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FRANCIELI FERREIRA PONTES

TIRANIA NA GRÉCIA CLÁSSICA (SÉCULOS V-IV a. C): PLATÃO E OS TIRANOS


DE SIRACUSA, DIONÍSIO, O VELHO E DIONÍSIO, O JOVEM

Monografia apresentada à disciplina Estágio


supervisionado em pesquisa histórica como
requisito parcial à conclusão do curso de História -
Bacharel e licenciatura da Universidade Federal
do Paraná.
Orientador: Prof. Dr. Renan Friguetto.

CURITIBA
2009
A Deus e à Amizade
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente ao Prof. Renan Friguetto pela confiança, orientação


e por ter acreditado na viabilidade de um tema semelhante.
Agradeço ao grande amigo Marco Antônio de França pelas agradáveis e ricas
conversas sobre filosofia e história no pátio da Reitoria. Seria bom poder conviver
com mais pessoas assim, pessoas que procuram compreender o outro sem
menosprezá-lo, que entendem o ser humano.
Agradeço a todos que possibilitaram minha graduação. À PRAE pelo apoio
financeiro. À Biblioteca de Ciências Jurídicas pelo estágio. À Biblioteca de Ciên.
Hum. e Educ. pelos livros que não poderiam ser comprados. Ao Xérox da Reitoria
pela qualidade e bom preço das cópias.
Aos meus pais Leoni e Sirlei por entenderem minhas escolhas.
À minha irmã Debora F. Pontes por ser minha melhor amiga.
Ao amigo Tiago Felício por ser como irmão.
Aos amigos Pedro Henrique, Paulo Ricardo, Fabrício, Roberson, Antônio
Sérgio (Kojaque), Letícia, Bianca e Fred por aguentarem minhas ideias malucas.
Ao pessoal da academia T’ai Hu Phai de Kung Fu que, apesar do pouco
tempo, ensinaram-me a superar fraquezas do corpo e da mente que eu acreditava
ter vencido.
Aos professores do Colégio Est. Prof. Algacyr Munhoz Mäeder por
acreditarem que existem crianças dispostas a serem seres humanos melhores.
À Formação Solidária pelas apostilas de pré-vestibular que possibilitaram
minha entrada na UFPR.
A todos os professores do departamento de história da UFPR pelo imenso
aprendizado (não só profissional).
Ao Gabriel Schulman que, mesmo sem saber, trouxe-me a compreensão do
mais simples, porém essencial: nenhum ser humano é completo e feliz quando não
ama com profunda amizade.
Detalhe de Platão, n’A Escola de Atenas, obra do renascentista Rafael

Diante da virtude os deuses imortais


Colocaram o suor do esforço e longa
E íngreme é a senda que a ela conduz,
Sendo áspera a primeira subida; mas
Conquistando o primeiro cimo, a
jornada
Facilitada é, a despeito de árdua ainda
ser.

Platão, Leis
RESUMO

O presente estudo monográfico aborda as formas de governo no mundo grego


clássico (séculos V-IV a. C) com base no pensamento político e nas experiências do
filósofo ateniense Platão na polis tirânica de Siracusa, na Magna Grécia. A tirania é
apresentada e analisada dentro do contexto histórico, já referido, a partir da visão
que os homens da época possuíam da mesma. Após situar a tirania dentro dos
modelos políticos existentes no período insere-se a discussão sobre a relação de
Platão com tal regime e sua época. Através desta discussão buscou-se fomentar a
reflexão sobre a relação entre a teoria e a prática na Grécia Clássica e no
pensamento político-filosófico de Platão. A vida do autor é relacionada aos seus
escritos de modo a verificar possíveis contradições entre o pensar e o agir
platônicos. Destarte, dois tratados políticos do autor em questão, a República (obra
de meia idade) e as Leis (obra do fim da vida), mais a Carta VII, são utilizados como
fontes históricas e biográficas para que o devido cotejo dos mesmos com o contexto
histórico fosse realizado de forma a apontar as características da tirania e da polis
tirânica que permitiram Platão acreditar na possibilidade de aplicar suas ideias
políticas em Siracusa. Além disso, este trabalho desfaz a falsa imagem cristã de
Platão ao inseri-lo em sua época.

