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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ

MESTRADO EM PLANEJAMENTO E POLÍTICAS PÚBLICAS


TEORIA POLÍTICA II
DOCENTE: EMANUEL FREITAS
DISCENTE: CATIA VIEIRA DA SILVA OLIVEIRA

1-A primeira semana de Curso teve como objetivo apresentar algumas ideias em
torno da democracia na Teoria Política, começando pela definição de Política em
Hannah Arendt, passando pelas relações entre democracia e classes sociais, a
questão da dominação política, a democracia de caráter plebiscitário e o governo
representativo. Tomando como ponto de partida os textos e as ideias com as quais
se trabalhou, elabore um texto, no formato de um diálogo entre duas pessoas (com
questões e respostas), em que você explica a definição de Política, a relação
entre democracia e classes sociais e de como é possível a ascensão de líderes
cesaristas em tempos de democracia de massa. Lembrando, o prazo para o
envio é 15 de janeiro.

Diálogos em torno da Teoria Política Democrática

Pedro e João são alunos de Serviço Social na Universidade Federal do


Amapá e estão preparando um seminário de temática livre para apresentação na
sala de aula. A dupla optou por trabalhar a Teoria Política Democrática e com isso
precisou fazer leitura de vários autores como Hannah Arendt, Max Weber e outros.
Para se prepararem para a apresentação resolveram traçar um diálogo com base
nas leituras para avaliar o grau de compreensão de ambos.

– João, bora estabelecer um diálogo para ver até que ponto estamos preparados
para fazer nossa apresentação no seminário?
– Certo Pedro, vamos tentar.
– Vamos iniciar falando o que você entendeu sobre a política, certo Pedro?
– Entendi que a política foi criada para tratar da convivência entre as pessoas, ou
seja, ela tem o papel de traçar diretrizes que vão nortear e instituir o modo de vida.
– Exatamente, e ela surgiu para organizar a sociedade, para que pudéssemos
estabelecer uma convivência pacifica em comunidade. Como disse Aristóteles... é o
meio de alcançar a felicidade do cidadão e assim sendo o governo deve ser justo e
as leis devem ser obedecidas.
– E é importante dizer também Pedro, que a política é uma atividade que o cidadão
desempenha quando exerce seus direitos em assuntos públicos, trata-se de um
consenso para a convivência pacifica em comunidade. Ela se faz necessária porque
vivemos em sociedade e nem todas as pessoas pensam iguais. Segundo Aristóteles
no seu livro “Politica” ele define que é um meio para alcançar a felicidade dos
cidadãos e assim sendo o governo deve ser justo e as leis obedecidas.
– Mas então, para que serve essa política?
– Ora, pelo menos, para Max Weber, a política é possibilidade de exercer algum tipo
de “influência” ou “participação” frente aos poderes que constituem o Estado e sua
relação com a comunidade política. Esta também serve para organizar a máquina
estatal e a vida em sociedade, de modo que o governo exercido pelas lideranças
políticas através da representação partidária e parlamentar são os responsáveis por
exercer essa missão. Além disso, Weber afirmou também que a política pode ser
usada como uma aspiração entre grupos distintos para chegar ao poder. Onde tais
indivíduos se associam em torno de interesses dos mais diversos, dentre eles, em
termos contemporâneos, a possibilidade de viabilizar políticas públicas – disse
Pedro.
– Agora me diz João, tu sabes me dizer qual o papel do Estado como regulador
dessas relações?
– Bem…o Estado? Hum... ele cria as condições de igualdade, considerando que o
indivíduo abre mão de seus direitos individuais em função da coletividade.
– Mas, tem um porém, para um Estado ser bem organizado politicamente ele
precisa ter leis claras, precisas e que sejam passíveis de serem executadas. Essas
leis vão dar sustentação para garantia da ordem social – argumentou Pedro.
