Você está na página 1de 2

A SABEDORIA DAS “COISAS ESPIRITUAIS”

“S. Inácio me ensinou a teologia do coração” (S. Felipe Neri)


Que é ser uma “pessoa espiritual”?
Quem possui a ciência das “coisas espirituais”?
Entendemos por “pessoa espiritual” aquela que tenha feito uma experiência
pessoal do Amor de Deus
por ela, experiência existencial que a atinge na sua totalidade de ser humano.
Uma vez “experimenta-
do” esse encontro com o Deus vivo, transcendente, totalmente outro, que a
acolhe no seu Amor, na sua Misericórdia a pessoa, sem deixar de ser “vaso de
argila”, lança-se no aprofundamento desse encontro e vai sendo transfigurada
no amor, no Dom de si a Deus e aos outros, no mundo.
Ser “espiritual” significa ter-se encontrado pessoalmente com Deus, cultivar
esse encontro e começar a ver os homens e as mulheres no mundo como Deus
os vê ( olhar de amor, de compaixão, de ternura...)
Consequentemente, a “pessoa espiritual”, precisamente por ter-se
encontrado com o Deus-Amor, é a pessoa menos alienada, mais comprometida
com os valores do Reino e com os irmãos e irmãs no mundo, sobretudo com os
mais pobres, os mais sofridos e marginalizados; é aquela que mais se
compromete com a justiça e é a que mais desenvolve uma criatividade eficaz
na história, com obras que nos surpreendem.
S. Inácio foi uma “pessoa espiritual”, porque tendo-se encontrado com o Deus-Amor, aprendeu
a “ler e escrever” na linguagem de Deus e foi capaz de nos ensinar esta linguagem.
S. Inácio começa a fazer uma travessia, um percurso que o leva de um lugar a outro.
Sendo “afetado” pela vida dos santos e pela vida de Cristo, Inácio começa a mover-se, a deslocar-se.

Num primeiro momento há um “deslocamento geográfico imaginativo ou fantasioso”


para dois lugares diferentes: a vida dos castelos e a peregrinação a Jerusalém.
Tais lugares simbolizam dois universos de valores opostos, duas propostas
de vida antagônicas (o mundo ou Jesus Cristo).
Deste “ser afetado” brota a reflexão e sentimentos que se entrechocam:
pensamentos e sentimentos diversos e opostos que o levam a duas direções
divergentes.
S. Inácio vai optar uma uma alternativa: irá a Jerusalém, como havia imaginado.
Do deslocamento imaginativo passa ao deslocamento real, abraça de fato o universo de valores de
Jesus Cristo, com coerência e constancia. O que era imaginado torna-se realidade em sua vida.

As situações de deslocamento podem ser diversas:


a) há os que não se deslocam nem na imaginação, nem geograficamente: são os “mornos”;
b) há os que se deslocam imaginativamente, mas não geograficamente: a pessoa deixa-se afetar pelos
valores do Evangelho, mas na hora de concretizá-los, recua, fica paralisada;
c) há os que se deslocam geograficamente, mas não imaginativamente: os que vão, por exemplo, para uma in-
serção nos meios populares, mas não mudam de valores, de mentalidade, nem abandonam seus hábitos;
d) há, finalmente, os que mudam de lugar imaginativamente e geo-
graficamente.
Qual é a condição para que o imaginado torne-se realidade?
Está na intensidade do “ser afetado”. Quem é superficialmen-
te “afetado” por Jesus Cristo, vai situar-se numa das três pri-
meiras hipóteses ou possibilidades; somente atingirão a 4ª pos-
sibilidade os que forem profundamente “afetados” por Cristo.
Texto bíblico: 1Reis 19,1-15
“Como todo ser neste mundo peregrino, assuma a condição de alguém sempre a caminho, inacabado e impelido
por uma fome e sede que, mesmo na posse de qualquer bem, lhe deixe o coração insaciável. Seja alguém de
partida a fim de chegar. Peregrinar é a maneira adequada de descobrir e crescer; amplia a visão sobre a vida
e aprofunda o conhecimento do seu mistério. Haverá paradas para descansar e festas para se confraternizar.
A peregrinação ativa e revela a escondida nobreza em cada pessoa, com a força que a torna senhora de seus
atos. Íngreme é o caminho ou densa a neblina? O peregrino segue, confiante, sem desviar-se.
Mas o trajeto a percorrer confronta com o que faz parte da realidade; há espaço seguro e estreiteza ameaçadora,
há aridez e fecundidade, há acolhida e hostilidade, há ganho e perda. Há de tudo. Mas em Deus, unido aos
irmãos, você encontrará repouso; o Senhor o conservará em movimento e plasmará caminhos novos no íntimo
do seu coração, onde, como farol, estabelece sempre divina morada”. (Frei Cláudio Van Balen)