Palavras-chave: Tirania. Platão. Formas de Governo. Magna Grécia. Política.


Teoria e prática.
ABSTRACT

The current monographic studies shows the forms of government on the Ancient
Greek world (centuries V-IV B. C) with basis on the political thinking and on the
experiences of Athenian philosopher Plato on the tyrannical polis of Syracuse, on
Magna Graecia. The tyranny is presented and analyzed in the historical context,
already referred, coming from the vision the men of that time possessed of it. After
situating tyranny in the existent political models on the period it’s inserted the
discussion about the relationship of Plato with said regime and it’s time. Through this
discussion it was searched to stimulate the reflection about the relationship between
theory and practice on Classical Greece and on the polical-philosophical thinking of
Plato. The life of the author is related to his writings with the intent of checking
possible contradictions between the platonic thinking and acting. After, two political
treaties of the author in question, the Republic (work of his mid-age), the Laws (work
from the end of his life), plus the Letter VII, are used like historical and biographical
sources so that the correct relation of them with the historical context was made of
the form that points the characteristics of tyranny and of the tyrannical polis that
allowed Plato to believe on the possibility if applicating his political ideas on
Syracuse. Besides, this work refutes the false Christian image of Plato when it inserts
him on his time.

Key-words: Tyranny. Plato. Government Forms. Magna Graecia. Politics. Theory


and practice.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.................................................................................................... 8
2 A GRÉCIA CLÁSSICA (SÉCULOS V-IV a. C)................................................... 10
2.1 A polis grega................................................................................................. 11
2.2 As formas de governo................................................................................... 13
2.3 A polis espartana.......................................................................................... 14
2.4 A polis ateniense.......................................................................................... 17
2.5 Guerra e rivalidade entre as poleis............................................................... 19
2.6 Tirania na Grécia Clássica............................................................................ 21
2.7 A Magna Grécia............................................................................................ 22
2.8 Siracusa, uma polis tirânica.......................................................................... 24
3 O PENSAMENTO POLÍTICO PLATÔNICO E A GRÉCIA CLÁSSICA............. 26
3.1 Platão, o Homem grego................................................................................ 30
3.2 Platão, o pensador político........................................................................... 34
3.3 Da teoria à prática........................................................................................ 38
4 O TIRANO: DE “LOBO EM PELE DE HOMEM” A AGENTE DA POLITEIA 42
DIVINA....................................................................................................................
4.1 As Leis: o legislador e a Polis Legal............................................................. 43
4.2 A Carta VII: Platão e os tiranos de Siracusa, Dionísio, o velho e Dionísio, 47
o jovem...................................................................................................................
5 CONCLUSÕES................................................................................................... 51
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................... 52
7 FONTES.............................................................................................................. 54
1 INTRODUÇÃO

Platão, Aristóteles, Cícero, santo Agostinho, Tomas More, Montesquieu, são


alguns dos nomes que podem ser citados quando pensamos em teoria política e
formas de governo. Apesar das divergências entre suas concepções, todos possuem
algo em comum, pensaram como deveria ser a melhor sociedade a fim de tornar o
homem melhor e mais feliz. Refletindo sobre esta questão analisei as ideias políticas
platônicas e o contexto histórico em que Platão viveu, a Grécia Clássica dos séculos
V-IV a.C. Pois, fora justamente este contexto o berço das discussões políticas e dos
termos política, filosofia e história. O pensamento político platônico, segundo o
filólogo alemão Werner Jaeger na obra PAIDÉIA: a formação do homem grego,
devido às deturpações ao longo da história perdeu aos nossos olhos as
características do mundo ao qual fez parte. Construiu-se uma imagem cristã de
Platão, atribuímos, muitas vezes sem perceber, uma moralidade monástica ao
filósofo que não existia no mundo grego clássico. Esquecemos que tal personagem
foi antes de tudo grego e, como grego, preocupou-se com a política, com a polis,
com a teoria e, principalmente, com a prática. Assim, este trabalho propõe uma
reflexão sobre as ideias políticas platônicas e as organizações políticas de seu
tempo a partir das experiências de Platão com os tiranos da Magna Grécia.
Procurei utilizar perspectivas históricas diferentes com o intuito de não me
prender a uma única visão do período, pois nenhum autor deve ser descartado.
Afinal, a comparação entre abordagens divergentes pode trazer à tona
características fundamentais à compreensão de um contexto histórico. Desta forma,
utilizei desde obras que oferecem um panorama geral da época como O Homem
Grego organizado por Jean-Pierre Vernat até artigos mais específicos como Platón y
la Guerra del Peloponeso de Plácido Soares. O primeiro texto aborda a cultura grega
em seus principais aspectos (social, econômico, espiritual, etc.). Assim, pode-se
perceber o que ela criou. Através do conhecimento deste “Homem” pude analisar o
personagem que me intrigava e constatar o seu pertencimento ao mundo grego que
lhe foi contemporâneo.
Verifiquei que as críticas realizadas por alguns autores como Kelsen em A
ilusão da Justiça ao pensamento político platônico eram devidas à imagem cristã de
Platão. Platão foi ateniense e grego e, como tal, deve ser lido e compreendido
através da cultura grega. Destarte, convido aos interessados em política, filosofia e
história a conhecer o Platão GREGO.
2 A GRÉCIA CLÁSSICA (SÉCULOS V-IV a. C)

