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AUTOESTIMA, AUTOIMAGEM E SEXUALIDADE

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ................................................................................................ 03
I – AUTOIMAGEM E AUTOESTIMA .............................................................. 04
II – IDENTIDADE ............................................................................................ 07
III – SEXUALIDADE ....................................................................................... 11
BIBLIOGRAFIA .............................................................................................. 14
INTRODUÇÃO

Lidar conosco é um exercício de fina complexidade. Esta aula visa criar ou


possibilitar a capacidade de olharmos a nossa vida por dentro e avaliar nossas
idiossincrasias e, dentre elas, checar a maneira como nos compreendemos,
julgamo-nos, tratamo-nos e nos amamos. Basta dizer que existem muitas pessoas
que não sabem conviver bem consigo. Convivem e até se relacionam bem com os
outros, mas quando estão sozinhas, é como se estivessem numa escura câmara de
tortura. Não conseguem lidar com suas próprias emoções, lembranças, sensações e
pensamentos.
Existe um mundo interno pouco explorado e que também está na “agenda” das
preocupações de Deus com cada um de nós.
O homem já chegou à lua e sabe muitas coisas do seu mundo externo.
Entretanto, aventura-se pouco e às vezes foge das descobertas sobre si mesmo.
Espero que este curso sobre a sexualidade humana fomente em todos um olhar
diferenciado nos assuntos que envolvem esse tema tão complexo e abrangente que
é a sexualidade.
O gênero humano é um ser biopsicossocial e espiritual, um ser sistêmico, que
vive, interage, influencia e sofre influências todo o tempo. Dessa forma, seu sistema
está em constante conexão e desconexão com outros sistemas. A constituição do
sujeito enquanto compreensão de si mesmo é formada e influenciada por questões
biológicas, psicológicas, sociais e também espirituais. Quando nos propomos a falar
sobre a construção de uma relação saudável com nós mesmos, devemos entender
que as esferas acima citadas contribuem muito com a geração de saúde ou doença
física, emocional, relacional ou espiritual, pois não existimos num vácuo. Somos
reflexo das nossas vivências ou experiências sistêmicas de nossa história de vida.
Saúde não é apenas o cuidar de doenças, mas uma ação de prevenção para que a
doença não se estabeleça em meio às influências e interferências que sofremos em
nossa constituição biopsicossocial e espiritual ou em toda nossa dinâmica de vida ou
ainda em nosso sistema de vinculações.
I – AUTOIMAGEM E AUTOESTIMA

Autoimagem é o modo como a pessoa vê a si própria, como imagina seu


corpo, suas ações, seus movimentos, suas atitudes, sua relação com os outros e
com o mundo - é como a pessoa se vê por inteiro.
Autoestima
A falta de autoestima está associada a transtornos mentais: depressão,
suicídio, desmotivação e insatisfação geral com a vida. A falta de autoestima está
associada a transtornos fisiológicos: disfunção têmpora mandibular, dor lombar,
gastrite, cefaleia, entre outros, conforme Harter (1989) e Rosemberg (1986),
pioneiros nesses estudos.
Muitos autores contribuíram com a compreensão do conceito de autoestima
(Gobitta Guzzo, 2002), entre eles:
• Willian James - Conceito de Self.
• Alfred Adler - Com os trabalhos sobre sentimento de inferioridade e de
aceitação de si mesmo.
• Carl Rogers – Na aceitação incondicional do outro.

Autoestima e Autoconceito
Autoconceito não é sinônimo de autoestima, pois a autoestima é mais ampla e
global e depende dos autoconceitos. Autoconceito é o sistema organizado e
dinâmico de crenças, pensamentos e sentimentos que a pessoa mantém sobre si
mesma.

Autoconceitos são construídos a partir de representação da relação com os outros


e as experiências com o meio. Representação interna de quem a pessoa é. A
autopercepção de várias áreas da vida escolar, atlética, social, etc... também é
resultado do nível de expectativa com o nível de realização pessoal.