– Ai ai Pedro, veja bem, essa política que você se refere é aquelas das
“politicagens”, aquela dos corruptos, que costumamos ver na mídia?
– Não. Estou falando de política desprovida de preconceitos, porque ela de fato
ainda existe.
– Então Explica aí esse preconceito?
– Bem o preconceito existe, como disse Hannah Arendt, e não temos como fugir
disso devido a diferença entre as pessoas. Mas temos que atentar para a visão
contemporâneo deturpada dos fenômenos jurídicos e políticos. A mídia se encarrega
de repassar a corrupção dos especialistas em política através de mecanismos
ideológicos e a população absorve e passa a não ver sentido no voto ou no
processo de participação política. No entanto, não podemos desconsiderar que esse
fenômeno político advém também da consciência coletiva e o importante é que
devemos continuar participando dos processos políticos e buscar mudanças através
do voto durante as eleições.
– Já que citei Arendt, você se lembra o que ela descreve por liberdade política? –
questionou Pedro
– Lembro sim, ela diz que é uma ação realizada pelos homens através da
convivência estabelecida, sendo ela absolutamente indispensável para a vida
pública. Quer dizer, é a possibilidade de agir na esfera pública, de se relacionar com
o mundo, compartilhar da diversidade de ideias e da pluralidade de pensamentos
inerente aos seres humanos, pois só assim, segundo Arendt, é que o próprio poder
é capaz de se manifestar.
– Então o que tu queres dizer é que nesse sentido, para Arendt, política e liberdade
são indissociáveis, pois onde não há o exercício da liberdade e o estabelecimento
do diálogo não é possível haver liberdade. A ausência de liberdade é a negação da
política. E se dá, sobretudo, pelo emprego da violência política, pelo silenciamento
da voz, da palavra, do discurso, da negação do diálogo e do pensamento pautado
na diversidade. – Pedro complementou.
– Sim, foi o que ocorreu, por exemplo, com a instalação dos regimes fascistas e
totalitários analisados pela autora em suas obras.
– Mas veja bem, agora vamos falar da relação entre Democracia e Classes Sociais.
Diz aí o que tu entendeste de democracia e eu vou falar de classes sociais,
conforme os textos que estudamos.
– Bem – falou eufórico – isso é fácil. Democracia, em termos modernos, é um regime
político onde todos cidadãos elegíveis participam igualmente, de forma direta
através da escolha de representante eleitos pelo sufrágio universal. Este sistema
representativo atua na sugestão, no desenvolvimento e na criação de leis. A
democracia atinge as condições sociais, econômicas e culturais que possibilitam o
exercício livre e igual de autodeterminação política. Bem, é isso que entendo por
Democracia.
– Porém, além desses aspectos, não podemos esquecer que Weber deu uma
importante contribuição para a teoria democrática ao organizar uma série de
questões em torno deste conceito. – retrucou Pedro.
– É verdade! Eu lembro apenas de alguns aspectos, mas prefiro que tu me fales,
porque lembro de poucas questões a respeito.
– Então, o fenômeno das “democracias de massas” é de substancial relevância na
teoria política de Weber, tendo em vista que este tema está articulado em torno das
noções de dominação, Estado moderno, política, poder, liderança dominação
racional-legal e carismática. Primeiro, o Estado moderno é um tipo de “associação
política” cuja finalidade é a dominação política de uma população dentro de um
território delimitado juridicamente. – olhou hesitante e continuou – as justificativas
que historicamente serviram como fonte de autoridade e domínio político, do ponto
de vista político, pode ser encontrada nos elementos tradicionais, carismáticos e
racional-legal da política.
– Entendi. Então o que Weber chama de dominação política é uma relação de
“mando” e “obediência” que pode se estabelecer, por exemplo, entre súditos e o
Estado. É um fenômeno típico que pode ser identificado com facilidade nas
sociedades modernas em que prevaleceram a presença de príncipes e lideranças
carismáticas, cuja última, é um traço significativo das democracias ocidentais
modernas, marcada pela presença das massas eleitorais. – Confirmou João.
