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SAGRAÇÃO EPISCOPAL

EM CAMPOS

“Operação:
Sobrevivência Da Tradição”

Um Bispo

Para os Católicos Fiéis à Tradição

No Brasil

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Introdução
A crise atual extraordinária por que passa a Santa Igreja Católica gera uma situação
completamente anormal que justifica um direito de necessidade, o qual, por sua vez, não só
permite como nos obriga, na proporção do nosso estado a deveres e atitudes extraordinárias,
que de modo algum se fariam em situações normais. “Quod non est licitum in lege, necessitas
facit licitum” diz o adágio da jurisprudência.
Destarte, o perigo gravíssimo que tal situação engendra para a salvação das almas, a
razão da existência da Igreja e de sua hierarquia, aciona, por assim dizer, dispositivos canônicos
que justificam, jurídica e moralmente, a desobediência a certas leis disciplinares e particulares,
por obediência à suprema lei da Igreja, a salvação das almas.
Está neste caso a sagração de um bispo fiel à tradição da Igreja, para Campos e o Brasil,
mesmo contra a vontade de S.S. João Paulo II, que infelizmente apoia o progressismo, mas
perfeitamente de acordo com a suprema lei da Igreja do próprio Papa, inclusive o atual, que
quer, e não pode deixar de querer, a salvação das almas.
Não nos move absolutamente a revolta, o espírito de cisma ou rebelião contra a
autoridade, mas única e exclusivamente o amor da Santa Igreja e das almas, finalidade do nosso
sacerdócio.
Sabemos que nos custará caro esta grave atitude, como já nos tem custado muitos
dissabores, injúrias e perseguições a nossa fidelidade à tradição da Santa Igreja. Mas Nosso
Senhor, na sua bondade, já nos prevenira disso: “Eu disse-vos estas coisas, para que vos não
escandalizeis. Lançar-vos-ão fora da Sinagogas (= atualmente, das igrejas oficiais, pois a Sinagoga
representava a religião oficial daquele tempo); e virá tempo em que todo o que vos matar,
julgará prestar serviço a Deus... Ora, eu disse-vos estas coisas, para que quando chegar esse
tempo, vos lembreis de que Eu vo-las disse. Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa
recompensa nos céus, pois (também) assim perseguiram os profetas que existiram antes de vós”
(Jo 16, 1-4 e Mt 5, 12).
Por tudo isso, foi só depois de muita oração, estudos teológicos, históricos e canônicos,
consultas a pessoas sábias e prudentes, reflexão séria diante de Deus, que tomamos esta
resolução. É preciso ter coragem de tirar as consequências lógicas dos princípios assentados, e
de agir conforme elas, com atitudes proporcionais às necessidades.
No conflito entre a Fé e a obediência, a primeira é que deve ser preferida, conforme nos
ensina a Santa Igreja de modo infalível, pois ela nunca canonizou santo algum que tenha
ensinado ou admitido, sem voltar atrás, a menor coisa contra a Fé, mas já colocou no número
dos santos pessoas que “desobedeceram” às autoridades, mesmo às supremas, para
conservarem a sua Fé.
Dom Próspero Guéranger, na sua célebre obra “L’Année Liturgique”, ao comentar a
festa de São Cirilo de Alexandria (9 de fevereiro), fala da resistência às autoridades por causa da
Fé e dá o princípio geral: “Quando o Pastor muda-se em lobo, pertence, em primeiro lugar, ao
rebanho defender-se. Normalmente, sem dúvida, a doutrina desce dos bispos ao povo fiel, e os
súditos, nas coisas da Fé, não devem julgar seus Chefes. Há, porém, no tesouro da Revelação,
pontos essenciais cujo conhecimento necessário e guarda vigilante todo cristão deve possuir,
em virtude de seu título de cristão. O princípio não muda, quer se trate de crença ou
procedimento, de moral ou de dogma. Traições como a de Nestório são raras na Igreja; não
assim o silêncio de certos pastores que, por uma ou outra causa, não ousam falar, quando a
Religião está engajada. Os verdadeiros fiéis são os homens que extraem de seu Batismo, em tais
circunstâncias, a inspiração de uma linha de conduta; não os pusilânimes que, sob pretexto

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especioso de submissão aos poderes estabelecidos, esperam, para afugentar o inimigo, ou para
se opor a suas empresas, um programa que não é necessário, que não lhes deve ser dado”.
Gostaríamos de deixar aqui consignada a nossa profunda gratidão à Fraternidade
Sacerdotal São Pio X, à qual estamos ligados por uma estreita amizade fraterna e unidos na
mesma Fé e no mesmo combate pela Santa Igreja, especialmente ao seu Superior Geral, o Pe.
Franz Schmidberger, e aos seus quatros bispos, S. Exa. D. Bernard Tissier de Mallerais, S. Exa. D.
Richard Williamson, S. Exa. D. Alfonso de Galarreta e S. Exa. D. Bernard Fellay, e a todos os
confrades, ao Pe. François Pivert com sua obra “Des Sacres par Mgr. Lefebvre... um schisme?”,
ao Pe. Gérard Mura com sua esclarecedora conferência sobre as Sagrações de 30 de junho, no
Seminário Santo Cura d’Ars de Flavigny (julho/1990) e, com menção especial, ao ilustre Doutor
em Direito Canônico Pe. Louis Coache, aos Dominicanos da Fraternidade São Domingos de
Bonshommes e ao Beneditinos do nosso Mosteiro da Santa Cruz. A todos estes, que, com seus
escritos, ideias, observações, apoio e conselhos, muito contribuíram com este opúsculo, nossos
agradecimentos e orações.
Este trabalho, que ora apresentamos, não evidentemente uma obra teológica, mas uma
compilação prática e popular de observações e argumentos simples tirados da teologia, do
Direito Canônico, da História da Igreja e do bom senso, calçado em inúmeras citações de Papas,
Santos, Teólogos e Canonistas, para dissipar hesitações, esclarecer consciências dos fiéis,
responder a objeções e servir de base para maiores explanações e estudos.
Possa esse nosso humilde trabalho servir de modesta contribuição e ajuda a todos os
que lutam pela restauração da Santa Igreja.
A Nossa Senhora, Rainha dos Sacerdotes, Mãe da Santa Igreja e Auxílio dos Cristãos,
confiamos o nosso combate e a nossa perseverança.
SACERDOTES DA UNIÃO SACERDOTAL SÃO JOÃO BATISTA MARIA VIANNEY
DOS PADRES DA DIOCESE DE CAMPOS, BRASIL, FIÉIS À TRADIÇÃO DA SANTA IGREJA.

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SUMÁRIO

PRIMEIRA PARTE
NOSSA POSIÇÃO DOUTRINÁRIA ....................................................................................... 5

SEGUNDA PARTE
RECORDANDO PRINCÍPIOS SOBRE A OBEDIÊNCIA E A RESISTÊNCIA ............................... 7

TERCEIRA PARTE
RAZÕES TEOLÓGICAS E JURÍDICAS .................................................................................. 9
CAPÍTULO 1 - A NECESSIDADE DO BISPO NA IGREJA CATÓLICA ...................................... 9
CAPÍTULO 2 - O DIREITO (E O DEVER) DOS FIÉIS À AUTÊNTICA DOUTRINA CATÓLICA E
AOS VERDADEIROS SACRAMENTOS ........................................................ 10
CAPÍTULO 3 - A HIERARQUIA À SERVIÇO DAS ALMAS .................................................... 10
CAPÍTULO 4 - E EM CASO DE CONFLITO? ........................................................................ 10
CAPÍTULO 5 - ESTADO DE NECESSIDADE – DIREITO DE NECESSIDADE ........................... 11
CAPÍTULO 6 - DIREITOS E DEVERES EXTRAORDINÁRIOS NO ESTADO DE NECESSIDADE 12
CAPÍTULO 7 - EXEMPLOS HISTÓRICOS ........................................................................... 13
CAPÍTULO 8 - A CRISE ATUAL – SITUAÇÃO EXTRAORDINÁRIA DA IGREJA ...................... 16
CAPÍTULO 9 - CASO DA NECESSIDADE ESPECÍFICA: BREVE RELATO HISTÓRICO E
ESTATÍSTICO DA DIOCESE DE CAMPOS ................................................. 17
CAPÍTULO 10 - SAGRAÇÃO EPISCOPAL CONTRA A VONTADE DO PAPA? ....................... 20
CAPÍTULO 11 - E O CISMA? ............................................................................................. 23
CAPÍTULO 12 - E A EXCOMUNHÃO? ............................................................................... 26
CAPÍTULO 13 - E O ACORDO? ......................................................................................... 29
CAPÍTULO 14 - A JURISDIÇÃO DO NOVO BISPO .............................................................. 30

APÊNDICES: DOCUMENTOS
CARTAS DE S. EXA. DOM MARCEL LEFEBVRE .................................................................. 33
CARTAS À SANTA SÉ E DECLARAÇÕES - HÁ VINTE ANOS... ............................................. 36
CARTA DOS PADRES DA DIOCESE DE CAMPOS À S.S. O PAPA JOÃO PAULO II ............... 41
ABAIXO-ASSINADO DOS FIÉIS ........................................................................................ 44

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Primeira Parte

Nossa Posição Doutrinária

“A VERDADE É UMA E INDIVISÍVEL ETERNAMENTE A MESMA E NÃO


SE SUBMETE AOS CAPRICHOS DOS TEMPOS”
- SÃO PIO X -
(ENCÍCLICA IUCUNDAE SANAE)

Profissão de Fé Católica
CREMOS FIRMEMENTE em tudo o que crê e ensina a Santa Madre Igreja Católica,
Apostólica, Romana, e nesta Fé queremos viver e morrer, porque só nesta Igreja se honra a Deus
e se encontra a salvação.
CREMOS que Jesus Cristo fundou um só Igreja, a Igreja Católica, hierárquica, cujos chefes
são o Papa e os Bispos em união com o Papa, e cuja finalidade é fazer chegar aos homens de
todas as idades a salvação alcançada por Jesus Cristo e todos os benefícios que dela dimanam,
difundindo assim na terra o Reinado de Nosso Senhor (Mt 28, 19-20). Para tanto, a Igreja não
prega uma “nova doutrina”, mas, com a assistência do Divino Espírito Santo, conserva
santamente e expõe fielmente o Depósito da Fé, recebido dos Apóstolos (Concílio Vaticano I).
PROFESSAMOS perfeita comunhão com a Cátedra de Pedro, de cujo legítimo sucessor
reconhecemos o Primado e o governo sobre a Igreja Universal, Pastores e fiéis, e, por nada deste
mundo, nos dissociaremos da Pedra, sobre a qual Jesus Cristo fundou a sua Igreja.
CREMOS firmemente na infalibilidade pontifícia, como a definiu o Concílio Vaticano I.
Acatamos o poder do Santo Padre o Papa, que é supremo mas não absoluto, nem sem limites.
Este poder é limitado pela Sagrada Escritura, Tradição e definições já proferidas pela Igreja no
seu Magistério perene, ao qual está subordinado e não pode contradizer; não é arbitrário nem
despótico de maneira a dever ser obedecido incondicionalmente ou a eximir os súditos de
responsabilidade pessoal. Obediência incondicional e ilimitada só a Deus devemos.
SOMOS CATÓLICOS, APOSTÓLICOS, ROMANOS, e o seremos, com a graça de Deus, até
a morte, pois nenhum poder ou autoridade nos afastará da Santa Igreja.
PROFESSAMOS a Fé católica inteira e totalmente, tal qual ela foi professada e
transmitida fiel e exatamente pela Igreja, pelos Soberanos Pontífices, pelos Concílios, em
perfeita continuidade e homogeneidade, sem excetuar um só artigo.
REJEITAMOS E ANATEMATIZAMOS, com a mesma firmeza, tudo o que foi rejeitado e
anatematizado pela Santa Igreja.
COM TODOS OS PAPAS, condenamos a heresia e tudo aquilo que a favorece:
condenamos especialmente o protestantismo, o liberalismo, o espiritismo, o naturalismo, o
racionalismo, o modernismo, sob todas as suas formas e matizes, como os Papas condenaram.

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Igualmente REJEITAMOS com os Papas, como eles rejeitaram, todas as consequências
desses erros.
Por essa razão, CONDENAMOS a atual heresia, que leva o nome de “PROGRESSISMO”,
nome aliás impróprio, porque ela nada mais é do que a repetição de erros de há muito já
condenados pela Santa Igreja.
Por isso ACEITAMOS à risca a frase de São Paulo: “Ainda que nós mesmos ou um anjo
do céu vos anuncie um Evangelho diferente daquele que vos temos anunciado, seja anátema”
(Gal. 1, 8).
Assim, as orientações, ainda que procedentes de pessoas autorizadas, quaisquer que
sejam, que se opõem à doutrina católica tradicional, tal qual foi exposta até hoje, e deixam livre
curso aos erros que os Papas e os Concílios condenaram exigem de nossa consciência uma
FORMAL RECUSA.
AFIRMAMOS em consequência, que se alguma contradição se vier a manifestar entre o
que é ensinado hoje e o que ensina a Tradição, deve-se seguir o que foi SEMPRE ensinado POR
TODOS e EM TODA PARTE na Igreja, porque somente isso é verdadeira e propriamente católico
(São Vicente de Lerins – Common. Ench. Patr. 2168).
RENOVAMOS decididamente o juramento antimodernístico que fizemos antes da nossa
ordenação, pelo qual abraçamos e recebemos “todos e cada um dos ensinamentos definidos,
afirmados e declarados pelo Magistério Infalível da Igreja, principalmente aqueles pontos de
doutrina que se opõe diretamente aos erros deste tempo”... Assim sinceramente recebemos “a
doutrina da Fé transmitida dos Apóstolos pelos verdadeiros Padres até nós no mesmo sentido e
sempre na mesma orientação (eodem sensu eademque semper sententia)”; por isso rejeitamos
inteiramente “o herético ensinamento da evolução dos dogmas, passando de um sentido para
outro diferente do que a Igreja teve antes”.
DECLARAMOS, enfim, que a sagração de um Bispo para os fiéis da tradição no Brasil não
significa de nossa parte um ato de rebeldia, nem de desobediência, nem de contestação, nem
de cisma, nem de ruptura com a Igreja Católica, Apostólica, Romana ou com a Santa Sé, mas
constitui um ato de fidelidade e obediência à lei suprema da Igreja e do Papa, “a salvação das
almas”, que, devido ao gravíssimo e anormal estado de necessidade da Igreja, nos constrange,
para a sobrevivência da Tradição e do Sacerdócio católico, a deixar de cumprir, com muita dor
no coração, certas leis disciplinares inferiores.
Eis, pois, o que CREMOS e professamos: tudo o que crê e professa a Santa Igreja Católica,
porque Deus que revelou, e a Igreja, que ensina, por seu Magistério infalível, não podem
enganar-se nem enganar-nos.
ESPERAMOS, com firmeza, que dentro de pouco tempo a Igreja superará a crise atual
por que está passando, e, dissipadas as trevas da heresia, voltará a brilhar, como sempre brilhou,
qual um glorioso farol diante das nações: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela”
(Mt 16, 18).
AMAMOS do fundo do coração a nossa Mãe, a Santa Igreja Católica, Apostólica,
Romana, pela qual desejamos dar a nossa vida, se preciso for.

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Segunda Parte

Recordando Princípios Sobre a Obediência e a


Resistência

“É LÍCITO RESISTIR AO PONTÍFICE QUE TENTASSE DESTRUIR A


IGREJA. DIGO QUE É LÍCITO RESISTIR-LHE NÃO FAZENDO O QUE ORDENA E
IMPEDINDO A EXECUÇÃO DE SUA VONTADE”.
(SÃO ROBERTO BELARMINO, DE ROMANO PONTIFICE, Lib, II, c. 29).