Composição dos Autoconceitos


Autoconceito acadêmico, autoconceito profissional, autoconceito social,
autoconceito comportamental, autoconceito físico e autoconceito de atratividade
formam um autoconceito geral.
Autoconceito, então, surge da inter-relação da percepção organizada de:
• Autoimagem (corpo)
• Imagem social (sociedade) e Imagem ideal (pretensão) => Eu real (o
que sou) e Eu ideal (o que pretendo ser)
• Ideal de Eu (o que sei que querem que eu seja)
Quando se avalia a autoestima, é necessário não só avaliar o conjunto de
crenças e expectativas, mas também a importância que o sujeito atribui a essas
áreas em particular.

Definições de Autoestima
Segundo Malle (2001), autoestima é o sentimento de valor que uma pessoa
tem de si mesma, a autoavaliação das características do indivíduo. Para Brockner
(2000), trata-se da autoavaliação favorável das características individuais. Pessoas
com baixa autoestima estão mais vulneráveis a eventos adversos do que pessoas
com nível elevado de autoestima (Brockner, 2000).
Segundo Branden (2000), Autoestima se associa a dois conceitos
fundamentais:
• O Sentimento de competência pessoal;
• O Sentimento de valor pessoal.

Competências Pessoais:
• Autoconfiança;
• Capacidade de pensar e confiança no direito de vencer e ser feliz;
• Sentimento de adequação à vida - depende da avaliação das experiências de
sucessos e fracassos;
• Aspirações e exigências que a pessoa se coloca para determinar o que é
sucesso;
• A forma de reagir às críticas e às rejeições.

Valor Pessoal
• Autorrespeito;
• Autorização interna para defender seus interesses e suas necessidades;
• Sensação de ter valor e ser capaz de alcançar metas;
• O valor percebido dos outros em direção a si mesmo expresso em afeto,
elogios e atenção.
O Valor pessoal é construído na infância. As crianças não nascem
preocupadas em serem boas ou más, inteligentes ou incapazes. Essas ideias
são desenvolvidas a partir dos relacionamentos estabelecidos e do hetero-
conceito (a forma do outro percebê-lo) (Gobitta Guzzo, 2002)
Broos (1990), em seus estudos, concluiu:
• Pessoas com boa autoestima acreditam que o seu sucesso é determinado em
grande parte por esforços e habilidades próprios.
• Pessoas com baixa autoestima são propensas a acreditar que seus sucessos
devem-se à sorte ou a oportunidades, os fatos fora de seu controle, e baixo
sentimento de que terão sucesso no futuro.
No Contexto de trabalho, o fenômeno se repete:
• Profissionais com boa autoestima são motivados e interessados pelo ambiente,
pelos desafios, desde que esse ambiente seja satisfatório e permita novas
oportunidades de crescimento e de desenvolvimento pessoal.
• Assumem para si a responsabilidade pelos seus sucessos e fracassos.

Profissionais com Baixa Autoestima:


Responsabilizam os fatores externos pelo seu sucesso ou fracasso (Lócus de
controle externo).
• Baixo envolvimento com o meio e as tarefas, maior desmotivação, menos
desempenho.
• Baixo nível de realização pessoal e reconhecimento profissional.
• Rejeição a novos desafios.
• Atribuem aos outros a competência e a habilidade para vencer desafios.
• Mais vulneráveis ao estresse, à depressão e às doenças psicossomáticas.
Pessoas dominadas, rejeitadas e sujeitas à punição severa têm a autoestima
debilitada.
• São mais submissas e passivas com os ímpetos de agressão e dominação.
• Menor possibilidade de serem realistas e efetivas no cotidiano.
• Maior probabilidade de apresentar comportamento antissocial.
Condições para formar a Autoestima:
• Experimentar uma aceitação completa de seus sentimentos, pensamentos e
valores pessoais.
• Sentir-se inserido num contexto com limites claramente definidos.
• Ter tido pais não autoritários, nem violentos, que não humilhavam e nem
ridicularizavam seus filhos.
• Ter tido pais com elevados padrões e expectativas em termos de
comportamento e desempenho.
• Ter tido pais com alto nível de autoestima (modelo) (Gobitta & Guzzo, 2002).

