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Organologia

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A organologia é a disciplina que trata da descrição e da classificação de qualquer


instrumento musical, tendo em conta o material empregue, a forma, a qualidade do som
produzido, o timbre, o modo de execução, entre outros.

A organologia também procura classificar os instrumentos de acordo com suas semelhanças


de forma física, articulação do som e timbre em “famílias” instrumentais. Por exemplo, por
suas semelhanças físicas, sonoras e de articulação, os violinos, violas, violoncelos e
contrabaixos são participantes da família das “cordas friccionadas” pois sua fonte sonora é a
mesma — tradicionalmente, a fricção das cordas dos instrumentos com o arco — e suas
tessituras diferentes se completam criando uma grande tessitura geral da família,
semelhante ao que acontece em um quarteto de flautas doces (soprano, contralto, tenor e
baixo).

Índice
História
Classificação
Classificação tradicional[1]
Classificações científicas[7]
Mahillon
Galpin — 1.º sistema
Hornbostel–Sachs
Schaeffner
Galpin — 2.º sistema

Referências

História
O estudo sistemático dos instrumentos nem sempre teve a importância que tem hoje.
Embora sempre tenha havido representações e descrições dos instrumentos, somente a
partir do Renascimento[1][2] começou a existir maior preocupação com sua identificação,
havendo um consequente incremento de obras teóricas que procuraram sistematizar esse
estudo. Na história da classificação dos instrumentos alguns marcos podem ser
assinalados[1][2]:

Em 1325, o professor francês Jean de Muris criou um sistema de classificação em que dividia
os instrumentos em:

tensibilia — instrumentos com cordas tensas;


inflatibilia — instrumentos que são soprados;
percussibilia — instrumentos que são percutidos;

Em 1511, o sacerdote alemão Sebastian Virdung na obra “Musica Getutscht und Ausgezoge”
apresentou a seguinte classificação:

instrumenten mit Saiten — instrumentos com cordas;


instrumenten mit Röhren in die geblasen wird — instrumentos acionados pela
respiração humana ou por vento artificial;
instrumenten von Metalle oder anderen clingende Materien — instrumentos de
metal ou de outros materiais ressoantes;

Em 1619, o compositor alemão Michael


Praetorius publicou a obra “Syntagmatis
Musici Michaelis Praetorii C” (que veio a ser
mais conhecida por Syntagma Musicum).
Tornou-se uma obra de referência porque
não apenas agrupava os instrumentos em
famílias, mas também dava algumas
indicações sobre as dimensões e construção,
além de ser amplamente ilustrada.

Em 1637, o padre francês Marin Marsenne


Uma página do Syntagma Musicum.
publicou a “Harmonie Universelle”, em que
os instrumentos vêm agrupados em famílias,
mas sem nenhuma classificação sistemática.

Em 1863, o musicólogo belga Auguste Gevaert foi um dos pioneiros[2] da organologia


moderna quando no seu “Traité général d’instrumentation” propôs uma classificação
baseada numa antiga classificação indiana:

instruments à cordes — instrumentos de cordas;


instruments à vent — instrumentos de sopro;
instruments étirés avec une membrane — instrumentos esticados com uma
membrana;
instruments autophoniques — instrumentos autofónicos;
Em 1914, a dupla de etnomusicólogos, o austríaco Erich von Hornbostel e o alemão Curt
Sachs, publicaram a “Systematik der Musikinstrumente”. Este sistema (que passou a ser
conhecido como o sistema Hornbostel–Sachs), embora apresentasse algumas falhas, é o
sistema que tem tido maior aceitação[1] e é amplamente utilizado por músicos e
musicólogos.

Em 1932, o francês André Schaeffner publicou o artigo “D’une nouvelle classification


méthodique des instruments de musique”, na revista “Revue Musicale”.

Classificação
Existem vários modos de classificar os instrumentos musicais. Esses diversos modos
dependem do autor, do tipo de sistema utilizado, da época e também do local (ou cultura)
em questão.

