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2007

GEOLOGIA NO VERÃO 2007

PALEOMEMORIAL DO CONVENTO
Mário Cachão1,2, Carlos Marques da Silva1,2 &
Maria de Jesus Ribeiro2

1. Departamento de Geologia, Fac. Ciências, Univ. Lisboa.


2. Centro de Geologia da Universidade de Lisboa.

Agência Ciência Viva


Ministério da Ciência,
Tecnologia e Ensino Superior

Departamento de Geologia
Faculdade de Ciências
Universidade de Lisboa

Centro de Geologia
Universidade de Lisboa

Palácio e Convento de Mafra


Instituto Português do
Património Arquitectónico
Introdução
Índice
O Palácio e Convento de Mafra é um monumento de
importância arquitectónica, histórica e cultural reconhecidas,
constituindo um edifício de grande beleza, testemunho do século XVIII
em Portugal, período em que foi construído a mando de D. João V.
Introdução .....................................................................................4 Para a edificação deste monumento foram utilizadas rochas
existentes na região, as quais encerram em si importantes elementos
Primeiro momento: Claustro Central .............................................5 geológicos e paleontológicos de elevado valor patrimonial cultural e
natural, nomeadamente pelo que nos contam da história deste
Segundo momento. Campo Santo (Corredor)...............................7 pequeno canto do nosso Planeta.
É objectivo da presente visita procurar reconhecer a
Terceiro momento: Campo Santo (Capela)...................................11 informação forncedida pelos elementos geológicos e paleontológicos
observados. Procurar-se-á ainda interligar os elementos de
Quarto momento: Sala de Diana...................................................15 conhecimento científico (natureza das rochas e fósseis nelas
contidos) com aspectos históricos (contexto da construção deste
Quinto momento: Sala da Bênção ................................................16 Palácio por D. João V) e culturais, tendo como fio condutor excertos
do texto do Memorial do Convento, de José Saramago).
Sexto momento: Biblioteca............................................................21 Durante o percurso efectuado no Palácio/Convento de Mafra,
tentaremos explorar os vários elementos observados em cada
Geohistória da Região de Sintra - Mafra .......................................24 paragem, numa perspectiva de interligação e estabelecimento de
pontes entre a área das Ciências (geologia, paleontologia) e das
Referências bibliográficas .............................................................28 Letras e Humanísticas (literatura, história).
Anexo (Tipos de rochas) ...............................................................29

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Primeiro momento: Claustro Central Nascido de um voto de D. João V para obter sucessão, o
Real Convento de Mafra foi a maior obra do Séc. XVIII.
«(...) pedra branquíssima (...) que pouco sabe de grandes Concebido inicialmente para 13 frades, o projecto foi sendo
calores, pedra ainda espantada da luz do dia. Estas pedras são o sucessivamente alargado, tornando-se uma verdadeira Cidade Real
primeiro alicerce do convento (...)» (Saramago, 1984). que engloba um Palácio, uma Basílica e um convento para 300
irmãos da ordem de São Francisco.
Financiada pelo ouro do Brasil, a Real Obra foi praticamente
toda construída em pedra liós da região (ver Figura 1). A palavra que
designa este tipo de rocha é de origem francesa, e designa uma
rocha calcária, esbranquiçada, compacta, dura, muito empregue em
estatuária e arquitectura, e que geralmente contém fósseis.
Segundo Pereira De Sousa (1919 – 32): «(...) os melhores
edifícios de Lisboa e do resto do paiz são feitos com cantaria de Pero
Pinheiro, e quando se pretende deixar às gerações vindouras a
lembrança d′ um facto e se levanta um monumento, constroe-se de
cantaria de Pero Pinheiro (...)».
a (...) Para mostrar a V. Ex.as quanto no tempo de D. João V
não se attendia a despesas, contarei o seguinte facto: no Penedo
Gordo, próximo de Lousa de Cima, existia um bloco com
aproximadamente 28 metros de comprimento, 6,5 de largura e 6,5 de
altura, que tinha sido destinado à construção de uma escada em
caracol para o convento de Mafra. Conta a tradição que, tendo sido
expostas a D. João V as dificuldades para o transporte do referido
bloco, elle respondera que o monolytho deveria ir para Mafra, mesmo
b que o conseguissem deslocar só um palmo por dia (...) (Pereira De
Sousa, 1904).