– Corretíssimo, inclusive, uma das formas de dominação mais trabalhadas por
Weber em seus “Escritos Políticos” é a dominação carismática. Um certo “dom da
graça”, um poder reconhecido por terceiros através de supostas revelações
cosmológicas, atos heroicos ou pelas qualidades pessoais para liderar instituições
partidárias ou massas humanas apenas pela capacidade de persuadir por meio do
dom da oratória.
– Onde o chefe carismático esteve presente nos tempos antigos, em que as figuras
típicas eram os “mágicos” e os “profetas”, ou, senhores de guerra. O demagogo,
filho da polis grega, segundo Weber, é um fenômeno que podemos observar apenas
no ocidente. O líder por vocação, que é o político carismático, é o indivíduo histórico
esperado pelos homens, estes acreditam em suas profundas virtudes
“sobrenaturais”, legitimam sua autoridade por encará-lo como um predestinado da
nação.
– Perfeito João. De fato, eu não havia entendido muito bem essa parte do texto.
Mas, me fala mais também sobre a dominação racional-legal. Eu lembro que tem a
ver com burocracia, creio eu. Isso procede?
– Posso falar um pouco sim, com base no que compreendi.
– É assim: é o tipo de autoridade pautada na validade das leis e regras do direito
são características singulares da dominação racional legal. A crença na eficiência e
eficácia das leis geridas pelos funcionários burocráticos do Estado moderno serve
como diretriz para que os indivíduos obedeçam às regras jurídicas impessoais das
instituições estatais modernas. No que tange ao domínio racional-legal, a conduta do
funcionário burocrático que é a vertente típica do Estado moderno, precisa de um
quadro administrativo com suas regras pré-estabelecidas para criar uma “rotina” de
obediência e disciplina por parte dos funcionários.
– Hum...agora estou lembrando – disse pensativo – além disso, o quadro
administrativo do qual o político necessita para exercer seu domínio precisa que
estejam disponíveis recompensas materiais (salários dos funcionários modernos) e
as honrarias sociais dos antigos cavaleiros ou a própria honra do servidor do Estado,
são exemplos de interesses particulares que também se encontram no jogo da
obediência e controle dos cargos administrativos.
– Lembrei que tem um aspecto nessa discussão João que causou uma certa
preocupação em Weber.
– Qual seria? – olhou João surpreso para o amigo.
– A burocracia e o característico formalismo jurídico presente no parlamento
representativo tenderia a impedir o surgimento de autênticas lideranças
vocacionadas para a política, carismáticas e capazes de “cortejar as massas”.
– Tu tá querendo dizer que o excessivo procedimento burocrático acaba
engessando a seleção de líderes em decorrência da disciplina e a rotinização de
regras e normas que, via de regra, qualquer parlamentar apenas com senso de
responsabilidade jurídica pode executar.
– Correto. E em contra partida, nas democracias de massas, ou, “democracias
plebiscitárias”, o povo espera ser cortejado por um “político profissional” com
carisma, franqueado por um partido político, que fale sua linguagem, que tenha os
atributos esperados. É por isso que, para Weber, a extensão do sufrágio universal
tenderia a exigir, cada vez mais, lideranças demagógicas, com características
cesaristas, devido a exigência de habilidades extraordinárias para lhe dar com o
apelo popular, isto é, capaz de consultar as massas (democracia plebiscitária).
– Claro, e daí surge esse conflito inevitável entre a crescente burocratização das
instituições democráticas representativas e a necessidade de verdadeiras lideranças
carismáticas para convencer o eleitorado das extensas democracias modernas.
– E tem mais, em tempos de democracia de massas, como a que muitos países
vivem, ainda é possível surgir esse tipo de líder, com essas características?
– Claro que sim, João.