Por exemplo, na cultura chinesa, tradicionalmente classificam-se os instrumentos consoante


o material. Um sistema datado do 1.º milénio A. C. divide os instrumentos em[1][3][4]:

qin — instrumentos em metal;


shih — instrumentos em pedra;
go — instrumentos em pele;
pao — instrumentos em cabaça;
zhu — instrumentos em bambu;
mu — instrumentos em madeira;
xu — instrumentos em seda;
tu — instrumentos em barro;

Outro exemplo, na cultura indiana, tradicionalmente classificam-se os instrumentos


consoante o modo de produção sonora. Um sistema datado do século I, divide os
instrumentos em[2][3][4][5]:

tata vādya — instrumentos tensos;


avanaḍha vādya — instrumentos cobertos;
ṣūsirā vādya — instrumentos ocos;
ghana vādya — instrumentos sólidos;

Presentemente, nas culturas de herança greco-romana existem dois principais sistemas de


classificação: a classificação tradicional e as classificações científicas. No entanto,
nenhum desses dois principais sistemas pode considerado melhor porque “as classificações
existentes refletem as necessidades e a cultura de quem as elabora”[6].

Classificação tradicional[1]
Nas culturas de herança greco-romana, tradicionalmente classificam-se os instrumentos
consoante o modo em que são tocados: beliscados ou friccionados (instrumentos de
corda), soprados (instrumentos de sopro), percutidos (instrumentos de
percussão). Essa organização tripartida remonta desde a Grécia antiga. Embora seja um
sistema antigo e bem conhecido, não é sistemático, é mais aplicável aos instrumentos da
música ocidental, e não está preparado para novos instrumentos.

Os instrumentos de corda agrupam os instrumentos


cujo som é produzido por uma corda esticada. O
critério aqui é, portanto, o modo de produção
sonora, agrupando vários métodos de ativação
(por beliscamento, por fricção, e em alguns casos
até por percussão). Tradicionalmente, esta classe é
subdividida em critérios ora de execução (família
das vielas: cordas friccionadas; famíla das guitarras:
cordas beliscadas) ora morfológicos (família de
instrumentos de teclado).

Os instrumentos de sopro agrupam os instrumentos Uma amostra de instrumentos de


cujo som é produzido mediante um sopro de ar cordas: um quarteto de cordas.
(artificial ou infligido por um ser humano). O
critério aqui já é o método de ativação.
Tradicionalmente, esta classe é subdividida segundo
o objeto que funciona como ativador (lábios:
metais; palhetas ou aresta: madeiras).

Os instrumentos de percussão agrupam os


instrumentos cujo som é produzido mediante um
choque entre objetos. O critério aqui é novamente o
método de ativação, independentemente do
modo de produção sonora ser um corpo sólido ou
uma membrana esticada. Tradicionalmente, esta
classe é dividida segundo a função (rítmica:
percussão de altura indefinida; melódica: percussão
de altura definida). Uma amostra de instrumentos de sopro:
um clarinete, um saxofone e um trompete.
Como pode ser observado, este sistema, para além
de não ser sistemático (critérios diferentes
conforme os casos) é incompleto:

nos instrumentos de corda não costumam estar listados instrumentos cujas cordas são
ativadas pelo ar (ex.: harpa eólica);
nos instrumentos de sopro não costumam estar representados os instrumentos cujo
som é produzido pela deslocação do ar, mas que não são soprados (ex.: pião musical);
em contrapartida, costumam estar incluídos nos instrumentos de sopro instrumentos
cujo som é produzido por um corpo sólido, mas que são soprados (harmónica).
nos insrumentos de percussão não costumam estar representados instrumentos cuja
membrana não é percutida (ex.: sarronca) nem
instrumentos de corpo sólido que não são
percutidos (ex.: berimbau, harmónica de vidro);
alguns autores vão ao extremo de incluir em
instrumentos de percussão alguns instrumentos
apenas devido à sua função rítmica (ex.: apito);

