significado e propósito. O costume de
chamar a atenção de Carmem funcionava tão bem que ela continuou a ser a filha-problema oficial da
família até a fase adulta.
Indivíduos queixosos que rejeitam ajuda, de acordo com Carter-Scott, aprendem bem cedo que
podem obter muito mais atenção quando se machucam, ficam doentes, deixam de lavar sua louça,
deixam o quarto todo bagunçado, mentem e causam problemas em vez de comportar-se bem. Com a
repetição, eles internalizam um sistema operacional por meio do qual recebem atenção pelas coisas
negativas, ao invés das positivas. Seu vício em infelicidade está baseado no “barato” psicológico e
no químico que experimentam toda vez que se engajam em pensamentos, palavras e ações negativos.3
Carmem vinha passando por um problema atrás do outro. Ela estava sempre em dificuldades,
sempre precisando ser amparada. Quanto mais os amigos tentavam ajudá-la, mais intratáveis se
tornavam seus problemas. Todas as tentativas de dar-lhe uma resposta ao problema do momento eram
habilmente rejeitadas. Era aquele constante jogo: “Por que você não…? – Sim, mas…” E ela sempre
ganhava. Era mais ou menos assim.
Carmem: “Eu sou superinfeliz em meu casamento. Talvez seja melhor eu deixar meu marido.”
Cuidador: “Talvez seja melhor mesmo.”
Carmem: “Eu não posso realmente deixá-lo, porque talvez eu não consiga meios financeiros para
sobreviver.”
Cuidador: “Bom, você poderia conseguir um emprego.”
Carmem: “Não tem como eu conseguir um emprego porque eu desisti de minha carreira de
enfermeira depois de me casar, e nem tenho mais minha licença.”
Cuidador: “E por que você não renova sua licença?”
Carmem: “Ah, eu nunca vou conseguir preencher todos os requisitos porque estou sem trabalhar faz
dez anos.”
Cuidador: “Por que você não faz um curso de atualização? Tenho certeza de que existem cursos
desses por aí.”
Carmem: “Você acha que eu tenho dinheiro pra gastar com isso?”
Cuidador: “Talvez você consiga dinheiro emprestado em um banco.”
Carmem: “Como é que eu vou conseguir um empréstimo se não tenho crédito?”
Cuidador: “Desisto!”
Obviamente, porque o seu comportamento problemático foi reforçado na infância, Carmem não está
procurando respostas. Ela quer apenas ser o centro da atenção. Apenas alguns minutos depois de
entrar no jogo do “Por que você não…? – Sim, mas…” com Carmem, ninguém sabe onde aquilo vai
parar. O ajudador de plantão se desespera: “Espere um minuto. De que lado você está?”
Amigos e parentes bem-intencionados são presas fáceis desse tipo de jogo enlouquecedor. Para
abster-se do comportamento de sempre chamar a atenção, os viciados em infelicidade precisam pedir
e aceitar o parecer de outras pessoas sem ficar argumentando. Para os mártires/cuidadores,
abstinência significa parar de correr para ajudar e fazer sugestões, a menos que lhes seja solicitado;
e, mesmo quando solicitado, apartar-se emocionalmente sem alimentar expectativas tão logo o
conselho for dado. Corte imediatamente os cordões.

Autossabotagem
O isolamento é um grande problema para os viciados em infelicidade. Eles não conseguem pedir
aquilo que precisam quando se sentem magoados, sós ou assustados. Na maioria dos casos, eles nem
sabem o que querem ou precisam. Em vez disso, vão para o canto do ringue e põem-se a lutar
sozinhos contra seus demônios.
Os mecanismos imaturos de cópia que empregam são muitos: autoflagelo, negligência própria,
ameaças de suicídio, cigarro, bebida, drogas, comida em excesso, só para dar alguns exemplos.
Helen, uma mulher já adulta que cresceu em um ambiente de vícios e abusos, descreve sua
experiência com as seguintes palavras:

Durante minha infância, não tive ninguém para quem pedir ajuda quando me sentia mal. Acabei
acumulando os sentimentos no meu interior, esperando que eles desaparecessem no vazio do meu
ser, só para vê-los emergir na forma de comportamentos autodestrutivos como cortar-me,
embebedar-me.
Já adulta, ainda enfrento a tendência de isolar-me. Evito as pessoas que poderiam me amar e me
dar apoio. Reluto em pedir ajuda. Construí uma parede separando minha alma daqueles contatos tão
necessários para todos que estão vivos. O isolamento e a depressão quase me custaram a vida. Em
vez de recorrer a outros, sofri sozinha e externei minha dor por meio de comportamentos
autodestruidores. Quando apanhada na escuridão do isolamento, recuso-me a fazer contato com os
outros exatamente quando mais preciso deles. Recuso-me a obter a lanterna que necessito para
encontrar o caminho de casa.

Outros comportamentos de autossabotagem incluem não ser capaz de planejar ou preparar-se para
eventos específicos, deixar de observar prazos dados no trabalho ou na escola, recusar-se a enfrentar
desafios mais difíceis, desobedecer a regulamentos deliberadamente, ou tentar a sorte. Conheço um
rapaz que foi mandado de volta para a prisão depois de obter liberdade condicional porque não
compareceu à delegacia no prazo determinado. Quando lhe perguntaram se estava ciente de que tinha
de comparecer à delegacia dentro daquele prazo, ele disse que sim. Eu chamaria isso de
autossabotagem. E você?

Indecisão: uma decisão de continuar infeliz


Outro comportamento de autossabotagem é ficar em cima do muro – continuando atrelado à
indecisão ou inação por medo de cometer um erro. T. Boone Pickens chama isso de síndrome do
“atenção, apontar, apontar, apontar”. Na verdade, o desconforto de ficar em cima do muro é
provavelmente pior do que a consequência de um erro. Mas não peça a um viciado em infelicidade
para ele se mexer. Isso pode requerer que ele aja de uma maneira que o faça sentir-se melhor, e não é
isso que ele quer!
Os viciados em infelicidade têm um baixo conceito de si mesmos. Eles desistem antes de começar.
Permitem que o medo de fracassar venha a sabotar seu sucesso. Para essas pessoas, abster-se é
seguir em frente ao sentirem medo. Como diz Yogi Berra: “Quando você chegar a uma bifurcação,
não pare; entre em uma das veredas.”

A recuperação tem a ver com mudanças


Lucas, um rapaz de 20 anos, contou-me sobre uma grande vitória alcançada: “Meu pai, que é
viciado em fúria, ligou-me ontem à noite e começou a despejar um monte de acusações vergonhosas
em cima de mim. Pela primeira vez em minha vida, não permiti que seus abusos me atingissem. Em
vez de ficar me desculpando por algo que não era minha culpa, forma com que me comportava antes,
eu lhe disse que tinha que ir para a faculdade, e desliguei.” Lucas manteve fortes limites internos. Ele
não permitiu que a ira de seu pai afetasse sua autoestima ou alterasse seu humor.
Se Lucas tivesse se estressado pelo abuso verbal do pai, ele poderia ter usado várias táticas de
recuperação ou ferramentas para evitar afundar-se no desânimo. Ele poderia telefonar para o seu
padrinho, contar o que aconteceu e pedir apoio. Poderia ter usado afirmações positivas para consolar
o menino ferido que havia dentro dele, o qual ainda desejava a aprovação do papai. Ou poderia ter
ido a uma reunião dos Doze Passos para ali obter o saudável conforto paternal e fraternal dos
homens do grupo para compensar aquilo que seu pai era incapaz de lhe dar. Ele também poderia ter
generalizado o incidente e pedido para as pessoas presentes na reunião discutirem como lidariam
com tipos semelhantes de mágoa e decepção. Os grupos de Doze Passos dão sugestões isentas de
crítica ou reprovação, como também sugestões para esses tipos de situação – sem qualquer interesse
oculto.

Colocando a rolha na garrafa


Gostaria de recomendar algumas outras formas de abstinência:
• Sempre que puder, deixe de lado aquela oportunidade de reclamar. Em vez disso, comemore o
progresso feito.
• Escolha conscientemente uma interpretação positiva – ao invés da negativa – para uma situação
dúbia. Conceda o benefício da dúvida para a outra pessoa.
• Antes de chegar a conclusões precipitadas, faça uma verificação da realidade dos fatos relativos
à pessoa envolvida. Deixe que ela fale por si em vez de adotar sua própria interpretação subjetiva.
• Evite analisar pessoas e circunstâncias em demasia.

Quando os negaólicos analisam algo excessivamente, via de regra eles acabam se considerando
perdidos. Em vez disso, deixe que pessoas de confiança, como o seu padrinho e os seus colegas de
recuperação, pensem por você. Peça que eles fiquem obcecados em seu lugar. Você ficará mais bem
servido ao buscar e aceitar orientações boas e inteligentes vindas de fontes objetivas fora do seu
cérebro e do seu corpo do que ao engalfinhar-se em uma luta solitária contra os seus problemas.

Outras medidas para conseguir a abstinência:


• Não sentir-se culpado por sentir-se bem ou por cuidar de si mesmo.
• Perdoar-se antes de cometer um erro, aceitando o fato de que você é humano.
• Aceitar o perdão de Deus e das pessoas quando você erra.
• Recusar-se a se autocastigar quando seu desempenho não estiver à altura do desejado.
• Permitir-se relaxar e divertir-se.
• Comemorar quem você é – não o que você faz ou quão bem você o faz.
A propósito, eu tive que me abster do negativismo para escrever este capítulo, por haver um
macaquinho mártir bem ali nos meus ombros que escarnecia de mim com pensamentos do tipo “as
pessoas já sabem dessas coisas”, ou “cuidado para não deixar os leitores entediados”. Foi
exatamente isso que o meu pai me disse quando eu entrei em meu primeiro concurso de redação, aos
16 anos de idade. É difícil livrar-se de antigos hábitos, não é?
Catarse efetiva versus queixa fútil
Os mártires precisam saber como fazer a diferença entre a catarse efetiva – que é uma coisa boa – e
as queixas fúteis, que é “vício”. Quando eu estava fazendo terapia, meu terapeuta me disse que toda
vez em que alguém fala de um sentimento negativo, ele o reduz à metade; e cada vez que fala de um
sentimento positivo, ele dobra tudo. Falar sobre nossos fardos reduz o peso deles. Comemorar os
triunfos aumenta a alegria.
Isso não combina com o que tenho ensinado. Em escolas paroquiais foi-me dito que expressões
aprofundam as impressões. Fui informada de que as pessoas não devem deixar que os sentimentos as
governem, ou que tirem delas o que há de melhor. Qual é a verdade, então? Devemos ou não devemos
externar nossos sentimentos negativos?
Hoje em dia, acredito que somos governados por sentimentos reprimidos – não por sentimentos que
são expressos de maneiras saudáveis. Falar dos sentimentos para uma pessoa saudável diminui seu
poder de dominar nosso pensamento, reduzindo a possibilidade de nos comportarmos
irracionalmente. Aqui está um exemplo interessante: Kim, uma jovem professora, estava se
arrumando para ir à escola, quando percebeu que estava fantasiando uma situação: agarrar o diretor
pelo pescoço e dar-lhe socos no nariz. Ela estava zangada com ele por algo que acontecera no dia
anterior, mas sua bizarra fantasia era desproporcional à real situação.
Em vez de racionalizar sua atitude, Kim tentou algo que seu terapeuta havia sugerido – ela parou de
pensar naquilo e expressou sua raiva fisicamente. Ela pegou o taco de beisebol de seu filho Wiffle e,
por dez segundos, deu várias pauladas em um travesseiro dizendo: “Estou com raiva! Estou com
raiva!” Isso descarregou sua energia emocional e deu-lhe liberdade para ser mais objetiva.
Quase imediatamente, ela percebeu que não estava zangada com seu chefe atual. Ela gostava dele e
o considerava um amigo pessoal. A raiva que ela sentia era do seu antigo chefe. A explosão curta,
mas dramática, que Kim permitiu-se ter privadamente a ajudou a apartar-se do impulso irracional de
dar um soco no nariz do diretor. Ela reconheceu o verdadeiro problema, obtendo a perspectiva de
que precisava.
Recentemente, eu estava falando para um grupo de clientes sobre como cortar pela metade seus
sentimentos negativos compartilhando-​​os com uma pessoa de confiança, quando um dos clientes – um
brilhante estudante de Direito – me desafiou. Que petulante! “Estou confuso”, disse ele. “Você falou
bem o contrário ontem, ao discorrer sobre o vício da infelicidade. Você disse que os negaólicos
devem abster-se das queixas. Então, qual é a diferença? Como podemos distinguir entre falar de
nossos sentimentos negativos para obter alívio e reclamar para obter atenção?”
“Bom... é... vejamos...”, eu disse. E concluí meu gaguejo com um sonoro: “Veja bem, esta é uma
excelente pergunta. Vou pensar sobre isto. Darei uma resposta amanhã.” Aqui está o que respondi:
“Seu vício em infelicidade floresce quando você prefere falar sobre um problema em vez de resolvê-
lo. Repartir emoções negativas reduz sua intensidade, mas isso é apenas o começo. Não podemos
parar aí. Temos que nos mover para resolver o problema. É como diz Edwin Lewis Cole: ‘Você não
vai se afogar por cair na água; você vai se afogar se permanecer lá.’ Mais perguntas?” Eu fiz este
elegante quadro comparativo entre compartilhamento efetivo e reclamação fútil. Espero que ele ajude
a esclarecer a questão.

Mudança sustentável
A recuperação é um trabalho interior. Ela tem menos a ver com uma mudança do comportamento
exterior do que com a modificação de atitudes e crenças profundamente arraigadas, as quais, por sua
vez, geram comportamento. No Antigo Testamento, o profeta Jeremias era pessimista quanto à
possibilidade desse tipo de mudança. Retoricamente, ele perguntou se uma pessoa poderia mudar a
cor de sua pele ou se um leopardo poderia mudar as suas manchas.4
Com frequência, nossas tentativas de automelhora são superficiais e fracassadas, mas isso não quer
dizer que devemos desistir. Acredito que todos os esforços para melhorar são produtivos – até
mesmo quando acabam sendo transitórios e fúteis. Uma vez que esgotamos nossos recursos internos,
dispomo-nos a buscar os recursos de força e sabedoria fora de nós mesmos. Pouquíssimos viciados
estão preparados para comprometer-se com um programa de desenvolvimento de caráter mais
rigoroso antes de ficarem totalmente convencidos de que seus melhores esforços fracassaram e que
não existe outra opção disponível. Mesmo nossas tentativas fracassadas de transformar-nos podem
ser úteis, nesse sentido.
Os alcoólatras parecem ter sido os primeiros a reconhecer a futilidade de seus próprios esforços e
a buscar maneiras efetivas de resolver problemas aparentemente insolúveis. Voltamo-nos agora para
esses especialistas em fracasso para aprender as humildes lições que são necessárias para uma
recuperação sustentável.

Esperança Para Hoje


Disse o sábio que há sabedoria na multidão de conselhos. Essa é a chave para mudanças profundas
e duradouras – isso, junto com um programa remediador chamado Doze Passos. Não há nada de novo
nesses passos. Trata-se de um conjunto de princípios espirituais simples, estratégicos e sequenciais
designados para ajudar as pessoas a descobrir a verdade sobre quem elas são, o que fazem e como
afetam as pessoas ao seu redor enquanto – ao mesmo tempo – aprendem com a experiência quem é
Deus, o que Deus faz e como Ele afeta a vida humana. Nos grupos de Doze Passos, não existem
dogmas e não há exigências para tornar-se membro, exceto um desejo sincero de mudar e crescer.
Parece um lugar muito bom para começar!

Autoanálise
1 . Você conhece alguém que habitualmente começa uma conversa com uma queixa?
2 . Você já perdeu o amor e a lealdade de um amigo ou parente por eles terem se cansado de ouvir seus problemas?
3 . Quando percebeu que essa pessoa estava perdendo a paciência por causa de suas reclamações, você tentou ser mais otimista e
positivo? Você conseguiu mudar seu comportamento?
4 . Mesmo se fracassou, assegure-se de que é possível mudar quando se tem as ferramentas corretas.

1 Sexaholics Anonymous, Sexaholics Anonymous (SA Literature, 1989), p. 4.


2 Chérie Carter-Scott, “Do You Live or Work With a Negaholic?”, Negaholics.com,
http://www.negaholics.com/live_with_a_negaholic.html.
3 Chérie Carter-Scott, Negaholics (Nova York: Fawcet-Columbine, 1996), p. 8.
4 Ver Jeremias 13:23.
Acredito na força de olhar diretamente nos olhos da realidade e negá-la.
Garrisson Keillor

A esta altura, a tentativa de quebrar o ciclo da preocupação e aflição pode parecer


assustadora. A boa notícia é que, embora a recuperação não seja fácil, ela é simples. O
programa terapêutico de desenvolvimento da identidade, personalidade e do caráter que funciona
para alcoólatras também funciona para viciados em infelicidade. Para a maioria dos viciados em
infelicidade inveterados, o que é mais difícil de aceitar é o fato de que o programa é extremamente
simples. Vítimas e mártires têm dificuldade em animar-se com algo que não promete ser
agonizantemente difícil! “Por favor, não... Só posso lidar com tarefas impossíveis!”
Antes de averiguar o processo de efetuar mudanças profundas e duradouras, examinemos algumas
técnicas cognitivas e comportamentais que merecem uma tentativa. Elas caem na categoria do “é só
fazer” .
Já faz algum tempo que os especialistas em dependências descobriram que o plano “é só fazer”
funciona melhor com pessoas que não são completamente dependentes do que com viciados
inveterados já no estágio mais elevado da dependência. A proporção de sucesso na utilização da
força de vontade plena nos casos de problemas com bebidas, por exemplo, é mais elevada entre os
que bebem socialmente do que entre os bêbados contumazes.
Se tentar aplicar as técnicas que vou sugerir, o pior que poderá acontecer é você não obter sucesso.
Por exemplo, se tentar parar de pensar negativamente, pode ser que você se veja fazendo isso ainda
mais. Se tentar parar de presumir que todo mundo está contra você, não será capaz de convencer-se
de que isso é verdade. Se resolver parar de reclamar, vai apanhar-se reclamando, a despeito de suas
melhores intenções. Mas isso, por si só, será acrescentado aos seus dados de diagnóstico,
motivando-o a tentar algo diferente e aumentando sua disposição de tentar um programa simples
chamado Doze Passos, que tem uma excelente reputação. Voltaremos a este assunto.

O que estamos enfrentando


Os viciados em infelicidade lidam com hábitos de pensar, de acreditar e de comportar-se que são
antigos e profundamente arraigados. Qualquer negaólico decente é capaz de juntar uma pilha de
preocupações, misturá-la e batê-la dentro de sua cabeça até que se transforme em uma massa
gelatinosa, lançar a mistura no buraco negro do desespero e mergulhar dentro dela em quinze
segundos ou menos.
Se você estiver na área geográfica em que um viciado em infelicidade está agindo de maneira
obcecada, cuidado! Existe um campo magnético em volta dele (ou dela) que atrai os que ficam
olhando para dentro do buraco negro. As pessoas saudáveis correm na direção oposta tão logo
sentem a atração magnética. Lá pela décima oitava vez em que o viciado em infelicidade vê as costas
de um amigo desaparecendo na esquina, ele começa a perceber que seu comportamento está
afastando as pessoas de sua vida.
Então, é só fazer – se isso for possível
Reuni as seguintes sugestões para uma mudança de comportamento, fruto do testemunho de colegas,
clientes e da experiência pessoal. Se você puder colocá-las em prática, ótimo; se não, tudo bem. Há
um plano reserva.

