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A FILOSOFIA NO MUNDO DE HOJE


Das duas urna: deve-se t,losotár ou não se deve filosofar: mas, para negar a necessidade do filosofar é, ainda assim preciso

filosofar. (Aristótcles

Introdução

O pensamento dominante no mundo atual, marcado pelo cientificismo e pela técnica,


não deixa espaço para a filosofia. Filosofia? O que é isto? Pergunta-se a maioria das
pessoas. Neste ambiente a filosofia soa como algo extravagante, já fora de moda. Na
imaginação popular o :Iilosofo é aquela pessoa que anda nas nuvens, fora da realidade.
Segundo o filósofo espanhol Tomás Melendo, "muitas pessoas, entre os intelectuais e
entre o público comuni, consideram os filósofos como uma espécie de extraterrestres,
que se consagram a incompreensíveis elucubrações mentais que são carentes de
fundamento, as quais nem ao menos estão arraigadas nas questões e nas realidades que
são a preocupação da gente comum da rua" (17). Para estas pessoas, a filosofia não tem
mais nada a ensinar, pois, pensam, todas as questões são ou serão algum dia
respondidas pela ciência. Parece que a filosofia está debilitada. Será mesmo que a
filosofia não tem mais nada a dizer para o homem no mundo .de hoje? O que está
ocorrendo?

O que está ocorrendo hoje com respeito à filosofia é determinado pela situação da
cultura que domina a mundo atual. Nela reina uma desconfiança na procura da verdade
o que se traduz por unu vivência de ceticismo generalizado.

Diversão e Tédio

A filosofia no mundo de hoje se encontra "fora de moda" porque incomoda. Há mais de


um século que os homens desta sociedade buscam diversão para espantar o tédio.
Atualmente as pessoas procuram fugir do encontro consigo mesmas e se refugiam no
-- agito". O agito é um acontecimento típico do momento atual. Trata-se de um fenômeno
juvenil, mas que tambri atinge os adultos. Que sintomas revelam este fenômeno?
Diversão e tédio revelai ri a alma desta sociedade marcada pelo cientismo, tecnicismo e
consumismo. Para demenstrar isto queremos citar aqui alguns pensadores que refletiram
sobre este mal que aflige os homens deste há muito tempo. Horkheimer afirma que "sob
as manifestações externas desse 'agito' topamos com uma das pragas mais devastadoras
do nosso século: o tédio, nas suas dimensões mais intimas, conhecido também como
vazio existencial, ausência de projeto vital ou falta de sentido... causa imediata e
inevitável de infelicidade" (citado por Melendo, 29).

Vitor Frankl, famoso médico psiquiatra e fundador da logoterapia faz o seguinte


prognóstico: "O problema de nosso tempo é que as pessoas estão presas por um
sentimento de falta de sentido, (...) acompanhado por uma sensação de vazio (...). Nossa
sociedade industrial est preparada para satisfazer todas as nossas necessidades e nossa
sociedade de consumo inclusive cria necessidades para satisfazê-las depois. Mas a mais
humana de todas as necessidades, a necessidade de ver o sentido da vida de cada um,
permanece insatisfeiU. As pessoas podem ter muito com que viver mas com uma
L
ência maior, nada têm elo ue viver" (citado por Melendo 30). Viktor Frankl.
firma também, que a principal fonte de perturbações psíquicas,
na atualidade, é a falta
sentido na vida, en"lo as frustrações ou os complexos.

Camus, iilosofi) existencialista francês soube, por outro ângulo, captar muito
bem o núcleo do assunto: "o tédio, sustenta com acerto, rião é mais que o corolário
existencial do egocem.rismo ('eu-eu-eu'). A diagnose é pouco menos que definitiva:
quando alguém gira somente em torno de
si mesmo, num, 'eu deserto mas obsessivo, a
realidade perde consistência, torna-se irrelevante, não atrai nem resulta capaz de
gratificar-nos, não sendo digna de atenção. E, então, são buscadas distintas
compensações, mais ou menos bárbaras, mas aptas a fazer vibrar de maneira imediata
o
nosso 'eu': comida, bebida, televisão, viagens, sexo, álcool, droga, êxito celebridade.. "
(idem 31)