PAPA LEÃO XIII: “Suponhamos, pois, uma prescrição dum poder qualquer que esteja em
desacordo com os princípios da reta razão ou com os interesses do bem público: não teria força
alguma de lei, porque não seria uma regra de justiça e afastaria os homens do bem, para o qual
a sociedade foi formada... Desde que falta o direito de mandar ou o mandato é contrário à razão,
à lei eterna, à autoridade de Deus, então é legítimo desobedecer aos homens a fim de obedecer
a Deus” (Encíclica “Libertas Praestantissimum”, nºs 12 e 15).
SÃO ROBERTO BELARMINO: “... Assim como é lícito resistir ao Pontífice que agride o
corpo, assim também é lícito resistir ao que agride as almas, ou que perturba a ordem civil, ou,
sobretudo, àquele que tentasse destruir a igreja. Digo que é lícito resistir-lhe não fazendo o que
ordena e impedindo a execução de sua vontade” (De Romano Pontifice, Lib, II, c. 29).
CAETANO: “Deve-se resistir em face ao Papa que publicamente destrói a Igreja”. “A
razão é que ele não tem poder para destruir a Igreja; portanto, se o faz, é lícito resistir-lhe.”
(citado por Vitória – Obras de Francisco Vitória, pp. 486-487).
CARDEAL JOURNET: “Quanto ao axioma “onde está o Papa está a Igreja”, vale quando
o Papa se comporta como Papa e Chefe da Igreja; em caso contrário, nem a Igreja está nele, nem
ele na Igreja (Caetano, II-II, 39, 1)” (L’Eglise du Verbe Incarné, vol. II, pp. 839-840).
SANTO IVO DE CHARTRES: “Não queremos privar as chaves principais da Igreja de seu
poder (... a menos que se afaste manifestamente da verdade evangélica)” (P.L. tom. 162, col.
240).
SUAREZ: “E deste segundo modo o Papa poderia ser cismático, caso não quisesse ter
com todo o corpo da Igreja a união e a conjunção devida, como seria (...) se quisesse subverter
todas as cerimônias eclesiásticas fundadas em tradição apostólica” (De Charitate, disp. XII, sect.
I, nº 2, pp. 733-734).
“Se (o Papa) baixar uma ordem contrária aos bons costumes, não se há de obedecer-
lhe; se tentar fazer algo manifestamente oposto à justiça e ao bem comum, será lícito resistir-
lhe (...)” (“De Fide”, dist. X, sect. VI, nº 16).
GUIDO DE VIENNE (futuro Papa Calixto II), SÃO GODOFREDO DE AMIENS, SANTO
HUGO DE GRENOBLE e outros bispos reunidos no Sínodo de Vienne (1112) enviaram ao Papa
Pascoal II as decisões que adotaram, escrevendo-lhe ainda: “Se, como absolutamente não
cremos, escolherdes uma outra via, e vos negardes a confirmar as decisões de nossa

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paternidade, valha-nos Deus, pois assim nos estareis afastando de vossa obediência” (citado por
Bouix, “Tract. De Papa”, tomo II, p. 650).
SANTO TOMÁS DE AQUINO: “Havendo perigo próximo para a Fé, os prelados devem ser
arguidos, até mesmo publicamente, pelos súditos” (Sum. Teol. II-II, XXXIII, 4, ad 2).
VI CONCÍLIO ECUMÊNICO: sobre as cartas do Papa Honório e do Patriarca Sérgio:
“Tendo verificado estarem elas em inteiro desacordo com os dogmas apostólicos e as definições
dos santos Concílios e de todos os Padres dignos de aprovação, e pelo contrário seguirem as
falsas doutrinas dos hereges, nós as rejeitamos de modo absoluto e as execramos como nocivas
às almas” (Denz. Sch. 550).
PAPA SÃO LEÃO II: “Anatematizamos (...) Honório (Papa) que não ilustrou esta Igreja
apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas permitiu, por uma traição sacrílega, que
fosse maculada a fé imaculada (...) e não extinguiu, como convinha à sua autoridade apostólica,
a chama incipiente da heresia, mas a fomentou por sua negligência” (Denz. Sch. 563 e 561).
PAPA ADRIANO II: “Honório foi anatematizado pelos Orientais; mas deve-se recordar
que foi acusado de heresia, único crime que torna legítima a resistência dos inferiores aos
superiores, bem como a rejeição de suas doutrinas perniciosas” (Alloc. III lect. in Conc. VIII, act.
VII – citado por Billot, Tract. “De Ecclesia Christi”, tom. I, p. 619).
CONCÍLIO VATICANO I: “O Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro
para que estes, sob a revelação do mesmo, pregassem uma nova doutrina; mas para que, sob a
sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente o depósito da Fé, ou seja, a
Revelação herdada dos Apóstolos” (Sess. IV, c. 4 – Denz. Sch. 3070).
DECLARAÇÃO COLETIVA DOS BISPOS ALEMÃES (fev. 1875): - PIO IX confirmou-a com
sua Suprema Autoridade Apostólica - “A opinião segundo a qual o Papa, “por força de sua
infalibilidade é um príncipe absolutíssimo”, supõe um conceito totalmente errôneo do dogma
da infalibilidade pontifícia. Assim como o Concílio Vaticano (I) anunciou em termos claros e
explícitos e é evidente pela própria natureza das coisas, essa infalibilidade se restringe no que é
próprio do Supremo Magistério Pontifício, o qual coincide com o âmbito do Magistério infalível
da própria Igreja e está ligado à doutrina contida nas Sagradas Escrituras e na Tradição, bem
como às definições já proferidas pelo Magistério Eclesiástico” (Denz. Sch. 3116).
“A Igreja Católica não é uma sociedade na qual é aceito aquele princípio imoral e
despótico pelo qual se ensina que a ordem do superior em qualquer caso exime (os súditos) da
responsabilidade pessoal” (Ibidem n. 3115).
CARDEAL JOURNET: “Nem sempre é exato dizer de maneira um pouco simplista: “onde
está o Papa está a Igreja”, ou “é necessário obedecer ao Papa sem restrições mesmo no âmbito
em que ele não é infalível”. Esta solução é mais fácil e mais cômoda. De fato, quando o Papa
aborda certos assuntos reformáveis, mesmo em união com um Concílio ele não pode engajar, e
de fato não engaja, a plenitude de sua Suprema Autoridade. Ele não é, portanto, Papa em toda
a extensão do sentido em que entendemos a fórmula: “onde está Pedro, está a Igreja”. Em
tempos tranquilos e serenos, isso não suscita nenhum problema especial. Em tempos de crise,
porém, a coisa já não é mais assim. É, portanto, perfeitamente concebível em certos momentos
difíceis, que um cristão que goze de particular clarividência, como Santo Atanásio no tempo do
Arianismo, se separe das opções oficiais feitas pela Hierarquia na sua maioria (...) Isso não
significa de modo algum que se separe da Igreja ou mesmo da comunhão com o Papado no
sentido mais misterioso e profundo da palavra, mesmo se em tal caso particular, esse papa
decretasse o contrário e pronunciasse uma excomunhão”. (Cit. em “L’Obéissance dans l’Eglise”
de Lucien Méroz – Ed. Martin Gay –Cf. Le Chardonet, jun/90).

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Terceira Parte

Razões Teológicas e Jurídicas

“EM RAZÃO DE IMPERIOSAS NECESSIDADES, NEM TUDO, EM


MOMENTOS CRÍTICOS ONDE CAMPEIA A HERESIA, SE FAZ EXATAMENTE
CONFORME O QUE SE ESTABELECEU EM TEMPOS DE PAZ. ORA, EIS
PRECISAMENTE O QUE O BEM-AVENTURADO ATANÁSIO E O MUITO SANTO
EUSÉBIO FIZERAM MANIFESTAMENTE: AMBOS IMPUSERAM AS MÃOS
FORA DOS LIMITES (DE SUA JURISDIÇÃO). AGORA TAMBÉM VÊ-SE QUE A
MESMA COISA SE PASSA NA HERESIA PRESENTE”.
(SÃO TEODORO ESTUDITA – ANO 759-826
Patrologia Graecae – Migne – T. XCIX – col 1645-48).

CAPÍTULO 1
A Necessidade do Bispo na IGREJA CATÓLICA

Ensina-nos o Catecismo que Nosso Senhor Jesus Cristo fundou a Igreja com a finalidade
de encaminhar os homens para o Céu.
E a Igreja nos encaminha para o Céu ensinando-nos as verdades de Fé e da Moral que
Jesus Cristo ensinou e dando-nos a graça por meio dos Sacramentos que Ele instituiu.
Ora, o ensino das verdades reveladas depende dos Bispos, que são os únicos autênticos
doutores da Fé: eles constituem a Igreja docente, a que ensina. Os padres não são senão
colaboradores dos Bispos; membros não da Igreja docente, mas da Igreja discente. Por isso, para
a transmissão da verdadeira doutrina de Cristo, são necessários Bispos.
Quanto aos Sacramentos, eles também dependem dos Bispos, porquanto somente o
Bispo tem poder de ordenar os padres, ministros dos outros Sacramentos.
O Episcopado é a plena participação no Sacerdócio de Jesus Cristo. Esta superabundante
participação, e somente ela, é de si comunicável, quer no mesmo grau, pela sagração de outro
Bispo, quer em graus inferiores, pela ordenação de padres e de diáconos.
Portanto, o Episcopado é essencialmente necessário para a salvação das almas e a
continuidade da Igreja.
Outrossim, o Espírito Santo confiou aos Bispos o governo da Igreja: “Spiritus Sanctus
posiit epíscopos regere Ecclesiam Dei” (Act. 20, 28). Eles têm de sua própria Sagração Episcopal
as graças necessárias para a organização do apostolado numa porção do rebanho de Nosso
Senhor.

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CAPÍTULO 2
O Direito (e o dever) dos Fiéis à Autêntica DOUTRINA CATÓLICA
e aos Verdadeiros SACRAMENTOS

Nosso Senhor estabeleceu como lei suprema ao homem a salvação eterna de sua alma,
o que supõe não só a obrigação de se salvar, como também o direito de cada fiel de receber os
meios de salvação. Este direito é lembrado no cânon 682 do Código de Direito Canônico (c. 213
do Novo Código): “Os leigos têm o direito de receber do Clero, conforme as regras da disciplina
eclesiástica, os bens espirituais e especialmente os socorros necessários à salvação”. Entre esses
socorros estão especialmente os Sacramentos e a instrução religiosa.
“Ide, ensinai a todos os povos, batizando-os... Quem crer e for batizado será salvo...” Foi
para isso, para a salvação dos homens que o Filho de Deus se encarnou. E esta lei da salvação,
divina e fundamental, imposta ao homem, gera deveres e direitos fundamentais, que não
admitem exceção alguma.
Por consequência, cada homem, e mais ainda, cada católico tem o dever e o direito de
receber a graça; portanto, os sacramentos, donde o direito de ter padres e de ter bispos
evidentemente fiéis a esta sua sagrada missão.

CAPÍTULO 3
A Hierarquia à Serviço das ALMAS

Nosso Senhor fundou sua Igreja hierárquica. E quis a Hierarquia para uma melhor
aplicação da lei fundamental, isto é, para melhor organizar a transmissão de sua doutrina e da
graça, por meio dos Sacramentos, e não para criar obstáculos a essa comunicação.
Portanto, a Hierarquia foi criada por Nosso Senhor para os Sacramentos e para as almas
e não as almas e os Sacramentos para ela.
A lei que nos obriga a passar pela Hierarquia, obedecer-lhe, é divina sim, mas
divinamente limitada pela sua própria função. É uma lei inferior e subordinada à sua finalidade,
que é o exercício do ministério: transmissão da verdadeira doutrina e dos sacramentos. Em caso
de conflito, aquela deverá ceder diante desta e não o inverso.

CAPÍTULO 4
E Em caso de Conflito?

E se os membros da Hierarquia, ao invés de cumprirem suas finalidade, forem contra ela


e prejudicarem a salvação das almas? Se, por uma terrível inversão das coisas, usarem seus
próprios cargos, as próprias leis eclesiásticas para prejudicarem as almas?
A Sagrada Escritura e a História da Igreja provam a possibilidade do fato:
Aarão, estabelecido Sumo Sacerdote diretamente por Deus, conduziu o povo eleito a
adorar o bezerro de ouro (Êxodo 32, 4). O Sumo Sacerdote Heli e seus filhos afastaram os fiéis

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do Sacrifício (I Reis II, 12 e XIII, 11). Os Sumos Sacerdotes Anás e Caifás e seus agentes afastaram
os judeus de Nosso Senhor e acabaram por crucifica-lo. São Pedro negou a Nosso Senhor. Mais
tarde ele se enganou de modo tão grave e prejudicial às almas que São Paulo foi obrigado a
“resistir-lhe em face porque merecia repreensão” (Gal II, 11).
O Papa Libério subscreveu uma fórmula duvidosa, semi-ariana e, por isso, encontrou a
resistência de Santo Atanásio; o Papa Virgílio, pela sua conduta inconstante e hesitante,
perturbou a Igreja e as almas; o Papa Honório I foi condenado pelo VI Concílio Ecumênico e por
um seu sucessor, São Leão II: “Anatematizamos Honório porque não ilustrou esta Igreja
Apostólica com a doutrina da Tradição Apostólica, mas permitiu, por uma traição sacrílega, que
fosse maculada a Fé imaculada” (Denz. 563). E os papas do século X, chamado “século de ferro”?
Sobre o tempo deles assim escreve o historiador B. Llorca: “Então a noite caiu sobre Roma, noite
tão escura e borrascosa como não passou outra igual a instituição divina da Igreja. Qualquer
outro império que não estivesse assistido por uma força sobrenatural se teria dissolvido em um
caos sob o desgoverno de chefes tão miseráveis, tão débeis e tão escravizados” (História
Eclesiástica, t. II). Mais ou menos o mesmo dizem os autores de Papas da Renascença: houve
Papas deste tempo que negligenciaram seus deveres para com as almas para se tornarem
mecenas da Renascença.
Em matéria doutrinal, Nosso Senhor conferiu à Hierarquia o carisma da infalibilidade,
mas só em alguns casos restritos, conforme definiu o Concílio Vaticano I. Nos outros demais
casos, ela goza de uma assistência do Espírito Santo, que não vai até à garantia contra o erro.
Nos tempos em que Nosso Senhor permite a infidelidade da Hierarquia, o que
normalmente não deveria acontecer, mas que já ocorreu várias vezes, nestes tempos
calamitosos, configura-se o caso de necessidade e anormalidade que imporá direitos e deveres
extraordinários aos leigos, padres e bispos.

CAPÍTULO 5
Estado de Necessidade – Direito de Necessidade

Segundo os canonistas, “necessidade é a circunstância que torna impossível a


observância da lei” (Dom Oscar de Oliveira, “De delictis et Poenis” pag. 36).
Esta é a “Regula juris”: “Quod non est licitum in lege necessitas facit licitum” (o que não
é lícito na lei, a necessidade o torna lícito) ou “necessitas caret lege” (a necessidade está isenta
da lei).
“Este princípio, continua Dom Oscar, vale para a lei humana; algumas vezes também
para a lei divino-positiva”.
Nosso Senhor mesmo empregou este argumento quando inocentou seus discípulos
acusados pelos fariseus de ter violado a lei do repouso sabático, ao colherem as espigas para
matarem a fome. Jesus evocou, então, o caso de Davi que, premido pela necessidade da fome,
comeu os pães da proposição, o que era proibido por lei divina.
Segundo o canonista Professor Georg May, presidente do Seminário de Direito Canônico
da Universidade de Mayence, “pode-se conceber na Igreja, como na sociedade civil, um estado
de necessidade ou urgência que não pode ser superado pela observância do direito positivo.
Uma tal situação existe na Igreja, quando a subsistência, a ordem ou a atividade da Igreja estão
ameaçadas ou lesadas de maneira considerável. Esta ameaça pode ser principalmente no campo
do ensino, da Liturgia e da disciplina eclesiástica”.

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“O estado de necessidade justifica o direito de necessidade. Direito de necessidade é a
soma das regras jurídicas que valem em caso de ameaça contra a perpetuidade ou atividade da
Igreja”.
“Este direito de necessidade só pode ser reivindicado quando já se tiverem esgotado
todas as possibilidades de restabelecer uma situação normal, apoiando-se no direito positivo”.
“O direito de necessidade comporta também a autorização positiva de se tomar as
medidas, lançar as iniciativas, criar os organismos necessários para que a Igreja possa continuar
sua missão de pregar a verdade divina e transmitir a graça de Deus”.
“O direito de necessidade justifica unicamente as medidas que são necessárias para a
restauração das funções da Igreja. O princípio de proporcionalidade deve ser observado”.
Demonstrando que existem casos de exceção à lei, assim diz o grande canonista
Cappello S.J.: “A lei, por sua própria natureza, não diz respeito a casos extraordinários e
particulares, mas àquelas coisas que costumam acontecer comumente e universalmente”
(Tractatus Canonico-Moralis de Sacramentis – De jurisdictione quam Ecclesia supplet, T. II, c. X,
341).
Outrossim, considerando a hierarquia das leis, as exceções se tornam tanto mais
necessárias quanto o legislador humano, desprovido da sabedoria e da envergadura de Nosso
Senhor, dificilmente prevê as circunstâncias excepcionais. E essas leis derrogantes gerais são tão
importantes que se tornaram adágios célebres: “Lex positiva non obligat cum gravi incommodo”
(A lei positiva não obriga em caso de grave inconveniente); “Salus animarum suprema lex” (A lei
suprema é a salvação das almas); “Sacramenta sunt propter homines” (Os sacramentos existem
por causa dos homens). Esses princípios autorizam até o simples costume, expressão das
realidades concretas, a ab-rogar até leis escritas (cânon 27). Além do mais, sendo o Espírito
Santo que preside toda a atividade da Igreja, um grande número de exceções necessárias foi
felizmente previsto até para as leis positivas.
É bom, além disso, lembrar que o direito não é a letra. É preciso ter cuidado para não
materializar as leias. O Código de Direito Canônico não só não as contém todas, mas a maior
parte não está escrita: elas podem ser ditadas pela razão, pela lei natural, pelos Evangelhos ou
pelo ensinamento constante dos teólogos e moralistas. Algumas foram lembradas pelos Papas
ou são conhecidas simplesmente pelo bom senso cristão, graças ao catecismo.
É um erro, portanto, dos progressistas querer argumentar contra nós unicamente com
os cânones do Código que os apoiam. Eles se esquecem, entre outras coisas, das exceções
previstas pelo Código, das leis gerais, da lei moral e até dos princípios gerais do Direito. Como
se o bom senso dos verdadeiros católicos não fosse a expressão dos direitos e deveres
imprescritíveis e essenciais que eles aprenderam do autêntico catecismo (Cf. P. Pivert – op. Cit.
pag. 10 e 11).