Figura 1. Claustro Central. a – Coluna em liós. b – Chão revestido de liós.

5 6
facto deve-se com certeza ao grau de resistência da mesma, o que é
Segundo momento: Campo Santo (Corredor) evidenciado no texto que se segue:
(...) Os tiros vão rebentando a rocha duríssima (...) bom
A Figura 2 mostra o corredor do Campo Santo, local onde proveito ela daria, e pagamento do trabalho que dá, se pudesse
eram enterrados os frades. As diversas lajes aí observadas são servir, como outra, para encher as paredes, mas esta, que agarrada
exemplos de duas litologias distintas: marga e calcário. ao monte só consente desprender-se dele com grande violência,
quando posta ao ar não demora a desfazer-se, em pouco se tornaria
terriço (...) (Saramago, 1984).

b a

c
a a
d
b
Figura 3. Pormenor do chão do corredor do Campo Santo, revestido por lajes que
cobrem as campas dos frades franciscanos.
a – Calcário com Rudistas.
b – Marga fossilífera. São abundantes os fósseis de ostreídeos (c) e
Figura 2. Corredor do Campo Santo, revestido por lajes que cobrem campas de de bivalves lamelibrânquios (d), muitos deles com perfurações
frades franciscanos. a – Laje de calcário (liós). b – Laje de marga fossilífera. (icnogénero Entobia) feitas por esponjas do género Cliona.

Este é o único local onde é possível observar marga fazendo Uma marga (Figuras 2.b e 3.b) é uma rocha que apresenta na
parte da construção do Palácio/Convento, apesar de ser esta rocha a sua composição química CaCO3 e alumino-silicatos hidratados.
existente no preciso local onde foi edificado o Palácio/Convento. Tal

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Na sua composição mineralógica apresenta Calcite e Nas lajes de margas fossilíferas que cobrem as campas dos
minerais de argila. Tais composições atribuem-lhe características e monges franciscanos, rochas estas datadas do Cretácico Superior
comportamentos próprios, como o grau de resistência à erosão, (Cenomaniano Inferior) – 95 milhões de anos (Ma) podemos observar
sendo este bastante inferior ao verificado no caso do calcário. abundantes fósseis de moluscos lamelibrânquios de ornamentação
Observando as duas lajes a e b das figuras 2 e 3, podemos observar concêntrica e ostreídeos (Exogyra) e de outros bivalves
que as lajes b (marga) se encontram muito mais desgastadas do que (braquiópodes).
as lajes a (calcário), indo tal observação de encontro à diferente Alguns fósseis apresentam marcas de bioerosão (perfurações
resistência oferecida por estes dois tipos de rochas. realizadas por outros organismos, nomeadamente esponjas Cliona).
Quanto à composição química e mineralógica do calcário Desta forma, podemos dizer que estas margas fossilíferas
(Figuras 2.a e 3.a), trata-se de uma rocha composta por carbonato de apresentam dois tipos de fósseis - somatofósseis e icnofósseis.
cálcio, tem grão muito fino e pode estar presente sob vários tipos, que Entende-se como somatofósseis os restos ou vestígios do corpo de
diferem na cor ou nos fósseis que apresentam. organismos (por exemplo conchas ou carapaças) que habitaram a
Terra no passado e resistiram ao passar dos tempos através dos
Sabendo que cada litologia encerra em si informações sobre processos de fossilização. Icnofósseis são marcas de actividade (por
o ambiente em que se formou, a marga e o calcário contam-nos exemplo galerias, pistas, pegadas) deixadas por organismos e que
histórias diferentes. ficaram preservadas no registo geológico.
Uma marga forma-se geralmente em ambientes aquáticos Nas lajes de liós que cobrem as campas dos monges
próximos do continente (de onde provém a componente argilosa que franciscanos podemos observar fósseis característicos deste tipo de
a constitui), de águas calmas (pois é formada por sedimentos finos). A rocha – os Rudistas. Estes são um grupo de lamelibrânquios extinto,
marga que podemos observar formando as lajes apresenta uma cor que viveram no tempo dos Dinossáurios. Eram frequentes em
cinzento escuro, o que nos indica que no seu ambiente de formação ambientes tropicais, pouco profundos., na região do Mar de Tétis
era de baixa energia (deposição de argilas – cor cinzenta) e havia (percursor da actual região mediterrânea) durante o Jurássico
pouco oxigénio, que levou à acumulação de matéria orgânica (cor Superior ao Cretácico (160 a 66 Ma).
negra) que não degradada na ausência deste gás.
Um calcário de origem marinha, como é o Liós, forma-se pela
precipitação de minúsculos grânulos de carbonato de cálcio (micrite),
a partir de águas quentes sobressaturadas. O ambiente de deposição
pode-se encontrar mais ou menos próximo da linha de costa, sem que
contudo seja afectado por sedimentos oriundos do continente.
Relativamente à componente fóssil observada nas lajes que
podemos observar (Figuras 2 e 3), obviamente ela reflecte os
organismos que viviam em cada um dos ambientes de formação das
litologias a eles associadas.