As orquestras sinfónicas ocidentais vieram a


estabelecer uma divisão em cinco classes, que
serve mais aos propósitos da interpretação da Uma amostra variada de instrumentos
música clássica: de percussão.

cordas;
madeiras;
metais;
percussão;
instrumentos de teclas;

O critério para esta divisão provavelmente deriva da ótica do instrumentista: um


violinista, por exemplo, talvez já tenha uma noção do que é tocar guitarra; um flautista
provavelmente aprenderá com facilidade a tocar o saxofone; a noção de ritmo do
percussionista permite-o tocar qualquer instrumento com função rítmica (um tambor, um
prato, em berimbau, etc.); alguém que toca piano de certeza também toca órgão; e assim por
diante.

Outros autores apresentam uma listagem ligeiramente diferente:

cordas;
madeiras;
metais;
percussão;
outros instrumentos;

Classificações científicas[7]

As classificações científicas[8] classificam os instrumentos sobretudo pelo modo de


produção sonora. Têm como base principal princípios acústicos, e não conceitos
morfológicos ou de execução. São sistemas recentes (quase todos eles do século XX)[3] e
tentam abarcar todos os métodos de produção sonora, cronológica e geograficamente[9].
Embora procurem ser rigorosos e sistemáticos, não são amplamente conhecidos, e nem
sempre são de fácil apreensão.

Mahillon
Entre 1880 e 1922, o conservador do museu belga Victor-Charles Mahillon publicou o
“Catalogue déscriptif et analytique du Musée Instrumental du Conservatoire Royal de
Musique de Bruxelles”. A vasta coleção de instrumentos do Conservatório Real Belga, que
abrangia instrumentos de várias partes do mundo, permitiu que se aprofundasse a
classificação de Gevaert em:

autophones — autofones;
autofones percutidos;
autofones beliscados;
autofones friccionados;
membranophones — membranofones;
membranofones percutidos;
membranofones friccionados;
aerophones — aerofones;
palhetas;
flautas;
polifónicos com reservatório de ar;
trompetes;
chordophones — cordofones;
friccionados;
beliscados;
percutidos;

Galpin — 1.º sistema

Em 1910, o britânico Francis W. Galpin apresentou o seu primeiro sistema em “Old English
Instruments of Music: Their History and Character”. Galpin tentou que o segundo nível (a
primeira subdivisão) tivesse um critério uniforme. Neste seu primeiro sistema a primeira
subdivisão era consoante a existência ou não de um teclado ou mecanismo automático:

sonorous substances — substâncias sonoras;


sem teclado;
com teclado;
com mecanismo automático;
vibrating membranes — membranas vibrantes;
sem teclado;
com teclado;
com mecanismo automático;
wind instruments — instrumentos de sopro;
sem teclado;
com teclado;
com mecanismo automático;
stringed instruments — instrumentos de cordas;
sem teclado;
com teclado;
com mecanismo automático;

Hornbostel–Sachs

A dupla de etnomusicólogos, Erich von Hornbostel e Curt Sachs, publicaram a “Systematik


der Musikinstrumente”[10][11][12]. O método não difere muito do proposto por Mahillon. O
termo “idiofone” foi usado para evitar mal-entendidos em que a palavra “autofone” podia
também significar um instrumento que tocava por si só (instrumentos mecânicos).

1. idiophonen — idiofones;
1. idiofones percutidos;
2. idiofones beliscados;
3. idiofones friccionados;
4. idiofones soprados;
2. membranophonen — membranofones;
1. membranofones percutidos;
2. membranofones beliscados;
3. membranofones friccionados;
4. membranofones soprados;
3. chordophonen — cordofones;
1. cordofones simples;
2. cordofones compostos;
4. aerophonen — aerofones;

1. aerofones livres;
2. instrumentos de sopro propriamente ditos;
5. electrophonen — eletrofones;
1. instrumentos acústicos acionados por eletricidade;
2. instrumentos acústicos amplificados eletricamente;
3. instrumentos cujo som é produzido primariamente por osciladores controlados por
tensão elétrica;

