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SÉRIE

�CíPI�

__ala, de Castro Gomes


MariaCelina
D'Araújo
Direção
Benjamin Abdala Junior

Sarnira Youssef Campedelli
Preparação de texto
tlvany Picasso Batista
Edição de arte (miolo)
MIiton Takeda

Divina Rocha Corte
Composição/paginação em vídeo
Marco Antonio Fernandes
Rosa Hatsue Abe
Capa
Ary Normanha

Antonio JJbirajara Domiencio

.lf·

ISBN 85 08 03450 4

1989
Todos os direitos reservados
Editora Ática S.A. - Rua Barão de lguape, 110
Tel.: (PABX) 278-9322 - c-uxa Postal 8656
End. Telegráfico "Bomllwo" - São Paulo
Sumário

1. Introdução 5
2. Ascensão do getulismo 6
O getulismo e os partidos políticos 8
3. A criação do PTB 11
O Ministério da Justiça e a democratização 12
A discussão dos partidos 15
4. Trabalhismo e queremismo 17
O queremismo e a sucessão 18
As candidaturas e os partidos 21
As metamorfoses do queremismo 23
Os vários "queremos" 24
5. O PTB e as eleições de 1945 27
Os partidos depois do golpe 28
O acordo PSD-PTB 29
O PTB e a candidatura Outra 30
"Ele disse" 32
6. O PTB, de 1945 até a volta de Vargas 36
O PTB e os sindicatos 36
O conflito de lideranças no PTB 39
7. O PTB e o Ministério do Trabalho 43
O dutrismo no Ministério do Trabalho 44
A repressão sindical em marcha 46

8. O PTB e a propaganda do trabalhismo 48


O esforço doutrinário 50
9. O "queremos" volta às ruas 52
A candidatura de Vargas em 1950 53
10. O trabalhismo volta ao poder? 57
O PTB e o gabinete ministerial 58
Goulart no Ministério do Trabalho 60
Jango e os trabalhadores 63
Vargas e a crítica interação com o PTB 65
11. O trabalhismo sem Vargas 68

12. Vocabulário crítico 72


13. Bibliografia comentada 83
Introdução

No período que vai de 1945 a 1964 três grandes partidos


marcam a cena da política brasileira: o Partido Social Demo­
crático (PSD); a União Democrática Nacional (UDN) e o Par­
tido Trabalhista Brasileiro (PTB). Convivendo com outras or­
ganizações partidárias de menor porte e de importância eleito­
ral mais regionalizada, não há dúvida de que PSD, UDN e
PTB foram as organizações que dominaram o sistema partidá­
rio do país. Sobre os dois primeiros já existem alguns excelen­
tes trabalhos publicados, o que não acontece em relação ao PTB.
Este texto pretende ser uma incursão inicial sobre te­
ma ainda tão desconhecido e, para tanto, delimita claramen­
te dois eixos de análise. De um lado, estuda o PTB em
um momento histórico preciso que vai de suas origens em
1945 até o suicídio de Vargas em 1954. De outro,. elege co­
mo seu foco um dos temas básicos do partido, isto é, as re-
lações do trabalhismo com o getulismo neste período. Es­
ta abordagem enfatiza uma questão marcante para o desen­
volvimento deste partido: a importância da figura e do ca­
risma de Getúlio Vargas para a configuração ideológica e
organizativa do PTB. Fica claro que outros pontos igual­
mente relevantes não serão incluídos aqui, como por exem­
plo a atuação parlamentar do partido e sua doutrina conce­
bida por vários ideólogos do trabalhismo.
Ascensão do getulismo

Liderando o movimento revolucionário de 1930 Vargas


ascende ao poder, para nele permanecer por 15 anos conse­
cutivos. No decorrer desse período foi chefe do Governo
Provisório (1930-1934); presidente constitucional eleito por
via indireta (1934-1937) e ainda ditador de uma ordem auto­
ritária conhecida como Estado Novo (1937-1945). Após
um interregno de quatro anos retornará ao poder em janei­
ro de 1951, através do voto popular direto, para nele perma­
necer até agosto de 1954, quando, a exemplo de 1945, rece­
be o veto militar e opta então pelo suicídio.
Desde o início de sua carreira Vargas se mostrou um lí­
der inconteste e hábil. Sua imagem popular, entretanto, se­
rá firmada gradativamente, só vindo a se consolidar em de­
finitivo a partir do Estado Novo. Ou seja, o poder não foi
decorrência de sua popularidade e carisma, mas, ao contrá­
rio, é no exercício do poder que esses atributos são construí­
dos através de uma eficiente campanha política e ideológica.
A ascensão de Vargas ao poder em 1930 será acompa­
nhada pela preocupação em definir um novo pacto políti­
co, que sanasse as mazelas da República Velha. Inovar poli­
ticamente era o grande desafio para a facção vitoriosa dos
7

revolucionários. Para tanto era necessário a busca de apoios


diversificados que incluíam forças militares, setores da bur­
guesia e também antigas oligarquias regionais. As dificulda­
des para tais composições marcarão exatamente o clima
de tensão política que o país enfrentará no pós-30, particu­
larmente até 1937, período no qual se detecta perfeitamen­
te o acirrado embate entre correntes centralizadoras e auto­
ritárias e outras proponentes de uma redefinição do federa­
lismo e da liberal-democracia, sem que isso implicasse a ne­
gação desses princípios.
Com o golpe de 1937 que instaura o Estado Novo con­
sagra-se a proposta autoritária e eliminam-se politicamen­
te os defensores remanescentes do liberalismo - a exemplo
do que já se fizera com os comunistas, que desde 1935 fo­
ram submetidos aos rigores da Lei de Segurança Nacional
e do Tribunal de Segurança Nacional. Marginaliza-se e per­
segue-se também a extrema direita organizada na Ação Inte­
gralista Brasileira que, apesar de apoiar ideologicamente a
nova ordem, constituía uma organização autônoma e disci­
plinada que poderia transformar-se em força política parale­
la com forte poder desestabilizador. Com o Estado Novo
estará também firmada uma sólida aliança de Vargas com
a corporação militar e estabelecido o compromisso por par­
te do governo de promover o desenvolvimento econômico
do país, o que lhe garantirá o crescente apoio de setores
da burguesia.
A estabilidade do Estado Novo estava fundamentada
nesses compromissos e, principalmente, no uso intensivo
da força repressiva e da propaganda ideológica. Mas seu su­
cesso dependeria também de uma ampla base de legitima­
ção que foi buscada eficientemente junto à classe trabalha­
dora. O grande trunfo de Vargas foi a insistente defesa de
que o Estado Novo representava o momento ótimo para a
implementação no país de uma democracia social, para a
valorização do trabalho e para o reencontro do Estado com
a nação, através da liderança pessoal do presidente.
1

A pregação estado-novista fundará, como sua ideolo­


gia, o trabalhismo e criará um movimento de opinião públi­
ca favorável, até mítico, à figura de Getúlio Vargas: o getu­
lismo. Trabalhismo e getulismo são termos que se comple­
mentam durante a ditadura, à medida que a defesa e as con­
quistas do trabalho são diretamente associadas à imagem
do chefe do governo.

O getulismo e os partidos políticos

Findo o Estado Novo e restabelecidas várias prerroga­


tivas democráticas, o getulismo será, sem dúvida, um mar­
co divisor na política brasileira. Vargas havia se converti­
do de fato na liderança mais expressiva da política nacio­
nal, não obstante a oposição que se acentuava contra a sua
permanência no poder. O processo de redemocratização
de 1945 será expressivo de sua influência. Basta lembrar
que o sistema partidário surgido nessa época foi concebi­
do dentro do limitado circuito dos arredores do presidente.
Se tomarmos os três principais partidos então criados -
UDN, PSD e PTB -, fica claro que uma de suas diferen­
ças mais marcantes se referia ao julgamento que faziam a
respeito da influência do getulismo na política nacional.
Resguardando-se as divergências internas, a UDN represen­
taria a oposição mais cabal à corrente que trazia em si o ví­
cio de origem do ditatorialismo - a negação de uma ordem
democrática, liberal e pluralista. O PSD e o PTB se caracte­
rizariam como agremiações de cunho getulista. Seus adep­
tos viam Vargas sob uma dupla ótica. Quer como o gran­
de estadista e moderno administrador, que soube apreender
as reais necessidades do país, quer como o ''pai dos po­
bres'' e criador da legislação social. Posto isto, é importan­
te salientar que o personalismo político oriundo da figura
de Vargas foi fundamental na configuração da nova ordem
democrática.
9

Enquanto o PSD reunia interventores estaduais que


controlavam importantes aparatos administrativos e cliente­
lísticos, o PTB tinha uma proposta mais diretamente dirigi­
da às classes trabalhadoras. O primeiro, de cunho eminente­
mente conservador, teria por missão precípua garantir uma
transição política controlada, que evitasse mudanças abrup­
tas nos rumos políticos do país; o segundo estava encarrega­
do de veicular a proposta trabalhista de Vargas em termos
partidários. Ambos traziam a marca da herança getulista,
e isto os contrapunha à UDN.
Não obstante estas transformações ao fim do Estado
Novo, é importante registrar que a tradição política nacio­
nal de pouca legitimação do sistema partidário não é subs­
tancialmente alterada. Vargas será nesse processo o exem­
plo maior de apartidarismo e de um estilo político que con­
tinuava privilegiando uma relação sem mediações entre lí­
der e massas. Embora tivesse envidado esforços para o for­
talecimento do PTB e do PSD, o que se pode perceber é
que acaba apelando com muito mais ênfase para seu pró­
prio carisma pessoal. Esse estilo de lidar com a política,
praticado por Vargas, ficará profundamente assentado, fa­
rá escola e se transformará no que veio a ser uma das prin­
cipais características do populismo brasileiro.
Se o getulismo tem a marca indelével da personalização,
o trabalhismo acabou por ganhar novas lideranças e, por ve­
zes, perfis mais independentes em relação ao seu marco de
origem. Sem se apresentar como um corpo doutrinário sufi­
cientemente estruturado, o trabalhismo foi sendo apropria­
do de diversas formas e influenciou a criação de vários parti­
dos, como, por exemplo, o Partido Social Trabalhista (PST);
o Partido Trabalhista Nacional (PTN); o Partido Republica­
no Trabalhista (PRT); o Partido Orientador Trabalhista
(POT); o Movimento Trabalhista Renovador (MTR), além
do PTB, sem dúvida o mais significativo de todos eles.
Há que se reconhecer que as dificuldades para a estru­
turação do PTB foram gran·des, principalmente porque ele
10

representava a agremiação que, em princípio, deveria her­


dar o carisma do ex-presidente, o que estimulava interminá­
veis disputas internas. Por todas essas razões o PTB, até o
fim da década de 1950, não obstante seu crescimento eleito­
ral, não conseguia se transformar numa organização parti­
dária forte, proporcionalmente ao prestígio de seu chefe.
Esse fato, por sua vez, dava a Vargas um grande espaço
de manobra, que, se foi por ele habilmente explorado, tam­
bém lhe trouxe o incômodo de não proporcionar uma for­
ça suficientemente institucionalizada para garantir o apoio
necessário ao seu segundo governo ( 1951-1954).
A criação do PTB

Em 31 de dezembro de 1944, no tradicional banquete


de passagem de ano oferecido pelas Forças Armadas, Getú­
lio anunciava oficialmente à nação a breve execução da re­
forma constitucional, necessária para a igualmente breve
realização das eleições que reconduziram o país à normali­
dade democrática.
Sua decisão, tomada nos meses finais deste ano, reve­
la os novos problemas que passariam a ser enfrentados a
partir daquele momento. A indicação básica de que a polí­
tica nacional iria realmente sofrer transformações é dada
pelo convite dirigido a Agamenon Magalhães - então in­
terventor em Pernambuco - para ocupar a pasta da Justi­
ça. Esta escolha deve ser bem entendida, assim como o mo­
mento em que foi feita. Agamenon era um político com ine­
gável experiência e prestígio. Era um interventor de indiscu­
tível liderança nos meios civis que dispunha, também, de
fortes contatos nos meios militares. Conhecia e mantinha
relações amistosas com o já conhecido candidato da oposi­
ção à sucessão de Vargas, o brigadeiro Eduardo Gomes.
Agamenon fora dos primeiros a perceber que Getúlio
não tinha outra solução, senão caminhar para a democra-
12

eia, e o convite para que ocupasse a pasta da Justiça foi­


lhe dirigido ainda em fins de 1944. Contudo, Agamenon
só assumiria o cargo em 1 � de março de 1945, imediatamen­
te após a promulgação da Lei Constitucional n � 9 (28/2/1945),
que fixava o prazo de noventa dias para que fossem marca­
das as eleições e determinava a elaboração de uma lei eleitoral.

O Ministério da Justiça e a democratização

Até inícios de 1945 o processo político fora conduzi­


do por Alexandre Marcondes Filho, ministro do Trabalho,
Indústria e Comércio que acumulava a pasta da Justiça e
postulava posições diferentes das de Agamenon Magalhães.
Marcondes entendia que a mudança do regime deveria ter
início com as eleições presidenciais e que a Carta de 1937
- devidamente reformada - poderia ser submetida a um
plebiscito, não havendo necessidade de se cogitar sobre
uma Assembléia Nacional Constituinte. Sustentava ainda
o alistamento ex-officio e naturalmente a possível candida­
tura de Vargas. (0 alistamento ex-officio era um procedi­
mento que possibilitava a inscrição eleitoral em bloco de
pessoas que pertencessem a organizações, como sindicatos,
institutos previdenciários e outras associações. Esse tipo
de alistamento tornaria mais ágil o processo eleitoral e au­
mentaria incrivelmente o contingente de eleitores. Foi usa­
do nas eleições de 1945 e em seguida revogado.)
Agamenon, por sua vez, propunha que o processo ti­
vesse início com a convocação de uma Constituinte que,
estabelecendo um regime constitucional, possibilitasse a
convocação de eleições. O esquema sugerido era semelhan­
te ao de 1934, não prevendo qualquer procedimento que
consagrasse a inelegibilidade de Vargas. Nesse sentido, o
choque entre Marcondes e Agamenon não se devia a uma
posição pró ou contra a candidatura Vargas. Paralelamen­
te à discussão sobre a hipótese desta candidatura, coloca-
13

va-se o prob_lema da legislação eleitoral. Era ponto pacífi­


co que esta seria uma atribuição de Vargas e que sua con­
dução era absolutamente decisiva para o resultado das ur­
nas. A elaboração do novo código eleitoral acaba ficando
a cargo de Agamenon, que, assumindo o ministério no dia
1 � de março, já no dia 9 instala uma comissão com este
objetivo.
Quando esta se reuniu pela primeira vez, Agamenon
transmitiu-lhe uma orientação básica conformada em cin­
co pontos, entre os quais estava a adoção do alistamento
sim.pies e ex-officio. Os demais eram: o voto secreto; justi­
ça eleitoral autônoma; apuração rápida e imediata e parti­
dos nacionais. Este último ponto é particularmente signifi­
cativo, porque indica que, quando Agamenon assume o mi­
nistério, a discussão sobre a nova estrutura partidária havia
chegado a termos definidos. Dada a tradição regionalista
da política brasileira, as decisões sobre a questão partidária
certamente tinham que passar pelo exame da necessidade
de se constituírem partidos nacionais. Neste aspecto, ape­
nas Fernando Costa, interventor paulista, e Benedito Vala­
dares, interventor mineiro, defenderam a idéia dos partidos
regionais. Porém, não era esta a única dificuldade existen­
te para a montagem · de novos instrumentos partidários.
Certamente hav�a que se decidir sobre o ''tipo'' de partido
''situacionista'' que iria ser formado, ou seja, em que ba­
ses se estruturaria sua força.
Embora seja difícil acompanhar o curso dos aconteci­
mentos, fica claro que, quando Agamenon assumiu o co­
mando da política de redemocratização, estava decidido
não só que os partidos seriam nacionais, como também que
ele - aliado especialmente aos interventores dos Estados
do Rio, Minas, São Paulo e Paraná - partiria para a mon­
tagem de um partido de inter-ventores. Assim, a natureza
do futuro PSD estava dada desde os primeiros meses de
1945. É possível situar também que, pelo menos desde mar­
ço, estava decidido que este partido apoiaria o nome do mi-
14

nistro da Guerra, general Eurico Gaspar Outra, como can­


didato à presidência da República.
O mês de abril é bem indicativo do avanço das articu­
lações eleitorais. Outra falara pela primeira vez como can­
didato no dia 3, e no dia 5 era organizada a comissão que
elaboraria o programa do PSD. Estes preparativos ocorrem
simultaneamente ao lançamento oficial da UDN (7/5/1945).
Portanto, o quadro partidário e sua vinculação com as
duas candidaturas estavam delineados.
O que não fica imediatamente explicitado é a solução
encontrada para a mobilização partidária das chamadas clas­
ses trabalhadoras, claramente identificadas como bases fun­
damentais do Estado Novo. A rigor, pode-se verificar que
o desejo inicial do regime era reunir em um único e gran­
de partido todas as forças políticas ''do'' presidente. Mas
torna-se difícil sustentar que este desejo fosse naquele mo­
mento uma real possibilidade. Um dos indicadores desta si­
tuação é a ausência de Marcondes Filho de todo o conjun­
to de reuniões que formulou o PSD. É preciso não esque­
cer que uma série de reflexões e propostas haviam sido de­
senvolvidas ao longo dos anos de 1942-44, apontando to­
das para as dificuldades concretas de articular, em um mes­
mo partido, como se pretendia, as tradicionais elites do
país e as novas lideranças sindicais.
Certamente Getúlio e os demais "planejadores" do pro­
cesso de transição não optariam por uma solução partidária
que preterisse, ou minimizasse, as tão cuidadosamente acalen­
tadas bases sindicais. O investimento que Vargas realizara,
ao longo dos anos da administração Marcondes Filho, na for­
mação de uma ampla base política no seio das massas traba­
lhadoras, quer via campanha de sindicalização, quer via esfor­
ço doutrinário, é evidência mais que suficiente para a conclu­
são do quanto se apostava neste ftlão político. É certo que
tal fato não implicava diretamente a criação de um partido
"trabalhista", mas a atuação de Marcondes apontava para a
articulação de um grande partido de massas com bases sindicais.
15