Destrua suas preocupações


Aqui estão algumas ferramentas para desmantelar suas preocupações. Primeiro, tome uma lição
com Scarlett O’Hara: espere um pouco antes de se preocupar. A história sugere que muitas das
preocupações são fúteis. Por que não adiá-las então? Enquanto isso, faça uma relação de seus
problemas. Ou então escreva-os em um pequeno pedaço de papel e coloque-os na “caixinha de
Deus”. Há nove chances em dez de que seus problemas se resolverão sozinhos antes que o dia
termine.
Se os pensamentos preocupantes continuarem a voltar, distraia-se. Cante. Ore. Faça uma caminhada
curta. Faça polichinelos. Levante peso. Ria. Recite frases afirmativas. Decore uma poesia ou um
verso bíblico. Planeje dar um presente para si mesmo ou para alguém que você ama.
Outra sugestão é deixar que alguém se preocupe em seu lugar. Falo sério. Peça a três, quatro, ou
cinco amigos que lhe deem boas orientações, e siga a maioria. Outras pessoas são mais objetivas
com respeito aos seus problemas do que você mesmo, e o cérebro delas provavelmente trabalhará
melhor e mais rápido do que o seu. Em três minutos, eles aparecerão com ideias mais úteis do que as
que você poderia reunir em três horas de obsessão.
Pedir para um grupo de amigos resolver um problema é muito mais eficiente do que tentar fazê-lo
sozinho. Assegure-se de que o grupo seja composto por pessoas que não têm uma agenda pronta para
você – um interesse egoísta no resultado.
Há um ditado nos círculos de recuperação que diz o seguinte: cada vez que o viciado recorre à sua
própria mente, ele fica atrás das linhas inimigas. Em outras palavras, sua mente está programada para
a autodestruição. Por isso, não vá para lá! Se você não quiser ser assaltado, evite passar por bairros
perigosos! Em vez de ficar obcecado com seus problemas, peça a orientação de alguns amigos
saudáveis.
Outra sugestão ainda é focalizar-se no que vai em seu coração em vez de dar atenção ao que está
em sua cabeça. Uma das melhores maneiras de parar de remoer é encarar aquilo que você vem
evitando – seus sentimentos.
Quando entra em um ciclo rotativo de autoanálise, você não vai a lugar nenhum. Eu chamo isso de
análise excessiva obsessiva. É impossível separar seus pensamentos de seus sentimentos. Mais
eficiente é abraçá-los – encarar a dor, a vergonha, o medo ou a raiva que você vem tentando não
reconhecer. Expresse-os por escrito: uma carta para Deus, uma carta (que você não vai enviar) para
a pessoa (ou pessoas) de quem você tem medo ou raiva, uma carta empática para você mesmo. Isso
pode ajudá-lo a lidar com sua dor. Mostrar compaixão por si mesmo, expressar simpatia à criancinha
dentro de você que se sente assustada não é o mesmo que autopiedade – é lidar legitimamente com a
dor e a mágoa.
Os sentimentos têm sido descritos como a “energia em movimento”. Você pode mover seus
sentimentos para cima e para baixo ao externá-los verbalmente, mas tome o cuidado de expressar
sentimentos – não opiniões. Há uma diferença. Expressar pensamentos pode contribuir para mais
ruminação e confusão. Expressar os sentimentos equivale a purificar-se.
O melhor resultado vem de permitir-se experimentar e expressar dor, medo ou raiva com gritos,
choros ou socos no travesseiro, em um ambiente onde você se sinta seguro. Antes de descartar isso
como a ideia mais tola que você já escutou, tente! Você vai obter resultados melhores de um
exercício de expressão desse tipo do que conseguiria ao ficar pensando excessivamente na situação.
Simplesmente faça uma pausa longa o suficiente para consultar-se a fim de encontrar o que o está
deixando ferido, assustado, triste ou com raiva. Depois, encontre um lugar privado onde você possa
descarregar sua bagagem emocional. (O ambiente ideal para esse tipo de catarse é o da terapia de
grupo, sob a orientação de um facilitador experiente.)
Para os que já estão em um programa de Doze Passos, este é um bom momento para dar um “míni”
quarto passo quanto àquele problema com que você está lidando e para compartilhá-lo com o seu
padrinho. O quarto passo será discutido no capítulo 13.

Estabeleça limites
Mais cedo ou mais tarde, os mártires terão que parar de aceitar o inaceitável. Se não o fizerem,
continuarão a ser vitimizados. Ao assumir o poder de agir em prol de seus próprios interesses, você
se aparta do papel de vítima. Terapeutas individuais e de grupo podem ajudá-​​lo a desenvolver a
capacidade e a habilidade de estabelecer e manter limites saudáveis – levantar-se e falar em favor de
si mesmo. Um especialista em redução de estresse diz que a falta de assertividade é uma causa
frequente de estresse, ansiedade e da sensação de desamparo.1 Ouça! Ouça!
A palavra mágica, aqui, é empoderamento. Os abusadores não param de abusar de suas vítimas
somente porque a vítima grita, implora ou apela por misericórdia. Os abusadores não param de
abusar de suas vítimas quando elas colaboram e tentam satisfazer as exigências do abusador. Eles
não param quando as vítimas arrazoam com eles ou provam pela Bíblia que eles não deveriam estar
lhes magoando daquela maneira. Os abusadores não param quando as vítimas pronunciam ameaças
vazias e ultimatos. Eles não param com o abuso até que as vítimas se recusam a aceitar o abuso.
Um alcoólatra em recuperação, com uma longa história de espancamento de mulheres, contou para
o seu pastor que batera em suas duas primeiras esposas, mas não na terceira. Quando o pastor lhe
perguntou por que ele não abusou desta, ele respondeu: “Porque eu sabia que ela não deixaria eu
fazer isso com ela.”
Devido ao fato de que aceitar o inaceitável é um sintoma do vício da infelicidade, temos que
assumir a responsabilidade de mudar mediante o aprendizado de como estabelecer e manter limites.
Conseguir obter as habilidades necessárias para estabelecer limites e assim apartar-se do papel de
vítima é uma tarefa árdua. Será necessário comprometer-se com a terapia e com grupos de apoio
apropriados. Pode ser também necessário saber quando, onde e quão rapidamente correr.
Tentar manter o seu chão e proteger seus direitos (como em “Não vou deixar você me levar nessa
viagem”) é um tipo insano de martírio, caso você esteja lidando com alguém fora de controle e/ou
com alguma debilidade mental. Eu poderia contar histórias após histórias de pessoas que se
determinaram a proteger suas propriedades ou seus investimentos, mulheres que fincaram o pé e se
recusaram a abandonar seus lares ou empregos ao serem ameaçadas. Essas pessoas acabaram
sacrificando a própria vida ou a vida de um filho ou filha por causa de sua teimosia – ou seu vício
em infelicidade.

Pratique o saudável cuidado próprio


Em termos dos aspectos psicológicos envolvidos na superação do negativismo crônico, os viciados
em infelicidade precisam estar de olho nos hábitos integrantes do estilo de vida como dieta,
exercício, sono, etc. Por favor, tome nota das alterações de humor provocadas pela dieta e faça os
ajustes necessários. Cafeína – de uma a três xícaras de café por dia – aumenta significativamente a
ansiedade e o estresse. A nicotina estimula o ciclo de ansiedade. Açúcar em demasia pode contribuir
para a depressão, assim como certos aditivos alimentares.
Dietas exageradas, como também o comportamento anoréxico, esgotam a seratonina, uma das
substâncias químicas do cérebro responsáveis pela sensação de bem-estar. A falta de vitaminas e
minerais adequados pode afetar negativamente o sistema nervoso. Os viciados em infelicidade
precisam cuidar bem do físico. Isso significa – no mínimo – tomar um bom multivitamínico e cuidar
de incluir alimentos com muitas vitaminas tipo B e ômega 3 na dieta.
O exercício é outro elemento importante. Ele possibilita a liberação de endorfinas que acentuam a
sensação de bem-estar do indivíduo. Seu humor vai melhorar drasticamente se você incluir entre 30 e
60 minutos de exercício aeróbico em sua rotina diária, ou a cada dois dias. Alguns psiquiatras dizem
que o exercício é um antidepressivo tão potente quanto qualquer medicação antidepressiva.
Não me entenda mal. Se você está tomando alguma medicação prescrita, não estou sugerindo que a
substitua por exercícios físicos. Faça as duas coisas! E por falar nisso, gostaria de incentivá-lo a
procurar um psiquiatra de boa reputação para ver se alguma medicação ansiolítica ou antidepressiva
pode ser indicada no seu caso. Lembre-se da declaração de Daniel Goleman: “Quando as emoções
de um indivíduo são muito intensas e passam de um ponto apropriado, elas se manifestam em seus
extremos mais angustiantes – ansiedade crônica, raiva incontrolável, depressão. Nos estágios mais
severos e intratáveis, pode ser necessária a introdução de medicações e de psicoterapia, ou de ambas
as coisas, a fim de colocá-lo para cima.”2
Gostaria de incentivar todos os viciados em infelicidade a lançar mão de orientações nutricionais,
apoio médico e internação ou aconselhamento psicológico. Não deixe que a recuperação seja mais
difícil do que precisa ser. Tentar recuperar-se sozinho é difícil. Além disso, é um sintoma de
martírio. Tenha em mente que, embora o apoio do médico seja vital, os comprimidos não são a
resposta completa. O desenvolvimento de habilidades para lidar com suas questões é tão importante
quanto o apoio médico e os comprimidos. Está correto começar com o desenvolvimento de
habilidades, mas lembre-se de que tanto os comprimidos quanto as habilidades são frequentemente
necessários.

Outras coisas básicas


Em seu livro Overcoming Anxiety, Panic, and Depression [Superando a Ansiedade, o Pânico e a
Depressão] James Gardiner e Allen H. Bell sugerem cuidar do jardim, comungar com a natureza,
brincar com um animal doméstico, apreciar a arte e a música, meditar e orar, conversar com uma
pessoa de confiança, receber uma massagem e empregar estratégias de relaxamento e de
biofeedback3 como maneiras de superar o negativismo.4 Junto com essas estratégias simples, eles
também sugerem viver no presente, simplificar a agenda diária, exigir menos de si mesmo, focalizar-
se nas coisas que são, de fato, importantes, e diminuir o ritmo. Nada de correrias.5 Nem mesmo leia
este parágrafo apressadamente. Faça uma pausa e pense em como você pode implementar essas
sugestões. Faça um plano e comprometa-se com ele.
Uma das primeiras coisas que tive de fazer para colocar essas ideias em prática foi abster-me de
fazer várias coisas ao mesmo tempo! Sempre que tento fazer isso, minha adrenalina vai lá para cima,
assim como minha pressão sanguínea. Agora, todos os dias eu saio por aí murmurando para mim
mesma: “Uma coisa de cada vez, Carol. Uma coisa de cada vez.”

Banindo a vergonha doentia e a culpa neurótica


Poucos fardos espirituais são maiores do que o da vergonha doentia. Qual é a diferença entre a
vergonha saudável e a vergonha doentia? A vergonha saudável nos mostra que somos humanos e,
portanto, imperfeitos. Ela nos dá a consciência daquilo que é socialmente apropriado e daquilo que
não é. Ela nos ajuda a manter nosso comportamento dentro de limites razoáveis. Um especialista no
assunto diz que as pessoas precisam de vergonha o suficiente para não saírem correndo nuas dentro
do supermercado!
John Bradshaw define a vergonha saudável como uma consciência da condição humana do
indivíduo – um reconhecimento de nossas limitações. Cada um de nós precisa de uma certa
quantidade desse tipo de vergonha. Em contrapartida, a vergonha doentia é um estado de espírito
melancólico que nunca cede a nada. Ela não tem relação com o que sentimos, mas com quem
pensamos que somos (algo como a “escória do mundo”). As pessoas fundamentadas na vergonha
sentem-se manchadas, defeituosas, sem valor e estúpidas.
A vergonha saudável é muito diferente. Sentimo-nos culpados quando violamos nosso próprio
código de ética ou o que entendemos ser o código moral de Deus. Tenha em mente que as regras de
Deus podem facilmente ser confundidas com as regras do papai e os mandados de outras figuras com
autoridade. Aprender a distinguir entre os requerimentos de Deus e as regras feitas pelos homens é
algo que leva tempo. A confusão vai se resolver com o passar do tempo e com uma boa quantidade
de orientações ordeiras e boas dadas por mentores saudáveis. De qualquer maneira, quando erramos,
nossa culpa faz com que nos arrependamos de nosso comportamento, embora ainda tenhamos respeito
por nós mesmos. Quando admitimos nossos erros e nos emendamos, a culpa cumpre seu propósito e
desaparece.
A vergonha e a culpa doentias são produtos de uma consciência programada para um alto nível de
perfeccionismo. Nenhuma quantidade de emendas poderá aliviar as pessoas da culpa ou da vergonha
doentias, pois elas estão convencidas de que nunca serão boas o suficiente. Os indivíduos com
vergonha doentia sofrem sob o açoite da autocrítica constante, a qual pode levar a comportamentos
derrotistas e autodestruidores como o martírio.
A culpa não deve ser um instrumento de autotortura; a vergonha não deve imobilizar-nos. A
vergonha saudável nos guarnece de humildade e contenção; a culpa nos motiva a corrigir nossos
erros e a evitá-los no futuro. Uma medida saudável de culpa e vergonha pode ser útil, mas um fardo
indevido de uma das duas é fatal.
Se você é um viciado em infelicidade, seu fardo de vergonha e culpa doentias precisa ser
removido, e, para removê-lo, você precisa fazer alguns reparos. Esse é um assunto delicado que
precisa ser abordado com muito cuidado e com a orientação de padrinhos que já passaram por isso
antes de você. De outra forma, você causará mais danos do que benefícios ao tentar fazer os reparos.
Em minha opinião, o melhor caminho é o programa dos Doze Passos, o qual provê uma maneira
sequencial de lidar com seus erros passados. Sem um programa desse tipo, você correrá o risco de
entrar num movimento pendular que o levará de um extremo para o outro.
Aja agressivamente
Outra medida de abstinência é fugir do vale da indecisão e inação. Com a ajuda de fontes viáveis
de sabedoria e força, desembarace um único problema da massa obsessiva que dá voltas em sua
cabeça, faça uma lista de opiniões, consulte fontes objetivas de sabedoria, leve o problema para o
seu Poder Superior e ore pedindo conhecimento da vontade de Deus e poder para colocá-lo em ação.
Crie, então, um plano de ação, entregue a Deus o resultado e, de imediato, implemente o seu plano,
deixando os resultados nas mãos do seu Poder Superior. Não procrastine. A procrastinação é a mais
alta forma de autossabotagem.
Depois de haver entregado a situação a Deus, você pode ser tentado a interferir no resultado. Não
faça isso. As consequências não estão em suas mãos. Na verdade, você não tem nada a ver com elas.
Se achar que a decisão que tomou não foi tão perfeita como gostaria, você pode fazer correções de
percurso ou simplesmente aprender com seus erros. Equívocos não são pecados punidos com
sentença de morte; são simplesmente oportunidades de aprendizado.

Encontre um lar espiritual


Para muitas pessoas em recuperação, o primeiro lar espiritual que encontram é o grupo dos Doze
Passos. Elas se sentem confortáveis ali porque percebem que o clima não é de críticas, julgamentos
ou controle. Alguns até chamam essa comunidade de sofrimento em comum.
De acordo com James Nelson, professor de ética cristã, as pessoas em recuperação têm as mais
diversas origens religiosas e não religiosas. Algumas delas são portadoras de danos religiosos
duradouros. Por essa razão, ele diz que essas pessoas podem precisar começar sua jornada espiritual
em um lugar neutro. “Uma abordagem ‘espiritual’ mais generalizada é muito apropriada”, ele
acrescenta.6 Amém.
Em seu livro Thirst: God and the Alcoholic Experience [Ânsia: Deus e a Experiência Alcoólatra],
Nelson sugere que, por muitos alcoólatras carregarem um pesado fardo de culpa e vergonha,
instintivamente eles se afastam de qualquer um que adicione algum peso àquele fardo. “Poucos
alcoólatras são capazes de experimentar a graça divina de maneira direta.”7 Vale lembrar que as
bênçãos da camaradagem encontrada na igreja não podem substituir ou reproduzir a mencionada
graça, embora não haja nada de errado nisso.
É importante para viciados em recuperação que tenham sido espiritualmente abusados determinar
quando se sentirão suficientemente seguros para aventurar-se fora do grupo de Doze Passos. Antes de
estar prontos para voltar a sua igreja escolhida, eles precisam estar suficientemente maduros e
seguros para não enveredar para a religiosidade obsessiva como um substituto para sua dependência
original. Chamamos isso de “troca de dependências”.
O uso de práticas ou disciplinas religiosas para evitar a opressiva responsabilidade de crescer e
tornar-se saudável é muito tentador. As pessoas com tendências aos vícios são capazes de
transformar qualquer coisa em dependência – até mesmo coisas boas como religião, saúde,
relacionamentos, hobbies e exercícios.
Uma vez que os viciados em infelicidade (a) trataram seus problemas de imaturidade por meio da
terapia; (b) cresceram com a utilização do processo de identidade, personalidade e desenvolvimento
do caráter que discutiremos no capítulo 13; e (c) estabeleceram fortes limites internos – a capacidade
de manter seu senso de valor a despeito de como os outros os tratam – eles podem querer
restabelecer o contato com uma religião organizada e achar uma igreja que irá ajudá-los a manter seu
crescimento espiritual. Eu recomendo veementemente que sistemas espirituais ou de crenças
religiosas sejam explorados até que, no momento adequado, se encontre lugares de adoração seguros.
O que seria uma “igreja segura”? As igrejas seguras são aquelas que oferecem um ambiente
acolhedor, livre de críticas e de controles. Elas dão apoio a experiências novas, a novas buscas e a
escolhas pessoais. Seus líderes e membros são suficientemente seguros para aceitar pessoas em sua
“adolescência” espiritual, permitindo que cresçam um dia de cada vez, sem fazê-los passar vergonha
nem exortá-los com muita frequência. Tampouco tentam apressá-los. Seria muito bom que também
tivessem uma compreensão sobre dependência e codependência bem como uma confiança sincera nos
programas de Doze Passos.

E se você não puder...


Se você não puder seguir essas sugestões para mudar consistentemente o comportamento, estará no
Passo Um, que não é um lugar ruim. “Admitimos que não temos nenhum poder sobre nosso vício em
infelicidade [pensar negativamente, reclamar, preocupar-se, etc.] e que ficou impossível administrar
nossa vida.”
A própria ideia de que é preciso render-se para vencer – admitir completa derrota para obter força
duradoura – é um tanto paradoxal. Muitas pessoas acham incompreensível – se não diretamente
ofensiva – a noção de falta de poder. Elas a veem como uma espécie de derrotismo ou de resignação
cega, e não é nem uma coisa nem outra. Existe uma diferença enorme entre sucumbir a uma fraqueza e
render-se à necessidade de ajuda – um assunto que vale a pena examinar mais a fundo.

Resumo
Vou resumir os pontos mais importantes deste capítulo para que você não os perca de vista. Sugeri
duas abordagens para a recuperação quanto ao vício em infelicidade. Uma é comportamental, e a
outra é espiritual. As duas abordagens são legítimas, e cada uma pode ser mais ou menos efetiva.
A abordagem cognitiva, ou comportamental, inclui coisas como abster-se de reclamar, recusar-se a
choramingar, esperar para, então, preocupar-se, pedir opiniões objetivas para pessoas de confiança,
seguir uma dieta saudável, exercitar-se com abundância, praticar técnicas de relaxamento, fazer um
diário, fazer uma avaliação psiquiátrica, tomar medicação (se indicada), estabelecer limites
saudáveis, recusar-se a ser vitimizado, ficar fora do vale da indecisão, praticar a oração e a
meditação e procurar manter uma rede de apoio e desenvolvimento por meio da igreja e de grupos de
Doze Passos. Até aqui, nada de novo ou anormal.
Para certos negaólicos, algumas dessas tarefas podem ser difíceis. Para outros, nem tanto. Muitos
dos que buscam recuperar-se têm dificuldades para fazer mudanças. Pode haver algumas razões para
isso. Talvez existam problemas subjacentes que ainda precisam ser abordados. Pode haver
necessidade de terapia.
Os grupos de Doze Passos são excelente complemento para a terapia. Eles provêm o fortalecimento
e a orientação de que os dependentes necessitam para poder crescer e tornar-se adultos responsáveis.
Também oferecem um lugar seguro e confidencial, onde indivíduos em recuperação podem descobrir
um processo, um conjunto de princípios e um Poder Supremo que farão por eles o que por si mesmos
não podem fazer. Como ter acesso a esses recursos concedidos por Deus e deles se beneficiar será o
assunto dos dois próximos capítulos.

Esperança Para Hoje


Dependentes e codependentes que enfrentam desafios maiores que eles mesmos e tentam
desesperadamente “conseguir a vitória” ficam maravilhados ao descobrir que admitir o fracasso é
um alívio. Os viciados em infelicidade precisam reconhecer e aceitar a impossibilidade de sua
situação antes de pedir socorro. Enquanto persistirem em arremeter-se de cabeça contra o muro
proverbial tentando atravessá-lo, eles não somente estarão se destinando ao fracasso, como também
causando danos desnecessários a si mesmos – lastimando o corpo e a alma – assim enfraquecendo
sua condição já comprometida. Existe uma alternativa melhor.

Autoanálise
1 . Faça uma experiência bem simples: durante dois dias, tente escovar os dentes três vezes por dia com a mão contrária àquela que
você usa normalmente.
2 . A próxima vez em que você apanhar-se preocupado com algo ou obcecado com algum problema, formule sua preocupação em uma
declaração simples sobre o tal problema e peça a um amigo para ajudar a resolvê-lo. Note o quão mais eficiente é essa abordagem.
3 . Escreva quatro afirmações baseadas no material que você leu neste capítulo, como, por exemplo: “Hoje, vou esperar um pouco
antes de me preocupar”; “Posso pedir diretamente aquilo que preciso”; “Sou uma pessoa corajosa”.