Chamamos anacronicamente de Grécia uma região ao norte do mar


mediterrâneo em que havia traços ético-culturais semelhantes que, de forma
alguma, apresentava uma unidade governamental. Aliás, a diversidade, a
pluralidade cultural é uma característica fundamental para se compreender a Grécia
dos séculos V-IV a.C. A partir deste traço delineiam-se os aspectos específicos que
se pretendem serem analisados como literatura, arte, religião, filosofia, política, etc.
Nossa sociedade contemporânea remete-se frequentemente à Grécia Clássica
quando trata de questões políticas e filosóficas. Tal contexto histórico transmitiu aos
seus posteriores obras culturais inigualáveis utilizadas, re-apropriadas e exploradas
ao longo de mais de dois mil anos pelas mais diversas sociedades, por conta disso a
então denominada Grécia Clássica nos alude a ideia de florescimento e riqueza
cultural.
Apesar de anacrônico o termo Grécia Clássica foi utilizado neste trabalho
monográfico como fim didático, além disso, a imagem que ele nos remete do período
em questão não é de todo errônea, pois a cultura em todos os seus aspectos
borbulha nesta época como nunca dantes vista. Pode-se constatar isto através da
influência, por exemplo, da própria língua grega antiga em nosso meio, das obras
1
filosóficas ainda lidas, do pensamento político ainda presente, etc. O mundo grego
antigo devido ao seu caráter pluralista possibilitou o surgimento de profundos
debates políticos e filosóficos. Afinal, ambos os termos são oriundos do grego, e
denota não somente a influência deste período nos dias atuais, mas também mostra
a importância de se conhecer o significado deles para aqueles que os criaram, afim
de não haver confusão entre o significado original e o atual, evitando o anacronismo
histórico.
Esta cultura dinâmica permitiu ao homem fomentar seu intelecto, levando-o a
questionar o mundo que o cercava. Assim, é com os gregos que nasce a reflexão
2
política, apenas no interior de um mundo variado como este pôde surgir um tão
intenso debate político. É o homem pensando a si mesmo como constituinte de uma
comunidade humana, como ser culturalmente definido. Desta forma a política tem

1 Por exemplo, Platão e Aristóteles.

2 BARKER, Sir Ernest, 1874 – 1960. Teoria política grega. – Platão e seus predecessores.
como berço a polis grega, como o próprio termo alude ou, “cidade-Estado”,
comumente conhecida. Somente numa cultura dinâmica e pluralista pôde haver o
fenômeno da polis, esta é sua essência, seu sustentáculo, quando não pôde mais
ultrapassar as dificuldades políticas interiores e exteriores a civilização grega antiga
sucumbiu juntamente com a polis. 3
Destarte, neste primeiro capítulo há o destaque à configuração da Grécia
Clássica nos termos políticos, a descrição e análise da polis grega, os modelos ou
formas de governo existentes no período, a rivalidade entre as poleis hegemônicas
e, principalmente, a exposição histórico-cultural que possibilitou o fomento de
debates político-filosóficos e ações que visavam a melhora da organização social
humana entre os gregos.