A discussão dos partidos

O exame desse momento de transição permite duas im­


portantes conclusões. Primeiramente, o desenho final dos
trabalhos situacionistas foi feito sob a evidente pressão das
oposições, articuladas em torno da candidatura do brigadei­
ro Eduardo Gomes. Em segundo lugar, só em inícios de
1945 fica estabelecido que as forças ligadas a Vargas se mo­
bilizariam em duas (PSD e PTB) e não apenas em uma or­
ganização partidária. Mais complexo é precisar o tipo de en­
caminhamento que esta questão recebeu.
Em relação ao PSD o problema é mais simples. Os in­
terventores estaduais, representando o que de mais significa­
tivo existia em termos de novas elites políticas, reúnem-se
para implementar o seu partido. Com isso, estavam vetan­
do definitivamente a idéia de um grande partido de massas
do qual fizessem parte. Estabeleciam, também, a criação
de um partido nacional da cúpula governamental estado-no­
vista gerido em termos de colegiado e com bases políticas
nitidamente regionais. Aliás, é bem provável que esta com­
binatória é que tenha superado a questão do partido nacio­
nal/regional. A definição do formato do PSD praticamen­
te estabelecia os contornos do outro partido ''situacionis­
ta' '. Ele deveria reunir as novas lideranças sindicais, que,
por sua vez, também vinham resistindo ao projeto de uma
só organização partidária. O PTB, nesse sentido, ''nasce''
ao mesmo tempo que o PSD, já que ambos resultam da frus­
tração do projeto de ' 'partido único de massas'', que vinha
sendo acalentado no seio do Estado Novo. Esta interpreta­
ção, vale registrar, difere substancialmente do que vem sen­
do dito na literatura sobre o assunto. A criação desses dois
partidos políticos não resulta de um cálculo maquiavélico.
que buscava distinguir bases diferenciadas de apoio políti­
co. Ao contrário, o PSD e o PTB emergem como a solução
pragmática possível num contexto em que as presenças de
um significativo partido de oposição (UI?N) e de uma for-
16

te esquerda organizada (PC) forçavam a tomada imediata


de decisões políticas. Pode-se descartar, portanto, com segu-
rança, a versão corrente de que a concepção do PT B tenha
sido uma ' 'invenção de última hora''. Não foi concebido
exclusivamente para funcionar como um contrapeso à for­
ça crescente - e surpreendente - do Partido Comunista,
nem foi imaginado a posteriori como alternativa popular fa­
ce ao elitismo do PSD.
Certamente o PT B foi imaginado como a melhor opção
partidária para o trabalhador brasileiro. Nesse sentido era
uma cunha entre as massas trabalhadoras e o comunismo,
mas não um partido cujo móvel e sentido fosse o anticomu­
nismo. Esta afirmação, contudo, não implica minimizar a
importância real do Partido Comunista na conjuntura de
1945-46. Basta lembrar que Luís Carlos Prestes era a úni­
ca personalidade política que podia rivalizar com Vargas
em carisma e projeção nacional. Além do mais, o sucesso
eleitoral do PC nesse período, principalmente nas grandes
capitais, explicita bastante que o comunismo era de longe
muito mais do que um argumento de retórica política.
O PT B não deve ser entendido como mera força reati­
va do comunismo. Por isso, pode habilmente realizar am­
plas alianças políticas. De um lado, conseguia o apoio de
setores conservadores, alertando para o perigo comunista,
e, de outro, podia se aproximar do PC, utilizando a força
de seu apelo popular. Seu destino deveria ser o de um gran­
de partido de massas brasileiro. Sua ambivalência dentro
do espectro de posições políticas possíveis não era um sinal
de indefinição. Ao contrário, ela indicava justamente o ti­
po de opção que estava sendo oferecida.
Trabalhismo e queremismo

As primeiras notícias de formação de uma Comissão


Executiva Nacional para dar organização ao PTB datam
de maio de 1945, portanto cerca de um mês após o anúncio
oficial da criação da UDN e do PSD. Essa comissão era
composta por Luís Augusto França, Manuel Fonseca, Pau­
lo Baeta Neves, Calixto Ribeiro Duarte, Antônio Francis­
co Carvalhal e Romeu José Fiori, entre outros. Vale obser­
var que tanto a UDN quanto o PTB se organizam a partir
de uma comissão nacional; e o PSD foi sendo fundado
em cada Estado para em seguida realizar uma convenção
nacional. O provável modelo inspirador do PTB foi o Par­
tido lrabalhista Inglês, e suas bases foram efetivamente
montadas a partir da estrutura do Ministério do lrabalho,
ou seja, com a utilização das lideranças sindicais e dos orga­
nismos previdenciários.
O PTB nascia sob chancela governamental, mas é inte­
ressante observar o tipo de encargo que acabou por assu­
mir e, a partir daí, o tipo de relação que se construiria en­
tre o PTB e Vargas. Ela é nitidamente distinta daquela do
PSD, part ido que se articula claramente tendo como laço
de união não só o nom_e do candidaio oficial - Outra -
18

como também o nome de inúmeras lideranças experimenta­


das do Estado Novo. O PTB era um partido sem grandes
nomes e aparentemente sem candidato.
Na verdade, se Outra era o candidato do governo, ele
deveria ter todo o apoio da máquina político-administrati­
va. Nesse sentido; o próprio Marcondes, em uma de suas
falas pela Hora do Brasil, fez o elogio do candidato e das
qualidades de seu programa social. Contudo, ficava claro
que Outra não era o candidato do Ministério do nabalho
e que este permanecia voltado para o lançamento do no­
me de Getúlio Vargas às eleições. Qual seria então o proje­
to do PTB/Ministério do Trabalho, dentro desse novo con­
texto de meados de 1945? Recorrendo ao depoimento de
Segadas Viana, então diretor do Departamento Nacional
do Trabalho, a indicação é de que os trabalhistas defen­
diam a instalação de uma Assembléia Nacional Constituin­
te, ainda com Getúlio no poder, para, �m seguida, serem
realizadas eleições diretas em que Vargas poderia ser candi­
dato. Desta forma, as candidaturas militares não precisa­
riam ser retiradas; elas seriam neutralizadas pelo nome do
presidente. Esta possibilidade apostava com segurança no
prestígio de Vargas e diagnosticava que nem Outra nem o
brigadeiro estavam conseguindo ou iriam conseguir real po­
pularidade. 1

O queremismo e a sucessão

''Queremos Getúlio' ' e ''Constituinte com Getúlio''


são propostas que remetem às relações dos trabalhistas com
o chamado movimento queremista, que atua, de forma
mais articulada, a panir de meados de 1945. Estas relações
são claras, embora até certo ponto evitadas. Não se trata

1 José de Segadas Viana (depoimento). FGV/CPDOC, História Oral. p. 306.


19

aqui de discutir se o PTB se organizou sob a pressão dos


queremistas, como querem alguns, ou se na verdade o PTB
foi o ponto de partida do movimento queremista. O que im­
porta ressaltar é que o trabalhismo, como uma ideologia po­
lítica centrada na figura de Vargas, em sua obra social e
no tipo de relação - direta e emocional - que ele propõe
manter com a massa trabalhadora, vinha sendo construído
dentro do Ministério do Trabalho desde 1942. Assim, sem
o suporte ideológico do trabalhismo, o queremismo teria si­
do praticamente impossível.
Trabalhismo e queremismo bebiam da mesma fonte.
Eram, basicamente, a mesma ''idéia" . Mas é certo que,
do ponto de vista organizacional, o PTB e o queremismo
não eram a mesma coisa. O PTB, como partido que procu­
rava seu registro junto à Justiça Eleitoral, estava definido
pelas regras do jogo político. Devia formalmente ater-se a
elas, e a candidatura de Getúlio não era tão simples de ser
lançada. Uma vinculação aberta entre o partido e Vargas,
em termos eleitorais , comprometeria o ministro e o Minis­
tério do Trabalho ; comprometeria o próprio partido e, so­
bretudo, todo o processo de transição. Já o queremismo
era um movimento social que tanto podia correr à margem
das regras do jogo como efetuar todos os tipos de aliança,
sem qualquer comprometimento maior. Este era o caso
das vinculações do queremismo com o Partido Comunista,
que apenas iriam alimentar ainda mais a desconfiança e o
temor nutrido em relação ao movimento, nos meios milita­
res e também civis, quer de oposição, quer de situação. O
Ministério do Trabalho, cuidadosamente, procurava gerir
seus contatos com o movimento queremista. Na verdade,
os elementos que em todos os Estados e municípios integra­
vam o queremismo - organizado nos comitês e núcleos
Pró-Candidatura Getúlio Vargas - evitavam propositada­
mente ingressar no PTB. Na maioria absoluta dos Estados,
esses elementos eram líderes trabalhistas e, quando não, po-
20

líticos, ''todos, porém, obedecendo a uma única linha de


conduta' ' . 2
Um dos jornais oposicionistas da época - o Correio
da Manhã -, em artigo intitulado ''O queremismo, essa
palhaçada'', resume bem o tipo de interpretação vigente a
respeito das relações entre queremismo, Ministério do Tra­
balho e Vargas:
O panorama do queremismo se apresenta com duas faces:
a organização na ação pelo Ministério do Trabalho e a outra,
dos provocadores de desordem q ue já são enviados aos Esta­
dos como se tem feito nos comícios pró-Eduardo Gomes.
Vargas aceita e prestigia as duas alas do queremismo. (29
ago. 1945)

O clima da época - que comportava a anistia e a lega­


lização do Partido Comunista - explica em muito a desen­
voltura dos queremistas, como também suas nítidas liga­
ções com os comunistas. A proposta era a mesma - Cons­
tituinte com Getúlio -, o que, evidentemente, não torna­
va o queremismo propriedade do PC, como de fato não
era. Mas o clima da época é insuficiente para dar conta
da total ausência de repressão e, mais ainda, da receptivida­
de de Vargas, que, por diversas vezes, recebeu e falou aos
queremistas.
Este comportamento ilustra o tipo de relação que vi­
nha sendo alimentada pelo discurso trabalhista. Vargas -
atento aos desejos das massas - recebia pessoalmente os
queremistas. A observação das inúmeras manifestações que­
remistas que ocorreram ao longo dos meses de agosto, se­
tembro e outubro de 1945 demonstra basicamente um mo­
delo de ação. Um comício era convocado em um certo pon­
to da cidade - largo do Russel, Carioca etc. - e aí fala­
vam vários oradores. Em seguida, os grupos presentes ao

2 Relatório sobre o queremismo, sem autoria, endereçado a Vargas em


17/ 10/1945. GV 45 . 10.17. FGV/CPDOC.
11

comício iam até o palácio do Catete, com o objetivo de se­


rem recebidos por Vargas e forçá-lo a aceitar sua candidatu­
ra. Praticamente todas as vezes, Vargas falava a esta mas­
sa e/ou a uma comissão, reafirmando não ser candidato.
Ilustrativamente, em alguns desses comícios não era mencio­
nado o nome de Outra. Nem mesmo Vargas o cita. A tôni­
ca de seus pronunciamentos é o desejo de afastar-se da vi­
da pública e de conduzir o processo de redemocratização,
o que era respondido com protestos e aclamações.
Getúlio sustentava dessa maneira, por todo esse perío­
do, um contato estreito cóm a população da cidade, conta­
to que era reencenado em todo o território nacional. A con­
vocação queremista para os comícios que festejariam a pas­
sagem do dia 3 de outubro é um grande sucesso. As notí­
cias foram de que em todo o Brasil, e até mesmo em São
Paulo, veip para a praça pública ''a maior massa popular
de que se tem memória'' . 3 O ocaso do Estado Novo, com
o movimento queremista, transformava-se numa ocasião
de grandes aparições para Vargas, que, insistindo em sua
não candidatura, assistia ao desenrolar dos acontecimentos.
O movimento era assimétrico: caía o Estado Novo, mas cres­
cia o prestígio do ditador.

As candidaturas e os partidos

Diversos relatórios enviados a Vargas assinalavam que


nem a candidatura de Outra nem a de Eduardo Gomes go­
zavam de projeção popular, embora a deste último fosse
mais bem aceita pelo eleitorado. A Igreja Católica, em fran­
ca campanha contra o comunismo, parecia não se definir,
e o prestígio de Luís Carlos Prestes era cada vez maior.

3 Ibidem.
22

O quereqiismo era identificado como o movimento


mais forte do país, ''sob o ponto de vista de opinião públi­
ca e de capacidade eleitoral' ' . 4 A crença em que Getúlio ain­
da viesse a ser candidato era quase total, mesmo ultrapassa­
do o prazo de desincompatibilização (2 de setembro). Ha­
via getulistas que declaravam que votariam em branco ou
até no brigadeiro, caso Vargas não se candidatasse. Segun­
do o jornal trabalhista A Democracia, de 02 set. 1945 :
Votarão no general [Outra] os agrupamentos políticos profis•
sionais - o rebanho que vai pelo cabresto dos chefes, com
medo de perder os empregos ou pensando nas prometidas
compensações. Votarão no brigadeiro [Eduardo Gomes] os
descontentes do passado da República Velha e os que perde­
ram as propinas de 30 nos sindicatos políticos estaduais...
Mas o grosso da população ficará esperando outro candida­
to. E se este não aparecer, não votará em ni nguém...

Por outro lado, face a esta hipótese, era bem possível


que as massas trabalhadoras se orientassem pelos esquemas
traçados pelos comunistas. O diagnóstico era de que o PT B
- sem Vargas - não tiraria do PC o domínio das massas
proletárias. Certamente é por esta razão que Maciel Filho,
em carta dirigida a Vargas, ponderou que o problema mais
delicado do governo, naquele momento, era manter a gran­
de posição de prestígio do presidente no ambiente das mas­
sas trabalhistas, impedindo por todas as formas a monta­
gem da máquina de Luís Carlos Prestes. Esta questão era
muito delicada e exigia um trabalho incessante ''porque a
equipe de Prestes é muito boa e muito eficiente' ' . Igualmen­
te por esta razão, era essencial exercer um controle sobre
a imprensa, através da distribuição da publicidade governa­
mental. Para Maciel, os ''amigos'' de Outra andavam des­
confiados, e os do brigadeiro já se conduziam para a prepa­
ração do golpe. s

4 Carta de José Soares Maciel Filho a Vargas. GV 45.10.00/6. FGV/CPDOC. p. 1-2.


s Ibidem, p. 4.
23

As metamorfoses do queremismo

No contexto de preocupações com o comunismo torna­


va-se essencial uma orientação para o movimento queremis­
ta. Este já assumira enorme vulto, mas inegavelmente não
possuía grande organização. A preocupação básica e revela­
dora de um relatório enviado a Vargas às vésperas do golpe
de 29 de outubro é com o destino do movimento queremis­
ta. Com incrível poder de mobilização, o queremismo tinha
comitês em praticamente todas as grandes cidades e todos
os municípios do país. O que fazer com toda essa rede quan­
do a campanha eleitoral chegasse ao fim, independentemen­
te de que final fosse este? Em todos os Estados e mesmo
no Distrito Federal a situação era confusa e precisava ser ur­
gentemente esclarecida. A sugestão proposta era de que os
comitês devessem ser encaminhados para o PTB e os diretó­
rios provisórios do partido orientados para receber todos
os seus integrantes. Nesse sentido, nos locais onde não exis­
tissem ainda diretórios do PTB, os comitês poderiam ser pu­
ra e simplesmente transformados em diretórios, encerrando­
se aquele afastamento entre PTB e movimento queremista. 6
Portanto, fica claro que as linhas de confluência entre
PTB e queremismo - sempre existentes - vinham estrei­
tando-se e que, até às vésperas do golpe, a campanha ''Cons­
tituinte com Getúlio'', com sua decorrente candidatura, era
hipótese• considerada não só viável politicamente como a
que mais ''emocionava' ' o povo. Segadas Viana, referindo­
se ao PTB e ao queremismo, situa bem a dinâmica que pre­
sidia estas relações. Acentua que para os órgãos de repres­
são ''PTB era queremismo e queremismo era PTB''. ·- . Já pa-
ra a população em geral esclarece: ''O povo não distinguia
entre queremismo e petebismo, então dizia: é getulismo';. 7

6 Relatório. "Situação geral!' GV 45 . 10. 17. FGV/CPDOC.


1 José de Segadas Viana (depoimento). FGV/CPDOC, História Oral. p. 312.
24

Torna-se bem compreensível, assim, o impacto do De­


creto-lei n� 8.063 que, alterando o que previa a Lei Consti­
tucional n? 9, antecipava as eleições estaduais para 2 de de­
zembro (data das eleições federais), deixando trinta dias
de prazo para a desincompatibilização dos interventores.
A interpretação geral era de que com tal lei Getúlio poderia
eleger, sob sua égide, não só o Congresso federal como tam­
bém as assembléias e os governadores estaduais. Sua força
não encontraria limites, e nada assegurava que, num últi­
mo momento, ele não se pronunciasse a seu próprio favor.
O clima político, naquele mês de outubro, já era de
molde a comportar várias reuniões de políticos civis e mili­
tares, cuja principal preocupação era a ameaça dos quere­
mistas, a presença dos comunistas, enfim, a gravidade dos
acontecimentos que se anunciavam. S.ugestivamente, no
mesmo dia em que foi assinado o Decreto n� 8.063, Vargas
fez seu primeiro pronunciamento público pró-PTB. No dia
10 de outubro, em Santa Cruz, Getúlio respondia às acusa­
ções que lhe lançavam, afirmando que o governo não cogi­
tava de quaisquer modificações, atos secretos ou golpes
''com propósitos de desordem''. E concluiu, conclamando
os trabalhadores em geral - '' as classes populares'' - a re­
forçarem as fileiras do PTB. 8

Os vários ''queremos''

O pronunciamento de Getúlio e mais ainda o momen­


to em que é feito são significativos. As interpretações po­
dem ser variadas, mas, sem dúvida, o conselho de Vargas
naquele instante podia ser lido como um reforço para a cam­
panha do queremismo/petebismo.

8 VARGAS, Getúlio Dornelles. O Partido Trabalhista Brasileiro. ln: - . A


novapolltica do Brasi/. Rio de Janeiro, José Olympio, 1947. V. XI, p. 197-9.
25

Mas enfim, o que significava essa campanha?