1 Archibald Hart, The Hidden Link Between Adrenaline and Stress (Dallas: Word, 1995), p. 106.
2 Daniel Goleman, Emotional Intelligence, p. 57, 58.
3 Técnica de redução do estresse que utiliza processos fisioterápicos monitorados por um computador.
4 James Gardiner e Arthur H. Bell, Overcoming Anxiety, Panic, and Depression (Franklin Lakes: Career Press, 2000), p. 182.
5 Ibid., p. 185.
6 James B. Nelson, Thirst: God and the Alcoholic Experience (Louisville: Westminster John Knox Press, 2004), p. 6.
7 Ibid., p. 22.
O homem põe a culpa no destino por outros acidentes, mas sente-se pessoalmente responsável por
uma tacada genial.1
Martha Beckman

T odos temos idiossincrasias que nos deixam frustrados e irritam os que estão mais próximos
de nós. Você já tentou mudar um daqueles pequenos hábitos irritantes, e não conseguiu?
Talvez você já tenha prometido a si mesmo parar de interromper as pessoas, não estourar bolinhas de
chiclete, deixar de roer as unhas ou falar alto, pois você sabe o quanto essas coisas deixam as
pessoas irritadas. Você realmente tentou parar. Quando não funcionou, você tentou de novo. E quando
não funcionou, você realmente tentou mais uma vez.
Mesmo que o seu negativismo pareça não perturbar ninguém, você sabe que aquilo está ferindo a
você mesmo e, assim, faz muitas tentativas sinceras de parar de reclamar, de obter atenção ou de
esperar que as pessoas consertem você. No entanto, apesar de suas melhores intenções, você se
apanha fazendo aquelas coisas que não quer fazer. Você está em boa companhia. O apóstolo Paulo
tinha o mesmo problema.2
Pelo menos uma vez por ano, a maioria das pessoas resolve fazer mudanças grandes ou pequenas
em sua vida, só para descobrir que decidir comportar-se de maneira diferente nem sempre produz os
resultados desejados. Não importa o quanto tentem, ou supliquem, ou implorem, ou orem, elas
permanecem presas aos velhos hábitos.
A boa notícia é que há outra maneira de mudar hábitos de longa data e profundamente arraigados –
um conjunto de princípios simples, práticos e espirituais que podem ser aplicados a qualquer
quantidade de comportamentos doentios. Os princípios evoluíram de uma conversa ao acaso entre
dois bêbados de cair, os quais fracassaram repetidas vezes em seus esforços para deixar de beber,
mas nunca desistiram. Esses dois homens com pés de barro não sabiam que a vida de milhões de
pessoas mudaria por causa da solução que eles encontraram por acaso.
O modelo de mudança que eles descobriram não é superficial. Tampouco é mágico, nem se
consegue da noite para o dia. É uma abordagem gradual e suave para o crescimento e a cura que
promove o florescimento do que há de melhor nas pessoas, ajudando-as a tornarem-se tudo o que
deveriam ser. Este programa, conhecido como Doze Passos, é um conjunto de princípios espirituais
estratégicos e sequenciais que ajuda as pessoas a ter uma vida cheia de paz, serenidade e sucesso,
havendo tido ou não problemas com o álcool. Seria um programa apropriado para todos? Não. Os
Doze Passos são apenas para as pessoas que precisam deles.

Preocupações legítimas
Muitos indivíduos têm reservas sobre os grupos de Doze Passos. Alguns acham que não é certo
buscar auxílio em fontes fora de casa, da família ou da igreja. Às vezes, essas convicções estão
firmemente enraizadas nas inclinações das gerações anteriores. “Meu pai e minha mãe resolviam
seus problemas sem frequentar grupos de apoio ou procurar conselheiros, e eu também posso” é a
maneira como pensam. Essa é uma abordagem perfeitamente aceitável para a vida. Não é preciso
mudar o que está funcionando.
Algumas pessoas religiosas ultraconservadoras desconfiam de que os programas de Doze Passos
são um evangelho novo que entra em choque ou compete com as crenças que elas sustentam. Essas
pessoas temem que suas crenças fiquem comprometidas se frequentarem os grupos dos Doze Passos.
(Não param para pensar que seu sistema de valores – e possivelmente seu testemunho como cristãos
– já está sendo comprometido pelo comportamento dependente e/ou compulsivo em que se
engajaram.)
Você já ouviu falar que as pessoas ficam para baixo com aquilo que não as coloca para cima?
Condenar antes de investigar é um problema que vem de longa data. Muitos de nós temos
dificuldades para viver de acordo com nosso ideal democrático – inocente até que se prove culpado
– a esse respeito.
Algumas pessoas com orientação religiosa fazem objeção ao fato de que os grupos de Doze Passos
não são suficientemente específicos em sua definição sobre Deus. Ficam incomodadas com termos
como “Poder Superior” e “o Deus da nossa compreensão.” Elas não percebem que os grupos de
Doze Passos usam deliberadamente essa terminologia para abrir suas portas o suficiente, de modo
que qualquer um que tenha o desejo de abster-se de comportamentos dependentes sinta-se bem-vindo
e encontre o auxílio e a esperança que precisam.
A ironia disso é que alguns alcoólatras evitam o AA (Alcoólicos Anônimos) por considerá-lo
muito religioso, enquanto outros alcoólatras o evitam por acharem que não é suficientemente
religioso! Pode haver razões mais profundas para essa relutância, mas cada indivíduo tem que
trabalhar suas reservas mentais, e dentro do seu próprio ritmo. Não dá para apressar a sabedoria e a
visão dos fatos. Eu normalmente sugiro que os novatos de grupos de Doze Passos que ainda não estão
totalmente convencidos da legitimidade do programa assistam entre seis e doze reuniões, ouvindo
com ceticismo, mas com uma mente aberta, antes de tomar uma decisão.
Lembre-se: os princípios dos Doze Passos não são para pessoas que não precisam deles. Não são
para pecadores genéricos que não sabem o que há de errado com eles. Eles são para pessoas que
foram rebaixadas por um pecado, por uma substância química ou por uma situação da qual perderam
o controle. São para pessoas que reconhecem ser infelizes, pobres, cegas, nuas e necessitadas de
ajuda!

A perspectiva de um peregrino
Para os que estiverem dispostos a examinar as questões com mais profundidade antes de
estabelecer uma opinião final sobre os programas de Doze Passos, ofereço as seguintes perspectivas.
Fazendo isso, não estou falando em nome de qualquer organização de Doze Passos, que são muitas.
Tampouco estou incentivando a inscrição em qualquer desses grupos de doze passos, embora tenha
frequentado vários deles. Sou uma pessoa comum, fruto de um ambiente religioso conservador, que
por 25 anos frequentou reuniões de Doze Passos, mas que, no princípio, era muito cética a respeito
de tudo aquilo. Eu era uma entre vários incrédulos.
A primeira coisa que reparei quando comecei a frequentar as reuniões dos Doze Passos é que eles
deixam para o indivíduo a tarefa de definir Deus. Eles não pretendem ocupar o lugar da igreja e da
religião na vida da pessoa. Enquanto as igrejas ensinam o que consideram ser a verdade acerca de
Deus e da maneira como Ele afeta a vida de alguém, os programas de Doze Passos ajudam as
pessoas a descobrir a verdade sobre elas mesmas e como elas afetam os outros. E conseguem fazer
isso mostrando respeito às crenças religiosas do indivíduo.
Lloyd, um viciado em sexo não declarado, hesitava em participar das reuniões dos Doze Passos
porque seu irmão lhe dissera que ele iria apenas trocar uma dependência por outra. Mas quando o
seu vício acabou por deixá-lo sem outra escolha, a não ser pedir ajuda, ele procurou os Sexólicos
Anônimos. Imediatamente, percebeu que os Doze Passos eram muito mais do que os olhos podiam
perceber. Embora as próprias reuniões lhe provessem força e percepção dos fatos, foram os
princípios espirituais aprendidos que fizeram a diferença.
Não se tratava de depender completamente de outras pessoas. Os princípios do programa ajudaram
Lloyd a crescer e amadurecer como pessoa. Ele encontrou um Poder Superior com quem podia
interagir. Aprendeu a relacionar-se com Deus e com os outros de um modo mais realista e
equilibrado. Tornou-se honesto consigo mesmo, assumiu a responsabilidade por seu comportamento e
desenvolveu uma conexão mais íntima com sua esposa e seus filhos. As mudanças que ocorreram em
sua vida foram além de uma mera abstinência do mau comportamento sexual.
As pessoas que lutam com um problema que é maior do que elas, e superior a todos os recursos
interiores que elas possam reunir, têm uma compreensão fora do comum a respeito de outras pessoas
que lutam com problemas semelhantes. Elas têm uma habilidade única de orientá-las e nutri-las
durante o processo de mudança. E conseguem fazer isso de uma maneira isenta de críticas e ameaças.
Você já pensou sobre o fato de Jesus ter levado consigo um grupo de apoio por onde quer que
fosse? Os crentes que sofrem por causa de distúrbios relacionados com dependências podem seguir o
exemplo dEle com segurança. Antes, porém, de encontrar alívio para suas dependências, alguns
precisam superar a relutância em buscar a ajuda de pessoas que eles acham ser diferentes de si
mesmos.

A comunidade do sofrimento em comum


Os Doze Passos foram concebidos nos anos 1930 por um grupo de alcoólatras que descobriram
poder conseguir juntos aquilo que não eram capazes de realizar sozinhos. Eles aprenderam que havia
sabedoria e força na multidão de conselhos. Os princípios do programa vieram do movimento
religioso então em voga – o Grupo Oxford. Com gratidão, o grupo original, de aproximadamente 100
alcoólatras, reconheceu o fato de que as chaves espirituais que os libertaria lhes haviam sido
entregues por homens e mulheres de fé. Hoje, existem mais de 100 mil grupos de Alcoólicos
Anônimos em 150 países, com mais de dois milhões de membros.
O programa dos Alcoólicos Anônimos (AA) é para pessoas que possuem o desejo de parar de
beber. Logo depois de ter sido fundado, os amigos e parentes de alcoólatras começaram a se reunir,
em um esforço para lidar com as frustrações de viver com um alcoólatra. Mais tarde, eles formariam
os Grupos de Famílias Al-Anon.3 Assim como os Alcoólicos Anônimos, o Al-Anon é uma
comunidade mundial hoje.
Os Narcóticos Anônimos iniciaram suas atividades em 1953. Com a autorização e a bênção dos
AA, o NA fundamentou seu programa nos Doze Passos dos AA, com uma modificação simples: a
palavra álcool foi mudada para dependência. Os Narcóticos Anônimos e seu grupo irmão, Nar-
Anon, têm crescido na mesma medida em que tem se disseminado o grupo dos AA e do Al-Anon.
O grupo dos Jogadores Anônimos foi o resultado de um encontro casual entre dois homens com uma
frustrante história de problemas e dificuldades por causa da obsessão por jogos de azar. Fundado em
1957 e hoje presente em muitos países, o grupo dos Jogadores Anônimos promove reuniões
acessíveis a todos. Grupos afins oferecem apoio às pessoas afetadas pelos problemas de seus
queridos.
Os Comedores Compulsivos Anônimos foram formados em 1960 para dar suporte às pessoas que
lidam com sintomas físicos e emocionais causados pela ingestão compulsiva de alimentos. Outro
grupo para pessoas que sofrem de desordens alimentares tem se desenvolvido mais recentemente.
A lista de grupos de Doze Passos continua: em 1966, convencidos de que os Doze Passos poderiam
ser utilizados como uma ferramenta para a recuperação de doenças emocionais, o primeiro grupo de
Emoções Anônimas foi criado. Outros grupos vieram a seguir: Sexólatras Anônimos, Sobreviventes
de Incesto Anônimos, Devedores Anônimos, Workaholicos Anônimos e, sim, até mesmo os Viciados
em Infelicidade Anônimos. Eu acredito que a proliferação dos programas de Doze Passos é um
testemunho de sua eficácia e uma marca da bênção de Deus sobre eles. Mais informações sobre um
bom número dessas organizações poderão ser encontradas no Apêndice G.

Por que eles são necessários?


Embora não tenham culpa, as pessoas criadas em ambientes cheios de dor, traumas, problemas e
vícios têm oportunidades limitadas de desenvolver o caráter bem cedo na vida. Já que foram
privados de orientação e nutrição adequadas, elas também têm sido incapazes de completar as tarefas
que promovem o desenvolvimento na infância.4 Não conseguem amadurecer e adquirir um senso de
identidade e valor. O crescimento e o desenvolvimento de sua personalidade foram distorcidos pelo
vício e pelo abuso na vida deles.
Com problemas de ordem social e emocional, esses indivíduos precisam de um programa de
desenvolvimento de caráter, identidade e personalidade que os possa ajudar. É aí que entram os
programas de Doze Passos, que oferecem um conjunto de princípios simples, estratégicos e
sequenciais – um modelo prático e eficaz para tratar de defeitos de caráter e de déficits de
desenvolvimento. “Trabalhar um programa” significa colocar esses princípios em prática na vida
diária.

Programas comparáveis
No contexto educacional, aulas de reforço são elaboradas para ajudar alunos com problemas
acadêmicos a alcançar bom nível escolar. Seja qual for a matéria, essas aulas provêm um curso que
visa à melhora da capacidade acadêmica do estudante, de seu conhecimento, de sua memória, à
compensação de debilidades ou déficits específicos. Em última análise, os programas de reforço
escolar têm por objetivo preparar o estudante para atingir o próximo nível de aprendizado.
Em termos médicos, os programas de Doze Passos podem ser comparados a um “remédio natural”.
Os remédios naturais são não invasivos, não tóxicos, prontamente disponíveis, relativamente baratos,
facilmente administráveis, suaves e graduais. O mesmo pode ser dito dos programas de Doze Passos.
Além disso, personal trainers fazem parte do pacote – sem custo adicional. Os grupos de Doze
Passos oferecem padrinhos para ajudar os novos membros a entender e empregar os princípios do
programa.
Embora as ferramentas do programa (reuniões, passos, padrinhos e serviço) gradualmente aliviem
a compulsão de comportar-se de maneira autodestrutiva, elas também ajudam as pessoas a descobrir
quem são, o que fazem e por que o fazem. Os participantes ficam mais conscientes de seu próprio
comportamento, mais cientes dos seus motivos. Eles assumem a responsabilidade por eles mesmos e
por seus atos. A abertura e a honestidade engendradas derrubam as barreiras e criam uma intimidade
genuína. O clima é de uma interdependência saudável.

Pessoas reais, resultados reais


Juanita, uma profissional de cinquenta e poucos anos que tem estado envolvida com os Al-Anon
por vários anos diz: “Os Doze Passos” tornou-se uma parte integrante do meu pensamento. Quando
me vejo lutando com problemas de difícil solução, recorro aos três primeiros passos [eu não posso,
mas Deus pode, vou deixá-​​Lo agir] para obter alívio das preocupações. Tão logo entrego o
problema, meu nível de estresse diminui. Faço um inventário moral [Nível Quatro] para descobrir
em que eu estou falhando. Quando enxergo situações através das lentes dos Doze Passos, obtenho
uma nova perspectiva.”
Daphne, um antigo membro dos Comedores Compulsivos, descreve sua experiência pessoal:
“Encontrei nos Doze Passos uma maneira prática de aplicar os princípios cristãos nos quais sempre
acreditei. Na esfera dos passos, a entrega, a fé, a busca interior, a confissão, a transformação do
caráter, a responsabilidade, a oração, a meditação e o testemunho estão colocados na ordem
apropriada. Como resultado de praticar os passos diariamente, meu relacionamento comigo mesma,
com Deus e com os outros melhorou 100%.”
Kevin, um viciado em drogas em recuperação e pai de dois adolescentes declara: “Fui apresentado
aos Doze Passos em 1997. Ao me ver falido nos aspectos espiritual, físico e emocional e à beira da
morte, comecei minha jornada espiritual. Acompanhando o programa, passei a ter um bom
relacionamento com Deus, serenidade, autoaceitação e a capacidade de amar incondicionalmente.”
Pete, um filho adulto de alcoólatra, que sofria de depressão profunda, diz simplesmente: “Os Doze
Passos me deram o desejo de viver e não morrer. Agradeço as mudanças que efetuaram em mim.
Agora, mal posso esperar o nascer de um novo dia.”
Nancy, uma viciada em infelicidade em recuperação, descreve os benefícios de ter trabalhado com
os passos: “Aprendi que não são os grandes problemas da vida que me fazem agir de maneira
autodestrutiva. São as pequenas coisas. Quando eu bebia, era comum permitir que pequenas
irritações me levassem até a garrafa. Agora, se tenho problemas com alguma coisa, os Doze Passos
me dão ferramentas para identificar o problema e encontrar uma solução.”
Finalmente, um pastor que cresceu em um sistema familiar workahólico, abusivo e perfeccionista,
relata que seu programa de Doze Passos o levou até um novo nível de espiritualidade. “Por meio do
trabalho com os Doze Passos, encontrei uma medida de autocompreensão que permite que eu me
relacione com Deus e as pessoas de maneira saudável. Sinto grande empatia pelas pessoas que estão
lutando para sobreviver. Consigo levar uma vida mais equilibrada e compartilhar experiências, força
e esperança genuínas com os outros, em vez de pregações vazias e idealistas.”
Por mais de setenta anos, os Alcoólicos Anônimos e outras doze comunidades de Doze Passos têm
sido instrumentos para trazer milhões de pessoas sofredoras da morte para a vida. Os que trilham as
veredas dos Doze Passos não limitam suas aspirações à mera abstinência. Muitos têm encontrado
nesses passos não apenas um alívio temporário de suas dependências e compulsões, mas também um
meio de alcançar a felicidade e um viver efetivo.
O próximo capítulo contém uma descrição prática dos passos e do que fazer com eles. Este é um
ponto de partida. Não desista agora. Você está prestes a descobrir um método para mudar, já testado
e experimentado – algo que é quase bom demais para ser verdade. Com frequência, quando
vendedores usam esse tipo de propaganda de vendas, eles acrescentam que “é isso, ou o seu dinheiro
de volta”. E aqui está: os programas de Doze Passos não custam um centavo, mas a sua infelicidade
será inteiramente reembolsada caso os programas não funcionem para você!

Esperança Para Hoje


Os programas de desenvolvimento de caráter retratados neste capítulo funcionam para qualquer um
que esteja lutando contra algum mau hábito de pensar, acreditar ou comportar-se. Se por um período
interminável de tempo você tentou mudar e viu-se incapaz de fazê-lo, está em boa companhia. O
programa, os princípios, as pessoas e o processo descritos neste capítulo são muito eficazes. O
tempo e o esforço requeridos para você assistir a uma reunião de Doze Passos não será tão grande
como a quantidade de tempo e esforço que você gasta todos os dias praticando hábitos
autodestrutivos e, depois, arrumando toda a bagunça. É possível mudar mediante o método já
comprovado dos Doze Passos.

Autoanálise
1 . Existe alguma pessoa ou situação em sua vida que parece incontrolável? Você já tentou controlar a situação ou a maneira de reagir
a ela? Em que medida o problema o está perturbando hoje?
2 . Você tem pedido a Deus que resolva ou retire essa situação? Ela desapareceu, como num passe de mágica?
3 . Escreva uma descrição do seu dilema atual em não mais do que três frases. Ligue para um amigo de confiança e pergunte o que
ele faria se estivesse na mesma situação.
4 . Agora, comemore o fato de que, sem saber, você acabou de praticar os três primeiros passos. Para aprender mais sobre os Doze
Passos, vá para o capítulo 13.

1 No original, hole-in-one, que é uma jogada rara do golfe na qual o golfista acerta a bola no buraco com apenas uma tacada.
2 Ver Romanos 7:23.
3 A “mãe” fundadora dos Al-Anon foi Lois W., esposa do fundador dos AA. Os avós de Lois eram cristãos muito conservadores, sendo
que, de um lado, eram guardadores do sábado, e, de outro, guardadores do domingo. Em minha opinião, alguns dos conceitos da
literatura dos AA, especialmente aqueles que tratam da questão da vontade, refletem a literatura religiosa popular de seu tempo. Note
esta afirmação extraída do livro The Twelve Steps and Twelve Traditions, a qual soa tão familiar: “Somente quando tentamos fazer
nossa vontade conformar-se com a de Deus é que começamos a usá-la de maneira correta. [...] Nosso problema tem sido o uso
incorreto da força de vontade. Tentamos bombardear nossos problemas em vez de tentar harmonizá-los com a intenção de
Deus para nós. Tornar isso cada vez mais possível é o propósito dos Doze Passos dos AA.”
4 As tarefas básicas de desenvolvimento estão delineadas no Apêndice E, “Os Oito Estágios do Desenvolvimento Humano”.
Às vezes fico acordado no meio da noite e pergunto: “Por que eu?” Então, uma voz responde:
“Não é nada pessoal; coincidentemente, o seu nome acaba de aparecer aqui.”
Charlie Brown

D epois de ficar internada para tratar meu vício em trabalho, uma das muitas dádivas que
Deus me concedeu foi a melhor madrinha que eu poderia ter. Uma tradição dos programas
de Doze Passos que vem de longa data, o apadrinhamento visa a ajudar o novato a definir e a praticar
a abstinência e a guiá-lo no uso apropriado das ferramentas do programa, algo muito parecido com a
maneira como um personal trainer instrui um membro de academia quanto ao uso apropriado de um
equipamento.
Ativa em vários grupos de Doze Passos, minha madrinha havia estabelecido um firme alicerce para
sua própria recuperação na literatura dos Alcoólicos Anônimos, sob a tutela de uma excelente
madrinha. Pessoas bem apadrinhadas acabam sendo, por sua vez, excelentes padrinhos de outras.
Gostaria de convidá-lo para o primeiro encontro que tive com Tina, dois dias depois que tive alta e
voltei para casa. Ela me cumprimentou bondosamente e me entregou um livrinho, Os Doze Passos e
as Doze Tradições (dos Alcoólicos Anônimos). Convidou-me, então, para ler o prefácio em voz alta.
Estas foram as palavras que eu li: “Os AA são uma comunidade mundial de [...] homens e mulheres
alcoólatras que, juntos, resolvem seus problemas comuns e ajudam os companheiros em sofrimento a
recuperar-se dessa debilitadora enfermidade, o alcoolismo.”1
A essa altura, Tina me pediu para fazer uma pausa e ficou quieta. A mensagem penetrou fundo.
Meus problemas de vício em trabalho, perfeccionismo, cuidado compulsivo e controle eram, em
todos os aspectos, tão enganosos, debilitantes e poderosos como o alcoolismo. “Continue a ler”, ela
disse, depois de um tempo em silêncio.
“Este livro é sobre os Doze Passos e as Doze Tradições dos Alcoólicos Anônimos. Ele apresenta
uma visão explícita dos princípios por meio dos quais os membros dos AA se recuperam. [...] Os
Doze Passos de AA consistem em um grupo de princípios espirituais em sua natureza que, se
praticados como um modo de vida, podem expulsar a obsessão pela bebida e permitir que o sofredor
se torne íntegro, feliz e útil.”2 Em minha própria mente, eu traduzi a palavra bebida como “fazer tudo
em excesso”. Eu vinha fazendo muitas coisas em excesso – trabalhar, preocupar-me, cuidar dos
outros, controlar, administrar, manipular, etc.
“O que você precisa fazer para recuperar-se?” perguntou Tina.
“Aprender a praticar estes princípios como uma maneira de viver”, respondi. Ambas fizemos uma
pausa para refletir profundamente. Sou eternamente grata por aquele momento. Eu sabia que estava
em casa. Estava na varanda, bem em frente a um lugar aconchegante e acolhedor. E Tina acabara de
me entregar a chave.

