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Roteiro de Coelho De Moraes sobre a obra de Paulo

Coelho, “A Bruxa de Portobello”. Capítulo EDDA.


marcoantoniocoelhodemoraes@gmail.com
personas: Edda, Andrea, Athena
22/1/2021
1.

CENA 1
EXT. DESCAMPADO. HORIZONTE AO LONGE. DIA.
Edda e Andrea conversam olhando a paisagem e recebendo o
vento do descampado.

EDDA
Um homem que não conhecia me ligou hoje.
Conversamos um pouco,
sem insinuações nem nada;
não disse nada de especial, mas, mesmo assim
me deu uma atenção que raramente recebemos,
aí, sou capaz de ir para a cama naquela noite
relativamente apaixonada.

ANDREA
Somos assim?
Não há nada de errado nisso?

EDDA
Intercala cenas de dança de Athena até entrar em transe.

Eu sou assim...
Falo de mim mesma.
Creio que seja da minha natureza feminina
abrir-me para o amor com grande facilidade.
Foi esse amor que me abriu para o encontro
com a Mãe quando eu tinha 19 anos.
Athena também tinha esta idade quando entrou
pela primeira vez em transe através da dança.

ANDREA
Era o que mais tinham em comum?

EDDA
Somente a idade de nossa iniciação.
Em tudo mais...
éramos total e profundamente distintas,
principalmente...
em nossa maneira de lidar com os outros.

ANDREA
Você era a mestra.

EDDA
Como mestra, eu dei sempre o melhor de mim,
de modo que pudesse organizar sua busca
interna.

ANDREA
Mas, também eram amigas...
2.

EDDA
Como amiga —
embora não tenha certeza de que este
sentimento fosse correspondido —,
procurei alertá-la para o fato de que o mundo
ainda não está pronto para as transformações
que ela queria provocar.
Lembro-me que perdi algumas noites de sono
até tomar a decisão de permitir que agisse
com total liberdade,
seguindo apenas o que seu coração mandava.
O grande problema de Athena era ser a mulher
do século XXII, vivendo apenas no século XXI
— e permitindo que todos vissem isso.

ANDREA
Pagou um preço...

EDDA
Sem dúvida.
Mas teria pagado um preço muito maior se
tivesse reprimido sua exuberância.
Seria amarga, frustrada, sempre preocupada
com “o que os outros vão pensar”,
sempre dizendo “deixe-me resolver antes
estes assuntos, depois me dedico ao meu
sonho”,
sempre reclamando que “as condições ideais
não chegam nunca”.

ANDREA
Todos buscamos um mestre perfeito;
você foi assim para Athena?

EDDA
Acontece que os mestres são humanos,
embora seus ensinamentos possam ser divinos
— e aí está algo que as pessoas custam a
aceitar.

ANDREA
Entendo...
Não confundir o professor com a aula,
o ritual com o êxtase,
o transmissor do símbolo...
com o símbolo em si.

EDDA
Isso...
A Tradição está ligada ao encontro com as
forças da vida,
3.

e não com as pessoas que transmitem isso.

ANDREA
Mas somos fracos:
pedimos que a Mãe nos envie guias,
quando ela envia apenas os sinais da estrada
que precisamos percorrer.

Edda e Andrea vêm caminhando para a casa.

EDDA
Você vem aprendendo muito bem os
ensinamentos.
Ai daqueles que buscam pastores,
ao invés de ansiar pela liberdade!
O encontro com a energia superior está ao
alcance de qualquer um,
mas está longe daqueles que transferem sua
responsabilidade para os outros.

ANDREA
Teremos tempo suficiente para aprender tudo?

Entram na casa. Vão à mesa.

EDDA
Claro que não.
Mas, devemos entender...
que nosso tempo nesta terra é sagrado,
e devemos celebrar cada momento.
A importância disso foi completamente
esquecida:
até mesmo os feriados religiosos se
transformaram em ocasiões para se ir à praia,
ao parque,
às estações de esqui.
Não há mais ritos.

ANDREA
O que isso quer dizer?
O que perdemos então?

EDDA
Perdemos o lance de transformar as ações
ordinárias em manifestações sagradas.
Cozinhamos reclamando da perda de tempo,
quando podíamos estar transformando amor em
alimento.

Edda abre cartas de tarô ou cartas mágicas quaisquer.


4.

Distribui pela mesa.


Enquanto fala observa as cartas.

ANDREA
Trabalhamos...
achando que é uma maldição divina...

EDDA
Pois é...
... quando devíamos usar nossas habilidades
para nos dar prazer...
e para espalhar a energia da Mãe.
Athena trouxe para a superfície o riquíssimo
mundo que todos nós carregamos na alma,
sem se dar conta de que as pessoas ainda não
estão prontas para aceitar seus poderes.

ANDREA
Como proceder, então?

EDDA
Nós, mulheres,
quando buscamos um sentido para nossa vida,
ou o caminho do conhecimento,
sempre nos identificamos com um dos quatro
arquétipos clássicos.

Abre carta a carta.

A Virgem
(e aqui não estou falando de sexualidade)
é aquela cuja busca se dá através da
independência completa,
e tudo que aprende é fruto de sua capacidade
de enfrentar sozinha os desafios.
A Mártir descobre na dor, na entrega, e no
sofrimento, uma maneira de conhecer a si
mesma.
A Santa encontra no amor sem limites, na
capacidade de dar sem nada pedir em troca, a
verdadeira razão de sua vida.
Finalmente, a Bruxa vai à busca do prazer
completo e ilimitado — justificando assim
sua existência.

ANDREA
Athena definiu sua posição entre alguma
carta?

As cartas se fundem em uma só, juntando as 4 personas.


5.

CENA 2
EXT. LOCAL AMPLO. DIA.
Athena caminha sorrindo. Está com as quatro cartas na mão.
Olha-as e sorri mais. As quatro cartas se fundem. Mistura,
embaralha as cartas e segura as cartas contra o peito. Athena
passa, segue. O ponto de vista se congela na paisagem.

CENA 3
INT. SALA. MESA DE TARÔ.

ANDREA
Claro que podemos justificar com uma
desculpa...
...que todos os que entram em estado de
transe ou de êxtase...
perdem o contato com a realidade.

EDDA
Isso é falso:
o mundo físico e o mundo espiritual são a
mesma coisa.
Podemos enxergar o Divino em cada grão de
poeira,
e isso não nos impede de afastá-lo com uma
esponja molhada.
O divino não desaparece,
mas se transforma na superfície limpa.

ANDREA
Athena devia ter se cuidado mais.

EDDA
Refletindo sobre a vida e a morte de Athena,
minha discípula,
melhor eu mudar um pouco minha maneira de
agir.

Edda sai para o descampado.


Andrea revê as cartas do tarô.