O jornal A Democracia em dois de seus editoriais aju­
da a definir o conteúdo espectral do queremismo e, exatamen­
te por isso, sua força. Para o jornal são três os ''queremos' ':
1 � ) O "queremos" velado dos com unistas, q ue desconfiam
da democracia do brigadeiro e da democracia do general;
2'?) O "queremos" dos que estão nas atuais posições e "a•
cham melhor" o sr. Getú lio Vargas do que a renovação de
q uadros do general; 3 ?) O "queremos" do povo, q ue gosta
mesmo do sr. Getúlio Vargas, dentro daquela q uadra popular
do cantor de serenata, que harpejava o violão e abria o pei­
to assim: "Gosto de ti porque gosto porque meu gosto é gos­
tar! " (24 ago. 1945)

E reforçando ainda mais o sentido da mística de Var-


gas e de sua plural presença política:
Estão af, como se sabe, dois candidatos à presidência, os se­
nhores Eduardo Gomes e Eurico Outra, e u m terceiro, o se­
nhor Getúlio Vargas, que deve ser candidato de algum gru­
po político oculto, mas é também o candidato popular. Por­
que há dois "queremos": o "queremos" dos que q uerem ver
se continuam nas posições e o "queremos" popular... Afinal,
o que é que o senhor Getúlio Vargas é?
É fascista? É comunista? É ateu? É cristão? Quer sair?
Quer ficar?
O povo, entretanto, parece que gosta dele por isso mes­
mo, porque ele é "à moda da casa". (16 set. 1945)

A influência e as nuanças do queremismo obviamente


não escaparam ao diagnóstico dos observadores políticos es­
pecializados da época. Em um de seus editoriais no Correio
da Manhã, o jornalista Costa Rego - um dos analistas
mais escolados e perspicazes - comentava a situação da
candidatura Outra:
O gal. Outra não pode chegar a uma conclusão: o pleito elei­
toral travava-se apenas entre duas forças políticas. Estas
são, de uma parte, as oposições coligadas; e, de outra par­
te, o governo. A única esperança do general estava em que
sua candidatura reunisse as forças do governo. J á não as
26

reú ne. De fato, já não as reunia desde o advento do quere­


m ismo, gato de sete fôlegos impossível de afogar. Agora,
além de não reun i-las, morre-lhe nos braços por abandono.
(16 out. 1945)

A situação precipitava-se cada vez mais, e a nomeação


de Benjamim Vargas para a Chefatura de Polícia do Distri­
to Federal funcionou como a gota d'água a extravasar as
já ensaiadas conspirações. Estas envolviam, entre outros,
o ministro da Guerra (Góis Monteiro), o candidato do go­
verno (general Outra), além de contarem com o aval do em­
baixador americano no Brasil. Nada especificamente, senão
todo o processo político rescendendo a continuísmo, con­
duz ao 29 de outubro. Getúlio, mais do que o Estado No­
vo, estava saindo do poder.
5
O PTB e as eleições
de 1945

A deposição de Vargas trouxe transformações ao qua­


dro político da época. De um lado, elas se manifestam nas
alterações feitas no próprio calendário eleitoral. O recém­
promulgado decreto que antecipava as eleições para gover­
nador de Estado foi revogado e a data original - maio de
1946 - foi restabelecida. Além deste decreto, foi revoga­
da também a chamada Lei Malaia de Agamenon Magalhães,
que conturbara o cenário e os interesses econômicos estabe­
lecidos no país. Com a saída de Vargas ficou igualmente es­
tabelecido que se convocaria uma Assembléia Nacional Cons­
tituinte (Lei Constitucional n� 13, de 12/ 1 1 /1945).
De outro lado, a mudança do quadro político pode
ser sentida pelo termômetro das candidaturas e da atuação
dos partidos. Dezoito dias após a queda de Vargas, o Parti­
do Comunista reformulou suas diretrizes. Sem Getúlio e
com uma Constituinte, o PC resolvia lançar seu candidato
a presidente, escolhendo o nome de ledo Fiúza. O compare­
cimento do PC às eleições com candidatos em todos os ní­
veis era evidência bastante do vigor organizativo do parti­
do. Significava também, para analistas políticos do momen­
to, um forte apelo às massas trabalhadoras, sobretudo por-
21

que a aspiração do queremismo desaparecia das ruas. Mas,


na verdade, o queremismo não desapareceria, ele apenas
se transfiguraria e deixaria patentes suas relações com o tra­
balhismo.

Os partidos depois do golpe

Com o golpe, a expectativa da UDN era a do cresci­


mento da candidatura do brigadeiro. Ela não ganha ainda
a popularidade necessária para uma estrondosa vitória, por­
que Vargas - com seu jogo continuísta - interferira em
sua natural evolução. Não era diversa a expectativa do PSD
e particularmente a de Outra. Embora temendo cada vez
mais o brigadeiro, Outra esperava não ser mais um ''candi­
dato abandonado' ', no dizer de Costa Rego. Mesmo o fa­
to de ter participado do golpe podia ser capitalizado politi­
camente. Afinal, Outra era o candidato do PSD, isto é, o
candidato que, representando os interesses do governo, di­
zia não compactuar com sua face ditatorial.
Neste contexto, tornava-se crucial a posição do PTB.
De seu apoio poderia depender a eleição de Outra, o forta­
lecimento maior ou menor do Partido Comunista ou, até
mesmo, a eleição do brigadeiro. E é, de fato, extremamen­
te confusa a posição do PTB. Para entendê-la é preciso ana­
lisar que fora difícil o reconhecimento do registro do parti­
do junto ao Superior Tribunal Eleitoral. Às vésperas do
golpe, o escritório do PTB foi invadido por policiais e seu
material destruído, de forma que as listas de dez mil assina­
turas necessárias para o registro acabam sendo conseguidas
por um expediente fraudulento. Mais significativo ainda é
a possibilidade, aventada na ocasião, de o PTB não conse­
guir seu registro junto ao Supremo Tribunal Federal (STF)
e a forma como isto acaba sendo conseguido. Além das lis­
tas de assinatura terem sido ''tiradas'' do PSD, os votos
do STF favoráveis ao registro do PTB foram conseguidos
29

por intermédio de Osvaldo Aranha, amigo pessoal de Sega­


das V iana. 1
Imediatamente após o golpe, aventa-se a possibilida­
de de o PTB concorrer às eleições presidenciais com candi­
dato próprio, mas avalia-se também que um outro nome
provocaria dispersão de forças, o que acabaria por garantir
a vitória do brigadeiro.
Sendo assim, nas palavras de João Neves, convinha
''defender o último reduto que nos restou' ' . Malgré-tout,
entre apoiar Outra e deixar o brigadeiro ganhar, a primei­
ra alternativa era mais aconselhável. Contudo, entendia-se
que tal apoio teria quer ser dado sem o comprometimento
aberto de Vargas. Era exigir demais do presidente deposto. 2

O acordo PSD-PTB

Com o objetivo de definir a posição do PTB nas elei­


ções presidenciais são estabelecidas conversações com Dutra
e o PSD. Esses entendimentos, julgados essenciais por Outra
e recebidos de bom grado, acabam por desembocar em um
compromisso, formalizado em uma carta confidencial assina­
da pelo candidato do PSD. O teor da carta é o seguinte:
Prezados senhores:
Respondendo à consulta que me foi feita, tenho o pra­
zer de, com a presente, confirmar nossos entendimentos pe•
los quais ficou assentado o seguinte:
1 ) Quando eleito, escolherei, para ministro do Trabalho do
meu governo, pessoa de minha confiança, de comum acor­
do com o PTB.
2) O ministério, com exceção das pastas militares, será cons•
tituído por elementos que apóiam minha candidatura, propor­
cionalmente ao número de votos q ue me forem concedidos
pelos mesmos.

• José de Segadas Viana (depoimento). FGV /CPDOC, História Oral. p. 286-9.


2 Correspondência de João Neves . GV 45 . 1 1 . 14. FGV /CPDOC.
30

3) As interventorias serão distribuídas, também na mesma


proporção.
4) Apoiarei o programa do PTB e procurarei fazer com que
as Justas aspirações dos trabalhadores sejam postas em prá­
tica pelo meu governo.
5) Reconheço as atuais leis trabalhistas e de amparo social
e procurarei melhorá-las e aperfeiçoar sua aplicação.
Gal. Eurico Gaspar Dutra3

O acordo era bem vantajoso para o PTB, o que reve­


la não só a posição estratégica em que este partido se encon­
trava como, igualmente, suas possibilidades efetivas em fu­
turo próximo. Em carta dirigida a Vargas, narrando a reu­
nião que resultara no acordo Dutra/PTB, Napoleão de Alen­
castro Guimarães traçou com precisão a posição do PTB fa­
ce ao pleito de 1945-46. Ele prognosticava: ''Não penso
que nas presentes eleições o PTB seja bem-sucedido eleito­
ralmente. Mas, se se aliar ao PSD nas eleições estaduais, a
experiência adquirida lhe dará inquestionavelmente uma po­
sição muitíssimo forte'' . E adiante, balanceando as tendên­
cias do PSD, UDN (partidos ''conservadores' ') e PC (parti­
do ''avançado''), ele concluía: ''O PTB pela sua posição
central tem todas as probabilidades de ser a grande força
nacional nos anos a vir'' . 4
A posição a tomar face à questão da candidatura pre­
sidencial era fundamental. Mas o acordo com Dutra não
eliminara todas as resistências.

O PTB a a candidatura Dutra


A despeito do antidutrismo, a campanha pró-Dutra
crescia no PTB e seus grandes articuladores eram Hugo Borghi,

3 A carta é confidencial e está datilografada em papel timbrado do PSD.


Está datada de 22/ I I / 194S e tem a assinatura de próprio punho do gene­
ral Outra. GV 45. 1 1 . 1 4. FGV /CPDOC.
4 Arquivo Getúlio Vargas. GV 4S. l l . 19/ 1 . FGV/CPDOC.
31

José Junqueira e Nelson Fernandes, todos queremistas de


primeira hora. É no bojo desta situação que é criada a cam­
panha do ' 'marmiteiro'', um slogan que surgiu como res­
posta a um discurso de Eduardo Gomes, no qual ele decla­
rara não precisar dos votos dessa '' malta' ' que vai a comí­
cios. Borghi verifica que ''malta' ' é um dos sinônimos pos­
síveis para ' 'marmiteiro' ' - termo facilmente identificado
à condição de trabalhador -, passando, então, a utilizar
a expressão para mobilizar a massa trabalhadora, que esta­
ria sendo considerada como um ''bando de desocupados' '
pelo brigadeiro. A campanha das ''marmitas' ' - impressas
e distribuídas aos milhares pelo país - procurava polarizar
as candidaturas, identificando o brigadeiro com um eleitora­
do de grã-finos e Outra com o eleitorado dos ' 'pobres/tra­
balhadores' '
Os esforços pró-candidatura Outra, articulados por
uma ala do PTB - aquela de Hugo Borghi -, combina­
vam entendimentos confidenciais e pactos interpartidários,
com movimentadas campanhas de rua, como essa do mar­
miteiro. Contudo, com o evoluir dos acontecimentos, torna­
va-se cada vez mais claro para todos que a palavra de Var­
gas seria essencial. Ou seja, se em inícios de novembro con­
siderara-se justo o silêncio de Getúlio, tendo sido entendi­
do como um sinal de plena liberdade de ação para seus com­
panheiros, no final do mês a situação se alterava. Cada vez
mais dois temores se consolidavam: o temor do apelo comu­
nista e o temor da força do brigadeiro. Ambos atuavam
no seio das classes trabalhadoras, desorientadas pela ausên­
cia de Vargas.
Logicamente a preocupação era com a dispersão dos
votos dessa volumosa e estreante massa de eleitores, trazi­
da ao cenário polftico principalmente graças ao alistamen­
to ex-officio . O fortalecimento do PC e uma possível vitó­
ria do brigadeiro, que agora contava com o apoio aberto
da Liga Eleitoral Católica (ao menos no Rio), ameaçavam
toda a estrutura construída pelo Estado Novo. Um curto
32

parecer de Luís Vergara, enviado a Vargas, resume magistral­


mente a tônica das vésperas das eleições:
O naufrágio será total sem a sua mão no leme. Da orienta­
ção que sobreveio tudo se pode esperar, até mesmo uma
guerra civil. Se do choque das urnas não sair uma vitória lim•
pa, indiscutível, o reacionarismo completará sua obra. Unir
as forças do PSD e do PTB é o único meio de garantir a vitó­
ria do cand idato e a maioria da futura assembléia nacional.
Mas, para isso, é indispensável a sua palavra de ordem. s

E finalmente é seu irmão, Protásio Vargas, quem sen­


tencia sobre a importância e o sentido da palavra de Getú­
lio: ''Todos sabemos, os teus amigos, que votar no Outra
( . . . ] é o mesmo que tomar um purgante. É necessário fazê­
lo, ainda que repugnante' ' . 6

1
'Ele disse ''

O que é fundamental reter deste episódio é a centrali­


dade da orientação de Vargas. Teoricamente o acordo
PSD-PTB está feito. A campanha pró-Outra está nas ruas.
Mas nada disso é condição suficiente para a vitória e, so­
bretudo , nada disso garantia que as classes trabalhadoras
estariam sendo sensibilizadas. A condição sine qua non es­
tava na palavra de Vargas, em seu comprometimento pes­
soal . A campanha do ''marmiteiro ' ' precisava do ''Ele dis­
se: vote em Outra' ' . Foi esta a palavra de ordem eleitoral
que consagrou a recomendação pública de Vargas às véspe­
ras das eleições, para que os trabalhadores e o PTB votas­
sem em Outra. Só assim a possibilidade de vitória de Ou­
tra se redimensiona no enfrentamento com o PC e o briga­
deiro.

s Arquivo Getúlio Vargas. GV 45 . 1 1 .24/2. FGV/CPDOC.


6 Arquivo Getúlio Vargas. GV 45. 1 1 .2 1 . FGV/CPDOC.
33

E é exatamente isto que se verifica às vésperas das elei­


ções, após a mensagem salvadora de Getúlio. Os comícios
de encerramento da campanha de Outra - no largo da Ca­
rioca e em Juiz de Fora - são considerados ' 'uma apoteo­
se a Getúlio''. São verdadeiras manifestações queremistas,
com retratos e legendas de Vargas e com o conselho: vote
no general Outra.
O resultado das urnas de 2 de dezembro é inequívoco.
O impacto da vitória de Outra é comparado por João Neves
ao de uma ' 'bomba atômica". Não havia margem para dúvi­
das ou qualquer tipo de golpismo. O brigadeiro aceita sua
derrota alguns dias após o pleito. O acerto da composição
PSD-PTB é reafirmado. A força do nome de Vargas é reco­
nhecidamente avassaladora. Ele era o grande eleitor do pleito.
A UDN colhera efetivamente uma significativa derro­
ta. Mas sua espinha antigetulista era forte e possuía maio­
res razões ainda para enrijecer. O PSD vencera como parti­
do, sem a menor dúvida. Mas ele já existia como tal antes
e independentemente dos resultados de 2 de dezembro. Fo­
ra o único partido cuja organização não partiu da constitui­
ção de um diretório nacional e sim da organização de nú­
cleos municipais e estaduais. Sua estrutura assentava-se nos
Estados, em seus executivos e na representação que poderia
ser conseguida na Câmara e no Senado. A vitória do briga­
deiro seria certamente um golpe para esta estrutura, mas
possivelmente não um golpe mortal.
Já com o PTB a situação era distinta. Tendo graves di­
ficuldades para conseguir seu registro, não possuindo ne­
nhum grande nome da política nacional ou estadual, exce­
to os de Marcondes Filho e Getúlio, o PTB não surgira co­
mo partido. As eleições de 2 de dezembro é que o consagra­
ram como tal. O PTB se mostrara absolutamente essencial
para o resultado obtido no pleito, materializando sua exis­
tência e possibilidades.
O PTB nascera de e para Vargas, ainda no Estado No­
vo, e se afirmara nas eleições de 1945 com Vargas. Forma-
34

do tendo como base a máquina sindical, o PTB ultrapassa­


ra o PC devido basicamente ao ''Ele disse'' .
Em dezembro de 1945 suas perspectivas eram alvissa­
reiras. Elegera 22 deputados e dois senadores e formava a
terceira bancada da Constituinte. Tudo indicava que, estan­
do Getúlio em atividade política, o PTB teria uma votação
nas eleições estaduais de 1946 ainda maior do que tivera
nas eleições federais. Neste caso, seria inegável que a gran­
de força do partido estava em ter Vargas como cabeça de
chapa. Pois foram os votos conseguidos pelo ' 'presidente''
os responsáveis pela eleição de praticamente todos os candi­
datos do PTB em nível federal.
Da votação do PTB num total de 603 000 votos nas eleições
de 1945, 318 000 foram dados a Vargas, que, concorrendo
em vários Estados, foi eleito para o Senado por São Paulo e
Rio Grande do Sul e para deputado federal na Bahia, Rio de
Janeiro, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Mi nas Gerais
e Distrito Federal. Vargas foi, assim, o que se convencionou
chamar no linguajar eleitoral como um grande puxador de le­
genda. 7

O partido porém encontrava-se conturbado e cindido.


Se ele existia através das urnas, era quase uma ficção em
termos organizacionais. Sua destruição, no entanto, envol­
veria necessariamente o fortalecimento do PC. Assim, ele
não podia desaparecer, e se ''sua tendência natural era a
aliança com o PSD'', esta só poderia ser feita com as pala­
vras ' 'socialista' ' ou ' 'trabalhista''.
Mesmo já tendo passado por seu primeiro grande tes­
te, a situação do PTB era precária. Já existia como parti­
do que - fundado no nome de Vargas - conseguia reunir
o voto das chamadas classes trabalhadoras. Mas o PTB era
7 FERREIRA, Marieta de Morais. Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). ln:
BELOCH , Israel & ABREU, Alzira Alves de, coords. Diciondrio histórico­
biogrdfico brasileiro; 1930- 1983. Ver Bibliografia comentada. Ver também
Augusto do A maral Peixoto (depoimento). FGV/CPDOC, História Oral,
1975. p. 345.
JS

Getúlio, ou seja, eleitoralmente o trabalhismo espelhara


sua face ideológica. lrabalhismo era getulismo, pois fora
''inventado' ' nestes termos. Contudo, pensar e estruturar
o PTB como organização política e construir um trabalhis­
mo distinto do de Getúlio eram desafios que, até certo pon­
to, se impunham para a continuidade do partido e da pró­
pria liderança pessoal de Vargas.
O PTB, de 1945 até
a volta de Vargas

O PTB sai das eleições de 1945 e 1946 com prestígio


eleitoral consolidado. Sua presença, enquanto partido com
um eleitorado crescente em nível nacional, seria confirma­
da ainda nas eleições de início e fins de 1947. Sem dúvida
nenhuma, esse sucesso nas urnas era oriundo de dois tron­
cos: a liderança de Vargas e o trabalhismo. Entretanto, o
PTB não vivia apenas da exploração eleitoral e ideológica
desses dois fatores. Havia outro elemento da maior impor­
tância para sua performance política: suas bases sindicais.