A graça fortalecedora da fraqueza

Passo Um
A jornada rumo à plenitude começa com o reconhecimento de nossa necessidade: “Admitimos que
éramos impotentes perante o nosso vício da infelicidade e que tínhamos perdido o domínio sobre
nossa vida.” Antes de poder abster-nos de reclamar e de apartar-nos de nossas preocupações e
pesares, nós, negaólicos, precisamos perceber que somos fracos na presença de nossas crenças e de
comportamentos causadores de dependências. Temos que dar fim aos nossos fúteis esforços de
conseguir o impossível e reconhecer nossa necessidade de ajuda.
No que diz respeito à compulsão e a autossabotagem, vencemos a guerra quando admitimos ter
perdido a batalha. Como já foi mencionado, enquanto persistimos em nos arremeter de cabeça contra
a parede tentando atravessá-la, não somente nos destinamos ao fracasso, como também causamos
danos a nós mesmos, enfraquecendo nossa já comprometida situação. Em contraste, quando
reconhecemos que nossos problemas são maiores que nós e mais numerosos que os recursos que
podemos reunir interiormente, estamos em posição de receber a ajuda de que precisamos.
Nunca pediremos ajuda nem experimentaremos o desejado sucesso se pensarmos que podemos
conseguir isso sozinhos. Ao darmos o Passo Um, estaremos demonstrando o tipo de honestidade,
abertura e disposição que nos capacita a aprender. Embora seja uma experiência que nos leva a uma
atitude de humildade, ela também é um tremendo alívio. A humildade é a chave.
Enquanto lutava para aceitar o Primeiro Passo, passei pelos estágios clássicos do luto – negação,
raiva, negociação, depressão e aceitação. Viciada em cuidado, controle, perfeccionismo, trabalho
excessivo e infelicidade, eu estava deixando escapar aquilo que fez de mim a pessoa que eu achava
que devia ser. Dizer “não posso mais fazer isso” foi extremamente doloroso. Foi agonizante admitir
que meus melhores esforços fracassaram. Senti como se fosse morrer.

Passo Dois
Os Doze Passos são passos de bebê. O Passo Dois diz: “Viemos a acreditar que um Poder Superior
a nós mesmos poderia devolver-nos a sanidade.”
Ao admitir que somos fracos, estaremos preparados para buscar e encontrar uma fonte de sabedoria
e força fora de nós mesmos. Nossa incapacidade de fazer o impossível, de vencer nossa insatisfação,
de parar com nosso incontrolável vício da infelicidade nos leva a prostrar-nos de joelhos.
As pessoas religiosas não ficam incomodadas com o conceito de um Poder Superior, pois já
possuem uma medida de fé. Mas pouquíssimas pessoas céticas consideram ter recebido um elogio
quando alguém sugere que elas não são mentalmente competentes, segundo as palavras: “acreditamos
que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos a sanidade”. A maioria se ofende com a
ideia de que precisa restaurar a sanidade.
Do ponto de vista clínico, a palavra insanidade denota debilidade mental. Mas não é esse o
significado que o segundo passo tenciona dar ao termo. No contexto de dependência e compulsão, ser
insano significa simplesmente repetir muitas vezes o mesmo comportamento negativo e esperar
resultados diferentes.
Você já comeu um pedaço enorme de uma sobremesa saborosa, mesmo sabendo que aquilo lhe faria
mal? Já saiu com seu carro sabendo que a gasolina estava na reserva? Já fez uma prova sem ter se
preparado para ela, só para fazer outro teste na semana seguinte sem, de novo, ter estudado, embora
houvesse prometido para si mesmo que isso nunca mais aconteceria? Usando uma definição
apressada, esses comportamentos são insanos. Quando o Passo Dois menciona a restauração da
sanidade, o que se está querendo dizer é simplesmente que o ciclo do comportamento autodestruidor
será interrompido.
Lauren era a filha autoconfiante de duas pessoas altamente empreendedoras. Por ser uma criança
perspicaz, ela logo sentiu que, para conseguir a aprovação dos pais e de outras figuras de autoridade,
teria que se esforçar muito e comportar-se com perfeição. Em seus esforços para agradar, ela perdeu
o contato consigo mesma, como indivíduo. Lauren dava tanta importância ao seu desempenho que
não prestava mais atenção às suas necessidades e aos seus sentimentos mais profundos.
Agora, aos 36 anos de idade, ela se sente vazia e exausta e já não consegue lidar com situações que
eram banais para ela no passado. A habilidade de superar suas tristezas por meio do esforço
excessivo, do escrúpulo e da abnegação doentia desenvolvida durante sua infância não lhe valia
agora, mas ela continuava se magoando para agradar os outros. A essa altura, ela não tinha outra
opção a não ser admitir sua fraqueza no que diz respeito ao comportamento autodestrutivo,
reconhecer a possibilidade de haver um Poder maior do que ela e pedir-Lhe ajuda.

Passo Três
Uma vez que o dependente está convencido de que o uso do seu próprio poder para administrar sua
vida não funciona e que deve haver alguém que pode fazê-lo melhor, ele (relutantemente, às vezes)
prefere largar tudo e entregar seus problemas ao Deus de seu entendimento. Para os indivíduos que
desenvolveram previamente uma compreensão equivocada de Deus em vez de uma compreensão
saudável, isso pode ser um desafio.
Felizmente, não temos que ficar obcecados tentando entender quem Deus realmente é para corrigir
nosso equívoco. Não precisamos forçar nosso cérebro finito na tentativa de compreender a natureza
do Infinito. Podemos entregar nosso ser e nossos hábitos fora de controle para Deus, mesmo que não
O entendamos plenamente nem confiemos ou mesmo gostemos dEle. Para colocar isso em prática,
simplesmente devemos buscar o auxílio das pessoas e dos princípios que são colocados diante de
nós.
Depois disso, vamos em frente, confiantes no conhecimento de que desfrutaremos do despertamento
espiritual que resulta da concretização de todos os passos. Isso é prometido especificamente no
Passo Doze: “Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos
transmitir esta mensagem aos dependentes da infelicidade e praticar estes princípios...” Ao
chegarmos ao Passo Doze, teremos encontrado um Poder Superior com quem podemos interagir.
Às vezes penso que abandonar tudo para ficar com Deus é mais difícil para cristãos de longa data
do que para as pessoas que são inexperientes em questões de fé. Quando você está na igreja há muito
tempo, quase a ponto de adquirir o status de patriarca, é tentador pensar que você tem conhecimento
de alguma coisa e que esse conhecimento o coloca na posição de discernir a vontade de Deus – o
que, naturalmente, o qualifica para fazer o papel de Deus. Não é fácil largar essa ilusão nem o falso
senso de segurança que ela proporciona. Somente quando realmente nos rendemos é que paramos de
lutar. Só assim então é que paramos de ser coniventes, calculistas, ou paramos de meter o bedelho em
tudo.
Estou fazendo alusão a uma descrição de comportamento compulsivo encontrada na literatura dos
AA que acho engraçada: “Muitas pessoas tentam viver autoimpulsionadas. Cada pessoa é como um
ator que quer conduzir sozinho todo o espetáculo e está sempre tentando arrumar os holofotes, o balé,
o cenário e os artistas do jeito dele. Se os seus arranjos forem intocáveis, se as pessoas fizerem o
que ele deseja, o espetáculo será ótimo. Todo mundo, inclusive ele, ficará satisfeito.”3 A maioria das
pessoas com tendências para a dependência entendem isso. Largar tudo para ficar com Deus é uma
necessidade.

Passo Quatro
O Passo Quatro diz: “Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.” Esse
passo é um exercício de autoconsciência. Somos incentivados a escrever atitudes e ações
significativas, descrever nossos sentimentos sobre elas e identificar os traços de caráter que
originam nossas atitudes. Olhar honestamente para o passado – para quem temos sido e o que temos
feito – ajuda a entender melhor a nós mesmos. Essa autoconsciência é o início da cura emocional.
O Passo Quatro nos oferece a oportunidade de olhar mais além do nosso comportamento
superficial, para o lugar onde residem os problemas mais profundos. Avaliamos o que realmente vai
em nossa mente e nosso coração, focalizamo-nos em nossa própria realidade, sintonizamo-nos com
nossos sentimentos, reconhecemos nossa maneira pessoal de pensar e somos honestos com nós
mesmos. Expomos sentimentos que mantivemos escondidos embaixo do tapete, investigamos a dor e
os problemas que temos mantido em segredo e damos os passos necessários para resolvê-los. “Ao
descobrirmos quais são nossos problemas emocionais, podemos agir para corrigi-los.”4 Isso é
crucial para os viciados em infelicidade.
Muitas pessoas abordam esse passo como se ele fosse um catálogo de seus atos equivocados. Não
é assim. O quarto passo não pretende ser uma reedição inútil de erros passados, nem tampouco o
causador de um mergulho dentro de um caldeirão de culpa, vergonha ou tristeza. O quarto passo é
simplesmente uma ferramenta para a libertação dos antigos e inúteis padrões de comportamento e
para a descoberta de novas maneiras de viver.

A humildade de aceitar nossa humanidade

Passo Cinco
Esse passo requer que admitamos para nós mesmos, para Deus e para outro ser humano a natureza
exata dos nossos erros. Uma autorrevelação assim leva à autorreconciliação e à autocompreensão. É
como documentar seus depósitos bancários e seus gastos para reconciliar seu extrato bancário e
assim reconhecer sua situação financeira corrente.
Há um ditado nos círculos de recuperação que afirma o seguinte: as pessoas permanecem doentes
quando guardam segredos. Esconder nossos “ativos” ou “passivos” deixa o sistema espiritual
desequilibrado. Embora o pensamento de ser totalmente honesto com outra pessoa possa ser
assustador, as recompensas são inquestionáveis. Como disse um viciado em infelicidade: “Por
aplicar o Passo Cinco comigo mesmo e por ter-me sido dada a coragem de ser totalmente honesto
com outros foi que experimentei uma transformação espiritual. Foi uma experiência de cura interior,
uma reconciliação comigo mesmo, com outros e com um amoroso Deus.”
Ao planejarmos seguir o Passo Cinco, procuramos um ouvinte compassivo e sem espírito de
condenação. Isso nos ajuda a estar tranquilos com nossa própria humanidade, talvez pela primeira
vez na vida. Descobrimos que não somos anormais ou diferentes, afinal. Somos falíveis, mas não
defeituosos. O ouvinte conhece todos os nossos segredos e nem por isso nos considera inferiores. Ele
não nos rejeita nem nos exclui da comunidade. Somos amados e aceitos a despeito de nossas
fragilidades humanas.
Carrie experimentou o poder milagroso desse processo. Uma viciada em trabalho e administradora
da igreja, esposa e mãe de rara competência, Carrie estava a ponto de sucumbir a uma estafa aos 51
anos de idade. Seu sistema imunológico estava abalado. Suas defesas estavam baixas. Ao confrontar-
se com uma situação familiar problemática, ela chegou ao fundo do poço e passou, então, a
frequentar um grupo de Doze Passos.
Depois de trabalhar com os primeiros quatro passos e de apresentar o quinto passo para sua
madrinha, Carrie estava maravilhada com a diferença que sentia: “Nunca sequer sonhei que minhas
experiências eram tão universais. Eu nunca poderia adivinhar, ao admitir os pecados terríveis que me
faziam diferente de outras pessoas e muito pior que a maioria, que descobriria quão iguais realmente
somos. Foi um alívio bendito repartir minha história com alguém igual a mim. Finalmente, parei de
condenar a mim mesma.”
Carrie experimentou os profundos benefícios do Passo Cinco: sua vergonha foi reduzida, seus
sentimentos retroativos foram expressos e eliminados, ela revelou suas mágoas mais profundas e seus
segredos mais obscuros e também demoliu as barreiras que erguera ao redor de si mesma. Ao
derrubar as paredes que escondiam suas imperfeições, ela pôs fim ao seu isolamento. Ela é, agora,
uma pessoa muito mais genuína. As pessoas são atraídas para ela. Ela não está mais só.

Passo Seis
O primeiro contato de Carrie com o Passo Seis – “Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus
removesse todos esses defeitos de caráter” – deu-se a poucos dias de terminar o Passo Cinco. Ela fez
uma descoberta que provavelmente não faria se não obtivesse uma visão do próprio caráter por meio
dos Passos Quatro e Cinco. Aqui está o que aconteceu:
Depois de uma reunião particularmente difícil da comissão de sua igreja, Carrie fez uma avaliação
de sua conduta, de acordo com o sugerido pela literatura dos Doze Passos. Ela ficou com raiva de
alguém que havia discordado dela e discutiu acaloradamente com essa pessoa, invocando a
autoridade de uma maioria que só existia em sua própria mente. Olhando para a situação, Carrie viu
exatamente como se comportara – com total arrogância. Ela percebeu que era uma pessoa altamente
controladora. Pela primeira vez, ela repudiou seus sintomas enquanto permanecia amando e
respeitando a si mesma. Isso demonstra o valor dos cinco primeiros passos. Eles motivam as pessoas
a mudar ao mesmo tempo em que as liberta do repúdio de si mesmas.
Com uma atitude humilde, fruto de sua falha, Carrie se dispôs a deixar que Deus removesse os
traços negativos do seu caráter. A caminho de uma nova reunião, Carrie assegurou a Deus que estava
disposta a parar de tentar controlar tudo e todos. Mas, no fim da noite, ela se sentiu derrotada e
desanimada. Ela não somente fracassou em dominar sua tendência de controlar, como também
pareceu fazê-lo mais que antes. Desesperada, ela ligou para sua madrinha.
“O Passo Seis não está funcionando!” ela exclamou. “Esta noite, dispus-me a remover certo defeito
de caráter e acabei me comportando pior do que antes. Não entendo o que aconteceu.”
“Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter”,
recitou Carrie.
“E a quem cabe remover seus defeitos de caráter?”, perguntou a paciente madrinha.
“A Deus”, respondeu Carrie. Depois de um momento de pensativo silêncio, ela conseguiu enxergar
as coisas. “Ah! Assim que me dispus a deixar que Deus removesse meus traços negativos, eu assumi
o controle e tentei removê-los por mim mesma, certo?”
“Sim, você passou muito rapidamente para o Passo Sete, antes de estar pronta para isso. Os
controladores tendem a fazer isso, pois querem resultados imediatos. Eles tentam fazer acontecer. Em
meio à agonia causada pelo fracasso ocorrido ao tentarem mudar a si mesmos, eles desenvolvem a
humildade necessária para o Passo Sete. Muitos de nós temos que nos prostrar a fim de desenvolver
esse tipo de humildade.”
A madrinha de Carrie continuou a explicar que o Passo Seis é um lembrete da nossa fraqueza – uma
oportunidade para revisar o Passo Um. Precisamos da ajuda de Deus tanto no meio da nossa jornada
quanto no início. O reconhecimento renovado da nossa fraqueza nos prepara para o passo maior que
estamos para dar – o da fé.

Passo Sete
No Passo Sete, humildemente pedimos a Deus que remova nossas falhas. Em algum ponto de nossa
vida, algum problema, algum pecado arraigado, algum vício ou alguma compulsão nos deixou
abatidos. Nossos egos inflados foram perfurados. Ficamos humilhados. Em nossa dor e vergonha,
reconhecemos que não podemos consertar aquilo que nos aflige. Então pedimos que Deus opere com
Seu poder transformador em nosso favor. Genuinamente, soltamos as rédeas.
A literatura dos AA nos oferece um modelo para o que conhecemos como a Oração do Sétimo
Passo. Nessa oração, pedimos que Deus remova cada defeito de caráter que seja um obstáculo para
aquilo em que podemos ser úteis a Ele – não os defeitos dos quais não gostamos, não os defeitos que
sejam um obstáculo para nossa popularidade, não os defeitos que nos fazem parecer estúpidos ou
medíocres, não os defeitos que comprometem nossa posição social ou revelem nossos motivos
egoístas – somente os que sejam um obstáculo para aquilo em que podemos ser úteis a Deus. Essa é
uma oração muito pura e clara.

Passo Oito
Há uma razão para o Passo Um vir antes do Passo Dois, o Passo Dois vir antes do Passo Três, e
assim por diante. Cada passo se fundamenta na base fornecida pelo passo anterior e nos prepara para
prosseguir. Ao longo de todo o processo, de forma crescente vamos encarando a verdade sobre nós
mesmos e sobre nossas responsabilidades, ao mesmo tempo que seguimos amando e aceitando a nós
mesmos. É um plano benevolente.
Pedimos que Deus remova nossos defeitos. Pouco a pouco, somos transformados. Nossas atitudes e
nossos atos para com os outros também mudam. Até chegarmos neste ponto, sequer estamos perto de
estar prontos para fazer melhorias nem tampouco os outros estão prontos para receber nossas
melhorias.
Alguém já lhe pediu desculpas, só para cometer a mesma ofensa cinco minutos depois? O
comportamento daquela pessoa fez do pedido de desculpas uma mentira. A melhoria, portanto, foi
superficial ou motivada pelo egoísmo.
Temos que mudar nossas atitudes e comportamentos para que nosso pedido de desculpas seja
autêntico. Precisamos entender o que fizemos de errado, sentindo a falha profundamente. Precisamos
saber como deixamos os outros magoados. Depois de havermos dado os passos necessários para
mudar nosso comportamento e de termos mostrado evidências dessa mudança, nossas tentativas de
desculpar-nos serão infinitamente mais significativas e aceitáveis.
As melhorias estão divididas em duas partes. Primeiro, vem o Passo Oito: “Fizemos uma relação
de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.”
Isso permite que coloquemos de lado a autojustificação e pensemos nas pessoas que magoamos e em
como as magoamos. Temos sido dominadores, inflexíveis, superprotetores, negativos, críticos,
impacientes, mal-​humorados? Damos esse passo como se não houvesse um nono passo. Não nos
focalizamos nos reparos que faremos mais tarde. Somente nos concentramos em fazer a lista e em
estar dispostos.5
Nesse processo, somos incentivados a encarar nosso comportamento inapropriado em suas formas
mais sutis. Note esta incrível descrição de negativismo apresentada no livro Os Doze Passos e as
Doze Tradições: “Suponha que em nossa vida familiar ocorra que sejamos sovinas, irresponsáveis,
indiferentes ou frios. Suponha que sejamos irritadiços, críticos, impacientes... O que acontece
quando nos atolamos em depressão, quando a autopiedade brota em todos os poros e infligimos
tudo isso àqueles que estão perto de nós?”6Não é interessante que o negativismo esteja realmente
descrito na literatura dos AA?
O processo de autoexame seria intoleravelmente doloroso, não fosse pelo fato de, a esta altura,
nossa força espiritual e nossa segurança emocional já terem crescido a ponto de podermos encarar a
verdade sem nos tornar autodestrutivos. Estamos simplesmente assumindo responsabilidades.
Não devemos ser motivados pela necessidade de obter a aprovação de Deus ou de aliviar nossa
própria culpa e vergonha. Pedir desculpas apenas para nos livrar do fardo da culpa seria agir em
benefício próprio. Não é esse o objetivo.
Nossa verdadeira intenção ao darmos os Passos Oito e Nove é curar os relacionamentos
machucados e quebrantados do passado, aprender as lições neles implícitas e equipar-nos para
servir a Deus e à humanidade da melhor maneira possível. Esses passos nos deixam livres para amar
a nós mesmos e aos outros incondicionalmente. E, no processo de reconhecer nossa necessidade de
perdão, tornamo-nos mais desejosos de perdoar aos outros.