A grande maioria das pessoas gira em torno destes dois eixos: trabalho ou diversão. Mas
essa disjuntiva, expõe Alice Von Hildebrand, "deixa fora o mais importante:
relação com as pessoas,", a nossa
o único que nos poderia levar a transcender o vulgar e o tédio
"Que triste e
empobrecida fica uma vida na qual escravizar-se e descansar são os únicos
p 'los da existência" (idem 33)

:1 existência anônima

\;) dizer de Martin He:degger, "... a maior parte dos homens vive uma vida anônima,
ordenada,
na qual falia o valor para suportar o risco de ser ele mesmo É
o reino
do `-se', da forma impessoal. Alguém não se atreve a dizer 'eu', mas se mimetiza dentro
da massa sem rosto que lhe dá segurança. (...) Desta maneira, prossegue Heidegger,
escapa das mãos o autêntico problema, o de saber assumir a responsabilidade de nossa
condição de seres livres. A incapacidade de escolher é uma nota constante dos homens
do 'se' A verdade é que, na escolha, como exercício da liberdade considerada
seriamente, jogamos tudo, no tempo e fora dele" (idem 36).

Tudo isto para entende- por que o homem de hoje repudia o pensamento filosófico
Carlos Llano nos oferece uma espécie de resumo: No fenômeno da sociedade
impessoal, dá-se um claro predomínio do fazer
sobre o agir. O fazer é fazer coisas
exteriores, enquanto que o agir é ação interior. O agir me configura como pessoa, me
marca individualmente destacando a mim somente, contra a massificação e
c1
espersona1ização que a sociedade impõe. Essa ação interna, que me converte em algo
é único e não—repetido no mundo, como responsável que sou de um destino próprio,
à, ...ima
vocação pessoa à qual nenhum outro ser humano pode responder por mim e
(.1tie, por isso mesmo, eu não posso transferir a nenhum outro, tem o seu ponto de partida
no fortalecimento de minha consciência pessoal, sendo que é por isso que minha vida
adquire um perfil próprio e genuíno que os demais não puderam imitar (cfr. Melendo
35)
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A primazia do fazer sobre o agir, a inclinação para grandes realizações objetivas com
demérito da vida inlerior foi anunciada por Santo Agostinho "Tal parece. dizia
Agostinho, que o bei/ do homem consistiria em fazer boas as coisas — a maravilhosa
perfeição de nossos anefatos -, com exceção de si mesmo (...). Progredimos, é certo, em
nossa civilização externa, ao mesmo tempo em que retrocedemos em nossa vida interior
pessoal" (Idem 38-9).

Naturalmente Filósofos

' Somos, apesar de tudo, naturalmente filósofos, "amigos da sabedoria'. (ver o


significado e o senticl o de filosofia em: www.hottopos.corn/notand 2/a
_palavra. htm.)
Quando queremos conhecer o porquê das coisas, sobretudo, quando queremos conhecer
o porquê da própria v da, nos percebemos filosofando. Isto porque todo o ser humano
quer "um sentido" para o que faz, um sentido para seu trabalho, suas dores e
sofrimentos. Na existência anda em busca daquilo que o faça feliz. Por ai caminha a
filosofia, pelas vias que permitem descobrir um significado de grande calibre até para a
menor de suas ações.

O filosofar aparece também nas crises existenciais: Qual o significado da existência?


Aparece diante de situações inesperadas como diante de um acidente ou diante da
morte. Aparece ante um desengano amoroso profun.do, ou, pelo contrário. No momento
de enamorar-se e seguir enamorado. A pergunta filosófica é a pergunta pela essência e o
ser do todo da realidade, mas também pelo seu valor e sentido. A filosofia, só num
primeiro momento devr., preocupar-se com o conhecimento das coisas tais como são em
si mesmas. Mas, radicalmente, a filosofia deve orientar-se para o homem e para a
plenitude de sua vida.

"Quanto mais exija um pergunta e quanto mais explique uma resposta, com maior
propriedade elas podem ser qualificadas como filosóficas." (Melendo 19)
O que é Filosofia?