2.1 A polis grega

A polis, ou “cidade-Estado”, não era apenas uma aglomeração humana ou


urbana, a polis grega era antes de tudo uma comunidade humana composta pelos
4
politai, ou cidadão, mais o território definido em que estavam estabelecidos. O
termo polis é mais adequado que “cidade-Estado”, pois este último sugere a ideia de
um Estado como atualmente é entendido,5 no seu sentido original a palavra polis
designa “um estado que governa a si mesmo”, sem diferenciar sua estrutura de
governo. A auto-suficiência era condição primordial à definição da polis, seu poder
era total, abrangia todas as esferas do comportamento humano, era fonte de todos
os direitos e obrigações. A diferenciação entre os termos é de suma importância na
medida em que a concepção de “Estado” grega como associação moral,
comunidade solidariamente definida é estranha ao pensamento que nos é
contemporâneo. É na polis que se estabelecem todos os contatos políticos,
econômicos, intelectuais, é onde residem as autoridades, onde se encontram os
ginásios, as escolas, o teatro, os templos principais, o mercado, ou seja, é o lugar de

3 AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. História geral das civilizações. Tomo I. O Oriente e a
Grécia Antiga.

4 MOSSÉ, Claude. Dicionário da civilização Grega. p.240

5 Segundo definição do dicionário: “Estado: 10. Nação politicamente organizada por leis próprias.
11. Terras ou países sujeitos à mesma autoridade ou jurisdição. 12. Conjunto de poderes políticos
de uma nação.” p. 424.
intensas relações coletivas, mútuas. O regime urbano alcançou notável
desenvolvimento no período clássico (séculos V-IV a. C) principalmente nas regiões
que propiciavam intercâmbio cultural, como Atenas, a maior polis grega. 6
A polis permitia aos seus cidadãos conhecer pessoalmente todos os outros
fisicamente e moralmente, ou seja, na sua maneira de ser, nos seus meios de vida,
nos seus laços familiares e na sua atividade quotidiana. O indivíduo não existia
isoladamente, mas era constituinte de um todo maior: a polis. Ser humano
significava antes de tudo fazer parte de uma comunidade. Até o século IV todas as
formas de expressão políticas, culturais refletiam este espírito comunitário. A polis
reunia em si mesma os mais altos aspectos da existência humana e os repartia
como dons próprios, para os gregos o Eu somente existia conectado à totalidade do
mundo, com a natureza, com a sociedade humana, nunca separado e
individualizado. A Grécia antiga foi pioneira a unir em equilíbrio o impulso criador do
indivíduo e a energia unificadora da comunidade. 7
A essência da polis eram os cidadãos, ou politai, nos escritos gregos há
sempre a referência “aos atenienses”, “aos lacedemônios”, nunca à “Atenas”, à
“Lacedemônia”, a ênfase é ao grupo formado pelos politai e não ao território onde
estes se estabelecem. Doravante, para pertencer a uma polis era preciso ser filho de
cidadãos, portanto a cidadania era adquirida basicamente via nascimento. Esta
estrutura urbana produzida pela cultura grega pautada na norma universal válida
para toda vida na polis gerou a necessidade da existência deste novo tipo de
homem, o cidadão. Ser cidadão implicava, mormente, exercer um papel político ativo
dentro da polis, da comunidade, por isso seu número foi sempre estritamente
reduzido. Esta relação entre indivíduo e comunidade é a condição sumária ao
desenvolvimento da reflexão política, devido à multiplicidade dos fatores nascidos de
um âmbito dinâmico, como a cidade, os homens passam a indagar qual o
significado, o sentido das estruturas que norteiam a vida em grupo.
Na Grécia discutir questões políticas era discutir a politeia. 8 O termo, amplo e
complexo, refere-se à “constituição” da polis, não apenas ao conjunto das

6 Contudo, o meio rural nunca deixou de ter papel preponderante. GLOTZ, Gustave. A Cidade
Grega.

7 Ver Paidéia Jaeger. p. 30

8 MOSSÉ, Claude. Dicionário da civilização Grega. p.241


instituições que a governam, mas à própria estrutura da sociedade, seu modus
vivendi, quer dizer, toda a cultura humana inserida na polis. A teoria política aparece
como necessidade de se corrigir o que existia, conceber uma politeia ideal nasce no
seio de um mundo real variado, múltiplo e intrincado. Não à toa a partir do século V
o pensamento político sofre um desenvolvimento sem igual na história, passa-se a
refletir sobre a melhor maneira de se viver em comunidade com o objetivo de formar
o homem como ser completo em unidade com o mundo – paideia.