Passo Nove
O Passo Nove diz o seguinte: “Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas,
sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.” Os viciados em
infelicidade, com todos os seus mexericos, suas críticas e queixas, podem causar muitos danos. O
objetivo do Passo Nove é fazer as pazes com as pessoas que magoamos. As atitudes e os
comportamentos do passado diminuíram nossa vitalidade e nos roubaram a alegria de viver no
presente. Por isso, precisamos livrar-nos dos destroços do passado
Um bom julgamento e uma noção precisa do momento de agir são necessários ao fazermos
reparações. Nunca devemos adquirir nossa própria paz mental à custa dos outros. Por essa razão,
devemos cuidar de dar os oito primeiros passos inteiramente – para podermos encarar de frente
nossos defeitos de caráter e os estragos que eles causaram. Ao submeter-nos ao poder transformador
de Deus e experimentarmos uma mudança genuína, estaremos preparados para reparar e construir
nossos relacionamentos. Nossas palavras e nossos atos serão finalmente coerentes.
É aconselhável que tenhamos cuidado ao fazer as reparações. Só para demonstrar como um pedido
de desculpas descuidado pode prejudicar mais do que ajudar, quero contar esta experiência pessoal:
Alguns anos atrás, uma mulher pediu-me desculpas por haver sentido uma “antipatia instantânea” por
mim quando nos conhecemos. Ela decidira que sua primeira impressão estava errada e sentiu-se
culpada. Eu não tinha percebido o que a mulher sentiu até que ela me contou. Eu fiquei mais magoada
pelo pedido de desculpas do que pelo motivo que a levou a pedir desculpas. Francamente, acho que
uma confissão a Deus da parte dela teria sido mais adequada.
Fazer reparações não é sinônimo de desculpar-se. O arrependimento genuíno significa mudança de
comportamento. Lamentar muito por ter chegado atrasado a um encontro é desculpar-se. Em
contrapartida, chegar pontualmente no próximo encontro é efetuar uma reparação – uma mudança no
comportamento. Se me desculpo por ter feito você esperar, e continuo chegando atrasado, não reparei
meu comportamento. As melhores reparações se manifestam em uma vida transformada.

A genialidade de viver um dia de cada vez

Passo Dez
O Passo Dez é o primeiro dos três passos de manutenção que nos levam a uma ligação mais íntima
com Deus e com os outros. O Passo Dez diz assim: “Continuamos fazendo o inventário pessoal, e,
quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.” Sem essa opção, correremos o risco de
perder o rumo e voltar aos antigos comportamentos. O Passo Dez nos permite arrumar nossa bagunça
o mais rapidamente possível. Um dia desses, meu esposo derramou suco de uva na camisa. Eu não
queria que a mancha secasse, tornando-se indelével; por isso, imediatamente encharquei a camisa
com água quente. É mais fácil remover uma mancha recente, limpar o que foi derramado antes que
seque, tratar uma ferida antes que inflame.
O Antigo Testamento apresenta muitos exemplos de pessoas que não conseguiram admitir suas
falhas prontamente – sendo Jacó, Esaú e os irmãos de José os mais notáveis. Esses indivíduos foram
atormentados por suas falhas não confessadas, e, como resultado, seus relacionamentos foram
dolorosamente prejudicados. Se falhamos em admitir nossos erros, colocamos cunhas separadoras
entre nós mesmos e as pessoas que amamos.
O Passo Dez tem sido de grande valor para mim, pois ele não somente alegra e energiza os
relacionamentos, como também é um antídoto eficaz para o perfeccionismo. Cresci pensando que eu
tinha de ser infalível. Obviamente, não há nada de errado em querer ser bom, mas eu era obcecada
com a perfeição. Eu ainda não havia encarado de frente minha falibilidade, o que quer dizer que eu
vivia em constante tensão, pois estava sempre tentando evitar um erro. O Passo Dez me livrou dessa
vida cheia de ansiedades. Pude parar de tentar ser perfeita e admitir que era humana. Em vez de lutar
em vão por algum ideal ilusório, eu sabia que poderia relaxar, cometer erros e corrigi-los no
momento adequado. É maravilhoso poder admitir que estou errada sem ter um ataque de vergonha.
Sou grata e feliz por não mais viver com medo de falhar. Quando aceitei o fato de que não havia
nada de errado em cometer erros, parei de me questionar. Não tive mais que racionalizar e defender
cada ato meu a fim de manter a ilusão de perfeição. Ufa!

Passo Onze
O Passo Onze diz: “Procuramos, por meio da prece e da meditação, melhorar nosso contato
consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua
vontade em relação a nós e forças para realizar essa vontade.” É vital manter um programa contínuo
de recuperação – e a oração e a meditação são essenciais para esse programa. Uma vez que a
comunicação com Deus é algo pessoal, a oração e a meditação podem ser vistas simplesmente como
duas abordagens, entre as muitas que as pessoas podem utilizar.
Gail, uma viciada em infelicidade recentemente recuperada, queria saber como reconhecer que
havia estabelecido contato com Deus e como estar certa de que Ele a estava guiando. Em suas
próprias palavras, a madrinha de Gail descreveu um processo de meditação e oração recomendado
na literatura dos AA:

À noite, antes de deitar-se, faça uma revisão do seu dia. Pergunte-se o que poderia melhorar.
Peça perdão a Deus por suas falhas. Peça-Lhe para corrigir seus erros. Depois, vá dormir.
Pela manhã, ao despertar, ore e medite sobre o dia que está diante de você. Lembre-se de que
orar é pedir a ajuda de Deus e meditar é ouvir Sua resposta. Reveja seus planos para o dia e peça
que Deus conduza seus pensamentos e ajude-o a não resvalar para a autopiedade, desonestidade ou
a busca de vantagens próprias. Se não souber o que fazer em alguma situação, peça a Deus
inspiração. Depois, relaxe e fique tranquilo. Não lute nem se preocupe com sua decisão – apenas
espere pela resposta que virá. Enquanto isso, calmamente faça o que está diante de você.7

Gail começou a fazer disso uma prática diária. O resultado? Ela gasta muito menos tempo tentando
arrumar circunstâncias e pessoas de acordo com suas próprias conveniências. Ela deixou de
manipular os outros a fim de conseguir que fizessem as coisas do seu jeito – e também não fica mais
com raiva quando eles não o fazem. Ela está menos assoberbada, ansiosa e zangada. Raramente
sucumbe à autopiedade.

Passo Doze
“Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a esses passos, procuramos transmitir essa
mensagem aos alcoólatras e praticar esses princípios em todas as nossas atividades.” Ser honestos
com os outros e responsáveis diante de Deus nos ajuda a ser mais autênticos. Tornamo-nos genuínos,
reais. Sem isso, é impossível ter intimidade.
O Passo Doze leva o viciado em infelicidade para além da solidão isoladora da dependência e da
compulsão, até um relacionamento mais profundo e significativo com Deus e os outros. Passamos a
amar a nós mesmos com um amor que só pode vir de um amor-próprio concedido por Deus. Uma
percepção renovada do nosso próprio valor ajuda a melhorar todos os nossos relacionamentos. O
despertar espiritual prometido no Passo Doze é, literalmente, o reavivamento do espírito humano,
uma recuperação da vitalidade e uma renovação do nosso entusiasmo pela vida. Tornamo-nos cheios
de vida e, assim, apresentamo-nos diante de Deus, de nós mesmos e dos outros.

Esperança Para Hoje


O processo de mudança interior começa com um exame cuidadoso de quem somos nós, do que
fazemos e de como nosso comportamento afeta as pessoas ao nosso redor. Podemos apartar-nos dos
nossos velhos “eus” para encontrar um “eu” melhor. Na hora certa, somos transformados por Deus
para sermos as pessoas que devemos ser. Ao longo da nossa jornada, praticamos uma “religião
experimental”. Aos poucos, vamos descobrindo quem Deus realmente é, o que Ele faz e como Se
relaciona conosco e com nossos problemas. Os Doze Passos facilitam tanto quanto possível o
processo de mudança e de crescimento. E os “anjos” dos nossos grupos de Doze Passos (padrinhos e
colegas em recuperação) são uma expressão da disposição que Deus tem para ajudar-nos na jornada.
Autoanálise
1 . Faça uma lista de cinco sintomas do vício da infelicidade que você acha ter manifestado, tais como a busca de simpatia, o martírio,
cuidado de outros, a simulação de desamparo, etc.
2 . Por três dias, tente controlar ou reduzir esses comportamentos.
3 . Se achar que é virtualmente impossível abster-se, descreva para um padrinho ou amigo de confiança um ou dois exemplos de
situações em que você falhou. Por exemplo: “Resolvi não ficar cuidando de outros hoje, e descobri que nem mesmo percebi quando
estava fazendo a mesma coisa outra vez.”
4 . Faça uma lista das consequências indesejáveis do cuidado compulsivo em sua própria vida e na vida de seus queridos: “Meu filho
diz que se sente muito incomodado quando fico controlando a vida dele.” Descreva como as pessoas mais próximas de você são
afetadas por seu comportamento.

1 Alcoholics Anonymous, Twelve Steps and Twelve Traditions, p. 15.


2 Ibid.
3 Ver Alcoholics Anonymous, Alcoholics Anonymous: The Story of How Many Thousands of Men and Women Have Recovered
from Alcoholism, 3ª ed. (Nova York: Alcoholics Anonymous World Services, Inc., 1976), p. 60.
4 Alcoholics Anonymous, Twelve Steps and Twelve Traditions, p. 43.
5 Ver Alcoholics Anonymous, Alcoholics Anonymous, p. 76-84.
6 Alcoholics Anonymous, Twelve Steps and Twelve Traditions, p. 81. (Itálicos acrescentados pelo autor.)
7 Alcoholics Anonymous, Alcoholics Anonymous, p. 86, 87.
Porque me lembro, desespero-me. Porque me lembro, é meu dever rejeitar o desespero.
Elie Wiesel

V oltamos agora nossa atenção para questões históricas ou terapêuticas que podem complicar
a recuperação e compor (ampliar e enriquecer) o primeiro passo. Quanto mais
problemático e fora de controle tenha sido o ambiente em que você conviveu em sua infância, mais
problemático e fora de controle sua vida presente poderá ser. Embora possa compensar o caos de sua
infância com a criação de um estilo de vida extremamente controlado e aparentemente perfeito hoje,
você pode muito bem ter problemas ainda não resolvidos.
Não importa qual o extremo para o qual uma pessoa se volva – se não tem controle ou é
controladora –, os problemas, em essência, são os mesmos. Eles podem incluir autorrepugnância,
falta de maturidade para lidar com os pesares da vida, emoções negadas ou reprimidas, pensamentos
e sentimentos distorcidos, problemas de relacionamento, tendência de reagir compulsivamente em
circunstâncias difíceis e comportamento dependente. Note as causas históricas demonstradas no
quadro a seguir:

SISTEMAS FAMILIARES DOLOROSOS


(Ambientes dominados pelos membros mais “doentes”)
ALCOÓLICO / DEPENDENTE WORKAHOLIC / PERFECCIONISTA
(Sistema disfuncional que aparenta ser (Sistema disfuncional que aparenta ser
disfuncional) funcional)

Caracterizado por: Caracterizado por:


1. Caos, imprevisibilidade 1. Estresse, tensão, rigidez
2. Desproteção 2. Superproteção
3. Abandono físico 3. Abandono emocional
A dependência é uma doença de extremos

Se nossa resposta ao dilema de nossa infância é ir de um extremo para o outro, precisamos


perceber que temos a inclinação de reagir com exagero, ou reagir mal ao estresse, agora. Nosso
estilo de reação é duradouro e profundamente arraigado – quase um reflexo. É apropriado tratar dos
mecanismos habituais de defesa como vícios. Como já dissemos anteriormente, o programa que
funciona para alcoólatras também auxilia as pessoas que estão lutando contra hábitos arraigados de
longa data, tais como explosões de raiva, manipulação, negativismo, perfeccionismo e controle
compulsivo.
Para os indivíduos que estão lidando com os tipos de problemas mostrados no quadro acima, o
Passo Um torna-se amplo e abrangente. Ele inclui muitos hábitos referentes ao relacionamento. À
medida que minha percepção sobre mim mesma cresce, torno-​​me cada vez mais consciente da minha
reação instintiva às pessoas e circunstâncias, bem como do sistema de filtragem cognitiva e/ou
emotiva que conduz as informações apreendidas – geralmente na direção errada. Talvez você também
tenha se apanhado regredindo para um comportamento infantil no pior momento possível e, em
seguida, perguntado o que foi que o “possuiu”. É sobre isso que estou falando.
No meu caso, por eu ter sido criada dentro de um sistema familiar workahólico e perfeccionista,
meu ponto de referência para a normalidade era distorcido! Adaptei-me a circunstâncias não
saudáveis de uma maneira que até funcionou para mim no passado. Mas minha capacidade de lidar
com problemas, a qual funcionou muito bem durante minha infância, voltou-se contra mim na fase
adulta, em que os companheiros não respondiam tão bem aos meus comportamentos problemáticos
como os meus pais e professores! A essa altura, os hábitos já estavam tão profundamente arraigados
que eu não podia mais abandoná-los. Eu nem podia perceber que eles não funcionavam mais.
Meu primeiro passo teve que incluir todos os comportamentos que haviam se tornado habituais:
cuidado compulsivo, controle, vício em trabalho, perfeccionismo, tentativa de agradar as pessoas,
dependência religiosa e dependência de relacionamento. O passo ficava cada vez maior à medida
que crescia minha autopercepção. Ele tornou-se cada vez mais inclusivo. Parei de tentar lutar um
monte de batalhas em variadas frentes e fui atrás de ajuda. Tive que admitir o óbvio: Não dava para
fazer isso sozinha; por mais que tentasse, eu não conseguia obter a vitória. Isso não fazia de mim uma
pessoa má. Só significava que eu era fraca diante das avassaladoras probabilidades. Render-me a
esse fato trouxe alívio e pavimentou o caminho para crescentes calma e paz. Aí está a própria
antítese do vício da infelicidade!

A verdade versus sua verdade


A experiência dos seus três anos de idade, a realidade dos cinco, suas percepções aos onze, a
perspectiva dos seus dezessete e de qualquer outra fase de sua vida – isso é que constitui sua
realidade, sem que tenha sido adulterada pelas explicações, desculpas e álibis de outras pessoas.
Negar sua verdade não faz o menor sentido, como você verá.
Aquilo que determinou suas reações quando você era criança, o que coloriu sua atual cosmovisão,
e o fator que desencadeia suas reações no aqui e agora é a sua percepção do que aconteceu em algum
lugar do passado. Essas experiências estão instaladas em seu cérebro. Elas colorem sua realidade
atual.
As emoções reprimidas e trancadas no interior profundo são subprodutos de antigas perspectivas e
criam um filtro pelo qual tudo o que acontece agora tem de passar. Mesmo se suas antigas percepções
foram inexatas ou distorcidas, elas afetaram sua cosmovisão e criaram sentimentos que permanecem
trancados dentro de você. Questioná-las cognitivamente não removerá necessariamente os
sentimentos residuais. Como disse um dos meus conselheiros: “A amígdala [um cacho de neurônios
no interior do cérebro que regula o mecanismo de fuga ou de luta] não entende seu idioma.”
Não faz sentido tentar racionalizar sua realidade nem orar desejando que ela seja afastada. Talvez
seja isso que você vem tentando fazer por anos – dizer a si mesmo que está imaginando coisas, que
sua dor não é importante, que tudo o que deu errado em sua família é culpa sua, etc. Essa abordagem
não funciona. Você não pode minimizar nem negar um trauma, você não pode desculpar um
comportamento abusivo que tenha sido perpetrado contra você; também não pode atribuir culpa a si
mesmo como uma criança e ainda esperar por saúde e cura como adulto. Hoje, você tem que
“acreditar na criança” e honrar suas emoções a fim de desfrutar um alívio duradouro das dores do
passado.
Note esta declaração da internacionalmente conhecida Dra. Alice Miller, uma especialista no
impacto do abuso e da negligência em crianças: “Não são os traumas que as pessoas experimentam
na infância que as deixam doentes e sim a incapacidade de expressar o trauma.”1
Encontrar um lugar seguro para expressar seus sentimentos é vital para a recuperação. A Dra.
Miller sugere que as pessoas precisam livrar-se do fardo das mágoas do passado. Isso dá uma
oportunidade para que os médicos, enfermeiros, conselheiros, pastores e outros profissionais
ajudadores possam dar sua contribuição.2 Não estou certa de que poderemos servir a pessoas
sofredoras, como sugere a Dra. Miller, até que tenhamos lidado com a cura de nossas próprias
feridas. Queremos ser curadores feridos ou feridos curados? O importante é passar por uma
experiência terapêutica.

Enfrentando a verdade
A fim de descobrir sua verdade pessoal, comece se perguntando: “Para mim, como foi crescer?”
Depois, convide o bebê, a criança, o pré-adolescente ou o adolescente dentro de você a falar. Não
discuta com ele, não lhe negue o direito a sua própria realidade, não tente explicar suas percepções.
Respeite o fato de que aquilo pelo que você passou é a sua verdade. Você tem direito aos seus
sentimentos, direito de falar sobre eles a alguém.
Você pode querer escrever suas lembranças em um diário. Você se beneficiará ao contar sua
história em uma terapia de grupo ou individual, ou falar sobre ela reservadamente com o seu
padrinho dos Doze Passos. Não pense demais nos eventos de sua própria história. Sinta-os.
Entristeça-se por causa deles. Fique com raiva. Honre sua própria realidade. Compadeça-se pela
criança que você foi – por conta do sofrimento indevido por que passou na infância – e pelos efeitos
residuais presentes na fase adulta. Lembre-se, existe uma enorme diferença entre sentir tristeza por si
mesmo e sentir-se triste por si mesmo. Neste contexto, a tristeza é algo bom. Precisamos sentir
tristeza por nossas perdas – até mesmo pela perda da normalidade.
Recomendo que você não faça esse trabalho catártico isoladamente. Encontre pessoas de confiança
e lugares seguros onde você terá o apoio de que precisa para um processo que pode ser doloroso e
desafiador. No fim, ele é muito compensador e libertador.

Culpa versus responsabilidade


Antes de chegar ao fundo do poço em minhas dependências limpas e de ficar internada para
tratamento, eu pensava que a verdade que liberta as pessoas era doutrinária ou teológica por natureza
– a verdade sobre Deus ou um ser supremo. Hoje, acredito ser mais do que isso. Estou convencida de
que temos de enfrentar a verdade sobre nós mesmos: nossa história; nossos comportamentos
aprendidos e derrotistas; nossa compreensão ou má compreensão sobre Deus; e nosso verdadeiro
potencial como criaturas do poder criador e restaurador de Deus. É essa verdade que nos liberta.
Algumas pessoas – especialmente os cristãos – hesitam em abrir as portas da mente e do coração
para a verdade nesse nível. Elas têm receio de examinar o passado. Existem razões para essa
relutância. Ela pode ter base no medo, seja o medo daquilo com que vão se deparar, seja o medo de
não serem capazes de lidar com o que encontrarem. Outros até pensam que Deus não é capaz de lidar
com as descobertas e que, de alguma maneira, ficará aborrecido com essas tentativas de descobrir
verdades escondidas, abusos do passado, etc.
Alguns presumem que explorar o passado equivale a desonrar ou desrespeitar os pais. Acham que
responsabilizar os pais por seus equívocos é uma violação do quinto mandamento. Saiba que
confrontar o comportamento de uma pessoa não é o mesmo que desonrar aquela pessoa. Desprezar o
pecado não é sinônimo de detestar o pecador. Em algum momento, crianças que cresceram em um
ambiente abusivo e vicioso merecem ser ouvidas, honradas e respeitadas. Elas têm o direito de
compartilhar sua verdade.
Muitas pessoas acreditam que, por não podermos mudar os eventos do passado, não adianta falar
sobre eles. Errado. Um rápido exame de eventos passados – não apenas falar sobre eles, mas
permitir-nos sentir e expressar a dor, o medo e a raiva – pode trazer um alívio considerável. Como
resultado, poderemos começar a notar certos padrões de relacionamento em nossa vida atual que
refletem antigos abusos, antigos problemas de confiança e antigos medos. Nossos problemas
históricos afetam nossas reações e nossos relacionamentos atuais. Podemos chegar a perceber que
estamos despejando nossa raiva reprimida em pessoas que não merecem isso. Podemos ter medo de
pessoas que nos fazem lembrar de antigos abusadores. Reconhecer essas coisas pode guiar-nos na
definição de áreas em nossa vida que precisam ser tratadas terapeuticamente.

A terapia poderá comprometer minha fé?


