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COSTUMES E DIÁLOGOS – ASSOCIAÇÃO CULTURAL

DE PASSAGEM POR POMBAL

“Se continuarem a trabalhar, Pombal será em poucos anos uma terra


digna de ser visitada”.

Estava a tomar um café no “Martinho”, quando apareceu o meu amigo “A”,


a quem convidei a sentar-se.

- Então que fazes?


- Por aqui nesta pasmaceira.
- Sete agrada vem amanha comigo, vou a Pombal e a Coimbra; ando a
colher fotografias e notas de diferentes terras do País, para um novo
livro de propaganda.
- Vais muito cedo?
- Vou pelas 8 horas da manhã, pouco mais ou menos; se queres,
aparece a essa hora na garagem.
- As horas marcadas, o motor roncava a uma velocidade de 90 Km/h,
deslizava com os dois amigos pela estrada de Lisboa ao Porto.

Chegados a Leiria, “A” pergunta:

- Não paras?
- Não, a primeira paragem é Pombal. Até aqui já tenho as notas que
necessito, e depois de Pombal, Coimbra, cidade que tem muito que ver
e admirar, gastando talvez mais de um dia e necessário andar e
desenvolver trabalho.
- Estamos a 20 minutos de Pombal.

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Impressionado com a vista do Castelo de Leiria, procuro recordar factos


históricos a ele ligados, e pouco depois, eis que o auto para.
O motorista, um tanto aborrecido; - “Esta passagem de nível é um
embaraço para o automobilismo e um perigo, por causa dos rápidos e frequência
dos comboios”.
“A” olhando para a direita:

- Outro castelo?
- Sim, é o de Pombal; esperemos que o guarda se digne deixar-nos
passar...

A grande velocidade passa o rápido Porto-Lisboa, abrem as cancelas, e a


poucos metros, o auto para em um largo atravessado pela estrada, toda ladeada
de belos plátanos.
O sol brilhante e já intenso, coado pelas folhas dos plátanos em plena
primavera, originava uma tonalidade de luz verdadeiramente agradável.
Saímos do automóvel e perguntei a um engraxador que estava junto de
uma árvore:

- Pode-nos informar onde é a casa da iniciativa?


- Não sei o que isso é, mas talvez aqui a Guarda Nacional Republicana
saiba.

Dirigimo-nos à Guarda, que nos conduz à Câmara Municipal, onde um


cavalheiro, todo amável, depois de declinarmos o nosso fim, se prontificou a
acompanhar-nos e nos oferece uma colecção de postais ilustrados da vila,
alguns bastantes interessantes.
Descemos para o largo e o nosso novo companheiro, conta-nos: - “...que
andam arborizando o Castelo que tem uma linda vista, uma abobada de uma
capela em ruínas, atribuída a João de Ruão e que até já se vai lá de automóvel,
devido aos trabalhos da Comissão de Iniciativa.”

- Essa Comissão não tem instalação própria?

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- Não, senhor. A Comissão de Iniciativa, e presidida pelo Presidente da


Comissão Municipal.
- Ah, já sei... São duas pessoas distintas e um só Deus Verdadeiro...
- Não é bem assim; algumas pessoas fazem parte das duas comissões,
mas nem todos.

O auto segue o caminho que o nosso amável companheiro indica, e


depois de algumas voltas, estamos quasi que chegados ao pórtico da entrada
para o Castelo.
Estávamos admirando a bela paisagem que daquela altura se desfruta,
posto que o horizonte não seja muito vasto, quando se aproximam de nós alguns
rapazes a quem ouvimos dizer; - “O Castelo vai ficar bonito; até depois fica a
parecer o monte de Santa Luzia, de Viana do Castelo; falta-lhe o hotel e o
elevador. “Um outro acrescenta:” – A todo o momento o podem fazer...” –
Sorrisos.
Pergunto ao nosso amável companheiro:
- Como arranjam água para regar as árvores?
- Não sei ainda bem, mas julgo contam trazê-la para aqui, de um grande
poço, elevada por uma bomba eléctrica.
- Não será muito dispendioso esse trabalho?
- Estudam o assunto.

Descemos a rampa do castelo pelas escadas feitas no terreno, entramos


novamente no automóvel que foi parar no largo dos Plátanos, em frente ao
monumento ao Marquês de Pombal.
Avançamos para o jardim e examinado o monumento que o nosso
companheiro local nos informou ter sido construído por subscrição aberta no
concelho, o meu companheiro de viagem disse a meia voz: “The Garden Park...”
Um jardineiro que estava perto aproximou-se do grupo, exclamando: “-
Parque!!... parque!... foi tempo..., que lindas árvores que tinha, que belas
sombras... mas a Senhora Câmara e um tal Matos que por aí andou, cortaram
todas as árvores e agora, não se pode aqui estar sem sombras e não há água
que chegue para regar as plantas”.

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Compreendemos que o tal jardineiro falava desgostoso pela


transformação que tinham efectuado.
Então o nosso companheiro local explica:
- Este jardim foi mandado fazer sob planta do paisagista Jacinto de
Matos que o traçou.

Vê-se bem, e com pouca diferença, o de Tomar, Figueira, Coimbra... cá


estão, os mesmos vasos de cimento armado...