– E assim – continuou – todo apoio massivo buscado por um líder político a um
extenso conjunto de votantes durante a seleção eleitoral são características
plebiscitárias que Weber mais aproxima e compara a figura de César, ou melhor, ao
fenômeno do cesarismo das democracias de massas.
– Isto é, João, o apoio irrestrito de outras figuras parlamentares não é o que
condiciona, é algo que o líder cesarista moderno descarta, visto que seu foco é a
massa de eleitores.
– Você poderia me dar algum exemplo atual desse tipo de liderança?
– Claro que sim!
– A ascensão recente do ex-presidente norte-americano Donald Trump e o nosso
atual presidente Jair Bolsonaro são exemplos bem marcantes desse tipo de
liderança. Basta percebermos a relação direta que estes buscam com o extenso
eleitorado que os apoiam, o discurso demagógico acalorado e a crescente utilização
de redes sociais como um meio que potencializa esse cortejamento junto as
massas.
– Gostei, muito interessante e atual essa análise do Weber.
– Isso me fez lembrar novamente que Arendt destacou em seus textos sobre o
fenômeno totalitário que a ascensão desse tipo de regime político, assim como, dos
fascismos, só foi possível pela presença das democracias de massa.
– É verdade João, bem lembrado!
– Isso me faz lembrar também que o próprio Weber chama atenção para o perigo
quando nas democracias de massa esse tipo de recrutamento de liderança
plebiscitária passa a se rotinizar, pois o apelo emocional, irracional e demagógico
pode levar ao poder lideranças que se utilizam dos meios democráticos, como as
eleições, para viabilizar projetos políticos pessoais, até mesmo de natureza fascista,
como aconteceu na Alemanha.
– E agora fala você de Classes Sociais?
– Classe social.... já ia esquecendo.
– Então vamos lá. Quando se fala em política contemporânea devemos entender
que ela diminui a importância das classes sociais, onde as diferenças e as
desigualdades passaram a ser respeitadas e acomodadas no regime democrático a
partir da noção de igualdade.
– Mas é importante que se tenha claro João que a desigualdade de classes e os
conflitos dela provenientes permanecem como dados centrais para a compreensão
da dinâmica política das sociedades capitalistas.
– Até porque elas dificultam o aprofundamento da democracia, vinculados à
desigualdade material, ao controle da propriedade, à influência sobre o Estado e à
socialização diferenciada de trabalhadores e patrões. – reforçou João
– E onde entra aí a teoria democrática? – fez de imediato o questionamento.
– Simples, é importante que se tenha uma teoria democrática que seja sensível à
centralidade da desigualdade de classe, e que se observe também as várias formas
de opressão existentes na sociedade.
– Aí se entende que a economia capitalista foi um ordenamento político democrático
que as sociedades ocidentais criaram como estrutura básica e projetaram para o
resto do mundo. Sendo que alguns chegaram a acreditar que era o ideal, uma
organização social definitiva. Dessa feita, para muitos se trata de uma situação
aceita e em certas análises da Ciência Política o funcionamento dos regimes
democráticos ainda precisam tematizados e aprofundados.
– No século XX as classes sociais ainda se mantinham próximas em certas
circunstâncias, contudo, nas últimas décadas isso vem mudando de forma bastante
visível. A separação das classes se torna evidente no decorrer do nosso dia a dia, o
privilégio de uns é visível em detrimento de outros, vem ocorrendo o advento do
desaparecimento do convívio entre as classes. – tendo sido Pedro taxativo em sua
declaração.
– Verdade – concordou – e isso nós conseguimos perceber em espaços de
entretenimento, como nos estádios de futebol, onde têm as arquibancadas, as
cadeiras e os camarotes, nas festas as salas Vips, os camarotes. Sem contar que
uma parcela significativa da população não consegue acessar esses espaços por
não possuir, justamente, uma renda que os possibilite circular por lá.
– Sei bem do que você tá falando, Alguns chamam isso de “Camarotização” da vida
social. Soube disso quando fui pra uma festa na Boate “Toca da Aranha” e os
colegas que foram comigo comentaram sobre essa situação elitizada.