CAPÍTULO 6
Direitos e Deveres Extraordinários no Estado de Necessidade

“A Igreja, continua o citado professor May, e antes de tudo, seus órgãos, tem o direito
mas também o dever de tomar todas as medidas necessárias para o afastamento dos perigos.
Numa situação de necessidade, os Pastores da Igreja podem tomar medidas extraordinárias para
proteger ou restabelecer a atividade da Igreja. Se um órgão não executa suas funções
necessárias ou indispensáveis, os outros órgãos têm o direito e o dever de utilizar o poder que

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têm na Igreja, a fim de que a vida na Igreja seja garantida e que seu fim seja alcançado. Se as
autoridades eclesiásticas a isso se recusam, a responsabilidade dos outros membros cresce,
como também sua competência jurídica”.
O Cardeal P. Palazzini, no Dicionário Morale Canonicum – verbete “necessitas” (status
necessitatis) diz que quando se trata de um estado de extrema necessidade espiritual, quando,
sem o auxílio de outro, a pessoa sofreria um grave perigo de condenação, os padres e bispos,
mesmo que não tenham ofício pastoral, têm obrigação “sub gravi” de administrar os
sacramentos, ainda com o risco da própria vida.

CAPÍTULO 7
Exemplos Históricos

A vida de Santo Atanásio, um dos grandes doutores da Igreja, resistindo ao Papa Libério
que favorecia à heresia, e sendo por ele excomungado, é um exemplo histórico que mostra a
possibilidade de se constatar que um Papa pode destruir a Igreja em certo grau. Verifica-se,
deste modo, o real estado de necessidade, onde não era mais possível obedecer ao superior,
com o consequente direito de necessidade.
No tempo de Santo Atanásio, os bispos na sua maioria (falam os historiadores em 80%)
se tinham tornado arianos ou semi-arianos. Sobre este tempo exclamou São Jerônimo: “Gemeu
todo o orbe e quedou surpreendido ao contemplar-se ariano”. O pior é que estes bispos
conseguiram a adesão do Papa Libério, conforme ele mesmo, o Papa, escreve na epístola “Pro
deifico” aos bispos orientais:
“Tão logo soube, quando foi do agrado de Deus, que vós o (a Santo Atanásio) tínheis
justamente condenado, de pronto aderi a vossa sentença. Por isso tendo sido removido Atanásio
da comunhão de todos nós..., declaro que estou em paz com todos vós e com todos os bispos
orientais...” (Denz. Sch. 141). O mesmo ele repete na Epístola “Studens paci”, na qual o Papa
Libério explicita bem a excomunhão de Santo Atanásio: “Saibam por esta carta, que envio à
vossa unanimidade, que tenho paz com todos vós e com todos os bispos da Igreja Católica, e
que o supradito Atanásio, porém, está fora da minha comunhão e da Igreja Romana...” (Denz.
Sch. 138).
E na Epístola “Quia scio”, o Papa Libério insiste: “Vossa prudência tome conhecimento
que Atanásio, que foi bispo da Igreja de Alexandria,... está separado da comunhão da Igreja
Romana, conforme é testemunha todo o presbitério da Igreja Romana” (Denz. Sch. 142).
A Igreja, porém, usando de sua infalibilidade, canonizou Santo Atanásio, isto é, colocou-
o como modelo para todos os cristãos, o que evidentemente não fez com o Papa Libério, que
não é santo canonizado, quer dizer, do qual não se tem garantia de que se tenha salvado, como
temos de Santo Atanásio.
Lê-se na vida de São Paulo Eremita, que estando para morrer, depois de ter vivido
noventa anos no deserto, pediu a Santo Antão que fosse buscar o manto que Santo Atanásio lhe
havia dado e que o sepultasse envolvido nele. “Ele fazia este pedido, não porque se preocupasse
em morrer envolvido ou não em um manto; ele mostrava com essa atitude que queria morrer
na comunhão de Santo Atanásio, o invencível defensor da Fé ortodoxa contra a heresia ariana”
(Vidas dos Padres do Deserto do Oriente – Ed. 1863 – R. P. Michel-Ange Marin, p. 8).
Falando sobre o comportamento da maior parte dos bispos deste tempo, assim escreve
São Gregório Nazianzeno (+389): “Certamente os pastores agiram como insensatos; porque,

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salvo um número muito reduzido, desprezado por sua insignificância ou que resistiu por sua
virtude, e que haveria de ficar como uma semente ou uma raiz de onde nasceria de novo Israel
sob o influxo do Espírito Santo, todos cederam às circunstâncias, com a única diferença de que
uns sucumbiram mais cedo e outros mais tarde; uns estiveram na primeira linha dos campões e
chefes da impiedade, outros se uniram às fileiras dos soldados na batalha, vencidos pelo medo,
pelo interesse, pela adulação, ou, o que é mais inexcusável, por sua própria ignorância” (Oratio
XXI, 24).
E o Cardeal Newman, falando da crise do arianismo, assim comenta: “O dogma de Nicéia
se manteve durante a maior parte do século IV, não pela firmeza inquebrantável da Santa Sé,
dos Concílios e dos bispos, mas sim pelo consenso dos fiéis! Por um tempo a massa dos bispos
falhou na confissão de sua fé. Houve Concílios pouco seguros, bispos infiéis, debilidade, temor
das consequências, desorientações, ilusões, alucinações sem fim, sem esperança, que
alcançaram quase até os rincões mais recônditos da Igreja Católica. Os poucos bispos que
permaneceram fiéis foram desacreditados e enviados ao desterro; o resto se compunha dos que
enganavam e dos que eram enganados” (Cardeal Newman – “Ramble”, julho de 1859, pag. 214).
Não parece ser a descrição dos tempos atuais?!
Pois bem, em tais circunstâncias, para defender a fé e os fiéis, Santo Atanásio
desobedeceu ao Papa e se opôs a dois Concílios e à grande maioria dos bispos. O que demonstra
que alguém, às vezes, pode ter razão contra uma enorme maioria.
E mais, Santo Atanásio, devido ao estado de necessidade, instituiu bispos mesmo fora
dos direitos normais de sua jurisdição. Usou desta jurisdição extraordinárias para instituir
bispos, mesmo quando não estava no Egito, onde ficava sua sede patriarcal. Vemos isto na carta
que escreveu em 340 ou 341 (durante o 2º exílio que durou de 339 a 346) a Serapião, bispo de
Tumuis, na qual institui 14 bispos para substituir seus antecessores que haviam falecido
(Patrologia Graeca, tomo 26, col. 1412 e 1413).
E é bem provável que Santo Atanásio tenha feito o mesmo (instituindo bispos no lugar
dos falecidos, conforme diz na carta acima), no tempo em que estava excomungado, já que a
excomunhão, segundo o cotejo das datas, deve ter durado de 357 até a 362, ano em que ele
voltou a Alexandria e convocou um Concílio. Excomungado, vale dizer, contra a vontade
expressa do Papa, mas justificado pelo estado e o direito de necessidade.
Outro exemplo é o de Santo Eusébio de Samosata, conforme o testemunho de
Teodoreto, bispo de Cyr, no século V: “Com efeito, tendo compreendido que muitas igrejas
ficavam sem pastores, ele (Eusébio), vestido de uma roupa de soldado e com a cabeça coberta
por um turbante, percorreu a Síria, a Fenícia e a Palestina impondo as mãos a padres e a
diáconos; se encontrava bispos que tinham a mesma doutrina que ele, designava-os também
como chefes destas igrejas carentes” (Migne – Historiae Ecclesiasticae L. IV, c. 12. Patres Graeci,
82, col. 1148).
Eis o comentário que disto fez São Teodoro Estudita: “Em razão de imperiosas
necessidades, nem tudo, em momentos críticos onde campeia a heresia, se faz exatamente
conforme o que se estabeleceu em tempos de paz. Ora, eis precisamente o que o bem-
aventurado Atanásio e o muito santo Eusébio fizeram manifestamente: ambos impuseram as
mãos fora dos limites (de sua jurisdição ndr). Agora também vê-se que a mesma coisa se passa
na heresia presente”. (São Teodoro Estudita – Ano 759-826 – Texto grego original dos Patres
Graeci Migne vol. 99, col. 1645-1648).
Pode-se deduzir, por esta declaração do Santo Estudita – “agora também vê-se que a
mesma coisa se passa na heresia presente...” – que ele mesmo, ou algum outro bispo
contemporâneo seu (século VIII e IX) passou por cima de graves leis disciplinares por causa da
necessidade das almas diante da heresia difusa.

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Outro exemplo, e atual, de atitudes à margem das leis disciplinares normais é o das
sagrações episcopais secretas, mesmo sem que Roma o saiba ou se pronuncie, na chamada
“Igreja do Silêncio”, nos países comunistas:
Um eminente especialista no assunto, Maurice de Nessy, consultado e citado pelo Pe.
François Pivert (Des Sacres par Mgr. Lefebvre... um schisme? pag. 65), explica: “As ordenações
e sagrações em segredo têm sido numerosas no Gulag (campos de concentração nos países
comunistas), segundo a longa tradição da Igreja. Os bispos em extinção no Gulag sem fim não
fizeram, pois, senão cumprir seu dever de criadores do sacerdócio e do episcopado sem
negociações com Roma... Pode ser que depois tenha havido comunicação destas cerimônias às
Congregações Romanas, como foi o caso das ordenações secretas em Dachau por Dom Piguet,
bispo deportado de Clermont-Ferrand. Semelhantes fatos se passaram na Albânia, segundo o
que me disseram lá. De qualquer maneira, há, sobre estes casos dramáticos, alguns clarões no
horizonte, mas, por causa da Ostpolitik (política de aproximação com os regimes comunistas),
Roma emudece sobre este assunto.
Na Romênia, pude ter um contato (discreto) com um bispo uniata (Uniata = Igreja
Católica, perseguida pelos regimes comunistas), Dom Gorcea (será este o seu verdadeiro
nome?) sagrado em segredo no campo (de concentração) pelo Metropolita-Cardeal Hossiu...
Na Rússia, houve sagrações por Dom d’Herbigny... Este sagrou na prisão, através das
grades, os bispos Mátulonis e Amoudrou.
Na Ucrânia, eu tive a certeza de ordenações secretas, bem como de sagrações
clandestinas... (cita os nomes ndr).
Estes bispos receberam, pois, seus poderes no Gulag das mãos de bispos encarcerados
ou foragidos, sem ligação física nem postal com Roma, e “pour cause”, pois era absolutamente
necessário para a permanência da Igreja Uniata, um sacerdócio e sobretudo um episcopado.
Parece que o Patriarca Slipyi o fez ao menos cinco vezes...”
A revista “30 Dias” revelou também uma grande série destas sagrações clandestinas nos
países comunistas. E, em seu Nº de março de 1990, afirma que sendo “em geral realizadas sem
a observância das normas do Direito Canônico em vista das circunstâncias, são justificadas por
um bem maior que é a “salus animarum”. Segundo a revista a Santa Sé não tem nenhuma
responsabilidade sobre as sagrações de bispos clandestinos. “A Igreja clandestina recorre aos
“poderes de emergência” que são aplicáveis devido à situação do país”.
A respeito do episcopado clandestino da Ucrânia assim comenta a mesma revista: “O
Episcopado Ucraniano é o mais “organizado” em matéria de sagrações. Todos os bispos têm
uma diocese com bispos auxiliares ou coadjutores com direito à sucessão. Mas é uma “auto-
organização” provisória, que pode sofrer alterações concordadas com a Santa Sé...
E, como a oportunidade do recurso às sagrações clandestinas era muito discutida,
continua a revista, a resposta mais frequente a essas críticas é que a sobrevivência da Igreja
diante da barbárie comunista se deve também à rede clandestina de bispos, sacerdotes e
religiosos...”.

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CAPÍTULO 8
A Crise Atual – Situação Extraordinária da IGREJA

Para as pessoas de bom senso, é inegável a gravíssima crise de Fé e de identidade na


Igreja de hoje. A apostasia é realmente universal e atinge a todos os setores. É de tal dimensão
e profundidade que há cerca de 30 anos a Igreja se assemelha a uma cidade ocupada pelos
inimigos.
A apostasia de milhares de sacerdotes, religiosos e religiosas, que, após o Concílio,
trocaram sua consagração a Deus pelo mundo, os milhões de fiéis que, perturbados e confusos,
trocaram a religião católica pelas seitas nestes últimos anos, nos faz saltar aos olhos a amplitude
da crise.
Os erros contidos em documentos do Concílio Vaticano II, especialmente a liberdade
religiosa, que destrói o Reinado Social de Jesus Cristo; o falso ecumenismo, que rebaixa a Igreja
Católica ao nível das falsas religiões; a adoção dos princípios liberais da Revolução Francesa: a
dignidade humana já sem relação com a verdade e a dignidade moral; as reformas pós-
conciliares, especialmente a Reforma Litúrgica, a verdadeira protestantização da Igreja, para
escândalo e apostasia dos fiéis; tudo isso vem demonstrar, à saciedade, que as autoridades
romanas, hoje, voltam as costas a seus predecessores e rompem com a Igreja Católica,
colocando-se ao serviço dos que destroem a cristandade e o Reinado Universal de Nosso Senhor
Jesus Cristo.
Os contínuos atos de João Paulo II e dos Episcopados Nacionais ilustram, de ano para
ano, esta mudança radical de concepção da Fé, da Igreja, do Sacerdócio, do mundo, da salvação
pela graça.
Uma marcante expressão dessa ruptura com o Magistério anterior da Igreja, por
exemplo, se realizou em Assis, outubro de 1986, o pecado público contra a unicidade de Deus,
contra o Verbo Encarnado e sua Igreja: João Paulo II encorajando as falsas religiões a rezar a
seus falsos deuses, escândalo sem medida nem precedentes.
E não se diga que Assis foi um caso isolado. Este congresso de religiões foi repetido em
Kyoto, agosto de 1987, em Roma, outubro de 1987, em Basiléia, 1990; e perdura ainda o
chamado “espírito de Assis” encorajado por João Paulo II, como autêntica interpretação do
Concílio Vaticano II. Tal “espírito de Assis” tem incentivado inúmeros encontros ecumênicos em
todo o mundo, onde, segundo o Papa Leão XIII, se faz a maior injúria à religião católica,
colocando-a lado a lado, em pé de igualdade com as falsas religiões, conduzindo os homens ao
mais completo indiferentismo religioso. Sem falar das diversas participações do Papa João Paulo
II em ritos animistas e cultos a divindades pagãs.
Se o Papa Honório I, por uma ambiguidade e favorecimento da heresia, foi execrado
pelo VI Concílio Ecumênico como nocivo às almas e anatematizado pelo Papa São Leão II como
traidor sacrílego, não tendo honrado a Igreja Apostólica com a doutrina da Tradição, o que dizer
da atual hierarquia que tão escandalosamente patrocina o erro e leva tantas almas à perdição?!
E NO BRASIL, quando temos um bispos como Dom Pedro Casaldáliga, que se intitula
Monsenhor Martelo e Foice, e, vestindo o uniforme de guerrilheiro sandinista, diz-se sentir
como paramentado para Missa?! Um Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns,
que escreve ao “queridíssimo Fidel Castro”, felicitando-o pelos 30 anos da Revolução Cubana?!
Aliás Dom Arns não esconde sua verdadeira veneração por Leonardo Boff. Ao ouvir dizer
que Boff sofreria novas “censuras”, declarou: “Considero isso um verdadeiro pecado... É um
pecado muito grande que pessoas como ele não sejam deixadas livres para atuar e que tenham

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que gastar o tempo a se defender”. Perguntado se ia continuar solidário a Boff no caso das
censuras, respondeu: “Sim. E o farei sempre. Eu o conheço muito bem. Enquanto eu estiver vivo,
estarei ao lado dele. A propósito sugeri aos superiores dele que ele se transfira para São Paulo.
Se ele pudesse se sentir mais tranquilo, poderia trabalhar melhor” (à revista italiana Il Regno –
julho/90).
Dom José Maria Pires, Arcebispo de João Pessoa, Dom Zumbi, como gosta de ser
chamado, comparece às reuniões da CNBB usando distintivos da Macumba na lapela e utiliza os
gingados, os turbantes, as túnicas africanas na liturgia, afirmando seguir as diretrizes do Concílio
Vaticano II e compara a prostituição com o serviço de Deus, como o de uma freira.
Sem falar no contínuo incentivo à luta de classes e ao comunismo, através de
publicações, conferências e sermões por todos os cantos do país.
Diante disto, é para estranhar que o “maior país católico do mundo” já perdeu a Fé, por
culpa daqueles que a deviam preservar!?
E todos esses traidores de sua missão são mantidos nas suas posições e cargos pelas
autoridades romanas, sem punições; essas só existem hoje para os que mantêm a Tradição
católica. O Concílio Vaticano II, que rompe com essa Tradição Católica, tornou-se a única regra
de Fé, único sinal de catolicidade imposto à força a todos.
Alguém poderia objetar que há muitos bispos bons que rezam, que tem Fé, que são
edificantes. A isto responde bem Dom Marcel Lefebvre no seu “Itinerário Espiritual”, pag. 9:
“Ainda que sejam santos, desde que admitem a falsa liberdade religiosa, portanto o Estado laico,
o falso ecumenismo e portanto vários caminhos de salvação, a reforma litúrgica, portanto a
consequente negação prática do Sacrifício da Missa, os novos catecismos com seus erros e
heresias, contribuem oficialmente coma Revolução na Igreja e com sua destruição. O Papa atual
e estes bispos não transmitem mias Nosso Senhor Jesus Cristo, mas uma religiosidade
sentimental, superficial, carismática, onde não passa mais a verdadeira graça do Espírito Santo
em seu conjunto... Esta nova religião não é mais a religião católica; ela é estéril, incapaz de
santificar a sociedade e a família. Uma única coisa é necessária para a continuação da Igreja
Católica: bispos plenamente católicos sem nenhum compromisso com o erro, que fundem
seminários católicos, onde os jovens aspirantes poderão se nutrir com o leite da sã doutrina,
colocar Nosso Senhor Jesus Cristo no centro de suas inteligências, de suas vontades, de seus
corações; ter uma Fé viva, uma caridade profunda, uma devoção sem limites unindo-os a Nosso
Senhor...”
Assim, a cumplicidade geral de todos os bispos, endossada pelo silêncio comprometedor
dos moderados, que deste modo dão o seu consentimento a toda essa situação de calamidade,
configura bem a “autodemolição da Igreja” e nos coloca num verdadeiro estado de
anormalidade e necessidade.

