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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS/CAMPUS V

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA


REGIONAL E LOCAL

DA VELHA GUARDA DA CAPOEIRA DA BAHIA:


TRAJETÓRIA E LEGADO DO MESTRE ESPINHO REMOSO

Roosevelt Leonel Cunha

Salvador
2019

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS/CAMPUS V

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA


REGIONAL E LOCAL

Texto desenvolvido para fins de conclusão do curso


de Mestrado em História Regional e Local da
UNEB/Campus V, sob a orientação do Prof. Dr.
Josivaldo Pires de Oliveira.

Salvador (BA)
2019

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Agradecimento

Desde o processo de graduação em História na Universidade Católica do


Salvador (2012) e a especialização em História Social e Econômica do Brasil na
Faculdade São Bento (2015), a ideia de fazer o mestrado sempre esteve presente como
um objetivo de qualificação profissional. Em muitos momentos era um projeto distante
e quase inviável por conta das dificuldades e obstáculos da nossa trajetória.
Ouvi muita gente, professores, amigos, colegas e familiares. Muitos com
incentivo, boas sugestões e outros com desconfianças por conta do tema, Capoeira. A
minha entrada no programa foi aos 46 minutos do segundo tempo. No último dia de
envio do projeto e com a agência dos correios fechando.
Nas etapas da seleção comemorei muito a passagem da prova porque já tinha
perdido nessa etapa em outras seleções. No programa de mestrado em História Regional
e Local eu encontrei boas pessoas, como resultado tive uma boa turma mestrado.
Tivemos e vivemos bons momentos no programa, dividimos nossas ansiedades e
angústias. Tivemos boas aulas, bons debates e boas resenhas no pós-aula. Guardo todos
em uma boa memória!
Minha trajetória acadêmica foi recheada de desafios. A conciliação do trabalho
profissional, do estudo e do deslocamento para Santo Antônio de Jesus, local sede do
Mestrado, não foi fácil. Trabalho, pesquisa e produção de texto, outros desafios. Tive
ajuda dos meus amigos André Rufino e Sheila Mariane que me hospedaram na casa
deles durante o período de aulas. A minha esposa Gislaine, que teve que se adaptar às
minhas ausências e me apoiou nos momentos mais delicados. A minha filha Júlia, que
não entendia porque eu ficava muito tempo no computador. Aos meus pais e às minhas
irmãs que vibraram com a minha aprovação e estão à espera da conclusão. Aos meus
colegas de mestrados, que desde a última etapa da seleção, estávamos confiantes de
poderíamos formar uma boa turma. E formamos, a eles, um muito prazer em conhecê-
los e muito obrigado. A todos, um muito obrigado.
Agradeço ao meu orientador Bel Pires pela paciência e pela lucidez para me
mostrar que o meu tema inicial era inviável. Só atendi e entendi a sua sugestão na banca
de qualificação, composta pelos professores Pedro Abib e Luís Vitor de Castro Jr, que
através dos seus trabalhos e sugestões me ajudaram bastante no desenvolvimento do
texto.

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E foi assim a trajetória do meu mestrado, com altos e baixos, cheios de
percalços, dúvidas e incertezas e prazos estourados. Agradeço também aos professores
das disciplinas obrigatória e optativas. Os meus sinceros agradecimentos a Associação
de Capoeira Angola Relíquia Espinho Remoso, em especial ao mestre Zé do Lenço, que
aceitou a proposta e teve a paciência e compreensão de me contar a sua memória, uma
parte de sua vida e aos seus alunos que me cederam seus depoimentos.

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Resumo

Este trabalho tem como objetivo investigar a trajetória do mestre Espinho


Remoso (1910-1960), e a sua importância na capoeira em Salvador longe das regiões
centrais da cidade. Conhecer a história desse belo capoeirista desde o recebimento do
nome de capoeira, sua chegada a região canavieira a sua chegada a cidade.
O seu legado e sua importância na capoeira ficou restrito ao bairro a da Fazenda
Grande do Retiro, na rua Jaqueira do Carneiro. Poucos capoeiristas, ainda no tempo
presente já ouviram a sua história.
Como o mestre Espinho, outros personagens contribuíram para seu legado, como
mestre Cassarogongo e Mestre Diogo onde busco informações sobre esses capoeiristas
sua importância na capoeira angola. Descrevo também a importância da trajetória do
mestre Zé do Lenço a frente do grupo Associação de Capoeira Angola Relíquia Espinho
Remoso e toda sua importância na história da capoeira angola e sua luta para manter
viva a história da capoeira na rua da Jaqueira do Carneiro. A sua memória e seus
depoimentos foram essenciais para construção do trabalho.
Destaco as décadas de 1970 e 1980, período fundamentais da história da
capoeira onde ocorreram fatos que influenciaram e impactaram em toda comunidade de
capoeira angola onde marcar também o amadurecimento do grupo Relíquia Espinho
Remoso
Para tal empreitada utilizei como fontes depoimentos orais, e tive como aporte
teórico a história oral. Também utilizei notícias de jornais da época, alguns registros
iconográficos e documentos avulsos das instituições de capoeira angola para ter suporte
e remontar a trajetória da família de capoeira Espinho Remoso.

Palavras-chave: Trajetória. Memória. Capoeira

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Résumé

Cet article vise à étudier la trajectoire de Mestre Espinho Remoso (1910-1960),


et son importance dans la capoeira au Salvador, loin des régions centrales de la ville.
Apprenez à connaître l'histoire de cette belle capoeiriste depuis qu'elle a reçu le nom de
capoeira, son arrivée dans la région de la canne à sucre et son arrivée dans la ville.
Son héritage et son importance en capoeira se limitaient au quartier de Fazenda
Grande do Retiro, sur la rue Jaqueira do Carneiro. Peu de capoeiristes, même au présent,
n'ont jamais entendu votre histoire.
Comme Mestre Espinho, d'autres personnages ont contribué à son héritage,
comme Mestre Cassarogongo et Mestre Diogo où je cherche des informations sur ces
capoeiristes sur leur importance dans la capoeira angola. Je décris également
l'importance de la trajectoire du maître Zé do Lenço devant le groupe Association
Capoeira Angola Relic Espinho Remoso et toute son importance dans l'histoire de la
capoeira angola et sa lutte pour garder vivante l'histoire de la capoeira dans la rue
Jaqueira do Carneiro. Sa mémoire et ses témoignages ont été essentiels à la construction
de l'œuvre.
Je souligne les années 1970 et 1980, une période fondamentale de l'histoire de la
capoeira, où des faits se sont produits qui ont influencé et impacté toute la communauté
de la capoeira angola, où marque également la maturité du groupe relique Espinho
Remoso.
Pour cette entreprise, j'ai utilisé des témoignages oraux comme sources et eu
comme support théorique l'histoire orale. J'ai également utilisé des nouvelles de la
période, des documents iconographiques et des documents en vrac des institutions de
capoeira angola pour soutenir et tracer la trajectoire de la famille de capoeira Espinho
Remoso

Parole-clé: Trajetória. Memória. Capoeira.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO p.9

Minha Trajetória p.12

CAPÍTULO I
HISTÓRIA, BIOGRAFIA E CAPOEIRA

1.1 O gênero biográfico em História p.14


1.2 Capoeira na Bahia : história e historiografia da capoeira p. 22

CAPÍTULO 2
ESPINHO REMOSO: A TRAJETÓRIA DE UM MEMBRO DA “VELHA
GUARDA”
2.1 A Cidade da Bahia e seus capoeiras
p.28
2.2 Das ruas às escolas: as Academias de capoeira p.37

2.3 O Mestre Zé do Lenço e a Associação de Capoeira Angola Relíquia Espinho p.44


Remoso

2.4. A capoeira, o turismo e seus impactos p.58

CAPÍTULO 3
A VELHA GUARDA E SEU LEGADO
3.1 O legado da Velha Guarda: A década de 1970 p.65

3.1 A década de 1980: uma geração paradigmática p.76

3.2 Surge uma nova geração fora da Jaqueira do Carneiro p.97

Considerações finais p.106


Fontes p.109
Referencias p.114

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho acadêmico vai investigar a trajetória da família do Mestre


Espinho Remoso, onde investigo com ênfase no aspecto de sua vida, a qual foi marcada
pela sua dedicação a esta prática cultural e, por conseguinte, a formação de jovens que
se consagraram posteriormente como mestres e guardiões dos saberes desta que é hoje
patrimônio da cultura imaterial do Brasil.
Para investigar a trajetória do mestre Espinho Remoso eu parto da memória dos
relatos do mestre Zé do Lenço, que através de sua iniciativa, funda o Associação de
Capoeira Angola Relíquia Espinho Remoso, e a partir do trabalho iniciado na rua
Jaqueira do Carneiro, bairro da Fazenda Grande do Retiro, passa a preservar e a
divulgar a memória da capoeira feita pelo mestre Espinho Remoso, junto com um de
seus alunos, Mestre Diogo. Segue então a indicação das escolhas teóricas e
metodológicas por mim adotadas para a execução de tal empreitada.
A pesquisa sobre o gênero biográfico dos mestres tem como aporte teórico a
História Oral, na qual pretendo analisar através dos depoimentos, das experiências e da
trajetória do mestre e do grupo. Utilizarei os textos de Júlia Silveira Matos & Adriana
Kivanski de Sena - História Oral como Fonte: Problemas e Métodos (2011) e
Alessandro Portelli - Memória e Diálogo: desafios da história oral para a ideologia do
século XXI (2000).
Os depoimentos orais construíram fontes que possibilitaram ampliar a minha
discussão sobre o tema. Procurei personagens que atuaram nos processos de
ressurgimentos dos grupos de capoeira e suas disputas políticas dentro e fora da
comunidade da capoeira, como mestre de capoeiras e pesquisadores
Sobre o conceito de Cultura, o livro de Dennys Cuche, “A Noção de Cultura nas
Ciências Sociais” (1999) será a referência bibliográfica. Para falar sobre a importância
cultural da Capoeira Angola na construção de identidade negra em Salvador, utilizarei o
trabalho de Cultura Brasileira e Culturas Brasileiras (1992) de Alfredo Bosi. Para falar
sobre a importância do espaço das ruas e praças, dos locais como bairros, agremiações e
monumentos onde se constroem histórias, relações, memórias das pessoas e elementos
identitários, por exemplo, a relação que a capoeira angola tem com o Forte Santo
Antônio Além do Carmo, utilizarei Raquel Rolnik com seu trabalho “História Urbana:
História na Cidade – Cidade & História” modernização das cidades brasileiras nos

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séculos XIX e XX (1990) e Fernando Guerreiro Moreira em “Bahia em Pedaços”
(2006).
Para o estudo biográfico dos mestres Zé do Lenço e Espinho Remoso utilizarei
para o trabalho os textos de Alexandre de Sá Avelar no livro “A Retomada da Biografia
Histórica” (2007) e algumas reflexões sobre histórias de vida, biografias e
autobiografias para se elaborar uma melhor maneira de construir a trajetória dos
mestres, de Ligia Maria Leite Pereira (2000) e de Teresa Maria Malatian (2008).
Para trabalhar com memória coletiva terei como base o trabalho de Maurice
Halbwachs com a “Memória Coletiva” (1990). Usei os depoimentos orais para realizar
uma pequena biografia sobre a trajetória do Mestre Zé do Lenço e através de sua
memória, descrever a trajetória do mestre Espinho Remoso e de seu aluno Mestre Diogo
e a fundação do grupo relíquia de Espinho Remoso na tentativa de dar luz às
contribuições de mestres e grupos que estavam longe do centro da cidade.
Para pensar na forma de resistência afrobrasileira, utilizarei material sobre
estudos decolonial e colonialidade, como o texto “Capoeira, Globalização e
Descolonização” de Pedro Abib (2016), e “Pedagogia decolonial e educação antirracista
e intercultural no Brasil”, de Luiz Fernandes de Oliveira & Vera Maria Ferrão Candau
(2010).
Para investigar e entender os processos que ocorreram entre as décadas de 1970
e 1980 usei como metodologia a análise de fontes e o cruzamento delas. Fontes como os
periódicos A Tarde, Diário de Notícias, Jornal de Bahia, Tribuna da Bahia e Correio da
Bahia, para entender o papel da imprensa na divulgação e promoção da capoeira, na
defesa e denúncia dos descasos que envolvem os mestres e a capoeira nos projetos do
governo que envolve turismo e cultura.
Nas décadas de 1970 e 1980, a capoeira ganhou destaque nos jornais pelos seus
mestres e suas polêmicas, pelo projeto em que estavam envolvidos, pela sua riqueza,
hábitos e costumes. Foi preciso cruzar as fontes e encontrar de forma imparcial como
aqueles atores vivenciavam aquele período e afetou o desenvolvimento do trabalho do
mestre Zé do Lenço.
Ampliando as fontes com a qual irei trabalhar, contarei com a Ata de Fundação
da Associação Brasileira de Capoeira Angola (ABCA) no ano de 1987 e com o Estatuto
do Centro Esportivo de Capoeira Angola e com a aula escrita pelo mestre Antônio
Cassarogongo. O uso do material tem o objetivo de analisar sua atuação como entidade,
espaço de discussão, preservação da identidade da capoeira e palco de disputa política e

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ideológica. No caso do mestre Cassarogongo, entender como um mestre de capoeira
transmitia seu conhecimento através da escrita, além da oralidade.
A partir do depoimento oral do mestre Zé do Lenço, a pesquisa analisará a
importância do Mestre Espinho Remoso para formação da capoeira na região da
Jaqueira do Carneiro e a contribuição que a Associação de Capoeira Angola Relíquia
Espinho Remoso teve e tem para capoeira angola, se mantendo afastado das
interferências da indústria do turismo e preservando o legado do mestre Espinho
Remoso, através do trabalho dos mestres Zé do Lenço e Diogo, sujeitos atuantes que
fizeram manter a memória da capoeira viva na Jaqueira do Carneiro.
O primeiro capítulo, no tópico gênero biográfico, escreverei sobre a importância
do gênero biográfico em história e, sobretudo, na capoeira. Analisei a diferença entre
perfis biográfico e biografia, e como os grupos e autores que escrevem sobre capoeira e
mestres fazem para construir o perfil ou a biografia.
Depois, analisarei no tópico Capoeira na Bahia, alguns textos sobre o período
dos anos 1980 e como esses autores analisaram, por diferentes formas, o processo de
fortalecimento ocorrido na capoeira angola e o panorama da capoeira durante o século
XX.
O último tópico do primeiro capítulo é encerrado com a nova geografia da
capoeira, observando as mudanças ocorridas na cidade, forçando assim a mudanças de
determinadas rodas, mas pontuando a permanência de algumas delas em determinada
área da cidade por conta das festas populares.
No segundo capítulo, trago a trajetória do mestre Espinho Remoso, sua
passagem pela capoeira e sua contribuição para formação da capoeira no bairro da
Fazenda Grande e Bom Juá. Escrevo sobre o contexto histórico da cidade na qual o
mestre Espinho Remoso viveu destacando a sua habilidade, sua parceria com o mestre
Antônio Cassarogongo e a sua trajetória na capoeira.
No mesmo capitulo escrevo sobre mestre Zé do Lenço e analiso sua trajetória na
capoeira até a formação do grupo que leva o nome do mestre Espinho Remoso, que
curiosamente não é seu mestre. Através da amizade com mestre Diogo, um dos alunos
do mestre Espinho Remoso, mestre Zé do Lenço funda o grupo que mantém viva a
memória da capoeira na região.
No terceiro capitulo, faço uma reflexão sobre as décadas de 1970 e 1980 e como
nesse período a capoeira feita na Fazenda Grande Bom Juá foi afetada pelos processos
de enfraquecimento e fortalecimento da capoeira angola. Por fim, analiso a nova

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geração de alunos fora da Jaqueira do Carneiro e como eles contribuem para
preservação e divulgação da memória do grupo e do legado mestre Espinho Remoso.

MINHA TRAJETÓRIA

A tarefa de levar aos leitores uma parte da vida de um personagem talvez seja
mais fácil do que escrever a minha própria trajetória. Tentarei em poucas linhas resumi-
la. Meu nome é Roosevelt Leonel Cunha, tenho 40 anos, mas conhecido na capoeira
como Saúva. Sou professor de História, Sociologia e Filosofia das redes privada e
pública de ensino. Tenho uma filha chamada Júlia Cunha com a minha esposa Gislaine
Guidis Cunha. Minha família acompanhou de perto essa trajetória, deu muito força e
ajudou sobre medida. Meu pai Arivaldo de Jesus Cunha que bancou toda a minha vida
até quando pôde. Minha mãe Leonirce Ventura, sempre acreditou em mim e me apoiou.
Tenho três irmãos: Francisco Carlos, Samai Alcira e Lina Magali.
Na adolescência, não fui um bom aluno e dei muito trabalho para estudar.
Talvez explique as minhas limitações intelectuais atuais. Antes de entrar na
universidade, eu já tinha uma pequena experiência na capoeira angola. Decidi fazer
capoeira ainda na adolescência por conta dos meus colegas de sala e de um amigo do
bairro, Nôco (Claudionor Evangelista). Em uma tarde de sábado, Nôco me contou que
estava no Pelourinho e viu um boxeador tomar uma “porrada” de um capoeirista. “Ele
fazia capoeira angola”.
O jeito como ele me contou me chamou atenção e fiquei fascinado com o feito.
Mas, nesse período eu queira fazer Hapkido, e a única academia era longe do bairro que
eu morava. Eu tinha alguns colegas de sala e de bairro que faziam capoeira, mas eu não
dava o devido valor à capoeira e só me interessei por conta do episódio contato por meu
colega.
Meu pai, que nunca foi me ver jogar capoeira, resolveu me matricular no grupo
de capoeira perto de casa. Então, em 1994, eu entrei na capoeira com Associação de
Capoeira Angola Palmares, na época com o professor Lincoln (hoje mestre Lincoln).
Foi a partir desse grupo que dei meus primeiros passos, aprendi a cantar e a tocar. Na
impossibilidade de permanecer no grupo Palmares por conta da viagem do mestre
Lincoln aos Estados Unidos (EUA), que passaria a morar nesse país, eu decidi entrar
para o grupo de Capoeira Angola do Cabula (GCAC), com o mestre Barba Branca, em

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setembro de 1995. Levado pelo seu aluno mais velho André Siqueira, Olhos de Anjos,
que era meu colega de sala na escola.
Com um trabalho voltado para crianças dentro do terreiro Ilê Axê Opó Afonjá,
comunidade comandada pela ialorixá Mãe Stela de Oxóssi no bairro do São Gonçalo, eu
passei a fazer parte do GCAC. A partir desse momento, fui me envolvendo aos poucos
com as atividades do grupo até chegar ao último estágio. Recebi minha primeira
graduação de trenel no ano de 1999, sendo responsável pelo treino desde então. No ano
de 2003, recebi a graduação de contramestre, assim ganhando novas atribuições e
responsabilidade, passando a ser o aluno de confiança do mestre Barba Branca. Em
2016 eu recebi a última graduação, depois de algumas recusas. Essa última graduação é
a que mais difícil e desafiadora de todas as graduações.
Alguns mestres foram acompanhando a minha trajetória como o mestre Valdec,
mestre Zé do Lenço, mestre Moa do Katendê, mestre Duda, mestre Papaléguas e mestre
Olhos de Anjos. Fiz algumas amizades e estabeleci contatos suficientes para que a
comunidade de capoeira pudesse me conhecer e reconhecer.
Entre 2002 e 2003, recebemos uma turma de alunos franceses que chegaram
para treinar e firmar parceria com o mestre Barba Branca. Nesse grupo de alunos,
existiam estudantes de sociologia e antropologia e outros cursos. Mas percebi com a
convivência entre eles, que área que eu tinha afinidade era das ciências humanas.
Assim, em 2006, passei a cursar história na Universidade Católica do Salvador
(UCSAL). Com toda a dificuldade e persistência, me formei em 2012 depois de ter
parado de estudar por duas vezes por motivos financeiros. Em 2015, fiz especialização
em História Social e Econômica do Brasil na Faculdade São Bento da Bahia.
Contrariando o perfil inicial de mau estudante, finalizo o mestrado na Universidade
Estadual da Bahia (Uneb), no Programa de História Regional e Local no Campus V.
Com essa experiência na capoeira somada à carreira acadêmica, espero
desenvolver um trabalho que possa contribuir para a comunidade de capoeira e minha
vida pessoal.

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CAPÍTULO I

HISTÓRIA, BIOGRAFIA E CAPOEIRA

Neste capítulo, farei uma análise sobre a biografia na capoeira e como elas são
produzidas em livros, blog e sites sobre capoeira. Também faço uma análise sobre os
trabalhos de capoeira que abordam e analisam no período dos anos 1980 e o panorama
no século XX.

1.1 O gênero biográfico em História

Quando escolhemos realizar um trabalho acadêmico baseado na biografia de um


personagem, o que se vem na mente é que esse personagem fez algo de muito relevante
dentro de um contexto histórico de situações favoráveis ou adversas. Em um momento
da história, as biografias eram de personagens como reis, viscondes, príncipes, generais,
presidentes, governadores ou alguém com certa posição social e prestígio. Nessas
biografias, se buscavam descrever suas linhagens, seus feitos históricos, a forma como
conquistou e perdeu o poder.
Para Ligia Maria Leite Pereira (2000.p.117), o gênero biográfico ganhou
relevância a partir do século XVIII, propiciado pela expansão e afirmação dos direitos
individuais. Durante o século XIX, Mary Del Piore (2009, p.8), destaca que “as
biografias tiveram importante papel na construção da ideia de “nação”, imortalizando
heróis e monarcas, ajudando a consolidar um patrimônio de símbolos feito de ancestrais
fundadores, monumentos, lugares de memória, tradições populares etc”.
No século XX, com ampliação de fontes e mudanças de mentalidades, passamos
a investigar o outro lado da história, a de vidas de “pessoas comuns”, que na sua
trajetória, dentro de um contexto adverso, seja ele econômico, social ou político,
contribuíram significativamente para conservação e divulgação da cultura, ou lutou e
resistiu contra a opressão. Para Mary Del Priore (2009), a biografia histórica passou por
uma reabilitação que permitiu nova análise:
A reabilitação da biografia histórica integrou as aquisições da história social
e cultural, oferecendo aos diferentes atores históricos uma importância
diferenciada, distinta, individual. Mas não se tratava mais de fazer,
simplesmente, a história dos grandes nomes, em formato hagiográfico –
quase uma vida de santo –, sem problemas, nem máculas. Mas de examinar

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os atores (ou o ator) célebres ou não, como testemunhas, como reflexos,
como reveladores de uma época. (PRIORE, 2009,p.9)

Depois do personagem, teremos o desafio de escolher o que escrever sobre a


vida ou trajetória do mesmo. Escreveremos sobre as aventuras heroicas, as aventuras
românticas, as conquistas de guerras, os conflitos? Isso vai depender do olhar de quem
escreve. Sérgio Vilas Boas (2014) sinaliza que existem dois processos quando se tenta
construir a vida do personagem, que é o “autor escolher uma pessoa (ou ser escolhido
pela pessoa) e o “convite” a ser aceito” (p.2).
Nos últimos tempos, podemos escrever sobre personagens que estão do outro
lado da história. Dar visibilidade aos sujeitos da história que as versões oficiais sempre
fizeram questão de esconder: sapateiros, camponeses, artesões, poetas e mestre de
capoeira. Investigar como esses sujeitos conseguiram se destacar em um contexto de
opressão e adversidade. Para PEREIRA (2000, p.118), “a biografia se define como a
história de um indivíduo redigida por outro. Existe, aqui, a dupla intermediação que a
aproxima da história de vida, consubstanciada na presença do pesquisador e no relato
escrito que se segue”.
Na seleção desse trabalho acadêmico de história sobre a capoeira, foi escolhida a
biografia da história da família de capoeira do mestre Espinho Remoso (1910-1960), um
personagem da capoeira que viveu entre as décadas 30 e 60 do século XX, que tem sua
memória mantida viva por conta dos esforços e trabalho do mestre Zé do Lenço, na
cidade de Salvador, através do trabalho de capoeira na Associação de Capoeira Angola
Relíquia Espinho Remoso.
Biografia é um gênero literário que narra, descreve a vida, a trajetória de um
artista, um político, um escritor ou um mestre de capoeira que, no mínimo, fizeram algo
de relevante. São sujeitos que construíram suas vidas saindo do lugar comum e por isso
despertaram o interesse que suas existências possam ser escritas. Para Ligia Maria Leite
Pereira (2000.p 117), “biografias, histórias de vida, autobiografias três gêneros distintos
que em comum têm o fato de serem baseados na sequência de vida individual, a
sequência biográfica”. Para Sabrina Loriga (1998, p. 249), “o objetivo de fazer uma
biografia é analisar o homem comum, e não mais os grandes vultos, em sua
multiplicidade, incoerente e conflituoso, como forma de escapar a uma concepção
cerceadora das vontades individuais”. Para Maria Aparecida de Oliveira Silva (2007,
p.11), “a narrativa biográfica apresenta-se como uma importante fonte histórica na

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medida em que ela retrata o contexto histórico da personagem quando expõe como se
deu a infância, o crescimento e os fatos que levaram o indivíduo a praticar suas ações”.
Uma dificuldade encontrada na biografia é decidir o que escrever da memória ou
da trajetória do personagem. Segundo Teresa Maria Malatian (2008, p.19), “ainda nos
debatemos com as mesmas questões metodológicas: a necessidade de escolhas na
trajetória de vida, para a composição do relato biográfico”. Para Conceição (2011), uma
narrativa de vida, assim, deve estar sempre atenta aos seguintes problemas: “a relação
entre normas e práticas, entre indivíduo e grupo, entre determinismo e liberdade, ou
ainda entre racionalidade absoluta e racionalidade limitada; como e quando iniciá-lo; o
período a ser trabalhado como relevante”. Sergio Vilas Boas (2014) chama atenção para
importância da escrita que é:
O problema de narrar não é do personagem, e sim do autor do perfil. Por
incrível que pareça, o personagem em si não é decisivo para a qualidade da
narração, mas, sim, a competência do autor em lidar com o personagem e
com a narração. Escapismo justificar que o personagem é isso, aquilo,
comum, igual, anônimo, caladão, etc.; ou que a história dele/dela é fraca e
que, “por isso, a coisa não funcionou entre nós”. (VILAS BOAS, 2014,
p.273)

Essa citação do Vilas Boas, nos permite perceber o quanto é importante a escrita
e a narrativa que será criada em torno da vida do personagem e a responsabilidade do
pesquisador em tornar essa história atraente para o leitor.
No caso, para as biografias dos mestres de capoeira, identifiquei a partir dos
textos de Vavy Pacheco (2005), que sugere que para a realização de biografias precisa-
se passar as tipologias mais recorrentes assim citadas por Giovanni Leviv (1996), como
a “prosopografia e biografia modal: sobre um caso modal, ou seja, aquele caso que
ilustra formas típicas de comportamento de certo tempo e espaço. A outra é a biografia e
contexto: aquela que procura tornar a pessoa "normal", reconstituindo o meio em torno
do indivíduo; biografia e hermenêutica: ligada à Antropologia, não há preocupação em
escrever uma biografia tipo tradicional” (PACHECO,2005,p.213).
Na capoeira, as biografias só surgiram no século XX, onde parte da biografia
modal sugerida por Giovanni Leviv pôde ser identificada. Neste universo, onde muitos
mestres tiveram vidas discretas, humildes ou até mesmo agitada, só alguns conseguiram
se destacar. Alguns capoeiristas se diferenciaram por supostamente possuírem poderes
sobrenaturais, por sua agressividade dentro de um contexto de opressão, por sua
destreza corporal ou por ter feito da capoeira um instrumento de educação e
socialização.

