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Quando ele acordou, a neve acamava-se espessa em volta da casa, um nevão acabara

de passar. Seguiu para Wellington Circle para apanhar o comboio, enquanto o frio
gélido começava a paralisar, para muitos outros aquele era o metro para o trabalho,
mas para ele era o comboio para a Patagónia.
Além do frio e da luz ofuscante na neve caída, à medida que chegava a South Station.
Quando lá chegou apanhou o comboio Lake Shore Limited. À medida que se
aproximava de Springfield, a fosforescência da grossa capa de neve deslizava na
direção de riachos , desde que saiu de Boston que a água tinha estado em constante
permanência em lagos e rios congelados. Enquanto isso encontrou uma senhora,
chamada Wendy, sobre a qual achava que possuía opiniões bastante radicais e que
além de ser realmente louca, que podia ter um parafuso a menos, confundia egoísmo
com budismo.
Mais tarde chegou a Cleveland, Ohio. Porém ficou retido, e disseram-lhe que a causa
era a neve e o gelo que vergaram os carris – tinha pressa pois precisava de apanhar o
comboio em Chicago. Toda a gente entrou em pânico por saber que ia perder a
ligação em Chicago, porém ficaram todos contentes e regozijavam-se com a
promessa de que passariam duas noites no hotel Holiday Inn.
Correu para a plataforma, em Chicago e embarcou no comboio Lone Star. Depois
estava em Fort Madison, no estado do Iowa, na margem esquerda do Mississípi,
onde encontrou um casal que só falava de histórias de terror, de armas e crimes.
Chegou a Perry, onde o estilo das casas era o mesmo do Massachusetts e do Ohio;
Baixas colinas e áridas que davam lugar a planuras verdejantes marcavam a fronteira
com o Texas, em Ardmore, sem neve, gelo e com o tempo ameno. Mais tarde,
decidiu passar a noite em Fort Worth.
Em Laredo estava chuva, e em baixo ficava o Rio Grande, uma fenda que passava por
Laredo: a margem sul era o México, três pontes uniam ali os Estados Unidos ao
México. Laredo tinha as luzes acesas, era por isso que tinha um aspeto respeitável,
num estilo chuvoso e bolorento. Ele também descreve a forma como os mexicanos
entraram nos Estados Unidos, porque há trabalho, fazem-no ilegalmente, e já
chegava ao México.
Neste comboio, Águia Asteca, tinha saído de Nuevo Laredo ao anoitecer. E mais tarde
acabou por ter um conflito com um revisor que julgava ser contrabandista.
Chega a San Luis Potosí, os bairros eram de lata e com cheiro a excrementos e os
vagões adquiriram um aspeto horrível. Nesta altura do livro, acaba por falar que o
orgulho cívico mexicano tem as raízes na xenofobia, e que poucos países têm maior
motivo para ser xenófobos. De certa forma esse ódio aos estrangeiros tinha origem
em San Luis Potosí – a xenofobia mexicana é muito mais forte do que qualquer outra
tendência para intrigas (…); Aproveita este assunto para contar um pouco da história
mexicana referindo Juárez e Maximiliano.
Entretanto fica a saber que na sua cidade, em Boston, está a ocorrer uma
tempestade de gelo, com temperaturas negativas e o revisor contrabandista avisa
que chegavam à cidade do México, onde comprou um bilhete em vagão cama para
Veracruz. O Expresso Jarocho , onde estava, era um comboio confortável e a sua
próxima ligação para Tapachula e a fronteira com a Guatemala estava num estado
lamentável.
Apanha o comboio para a Cidade de Guatemala, onde fala sobre a história da
independência guatemalteca – declarou a independência das suas cinco províncias:
Guatemala, Costa Rica, Honduras, Nicarágua e El Salvador.
Apanhou a automotora para São Salvador – não era um lugar bonito, expandia-se
sem elegância, era barulhento, tinha os edifícios desprovidos de charme.
O Expresso Pan-Americano é um dos grandes comboios da América do Sul, disse ele,
viajando mais de 1600 km de La Paz, na Bolívia, até à cida de argentina de Tucumán –
atravessa uma fronteira internacional, poucos comboios o faziam naquele
hemisfério. Tinha atravessado o Rio Grande do Texas para o México e andou a pé da
Guatemala para El Salvador.
. O canal do Panamá Os «zonianos». Encontrei um homem sensato para falar sobre
tudo isto e muito mais: o senhor Reiss, o cangalheiro-chefe da Casa Mortuária
Gorgas. E houve outros: a mulher em Veracruz à procura do seu amante, o senhor
Thornberry na Costa Rica, o padre irlandês que começara uma pequena família no
Equador,
Ele tinha chegado a Buenos Aires, exausto, no princípio de uma onda de calor a que
as pessoas chamavam outono argentino.
Quase a chegar ao seu destino final, ele reflete sobre o pior e o mais constante: o
medo da morte – era impossível passar meses a viajar sozinho, chegar à Patagónia e
não sentir como se tivesse feito algo muito disparatado. Ele tinha partido de um lugar
seguro para viajar até um perigoso. O risco era a morte, que parecia ainda mais
iminente, porque, até agora nada de mal lhe tinha acontecido. Por fim ele chega à
Patagónia, que lá ao fundo afundava-se em rocha cinzenta. Mais à frente havia uma
sucessão de colinas talhadas e gretadas pelo vento que abanava os arbustos. O céu
era azul-claro. Não havia mais nada do que falar, nada que lhe detivesse: apenas o
vasto espaço vazio.