A novidade deste sistema foi a utilização de um sistema numérico para identificar os


instrumentos, a classe e as subclasses às quais pertenciam. A nível das subdivisões, o critério
nem sempre é uniforme: enquanto que nos idiofones e nos membranofones a subdivisão é
feita segundo o método de ativação, nos cordofones a subdivisão é feita segundo a
morfologia do instrumento, e nos aerofones a subdivisão é feita conforme o ar é ativado
diretamente ou através de um órgão externo. A quinta classe (eletrofones) foi adicionada em
1940 para albergar instrumentos cuja produção do som é influenciada pela tensão elétrica.

Schaeffner

André Schaeffner em “D’une nouvelle classification méthodique des instruments de


musique” classificou os instrumentos segundo um critério diferente. A principal divisão era
feita através de dois grupos principais:

instrumentos cujo corpo vibratório é um material sólido;


instrumentos rígidos;
instrumentos sujeitos a tensão;
instrumentos cujo corpo vibratório é o ar;
instrumentos em que o ar não está confinado por um objeto;
instrumentos com o ar confinado num objeto;

De notar que, nesta classificação, instrumentos tradicionalmente classificados como


instrumentos de sopro ou como aerofones, tais como o acordeão e a harmónica, estão
integrados na primeira classe, porque o corpo vibratório não é o ar, mas sim um material
sólido (as palhetas livres).

Galpin — 2.º sistema

Em 1937, Galpin apresentou o seu segundo sistema, revisto, na obra “A Textbook of


European Musical Instruments”. Neste seu segundo sistema a primeira subdivisão era
consoante o método de ativação:

autophones — autofones;
autofones percutidos;
autofones beliscados;
autofones friccionados;
autofones soprados;
membranophones — membranofones;

membranofones percutidos;
membranofones friccionados;
membranofones soprados;
chordophones — cordofones;
cordofones beliscados;
cordofones percutidos;
cordofones friccionados;
cordofones soprados;
aerophones — aerofones;
flautados;
palhetados;
labiais;
electrophones — eletrofones;
por oscilação;
eletro-magnéticos;
eletro-estáticos;

Referências
1. Instrumentos Musicais (Henrique, Luís L.; Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian –
2004)
2. Enciclopédia dos instrumentos musicais (Oling, Bert & Heinz Wallisch; Lisboa:
Centralivros – 2004)
3. Atlas de Música (Michels, Ulrich; Lisboa: Gradiva – 2003)
4. Portail ethnomusicologie — Les classifications traditionnelles (ou vernaculaires) (http://w
ww.ethnomusicologie.net/reperestheoriques.htm)
5. Tambours — Musicologie (http://www.tambours.net/spip.php?rubrique31)
6. The New Harvard Dictionary of Music (Malm, William P.; The Belknap Press of Harvard
University Press: Massachusetts, 1986)
7. Instruments and the Electronic Age (Kvifte, Tellef; Oslo: Solum forlag – 1988)
8. Studi introduttivi alla classificazione degli strumenti musicali (http://www.iskoi.org/bagpipe
s/ref.rtf.)
9. Précis de Musicologie (Bran-Ricci, Josiane & Florence Gétreau; Paris: Presses
Universitaires de France – 1984)
10. Virtual Instrument Museum (http://www.wesleyan.edu/vim/svh.html)
11. «Classification Hornbostel–Sachs des instruments de musique» (https://web.archive.org/
web/20070612043247/http://www.crlm.paris4.sorbonne.fr/Classification.pdf) (PDF).
Consultado em 2 de agosto de 2008. Arquivado do original (http://www.crlm.paris4.sorbo
Consultado em 2 de agosto de 2008. Arquivado do original (http://www.crlm.paris4.sorbo
nne.fr/Classification.pdf) (PDF) em 12 de junho de 2007
12. Systematik der Instrumentenkunde (http://www.musiknksa.info/download/445320709/Sys
tematik+der+Instrumentenkunde.pdf)[ligação inativa]

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