Ao mesmo tempo em que vários pesquisadores estudam a função moderadora


da autoestima na ambiguidade e no conceito de papéis (Brockner, 2000; Ganster &
Schaubroek, 2001), outros pesquisadores estudam as influências dos fatores
organizacionais na autoestima dos trabalhadores (Rhodes, 2000). Por ex.: A falta de
autonomia no ambiente de trabalho resulta em sentimentos de baixa autoestima,
frustração e baixa moral.
A sensação de bem-estar físico e a satisfação das pessoas com baixa
autoestima podem melhorar à medida em que os estressores ligados aos papéis
profissionais passem a ser reduzidos. A Clarificação de papéis e a definição de
responsabilidades reduzem os conflitos e as ambiguidades dos papéis.

Fomentando a Autoestima
Sistema de supervisão adequado. Oferecimento de feedback da avaliação de
desempenho; planos de melhoria contínua; estabelecimento de metas; e mais...
papel claramente definido; responsabilidade claramente definida; possibilidade de
decisão no meio ambiente.

Mas, o que é Autoestima?


Ter a autoestima elevada pode fazer a diferença na vida de uma pessoa. Essa
é a afirmação que vemos em palestras, vídeos, livros e programas de televisão em
que o bem-estar, a qualidade de vida e os relacionamentos interpessoais são
enfocados. Mas o que se torna difícil de entender e quase sempre não é explicitado
é:
• O que é exatamente isso que chamamos autoestima?
• O que determina uma baixa autoestima?
• O que posso fazer para ter uma boa ou uma elevada autoestima?
• Essas questões não são de fácil resposta, mas vamos tentar abordá-las ao
longo deste texto.
O que é autoestima? Alguns autores e a maioria dos leigos dizem: É
gostar de si mesmo, valorizar-se! Outros dirão: É ter uma opinião positiva de si
mesmo, ter uma boa imagem de si. Há quem defenda: É ser confiante, acreditar
em si e em sua capacidade. E se pedimos para explicarem melhor essas
afirmações e fazerem uma diferenciação entre amor-próprio, autoconceito,
autoimagem, autoconfiança e autoestima, parece difícil. Mas, vamos tentar
facilitar isso tudo, até porque as afirmações acima não estão erradas ao definir
autoestima; mostram-se, talvez, incompletas. Acredito ser uma definição mais
adequada apresentarmos autoestima como a opinião acerca de si
(autoconceito), somada ao valor ou sentimento que se tem de si mesmo (amor-
próprio, autovalorização), adicionado a todos os demais comportamentos e
pensamentos que demonstrem a confiança, a segurança e o valor que o
indivíduo dá a si (autoconfiança), nas relações e interações com outras
pessoas e com o mundo. Então, não estamos falando apenas de um
sentimento que temos por nós mesmos. Mais que isso, estamos falando de
pensamentos e comportamentos que temos relacionados a nós mesmos.
O que determina uma baixa autoestima? O que fizemos ou fazemos para que
o sentimento e as atitudes que temos conosco tornem-se tão negativos ou tão
baixos, diminuindo-nos?
Os estudos sobre autoestima apontam, em sua extensa maioria, para
influências presentes em nossa infância. Esses estudos sobre autoestima apontam
como fatores importantes na construção da autoestima:
• O valor que a criança percebe dos outros em direção a si, expresso em
afeto, elogios e atenção;
• A experiência da criança com sucessos ou fracassos;
• A definição individual da criança de sucesso e fracasso, as aspirações e
exigências que a pessoa coloca a si mesma para determinar o que constitui
sucesso; e,
• A forma da criança reagir a críticas ou comentários negativos (GOBITTA &
GUZZO, 2002).