O PTB e os sindicatos

Enquanto partido o PTB estava assentado nos sindica­


tos. Por orientação do próprio Vargas, os organizadores
do PTB deram prioridade a esse tipo de quadro com o in­
tuito claro de dar ao partido um cunho eminentemente sin­
dicalista. Segundo José Gomes Talarico, um dos fundado­
res do PTB em 1945 , as listas de assinatura para a criação
do PTB foram colhidas ' ' no instituto dos comerciários,
nos industriários, por parte de assegurados, no instituto
37

dos marítimos, no lapetec, enfim, nas organizações em que


a presença do trabalhador era permanente' ' . Essa preocupa­
ção esteve também presente na escolha dos candidatos do
partido em 1945. O objetivo de ' ' formar o partido na base
de líderes sindicais' ' levou a que se preterissem candidatu­
ras de antigos funcionários do Ministério do Trabalho em
prol daquelas lideranças. O que se buscava era exatamente
' 'dar uma chance aos representantes sindicais' ' e, com isso,
centrar no partido a marca do trabalhador sindicalizado. 1
Outros exemplos confirmam essa orientação. Uma das
mais expressivas figuras do PTB na Paraíba declara que
neste Estado ''não tinha um só presidente de sindicato, no­
vo ou velho, que não fosse membro do diretório do PTB''. 2
Em São Paulo a situação se repete. Essa sistemática daria
ao partido emergente o conteúdo necessário às suas apre­
goadas bandeiras getulista e trabalhista. A presença marcan­
te de lideranças sindicais operacionalizaria, em termos prá­
ticos, a participação dos sindicatos na política institucional
e, nesse sentido, acionaria diretamente aquilo que era a ma­
téria-prima por excelência do trabalhismo getulista: o traba­
lhador organizado.
Discutir as conotações corporativas dessa organização
foge aos limites deste trabalho, que tampouco visa analisar
acuradamente o papel do PTB como instrumento de repre­
sentação política dos trabalhadores. O que importa reter
aqui é que o PTB surge como um partido que tem por fun­
ção canalizar os esforços investidos pelo Estado Novo na
organização sindical dos trabalhadores, e, nestes termos,
ele foi bem-sucedido.
Se Vargas não era, nem nunca foi, um homem afeito
à política partidária, não deixa de ser verdade que sempre
procurou as mais adequadas fórmulas políticas no sentido
de capitalizar o apoio popular. O PTB foi um esforço ela-

1 José Gomes Talarico (depoimento). FGV /CPDOC, História Oral. p. S .


2 Hermano de Sá (depoimento). FGV /CPDOC, História Oral. p . 28 .
31

ro nessa direção. Não era essa a primeira tentativa desse


teor; no entanto foi a primeira que, no Brasil, conseguiu
chegar a bom termo. Por tudo isso, o PTB foi o lado mais
modernamente organizado da política trabalhista: os sindi­
catos tornavam-se as bases efetivas de um partido político .
Algumas de suas seções conseguiram se estabelecer
em bases muito sólidas, como por exemplo Rio Grande do
Sul e Distrito Federal. No Rio Grande do Sul o PTB era o
partido hegemônico e esta seção regional era a mais impor­
tante de todo o país. Nem o PSD nem a UDN conseguem
se articular como forças significativas de situação ou oposi­
ção nesse Estado. A fonte desse poder era oriunda funda­
mentalmente da liderança e do controle que Vargas exercia
sobre a política de seu Estado natal . Não é surpreendente
que nasça exatamente no Rio Grande do Sul um dos esfor­
ços mais marcantes de construção de uma doutrina traba­
lhista para o partido: Alberto Pasqualini .
Já no Distrito Federal, embora igualmente forte, o
PTB depara-se com uma força rival. A UDN possuía na ca­
pital federal bases sociais sólidas advindas praticamente de
um apelo popular muito bem construído pela liderança de
Carlos Lacerda. Outras unidades da federação tiveram um
PTB expressivo, mas não comparável aos dois casos anterio­
res: Rio de Janeiro, Amazonas e Minas Gerais.
São Paulo seria um caso notável de contradições. Sen­
do o Estado que possuía o movimento operário e sindical
mais importante do país, tudo levaria a supor que o PTB
paulista estaria fadado a ser um grande partido. Não é is­
so que ocorre. Contudo, esteve longe de ser um partido
' ' fraco'' . Foi sempre uma força política chave nas grandes
articulações partidárias, quer a nível estadual, quer a nível
federal. Mas nunca conseguiu grande sucesso eleitoral e te­
ve que competir arduamente junto às massas trabalhadoras
mobilizadas por outras lideranças como a do ademarismo
e sobretudo a do janismo. Isto, naturalmente, sem falar
do papel dos comunistas.
39

O conflito de lideranças no PTB

Não obstante os resultados eleitorais favoráveis, o


PTB desde muito cedo mergulharia numa crise abissal de
organização. É interessante observar que esta crise será
maior, em todo o país, à proporção que o seu sucesso elei­
toral aumenta. É isso exatamente o que se verifica princi­
palmente a partir de 1947, logo após as eleições estaduais
de janeiro, para se agravar ainda mais nas eleições munici­
pais de novembro.
Desde sua criação existiu no PTB um grupo que se pro­
pôs a apoiar a candidatura Outra e posteriormente seu go­
verno. Esse grupo era liderado inicialmente por Luís Augus­
to França e depois pelo paulista Hugo Borghi, que era insis­
tente defensor da aliança do PTB com o novo presidente.
Mas as divergências não se restringiam apenas ao tipo de re­
lação que o partido deveria ter com a administração gover­
namental. Lideranças exponenciais, como Segadas V iana,
Danton Coelho, Marcondes Filho, Hugo Borghi e Baeta
Neves, dentre outros, vivenciaram rivalidades constantes
que se traduziam em crises sucessivas. Baeta Neves, presi­
dente do PTB desde a sua primeira convenção ( 14/8/45),
era objeto de freqüentes críticas por parte de Marcondes Fi­
lho até ser substituído em julho de 1948. Nesse momento,
o cargo. passa a ser exercido pelo próprio Vargas e a vice­
presidência por Salgado Filho. O que está sempre em jogo
nessas divergências, além das naturais disputas pelo poder
dentro do partido, é o tipo de compromisso que a agremia­
ção deveria ter com o movimento popular. Baeta Neves,
por exemplo, seria acusado várias vezes de esquerdismo, e
o grupo ligado a Borghi rotulado como o ''PTB palaciano' '.
De qualquer forma, o que se observa de 1945 a 1948
é um aprofundamento dos problemas do partido do ponto
de vista organizacional. Essa crise não significou obstrução
ao crescimento do PTB em termos de diretórios municipais.
Ao contrário, esse período foi exatamente o momento de
....
nacionalização do partido no sentido de sua presença em to­
do o território brasileiro. Esse crescimento , porém. tem seu
lado negativo, pois permite que se alimentem disputas inter­
nas . Mas a crise não se restringe a essa expansão tão rápi­
da quanto desordenada. Ela era basicamente uma questão
de identidade. O PTB estava, efetivamente, vivenciando
no dia-a-dia a problemática de ser tanto um partido de tra­
balhadores e lideranças sindicais quanto um partido de Var­
gas. Como um partido de bases sindicalistas, comportava
divergências em nada desprezíveis. Como um partido funda­
do na mística de Vargas, atraía muitos interessados em ti­
rar proveito dessa incrível fonte de votos. Brigava-se, em su­
ma, pelas formas de conquistar o apoio dos trabalhadores,
como também pelo controle do prestígio de Vargas.
Se o PTB era em grande parte o partido de Vargas e is­
to lhe trazia benefícios ímpares, por outro lado lhe criava
problemas muito sérios. O ''dono' ' do partido era maior
do que o próprio partido . Além do mais, havia muitos que
se autodenominavam herdeiros naturais e legítimos represen­
tantes desse chefe político e ''patrão".
Examinando diversas fontes documentais, é possível es­
tabelecer uma cronologia na trajetória do PTB que ilustra
bem o ponto de vista que está sendo destacado . Até mea­
dos de 1947 a grande preocupação dos trabalhistas e de Var­
gas era com o crescimento e fortalecimento organizacional
do partido. Mas as discussões e confrontos que dominavam
o PTB revelam a diversidade de grupos, bem como a inten­
sidade que a luta interna ganhara nesse período. O caso
de São Paulo é um exemplo paradigmático desse impasse.
As eleições desse ano ocupam bastante a vida política do
país e o sucesso eleitoral do PTB só faz acentuar suas ques­
tões de organização. No início de 1948 elas serão marcan­
tes e vários esforços são tentados no sentido de novamen­
te reestruturar seus quadros. Um partido solidamente orga­
nizado é a palavra de ordem que busca contornar, sem su­
cesso, o desentendimento crescente em seu seio.
41

Em meados de 1948 parece que essa situação é altera­


da. Alzira Vargas, decepcionada com o rumo dos aconteci­
mentos, chega a declarar que o PTB '"hão existe mais''. 3
,.
E nessa altura que se efetua uma mudança na presidência
do partido. Ela passa a ser formalmente preenchida por
Vargas e de fato ocupada pelo vice, Salgado Filho. Este era
um antigo seguidor do ex-presidente, que mantinha as me­
lhores relações com os diversos grupos dentro do partido.
A mudança na Executiva Nacional não era apenas uma for­
malidade para dissipar atritos. Ela coincidia com uma fase
do PTB . A partir desse momento é fácil observar que a ên­
fase não recai apenas na questão da organização do parti­
do. A preocupação central será a de resgatar a figura de
Vargas no plano nacional e transformar novamente o quere­
mismo na mola mestra do PTB. Este se assume claramen­
te como um partido de Vargas, assim como o fora em 1945 .
O que é sentido por Alzira como uma "virada queremista' '
é, na verdade, a retomada do curso anterior e ''natural' '
do partido. Enquanto Vargas existisse, o PTB seria quere­
mista e teria que sê-lo, porque Vargas era maior que o par­
tido. O PTB precisava de Vargas, mas a recíproca não era
verdadeira, ao menos na mesma dimensão.
A súbita morte de Salgado Filho, em 30 de julho de
1950, privava o partido de um comando que vinha gerin­
do a contento sua orientação getulista e trabalhista . Salga­
do será substituído por Danton Coelho, homem de confian­
ça de Vargas e um dos principais articuladores de sua can­
didatura, mas que não contava com o apoio unânime do
partido. Em junho de 1951, Danton, que era então também
ministro do Trabalho, foi praticamente coagido a abando­
nar a presidência do PTB, episódio no qual fora importan­
te a atuação da seção paulista. Na linha de sucessão de pre­
sidentes do PTB, observa-se que essa função passará a ser
exercida por pessoas cujas ligações com Vargas são de or-
3 Carta a Getúlio Vargas de 10/6/1948, Arquivo AVAP .. FGV /CPDOC .
42

dem familiar ou de profunda afinidade pessoal . Danton se­


rá substituído por Dinarte Dornelles, primo do presidente,
para, exatamente um ano depois, na V Convenção do PTB,
passar o cargo a João Goulart, discípulo dileto de Vargas.
Goulart permanece nesse cargo até maio de 1964, quando
já cassado e ausente do país é substituído pelo filho de Ge­
túlio, Lutero Vargas. No exercício deste último o PTB é ex-­
tinto por força do AI-2, em setembro do ano seguinte.
7
O PTB e o Ministério
do Trabalho

Se as questões internas do partido foram problemáti­


cas no período que vai de 1946 a 1950, o mesmo pode ser
dito de suas relações com o Ministério do Trabalho.
O grande arquiteto do suporte de massas que o PT B
tivera fora o último ministro do Trabalho do Estado Novo,
Alexandre Marcondes Filho, que, ao assumir esta pasta
em meados de 1942, desenvolveu um amplo esforço sindi­
cal e doutrinário no meio das classes trabalhadoras. Portan­
to o PT B, em sua dinâmica, não pode ser entendido sem
um exame de suas relações com o Ministério do Trabalho
e obviamente com a diretriz política aí dominante em rela­
ção ao movimento sindical.
É muito significativo que, já nas articulações para a
eleição de Outra em 1945, a pasta do Trabalho tenha sido
o grande prêmio oferecido ao PT B por seu apoio eleitoral.
Em decorrência, a partir desse acordo, a tradição firmada
é de que deveria caber aos trabalhistas a condução desta im­
portante área política. É compreensível, assim, que as apro­
ximações e afastamentos entre PT B e Ministério do lraba­
lho sejam um indicador importante para a avaliação da for-
44

ça do partido e de sua tradução em termos de presença po­


lítica governamental . Neste sentido o período que vai de
1946 a 1950 é bem ilustrativo.
De início cabe observar que foram quatro os ministros
do Trabalho de Outra, sendo que nenhum deles pode ser
qualificado como um quadro do PTB. O governo Outra
vai se caracterizar por permanentes tensões no ministério e
por uma política sindical crescentemente repressiva.

O dutrismo no Ministério do Trabalho

O primeiro nome escolhido para a pasta do Trabalho


foi o de Otacílio Negrão de Lima, mineiro que havia parti­
cipado da campanha do PTB em seu Estado, mas que certa­
mente não pode ser caracterizado como um trabalhista de
'' primeira hora' ' .
Mas os descontentamentos do PTB estavam apenas se
iniciando. A aprovação pelo presidente da República do De­
creto-lei n� 9.070 , que praticamente cerceava o direito de
greve e revivia a obrigatoriedade do atestado de ideologia pa­
ra os cargos de direção sindical, provoca grande reação no
meio sindical e também no PTB . Neste ponto vale recordar
que, pelo menos desde fins de 1944, o clima político no mo­
vimento operário se alterara significativan,�nte. l)o ponto
de vista explicitamente repressivo, o Estado No\·o estava
morto e assistia-se, na verdade, a um franco crescimento
da liberdade sindical. O ano de 1945 foi marcado por elei­
ções sindicais reconhecidas pelo Ministério do Trabalho, mes­
mo quando os novos dirigentes escolhidos eram identifica­
dos como simpatizantes da esquerda. As relações e a presen­
ça dos comunistas nos sindicatos cresceram e foram habil­
mente toleradas pela orientação ministerial. A anistia para
Luís Carlos Prestes, a campanha queremista, a legalização
do Partido Comunista e a organização do Movimento Unifi­
cador dos Trabalhadores (MUT) dão bem uma idéia da no-
45

va realidade que se vivia. Não é surpreendente que o núme­


ro de greves tenha aumentado durante o ano de 1946, assim
como o poder mobilizador dos sindicatos, onde comunistas
e trabalhistas disputavam e dividiam influência e poder.
A nova orientação do governo Outra e de seu ministro
Negrão de Lima demonstrava a clara intenção de reverter
tal processo, aumentando a direção tutelar do Ministério
do Trabalho sobre o movimento sindical. Já que esta pas­
ta deixara de estar sob o controle do PTB e até mesmo de
Vargas, a tentativa se afigurava como uma ameaça, não
só dirigida aos comunistas como também aos próprios sin­
dicalistas ligados ao trabalhismo.
É nesse contexto que se deve situar a realização do Con­
gresso Sindical dos Trabalhistas do Brasil, patrocinado pelo
Ministério do Trabalho e que reuniu no Rio, em setembro
de 1946, cerca de três mil delegados sindicais de todo o Bra­
sil. O congresso é como um teste de força, em que a ala mi­
nisterialista sai amplamente derrotada, pois são elementos
do PC e também do PTB que conseguem controlar a maio­
ria dos delegados. O resultado é a criação da Confederaçào
Geral dos Trabalhadores, um dos pontos defendidos pelo
MUT , e a retirada dos ministerialistas do congresso. Estes
prosseguem sua reunião particularmente, decidindo pela for­
mação de uma Confederação dos Trabalhadores do Brasil.
Na verdade, ambas as confederações são efêmeras e a
conseqüência mais significativa desse congresso é a queda
do ministro do Trabalho, Negrão de Lima, que acabará se
ligando ao Partido Trabalhista Nacional (PTN) . Ele será
substituído pelo empresário paulista, vice-presidente da
Fiesp, Morvan Dias Figueiredo. Efetivamente a entrada de
um empresário ' 'nacionalista ' ' ligado à pequena e média em­
presa para a pasta do Trabalho, Indústria e Comércio é su­
gestiva. A década de 1940 assinala a forte influência empre­
sarial na formulação das políticas econômica e social do
país. Sem dúvida a inquietação com o movimento operário
só crescera após 1945, e a necessidade do estabelecimento
46

de novas formas de controle sobre esta realidade era uma


tônica no meio industrial e comercial.
Mesmo que se considere que o nome de Morvan Dias
Figueiredo possuísse trânsito no PTB, não se tratava obvia­
mente de um trabalhista. Além do mais, a situação política
e internacional estava mudando. O clima da guerra fria co­
meçava a chegar ao Brasil, o que certamente alimentou a di­
retriz repressiva que vinha sendo articulada dentro do minis­
tério. Nestes termos, a administração de Morvan Figueiredo
é crucial. Segundo Hugo de Faria, então delegado regional
do Trabalho na Bahia, o novo ministro montou um excelen­
te serviço de informações, que funcionava recebendo e trans­
mitindo comunicações para todas as delegacias do Trabalho
do país. �sa forma, uma equipe instalada no Rio reunia
dados sobre praticamente toda a liderança sindical, analisan­
do suas tendências políticas. As relações então existentes entre
os sindicatos e o Partido Comunista eram abertas, e muitos
deles contribuíam financeiramente para o MUT, que era proi­
bido legalmente. • Vale acr�centar que nessa situação muitos
líderes sindicais trabalhistas eram identificados como comu­
nistas, da mesma forma que alguns dirigentes do próprio
partido foram acusados de esquerdismo.