CAPÍTULO 9
Caso da Necessidade Específica: Breve Relato Histórico e
Estatístico da DIOCESE de CAMPOS

A cidade de Campos, com cerca de 500 mil habitantes, é a sede da Diocese que abrange
todo o Norte e Noroeste do Estado do Rio de Janeiro, Brasil. A Diocese, com uma superfície de
11.901 km², compreende 13 cidades e municípios, além de cerca de 300 lugarejos, com uma
população total de 850 mil habitantes aproximadamente.

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A Diocese de Campos tornou-se conhecida no mundo por ser a única diocese a, como
tal, resistir aos devastadores vendavais modernistas e por manter oficialmente a doutrina
tradicional da Igreja e o Santo Sacrifício da Missa.
E isso foi possível, devido ao seu Bispo, Dom Antônio de Castro Mayer, que, por 33 anos
(1948-1981) foi o zeloso pastor desta grei, procurando aqui manter a tradição católica,
doutrinária, pastoral e litúrgica, a despeito das pressões dos outros bispos, da Conferência
Episcopal brasileira (CNBB) e do próprio Vaticano.
Dom Antônio de Castro Mayer foi o grande êmulo de Dom Marcel Lefebvre na luta
contra a atual autodemolição da Igreja. Dom Lefebvre, como bispo missionário, espalhando,
com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e seus seminários, a tradição por todo o mundo. Dom
Antônio, e esse é o seu grande mérito, conservando oficialmente uma diocese católica
tradicional. Ambos foram heróis da resistência católica.
Este combate de Dom Antônio data dos primórdios do seu pastoreio na Diocese. Já em
1952, ele escreveu a célebre “Carta Pastoral sobre os problemas do Apostolado Moderno”,
primeiro grande brado no Brasil contra o progressismo que já penetrava nos meios católicos.
Durante o Concílio Vaticano II, estes 2 bispos se uniram no “Coetus Internationalis
Patrum”, grupo de bispos (cerca de 300) que, unidos, tentavam resistir à introdução do
modernismo na Igreja. Deste “Coetus”, Dom Lefebvre era o presidente e Dom Antônio o vice-
presidente e o “pensador”, do dizer de Dom Lefebvre.
Durante e após o Concílio Vaticano II e a consequente vitória dos inimigos da Igreja, até
1981, Dom Antônio, como bispo diocesano, resistiu como pôde a todas as pressões e procurou
manter a Tradição na Diocese, nas paróquias, nas associações religiosas, conservando a
mentalidade católica entre o povo, e sobretudo com a formação tradicional do clero e dos
seminaristas.
O que sempre marcou o pastoreio de S. Exa. Revma. foi seu espírito de obediência e
fidelidade a Roma, aos documentos pontifícios e ao Papa, e foi em virtude desta fidelidade que
ele se viu obrigado a resistir às atuais orientações da hierarquia, justamente por destoarem
radicalmente da orientação dos seus predecessores.
Inúmeras foram as cartas de S. Exa. Revma. à Santa Sé sobre este ponto, especialmente
a célebre Carta a Paulo VI de 25 de janeiro de 1974, bem como inúmeras outras em companhia
de S. Exa. Dom Marcel Lefebvre (vide Apêndice).
Após a demissão forçada de D. Antônio de Castro Mayer em 1981, com o novo bispo a
Diocese sofreu a implantação oficial do progressismo, do Concílio Vaticano II e da Missa Nova, a
ferro e fogo, com todas as terríveis consequências desta implantação. Foi uma verdadeira
guerra. Os 25 padres que ficaram fiéis à doutrina e à Missa de sempre foram destituídos dos
seus cargos e expulsos das suas paróquias sob ameaça de força policial. Processos “canônicos”
e civis contra os padres. Pressões, calúnias, injúrias pela imprensa e perseguições de todos os
tipos. O seminário diocesano foi fechado pelo novo bispo sob a alegação de que “não poderia
continuar a formar padres desta linha, para essa Missa” (!).
Mas, graças a Deus, houve a resistência. Os padres ficaram fiéis, uniram-se na resistência
e, sob a égide de Dom Antônio de Castro Mayer, formaram a União Sacerdotal São João Maria
Batista Vianney, que congrega os padres de Campos fiéis à Tradição.
E o povo católico deu a resposta ao novo bispo. Cerca de 80% dos fiéis seguiram os
padres tradicionais do exílio. E assim, agora, cada paróquia da diocese tem 2 paróquias: uma
oficial e outra no exílio. Inúmeras novas igrejas e capelas foram construídas. Escolas, catecismos,
programas diários de rádio, debates na imprensa e na TV, associações religiosas, batismos,
casamentos, missas diárias, missas solenes nas festas, confissões, atendimento aos doentes,

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retiros espirituais, missões, procissões, solenidades do mês de maio, grandes concentrações de
fiéis da diocese sob o lema “Católicos unidos em defesa da Fé”, enfim, a vida católica tradicional
continua com toda a pujança. A Tradição não pode morrer.
E tem-se visto nestes anos, graças a Deus, apesar de todas as perseguições, uma grande
frequência de povo às igrejas dos padres fiéis à Tradição e grande aproximação dos santos
Sacramentos. Só numa paróquia, por exemplo, há 8 mil comunhões mensais e 800 fiéis se
confessam por ocasião da 1ª sexta-feira do mês. Em outra paróquia, as confissões mensais
passam de 1500.
Podemos dizer, numa estatística aproximada, que os fiéis tradicionalistas e
simpatizantes da diocese seriam cerca de 50 mil
Para se ter uma ideia do imenso campo de trabalho pastoral que representa a Diocese
de Campos atualmente, basta conferir estes números:
 8500 crianças do catecismo;
 250 centros de catequese;
 9000 confissões mensais;
 30000 comunhões mensais;
 400 homens e rapazes da Congregação Mariana;
 400 homens da Liga Católica Jesus, Maria, José;
 1600 senhoras de diversas associações (Apostolado da Oração, Mães cristãs,
etc);
 600 moças da Pia União das Filhas de Maria;
 1000 crianças da Cruzada Eucarística;
 20 grandes igrejas, 125 capelas e 70 centros de Missa, perfazendo assim ao todo
215 lugares de Missa;
 100 religiosas de hábito, distribuídas em 5 Congregações religiosas paroquiais,
além de inúmeras outras de vida consagrada vivendo no mundo, com votos
particulares.
Auxiliados por essas associações de leigos e pelas religiosas, além da catequese nos 250
centros para 8500 crianças, os padres tradicionais desenvolvem vários trabalhos educacionais,
assistenciais e sociais: 6 colégios com 2500 alunos, 3 orfanatos com 600 crianças e um asilo com
60 idosos, além de várias associações de assistência aos pobres.
E tudo isso a cargo de apenas duas dezenas de padres.
Ademais, o nosso apostolado se estende além dos limites da Diocese de Campos, na
medida das nossas possibilidades. Já damos assim assistência, fora da Diocese de Campos, ao
Rio de Janeiro (grupo Permanência: 60 fiéis), a São Paulo (grupo Montfort: 120 fiéis), a Nova
Iguaçu (5 capelas: 400 fiéis), Santa Maria, no Estado do Rio Grande do Sul (grande capela: 80
fiéis), Volta Redonda (40 fiéis), além da irradiação do Mosteiro da Santa Cruz em Nova Friburgo,
unido a nós na mesma tradição. A estes somam-se grupos de fiéis em todos os Estados desde
continente que é o Brasil, verdadeiro país de missão, como aliás se tornou o mundo inteiro, fiéis
que mantêm contato conosco, visitam-nos e assinam nosso boletim “Ontem, Hoje e Sempre”, e
que insistentemente vêm nos pedir padres tradicionais para socorrê-los, já que não podem
confiar em bispos e padres comprometidos com o progressismo nem lhes pedir socorros
espirituais.
Assim, por tudo isso, é necessário e urgente um bispo tradicional para esta grande
porção do rebanho de Nosso Senhor, que não pode ficar entregue à sanha dos seus inimigos.
“Os pequeninos pedem pão e não há quem lhes distribua” (Thren. 4, 4).

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CAPÍTULO 10
SAGRAÇÃO EPISCOPAL contra a vontade do Papa?

Vimos no Capítulo 2 que os fiéis têm o direito de receber da hierarquia a autêntica


doutrina católica e os verdadeiros sacramentos. Vimos também no Capítulo 3 que Nosso Senhor
instituiu a hierarquia na Igreja para o bem das almas e não para criar-lhes obstáculos.
Sabemos, outrossim, que a suprema lei da Igreja é a salvação das almas, conforme o
Código de Direito Canônico novo o reconhece (c. 1752). O próprio Papa João Paulo II promulgou,
como suprema lei do Código que editou, a salvação das almas. Lei suprema quer dizer, à qual
estão subordinadas quaisquer outras leis gerais ou particulares.
A recusa por parte do Papa de dar aos fiéis um bispo católico, isto é, um bispo não
alinhado com o Vaticano II e seus erros, é uma lei particular, inferior e subordinada
evidentemente à lei suprema pela qual ela deve cuidar da salvação das almas.
Ora, é óbvio que esta lei particular do Papa, em flagrante contradição com sua própria
lei suprema por ele promulgada, portanto sua vontade suprema, se torna juridicamente nula.
O Papa, pelo fato de ser Papa não pode deixar de querer a salvação das almas. O Vigário
de Cristo não pode e não deve querer a destruição da doutrina católica e dos verdadeiros
sacramentos, os únicos seminários católicos onde florescem contínuas vocações, enfim, do
sacerdócio católico.
Por isso, a recusa explícita por parte do Papa da autorização para sagração de bispos
católicos, não comprometidos com o Vaticano II, é um ato juridicamente inválido, porque o fim
desta recusa vai contra o bem comum da Igreja.
Assim o afirma o Papa Leão XIII: “Suponhamos, pois, uma prescrição dum poder
qualquer que esteja em desacordo com... os interesses do bem público: não teria força alguma
de lei, porque não seria uma regra de justiça e afastaria os homens do bem, para o qual a
sociedade foi fundada... Desde que o mandato é contrário à lei eterna, à autoridade de Deus,
então é legítimo desobedecer aos homens a fim de obedecer a Deus” (Encíclica Libertas
Praestantissimum, n° 12 e 15).
Os teólogos da Igreja afirmam unanimemente que uma lei prejudicial ao bem comum
não tem força de autoridade. É juridicamente nula.
Santo Tomás de Aquino define a lei como “ordenação da razão para o bem comum
promulgada por aquele que tem o cuidado da comunidade”.
Segundo o mesmo grande doutor da Igreja, “nenhum preceito tem força de lei a não ser
por sua ordem ao bem comum”. E repete isto em pelo menos 15 passagens diferentes (cf. I-IIae
q. 90 ss).
“Toda lei se ordena para a comum salvação dos homens e somente daí tem força e razão
de lei, e, na medida em que falta a isso, não tem força de obrigar” (I-IIae, q. 96, a. 6 resp.). E o
Cardeal Caetano no comentário afirma que isso vale também para a Igreja.
Por tudo isso não se pode dizer que o Papa seja juridicamente contra a sagração de um
bispo tradicional. A “suprema lex”, a salvação das almas, é a expressão jurídica da vontade do
Papa, pois foi ele mesmo quem a promulgou no Novo Código. A sua negativa atual não tem a
mesma força de lei por não ser ordenada para o bem comum, conforme provamos acima.
Aliás esta contradição entre lei geral e prescrição particular já ocorreu, por exemplo,
com Paulo VI. No Concílio Vaticano II ele decretou que o latim é a língua oficial da Igreja: lei

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geral. Depois, no discurso de novembro de 1969, ele declarou que as línguas vernáculas
ocuparam o lugar do latim. E, na prática, o latim de oficial que é pela lei geral, acabou sendo
perseguido e proibido.
É interessante relembrar que foi essa a razão do célebre episódio litigioso entre São
Paulo e São Pedro, primeiro Papa. São Pedro havia definido uma lei geral no Concílio de
Jerusalém, mas na prática ele agia contra esta lei geral, favorecendo os judaizantes. Daí a
resistência pública que lhe opôs São Paulo, que apelava evidentemente para a lei geral benéfica
e não para a atitude particular prejudicial às almas: “Resisti-lhe em face porque era censurável...
Quando vi que o seu procedimento não era segundo a diretriz do Evangelho...” (Gal. 2, 11 e 14).
E Santo Tomás de Aquino comenta: “A censura foi justa e útil, e o motivo era grave: a
questão era de um perigo para a preservação da verdade evangélica. A maneira como a censura
foi feita foi apropriada pois pública e manifesta. Por isso São Paulo escreveu: “Eu falei a Cefas
(isto é, a Pedro) diante de todos”, pois a simulação praticada por São Pedro criava um perigo
para todos” (Ad Gal. 2, 11-14, lect. III, nºs 83-84).
São Paulo resistiu pois a São Pedro porque havia “um perigo para todos”, quer dizer,
estava em jogo a salvação das almas, lei suprema da Igreja, diante da qual devem ceder
quaisquer outras leis particulares ou atitudes, mesmo que sejam da mais alta autoridade, como
era a do primeiro Papa.
O Papa Pio XII afirma: “A unidade suprema e o fim último para o qual a vida jurídica e a
função jurídica da Igreja são determinadas e para a qual ela se orienta é a salvação das almas”
(Disc. 02/12/44).
Alguém pode objetar que a vontade atual do Papa negando um bispo tradicional
superaria sua vontade habitual de concedê-lo. Mas isso só é válido no plano psicológico, mas
não no plano jurídico e moral, no qual esta vontade do Papa é nula por não ter força de lei.
Podemos outrossim dizer que o Papa se tornou inacessível e a comunicação como ele é
impossível; e, devido ao caso de extrema necessidade, faz-se a sagração de um bispo tradicional
sem o mandato pontifício. Embora o Papa esteja fisicamente acessível, pois está em Roma, na
verdade é juridicamente inacessível porque suas intenções e ideias modernistas o tornam
impossibilitado de dar uma lei válida sobre este ponto.
Não estamos julgando o Papa ou a Santa Sé com um julgamento jurídico. Estamos
apenas constatando um fato. Este julgamento intelectual nos é facultado pelos Doutores e
teólogos da Igreja (cf. São Roberto Belarmino, frase citada).
Assim, o célebre teólogo dominicano Francisco Vitória, sec. XIV, afirma: “... Se o papa,
com suas ordens e seus atos, destrói a Igreja, pode-se resistir-lhe e impedir a execução de seus
mandatos... Como observa Caetano, não afirmamos tudo isso no sentido de que a alguém caiba
ser juiz do Papa, ou ter autoridade sobre ele, mas no sentido de que é lícito defender-se. A
qualquer um, com efeito, assiste o direito de resistir a um ato injusto, de procurar impedi-lo e
de defender-se” (Obras p.p. 486-487).
E o renomado jesuíta Suarez diz: “Se (o Papa) baixar uma ordem contrária aos bons
costumes, não se há de obedecer-lhe; se tentar fazer algo manifestamente oposto à justiça e ao
bem comum, será lícito resistir-lhe...” (De Fide, disp. XI, sect. VI, nº 16).
A razão disto, diz Caetano, é porque o poder foi dado ao Papa para a edificação e não
para a destruição da Igreja.
É claro que reconhecemos que pertence ao Papa a eleição dos bispos (cânon 853 – 1013
do novo Código). Mas ele também não pode negar validamente bispos tradicionais aos fiéis,
pelo simples fato de esses bispos não se alinharem ao Vaticano II e às reformas conciliares. É
juridicamente nula essa recusa. Porque a reservação da consagração episcopal ao Romano

