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“DEUS NÃO VÊ PASSADO”

“Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos.


Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as
reconheceis?
Pois abrirei uma estrada no deserto e farei correr rios na terra seca” (Is.43,18-
19)

Quando S. Inácio percebe que as “marcas” de Deus sobre a sua vida podiam ser
lidas, como se lê um texto escrito, sentiu como que seus olhos se abrindo e ficou
maravilhado com o que começava a enxergar:
“até que uma vez se lhe abriram um pouco os olhos e começou a maravilhar-se desta diversidade”
(Aut.8)
Esta foi sua primeira experiência de “ciência espiritual” e daí concluiu ser possível
ter um “conhecimento pessoal” de Deus. “Recebida não pouca luz desta lição, começou a
pensar mais deveras
em sua vida passada e quanta necessidade tinha de se penitenciar dela” (Aut. 9).

Compreendida esta primeira lição, Inácio, embora todo projetado para o futuro, é
levado a pensar em sua vida passada, a ler passagens de sua vida que sente
não terem sido escritas por Deus, mas por outro, e em quê direção o tinham
levado. Aos poucos, os “sonhos mundanos” vão se dissipando.
“Já se ia esquecendo dos pensamentos passados com a força dos santos desejos que alimentava...”(Aut.l0)
Inácio se sente confirmado no novo caminho: a nova direção era a certa. Usa,
curiosamente, nesse momento, a imagem do desenho ou da inscrição, de
“marcas” deixadas pelo “mau espírito”:
“parecia terem lhe tirado da alma as imagens, que antes tinha nela pintadas” (Aut. l0).

Com a consolação, S. Inácio é capaz de olhar com tranquilidade para as páginas


obscuras de sua vida que lhe causavam medo. Seu passado parecia limpo. A
“alfabetização” de Inácio continua. Já consegue ler a escrita de Deus no
coração. As “marcas” tornam-se pontos que o ajudam a descobrir e
compreender a história por ele percorrida: Inácio vai traçar, aos poucos, o
mapa da mina, isto é, o acesso ao coração.
Somos uma carta de Cristo, escrita pelo Espírito do Deus vivo.
O Espírito de Deus foi derramado sobre todo o gênero humano e age no fundo do coração de todo ser
humano com “gemidos”, com sugestões, movendo a todos na direção dos valores do Evangelho.
Nossa realidade é graça e pecado, luz e sombras; somos “vasos de barro” carregando um tesouro.
Na leitura desta realidade humana, histórica e espiritual de cada um, vamos encontrar inevitavelmente
“textos superpostos”: textos luminosos escritos pelo Espírito Santo e textos escritos por outro,
por outra mão, textos obscuros e sombrios.
A superfície da terra pode apresentar uma paisagem homogênea de terreno, mas ao começar a cavá-la,
num corte vertical, descobrimos “camadas superpostas” de aluviões. Assim a vida de cada um.

No meio de muito lixo e entulho pode aparecer, subitamente, uma pepita de


outro que a pessoa colherá com respeitosa reverência pela ação do Espírito
que aí se manifesta.
Em outras palavras, a pessoa pode estar envolvida em situações de morte,
pisoteando muitos valores evangélicos e, subitamente, ela pode descobrir uma
sensibilidade evangélica para a justiça, ou para a solidariedade, para a
compaixão ou mesmo para a defesa da natureza... isso no meio de muito
entulho.
Esta atenção paciente e perseverante deve ser tanto maior quanto a expressão
da vivência profunda é sempre obscura e faz-se às apalpadelas.
Igual atenção deve ser dada a diferentes fases ou períodos
da vida. Em certos momentos as “marcas” de Deus podem
ter sido fortes e em outros, as “marcas” do pecado. A fases
de intenso fervor sucedem-se fases de crises existenciais,
formando os altos e baixos de nossa resposta humana ao
Deus fiel. Nunca a pessoa encontrará um “texto retilíneo”;
seu papel é encontrar o veio de ouro que passa no meio da
montanha de areia, cascalho, ferro, pedra... e seguí-lo.
Texto bíblico: Fil. 3,8-14
Memória agradecida: leitura redentora do próprio passado, tirando proveito de todas as vivências, resgatando
referências, curando feridas, reconciliando-se com a vida e consigo mesmo, rompendo
com os laços neurotizantes... É a força da Graça misericordiosa de Deus que assume de modo novo o passado,
na memória do Amor. Deus, perdoando-nos não destrói nosso passado, mas o assume na paz do Seu Coração.