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SÉRIE - CRÔNICAS DE CONFINAMENTO

A voz da experiência é da sentença

Quando vejo cenas do dia a dia ou leio-as como simples notícias que quase ninguém dá importância, escrevo-
as depois num momento em que passam como um filme em minha mente, temperando-as com temperos da
literariedade. Ficam saborosas, atraem outros olhares, diferentes paladares e dão asas à imaginação do leitor. É dessa
forma que a leitura nos faz alçar voo para irmos aonde quisermos. Não é à toa que já estou dentro de um hospital e
na ala de isolamento, ouvindo uma médica falar sozinha.
— Poxa, se ela tivesse desconfiado daquela febrezinha, do cansaço, da tosse seca e de outros sintomas que
parecem coisas bobas, não estaria aqui. O pior de tudo é que seu resultado pra Covid-19 é positivo. Agora, o respirador
é o seu advogado, e a equipe médica, o juiz que dará, sem querer, a sentença de morte.
Continua a falar sozinha:
— De quem ela inspirou gotículas com o vírus, e para quem mais repassou sem saber? Devia passar grande parte
do tempo sem máscara e sem a proteção das mãos — falou a médica num tom baixinho enquanto olhava a paciente
que parece-lhe muito querida.
Vejo, nesse momento, que o respirador faz a diferença entre a vida e a morte dessa paciente em estado grave.
Está ajudando a obter oxigênio para os pulmões e liberando o dióxido de carbono, porque os mesmos já não conseguem
fazer isso sozinhos. A doutora olha para o respirador, a única esperança daquela senhora, contudo vê que ele está
perdendo o caso como uma defesa perante um juiz implacável, porém neste caso o juiz sabe que o réu é inocente. É o
contexto em que as equipes médicas de todo o mundo vivem e enfrentam nesse momento. E têm que tomar decisões
difíceis referente à interrupção do tratamento de pacientes.
Me atento novamente à sua fala silenciosa:
— Desligar o respirador é um momento muito traumático e doloroso. Às vezes, sinto que sou um pouco
responsável pela morte de alguém, diz a médica, ainda falando só.
Essa paciente tem 60 anos, é enfermeira aposentada. A jovem da medicina fala, por telefone, com a filha da
paciente sobre o processo. Também pergunta sobre os desejos e necessidades religiosas de sua mãe. Assegura que a
mãe não está sofrendo e parece muito confortável.
Antes da sentença, deu uma olhada de 180 graus de compaixão e tristeza na UTI onde os leitos são colocados
um ao lado do outro. Sua paciente terminal estava cercada por outros que também estavam muito doentes e
inconscientes. Fecha as cortinas e desliga os alarmes dos equipamentos.
A equipe médica também fica em silêncio. As enfermeiras param de falar. A chefe da equipe médica, num tom
fúnebre, menciona:
— A dignidade e o conforto de nossos pacientes é nossa prioridade — não se conteve; manteve a discrição
embora isso seja rotina do momento.
Então, coloca o telefone ao lado do ouvido da paciente e pede para a filha dela falar. Ao iniciar a conversa,
parece estar numa paz que nunca obtivera em nenhum momento da vida. Para a médica, é apenas um telefonema,
mas faz uma enorme diferença para a família. Eles querem uma videochamada, mas infelizmente os celulares não são
permitidos dentro da UTI.
Após o pedido da família da paciente, a médica reproduz o vídeo e envia. Logo, desliga o respirador. Senta-se
ao lado da mulher, segurando suas mãos carinhosamente. Os segundos voam, e a doente falece em cinco minutos após
desligar o suporte do respirador. A nobre médica vê as luzes piscando no monitor e a frequência cardíaca atingir zero.
Linha plana na tela. Sentença dada. Os tubos que forneciam medicamentos para sedação são desconectados.
Sem saber disso, a filha da paciente ainda conversa com a mãe e faz algumas orações por telefone. Com o
coração pesado, a médica pega o telefone para dizer que a mãe partiu. Por conseguinte, o dever de cuidados médicos
não para por conta da morte. Por isso, pede que as enfermeiras lhe deem um banho na cama e a envolvam em uma
mortalha branca, depois, em uma bolsa para corpos.
Essa viagem por dentro da UTI me fez saber que a decisão de interromper todo auxílio e tratamento respiratório
é tomada somente pelas equipes médicas após uma análise cuidadosa, que leva em consideração fatores como a idade
do paciente, condições de saúde, respostas ao tratamento e chances de recuperação.
A médica não pôde me ver em seu local de trabalho, porque apenas ouvi a voz da experiência e li pensamento
como os de muitos profissionais da saúde, para entender o porquê da sentença que é tão necessária à paz definitiva de
quem não pode mais estar neste mundo sofredor. Em toda a minha vida, é a primeira vez que vejo vítimas inocentes
sendo sentenciado à morte e o verdadeiro culpado em liberdade, cometendo crimes de genocídio, porquanto é
invisível.

(Edio Wilson)