- Mas é conhecido como um grande paisagista.


- Sim... e, tem alguns trabalhos bons.

Damos uma volta pelo jardim e de repente, o meu companheiro de viagem


diz:
- Não querem ver?... O Marques ficou de esguelha com relação ao eixo
da rua central... parece impossível!...
- Pois olhe, senhor, que o tal Matos do Porto, fartou-se de andar aí a
trabalhar e eu com as bandeirolas às costas; até trazia uma coisa a
que chamavam tirolito (teodolito).

Acredito, acredito, mas o que era a verdade, e que não ficou obra limpa.
Olhe lá sr. Jardineiro, com que água é que regam as plantas?

- Com água que vem da torre do convento.


- Como, da torre? Há lá alguma nascente?
- Não senhor; Lá está um depósito e a água de um poço, e para ele
elevada por uma bomba eléctrica.
- Atravessamos o jardim e o nosso companheiro narra: - “A comissão de
Iniciativa conseguiu a cobertura do ribeiro e é por isso que as plantas
não estão igualmente desenvolvidas, e também porque Jacinto de
Matos, tendo traçado todo o Jardim, a Câmara como não gostasse
dele, porque tinha para esta parte um grande arrelvado, mandou fazer
a modificação que esta.

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- Sim, ficou um remendo mal deitado...

O que há ali naquela casa?

- O Instituto Académico e a Redacção do “Terra Mai”, jornal local.


- Pode-se visitar?
- Estou certo que sim.

Entramos e fomos amavelmente recebidos pelo Director do Colégio e


Redactor da “TERRA MAI”, que nos elucidou como tem o ensino montado,
falando de pedagogia, viagens, etc.

- Feita a visita, manifestei ao sr. Director Dr. Mora, quão louvável foi a
sua iniciativa, e com ressalta do que vi e ouvi, a sua competência e
dedicação aos moços estudiosos.

Palavras de agradecimento do Director, que gentilmente nos acompanha


à porta.
Olho novamente para o jardim fronteiro, e noto a existência de uma árvore
no meio de uma rua, pelo que pergunto:

- Aquela árvore já ali estava quando fizeram o jardim?

Dr. Mora avançou, e respondeu: - “Não senhor, aquela árvore está ali, de
pé, no meio da rua, sob a protecção da “TERRA MAI”.
Quando Lineu fez a classificação das plantas, esta árvore ainda não era
conhecida, mas agora, até já se encontra em diferentes catálogos com o nome
de Amilcaria ( não confundir com araucaria); e originaria do Deserto Vermelho da
Arábia, e esta veio de Teima (Teima ou Teimas) povoação perto do deserto.

- É muito original.

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Dr. Mário juntou-se ao grupo, e a poucos metros de distância estamos em


outro jardim.
Não posso deixar de exclamar: - “Isto e outra coisa, esta encantador, esta
fonte e típica, e original.
O nosso amável companheiro diz: “- Esta fonte e trabalho do Encarregado
da Câmara, Sr. Sousa, assim como os medalhões laterais, candeeiros, etc.”
Examino os medalhões e estaco em frente de um que me informam ter
sido a casa onde morreu o Marques. Bela mancha cheia de sombra, e sem
dúvida interessante.

- Esta água da fonte vem de alguma mina?


- Não senhor, vem dum poço e é elevada por uma bomba eléctrica.
- A Câmara certamente tem Central eléctrica?
- Não senhor, a central é particular e a Câmara a consumidora que por
sua vez fornece a energia aos particulares.
- O proprietário da eléctrica também despende energia para as suas
regas?
- Não senhor, esse faz as suas regas com água de uma vala; a energia
essa é para a Câmara.
- Está entendido, assim é que e ... Mas noto que nesta terra a população
é abastecida com água de poços?!!
- Não é só de poços. Há algumas fontes, mas não é suficiente a sua
água. O abastecimento de águas potáveis, é um assunto que interessa
a todas as pessoas desta terra; assunto que já tem sido debatido e
estudado em diferentes épocas, e que só espera a oportunidade de ser
levado a efeito com a água, já canalizada, da Roussa, manancial que
fica a uns quatro quilómetros da Vila. Tenho a certeza que é uma das
coisas que preocupa o nosso Presidente mas de que ele só tratara,
quando veja disponibilidade financeira para isso.

Subimos uma escada bem lançada que nos conduz a estrada, e passando
nova vista pelo jardim, não pude deixar de dizer: - Que pena não ser rodeada de
bons edifícios.

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O nosso companheiro local atalhou: - A Câmara anda a construir um


grande edifício escolar que deve comportar quatro escolas, trabalho a que o
nosso presidente, Dr. Santos Alves, tem dedicado grande actividade: e um
clínico que tem prejudicado a sua vida e o seu sossego aos trabalhos da
Câmara, tendo já criado várias escolas, inaugurado algumas, construção de
novas estradas, continuação e reparação de outras, etc. Trabalha dia e noite, só
pelo interesse do Município; não tem sido feliz em tudo, mas não desanima na
orientação do progresso desta vila, marcado no seu projecto que, em abono da
verdade, ninguém conhece!!

- Pois, meu caro senhor, felicidades para o presente e para o futuro.

Publicado no Jornal “TERRA MAI”

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