Quando fui tratar minha codependência, em 1986, matriculei-​​me em um programa de um hospital
sem qualquer filiação religiosa. Fiquei com medo de perder minha fé, mas Deus foi maior que meus
maiores medos. Quando atravessei a porta, vi um cartaz na parede que dizia “Que &%$# você pensa
que é?” Isso me fez refletir: o que uma senhora cristã como eu está fazendo num lugar desses? Mas
eu estava por demais ferida e deprimida para sair correndo dali.
Não demorou para eu descobrir que Deus era muito maior do que coisas tão superficiais como
cartazes em paredes. Eu testemunhei milagres. Eu experimentei uma cura milagrosa. O Deus da
minha compreensão estava mais preocupado em fazer com que eu e os demais pacientes do programa
saíssemos dali vivos do que com a decoração das paredes, o vocabulário ou a filiação religiosa dos
terapeutas.
Hoje, sei que Deus queria que eu e os demais pacientes tivéssemos vida, e vida em abundância.
Deus não estava limitado pela fragilidade e falibilidade humanas. É essa percepção que permitiu que
eu trabalhasse nos últimos 30 anos como uma profissional na área de recuperação de dependentes.
Deus me usa a despeito – e às vezes por causa – das minhas imperfeições.
Vejo mais milagres no ambiente de tratamento a cada semana do que muitas pessoas veem no
ambiente da igreja na vida inteira. Não estou difamando a igreja que amo nem outra igreja qualquer
ao dizer isso. O que quero dizer é que Deus tem a mente mais aberta do que a maioria das pessoas
pensa. Creio que Ele trabalha melhor com pessoas cujos problemas as têm levado aos seus joelhos.
Deus tem muitas maneiras de realizar o milagre da cura. Os indivíduos que têm sido levados aos seus
joelhos por conta de suas dependências ou das dependências de um ente querido têm um nível de
humildade e disposição que os prontifica a percorrer a distância necessária para sua recuperação.
Esse tipo de disposição provê o pano de fundo para os mais elevados tipos de milagres.

Fraqueza não significa desamparo


O pensamento desesperançoso e o comportamento desamparado são combustíveis para o vício da
infelicidade. Os negaólicos acham que os seus problemas são piores do que os de todo mundo.
Creem que estão além de qualquer possibilidade de ajuda. Na verdade, eles não são tão
desesperançosos e desamparados como pensam. Mas certamente são fracos quanto à sua maneira
negativa de pensar. Eles ainda precisam descobrir que a fraqueza é fortalecedora.
Você já tentou mover um objeto que é pesado demais para você – como, por exemplo, um dormente
de estrada de ferro ou um piano? Os hábitos de longa data e profundamente arraigados são como um
piano de cauda. Não existe um meio de carregar um piano sozinho. Tudo bem, dá para movimentá-lo
uns dois ou três centímetros, mas eu nunca poderia mudá-lo para uma outra sala, que dirá para até o
outro lado da cidade. Isso faz de mim uma pessoa fraca e desamparada? Não, apenas não sou
especializada em mover pianos.
Você acha que se eu exercitar meus músculos, caso queira mesmo carregar o piano, se eu levantar
pesos por alguns dias, poderei levantar um piano com meus braços? E se eu ler mais a Bíblia, orar
com mais intensidade e exercitar mais a minha força de vontade? Será que vou poder jogar um piano
para cima e pegá-lo de volta? Dificilmente! Suponha que eu volte para o topo da lista e comece outra
vez. Será que eu terei sucesso? Não. Independentemente de quantas vezes eu tente, eu só posso
fracassar, pois a tarefa é impossível.
Somente depois de reconhecer a futilidade do meu esforço, aceitar a total impossibilidade de
mover pianos sozinha e buscar ajuda é que vou ter sucesso em mudar o piano de lugar. Admitir que
não podemos fazer o impossível e pedir ajuda não quer dizer que somos fracos ou maus. Quer dizer
apenas que não temos nem a força nem a habilidade de fazê-lo sozinhos.
A certa altura em minha vida, percebi que era vítima primeiro de um e depois de outro hábito
adquirido de pensar, sentir e comportar-me. Esses hábitos estavam tão profundamente arraigados que
me faltava força para mudá-los, apesar de querer e tentar muito. Eu sabia que era uma loucura ficar
repetindo meu comportamento autodestrutivo, mas parecia não ser possível obter a vitória somente
na base da força de vontade. Por pensar que precisava ser capaz de vencer meus hábitos, eu tentava
com afinco. Quando vi que isso não funcionava, tentei outra vez e com mais determinação. Mesmo
depois de perceber que estava batendo a cabeça contra uma parede, não desisti – continuava batendo.
Somente depois de reconhecer minha fraqueza e procurar uma conceituada “empresa de mudanças”
que estava no ramo desde 1935 foi que consegui deslocar o piano. Ao chamá-la e ao pedir-lhe ajuda,
entreguei meu problema para quem tinha mais força e habilidade. Assim, minha força foi
aperfeiçoada na fraqueza. Acho que estou em excelente companhia, pois o apóstolo Paulo falou
também sobre o poder de Deus sendo aperfeiçoado na fraqueza humana.3 A fraqueza é extremamente
fortalecedora. Ela nos coloca em contato com a Fonte de sabedoria e poder que pode fazer por nós
aquilo que não podemos fazer sozinhos. Gosto de pensar nisso.

A dependência é uma condição humana


Dada à sua própria natureza, aquilo que muitos cristãos chamam de pecado é um vício, uma
dependência, que é uma condição humana. O objetivo da recuperação não é a libertação da doença
crônica que chamamos de “vício”. O propósito da recuperação não é a ausência de pecado, mas a
conscientização – o tipo de conscientização que leva à humildade, à abertura para o aprendizado e ao
reconhecimento da nossa necessidade da bondade e justiça de Deus. Estamos bem. Alguém está
atendendo às nossas necessidades. Que mais posso dizer?
Vítima nunca mais
Segure o seu chapéu. Esta sessão vai lhe dar um gostinho de liberdade – uma visão prévia do que
está para vir se você fizer terapia e trabalhar com os Doze Passos. Para introduzir o assunto, preciso
mostrar-lhe algo que vem diretamente do grande livro dos Alcoólicos Anônimos. Encontra-se no
contexto do Passo Quatro, que diz assim: “Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós
mesmos.”
Depois de fornecer um esboço simples de como dar o Passo Quatro, o Grande Livro oferece uma
das melhores declarações com que já me deparei: “Fizemos uma revisão de toda nossa vida. Nada
era mais importante do que a meticulosidade e a honestidade. Ao terminarmos, levamos em
consideração o que vimos. A primeira coisa que se tornou aparente foi que este mundo e toda sua
gente estavam frequentemente erradas.” Amém para isso aí! Esse é um problema para nós, os
viciados em infelicidade: não podemos fazer as pessoas agirem corretamente e não conseguimos
ficar felizes se elas assim não fizerem.
“Concluir que os outros estavam errados foi o máximo que muitos de nós conseguimos. O resultado
normal foi que as pessoas continuaram a errar e nós continuamos a ficar magoados.” A passagem
continua: “Voltamos para a lista, pois ela continha a chave para o futuro. Preparamo-nos para olhá-la
de um ângulo totalmente diferente. Começamos a ver o mundo e suas pessoas realmente nos
dominando. Nesse estado, as ações incorretas dos outros, fantasiadas ou reais, tinham o poder de
chegar a matar, de fato.”4
Falemos sobre a palavra dominando por um minuto. Ser dominado é ser controlado por outra
pessoa. É dar a alguém ou algo o poder de determinar nosso humor e nossa autoestima. É dar-lhes o
poder de vida ou morte sobre você.
Agora, vou mencionar uma frase já citada: “Começamos a ver o mundo e suas pessoas
[‘frequentemente erradas’] realmente nos dominando.” Agora, feche seus olhos e repita a frase:
“Começamos a ver o mundo e suas pessoas ‘frequentemente erradas’ nos dominando.” O que isso me
diz é que nós, mártires e vítimas, damos para o mundo e suas pessoas “frequentemente erradas” o
poder de vida ou morte sobre nós. Se isso for verdade, então o problema é de quem? Encerro o meu
caso.
Note as implicações de longo prazo. Podemos interromper o hábito de deixar o mundo e suas
pessoas “frequentemente erradas” nos dominar! Os viciados em infelicidade são dominados pelo
mundo e por suas pessoas “frequentemente erradas.” Não temos que continuar fazendo isso. Se
usarmos as ferramentas que estão disponíveis, poderemos nos recuperar.

Dispensando deuses falsos


É a partir da assimilação de características das pessoas que assumiram a posição de Deus durante
nossa infância – pais, autoridades e qualquer um que, correta ou erroneamente, controlaram nosso
corpo e espírito – que criamos um conceito ou um retrato de Deus. Ou seja, Deus passa a assumir as
personalidades e os traços de caráter dessas pessoas. Poucos adultos têm consciência do quanto
esses retratos arcaicos de Deus têm afetado no presente sua capacidade de relacionar-se com um
Poder Superior amoroso e digno de confiança.
E poucos percebem quão viciados estão em suas compreensões equivocadas sobre Deus e quão
dependentes são dessas falsas imagens. Muitos cristãos são reféns dessa consciência abusiva. Eles
estabeleceram um vínculo com um Deus grosseiro e crítico, da mesma maneira com que reféns
humanos frequentemente se tornam dependentes de seus abusadores. Isso é conhecido como síndrome
de Estocolmo, uma referência a um caso em que um grupo de pessoas que foi mantido prisioneiro por
um longo período em Estocolmo, Suécia, defendeu seus agressores depois de ser libertado. Há
relatos de que uma das reféns acabou se casando com um dos bandidos. Tornamo-nos mártires ao
persistirmos em ser vítimas de um ambiente abusivo (família, igreja, etc.).
Muitos viciados em infelicidade transformaram Deus em um feitor cruel que não Se satisfaz com
nada que fazemos. Para os que fizeram isso (inclusive eu), abandonar o papel de vítima requer que
nos disponhamos a recompor nosso conceito sobre Deus. Libertar-nos do jugo de nossos ídolos e de
nossas falsas imagens dEle é uma parte necessária, mas assustadora, do nosso processo de
desenvolvimento. Quanto mais seguros nos acharmos com uma imagem falsa de Deus, mais
estressante será apartar-nos dela. Mas é possível fazê-lo.
Quando eu estava nessa fase da minha recuperação, fiquei aterrorizada. Foi como se eu tivesse
saído de uma estradinha secundária e entrado no meio do tráfego pesado de uma rodovia com seis
pistas. Tive o maior de todos os ataques de pânico. Como poderia sobreviver até o próximo acesso
para outra estradinha secundária – o ponto em que poderia sentir-me confortável com o Deus da
minha nova compreensão?
Nesse estado, encontrei esperança e conforto na promessa do Passo Doze – que o resultado de dar
os onze passos anteriores é um despertamento espiritual. Por um curto período de tempo, isso era
tudo a que eu podia me apegar. Depositei minha fé naquela promessa e foi ela que me segurou
durante a travessia. Realmente desfrutei o gozo do despertamento espiritual.

Confiando no Deus que você não compreende


Quando percebi que minha compreensão sobre Deus era, de fato, uma tremenda incompreensão,
meu primeiro impulso foi sair correndo e comprar seis novas traduções da Bíblia e mais uma
coleção de comentários bíblicos e começar a estudar tudo isso sem parar, até corrigir minha
incompreensão. Tive medo de que, se não colocasse tudo em seus devidos lugares até o pôr do sol,
eu morreria antes de acordar. Não é mesmo uma coisa de viciada imatura?
Se alguma vez em minha vida escutei a voz de Deus, foi nessa ocasião. Eu tinha certeza de que, se
obedecesse ao impulso de assumir o controle da situação e tentar resolvê-la da noite para o dia,
estaria “usando” – dando vazão à minha enfermidade. Eu tinha que saltar do penhasco, entrar em
queda livre e confiar no processo – e foi exatamente o que fiz. Nunca lamentei aquele momento.
Meu plano de estudar à minha maneira, a fim de chegar a uma compreensão correta sobre Deus,
estava fadado ao fracasso, pois meu problema espiritual não era cognitivo. Naquele tempo, eu já era
formada em religião pela Universidade Andrews e sabia bastante sobre Deus. O problema estava em
meu coração, em meu inconsciente, em minha alma. A cura que eu precisava era emocional,
espiritual. E ela veio como um resultado natural de trabalhar com os Doze Passos.
A propósito, tive que voltar à idade de cinco anos para então achar um Deus amigo, amoroso e
compassivo – de volta àqueles dias em que eu costumava cantar na Escola Sabatina: “As árvores
balançam, balançam, balançam.” Foi ali que achei Deus. Estou confiante de que aonde quer que você
vá a fim de encontrar o seu Poder Superior, e seja qual for o tempo que leve essa jornada, Deus
estará lá.

Depois de passar por um reavivamento espiritual...


Hoje, sou grata em dizer que não posso definir Deus. Eu não entendo Deus. Mas acredito e confio
nEle. Sinto-me confortável com a noção dos AA de que cada indivíduo tem o direito de definir Deus
para si mesmo. Aliás, nenhuma das pessoas com quem você se senta na igreja nos dias de culto tem
exatamente o mesmo conceito de Deus. Felizmente, Ele não é limitado por nossas percepções. Se
fosse possível definir Deus, estaríamos todos em sérias dificuldades.
Voltemos à promessa de Os Doze Passos e as Doze Tradições que me permitiu atravessar as fases
preliminares da minha jornada espiritual:

Então, com a prática desses passos, tivemos um despertamento espiritual sobre o qual finalmente
não houve mais questionamentos. Olhando para os que estavam apenas começando e ainda
duvidavam de si mesmos, o restante de nós podia ver a mudança acontecendo.
De um grande número de experiências assim, podíamos prever que o incrédulo que ainda dizia
que não tivera o “ângulo espiritual” [...] iria presentemente amar a Deus e chamá-Lo pelo nome.5
Deus cobriu tudo isso. Não precisamos nos preocupar com nós mesmos nem com nenhum dos
nossos queridos. A despeito de nossas experiências passadas ou das lutas presentes, desfrutaremos
um despertamento espiritual como resultado de trabalhar esses passos.

Esperança Para Hoje


Aqui está um testemunho pessoal de uma mulher que foi programada para ser negativa desde o seu
nascimento. Desde que passou a ser sóbria, vários anos atrás, como resultado do trabalho nos AA,
ela tem lutado heroicamente para superar seu vício em infelicidade. “Na primeira vez que vim para
os AA, tive ódio de Deus e de tudo que Ele representava. A terminologia religiosa me deixava toda
arrepiada. Eu não conseguia acreditar que Deus me amasse ou que Se importasse comigo. Mas, ao
trabalhar os passos nos AA, minha compreensão sobre Deus cresceu. Meu Deus, hoje, é o amoroso
Deus de quem sempre precisei. Agora, estou usando os mesmos passos que me ajudaram a parar de
beber para me libertar do negaolismo. É doloroso para mim ver tanto os danos causados pelo meu
negaolismo quanto os danos causados pela bebida. Mas sei que Deus pode remover meus defeitos de
caráter. Ainda não sou a pessoa que quero ser mas, graças a Deus, não sou a pessoa que costumava
ser. Tenho certeza de que Deus está me transformando um dia de cada vez.” – Nancy G.

Autoanálise
1 . Quando criança, você passou por alguma experiência em casa, na escola ou na igreja que o deixou envergonhado ou sentindo-se
inadequado? Escreva um parágrafo sobre isso.
2 . Você se lembra de ter cometido um erro inocente e ter sido humilhado por uma figura de autoridade quando ainda era bem jovem?
Imagine que aquela pessoa venha até você agora e lhe diga que estava errada. Como você se sentiria?
3 . Procure uma fotografia sua tirada quando você ainda era bem jovem. Fazendo o papel de um pai bondoso ou de um gentil tutor,
escreva uma declaração simpática para aquela criança absolvendo-a da culpa de comportar-se como uma criança. Reconheça que
não faz mal cometer erros e relembre que você é valioso e que as pessoas o amam do jeito que você é.
4 . Convide o Deus da sua compreensão para guiá-lo na procura da ajuda terapêutica apropriada que poderá conduzi-lo no processo da
cura.

1 Alice Miller, Thou Shalt Not Be Aware (Nova York: Farrar, Straus, and Giroux, 1984), p. vii.
2 Ibid.
3 Ver 2 Coríntios 12:9.
4 Alcoholics Anonymous, Alcoholics Anonymous, p. 65, 66
5 Alcoholics Anonymous, Twelve Steps and Twelve Traditions, p. 109.
Uma mulher sempre se sacrificará se lhe derem a oportunidade, pois essa é sua forma favorita de
autocondescendência.
W. Somerset Maugham

C omo vimos, a vulnerabilidade das pessoas em relação ao uso de certas substâncias e à


prática de certas atividades é influenciada tanto pela hereditariedade quanto pelo ambiente.
Costumamos pensar que essa vulnerabilidade foi criada por uma história familiar de dependência e
abuso, mas ampliamos nosso entendimento para incluir qualquer tipo de preocupação e de ímpeto –
não apenas dependência e abuso flagrantes.
Hoje sabemos que as pessoas não são predispostas a distúrbios associados à dependência por
causa de alcoolismo na família, à dependência de drogas, ao trabalho exagerado ou à síndrome de
vítima e mártir por si. Sua vulnerabilidade é oriunda da atmosfera de estresse alto e cuidado baixo.
Essas variáveis são consistentes. Um ambiente de alto estresse e de baixo cuidado produz um adulto
espiritualmente vazio, socialmente inseguro e emocionalmente carente.

Intenções positivas e resultados negativos


Cuidar é mais do que mostrar afeto. É regozijar-se por sua existência, honrar sua singularidade,
focalizar-se em seu desenvolvimento, dando-lhe todo o apoio necessário! Pais que trabalham,
brincam e vivem com moderação são prontamente capazes de fazer isso, enquanto aqueles que
trabalham, brincam ou vivem obsessivamente são limitados em sua capacidade de assim fazer. Se
eles são obcecados com o legalismo e o perfeccionismo, correm o risco de ver seus filhos como
projetos em vez de pessoas. Achei doloroso ter que admitir, ao trabalhar com os passos quatro e
cinco, que tratei meus próprios filhos como objetos dessa maneira.
Muitos dos filhos criados em lares religiosos, dos quais foi exigido que decorassem e recitassem
seus versos áureos na igreja desde os dois anos de idade, acabaram espiritualmente falidos. Muitas
crianças têm frequentado escolas confessionais por toda a vida e têm um impecável domínio das
doutrinas bíblicas e das normas da igreja, mas, mesmo assim, acabam passando fome espiritual.
O vazio espiritual não tem nada a ver com ir à igreja ou não ir. Tem a ver, sim, com alto estresse e
baixo cuidado. Escreva lá em cima contra o azul do céu: alto estresse e baixo cuidado. E isso pode
acontecer tanto em famílias “igrejeiras” quanto em famílias alcoólicas.
Com frequência, as crianças que crescem em ambientes legalistas experimentam Deus de uma
forma diferente daquela que seus pais e pastores tentam apresentar. Em um livro anterior, mostrei
que, quando pensamos que estamos ensinando nossos filhos a amar e a confiar em Deus, eles podem
estar aprendendo a duvidar dEle. Quando pensamos que os estamos ensinando a apreciar a morte de
Jesus na cruz, eles podem estar desenvolvendo um repúdio por tudo aquilo que a cruz representa.
Quando pensamos que os estamos ensinando a olhar para a frente, para a eternidade, eles podem
estar aprendendo a deixar passar a beleza do momento. Quando pensamos que os estamos ensinando
a ter altos ideais, eles podem estar aprendendo a ter um baixo senso de valor e medo de fracassar.1
As crianças oriundas de sistemas ultraconservadores podem ver Deus como crítico e condenador,
inamistoso e distante. Ao mesmo tempo, elas podem não gostar de si mesmas e ter dúvidas sobre
suas habilidades. Podem ter um conceito negativo de si mesmas, um senso de falta de valor, pouca
força de vontade e um espírito quebrantado.
Em contraste, famílias saudáveis produzem filhos com identidades fortes, positivas e um senso de
valor pessoal. Eles têm um Deus amistoso e afirmador. Essas crianças mantêm sua força de vontade e
um espírito vívido. Pense na diferença entre um animal animado e um desanimado, e você saberá do
que estou falando. As criaturas animadas são cheias de curiosidade, energia, entusiasmo e paixão. As
criaturas desanimadas são apáticas, sem vida.

CONSEQUÊNCIAS DAS PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS ESPIRITUAIS


SISTEMA FAMILIAR SAUDÁVEL SISTEMA DEPENDENTE OU OBSESSIVO
Poder superior/pais grosseiros
Deus/pais gentis e amistosos
Visão negativa do “eu” (autodúvida)
Identidade saudável (autoconfiança)
Vontade danificada
Vontade intacta (poder de escolha)
Espírito animado
Espírito quebrantado

Se a vontade de uma criança é quebrantada e o seu espírito esmagado em um ambiente estrito,


austero e desaprovador, é provável que ela vá desconfiar de Deus e desgostar de si mesma. Como
resultado, ela pode ter dificuldades para formar conexões mais próximas com alguém, seja divino ou
humano. Em ambientes em que existe algum tipo de dependência, uma criança “não apenas
desenvolve baixa autoestima. Ela não desenvolve o ‘eu’. E então alguns cristãos bem-intencionados
vêm lhe dizer que sua maior luta será contra o eu. A batalha não é contra o eu. É contra a falta do
eu!”2
Saber disso me ajuda a apreciar a complexidade do processo de cura e o tempo que é necessário
para amadurecer emocional e espiritualmente. O desenvolvimento da identidade e da santificação diz
respeito ao crescimento emocional e espiritual, nessa ordem. Isso leva tempo. O conceito de
santificação como processo de uma vida era vago para mim, até que entendi os Doze Passos como
um meio de atingir o crescimento emocional e espiritual.
O antídoto para nosso problema espiritual – nossa incapacidade de amar ao Senhor de todo o
coração e ao próximo como a nós mesmos – é simples. Se um ambiente de alto estresse e baixo
cuidado comprometeu nossa capacidade de desenvolver uma relação saudável com nós mesmos e
com nosso Poder Superior, então devemos tratar de criar um estilo de vida de baixo estresse e alto
cuidado a fim de recuperar os pontos que não foram dados quando nosso caráter foi “bordado”. Até
mesmo nossas afiliações religiosas precisam encaixar-se no modelo do baixo estresse e alto cuidado.
A recuperação precisa ser tão tranquila quanto possível. A maneira menos estressante que conheço
para recuperar nossa força, reavivar nosso espírito e reestabelecer um senso saudável do eu é usar
os Doze Passos. E isso é simples? Simples? Sim. Fácil? Não.