Mensagem:
Esta obra é conhecida por muitos como o livro que mudou a história da literatura de
viagens. Quando se fala de literatura de viagens, O Velho Expresso da Patagónia é
uma referência central e indispensável. Paul Theroux tinha acabado de publicar O
Grande Bazar Ferroviário, em 1975, quando iniciou a escrita deste livro prodigioso:
entrar na estação de metro mais perto de casa, arrastando a mala, mudar de
comboio e percorrer dois continentes inteiros, a América do Norte e do Sul. Ou seja,
começar no Massachusetts e terminar às portas da Patagónia e da Terra do Fogo.
É preciso ter coragem para atravessar o mapa da América para chegar à Patagónia, é
um heroísmo literário. Mas o narrador deste livro não é um desistente – porque o
objetivo é a viagem, não a escrita de um livro bonito a propósito de uma viagem.
Quando decide ir a Esquel, na base dos Andes e no extremo da província de Chubut,
na Patagónia alguém lhe disse para esquecer Esquel, para esquecer a Patagónia, que
era tudo feio. Em Buenos Aires quando se encontrou com Jorge Luis Borges, este
dissera-lhe que lá não havia nada, não era o Sara, mas era o mais parecido que se
podia encontrar na Argentina; Não lhe tinham dito outra coisa desde que começara a
viagem – mas ele não desiste, tendo atravessado de comboio o México, a Guatemala,
El Salvador, a Colômbia, o Equador e o Peru. Ele queria seguir gradualmente, do lugar
caseiro onde nasceu até uma área distante e estranha, acima de tudo, fazer uma
ligação entre o conhecido e o desconhecido: ir o mais longe possível de casa
permanecendo no mesmo hemisfério.
O relato dessa viagem é o mais puro quadro humano onde todos – e de todos os
países e raças – andam perdidos. Paul não embeleza nenhum cenário, não se comove
com romantismos literários. Com isto, Paul Theroux mudou a literatura de viagens e
este livro juntamente com outros percursos de carril que escreveu, são parte
essencial do seu mapa.

Citações e o seu significado:


“O próprio nada, um princípio para algum intrépido viajante, para mim representava
o final. Chegara à Patagónia, e fiquei a rir quando me lembrei de que tinha vindo até
ali de Boston, no comboio que as pessoas apanhavam para ir trabalhar”
O seu objetivo era apanhar o comboio que toda a gente apanha para ir para o
trabalho e depois continuar mudando de comboios, até ao fim da linha. Ao contrário
do que é habitual na literatura de viagens, que nos fala dos lugares visitados, o
objeto do livro de Theroux é a viagem em si. Não o lugar, mas o modo como se
chegou lá. A sua pergunta habitual não respondia por todos os livros de viagens – é
como chegaram lá? Habituamo-nos a que a vida se limite a uma série de chegadas e
partidas, de triunfos e fracassos, sem nada digno de ser mencionado no meio. Ele
não tem muito a dizer da maior parte das viagens de avião.
O viajante parte de um fuso horário para emergir noutro. Desde que entra no tubo,
desde o momento da partida, a sua mente concentra-se na chegada, segundo ele. O
que lhe interessa é o despertar pela manhã; O progresso do que lhe é familiar ao
pouco estranho, ao bastante estranho e, finalmente, ao extravagante. É o trajeto,
não a chegada, que importa. A literatura de viagens tornou-se insignificante – as
viagens de comboio, principalmente, começam a perder importância.
“Sabia que estava no fim do mundo, mas o mais surpreendente de tudo era que
continuava a estar no mundo ao fim de este tempo todo, num ponto na parte inferior
do mapa. A paisagem tinha uma expressão desolada, mas não podia negar que
possuía traços legíveis e que eu existia nela. Isto era uma descoberta – o seu aspeto.
Pensei: « O fim do mundo era um lugar»”
Acontece que a Patagónia ocupa um pequeníssimo espaço no livro – todo ele é, na
sua larguíssima maioria de páginas, a descrição do esforço, do prazer e das ilusões da
viagem que o levaria até lá, atravessando países e perdendo personagens que
poderiam ficar presas a um romance. Homens e mulheres perdidos, fronteiras
impossíveis, noites de insónia: tudo isto era o caminho para a Patagónia de Theroux,
um longo caminho de comboio, o instrumento mais delicioso para viajar e para
transformar a viagem num modo de viver, sobretudo quando, o autor recorda que
chegou até ali (ao fim do mundo, porque o fim do mundo é um lugar) vindo de
Boston, no mesmíssimo comboio que as pessoas apanhavam para o trabalho, mas
desta vez a sorrir.

Estou a companhar o evoluir da viagem de Theroux através das Américas nos mapas
do Google Earth, tentando reconstituir todos os percursos, as linhas férreas
utilizadas, os pontos de fornteira atravessados. Estou, além disso, a apontar todas as
cidades (enfim, quase todas) que Theroux vai referindo ao longo da prosa, e também
os livros que ele vai lendo (e que são igualmente uma parte importante da viagem).
Apetecia-me ir pondo aqui estas listas de lugares e de livros, e se calhar ainda o
faço.7
Se a ideia já de si é fascinante, o estilo de Theroux torna-o irresistível. Não sendo
propriamente uma personagem muito simpática, é o seu humor, as suas
idiossincrasias, as suas observações sempre pouco complacentes. Mas, atenção,
Theroux não chega exactamente a ser arrogante, e se o seu olhar nunca deixa de ser
o do estrangeiro, do forasteiro de passagem, essa é também a sua maior
honestidade, a sua razão.