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Pontífice, ainda que tenha suas raízes no direito divino, é uma lei eclesiástica, sujeita à lei divina
que é a finalidade da hierarquia: a salvação das almas.
Assim podem ocorrer certas situações em que o Papa tem o dever de confirmar um
bispo já sagrado. O Papa São Leão, por exemplo, declara que ele deve necessariamente dar a
graça da confirmação ao bispo Proterios de Alexandria, porque era digno. Assim também São
Simplício não pôde recusar acolher na comunhão da Sé Apostólica o episcopado de Calandian,
novo bispo de Antioquia e admiti-lo, pela graça de Cristo, no colégio episcopal. Trata-se, é clarp,
de uma presunção de direito para um ato razoável e tornado necessário pelas circunstâncias.
Esta presunção era de tal modo razoável e conforme à natureza do colégio apostólico, que ela
produzia todos os efeitos de um mandato explícito.
Assim explica o Revmo. Pe. Louis Coache, Doutor em Direito Canônico: “Que o Papa
possa de Direito Divino se reservar esta nomeação dos bispos, como de fato o fez, isto é claro.
Mas o exercício desta capacidade é de direito eclesiástico. Quer dizer, a designação dos bispos
e sua instituição canônica não foram determinadas por Jesus Cristo como dependente
necessariamente do poder do Papa; mas o Papa, sobretudo devido à importância da matéria,
pode de direito divino se reservar desta nomeação; entretanto, não é porque ele se reserva este
objeto que ele se torna, em sua matéria, de direito divino; o exercício desta capacidade é,
repetimos, de direito eclesiástico; cai-se assim no domínio da obediência que comporta as
obrigações ou as exceções concomitantes... Ademais, é certo historicamente que a designação
dos bispos para as igrejas locais não foi sempre, longe disso, o apanágio do Papa...”.
E o célebre canonista Felix Cappelo, S.J., da Pontifícia Universidade Gregoriana, explica:
“Esta reservação (da sagração episcopal ao Papa) está em vigor apenas para a Igreja Latina, não,
porém, para a Igreja Oriental, onde, geralmente, os bispos sufragâneos são sagrados pelo
Patriarca ou pelo Metropolita. Antigamente, na Igreja Latina, por direito comum, a sagração do
bispo sufragâneo pertencia ao Metropolita. Mas o Antigo Direito não determinava a qual dentre
os sufragâneos pertencia a sagração do Metropolita, ou a sagração do sufragâneo, com a sede
metropolitana vacante. A sagração episcopal começa a ser reservada ao Romano Pontífice, ao
menos em alguns lugares, já no século XI, por causa dos abusos que aconteceram da parte de
alguns metropolitas...” (Tract. Canonico-Moralis De Sacramentis, Vol. IV, nº 320).
Fica provado, portanto, ser a reserva da sagração ao Papa uma lei eclesiástica,
importantíssima sim, mas submetida à lei suprema – divina e eclesiástica: a salvação das almas
– portanto, sujeita a exceções em casos extraordinários de extrema necessidade espiritual.
Enfim, por toda esta argumentação acima, podemos com certeza afirmar que a sagração
de um bispo tradicional para nós não é contra a vontade do Papa, juridicamente falando. Há
evidentemente um mandato para tal ato.
E foi por isso que, na sagração dos quatro bispos de 30 de junho de 1988, à pergunta do
ritual da cerimônia da sagração: “Tendes um mandato apostólico?”, Dom Marcel Lefebvre, com
toda a tranquilidade e segurança doutrinárias, respondeu firmemente: “Temos”. E explicou:
“Este mandato, temo-lo da Igreja Romana, sempre fiel à Santa Tradição que recebeu dos
Apóstolos. Esta Santa Tradição é o depósito da Fé, que a Igreja nos manda transmitir fielmente
a todos os homens, para a salvação de suas almas. – Desde o Concílio Vaticano II até hoje, as
autoridades da Igreja Romana estão animadas do espírito do modernismo: agiram
contrariamente à Santa Tradição: “Já não suportarão a sã doutrina (...) Afastarão os ouvidos da
verdade, aplicando-os às fábulas”, como diz São Paulo na 2ª epístola a Timóteo (IV, 3-5). É por
isso que consideramos sem nenhum valor todas as sanções e todas as censuras dessas
autoridades. – Quanto a mim, quando “já me ofereci em sacrifício e já chegou o momento de
minha partida”, ouço o apelo dessas almas que pedem que lhes seja dado o Pão da Vida que é
Jesus Cristo. Tenho pena dessa multidão. Constitui, pois, para mim uma grave obrigação
transmitir a graça de meu episcopado aos caros padres que aqui estão, para que possam, por

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sua vez, conferir a graça sacerdotal a outros clérigos, numerosos e santos, instruídos segundo
as santas tradições da Igreja Católica...”.

CAPÍTULO 11
E o CISMA?

Cisma quer dizer ruptura, rompimento. Ruptura com a Igreja ou com o seu chefe, o Papa.
Evidentemente quando o Papa está com a Igreja. Porque pode um Papa romper com a Igreja:
neste caso ele é que é cismático. “Quanto ao axioma “onde está o Papa está a Igreja”, vale
quando o Papa se comporta como Papa e Chefe da Igreja; em caso contrário, nem a Igreja está
nele, nem ele na Igreja” (Cardeal Caetano II-II, 39, 1 – Cardeal Journet, “L’Eglise du Verbe
Incarné” t. 1 pag. 596).
Do mesmo modo o grande teólogo jesuíta Suarez afirma que “o Papa poderia se tornar
cismático, se quisesse subverter todas as cerimônias eclesiásticas fundadas em tradição
apostólica” (De Caritate, disp. XII, sect. 1, nº 2, p. 733-734).
Ora, romper com quem rompeu com a Tradição não é cisma, é fidelidade. Não se pode
ter união de caridade com quem rompeu com a unidade de Fé da Igreja. Do mesmo modo que
rebelar-se contra os inimigos invasores da pátria não constitui rebeldia, mas patriotismo.
São Roberto Belarmino, diz: “Assim como é lícito resistir ao Pontífice que agride o corpo,
assim também é lícito resistir ao que agride as almas... ou, sobretudo, àquele que tentasse
destruir a igreja. Digo que é lícito resistir-lhe não fazendo o que ordena e impedindo a execução
de sua vontade...” (De Rom. Pont. L. II, c. 29).
A História Eclesiástica registra exemplos, além do de Santo Atanásio, de Santos que
ameaçaram romper com a autoridade eclesiástica prevaricadora para permanecerem fiéis.
Assim, São Godofredo de Amiens, Santo Hugo de Grenoble e Guido de Vienne (que mais tarde
foi o Papa Calixto II) escreveram ao Papa Pascoal II, que vacilava na questão das investiduras:
“Se, como absolutamente não cremos, escolherdes uma outra via, e vos negardes a confirmar
as decisões de nossa paternidade, valha-nos Deus, pois assim nos estareis afastando de vossa
obediência” (Apud Bouix, Tract. De Papa, t. 2, p. 650).
A História da Igreja distingue quatros tipos, cumuláveis de ruptura ou cisma:
1 – A RECUSA DE UM DOGMA DA IGREJA, quer dizer, a heresia. Pois toda heresia
envolve um cisma. Exemplo mais célebre é o protestantismo, que rompeu com a Igreja por não
aceitar, entre outros, os dogmas relativos ao Santo Sacrifício da Missa. Exemplo mais recente
desta ruptura é a dos “Velhos Católicos” que defendem o liberalismo, o ecumenismo, a liturgia
em vernáculo, a abolição da batina e do celibato e rejeitaram o dogma da Infalibilidade Pontifícia
proclamado no Concílio Vaticano I.
Ora, de modo algum se aplica ao nosso caso este tipo de ruptura. É justamente o
contrário: é para defender todos os dogmas da Santa Igreja, especialmente os dogmas
Eucarísticos, a Santa Missa e o Sacerdócio, tão lesados hoje pelas reformas litúrgicas e suas
consequências, que se tomou esta atitude. E os “Velhos Católicos” rejeitaram um dogma de Fé
proclamado por um Concílio dogmático, ao passo que aqui se contestam textos de um Concílio
pastoral, o Vaticano II, que não proclamou nenhuma dogma, e esta contestação é feita em nome
dos dogmas proclamados pelos Concílios dogmáticos anteriores e em nome do ensinamento
constante de uma longa série de Papas. Não se contesta de modo algum a infalibilidade
pontifícia; pelo contrário, são ensinamentos infalíveis dos Papas e dos Concílios dogmáticos da

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Santa Igreja que são a nossa força e tranquilidade e que nos levam a resistir às novidades.
Combatemos, sim, as teses liberais dos “Velhos Católicos” que têm uma grande aceitação na
Igreja Conciliar.
Outro exemplo de cisma, bem perto de nós, é o do Bispo de Maura, que criou a Igreja
Católica Brasileira. Separou-se da Igreja Católica e foi excomungado: ele defendia o comunismo,
a liturgia em vernáculo, o divórcio e o ecumenismo, reconhecendo na Umbanda e no Espiritismo
maneiras paralelas de ser cristão. Defendia, portanto, muitas posições assumidas pela Igreja
Nova, não por nós.
2 – A RUPTURA DA SUCESSÃO APOSTÓLICA, ou a quebra do laço genealógico que faz
de cada bispo um sucessor dos Apóstolos. Esta ruptura se dá no caso de uma sagração inválida.
É o caso da Igreja Anglicana, que, por ter desnaturado a cerimônia de sagração, não sagra
validamente seus bispos, os quais, portanto, não passam de simples leigos.
Não é absolutamente o nosso caso. Dom Marcel Lefebvre foi legítimo Arcebispo da
Santa Igreja, sagrou os quatros bispos dentro da mais perfeita cerimônia tradicional da Igreja.
Aliás, a validade daquelas sagrações não é posta em dúvida nem pelos progressistas. Portanto,
a sagração do novo bispo para Campos será perfeitamente válida. Será um legítimo sucessor dos
Apóstolos.
3 – A REBELIÃO CONTRA A AUTORIDADE DO PAPA, quer dizer, deixar de reconhecer o
Primado do Soberano Pontífice.
Exemplo desta ruptura é o Cisma do Oriente: os Ortodoxos não reconhece o Primado do
Papa. Mas é bom lembrar a observação do Cardeal Journet (L’Eglise du Verbe Incarné): “Não
basta uma desobediência, por mais obstinada que seja, para constituir um cisma: é necessário,
além disso, uma revolta contra a função do Papa e da Igreja”.
O Dicionário de Teológica Católica (verbete “schisme”, col. 1304) afirma que os
conceitos “cisma” e “desobediência” são tão vizinhos que muitos os confundem”. Importa, pois,
ter um conceito bem claro.
Em Santo Tomás encontramos bem delineada a diferença: “O que constitui o cisma é a
recusa de obedecer acompanhada de rebelião; por rebelião eu entendo o desprezo obstinado
dos preceitos da Igreja e a recusa de submeter-se a seu julgamento” (II-IIae, 39, a. 11).
Caetano, por sua vez, afirma que “quando se desobedece ao superior em determinado
caso, julgando-se, por exemplo, que ele se engana ou que age ilegitimamente; em outras
palavras, quando se recusa a obedecer à pessoa, respeitando, no entanto, a função, não se
configura o cisma, mas a desobediência. O cisma se verifica quando a recusa de obedecer atinge,
na ordem recebida ou na decisão promulgada, a própria autoridade, reconhecida como real e
competente...” (cf. D.T.C., col. 1204).
Santo Tomás precisa também na II-IIae, 39 a. 1 que cismáticos “são aqueles que por sua
própria iniciativa e intencionalmente (‘propria sponte et intentione’) se separam da unidade da
Igreja”.
Ora, isto absolutamente não se verifica no nosso caso. Não temos nenhuma intenção de
cisma. Podemos assumir aqui a declaração de Dom Lefebvre naquele 30 de junho das sagrações:
“Não é de modo algum no espírito de ruptura e de cisma que nós realizamos estas sagrações.
Nós afirmamos nossa adesão e submissão à Santa Sé e ao Papa. No dia em que o Vaticano for
liberado da ocupação modernista e encontrar o caminho seguido pela Igreja até o Vaticano II,
nossos bispos estarão inteiramente nas mãos do Soberano Pontífice”.
Não há, portanto, nenhuma intenção de cisma ou ruptura. Não há nenhuma rebelião
contra a função do Papa. Reconhecemos perfeitamente o direito que ele tem de se reservar a
nomeação de bispos. Só constatamos que o Papa atual está moralmente impedido de prover a

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Igreja de bons bispos. Em um futuro próximo, o Papa vai reconhecer que o melhor serviço que
se prestou à Igreja e a ele mesmo, Papa, nestes tempos de crise, foram as sagrações de bispos
fiéis à Tradição.
Lemos do D.T.C. col. 1302 que “os teólogos medievais, pelo menos os do século XIV, XV
e XVI tiveram o cuidado de notar que o cisma é uma separação ilegítima da unidade da Igreja,
pois, dizem eles, poderia haver uma separação legítima, como, por exemplo, se alguém
recusasse obediência ao Papa que ordenasse uma coisa má ou indevida (Torquemada, Summa
"De Ecclesia"). A consideração pode parecer supérflua e pode se pensar que, como no caso da
excomunhão injusta, haveria então uma separação da unidade meramente exterior e
putativa...”.
A separação legítima existe quando os católicos são obrigados a se separarem da
autoridade para não perderem a Fé. Neste caso, trata-se de uma separação “meramente
externa e putativa” da unidade de comunhão (unidade disciplinar) para garantir a unidade de
Fé com a Igreja.
O Papa Pio XI, na “Mortalium animos” declara: “Apoiando-se a caridade sobre a Fé
íntegra e sincera como em seu fundamento, é necessário que os discípulos de Cristo estejam
unidos, antes de tudo pelo vínculo da Fé”.
Portanto, a unidade de caridade (unidade de comunhão) tem o seu fundamento na
unidade de Fé. A unidade da Igreja tem como base a Fé.
Ora, o Concílio Vaticano II e as reformas pós-conciliares representam um rompimento
com a unidade de Fé da Igreja. Basta evocar o que ensinaram os Papas do final do século
passado. Por isso é legítimo, melhor, é um dever separar-se daqueles que tentam impor o
Concílio e suas reformas à Igreja.
A História da Igreja tem inúmeros exemplos de santos que não obedeceram às
autoridades, inclusive à do Papa, quando estas favoreciam à heresia. E nem por isso foram
considerados cismáticos. Pelo contrário, foram canonizados e colocados como modelos para o
povo cristão.
4 – USURPAÇÃO DOS PODERES DO PAPA FORMANDO IGREJA PARALELA.
Como bem explicou o atual decano da Faculdade de Direito Canônico do Instituto
Católico de Paris, Pe. Patrik Valdrini: “Não é a sagração de um bispo que cria o cisma, mesmo
que isto seja uma falta grave contra a disciplina da Igreja; o que consuma o cisma é conferir, em
seguida, a estes bispos uma missão apostólica. Pois esta usurpação dos poderes do Soberano
Pontífice prova que se constitui assim uma igreja paralela”.
Exemplo deste tipo é o cisma dos bispos chineses pró-marxistas. Na China Popular as
sagrações ilícitas foram seguidas de instalação de uma nova hierarquia paralela que se pretendia
investida do governo das dioceses. E foi sobre esta usurpação que principalmente insistiu Pio
XII.
O fato de que a sagração episcopal sem mandato pontifício, até 1951, não era punida
com a excomunhão, ao passo que o cisma sempre o foi, vem demonstrar claramente que, de si,
por sua própria natureza, tal sagração não constitui cisma. O Papa Pio XII decretou a
excomunhão por causa das sagrações dos bispos pró-marxistas da China comunista, que
constituíram uma igreja paralela submissa ao governo chinês.
Os bispos chineses usurparam um direito divino, que só compete ao Papa: a jurisdição
sobre toda a Igreja. Eles se arrogam o direito de eles mesmos nomearem os bispos, conferindo-
lhes jurisdição sobre certo território.

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Ora, este não é o nosso caso. O bispo sagrado para os fiéis à Tradição em Campos e no
Brasil não seria um bispo diocesano; a jurisdição deste bispo, como explicaremos, será uma
jurisdição que a Igreja supre, em cada caso, para o bem das almas. Nem a fonte nem o veículo
desta jurisdição seria Dom Lefebvre ou qualquer dos nossos bispos, mas a Igreja que supre para
o bem das almas, para sua própria “sobrevivência”.
Vale lembrar, enfim, que a partir do Concílio Vaticano II, apesar da colaboração da Igreja
Patriótica Chinesa com a perseguição contra os verdadeiros católicos, de seus ataques virulentos
contra o Papa e da contestação de seu Primado, o Vaticano não utiliza mais o termo “cisma”
para definir a situação da Igreja Patriótica. O mesmo acontece com a Igreja ortodoxa e anglicana.
Pelo contrário, representantes destas Igrejas cismáticas são muito bem recebidos com abraços
e com muita consideração pelas autoridades da nova igreja conciliar. Chefes destas igrejas, como
Ramsey e o Patriarca Dimitrios I, ortodoxo, já deram e benção conjunta com o Papa e
participaram da mesma celebração da palavra. Numa destas celebrações, com o Patriarca
Dimitrios, o Papa recitou com ele um “Credo” sem o termo dogmático “Filioque”, que os
ortodoxos não aceitam. O Novo Código de Direito Canônico chega a reconhecer a autoridade
religiosa destes cismáticos, estabelecendo que os ministros católicos podem administrar os
sacramentos aos que pertencem a essas igrejas cismáticas, desde que “não possam procurar um
ministro de sua comunidade”. E estabelece ainda que as normas gerais sobre esse assunto só
poderão ser dadas pelos bispos, “depois de consultarem a autoridade competente (?!), ao
menos local, da Igreja ou comunidade não-católica em questão” (cn. 844 §§ 4 e 5).
Por que então só nós somos tratados como cismáticos?! Aliás, parece que o conceito de
cisma está um pouco mudado: O Cardeal Silvio Oddi dizia no ano passado que “o cisma de Dom
Lefebvre é um cisma particular e único, quer dizer, nascido por causa de uma adesão grande
demais à Igreja” (fonte APIC, 16/11/90).
CONCLUSÃO:
Romper com a autoridade da Igreja, mesmo a suprema, pode ser cisma ou fidelidade,
dependendo do motivo pelo qual se rompe: No caso dos protestantes, anglicanos, ortodoxos,
igreja popular da China, Bispo de Maura, Velhos Católicos, foi cisma. No caso de Santo Atanásio
foi fidelidade.
Portanto: quando a autoridade segue a Tradição, romper com ela é romper com a Igreja,
é cisma. Quando a autoridade é infiel à Tradição, romper com ela é obrigação, é fidelidade à
Igreja.