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Boa parte dos textos encontrados sobre os mestres de capoeira estão em blogs,
páginas sobre capoeira, revistas especializadas, livros biográficos e alguns poucos
trabalhos acadêmicos e literatura. Os textos sobre a vida dos mestres são, em sua grande
maioria, curtos e com poucas informações. Atendem pelo objetivo de informar quem é o
personagem. Como boa parte das informações estão na internet, esse tipo de conteúdo
curto está relacionado à linguagem das redes sociais, o que vou chamar de perfil
biográfico.
O perfil biográfico apresenta uma fase ou parte da vida do personagem com
narrativas curtas. Que pode conter ou não: data de nascimento e morte, nome completo,
local e um fato relevante sobre a vida de alguém. Para Sergio Vilas-Boas (2014) existe
uma diferença importante entre o perfil biográfico e a biografia:
O perfil é um tipo de texto biográfico sobre uma – uma única – pessoa viva,
famosa ou não. Texto biográfico não significa exatamente biografia, que é
outro gênero. Nem tudo o que é biográfico é biografia, aliás. A biografia é
uma composição detalhada de vários “textos” biográficos (facetas, episódios,
convivas, pertences, legados, o feito, o não feito, etc.). (VILAS
BOAS,2014,p.271)

A biografia busca examinar a fundo o personagem, as fases de sua vida são bem
mais exploradas. Para Pacheco (2005, p.214), “o tipo mais completo de uma biografia
seria aquele em que o biógrafo realiza um "mergulho na alma" de seu biografado,
conseguindo penetrar no que veríamos como a intimidade da pessoa já desaparecida”.
No caso dos mestres antigos e falecidos da capoeira, dependendo do mestre,
existem poucas informações confiáveis. Muitos mestres que viveram no início do XX
têm poucos registros, como fotografias, notícias de jornais, registros judicias e policiais.
Outros só ouvimos falar, apenas sabemos dos seus feitos. Para Pacheco (2005), isso
indica como revelar a intimidade do biografado, como a “memória ou a tradição oral
familiar, memórias, autobiografias, ego-história, correspondência (ativa e passiva),
diários; entrevistas na mídia (orais, escritas ou em filmes, vídeos); os chamados objetos
da cultura material: fotos, objetos pessoais, a biblioteca etc, que alguns chamam de
"teatro da memória" (2005, p.2014).
Por outro lado, a literatura ajuda um pouco, como os livros de Jorge Amado que,
por exemplo, descrevia os perfis dos grandes capoeiristas, como Samuel Querido de
Deus. Para PEREIRA (2000), “quando se trata de reconstituir a trajetória de alguém já
falecido, temos de nos contentar com a documentação escrita e os depoentes que se
encontram disponíveis, sem falar que nem sempre temos a sorte de nos depararmos com
ricos arquivos pessoais” (2000, p.118). Alguns personagens são tão ricos que os

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pesquisadores sempre encontram algo para investigar. Pacheco (2005, p.2014) chama
atenção que “A própria vida do biografado fornecerá pistas para outras fontes, como sua
produção no campo da arte, da indústria, da política, da ciência etc”. Assim, chamo
atenção, por exemplo, para as vidas dos mestres Pastinha e Bimba, que existem tantos
elementos a serem explorados que ainda hoje geram trabalhos sobre suas trajetórias.
Então, vale destacar a importância da história oral que nos traz informações que,
muitas vezes, a falta do documento escrito e a imagem não conseguem traduzir. Verena
Alberti (2005) afirma que “a História oral é hoje um caminho interessante para se
conhecer e registrar múltiplas possibilidades que se manifestam e dão sentido a formas
de vida e escolhas de diferentes grupos sociais, em todas as camadas da sociedade”
(2005, p.164).
Nesse caso, a fonte oral entra em destaque. Segundo Júlia Silveira Matos &
Adriana Kivanski de Senna (2011, p.96), a “fonte oral pode acrescentar uma dimensão
viva, trazendo novas perspectivas à historiografia, pois o historiador, muitas vezes,
necessita de documentos variados, não apenas os escritos”.
Apesar dos obstáculos e dificuldades, é possível trabalhar com pouco e fazer
muito. Não há uma obrigatoriedade de fazer um tratado da vida de alguém. Há quem
cede suas memórias, ou quem não quer, ou não se sente à vontade para buscar em suas
memórias as lembranças duras e amargas da fase de sua vida. Existe um limite para
quem vai biografar a vida alheia. Deve-se saber o que escrever ou não. Para Alessandro
Portelli (2000) :
Por isso mesmo, a metodologia da história oral, em que as pessoas não
revelam informações sobre elas mesmas a menos que queiram, porque está
baseada na luta por igualdade e na busca do diálogo, significa também uma
defesa dos direitos das pessoas de não revelar tudo a respeito delas próprias.
(PORTELLI, 2000, p.70)

Quando biografamos um capoeirista, em muitos momentos, sua vida privada se


confunde com sua trajetória na capoeira. Em uma fase da vida não tem como
desassociar uma coisa da outra, como por exemplo, a vida do mestre Moa do Katendê
(1954-2018) como músico e capoeirista. Muitos desses mestres tinham na capoeira
apenas uma diversão ou uma forma de resistir à dureza da vida. Outros passaram a ter
na capoeira a sua razão de viver. Para Ligia Maria Leite Pereira (2003):
Embora toda biografia tenha pretensão à totalidade da vida de um
homem, é, necessariamente, lacunar. Dificilmente se encontram
informações, por exemplo, atos e pensamentos da vida cotidiana, de
dúvidas e incertezas, do caráter fragmentário e dinâmico da identidade

18
do indivíduo e dos momentos contraditórios de sua constituição
(PEREIRA,2003, p.120)
Nesse texto, iremos apontar alguns perfis biográficos e biografias sobre mestres
de capoeira e como alguns autores buscaram fazer este trabalho. Boa parte dos sites e
blogs de capoeira utilizam os perfis biográficos como se utilizam em redes sociais, de
linguagem rápida e acessível.
Começaremos pelos blogs e sites de capoeira que trabalham muito com perfis.
Seguindo a sugestão de Vila Boa (2014, p.276) sobre tipo de perfil, consegui identificar
nos perfis biográficos sobre os mestres de capoeira os seguintes tipos; “1) os espaços; 2)
os tempos; 3) as circunstâncias; 4) os relacionamentos. Esse último pouco relevante
para descrever a vida dos mestres”.
No caso da capoeira, os critérios seguidos nos sites e blogs para descrever seus
perfis são as datas e os locais de nascimento e morte, nome completo, filiação de
capoeira, qual o mestre iniciou e se formou, a trajetória na capoeira, feitos realizados em
uma fase da vida do capoeirista. Para Vavy Pacheco (2005, p. 212) “Há os mais
diferentes tipos de biografias, desde um rápido (ou não) percurso da vida do biografado
(às vezes, um político, um intelectual, um líder religioso, identificados em dicionários e
enciclopédias no estilo mais tradicional, em geral em sequência cronológica, célebre,
com datas importantes e indicando obras de apoio).” Os blogs utilizam os perfis
biográficos de forma muito particular.
O site IBECA, do Instituto Brasileiro de Esporte, Capoeira e Arte, administrado
pelo mestre Formiga, tem uma galeria com perfis, cada um com resumo biográfico dos
ícones da capoeira. Comecemos pelo mestre Bimba (1889-1974), cujo perfil biográfico
ressalta a sua importância em ter criado a capoeira regional e ter “tirado a capoeira da
marginalização”. O texto começa dizendo: “Mestre Bimba o maior capoeirista de todos
os tempos, o libertador da capoeira, o paladino da cultura negra”. Esse tipo de texto tem
como objetivo fazer um recorte daquilo que o autor considera relevante e retirar a
capoeira da ótica marginal. Esse texto não seguiu os critérios citados acima, apenas
critérios próprios. Ressaltou apenas um aspecto da trajetória da vida do protagonista.
Vavy Pacheco (2005 p.213) cita alguns critérios para fazer uma biografia, como
artigo de “1) dicionário biográfico: um breve resumo da vida de uma pessoa pública,
por vezes famosas; este muito utilizado pelos sites e blogs que identifiquei, 2) a
biografia dita "científica" ou dita "literária": obras mais importantes, com preferência
narrativa e finalidade histórica, que trabalham com documentação numerosa e variada”.

19
Essa encontrada em livros e trabalhos acadêmicos. Vale ressaltar que não existe uma
forma de fazer biografia.
No mesmo site, agora sobre mestre Pastinha (1889-1981), o perfil biográfico
segue os mesmos critérios. Destaca quem foi Pastinha, o primeiro que “organizou uma
escola, estabeleceu um método de ensino com base nas antigas tradições, e ainda
escreveu o primeiro livro do gênero, onde expõe a sua concepção filosófica”. Que
introduziu o fardamento preto e amarelo e a “constituição da bateria composta por três
berimbaus, dois pandeiros, um atabaque, um reco-reco e um agogô”.
No blog Filhos Ilustres da Bahia, administrado pelo médico Geraldo Leite,
destaque sobre o mestre Moraes (1950). No blog, o texto do perfil segue uma linha onde
se encontra informações sobre a data de nascimento, local e a sua importância na
trajetória da capoeira, e como líder no Grupo de Capoeira Angola Pelourinho. Nesse
texto, o leitor já consegue dimensionar de onde é e o que fez. É superficial, mas atinge o
objetivo de informar.
Sobre o mestre Traíra (1925-1975), o autor já teve mais dificuldade de encontrar
fontes. Ele destacou a fama do seu jogo rápido e ágil e de suas rasteiras e cabeçadas. As
participações em gravações de discos, curtas metragens e as referências sobre o mestre
Traíra através das obras de Jorge Amado.
No site palmares.org tem um perfil biográfico do mestre Pastinha. O texto segue
uma linha que vai desde as datas de nascimento e morte, filiação e parte de sua
trajetória. Possui foto e parte de suas citações. No blog Malta Nagoa, o perfil sobre
mestre João Pequeno contém informações suficientes sobre a sua vida. Caso queiram se
aprofundar sobre a biografia do mestre João Pequeno, existe um livro com o título
“Mestre João Pequeno – Uma Vida de Capoeira” (2000), escrito por Luiz Augusto
Normanha Lima, que traz informações mais detalhadas da vida do mestre.
As biografias dos mestres que ainda estão em plena atividade, seguem outra
organização para realizar a biografia, como sugere Vavy Pacheco(2005) como a história
do mestre João Grande – “Na roda do mundo” (2010), do autor Maurício Barros de
Castro, que também conta a história detalhada da trajetória do biografado. A história do
Mestre Pelé é marrada em “O Pelé da Capoeira”, de Natalício Neves da Silva. Ainda há
“Capoeira Angola, Histórias e Recordações da Vivência de Mestre Curió”, de Jaime
Martins dos Santos e Jorge de Souza Conceição.
Ao contrário do que se possa pensar, os mestres de capoeira não viviam da
capoeira apenas de outros ofícios. A pratica acontecia em dias específicos, sempre no

20
final de semana. A prática era marginalizada no início do século XX, o que dificultava
mais ainda alguns registros por outras pessoas. Nem todos os mestres eram letrados para
se registrar a sua vivência. A exceção da regra é Daniel Coutinho (1909-1977), que fez
anotações sobre o período vivido e que foi copilado no livro “ABC da capoeira - o
manuscrito de Noronha” por Fred Abreu.
Pedro Abib (2015), no texto que está contido no livro “Uma Coleção Biográfica”
fala sobre mestre Cobrinha Verde, “mandingueiro sim, senhor!”. O autor relatou sua
história e seus causos sobre mandinga, magia e valentia. Mesmo que esse texto não
passe por toda sua trajetória, ele faz um recorte sobre um aspecto da vida do capoeirista.
No livro “Mestre e capoeiras famosos”, Pedro Abib (2009) reuniu alguns capoeiristas e
abordou aquilo que se destacava em cada um. Destacou os mestres conhecidos dentro e
fora do universo da capoeira; os chamados desordeiros e valentões e as mulheres,
inserindo assim a questão de gênero no universo predominantemente masculino e
machista.
Fontes como processos criminais, jornais, fotografias e manuscritos que
serviram de fontes e inspirações para escrever. O mesmo caminho fez Adriana Albert
(2004) para realizar seu artigo “Fiéis da Navalha”, que fala sobre Pedro Mineiro.
Josivaldo Pires (2005), no livro “No tempo dos Valentes”, fala sobre os capoeiristas no
início do século XX. Bel Pires (2009), em outro trabalho, fez um perfil biográfico sobre
os capoeiristas Pedrito e Sete Morte utilizando processo-crime, o manuscrito de
Noronha e o romance de Jorge Amado para elaborar o perfil dos personagens e entender
o contexto no qual eles viviam.
Por outro lado, temos trabalhos mais elaborados que ultrapassam os critérios de
data de nascimento, local e filiação e que analisam aspectos da trajetória do capoeirista,
o legado de seu trabalho, o seu envolvimento com a capoeira e esforço para mantê-la
viva. Um dos trabalhos mais aprofundados sobre mestre Bimba é do autor Hélio
Campos (2009) em seu livro “Capoeira Regional: A Escola do mestre Bimba”.
Descreve a imagem e a metodologia de ensino do mestre Bimba. Dentro desse trabalho,
ele faz um perfil biográfico de alguns mestres como João Pequeno (1917-2011) e João
Grande (1933) e de alguns discípulos do mestre Bimba. Nele existe um critério que
segue desde a data de nascimento, local, profissão e como iniciou na capoeira e a
importância da sua trajetória. Ele ainda utiliza trabalhos de outros autores para justificar
e afirmar o valor dos capoeiristas. Existe todo um cuidado para poder descrever a
trajetória desses indivíduos.

21
Em outro texto, publicado no livro “Uma Coleção Biográfica”- Mestre Bimba: o
mito sagrado da capoeira, por Hélio Campos (2015), o autor vai trabalhar com a
representação simbólica que se criou em torno do mestre Bimba durante a sua vida e no
pós-morte, entre os seus alunos e admiradores. É outra forma de abordar a vida do
personagem, utilizando critérios como local, data, nome completo e sua trajetória na
capoeira.
Identifiquei nas pesquisas duas entrevistas em que o entrevistado contou a sua
trajetória. Essa forma também é uma boa maneira de elaborar um texto biográfico.
Mestre Poloca (2004) concedeu uma entrevista, através do Instituto Nzinga, com o
mestre João Grande onde relatou sua trajetória de capoeira e suas relações com outros
mestres da capoeira angola. Da mesma maneira, a Revista Nossa Referência nº1 (2002)
fez uma entrevista com mestre Lua Rasta, onde ele conta sua história e o que pensa
sobre a capoeira no passado e na atualidade.
Esses são alguns caminhos percorridos por alguns autores para fazer biografia.
Interessante é pensar que não há condições de falar tudo e que se pode fazer por partes.
O presente trabalho seguirá por essa linha para entender a trajetória do mestre Espinho
Remoso.

1.2 A capoeira na Bahia: história e historiografia

Os anos de 1980 para a capoeira angola foram de reafirmação. Nessa década,


alguns grupos de capoeira, junto com outras personalidades, criaram um movimento
para que a capoeira angola pudesse responder e defender seus próprios objetivos e
anseios. Alguns pesquisadores perceberam o quanto essa década foi valiosa e se
permitiram estudar esse movimento. Com abordagens diferentes, eles analisaram as
categorias como ancestralidade, tradição, trajetória, educação, não deixando de ser
abordados ainda, o processo de folclorização, descaracterização, as disputas sobre
legitimidade e autenticidade da prática.
O primeiro autor a ser analisado sobre a capoeira na década de 1980 é Alejandro
Frigerio (1989). Com o trabalho “Capoeira: de Arte Negra a Esporte Branco”, propôs
oito características da capoeira tradicional, que ele identificou como capoeira angola,
observou a importância sociocultural que a capoeira traz na sua construção e como, a

22
partir da criação da modalidade regional, a capoeira sofreu mudanças para se adequar à
nova realidade social. As oito características identificadas pelo autor são: malícia,
complementação, jogo baixo, teatralidade, ausência de violência, movimento bonito,
música lenta e importância do ritual; são encontradas na capoeira angola atual e, em
pesquisas e depoimentos com velhos mestres, identificamos que esses elementos já se
encontravam antes de 1930.
O autor queria de alguma forma provar que a capoeira feita na década de 1980
não era a mesma feita no século de XIX e nem a mesma feita entre o período de 1940 e
1970, mas que no tempo presente se conservava algumas características.
Essas observações foram feita pelo pesquisador e, em alguns grupos, se
encontravam essas características. A década de 1980 marcou o surgimento de vários
grupos de capoeira angola e nem todos os grupos iremos encontrar todas essas
características por uma questão de interpretação. Alejandro Frigerio visitou as
academias de Capoeira Angola em Salvador (CECA e GCAP) e da capoeira regional em
Minas Gerais, Los Angeles, São Francisco, Nova Iorque e Bueno Aires como campo de
pesquisa. Esses não eram os únicos grupos de capoeira angola em Salvador, apenas
aqueles que estavam no centro da cidade, ou seja, existiam outros grupos que estavam
mais afastados e que possuíam organizações próprias, mas não foram pesquisados.
Frigerio (1989) compreende a contribuição da capoeira regional e as
transformações ocorridas a partir do seu surgimento. Para o autor, a capoeira regional
foi responsável pelo embranquecimento da capoeira. O surgimento da academia
facilitou o aprendizado e a inserção da classe média baiana, decorrentes das
apresentações do mestre Bimba ao presidente Getúlio Vargas em 1937. O autor
compreende o valor do mestre Bimba como capoeirista e sua contribuição para a
capoeira no geral.
O processo de descaracterização da capoeira para Frigerio (1989) se deu através
das agências de turismo que, ao promoverem vantagens econômicas aos grupos,
conseguiu introduzir modificações às apresentações, tornando-a mais agradável aos
turistas. As interferências, para o autor, são as apresentações de samba de roda e
pilhérias. Esses elementos que estavam presentes nas apresentações não interferiam no
ritual da capoeira (a roda), até porque essas apresentações aconteciam no final da roda.
No final da década de 1960, houve um processo de regulamentação da capoeira
a fim de torná-la uma arte marcial, para isso, era preciso unificar nomes de golpes,
graduações e elaborar campeonatos. Em 1972, a capoeira foi reconhecida como esporte

23
nacional e, em 1974, surgiu a primeira federação, a Paulista de Capoeira. Tudo isso
sobre a chancela da Confederação Brasileira de Pugilismo que detinha os registros dos
grupos de capoeira.
Para Frigerio (1989), o desenvolvimento da capoeira como esporte teve
consequências na sua prática e concepção. Para confirmar isso, ele cita alguns aspectos
com uma crescente burocratização: a incorporação de elementos das artes marciais
orientais; uma cooptação ideológico e política da arte pelo sistema, e concepções
evolucionistas subjacentes. “A malícia e teatralidade” foram aspectos que mais sofreram
com o processo de esportivização, segundo o autor.
O autor não analisa e não aponta como os mestres de capoeira resistiram às
investidas das agências de turismo. Não aponta e não relata como, no processo de
regulamentação da capoeira, os grupos da Bahia apoiaram ou foram contra. Mas, é um
trabalho pioneiro para o período estudado e consegue sistematizar o estudo numa
linguagem acadêmica. A obra traçou um paralelo entre a Umbanda e a capoeira
regional, buscando explicar o processo de branqueamento a partir da aproximação de
uma classe média e afastamentos dos seus elementos populares e africanos, utilizando o
trabalho de Renato Ortiz como referência teórica.
O segundo trabalho a ser analisado foi de Paulo Andrade Magalhães Filho
(2012), em sua dissertação de mestrado “Em jogo de discurso - a disputa por hegemonia
na tradição da capoeira angola baiana”, o autor estudou as identidades dos grupos de
capoeira angola através de diferentes linhagens, e como construíam o discurso sobre
tradição. Avaliou também o contexto histórico da capoeira na cidade Salvador antes da
criação da capoeira regional, destacou como os capoeiristas eram vistos e como eles se
comportavam nesse período.
O estudo fala ainda sobre autenticidade e identidade, faz críticas a alguns
pesquisadores, sobre como eles abordavam essas categorias em relação à capoeira
angola, especialmente na Bahia. O autor concorda que a capoeira angola conserva
características da capoeira tradicional como Alejandro Frigeiro.
Magalhães Filho(2012) fez uma análise sobre a trajetória dos mestres Bimba e
Pastinha e sobre os caminhos que os dois percorreram com a capoeira angola e regional.
Deu destaque a outros mestres e investigou as linhagens das famílias de capoeira.
Procurou entender as relações que a capoeira teve com os órgãos de turismo, com a
indústria cultural e seus efeitos. As consequências da regulamentação da capoeira como
esporte e as formas como os capoeiristas se organizaram para defender seus interesses.

24
Procurou entender as disputas entre os grupos sobre a hegemonia da tradição da
capoeira angola entre a linhagem do mestre Pastinha e todas as outras linhagens.
Abordou o movimento de revitalização da capoeira angola e o impacto que ela trouxe
para comunidade. Vale apontar que o destaque que deu à atuação do CECA de João
Pequeno foi pequeno em relação ao GCAP e ACANNE.
Fábio Oliveira Nascimento (2007), historiador, em sua monografia “A capoeira
angola: do ostracismo à mundialização – conformações de um processo” (1980 -2006)
investigou de que forma a capoeira angola passou de uma arte marginal para o processo
de mundialização. Nascimento (2007) analisa os processos históricos e sociais da
capoeira nas principais manifestações brasileira. Depois analisa a importância do mestre
Bimba e suas estratégia para criar e divulgar sua criação a Capoeira Regional e os
impactos que ele trará para capoeira.
Analisa também a trajetória capoeira angola e a organização do mestre Pastinha,
a capoeira e suas relações com o turismo, o teatro e outras atividades culturais até
chegar nos anos 1980 e os seus processos de revitalização e as estratégias que a capoeira
angola fez para se reconstruir e sair do ostracismo no final da década de 1970.
Destaco na análise de Fábio Nascimento (2007) a afirmação que os Mestres
Pastinha, Bimba e Waldemar sofreram com o processo de mais-valia do cultural.
Segundo o autor, a capoeira tem “a linguagem adaptativa necessária para transformar a
sua arte em “produto cultural”, mas não eram proprietários dos “ meios de produção
cultural”, que viabilizariam a absorção própria dos lucros gerados por sua
prática”(2007,p.9).
Fora as análises desses autores acima sobre a década de 1980 e suas diferentes
interpretações sobre esse período. Eu destaco no século XX a partir dos anos de 1960
permitiram que a capoeira desse grande salto, até então sonhados ou não imaginados
pelos seus praticantes. A capoeira da geração dos mestres Bimba, Pastinha, Waldemar,
Gato Preto, Totonho de Maré, Caiçara e Canjiquinha, os velhos mestres da vadiagem,
como chamou Luiz Renato Vieira1, construiu um imenso legado cultural e de
resistência, dando um suporte de valor inestimável às gerações futuras. Esses velhos
mestres se destacaram, entre tantos outros, que ficaram no anonimato, afastados dos
grandes centros, desenvolvendo seu trabalho, contribuindo para a preservação e
memória da capoeira.

1
Título de um artigo da Revista Capoeira #6- Os velhos mestres da Vadiação Baiana-p46-49-Luiz
Renato Vieira

25
A capoeira iria aparecer atrelada ao jeito baiano de ser, da malemolência2, em
um certo contexto histórico no início do século XX. Nesse período, a capoeira tinha
recebido a permissão de funcionar em recinto fechado e despontava junto com o
candomblé no projeto nacionalista de Getúlio Vargas. Para Larissa da Silva Ferreira &
Eustógio Wanderley Correia Dantas (2003, p.115), percebendo essa tendência, o poder
público se apropriou do discurso da baianidade3, construído pela literatura local, e o
explorou como mecanismo de venda do território baiano na institucionalização da
atividade desde a década de 1930 pelo governo municipal de Salvador, e da década de
1950, pelo governo estadual de Régis Pacheco (1951-1955).
Para Osmundo de Araújo Pinho (1998), a ideia da Bahia estava dentro de uma
concepção disseminada por diversos agentes sociais, e onipresente nas afirmações do
senso comum em Salvador, que se apresenta como uma rede de sentido indefinida e
abrangente, capaz de interpretar e constituir, de determinada forma, a auto representação
dos baianos.
A literatura serviu para reforçar esse estereótipo com os livros de Jorge Amado.
A figura de Dorival Caymmi também contribuiu para essa imagem do baiano. Para
Larissa da Silva Ferreira & Eustógio Wanderley Correia Dantas (2003, p.115), “o
imaginário territorial de Bahia se desenvolveu a partir do próprio baiano e de sua forma
de ser e viver. Tal imaginário territorial vincula-se a específicas formas de vida dos
baianos como diferentes dos demais brasileiros, devido à específica fusão de seus
aspectos históricos, geográficos e de mestiçagem social, que lhe proporcionaram tal
singularidade”.
Com o passar do tempo, a partir dos anos 1950, o seu valor artístico passou a
contribuir em diversas áreas culturais, principalmente para o turismo, onde essa
instituição ainda se profissionalizava. Surge o Teatro Castro Alves (1951), Clube de
Cinema da Bahia (1958) e o Museu de Arte Moderna (1960) como alguns dos espaços
culturais da cidade em começo de desenvolvimento urbano-cultural. A partir da década

2
Malemolência – segundo o dicionário Michaelis, Conjunto de gestos e maneiras de se expressar com
certa malícia; molejo. Ginga rítmica própria dos antigos malandros ou de músicos que interpretam o
samba; molejo.
3
Segundo Osmundo S. de Araujo Pinho - “sentimento” de diferença que baianos têm em relação ao resto
do país e do mundo; (b) que este “sentimento” é constituído a partir de narrativas específicas; (c) que
estas narrativas condensam conteúdos particulares; (d) que estes conteúdos são ideológicos, no sentido
interpretativista; (e) que esta ideologia é tanto a base para a construção de um consenso político com
vistas à dominação, como a base para a reprodução de uma multiplicidade de bens simbólicos, negociados
no mercado internacional de cultura.

26
de 1960, existiu um aprofundamento da parceria entre os órgãos e as agências de
turismo, onde elas se tornam o principal veículo de divulgação e promoção da capoeira,
junto com os grupos parafoclóricos.
A capoeira chegou à década de 1970 com muita expectativa de expansão em
outros espaços, seduzida pelas possibilidades econômicas e de realização do trabalho
fora do estado. A capoeira angola viveu, ao mesmo tempo, uma crise em sua estrutura
básica com alterações na sua forma de organizar. Alguns mestres e simpatizantes da
causa da capoeira lutaram para chamar atenção dos problemas. Outros resistiram e
muitos outros lutaram para que o projeto fosse implantado. Agora o combate não era só
externo, era também interno, e os próprios capoeiristas estavam deturpando a capoeira.

27
CAPÍTULO 2

ESPINHO REMOSO: A TRAJETÓRIA DE UM MEMBRO


DA VELHA GUARDA

Nesse capitulo, pretendo acompanhar a trajetória do mestre Espinho Remoso


(1910-1960), que teve uma trajetória curta na capoeira. Foi um capoeirista que alguns
ouviram falar, outros nunca viram jogar e muita gente nem ouviu falar. É um
personagem para poucos. A sua breve história foi suficiente para deixar um legado no
bairro onde fixou suas raízes - Jaqueira do Carneiro, em Salvador- sendo lembrado hoje
por possuir um grupo que leva seu nome, fortalecendo assim a sua memória.

2.1 A “Cidade da Bahia” e seus capoeiras

No começo do século XX, a cidade de Salvador e outros centros urbanos do país


ansiavam por mudanças que a República prometeu trazer. As elites brasileiras e baianas,
além de se inspirarem no modelo político da constituição americana, se inspiraram
também no modelo civilizador e modernizador europeu. Para os grupos dominantes da
cidade, a modernização do país precisava de reformas sociais, culturais e urbanas que
apagassem as heranças do passado escravocrata.
Com isso, a geografia urbana e social da cidade de Salvador foi se alterando à
medida que o governo tentava implantar seu projeto modernizador, como abertura de
grandes avenidas, demolições de prédios antigos, realocação de uma parte da população
pobre e negra do centro para a periferia da cidade, enquanto tentava resolver, ao mesmo
tempo, os problemas de higienização urbana e social. Josivaldo Pires de Oliveira afirma
que:
(...) Enquanto Rio de Janeiro e São Paulo tiveram suas populações
empurradas para as margens da cidade, em Salvador as mudanças na infra-

28
estrutura urbana não foram acompanhada pela expulsão das populações de
seu centro. Essa população se concentrou no centro cidade e acarretou por
parte das autoridades, resultando na criação de políticas de controle social
que objetivavam disciplinar os costumes, “civilizar as cidades” (OLIVEIRA,
2004, p.11)

Os intelectuais brasileiros e os principais governantes das capitais buscavam


reforços na antropologia criminal de Cesare Lombroso, Arthur Gobineau e Nina
Rodrigues para implantar sua política de higienização da cidade ou de reordenamento
das instituições, com a justificativa que determinados comportamentos sociais e
manifestações culturais comprometiam a implantação do projeto civilizador desejado.
Maria Helena Flexor(2011) relata que:
A higienização, num sentido mais amplo, como saneamento geral, previa não
só a limpeza da cidade – através de calçamento de ruas, coletas de lixo,
construção de esgotos, canalização dos riachos urbanos, reforços das
encostas, secularização dos cemitérios, remodelação das casas e prédios
públicos- mas também a remoção das sujeiras humana, num evidente
programa de ordem e disciplinarização da sociedade. (FLEXOR,
2011.p.250.)