Podemos, de forma mais abrangente, apontar situações que, quando


presentes na vida de uma pessoa, são precipitadoras e/ou mantenedoras de uma
baixa autoestima, tais como: críticas, rejeições, humilhações, abandono,
desvalorizações e perdas. Importante frisar que a construção dessa percepção
negativa de si mesmo é resultado de interações sociais (familiares, escolares,
profissionais, entre outras). Nelas a pessoa vivencia situações nas quais é colocada
numa posição de sentir-se inferiorizada e de menor valia.
Crianças não nascem preocupadas em serem boas ou más, espertas ou
estúpidas, amáveis ou não. Elas desenvolvem essas ideias. Elas formam
autoimagens baseadas fortemente na forma como são tratadas por pessoas
significantes, como os pais, professores e amigos, e eu complementaria
dizendo que elas também passam a se comportar, a agir consigo e com as
pessoas baseadas nessas experiências.
Complemento com dicas que servem a todos:
• Buscar o autoconhecimento, pois ele permite entender e identificar o que
acontece que lhe faz sentir-se menos valorizado. Ou seja, quais fatos
ocorreram (ou ocorrem) em sua vida que geram sentimentos de impotência,
tristeza, ansiedade e/ou menos valia;
• A partir desse levantamento do fato ou dos fatos, encontrar maneiras
alternativas de agir naquela situação, para não ser tomado pelos sentimentos.
Um exemplo seria a pessoa descobrir seus “pontos fracos” e saber que ela
poderá ser criticada por eles, e, assim, agir sobre eles fazendo cursos,
aprendendo com outros ou exercitando mais aquela habilidade;
• Identificar suas qualidades, não apenas os defeitos; isso facilita o engajamento
em tarefas em que suas características positivas possam ser realçadas, o que
nos leva ao próximo item;
• Engajar-se em atividades mais prazerosas ou nas quais se tem um bom
desempenho e se é valorizado. Assim, fortalece-se a autoestima não pela
superação de um problema, mas pelo aumento de atividades que produzam
coisas boas e validem o que se é e o que se faz;
• Valorizar a si mesmo e a sua individualidade empenhando-se em atividades
que lhe tragam felicidade, seja cuidar do físico (melhor autoimagem), seja
dançar, seja ler um bom livro, seja permitir-se ser cuidado, amado e sentir-se
especial.
Os benefícios para si tanto na vida pessoal, relacionamento afetivos,
familiares, quanto na vida profissional são grandes. Lembre-se de quem deve ser a
pessoa mais especial e importante no mundo, você!

II- IDENTIDADE

Pode definir-se identidade como o conjunto relativamente estável de aspectos


de um indivíduo que o distingue dos outros e o tornam único. Esquematizando,
poderíamos dizer que a identidade é o conjunto de padrões diferenciados de
comportamentos, pensamentos, atitudes e emoções relativamente estáveis;
integrados numa unidade coerente.
Tem um caráter de continuidade é a característica que nos torna únicos e
diferentes de todos os outros; constitui uma base que permite prever, até certo
ponto, os comportamentos futuros.
O conceito de identidade é um dos mais abrangentes da psicologia,
correspondente à integração das várias características pessoais: sentimentos,
pensamentos, emoções, comportamentos, atitudes, motivações, projetos de vida,
etc.
É a identidade que nos torna únicos e distintos, remetendo para o conceito de
unicidade e de diferenciação. A identidade, como conjunto de características
pessoais, organiza-se de forma única em cada indivíduo, o que o torna distinto,
diferente de todos os outros (diferenciação).
Produto de uma construção pessoal que decorre ao longo da vida, a
identidade depende fundamentalmente de quatro conjuntos de fatores: das
influências hereditárias, das influências do sistema familiar, das influências do meio
social e das influências das experiências pessoais.

Fatores Gerais que Influenciam a Identidade:


a) Influências hereditárias
O patrimônio genético que o indivíduo recebe no momento da concepção
define um conjunto de características fisiológicas e morfológicas que o tornam único
e que vão influenciar características da identidade que o indivíduo desenvolverá.
Entre outras características, podemos referir ao funcionamento do sistema
nervoso e do sistema endócrino os quais detêm grande influência no
comportamento, podendo ter reflexos na vida psicológica.
A própria constituição física, que é em grande parte herdada, pode influenciar
a identidade de uma pessoa: ser alta ou baixa, gorda ou magra, ter certos traços
fisionômicos influencia o modo como os indivíduos se veem, como se relacionam
com os outros e como enfrentam as diversas situações do dia a dia.
b) Influências do meio
Já apontamos a importância do meio social e cultural na definição das
características psicológicas dos indivíduos, nos comportamentos, nas atitudes. É
através do processo de socialização que o comportamento individual é moldado
segundo os padrões de cultura de uma dada sociedade.
Para além desse contexto social geral — fazemos parte de uma cultura, numa
determinada época — estamos inseridos em determinados grupos sociais: família,
escola, grupo de amigos, de trabalho, etc.
São esses agentes de socialização que vão exercer uma forte influência na
nossa forma de ser e reagir: veiculam normas e padrões de comportamento,
atitudes, concepções do mundo, que são interiorizados e integrados na identidade.
c) Influências das experiências pessoais
Dotada de um patrimônio genético único, integrada num dado contexto social e
cultural, fazendo parte de grupos sociais, cada indivíduo tem um conjunto de
experiências pessoais.
O modo como as pessoas vivenciam as suas experiências pode marcar
positiva ou negativamente a identidade. As experiências vividas na infância e na
adolescência são particularmente marcantes.
Encontros, desencontros, mudanças de contextos de vida (entrada para a
escola, para a universidade, para o mundo do trabalho), acontecimentos como ser
mãe/pai, perder um familiar querido são experiências que, de algum modo, afetam a
identidade.
É evidente que o modo como uma pessoa encara esses acontecimentos, o
significado que lhes atribui, a forma como os integra dependem também das suas
características psicológicas.
A identidade é o resultado da interação combinada e dinâmica de fatores
hereditários e sociais, bem como dos significados atribuídos pelo indivíduo às suas
experiências pessoais. A identidade tem sido objeto de várias interpretações e
teorias.
Para compreender esse processo de produção do sujeito, que lhe permite
apresentar-se ao mundo e reconhecer-se como alguém único, a Psicologia construiu
o conceito de identidade.
Identidade explica o sentimento pessoal e a consciência da posse de um eu,
de uma realidade individual que torna cada um de nós um sujeito único diante de
outros eus. É em relação a um outro — diferente de nós — que nos constituímos e
nos reconhecemos como sujeito único.

Identificação e Identidade:
Esses são dois conceitos que, muitas vezes, são usados como sinônimos, mas
se referem a processos bastante diferentes. Identidade agrupa várias ideias: a
noção de permanência, manutenção de pontos de referência que não mudam com o
passar do tempo, como o nome de uma pessoa, suas relações de parentesco, sua
nacionalidade (André Green). Essa delimitação permite a distinção de uma unidade
na relação com os outros, propiciando o reconhecimento de si. Entretanto, tais
propriedades — constância, unidade e reconhecimento — descrevem um
determinado momento da identidade de alguém, mas não são capazes de
acompanhar o processo de sua produção e de sua transformação.
Várias correntes da Psicologia ensinam que o reconhecimento do eu se dá
no momento em que aprendemos a nos diferenciar do outro. Passo a ser alguém
quando descubro o outro. A falta de tal reconhecimento não permitiria saber quem a
pessoa é. Não teria elementos de comparação que permitissem ao eu destacar-se
dos outros eus. A identidade depende da diferenciação em relação ao outro.
O primeiro “outro” importante é a mãe - o bebê vai se diferenciando,
aprendendo que não é uma extensão dela. O olhar da mãe sobre o bebê vai dando
a ele o seu valor como pessoa. No processo de diferenciação, a criança começa a
escolher outras pessoas como objeto de identificação, isto é, pessoas
significativas que funcionam como modelo em relação ao qual o sujeito vai se
apropriando de algumas características através do processo de identificação e vai se
formando a identidade (homem, mulher, profissional...). A identidade é mutável, em
permanente transformação.
Mudanças que afetam e influenciam nossa estabilidade: você deixou de ser
filho único, não é mais o primeiro aluno da classe; você descobriu que pensa
diferente de seus pais em muitas coisas e se deu conta de que seu corpo mudou
muito, etc.
A identidade é um processo em permanente movimento, uma construção
permanente e em contínua transformação; esse processo de mudança contínua,
ocorre de forma intensa, confusa e com vivências de dor e angústia.