CAPÍTULO 12
E a Excomunhão?

Segundo o Código de Direito Canônico de 1917 “Excomunhão é uma censura pela qual
alguém é excluído da comunhão dos fiéis” (Cn. 2257 §1).
A excomunhão é a pena mais grave da Igreja. Mas supõe sempre e necessariamente um
delito, um pecado grave. Conforme o princípio de direito penal: “nulla poena sine crimine” –
“não existe pena quando não há delito”. Porque as penas da Igreja não podem ser usadas
arbitrariamente contra justos e pecadores. E esse princípio vale também para as penas
automáticas, “ipso facto”.
Excomunhão: esta palavra parecia relegado ao museu da História da Igreja, totalmente
fora de uso nestes tempos de ecumenismo.

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João XXIII, na alocução de abertura do Concílio, fez saber que a Igreja preferia agora
“utilizar o remédio da misericórdia ao invés das armas do rigor, e julgava oportuno, nas
circunstâncias presentes, expor mais largamente a força de sua doutrina do que recorrer a
condenações”.
Em 1964, Paulo VI e o Patriarca cismático Atenágoras procederam ao mútuo
levantamento das excomunhões, lançadas na ocasião do cisma do Oriente: daquele dia em
diante, os cismáticos do Oriente não são mais considerados excomungados pelas autoridades
eclesiásticas.
E o Concílio Vaticano II não define mais os protestantes, anglicanos e ortodoxos como
heréticos ou cismáticos, mas como fiéis com os quais “a comunhão ainda não é perfeita”.
Julgada como uma sanção de outra época, eis que a excomunhão é agora aplicada
àqueles que haviam contestado seu abandono:
Quatro pastores protestantes da comunidade luterana de Taizé foram ordenados padres
católicos pelo Cardeal Ursi de Nápoles, sem que deles se exigisse a abjuração de suas heresias
protestantes, em decorrência das quais eles estão excomungados. Sim, porque hoje a única
coisa que se exige é a aceitação do Vaticano II, que aliás se coaduna muito bem com a religião
liberal protestante. O único Concílio não dogmático, o Vaticano II, foi transformado hoje no
único dogmático, cuja aceitação ficou sendo sinal de catolicidade, mesmo que se não aceitem
os outros Concílios dogmáticos. Essa é a absurda noção de “tradição viva” que querem nos
impingir.
São numerosos os casos passíveis de excomunhão “ipso facto” no Direito Canônico. Por
exemplo, a profanação das Santas Espécies, o aborto, a apostasia, a heresia e o cisma.
Ora, hoje, nem os abortadores, nem os atuais teólogos e professores heréticos, nem os
modernistas, nem os que apoiam publicamente o comunismo, ninguém é declarado
excomungado. Leonardo Boff (Frei), por exemplo, escreve contra a Santíssima Trindade, contra
o Primado do Papa, contra os dogmas marianos, defende o aborto, o comunismo, há vários anos.
Onde está sua sentença de excomunhão?
A excomunhão está unicamente destinada aos que procuram manter a Tradição. Vê-se
que uma tal punição é nula de pleno direito. As leis estão a serviço da justiça e não devem servir
para patrocinar a injustiça e acobertar erros.
Já temos demonstrado que a salvação das almas é a suprema lei da Igreja. Mais ainda,
ela é a própria razão de ser da Igreja. Professamos no Credo: “qui propter nos homines et
propter nostram salutem descendi-te de coelis etc”. O Filho de Deus se fez homem, padeceu e
morreu na Cruz, ressuscitou... por nós e por nossa salvação. Portanto, a Igreja e tudo quanto ela
encerra existe “propter nostram salutem”. Todas as leis eclesiásticas estão subordinadas a este
princípio supremo. Se, para salvar as almas, for necessária a não observância de uma lei
disciplinar, isso deve ser feito em nome daquela lei suprema.
Uma comparação: a finalidade das leis de trânsito é a conservação das vidas humanas
através da ordem na circulação. Mas se houver, por exemplo, um incêndio numa rua de trânsito
de sentido único e um carro entrar na contramão para salvar as pessoas, quem ousaria dizer-lhe
que estaria desobedecendo às leis de trânsito e que guarda de juízo normal pensaria em aplicar-
lhe uma multa?! A não ser que tenha sido o próprio guarda que ateou o incêndio!
Um estudo realizado pelo Prof. Georg May, presidente do Seminário de Direito Canônico
da Universidade Católica de Mayence, por nós já citado, explica: “Na Igreja é concebível um
estado de necessidade ou de urgência que não pode ser superado pela observância do direito
positivo. Uma tal situação existe quando a existência, a ordem ou a atividade da Igreja estão
ameaçadas ou lesadas de maneira considerável...”.

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E o Cânon 1323 do novo Código do Direito Canônico prevê: “Não é passível de nenhuma
punição a pessoa que, ao violar a lei ou o preceito, agiu impelida pela necessidade ou para evitar
grave inconveniente”.
E este caso de necessidade grave e urgente em que nos encontramos hoje, com grave
perigo para a Fé, não foi criado por nós, mas sim pela atual apostasia e patrocínio da heresia por
parte dos membros da nova Igreja conciliar.
Lembremo-nos de que o próprio Jesus foi também excomungado pelas autoridades
religiosas da religião verdadeira daquele tempo, o judaísmo. E, além disso, essas autoridades
resolveram excomungar todos os que seguissem Jesus (cf. Jo 9, 22).
Santo Atanásio, no século IV, não obedeceu ao Papa Libério que favorecia à heresia
ariana. Por isso o Papa o excomungou. Em três documentos o Papa afastou o grande bispo e
grande santo de sua “comunhão eclesial”: 1ª “Studens Paci”, 2ª “Pro deifico”, carta aos bispos
orientais, e 3ª “Quia scio”, carta a Ursacio, Valente e Germinio (ano 357) (Denz-Sch 138, 141 e
143), cartas estas já citadas neste opúsculo, pag. 15 e 16).
Depois destas cartas, o Papa Libério foi libertado do exílio.
“Pode parecer à primeira vista”, diz o Dicionário de Teologia, “que essa excomunhão
fosse apenas de ordem administrativa, por questões pessoais, ou por Atanásio ter se recusado
ir a Roma. Se assim fosse não implicaria em nada de maior gravidade para Libério. Mas o que foi
sumamente grave é que Libério excomunga Atanásio, depois de saber perfeitamente, como ele
mesmo reconhece, que os inimigos do bispo de Alexandria só procuravam abater nele o
defensor do dogma da consubstancialidade definido em Nicéia. Assim a excomunhão do
Alexandrino implica num reconhecimento de toda a facção que, há vinte anos, procurava, por
todos os meios, a revisão do Símbolo de Nicéia. E isto foi infinitamente mais grave” (D.T.C.
Athanasio col. 637).
Aquela sentença de excomunhão lançada contra Dom Antônio e Dom Lefebvre também
não foi simplesmente porque sagraram sem licença de Roma, mas sim porque eles personificam
a luta pelo conceito católico de Tradição que condena o modernismo instalado na Igreja.
Igualmente, no decorrer da História, muitos que hoje são santos canonizados, colocados
como nossos modelos, tiveram tratamento semelhante ao do Divino Mestre: São Basílio foi
acusado de heresia perante o Papa São Dâmaso; São Cirilo foi condenado como herege e
deposto por um Concílio de 40 bispos; São José de Calazans foi condenado solenemente e
deposto pelo Tribunal de Santo Ofício, e morreu na desgraça de Roma aos 92 anos de idade; e
assim muitos outros. Mas um dia a Igreja e a História lhes deram razão.
Santo Agostinho, no seu livro “De Vera Religione” – cap. 6, 11 – fala de católicos
injustamente excomungados que, pela paz da Igreja, suportam pacientemente esta afronta
imerecida. E termina dizendo: “A esses, o Pai, que vê no secreto interior, coroará secretamente.
Parece ser rara esta categoria de homens, mas exemplos não faltam e são ainda mais frequentes
do que se poderia crer”.
Existe também na Igreja uma excomunhão mais grave, pronunciada com maior
solenidade, usada pela Igreja, com frequência, nos seus Concílios dogmáticos contra os
contraditores de suas definições, os apóstatas e hereges, é o anátema (anathema sit).
Voltemos ao Dicionário de Teologia Católica:
“O anátema, segundo precisa Santo Agostinho, q. II, caus. II, c. 18, é mortal e é
interpretado no decreto do Concílio de Meaux, ano 845, q. II, caus. XI, can. 41, como a
condenação à morte eterna. É por isso que o anátema é infligido contra os contumazes, que
resistem obstinadamente à Igreja, não oferecendo nenhuma esperança de emenda, de sorte

28
que essa pena se aplica ao delito mortal, ou seja, ao delito no qual o delinquente se obstina até
à morte.
Tal é especialmente o caso dos hereges, contra os quais, de fato, vemos os cânones dos
Concílios pronunciar a sentença de anátema. Cf. por exemplo os cânones do Concílio de Trento
e do Vaticano I” (verbete excommunication – col. 1734).
Vamos então conferir, conforme a orientação do D.T.C., o Concílio Vaticano I, na Sessão
III a. 4 cânon 3:
“Se alguém disser que às vezes, conforme o progresso das ciências, pode se atribuir aos
dogmas propostos pela Igreja um outro sentido diferente daquele que ensinou e ensina a Igreja
– seja anátema”.
Confiramos também o Concílio de Trento:
“Se alguém disser que deve ser condenado o rito da Igreja Romana pelo qual parte do
Cânon e as palavras da Consagração são proferidas em voz baixa (...) seja anátema” (Denz. Sch.
1759).
Neste mesmo Cânon 9, o Concílio de Trento estabelece: “Se alguém disser... que a Missa
deve ser celebrada somente em língua vernácula – seja anátema”.
O Papa São Pio X, em nome de sua “Autoridade Apostólica” lançou a pena de
excomunhão automática, “ipso facto”, contra aqueles que dizem que o dogma “não somente
pode, mas deve evoluir...” e que “as fórmulas dogmáticas devem ser vivas”.
Se, por uma incrível falta de lógica e coerência, lançarem sobre o nosso bispo tradicional
uma sentença de excomunhão, só nos resta lamentar como o fez Dom Antônio:
“A excomunhão não nos deixa indiferentes. Mesmo sendo inválida, ela nos deixa tristes,
pois mostra o lamentável estado em que se encontra a parte humana da Igreja. Ela mostra a
intensidade da aversão que os atuais membros da Hierarquia nutrem para com aquilo que a
Igreja sempre fez”.

CAPÍTULO 13
E o Acordo?

Alguém poderia sugerir-nos tentar um acordo com Roma, que, dizem, estaria
ultimamente fazendo generosas ofertas aos tradicionalistas, provando sua retidão de intenção.
As propostas de acordo, no entanto, e as concessões feitas pelas autoridades romanas
após o Vaticano II tendem sempre à imposição do Concílio e da Reforma Litúrgica.
Em 1984, o Papa João Paulo II concedeu um “indulto” para a celebração da Missa
tradicional, mas os beneficiados devem reconhecer a exatidão doutrinária da Missa nova.
“Conste publicamente, sem ambiguidade alguma, que o referido sacerdote e os
respectivos fiéis não compartilhem em nada da atitude daqueles que põem em dúvida a
legitimidade e a exatidão doutrinária do Missal Romano promulgado pelo Romano Pontífice
Paulo VI em 1979”. (Epist. “Quatuor abhinc anos”, 3 de outubro de 1984 – A.A.S. 1/XII/1984, nº
76, p. 1088).
Na ordem prática os bispos se incubem de exigir ainda muito mais. A um sacerdote que
pedia à Cúria de São Paulo para celebrar a Missa tradicional no 7º dia do falecimento de seu

29
pau, foi-lhe imposta a condição: “contanto que o mesmo e as pessoas aceitem as decisões do
Concílio Vaticano II”.
Após as sagrações dos quatro novos bispos em Ecône, junho de 1988, a Santa Sé fez
mais algumas concessões, procurando, através de contatos, “recuperar os tradicionalistas”. Foi
o próprio Papa João Paulo II que manifestou esta intenção em discurso aos monges do Barroux:
“A Santa Sé concedeu a vosso mosteiro a faculdade que, longe de procurar frear a reforma
empreendida após o Concílio, essa concessão é destinada a facilitar a comunhão eclesial das
pessoas que se sentem ligadas a essas formas litúrgicas” – (L’Osservatore Romano, 2 de outubro
de 1990, ediç. francesa).
Para “recuperar” os tradicionalistas, foi criada uma comissão especial, a “Ecclesia Dei”.
Uma carta assinada pelo Cardeal Mayer, presidente da Comissão, declara bem o que pretende:
“Esta comissão tem, em vez disso, a intenção de agir de molde a poder inserir, do melhor
modo possível, os católicos tradicionais nas estruturas existentes na Igreja” (Carta a M. Henri
Congero, 23 de novembro de 1990).
Naquele referido encontro com os monges do Barroux, o Papa insistiu:
“Aproveito o ensejo para me dirigir àqueles e àquelas que estão ligados à Fraternidade
São Pio X. Eu os convido a se colocarem sob a direção do sucessor de Pedro e entrar em contato
com a Comissão “Ecclesia Dei”.
As intenções são claras. Qualquer tratativa, qualquer acordo será através da Comissão
que foi especialmente criada para nos fazer inserir, aos poucos, “nas estruturas existentes na
Igreja”: o Vaticano II, com o ecumenismo e a liberdade religiosa, a Missa nova, o Código novo...
etc.
Dom Lefebvre percebeu a tempo este perigo e, ao interromper as tratativas com Roma
em 1988, escreveu ao Papa: “Dado que a finalidade dos colóquios não é a mesma para a Santa
Sé e para nós, cremos preferir esperar tempos mais propícios ao retorno de Roma à Tradição”
(Carta ao Papa, 2 de junho de 1988).
O problema é de ordem doutrinária. Qualquer diálogo, qualquer acordo deve levar em
conta nossa posição doutrinária de absoluta fidelidade à Tradição. E já ficou mais do que
provado que isto é impossível para as atuais autoridades eclesiásticas. Só nos resta, então,
esperar pela volta de Roma à Tradição.
A história dos “ralliés” – aqueles que aceitaram os recentes acordos – comprova muito
bem o que temíamos: alguns deles já veem com bons olhos o Concílio, outros já assistem
publicamente a Missa nova, sobretudo, ficam todos eles vinculados aos bispos progressistas e,
à força de concessões, se tornam, no mínimo, soldados inúteis nesta luta contra a
autodemolição da Igreja, quando não cúmplices da sua destruição.

CAPÍTULO 14
A JURISDIÇÃO do NOVO BISPO

Citamos o Pe. Pivert, no opúsculo “des Sacres...”:


“Nosso Senhor legou à sua Igreja, sua Esposa e Mãe de nossas almas, todas as riquezas
da vida que Ele adquiriu sobre a Terra e mereceu na Cruz. Com essa riquezas, Ele deixou também
à Igreja o cuidado de transmiti-las. Este cuidado da Igreja sobre as almas que lhe são confiadas
por Deus é o que propriamente chamamos jurisdição. Esta jurisdição, que é um tesouro, e que

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podemos chamar de vigilância maternal e divina da Igreja sobre as almas, lhe permite ensinar-
lhes, santifica-las e governa-las. Ela é o corolário indispensável do poder de ordem, que, sem
ela, permaneceria suspenso e sem aplicação.
A Igreja, por sua vez, confia seus tesouros e, juntamente com eles, o cuidado das almas,
aos Bispos e aos padres. Ela o faz ordinariamente pela “missão canônica”, particular e
hierárquica. Mas, em caso de necessidade – e é o que temos procurado demonstrar – Ela mesma
completa tudo aquilo que a hierarquia não faz (qualquer que seja a causa) no momento em que
seus filhos dela têm necessidade, porque a Mãe não pode abandonar seus filhos. Ela completa,
dizemos que Ela supre, dando diretamente aos padres e aos bispos, em virtude da missão geral
que recebeu de seu Divino Esposo, o cuidado das almas, quer dizer, a jurisdição, tanto quanto
os fiéis têm necessidade dela; tanto, quer dizer, nem mais nem menos” (“Des Sacres...” p.p. 46-
47).
Em uma “Nota” sobre a jurisdição do novo bispo tradicional no Brasil, Dom Lefebvre
lembrou com muito acerto:
“A jurisdição do novo bispo não é territorial, mas pessoal, como o é também a jurisdição
dos padres.
Na medida em que os fiéis vêm pedir aos padres e aos bispos os sacramentos e a
doutrina da Fé, esses têm o dever de vigiar sobre a boa recepção e bom uso da doutrina e da
graça do Santo Sacrifício da Missa dos Sacramentos. Os fiéis não podem pedir os Sacramentos e
recusar a autoridade vigilante dos padres e do bispo”.
A jurisdição não é uma coisa dispensável na Igreja, ela também é necessária para a
salvação das almas, porquanto regula e orienta os meios de santificação.
Valem então os mesmos princípios que já temos enunciado: o estado de extrema
necessidade espiritual e o consequente direito de necessidade. O direito dos fiéis aos
sacramentos e à doutrina exige a autoridade vigilante dos padres e do bispo sobre a boa
administração dos sacramentos e a pregação da doutrina.
De onde vem então esta jurisdição do novo bispo? De Dom Lefebvre, de Dom Antônio,
do bispo sagrante? De modo algum. O novo bispo a receberá simplesmente da Igreja,
correlativamente ao dever de exercer o ministério.
“O novo bispo, continua Dom Lefebvre na “Nota”, não tem outro título de jurisdição a
não ser aquele que lhe vem do apelo aos sacerdotes e fiéis para cuidar de suas almas...”
O bispo já tem radicalmente, de sua própria sagração episcopal, a “capacitas regendi”,
a capacidade para a jurisdição. Essa capacidade é colocada em ato pela “missão canônica” que,
de modo ordinário, vem da hierarquia. Mas em épocas extraordinárias quando a própria
hierarquia falha do seu principal dever que é prover a Igreja de bons bispos, a própria Igreja vem
em socorro das almas em perigo. A Igreja supre essa falha da hierarquia, dando Ela mesma a
jurisdição. O novo bispo terá assim a sua jurisdição caso por caso, em cada caso de necessidade,
suprida pela Igreja.
Qual é a base jurídica dessa suplência da Igreja?
A legislação canônica não pode prever todas as situações particulares ou os casos
extraordinários que acontecem. Nem mesmo o Código Canônico contém todas as leis da Igreja.
São as chamadas “lacuna jurídicas”. Para suprir esta falta da legislação explícita, o Código
estabelece quatro recursos, dentre os quais assinalamos dois para o caso presente.
Assim reza o Cânon 20 (19 do novo Código):
“Quando sobre determinada matéria não existe prescrição expressa da lei, nem geral
nem particular, a norma deve tomar-se, a não ser que se trate de aplicar alguma pena, das leis