Vale destacar que alguns dos aspectos desse projeto modernizador passariam por
criações de instituições que fizessem “a limpeza das ruas”. Ou seja: além de acabar com
a insalubridade, uma marca forte da cidade, acabaria também por realocar a população
negra e pobre dos centros urbanos. Outro objetivo era impedir qualquer articulação de
grupos organizados, evitando a insurreição da população negra no país, aos moldes da
independência haitiana (1804) e da Revolta do Malês (1835). Assim, o poder público
demarcava as zonas urbanas consideradas como perigosas, aumentando assim a
vigilância sobre essa população. Federico de Abreu afirma que:
Vale dizer que, em nome desse preconceito, forjaram-se argumentos tantos
para afastar das zonas nobres da cidade a prática dessas manifestações, como
para proibi-las de acontecer. Ficavam no desejo, sustentado por uma retórica
vazia e alguma mentalidade progressista, pois o modelo civilizador das elites
não se concretizava satisfatoriamente, impedido por profundas causas
socioeconômicas. (ABREU. 2008, p.40)

Para Antônio Carlos Lima da Conceição (2010), os esforços dos agentes para
modernização da cidade passavam por resolver a falta de estrutura e infraestrutura
urbanas, a qualidade das habitações, não excluindo do processo a preocupação com os
hábitos da população, assumindo uma dimensão social.
Nesse cenário urbano da cidade do Salvador, temos o bairro da Fazenda Grande,
localizado na zona norte da cidade, que tem na sua formação pessoas que chegavam do
interior em busca de melhores condições de vida, como por exemplo, pequenos

29
comerciantes, agricultores, pedreiros, carpinteiros e magarefes. No passado, o bairro
também servia de morada para os criadores de boi, que tinham a tarefa de levar o gado
pela Estrada das Boiadas, que era a principal porta de entrada da capital baiana. Dentro
do bairro da Fazenda Grande, existe a rua Jaqueira do Carneiro, onde parte dessa
população passou a construir suas moradias.
Segundo Pedro de Almeida Vasconcelos (2002, p.252), a rua ligando o Retiro ao
Engenho da Conceição (atual AV. San Martin) foi aberta em 1859 e, em 1876, o
matadouro público foi transferido do Barbalho para o Retiro. É para esse contexto e
lugar que chega o mestre Espinho Remoso, onde construiria uma história e um legado
de capoeira nesse bairro.
Nos anos de 1930, chega a Salvador um jovem, natural da cidade de Teixeira de
Freitas, localizada no extremo sul da Bahia, 800 quilômetros distante da capital.
Chamado Elízio Maximiano Ferreira (1910-1960), ele ficaria conhecido na capoeira
como Espinho Remoso. As fontes indicam que, antes de vir para Salvador, seu Elizio
Maximiano viveu em Santo Amaro da Purificação, na região do Recôncavo baiano,
onde trabalhou por algum tempo. Ele teve três esposas. Uma delas foi a senhora Edite
Isabel dos Santos, com que teve apenas um filho, chamado Virgílio Maximiano Ferreira
(1944).
Seu Elízio Maximiano era um homem baixinho, negro, sisudo e parrudo. Não
tinha profissão definida, trabalhou em um canavial em Santo Amaro e em outras cidades
do Recôncavo e, ao chegar em Salvador, foi vender fato no bairro do Retiro. Segundo
os relatos do mestre Zé do Lenço: “ O mestre Espinho Remoso era todo pequenininho,
igual a Virgílio. Vamos dizer que é Virgílio ali. Virgílio e Raimundo parecem muito
com ele, todo pequenininho”.

30
Figura 1 Mestre Espinho Remoso. Arquivo Mestre Zé do Lenço

Elízio Maximiano iniciou na capoeira através do seu grande parceiro mestre


Antônio Cassarogongo, no Engenho da Pindoba, que ficava entre as cidades de Santo
Amaro e Candeias. As fontes não indicam nenhum aprendizado anterior ao período a
chegada dele na cidade. Na Trajetória de Elizio Maximiano, existe a história de mestre
Cassarogongo.
Antônio Elói dos Santos, mestre Casssarogongo, nasceu em 11/10/1911 e
faleceu em 12/2006, em uma fazenda de café, localizada na cidade de Caicó, no Rio
Grande do Norte. Em 1927, foi embora para Bahia para morar em Santo Amaro. Lá,
aprendeu capoeira com mestre Benedito. Trabalhou por muito tempo nos canaviais da
região do Recôncavo, principalmente em Maracangalha4. Esse era o nome que os
ciganos deram à fazenda de cana de açúcar pertencente à Vila de São Francisco, que em
1912 se tornou usina e um ano depois trocou nome para Cinco Rio 5, fechando em 1976.

4
Revista Manchete Afinal, o que é Maracangalha? 2/02/1957 reportagem de Inácio de Alencar
5
Usina Cinco Rios - Fundada em novembro de 1912, a Usina Cinco Rios recebeu equipamentos da
Companhia Usina Bom Jardim, que surgiu em fusão de engenhos dos arredores, como o Sincoris, o
Sapucaia, Cassarangongo, Paramirim e Maracangalha. O engenho Maracangalha já existia desde 1757
localizado na Freguesia de Nossa Senhora do Monte Recôncavo, que depois passa à São Francisco do
Conde até ser transformado, posteriormente,em Usina Maracangalha, com produção de 80 toneladas,
conforme registro de1898. A Usina Cinco Rios foi uma das mais bem instaladas usinas baianas de açúcar,
tendo maquinário de última geração e força motriz de máquinas a vapor, inovando ao utilizar o bagaço da
cana como combustível e energia elétrica. A sua história, ligada ao período açucareiro, mostra a
prosperidade – quando atingiu a contratação de 1,2 mil operários – e a decadência dessa economia na
Bahia. Em1972, a Usina Cinco Rios teve a maior safra de todos os tempos, produzindo açúcar de primeira
qualidade apesar da decadência das demais na Bahia. Ao longo de seis administrações, a Usina fechou e
reabriu várias vezes. A partir de sua instalação, o distrito de Maracangalha formou-se ao seu redor. Casas
construídas pelos proprietários da fábrica acomodavam os trabalhadores, o comércio desenvolveu-se e o
povoado cresceu em função da usina. A mão-de-obra empregada dividia-se entre trabalhadores rurais e da
fábrica –IPAC.

31
Segundo relato do mestre Zé do Lenço, Antônio Cassarogongo ganhou esse nome por
ter trabalhado como chamador de boi, que carregava a cana-de-açúcar para moagem de
cana, no Engenho Cassarangongo6.

Figura 2 Usina cinco rios atualmente sem funcionar - acervo blog velhos mestres

Em busca de melhores condições de vida, o mestre Cassarogongo foi morar no


bairro do Lobato, em Salvador. Lá, foi trabalhar no Cais Dourado, onde jogava capoeira
com outros capoeiristas vindos do Recôncavo, que esperavam a maré alta para poder
desatracar seus barcos na Praça Marechal Deodoro. De Lobato, ele vai residir no bairro
Bom Juá, onde reencontra o seu compadre e parceiro Mestre Espinho Remoso. No
bairro do Retiro, ele vai exercer sua função de magarefe7. O mestre tinha uma postura
muito reta e elogiável pela comunidade. De falar pouco, causava medo às crianças que
os respeitavam no bairro.
No Cais do Dourado, a praça foi reduto de grandes capoeiristas e lá se tocava
samba regado à bebida e mulherada. Segundo o mestre Zé do Lenço, quem trabalhava
no Trapiche de Baixo não podia jogar e trabalhar no Trapiche de Cima. Esse ambiente
das rodas de ruas ou do Porto de Salvador já foi relatado por alguns autores, pela
mística dos capoeiristas, pelo ambiente muita vez hostil, animado e marginal no início

6
Cassarangongo – segundo o dicionário escolar afro brasileiro, o nome Cassarangongo remete a um
personagem mitológico afro-brasileiro.
7
Magarefe- Aquele que, nos matadouros, mata e esfola reses; carneador- dicionário Michaelis.

32
do século XX. Um desses autores é Pedro Abib (2004), que explica sobre o ambiente
das rodas nesse período:
A capoeira nessa época era então presença constante, principalmente nos fins
de semana e feriados. Enquanto as doses do “espírito forte” (denominação
antiga da cachaça) rolavam nas mesas, o samba, o batuque e as vadiagens de
capoeira rolavam na frente desses estabelecimentos. E era assim que muita
gente se iniciava nessas “artes da malandragem”. (ABIB, 2004. p.127)

Nesse ambiente do Porto, que era umas das entradas da cidade, havia muito
trabalhadores que vinham do interior à procura de oportunidade. Gente simples, honesta
ou pessoas espertas aprendiam com o tempo a dinâmica das ruas e da vida.
A dinâmica no interior era diferente. Quando se tinha trabalho, existia uma
movimentação dos trabalhadores de cana-de-açúcar, frequente na região do Recôncavo
para colheita e plantio. Nos depoimentos recolhidos para a pesquisa, existe uma
variação de lugares sempre como referência à atividade voltada para colheita de cana-
de-açúcar. Enquanto morava e trabalhava na cidade de Santo Amaro, seu Elisio
conheceu um senhor de origem africana chamado Tiodé da Quibaca. Quibaca era uma
fazenda de cana-de-açúcar que ficava em Maracangalha. Hoje, é uma rua que fica
localizada no município de São Sebastião do Passé, onde Tiodé8 residia.
“Tiodé era um negro magro e alto. Andava com a cabeça coberta e escondia o
seu rosto. Andava no cavalo a noite toda e ninguém conseguia vê-lo. Ele não dormia e
andava a noite toda”. Assim relatou mestre Zé do Lenço ao reproduzir a história do
mestre Cassarogongo.
Esse episódio relatado por mestre Cassarogongo tanto para o mestre Zé do
Lenço e Wilson Pedra, na qual nenhum deles viveram esse momento, mas ambos
ouviram e reproduziram essa história como se tivesse estado lá. Para Mauricio
Halbwachs (1990, p. 26) diz que “nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos
são lembradas pelo outro mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós
estivemos envolvidos e com objeto que só nós vimos”
Como essas lembranças não foram escritas pelos personagens envolvidos,
apenas relatos, a oralidade se torna uma fonte imprescindível. A história oral é baseada
nas lembranças e memórias de um sujeito que relata um episódio de sua vida ou da vida
de alguém. Para Júlia Silveira Matos & Adriana Kivanski de Senna (2011.p.6), “não é
somente a lembrança de um certo indivíduo, mas de um indivíduo inserido em um

8
Quibaca - segundo o dicionário Michaelis Bráctea que envolve a inflorescência das palmeiras

33
contexto familiar ou social, por exemplo, de tal forma que suas lembranças são
permeadas por inferências coletivas, moralizantes ou não”.
Segundo o depoimento do mestre Zé do Lenço, Elízio Maximiniano e Antônio
Cassarogongo trabalhavam na plantação de cana-de-açúcar na região do recôncavo
baiano. Depois do trabalho, eles jogavam capoeira. Tiodé achou interessante o jogo e
resolveu sentar para assistir. Foi quando, durante o jogo, um espinho entrou no joelho
de Elízio. Ele caiu e o joelho ficou inchado. O feiticeiro perguntou o que tinha
acontecido e se levantou para ajudá-lo. Pegou o espinho e tirou, mas a ponta do espinho
tinha ficado. Tiodé bateu no joelho e a ponta do espinho saiu na palma da sua mão. A
partir daquele momento, Tiodé sugeriu que seu Elizio passasse a se chamar Espinho
Remoso9.
Esse episódio vivido e contado por mestre Antônio Cassarogongo ao mestre Zé
do Lenço, é base da história do nome do grupo. É reproduzida até hoje para manter a
memória do grupo viva e de sua principal referência. Sobre memória coletiva, Maurice
Halbwachs nos indica que:
Uma ou mais pessoas juntando suas lembranças conseguem descrever com
muita exatidão fatos ou objetos que vimos ao mesmo tempo em que elas, e
conseguem até reconstituir toda a sequência de nossos atos e nossas palavras
em circunstâncias definidas, sem que nos lembremos de nada de tudo isso
(HALBWACHS, 1990, p. 31).

Se o mestre Zé do Lenço remonta essa história e essa memória como se estivesse


vivido, é uma forma de ativar a memória de um grupo específico. MATOS & E SENNA
(2011) diz que:
(...) a memória é sempre uma construção feita no presente a partir de
vivências ocorridas no passado. Memórias individuais e coletivas se
confundem; não somos ilhas e, portanto, estamos sujeitos a influências, bem
como a influenciar, os grupos a que pertencemos e com os quais nos
identificamos. (2011, p.97)

No universo multifacetado da capoeira, a religiosidade era muito forte e suas


práticas eram mescladas com os rituais da roda. O trânsito entre o sagrado e profano
fazia parte do universo da capoeira no começo do século XX. O misticismo no universo
imaginário da capoeira sempre teve uma presença muito forte, ainda mais quando se
tratava das histórias do sobrenatural de alguns capoeiristas famosos da época.

9
Reimoso- segundo Antônio Luiz Rodrigues Pinto (DF) em 21-05-2009. Dicionário informal seria
Corruptela de reima ou reuma, que significa algo que ofende, que agride, que faz mal, que provoca
incômodo fisiológico no organismo; 3) característica de alimentos que possam prejudicar a saúde,
envenenar o sangue, causar pruridos, provocar alergias, diarréia e que dificulta a cicatrização de feridas
acidentais ou infecciosas e cicatrização pós cirúrgica; mau gênio, genioso, brigão, rabugem.

34
Muitos capoeiristas eram adeptos do Candomblé. Mestre Virgílio, em
10
entrevista, relata que o mestre Espinho Remoso era adepto do Candomblé. Segundo
mestre Virgílio, “ o meu era pai de santo, mas de vez em quando entrava na lei de crente
e parava a capoeira”.
Alguns capoeiristas tinham fama de ter corpo fechado e outros de
mandingueiros por possuírem patuás ou amuletos que acreditavam que os protegiam de
um momento de perigo. Nesse momento, o espaço da roda de capoeira era onde se dava
o campo de mandinga. Em todos os sentidos, era o momento de lidar com o
imprevisível e com a malícia do companheiro no desenvolvimento do jogo, com toda
sua habilidade e destreza. Mauricio Barros de Castro (2007) diz que:

Os capoeiras antigos sempre estiveram cercados de uma mística


sobrenatural. Usavam patuás, amuletos que continham orações e os
protegiam dos perigos, e eram reconhecidos como mandingueiros. Os
mandingas, ou malinquês, habitavam o reino do Mali e foram
convertidos ao islamismo no século XIII, mas permaneceram
conhecidos como detentores de crenças e tradições fetichistas
associadas à feitiçaria. Por isso os patuás também eram conhecidos
como “bolsas de mandinga”. (CASTRO. 2007.p.2 )

Adriana Albert Dias (2009,p.54) fez uma análise sobre a questão da mandinga
“como o ato de ludibriar o contendor por meio da astúcia”. Luiz Vitor Castro Junior
(2003, p.19) também chama atenção para a característica da mandinga, que é pré-
requisito fundamental em qualquer capoeirista e não deve ser entendida como uma
manifestação artificial (quando, a todo custo, o capoeirista quer pegar o outro no revide
imediato e violento), mas como a tranquilidade de perceber o momento certo para dar o
"bote da cobra".
O universo da capoeira foi uma construção cultural num campo de tensões e
conflitos numa sociedade dominadora e repressora, onde os capoeiristas desenvolveram
estratégias de resistência que lhes permitiram expressar dessa forma as suas
insatisfações. Os rituais, os cânticos, a sua religiosidade, a sua organização são
características construídas dentro de uma relação de poder entre o mesmo membro do
grupo social e fora dele.
As formas de resistência foram diversas no contexto histórico da escravidão e no
pós-escravidão do próprio negro no Brasil. A capoeira é uma dessas formas de
resistência e luta desenvolvida durante séculos para resistir à opressão e dominação do

10
entrevista cedida ao mestre Valdec.

35
povo europeu e uma elite local, seja cultural ou econômica. Para Pedro Abib (2016), o
papel da capoeira foi fundamental na história de resistência brasileira:
A capoeira tem uma relação muito forte com todo o processo civilizatório
brasileiro, carregando consigo marcas históricas que denunciam a opressão e
a violência sofrida pelos povos escravizados e subalternizados pelo regime
escravocrata, sendo um poderoso símbolo da luta contra a injustiça e a
desigualdade em nosso país, se transformando hoje em dia também num
importante instrumento de educação para todas as classes sociais. (ABIB,
2016, p.3)

Não só a capoeira teve um papel fundamental nesse processo de resistência e


formação, como outras expressões culturais de matrizes africanas, a exemplo do
Candomblé e do samba, que contribuíram para formação do povo brasileiro.
No período entre 1930 e 1960, o mestre Espinho Remoso ainda estava na ativa.
O aprendizado acontecia nas rodas e sempre nos finais de semana. A experiência do
mestre Espinho Remoso na capoeira não foi só na Fazenda Grande. O Jornal
Metropolitano (1960) fez menção ao nome do mestre Espinho Remoso ao se referir aos
capoeiristas da cidade que se destacavam naquele período, fora a família do mestre
Pastinha. O jornal menciona assim:
“Grandes nomes ainda existem, fora desse grupo. No Corta Braço, zona do
bairro da Liberdade e talvez o local mais representativo de região de
capoeira, em Salvador, destacam-se Traíra, Valdemar, Cabeça de Bagre, etc.;
Bimba, em Amaralina; Espinho Remoso, na Brigada Militar; e muitos outros,
ainda.”

Os capoeiristas do bairro ainda mantinham viva a tradição de fazer capoeira na


rua. Em entrevista, mestre Zé do Lenço chama a atenção para a criação do barracão do
Seu Lourival, dono do time de futebol Natal, que criou uma sede para seu time.
Esse local também serviu para dar aulas para crianças e, nos finais de semana, a
capoeira passou a ocupar o espaço. O advento das academias, a partir do mestre Bimba,
em 1937, e Mestre Pastinha, em 1940, não inviabilizou as formas de aprendizagem nas
ruas. A ideia de grupo, com formalidade e código de conduta em espaço fechado, é uma
releitura das ruas.
Do início até meados do século XX, o que não tinha mudado muito era situação
econômica dos mestres em Salvador. Muitos ainda sobreviviam de seus ofícios e tinham
as academias como complemento de renda quando conseguiam cobrar pelas aulas. A
capoeira era uma paixão, uma distração, um instrumento de defesa e luta para lidar com
as adversidades da vida. Waldeloir Rego (1968. p.309) sinaliza que “antes da invenção
da academia antes de 1930 o aprendizado se dava nos terreiros, em frente a boteco de
cachaça, quitandas ou casa de sopapo ou onde moravam“.

36
A roda era um espaço de brincadeira, lazer e aprendizagem, como chamou
atenção o mestre Zé do Lenço ao se referir à prática da capoeira “como brincadeira” nos
finais de semana. Com o passar o tempo ensinar capoeira passou de “brincadeira ou
lazer”, para ser um oficio. Essa modificação levaria a uma mudança na forma como os
mestres de capoeira passaria a exercer a pratica na cidade. Não atingindo a todos, mas
mestres passaria a cobrar por apresentações e aulas de capoeira.
Vivian Fonseca (2011) acredita que a figura do mestre sofre modificações com a
institucionalização que fez a capoeira sair das ruas para os espaços fechados:
A valorização da figura do mestre coincide com o processo de
institucionalização da capoeira a partir dos anos 1930, quando há o
surgimento de Escolas. O importante a ser destacado dessa transformação é o
fato de que, a partir da criação das duas Escolas baianas, a capoeira passa a
ser ensinada em locais fechados, através de métodos de ensino. Esse processo
gerou uma institucionalização e hierarquização no interior da capoeira, na
qual o mestre aparece no alto dessa escala. É ainda, nesse momento, que
podemos pensar numa ressignificação da ideia de mestre. Somente com a
criação de uma escola, com um professor e alunos, que o mestre passa a ser a
figura norteadora das relações na capoeira. Apesar de já existir essa figura
anteriormente, é nesse momento que ela ganha destaque, passando esse título
a ser valorizado mais intensamente. (FONSECA, 2011, p.1)

2.2 Da rua às escolas: as Academias de capoeira e suas formas de


aprendizagem

No passado, quando não havia possibilidade de aprender em recinto fechado, as


ruas eram o ambiente natural da capoeira. Foi nesse ambiente que mestre Espinho
Remoso, mestre Cassarogongo, mestre Diogo e tanto outros construíram suas histórias.
Esse universo foi analisado por Josivaldo Pires de Oliveira (2004), que estudou as zonas
de atuação dos capoeiristas no início do século XX, analisando seu cotidiano e a
relações que foram construídas com o universo das ruas. Josivaldo Pires Oliveira (2004,
p.35) descreve alguns lugares como Calçada, Baixa dos Sapateiros, Misericórdia, Praça
da Sé, Taboão, Pilar, Julião e Saldanha da Gama, que foram pontos de conflitos e
atuações dos capoeiristas. Esses locais eram, em muitos momentos, um espaço de
aprendizagem da capoeira.
O momento da roda e o espaço tinham outro significado para quem praticava
capoeira no tempo em que jogar capoeira era por amor e arte, como sinalizou mestre
Totonho de Maré. As ruas, as praças e o porto foram locais onde a capoeira construiu
sua identidade e marcou a sua história na cidade, como pode citar o Pelourinho, Santo

37
Antônio, Cidade Baixa, Fazenda Grande, Chame-Chame e Liberdade, bairros que
marcaram e ainda marcam a história da Capoeira. Em entrevista, mestre João Pequeno
11
relata um pouco sobre esse período:
[...] As rodas aconteciam nas praias, nos quintais, nos terreiros, nas praças,
nas festas, não tinham academias. Antigamente, não tinha capoeira em
espaço, era na rua, tinha Valdemar na Liberdade, tinha Cobrinha Verde no
Chame-Chame, e em Salvador, quem me levava para rodas e com quem
comecei era Barbosa e nisso, foi quando encontrei seu Pastinha, eu estava
numa roda de capoeira, ele chegou e jogou e na saída, disse: “eu quero
organizar isso e quem quiser, apareça lá no Bigode”, eu aí, acompanhei ele e
não deixei mais. (Mestre João Pequeno)

O surgimento das academias a partir de 1930 e 1940 fez mudar a forma de


aprendizagem e possibilitou o mestre de capoeira se profissionalizar. Vale ressaltar que
a antiga forma de aprender capoeira fora das academias permaneceu por algum tempo
na Bahia. Ilnete Porpino Paiva (2007.p.90) explica que “o termo academia, representa a
escola do mestre com todos os seus rituais, valores, códigos, significados e símbolos”.
A pesquisadora faz uma análise sobre o termo academia para o mundo capoeira:
Esse termo academia não é próprio do mundo da Capoeira. Era e ainda hoje é
comum ouvir falar de academia como se referindo ao estabelecimento onde
acontecem treinamentos de modalidades esportivas como Karatê, Boxe, Judô,
Jiu-Jitsu, entre outras. Seguindo a mesma direção, os capoeiristas, quando
abriram seus espaços para ensinar Capoeira, passaram a usar o nome de
academia (PAIVA, 2007.p.90)

A mudança levaria muito tempo para que o aprendizado da capoeira angola se


desse dentro de um espaço fechado. Durante mais da metade do século XX a capoeira
sofreu mudança não só no seu espaço da prática. A forma de ensinar também mudaria
com a passagem do tempo, provocado por um melhor aperfeiçoamento dos praticantes.
Os saberes dos antepassados ainda estavam presentes na transmissão de como
esses mestres ensinavam capoeira. A oralidade, o exemplo e o respeito são marcas
muito fortes na cultura de matriz africana que os mestres de capoeira mantinham com
persistência mesmo com à passagem do tempo e às dificuldades encontradas pela vida.
Castro Junior (2003) reflete sobre os saberes:
O saber produzido nas comunidades pobres da sociedade, identificado como
culturas de resistências, não é qualquer tipo de saber. Ele emerge de situações
imediatas, mas, sobretudo do significado da herança cultural em campo fértil
de criação e recriação de saberes. O saber é uma relação dinâmica, profunda,
concreta e criativa do sujeito que conhece com seu mundo e estabelece

11
Texto extraído da entrevista com o Mestre João Pequeno de Pastinha (João Pereira dos Santos) em
13/02/2007 na sede de sua Escola no Forte de Santo Antônio Além do Carmo em Salvador-BA, realizada
por Amélia Conrado e Ricardo Biriba, para o Inventário e Registro da Capoeira pelo IPHAN.

38
interação entre o sujeito e o mundo como processo e produto desta interação.
(CASTRO JUNIOR, 2003, p.41)

Por muito tempo o aprendizado da capoeira se dava empiricamente na roda. Um


capoeirista mais experiente, falava sobre os códigos, mostrava como deveriam ser feito
os movimentos e a dinâmica nas rodas. Talvez, a expressão “método” “didática” não se
enquadre a forma dos mestres antigos ensinarem a capoeira em um determinado período
na história da capoeira, pois os mestres encontraram um jeito próprio de ensinar aquilo
que tinham aprendido, seja de forma rude ou formal.
O ato de observar, o gestual e a oralidade compunham os elementos de
aprendizagem da capoeira nos anos 1920 e se mantêm agregados às novas formas
pedagógicas nos dias atuais. Luís Renato Vieira12 afirma que, até meados dos anos
1950, o aprendizado da capoeira acontecia nas ruas mesmo com o advento das
academias. Em depoimento para VIEIRA (ano II#6, s/d), mestre Gigante disse “que
naquela época não havia academia. Somente no dia de domingo é que tinha a vadiagem
na rua”. Segundo VIEIRA (ano II#6, s/d):
Mesmo com os pontos tradicionais de reunião dos capoeiras, principalmente
nos domingos á tarde, qualquer ocasião em que se encontrassem era propícia
a realização de rodas. Portanto, os bares, as praças, os mercados e as feiras,
frequentemente eram palco de rodas inesperadas. Eram também comuns as
rodas realizadas com objetivo de recolher dinheiro dos assistentes para ser
distribuído entre os capoeiristas.