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Na Capela do Campo Santo podemos observar uma grande
Terceiro momento: Campo Santo (Capela) variedade de rochas, as quais conjugam para decorar quer as
paredes quer o chão deste local do Palácio (Calcário Negro de Mem
(...) há quem comece a ter saudades de ver partir aquela tão Martins, Liós (de várias tonalidades), «Calcário Fétido» de S. Pedro
formosa pedra, criada aqui nesta nossa terra de Pero Pinheiro, oxalá (ver Figuras 4 e 5), e ainda Calcário Amarelo de Negrais (este não
não se parta pelo caminho, para isso não valia a pena ter nascido (...) observável nas figuras 4 e 5).
(Saramago, 1984).

Figura 5. Pormenor da Capela do Campo Santo. a – Calcário Negro de Mem-


Martins. b - «Calcário Fétido» de S. Pedro.

A cor dos diferentes calcários é uma característica marcante


nas diferentes rochas observáreis nesta sala, dando-nos informações
relativamente ao ambiente de deposição dos sedimentos que lhes
deram origem. Assim, o calcário claro com Rudistas indica um
ambiente aquático, oxidante, de pequena profundidade e forte energia
hidrodinâmica. O calcário rosa com Rudistas continua a indicar um
ambiente aquático, oxidante, reflectindo a presença de óxidos de
ferro. Por sua vez o calcário negro de Mem Martins (o qual, pela sua
Figura 4. Capela do Campo Santo.
cor, poderia ser confundido com basalto – rocha vulcânica), indica um
Setas – vários tipos de lióses (calcários compactos com Rudistas).

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ambiente de mar profundo, não oxigenado, no qual a matéria orgânica
acabava por incorporar o próprio sedimento.

a
c
Figura 6. Calcário com Rudistas Caprinídeos. Figura 8. Associação de Rudistas (Cretácico superior, Oman.
a - secção de um fóssil destes paleorganismos; http://www.ruhr-uni-bochum.de/sediment/rudinet/images/
b – Fóssil tridimensional por Mineralização de um Caprinídeo;
c – Reconstituição de Caprinídeo. As figuras 6 e 7 mostram mineralizações de Rudistas. Estes
são um grupo extinto de lamelibrânquios marinhos, contemporâneos
dos dinossáurios. Eram organismos bentónicos (viviam sobre o
substrato, cimentados a este ou não). Possuíam uma concha da
parede espessa (viviam em ambientes marinhos de alta energia), de
b forma cónica e estrutura interna compacta (Radiolitídeos – Figura 7)
a2 ou de forma geralmente enrolada e estrutura interna alveolar
a1 (Caprinídeos – Figura 6). Os Rudistas eram organismos coloniais –
viviam em associações recifais bioedificadas (Figura 8), à semelhança
dos biohermes recifais construídos pelos actuais Corais.

c
Figura 7. Calcário com Rudistas Radiolitídeos.
a1 – secção transversal («rodela de ananás»); a2 - secção longitudinal;
b – Fósseis tridimensionais de Mineralizações de Radiolitídeos;
c – Reconstituição de Radiolitídeos em posição de vida.

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Quarto momento: Sala de Diana Quinto momento: Sala da Bênção
Nesta sala podem-se observar imitações das várias litologias Nesta sala (Figuras 10, 12 e 13) podem-se observar motivos
empregues na construção do Palácio/Convento, como Amarelo de geométricos realizados com vários tipos de rochas da região,
Negrais, Azul de Sintra, Liós (Figura 9) e Abancado (Figura 10). representantes de idades e contextos geológicos distintos (Quadro 1).

a
b
c

Figura 9. Pintura de fingimento representando várias litologias possíveis de


observar no Palácio/Convento de Mafra.
a - Amarelo de Negrais. b – Azul de Sintra (Calcário fétido). c – Liós.