31
dadas para os casos semelhantes; dos princípios gerais do direito, aplicados com equidade
canônica...”.
Vamos à aplicação, conforme os princípios da analogia canônica:
O Código não prevê o caso extraordinário em que autoridades comprometidas com os
erros de um Concílio pastoral tentam impô-lo à Igreja, mediante a nomeação exclusiva de bispos
alinhados a este Concílio. Como também não prevê o consequente estado de extrema
necessidade espiritual de bispos fiéis à Igreja de sempre.
Temos, então, os recursos canônicos para esta situação anormal e extraordinária:
1) os “princípios gerais do direito”: destes princípios, o mais universal é a “salus
animarum”, salvação das almas; ou aquele outro “sacramenta propter homines”;
2) as “leis dadas em casos semelhantes”: para o caso presente valem aquelas que
preveem situações urgentes e extraordinárias de suplência da jurisdição para o bem das almas:
- no perigo de morte: c. 882 (970 no novo Código);
- na dúvida positiva e provável: c. 209 (144 no novo Código);
- no erro comum: c. 209 (144 no novo Código);
- no grave incômodo: c. 1098 (1116 no novo Código).
Os exemplos históricos que apresentamos também esclarecem: sagrações e nomeações
de bispos sem o conhecimento do Papa e da Santa Sé. O caso de Santo Atanásio, Santo Eusébio
de Samosata, dos bispos clandestinos nos países comunistas...
Se se objeta que, nestes casos, o Papa estaria dando implicitamente a jurisdição,
respondemos com o Pe. Coache: “Uma jurisdição “ad actum” requer necessariamente a
intervenção da vontade e não pode ser implícita”. Nestes casos, trata-se então de uma jurisdição
que a Igreja supre diretamente para o bem das almas.
“Os leigos, afirma o Pe. Pivert, ficam frequentemente surpresos de que a Igreja
enquanto tal, possa agir sem o Papa. Mas a Igreja não é o Papa, nem reciprocamente. Ela é o
Corpo Místico de Cristo, que é a sua Cabeça. É Ele que, nela, exerce todos os poderes... (O Papa
é seu representante visível, seu Vigário – ndr). Nosso Senhor não perde por isso a possibilidade
de exercê-los por si quando julga útil e notadamente quando o Papa falha – “Eis que Eu estarei
convosco todos os dias até o fim do mundo” – É o que se passa durante a vacância da Sé entre
dois Papas, por exemplo. É o que se dá também quando a jurisdição é suprida.
Além disso, o novo Código, por uma simples “utilidade espiritual” (?!), concede aos
católicos o direito de recorrerem até a ministros não católicos:
“Sempre que a necessidade o exigir ou a verdadeira utilidade o aconselhar... é lícito aos
fiéis a quem for física ou moralmente impossível dirigir-se a um ministro católico, receber os
sacramentos da Penitência, Eucaristia, e Unção dos Enfermos das mãos de ministros não
católicos...” (C. 844, §2).
Ora, o nosso caso não é o de simples utilidade espiritual, mas gravíssimo estado de
extrema necessidade espiritual, perigo de morte eterna (se procurarmos bispos progressistas);
cabe-nos, portanto, o direito de ter e recorrer a nossos bispos perfeitamente católicos, que
serão munidos de jurisdição para nos atender, jurisdição “quam supplet Ecclesia”.

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Apêndices
Documentos

Cartas de S. Exa. Dom MARCEL LEFEBVRE

33
TRADUÇÃO

Ecône, 4 de dezembro de 1990

Caríssimo Dom Antônio de Castro Mayer


Ecos me chegam do Brasil...
Gostaria de aproveitar desta ocasião para consignar por escrito, para V. Exa. e seus
padres, minha opinião, porque não é mais do que uma opinião, sobre uma eventual sagração
episcopal para suceder V. Exa. na transmissão da Fé católica e na administração dos sacramentos
reservados ao Bispo.
Por que empreender uma tal sucessão fora das normas canônicas habituais?
1. porque os padres e os fiéis têm um direito estrito de ter Pastores que professem na
sua integridade a Fé católica, essencial para a salvação das almas, e padres que sejam
verdadeiros padres católicos.
2. porque a “Igreja conciliar”, tendo-se expandido universalmente, difunde erros
contrários à Fé católica e, em razão destes erros, corrompeu as fontes da graça que são o Santo
Sacrifício da Missa e os Sacramentos. Esta falsa Igreja está em ruptura cada vez mais profunda
com a Igreja Católica.
Resulta então destes princípios e destes fatos a necessidade absoluta de continuar o
episcopado para continuar a Igreja católica.
O caso da Fraternidade Sacerdotal São Pio X se apresenta de maneira diferente do caso
da diocese de Campos.
Parece-me que o caso da diocese de Campos é mais simples, mais clássico, porque se
trata da maioria dos padres diocesanos e dos fiéis, que, com o conselho do antigo Bispo,
designam o sucessor e pedem a bispos católicos que o sagrem.
É precisamente deste modo que a sucessão dos bispos se realizou nos primeiros séculos,
em união com Roma, como nós também estamos em união com a Roma católica e não com a
Roma modernista.
É por isso, a meu ver, que não convém ligar o caso de Campos à Fraternidade. O pedido
aos bispos da Fraternidade para a eventual sagração não seria feito enquanto bispos da
Fraternidade, mas enquanto bispos católicos.
Os casos devem estar bem separados. Isso não é sem importância para a opinião pública
e para a Roma atual. A Fraternidade não deve ser questionada sobre isso e deixa toda a
responsabilidade sobre os padres de Campos e sobre os fiéis de Campos.
Para que essa distinção seja bem clara, seria preferível que as cerimônias se realizassem
em Campos, ao menos na diocese. É o clero e o povo fiel de Campos que se dão um sucessor
dos apóstolos; um Bispo católico, romano, visto que não podem tê-lo da Roma modernista.
Eis minha opinião, penso que ela se apoia sobre as leis fundamentais do Direito
eclesiástico e sobre a Tradição.
Caríssimo Monsenhor, eu lhe submeto com muita simplicidade meus pensamentos, mas
é o senhor quem julga e eu me submeto a seu julgamento. Digne-se Deus, Nosso Senhor, dar-
lhe saúde suficiente para realizar esta sagração.
Aceite, Exa., o testemunho de minha profunda e sincera amizade em Jesus e Maria.
+ Marcel Lefebvre

34
- TRADUÇÃO –

NOTA À RESPEITO DO NOVO BISPO, SUCESSOR DE DOM ANTÔNIO

Parece-me muito importante precisar bem a solução dos problemas de jurisdição do


novo Bispo com relação aos padres e fiéis.
Em primeiro lugar, é preciso observar que sua situação não é exatamente a mesma que
a de Dom Mayer. Este é doravante Bispo emérito de Campos, depois de ter sido o Bispo
residencial. Donde se podia concluir que ele conservava, se não um poder jurídico, pelo menos
um poder moral, que, consideradas certas circunstâncias, podia justificar uma ação pastoral à
frente de seus antigos padres e fiéis.
Não é o caso do novo Bispo, que não tem outro título de jurisdição a não ser o que lhe
vem do apelo dos sacerdotes e fiéis de cuidar de suas almas e das dos seus filhos, os quais
(sacerdotes e fiéis) lhe pediram aceitasse o Episcopado para dar-lhes mais padres católicos e a
graça do sacramento da Confirmação.
Assim é manifesto que a jurisdição do novo Bispo não é territorial, mas pessoal, como
se torna também a jurisdição dos padres.
Na medida em que os fiéis vêm pedir aos padres e ao Bispo os Sacramentos e a doutrina
da Fé, estes têm o dever de vigiar sobre a boa recepção e o bom uso da doutrina e da graça do
Sacrifício da Missa e dos sacramentos. Os fiéis não podem pedir os sacramentos e recusar a
autoridade vigilante dos padres e do Bispo.
Para zelar pela boa ordem do apostolado e pela sua eficácia, a organização da
Fraternidade do Santo Cura d’Ars parece muito feliz e deveria reunir obrigatoriamente todos os
padres desejosos de continuar o apostolado tradicional.
Pareceria desejável que o Bispo recentemente consagrado fosse nomeado presidente
perpétuo do Conselho Presbiteral, a fim de que ele detivesse uma autoridade indispensável para
as nomeações dos padres, para as novas fundações, para os auxílios interparoquiais, para o
Seminário, para as Sociedades Religiosas.
Já que a autoridade jurisdicional do Bispo não lhe vem de uma nomeação romana, mas
da necessidade da salvação das almas, ele deverá exercê-la com uma delicadeza especial e levar
em conta mais especialmente seu conselho presbiteral.
Doutra parte, os fiéis e os padres devem reconhecer a graça de ter um Pastor sucessor
dos Apóstolos e guardião de tradição do depósito da Fé, do Sacrifício Eucarístico, do Sacerdócio
católico e da graça dos Sacramentos, e por conseguinte facilitar o exercício de sua autoridade
por uma generosa obediência.
Não sendo territorial mas pessoal a jurisdição do Bispo e tendo como fonte o dever para
os fiéis de salvar suas almas, se um grupo de fiéis nas dioceses vizinhas faz apelo ao Bispo para
ter um padre, este grupo dá, por isso mesmo, poder ao Biso de velar pela transmissão da Fé da
graça neste grupo, por intermédio do padre que ele envia.
Assim, parece-me, se resolveriam na ordem conforme ao espírito da Igreja, os delicados
problemas que subleva a consagração episcopal sem o mandato explícito de Roma, mas com o
mandato implícito da Igreja Romana, guardiã da Fé.
O novo Bispo permanece o vínculo ontológico com a Igreja fiel a seu Divino Esposo, N.
S. Jesus Cristo.
20 de fevereiro de 1991
+ MARCEL LEFEBVRE

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Cartas à Santa Sé e Declarações

Há Vinte Anos...

Desde o Concílio Vaticano II a crise da Igreja vem se agravando alarmantemente.


Desde o Concílio Dom Marcel Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer vêm advertindo
os Papas, pública e particularmente, sobre os erros difundidos no seio da Igreja. Essas
advertências nunca foram tomadas em consideração, ao contrário, foram interpretadas como
rebeldia e contestação.
Desde o Concílio os dois bispos pediam aos Papas que tomassem providências para que
a Igreja possa manter o verdadeiro sacerdócio, o Santo Sacrifício da Missa no seu rito católico e
a doutrina tradicional.
Nada foi feito neste sentido nestes quase trinta anos. Ao contrário, os progressistas
foram tomando conta de todos os postos-chave na Igreja, neutralizando toda a reação em favor
da Tradição.
A resolução de sagrar bispos fiéis à Tradição católica não foi uma decisão irrefletida,
intempestiva dos dois bispos. Ela é consequência de uma dolorosa constatação: as atuais
autoridades da Igreja estão perdendo a Fé e arruinando a Igreja.

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36
JANEIRO DE 1974 NOVEMBRO DE 1983
CARTA DE DOM ANTÔNIO A PAULO VI CARTA ABERTA AO PAPA – MANIFESTO
“Ao longo destes anos foi tomando EPISCOPAL
corpo em meu espírito a convicção de que Dom Marcel Lefebvre e Dom Antônio
atos de Vossa Santidade não têm, com os de Castro Mayer
Pontífices que o antecederam, aquela A situação da Igreja é tal, há uns vinte
consonância que com toda alma eu neles anos, que se assemelha a uma cidade
desejaria ver... ocupada.
Limito-me a submeter a Vossa Milhares de sacerdotes e milhões de
Santidade três estudos: fiéis acham-se num estado de angústia e
1) Sobre a “Octogesima Adveniens” perplexidade, motivada pela autodestruição
2) Sobre a liberdade religiosa da Igreja: os erros contidos em documentos
3) Sobre o Novo Ordo Missae... do Concílio Vaticano II, as reformas pós-
de modo especial suplico a Vossa conciliares, especialmente a reforma
Santidade queira declara-me: litúrgica, as falsas concepções difundidas por
a. Se encontra algum erro nas documentos oficiais, os abusos de poder
doutrinas expostas nos três estudos anexos. cometidos por membros da Hierarquia
b. Se vê na atitude assumida nos ditos deixam os fiéis perturbados e confusos.
estudos face aos documentos do Supremo Semelhante situação vem causando em
Magistério, algo que destoe do acatamento muitos a perda da fé, o resfriamento da
que a estes devo como bispo...” caridade, e destruindo o conceito de unidade
da Igreja no templo e no espaço.
Resposta: “As cartas de 25 de janeiro
p.p. ... chegaram ao destino.” Sensibilizados pelas angústias de
tantas almas desorientadas que em todo o
mundo, desejam perseverar na identidade da
NOVEMBRO DE 1974 mesma Fé e da mesma Moral, tal como foi
DECLARAÇÃO DE DOM LEFEBVRE definida pelo Magistério da Igreja ou por ela
ensinada de modo constante e universal, Nós,
Nós aderimos de todo coração, de
Bispos da santa Igreja Católica, Sucessores
toda a nossa alma à Roma Católica, guardiã da
dos Apóstolos, julgamos que não nos seria
fé católica e das tradições necessárias para
lícito calar sem sermos cúmplices de obras
manutenção desta fé, à Roma eterna, mestra
malignas (cf. II Jo. 11).
de sabedoria e de verdade.
Eis porque, baldadas as diligências
Nós recusamos ao contrário e sempre
feitas, nestes últimos quinze anos, em caráter
recusaremos seguir a Roma de tendência
particular, vemo-nos obrigados a intervir
neo-modernista e neo-protestante que se
publicamente junto de Vossa Santidade para
manifestou claramente no Concílio Vaticano
denunciar as causas precípuas desta
II e depois do Concílio em todas as reformas
angustiante situação da Igreja e suplicar-lhe
que dele saíram.
que, usando seus poderes pontifícios,
Todas estas reformas, de fato, “confirme seus irmãos” (Luc. XXII, 32), na fé
contribuíram e contribuem ainda para a que nos fielmente transmitida pela Tradição
demolição da Igreja, para a ruína do Apostólica...
Sacerdócio, do Sacrifício e dos Sacramentos...
É urgente que esse mal-estar cesse
Eis porque, sem nenhuma rebelião, logo, porque o rebanho se dispersa e as
nenhuma mágoa, nenhum ressentimento, ovelhas abandonadas estão seguindo
nós prosseguiremos nossa obra de formação mercenários. Nós conjuramos Vossa
sacerdotal, sob a orientação do Magistério de Santidade, pelo bem da Fé católica e da
sempre, persuadidos de que não podemos salvação das almas, a que reafirme as
prestar melhor serviço à Santa Igreja Católica, verdades contrárias a esses erros. Verdades
ao Sumo Pontífice e às gerações futuras...”