Em um período da história da capoeira, o ensino estava atrelado à experiência de


vida e técnica. O aprendiz desenvolvia a sua técnica e mecanismos de defesa para lidar
com os percalços da vida e da roda, ou seja, o conhecimento de si e do mundo. Pedro
Abib (2004) indica que:
A capoeira se aprendia “de oitiva”, ou seja, sem método ou pedagogia.
A oitiva constitui-se como um claro exemplo de como se dá a
transmissão através da oralidade na capoeira, baseada na experiência e
na observação. (...) O processo, na maior parte das vezes, se dava na
própria roda, sem a interrupção do seu curso. (ABIB. 2004. p.128)

O fato de o aprendizado estar destituído de uma pedagogia formal não significa


que fosse anárquico, pois a roda, elemento constitutivo e constituinte da capoeira era
composta por regras e código de éticas não escritas e peculiares à capoeira. Para

12
VIEIRA,Luis Renato –Velhos mestres da capoeira baiana -Artigo da revista Capoeira – arte e luta
brasileira - (ano II#6,s/d)

39
Mauricio Barros de Castro (2007), “as rodas são rituais que engendram uma série de
significados lúdicos, simbólicos e mítico-religiosos”:
No território baiano, as rodas se tornaram famosas como lugares de vadiação,
brincadeira e lazer. Espaços não apenas do jogo, mas também do
aprendizado, afinal, quando se joga também se aprende. Por isso alguns
mestres ainda mantêm o antigo hábito de passar lições durante o encontro na
roda. Junta-se a isso sua característica semi-religiosa, principalmente nas
práticas tradicionais, intimamente ligada à tradição de oferecer comida após a
roda, momento de celebração da sociabilidade e, muitas vezes, de oferenda
aos orixás e santos católicos sincretizados pelos devotos.(CASTRO; 2007,
p.01)

As tradicionais rodas de capoeira, além de porta de entrada para os iniciantes,


também eram o principal encontro dos capoeiristas da cidade, que podiam ser em
lugares distintos com características diferenciadas. As festas populares eram o ponto
alto desses encontros, onde cada indivíduo mostrava suas destrezas, seus dotes e
resolviam suas desavenças. Como ressalta Wilson Pedra13, mestre Espinho Remoso
“jogava uma capoeira vistosa na festa de largo, principalmente na festa de Nossa
Senhora da Purificação”.
As festas de largos são outros espaços de atuação da capoeira, eventos que
marcaram grandes atuações e foram palcos de grandes capoeiristas que ficaram na
memória. As rodas de ruas, que predominaram por muitas décadas, diminuíram bastante
com a passagem do tempo, motivadas pelas mortes dos velhos mestres, pelas
substituições dos espaços fechados em detrimentos das ruas.
As rodas de festa de largo não fugiram do apetite voraz do turismo. Serviram de
chamariz para agências e órgãos promoverem o turismo na Bahia e mantiveram sua
rotina de encontro de capoeiristas na cidade. Ainda eram nas rodas de ruas e festas de
largo que os encontros dos velhos e novos mestres aconteciam, e onde era possível
encontrar características do período da vadiagem, que os velhos mestres denunciavam o
que tinha se perdido por conta da influência do turismo. Eufrázia Cristina Menezes
Santos (2005) fala da importância das festas de largo para cultura-afro:
Entre as grandes festas religiosas que ocorrem no Brasil, figuram as festas de
largo da Bahia, algumas das quais também vinculadas ao universo das
religiões afro-brasileiras: a Festa do Bonfim (santo sincretizado com o orixá
Oxalá), as Festas de São Roque e de São Lázaro (santos sincretizados com o
orixá Omolu), a Festa de Santa Bárbara (santa sincretizada com o orixá
Iansã), e a Festa de Nossa Senhora da Conceição (santa sincretizada com os
orixás Oxum e Iemanjá) (SANTOS, 2005,p.3)

13
Wilson Pedra – Advogado, professor de Educação física da UCSAL

40
Nessas tradicionais rodas, muitas vezes não era exigido nenhum rigor sobre a
técnica ou vestuário em relação ao participante. Mas, os capoeiristas da cidade
conseguiam se destacar pela tradicional indumentária e seus adereços, como destaca
Edison Carneiro (1937, p.149) “Na Bahia, o capoeirista se distinguia dos demais negros
por trazer uma argolinha de ouro na orelha como insígnia de força e valentia, e o nunca
esquecido chapéu a banda”.
Os elementos que identificam a roda de capoeira na sua atualidade foram uma
construção social elaborada no século XIX e início do século XX, desde a sua
organização e a sua ritualidade. Os cânticos, ladainhas, manifestação do ritual
expressada pelo gestual, os instrumentos e a plasticidade vão dando identidade própria à
capoeira. A roda constitui-se, dessa forma, um elemento identitário e indissociável à
prática da capoeira, conforme Luís Vitor Castro Junior (2010):
Assim a roda é um ritornelo, um campo energético circular, infinito,
marcador de “identidade” com suas respectivas representações simbólicas;
mas sabemos, também, que esses investimentos territoriais nunca se realizam
completa e definitivamente, pois a abertura para o estranho e para outro,
exterioridade, pertence ao próprio processo de se criar novas identidades do
sujeito capoeirista. (CASTRO JUNIOR, 2010, p. 67)

Alguns elementos característicos do cotidiano dos capoeiristas, por exemplo, os


trajes que os identificavam nas rodas, permaneceram os mesmos das décadas anteriores,
assim como as atividades que os capoeiristas desempenhavam no seu dia a dia.
Uma vestimenta tradicional dos capoeiras era a chamada domingueira, quase
exclusividade dos donos das rodas ou de capoeiristas mais experientes. Gilberto Reis
Ferreira dos Santos Filho, mestre Barba Branca (1955)14 fala sobre a indumentária dos
mestres:
- Geralmente eram os mestres que eram donos de roda que usavam paletó,
uma roupa toda branca. Mas, a festa de largo já vinham mestres mais
diferentes, que tinham outras posturas, eram roupas normais, às vezes um
lenço no pescoço e apito. Como era o caso de mestre Caiçara, que apitava
para terminar o jogo. Outros já iam a rigor. Mas, no geral, os mestres
conservadores, como eram os casos de mestre Waldemar, mestre Pastinha,
iam de branco. (MESTRE BARBA BRANCA)

Mestre Zé do Lenço cita um jogo chamado marcado, em “que o Capoeira ia


para roda de branco e não podia sujar o outro se não saía do jogo”. Waldeloir Rego
(1968) fez referência também sobre a indumentária nesse período:
Fala-se que o capoeira usava uniforme branco, sendo calça de pantalona, ou
seja uma calça folgada com boca de sino cobrindo todo o calcanhar; camisa
comprida, por cima das calças, quase que à semelhança de abadá; chagrin e

14
Entrevista de Gilberto Reis Ferreira dos Santos Filho, mestre Barba concedida 27/01/2011

41
lenço de esguião de seda envolto no pescoço, cuja finalidade, segundo me
falou Mestre Bimba, era evitar navalhada no pescoço, porque a navalha não
corta seda pura, de que eram fabricados esses lenços importados. Essa
indumentária não era privativa do capoeira, era um traje comum a todo negro
que quisesse usá-lo, fosse ou não capoeira.(REGO 1968,p.26)

As indumentárias variavam de acordo com os dias de rodas. Se fosse durante a


semana, nos intervalos das atividades, os trajes eram os que eles desempenhavam o
ofício. Muitos desses capoeiristas eram estivadores, feirantes, carpinteiros, pedreiros,
lavadores de carros, entre outras atividades. Vale destacar que mesmo com a inclusão
do fardamento nas organizações das academias, eles eram utilizados apenas para
exibições turísticas. De acordo com Waldeloir Rego (1968):

No Cais do Porto sempre estiveram os mais famosos capoeiras, mas a roupa


usual, na sua atividade de trabalho, era calça comum, com bainha arregaçada,
pés descalços e camisa tipo abadá, feita de saco de açúcar ou farinha do
reino, e nas horas de folga do trabalho assim se divertiam jogando sua
capoeira. Mais tarde essas camisas foram, aos poucos, substituídas pelas
camisas de meia. (REGO 1968, p.45)

Já nos feriados e dias santos, o hábito dos capoeiristas antigos do começo do


século XX permaneceu até essa década XXI, utilizando o traje branco nas rodas, a
domingueira. Eram dias especiais, onde as pessoas colocavam as suas melhores roupas.
Para o universo da capoeira, o branco poderia ter vários significados, de ordem religiosa
ou não.
O negro sempre teve preferência pelo traje branco, daí despertar a atenção
popular e ser batizado de a mosca no leite, quando assim se vestia. Não sei se
houve nisso influencia do clima tropical, ou certas implicações de ordem
religiosa, como seja o caso de possuir um título honorífico num candomblé,
como ogan, por exemplo, e estar obrigado a comparecer com vestes
totalmente brancas, ou participar de certas cerimónias, como axêxê (ritual
fúnebre), ciclo de festas de Oxalá e outras que exigem essa indumentária,
rigorosamente branca. O fato é que o negro sempre foi amante de um terno
branco, assim como sapato e camisa, usando-os preferencialmente nos dias já
mencionados, quando se entregava de corpo e alma ao jogo da capoeira.
(REGO 1968,p.45)

Além dos trajes e adereços que caracterizavam o capoerista ou o dono da roda, o


capoeirista devia trazer consigo o conhecimento do ritual da roda, mesmo ele não
participando de uma agremiação. A postura do capoeirista em relação à roda e ao seu
companheiro era um desses elementos que compunham o espetáculo da jogo. Segundo
Waldeloir Rego (1968), esses rituais variavam de academia para academia e de um
capoeirista para o outro:

Depois de várias e demoradas observações, consegui captar uma maneira


quase que geral entre os mais antigos e mais famosos capoeiras. Sentados ou

42
de pé, tocadores de berimbau, pandeiro e caxixi, formando um grupo; adiante
capoeiras em outro agrupamento, seguido do coro e o público em volta, vêm
dois capoeiras, agacham-se em frente dos tocadores e escutam atentamente o
hino da capoeira ou a ladainha como chamam outros, que é a louvação dos
feitos ou qualidades de capoeiristas famosos ou um herói qualquer, (...)
narrando as bravuras do repentista Manoel Riachão (REGO.1968.p. 48)

A formação dos instrumentos também não sofreu grandes alterações. Desde a


padronização do mestre Pastinha, pouco tinha se acrescentado. Com o tempo, alguns
instrumentos foram entrando em desuso, por exemplo, o violão. Os principais
instrumentos eram os três berimbaus, os pandeiros, às vezes o agogô, o reco-reco e o
atabaque e estavam presentes na composição da roda de algumas academias e festas
populares.
Em algumas rodas, o timbal aparecia no lugar do atabaque pela facilidade de
locomoção e por fazer parte da composição do instrumento de samba. Mestre Zé do
Lenço lembra que, dependendo do dia, tinha mais de três berimbaus e pandeiros. O
atabaque foi incorporado depois.
As rodas na Jaqueira do Carneiro, na década de 1950, eram visitadas pelos
mestres Waldemar, Paulo dos Anjos e Zacarias Boa Morte. No ano de 1960, as rodas
deixaram de acontecer após a morte do mestre Espinho Remoso e só retornaram quando
mestre Virgílio, sob a orientação de mestre Caiçara, e com outros alunos retomam as
atividades, agora na Fazenda Grande.
O mestre Espinho Remoso deixou como legado alguns alunos como Loriano da
Boca do Rio, Gerônimo, Raimundo, Antônio Catarino, Dario do Pandeiro, Buiu, Diogo,

43
Florzinho, Florisvaldo, Moisés, Valdomiro, Chico Zoião, Firmino e Valdir.

Figura 3 Mestre Diogo(de costas) e Moisés (de óculos e chapéu), alunos do mestre Espinho Remoso. Acervo de
Mestre Zé do Lenço

Mestre Zé do Lenço relata o episódio da morte do mestre Espinho Remoso:

“Ele tinha chegado do matadouro porque tinha terminado de vender o fato.


Desceu do jegue e, na casa de Dona Epifania, umas das esposas que tinha
tido um filho com o Mestre Espinho Remoso, chamado Valdir, se dirigiu ao
banheiro tomar banho, se sentiu mal, deu um grito e morreu”. (MESTRE ZÉ
DO LENÇO)

Mestre Diogo foi um dos alunos que ficou responsável pelo funeral do mestre
Espinho Remoso. Para MATOS & SENNA (2011, P.101) “A fonte oral pode não ser
um dado preciso, mas possui dados que, às vezes, um documento escrito não possui. Ela
se impõe como primordial para compreensão e estudo do tempo presente, pois só
através dela podemos conhecer os sonhos, anseios, crenças e lembranças do passado de
pessoas anônimas, simples, sem nenhum status político ou econômico, mas que viveram
os acontecimentos de sua época”. Para PORTELLI (2017) “as fontes orais são
importantes e fascinantes, sobretudo, precisamente porque não se limitam a “testemunhar”
sobre os fatos, mas elaboram-nos e lhes atribuem os sentidos por meio do trabalho da
memória e do filtro da linguagem”. (p.188)
Mesmo com a morte do mestre Espinho Remoso, a capoeira continuou sendo
feita na Jaqueira do Carneiro. O legado da capoeira tinha se perpetuado com seus alunos

44
e seu filho. A história da capoeira na comunidade ficou marcada até os anos de 1960
com o mestre Espinho Remoso, e depois em 1970, com uns dos filhos do mestre
Espinho Remoso, o mestre Virgílio da Fazenda Grande, que a partir dos 10 anos iniciou
a capoeira com seu pai. Se fez capoeira com mestre Caiçara e depois com o mestre
Paulo dos Anjos. Na metade da década de 1970 e por toda década de 1980, teve uma
das rodas mais importantes e frequentadas em Salvador.
Mestre Virgílio conta quando teve contato com o seu pai Espinho Remoso e seu
início na capoeira:
“Nascido em 3/12/1944, ali, na Jaqueira do Carneiro, atrás do matadouro do
Retiro. Não fui criado por meu pai. Logo com dois anos de idade minha mãe
se separou de meu pai. E eu vim para Fazenda Grande. Eu fui criado aqui
nesse bairro, onde não tinha afasto, era muito mato. Era mato do lado, mato
do outro, mas fui criado por aqui. Aos 10 anos eu desci para conhecer meu
pai. Ela já exercia a capoeira, lá embaixo, no caramanchão e ele fez um
quiosque e exercia a capoeira somente ao fim de semana. Eu desci para
conhecer, foi justamente no dia que tinha roda de capoeira, eu assisti e ia
embora, meu tio me levou e me trouxe. No próximo domingo, eu já quis ir
sozinho e fui para assistir a capoeira. Continuei descendo para assistir. Com
dois dias, eu falei com meu pai que queria aprender também a capoeira. Você
quer aprender mesmo a capoeira? – quero!. Como eu já falei no termino da
brincadeira naquele dia. Ele mandou volta no próximo domingo. Ai eu fui,
ele me colocou na roda com um dos discípulos dele, Florzinho (que é
falecido hoje) e comecei a pratica da capoeira.”

A partir da morte de Espinho Remoso, ficará mais clara a divisão entre a


capoeira feita na Jaqueira do Carneiro e o trabalho desenvolvido por mestre Virgílio na
Fazenda Grande. Nesse processo de continuidade de preservação da cultura na Jaqueira
do Carneiro dois personagens irão se destacar: mestre Diogo e seu aluno mestre Zé do
Lenço.

2.3 O Mestre Zé do Lenço e a Associação de Capoeira Angola Relíquia


Espinho Remoso

Os anos de 1950 foram de transição política, urbana e econômica no cenário


baiano. Era o declínio da “velha Bahia”, do cenário agrário, descendente das antigas
políticas oligárquicas. O desafio desse período era deixar a Bahia com ares mais
urbanos, moderna e adaptada à nova realidade comercial e industrial do mercado. Os
primeiros passos foram dados com a descoberta do petróleo e implantação de indústria
petrolífera (a Petrobras) no município de Mataripe.

45
As mudanças no cenário econômico possibilitaram um aumento significativo da
população advinda do interior do Estado buscando melhores oportunidades de vida e de
trabalho, mudando a geografia urbana da cidade e Região Metropolitana. Permitiu o
fortalecimento de algumas categorias, como comerciantes, industriais e operários. Com
isso, passa a surgir na cidade novos serviços e uma dinamização de outros setores, como
o turismo e a cultura.
A cidade de Salvador tinha poucos espaços de lazer e poucos espetáculos
culturais. Com a dinamização da economia e um aumento da população em meados dos
anos 50 expandiram novos espaços culturais e ampliação de espaços de lazer. Muitos
dos intelectuais e boêmios da cidade frequentavam os mesmos locais onde a
capoeiragem baiana se encontrava. Antes, os locais de atuação dos capoeiristas estavam
ligadas ao seu oficio diário, como também sinaliza Josivaldo Pires Oliveira (2004), que
listou alguns ofícios como de pedreiro, estivador, peixeiro, carregador e carpinteiro.
A vinda da família do menino José Alves teve as mesmas motivações de
qualquer família que veio do interior: a busca por melhores condições de vida. A seca e
a falta de oportunidade eram alguns dos motivos que faziam uma família sair da sua
cidade para buscar uma melhora na capital baiana.
José Alves, o mestre Zé do Lenço, nasceu em Irará, no Centro Norte do baiano,
em 27 de julho de 1949. Seu pai José Augusto era natural do distrito de Urupi, em Santo
Amaro, e sua mãe Joana era natural de Alagoinhas, cidade do nordeste do estado. A sua
família chegou à capital em 1958 devido a uma grande seca que durava um pouco mais
de dois anos. Boa parte da plantação de mandioca se perdeu com a estiagem. José Alves
chegou a comer farinha de osso por falta de opção de alimento.
O tio Justino Franco, uns dos irmãos mais velho da sua mãe, era encarregado de
obra da Prefeitura de Salvador e fez uma proposta para que a família de José Alves
saísse do interior para capital como sugestão de mudança. José Alves morou com seu tio
na Roça do Lobo. Depois foi morar na Ferreira Santos, no bairro da Federação, em
seguida no Sobradinho, no Alto da Bola e, por fim, foi para o bairro do Retiro, na
Jaqueira do Carneiro, onde sua família comprou um terreno e construiu a casa onde
reside até hoje.

46
Figura 4 Mestre Zé do Lenço na roda do Mercado São Miguel- 2018. Acervo Grupo Espinho Remoso

Quando morava no bairro Ferreira Santos, José Alves estudou no Colégio


Antônio Vieira, depois foi transferido para Escola Cecília Burgo. Fez o ginásio no
Colégio Domingo e Silva, onde foi colega de Romualdo Rosário da Costa, mais
conhecido como mestre Moa do Katendê (1954 -2018). Finalizou os estudos no Colégio
Carneiro Ribeiro Filho.
Mestre Zé do Lenço começou a trabalhar cedo. Em 1963, aos 14 anos, trabalhou
em uma loja no Cruzeiro de São Francisco, chamada Servidora, onde conheceu mestre
Caiçara e sua atividade no Centro Antigo. Sua mãe Joana desejava apenas que ele fosse
trabalhar.
Quando já morava na rua Jaqueira do Carneiro, se aproximou dos filhos do
mestre Espinho Remoso, chamados Raimundo e Valdir, filhos de outro casamento.
Mestre Zé do Lenço não jogava capoeira, mas tocava pandeiro e era solicitado quando
precisava de um tocador. Segundo mestre Zé do Lenço, a capoeira não era para crianças
na década de 1960.
Em 1962, a capoeira na rua Jaqueira do Carneiro era chamada de bagunça
porque sempre terminava em confusão. Mestre Zé do Lenço lembra-se de Dona
Joaninha, uma personagem que se queixava do comportamento dos meninos. A

47
capoeira, quando não era feita na lama, acontecia em frente à casa de D. Joaninha, que
jogava água ou batia com o cabo de vassoura nos meninos.
“ D. Joaninha era uma pessoa muito boa, mas muito carrasca. Quando a gente
começou a capoeira foi quando Espinho Remoso terminou a capoeira na
década 1960,1961 e 62. Só brincando na rua de capoeira ... uma capoeira
doida. Que só terminava em briga. O único lugarzinho que a gente fazia
reunião era na frente da casa dela. E nesse lugar que começava toda briga ali,
discussão, pontapé um querendo bater no outro”. (Mestre Zé do Lenço)

A capoeira acontecia às quintas e aos sábados numa casa velha de um senhor


chamado José do Vale. Sem energia elétrica, era preciso fazer um “gato”15 de uma casa
para outra. Os meninos que faziam capoeira, ao se aproximar da casa velha para treinar,
ouviam os moradores dizer: “Lá vem o mestre da bagunça. Ninguém vai ter sossego
durante essas horas.” Segundo o mestre Zé do Lenço, em 1967, eles fizeram uma
reunião que deveria acabar com as brigas porque incomodavam os vizinhos e D.
Joaninha fazia queixa aos pais dos garotos.
Após a reunião, a comunidade passou a reconhecer a capoeira não mais como
bagunça. Nesta reunião estavam presentes José Alves, Raimundo, Cecílio, Ubirajara,
Ivo, Carlinho, Enoque e outros, para poder escolher um líder e dessa escolha tinha que
surgir um apelido. No relato do mestre Zé do Lenço o episódio começou assim:
No matadouro de boi do largo do Retiro tinha um cidadão que exercia sua
função de trabalho magarefe16. Ele era um bom violeiro e sambador,
chamado José do Lenço. Só que José do Lenço era alcoólatra e, por conta
disso, era um homem de baixa categoria e sem moral, e com muita frequência
era encontrado dentro da lama com seu paletó. A turma logo fez comparação
à semelhança como José Alves gingava: “José Alves gingando parece seu
José do Lenço sambando”. (MESTRE ZÉ DO LENÇO)

A partir desse momento, José Alves passou a ser chamado de Zé do Lenço,


mesmo a contragosto. “Cecílio jogando é todo espalhafatoso e passou a se chamar
Goma, porque a forma como ele jogava parece que ele deslizava no salão”, completou o
capoeirista.
O nome de capoeira do mestre não foi um ato de batismo como acontece
normalmente em alguns grupos de capoeira. Em alguns momentos esses nomes/apelidos
são escolhidos de acordo com o jeito da pessoa jogar a capoeira, por suas características

15
Gato- Maneira ter luz cladestinamente.
16
Magarefe- Segundo o dicionário Aurélio, o significado da palavra é o que mata e esfola reses no
matadouro.

48
físicas, financeiras, de como a pessoa se relaciona com os membros do grupo, ou fora
dele, e no lugar onde mora.
Na capoeira regional foi criado um ritual chamado de batizado. Esse momento
era um exame de admissão onde se executam os movimentos aprendidos. A formatura é
a parte final, onde o aluno estava pronto executar todos movimentos na roda. Nesse dia
o mestre exigia dos alunos a indumentária branca, ou seja, camisa e calça e um calçado
de borracha. No final a tentativa de retirar a medalha do peito de outro capoeirista mais
experiente era a prova e também a primeira grande experiência do aluno.
Para João José Reis (2003), "o batismo simbolizava para a maioria dos escravos
a trágica passagem da posição de africanos para a de escravos. Ao preservarem os
velhos nomes étnicos ou mulçumanos, eles buscavam reter uma parte importante e
muito significativa da memória e identidade pessoais." (REIS, 2003, p.191). Castro
Junior (2010) analisa o apelido dessa forma:

Também é muito corriqueiro, no sistema carcerário, as pessoas serem


identificadas por um apelido, como uma forma de construção de uma outra
identidade. Os estigmas criados a partir dos apelidos que muitas vezes reforça
estereótipos pejorativos. Assim os processos de identificação dos capoeiras,
considerados valentões, vagabundos, desordeiros e capadócios, surgiu a partir
das condições sociais de um povo sem direito às condições básicas de vida e
que foi determinado por uma ordem vigente para caracterizar aqueles que não
seguiam os “bons costumes”. (CASTRO JUNIOR, 2010, p.69)

Segundo João José Reis (2003, p.191), “a identidade étnica descia ao nível do
indivíduo através de vários signos. Um dos mais fortes era o nome africano, mantido ao
lado do nome dado pelo senhor. Para o africano, o nome pessoal tinha uma forca
simbólica especial. Entre os iorubas, por exemplo, um nome pode representar várias
coisas: as condições físicas do nascimento, as circunstancias do parto, a posição do
indivíduo na ordem familiar.”
A morte do mestre Espinho Remoso, não significou o término da capoeira na
Jaqueira do Carneiro. Alguns alunos como Florzinho, Diogo e Firmino foram para a
Fazenda Grande, onde mestre Virgílio, iniciava um trabalho com capoeira.
Vale observar que a história se passa entre os bairros da Fazenda Grande e
Jaqueira do Carneiro onde a pratica da capoeira deixou seu legado e construiu sua
identidade. Raquel Rolnik (1988) escreveu sobre o papel da cidade:

“a cidade guarda marcas de vários tempos e processos sociais no


espaço urbano construído, materializando sua própria história como

49
uma espécie de escrita no espaço. A cidade é uma realidade plural e
polifônica, trama, rede de relações sociais, econômicas, políticas,
culturais e simbólicas. Os diferentes sujeitos e grupos sociais se
apropriam desse espaço, o experienciam e produzem representações
(memórias e um imaginário) sobre ele, que visam a explicar a
dinâmica própria desses grupos sociais se constituírem na cidade.
(ROLNIK,1988,p.9)

A relação que o mestre Zé do Lenço teve com Mestre Espinho Remoso foi
pequena, já no final de vida. Até porque mestre Zé do Lenço, enquanto criança, não
podia assistir às rodas porque sua mãe não deixava. Mestre Zé do Lenço chegou a
acompanhar um pouco do dia a dia do mestre Espinho Remoso por conta do contato
com os filhos dele. Mestre Zé do Lenço teve maior contato com mestre Cassarogongo,
com quem obteve lições e conselhos. Mestre Zé do Lenço nunca teve aula de capoeira
com mestre Espinho Remoso.
Mestre Cassarongongo foi um senhor que contribuiu muito para formação de
capoeira do mestre Zé do Lenço e todos outros mestres discípulos de Espinho Remoso.
Dentro das suas possibilidades, ensinou aquilo que foi necessário e possível para o
mestre Zé do Lenço e Diogo. Mestre Zé do Lenço lembra que um dos ensinamentos do
mestre Cassarogongo é: “Respeite menino, mulher e cachorro!”
As histórias sobre mestre Espinho Remoso vieram da memória, lembranças e
experiências vividas do mestre Cassarogongo no início do século XX. Os relatos
remontam uma experiência não só individual e sim coletiva. Essa memória ajuda a
construir e manter laços e sentimento de pertence no grupo. Alberti (p.167) diz que:
“A memória é essencial a um grupo porque está atrelada à construção
de sua identidade. Ela [a memória] é resultado de um trabalho de
organização e de seleção do que é importante para o sentimento de
unidade, de continuidade e de coerência - isto é, de identidade”.

Maurice Halbwachs(1990) reflete também sobre a memória em um processo


coletivo:

Para que a nossa memória se aproveite da memória dos outros, não


basta que estes nos apresentem seus testemunhos: também é preciso
que ela não tenha deixado de concordar com as memórias deles e que
existam muitos pontos de contato entre uma e outras para que a
lembrança que nos fazem recordar venha a ser constituída sobre uma
base comum. (HALBWACHS, 1990, p. 34)

50
A construção dessa história não foge das tradições afro-brasileiras. A cultura de
matriz africana no Brasil se apoiou muito na oralidade. Muitas vezes, os mestres de
capoeira se remetiam a oralidade para transmitir o seu legado ou seu conhecimento,
como nas sociedades sem escritas. A história oral se serve disso, onde não há escrita, a
memória serve de combustível para remontar a história. Júlia Silveira Matos & Adriana
Kivanski de Senna(2011) cita Alberti(1989) para lembrar da importância da história
oral.

[...] a história oral apenas pode ser empregada em pesquisas sobre


temas contemporâneos, ocorridos em um passado não muito remoto,
isto é, que a memória dos seres humanos alcance, para que se possa
entrevistar pessoas que dele participaram, seja como atores, seja como
testemunhas. É claro que, com o passar do tempo, as entrevistas assim
produzidas poderão servir de fontes de consulta para pesquisas sobre
temas não contemporâneos (MATOS & SENNA 2011,p.96 APUD
ALBERTI, 1989: 4).

Mestre Zé do Lenço é bom exemplo a citação acima sobre a memória onde pode
ser aplicada nas pesquisas. Os seus relatos conseguem ter alcance de duas gerações da
família Espinho Remoso.
Em outros momentos, mestre Zé do Lenço conta quando o mestre Cassarogongo
tinha disponibilidade de ensinar sobre a história da capoeira. Quando possível, além da
oralidade, utilizava outros recursos, desde o caderno, pandeiro e atabaque para explicar
a importância desses instrumentos para capoeira e para cultura afrorasileira. Para mestre
Zé do Lenço esse momento de aprendizado era chamado de lição. Ele relata sobre seu
aprendizado com mestre Cassarogongo:

Eu tive o luxo de ele passar as aulas para mim. Ele pegava os


livros EMC velho, antigo, quando ele via um pandeiro, um
atabaque, (...) ele sentava, e me explicava tudo que aquilo era
um instrumento de índio, do folclore. Ele me explicava tudo.
Porque ele confiava em mim. (Mestre Zé do Lenço)

O aprendizado sobre a história da capoeira sempre foi pela oralidade. Como as


rodas eram nas ruas, e sempre aos domingos, ouvir história sobre o surgimento da
capoeira e sua relação com outra cultura africana, era provavelmente no pós-roda.
Mesmo depois do advento das academias e implementação de outros recursos, esse
processo de transmissão oral foi preservado.

51
Figura 5. Texto escrito por Mestre Cassarogongo explicando de onde a capoeira surgiu. Acervo
mestre Zé do Lenço.

No texto escrito por mestre Cassarogongo na tentativa de explicar ao mestre Zé


do Lenço sobre a história da capoeira, a África é um país e não continente e pobre. Ele
também escreveu sobre os golpes da capoeira, sobre os instrumentos e o significado do
nome capoeira. No início do século XX em que Mestre Cassarogongo aprendeu a
capoeira, não se tinha uma pedagogia formal e não sabemos como ele obteve essas
informações sobre a história da capoeira, já que poucos mestres eram letrados.
É interessante pensar que para o período em que o texto foi escrito. É muito raro
um mestre de capoeira escrever para seus alunos sobre capoeira. Nem nos dias atuais, se
faz esse tipo de ensinamento, já que a oralidade fica responsável por esse processo.
A educação brasileira no início do século XX não foi de pleno acesso a
determinada parcela da população, principalmente a negros, pardos e pobres. Era muito
comum encontrar mestres de capoeira com pouca instrução. Manuel Bomfim (1868-

52
1932) imaginou uma população brasileira rompendo com a herança colonial e iniciando
um processo renovado de desenvolvimento. A ignorância (a falta de instrução)
nulificava o povo de tal modo que o tornava incapaz de distinguir suas necessidades e
acreditar num futuro.
O conhecimento formal era um privilegio das classes mais abastadas. A capoeira
iria encontrar uma forma educacional, através dos exemplos, dos códigos de roda e seus
contos com cunho moral para transmitir conhecimento. Pedro Abib reflete sobre o poder
educacional da capoeira:

Os códigos de valores presentes nos processos educativos envolvendo


a cultura popular por sua vez, se diferenciam substancialmente
daqueles privilegiados num processo formal de educação, mas são
fundamentais para garantir a sobrevivência desses sujeitos numa
realidade e num contexto ainda muito distante da escola formal, que
não consegue apreendê-lo nem compreendê-lo de forma mais
profunda. O aprendizado sócio-cultural proporcionado, por exemplo,
pela capoeira, fruto da vivência comunitária de crianças e jovens,
ainda está muito longe de ser validado pela educação formal, o que
causa para esses sujeitos, um estranhamento e até mesmo certa
rejeição, em relação aos processos de aprendizagem desenvolvidos
nessas instâncias. (ABIB,p.7)

Assim, poderíamos imaginar os mestres da capoeira no início do século XX,


alguns poucos homens negros letrados, com o potencial cultural afro brasileiro muitas
vezes limitado ora por não saber como se expressar (escrita) ora pela limitação que lhe
foi imposta. Mesmo com essas limitações, esses homens conseguiram transmitir seus
conhecimentos em poucas palavras, sem nenhum registro escrito. Para Thompson
(1980, p.15) “se a muitos desses "pobres" se negava o acesso a educação, ao que mais
eles podiam recorrer senão a transmissão oral, com sua pesada carga de "costumes”.
Se eles não tinham a habilidade da escrita, a oralidade era a forma de manter e
propagar a cultura. Dar a lição de capoeira na forma escrita não é muito comum no
universo da capoeira durante o século XX. E mais uma vez a capoeira entra como um
instrumento de resistência as limitações impostas passa ensinar valores morais aos seus
discípulos. Pedro Abib (2016) faz uma reflexão de como a capoeira conseguiu resistir às
formas de repressão e outras dificuldades para se manter viva:

Uma manifestação que foi capaz de resistir a séculos de violência e


repressão e soube preservar as formas tradicionais de transmissão dos
saberes através da oralidade, do respeito aos mais velhos e aos
antepassados, da valorização dos rituais, do respeito ao outro (mesmo

53
sendo ele adversário!), do sentido de solidariedade e da vida em
comunidade. Esses valores constituem-se em saberes tão ricos quanto
profundos presentes na capoeira e, que num processo educativo, têm
muito a contribuir na formação de sujeitos mais humanizados e
conscientes de seu papel na sociedade. (ABIB, 2016, p.3-4)

Assim, através das lições que foram dadas pelo Mestre Cassarogongo ao mestre
Zé do Lenço, tinha uma missão de também formar um cidadão para resistir a opressão
diária. Não era só a capoeira e seus golpes, era também valores éticos e morais. Para a
relação que se estabeleceu entre mestre Cassarogongo e Mestre Zé do Lenço, se
construiu respeito e amizade. Rosangela Araújo (2015) sinaliza que:

“para a compreensão da dinâmica educacional que estrutura o entorno


da relação que se estabelece nesta pedagogia angoleira, cuja relação
mestre discípulo não apenas estrutura neste a consciência de que passa
a carregar o nome e a conduta do seu mestre, como também
desenvolve a consciência dos compromissos que isto lhe acarreta”.
(ARAUJO,2015, p.217).