É ainda possível observar a imitação de um tipo de rocha


(uma brecha de elementos angulosos) (Figura 10) não empregue na
construção do Palácio/Convento de Mafra, nem nos monumentos
construídos em Portugal, mas contudo frequente em algumas igrejas
no estrangeiro, por exemplo, em Espanha (Barcelona) e em Itália.

b
a
Figura 10. Sala da bênção.
Figura 10. Pintura de fingimento. a – Abancado. b – Brecha de elementos
esverdeados.

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«(...) e este chão que pisamos tem por cima barro encarnado,
por baixo areia branca, depois areia preta, depois pedra cascalha, Mesmo sem os poderes de Blimunda «Sete-Luas», o geólogo
pedra granita no mais fundo, e nela há um grande buraco cheio de consegue interpretar a sequência de deposição dos vários níveis de
água com o esqueleto de um peixe maior que o meu tamanho (...)» rochas, dita estratigráfica ou temporal (Figura 11). Através da
(Saramago, 1984). estratigrafia foi possível inferir que no Jurássico Superior ao início do
Cretácico, nesta região, o ambiente passou progressivamente de
estuarino de transição para marinho recifal.
Todas as litologias utilizadas na construção do
Palácio/Convento de Mafra (à excepção do «calcário fétido» de S.
Pedro, são exemplos de rochas sedimentares. O calcário de S. Pedro
é um mármore (rocha metamórfica). Esta rocha originou-se devido à
acção de elevadas temperaturas das rochas magmáticas sobre o
calcário encaixante quando se instalou o Maciço Eruptivo de Sintra.
Desta forma, as rochas existentes na região de Sintra-Mafra
reflectem duas fases importantes e distintas da História Geológica da
região. Por um lado, testemunham vários episódios sedimentares em
que se formaram espessos depósitos calcários, muitas vezes
intercalados com níveis margosos ou até areníticos (Jurássico –
Cretácico, entre 160 a 90 Ma atrás). Por outro lado, são evidências
dos fenómenos magmáticos e vulcânicos que se deram na região por
volta dos 100 e 70-80 Ma e que levaram à formação de Filões
basálticos ainda hoje observáveis na região de Mafra, e à instalação
do Maciço Eruptivo de Sintra, que se encaixou entre formações do
Jurássico Superior.

Figura 11. Coluna estratigráfica da região de Sintra – Mafra.

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Varanda
a
(...) Era preciso ir a Pero Pinheiro buscar uma pedra muito
b grande que lá estava, destinada à varanda que ficará sobre o pórtico
da Igreja, tão excessiva a tal pedra que foram calculadas em
duzentas as juntas de bois necessárias para trazê-la (...) seiscentos
os homens (...). Era uma laje rectangular enorme, uma brutidão de
mármore rugoso (...). É a mãe da pedra (...) depois de lavrada e
c polida, ficará com sete metros, sessenta e quatro centímetros (...)
trinta e uma toneladas que é o peso da pedra da varanda da casa que
se chamará Benedictione (...). Entre Pero Pinheiro e Mafra (descendo
d e subindo o Vale de Cheleiros) gastaram oito dias completos.
(Saramago, 1984).
Pode observar-se uma laje de grandes dimensões de Liós
com Rudistas (Caprinídeos) com marcas de corrosão química
Figura 12. Sala da Bênção - pormenor do chão. a – Amarelo de Negrais. b – (carsificação) pela água das chuvas levemente acidulada pela
Liós abancado. c – Azul de Sintra. d – Calcário de Mem Martins. dissolução de dióxido de carbono atmosférico incrementado pelos
efeitos de poluição automobilística.

Figura 13. Sala da Bênção – pormenor do tecto. a– Liós. b – Azul de


Sintra. c – Liós Abancado.

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As dendrites são estruturas que, durante muito tempo, foram
consideradas fósseis de vegetais, nomeadamente no Sistema de
Classificação Aristotélico. No entanto, sabe-se hoje que as dentrites
Sexto momento: Biblioteca são acumulações de óxidos de manganés, de cor negra, em
Da biblioteca do Palácio (Figura 14) constam perto de 38 000 pequenas fissuras de rochas, que ocorrem quando estas são
volumes, divididos por temas. A biblioteca faz uma cruz: a norte o percoladas por fluidos ricos nestas substâncias. Assim, apesar de
saber religioso, a sul o saber «profano», científico, posicionando-se o aparecerem associadas a fósseis de vegetais, são na realidade
saber clássico no braço do cruzeiro. pseudofósseis (estrutura produzida por processos físico-químicos e
com uma morfologia que aparenta ter origem orgânica).