A repressão sindical em marcha

A partir de 1947 e principalmente a partir de maio,


quando o registro do PC é cassado, desenvolveu-se todo
um processo de intervenções sindicais que praticamente con­
gelou esta área, afastando-a do palco político por esvazia­
mento. A retomada da vida sindical só seria feita de for­
ma significativa após a eleição de Vargas e, mais precisa­
mente, com a entrada de João Goulart printeiro para a pre­
sidência do PTB em 1952 e em seguida para o próprio mi-

1 Hugo de Faria (depoimento). FGV/CPDOC, História Oral. p. 6, l l -4 e 26-7 .


47

nistério em 1953. O período que vai de 1946 a 1953 é co­


mo um interregno que frustra a redemocratização na área
da política sindical. Da ótica que nos interessa ressaltar, a
ausência de crescimento e de efervescência nas organiza­
ções sindicais acaba também por atingir o próprio PT B,
que vivia inegável e ambiguamente da força e da influência
do sindicalismo na vida política nacional. A literatura so­
bre o assunto converge, ao assinalar que estiveram em tor­
no de 143 o número de sindicatos sob intervenção, num to­
tal de 944 . làmbém há acordo quanto à �firmação de que
de 1946 a 1952 praticamente não houve crescimento na or­
ganização sindical. Este só foi retomado nesta data, para
atingir seu clímax entre 1961 e 1963.
É interessante observar igualmente o papel central de­
sempenhado pelas delegacias regionais do Trabalho, que
se mostraram tão fundamentais para o desmantelamento
de um certo perfil de sindicalismo quanto o tinham sido pa­
ra a sua montagem. Não é demais lembrar que os delega­
dos regionais, sediados em todo o país, foram peças bási­
cas na mobilização dos trabalhadores e na montagem dos
núcleos estaduais do PT B. No período final do Estado No­
vo muitas delegacias regionais funcionam como verdadeiras
sedes do PT B, que, como partido, utilizava ampla e livre­
mente a estrutura e os recursos do Ministério do lrabalho.
Não é difícil imaginar a rede de interesses e relações que
se cria com tal dinâmica e o quanto o sindicalismo e o tra­
balhismo ficam abalados, quando a política de interven­
ções subverte este pacto, invertendo a orientação inicial.
Morvan Dias Figueiredo permaneceria no cargo de mi­
nistro até setembro de 1948, quando se retirou para assu­
mir a presidência da Fiesp. Dois outros ministros ainda ocu­
pariam esta pasta: o deputado do PSD Honório Fernandes
Monteiro e o funcionário de carreira do Ministério do Tra­
balho Marcial Dias Pequeno. Em ambas as escolhas o PT B
não fora beneficiado, permanecendo afastado de uma área
política que, em princípio, era seu feudo e sua vocação.
O PTB e a propaganda
do trabalhismo

Quando o ministro do Trabalho Marcondes Filho reali­


zava sua pregação doutrinária ainda no Estado Novo, os
ideólogos do trabalhismo podiam dispor de todos os meios
de informação escrita e falada para propagandear suas
idéias. Tal facilidade não mais ocorreria após 1945. A liber­
dade de imprensa que passa a vigorar no país terá como
um de seus derivantes o fato de que toda a grande impren­
sa assume uma posição nitidamente antigetulista e, por con-
seguinte, omissa ou contrária ao PTB. Enquanto o PC man-
tinha seu tradicional jornal, o Voz Operária, o mesmo não
ocorria com os trabalhistas. Embora os grandes jornais não
fossem porta-vozes diretos do PSD e da UDN, é fato pací­
fico que vários desses periódicos assumiam claramente posi­
ções mais definidas em favor de um ou de outro, principal­
mente nos momentos eleitorais . Além do mais, havia sem­
pre em suas páginas espaços consagrados à discussão das
orientações e posições desses partidos, já que a UDN e o
PSD reuniam o que havia de mais significativo em termos
das elites políticas de situação e oposição.
Em relação ao PTB o mesmo não ocorria, devido à
inexpressividade de seus quadros políticos e à sua declara­
da vinculação com o ex-ditador. Mas ao PTB não interessa-
49

va apenas a informação política factual. Na qualidade de


partido que postulava uma identidade doutrinária específi­
ca, era importante contar com um meio de comunicação
que lhe permitisse propagar tal identidade. Isto será, sem
dúvida, uma das mais fortes preocupações das lideranças
do partido no decorrer de muitos anos.
E é fundamental entender que o desejo de sustentar e
revivificar a doutrina trabalhista traduzia a percepção políti­
ca de que esta era, e deveria continuar sendo, o grande re­
curso de poder do PTB, equiparando-se e confundindo-se
em termos de importância apenas com a figura de Vargas.
A impossibilidade de veicular esse apelo ideológico tinha con­
seqüências graves para o partido. Enquanto o PSD se defi­
nia como situacionista e a UDN como oposição, o PTB care­
cia de uma explicitação ideológica maior que sustentasse sua
identidade, especificamente junto às classes trabalhadoras.
Era tido como essencial para o PTB manter desperta a idéia
e a origem de sua constituição. Nesse sentido , a preocupação
com a propaganda reunia numa mesma moeda funções ideo­
lógicas e pragmáticas. Pretendia-se fazer chegar ao trabalha­
dor uma mensagem objetiva e ao mesmo tempo lembrar-lhe
a importância e eficácia do patrimônio de que já dispunha
para a defesa de seus interesses. A visão de Ivete Vargas a es•
te respeito é um resumo ilustrativo desse modo de pensar.
N a realidade o trabalhador é muito objetivo ( ...) antes de 1930
ele não tinha garantia no emprego, não tinha horário de tra­
balho, não tinha a menor estabilidade, não ti nha d i reito ai•
gum. Ele trabalhava dependendo dos patrões, que eram to•
do-poderosos (...] Então, o trabalhador tem consciência de
q ue ele foi incorporado realmente â sociedade brasileira gra•
ças à legislação soc ial q ue Getú lio Vargas propiciou aos tra•
balhadores do Brasil. Não emocionava à classe operária o f a•
to de ter havido um período de exceção. Não emocionava à
c lasse operária o fato de, nos desvios da exceção, terem
acontecido as coisas que sempre acontecem nos desvãos
da exceção. O que o trabalhador registrava é que naquele
instante ele era um homem q ue, q uando tinha um emprego,
tinha horário de trabalho, tinha salário mf nimo, tinha a previ-
dência social para lhe propiciar uma assistência médica, ti­
nha seguro de aci dente, tinha perspectiva de aposentadoria;
enfim, ele passou a existir. 1

Se a marca primeira do PTB era ser o defensor e con­


tinuador da obra social de Vargas, as variantes e os matizes
ideológicos que poderiam derivar dessa proposta seriam
múltiplos. lànto é assim que até hoje a definição do que se­
ja trabalhismo entre nós é bastante polêmica. Ele tem sido
associado indistintamente a sindicalismo, a Vargas, a nacio­
nalismo, a socialismo, a autoritarismo, a populismo a até
mesmo a comunismo e a democracia social.

O esforço doutrinário
Sem fazer uma reflexão maior acerca do problema, é
importante reter que o esforço doutrinário foi sempre um
cuidado e uma ambição dos dirigentes trabalhistas. Certa­
mente eles próprios não concordavam entre si quanto ao
conteúdo do assunto. Em função disso as iniciativas eram
variadas e raramente agradavam a todos os grupos.
É ponto pacífico que o partido contou com a presen­
ça de alguns ideólogos da maior relevância. Entre eles desta­
cam-se Alberto Pasqualini, Lúcio Bittencourt, San Tiago
Dantas, podendo-se incluir também Salgado Filho. Eram to­
dos figuras de grande militância política dentro do partido,
que ao mesmo tempo desenvolviam ampla atividade intelec­
tual visando moldar um corpo doutrinário para o trabalhis­
mo. O conteúdo destas propostas é ainda pouco conheci­
do e certamente um estudo mais apurado do trabalhismo
não pode prescindir dessa análise.
Mas é importante registrar que ao lado dessa preocupa­
ção intelectual, restrita a um pequeno círculo, o PTB tam­
bém esteve muito interessado na propaganda de seu ideário
e objetivos através dos meios de comunicação de massa.

1 /vete Varga.s- (depoimento). FGV/CPDOC, História Oral. p. 104-S.


51

Pode-se constatar um esforço contínuo entre 1 946 e


1950 no sentido de organizar j ornais trabalhistas. Vários pe­
riódicos desse teor aparecem no decorrer do período, mas,
ao que tudo indica, apenas um deles pertenceu efetivamen­
te ao PTB. É o jornal A Democracia, que reaparece em
abril de 1945 com um programa inicialmente popular e sem
ligações políticas com partidos. Em junho de 1946 o jornal
passa para o controle da recém-criada empresa Saigom -
Sociedade Anônima de Indústria Gráfica O Marmiteiro. O
nome da organização é uma alusão direta à campanha pre­
sidencial de 1945 e ao incidente dos ''marmiteiros'', tão
bem capitalizado à época pelos partidários da candidatura
Outra. Com uma orientação nitidamente getulista, o jornal
é comprado pelo PTB no início de 1 947, passando então a
fazer uma ampla propaganda do partido e alimentando
em suas páginas a expectativa do retorno de Vargas. Convi­
vendo com uma situação financeira extremamente difícil,
A Democracia é fechado em novembro desse mesmo ano.
Outros periódicos deram também cobertura às ques­
tões do trabalhismo, embora não se definissem explicita­
mente como órgãos ligados a qualquer partido. Esse era o
caso do jornal Diretrizes ( 1945 a 1950), da Revista Trabalhis­
ta (dezembro de 1949 a agosto de 1 950) e Diretriz Operária
(março a junho de 19S 1 ) . De suas páginas brota excelente
material para a análise dos trabalhismos, em suas difcren­
tes concepções, assim como transparecem claramente as di­
ficuldades para se chegar a uma linha mais consensual quan­
to ao que deveria ser o papel e a posição do PTB face à
doutrina trabalhista.
Se, por um lado, ao fim do governo Outra, o PTB
continuava enfrentando dificuldades organizativas, se as re­
lações com o Ministério do Trabalho obstaculizavam sua
atuação e, se em termos doutrinários os entendimentos eram
precários, por outro, pode-se verificar que a liderança de
Vargas fora suficiente para manter a espinha dorsal do par­
tido e para garantir sua eleição presidencial em 1950.
O ''queremos' ' volta
as ruas

No período de 1946 a 1950 as forças políticas dominan­


tes diagnosticariam, sempre e com muito cuidado, que a
possibilidade do retorno do então senador Vargas ao poder
não era tão remota. Decididamente, o general Eurico Gas­
par Outra fora eleito presidente da República graças a seu
apoio. Não havia despontado nos meios políticos uma lide­
rança popular capaz de corroer seu prestígio, e a campanha
queremista, em 1950, já ganhara as ruas. Por todo o país
são criados comitês pró-candidatura Getúlio Vargas.
Do ponto de vista de Outra e dos udenistas, deveria
ser formulada uma alternativa viável capaz de impedir a
vitória do ex-presidente. Para tanto ensaiou-se uma alian­
ça entre UDN e PSD, visando o lançamento de um candi­
dato de união nacional. Essa fórmula, quer por intransi­
gências partidárias, quer por obstáculos de convivências
entre esses partidos, acabou falhando, e os dois, assim co­
mo em 1945, compareceriam ao pleito com candidatos pró-
pr10s.
Embora ambos os partidos tivessem o mesmo temor
quanto ao retorno de Vargas, estavam inscritos em referen­
ciais díspares: o prestígio eleitoral do PSD passava pela não
S3

hostilização ao getulismo; ao passo que com a UDN aconte­


cia exatamente o contrário. Tal incompatibilidade ficou ex­
pressa em 1948, quando esses partidos ensaiaram um acor­
do interpartidário

visando principalmente a sucessão presi-
dencial e buscando para tanto uma solução consensual.
Neste caso particular, a UDN cogitava de uma alternativa
que, reunindo as principais correntes políticas, fosse capaz
de marginalizar o getulismo. Essa era uma posição extrema­
mente contraditória para o PSD, que não consegue, portan­
to , efetivá-la.
Enquanto os dois partidos referidos discutem, sem su­
cesso, fórmulas e hipóteses para a apresentação de um can­
didato de consenso que excluísse o nome de Vargas e margi­
nalizasse as forças populistas, Vargas entrará em cena osten­
tando exatamente seu lado popular, formando junto a Ade­
mar de Barros - governador de São Paulo - uma frente
populista. Sua candidatura é uma resposta à incapacidade
do sistema partidário em oferecer alternativas satisfatórias
a nível das próprias elites e terá, também, um sentido de
desforra daqueles que o haviam deposto em 1945 .

A candidatura de Vargas em 1950

Vargas entrava na disputa eleitoral com um forte res­


paldo para sua campanha. Isso se dava não porque viesse
desfraldando a bandeira do PT B, partido do qual era patro­
no vitalício, mas porque se apresentava como a única lide•
rança política capaz de sobrepor-se a interesses particulares
e aos partidos existentes. Tais condições eram por ele enfa­
ticamente ressaltadas como habilitação essencial para o bom
desempenho das funções de governo.
O que se pode observar de forma nítida naquele mo­
mento político é que, mais uma vez, despontava a relação
ambígua entre getulismo e trabalhismo. Vargas, se não era
o candidato do PT B - e sim da coligação PT B-PSP -,
54

voltava ao principal papel da cena política pelas mãos do


trabalhismo, confundido por muitos com o que já passava
a ser nomeado de populismo. Fora contra esta tendência po­
lítica que PSD e UDN tentaram um acordo e provavelmen­
te só não foram bem-sucedidos porque populismo, trabalhis­
mo e getulismo se matizavam com tal sutileza que até as ra­
posas do PSD tiveram dificuldades para fechar o lance.
No entanto, o candidato - desde o primeiro momento
- não se identifica como uma solução de partido, mas exa­
tamente como um nome suprapartidário. Getulismo nesta
acepção excede trabalhismo/PTB e não por questões de acor­
do interpartidário. Getulismo/queremismo é uma força po­
lítica centrada na legitimidade e popularidade pessoal de
Vargas, que não reconhece e não valora positivamente o pa­
pel da organização partidária.
Getulismo é trabalhismo, se nesta associação a dimen­
são privilegiada for a ideológica, ou seja, aquela de uma
proposta política fundada na resolução da questão social e
na mobilização dos trabalhadores pelo sistema sindical cor­
porativista. Mas getulismo não é trabalhismo em termos
partidários e, em decorrência, não se identifica com o PTB.
Neste sentido, talvez se possa arriscar que getulismo fosse
mais populismo: um estilo de fazer política que tinha em
Vargas seu mestre maior, mas que fazia escola, como a lide­
rança de Adernar de Barros demonstrava.
É nesse contexto que Getúlio, em seu discurso eleito­
ral, reflete um acentuado interesse pela questão social. Não
poupa críticas à administração de Outra e demonstra uma
séria preocupação com a defesa dos interesses econômicos
nacionais. Propugnava por um padrão de governo cuja fun­
ção política básica fosse representar e expressar diretamen­
t.e os interesses da nação sem intermediários. Essa propos­
ta inseria-se dentro de parâmetros que relegavam para se­
gundo plano o papel do sistema partidário na articulação
de interesses, assim como limitava a legítima participação
popular à instâ�cia corporativa dos sindicatos.
55

Para Vargas, sua candidatura surgia de um apelo popu­


lar e da incapacidade de o sistema partidário gerar uma so­
lução mais adequada às necessidades nacionais. Não sen­
do fruto de um acordo partidário por ele acionado,• Vargas
se apresentava como solução inevitável diante das indeci-
sões e intransigências dos partidos. Resultado de sua isen­
ção frente à disputa partidária em torno de nomes, essa can­
didatura seria também um produto do seu empenho num
programa em defesa da conciliação geral.
Frente ao embate político-partidário em torno de alter­
nativas presidenciais, o candidato Vargas apresentava co­
mo vantagem o fato de nada ter reivindicado para si. Isso
o legitimava diretamente junto às massas, que haviam fica­
do alijadas ou marginalizadas do debate sucessório.
O caráter personalista de uma candidatura que afir­
ma não buscar benefícios pessoais ou partidários será o prin­
cipal trunfo para que Vargas se apresente ao eleitorado. A
insistência com que afirma sua condição de independência
frente a interesses políticos organizados pode ser constata­
da em diversos pronunciamentos. Apresentando-se dessa
forma, coloca-se como o defensor daqueles que, por suas
condições precárias de vida, não haviam conseguido ainda
se fazer representar nem merecer a atenção quer das agre­
miações políticas, quer do poder estabelecido. Com essa po­
sição, apresenta-se como o futuro dirigente que, a partir
de uma ação desvinculada das instituições político-partidá­
rias e de grupos de pressão, irá governar para interesses
não-organizados que afirma visualizar e perceber.
O apartidarismo de Vargas inclui algumas referências
concretas a mecanismos alternativos de participação políti­
ca. Nesse sentido, sua preocupação é a de vivificar a força
do trabalhismo construído no Estado Novo. Assim, os sin­
dicatos são instrumentos básicos para levar adiante sua pro­
posta de governo, fortemente baseada, para fins de campa­
nha, na problemática social. Segundo Vargas, o ''que a so­
ciedade moderna aspira é ao trabalhismo - ou seja, a bar-
56

monia entre todas as classes, a democracia com base no tra­


balho e no bem-estar do povo''. E a solução apontada pe­
los princípios do trabalhismo indica não ser a ''predominân­
cia desta ou daquela casta que há de trazer a almejada feli­
cidade humana. Nem a ditadura do proletariado, nem a di­
tadura das elites''. 1

1 VARGAS, Getúlio Dornellcs. A campanha presidencial; discursos. Rio


de Janeiro, José Olympio, 1 95 1 . p. 419.
O trabalhismo volta
ao poder?

V itorioso nas eleições - graças também ao apoio do


PSD, que ' 'cristianizou' ' seu próprio candidato (Cristiano
Machado) -, Vargas levava para o governo uma pauta de
procedimentos políticos que refletia bastante seu discurso
eleitoral. Preocupado com a conciliação nacional, organi­
zou o primeiro gabinete, denominado ''Ministério da Expe­
riência''. Este caracterizou-se pela presença de várias corren­
tes partidárias, inclusive a UDN, e pela fraca expressão do
PT B, ao qual coube apenas o Ministério do Trabalho, exa­
tamente como no governo Outra. Desenvolvendo uma am­
pla política de alianças junto a civis e militares, Vargàs criou
uma situação bastante contraditória. Sua intenção declara­
da era instaurar um governo trabalhista. Mas, de um lado,
não prestigiava devidamente o PT B, partido que melhor po­
deria expressar esse objetivo; e, de outro, fortalecia o con­
junto das forças conservadoras. A fragilidade dessa compo­
sição não conseguiu aglutinar o PT B; desgostou os setores
militares e alimentou as desconfianças da UDN. Uma vez
que com este partido Vargas ensaiava, desde o início de seu
governo, uma política de aproximação, a cúpula udenista
reagiu, alegando uma crise de confiança em relação ao pre-
58

sidente, o que impossibilitava o estabelecimento de acordos.


Mesmo participando do ministério, a U DN colocaria sem­
pre em dúvida a ' 'sinceridade de propósitos' ' do governo,
postura que evoluiu para a oposição intransigente.
Essa oposição ainda era mais significativa porque ali­
mentada por toda a grande imprensa nacional. A única ex-
ceção foi o jornal Ultima Hora, criado em junho de 1951
para ser uma voz favorável ao regime e ao chefe do governo.