2.2 As formas de governo

Na polis grega a questão mais importante para sua constituição era sobre
quem deveria governar, se poucos ou muitos. Tal preocupação fora registrada pelo
historiador grego Heródoto no século V nas suas Histórias, relata uma discussão
entre Dario, Megabizo e Otanes sobre a melhor forma de governo, o de um, o de
9
poucos ou o de muitos. Nesta primeira exposição da literatura grega sobre as
formas de governo debate-se qual a melhor politeia que evitaria o regime tirânico,
tido pelos gregos como pertencente a povos bárbaros. Os três personagens
advogam respectivamente da monarquia, da oligarquia e da democracia. Cada um
expõe as vantagens do regime preterido apontando paralelamente as desvantagens
dos outros. Heródoto apresenta aqui as três formas básicas e generalizantes de
classificação dos tipos de “Estado” da época, o mais importante a notar nesta fonte é
o período em que foi escrita, marcado pelo florescimento, expansão e ampliação das
relações externas da polis grega.
A escolha das personagens não é aleatória, Dario, por exemplo, rei persa, é
defensor da monarquia, o que denota a ligação que os gregos faziam entre esta
forma de governo e os povos bárbaros, ou “estrangeiros”. A ideia de uma monarquia
boa e harmônica dentro da polis não era conhecida na reflexão política grega do
século V, pois não era considerada compatível com uma sociedade de cidadãos.
Aparece somente no século IV como algo exterior à polis, o hégemon de Isócrates é
o melhor exemplo do ideal de um monarca unificador da cultura helênica.10

9 PLÁCIDO SOAREZ, Domingo. Las formas del poder personal: la monarquia y la tirania. In:
Gerión 127

10 ROCHER, Laura sancho. Las fronteras de la política. La vida política amenazada según
Isócrates y Demóstenes. Gerión. p.233
“Contudo, é bela a intenção de investigar o que os outros deixaram de lado e dar leis
às monarquias” (ISOCRATES, p.271). No mesmo século o amigo e rival de
Isócrates, Platão, defende o conceito original de rei-filósofo, a direção do estado nas
mãos de um sábio. Contrariamente à comumente concepção de democracia como
governo de muitos, Isócrates acredita na Basiléia – o governo dos melhores homens
– ou “democracia guiada”. Denomina democracia o Estado justo para todos, para ele
o governo de uma elite responsável e mantenedora da dignidade do povo pode ser
considerado como tal. Esta escolha dos termos põe em evidência a referida imagem
negativa que os gregos, principalmente os atenienses, possuíam da oligarquia, o
governo de poucos, e da monarquia, o governo de um, vista, por isso, como a mais
próxima da tirania, sendo muitas vezes confundidas quando analisadas
superficialmente. Demóstenes, orador e pensador político ateniense do século IV,
corrobora a informação exposta acima, para ele as instituições democráticas seriam
as únicas capazes de representar a autonomia política e os regimes constitucionais
gregos frente ao despotismo que representavam os bárbaros. Porém,
contrariamente à Isócrates, Demóstenes não critica em nenhum aspecto estrutural a
democracia vigente, ainda que procure educar seus ouvintes através de discursos à
atuação política. É bem provável que fora a negativa experiência oligárquica entre os
anos 404-401 a. C a condicionante à formação de uma imagem de oligarquia
sempre associada à ilegalidade e crueldade entre os atenienses.
A multiplicidade de formas de governo fruto do espírito moldável da cultura
grega produziu em seu mais alto nível análises e reflexões ímpares sobre a vida
humana em comunidade. O período clássico grego tem como marca o apogeu das
poleis, ou “cidades-Estado,” onde cada qual possuía sua própria organização
política, o que levou à profundas diferenças e divergências entre elas. As principais
poleis deste tempo são as grandes e contrárias Esparta e Atenas. Vê-se que embora
os teóricos entendessem a política como a arte do bem comum, nunca se chegou a
possuir um órgão adequado que o assegurasse. Buscou-se assazmente por ele,
estimulados pelos males que a sua inexistência trazia.