I Filosofia "é um conhcimento, uma forma de saber e, como tal, tem sua esfera
particular de competência; sobre esta esfera busca adquirir informações válidas, precisas
e ordenadas. Mas enquanto é fácil dizer qual é a esfera de competência das varias
ciências experimentais não é igualmente cômodo delimitar o campo de pesquisa
próprio da filosofia. É sabido, por exemplo, que a botânica estuda as plantas, a geografia
os luures, a história cy.; fatos, a medicina as doenças etc. Mas a filosofia, que estuda
ela? No entender dos filósofos, ela estuda tudo. Aristóteles, o primeiro a pesquisar
rigorosarnente e sistematicamente a natureza desta disciplina, diz que a filosofia estuda
'as causas últimas de todas as coisas'. Cícero define a filosofia como sendo 'o estudo
das causas humanas e iivinas das coisas'. Descartes afirma que a filosdfia 'ensina a
bem raciocinar'. Hegel concebe a filosofia como 'saber absoluto'. Whitehead julga que
seja tarefa da filosofia 'fornecer uma explicação orgânica do universo'. Poderíamos
citar muitos outros filósofos que definem a filosofia quer como estudo do valor do
conhecimento, quer como pesquisa sobre o fim último do homem, quer como estudo da
linguagem, do ser, da história, da arte, da cultura, da política etc. Com efeito, coerentes
com estas definições discrepantes, os filósofos estudaram todas as coisas_ Devemos,
pois, concluir que a filosofia estuda tudo? Sem dúvida. Isto por duas razões"(Mondin,
05).
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Primeira razão:
Todas as coisas podem ser examinadas a nível cientifico e a nível
filosófico. Assim, os homens, os animais, as plantas, a matéria, já estudadas por munas
ciências e sob diferewes pontos de vista, são suscetíveis também de uma pesquisa
fi?osófica. As
ciência!, ditas experimentais, dos seres ou das coisas estudam a
., ,rnensão periférica, fenomênica, sensível.
- ino um saber periférico do real. Elas se distinguem fundamentalmente
o A filosofia, por sua vez, estuda o nuclear do real.
seja, o "espaço" situado além das dimensões periféricas.
A filosofia, e aqui como
tr.,.tafisica, constitui a ciência preocupada em captar, com exclusividade,
p;-ojiinda do real a estrutura
onde se aloja seu significado mais autêntico, sua verdade, ou seja, o
núcleo estrutural básico responsável pela coisa que ele é no contexto de todos os seres
do universo.

A partir desta observação fica evidente que cabe somente à filosofia estudar certos
âmbitos da realidade. Com
relação ao ser humano, aquilo que o constitui como humano
é somente estudado pela filosofia. Assim, por exemplo, questões como o valor da vida e
do conhecimento humano, o sentido da liberdade, a natureza do bem e do mal, a
dimensão ética da existència humana, são exclusivas da filosofia.
Segunda razão:
As ciências estudam 'setores parciais do ser, províncias recortadas
dentro do continente total do ser". Da realidade ou das coisas, estudam um aspecto
apenas. Enquanto a fik)sofia tem por objeto o todo, a totalidade, o universo tomado
globalmente. Por isto podemos dizer que a filosofia tem como traços constitutivos:
pretensão de universalidade e afã de radicalidade. a

A pretensão de universalidade.
A filosofia é a ciências dos objetos do ponto de
vista da totalidade, ou seja, a filosofia considera o seu objeto sempre do ponto de
vista universal e totalitário, enquanto qualquer outra ciência, que não seja
filosofia, o considera de um ponto de vista parcial e derivado (cfr. Morente, 31).
Afã de radicaJidade.
Radicalidade lembra raiz, profundidade. O filósofo
pretende obter uma explicação intelectual do
todo; portanto, terá de mergulhar
até as causas ou princípios mais radicais e, em semelhante sentido, últimos.
Concluímos corr uma afirmação de Melendo:
de universalidaee, "A de
medida que cresce a pretensão
aumenta também a exigência
radicalidade, a necessidade
de referir-nos a princípios explicativos mais profundos ou mais altos,
perspectiva que se adote" (105). segundo a
A utilidade da Filosofiái.