O PTB a o gabinete ministerial

É interessante observar que as primeiras dissensões mi­


nisteriais ocorreram exatamente nas esferas do PTB e da
ala nacionalista militar, tidas, desde a campanha, como
pontos essenciais de sustentação do governo . Em setembro
de 1951 Danton Coelho deixou a pasta do Trabalho devi­
do a conflitos internos do PTB , sendo substituído por ou­
tro petebista, Segadas V iana. Em março seguinte, o gene­
ral Estillac Leal, representante dos grupos nacionalistas nos
meios militares, abandonaria a pasta da Guerra em função
de divergências com os termos das negociações efetuadas
pelo ministro do Exterior, João Neves da Fontoura (PSD),
para o Acordo Militar Brasil-Estados Unidos.
A escolha de Danton Coelho para o Ministério do Tra­
balho tivera significado político bem delineado. Durante a
campanha sucessória, fora um elemento fundamental nas
articulações com os meios militares, visando a absorção
do nome de Vargas. Após o pleito fora transformado pelo
presidente recém-eleito, e ainda não empossado, no respon­
sável pelo tratamento dos assuntos de política interna jun­
to ao governo Outra, até que se efetuasse a mudança de
mandatos, da mesma forma que J oão Neves da Fontoura,
encarregado das questões de política externa.
Danton era um elemento da maior importância junto
ao governo e um homem do PTB. Sua ida para a pasta
59

do lrabalho pode ser interpretada como uma tentativa de


partidarizar o ministério. E, talvez por essa razão, sua ad­
ministração inaugura uma espécie de período de ''caça às
bruxas''. Muitos daqueles que haviam servido ao governo
Outra e que não tinham aderido ao PT B ou se filiado à cam­
panha de Vargas tornaram-se suspeitos. Não há punições,
mas afastamentos. A velha-guarda de funcionários do mi­
nistério ou é substituída ou se retira voluntariamente. Esse
procedimento de fundo político tem implicações administra­
tivas e desarticula o próprio funcionamento do ministério,
uma vez que atinge o corpo de funcionários estabelecidos
desde o Estado Novo e que fora mantido pelo próprio Outra. 1
Sendo o �T B um partido em permanente convulsão,
a orientação usada para realizar a simbiose entre a pasta
do Trabalho e o partido é duplamente desastrosa: desarticu­
la o ministério e desorienta ainda mais o PT B.
Danton, que acumulava a presidência da Executiva Na­
cional do PT B com a pasta do 1rabalho, Indústria e Co­
mércio, afastou-se do segundo em setembro de 1951, acu­
sando Vargas de lhe impor sucessivas derrotas. Danton com­
pletaria sua trajetória, no período, ameaçando abandonar
o PT B e dando apoio a uma convenção na União Ferroviá­
ria do Brasil , no Rio de Janeiro, na qual se objetivava a
criação da Frente lrabalhista Brasileira. Ou seja, procura­
va articular mais um partido trabalhista, do qual seria pre­
sidente e cujo objetivo era denunciar os desvios elitistas
que a proposta trabalhista vinha sofrendo sob o governo
Vargas. Embora essa iniciativa não tenha sido levada avan­
te, é um indicador da posição crítica de Danton em relação
à atuação de seu sucessor no ministério e também em rela­
ção ao próprio PT B.
Com a saída de Danton, a pasta do Trabalho é ocupa­
da por José de Segadas Viana, ex-diretor do Departamen­
to Nacional do Trabalho ao fim do Estado Novo e um dos

1 Hugo de Faria (depoimento). FGV /CPDOC, História Oral . p. 67-8.


60

fundadores do PTB. Sua administração terá um teor ambí­


guo. Ao lado de medidas de cunho liberalizante , como o re­
torno dos ''antigos funcionários' ' , o aumento do salário
mínimo em 1952 (o primeiro desde sua criação em 1943) e
o fim do atestado de ideologia para os candidatos às direto­
rias sindicais, Segadas pôs em prática medidas inequivoca­
mente repressivas. Reacionou os serviços de informação
do Ministério do Trabalho, visando o controle direto e siste­
mático das lideranças sindicais. Longe de superar os proble­
mas do ministério, irá, ao contrário, aprofundá-los, pois
sua política não agrada nem ao PTB, nem aos sindicatos,
nem à massa trabalhadora. O aumento do salário mínimo
seria considerado insuficiente para corrigir as perdas sala­
riais - o que se expressava nas constantes e crescentes gre­
ves a partir de 1953. É no bojo de uma das mais significati­
vas dessas greves - a dos marítimos no Rio de Janeiro
- que se explicita de vez o conflito entre o Ministério do
Trabalho e João Goulart, presidente nacional do PTB des­
de junho de 1951 . É nesse momento que Segadas renuncia,
sentindo-se desprestigiado em sua orientação política. A mu­
dança nessa pasta é o sinal mais evidente e conhecido da
crise por que passava o governo Vargas.

Goulart no Ministério do Trabalho

Uma das saídas para contornar a crise seria exatamen­


te a reforma ministerial efetuada em meados de 1 953. Esta
mudança de gabinete tem sido interpretada como um mar­
co decisivo, porque indicaria uma ''virada à esquerda' ' .
Não obstante a escolha de João Goulart possa ser vista co­
mo uma retomada mais agressiva do ''populismo trabalhis­
ta" de Vargas, a reformulação do gabinete, que poupou
as pastas militares, significava principalmente uma nova in­
vestida junto aos conservadores, particularmente a UDN.
À exceção do Ministério da Agricultura, que continuou ten-
61

do João Cleofas (UDN) como seu titular, as outras seis pas­


tas civis foram alteradas. Dessas, apenas uma coube ao
PTB - como sempre a do Trabalho -, enquanto as ou­
tras cinco foram divididas entre a UDN ou simpatizantes
udenistas e o PSD.
Em que pese a presença de Goulart e sua reconhecida
influência junto ao movimento sindical, é forçoso admitir
que o novo staff não se caracterizava por uma orientação
ideológica à esquerda. As greves que haviam eclodido entre
março e abril de 1953, em São Paulo e Rio de Janeiro, tor­
navam claro o descontentamento dos trabalhadores com a
administração de Vargas. Mesmo que a atuação do novo mi­
nistro do Trabalho corrobore a tese de uma reativação do
movimento sindical, isso não significa que tenha havido,
por parte do governo, um plano deliberativo de beneficiar
as forças nacionalistas e de esquerda. Desde o início o go­
verno adotara uma posição francamente conciliatória em re­
lação aos difcrentes interesses regionais e partidários em de­
trimento até mesmo do próprio PTB. Convivera com posi­
ções e interesses político-ideológicos bastante díspares, ora
cedendo às expectativas nacionalistas, como no caso da Pe­
trobrás, ora a outras de cunho mais internacionalista ou
mesmo imperialista, como por ocasião do Acordo Militar
Brasil-Estados Unidos. Este movimento pendular foi a tôni­
ca de todo o período, ao contrário do que usualmente se supõe.
A nomeação de Goulart para o Ministério do Trabalho
é o mais ousado gesto de Vargas para recuperar a confian­
ça dos trabalhadores. Dentro da perspectiva getulista, no
entanto, procurar a reaproximação com as classes trabalha­
doras não significa abrir um confronto com o patronato
ou com os interesses das classes dominantes. Mas tal inicia­
tiva, a despeito de não se confundir com uma proposta es­
querdizante, desperta sérios temores junto às forças conser­
vadoras, em particular entre os militares.
Como presidente do PTB, Goulart vinha desenvolven­
do uma orientação política de maior aglutinação das forças
62

trabalhistas e de maior identidade entre o partido e os meios


sindicais. Nesse sentido, não é difícil perceber o choque de
orientações dessa nova liderança, com relação ao ministro
anterior, Segadas Viana. Este, seguindo o figurino estado­
novista, via a pasta do Trabalho como o instrumento de tu­
tela do movimento sindical. Jango inaugura uma outra mo­
dalidade de fazer política trabalhista, quer dentro do parti­
do, quer dentro do ministério, quer em suas articulações
com o sindicalismo. Em relação aos dois últimos, sua admi­
nistração permitirá maior liberdade para as lideranças sindi­
cais, derrubando na prática o atestado dt: ideologia, que ha­
via terminado, juridicamente, um ano antes.
Ao liberalizar a política sindical, Goulart buscava
uma reaproximação desta com o PTB e ao mesmo tem­
po abria campo para a atuação do PC, vislumbrando a
possibilidade de trabalhar aliado a este partido. Esta alian­
ça visaria mais explicitamente as questões de política sin­
dical e de política econômica de cunho nacionalista. Pe­
la primeira vez, desde 1946, os comunistas passaram a go­
zar de uma margem de liberdade oficiosa para atuar na­
quele que seria seu meio por excelência: a classe trabalha­
dora.
Do ponto de vista administrativo duas outras observa­
ções devem ser feitas. A primeira diz respeito à distribui­
ção partidária na administração das autarquias da previ­
dência entre funcionários do ministério e dirigentes sindi­
cais. Isso é tão mais importante, à medida que se enten­
der que as lideranças sindicais vão aliar a esse recurso de
poder uma autonomia política até então desconhecida. A
segunda refere-se às diretrizes traçadas para a fixação de
um novo salário mínimo, o que não se limitava apenas a
um aumento circunstancial. Era uma proposta que, alte­
rando a composição das comissões regionais que deveriam
estudar e estipular os níveis salariais, apontava para uma
política mais permanente de acompanhamento e atualiza­
ção salarial.
63

Jango a os trabalhadores

Na atuação de Jango no ministério, não podem ser mi­


nimizadas as inovações que dizem respeito ao estilo de rela­
cionamento com as lideranças sindicais e com as massas tra­
balhadoras. A maior figura ministerial até então fora Mar­
condes Filho, que inaugurara, ainda no Estado Novo, uma
prática constante de contatos com os trabalhadores. Falan­
do pelo rádio semanalmente, comparecendo a sindicatos e re­
cebendo lideranças, Marcondes criara a imagem do ministro
acessível e a serviço da classe trabalhadora. Mas tudo era
feito preservando-se a ' 'aura' ' de autoridade pública. Mar­
condes portava-se sempre como um homem de governo com
um verniz pessoal aristocrático.
Goulart avançava nesse relacionamento e em parte rom­
pia com ele. Sua passagem pelo ministério é marcada por
um estilo mais informal e flexível no tratamento das ques­
tões sociais. Não era somente o ministro que falava aos tra­
balhadores e os ouvia. Efetivamente ele estabelecia negocia­
ções e fazia concessões, praticando uma informalidade até
então inédita. Intensificando seus contatos diretos com os
sindicatos, recebendo freqüentemente suas lideranças no ga­
binete ministerial ou comparecendo a eventos promovidos
por entidades de trabalhadores, Goulart não estava apenas
estreitando suas bases de apoio. A proposta era alcançar is­
to, transformando suas promessas em atos jurídicos do mi­
nistério. Esta preocupação em fundamentar popularidade e
liderança política em procedimentos legais efetivos tem a ní­
tida inspiração do modelo de Vargas. Jango,' contudo, rei­
naugura essa tradição, ao desmistificar a figura da autorida­
de, aproximando-a do povo e colocando-a à altura de sua mão.
Vários depoimentos demonstram muito bem essa ima­
gem que estamos fixando. Amaral Peixoto, por exemplo,
define-o como ' 'o gaúcho típico, homem de fronteira, de to­
mar chimarrão no galpão com os peões, de dar intimida­
de' '. Essa intimidade chegava ao ponto de, quando presi-
dente da República, lideranças sindicais dirigirem-se a ele
na segu nda pessoa do singular . 2 Por t udo isso.. Goulart inau­
gura nas palav ras de J osé Gomes Talarico
uma nova fase no Ministério do Trabalho. É a fase do direi­
to de g reve. da abol ição do atestado de ideologia. de não in­
terferência no processo elei toral dos sindicatos. Enfim . as
mudanças se dão a partir da gestão de Jango. que evidente­
mente as fez por orientação do dr. Getú l io . 3

Mas nen hum depoimento é tão rh;o quanto o de Hu


go de Faria :
Quando é que um d i rigente sindical ia à casa d e um ministro
a qualquer hora? Com o dr. João Gou l art qualquer sujeito
Que queria falar com ele ia ao Hotel Regente e falava. As au·
d iências públicas no M i n i stério do Trabalho passaram a ser
assustadoras. Uma vez por semana. centenas de pessoas
chegavam para as audiências. que começavam às Quatro ho
ras da tarde e acabavam à meia-noite. uma hora da manha
Enfim. houve realmente um renascimento pelo informalismo
de Jango. pelo estado de espírito dele - até certo ponto pa
ternalista - de precisar falar com todo mundo. 4

A estada de Goulart no ministério, embora curta, foi


suficiente para causar impactos de várias ordens. Passou­
se a t emer . ainda mais , a participação polít ica dos trabalha
dores . o crescimento do trabalhismo e do PTB e, mais uma
\'ez, a possibilidade de instauração de uma república sindi
calista no Brasil.
Por tudo isto aumentam as pressões que redundaram
na saída de Goulart do ministério, em fevereiro de 1954.
Vargas dessa feita não nomeia um novo ministro do Traba­
lho, que seria o quarto de sua administração. Mantém. até
agosto. um ministro interino: Hugo de Faria. o então dire
tor do Departamento Nacional do Trabalho e homem de

: Ernâni do .4,111arul Peixoto (depoimento). FGV1CPIX>C. História Oral . p. 712 .


.t José Go111es Talttrico (depoimento). FGV/CPDOC. História Oral. p. 9R .
-' Hu.eo de Faria (depoirnento). FGV ICPDOC. Hi�tória Oral. p . 89
65

confiança de Goulan. Para a UDN, tal atitude indicava cla­


ramente a recusa de Vargas em reorientar sua política traba­
lhista. Se isso era verdade, era igualmente muito difícil esco­
lher um novo titular para a pasta.do Trabalho, ponto nevrál­
gico da crise política do governo.

Vargas e a crítica lnterac;io com o PTB

O esforço de conciliação com os setores mais conserva­


dores não domou a oposição militar e udenista. Diferente­
ment e, foi interpretada por esta como mais um ''trabalho
de sedução'' para atrair a UDN. Este partido continuaria
sua ferrenha oposição à política econômica inflacionária,
denunciando o avanço das massas e o ''perigo getulista'' ,
assim como a crise moral do governo e a existência de pla­
nos continuístas de Vargas.
Nesse contexto, em que se evidencia uma decisão ob­
sessiva para depor o presidente, a ' 'denúncia João Neves' '
foi fundamental. O ex-ministro das Relações Exteriores, in­
compatibilizado com Vargas, declarou à imprensa, no início
de 1954, estar ciente da existência de um plano secreto en­
tre Getúlio e Perón objetivando a formação de um bloco
continental de caráter político e econômico com_posto por
Argentina, Brasil e Chile (Pacto ABC). Este plano visaria
fazer frente à hegemonia norte-americana no hemisfério
sul. Essa revelação veio acompanhada de outra que postula­
va estar Vargas planejando a instauração de uma repúbli­
ca sindicalista no Brasil em moldes peronistas.
A partir daí, a renúncia do presidente seria insistente­
mente solicitada no Congresso e na imprensa. A UDN,
em aliança com os setores militares, participará intensamen­
te dessa jornada, responsabilizando diretamente Vargas por
todos os possíveis problemas que o país estivesse enfrentan­
do. Contudo, a forte reação que resultou na saída de João
Goulart da pasta do Trabalho não impediu a aprovação
66

de um aumento de 1000'/o no salário mínimo a 1 � de maio


de 1954. Em meio a uma situação tensa o Congresso exami­
naria o pedido de impeachment para Vargas, sob a alega­
ção formal de i rregularidades administrativas na Comissão
Central de Preços . A proposta de impeachment é derrota­
da por 135 votos contra 35 votos, em junho de 1954. O mo­
vimento pela deposição de Vargas ganharia, entretanto, no­
vo alento quando do assassinato do major Rubens Vaz. O
crime, ocorrido a 5 de agosto, resultava de um atentado
contra o político e jornalista Carlos Lacerda (diretor do Tri­
buna da Imprensa, jornal antigetulista), no qual ficou cons­
tatada a participação da guarda pessoal de Vargas.
A situação de crise que o país atravessava tinha dimen­
sões bastante personalizadas . Tratava-se, principalmente,
de um movimento contra a permanência de Vargas no po­
der e contra o getulismo, para o qual concorreu decidida­
mente ·a ação militar que daria o veto final ao governo .
Um balanço do período que vai de 1945 a 1954, sob
a ótica do PTB, revela pontos substanciais. Após um perío­
do de repressão ao movimento sindical , correspondente ao
governo Outra é um ministro trabalhista que promove a li­
beralização deste movimento. A iniciativa visava não só
fortalecer as bases de apoio do governo como também rea­
tivar o apelo t rabalhista no meio operário. Entretanto essa
liberalização acaba por aumentar a competição política · no
interior do movimento sindical, possibilitando um novo vi­
gor aos comunistas que estavam em franca oposição ao go­
verno. Além disso, abriu espaço para outras correntes co­
mo o janismo em São Paulo, ou seja, o PTB tem que divi­
dir os resultados de sua política com outras forças que lhe
' . .
sao r1va1s.
Do ponto de vista governamental os ganhos do PTB
foram inexpressivos. Em termos ministeriais o partido con­
trolou apenas a pasta do Trabalho, Indústria e Comércio e
mesmo assim de farma efetiva apenas no governo Vargas.
Vale lembrar que no governo Outra apenas com o ministro
67

Negrão de Lima, pelo curto espaço de dez meses, o PTB te­


ve alguma relação mais próxima com esta pasta.
Se o partido teve fraca participação a nível ministerial,
também sua atuação no Congresso deve ser considerada.
O PTB, terceira bancada no Congresso, não se constitui
em uma base parlamentar de apoio ao governo Vargas nem
mesmo no episódio da criação da Petrobrás. Mais do que
isso, sua participação nas Comissões Técnicas da Câmara
dos Deputados foi pouco significativa. Das 114 comissões
formadas até 1 954 o PTB deteve a presidência de apenas
12. Vale ressaltar que este. é um nível de atuação privilegia­
do através do qual um partido pode influenciar mais direta­
mente o processo de elaboração legislativo defendendo as
posições de seu programa.
Por esses indicadores pode-se constatar que o PTB
não foi um grande partido neste período. Entretanto, co­
mo viemos demonstrando, era uma força política do mais
alto significado. Sua presença junto aos sindicatos, aos ór­
gãos previdenciários e no universo de instituições ligadas à
questão do trabalho, assim como em certas autarquias fede­
rais, sugere uma linha profícua de investigação. Há portan­
to que, incorporando estes dados, reinterpretá-los mais de­
tidamente em outra dimensão.
11
O trabalhismo sem
Vargas

.. A crise que levaria ao desfecho traumático do go\'er


no, em agosto de 1 954, ti nha a marca da personalização .
Para seus opositores o que estava em jogo era expurgar o
get ulismo da política brasileira, dando-se para tanto uma
demonstração de força que tornasse imperativo e irreversí­
vel o afastamento de Vargas do poder.
Em 1930 e 1937 Vargas conseguiu se estabelecer no po­
der graças a um esquema militar que o apoia"ª· Embora se
t ransformasse numa grande liderança polít ica , sempre que
lhe faltou esse suporte, seu poder esteve comprometido. As­
sim foi em 1945 e em 1 954. No primeiro caso estavam em
jogo tanto a mudança do regime quanto a permanência de
Vargas - ditador - no poder. Mas o golpe de 1 945 ficaria
marcado na história como uma intervenção militar contra
o Estado Novo. Em 1954 a sit uação é diferente: o regime
não �stá em questão . É o próprio Vargas - presidente cons­
titucional - que está sob julgamento. O que ocorre é fran­
camente uma investida no sentido de livrar o regime da in­
fluência de Vargas.
O tom personalista da crise reflete nitidamente a precá­
ria instit ucionalização da política nacional , para a qual
69

muito havia concorrido o estilo de atuação do próprio Var­


gas. O suicídio, em 24 de agosto de 1954, reforçará esta
percepção da política: a população, ao lamentar nas ruas
a morte de seu grande líder, não só reabilitava sua figura
como criava uma situação política bastante incômoda pa­
ra seus opositores. A reação da UDN neste episódio pode
ser interpretada como um misto de ' 'depressão e euforia''.
Festejava o desaparecimento daquele que era o alvo de
suas críticas, mas ficava acuada frente ao movimento popu­
lar que a condenava pela responsabilidade da morte do pre­
sidente. Por outro lado, com o desaparecimento de Vargas,
os udenistas perdiam seu grande elo de coesão interna. 1
Em termos políticos, o suicídio, além de ilibar a lideran­
ça do presidente e criar constrangimentos na oposição, terá
efeitos importantes na formação de uma frente antigolpista,
visando a manutenção da ordem constitucional. De certa for­
ma, o contexto gerado pelo suicídio evidencia a fraqueza da
política institucional, mas propicia o surgimento de uma po­
sição majoritária na defesa das instituições e da ordem legal.
A revitalização do getulismo é um ponto alto nessa con­
juntura. Mas o getulismo tornara-se um movimento de mas­
sas acéfalo. Desfeita a relação líder-massa e considerando­
se que a liderança personalizada não poderia ser facilmente
transferida, a sobrevivência histórica do getulismo passaria
a depender de sua absorção pelo sistema partidário. De for­
ça paralela e concorrente aos partidos, o getulismo passa a
partir de então a ser componente estratégico do sistema par­
tidário da aliança PSD-PTB. Vale dizer, o getulismo seria as­
similado por partidos heterogêneos, o que levaria ao. esvazia­
mento como movimento social. Isso porque também não
foi possível o surgimento de outra liderança populista, que
conseguisse se legitimar na qualidade de herdeira indiscutí­
vel do carisma do ex-presidente e de suas obras trabalhistas.