– E o mais interessante é que essa separação de classes ocorre não só no Brasil,
mas também na sociedade americana no geral e em outros países de economia
capitalista consolidada, o que demonstra que a desigualdade social, a divisão de
classes, a segregação social decorrente desse fenômeno é inerente a estrutura
econômica e política das sociedades capitalistas.
– Há mais isso acontece porque os abastados e os pobres tem vidas cada vez mais
distintas e distanciam-se daqueles setores sociais elitizados da sociedade que
podem desfrutar de uma série de bens materiais e políticas públicas que podem
garantir melhor qualidade de vida ao cidadão, como acesso à moradia, saneamento
básico, mercado de trabalho, educação de qualidade, saúde, etc.
– Mas nós sabemos que isso não é bom para a democracia, né mesmo João?
Apesar que, pensando bem, já levamos mesmo uma vida marcada pela divisão
entre classes sociais: - nós vivemos, trabalhamos, exercemos funções, nos
divertimos e compramos em locais diferentes e nossos filhos frequentam escolas
diferentes.
– Verdade, entende-se que isso não é bom, mas sabemos que a Democracia não
quer dizer igualdade em sua totalidade, visto que seu discurso contempla apenas
dimensões da igualde política e jurídica, a diminuição da desigualdade econômica
em muitos casos não é um problema que os governos colocam como prioridade.
– Certo, e dependendo do modelo de Estado, certos governos se preocupam mais
outros menos em diminuir a desigualdade econômica e possibilitar o acesso do
maior número possível a riqueza produzida pela nação.
– Então, isso significa que nas democracias contemporâneas as políticas públicas
planejadas pelo Estado, ainda que este seja capitalista, podem ser colocadas como
pauta de prioridades para prover a maior distribuição de renda possível, é isso
mesmo João?
– Exatamente!
– São essas razões que nos ajudam a compreender por que nas sociedades
democráticas, marcadas pela presença da ordem econômica capitalista, a presença
das classes sociais é um fato e os conflitos sociais são constantes, visto que nem
todos conseguem acessar de maneira igualitária aos bens, riquezas e aos direitos, já
que é da natureza do regime esse conflito.
– E tem mais uma coisa, nessa linha de raciocínio João, Bourdieu (2011), ao discutir
sobre o poder simbólico das representações políticas, afirma que no tocante ao
capital político, quando este fica nas mãos de um grupo pequeno, esse monopólio
do político profissional é tão maior quanto a assimetria econômica e cultural do
referido grupo. Cristalizando-se, assim, a reprodução das desigualdades.
– Verdade, e é por isso que Weber afirma que a “esfera política” é marcada pela
“luta” pelo poder, e que o acesso as estruturas do Estado moderno podem viabilizar
uma série de interesses. E que o Estado acaba se tornando uma “associação
política” de interesses viabilizadas pela “racionalização”, “especialização”,
formalismo e impessoalidade das regras burocráticas.
– Bem lembrado, João.
– Importante observar que dentre essas situações que acontecem hoje no nosso
contexto sobre as classes sociais está também a questão do desmerecimento com o
serviço público, os responsáveis por planejar e efetivar uma série de políticas
públicas. Essa desvalorização e desmerecimento do serviço público serve em
muitos casos como justificativa para que segmentos da sociedade não os percebam
como indispensáveis e que os serviços prestados servem para garantir o bem
comum. Quer dizer, os bens públicos devem ser eficientes tanto para pobres como
para os ricos, independente da classe social daqueles que os procuram. –
Complementou.
– Ressaltando também que esse debate da Teoria Política Democrática
Contemporânea faz alusão a esse percurso histórico da consolidação das
democracias pelo mundo.