Queremos concluir esta primeira reflexão, mostrando também a utilidade da filosofia no


sentido de criticidade. Ter senso critico não é exclusividade da filosofia, más enquanto
busca uma visão da totalidade do real e suas causas radicais, é critica

- -, abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se


:'eSc
car guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil: se
.1;, car compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se
hecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil, se
dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de
suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então
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podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres
humanos são capazes' (Chauí 18, grifo nosso)

Referência Bibliográfica

CHAUI Marilena. Corvite à Filosofia. São Paulo: Editora Afica, 1994

IVIF LENDO, Tomas. Iniciação à Filosofia — Razão, Fé e


Verdade. São Paulo Instituto
Brasileiro de Filosofia e Ciência, 2005

MONDIN, Battista. Introdução à Filosofia. São Paulo: Paulinas, 1981

MORENIE, Manuel Garcia. Fundamentos de Filosofia — Lições Preliminares. São


Paulo: Editora Mestre 1011. 1980

Atividade Teórica: Estudar as Quatro Historias a seguir.

Para melhor entendermos o papel que a Filosofia desempenha e, conseqüentemente, o


tipo de utilidade que tem, analisemos quatro histórias que, por analogia, ilustram as
varias perspectivas sob as quais pode ser feita a leitura de sua utilidade.

Primeira Historia — A Raposa e as Uvas (Fábula de Jean La Fontaine 1621-1695)

Uma raposa esfomeada passara por debaixo de uma videira carregada de uvas maduras
e, aparentemente, deliciosas. Não podendo alcançá-las, por ser a videira muito alta,
consolou-se: Pecado que estejam verdes, uma porcarial...

Segunda História — O Sábio e o Rico (Narrada por Aristóteles 384-322 a.C.)

Segundo relata Aristotcles, certa vez a esposa de Hieron, rei de Siracusa, perguntou ao
poeta o que seria mais importante: ser rico ou ser sábio. O poeta respondeu: "Rico, pois
sempre vejo o sábio batendo à porta do rico". Algum tempo depois, Antistenes, ao
saber da resposta que Simônides tinha dado, comentou: "É verdorlp que o sábio vive
batendo à porta dos ricos e que os ricos não batem à porta dos sábios; mais isto é um
sinal de que os sábios sabem do que precisam e, se os ricos não batem à porta dos
sábios, é porque não conhecem suas necessidades".

Terceira História — A reupa Nova do Rei (Conto de Hans C. Andersen 1805-1875)

Certa vez, um rei preparava uma grande festa para o casamento de sua filha. Para a
ocasião, o rei desejava vestir uma roupa diferente, a mais bela que jamais tivesse sido
usada. Para prepará-la, mandou convocar os melhores costureiros de seu reino, no
entanto, nenhum deles foi hábil para realizar o desejo do rei. Correu então a noticia de
que, num reino vizinho, havia um costureiro incomparável e capaz de costurar tal roupa.
O rei mandou contratá-lo imediatamente, a peso de ouro_

O costureiro era realmente fantástico, mas também era preguiçoso e muito esperto.
Como a festa já estava Fróxima e ele não tinha preparado nada, espalhou o boato de que
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a roupa que estava preparando para o rei era tão maravilhosa e especial que só as
pessoas inteligentes seriam capazes de vê-la. O costureiro fez com que o rei também
ficasse sabendo das qualidades da roupa.

No dia da festa, o costureiro foi até os aposentos do rei para vesti-lo O rei não via roupa
alguma, mas não queri.i passar por ignorante, elogiava as vestes com que o costureiro
fingia cobri-lo. Quando entrou na capela real, lugar da realização da cerimônia de
casamento de sua filha, o rei estava completamente nu, mas nenhum convidado ousou
dizer nada, nem gracejar, pois ninguém queria passar por ignorante. Ao contrário,
muitos cochichavam enr:re si sobre a beleza da roupa real.

!N.o entanto, a uma tants, alguém do fundo da capela ousou gritar: O rei está nu! Diante
de tanta ousadia, alguns entreolharam-se estupefatos, sem saber o que dizer, outros
voltaram-se contra o blasfemo, chamando-o de ignorante e querendo expulsá-lo,
enquanto alguns pouco!, concordaram com ele.