Crise de Identidade
São períodos da vida em que a pessoa procura, com maior ou menor grau de
consciência dessa crise, redefinir ou ratificar seu modo de ser e de estar no mundo...
sua identidade: para si e para os outros.
Segundo Vaz Serra (1988, p.5), “qualquer pessoa pode ter, dentro de si, várias
identidades; aquela que quer dedicar mais tempo e atenção é a que, numa escala
classificativa, se encontra na posição hierárquica mais elevada”. Esse conceito se
correlaciona com o selves social de James.
Uma pessoa pode ter muitos ou poucos selves sociais, consistentes ou
inconsistentes, mas, o que quer que eles sejam, ela se identifica com cada um deles
na situação apropriada. James sugere que o curso adequado de uma ação é
escolher um e, sobre ele, alicerçar a vida. Todos os outros selves, daí em diante,
tornam-se irreais, mas o destino desse self é real. Seus fracassos são reais, seus
triunfos, triunfos reais (JAMES, 1890, apud FADIMAN, 1986, p. 164).
As identidades, segundo Salvador (2000), estão sendo objeto de estudos
recentes que ampliam a noção de autoconceito, incluindo a percepção que a pessoa
tem sobre o que chegará a ser.
A expressão “possíveis eus” (possibles selves) proposta por Markus e Nurius
(1986, p.97) descreve, de maneira acertada, essa ideia interessante. Existe,
segundo a opinião desses autores, uma variedade de possíveis eus: o eu que a
pessoa espera ser, o eu que a pessoa desejaria ser, o eu que a pessoa consegue
ser ou, até, o eu que a pessoa gostaria de chegar a ser.
Falar sobre a construção da identidade é entrar em contato, também, com a
contribuição dos estudos de Erikson (apud HALL – LINDZEY, 1984):
Sem dúvida, as contribuições mais significativas de Erikson podem ser
reunidas sob dois títulos:
• Teoria psicossocial do desenvolvimento – da qual emerge uma concepção
ampliada do ego – e,
• Estudo psico-históricos - em que aplica sua teoria psicossocial à vida de
homens famosos (p.65).
Analisar a formação do autoconceito e da autoestima sob a ótica de Erikson
significa destacar a associação dos termos psicossocial e desenvolvimento. Essa
associação aponta ao sentido de que os estágios da vida de uma pessoa, do
nascimento à morte, são determinados por influências sociais que interagem com
um organismo em amadurecimento físico e psicológico. Nas palavras de Erikson
(apud HALL & LINDZEY, p.65), há uma adaptação mútua entre o indivíduo e o
ambiente, ou seja, entre a capacidade de um indivíduo para se relacionar com um
espaço vital formado por pessoas e instituições e em contínua expansão, de um
lado, e a disposição manifestada por essas pessoas e instituições no sentido de
tornar o indivíduo parte da cultura, de outro lado.
A teoria psicossocial do desenvolvimento de Erikson apresenta, dentre os
conceitos mais conhecidos, os de identidade, crise de identidade e confusão de
identidade. Esses conceitos vão estar presentes nos estágios de desenvolvimento
por ele apontados, trazendo repercussões para a dinâmica de funcionamento
pessoal de cada sujeito, conforme a qualidade das relações interpessoais
estabelecidas. Assim, segundo Hall & Lindzey (1984), a relação confiança básica x
desconfiança básica surge no primeiro estágio de vida, fornecendo a base inicial da
identidade psicossocial.