Os mestres Zé do Lenço, Espinho Remoso, Cassarogongo e Diogo foram


referências de postura, admiração e respeito. Mestre Diogo e Cassarogongo foram os
mais próximos do mestre Zé do Lenço. Para Castro Junior (2003, p.99), na roda de
capoeira, os velhos angoleiros tinham um papel importante no processo de transmissão
do conhecimento e na relação mestre-aprendiz. É a partir desse modelo de jogo, ou do
jeito de jogar, que o aluno tende a reproduzir o ensinamento.
A biografia do mestre Zé do Lenço vai se tornando interessante à medida que a
sua trajetória não segue uma lógica da relação professor/aluno e aprendizado/aula.
Maria Aparecida de Oliveira Silva (2007) diz:

Por um lado, ao superestimar a ação do indivíduo no desenrolar dos


fatos, as limitações aparecem no momento em que a biografia passa a
ser interessante ao historiador não pelo seu conteúdo histórico, mas
pelas informações da vida privada de um homem. Tal procedimento
resulta em histórias edificantes de uma personagem histórica com um
caráter moralizante, enquanto produz modelos de comportamento.
(2007,p.11)

Ao observar a trajetória da família do mestre Espinho Remoso, a relação de


capoeira transcedeu a relação de mestre/aluno. Se construiu uma relação de amizade,
respeito e cumplicidade, que parte dos mestres Espinho Remoso/Cassarogongo, Espinho
Remoso/ Diogo e Diogo /Zé do Lenço.

54
Figura 6 Mestre Zé do Lenço e Mestre Diogo. Acervo mestre Zé do Lenço

A fotografia acima (figura 8), mostra os mestres Zé do Lenço e Diogo sentados


em frente a um bar, próximo ao local de roda na Jaqueira do Carneiro. Essa relação foi
muito além da simples relação professor/aluno. Eles construíram uma amizade baseada
em confiança e respeito. Mestre Zé do Lenço declarou sobre mestre Diogo:

“Ali foi uma amizade muito fina. Foi padrinho e meu mestre de
capoeira. Por exemplo, Virgílio podia ser meu mestre, mas só
que a gente morava cá em baixo, as pouquinhas coisas que eu
aprendi lá com Virgílio, mas como Diogo naquele tempo era o
dono da boca, ele e Florzinho pegavam a gente e levavam a
gente pra lá (Fazenda Grande). Ele ficou como meu mestre”.
(Mestre Zé do Lenço)

Mestre Diogo era um homem de poucas palavras e sorrisos. Carrega consigo um


crucifixo, já que ele era muito religioso, católico praticante. A imagem traduz uma
cumplicidade na simplicidade que a relação que os dois tinha na amizade. Para Castro
Junior (2010, p.29) “Deve-se ficar atento à imagem fotográfica, pois ela abarca uma
multiplicidade de vestígios da realidade e diferentes significados selecionados pelo
fotógrafo. Portanto, além de oferecer um documento técnico-estético, a fotografia é
política e ideológica. Ela é um artefato que tem um conteúdo no qual se revela uma
imagem, o “objeto-imagem”, que é constituído de múltiplos significados, abarcando
uma complexidade de significação.”

55
Eufrozino André de Nascimento, mais conhecido como mestre Diogo (14/02/
1935 - 20/07/2011), foi uns dos alunos do mestre Espinho Remoso. Um homem sisudo,
taciturno, alto e forte. Foi doqueiro, casado e teve duas filhas. Um senhor de fala mansa
e de postura reta. Tinha um jeito cismado, falava pouco e, muitas vezes, o que dizia era
incompreensível. Caso não simpatizasse com a pessoa, ele não recebia, ou mandava
dizer que não estava.
“De um jogo encantador, singelo e respeitador”, assim sinalizou André Luiz
Siqueira Silva, mestre Olhos de Anjo17. “O mestre Diogo falava bem com o corpo,
fingia que ia e não ia. O jeito de jogar capoeira simples, leve, solto e com objetivo. Era
dos alunos que mais se aproximou da forma como mestre Espinho Remoso jogava”,
assim descreve mestre Valdec.18
Mestre Diogo tinha pouco estudo, mas sabia ler escrever. Segundo o relato do
mestre Zé do Lenço, “Mestre Diogo costumava dizer que a professora dele foi Nossa
Senhora das Candeias, que aprendeu a ler e escrever na escola da boa vontade”.
O pai do mestre do Diogo, Avelino Boi Sonso, era amigo dos mestres
Cassarogongo e Espinho Remoso. “Avelino Boi Sonso foi um capoeirista bom de
cabeçada”, segundo mestre Zé do Lenço. O pai de Diogo morava em Salvador e se
mudou para Góes Calmon, bairro do município de Simões Filho, na Região
Metropolitana de Salvador, e acabou por falecer na cidade. Quem passou a criar mestre
Diogo foi mestre Espinho Remoso. Mestre Zé do Lenço foi apresentado ao mestre
Diogo através de Raimundo (um dos filhos de Espinho Remoso), pois Diogo era seu
irmão de criação de Espinho Remoso, e passou a organizar a capoeira após a morte do
Mestre Espinho Remoso.
Segundo a explicação do mestre Zé do Lenço, Eufrozino André recebeu o nome
de Diogo por parte de D. Senhora, um personagem que morava no Pau da Lima. O filho
dela era amigo do mestre Diogo. Os motivos pelos quais Eufrozino André ganhou o
apelido não são bem claros. O que se pôde conhecer é que D. Senhora fez uma
associação de Eufrozino André com o personagem náufrago Diogo Alvares Correia, o

17
André Luiz Siqueira Silva- Mestre Olhos de Anjo – Grupo de Capoeira Angola Folha de Cajueiro.
Entrevista cedida no dia 29/11/18 a pesquisa.
18
Valdec Loboasy – mestre de capoeira angola, do Grupo Bantu Capoeira Angola. Depoimento cedido
via whatsaap

56
Caramuru. Essa associação talvez esteja ligada muito mais ao peixe Caramuru, também
conhecido como Moreia19do que ao personagem.
Segundo Pedro Moraes Trindade (2009), mestre Moraes, “o batismo se
caracterizava pela troca do nome de origem por um nome cristão, adicionado à etnia do
escravizado. Ex: Manoel Angola, Antonia Nagô, e assim por diante. No Brasil, mesmo
ao serem alforriados, não ficavam livres das marcas da escravidão. Ao nome cristão era
acrescentado o sobrenome do senhor de engenho, ex-proprietário do escravizado”.

Figura 7 Mestre Diogo. Acervo Mestre Zé do Lenço

Mestre Diogo não deu aulas afirma mestre Zé do Lenço. Esteve sempre ao lado
do mestre Zé do Lenço em boa parte das atividades do grupo. Tocava pouco
instrumento e não cantava, apenas jogava. Compreendia bem o significado da capoeira e
sua importância, mas não se expressava sobre ela. Segundo mestre Zé do Lenço “o
negócio do mestre Diogo era jogar e não falar sobre a capoeira”.
O impacto desse depoimento nos faz imaginar que o fato do mestre não possuir
uma metodologia, não traduz que ele não sabia ensinar. No momento da roda, observar

19
Moreia - O peixe, que pode ser chamada também de serpente do mar, tem um aspecto bem ameaçador,
apesar de não ser uma espécie agressiva. Com grandes dentes em ambas as mandíbulas podem fazer com
que sua mordida seja perigosa. Comem peixes, moluscos, crustáceos e vivem nos recifes de corais,
atacando animais marinhos que passam perto de suas tocas.

57
o outro jogar, também é um momento de aprendizado. A contribuição do mestre Diogo
foi exatamente nesse momento de jogar, além carregar consigo a experiência e vivencia
de um período que o fez ser um bom capoeirista. Foi o principal representante do legado
do mestre Espinho Remoso. A sua experiência serviu como modelo e referência para os
mais jovens.
O mestre Diogo foi bom capoeirista mais jovem. Houve um episódio na roda da
Fazenda Grande entre mestre Diogo e mestre João Grande no final da década de 1960.
“Esse jogo durou umas três horas. Jogo bem jogado e vistoso”, relata mestre Zé do
Lenço. No final da roda a camisa do mestre Diogo tinha rasgado e mestre João Grande
tinha reconhecido a capoeira do mestre Diogo. Mestre João Grande, aluno do mestre
Pastinha, já era uma capoeirista brilhante e reconhecido. O trabalho do mestre Espinho
Remoso, já não tinham a mesma visibilidade dos mestres do centro da cidade, mas
possuíam uma boa qualidade.
O conhecimento desse episódio só foi possível, por depoimento oral, já que não
foram registrados por câmera vídeo ou fotográfica. Episódio como esse relatado por
mestre Boca Rica, mestre Zé do Lenço e pelo próprio mestre João Grande ficam na
memória e eternizado na história da capoeira. MATOS & SENNA (2011) explica que:

Como cada ser histórico singulariza a sociedade na qual está inserido


e a percebe de uma forma específica. Falar de uma história verdadeira
seria muito ingênuo, mas podemos afirmar que se trata de uma
percepção verdadeira do real, emitida pelo depoente, que assim
compreende e se apropria do mundo ao seu redor. Ao tornar pública
sua percepção, está, de alguma forma, contribuindo para a elucidação
parcial de alguma situação. (MATOS & SENNA, 2011,p. 98)

As histórias de capoeira estão repletas de feitos e momentos com esse, muitas


vezes obtidos pela memória e depoimento de quem viveu aquele momento. Hoje temos
os recursos das filmadoras e celulares para eternizar esses momentos.

58
2.4 - A capoeira, o turismo e seus impactos

A década de 1960, a cidade do Salvador tinha ampliado sua dimensão urbana e a


sua população tinha dobrado. O fortalecimento do poder aquisitivo de parte da
população, advindo da dinamização da economia baiana, fez surgir um novo grupo
dominante tanto na política como na economia. O setor industrial em ascensão se
confirmaria ainda nessa década pelo surgimento do Centro Industrial de Aratu e os
incentivos. Esse novo grupo social que irá dominar setores importantes do aparelho
burocrático do Estado vai ser definido por Helena Hirata como Burguesia de Estado,
que em sua definição diz:

“São agentes da reprodução social distinto dos produtores imediatos


categoria que dado sistema de relações sociais existentes e de praticas
sociais dominantes, acaba tendo a disposição efetiva dos meios de
produção e dos produtos que pertencem ao Estado”. (HIRATA p.51
S/D).

Decorrente da crise política do país, parte desse novo grupo dominante apoiou o
fato mais marcante dessa década: o golpe militar de 1964. Esse golpe caracterizou-se
pela falta de democracia, supressão de direitos constitucionais, censura em diversos
níveis, perseguição política e repressão aos que eram contra o regime militar. No plano
cultural, destaque para o Centro Cultural Popular da União Nacional dos Estudantes
(UNE), o surgimento do Teatro Vila Velha e do Museu de Arte Moderna da Bahia.
Nessa década, no Brasil, ocorreu uma iniciativa para ampliação do potencial
turístico que, em um desses aspectos, estava voltada para exibição de manifestações
culturais e comercializações de produtos identificados com a cultura local e regional,
segundo Rodrigo da Costa Farias e Silvana Vilodre Goellner. Isso ocorreu através das
interferências das agências e do departamento de turismo:

A partir dos anos 60, esta mistura será transformada num filão pela
indústria turística, que facilitará a exploração de muitas dessas
manifestações como a capoeira, o samba, o candomblé, entre outras,
pelos restaurantes mais especializados voltados para a demanda
turística (FARIAS E GOELLNER; 2007;p.146; APUD ABREU,
2003, p.18).

59
Nesse período, as agências passaram assim a regulamentar e interferir na
organização desses grupos. Segundo Acúrsio Esteves(2003), mestres Pastinha e Bimba
passam a ser os grandes representantes da arte da divulgação do projeto das agências de
turismo.
Quando importantes mestres e líderes das manifestações da cultura
negra embarcaram na canoa furada da incipiente indústria baiana do
turismo nos anos 60, Pastinha foi com eles. Iludiu-se com as sedutoras
e fugazes oportunidades oferecidas por aquela indústria, em troca
expondo as manifestações da cultura negra como algo pitoresco-
chamariz para a clientela turística. É bem possível que nisso se
localize uma das causas da decadência da Academia de Pastinha e
instalação do processo de miséria que o acompanhou até a morte.
(ESTEVES 2003, p. 70 APUD ABREU 2000)’

Em meados dos anos 1960, a capoeira havia sofrido descaracterização em sua


organização básica muito por conta das questões econômicas e das exigências do órgãos
e agências de turismo, que promoviam apresentações que se enquadravam no modelo
cultural da Bahia. Segundo Acúrsio Esteves (2003) as descaracterizações “eram os
saltos, acrobracias e o jogos combinados, feitos apenas para demonstração de
habilidade, simulacro de um jogo real,são os elementos predominantes.”
O campo de atuação da capoeira também tinha se ampliado muito pelo
surgimento dos grupos parafolclóricos20. O grupo Viva Bahia, um grupo parafolclórico
organizado pela a musicóloga Emilia Biancardi (1940), ainda na década de 1960,
utilizou a capoeira e outras manifestações culturais na montagem de seus espetáculos.
Isso contribuiu para expansão da capoeira em outros estados. Esse grupo potencializou
as exibições turísticas chamadas de show folclórico, que caíram no gosto popular e se
encaixavam com o projeto do marketing turístico da cidade.
A capoeira se tornaria mais um produto comercial, um caminho que, para aquele
contexto, era um caminho sem volta. As apropriações feitas pelos grupos
parafolclóricos internalizaram as medidas das agências de turismo. Essa medida, em
longo prazo, teve consequências duras para a capoeira, que trocaria o seu aspecto
cultural por questões financeiras. Isso não só aconteceria com a capoeira, mas outras
áreas culturais também seriam afetadas com o esvaziamento e descaracterização de suas
organizações com a mesma voracidade e sedução financeira das agências.

20
Grupos Parafolclórico - Segundo ROBATTO (2002), as denominadas danças parafolclóricas são
aquelas produzidas por grupos de danças cênicas, profissionais ou amadores adaptadas para apresentações
públicas abertas a uma ampla gama de espectadores, tendo por objetivo pesquisar, resgatar, valorizar,
montar, manter, circular e divulgar as manifestações de origem étnico-culturais.

60
Esse fenômeno que acontecia como os grupos de capoeira, não chegou com
força até a Jaqueira do Carneiro, até porque o grupo estava em formação e ainda em
fase de amadurecimento, focava na preservação da memória da capoeira do bairro. A
prática de criar um grupo paralelo para atender a demanda das agências de turismo, não
estava nos planos do então jovem José Alves.
Em 1966, o então aluno Zé do Lenço pintou uma camisa e colocou o nome
Grupo de Capoeira Angola Relíquia Espinho Remoso. Na camisa estava escrito
professor Zé do Lenço e mestre Diogo. Mestre Zé do Lenço relatou esse momento:
“Eu fiz uma camisa e coloquei o nome de mestre Diogo sem ele saber. A
minha salvação foi Cassarogongo que me parou, e meus colegas dando risada
pensando que Cassarogongo ia achar ruim, ia me regular. Eu ia passando,
vinha com camisa, todo pequenininho, todo fortinho. Ele me chamou “vem
cá”, me olhou por debaixo dos olhos, o negão me chamou e perguntando
quem tinha dado aquela ideia? - Eu mesmo. Olhou para lado e falou “gostei
de você”. Você vai ser bom menino! Mestre Cassarogongo virou para Diogo,
todo sisudo, é “Diogo quer dizer você formou ele a professor, e ele lhe
formou a mestre. Gostei, boa ideia” (Mestre Zé do Lenço)

A partir desse período da organização feita pelo mestre Zé do Lenço, o grupo


passa a se chamar Associação de Capoeira Angola Relíquia de Espinho Remoso, sob a
orientação do mestre Diogo. Segundo mestre Zé do Lenço, “o mestre Diogo não tinha
didática e levava os meninos para aprender na rua, na roda, como se fazia no passado
antes do advento das academias”.

61
Figura 8 roda na Jaqueira do Carneiro-Acervo mestre Zé do Lenço

É interessante perceber que o nascimento do grupo Relíquia Espinho Remoso


não vem dos principais alunos do mestre Espinho Remoso. É curioso compreender que
a forma de aprendizagem da capoeira mudou a partir da criação do grupo e por um
aluno que não pertenceu a velha guarda. O mestre Zé do Lenço deu os seus primeiros
passos na capoeira com mestre Virgílio. Mestre Diogo que acompanhou todo trabalho
do mestre Zé do Lenço e ajudou a manter o que mestre Espinho Remoso tinham
ensinado nas rodas de rua.
Como o habito não era ter aula sistemática, sem metodologia e sempre nas rodas,
é comum falar que os mais velhos não davam aula, porque não tinha uma
sistematização. A medida que o mestre Zé do lenço passar a dar aulas, essa metodologia
de aula passa a ser inserida no grupo.
Entre 1967 a 1971, os mestres Diogo, Florzinho e o então naquele momento
professor Zé do Lenço saíram da Jaqueira e foram para a Fazenda Grande e lá treinaram
no fundo da casa do padrasto de mestre Virgílio. A partir de 1971, mestre Diogo decidiu
retornar à Jaqueira do Carneiro, já que a capoeira ficou violenta por conta de alguns
capoeiristas.

62
Em 1971, mestre Zé do Lenço passou a frequentar as rodas de ruas, através do
contato com mestre Pelé da Bomba. Em suas memórias, o mestre diz que era o menos
favorecido, pois sua aptidão mais forte era tocar pandeiro. Através do contato com
Mestre Waldemar, que visitava as rodas do mestre Virgílio, mestre Zé do Lenço
aprendeu a confeccionar os atabaques e berimbaus. O mestre ainda teve contato com a
luta livre através do mestre Jamanta no Uruguai. Mestre Zé do Lenço se voltou apenas
para as aulas de capoeira e confecções de instrumentos na Jaqueira do Carneiro e não
frequentou mais as rodas da Fazenda Grande.
Os bairros como Jaqueira do Carneiro e Fazenda Grande do Retiro, como tantos
os outros espaços, por exemplo, o Pelourinho e Conceição da Praia, fizeram parte do
histórico da capoeira em Salvador. Mestre Virgílio ficou conhecido como mestre
Virgílio da Fazenda Grande e sua roda, até porque existe mestre Virgílio de Ilhéus.
Essas localidades guardam essas memórias até o momento em que os mestres
continuam ativos ou grupos conseguem manter vivas as tradições e suas práticas.
Raquel Rolnik (1992) afirma que os espaços urbanos servem de fontes de pesquisa na
medida em que olhar do pesquisador se debruçar nos fatos que ocorreram e tem certo
significado para o indivíduo ou grupo social do contexto das transformações sociais ou
políticas:

Defendo um papel especifico e catalisador para o espaço. Quando a


variável espaço entra na história, coloca-se uma questão ao mesmo
tempo teórica e metodológica. Porque o espaço, a configuração física,
esta materialidade é uma variável histórica e uma variável teórica.
Porque o espaço pode ser uma fonte, da mesma forma que um
arquivo, um papel no arquivo, um registro. Ele afirma funciona como
fonte, na medida em que se lê, na história da organização do espaço da
cidade, as formas de organização do trabalho, as formas de relação
social etc. (RONILK. 1992.p. 28.)

Hoje, essas localidades apenas servem de morada para os mestres que, num
passado próximo ou distante, fizeram suas histórias. Com o passar do tempo, outras
localidades ganharam destaque por conta das atividades culturais e da capoeira, como
veremos nos próximos textos.
Durval Muniz (2014), no prefácio do livro de Clóvis Ramaiana Moraes Oliveira
(2016), escreveu sobre o processo cidade e memória ele diz:
A história da cidade também é feita da interdição, censura, desaparecimento
de dadas praticas humanas, de dados hábitos, costumes, tradições, de dadas
maneiras de ser humano. A cidade enterra personagens e pessoas, as devora e

63
as monumentaliza, as torna passado e as faz por ali passar, passageiro
(MUNIZ, 2014.p.33).

E assim, a história dessas rodas de rua sofreu alterações, muitas vezes pontual ou
total, por conta das interdições feitas pelo progresso da cidade, ficando na lembrança
parte da história que ocorreu no passado e que ajudou a construir a identidade da cidade
e do bairro como na Fazenda Grande do Retiro na rua Jaqueira do Carneiro.
A história de quase todos os grupos de capoeira angola em Salvador estará
relacionada com o processo político que se deu entre 1970 e 1980. A roda do mestre
Virgílio foi uma das poucas resistirem ao processo de transição que se dava naquele
período. E as atividades de associação de capoeira angola Relíquia de Espinho Remoso
ganham outros rumos

64
CAPITULO 3

A VELHA GUARDA E SEU LEGADO

Nesse capítulo dividido em dois tópicos sobre as décadas de 1970 e 1980, serão
analisados alguns aspectos do processo de enfraquecimento ocorrido na capoeira
angola, o impacto causado nos grupos e nos trabalhos dos mestres e como esse processo
de enfraquecimento impactou na capoeira na Fazenda Grande após a morte do mestre
Espinho Remoso. Também será estudado como o grupo Espinho Remoso, sob a
liderança do mestre Zé do Lenço, se comportou em relação as transformações ocorridas
durante a década de 1970.
Por outro lado, ainda na década de 1980, a capoeira angola viveu um processo
de fortalecimento que fez despertar a importância da preservação da memória e o
resgate dos mestres da Velha Guarda. Veremos como isso afetou todos os grupos de
capoeira, incluindo o grupo Espinho Remoso e sua participação nesse processo.

3.1 O legado da Velha Guarda: a capoeira em Salvador na década de 1970

Nesse capitulo, analisaremos o contexto histórico da capoeira angola durante a


década de 1970, apontando possíveis causas que contribuíram para o enfraquecimento
da prática, e como isso afetou em certa medida os grupos de capoeira existentes na
cidade, ao mesmo tempo em que a Associação de Capoeira Angola Espinho Remoso faz
seu trabalho.
A capoeira, ao longo do tempo, foi ganhando novas formas de combate e novos
combatentes. É um movimento que ora tensiona, ora concilia com instituições e órgãos
as quais se relacionam. A vida dos capoeiristas em Salvador não era muito simples.
Muitos conviviam com a dupla função. Pedreiros, sapateiros, feirantes, lavadores de
carro, artesãos, policiais, carregadores, mas poucos viviam do trabalho realizado com a
capoeira. A profissionalização da capoeira não se deu de uma forma homogênea entre as

65
duas escolas. Na Bahia, a profissionalização se deu com o surgimento das academias e a
parcerias com as atividades do turismo.
A reputação da capoeira mudou significamente durante o século XX, a partir dos
anos de 1930, passando a ser uma prática que gozava de certa liberdade e de uma
reputação que foi construída com muita luta e resistência. Como também sinaliza
Rosangela Costa Araújo (2004, p.92) “que liberação criminal da capoeira estava longe
de representar sua aceitação na sociedade dominante”. Vieira & Assunção (2014, p.10)
“faz uma análise sobre esse momento que a percepção da capoeira também mudou
radicalmente. De ofensa contra a ordem pública, passível de correição imediata com
açoite, e de costume bárbaro de negro, obstáculo ao progresso que precisava ser
erradicado, passou a ser vista como folclore exótico, digno de preservação e matriz de
uma luta genuinamente brasileira”. Para Pedro Abib(2016) a capoeira está contida no
processo civilizatório:
A capoeira tem uma relação muito forte com todo o processo
civilizatório brasileiro, carregando consigo marcas históricas que
denunciam a opressão e a violência sofrida pelos povos escravizados e
subalternizados pelo regime escravocrata, sendo um poderoso símbolo
da luta contra a injustiça e a desigualdade em nosso país, se
transformando hoje em dia também num importante instrumento de
educação para todas as classes sociais. (ABIB, 2016, p.3)

Para uma prática cultural que tirava o sono das autoridades, amedrontava as
pessoas e configurava as páginas de crime nos jornais, a capoeira alçava novos voos e o
capoeirista agora se relacionava com autoridades, era apadrinhado por intelectuais,
lançava livros e discos com direito a prefácio de escritor renomado, como sinaliza
Vassalo (2004) .
Em 1964, Pastinha publicou o seu próprio livro, intitulado Capoeira
Angola. Mais uma vez, o apoio de Jorge Amado tornou-se explícito.
Ele redigiu a apresentação do livro, onde louvou as qualidades físicas
e morais do mestre, que é “o primeiro em sua arte”. Numa das
primeiras páginas, encontra-se uma foto do escritor e do mestre lado-
alado, cuja legenda consolida a amizade e a admiração que se tecem
entre ambos. Por sua vez, Carybé forneceu a ilustração da capa. Ainda
nos anos 1960, Pastinha grava o disco já mencionado.
(VASSALO,2004,p.10)

É verdade que o cenário não era todo favorável à capoeira. Mesmo com toda
expansão, a prática não tinha status de esporte. Com todo seu aspecto de luta, a capoeira
estava identificada como folclore ou dança por um determinado setor, na tentativa de

66
torná-la mais palatável. Viera e Assunção (2014) também fazem referência a esse
período.
Mas, no início dos anos 1970, os capoeiristas ainda tinham algo de exótico. A
própria capoeira era vista como uma manifestação cultural que buscava se afirmar como
esporte, cujo lugar “natural” seria as comunidades mais pobres e periféricas, de
população predominantemente afrodescendente. Em instituições mais elitizadas, a
capoeira ainda causava estranheza e, de fato, muitas delas fechavam suas portas para
essa prática. Era necessário, portanto, um grande esforço de “organização”, dando
continuidade à trajetória iniciada pelos capoeiras da primeira metade do século XX.
(VIEIRA & ASSUNÇÃO, 2014. p.10)
Depois de ter vivido um período de novas experiências com participações em
diversas áreas culturais, a capoeira entra na década 1970 com a impressão que iria
romper fronteiras. Existiam muitos planos e projetos para a capoeira, mas não para os
capoeiristas. Os mestres Bimba (1900-1974) e Pastinha (1889-1981), ainda eram os
grandes nomes da capoeira na Bahia. Além deles, tinham os mestres Canjiquinha (1925-
1994), Caiçara (1924-1997), Cobrinha Verde (1917-1983) e Gato (1929-2002) também
estão em evidência.
Na capoeira angola existiam outros nomes tão importantes quanto o do mestre
Pastinha, que contribuíram para divulgação da nobre arte. Mestre Pastinha tinha feito
amizade com alguns intelectuais que o acompanharam por muito tempo, como Carybé
(1911-1997) e Jorge Amado (1912-2001). Em entrevista ao jornal O Estado de São
Paulo, mestre Pastinha ressalta sua importância nesse processo:
Hoje a capoeira mudou, eu a tirei da lama, do meio da rua,
quando o importante mesmo era não roçar o corpo no chão que
sujava tudo. Hoje (...) a capoeira está nos salões, entrou na
sociedade, subiu a escadaria. Tem tanta gente boa hoje jogando,
e tem serventia (...). Fui eu, Vicente Ferreira Pastinha, que
consegui isso, com muita ajuda, mas fui eu. (O Estado de São
Paulo, 16 de novembro de 1969).