2.3 A polis espartana

A imagem de Esparta como uma polis militar é oriunda do pensamento


político exterior a ela. Fora cristalizada na obra de Aristóteles, o que evidencia a
influência do período de hegemonia espartana na Grécia depois da vitória na “guerra
do Peloponeso” (século V a. C). As instituições espartanas eram atribuídas pela
tradição ao legislador Licurgo, esta ideia, comumente apresentada pelos gregos,
devia-se à crença de que as diferentes formas de governo eram resultantes da
elaboração por sábios de normas específicas para cada comunidade, tais homens
acabavam sendo comparados a um herói, ou semi-deus, como os da tradição
mitológica. Na realidade estas instituições eram tão antigas quanto à própria polis,
derivavam da época da conquista dórica no século IX a. C da região conhecida
como Lacônia. Por serem numericamente inferiores aos demais povos habitantes
dessa região os dóricos mantiveram sua preponderância através da força, assim
formou-se uma cidade guerreira e aristocrática.

Mapa 1 – Esparta e o Peloponeso

FONTE: KAGAN, Donald. (2006)

A politeia espartana tinha de ser imutável e, de fato, nos muitos séculos de


sua história a constituição pouco se alterou, mesmo depois de seu declínio no
século III foram feitas tentativas de se retornar às leis de Licurgo. A sociedade
espartana era rigidamente hierarquizada e dividida basicamente em esparciatas,
periecos e hilotas.
Os esparciatas descendiam dos conquistadores dóricos e eram os únicos a
possuir todos os direitos de cidadão, portanto somente estes participavam do
governo da polis, chamavam-se os Iguais (ηοµοιοι). Νo século IV os esparciatas não
passavam de duas mil pessoas, alguns autores da época afirmavam que Esparta
padeceu por falta de homens. A esta elite pertenciam as melhores terras localizadas
em torno da cidade, cada lote de terra era mais uma propriedade da família do que
do indivíduo, era inalienável. Apesar disso as obrigações do espartano eram tão
numerosas que a perda da cidadania tornou-se frequente, aquele que não
conseguisse manter sua condição de nobreza passava a fazer parte da classe dos
Inferiores (ηψποµειονεσ) é por conta disso que Esparta começou a sofrer pela falta
de homens. Todas as atividades realizadas pela elite eram altamente custosas, além
de não poderem exercer qualquer atividade ligada ao trabalho. Consagravam todo
seu tempo ao Estado, preparavam-se constantemente para a guerra através de
exercícios físicos e negócios públicos.
Os periecos eram antigos habitantes da região, livres, porém sem direitos
políticos, dedicavam-se ao comércio e ao artesanato e, possuíam uma população
quatro vezes maior que a dos esparciatas. Os hilotas eram servos pertencentes à
Esparta, trabalhavam nas terras das famílias esparciatas não podendo abandoná-la
ou serem expulsos dela, assim como os periecos não possuíam direitos políticos e
nem ao menos eram considerados parte da cidade. Temiam grandemente os
esparciatas, contudo suas revoltas eram constantemente latentes e controladas à
força. Diz-se que uma vez ao ano os jovens espartanos percorriam os campos para
“caçar” hilotas, talvez não seja verdade, porém isto revela o desprezo dado a eles.
Esparta tornou-se uma poderosa potência no mundo grego mesmo sendo
numericamente reduzida, assim despertou imensa curiosidade das elites gregas das
demais poleis. Esparta teria sido a pior das sociedades e, ter-se-ia transformado na
melhor vencendo apenas as suas tendências negativas. Isócrates chama-a de
democracia, por considerá-la um modelo justo. Platão acredita que ela é um modelo
singular e por isso a denomina timocracia, um tipo intermediário entre aristocracia
(modelo ideal) e a oligarquia (modelo corrompido), ou seja, não era perfeita, mas se
aproximava. Todo este louvor dado à Esparta pelas elites do mundo grego deve-se
ao fato de os Lacedemônios representarem o ideal de aristocracia que
proporcionava o equilíbrio entre os elementos monárquicos e democráticos. Pois
Esparta era uma diarquia (possuía dois reis) fiscalizada pelos Éforos (os cinco
anciãos), o senado ou Gerusia (vinte e oito cidadãos com mais de sessenta anos) e
a assembleia do povo (cidadãos com mais de trinta anos).