Uma variação da regra áurea


Aqui está uma ideia nova que me parece estar baseada em boa psicologia e boa religião. Se ser
capaz de viver o “grande mandamento” é importante, se o que a Bíblia diz sobre amar os outros
como a nós mesmos é verdade,3 então, de alguma maneira, é legítimo para nós fazer o que for
necessário para aprendermos a experimentar nossa própria preciosidade em um nível emocional
profundo.
Você já tentou reunir todo o amor e respeito próprios que possui? É virtualmente impossível. A
razão é que a maioria de nós colocamos a carruagem adiante dos cavalos. O amor-próprio é o efeito
– não a causa – do cuidado próprio saudável. Não é por considerá-lo egoísta que cultivamos o
cuidado próprio saudável.
Muitos dos filhos de alcoólatras aprendem cedo na vida que têm que tomar conta de todo mundo,
menos deles mesmos. Até as crianças que crescem em ambientes com presença de dependentes de
religião ou de legalistas acabam com uma visão distorcida a respeito de si próprias. Elas também
aprendem que o cuidado próprio é errado e inapropriado. Ambos crescem com a ordem “não seja
egoísta” soando nos ouvidos.
Precisamos colocar as coisas nos devidos lugares. Precisamos aprender a praticar o cuidado
próprio saudável que nos levará à capacidade de experimentar nossa própria preciosidade. Na
verdade, cuidar de nós mesmos não é um ato de egoísmo ou de autocentralidade. É isso que as
pessoas saudáveis e maduras fazem. Precisamos amar e cuidar de nós mesmos, como também
respeitar e proteger os dons que Deus nos deu.
As pessoas que, enquanto crianças, foram obrigadas a negar suas necessidades normais e privar-se
indevidamente a fim de servir os outros têm de enxergar a regra áurea como uma moeda de dois
lados. Primeiro, devemos tratar a nós mesmos com o mesmo amor e respeito que recomendaríamos a
um amigo. Uma vez que tenhamos aprendido a fazer isso, estaremos livres para amar os outros com
um amor que só pode vir de um amor por nós mesmos concedido por Deus. Seremos capazes, então,
de praticar a regra áurea a partir de uma posição de abundância em vez de codependência – de um
lugar de maturidade e saúde mental em vez de um lugar de carência insaciável e insegurança
neurótica.

A decisão mais difícil que você vai tomar


A decisão que vou sugerir é difícil para viciados em infelicidade, porque ela pode impedir o
progresso das crenças profundamente arraigadas descritas acima. Depois do nosso comprometimento
cristão, a decisão mais importante e mais difícil que devemos tomar é a de fazer do nosso próprio
bem-estar a prioridade mais elevada.
Bobagem, você dirá. A Bíblia diz que devemos amar e cuidar de nós mesmos antes de podermos
amar e cuidar do nosso próximo. Fim de conversa. É nosso dever cristão amar e cuidar de nós
mesmos. Também é um dever cristão tratar-nos com respeito. Em muitos casos, isso é algo que nunca
nos ensinaram. Em alguns casos, o oposto deve ter sido pregado do púlpito.
Tendo aprendido a sacrificar-nos durante a infância, estamos agora sempre emocionalmente
deficitários. Ficamos dando generosamente aos outros enquanto nossa própria conta bancária está no
negativo – passando cheques que voltarão com o carimbo “sem fundos”. Antes de podermos dar,
temos que aumentar nossas reservas. Isso não é um ato de egoísmo. No fim de tudo, é isso que
possibilita o verdadeiro altruísmo.
Permissão para fazer menos
Quando eu estava em tratamento, meu terapeuta me deu permissão para fazer menos. “Carol, você
precisa relaxar um pouco.” Pareceu-me uma grande ideia, mas eu não sabia como fazê-lo. Aqui estão
algumas mudanças comportamentais que funcionaram para mim: Corte pela metade sua lista de coisas
por fazer. Ou rasgue-a e jogue-a no lixo. Elimine. Delegue. Deixe que outra pessoa faça as coisas.
Faça-as mais tarde, ou não faça nada. Relembre que Deus não precisa de sua ajuda. Resista à
compulsão de sair sozinho com a bola para tentar marcar o gol. Experimente passar a bola para outra
pessoa marcar. Ou chute para a lateral. Não tem problema nenhum. Faça uma pausa para relaxar.
A fim de recuperar-nos, temos que nos permitir fazer mudanças! Não podemos viver com nossos
sistemas produtores de adrenalina operando em nível máximo o tempo todo. A adrenalina é energia
de alta octanagem. Precisamos de bastante tempo em marcha lenta para recuperar-nos.

Permissão para diminuir o ritmo


Você tem um espírito competitivo? Ou será que eu sou a única pessoa no planeta que calcula o
tempo e a distância da viagem para ter a certeza de que vou chegar ao meu destino em um tempo
menor que da última vez? Agora que estou em recuperação, parei de tentar saber quantos quilômetros
acima do limite de velocidade permitido eu posso percorrer sem ser flagrada pela polícia. Parei de
ficar constantemente à procura de radares escondidos. Agora, dirijo a cinco quilômetros abaixo do
limite de velocidade. Talvez seja um processo de santificação por senilidade (ou o alto preço da
gasolina).
Muitos mártires se orgulham de fazer mais, melhor e mais rápido. Parei com isso. Esse sintoma tem
que desaparecer! Temos que dar uma esfriada e parar de correr por aí que nem idiotas. A vida não é
uma competição. Deus está a cargo do nosso bem-estar temporal e eterno e do bem-estar temporal e
eterno das pessoas a quem amamos. Ele não precisa de nossa ajuda. Você já leu a promessa de Deus,
de que “antes que clamem, responderei” (Isaías 65:24)?

Permissão para renunciar


O Dr. Archibald Hart, professor de psicologia do Seminário Teológico de Fuller e autor de vários
livros sobre como superar a tensão e o estresse, declara que os cristãos são excepcionalmente
propensos à hiperatividade por causa da pressão para serem bons. “Somos [...] ignorantes sobre
como a pressão que sentimos ao tentarmos viver corretamente pode causar severos problemas de
ansiedade. Sermos bons contando com nossos próprios recursos é uma causa perdida. Quanto mais
tentamos com nossas próprias forças, mais estresse sentimos em nossa vida. Não é isso que Deus
quer de nós.”4
Para que você tenha um estilo de vida com um baixo nível de estresse e alto nível de cuidado, pode
ser que tenha que renunciar a algumas comissões, mesas administrativas, cargos na igreja, equipes de
trabalho, tarefas opcionais no trabalho e atividades voluntárias. Reduza para apenas uma coisa. Faça
parte de apenas uma comissão ou mesa administrativa, mas não seja o presidente. Você ficará
satisfeito em descobrir que não é indispensável. O mundo vai continuar girando.
O Dr. Hart recomenda prestar muita atenção à nossa tolerância ao estresse. Uma vez que
aprendemos a reconhecer quando estamos ficando assoberbados, precisamos estabelecer limites e
fazer o que estiver ao nosso alcance para não ultrapassá-los. Precisamos estabelecer limites e dizer
para todos, até mesmo para nossos queridos, para retrocederem caso tentem ultrapassar os limites
estabelecidos.5
Recentemente, tive uma experiência infeliz, resultado de não seguir esse conselho. Por vários anos,
estabeleci uma norma pessoal de não aceitar mais do que um compromisso para falar, por trimestre.
Então, por causa da pressão feita por várias pessoas, acabei comprometendo meus limites e aceitei
quatro importantes compromissos, quase consecutivos. Estou 100% certa de que meu ego teve muito
a ver com isso. Não posso culpar ninguém mais. Excedi meus próprios limites. O resultado foi um
ataque isquêmico transitório, um leve derrame, do qual estou plenamente recuperada. Mas foi um
alerta – o qual levei muito a sério.

Permissão para parar de empenhar-se


Sendo a super-realizadora que sou, fiquei extremamente impressionada – até inspirada – com uma
amiga que me confessou que, ao matricular-se em seu programa doutoral, prometeu a si mesma que
investiria uma quantidade mínima de esforço. Ela estava determinada a abster-se do empenho
exagerado. Não tinha nada para provar. Não estava competindo com ninguém por prestígio ou
posição. Não tinha que matar-se para tirar as melhores notas da turma. Ela aprendia a matéria, fazia o
que era requerido e tirava notas médias. Imagine só!

Permissão para pedir ajuda


Uma das melhores coisas que podemos fazer para reduzir o estresse e a infelicidade em nossa vida
é parar de tentar carregar nossos fardos sozinhos. Precisamos deixar que os outros nos ajudem.
Humilhar-nos e pedir auxílio não é uma habilidade que ocorre naturalmente para vítimas
codependentes e mártires que foram ensinados na maneira de pensar do tipo “faça você mesmo”, mas
é possível fazê-lo.
Muitos filhos de alcoólatras, viciados e workahólicos aprenderam quando ainda eram crianças que
estavam sós. Por não haver ninguém disponível para guiá-los ou protegê-los, eles se tornaram
antidependentes. Agora, acham difícil pedir ajuda. Não querem incomodar ninguém com seus
problemas insignificantes e tampouco querem dever favores a alguém. Eles não querem depositar sua
confiança em outros nem conferir-lhes poder – deixar que alguém os controle.
Na realidade, pedir ajuda não é o mesmo que conferir poder, pois quando pedimos, ainda estamos
no controle da situação. Somos donos de nossas próprias prerrogativas e mantemos o controle de
nosso próprio destino. Pedir ajuda não é o mesmo que entregar nosso poder. Aqui está um exemplo.
Hal, um querido amigo, aprendeu a importância de pedir ajuda depois de completar 60 anos de
idade. Hal estava trabalhando em um jardim, um serviço que requeria o transporte de madeira pesada
em torno de uma pequena colina. Naturalmente, ele tentou fazer tudo sozinho. A certa altura, enquanto
carregava uma daquelas toras, ele tropeçou e saiu rolando colina abaixo até esbarrar em outra tora,
ficando todo arranhado e machucado, a ponto de não poder mover-se. Ai!
Quando temos um problema ou um projeto grande demais para nós, não faz mal pedir auxílio. Não
sei se aconteceu com você, mas meus pais se esqueceram de me ensinar isso. Agora, acostumei-me a
pedir ajuda várias vezes por dia – mesmo se acho que não preciso. Pedir ajuda é um bom hábito para
se adquirir, pois nos mantém com os pés no chão e humildes.

Permissão para descansar e relaxar


Médicos especializados dizem que o estresse ativa um hormônio (cortisol) que interfere na
capacidade do cérebro de processar tranquilizantes naturais que aumentam a sensação de bem-estar.
A seratonina é o neurotransmissor que acentua a capacidade do cérebro de ter sentimentos positivos.
O cortisol bloqueia esse tranquilizador natural impedindo que ele chegue aos pontos receptores. O
resultado inevitável é o pessimismo, o negativismo, a ansiedade e a depressão.
Os comportamentos que reduzem ou diminuem nossos tranquilizantes naturais incluem estresse,
excitação, conflito, pressa, timidez para falar, falta de sono, falta de descanso e relaxamento
adequados, dieta inadequada, uso de cafeína e a compulsão de controlar ou administrar o Universo.
Onde foi que ouvimos isso antes?
O Dr. Archibald Hart sugere que “a percepção de que um nível reduzido de estresse vai restaurar
seus tranquilizantes naturais abre a porta para a recuperação. [...] Você tem que assumir a
responsabilidade de reduzir seu nível de estresse a fim de curar sua ansiedade”.6 Repita comigo:
Temos que assumir a responsabilidade de reduzir nosso nível de estresse a fim de curar nossa
ansiedade.
Hart descreve o estresse de três maneiras simples: Estresse é ser esticado além dos nossos limites.
Estresse é esticar-nos demasiadamente sem tempo adequado para recuperar-nos. Estresse é acreditar
que podemos fazer mais do que nossa estrutura humana pode suportar.7 Não sei o que se passa com
você, mas tenho sido indulgente em cada uma dessas atividades enganosas.
O Dr. Hart promove a aceitação de nossa própria fraqueza quando diz que muitos cristãos são
ignorantes a respeito de como as pressões que sentem por tentarem ser bons podem causar sérios
problemas de ansiedade. “Sermos bons baseando-nos em nossos próprios recursos é uma causa
perdida”, ele acrescenta.8
Um dos meus versos favoritos da Bíblia é o Salmo 121:4: “Eis que não tosquenejará nem dormirá o
guarda de Israel.” Saber que existe um Poder maior do que eu, que nunca cochila nem dorme, me
ajuda a deixar de lado minhas preocupações e a separar um tempo para descansar e relaxar.
Annie, uma mulher brilhante, era uma excelente professora. Ela apareceu em minha porta enquanto
seu filho estava em tratamento por causa de sua dependência química. A instituição onde ele estava
sendo tratado recomendou que ela procurasse The Bridge9 para tratar de seus problemas de
codependência, antes que seu filho voltasse para casa.
No processo de dar seu primeiro passo, Annie reconheceu que era tão viciada quanto seu filho –
ela era workahólica, perfeccionista e cuidadora compulsiva. Essa combinação de vícios a levou a se
martirizar a ponto de arruinar sua saúde, negligenciar os filhos e perder sua família. Mas ela havia
sido nomeada – duas vezes – a “Professora do Ano” na instituição educacional em que lecionava. A
disposição que Annie tinha de enfrentar suas dependências e codependências e de desenvolver um
programa de Doze Passos próprio foi uma tremenda fonte de inspiração e incentivo para seu filho em
seu processo de recuperação. Ela era uma mulher de grande fé e, por causa disso, estava pronta e
disposta a relaxar e confiar seu filho e a si mesma a Deus.

Permissão para estabelecer e manter limites


Muitos negaólicos passam seu poder pessoal para os outros. O medo de rejeição ou desaprovação
faz com que eles deixem outras pessoas controlá-los. Esse hábito pode tornar-se muito arraigado. O
tratamento da codependência pode ser requerido para que a pessoa se livre da mentalidade de
vítima. Os bons programas de tratamento incluem um treinamento em colocação de limites. Muitos
especialistas concordam que a autocapacitação é a chave para alcançar a tranquilidade e assim
sobreviver às devastações de longo prazo causadas pela ansiedade.

Permissão para dar fim aos conflitos


Depois do estresse, o conflito é o mais comum dos destruidores de nossos tranquilizantes naturais.
Ele aciona o mecanismo de lutar ou fugir que desencadeia a superprodução de adrenalina. Um
conflito contínuo, crônico pode ser extremamente prejudicial para o corpo e a alma. “Ou você
encontra uma solução que elimine o conflito, ou você sai da situação de conflito”, diz o Dr. Hart.10
Muitas pessoas têm conflitos não resolvidos, choques de personalidade e diferenças filosóficas
com outros. Quando você já tentou, por todos os meios disponíveis, mediar um conflito e nada
funcionou, não faz mal dar um basta à luta pelo poder e encarar o fato de que o problema não pode
ser resolvido. Não faz mal retirar-se da situação ou remover a situação de você mesmo. Não
arremesse sua cabeça contra uma parede por muito tempo. Seja bondoso consigo mesmo. Não faz mal
dar as costas e afastar-se de situações que desafiem as melhores soluções.
É de se esperar que isso não se torne um evento frequente. Certamente, se um padrão de conflito
pessoal repetido emerge em nossa vida, precisamos estar dispostos a olhar para aquilo que poderá
estar contribuindo para o ciclo repetitivo. O quarto passo é uma ferramenta maravilhosa para
desenvolver consciência própria e assumir a responsabilidade na parte que nos toca, quando existem
problemas de relacionamento. Mas até isso pode não resolver todos os conflitos, pois um
relacionamento será saudável apenas na medida em que cada parte esteja desejosa e disposta a torná-
lo saudável. Não faz mal aceitar a derrota. Ela faz parte da vida.

Permissão para renunciar àquela posição junto à Trindade


Sabendo o quão importante é diminuir o estresse e assim melhorar o funcionamento dos
tranquilizantes naturais do nosso corpo, realmente não temos outra opção a não ser renunciar àquela
posição na Trindade e deixar que o Deus da nossa compreensão faça aquilo que Ele faz melhor. Para
as pessoas que estão presas ao ciclo da preocupação e da ansiedade, deixar que Deus assuma o
controle pode ser um grande alívio. Mas muitos mártires são incapazes de passar o controle para
outro, pois a prática de controlar nossa própria vida e a dos outros já se tornou um hábito muito
arraigado. Ficaríamos entediados se não tivéssemos que controlar o Universo inteiro.
As pessoas que querem parar de fazer o papel de Deus, mas que não conseguem abrir mão do
controle, podem achar ajuda em grupos especializados. Alguns tratam do hábito do controle
compulsivo e do microgerenciamento. É o jardim da infância para uma separação saudável.
Se você tem assumido o papel de Deus, se vem tentando ser o salvador de alguém e simplesmente
não consegue parar com isso, corra – não caminhe – até o grupo especializado mais próximo. Um
grupo assim pode ser uma grande bênção para qualquer um que esteja preso a um padrão obsessivo
de cuidado dos outros, controle, preocupação e martírio. Ele vai ajudá-lo a lidar com pessoas e
circunstâncias fora do controle. E, melhor que tudo, vai ajudá-lo a manter o foco em sua própria
sobriedade, serenidade e salvação, em vez dos outros.
Deus realmente não precisa de nossa ajuda.

Esperança Para Hoje


Quando eu estava internada em uma instituição hospitalar, há 22 anos, logo depois do meu primeiro
assalto contra a ansiedade e a depressão, conheci uma mulher que me ensinou uma lição muito
valiosa. Estou certa de que ela não fazia a menor ideia do que tinha feito. Ela não era uma
conselheira; era uma das pacientes, assim como eu. Um dia, ela se atreveu a responder uma pergunta
casual feita por outro paciente. Tão logo a resposta precipitada saiu de sua boca, ela colocou a mão
sobre os lábios e disse: “Espera aí. Eu não sou nenhum oráculo.” Esse exemplo de humildade
instantânea tem sido uma bênção para mim. Ele me deu permissão de parar de tentar ser a
conhecedora de tudo e a todo-poderosa – algo de que eu não era mesmo capaz. “Eu não sou nenhum
oráculo” tornou-se o meu slogan.

Autoanálise
1 . Se você foi criado em um ambiente fundamentalista, desenvolveu uma visão positiva sobre o próprio eu e também sobre um Deus
amistoso e afirmador? Ou você desenvolveu uma visão negativa sobre o próprio eu e sobre um Deus severo e reprovador? Você está
disposto a tratar dessas questões se necessário for?
2 . Pergunte a si mesmo o que pode fazer para criar um ambiente de baixo estresse e alto cuidado para si mesmo e sua família.
3 . Faça uma lista de todas as suas comissões e responsabilidades extracurriculares. De qual delas você está disposto a abrir mão?
4 . A fim de estabelecer limites, pratique dizer “não” em situações inconsequentes como, por exemplo, recusando amostras de comidas
oferecidas no supermercado. Tente dizer não na próxima vez que alguém lhe pedir um favor ou tentar convencê-lo a ser um voluntário
para algo que você não queira fazer.
5 . Ao fazer essas mudanças comportamentais, fale sobre seus sentimentos e lutas com um padrinho ou mentor. Comemore suas
vitórias.

1 Ver Carol Cannon, Never Good Enough, p. 24.


2 Ibid., p. 7.
3 Ver Mateus 19:19.
4 Archibald Hart, The Anxiety Cure (Nashville: Word Publishing, 1999), p. 13.
5 Ibid., p. 22.
6 Ibid., p. 31.
7 Ibid., p. 141.
8 Ibid., p. 13.
9 Fundado por Carol Cannon, autora deste livro, The Bridge to Recovery é um programa de tratamento psicoeducacional destinado a
pessoas que sofrem de codependência e de dependências limpas.
10 Hart, The Anxiety Cure, p. 97, 98.
E, tornando em si, disse […]: “Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai.” [...] E [o pai] lhe disse:
“Este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado.” E começaram a alegrar-
se.
Lucas 15:17, 18, 24

M eu nome é Carol. Sou uma viciada em infelicidade, workahólica, perfeccionista,


cuidadora, controladora e exagerada em tudo que realizo. Estou em recuperação. Um dia
desses, me vi espichada no estacionamento do condomínio em que moram meu filho e minha nora, em
Jamaica Plain, Massachussets, com a metade do meu corpo debaixo de um carro estacionado,
tentando pegar o Frisbee que meu neto acabara de jogar. Meus jeans estavam imundos, meus braços
estavam cansados e eu sentia dentro de mim uma gratidão e uma alegria das mais puras. Finalmente,
eu estava em casa, e levou-me apenas 65 anos para chegar ali. É para ali que os passos nos levam –
todos os doze. Para citar Martin Luther King Jr.: “Graças ao todo-poderoso Deus, finalmente estou
livre!”