Vale a pena chamar a atenção que, apesar da certa reputação dos mestres, a
capoeira como movimento político ainda era insipiente. Os mestres nem sempre
lutavam pela mesma causa. Se lutavam, era por uma causa individual e não coletiva. A
ideia de lutar pela capoeira passava pela ideia de cooptação e não de fortalecimento.
O caminho percorrido para encontrar as possíveis causas que contribuíram para
o enfraquecimento da capoeira angola na década de 1970 foram os periódicos da cidade

67
de Salvador, como Diário de Notícias e Jornal da Bahia, e trabalho relacionado a tema
sobre capoeira e seus processos enfraquecimento.
O jornal Diário de Notícias21 fez uma série de reportagens nos anos de 1970
entrevistando os velhos mestres da vadiagem da capoeira angola através da jornalista
Cristina Cardoso e do fotografo José Cavalcante. Vale ressaltar que os mestres da
capoeira regional não foram entrevistados, nem mesmo o mestre Bimba. A ideia da
reportagem, além de denunciar a falta de apoio, era saber dos mestres sobre a situação
da capoeira, as transformações que ocorreram naquele período e como os mestres
estavam lhe dando com esse novo panorama.
Em entrevista concedida ao jornal Diário de Notícias, Mestre Pastinha observou
que a capoeira, ao chegar na década de 1970, já não tinha o mesmo rigor dos anos
anteriores. “Hoje, qualquer menino com aprendizado de dois e três meses já se
considera mestre e cria sua própria academia”, declarou. A crítica talvez se referisse a
forma como os novos capoeiristas estavam usando a capoeira não mais como arte, mas
pelo prazer e como atividade econômica.
Mestre Pastinha chegou aos anos de 1970 já com a saúde debilitada. A cegueira
o limitava de exercer suas funções. Mas, ainda estava a frente do trabalho no grupo que,
ao longo da década, acabou perdendo seu espaço durante as obras de reforma do
Pelourinho, realizadas em 1971, segundo a reportagem do Jornal da Bahia22 .
Mestre Pastinha fez crítica às instituições oficiais que não davam o devido valor
à capoeira. Ele afirmou que, a capoeira era permitida para ambos os sexos, idade e
estava badalada entre os turistas, mas que não existia nenhuma regulação que impedisse
alunos e mestres de deturparem a capoeira.
Em suas reportagens, o jornal sinaliza uma suposta crise na capoeira na Bahia,
quando se refere à falta de apoio e aos aproveitadores da prática. Mestre Pastinha negou
que existia uma crise na capoeira, mas compreendeu que havia pessoas se aproveitando
dela.
É contraditório pensar que o prestigio que o mestre Pastinha teve não impediu
que ele chegasse ao fim dessa década com pouco apoio e desprestigiado. Segundo
Simone Vassalo (2004, p.11), “a projeção de Pastinha lhe garantiu também vínculos
com os poderes públicos, como o órgão turístico da cidade de Salvador, que lhe

21
Diário de Notícias 3/10/1970- Pastinha - Estão abusando da capoeira. D.2
22
Jornal da Bahia - Pastinha, tradição da Bahia, em apuros. 22-10-1971-

68
concedeu uma série de privilégios, tais como a participação constante nas apresentações
turísticas”.
Sobre a pureza da capoeira, a qual os mestres da vadiagem sempre se referiam,
ela estava ligada à conservação dos rituais. Acreditava-se que esse valor estava se
perdendo. O mestre Pastinha tinha conservado boa parte dos elementos, dos rituais, da
forma de jogar de seus antepassados, ao contrário do que mestre Bimba fez, criando a
capoeira regional. Vivian Fonseca (2008) fez uma análise sobre autenticidade:
Esse vínculo com a verdadeira capoeira se mostrava importante,
pois identificaria quem teria maior prestígio tanto nas rodas,
como nas outras esferas que esses alunos viriam a circular. De
qualquer maneira, numa prática onde a linhagem se mostra
fundamental, estar vinculado com qualquer um dos dois grandes
mestres da capoeira será essencial para os alunos que buscarão
seguir sua vida dentro da capoeira. (FONSECA,2008,p.18)

A segunda entrevista feita pelo Diário de Notícia foi com o mestre Caiçara
(Antônio Carlos Morais, 1924-1997), contemporâneo do mestre Pastinha. Com um
perfil muito peculiar, mestre Caiçara era adepto do Candomblé, filho do orixá Oxóssi e
aluno mestre Aberrê (Antônio Raimundo Argolo-1895-1942). Era valentão e trazia no
corpo as marcas de seus confrontos. Afirmava que a capoeira foi desenvolvida na Bahia
e tinha receio que ela seguisse o caminho do samba, que nasceu na Bahia e se
naturalizou carioca. Afirmava que a luta dele era pela capoeira e pela Bahia.
Mestre Caiçara, assim como mestre Pastinha, afirmava que a capoeira não estava
em crise e que ele tinha ajudado a divulgar e expandi-la. A diferença era que, na Bahia,
a capoeira não era protegida pelas instituições oficiais e que dependia dos esforços dos
mestres. Em sua passagem por São Paulo e pelo Rio de Janeiro, mestre Caiçara
observou que acapoeira era mais fraca nas duas cidades, em compensação, os
capoeiristas tinham uma estrutura financeira melhor, e possuíam carro e apartamento.
As diferenças regionais não estavam apenas nos aspectos culturais, mas as
questões econômicas se faziam valer. Os mestres na Bahia não ganhavam dinheiro
suficiente com o trabalho de capoeira e não trouxe um suporte econômico aos mestres,
até o que se sabe. As atividades que eram rentáveis eram as participações em
espetáculos de danças, em filmes e visitas de turistas.
Mestre Caiçara se considerava a terceira força da capoeira depois dos mestres
Pastinha e Bimba. Ele falou de sua relação com o mestre Bimba e citou certa tensão
entre os dois, mas não especificou qual era. Considerava que o mestre Gato era digno de

69
defender e representar a Bahia. Disse ter vivido e visto grandes mestres como Totonho
de Maré, Juvenal, Cobrinha Verde e Onça Preta.
A terceira entrevista do Diário de Notícias foi com o mestre Totonho de Maré23
(Antônio Laurindo Das Neves, 1894-1974), um nome renomado na capoeiragem baiana.
O mestre iniciou a entrevista mostrando a diferença do jeito que jogava no passado com
o tempo da década de 1970. Ele ressaltou que antes se jogava de roupas brancas, mas
não se sujavam e que os golpes eram dados apenas com as pernas e cabeça. Era proibido
pegar com as mãos. Para o mestre, “capoeira não se joga, se vadia”. Mestre Totonho de
Maré fez alusão ao estilo de capoeira que interrompe os golpes com as mãos, chegando
a segurar o oponente e se queixou dos capoeiristas mais novos e de suas posturas em
relação à capoeira.
Em outra reportagem do Diário de Noticias24, Mestre Waldemar (Waldemar
Rodrigues da Paixão - 1916-1990) afirmou acreditar que a capoeira não estava em crise
e justificava isso dizendo: “Agora é que a capoeira está evoluindo, ganhando público.
(...) Antigamente, não era assim não. Capoeira era marginal, valentão que se metia com
a polícia”. O mestre acreditava que a capoeira era desunida e denunciou à reportagem
que “é que a Bahia está entupida de mestres de capoeira, ninguém mais se entende, mas
o povo é o juiz eterno e infalível e êle acaba apontando quem são os verdadeiros
mestres, os donos da verdade”. O mestre também falou sobre a indumentária do
capoeirista no passado, que jogava de terno branco engomado e não se sujava. A
reportagem segue falando que mestre Waldemar já não dava mais aula, só fabricava
berimbaus, fazia músicas e às vezes frequentava rodas no final de semana.
A última entrevista da série foi com mestre Gato25 (José Gabriel Góes - 1929-
2002), um exímio tocador de berimbau, ganhador do concurso do Festival de Arte
Negra de Dacar e do Festival de Folclore em Salvador. Mestre Gato aprendeu capoeira
com seu pai, que aprendeu com seu avô. Na época, o mestre ensinava ao seu filho. Para
ele, a capoeira angola era grande e a verdadeira capoeira, com 180 golpes e
contragolpes. Fez uma comparação com a capoeira regional afirmando que a capoeira
angola tem influência de outras lutas nos seus golpes, mas a capoeira regional tinha
golpes ligados, influenciados pela luta romana, luta livre e outras lutas estrangeiras.

23
Diário de Noticia – Totonho de Maré - capoeira é só pra vadiar -08-10-1970 –p.6
24
Diário de Notícias - Waldemar hoje é só de berimbau mas ninguém se engane -10-10-1970
25
Diário de Notícias- Mestre Gato- um berimbau de ouro- 13-10-1970 p.5

70
Mestre Gato, assim como mestres Pastinha e Caiçara, não concordava que havia
uma crise na capoeira. Para o mestre, a capoeira estava se elevando por conta da
expansão para fora do país e citou os alunos estrangeiros, um aluno americano e outro
francês. Até onde se tem notícia, seu trabalho realizado fora do Brasil com capoeira
ainda viria com o mestre Odilon.
Para o mestre Gato, os mestres antigos não sairiam da Bahia e não explica o
motivo que os fariam ficar. O mestre Gato também faz uma relação do passado com a
capoeira feita no ano 1970. Segundo o mestre, a capoeira era luta de moleque e beberrão
e terminava em faca ou morte.
A crise na capoeira na Bahia existia, como indagava a jornalista Cristina
Cardoso aos mestres na série de reportagem do Diário de Notícias. A ideia das
reportagens era mostrar qual foi a visão dos velhos mestres da vadiagem sobre aquele
cenário da capoeira em Salvador e sobre os seus posicionamentos políticos. O jornal
não fez alguma defesa de projeto, nada sugeriu, mas expôs que a situação econômica
dos mestres era frágil e que a relação deles e dos grupos com a instituição (Federação de
capoeira) era frágil.
Os mestres conscientes de sua situação negaram a crise porque percebem que a
capoeira tinha se expandido durante a década passada. Enquanto eles tinham vigor e
disposição, eles contribuíram com essa expansão. Deixar de fazer capoeira e viver de
outro ofício era um destino selado. Os mestres antigos viram suas referências morrerem,
pois, a capoeira não era uma atividade lucrativa.
A crise na capoeira Angola era na área econômica e política. Os grupos
dependiam das apresentações turísticas e das mensalidades cobradas de seus poucos
alunos. Na área política, os mestres percebiam que não tinham apoio das instituições
que os representavam, como os conselhos e federações. Há mais de 20 anos o cenário
não mudava e quase todo apoio veio da estrutura do turismo. Paula Cristina Barreto
(2005) fez uma análise sobre essa ausência de política pública:

Diante da ausência de políticas públicas para a capoeira, o que


aconteceu ‘espontaneamente’, a partir dos anos 1960, foi a
expansão dos segmentos que afirmaram a capoeira como esporte
e adotaram discursos e práticas condizentes e afinados com os
propósitos da expansão das empresas, cujo objetivo era disputar
um espaço para a capoeira no mercado da “cultura
física”.(BARRETO,2005,p.65)

71
As políticas públicas e projetos que beneficiasse a capoeira não eram eficazes, e
e não atingia uma grande parte da comunidade. Então surge nesse cenário, em Salvador
um grupo de capoeirista de rua que sobreviviam das atividades comercias em torno do
Mercado Modelo.
O antigo Mercado Modelo foi destruído por um incêndio em 1969 e a
consequente mudança para o prédio da Casa da Alfândega, esse grupo de capoeira passa
Administrada pela Prefeitura de Salvador, a mudança para o novo prédio fez modificar
o objetivo de comercialização de alimentos e distribuição de produtos do interior para
concentrar as atividades turísticas e vendas de produtos ligados à cultura baiana. Em
torno do mercado, existiam pessoas que sobreviviam das atividades relacionadas ao
porto ou ao comércio, como prostitutas, trapicheiros, carroceiros, estivadores,
arruaceiros, carregadores de mercadorias e saveiristas. Para FARIAS, R.C. &
GOELLNER, S. O (2007) explicam esse processo:
A identificação da capoeira como uma atração turística e a
necessidade de sobrevivência em um contexto econômico
adverso fizeram com que vários capoeiristas buscassem no
Mercado Modelo um espaço para exibir sua arte e, desse modo,
angariar algum dinheiro da assistência. Essa situação permite
identificar que, no âmbito específico desse local, o turismo,
aliado à necessidade de sobrevivência dos mestres, acabou por
provocar mudanças no próprio acontecer da capoeira, a ponto de
eliminar vários vestígios vinculados às antigas tradições, como,
por exemplo, jogar a capoeira por mero prazer, diversão ou
vadiação. (FARIAS & GOELLNER, 2007, p.146.)

A partir dessa vivência próxima ao Mercado Modelo, surge uma geração de


capoeiristas que desenvolvem uma identidade das experiências desse espaço. A capoeira
se tornou mais um produto a ser gerenciado pelo turismo na qual estariam enquadradas
as exigências do órgão de turismo, convivendo paralelamente com a venda de
artesanatos. Para Karl Marx (1990, p.165), a mercadoria é, antes de tudo, um objeto
externo, uma coisa, a qual pelas suas propriedades satisfaz necessidades humanas de
qualquer espécie. Segundo FARIAS, R.C. & GOELLNER, S. O (2007), a capoeira
deixa de ser um instrumento de denúncia e passa ser uma mercadoria:

Para a capoeira se manter dentro de um local de grande


afluência turística, foi necessário efetivar uma série de
modificações e normatizações, muitas delas impostas pela
Empresa Municipal de Turismo de Salvador, direcionadas, por
exemplo, para a distribuição do tempo, a apropriação do palco, a

72
regulação da bateria. Nesse sentido, foram criadas novas
tradições de modo a fazer crer que a capoeira que ali se
presentifica, ainda que seja moderna e performática, é também
signatária da tradição de outros tempos. (FARIAS &
GOELLNER,2007,p.146.)

Com diversos mestres tendo passado ali, pertencentes das duas escolas de
capoeira, por exemplo, mestres Dois de Ouro (?-2001), Caiçara, Antônio Gereba e Pau
de Rato, os capoeiristas do Mercado Modelo se caracterizavam por um jogo mais
agressivo, quando visitados por capoeiristas e apresentações acrobáticas ligadas às
apresentações turísticas.
No universo da Capoeira de rua, o capoeirista deveria ter conhecimento sobre o
ritual das rodas nos espaços públicos. Domingos André dos Santos, Mestre Di Mola
(1952-2002), em entrevista à revista Iê Capoeira!, relata como um visitante deveria
proceder para participar da roda. “Para participar das rodas que acontecem nas ruas, o
capoeirista tem que chegar e, primeiramente, ir tocando os instrumentos, para saber
como está o jogo, quem é quem. Na capoeira de rua, não tem esse negócio de cordão, de
imaginar o jogo do cara pela cor que ele traz na cintura.” FARIAS, R.C. &
GOELLNER, S. O (2007) descreve esse universo da capoeira de rua:
Alguns pré-requisitos são necessários: primeiramente, o
capoeirista tem que possuir notável habilidade e conhecimento
sobre capoeira, não necessariamente Regional ou Angola, pois
nenhum dos mestres entrevistados se definiu como seguidor
ferrenho de um desses estilos. Precisa conhecer, sim, as
artimanhas da capoeira de rua, malandreada, traiçoeira, violenta,
que engloba elementos das lutas, dentre elas, o boxe.
Subentende-se, então, que esse mestre, mais do que ser um
jogador de capoeira, é também um lutador com experiência em
combates e nunca recusa uma disputa, na roda ou fora dela.
(FARIAS & GOELLNER,2007, p.146.)

A capoeira feita no Mercado Modelo ficou caracterizada por ser uma capoeira de
rua26, uma capoeira que não distinguia as duas escolas, por ter uma linguagem mais
agressiva e maliciosa, que requeria do capoeirista boa habilidade e técnica apurada para
eventual desavença no momento do jogo.
Segundo mestre Di Mola:

26
Segundo FARIAS, R.C. & GOELLNER, S. O - Capoeira de rua é uma expressão usada pelos próprios
mestres e praticantes do Mercado Modelo para se referir a uma capoeira que não se vincula a princípios,
nem ao tradicionalismo dos estilos já citados.

73
A capoeira de rua, na minha concepção, é uma capoeira solta, não tem
agarramento. É arte musicada. Tem malícia, defesa, ataque e luta.(...) Os
jogadores se respeitam, não tem esse negócio de uma sujar a roupa do outro,
ficar marca de pé, de mão. Capoeira de rua não tem estilo e não tem mestre.
Esse negócio de só jogo Angola, só jogo Regional não funciona. Na rua, o
capoeirista tem que saber jogar, e muito bem, Capoeira.

A geração de mestres como Macumba, Cacau, Índio, Gajé, Zumbi e Americano


e Di Mola viveram esse ambiente de desafios, desavenças e muito trabalho com a
capoeira. Eles fundaram o grupo do Mercado Modelo e mantêm o trabalho até os dias
atuais.
É interessante pensar que esse grupo de capoeiristas não foi acusado de ter
descaracterizado a capoeira por conta do turismo. É quase uma licença, por ter uma
linguagem das ruas, como estratégia de sobrevivência, incorporar elementos aos rituais
da capoeira. Ao contrário do que se possa pensar, eles são também vítimas da expansão
do turismo. Assim sinaliza FARIAS, R.C. & GOELLNER, S. O (2007):

Como o objetivo central é tornar a capoeira algo bonito de se


ver, mais “limpa” aos olhos do leigo, houve uma série de
intervenções sobre a atuação dos grupos: uso de vestuário
específico, demarcação de um espaço limitado para as
apresentações da capoeira (o palco), determinação de horários
fixos para a sua prática, delimitação do número máximo de
integrantes da roda, diminuição da altura do som da bateria para
não atrapalhar o comércio, entre outras. (Farias &
Goellner,2007,p.152)

O produto a ser explorado era a capoeira e não os capoeiristas. O fato de jogar


capoeira por prazer, ficou em segundo plano. FARIAS, R.C. & GOELLNER, S. O
(2007) utiliza as palavras do mestre Augusto Januário dos Passos SILVA (2003) para se
referir a esse momento:
Para que pudesse sobreviver, a Capoeira teve que mudar sua
lógica de funcionamento para atender a sociedade capitalista que
se encarregou de manter esse segmento cultural nos setores
populares, dentro dos seus moldes num contexto onde os
mesmos aparecem deslocados do seu verdadeiro significado e
importância. A Capoeira deixou de ser um instrumento “de
sobrevivência” para se transformar num instrumento “pela
sobrevivência”, onde elementos são incorporados para atender a
necessidade capitalista (p.82).

74
Isso não significou que os capoeiristas que viveram e vivem nesse local tiveram
uma vida melhor do que os outros. A tensão entre os capoeiristas e a empresa municipal
de turismo era recorrente. Os ganhos talvez viessem mais da intervenção do capoeirista
ao turista do que pelos contratos de exibições.
Mas, nem todos os grupos de capoeira angola viviam da relação ou dependência
do turismo. No período 1970, a Associação de Capoeira Angola Relíquia Espinho
Remoso manteve suas atividades na Jaqueira do Carneiro muito voltada para atividade
com as crianças. Nesse processo que vimos, mestre Zé do Lenço mantém a linha de
ensinamento baseado nas orientações dos mestres Cassarogongo e Diogo.
Como estavam afastados do centro, o processo de enfraquecimento não atinge
com forças os grupos periféricos. O mestre não adota o cordão e não insere movimentos
da capoeira regional em seu trabalho. O mestre Zé do Lenço acredita que, por não ter
adotado o cordão, o grupo Espinho Remoso ficou vazio em relação ao grupo de mestre
Virgílio 1 de maio, que tinha adotado. O processo fez fortalecer a capoeira feita no
bairro da Fazenda Grande do Retiro, com mestre Virgílio, que se torna roteiro
obrigatório para os capoeiristas de angola da cidade.
A roda na rua 1º de maio foi iniciada na década de 1970, levada pelos mestres
Diogo e Firmino, e seguiu sobre a tutela de mestre Virgílio. As aulas eram na sede na
rua 1º de maio. Essa roda é muito lembrada entre os mestres da capoeira angola que
viveram esse momento por reunir o que restava de capoeira angola nas ruas de
Salvador.
Mestre Rene27, que também teve seu grupo no bairro da Fazenda Grande do
Retiro, afirmou que “a roda do mestre Virgílio era a roda onde o capoeirista se tornava
conhecido e reconhecido. Era uma roda para rever os amigos e testar as habilidades”.
Aquele era o espaço onde o capoeirista se sentia pertencente ao seu mundo e guardava
ainda a memória e elementos das rodas antigas de ruas. Segundo o depoimento do
mestre Zé do Lenço28, essa roda era frequentada, por mestres como João Grande, Boca
Rica, Paulo dos Anjos, Mario Bom Cabrito e Dois de Ouro.

27
Mestre Rene - entrevista
28
Entrevista concedida em janeiro de 2018

75
3.2 A década de 1980: uma geração paradigmática

Com as transformações na década de 1980 no Brasil e em Salvador, os grupos de


capoeira angola construíram um movimento de fortalecimento da prática que causaria
mudanças significativas e afetaria todos os grupos de capoeira angola da cidade
inclusive o trabalho do mestre Zé do Lenço.
A transição da década de 1970 para 1980 foi cercada de muitas expectativas no
cenário político e social no Brasil. O regime militar dava sinais de fragilidade e estava
disposto a mudança. Parte da sociedade civil se organizava no intuito de pressionar o
congresso a votar a favor da emenda Dante de Oliveira, mais conhecida como
movimento das Diretas Já!.
Em Salvador, entre as décadas de 1970 e 1980, amadureceram as discussões
sobre o papel do negro e suas tensões, dentro no aspecto cultural, político e ideológico.
As reflexões fizeram surgir um movimento de militância da causa negra, que (re)
discutiram a condição do negro na cidade. Anamaria Morales (1991) fez uma análise
sobre esse período:
No caso específico de Salvador, formulou-se a hipótese de que a
ênfase étnica no discurso da negritude formulado por setores
mobilizados da coletividade negra das décadas de 70 e 80, é um
mecanismo que visa atender às aspirações das novas gerações
por uma mudança na sua identidade social estigmatizada. Ênfase
esta que procura distinguir a coletividade negra no seio da
sociedade abrangente, através de símbolos étnicos e da
demarcação de território e linguagem próprios.
(MORALES,1991,p.73)

Sob a tutela do Movimento Negro Unificado (MNU), surgem alguns grupos de


carnavais com discurso político-cultural como o Ilê Aiyê (1974), Olodum (1979),
Muzenza (1980), Malê de Balê (1979) e Araketu (1980) que, com pautas do movimento
negro, passaram a denunciar e reivindicar melhores condições de vida para a população
negra e deram visibilidade à participação do negro no Carnaval. Dentre os temas
apresentados estavam africanidade, ancestralidade e tudo que envolvia a influência
africana na Bahia, ajudando a valorizar a identidade afrobaiana. Manuela Borges
Domingues (2009) escreveu sobre a construção dessa identidade em Salvador:

76
A identidade cultural afro-brasileira resgatou a história dos afro-
brasileiros durante o regime escravocrata, na forma de uma
cultura de resistência, representada pelos quilombos e pelas
revoltas nas plantações e nas cidades, e da capoeira,
desenvolvida pelos escravos, mas igualmente através das
irmandades religiosas católicas de negros e mestiços, assim
como através das religiões afro-brasileiras, e da música e da
dança, ligadas aos rituais dessas religiões. (DOMINGUES;
2009, p.325)

Nesse movimento, a capoeira angola seguiria um caminho próprio, ainda que


surfando na onda de outros grupos militantes da causa negra. A pauta da capoeira
angola era específica, buscava o fortalecimento de suas práticas e da sua identidade
enfraquecida na década anterior. Não que as pautas do MNU e outros grupos envolvidos
deixassem de contemplar os interesses e influenciar essa geração de capoeiristas. Elas
deram subsídio, alertando a comunidade da capoeira angola a lutar por uma causa
coletiva e de interesse comum.
Pensando no conceito de Colonialidade e nos movimentos de contestação que
ocorreram em Salvador, é possível que o movimento de fortalecimento da capoeira
estivesse sintonizado com os movimentos de descolonização dos países que sofreram
com a imposição cultural dos europeus. A população fez uma reflexão do quanto era
danosa a influência cultural europeia, mesmo depois de sua saída, mas mantinha os
mecanismos de dominação cultural em suas antigas colônias através das elites e poder
local. A partir do conceito de Quijano (2005), Luiz Fernandes de Oliveira & Vera Maria
Ferrão Candau (2011) pensaram:
O termo faz alusão à invasão do imaginário do outro, ou seja,
sua ocidentalização. Mais especificamente, diz respeito a um
discurso que se insere no mundo do colonizado, porém também
se reproduz no lócus do colonizador. Nesse sentido, o
colonizador destrói o imaginário do outro, invizibilizando-o e
subalternizando-o, enquanto reafirma o próprio imaginário.
Assim, a colonialidade do poder reprime os modos de produção
de conhecimento, os saberes, o mundo simbólico, as imagens do
colonizado e impõem novos. Opera se, então, a naturalização do
imaginário do invasor europeu, a subalternização epistêmica do
outro não-europeu e a própria negação e o esquecimento de
processos históricos não-europeus. (OLIVEIRA & CANDAU
2011, p.19)

77
Os desafios não eram poucos para se construir um movimento de interesse
coletivo. A capoeira angola sofreu muito com os processos de transformações ocorridos
na década 1970. O impacto dessas transformações foi uma capoeira que não conseguiu
se manter ativa e fortalecida diante da política de organização do governo, como
exemplo: o reconhecimento da capoeira como esporte; a relação insossa com as
federações e confederações; a relação com a indústria do turismo e, por fim, a relação
da própria comunidade de capoeira, que quando era a responsável pelas organizações
das apresentações com seus grupos parafolclórico, reproduziram as interferências feitas
pelas agências de turismo como estratégia de sobrevivência. Magalhães Filho (2012)
reforça a ideia da decadência da capoeira angola:

Na década de 1980 a capoeira angola baiana sofre uma série de


novas transformações. Com mudanças na organização do
mercado turístico, diversas academias tradicionais tinham
entrado em decadência. O fato da principal fonte de renda dos
angoleiros vir de sua identificação com o folclore e sua
apresentação para turistas teve um forte impacto na formação de
novos capoeiristas. (MAGALHÃES,2012, p.106)

O cenário para capoeira angola era preocupante. Fragilizada, viu seus principais
representantes impossibilitados de dar continuidade às aulas por diversos motivos, seja
por velhice, doença, questões econômicas ou por falecimento. Alguns mestres estavam
envolvidos apenas com as apresentações folclóricas. Outros poucos, que possuíam
trabalho com a capoeira angola, estavam longe dos holofotes e, desses poucos, ainda
tinham grupos que inseriam características de outra escola na sua forma de fazer
capoeira.
29
Em 1982, o jornal A Tarde, através do jornalista Reynaldo Brito, reuniu
aqueles que consideravam os grandes mestres da capoeira angola. Nomes como João
Pequeno, João Grande, Gato, Canjiquinha, Cobrinha Verde e Waldemar da Liberdade
foram convidados. O intuito do artigo de jornal era mostrar que apesar da capoeira ter
mudado de status durante os séculos, os seus representantes tinham dificuldades de
sobreviver apenas com a nobre arte. O jornalista fez uma linha histórica da capoeira, de
como ela sobreviveu às perseguições, dos personagens que ficaram famosos por
perseguir os capoeiristas, da importância do ritual da roda e de cada instrumento.

29
Jornal A tarde – Os grandes mestres 02 /05/1982

78
Figura 9 Mestre Valdemar, Cobrinha Verde, João Grande, Gato Canjiquinha e João Pequeno. acervo jornal a
Tarde-Reynivaldo Brito-1982.