2.4 A polis ateniense

Atenas, a mais conhecida e maior polis grega, foi fundada na Ática pelos
jônios e, assim como Esparta, tem sua constituição atribuída a um sábio, o legislador
Sólon. Marcou a história pelo seu modelo caracterizado pela participação dos
cidadãos, ou politai, nos negócios públicos, bem como pela intensa atividade cultural
de onde surgiram escritores, artistas, cientistas e filósofos.

Mapa 2 – A Grécia Antiga

FONTE: Colégio São Francisco

A sociedade ateniense dividia-se em cidadãos, metecos (estrangeiros


domiciliados) e escravos. Havia aproximadamente 20 mil cidadãos em Atenas, um
número muito alto se comparado com as demais poleis gregas. A cidadania era
atribuída a todo filho de pai e mãe atenienses, sendo raramente concedida aos
demais indivíduos. Em relação à Esparta, ser cidadão em Atenas era muito mais
fácil, além disso, recebia acolhedoramente os estrangeiros (ou metecos). Ser
cidadão significava participar ativamente da política e gozar de todos os direitos
civis, ao contrário dos metecos e escravos. O número de escravos ultrapassava no
11
fim do século IV os 400 mil, o escravo pertencia a um amo e poderia conquistar a
liberdade transformando-se daí em meteco.
A intensa urbanização alcançada por Atenas foi condição primordial ao seu
poder na hélade, porém não se deve esquecer que apesar da característica urbana
a agricultura possuía um importante papel econômico, muitos habitantes da cidade
eram donos de terras. Centenas de famílias ricas viviam na cidade desfrutando dos
rendimentos das suas propriedades e dos escravos. O fato de não precisarem
trabalhar disponibilizou-os para se dedicarem à vida pública, ao estudo ou a simples
ociosidade. Até mesmo os pobres atenienses costumavam ter tempo para participar
da política. Estas características possibilitaram o desenvolvimento da “democracia”
(demokratia) não havia a representação, funcionalismo público ou aparelho
burocrático, a participação direta era o sustentáculo da “democracia” ateniense. Os
negócios do Estado eram dirigidos pela Assembleia do povo, onde todos os
cidadãos com mais de 20 anos poderiam participar, não havia hierarquia nos cargos
oficiais. Os trabalhos da Assembleia do povo eram preparados pela boulé ou
Conselho dos quinhentos, todo ano 500 cidadãos eram escolhidos por sorteio para
fazer parte dela, desta forma o amadorismo definia este regime e, foi justamente
esta característica a responsável por despertar profundas críticas de pensadores
como Platão. 12 A massa se reunia na Assembleia para ouvir oradores, que a guiava
nas tomadas de decisão, para Platão, e outros pensadores contemporâneos ou não,
significava uma multidão de ignorantes dirigindo os negócios do Estado. Além da
Assembleia do povo e da boulé havia ainda os magistrados, sempre subordinados
àquelas. Porém, como mencionado em tópico anterior, havia aqueles que se
posicionavam a favor de Atenas, como Demóstenes, para o qual a democracia
representava a autonomia política em relação aos bárbaros.