– Sim, por exemplo, para Avritzer (2003), a questão democrática no século XX
repousa sobre duas discussões principais: até a metade do século - desejabilidade
da democracia como forma de governo e no pós guerra buscavam compatibilidade
entre democracia e capitalismo, através dos modelos de Estado de Bem-estar Social
(Santos e Avritzer (2003).
– Na metade do século XX – continuou – as práticas democráticas se restringiram
ao procedimento eleitoral, com limitadas formas de participação mais ampliada.
Passaram a debater alternativas ao modelo liberal, tais como democracia
participativa e democracia popular e também a distribuição de ganhos na sociedade
capitalista e descentralização total da democracia.
E no final do século XX a extensão do modelo hegemônico de democracia liberal e
os cortes nas políticas deixaram evidentes os limites dos efeitos distributivos da
democracia.
– Certo meu caro, e foi a partir daí, João, que se visualizou a dificuldade entre o
ideal democrático e a realidade, ficando evidente o conflito entre representação e
participação política. Mostrando-se uma forma falida de democracia tradicional
hegemônica (como sociedade mais justa) e se procurou novas práticas contra
hegemônicas que vem adquirindo força.
– E Nessa perspectiva, Pedro, há um enfraquecimento da democracia com base na
representação em direção de formas democráticas mais diretas (participação) e o
surgimento de outras opções para a construção de outras formas democráticas, ou,
até mesmo, o fortalecimento de ambas – representativa ou participativa. Com isso, o
que Avrtizer quer apontar, João, é que precisamos compreender as várias
possibilidades e limites de ambas.
– Interessante observar – disse o outro – que Stuart Mill (2006), um dos principais
idealizadores do governo representativo, não abriu de ressaltar em seus escritos que
o governo para satisfazer completamente todas as exigências do Estado Social é
aquele que o povo todo participa indiretamente dos negócios públicos, via
representação, mas é claro que é justamente este modelo de participação
democrática através da representação parlamentar que está em crise, o que gera
um descontentamento generalizado por parte do eleitorado. Assim, existe um forte
apelo para que novos modelos de participação democráticos sejam pensados e
praticados, ainda que, como aponta Avritzer, todos os modelos apresentem
imperfeições e limites.
– Claro, e João, um desses descontentamentos estão relacionados aos partidos
políticos, os quais, segundo Mill (2006), surgem ao longo da segunda metade do
século XIX. Tais partidos, à época, cresceram e adquiriram identidades social e
cultural e davam uma grande importância as políticas públicas. Nascendo um novo
formato de governo representativo, visando institucionalizar a participação de todos,
se aproximando do governo ideal, desacreditando a ideia de que a cidadania política
a todos os cidadãos não trouxe o esperado.
– Correto, inclusive o sufrágio universal não representou o direito de verbalizar
preferências e sim a concentração do poder nas mãos das elites políticas, tornando-
se sintoma da crise da representação. Isso tornou-se desejável para alguns elitistas,
pois garantia estabilidade democrática e reduzia pressão política e levava a
incapacidade de atender as promessas democráticas.
– E com essa hegemonia da democracia acabou que se criou uma desmobilização
social, valorizando-se os mecanismos representativos, afastando a forma societária
participativa. Daí surgiram na esfera do poder Executivo conselhos setoriais de
políticas, conferências, orçamento participativo e do Poder Legislativo audiências
públicas, seminários, fóruns e fóruns técnicos, com intuito de retomar as esperanças
democráticas.
– Mas a grande questão é que a participação política permite a incorporação do
cidadão no processo de elaboração, decisão e implementação da política.
– Ai, novamente, para Avrtizer (2003), a democracia participativa dá uma
possibilidade de uma visão diferenciada na arena política, destacando a
necessidade que a democracia representativa seja reavaliada e reconstruída, além
de constituir no sujeito o exercício de cidadania.
– Dai João, é Importante entender a importância desses espaços democráticos, mas
tendo consciência que eles são suscetíveis de manipulação. Sendo assim, é
importante a reflexão constante sobe esse processo de participação e de sua
influência sobre as decisões.