Figura 15. Página de um dos livros da biblioteca do Palácio de Mafra.


Ilustração de dendrites (a), na altura consideradas e ilustradas como outros fósseis
de vegetais tais como pínulas de fetos fósseis (b).

Figura 14. Biblioteca do Palácio e Convento de Mafra.


Tal como as páginas de um livro, a sequência de camadas
De entre os volumes dedicados ao saber «profano» científico, permite ao geólogo ler a história geológica de uma região.
podem ser observadas figuras de uma imensidade de organismos. Na A figura 16 pretende representar um diagrama sintético dos
figura 15.1. podemos observar a representação de um exemplar de paleoambientes existentes na área do actual território português no
dendrite. topo do andar Cenomaniano (91 – 92 Ma), altura em que se verificou
um máximo transgressivo e em que os Rudistas foram
particularmente abundantes.

21 22
Geohistória da Região de Sintra - Mafra
Do ponto de vista litológico a Serra de Sintra e encaixante
apresentam elevada geodiversidade. As figuras 20, 21 e 22
pretendem esquematizar as ocorrências geológicas que levaram à
existência da variedade litológica possível de observar na referida
região.

Calcários com rudistas (“liós”)

Calcários margosos e argilitos (“Belasiano”)

~2 500 m
Arenitos (“Grés de Almargem”)

Margas e calcários recifais

Calcários de S. Pedro, Mem Martins, Farta Pão

Figura 20. 1º fase - Sedimentogénese.

A envolvente de rochas sedimentares (figura 20) na sua


maioria carbonatadas (calcários e margas) e fossilíferas, apresenta
igualmente arenitos e conglomerados, numa sequência que remonta
ao Jurássico Superior, desde os calcários de S. Pedro (datados do
Oxfordiano Superior, com cerca de 150 milhões de anos), até aos
terraços de praia Plio-Plistocénicos, passando pelo liós de rudistas do
Cretácico Superior (Cenomaniano Superior, com cerca de 95 milhões
Figura 16. Representação sintética dos paleoambientes marinhos e costeiros no de anos), explorado nas pedreiras de Pero Pinheiro, e pela sequência
Cretácico Superior (Cenomaniano: 90 – 92 Ma). vulcano-sedimentar, alcalino e intra-placa, de Lisboa-Mafra (com
cerca de 72 milhões de anos) (Palácios, 1986).

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Sinclinal da Praia do Guincho-Alcabideche

Intrusão filoneana
Intrusão gabro-sienítica
Auréola de metamorfismo de contacto:
Intrusão granítica “Xistos do Ramalhão”
Mármores (“calcário fétido”) e
corneanas calcosilicatadas

Figura 21. 2ª fase - Instalação do diapiro magmático e


deformação do encaixante.

Etapas evolutivas:

1. Deformação em doma por intrusão granítica e instalação de filões. Figura 22. 3ª fase – Gliptogénese e deformação alpina.

2. Metamorfismo de contacto («Xistos do Ramalhão» e «Calcários de S. Pedro».

3. Intrusão gabro-sienítica e instalação de filões. Etapas evolutivas

4. Regressão generalizada e emersão do esporão da Estremadura. 1. Exumação por erosão do doma e afloramento do anel granítico e núcleo
gabro-sienítico;

2. Cavalgamento .da Serra de Sintra para norte, com compressão alpina


(bética), contemporânea das deformações da Serra da Arrábida.