Josivaldo Pires (2015, p.101) chama atenção para os registros iconográficos


sobre a capoeira na capital baiana, principalmente as fotografias, muitas das quais eram
publicadas em jornais. Essas fotos têm muito mais a contar. Em algumas delas, há
descrições que faziam alusão às rodas e festas de largo. Para Castro Junior (2003), “as
fotografias são significativas para revelarem o que às vezes a oralidade não consegue
captar, pois, mesmo transformada em linguagem escrita, não decifra a grandeza da
realidade. O uso das fotografias aumenta os ângulos possíveis que o texto pode
ter”(p.72).
Reynaldo Brito fez crítica às inúmeras tentativas de folclorização da capoeira e o
enfraquecimento de algumas academias de capoeira, mas ressaltou a força que a
capoeira tinha em se manter autêntica e viva até aquele período. Destacou a importância
dos mestres Pastinha e Bimba e suas contribuições para manter viva a capoeira. O jornal
lembrou os famosos capoeiristas que fizeram fama por utilizar a capoeira para se
defender e se tornaram temidos durante o período em que viveram.
Os mestres que o jornal destacou, entre eles João Grande e João Pequeno, já não
estavam envolvidos diretamente com a capoeira, mas destacaram suas atuações e o fato
de serem os principais discípulos do mestre Pastinha. Mestre Waldemar também foi

79
destaque do jornal, mas o que chamou atenção na sua história foi que ele apenas
fornecia berimbaus às lojas do Mercado Modelo. Mestre Canjiquinha estava envolvido
com apresentações folclóricas e não dava mais aula. Cobrinha Verde ainda estava
envolvido com a capoeira e mantinha o trabalho em uma escola particular. Mestre Gato
também estava envolvido com capoeira e mantinha seu trabalho vivo.
Os poucos mestres que possuíam grupos ou trabalhos voltados para Capoeira
Angola foram fundamentais para a divulgação e resistência da cultura. Os mestres que
ainda realizavam trabalhos na cidade, segundo Frede Abreu30, eram os mestres Nô,
Virgílio, Marcelino, Bola Sete, Mário Bom Cabrito, Boca Rica, Curió, Boa Gente,
Paulo dos Anjos e Bobó e Zé do Lenço. Existiam outros mestres menos conhecidos,
com trabalhos com poucos alunos e sem destaque, além de capoeiristas sem mestres e
grupos definidos que viviam em rodas espalhadas pela cidade. Essa geração não tinha
despertado para conscientização da preservação da memória da capoeira angola.
Neste cenário desolador sem alguma perspectiva de melhora surgiu uma geração
de grupos de capoeira angola com a preocupação de responder pelas demandas da
comunidade e com intuito de formar uma geração de capoeiristas que pudesse preservar
e divulgar a capoeira, defendendo o interesse da comunidade. Para Luiz Renato Vieira e
Matthias Röhrig Assunção (2014):

A geração de capoeiristas que se formou a partir dos anos 1980


está, de fato, participando de uma transição fundamental na
história dessa arte. Se os atuais praticantes se acostumaram a
ouvir de seus mestres e professores histórias sobre perseguição,
rodas interrompidas pela polícia e correrias nas praças e festas
de largo, a realidade que passaram a viver é, regra geral,
completamente diferente. A capoeira tem-se inserido nas
instituições e no contexto político mais amplo por muitas vias,
alterando dramaticamente sua prática e seu significado. (VIEIRA
& ASSUNÇÃO, 2014, p.10)

Pegando carona na turbulência político-social e cultural baiana a capoeira angola


começou se articular com pessoas da prefeitura, com acadêmicos e com representantes
da capoeira regional. A primeira medida tomada neste novo panorama que viria a se
formar na capoeira foi a realização do 31Seminário Regional de Capoeira, que aconteceu
na Biblioteca Central em Salvador. Organizado pelo Departamento de Assuntos

30
Frede Abreu Entrevista cedida em 03-02-2011
31
Jornal da Bahia -04-06-1980 – Capoeira Debatida em seminário reúne os mais famosos mestres-
caderno.1

80
Culturais da Secretaria Municipal de Salvador, o evento teve o intuito de discutir as
diferentes posturas adotadas em relação à capoeira, segundo a diretora do departamento,
Vera Mota.
Nesse encontro se reuniu associações de capoeira, grupo parafolclórico e os
grupos afins. Alguns mestres foram convidados para ministrar palestras como Mestre
Itapoan para falar sobre a “Capoeira como esporte” e Jair Moura sobre “A
sobrevivência da capoeira a Bahia”. Sofrendo com resistência da própria comunidade e
pouco orçamento o seminário foi realizado. Ordep Serra com a Folclorização da
Capoeira e Albano Marinho sobre a importância da música na capoeira.
Esse evento não foi suficiente para mobilizar a comunidade de capoeira angola.
Alguns dos temas do evento, já eram reflexões e inquietações da comunidade de
capoeira. Era preciso mais engajamento da própria comunidade para poder chegar um
consenso sobre como cuidar e administra os interesses da capoeira Angola. O jornal 32A
tarde também destacou o seminário, que visava estimular a união entre os representantes
das academias e associações e obter subsídios para uma política de ação cultural sobre a
luta entre outros.
O jornal sentiu falta do mestre Pastinha como homenageado do evento. O jornal
ressaltou a fala do mestre que dizia que “A capoeira de nada precisa, quem precisa sou
eu”. Que foi homenageado por um grupo que representava o jogo de sua academia. A
diretora Vera Mota ressaltou que ele não foi a homenageado porque não era objetivo do
evento homenagear ninguém individualmente, e que a melhor maneira de homenageá-lo
era criando um meio para capoeira fosse reconhecida, já que estava cego e abandonado
por seus alunos.
Em 3314/11/1981, Vicente Ferreira Pastinha, o mestre Pastinha, cego há 18 anos,
abandonado por seus alunos, debilitado por conta de um derrame cerebral, contando
com apoio de sua companheira, Maria Romélia Costa de Oliveira, Dona Nice, vivendo
em um abrigo D. Pedro II, faleceu aos 92 anos em Salvador, deixando o seu legado para
posteridade. Em vida o mestre Pastinha tinha conseguido uma pensão de três salários
mínimo junto a prefeitura, o que não foram suficientes para mantê-lo depois da doença.
O escrito Jorge Amado já tinha denunciado sobre o oportunismo de alguns
pesquisadores que se aproveitavam da frágil condição do mestre.

32
Jornal a tarde – Começa o Festival de Capoeira e Mestre Pastinha é esquecido -5/06/1980. p3
33
Jornal do Brasil -Falecimento -14/11/1981 p.20 caderno 1

81
A sua morte representou para a comunidade da capoeira angola, um alerta para a
importância de preservação da memória e uma luta por melhores condições vida aos
seus praticantes ou dos mestres antigos que ainda estavam vivos. Para que isso
acontecesse era preciso construir um movimento de interesse comum e coletivo e que
voltasse a demarcar seu espaço de atuação.
Após o encontro dos capoeiristas no seminário, foi sugerido encontrar um
espaço onde a capoeira angola pudesse dar continuidade ao seu trabalho. A partir de
1982 surgiram em Salvador muitos grupos de capoeira angola que se formaram na
perspectiva da organização e das orientações do trabalho do mestre Pastinha. Estes
grupos surgiram sobre um cenário desanimador, com suas práticas enfraquecidas com
alguns trabalhos desacreditados. Um dos objetivos do movimento era restabelecer a
confiança da capoeira angola dentro de um cenário dominado pelas apresentações
folclóricas e dominados pela capoeira regional.
Para Luiz Renato Vieira e Matthias Röhrig Assunção (2014) sobre a conjuntura
política daquele período.
Diversos grupos, alguns dos quais grandes, não somente se
recusaram a aderir à federação, mas buscaram demarcar
claramente essa linha, estabelecendo, por exemplo, sistemas de
graduação e seqüências de cores de cordéis de graduação
alternativos. Nesse processo, o resgate das tradições afro-
baianas começou a assumir papel importante, a ponto de alguns
deles aproximarem-se da capoeira angola. Isso coincidiu, é
claro, com a revalorização da cultura afro-brasileira pela qual
lutava o movimento negro.(VIEIRA& ASSUNÇÃO,2014,p.15)

É nesse panorama citado por Vieira & Assunção na década de 1980 em Salvador
que surgiram grupos como o Grupo de Capoeira Pelourinho (GCAP), a Associação de
Capoeira Navio Negreiro (ACANNE), Grupo de Capoeira Angola Cabula (GCAC),
Grupo de Capoeira Filhos de Angola (GCFA), Grupo de Capoeira Angola Menino de
Arembepe, Associação Cultural de Capoeira Angola Paraguaçu (ACCAAP) , Grupo de
Capoeira Angola Resistência além de outros grupos.
Outros grupos de capoeira angola criado antes da década de 1980 conseguiram
segurar as atividades, como na Capoeira Regional, como a Centro Esportivo de
Capoeira Angola (CECA), Escola de Capoeira Angola Irmão Gêmeos (ECAIG),
Associação de Capoeira Angola Palmares, Academia de Capoeira Angola 1º de Maio,
Associação de Capoeira Mestre Boa Gente, Academia de Capoeira Angola Cinco

82
Estrela, Grupo de Capoeira Anjos de Angola e Associação de Capoeira Angola Relíquia
Espinho Remoso entre outros.
O Centro Esportivo de Capoeira Angola do mestre Pastinha, o CECA, só voltava
a atividade por conta da inciativa de algumas pessoas em restabelecer as suas atividades
em parceria com o Centro de cultura popular, que cedeu o Forte Santo Antônio Além do
Carmo. Segundo o jornal A Tarde34, o centro seria administrado pelo então mestre João
Pequeno (1917-2011) e tem que como objetivo dar continuidade ao trabalho do mestre
Pastinha, ser um ponto de encontro dos capoeiristas, ser um centro de estudo, fomentar
a fabricação de instrumentos, publicação de livros e recursos para poder desenvolver as
atividades junto a comunidade local. Segundo José Virgílio Leal do IPAC.
No estatuto do CECA35de João Pequeno de Pastinha que foi construído durante
a década de 1980 vai refletir o sentimento e os objetivos de alguns grupos de capoeira
que iriam surgir durante esse período. No artigo 2º tem como finalidade; a) unir os
angoleiros para fortificar a Capoeira Angola b) despertar consciência na Sociedade
sobre a contribuição da Capoeira Angola em nossa cultura; c) promover a realização de
encontros da Capoeira Angola para discussão de temas de caráter cultural, científico e
jurídico e questões de interesse do grupo; e) preservar a capoeira angola em sua técnica,
beleza artística e expressões originais.
Esses aspectos citados eram demandas que a comunidade de capoeira angola
passava a refletir sobre o comportamento dos capoeiristas, sobre padrões e a sua forma
de organização e execução de suas atividades. Não era apenas uma preocupação
burocrática e institucional existiam outras demandas, pessoais, culturais também a
serem encontrada naquele período. Castro Junior (2005) chama atenção para mudanças
feitas pelo mestre João Pequeno em relação ao mestre Pastinha no CECA a criação de
um eficiente método de ensino para atender a um número grande de alunos por aulas e o
segundo o CECA teve maior abertura para praticantes de outro estilo.
A academia do mestre João Pequeno seria um espaço de importante encontro de
capoeiristas “soltos” que passam pelo grupo para ter uma experiência. Para Paulo
Magalhães Filho (2012.p.111) “O CECA de Mestre João Pequeno se torna uma grande
referência para a capoeira na Bahia”. Não só isso, o CECA de Mestre João Pequeno a
partir da década 1980 foi palco importante as discussões que determinariam os rumos da
capoeira angola na cidade. Além disso, o papel do mestre João Pequeno como líder do

34
Jornal a tarde – inaugurado o centro esportivo de capoeira – 03/05/1982
35
Estatuto do Centro Esportivo de Capoeira Angola – João Pequeno Mestre Pastinha -1999

83
grupo que abriu sua casa para capoeiristas diversos, curiosos, e pesquisadores, e soube
lidar com as tensões provocadas dentro do seu espaço por contradições e interesses
diversos. E serviu de modelo no processo de fortalecimento da capoeira.
Durante a década de 1980 e 1990 o CECA foi o principal espaço de rodas de
capoeira da cidade. Como também sinaliza Castro Junior (2005, p.3) sobre o CECA
“transformou na principal referência da capoeira angola, e o seu modelo de
funcionamento se transformou numa matriz multiplicadora de outros modelos”

Figura 10 foto da roda no forte Santo Antônio- CECA-JP em 1985- Acervo blog ABC dos velhos mestres

Castro Junior (2005) compreende bem a importância do espaço de João


Pequeno.
Ao se estabelecer, a Academia de João Pequeno se dinamizou
como organização, de forma a não perder seus laços
tradicionais, mas procurou modernizar-se em relação à do
Mestre Pastinha, nos termos da prestação de serviços: aula,
rodas, exposições, seminários, fábrica de berimbaus, posto de
comercialização, de acordo com as novas exigências que a
capoeira enfrentava (CASTRO JUNIOR,2005,p.3)

A quantidade de capoeiristas a visitar o espaço do mestre João Pequeno eram


grandes e nem todos respeitam as normas e padrões estabelecido do espaço. Na foto

84
acima, mostra alguns capoeiristas com camisa regata, sem camisa e descalço. O que
reforça o empenho do mestre em estabelecer e manter seu padrão no período da década
de 1980 e ajuda a explica a necessidade do movimento de reforçar os seus laços
identitários.

Figura 11 formatura de mestre dos alunos do mestre João Pequeno. 1993- Acervo Mestre Barba Branca

O mestre João Pequeno formou uma geração de bons capoeiristas no início da


década de 1990 que o ajudaram a construir a manter o legado como multiplicadores de
seu trabalho como os mestres, Jogo de Dentro, Pé de Chumbo, Barba Branca, Jacaré,
Junior e Eletricista. Ainda na mesma década foram os mestres Ciro e Faísca.
Outro grupo de Capoeira Angola ocuparia o espaço no Forte Santo Antônio ao
lado do CECA seria o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP) fundado no Rio
de Janeiro na Feira de Artesanato da associação dos moradores do bairro Cosme Velho
no dia 5 de outubro de 1980. O seu fundador é o mestre Moraes, Pedro Moraes
Trindade (1950), que retornou a Salvador e se fixou no forte Santo Antônio em 1982, no
espaço cedido do Mestre Ezequiel. Por alguns anos Mestre Moraes e Mestre Curió,
dividiram o mesmo espaço no forte Santo Antônio, mas por conta de um
desentendimento acabaram se separando.

85
Entre os objetivos do GCAP estavam 36
“a inserção mais ampla na luta contra
todas as formas de discriminação; Continuar o trabalho do Mestre Pastinha, enfatizando
a capoeira enquanto manifestação cultural vinculada a trajetória étnica negro-mestiça no
Brasil; Difundir a capoeira angola ressaltando-a como um dos instrumentos das lutas de
resistência negra no Brasil; Preservar a capoeira angola em todos os seus aspectos:
pratica, filosofia, canto e ritmos. Isso poderia ser visto através de suas oficinas de
capoeira, que foi uma grande novidade para a comunidade de capoeira angola”.
O grupo tinha um engajamento político-cultural muito forte, demonstrado pelos
discursos sobre ancestralidade, a importância da África para construção da identidade
brasileira; autenticidade na reprodução da organização da capoeira nas tradições do
mestre Pastinha, sem assimilar representações e simbologias da capoeira regional e do
combate e denúncia daqueles que se apropriavam da capoeira para fins mercantis e a sua
deturpação por aproveitadores e poder público. Para Luiz Renato Vieira e Matthias
Röhrig Assunção (2014) sobre a estratégia dos grupos
Nesse processo, o resgate das tradições afro-baianas começou a
assumir papel importante, a ponto de alguns deles aproximarem-
se da capoeira angola. Isso coincidiu, é claro, com a
revalorização da cultura afro-brasileira pela qual lutava o
movimento negro. Esse processo também favoreceu o
fortalecimento da capoeira angola, que havia passado por longa
fase de declínio marcado pela extinção de toda uma geração de
antigos mestres baianos e que culminou com a morte de
Pastinha (1981). (VIEIRA & ASSUNÇÃO,2014,p.15)
Com o grupo de alunos dedicado e engajado na causa da defesa da capoeira
angola e assuntos referentes pautas do movimento negro, O GCAP encabeçaria um
37
movimento político para defender os interesses da capoeira angola. O jornal A tarde
fez uma reportagem mostrando a importância do grupo do movimento de revitalização
da capoeira. O mestre Moraes demonstrou preocupação com o nível da capoeira na
Bahia, com o processo de formação dos mestres e viés da capoeira como mercadoria.
Para o mestre moras era preciso ter um espaço de debate e uma instituição que viesse
defender os interesses da capoeira angola. Para o mestre Moraes existiam muitos
jogadores de capoeira e poucos capoeiristas disciplinados e conscientes com a
importância cultural da arte que prática.

36
Folder da oficina de capoeira angola do Grupo de Capoeira Pelourinho – GCAP – 1990 -
37
O jornal A tarde – iê câmara ! 2/08/1986

86
Essa não seria a preocupação exclusiva do mestre Moraes e seu grupo. Ainda na
mesma reportagem o mestre percebia que em Salvador durante a década de 1980 seria a
preocupação de toda comunidade. Para VIEIRA E ASSUNÇÃO (2014) analisam que:
O nacionalismo simplista, anteriormente tão forte, passou a dar
lugar a uma visão mais global da cultura e do processo de
formação da capoeira, inserindo-a na história da resistência dos
africanos escravizados e de seus descendentes mundo afora.
Viu-se que a capoeira precisava ser tratada como um esporte,
mas que a arte não poderia ser reduzida somente ao seu aspecto
desportivo. Essa abordagem culturalista, então, foi muito
enfatizada a partir dos anos 1980, quando as palavras “resgate” e
“bagagem” passaram definitivamente a fazer parte do
vocabulário comum dos capoeiristas. (VIEIRA E
ASSUNÇÃO.2014.p.12)

Existia um incômodo a partir dos anos 1980 que com academias, grupos e
mestres que misturavam pratica das duas escolas. Alguns grupos de capoeira angola
assimilaram representações e movimentações da capoeira regional. Como existiam
poucos grupos de capoeira angola, o que existiam passaram adotar essa prática. No
início da década de 1980, os grupos que surgiram continuaram a reproduzir essa pratica.
Existia um incômodo da prática de aliciamento por parte de alguns grupos em
“resgatar” os mestres antigos, com diversos interesses. Essa prática se dava tanto da
Capoeira Angola e como da Capoeira Regional.
O GCAP fez uma crítica a capoeira baiana para aquele período ainda se tratando
no artigo do jornal A Tarde38. Para o mestre Moraes existiam três formas de se fazer
capoeira na Bahia: 1) a capoeira de rua, que para o mestre Moraes era uma capoeira
folclorizada como cartão-postal praticado no mercado modelo e terreiro de Jesus; 2) a
capoeira folclorizada seria uma consequência da indústria do turismo. 3) E outra forma
era a capoeira de academias de ginásticas que não tinha seriedade fazer a capoeira de
preservação cultural.
Durante a década de 1970, nem todos os mestres conseguiram resistir as
exigências do turismo. Manter as características entendidas como tradicionais se tornou
muito complexa, ainda mais que a regulamentação da capoeira como esporte fragilizava
a importância de se manter essas características, já que a ideia das federações era
unificar e criar graduações, nomes golpes e criar competições.

38
Jornal a tarde- 1986

87
Para alguns mestres acrescentar simbologias ou elementos de outra vertente era
o diferencial na disputa pelo controle das atividades. Os grupos procuravam introduzir
elementos que pudessem chamar atenção do público, como descreve Acúrsio Esteves
(2003) roupas coloridas, acrobacias, sequencias de golpes coordenados, jogos armados,
saltos mortais.
De autêntico nas apresentações restou a disputa de pegar o dinheiro no chão com
a boca, o chamado apanha laranja no chão tico-tico. Para Paulo Magalhães
Filho(2012,p.87) “a partir da grupo Viva Bahia houve uma grande influência nos
grupos de capoeira por introduzir nos espetáculos junto a capoeira, a dança do
candomblé, o samba, o maculelê e a puxada de rede”. Que mais tarde seria reproduzido
e incorporado pelos grupos de capoeira ou pelos mestres em seus espetáculos
particulares.
Mestre Moa do Katendê (1954-2018) aluno do mestre Bobó, fez uma reflexão
sobre os capoeiristas que estão envolvidos com prática culturais, como blocos de samba,
afoxés e espetáculos ou que inseriam nos grupos práticas descritas no parágrafo acima.
Para o mestre Moa do Katendê “os mestres desse período e dessas atividades sabiam
separar o jogo de capoeira das suas atividades culturais paralelas”. Segundo mestre Moa
“na tentativa de organizar a comunidade de capoeira em um só objetivo, alguns mestres
passaram a tentar purificar a capoeira determinado o quê e quem fazia capoeira angola”.
As interferências que existiam em determinados grupos era o menor problema da
capoeira angola. O problema era não ter um plano ou um projeto de como proteger e
fortalece a memória e a identidade da capoeira angola. Além disso, tentar unir a
capoeira em um só projeto, que era se fortalecer e encontrar um mecanismo que pudesse
proteger os interesses da comunidade. A capoeira Angola utilizava elementos
identitário, organizações, movimento da capoeira regional. Outros utilizavam dentro de
sua organização elemento do balé parafolclórico.
Paulo Andrade Magalhães Filho (2012) afirma que os Mestres Nô e Paulo dos
Anjos foram os primeiros dentro do universo da capoeira angola em Salvador a utilizar
cordões. Para Barbara Santos Ornelas (p.5) “O cordão de professor pode dar a um
capoeirista além do poder hierárquico o poder financeiro, a graduação se atrela também
ao sistema econômico atual: o capitalismo”. Magalhães Filho (2012) disse que o sistema
de graduação que viria a ser usada pela capoeira angola era da Federação Paulista de
Capoeira junto as determinações da Confederação Brasileira de Pugilismo.

88
Com esse cenário houve uma necessidade de envolver a comunidade de capoeira
angola em um projeto único que primeiro passava por um processo de convencimento
que era preciso criar uma entidade que defendesse e representasse os interesses da
capoeira gerido pelos próprios capoeiristas. O segundo era quais critérios se
determinaria definir o que era o que não era capoeira angola. Não foi uma tarefa fácil
envolver a comunidade com objetivos diferentes para o mesmo projeto. Para Magalhães
Filho (2012) afirma que:
Nesse confronto entre duas propostas, uma de integração e outra
de rompimento com a capoeiragem regional e/ou de rua, a
ruptura veio a se tornar hegemônica e definiu, de certa forma, o
campo de batalha. Esse contraste simbólico se demarcou não
apenas por diferenças corporais, ideológicas e rituais, mas
também pelo uso de uniformes, calçados e cordões.
(MAGALHÃES FILHO; p.130.)

Houve muitas tensões e intrigas por uma suposta pureza da capoeira daqueles
que seguia uma determinada linhagem. Naquele período de definições de projeto surgia
um grupo que defendia a necessidade de romper com tudo que implicasse na
descaracterização da capoeira angola. Entre as estratégias estavam em definir o que o
que caracterizava o trabalho de Capoeira Angola, ou seja, precisava ser aluno de um
mestre capoeira angola, jogar, desenvolver um trabalho voltado para “as tradições” da
capoeira angola sem as simbologias que caracterizavam a capoeira Regional. E no outro
lado, grupos que acreditavam que essas características não tiravam a condição de ser um
praticante de capoeira angola.
Essas tensões fizeram surgir uma necessidade de remontar uma nova tradição e
seus laços identitário. Jornal A Tarde39 chamou atenção para as possíveis
desestabilizações da entidade e da própria capoeira angola. Na coluna do jornal chama
atenção para capoeiristas que têm como discurso “capoeira é uma coisa só”, “vamos nos
unir porque unidos somos fortes”.
Mesmo com as divergências e diferenças políticas entre mestres e os grupos\,
havia uma pauta que era de consenso entre os capoeiristas. Após de muitas reuniões foi
idealizado a criação da Associação Brasileira de Capoeira Angola, ABCA. Nela
estavam contidos os anseios de alguns capoeiristas da cidade que tinha iniciado o

39
Jornal A tarde de 03/07/1987 p.13

89
movimento político da capoeira angola em Salvador. Mestre Renê40 entrevista cita as
razões da criação da ABCA.
Existiam duas razões para se criar a ABCA, uma era ter a
necessidade de ter uma coisa organizada legalmente pra se
adquirir recursos, respeito diante do governo e ser respeitada
com instituição. E também porque a galera da Regional já tinha
feito isso, a gente foi o segundo. Eles estavam conseguindo
verbas e legitimidade bem mais fácil do que a galera da
Capoeira Angola. (...) ai vem a idéia de fazer uma coisa bem
maior e bem mais ousada o que era um coisa só de Capoeira
Angola.(...) No inicio não era Associação de Brasileira de
Capoeira Angola, era Associação Baiana de Capoeira Angola,
era uma coisa bem menor que eu estava pensando, mas depois
de juntar a galera toda, dar o mesmo trabalho fazer uma
brasileira de uma baiana. Ai galera disse vamos fazer uma
brasileira que abrange bem maior e tem muito mais respaldo.
Inclusive o nome ABCA que deu a idéia foi Calazans que trouxe
as siglas, que tava muito época na moda as siglas, as coisas, as
empresas pelas siglas, as ONG pelas siglas ninguém sabia o que
significava as siglas(...) (Mestre Renê)

No dia 28/07/1987 foi escrito a ata41de fundação com assinatura dos mestres
antigos, simpatizantes e capoeiristas novos mais militantes da causa. Durante o evento o
mestre angoleiro Renê Bittencourt apresentou as suas finalidades: a) Defender e
conquistar espaços para que os tradicionais mestres angoleiros; b) Impedir que se
exigência diploma para o ensino de capoeira – capoeira não se aprende na escola; c)
Preservar a luta angoleira daqueles que tentam descaracterizá-la. Tais itens eram as
repostas aquilo que o grupo defendia.
Alguns desses itens como a “letra B” ainda é pauta nos dias atuais e motivos de
tensões entre o movimento da capoeira e confederação de educação física. Todos outros
itens da ata, com o tempo, foram sendo conquistado e de certa maneira foi mantida e
defendida por muitos grupos.

40
Entrevista cedida por Mestre Renê no dia 18/02/2011 a Roosevelt Leonel Cunha
41
Ata de fundação da Associação Brasileira de Capoeira Angola -28/06/1987

90
Figura 12 Ata da fundação da ABCA- Acervo Mestre Barba Branca -2012

A fundação da ABCA no papel caracterizava uma resposta a falta de políticas


públicas, o descaso das federações, as pessoas que se aproveitavam da capoeira que
tentavam descaracterizar. Era uma vitória parcial da cultura e da resistencia afro-
brasileira.
Assim a capoeira angola a partir desse momento tenta tomar para si a
responsabilidade de responder pelos seus interesses tentando romper com os laços das
federações, agências de turismo e tudo aquilo que fazia da cultura um produto
mercadológico. E dessa forma passa a reconstruir sua identidade cultural juntamente
com outros movimentos negro na cidade.
Mestre Renê, fundador da Associação de Capoeira Angola Navio Negreiro,
(ACANNE), aluno do mestre Paulo dos Anjos, foi um dos grandes articuladores para
formação da ABCA e a sua importância é a mesma do mestre Moraes e outros que
militaram para realização do projeto. Toda negociação foi acompanhada pelo jornal A
Tarde, através de uma coluna escrita por Antônio Pacheco, onde informava as
atividades de capoeira na cidade e no Estado. Em entrevista para Paulo Andrade
Magalhães (2011) Antônio Pacheco ressalta a importância do mestre Renê no processo:

91
O que Mestre Renê tentou na verdade foi criar um movimento
capoeirístico aqui em Salvador. Independente do que as pessoas
estivessem ensinando, se estavam dando cordão, se não davam
cordão, se davam faixa, se não davam faixa, ele estava querendo
criar um movimento de capoeira. (...) Renê estava interessado
em fazer o nome da capoeira que ele achava que não tinha
visibilidade que seria justa numa cidade de 80% de pretos. Então
ele pediu minha ajuda, mas o pessoal não entendeu assim,
obviamente. As pessoas que não participaram deste primeiro
momento não gostaram. Ele era amaldiçoado por muita gente, e
benquisto por uma maior parte que participava com ele. (...)
(TONY PACHECO)42

De fato as reuniões e empenho dos capoeira angola não foi bem entendido por
todos. Até a capoeira regional, que em parte, alguns dos seus praticantes, participou do
processo de renovação, em um determinado momento criticou a nova forma de se
organizar da capoeira angola nesse período. Mestre César Itapoan (Raimundo Cesar
Alves de Almeida) mestre de capoeira regional criticou a nova organização dos grupos
de capoeira afirmando que os mestres de capoeira angola não estavam preparados para
ministrar aulas em recintos fechados. O mestre acreditava que o processo de
aprendizagem da Capoeira Angola se dava nas ruas.
A academia de Pastinha, por exemplo era um centro (Centro
esportivo de Capoeira Angola) onde se ia para jogar, para a roda
e não para aprender. Qualquer capoeirista da época podia ir lá
fazer seu jogo, sem precisar matricular-se – o que se vê hoje em
dia é mestre ministrando aulas nos moldes da Capoeira Moderna
(mestre, na frente de muitos alunos, mostrando um movimento
qualquer e os alunos tentando imitá-lo e tradição artesanal já não
existe. (ALMEIDA; 1996; p.3)

O movimento que fortaleceu a capoeira angola criou uma consciência para


comunidade da necessidade de preservar e cuidar de suas grandes referências e
combater qualquer interferência que modificasse sua identidade e organização básica.
Criou um padrão de organização seguido por todo grupo de capoeira angola baseado
principalmente na organização feita pelo mestre Pastinha a partir dos anos 1940.
Também alterou a geografia da capoeira angola, consolidando o forte Santo
Antônio como um espaço de referência da Capoeira Angola. Mestre Acordeon43 mestre

42
Depoimento de Antônio Pacheco a Paulo Andrade Magalhães Filho, a dissertação de mestrado da
UFBA; 2011.
43
Entrevista com Mestre Acordeon cedida a revista Capoeira Arte luta

92
também da capoeira regional fez critica a nova “tradição” dos angoleiros sobre uso de
uniforme e calçado:
Que tradição? Acho que você esta se referindo a um estilo de
capoeira que eu denomino de Capoeira Angola Contemporânea.
Geralmente essa escola recomenda a pratica da capoeiragem
exclusivamente de sapatos, calças pretas e camisas amarelas;
apresenta-se com atitudes e maneirismo bem definidos; possui
uma retórica baseada em tradição e em muitas das suas
afiliações apresentações, apresenta-se com um discurso afro-
cêntrico exacerbado. Na verdade, gosto de estética dessa
capoeiragem e até certo ponto de sua proposta em termos de
valorização da sua música, rituais e africanidade. (Mestre
Acordeon)

É preciso fazer uma reflexão ponderada sobre esse período. A capoeira angola
voltou a ser uma prática forte e com muitas referências. Os grupos de capoeira
compraram a ideia e passaram a apoiar e adotaram assim padrões que fortaleciam os
seus laços identitário, como por exemplo, a obrigatoriedade do fardamento e a
padronização dos instrumentos. A estratégia de resistência tinha dado certo, e a partir
desse momento iniciava um novo período para capoeira angola na Bahia.
Podemos observar que o resultado desse movimento de fortalecimento da
Capoeira Angola resultou também na internacionalização dos grupos de capoeira
angola, a partir de 1989, com a ida do mestre João Grande para os EUA, para realização
de um trabalho de capoeira na cidade Nova York. E a expansão de grupos de capoeira
angola pós 1980 com a formatura de novos mestres e contramestres.
Por outro lado, a criação de uma entidade que respondesse os interesses da
comunidade não se concretizou. Apesar da fundação da ABCA (1987), associação não
conseguiu representar naquele momento os interesses da comunidade de capoeira
angola como foi idealizado e discutido. As divergências foram tão intensas, que a
comunidade não conseguiu se unir em pró dos objetivos. Divergências essas que duram
até os dias atuais e que atrapalham em muitos momentos o protagonismo da capoeira
angola nos espaços de discussões.
No início da década 1990, a ABCA um pequeno grupo de mestres e
contramestres (mestre Barba Branca, Marrom, Valdec, Olhos de Anjo, entre outros)
resolveu dar continuidade ao projeto. Ampliou e atualizou os objetivos, articulou um
espaço e um desenvolvimento de política que coubesse os anseios da comunidade. A
princípio, com os mesmos problemas, como por exemplo, a falta de representatividade

93
na comunidade de capoeira angola, sem apoio de instituições sejam elas privadas ou
públicas e divergências entre os próprios praticantes.
A ABCA tentou algumas investidas para tornar a sua atividade atrativa tanto
para comunidade de Capoeira Angola e funcionamento da casa. Foram tomadas
algumas medidas como aulas de capoeira, roda todas as noites de sexta-feira,
participação de eventos culturais, caminhada axé, a Roda da Paz, adoção da cor branca
para os mestres, adoção de uma camisa para os praticantes de capoeira angola. Para
manutenção da casa foi feita a cobrança de um valor para visitante, vendas livros,
camisas e instrumentos para gerar renda. Tentou-se estabelecer um padrão de normas de
como os praticantes de capoeira angola deveria jogar na casa. Reforçando os critérios já
construindo na década anterior.