– Então, com base no que me expõe, não podemos deixar de perceber que a
trajetória da democracia é contraditória e fragmentada, pois vários fatores
evidenciam a relação tensa e cheia de conflitos entre Estado e sociedade civil. E
essa oposição foi reforçada pela indústria política e pela despolitização, com efeito
de reduzir a democracia representativa, voltando-se a esperança para a democracia
participativa.
– Exatamente, João.
– A democracia tal como a conhecemos hoje passou por um processo histórico,
marcado de contradições, rupturas, aperfeiçoamento e esteve como uma de suas
características principais, as limitações de suas instituições e, como bem destacaste,
limites na relação com a sociedade civil no sentindo de corresponder às expectativas
e promessas, principalmente, dos partidos políticos.
– Porém, a representação e a participação convivem de forma entrelaçada. E a
democracia representativa mostra sua eficácia se for submetida a um maior controle
pela sociedade, o que nos leva acreditar em uma maior participação por parte da
sociedade no processo de decisão. Mas, alguns autores, como Santos e Avritzer
(2003), questionam essa combinação entre participação e representação, devido a
inviabilidade operacional.
– Então tu está dizendo que assim, surge um conflito pela partilha de poder e da
legitimidade entre formas democráticas participativa e representativa, havendo
necessidade de uma nova readequação no fazer a política. Diante dessa situação, a
construção da democracia parece não ser só um objetivo, mas também uma
competição de poder entre as diferentes práticas democráticas.
– É isso?
– Sim, sim!
– É por isso que o regime democrático é bastante tenso e conflituoso, pois a divisão
da sociedade em classes sociais está em sua base e existem inúmeras dificuldades,
como vem apontando, com base nesses autores, para se proporcionar o mínimo de
igualdade econômica e acesso aos direitos sociais básicos para a grande parcela da
população que depende da atuação eficiente do Estado, sobretudo, na realidade do
nosso país.
– Então, João, é importante que se esteja atento para que não ocorra o
distanciamento da vontade do povo e de seu representante, considerando que ele
precisa de pressão e controle diante de suas ações empreendidas, por isso é
importante que se tenha os espaços de debates para discussões e justificativas de
tomadas de decisões.
– Isso! – respondeu – Podemos concluir com tudo que aprendemos, com esses
autores, a evidente importância do uso da diplomacia e da política como armas
eficazes de resolução de problemas da sociedade. A utilização da política, através
da conversão, da negociação tornam-se fundamentais para equacionamento das
pendencias de interesses, de forma equipara-los, tendo como base objetivos
comuns e recuos necessários para o entendimento, considerando que o diálogo
reduz os conflitos e é dissociável da política.
– É importante destacar também – continuou – a necessidade de avaliação
constante das práticas democráticas, para que se continue trabalhando na
construção democrática. Nesse processo é fundamental que o cidadão busque
conhecer seus direitos e o parlamento se aproprie dos espaços públicos, atue
ativamente no processo de construção de tais práticas.
– Isso é uma grande verdade. E você há de convir que com a sequência das
votações no processo político, acreditamos que vai ocorrer uma maior
conscientização das massas, apesar de certas resistências, vai acontecer um
melhoramento na política, com os candidatos usando o poder como instrumento de
cidadania e valorizando a liberdade de manifestação do povo. E já os que pensam a
política com vistas a excludência,, com o amadurecimento do processo democrático
vão ter como destino o esvaziamento de sua influência e declínio de poder.
– Então assim fechamos? Estamos aptos a fazer a apresentação do Seminário?
– Bem, posso dizer que estamos com tudo na ponta da língua, e se aparecerem
duvidas no decorrer da apresentação vamos respondendo ou pedimos socorro pro
professor.
– Então vamos chegar na aula amanhã uma hora antes e damos uma repassada
nas nossas falas, antes da apresentação, certo?
– Certo!

BIBLIOGRAFIA

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