1 BENEVIDES, Maria Victória. A UDN e o udenismo: ambigüidades no libe­


ralismo brasileiro (/945-65). Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981 . p. 90.
70

O que se observa é a proliferação de vários líderes que dispu­


tam entre si o comando do movimento de massas no Brasil.
Isso foi feito de formas políticas variadas. Havia, con­
tudo, uma característica comum. Procurava-se sempre bus­
car a maior proximidade com a grande massa da população
identificando-se as propostas à figura pessoal do líder e não
a seu partido, o que é característico do populismo. Nesse
ponto, todos eram herdeiros do getulismo. Diferiam deste,
entretanto, no que diz respeito ao próprio conteúdo da men­
sagem populista bem como no estilo pessoal de sua encenação.
Thncredo Neves exprimiu bem este ponto quando situa
sua versão do assunto.

A não ser as exibições de 1 � de maio, você não tem noticia


do Getúlio freqüentando sindicatos ou recebendo líderes tra­
balhadores. Ele os tratava com mu ito respeito, mas os aten­
dia nas reivindicações quando justas e no essencial. O popu­
l ismo no Brasil realmente foi uma deformação do getul lsmo;
foi Adernar de Barros, o próprio JAnlo, todo esse conjunto
de homens q ue deformaram o getullsmo. O populismo foi
uma caricatura do getulismo.2

Discorrendo sobre esse mesmo aspecto Alzira Vargas


também marca claramente o que considera ser a tônica do
estilo político de seu pai.
De uma certa maneira, eu o comparava às vezes ao Roose­
velt, que, embora tivesse nascido de uma famflla rica, era
u m homem que tinha u m grande sentido popular, sem ser po­
pulista. Há uma grande diferença entre o populismo e o po­
p ular. O populista corteja o povo, às vezes de uma maneira
baixa ... Meu pai nunca tirou o paletó para fingir que era povo. 3

Como se pode observar nos depoimentos acima, a pre-


servação da imagem de Vargas caminha ao lado da distin-

2ROCHA LIMA, Valentina da, coord. ct alii. Getúlio: uma história oral.
Rio de Janeiro, Graal, 1986. p. 259.
3 Idem. ibidem, p. 252.
71

ção entre populismo e getulismo e da associação entre getu­


lismo e trabalhismo.
Diretamente vinculado aos expedientes populistas, mas
não só em função disso, o movimento de massas no Brasil
tomará ímpeto na década de 1950 para ser violentamente in­
terrompido com o golpe militar de 1964. O trabalhismo foi
uma das muitas facetas desse movimento.
Por estar mais associado ao getulismo que ao PT B, o
trabalhismo sofreu os efeitos das transformações que ocor­
rem após a morte de Vargas. Se antes não comparece politi­
camente como movimento integrado, isso seria acentuado
com o desaparecimento de seu líder maior. O trabalhismo
dilui-se por vários partidos e lideranças.
Sendo objeto de várias leituras e apropriações, tanto po­
deria representar uma ligação fisiológica com o Estado co­
mo um instrumento efetivo de emancipação popular. O cres­
cimento eleitoral do PTB, que se transformou no segundo
maior partido em representação parlamentar nas eleições de
1962, permite essas duas leituras. No entanto, o que ficou
das propostas originais do trabalhismo n�se PTB bem-suce­
dido eleitoralmente é ainda um ponto de interrogação. As
acesas discussões sobre o populismo no Brasil deixam isso
muito claro.
De qualquer forma, o prognóstico de Maciel Filho,
após os resultados eleitorais de 1945, foi confirmado. Se­
gundo ele, os partidos de futuro no Brasil teriam que se di­
rigir maciçamente ao povo. Em suas palavras: ''Eu, franca­
mente, não acredito no êxito popular dentro de um clima
democrático de qualquer partido liberal ou conservador. Es­
tamos no século XX e não no século XIX''. 4
Maciel Filho, contudo, não poderia prever que, no tra­
tamento das questões democráticas, o Brasil teria dificulda­
des para ultrapassar o século XIX. làmpouco que nosso
país tivesse tantos problemas em comportar, institucional­
mente, um grande partido de massas democrático.

4 Arquivo Getúlio Vargas. GV 45. 12.11/2. FGV/CPDOC.


12
Vocabulário crítico

Asse111bleia /\'acional Constituinte: conjunto de representan ­


tes escolhidos pelo povo para elaborar a Constituição
de um país, ou seja, para elaborar os princípios e as leis
máximas que devem reger uma nação. A Constituinte
de 1 946 foi formada com os representantes eleitos em 2
de dezembro de 1 945, perfazendo um total de 328 consti­
tuintes. As principais bancadas eram : PSD ( 1 5 1 ), UDN
(77)� PTB (22) e PCB ( 1 5). Os t rabalhos foram iniciado,
em 5 de fevereiro de 1 946 e terminaram en1 1 7 de setem­
bro� quando o país ganhou sua quinta Constituição . Era
a terceira, contudo, q ue resultava de um poder constituin­
te, posto que as de 1 824 e de 1937 foram outorgadas. A
Constituição liberal de 1 946 permaneceu sem retoques
significativos até abril de 1 964, e em 1 967 foi substituída
por no\'a Carta , desta feita outorgada pelo governo militar .
Caris111a: o termo foi consagrado na tipologia estabelecida
por Max Weber quanto às formas de dominação. O ca­
risma refere-se à crença que a massa possui de que o lí­
der ou chefe, detentor de qualidades excepcionais, inova­
doras ou revolucionárias� possui também poderes divi-
73

nos ou mágicos. Algumas lideranças carismáticas se tor­


naram notórias no século XX, entre elas Getúlio Vargas
no Brasil, Hitler e Fidel Castro.
Crise de agosto de 1954: o segundo governo de Vargas
( 1951 -1954) foi marcado pela manutenção e até mesmo am­
pliação das liberdades políticas, por um amplo projeto
de desenvolvimento econômico apoiado nas teses naciona­
listas e por uma intensa mobilização popular, particular­
mente em torno da defesa do monopólio estatal do petró­
leo. Do ponto de vista sindical, extinguiu-se a exigência
do atestado de ideologia, obrigatório desde o Estado No­
vo para os trabalhadores que desejassem se tornar dirigen­
tes sindicais, e manteve-se certa tolerância para com o mo­
vimento grevista, que se intensificou a partir das greves
de 1953 em São Paulo. O personalismo do presidente, as­
sociado a uma situação de partidos emergentes, não pro­
piciou uma satisfatória institucionalização do sistema par­
tidário. O governo foi alvo de críticas e ataques por par­
te das forças antigetulistas, mas não contou com o devi­
do apoio institucional para sua defesa. Nos últimos anos
de governo o quadro era de extrema instabilidade políti­
ca e militar, e o presidente se manteve sempre no centro
dos acontecimentos. Houve neste sentido uma personaliza­
ção da crise, em nome do argumento udenista de que o
regime corria sérios perigos nas mãos de um ditador histó­
rico que estaria disposto a ceder aos interesses esquerdi­
zantes dos sindicatos. Em meio a várias denúncias, a fa­
mília do presidente foi acusada de mandante do atenta­
do contra o jornalista Carlos Lacerda, que resultou na
morte do major Vaz, da Aeronáutica. No dia 24 de agos­
to, após ouvir seu ministério e receber uma intimação mi­
litar para afastar-se do poder, Getúlio se suicidou .
Cristianização: na campanha para as eleições presidenciais
de 1950, o Partido Social Democrático (PSD) lançou co­
mo candidato Cristiano Machado, importante nome da
74

política mineira. Com o decorrer das articulações políti­


cas e diante da candidatura de Getúlio Vargas lançada
pelo PTB e PSP, partido do paulista Adernar de Barros,
o PSD acabou por dar seu apoio ao antigo líder, abando­
nando seu próprio candidato. A partir daí, ''cristiani­
zar'' um postulante a cargo político significa faltar com
o apoio formalmente concedido.
Democratização de 1945: o fim do Estado Novo é assinala­
do por esta data, embora a partir de 1943 uma série de
transformações estivessem surgindo timidamente no uni­
verso político brasileiro. O esgotamento do modelo auto­
ritário era percebido pelos próprios mentores estado-no­
vistas, que se dedicaram ao estudo de uma forma de tran­
sição que pudesse ser conduzida pelo alto, controlando
a mobilização popular e a insatisfação militar. A entra­
da do Brasil na guerra, compondo com os Aliados, aju­
dou sem dúvida a forjar uma situação que impelia o
país a definir-se em favor da causa democrática. A demo­
cratização de 1943-45 , bem mais rápida do que a dos go­
vernos militares, que se iniciou nos anos 70 e que uma
década depois ainda não estava definida, também se no­
tabilizou pelo domínio que os donos do poder exerceram
sobre as regras da mudança e sobre os novos centros de
decisão que se formaram. O exemplo mais clássico foi
o Partido Social Democrático, que reuniu a cúpula esta­
do-novista e que até 1964 foi sem dúvida o partido que
mais concentrou recursos de poder.
Estado Novo: cronologicamente situado entre 10/ 1 1 / 1937
e 29/10/ 1945, foi caracterizado por seu cunho ditatorial
e por seu centralismo administrativo, político e econômi­
co. Regido em parte por uma Constituição outorgada
que ficou conhecida como ' 'Polaca'', teve Getúlio Var­
gas como seu chefe maior, apoiado nas Forças Armadas
e numa nova burocracia estatal. Foi nesse período que
o ditador se firmou como liderança política e que o mo-
75

vimento sindical foi nitidamente controlado pelo Esta­


do. Marcado pela censura e a repressão, ficou também
caracterizado como um período de intensa propaganda
política e pela ênfase num projeto industrial de desenvol­
vimento nacional. Tal projeto deixou como grande símbo­
lo a construção da Companhia Siderúrgica Nacional,
que marcou o início da implantação das indústrias de ba-
se no pais.
Por tudo isso a herança política do Estado Novo é ambí­
gua, e não por acaso ele é relembrado tanto como um
momento de grandeza quanto como um momento de vio­
lência política. Sem dúvida, a associação entre autorita­
rismo e desenvolvimento econômico e social deve muito
a este período de nossa história.
Getulismo: como todo movimento que se forma em torno
de uma pessoa, não pode ser definido por um conjunto
de idéias precisas. Representou e ainda representa corren­
tes de opinião favoráveis à política e ao estilo do ex-dita­
dor Getúlio Vargas. Getulismo esteve por muito tempo
associado à defesa da legislação social produzida duran­
te o governo de Vargas e à sua política econômica nacio­
nalista. Getulismo era também um poderoso instrumen­
to eleitoral no sentido de definir campos de posições re­
presentadas pelos candidatos e pelos partidos. A. princi­
pal bandeira da UDN, por exemplo, foi o antigetulismo.
Finalmente, getulismo não pode ser pensado sem uma re­
ferência à liderança pessoal de Vargas, e esse é um atribu­
to intransferível.
Hora do Brasil: programa radiofônico destinado a transmi­
tir diariamente e por todas as estações de rádio do país
notícias políticas referentes à atuação governamental.
Foi criado em maio de 1934 por Getúlio Vargas. Intitula­
do originariamente Hora Nacional, ocupava o horário
das 20:30 - 21 :30, e seu objetivo imediato foi preparar
o ambiente do país para o resultado do pleito presiden-
76

cial indireto a se realizar no mês de julho do mesmo ano,


que elegeu Vargas presidente constitucional.
Posteriormente denominado Hora do Brasil, o progra­
ma sofreu alterações de horário e de emissão, mas nun­
ca deixou de ser transmitido. No período do Estado No­
vo era ironicamente chamado de ''o fala sozinho'', mas
é inequívoco que o rádio e mesmo a Hora do Brasil de­
sempenharam papel importante na construção da figura
de líder do então chefe de Estado, Getúlio Vargas.
Legislação social: conjunto de leis destinadas à regulamenta­
ção do mercado de trabalho, abarcando, no caso brasi­
leiro, norma� que dizem respeito: à legislação trabalhis­
ta ou legislação de fábrica propriamente dita, regulado­
ra das condições de trabalho no processo produtivo; à le­
gislação previdenciária, reguladora da distribuição de ser­
viços e benefícios devidos àqueles que participam ou par­
ticiparam do esforço de produção; à legislação sindical,
reguladora das condições de organização e participação
da classe trabalhadora e também das condições de asso­
ciação de interesses dos setores patronais; e à legislação
criadora de uma Justiça do Trabalho, encarregada de di­
rimir conflitos sociais na esfera do direito, impedindo
sua aberta e direta deflagração.
Ministério do Trabalho: criado como Ministério do Traba­
lho, Indústria e Comércio em novembro de 1930, logo
após a revolução, caracterizou-se como um dos princi­
pais centros da política varguista. Manteve-se sob esta
designação até o ano de 1962, quando foi desmembra­
do em Ministério da Indústria e Comércio e Ministério
do Trabalho e Previdência Social. Esta conformação foi
mais uma vez alterada no ano de 1974, dando origem
aos atuais Ministério do Trabalho e Ministério da Previ­
dência e Assistência Social.
Ao longo da história política desta pasta ministerial, po­
de-se observar momentos em que deteve posição-chave
77

na dinâmica das questões políticas nacionais. A partir


de 1964, contudo, passa a sofrer um progressivo esvazia­
mento, com razoável perda de poder, mesmo no que diz
respeito a assuntos eminentemente afetos à sua competên­
cia específica.
Partido Comunista Brasileiro: chamado inicialmente Parti­
do Comunista do Brasil, o PCB articulou-se em inícios
da década de 20, tendo como organizadores algumas das
principais lideranças que haviam militado no movimen­
to anarquista nos anos 10. Fundado em 1922 como um
partido legal , logo caiu na clandestinidade, assim perma­
necendo durante toda a sua história, com exceção do
breve período de 1945-47, em meio ao clima de democra­
tização. A despeito deste fato, o partido atuou sistemati­
camente realizando alianças político-partidárias em mo­
mentos eleitorais significativos e participando de impor­
tantes campanhas políticas ao longo do tempo. São exem­
plos: a organização do Bloco Operár;..) e Camponês (a­
nos 20); a formação da Aliança Libertadora Nacional (a­
nos 30); o movimento queremista (anos 40); a campanha
do petróleo (anos 50) e o movimento pelas reformas de
base (anos 60). O PCB sofreu várias cisões e só recente­
mente, com a reforma partidária de 198S, retornou à le­
galidade, juntamente com outros partidos comunistas,
lançando e tendo eleito candidatos sob sua própria legenda.
Partido Social Democrático: o PSD foi o principal partido
nacional no pc.·íodo de 194S a 1965 . Criado a partir das
estruturas regionais de poder montadas pelo Estado No-
• • •
vo - as 1nterventor1as -, caracterizou-se por seu tom
conservador, por um tímido reformismo social e por
um papel central na administração pública.
Partido Trabalhista Brasileiro: o PTB originou-se da estrutu­
ra sindical corporativa do Estado Novo e, junto com a
UDN e o PSD, foi um dos mais importantes partidos bra­
sileiros em termos eleitorais e em termos de ressonância
78