Figura 13Mestres em posição foto para ABCA. Acervo Lucia Correa Lima

A ABCA passou ter uma sede fixa na Rua Maciel de Baixo, 38 – Pelourinho.
Passou por eleições e teve como presidentes os mestres: João Pequeno, Moraes, Barba
Branca, Curió, Moa do Katendê, Mala e Pelé da Bomba. Em 1996 foi criado o Conselho
de Mestres formado por mestres angoleiros com mais de 50 anos.

94
Os dirigentes percebendo a ociosidade da casa e seu constante esvaziamento,
entendeu que precisava mudar de linguagem para reforçar sua atividade. A ABCA
permanece sem representação para muitos grupos de capoeira angola, sendo hoje uma
casa aberta aos praticantes de capoeira, seja ela qual for sua modalidade.

Figura 14 foto com mestre Diogo, Zé do Lenço na ABCA- acervo velhos mestres

Mestre Zé do Lenço e Diogo participaram das atividades da ABCA na década


1990 e o mestre Zé do Lenço mantem presença também nos dias atuais, levando os
alunos ou participando de eventos e rodas.
Toda essa conjuntura e o envolvimento do mestre Zé do Lenço fez com que ele
tivesse novos contatos permitindo estabelecer uma grande rede de amizade. O trabalho
do mestre Zé do Lenço na comunidade estava se consolidado na década de 1980. No
final da década 1970 e início da 1980 o mestre Zé do Lenço teve o seu reconhecimento
pelos Mestres Diogo e Virgílio, diplomando-o como mestre. A Federação Baiana de
Capoeira em 1984 também reconheceu o trabalho do mestre Zé do Lenço. Luís Vitor de
Castro Junior (2003) faz uma reflexão sobre ser mestre

95
No universo da capoeira de angola ser mestre, é ser aquele que a
comunidade capoeirística reconhece como tal. Existe um
"consenso" de que, para ser "mestre" de capoeira, é necessário
ter experiência nesta arte enquanto jogador de capoeira e, como
educador, que vem desenvolvendo algum tipo de trabalho de
ensinamento da capoeira. Um outro aspecto a ser considerado é
que esse "reconhecimento' se dá pela sua competência técnica e
domínio dos elementos estéticos da capoeira, ou seja, saber
tocar, saber cantar, saber confeccionar os instrumentos e outras
habilidades. (CASTRO JUNIOR,2003,p.55)

Figura 15 diploma de mestre dado pela Federação baiana de Capoeira -1984 -.Acervo Zé do Lenço

O diploma como forma de graduação foi uma das formas adotada pela capoeira
angola como graduar um capoeirista, diferenciando assim da capoeira Regional. As
atividades na Jaqueira do Carneiro estavam direcionadas para as crianças na
Retirolândia e ficaria por lá muito tempo. Adotou o padrão do fardamento azul e branco,
em homenagem ao orixá Ogum, e mantem a formação dos instrumentos com oito
instrumento como todos os outros grupos.

96
3.3. Surge uma nova geração fora da Jaqueira Carneiro

Após ficar quase 30 anos na Jaqueira do Carneiro, a capoeira do grupo Espinho


Remoso sofreu algumas modificações. Entre a formação do grupo de capoeira em 1967
e sua plena atividade até os dias hoje, mestre Zé do Lenço deixou de trabalhar com
crianças e saiu do bairro de onde surgiu. Enquanto estava no bairro, uma das mudanças
foi na forma de aprendizagem, saindo das ruas e indo para um espaço fechado, com
aulas e rodas separadas nos dias específicos.
O trabalho de capoeira era ministrado pelo então professor Zé do Lenço e sobre
a coordenação dos mestres Diogo e Cassarogongo, que não deram aula. Mesmo que
mestre Cassarongo não tenha tido uma participação efetiva da organização do grupo, ele
foi fundamental para sua criação.

.
Figura 16 Alunos devidamente fardados em apresentação na AABB- acervo grupo Espinho Remoso

Vale ressaltar que, no grupo Espinho Remoso, o responsável pelas aulas era o
mestre Zé do Lenço que, entre os meninos que aprenderam capoeira, era o mais
completo, pois sabia organizar, jogar, tocar e cantar. “Diogo me falou que eu sei armar.
Que eu jogo mais capoeira que outros, porque eu sabia armar. Eu varria, eu tocava,

97
deixava tudo pronto”, lembrou Mestre Zé do Lenço da fala do mestre Diogo sobre sua
habilidade.

Figura 17 Aulas de capoeira na sede da Retirolândia -acervo Mestre Zé do Lenço

A Associação de Capoeira Angola Relíquia Espinho Remoso basicamente nasce


e se desenvolve dentro do bairro da Jaqueira do Carneiro. Na Rua da Retirolândia,
mestre Zé do Lenço reformou o espaço que antes era uma igreja e lá desenvolveu o
trabalho com as crianças, só saindo no início dos anos 2000 por conta da insatisfação
com alguns alunos mais velhos. Os outros espaços que o mestre Zé do Lenço tinha
trabalho também foram ocupados pela comunidade ou foram perdidos para om Poder
Municipal, como o que deu espaço a uma praça em um local antigo onde se fazia roda
de capoeira na rua.

98
Figura 18 Sede do grupo Relíquia Espinho Remoso na Retirolândia. 2018. Arquivo Pessoal.

Na década de 1990, com a expansão dos grupos de capoeira angola e


contemporânea por todo Brasil e no mundo, mestre Zé do Lenço passou a viajar com
certa frequência. Foi convidado para participar de seminários, estágios e workshops
para confeccionar atabaques, pandeiros, caxixis e, principalmente, para ensinar capoeira
angola.
O mestre Zé do Lenço sempre foi muito presente na capoeira. Com suas visitas
foi tecendo uma grande rede de amizades na capoeira. Com suas músicas, seus causos,
suas histórias e com seu jogo singelo vai encantando onde passa. Percebeu as mudanças
na capoeira como a chegada de alunos estrangeiros que vieram buscar aperfeiçoamento
na luta e, com isso, passou a se acostumar a viajar e dar cursos de capoeira.

99
Figura 19 Evento do GCAC- Mestres Mala, Zé do Lenço, Barba Branca e Diogo. Década de 1990. Acervo Adilson
França

Dentre as parcerias, por exemplo, acompanhou o trabalho do seu amigo mestre


Barba Branca no Grupo de Capoeira Angola Cabula (GCAC), estando presente nas
principais graduações do grupo, onde viu uma geração de alunos iniciarem e se
desenvolverem na capoeira. Entre outros grupos estão os dos mestres Bola Sete, Ras
Ciro, Faísca, Dinei, Um por Um e Curió.

100
44

Figura 20 Mestre Zé do Lenço ministrou aula no Grupo Geração Capoeira em São Paulo. Acervo mestre Zé do
Lenço.

Em suas viagens internacionais, Mestre Zé do Lenço foi para a Finlândia (1997)


na companhia do mestre Barba Branca. Em 2013, na cidade Lyon, na França, dividiu
novamente o estágio com o Mestre Barba Branca, no Grupo de Capoeira Angola Cabula
(GCAC). Em 2015, foi para Campinas-SP realizar um estágio na Escola de Capoeira
Angola Resistência. Na cidade de Porto-Portugal, para o próprio grupo, foi para Jornada
Europeia de Capoeira Angola em 2017. Em fevereiro de 2019, realizou um evento em
Montevidéu, no Uruguai.

44
Revista Ginga Capoeira- Arte, Cultura , Esporte- nº27 ano IV- São Paulo - 2004

101
Figura 21 Viagem a Helsinki,-Finlândia - mestres Zé do Lenço e Barba Branca – 1997-Acervo mestre Zé do Lenço

No início do século XXI, mestre Zé do Lenço acabou por sair da Jaqueira do


Carneiro e encontrar um novo espaço. A partir do ano de 2003, passou a dar aulas na
sede do bairro de Sete Portas, onde formou uma nova geração de alunos que permitiu
que o grupo desse um salto e que alguns permanecem até hoje.
Dos alunos antigos que iniciaram a capoeira na Jaqueira do Carneiro, ficou
Lorena Silva Moreira, que iniciou ainda criança e que soube através da capoeira que
tinha parentesco com mestre Espinho Remoso. Ela é sua bisneta.
Outro aluno é o seu contramestre Fantasma45 (Wellington Santos Ribeiro-1983)
que chegou junto com André Molinha (hoje em outro grupo). Chegaram no ano 2000 e
estão com ele até hoje. Eles faziam aula com o Grupo de Capoeira Angola Semente do
Jogo de Angola, com um discípulo do mestre Jogo de Dentro, chamado Caipora.

45
Perfil encontrado no site do evento do GCAC-

102
Hoje, além da sede da Sete Portas, ele desenvolve um trabalho no Forte Santo
Antônio Além do Carmo e, aos sábados, realiza roda no Mercado São Miguel, na Baixa
do Sapateiros.

Figura 22 Roda no mercado São Miguel -2018-acervo Grupo Espinho Remoso

O grupo se expandiu e passou a ter uma sede em Diadema, São Paulo, uma em
Brasília, Distrito Federal e outra na cidade do Porto, em Portugal. Outra mudança
significativa foi a graduação dos alunos, processo que só ocorreu em pleno século XXI,
como forma de dividir a responsabilidade do trabalho do grupo com o mestre.
Atualmente, são sete treneis e três contramestres.
O mais velho deles é o treinel Macetoso (Átila Conceição Rodrigues - 1987),
que vem acompanhado o mestre nas atividades do grupo em Salvador desde 2008. Além
de Macetoso, existem outros treneis que são Me Largue (Renan Teles), Gato Manso
(Lucas Silva), Sarará (Lucas Barbosa), Pequeno (Thiago Calliga), Ivan Bonifácio,
Cigana (Flora) e Judite Nunes Magalhães (Porto–Portugal). Dos contramestres
formados, o grupo tem Fantasma que é o mais velho, acompanhado dos contramestres
Adriano Zebra (Brasília-Distrito Federal) e Luciano Angoleiro (Diadema-São Paulo)
Mestre Zé do Lenço passou pela transição de deixar de trabalhar com crianças
para trabalhar com um público de jovens e adultos trabalhadores comuns e estudantes
universitários. Antes, na Retirolândia, o mestre tinha problema em manter o padrão do
fardamento. Ele chama atenção que o trabalho em comunidade é pouco valorizado. As
crianças deveriam estar no mínimo calçadas e vestidas com calça e blusa de manga

103
curta. Como eram crianças com diversas dificuldades, entre financeiras e familiares, o
mestre, em muitos momentos, tinha que custear esse fardamento, comprando blusas e
calças para manter o mínimo de organização.

Figura 23 Final da roda no Forte Santo Antônio. Sede do Grupo Espinho Remoso -07-9-2018- acervo grupo Espinho
Remoso

Com o público adulto, o problema do fardamento não desaparece, mas vem com
outra leitura. A dificuldade desse novo grupo é de conciliar a disciplina de levar o
fardamento para o trabalho para não deixar de ir às aulas sem a farda. As faltas e os
atrasos passam a ser por conta dos estudos, da família e do trabalho.
Os eventos do grupo também ganharam novos formato e organização. Com a
evolução da comunicação, os anúncios dos eventos conseguem ter um alcance fora do
estado. Através dos canais de comunicação como Facebook, Instagram, WhatsApp e
blogs os convites chegam com facilidade e rapidez. O aniversário do mestre, que faz
parte das atividades do grupo, normalmente dura três dias, com palestras, apresentações
culturais e rodas, sempre percorrendo os três espaços: Sete Portas, Forte Santo Antônio
e Mercado São Miguel. Tudo isso é possível contando com apoio dos seus alunos e
mestres amigos.
Vale destacar que essa nova geração de alunos tem uma forte presença de alunas
comprometidas com os objetivos do grupo. São participantes do processo, com o
discurso politizado, baseado nas relações de gênero e voltado para questões afro
culturais.

104
Figura 24 Programação do aniversário do mestre Zé do Lenço -2019-acervo – grupo Espinho Remoso.

São alunos que estão compromissados com os objetivos do grupo em manter o


trabalho e a memória do Mestre Espinho Remoso viva. Para que tudo isso fosse
possível, o jeito de ser do mestre Zé do Lenço contribuiu muito. Alguns de seus alunos
destacaram admiração ao mestre Zé do Lenço. O seu trenel Macetoso chamou a atenção
para o seu acolhimento e generosidade. “É um grande incentivador para os alunos
iniciantes”, declarou sua aluna Júlia”. Mestre Valdec elogiou “o jeito modesto”, aspecto
também destacado pelo mestre Olhos de Anjos.
O Grupo Espinho Remoso, após o período de transição, de altos e baixos, agora
vive um período de pleno crescimento e amadurecimento. Ainda sobre a tutela do
mestre Zé do Lenço, que mantém a tradição, a disciplina e memória do grupo faz com
que os jovens se interessem cada vez mais em ajudar a preservar a memória do grupo.

105
Considerações finais

Pesquisar e analisar a trajetória de uma família de capoeira foi uma tarefa bem
complexa quando as possibilidades de encontrar fontes confiáveis são bem reduzidas. O
fato que alguns personagens, não deixaram em vida muitos vestigios. Pessoas como
mestre Espinho Remoso, que gerou pouco documentos escritos ou gravado, aumenta o
grau de dificuldade da pesquisa.
As fontes sobre o mestre Espinho Remoso são escassas, em alguns aspectos não
permite informar os motivos que fizeram o mestre Espinho Remoso sair de sua cidade
natal e nem sair do recôncavo para morar em Salvador. Não permitem cruzar com
outras fontes para confirmar a informação de sua entrada na capoeira foi feita através do
mestre Cassarogongo. Os seus familiares como filho, sobrinhos e bisnetos não possuem
informações sobre o jeito do pai. Em alguns casos essas informações são omitidas.
Observando a trajetória da Família Espinho Remoso, atendendo à exigência da
linha de pesquisa do Programa de Pós-Graduação Trajetória Afrobrasileira
compreendemos que a trajetória do mestre Espinho Remoso é mais uma história sobre
perseverança, luta e resistência de mais sujeito que a história oficial poderia
simplesmente apagar ou esquecer. Que esse homem, como tanto os outros, lutou dentro
de suas possibilidades, pela preservação da cultura e da capoeira em situações em
contextos adversos.
A breve passagem do mestre Espinho Remoso pela capoeira, produziu um
pequeno grupo de capoeiristas que após a sua morte, não conseguiram por muito tempo,
manter o legado do seu trabalho. Apenas três dos seus alunos conseguiram manter por
um curto espaço de tempo manter suas tradições, o último foi Mestre Diogo.
Então o papel do mestre Zé do Lenço, mesmo não sendo aluno do mestre
Espinho Remoso, é preponderante. A criação do grupo com nome do mestre Espinho
Remoso, além de ser audacioso, fez tocar os moradores da localidade. Um desses
moradores é Mestre Cassarogongo, mestre antigo que por motivos não revelados, tinha
deixado de ensinar a capoeira.
Curiosamente o grupo Espinho Remoso se esforça em manter a memória do
mestre Espinho Remoso viva, mas não faz o mesmo com Mestre Cassarogongo e

106
Diogo. Os dois mestres merecem mais atenção e maior visibilidade pela importância
que dois tem sobre a formação de capoeira do mestre Zé do Lenço.
No decorrer da pesquisa dei destaque a duas décadas importantes para a
pesquisa, que foram as 1970 e 1980. Nessas décadas como vimos, os processos de
transformações que ocorreram na capoeira atingiram toda a comunidade de capoeira
angola. Esse impacto atrelado ao período de amadurecimento do trabalho do mestre Zé
do Lenço na Jaqueira do Carneiro. O caminho percorrido foi o cruzamento da fonte oral
mais os periódicos locais para compreender as situações percebidas dentro e fora da
comunidade.
As fontes sobre a trajetória do grupo Espinho Remoso, nos permite que mestre
Zé do Lenço e Diogo fizeram um esforço de manter o trabalho na Jaqueira até o início
do século XXI. O acolhimento aos alunos, foi uma característica possivelmente
conservada pelos mestres. As fotografias na academia Espinho Remoso ajudaram a
despertar a memória do mestre Zé do Lenço a montar as histórias e lembrar as pessoas
envolvidas na construção da história do grupo. Os documentos como diplomas,
certificados, aulas escritas, também fizeram parte das narrativas do mestre Zé do Lenço.
Nos capítulos dedicados sobre os problemas da capoeira angola, alguns
problemas foram apontados no decorrer da pesquisa, como a desarticulação entre os
mestres da capoeira angola. A pesquisa aponta que não existiu um movimento da
capoeira angola que pudesse combater a falta de assistência das federações e
confederações, que criavam eventos que privilegiavam apenas uma modalidade,
buscando o seu caráter marcial. Também não houve esforço para combater as
interferências da indústria de turismo, que contribuiu muito para divulgação e
promoção, mas que ao longo do tempo, a parceria fragilizou os grupos de capoeira pela
questão econômica. O que existia eram academias ou mestres que se submetiam às
exibições turísticas, criando suas próprias companhias, subsidiados pelos órgãos de
turismo. A capoeira angola não pensava no coletivo.
O cruzamento das informações coletadas em jornais e entrevistas de revistas não
apontam as formas de resistências, o que os grupos e mestres faziam para barrar ou
impedir as exigências. Se os jornais e entrevistas apontam, não são claras as
resistências. Os jornais apontam que existiram interferências do turismo e denunciava a
ausência da CBP – Confederação Brasileira de Pugilismo. Os jornais demonstravam
como a nova geração se organizava e como os velhos mestres estavam abandonados
sem assistência das federações.

107
A importância da metodologia teórica e suporte que trouxe ao trabalho foi
fundamental para explorar melhor as fontes e os documentos, além de nortear a escolha
de fazer uma biografia e a dificuldade de encontrar fontes escritas para investigar e
desnudar a vida do biografado. A fonte oral surge com uma possibilidade de analisar e
investigar a vida ou obra desse personagem. Como afirmou Phillip Joutard “A força da
história oral, todos sabemos, é dar voz àqueles que normalmente não a têm: os
esquecidos, os excluídos ou, retomando a bela expressão de um pioneiro da história
oral, Nuno Revelli, os "derrotados". Que ela continue a fazê-lo amplamente, mostrando
que cada indivíduo é ator da história”. (P.33)
Sua experiência nos permite ver e analisar a vida do mestre que o acompanhou.
Essa fala mostra o quanto é sábio o mestre Zé do Lenço, com sua simplicidade,
persistência e perseverança. “É um homem respeitoso e amigo de verdade”, como
afirmou o mestre Barba Branca ao se referir ao seu grande amigo na capoeira.
Mestre Zé do Lenço sabe quando deve ser severo e punir, mas também sabe
acolher os alunos que vão te procurar com atenção e respeito. Grande incentivador dos
alunos que se sentem “desfavorecidos”, pois faz questão que todos tenham a mesma
oportunidade. A palavra de ordem que define o Mestre Zé do Lenço é “acolhimento”,
que também era uma característica do mestre Espinho Remoso, pois tinha o hábito de
acolher filhos de amigos.
Por fim, acreditando que esse trabalho irá contribuir com a comunidade de
capoeira angola e com a comunidade acadêmica pelo valor histórico, bela história de
vida dos personagens, reconheço a importância da escolha do objeto de estudo, da
metodologia para construção, do aprendizado das entrevistas, das lições das leituras e de
como desenvolver um trabalho acadêmico.

108
FONTES

Fontes manuscritas

 Associação de Brasileira de Capoeira Angola - Ata de Fundação da


ABCA. 28/06/1987. Livro 100. p.1
 Escritos do Mestre Cassarogongo sobre Capoeira. 2 folhas

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Periódicos

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Capoeira – CAD 2.p.5
 Diário de Notícias – 07/10/1970 – Caiçara - papagaio não se mete em
briga de mestres. CAD 2 p.5
 A Tarde - 01/08/87 – Uma semana de capoeira – CAD.
 A Tarde - Berimbau silenciam com morte de Pastinha p.2
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defendida CAD 2. p.5
 Jornal da Bahia - Esporte ou arte ela está desaparecendo - 04/08/1974.
 Jornal da Bahia - 15/06/89 - Mestre quer capoeira sem folclore- p. CAD.
2 p.5
 Diário de Notícias- Waldemar hoje é só de berimbau mas ninguém se
engane- 10/out/1970- D.2
 Jornal da Bahia - Pastinha, tradição da Bahia, em apuros. 22-10-1971
 Jornal da Bahia -04-06-1980 – Capoeira Debatida em seminário reúne os
mais famosos mestres- caderno.1
 Jornal A tarde – Começa o Festival de Capoeira e Mestre Pastinha é
esquecido -5/06/1980. P.3
 Jornal do Brasil -Falecimento -14/11/1981 p.20 - caderno 1

109
 Jornal A Tarde -19/04/1966.p.1 capa.

 Jornal a tarde – inaugurado o centro esportivo de capoeira – 03/05/1982


 O jornal A tarde – iê câmara ! 2/08/1986
 Jornal A tarde de 03/07/1987 p.13
 O Metropolitano Guanabara, 03.01.1960 - 1 cad.:6

Fotografias

ALVES, José – Foto1. - Mestre Espinho Remoso. Arquivo Mestre Zé do Lenço


____________Figura 25. - Mestre Diogo e Moisés alunos do Mestre Espinho Remoso.
Acervo de Mestre Zé do Lenço.
_____________Figura 26. - Mestre Zé do Lenço e Diogo na sede do grupo na Sete
Portas. Acervo Mestre Zé do Lenço
_____________Figura 27. - Mestre Zé do Lenço e Mestre Diogo. Acervo mestre Zé do
Lenço
______________Figura 28. - Mestre Diogo. Acervo Mestre Zé do Lenço
______________Figura 29.- Roda na Jaqueira do Carneiro-Acervo mestre Zé do Lenço
______________Figura 30. - Texto escrito por Mestre Cassarogongo explicando de
onde a capoeira surgiu. Acervo mestre Zé do Lenço.
______________Figura 31. - Aulas de capoeira na sede da Retirolândia -acervo Mestre
Zé do Lenço
_______________Figura 32- diploma de mestre dado pela Federação baiana de
Capoeira -1984 -.Acervo Zé do Lenço
_______________Figura 33. - Mestre Zé do Lenço ministrou aula no Grupo Geração
Capoeira em São Paulo. Acervo mestre Zé do Lenço.
_______________Figura 34. - Viagem a Helsinki,-Finlândia - mestres Zé do Lenço e
Barba Branca – 1997-Acervo mestre Zé do Lenço

BRITO, Reynivaldo Brito - Figura 35 Mestre Valdemar, Cobrinha Verde, João Grande,
Gato Canjiquinha e João Pequeno. acervo jornal a Tarde-1982.

Associação de Capoeira Angola Relíquia Espinho Remoso – Figura 36- mestre Zé do


Lenço na roda do mercado São Miguel- 2018. Acervo grupo Espinho Remoso.
______________________________Figura 37. Nova geração de alunos de Mestre Zé
do Lenço -acervo Grupo Espinho Remoso.

110
______________________________Figura 38 Roda no mercado São Miguel -2018-
acervo Grupo Espinho Remoso
______________________________Figura 39 Final da roda no Forte Santo Antônio.
Grupo Espinho Remoso
______________________________Sede do Grupo Espinho Remoso -07-9-2018-
acervo grupo Espinho Remoso
______________________________Figura 40 Programação do aniversário do mestre
Zé do Lenço -2018-acervo – grupo Espinho Remoso.
______________________________Figura 41. Alunos devidamente fardados em
apresentação na AABB- acervo grupo Espinho Remoso.

Figura 42 Usina cinco rios atualmente, sem funcionar - acervo blog ABC velhos
mestres

Figura 43 foto da roda no forte Santo Antônio- CECA-JP em 1985- Acervo blog ABC
dos velhos mestres
Figura 44. foto com mestre Diogo, Zé do Lenço na ABCA- acervo blog ABC dos
velhos mestres
FILHO, Gilberto Ferreira dos Santos Reis - Figura 45.- formatura de mestre dos alunos
do mestre João Pequeno. 1993. Acervo Mestre Barba Branca
________________________Figura 46 Ata da fundação da ABCA- Acervo Mestre
Barba Branca -2012
FRANÇA –Adilson - Figura 47. - Evento do GCAC- Mestres Mala, Zé do Lenço, Barba
Branca e Diogo. Década de 1990. Acervo Adilson França
LIMA, Lúcia Correa- Figura 48. Mestres em posição foto para ABCA. Acervo Lucia
Correa Lima
CUNHA, Roosevelt Leonel - Figura 49 Local da antiga roda próxima a cada de D,
Joaninha- 2018- Acervo Pessoal
__________________________Figura 50 antigo espaço de roda na rua do mestre Zé do
Lenço, hoje ocupado por uma praça com aparelhos de ginastica- 2018. arquivo pessoal.
___________________________Figura 51 Sede do grupo Relíquia Espinho Remoso na
Retirolândia. 2018.arquivo pessoal.

111
Depoimentos orais

 Mestre Renê - Renê (Renê Bitencourt – 08/07/1959) – 18/02/2011) –


entrevista realizada na ACANNE. Fundador da ACANNE, articulado da primeira
formação da primeira Associação Brasileira de Capoeira Angola.

 Frede Abreu - (Frederico José de Abreu - 12/07/1946-10/07/2013) -


03/02/2011 – entrevista realizada no IPAC- Economista. É membro-fundador da
Academia de João Pequeno de Pastinha, da Fundação Mestre Bimba e Instituto Jair
Moura.

 Mestre Barba Branca - (Gilberto Reis Ferreira dos Santos Filho -


27/03/1955) - 26/01/2011 – entrevista realizada na sede GCAC - Fundou o Grupo de
Capoeira Angola Cabula e participou da segunda fundação da ABCA, da qual foi
presidente.

 Mestre Moa do Katendê – (Romualdo Rosário da Costa) 1954-2018


20/03/2011 – entrevista realizada na roda de capoeira no Dique do Tororó. Compositor,
dançarino, capoeirista, percussionista, artesão e educador. Fundador do afoxé Badauê.

 Mestre Janja – (Rosângela Costa Araújo) 08/02/2011- entrevista


realizada no Instituto Nzinga. Formada em História pela Universidade Federal da Bahia
(UFBA) e Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP).

 Mestre Zé do Lenço – (José Alves) – entrevista realizada no espaço de


treino do Grupo de capoeira angola relíquia de Espinho Remoso – Artesão e aposentado

 Mestre Olhos de Anjos – (André Luis Siqueira Silva) – 29/11/2018-


entrevista realizada na casa do depoente.- advogado

 Mestre Valdec – Valdec Sidnei Santos Cirne -02/01/2019 – via


WhatsApp- Grenoble-França

112
 Treinel Mecetoso – (Atila Conceição Rodrigues) 19/10/2018 -entrevista
concedida na sede do grupo Espinho Remoso – professor de história

 Lorena Silva Moreira – 13/08/2018 – entrevista concedida na sede do


grupo Espinho Remoso – estudante de Serviço Social

 Contramestre Fantasma – (Wellington Santos Ribeiro) 9/01/2019 -


entrevista cedida via WhatsApps. Porto - Portugal

113
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