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As rochas jurássicas e cretácicas estão deformadas pela
intrusão do diapiro magmático de Sintra (ver figura 21), apresentando-
se dobradas num largo doma alongado, segundo a direcção Este- Referências bibliográficas
Oeste, e assimétrico (com cavalgamento para norte), em grande parte
exumado em forma de inselberg por erosão subsequente (ver figura
22). Rodeando-o existe um sinclinal anelar que separa um domínio
externo, de rochas com inclinação mais ligeira, interceptadas por Alves, M. (1964) – Estudo petrológico do Maciço de Sintra. Rev. Fac.
filões esporádicos e com fósseis menos recristalizados, de um Ciências Lisboa, 2ª Sér., C, 12 (2): 123 - 289.
domínio mais interno, com rochas de inclinações mais acentuadas,
que rapidamente verticalizam próximo do contacto com a Serra. Kulberg, M.C. & Kullberg, J.C. (2000) – Tectónica da Região de
Profusamente recortadas por filões subverticais radiais e cónicos Sintra. In Tectónica das regiões de Sintra e Arrábida. Mem.
concêntricos e com recristalização total de fósseis, as rochas do Geociências, Museu Nac. Hist. Natural Univ. Lisboa, vol. 2: 1 –
domínio interno apresentam sinais de alteração cada vez mais 34.
intensa, primeiro por metamorfismo silicioso (o «xisto do Ramalhão»,
culminando em metamorfismo de contacto, com corneanas calco- Leal, N. (1991) – Caracterização geoquímica do Maciço Eruptivo de
silicatadas e mármores cinzento-azulados («calcário fétido») (ver Sintra. Conjecturas de origem petrogenética baseadas em dados
figura 22). geoquímicos. Geociências, Rev. Univ. Aveiro, 6 (1-2): 33 - 40.

No domínio da Serra de Sintra propriamente dita, as rochas Palácios, T. (1986) – Petrologia do complexo vulcânico de Lisboa.
magmáticas intrusivas predominam, variando de gabros a granitos. Tese de Doutoramento, Univ. Lisboa: 260 pp. Inédito.
Datada de há 92 (+/- 2) milhões de anos, a sua análise geoquímica,
petrográfica e tectónica mostra que a uma extensa intrusão granítica Ricos Olhos, F. e Alves, G. (2000) – Paleomemorial do Convento. O
inicial, durante a qual houve fusão parcial da crusta continental, se Património Geológico e Paleontológico do Palácio de Mafra.
sucedeu no seu interior uma segunda intrusão, de origem mantélica, Estágio Pedagógico, FCUL: 28 pp. Inédito.
gabro-sienítica (Leal, 1991) (ver figura 21) associada à instalação de
brechas eruptivas, intensamente tectonizadas (Kulberg, 2000) e Saramago. (1984) – Memorial do Convento, Caminho: 359 p.
metamorfizadas (Alves, 1964).

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Nome Litologia Fósseis Ambiente Proveniência Datação Formação
Liós Calcário Rudistas Lameiras,
esbranquiçado e Caprinídeos Sintra
creme
Liós de Calcário branco, Rudistas Montemor,
Montemor rosado, Radiolitídeos Loures
bioclástico
Liós Azulino Calcário Rudistas Maceira, Sintra
cinzento Recifal, de Cretácico Formação de
Caprinídeos
azulado águas quentes Superior Alcântara
St. Florient Calcário rosado, Rudistas pouco Lameiras, (-90 Ma)
Rose bioclástico Caprinídeos profundas Sintra
Almiscado Calcário Rudistas Pêro Pinheiro
subcristalino, Radiolitídeos
avermelhado
Encarnadão Calcário Rudistas Fervença,
subcristalino, Caprinídeos Lameiras,
avermelhado Sintra
Abancado Calcário Rudistas Fervença,
rosado, com Radiolitídeos Lameiras,
estilólitos Sintra

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Moluscos De transição,
lamelibrânquios provavelmente
Marga Marga negra e Ostreídeos de estuário, Mafra Cretácico Formação de
fossilífera (Exogyra) e pouco Superior Alcabideche
Braquiópodes, oxigenado (-95 Ma)
marcas de
bioerosão

Bioturbação
Amarelo de Calcário (galerias de Marinho de Negrais, Sintra Cretácico Formação de
Negrais margoso, artrópodes) transição Superior Alcabideche
limonítico Gastrópodes do (-95 Ma)
género Nerinaea
Negro de Calcário negro Marinho Mem Martins, Jurássico «Calcários de
Mem Martins (com pirite) -------------------- relativamente Sintra Superior Mem-Martins»
profundo (-150 Ma)
Azul de Sintra Corneana Raras Amonites S. Pedro, Jurássico Calcários de S.
(«Calcário Sintra Superior Pedro
fétido») (-160 Ma)

Quadro 1. Rochas existentes na região e que foram utilizadas na construção do


Palácio e Convento de Mafra (Ricos Olhos & Alves, 2000).

30
NOTAS:

31
NOTAS:

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