política. Foi o partido que mais se utilizou do legado getu­


lista, e cedo perdeu seu cunho sindicalista, embora nun­
ca tenha abandonado seus vínculos com os órgãos públi­
cos ligados à política previdenciária, assistencial e sindical.
Em 1963 era o segundo maior partido no Congresso Na­
cional e a principal organização dentro da Frente Parla­
mentar Nacionalista, que lutava pelas reformas de base.
Pelego: diz o Aurélio que pelego é a pele do carneiro com
a lã, usada nos arreios à maneira de xairel . É também
a designação comum aos agentes mais ou menos disfarça­
dos do Ministério do Trabalho que atuam nos sindicatos
operários. E, em sentido figurado, refere-se à pessoa sub­
serviente, capacho.
Estes múltiplos sentidos, consagrados não só pelo uso,
mas pela historiografia que trata do tema do sindicalis­
mo, convergem para a idéia central do pelego como um
trabalhador "seduzido" ou mesmo ''vendido' ' ao poder
do Ministério do Trabalho, atuando, como a pele de car­
neiro, como um ''amaciador' ' de atritos, ou, numa visão
mais crua, como uma espécie de traidor da classe trabalha­
dora. Esta figura aparece na história do movimento ope­
rário a partir da década de 30, por força dos mecanis­
mos de cooptação da burocracia do Estado, e ganha
maior terreno à medida que se reforça o processo de bu­
rocratização dos sindicatos brasileiros ao longo das déca­
das de 40, 50 e 60.
Só recentemente, sob os estímulos das transformações
por que tem passado o movimento sindical dos anos 70
e 80, a literatura histórica e política começa a se interes­
sar por rever as origens e o papel deste verdadeiro mito
do sindicalismo brasileiro.
Populismo: o termo é vago e teoricamente impreciso. É usa­
do para referir-se a uma série de manifestações nitida­
mente distintas. Podemos citar o populismo dos intelec­
tuais soviéticos, o populismo agrário norte-americano
79

e os tipos de populismo que invadiram os países latino­


americanos. Estes últimos apresentam características mais
ou menos específicas, na medida em que se vinculam a
processos intensos e desordenados de modernização. No
Brasil, assim como em outros países em desenvolvimen­
to, o termo tem sido usado para definir um tipo especial
de arranjo político no qual os partidos não são devida­
mente institucionalizados, e a própria sociedade não ama­
dureceu formas organizadas e estáveis de participação.
Estas características, associadas ao fato de que o Estado
brasileiro tem tido um amplo papel de intervenção e dire­
ção, possibilitaram mecanismos diferenciados de participa­
ção em relação aos modelos clássicos da Europa. O país
viveu, em períodos muito curtos, intensos processos de
transformação econômica e técnica que não se fizeram
acompanhar na mesma velocidade por transformações so­
ciais e políticas. Estes fatores, para enumerar apenas al­
guns, contribuíram sobremodo para que se estabelecesse
uma íntima relação entre o líder pessoal e a massa desor­
ganizada e carente, que via no líder e no Estado um meio
eficaz de fazer chegar mais rápido suas demandas aos cen­
tros de decisão. Por seu lado, o Estado construiu um dis­
curso enfatizando seu papel de organizador de uma am­
pla aliança de interesses sociais, econômicos e políticos,
voltada para o bem-estar nacional.
Queremismo e movimento queremista: expressões usadas pa­
ra identificar as manifestações populares que defendiam
em fins de 1945 a continuação de Vargas no poder atra­
vés do slogan ''Queremos Getúlio " . Esta campanha foi
em grande parte apoiada e sustentada pelo próprio gover­
no. O termo foi retomado e intensivamente usado por
ocasião da campanha presidencial de Vargas em 1950, ten­
do mostrado similar capacidade de mobilização, desta fei­
ta em conjuntura bem distinta da que lhe deu origem.
80

Sindicato: uma das formas de organização de interesses


que se desenvolveu ao longo do século XIX por distin­
ção aos partidos políticos que passavam a monopolizar
o campo da representação política liberal.
No Brasil, a tradição associativa dos trabalhadores regis­
tra uma série de denominações para seus instrumentos
de organização. Entre elas pode-se citar as uniões, os
centros, as ligas, as resistências, entre outras. O termo
sindicato ganha força a partir dos anos 10, com a ascen­
são do anarquismo e de seu modelo de sindicalismo de
ofício voltado para a ação direta contra o patronato.
Com a fundação do PCB em 1922 e com sua expansão
em fins desta década, o sindicato ganhou mais adeptos,
desta feita ligado a uma proposta de sindicalismo de in­
dústria articulado à luta político-eleitoral .
Porém, é só nos anos 30, com a criação do Ministério
do Trabalho e com a primeira lei de sindicalização, que
o termo se consagra como designação para as associa­
ções de classe dos trabalhadores. Neste caso, o modelo
de sindicato concebido estava como que a meio caminho
entre duas experiências clássicas: a trade-union inglesa,
entidade de direito privado cujas lideranças estão funda­
mentalmente voltadas para os membros da associação,
e o sindicato fascista italiano, entidade de direito públi­
co cujas lideranças se definem pelos vínculos com o apa­
relho governamental . No Brasil, o sindicato foi defini­
do como um órgão colaborador do Estado, por ele reco­
nhecido e regulado, mas tendo suas lideranças eleitas pe­
los membros associados.
Sindicalismo corporativista: no Brasil, a primeira lei de sin­
dicalização decretada logo após a Revolução de 1930
- março de 1931 - consagrou um modelo de organiza­
ção de interesses que inovou em pontos fundamentais a
prática associativa de patrões e trabalhadores. A marca
principal deste novo sistema foi o controle exercido so-
81

bre as associações pelo poder do Estado. Assim, os sin­


dicatos foram definidos como órgãos consultivos e de co­
laboração do poder público, devendo ser reconhecidos
oficialmente pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Co­
mércio, para o que era necessário o atendimento de uma
série de exigências. Ficou estabelecido o princípio da uni­
dade sindical, embora a sindicalização permanecesse for­
malmente facultativa. Ficou também expressamente veda­
da aos sindicatos a propaganda ou veiculação de ideolo­
gias políticas ou religiosas.
Estas foram as bases do sindicalismo corporativista que
a partir daí se estruturou no país e que, apesar das altera­
ções sofridas com a lei de sindicalização de 1934, foi re­
forçado pela nova lei de 1939 e sustentado em seus pon­
tos básicos pela Assembléia Nacional Constituinte de 1946.
Trabalhismo: termo mundialmente conhecido para concei­
tuar a trajetória dos trabalhadores em busca de seus di­
reitos econômicos, políticos e sociais. Esse movimento,
datado basicamente do século XIX, incluía a luta pelo
reconhecimento dos sindicatos enquanto interlocutores le­
gítimos, a defesa do direito de representação política
dos trabalhadores e a criação de partidos de trabalhado­
res. O caso mais célebre é o do trabalhismo inglês, do
qual derivou no iníci� do sé�ulo XX o Labour Party.
No Brasil, con't tido, tràbalhismo esteve sempre mais asso­
ciado a uma política pública estatal do que a uma inter­
venção autônoma do movimento dos trabalhadores.
Trabalhismo getulista: desta maneira ficou conhecido no
país o conjunto de leis e providências legais tomadas du­
rante os governos de Vargas visando a garantia de direi­
tos aos trabalhadores e a regulação do mercado de traba­
lho. Numa versão oficial que se tornou hegemônica, o
Estado teria liderado o processo de criação e concessão
das leis sociais, antecipando-se às demandas dos traba­
lhadores e controlando as condições objetivas de imple-
12

mentação de uma política trabalhista. O termo remete


também à idéia de que é possível estabelecer uma políti­
ca harmônica entre capital e trabalho. Embora trabalhis­
mo não possa ser redutível a getulismo, o que se verifi­
cou no processo de industrialização brasileira foi a asso­
ciação entre esses dois termos, criando-se uma grande
confusão. Ser antigetulista foi por isso associado a ser
antitrabalhista, e por muito tempo o país teve que convi­
ver de maneira cuidadosa com termo tão importante e
tão carregado de personalismo.
União Democrática Nacional: a UDN foi um partido nacio­
nal de oposição a Vargas e ao Estado Novo, criado em
1945 e extinto pelo Ato Institucional n� 2, de outubro
de 1965 . Esteve sempre entre os três principais partidos
brasileiros do período e notabilizou-se pelo tom liberal
de seu discurso e pelos ataques ao populismo personalis­
ta. Contudo, abrigou também experiências desse tipo, a
exemplo do ' 'lacerdismo'' na Guanabara, envolvendo o
estilo e a ação do governador Carlos Lacerda.
Bibliografia comentada

ARAÚJO, Maria Celina Soares D'. O segundo governo Var­


gas 195/-1954; democracia, partidos e crise política. Rio
de Janeiro, Zahar, 1982.
O livro examina a última administração de Vargas, dan­
do ênfase aos aspectos políticos que marcaram os momen­
tos de tensão daquele período. A política partidária é ana­
lisada com especial cuidado, particularmente aquela que
afeta diretamente o Partido Trabalhista Brasileiro, em prin­
cípio o partido do presidente. É feita também uma incur­
são no movimento getulista desde a deposição de Vargas
em 1945 até seu retorno em 1951 . Com isso se demonstra
claramente como, naquela situação de partidos emergen­
tes, a força de liderança de Vargas foi fator de desestabili­
zação partidária, mas foi, ao mesmo tempo, elemento pa­
ra a formação de um consenso em tomo de que tipo de
alianças eram passíveis de se estabelecer com algum suces­
so. Como obra de referência, o livro ainda discute de que
forma a linha de ação getulista foi sedimentada nesse mo­
mento atrav� de uma série de iniciativas de ordem econô­
mica e social que em muito contribuíram para aumentar
a liderança personalista do ex-ditador e tomá-lo presa
mais fácil dos setores antiestatizantes e antigetulistas.
84

BENEVIDES, Maria V ictória de Mesquita. O velho PTB pau­


lista. Partido, sindicato e governo em São Paulo;
1945- 1964. São Paulo, Brasiliense, no prelo.
Trata-se de um trabalho pioneiro sobre o PTB paulista,
que analisa com propriedade as diversas facetas da instabi­
lidade que tanto marcou esta seção do partido. O livro dis­
cute a versão de que isso ocorria devido à sua fraqueza e
demonstra, ao contrário, sua força nas alianças locais e
também em nível nacional. A pesquisa evidencia os laços
sólidos que se estabeleceram entre o PTB paulista, os go­
vernos estaduais e algumas correntes sindicais. Em se tra­
tando de São Paulo, o estudo não poderia deixar de fazer
uma reflexão sobre as relações entre o partido e as lideran­
ças populistas locais, particularmente Adernar de Barros
e Jânio Quadros. Permeando essas discussões, é notória a
presença da figura de Ivete Vargas, a "dona do partido",
que empreendeu alianças e acordos os mais díspares para
com isso preservar a qualquer custo seu domínio partidário.
BODEA, Miguel. Trabalhismo e populismo; o caso do Rio
Grande do Sul. Dissertação de mestrado apresentada
ao Departamento de Ciências Sociais da Universidade
de São Paulo. São Paulo, 1 984. Mimeografado.
O trabalho abrange a atuação do PTB gaúcho no perío­
do de 1945 até fins da década de 1950, acompanhando
o desempenho do partido nas eleições locais, bem como
a atuação de suas principais lideranças. A partir da obra
de Alberto Pasqualini, o texto faz uma discussão da dou­
trina trabalhista do PTB e de seus vínculos com outras
correntes doutrinárias do trabalhismo. Além do exame
das lideranças partidárias locais, o trabalho analisa tam­
bém as relações entre trabalhismo e populismo.
ERICKSON, Kenneth Paul. Sindicalismo no processo políti­
co no Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1979.
O livro se estrutura em torno de três eixos básicos que
se articulam com a reflexão mais global sobre o peso
da participação do movimento sindical no processo poli-
85

tico nacional. Cobrindo o período que vai basicamente


da Revolução de 1 930 ao golpe de 1964, são discutidas
as bases legais e políticas da organização trabalhista bra­
sileira; o papel e o desempenho do Ministério do Traba­
lho; e a atuação dos líderes trabalhistas, em especial fren­
te aos movimentos grevistas da década de 60, concluin­
do-se com as novas características assumidas pelo sindi­
calismo corporativista após 1964.
FERREIRA, Marieta de Morais. Partido Trabalhista Brasilei­
ro (PT B). ln: BEL0CH , Israel & ABREU, Alzira Alves de,
coords. Dicionário histórico-biográfico brasileiro; 1930- 1983.
Rio de Janeiro, Forense-Universitária/CPDOC/Finep,
1984. V . 3, p. 2599-2610.
Trata-se de um texto escrito como verbete e , como tal,
sua grande contribuição é recolher, selecionar e organi­
zar uma série de informações sobre a atuação do PT B
em diversos momentos da história do Brasil. Desta for­
ma, o programa do partido, sua participação nos diferen­
tes governos e as principais questões que o mobilizaram
e dividiram são apontadas e descritas.
FUCHTNER, Hans. Os sindicatos brasileiros; organização e
função política. Rio de Janeiro , Graal, 1980.
O livro é uma análise dos vários momentos que marca­
ram a história do movimento sindical brasileiro, desde
os sindicatos livres da Primeira República até o sindica­
lismo corporativista que funcionava às vésperas do gol­
pe de 1964. Importa destacar que é dos poucos textos
que combinam o estudo da experiência sindical urbana
com a análise da estruturação dos sindicatos de trabalha­
dores rurais, bem como de seus movimentos sociais: Li­
gas Camponesas e sindicalismo católico, por exemplo.
GOMES, Angela de Castro. A invenção do trabalhismo. São
Paulo, Vértice, 1988.
O livro discute a questão da extensão da participação po­
lítica no Brasil, destacando, numa primeira parte, as pro­
postas que foram articuladas por grupos organizados e
86

vinculados à classe trabalhadora durante toda a Primei­


ra República. O argumento é o de que ao longo destas
décadas estruturou-se toda uma experiência social que en­
volvia tanto as relações de trabalho quanto as relações po­
líticas mais amplas, e que o Estado do pós-30 encampa­
rá estas práticas dando-lhes novo significado. A constru­
ção de um pacto entre trabalhadores e Estado é interpre­
tada assim, numa segunda parte, não só como o produ­
to da troca de benefícios sociais por obediência, como
igualmente um contrato pelo qual dois atores se reconhe­
cem politicamente. A invenção do trabalhismo como ideo­
logia de mobilização e controle, a montagem da estrutu­
ra sindical corporativista e a fundação do PTB dão con­
cretude ao novo interlocutor e ator da política brasileira,
a partir de 1945 marcada por uma participação ampliada.
LOYOLA , Maria Andrea. Os sindicatos e o PTB; estudo de
um caso em Minas Gerais. Petrópolis, Vozes, 1980.
Trata-se de um estudo sobre a atuação política e sindi­
cal dos trabalhadores do sindicato da indústria têxtil de
Juiz de Fora, uma das cidades mineiras de maior tradi­
ção e presença na economia e política do Estado. Este
sindicato foi área de atuação de Clodsmith Riani, um
dos mais importantes líderes sindicais do PTB, que ocu­
pou por muitos anos a presidência da Confederação Na­
cional dos Trabalhadores na Indústria, tornando-se no
início da década de 60 um dos principais dirigentes do
Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). O livro mos­
tra o processo de inserção dessa categoria profissional
no PTB e, a partir daí, como o sindicato se orientou pa­
ra as questões da política nacional, deixando em segun­
do plano as atividades voltadas para o atendimento das
reivindicações de caráter local e setorial.
MARANHÃO, Ricardo. Sindicatos e democratização (Brasil
1945/1950). São Paulo, Brasiliense, 1979.
Como o título indica, o texto é uma análise do período
da democratização de 1945, com ênfase no papel desem-
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penhado pelo movimento operário e sindical e pelo PCB.


Em sua análise o autor destaca a dificuldade das rela­
ções entre sindicatos e lideranças de esquerda e a multi­
plicidade de problemas e iniciativas que fugiam ao con­
trole das referidas lideranças. É um momento agitado
por inúmeras greves, marcado pela emergência de novas
práticas reivindicatórias - como a das comissões de fá­
brica - e também por várias cisões e alianças entre gru­
pos que militavam no movimento operário.
MARTINS, Heloisa H. T. de Souza. O Estado e a burocrati­
zação do sindicato no Brasil. São Paulo, Hucitec, 1 979.
O livro acompanha o processo de burocratização dos sin­
dicatos brasileiros desde a década de 30 até 1964. As ques­
tões da ordenação jurídica das relações de trabalho, do
reconhecimento oficial das organizações sindicais e da
crescente burocracia que administra estes sindicatos são
analisadas cuidadosamente ao longo do texto. O livro
trata também das características das greves, da política
salarial e do tema da autonomia sindical. Esse processo
de burocratização, segundo a autora, fez com que os di­
rigentes sindicais conseguissem formular reivindicações
de cunho reformista e defender apenas uma distribuição
mais justa de renda para os trabalhadores.
PEIXOTO, Alzira Vargas do Amaral. A criação do Partido
Trabalhista Brasileiro. Ensaios de Opinião. Rio de Janei­
ro, 3 (2 + 1 ) : 17-9, 197 5.
O artigo narra os objetivos que nortearam Getúlio e a eli­
te estado-novista na criação do PTB em 1945. A autora de­
fende uma tese muito difundida de que o partido foi uma
invenção bem planejada para atrair a massa dos trabalha­
dores no período de democratização diante da expansão
do Partido Comunista Brasileiro, que voltava à legalida­
de. Segundo essa visão, o país precisava de um partido
de massas que servisse de cunha ao comunismo, e o PTB,
criado a partir das estruturas oficiais de poder, vinha exa­
tamente com esse objetivo e para cumprir esse papel.
li

SIMÃO, Azis. Sindicato e Estado. São Paulo, Ática, 198 1 .


Obra que se tornou clássica por seu pioneirismo na elei­
ção do tema, pelas valiosas informações coletadas em
variadas fontes e, sobretudo, pela interpretação susten­
tada acerca das relações entre sindicato e Estado .no
Brasil . O texto analisa e aponta, por exemplo, uru pro­
cesso de concentração e racionalização crescente nas re­
lações de trabalho urbano, com o desenvolvimento do
planejamento da ordem econômico-social e a instaura­
ção de um sistema normativo de regulamentação do
mercado de trabalho . Para o autor, a posição assumi­
da pelo Estado no pós-30, institucionalizando e ao mes­
mo tempo garantindo direitos aos trabalhadores, corres­
pondia em boa parte à experiência social já praticada
nas relações de trabalho urbano nas décadas anteriores .
O que o modelo do pós-30 trazia de novo era principal­
mente a restrição destas relações ao quadro normativo
estabelecido pelo Estado.
SOARES, Glaucio Ary Dillon. Sociedade e política no Brasil.
São Paulo, Difel, 1973.
Estudo clássico, metodologicamente orientado pela pers­
pectiva da sociologia política, traça o perfil do sistema
partidário brasileiro durante o período republicano até o
golpe de 1964. O livro é rico em informações sobre com­
portamento políticô e resultados eleitorais, estabelecendo
correlações entre o desenvolvimento econômico, os índi­
ces de urbanização e industrialização e o desempenho par­
lamentar e eleitoral dos diferentes partidos. Em sua pers­
pectiva o PTB aparece como uma opção política das clas­
ses trabalhadoras, mas sua expansão levou-o a perder a
característica de um partido eminentemente urbano.

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