O Primeiro Estágio de Vida


A primeira infância – é o estágio da ritualização numinosa. Para Erikson,
numinoso significa a percepção do bebê da presença consagrada da mãe através de
olhares, sustentação, toque, sorriso, alimentação, chamado e outros
“reconhecimentos” que ele sente virem de sua mãe. [...] O reconhecimento do bebê
pela mãe confirma e assegura o bebê sobre si mesmo e sobre a reciprocidade com
a mãe. A falta do reconhecimento pode causar o alheamento na personalidade da
criança; uma sensação de separação, abandono e inadequação (p.68/ 69).
Durante os próximos estágios de desenvolvimento, sempre vi a mediação das
figuras significativas, a criança vai conquistando sua autonomia, superando a
vergonha e a dúvida, aprendendo com os outros o que é esperado, a partir do
momento em que principia a julgar-se e a julgar os outros, diferenciando o certo do
errado, distinguindo “o nosso jeito” do jeito do outro. Experiencia situações de
iniciativa, lida com situações de culpa, testa sua competência, corre o risco de
desenvolver sentimentos de inferioridade, quando é ou é levada a sentir que é
incapaz de dominar as tarefas que lhes são atribuídas pelos pais e professores, até
o estágio adolescente, cuja tarefa básica é a construção de uma identidade própria,
o sentimento de que é um ser humano único capaz de desempenhar seus próprios
papéis sociais.
Devido à difícil transição da infância para a idade adulta, e também à
sensibilidade às mudanças sociais e históricas, o adolescente, nesse estágio de
formação da identidade, sofre, talvez, mais do que nunca, uma confusão de papéis
ou uma confusão de identidade. [...] Também é especialmente perturbador o
desenvolvimento da identidade negativa, ou seja, do sentimento de se possuir um
conjunto de características potencialmente ruins ou desprezíveis (HALL & LINDZEY,
1984, p.71 / 72).
Se a construção da identidade adolescente, por um lado, sofre toda a
influência das fases anteriores, por outro lado vai ter repercussões, de diferentes
ordens nas etapas subsequentes, quando as relações entre pessoas de diferentes
identidades suscitam a percepção da adequação ou não das próprias características
individuais, gerando abertura para a intimidade ou mobilizando o isolamento social.
Nesse estágio, o autoconceito, a autoimagem e a autoestima serão mobilizados
como fatores de facilitação ou não da vida associativa e, mais adiante, da própria
produtividade.

III- SEXUALIDADE

A sexualidade, entendida a partir de um enfoque amplo e abrangente,


manifesta-se em todas as fases da vida de um ser humano e, ao contrário da
conceituação vulgar, tem na genialidade apenas um de seus aspectos, talvez nem
mesmo o mais importante. Dentro de um contexto mais amplo, pode-se considerar
que a influência da sexualidade permeia todas as manifestações humanas, do
nascimento até a morte.
O termo sexualidade refere-se ao lado afetivo, psicológico e sexual de uma
pessoa, seja ela do sexo feminino, seja do sexo masculino. Por outro lado, o termo
sexo é empregado para designar a parte biológica do indivíduo, ou seja, possuir uma
identidade sexual, e por identidade sexual entende-se ser macho ou fêmea, homem
ou mulher numa dada espécie. Entender a diferença entre sexo e sexualidade é
importante porque, enquanto o termo sexo se encerra nas bases biológicas, o outro,
sexualidade, possui uma abrangência muito maior, levando à construção de papéis
sexuais esperados a cada membro da sociedade (homem / mulher) dentro de um
dado grupo social.
É difícil definir o que seja sexualidade normal. A sexualidade de uma pessoa
está intimamente interligada com o “TODO” de sua personalidade e devido a uma
enorme diversidade em sua prática, é influenciada não só pela religião, mas também
pela cultura, pelas próprias fantasias sexuais, pela percepção de si mesmo como
homem ou mulher, pela conformidade biológica, pelos relacionamentos interpessoais
e principalmente pelas experiências vividas ao longo da vida.
Segundo o DSM IV (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais -
4ª Edição), uma disfunção sexual se caracteriza por uma perturbação no desejo
sexual e por alterações fisiopsicológicas que caracterizam o ciclo de resposta
sexual, causando sofrimento acentuado e dificuldade interpessoal.
Segundo o DSM IV, os transtornos das respostas sexuais, ou disfunções,
podem ocorrer em uma ou mais dessas fases. Assim, as pessoas envolvidas podem
apresentar:
• Transtorno de desejo hipoativo: Caracteriza-se por uma deficiência
(diminuição ou ausência) de fantasias sexuais e de desejo por atividade sexual.
• Transtorno de aversão sexual: Caracteriza-se por uma aversão ou esquiva
do contato sexual genital com parceiro(s) sexual(ais).
• Transtorno de excitação sexual feminino: Caracteriza-se pelo fracasso
persistente ou recorrente, parcial ou completo, em atingir ou manter a resposta
de lubrificação - tumescência da excitação sexual até o término do ato sexual.
• Transtorno erétil masculino: Caracteriza-se pelo fracasso recorrente ou
persistente, parcial ou completo, em atingir ou manter uma ereção até o
término do ato sexual.
• Transtorno do orgasmo feminino inibido ou anorgasmia: Caracteriza-se
como a inibição recorrente ou persistente do orgasmo feminino.
• Transtorno do orgásmico masculino: Também chamado de orgasmo
masculino inibido. Caracteriza-se pela grande dificuldade que o homem tem em
obter orgasmo e ejaculação durante o coito, quando a obtém.
• Ejaculação precoce ou Ejaculação antecipada: Caracteriza-se por alcançar
recorrentemente o orgasmo e a ejaculação antes de desejá-lo.