37
que nos foram ensinadas pela bimilenar Igreja Porque é precisamente isto que
de Jesus Cristo. preocupa àqueles que ainda permanecem
É com intenção de auxiliar Vossa católicos...
Santidade que lançamos este grito de alarme, Tudo aquilo que foi posto em prática
que se torna ainda mais veemente diante dos pela Igreja para defender a Fé nos séculos
erros, para não dizer heresias, do Novo passados... é considerado doravante como
Código de Direito Canônico, e as cerimônias e uma falta da qual a Igreja deveria se acusar e
discursos ao ensejo do 5º Centenário de pedir perdão...
Lutero. Verdadeiramente ultrapassaram-se Quanto a nós, permanecendo
os limites...” indefectivelmente na adesão da Igreja
AGOSTO DE 1985 Católica e Romana de sempre, somos
SOLENE ADVERTÊNCIA DE DOM LEFEBVRE E obrigados a verificar que esta religião
DOM ANTÔNIO A JOÃO PAULO II modernista e liberal da Roma moderna e
conciliar se afasta cada vez mais de nós, que
“Não cessamos de protestar no professamos a fé católica dos onze Papas que
Concílio e depois do Concílio contra o
condenaram esta falsa religião.
escândalo inconcebível desta falsa liberdade
religiosa, nós o fizemos de viva voz e por A ruptura, portanto, não vem de nós,
escrito, privada e publicamente, apoiando- mas de Paulo VI e de João Paulo II, que
nos sobre documentos dos mais solenes do rompem com seus predecessores...”
Magistério da Igreja... JUNHO DE 1988
Eis porque, se o próximo Sínodo não DECLARAÇÃO DE DOM LEFEBVRE NAS
retornar ao Magistério Tradicional da Igreja SAGRAÇÕES
em matéria de liberdade religiosa, mas “Nada é mais urgente na Igreja do
confirmar este erro grave, fonte de heresias, que formar um clero que repudie esse
estaremos no direito de pensar que os espírito adúltero e modernista e salvar a
membros do Sínodo já não professam mais a honra da Igreja e de seu Divino Fundador,
fé católica. conservando a Fé integral e os meios
Neste caso só nos resta perseverar na estabelecidos por Nosso Senhor e pela
santa Tradição da Igreja e tomar todas as Tradição da Igreja para manter essa Fé e
decisões necessárias para que a Igreja transmitir a vida da graça e os frutos da
conserve um clero fiel à Fé católica, capaz de Redenção.
repetir segundo São Paulo: “tradidi quod et Desde há quase vinte anos que nos
accepi”.” esforçamos com paciência e firmeza por fazer
DEZEMBRO DE 1986 compreender às autoridades romanas essa
DECLARAÇÃO DE DOM LEFEBVRE E DOM necessidade do regresso à sã doutrina e à
ANTÔNIO Tradição, para renovação da Igreja, para a
salvação das almas e para a glória de Deus.
Como consequência da visita de João
Paulo II à Sinagoga e ao Congresso de Assis. Porém ficam surdos às nossas
súplicas e, pior ainda, pedem que
“Roma nos mandou perguntar se reconheçamos toda a justeza do Concílio e
tínhamos a intenção de proclamar nossa das reformas que arruínam a Igreja...
ruptura com o Vaticano por ocasião do
Congresso de Assis. Para salvaguardar o sacerdócio
católico e continuar a Igreja católica – e não a
Parece-nos que a pergunta deveria, Igreja adúltera – precisamos de bispos
antes, ser esta: o senhor acredita e tem a
católicos.
intenção de declarar que o Congresso de Assis
consuma a ruptura das autoridades romanas Vemo-nos, pois, obrigados, devido à
com a Igreja Católica? invasão modernista no clero atual, e até às
mais altas esferas no seio da Igreja, a
consagrar bispos.”

38
DECLARAÇÃO DE DOM ANTÔNIO NAS SAGRAÇÕES
“Quero demonstrar aqui minha adesão sincera e profunda à posição de Sua Excelência
Monsenhor Marcel Lefebvre, ditada por sua fidelidade à Igreja de todos os séculos. Ambos
bebemos na mesma fonte, que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana”.

DEZEMBRO DE 1988
ORDENAÇÃO EM VARRE-SAI
DECLARAÇÃO DE DOM ANTÔNIO
Nosso Senhor Jesus Cristo dotou sua Igreja de um sacrífico perfeito, visível como convém
à natureza dos homens. Fê-lo na véspera de sua Paixão, na Última Ceia, oferecendo-se como
vítima ao Pai Eterno, sob as espécies de pão e vinho. E ordenou a seus Apóstolos – que no
momento constituiu sacerdotes – e aos seus sucessores, que renovassem aquele mesmo
sacrifício, essencialmente idêntico ao do Calvário, embora incruento: o Santo Sacrifício da Missa.
Portanto, o Sacerdócio católico, como Nosso Senhor instituiu, é essencial à Igreja. Sem
o padre não há o Santo Sacrifício da Missa. Só ele é o sacrificador. Ele é que administra os
Sacramentos e dispõe as almas para recebe-los.
Ora, vivemos – ninguém nega – uma terrível crise na Igreja, que atinge profundamente
o sacerdócio católico. A perpetuidade do Santo Sacrifício da Missa, a administração dos
Sacramentos, a guarda e transmissão fiel da fé católica estão hoje séria e grave ameaçadas:
1) pelo novo conceito do sacerdócio: mero presidente de assembleia, como entre os
protestantes;
2) pelos novos seminários, que não oferecem mais uma formação autenticamente
católica, mas uma orientação liberal e permissivista, diametralmente oposta às diretivas do
Concílio de Trento e dos documentos pontifícios até Pio XII;
3) pela nova liturgia, particularmente pelo novo rito da Missa, que “representa, tanto
em seu conjunto como em pontos particulares, uma afastamento impressionante da doutrina
católica da Santa Missa”;
4) pelas iniciativas “ecumênicas” promovidas pela mais alta hierarquia, as quais
conduzem a um radical indiferentismo religioso;
5) pelas publicações que pululam por toda parte, invadindo paróquias e lares, atacando
as verdades da fé e pregando abertamente a luta de classes, o comunismo e o socialismo.
Por tudo isso é inegável o gravíssimo estado de necessidade na Igreja. Necessidade de
padres católicos para o Santo Sacrifício, para os Sacramentos, para a doutrina.
Quando as autoridades da Igreja se recusam a dar-lhe destes padres verdadeiramente
católicos, um bispo não pode pretender ter cumprido seu dever, se limita a resistir na fé, como
um leigo. Diante de Deus, de Quem recebi, na sagração episcopal, a plenitude do poder de
ordem, afirmo que, na presente crise, não só é lícito, mas urge mesmo como dever
impostergável utilizar destes poderes para o bem das almas.
Declaro, por fim, que só realizo esta ordenação sacerdotal por sabe-la inteiramente lícita
e de acordo com a vontade da Igreja perene. Cumpro a missão que me foi confiada: transmitindo
o sacerdócio católico que recebi.
“Traditi ... quod et accepi”.

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S. EXA. D. ANTÔNIO DE CASTRO MAYER E S. EXA. D. MARCEL LEFEBVRE

Nossa homenagem póstuma filial aos dois ínclitos defensores da Fé, exemplo de
fidelidade à Santa Igreja, autênticos sucessores dos Apóstolos, instrumentos de Deus para
salvar o sacerdócio católico e defender a Santa Igreja contra os anti-cristos que promovem
sua autodemolição. Por isso, sofreram as injúrias e execrações públicas decorrentes da
inválida excomunhão lançada contra eles. Mas Deus lhes fará justiça no Céu, e, com a
Vitória da Santa Igreja, lhes dará completa razão para confusão dos seus inimigos.

“IPSA CONTERET”_________________________”CREDIDIMUS CARITATI”

“POR FIM O MEU IMACULADO CORAÇÃO TRIUNFARÁ”

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_CARTA_

DOS PADRES DA DIOCESE DE CAMPOS


À S.S. O PAPA JOÃO PAULO II
12 de agosto de 1981

Desde 1981, nós, padres de Campos, pedimos ao Papa um bispo tradicional.


Diante dos boatos de uma possível substituição do Bispo Diocesano, em 1981, pedíamos
ao Papa a conservação de Dom Antônio de Castro Mayer, que gozava de boa saúde e plena
lucidez.
O Papa respondeu no dia 16 de setembro do mesmo ano, substituindo Dom Antônio por
um bispo demolidor da Fé e da Santa Missa Tradicional. Um Bispo que veio a Campos para
implantar, a ferro e fogo, as desastrosas reformas conciliares.

*
*
**************
*
*
*
*

SANTÍSSIMO PADRE
Humildemente prostrados aos pés de Vossa Santidade, nós, sacerdotes da Diocese de
Campos, Estado do Rio de Janeiro, Brasil, protestamos a mais inteira submissão à Cátedra de
Pedro e a todos os ensinamentos da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, à qual temos a
honra de pertencer e em cujo regaço, com a graça de Deus, esperamos morrer.
Santíssimo Padre, pedimos vênia a Vossa Santidade para formular um pedido ditado
pela nossa consciência sacerdotal.
Ultimamente, correm nos meios eclesiásticos insistentes boatos, que nos têm chegados
aos ouvidos, de uma iminente substituição do nosso amado Bispo, Dom Antônio, por motivo de
já ter ultrapassado os setenta e cinco anos de idade. Santíssimo Padre, eis a nossa súplica que,
temos a certeza, será atendida: para tranquilidade de nossa consciência e bem espiritual dos
fiéis desta Diocese, que Vossa Santidade nos conserva como Pastor ao nosso atual Bispo
Diocesano.
Sua Excelência o Sr. Bispo, Dom Antônio de Castro Mayer, está em pleno gozo de saúde
e vigor de corpo e alma, conservando especialmente o brilho de sua invulgar inteligência e tino
de governo, como se pode comprovar pelas periódicas visitas às Paróquias da Diocese, pela
assiduidade às aulas na Faculdade de Direito e no Seminário Maior, pelas frequentes Cartas
Pastorais, enfim pela multiforme atividade de pastor nos diversos setores eclesiais diocesanos.

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Ao longo de seu pastoreio, Dom Antônio, com zelo, ciência e prudência, conseguiu
transmitir e conservar no seu rebanho a pureza da fé – dever precípuo do Bispo – como
testemunham seus sermões e cartas pastorais, traduzidas em várias língua, eco fidelíssimo da
doutrina da Igreja. E isto, nesta época de crise, cuja terrível situação espiritual Vossa Santidade
tão bem exprimiu no Discurso do Congresso das Missões, a 6 de fevereiro do corrente ano: “É
preciso admitir realisticamente e com profunda e dolorosa sensibilidade, que os cristãos hoje,
em grande parte, se sentem dispersos, confusos, perplexos e até mesmo desiludidos; foram
espalhadas à mãos cheias ideias contrárias à Verdade revelada e sempre ensinada; propagaram-
se verdadeiras heresias nos campos dogmáticos e moral, criando dúvidas, confusões e rebeliões;
também a Liturgia foi violada. Imersos no (...) permissivismo, os cristãos são tentados pelo
ateísmo, pelo agnosticismo e pelo iluminismo vagamente moralista e por um cristianismo
sociológico, sem dogmas definidos e sem moral objetiva.”
Neste ambiente poluído pela “fumaça de Satanás a invadir o recinto da Igreja”, segundo
a expressão do Papa Paulo VI, como têm escandalizado os nossos fiéis os abusos na Santa
Liturgia praticados pelos sacerdotes, verdadeiras profanações no lugar santo, que infelizmente
os Senhores Bispos não têm podido coibir! ...Nosso Pastor, com prudência e energia, tem zelado
pelo decoro na Casa de Deus e pela dignidade no Culto Divino de maneira a não permitir tais
abusos no território de sua Diocese.
Neste particular, como nos conforta e tranquiliza a consciência, o exemplo de fidelidade
de Sua Excelência ao rito multissecular de celebração da Santa Missa, codificado por São Pio V,
e objeto de um indulto perpétuo concedido por este Santo Papa aos sacerdotes do mundo
inteiro! A respeito do “Novus Ordo Missae” promulgado por Paulo VI, já tivemos a oportunidade
de nos dirigir àquele Papa, afirmando a nossa concordância com a conclusão a que chegaram
aos E.mºs Senhores Cardeais Ottaviani e Bacci, no “Breve Exame Crítico”, datado de 1969: “O
Novus Ordo Missae... representa tanto no seu todo como em suas partes um afastamento
impressionante em relação à teologia católica da Santa Missa, tal como foi formulada na Sessão
XXII do Concílio de Trento.”
Os lares do nosso país são invadidos por uma enxurrada de jornais, revistas e livros
deletérios em matéria de fé e moral, munidos de aprovação eclesiásticas, publicados e
distribuídos por Editoras que se dizem católicas. Dom Antônio, ao contrário, tem promovido a
publicação de manuais catequéticos, revista e jornal de segura orientação doutrinária, que
divulgam o genuíno pensamento da Igreja sem contemporização nem conivência com o erro.
Outra prova do zelo pastoral de Sua Excelência é o cuidado com o Seminário, nos moldes
tradicionais, sempre em funcionamento, que possibilita a renovação do Clero, fornecendo
contingentes de novos para substituir os operários que envelhecem no amanho da vinha do
Senhor. Além disso, dos padres formados no Seminário de Dom Antônio, nem um, graças a Deus,
apostatou até hoje.
Ora, em quantas Dioceses do Brasil, os Seminários estão fechados, as apostasias se
multiplicam, fazem-se experiências catastróficas para o futuro do catolicismo no Brasil: aí estão
as estatísticas a nos mostrar a triste realidade em nosso país: à medida que cresce o número de
habitantes, o número de sacerdotes decresce.
Ao contrário de tantos eclesiásticos que se apresentam levianamente à paisana, Dom
Antônio, revestido de sua batina tradicional, tão amada e respeitada pelo nosso bom povo
católico, representa para nós a tradição viva da Igreja, a imagem do verdadeiro Pastor, o homem
de Deus, preocupado com a salvação das almas que a Divina Providência lhe confiou, incutindo

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sempre no clero e fiéis, junto com o amor à Igreja, a prudência e o tato para distinguir as heresias
e delas fugir, advertindo-nos contra toda sorte de erros, desde os ardis da seita comunista até
os meandros do ecumenismo liberal.
Quando vemos ao nosso redor que a moda é o “traje civil” sem nenhum distintivo
sacerdotal, as maneiras desenvoltas, o linguajar ambíguo, a preocupação com a promoção
humana, a ênfase na defesa dos direitos humanos com a total obliteração dos sacrossantos
direitos de Deus, o horizontalismo, a supremacia do social sobre o religioso, a “teologia da
libertação” – assalta-nos o temor de perdermos nosso Pastor por uma questão acidental de
idade, que absolutamente não lhe tirou a capacidade de governar a diocese, e vermos ruir o
edifício pacientemente levantado ao longo de anos de incansável labor e fadiga; poluir-se o
ambiente a duras penas conservado; perder-se a paz da consciência, a segurança doutrinária e
a tranquilidade da vida religiosa em nossas Paróquias. Tal transtorno, acarretando a perturbação
dos espíritos, teria consequências imprevisíveis. Poderíamos calar diante dos prejuízos que, com
certeza moral prevemos, colherão as almas? Seria pecado de omissão. Poderíamos colaborar
com a perda das almas, assistindo inertes à derrocada dos princípios que ajudamos a conservar?
Seria infidelidade e traição.
Santíssimo Padre, somos sacerdotes de Cristo e queremos ser fiéis ao nosso sacerdócio.
Somos filhos amorosos e incondicionais da Igreja e exprimimos, do amago do coração, nossa
adesão total à sua doutrina de vinte séculos, que não nos enganou. Manifestamos nosso
profundo horror a todas as heresias e cismas condenados pela Igreja, especialmente ao
modernismo, cujo repúdio expressamos, com juramento, às vésperas do nosso presbiterato.
Não queremos, de modo algum, colaborar com a autodemolição da Igreja, lamentada pelo Papa
Montini, autodestruição esta que, após o Concílio Vaticano II, vem assumindo as mais variadas
formas e penetrando no campo da Liturgia, no Dogma, da Moral, da Pastoral, enfim em toda a
vida da Igreja. Queremos ser fiéis à graça que nos foi dada pela imposição das mãos episcopais.
É em nome dessa fidelidade e confiados no coração compreensivo e bondoso do Pai
Comum, que resolvemos abrir a Vossa Santidade a nossa alma de sacerdotes católicos. É o
próprio amor à Igreja de Cristo que nos constrange.
Que a Virgem Santíssima, Senhora nossa, Rainha do Clero e dos Apóstolos, de Quem
Vossa Santidade é fervoroso e filial devoto e cuja devoção constitui característica especial da
vida de Dom Antônio e de sua Diocese, saiba mover o coração paterno de Vossa Santidade para
no-lo conservar como Pastor.
Renovando os mais profundos sentimentos de veneração para com a Augusta Pessoa do
Vigário de Jesus Cristo na terra, imploramos, para nós e nosso ministério, a Benção Apostólica.
In Iesu et Maria
Campos, 12 de agosto de 1981.

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ABAIXO-ASSINADO

Os abaixo-assinados, católicos, apostólicos, romanos, fiéis à Tradição, se dirigem aos


sacerdotes da União Sacerdotal São João Batista Maria Vianney para expor uma gravíssima
preocupação e fazer um pedido.
Presenciamos e vivemos um drama terrível, único na História da Igreja, o de uma crise
geral e muito grave que, desde o último Concílio, a afeta profundamente, atingindo as próprias
fontes da graça e da salvação, que são a Fé, a Santa Missa e os Santos Sacramentos. E os atinge
tanto diretamente, enquanto os dessacraliza, como indiretamente, enquanto abala a Fé católica,
que é a condição de sua recepção digna e frutuosa, e pois, de salvação, porque sem a Fé é
impossível salvar-se.
Em face deste terrível perigo, que ameaça a salvação das nossas almas e das almas dos
nossos filhos, e porque a hierarquia e o próprio Papa não mostram qualquer sinal de querer
acudir a esta tremenda tragédia da Cristandade, antes a agravam sistematicamente, pedimos
que os padres da União Sacerdotal São João Batista Maria Vianney providenciem para que um
de seus membros seja sagrado Bispo para o cuidado de nossas almas. Um Bispo que nos
transmita a verdadeira Fé e nos comunique, de maneira certa e digna, as graças da salvação.
Junho de 1991.

Seguem as assinaturas.

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