Quarta Historia — As Botas do Camponês


Kierkegaard 1 8 1 3-1 855 ) (Conto popular, relatado pelo filósofo

Um camponês muito r obre foi à cidade e teve a sorte de encontrar algum dinheiro,
perdido por algum incauto. Com
o dinheiro achado, comprou um par de botas e depois
ernbebedou-se. Completamente embriagado, caiu na calçada com as pernas esticadas na
rua e adormeceu. Passava pelo local um carroceiro que, não querendo ferir o camponês.
acordou-o e lhe pediu que tirasse as pernas do caminho. O camponês, que pela primeira
vez via seus pés calçados com um par de botas, não os reconhecendo, respondeu ao
carroceiro:
Pode passar essas pernas não são as minhas!

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1rividadie prática: Em grupos ou individualmente interprete as histórias. Depois
Jfronte a sua interpretação com a interpretação feita por Severo Hryniewicz.
Jr.:erpretando as histórias

A raposa e as uvas

A fábula da raposa e das uvas aplica-se a muitas situações da existência humana.


Expressa particularmente as experiências do ciúme da cobiça da inv . No nosso
caso, podemos fazer uma analogia entre aqueles que, por não querer ou não terem
chances de fazê-lo, têm, a priori,
uma atitude de desprezo em relação à filosofia, sem
uma clara
alguém idéia
alienado, do que ela venha a ser. Criam, então, a imagem do filósofo como
que fala bonito mas nada diz. Tal como na fábula da raposa, por
incapacidade ou preguiiaa de ascender até a "montanha" da Filosofia, ridicularizam-na.
Tal como a raposa, muitos desprezam a Filosofia por desconhecê-la.
O sábio e o rico

A interpretação que Antistenes


dá à resposta de Simônades e bem sugestiva das
particularidades que envolvem o pensar filosófico. Antistenes, fundador da escola
não dava grande importância à riqueza material e à glória e, por isso, parecia-lhe
:;urdo o fato de os homens se degladiarem em sua busca. Sem assumir atitude tão
rz:dical quanto e de Antistenes, podemos, no entanto., perceber que nela esta sugerido o
"espirito" do filosofar. O filósofo está ï eterna busca de algo mais que simples
satisfação dos anseios de riqueza e de fama Ele procura saciar a fbme humana da
verdade_ e os bens materiais não conseguem saciá-la completamente. O filósofo
preocupa-se, sobretudo, com o bem-estar interior.

A roupa nova do rei.

O conto infantil da nudez do rei serve como analogia para expressar uma das
características mais marcantes da Filosofia. Filosofar é olhar criticamente a realidade
que nos cerca. Significa não nos contentarmos com o que pensa a grande maioria, so
pelo fato de ela assim pensar. E procurar a verdade, mesmo que isto custe, muitas vezes,
o preço de assumir algumas posições que levam a perturbar os outros, a incomodar o
poder constituído ou "mexer" com urna "verdade social". As ideologias estabelecidas
tendem a se manter porque satisfazem aos interesses de certas classes ou instituições e
rer a coragem de questioná-las significa assumir vários tipos de riscos. O filósofo é
ar:uele que incomoda, por não se ajustar passivamente a idéias petrificadas. Não tem
r.-.-Jdo de dizer aquilo que pensa, mesmo que isto lhe custe caro como foi o caso de
S:crates Por ser crítica, a Filosofia pode, muitas vezes, incomodar aos que detêm o

As botas do camponês

O camponês que não reconhece suas próprias pernas é o exemplo típico da verdadeira
alienação. O homem alienado é aquele que não tem consciência de suas capacidades, de
sua posição na história, não se percebe como produtor da cultura, das transformações
sociais, etc... A ignorância sobre si mesmo o torna um joguete na mão dos outros. E
facilmente manipulado pelas ideologias, pelos preconceitos aos quais ele mesmo se
apega e pela propaganda em geral. Acredita ser livre e, no entanto, nega a si próprio
como autor de sua história. Todos nós sabemos que e mais fácil pensar como todo
mundo pensa.

Pelo fato de ir até a raiz dos problemas, o pensar filosófico, mais que qualquer outro
tipo de pensar humano, proporciona ao homem, dentro de seus limites, a possibilidade
de assumir idéias e atitudes autenticamente suas. Mesmo a aceitação de aspectos da
moral social vigente, a adesão a uma religião ou às idéias de um partido político a partir
ir uma postura filosófica, ocorrerão não por imitação, mas como resultado de uma
iccisão pensada e, por isso, livre. Neste sentido a Filosofia procura superar a alienação.