Transtornos sexuais dolorosos (Dispareunia e Vaginismo):


• Dispareunia: Caracteriza-se pela dor recorrente e persistente podendo ocorrer
antes, durante ou após o intercurso sexual, tanto no homem quanto na mulher.
• Vaginismo: Caracteriza-se por uma constrição muscular involuntária do terço
externo da vagina, que evita a inserção peniana e o intercurso sexual.
Disfunção devido a uma condição médica geral:
Caracteriza-se por achados clínicos, físicos ou laboratoriais, que tenham uma
relação causal com uma disfunção sexual.
Disfunção induzida por substâncias:
Caracteriza-se pela existência de evidências a partir de exames clínicos e
laboratoriais de intoxicação ou abstinência de substâncias como: álcool,
anfetaminas, cocaína, opioides, sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos, entre outros.
As disfunções sexuais descritas podem ocorrer ao “longo da vida”, ou seja,
estar presente desde o início do funcionamento da sexualidade ou “adquirido”
quando se desenvolve após um período de funcionamento normal.
Também podem ocorrer em um contexto “generalizado”, quando a disfunção
não está limitada a certos tipos de estimulação, situação ou parceiro. Ou também
pode ser “situacional”, quando está limitada a certos tipos de estimulação, situação
ou parceiro.

Dois fatores etiológicos podem estar associados com as disfunções sexuais:


• Os fatores “psicológicos”, quando estes, supostamente desempenham um
papel importante no início, gravidade, exacerbação ou manutenção da
disfunção sexual, e quando as condições médicas gerais e substâncias não
exercem qualquer papel na etiologia da disfunção sexual.
• Os fatores “combinados”, quando fatores psicológicos desempenham um papel
importante na disfunção sexual, e quando uma condição médica e/ou uso de
substâncias também contribui com a disfunção, mas não basta para explicar a
disfunção sexual.
A disfunção sexual também pode estar associada a transtorno do humor e de
ansiedade (Transtorno Obsessivo Compulsivo, Transtorno do Pânico e Agorafobia, e
fobias específicas).
Outras características específicas como: a cultura, a idade, o gênero e a
religião, também podem influenciar na resposta sexual, nas expectativas e atitudes
quanto ao desempenho sexual de uma pessoa.
Segundo Kaplan (1997), a sexualidade de um indivíduo depende de três
fatores inter-relacionados: a Identidade sexual, a identidade de gênero e os
comportamentos sexuais. Ainda segundo Kaplan, esses fatores afetam o
crescimento, o desenvolvimento e o funcionamento do indivíduo.
Quando se fala em identidade sexual, fala-se sobre as características
biológicas de um individuo, ou seja, fala-se de cromossomos, genitálias interna e
externa, composição hormonal, gônadas e características sexuais secundárias.
Em torno do segundo ou terceiro ano de vida, o indivíduo já possui clara
convicção de ser ele “Macho” ou “Fêmea”.
Portanto, quando se pensa em um desenvolvimento “normal”, pensamos em
uma formação padrão, coesa, que não deixa dúvidas ao indivíduo quanto ao sexo a
que pertence (macho ou fêmea).
BIBLIOGRAFIA

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