Ocupando o meu corpo


Cheguei à conclusão de que sou um pouco lenta para aprender – e isso não faz mal algum. Aos oito
anos de idade, eu era muito rápida para aprender – rápida demais. Eu era uma criança super-
realizadora e por demais apressada. Perdi minha adolescência. Aos 22 anos, eu já havia entrado na
meia-idade. Agora, estamos quites.
Sabe, é até engraçado. Eu havia planejado convidar vários outros viciados em infelicidade em
recuperação que conheço para que compartilhassem suas histórias de sucesso neste capítulo, mas, em
vez disso, decidi contar a minha. O estilo AA de contar história que seguirei está baseado na
interação de Cristo com o homem a quem Ele curou de uma doença mental.1 O homem que foi curado
queria seguir Jesus até os confins da Terra, mas Jesus lhe disse que fosse para casa e contasse para
seus amigos como tinha sido sua vida pregressa, o que acontecera, e como era sua vida agora, depois
da cura.2 Decidi começar este capítulo (e terminar este tratado) contando rapidamente como tudo isso
foi para mim, o que aconteceu e como as coisas estão agora.

Celebrando minha imperfeição


Sou – e sempre fui – perfeitamente imperfeita. Como poderia ser outra coisa? O ambiente em que
vivi em minha juventude me programou para que eu tivesse expectativas fora da realidade quanto a
mim mesma e aos outros. Fui programada para me torturar com exigências impiedosas. Eu era minha
pior inimiga. Mas aquilo que criou a patologia acabou me levando à recuperação, e sou grata por
isso.
O Passo Cinco me aliviou da necessidade de ser perfeita, enquanto o Passo Dez permitiu que eu
celebrasse minha humanidade – cometer erros e corrigi-los, admitindo prontamente que eu estava
errada. Posso dizer honestamente que hoje, sinto-me confortável sendo humana. É muito bom não ter
de ser tão escrupulosa como eu era antes. É muito bom não ser constrangida a defender minha retidão
e minha justiça tão ferozmente como eu fazia antes. Posso dar um descanso para mim mesma e para
as pessoas ao meu redor, aliviando um bocado da pressão sobre mim e também sobre eles. Quer
saber o resultado? Estou me divertindo muito mais, e acho que eles também.

Aceitando minha humanidade


Os três primeiros passos me ensinaram que não sou Deus e que não tenho que ficar tentando
enxergar tudo, conhecer tudo e ainda ser a mais sábia dos mortais. Minha fé e meu relacionamento
com meu Poder Superior hoje são muito mais tranquilos do que antes.
Não é minha intenção desacreditar um dos meus personagens bíblicos favoritos, mas acontece que
eu acho que o apóstolo Paulo tinha uma personalidade típica de um dependente (ver Romanos 7:15-
24). Ele era totalmente engajado em ser tudo para todas as pessoas, além de participar de corridas e
lutar em batalhas.3 O grande Paulo era o meu herói. Nem preciso dizer que usei indevidamente seu
exemplo para justificar um bocado do meu comportamento extremo e doentio. A culpa não é de Deus.
Era eu quem tinha uma mentalidade dependente e codependente.
A autoaceitação – aceitar-me como um ser humano falível que não tem de ficar tentando ser Deus –
foi um dos despertamentos espirituais que me ocorreram quando eu estava a caminho do Passo Doze.
Uma grande parte do meu despertamento espiritual foi aceitar e desfrutar minha humanidade. Ficar
totalmente de bem comigo mesma e dependente de um poder maior que o meu para o bem da minha
saúde e salvação tem sido tanto a jornada quanto o destino para mim.
Então, aos 65 anos de idade, estou dentro do programado. Nos últimos 35 anos, tenho dito para
4.500 clientes que eles estão dentro do programado, mas eu mesma não tinha certeza de que eu
também estava. Tive que me dar uns cascudos de vez em quando por ser tão retardada. E quer saber?
Estou bem dentro do programado. Estou entrando no oitavo estágio do desenvolvimento humano4 e
desfrutando do resultado pelo qual esperava – contentamento genuíno e paz de espírito.
Há uma outra alternativa menos desejável para os efeitos desse estágio, o qual eu esperava evitar.
Essa outra opção é a amargura e o remorso. Não soa como a síndrome da infelicidade e do martírio?
Acredito sinceramente que os Doze Passos me ajudaram a passar de largo, permitindo que eu
experimentasse o efeito mais positivo. A esta altura, estou anelando pela velhice, a qual não deve
chegar antes de uns 20 anos.
Antes de começar minha jornada para a cura, eu me autocastigaria com críticas por demorar tanto
para progredir até o ponto em que estou agora. E daí? Leve o tempo que precisar. Estou muito bem,
obrigada.

Ocupando minha vida e meus relacionamentos


Estar presente por inteiro em meus relacionamentos tem sido um desafio para mim, porque ninguém
me ensinou como fazer isso. Nunca tive muita certeza de como é sair com as pessoas. Sei como
cuidar delas, sei como endireitá-las, sei como resgatá-las e como fazer com que se sintam bem
consigo mesmas. Sei como me preocupar com elas e como me desgastar na tentativa de “salvá-​las”.
Sei como ficar obcecada a respeito delas e como me martirizar por causa delas. Mas não sei como
sair com elas. De fato, sempre invejei as pessoas com essa capacidade. Tenho um casal de amigos
para quem tanto os relacionamentos casuais como os mais chegados parecem ocorrer com a maior
naturalidade. Com a ajuda deles, estou aprendendo.
Ocupando minha alma e espírito
Estou conformada com o fato de ter crescido em um ambiente problemático, o qual me deixou
emocionalmente subnutrida e por demais estressada. Eu era uma criança imatura e desanimada dentro
de um corpo adulto, o qual cresceu antes do tempo. Fiquei desgastada emocionalmente por ser adulta
antes mesmo de me ter tornado uma, em termos cronológicos.
O fato de ter sido nutrida em grupos de Doze Passos e de praticar os passos como estilo de vida
me ajudaram a voltar atrás e dar os nós que faltavam. Isso me permitiu crescer de modo mais gradual
e mais graciosamente do que, de outro modo, teria sido. Nunca é tarde demais para ter uma infância
feliz!
Sou eternamente grata pelo programa de desenvolvimento do caráter chamado Doze Passos e pela
madrinha do Al-Anon que Deus me concedeu – uma madrinha que baseia seu programa na literatura
dos AA. Minha maior esperança para todos os viciados em infelicidade em recuperação é que
possam encontrar um padrinho/madrinha e mentor/mentora como eu encontrei. Tina tem sido uma
maravilhosa guia espiritual em minha jornada.
Certa manhã, eu estava sentada em volta de uma mesa numa reunião do Al-Anon, perguntando-me
por que estar ali era uma bênção tão grande. De repente, percebi que o que estava acontecendo
naquela sala era o mesmo que acontece quando famílias saudáveis se sentam em volta da mesa de
jantar para uma refeição tranquila, cada um desfrutando da companhia do outro. Ninguém é forçado a
comer um prato que não aprecia; não há brigas, nem silêncios gelados, nem violência verbal, nem
comentários laterais passivos-agressivos, nem pratos de espaguete voando pela sala, nem controle ou
conselhos não solicitados. Apenas um simples e gentil convívio; apenas um membro da família
perguntando para o outro: “O que está acontecendo com você? Como você está se sentindo com
isso?”
Humm, minha reunião no Al-Anon é assim – e eu me sinto maravilhosamente bem. O ambiente é
cálido, saudável, amoroso e seguro. As pessoas se preocupam com você. Sempre tenho vontade de
voltar. Isso é conhecido nos círculos dos Doze Passos como o princípio da atração, em vez de
promoção. Obrigada, meu Deus. Por favor, me ajuda a tornar minha igreja mais parecida com o Al-
Anon.
Com a ajuda de Deus e das comunidades dos Doze Passos, meu espírito tem sido revitalizado; a
criança ferida dentro de mim cresceu e floresceu. Não fico mais deprimida, sem coragem ou
desanimada. Estou repleta de admiração e gratidão. Desfruto de maior autoconsciência e de maior
consciência sobre Deus. Hoje, posso ter uma conexão mais íntima comigo mesma, com o Deus da
minha compreensão e com os outros. Para mim, essa é a essência da espiritualidade.

Vivendo no momento
A experiência de estar aqui e agora, neste exato momento, era estranha para mim. Eu era dominada
pelo passado, orientada para o futuro e ausente do hoje. Estava sempre preocupada. Estava em casa,
mas com as luzes apagadas. Repito: a experiência de viver os Doze Passos tem sido a chave para que
eu esteja presente no momento.
Talvez o marco mais significativo de toda a jornada com os programas de Doze Passos seja isso:
estou fazendo este relato – contando minha história à medida que ela flui. Será a primeira vez em
minha vida que escrevo algo e não critico, edito, sublinho em vermelho, reescrevo, reescrevo e
reescrevo, preocupada com a maneira que o texto será recebido. Você vai lê-lo do jeito que escrevi
da primeira vez.

Celebrando a mim mesma


Jesus disse para seres humanos falíveis como eu para ir e não pecar mais. Não é uma notícia
excelente? É isso que escuto em Suas palavras: “Filhinha, você não precisa ser infeliz por conta dos
erros passados, nem do que outras pessoas pensam de você, nem se os seus queridos agem de
maneira certa ou errada e nem mesmo se Deus está feliz ou não com você. Ele está. Você está bem.
Agora, vá celebrar sua humanidade. Ame a si mesma como eu amo você. Divirta-se. Estarei com
você o tempo todo.”
No fim das contas, recuperação é tornar-nos crianças outra vez. É voltar a ter a pureza e a
inocência que possuíamos no começo. É recuperar o “eu” como ele tinha que ser, descobrindo – e
redescobrindo – Deus como Ele realmente é, aprendendo a amar a nós mesmos como se fôssemos
amados primeiro. Você gostaria de juntar-se a mim e a milhares de outras pessoas na jornada de
Doze Passos rumo à plenitude, felicidade e paz?

1 Ver Marcos 5:1-18.


2 Ver Marcos 5:19.
3 Ver 1 Coríntios 9:22-27.
4 Ver Apêndice E.
20 Perguntas Para Negaólatras
1. De manhã, quando você acorda, seus primeiros pensamentos são pessimistas?
2. Se alguém diz: “Bom-dia”, você pensa “O que pode haver de bom neste dia?”
3. Você frequentemente se sente inferior aos outros?
4. Você acha necessário reclamar com amigos, familiares e até com estranhos sobre pequenos
aborrecimentos de sua vida?
5. Quando você entra em uma sala, repara imediatamente no que há de negativo ali – as falhas na
decoração ou a poeira no parapeito da janela?
6. Quando conhece novas pessoas, você imediatamente repara nos traços negativos delas?
7. Você começa a maioria das suas conversas com reclamações?
8. Você tem uma coleção de ressentimentos contra pessoas e instituições?
9. Ao falar sobre os traumas da sua vida, você inclui mais detalhes do que é necessário, ou então
exagera para impressionar o ouvinte?
10. Você dedica a pessoas e instituições mais tempo, energia e dinheiro do que pode arcar?
11. Você não consegue apresentar seus direitos em seus relacionamentos por não querer ferir ou
ofender os outros?
12. Você hesita em declarar suas preferências aos amigos e familiares e depois alega que eles não
têm consideração para com você quando não suprem suas necessidades?
13. Você aceita comportamentos inaceitáveis e tolera o intolerável?
14. Você duvida da sinceridade das pessoas?
15. Você se compara com os outros de modo desfavorável?
16. Você convida as pessoas para se aproveitarem de você?
17. Você tem uma necessidade intensa de simpatia e atenção?
18. Você já desejou poder parar de pensar de maneira tão crítica a respeito de si mesmo e dos
outros?
19. Você já tentou seriamente ser mais otimista?
20. Quando não conseguiu, você tentou outra vez e com mais empenho?
Uma Lista Exaustiva (e Exaustante) de Coisas Para Deixá-lo
Preocupado ou Infeliz
Antes de Levantar
1 . O meu cansaço.
2 . Como vou fazer tudo o que preciso fazer no dia de hoje.
3 . Coisas vergonhosas que eu disse ou fiz ontem (ou no mês passado, ou no ano passado).
4 . Coisas enlouquecedoras que outras pessoas disseram ou fizeram ontem (ou no mês passado, ou no ano passado).
5 . Problemas que poderão ocorrer hoje.
6 . O futuro em geral.
7 . Qualquer coisa – seja o que for – que eu possa encontrar para ficar obcecado.
8 . Minha vida amorosa (ou a falta dela).

Depois de Levantar
1 . Meu cabelo ou o meu corpo.
2 . Minhas roupas.
3 . As circunstâncias da minha vida.
4 . Minhas finanças.
5 . Minha dieta ou minha saúde.
6 . Meu trabalho.
7 . Fazer tudo o que está em minha agenda.
8 . O comportamento do meu cônjuge ou filhos.
9 . Coisas que eles ainda não fizeram, mas é provável que façam.
1 0. Minha vida amorosa (ou a falta dela).

Durante o Dia
1 . O que as pessoas pensam de mim.
2 . O que as pessoas falam de mim.
3 . A meteorologia.
4 . Meus pais, cônjuge ou filhos.
5 . A política ou os eventos atuais.
6 . Minhas contas.
7 . Fazer todos felizes.
8 . Fracassar na tentativa de fazer todos felizes.
9 . Tomar uma decisão errada.
1 0. Tomar uma decisão certa.
1 1. Tomar uma decisão.
1 2. Deixar alguém zangado ou aborrecido.
1 3. Ferir os sentimentos de alguém.
1 4. Tédio.
1 5. Medo do sucesso ou do fracasso.
1 6. Medo de viver ou de morrer.
1 7. Minhas falhas e as dos outros.
1 8. Minha vida amorosa (ou a falta dela).
Na Hora de Deitar
1 . Minha vida amorosa (ou a falta dela)
2 . Solidão.
3 . Se vou ter ou não uma boa noite de sono.
4 . Se vou ter ou não sonhos maus.
5 . Como vou me sentir ao despertar.
6 . Como lidar com os problemas de amanhã.
7 . Se serei ou não reprovado ou rejeitado ou abandonado por alguém amanhã.
8 . Se serei ou não um bom cristão, pai, cônjuge, empregado, etc.
9 . Se tenho ou não importância.
1 0. Se vou ou não morrer antes de acordar.
1 1. Se vou ou não continuar vivo depois de despertar.
1 2. Como serei lembrado depois de morrer.
1 3. Se serei salvo ou não.
1 4. Se Deus pode ou não lidar realmente com as coisas (como minha sobriedade, minha salvação, ou a sobriedade e a salvação dos
meus queridos).
Uma Pequena Lista de Comportamento de Mártires
Você pode ser um viciado em infelicidade se...
usa terminologia negativa para descrever eventos neutros;
pensa no futuro em termos dos piores cenários possíveis;
fica “alto” por falar para as pessoas sobre quão mal o seu chefe, seu cônjuge ou os seus filhos o
tratam;
prefere queixar-se a confrontar;
choraminga em vez de usar sua raiva para se energizar e partir para a ação;
tem memorizada sua lista de queixas;
muitas vezes se afasta de um conflito quando falta pouco para resolvê-lo;
se sente aprisionado e acha que não tem escolhas;
tudo o que tenta está fadado ao fracasso;
justifica seus erros com base nos erros de outras pessoas;
não consegue ver seus próprios defeitos de caráter por estar obcecado pelos defeitos de outra
pessoa;
abre as portas para que as pessoas se aproveitem de você e, depois, fica ressentido;
abre as portas para os lobos (os predadores) e, depois, se queixa por estar sendo explorado;
explora os exploradores, usando-os para que eles abusem de você;
usa a falta de tempo e dinheiro como razão para não buscar ajuda, quando sua vida está
desmoronando;
acha que cuidar de si mesmo é ser egoísta.

Há uma boa chance de você ser um mártir se...


tem uma inclinação de se focalizar naquilo que poderia ter ocorrido,
exibe uma expressão de dor em seu rosto;
usa linguagem não verbal para comunicar suas necessidades, em vez de pedir o que quer;
fala de suas preocupações quase com amor;
economiza elogios e até desqualifica as pessoas que tentam afirmar você;
responde a insultos com um “muito obrigado”;
seu hino favorito é “A cruz que me deu para eu levar...”;
fica mais animado quando descreve como foi maltratado;
mostra o seu melhor quando está administrando uma crise;
transformou a guarda de ressentimentos na principal obra de sua vida;
fica adiando ligar para o seu médico quando está doente, até chegar a hora de chamar a funerária;
tem dificuldade para relaxar e divertir-se;
se sacrifica mais do que qualquer outra pessoa.
Como Distinguir Entre a Abstinência e o Vício
“Vício” “Abstinência”
(tomar o primeiro trago) (pôr a rolha na garrafa)
1. Colocar-me para baixo.
2. Colocar-me em uma posição
inferior (em deferência a outros).
3. Choramingar, reclamar, agir como
um desamparado.
4. Ler a mente dos outros e presumir 1. Deixar passar uma oportunidade de reclamar.
insultos. 2. Abster-me da análise obsessiva.
5. Personalizar, internalizar os 3. Deixar que Deus tome o controle, seguindo boas
comentários das pessoas. orientações.
6. Manipular para conseguir atenção, 4. Escolher uma interpretação positiva em vez de negativa
em vez de pedir diretamente. (dar para alguém o benefício da dúvida quando as
7. Isolar-me, deixando de pedir probabilidades forem de 50%).
aquilo que preciso quando me sinto 5. Manter limites.
magoado ou solitário. 6. Pedir diretamente e no momento certo aquilo que quero e
8. Não pedir esclarecimentos quando preciso.
ofendido. 7. Não permitir que os ressentimentos se acumulem.
9. Permanecer preso à indecisão por 8. “Cair na real” regularmente, especialmente quando tiver
não querer cometer um erro. uma reação negativa.
10. Imaginar as coisas piores do que 9. Abster-me de criticar e de questionar as pessoas.
são na realidade. 10. Dar-me um tapinha de reconhecimento nas costas,
11. Ficar amuado. quando merecer.
12. Ferir e negligenciar a mim 11. Aceitar a mim mesmo e passar a aprovação
mesmo. incondicional de Deus para o mais profundo do meu ser.
13. Fazer críticas a mim mesmo, 12. Ser decisivo e dispor-se a correr o risco de cometer um
causando-me vergonha. erro.
14. Manifestar uma atitude de 13. Não sentir culpa por estar me sentindo bem.
desamparo. 14. Permitir que eu me divirta.
15. Desistir antes de começar, 15. Permitir que eu relaxe um pouco.
sabotar meu sucesso. 16. Ficar de bem comigo mesmo, em vez de basear minha
16. Buscar a simpatia dos outros. autoestima e meu valor naquilo que faço.
17. Desculpar-se demais e
abertamente.
18. Passar uma imagem diminuída de
mim mesmo.
Os Oito Estágios do Desenvolvimento Humano

(Erik Erickson)
Estágio de
Idade Lição Básica
Desenvolvimento1
1. Bebê 0-1½ Confiar X desconfiar
2. Primeira infância 1½-3 Autonomia X vergonha e dúvida
3. Pré-escola 3-5 Iniciativa X culpa
4. Idade escolar 5-12 Diligência X inferioridade
5. Adolescência 12-18 Identidade X confusão de identidade
6. Juventude 18-24 Intimidade X isolamento
7. Fase adulta 24-65 Generatividade X estagnação
8. Senilidade 65 + Integridade do ego X desespero
Como Lidar com Queixosos Crônicos
1 . Nunca pergunte para um negaólatra como ele está se sentindo.
2 . Não concorde nem discorde de suas queixas.
3 . Não invalide os sentimentos deles.
4 . Não tente arrazoar com eles, nem animá-los.
5 . Não dê sugestões nem conselhos.
6 . Pergunte se há alguma coisa específica que eles gostariam que você fizesse. Isso pode ajudá-los a manter o foco.
7 . Não pegue a bola só para sair correndo com ela.
8 . Ouça e demonstre sincera empatia. Diga algo como: “Acho isso terrível.” “Não sei como você lida com todos esses problemas.”
“Sinto muito que isso esteja acontecendo.” Continue ouvindo sem fazer nenhum outro comentário e peça licença para sair dali o mais
rápido possível.
9 . Se por acaso eles disserem algo positivo, reforce ou recompense aquele comportamento. Deixe que eles saibam que você aprecia
estar perto deles quando manifestam uma atitude positiva.
1 0. Não se queixe dos queixosos para seus outros amigos.

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