“(...) Mas o instinto, nos homens razoáveis, tem em si mesmo uma defesa
comum, que é uma proteção excelente para todo o mundo, mas
especialmente para as democracias frente aos tiranos. (...) Os reis e os
tiranos são por natureza inimigos da liberdade e adversários das leis.”
(DEMÓSTENES, p.130-131)

11 ARDÉ, Auguste. A Grécia Antiga e a vida grega: geografia, história, literatura, artes, religião, vida
pública e privada. p.170

12 Idem.
Apesar das críticas direcionadas a esta politeia, é certo que foi graças a este
tipo de sistema que pôde haver a reflexão política, dentro da sociedade
conservadora de Esparta ela era praticamente inviável, principalmente no que
concerne ao desenvolvimento cultural. O espírito dinâmico e inovador ateniense
criou personalidades de relevo sem iguais em todas as áreas do conhecimento no
mundo grego, poucos estudiosos entre 500 e 300 não estiveram pelo menos ligados
à Atenas. 13

2.5 Guerra e rivalidade entre as poleis

As divergências entre Atenas e Esparta levaram-nas à guerra no século V


(432-404), chamada pelos historiadores de “Guerra do Peloponeso”. Para os
homens da época Liga do Peloponeso era sinônimo de “Esparta e seus aliados” 14 e
não guerra entre estados peloponésicos. A rivalidade entre as duas poleis envolveu
praticamente toda a Grécia e foi um dos principais fatores do declínio grego após o
século IV. As diferenças entre as concepções de formas de governo vêm à tona com
toda a força neste conflito, Esparta do lado daqueles que representavam a
15
“aristocracia” e Atenas da “democracia” . Porém, não foram apenas as
divergências ideológicas as responsáveis por desencadear a Guerra, desde o
término das guerras Médicas (Greco-pérsicas) as relações de Atenas e Esparta
arrefeciam-se progressivamente, por conta da disputa destas pela hegemonia no
mundo grego.
O fortalecimento do poder de ambas as poleis no século V levou-as a uma
política expansionista e imperialista. Na Ática formou-se a Liga Délia encabeçada
por Atenas, paulatinamente a liga transformou-se em um verdadeiro império
marítimo. E na Lacedemônia a Liga do Peloponeso liderada por Esparta, formando o
império terrestre. Os dois lados guerreavam-se sempre recriminando uns aos outros
quando havia conflito aberto sob a justificativa de estarem agindo por necessidade

13 FINLEY, M. I. Os Gregos Antigos. p.71

14 Ibidem. p.57

15 O capítulo Guerra do Peloponeso, do historiador Pedro Paulo Funari, História das Guerras (org.
Demétrio Magnoli), o autor faz uma curiosa comparação entre Guerra Fria (século XX) e a Guerra
do Peloponeso (século V a. C), pois ambas foram frutos da rivalidade entre duas potências
imperialistas com sistemas de governo divergentes.
política. Na realidade os interesses envolvidos iam desde o desejo de
engrandecimento e poder moral até o enriquecimento material através da
hegemonia comercial. Um dado curioso é que muitas vezes a guerra transformou-se
em um meio e não um fim, pois liderar um bloco político era sinal de poder e, a sua
existência dependia de uma ameaça latente, sem o qual deixaria de ter sentido.
Assim, surgiu a expressão “cidade-tirano” – uma polis desejosa de poder e glória à
custa da submissão das demais.
Em um mundo com tanta rivalidade a guerra tornou-se uma atividade
corriqueira e essencial, por isso vários pensadores acreditavam ser fundamental a
preparação dos cidadãos para a guerra, o próprio Platão destaca o papel dos
guardiões no seu Estado ideal da República e no legal das Leis. A guerra fazia parte
da vida dos gregos em geral, não somente dos lacedemônios. A longo prazo estes
conflitos enfraqueceram as cidades-Estado independentes e abriram caminho ao
posterior domínio macedônico de Filipe e Alexandre. Além disso, influenciou
decididamente todo o pensamento político contemporâneo e posterior à guerra,
inclusive o platônico. 16
Esparta, apesar de vitoriosa, também sofreu com o conflito, entrando em
decadência a partir do século IV. Contudo, a vitória espartana trouxe prejuízos
gravíssimos à “democracia” ateniense. O período de hegemonia espartana
despertou profunda admiração por sua politeia. Os gregos perguntavam-se como um
Estado numericamente tão pequeno conseguiu conquistar tanto poder.
Concomitantemente, a imposição em Atenas de um governo oligárquico por Esparta
(404-401), conhecido como o governo dos Trinta tiranos, contribuiu para a
construção entre os defensores da democracia de uma imagem de oligarquia
associada à crueldade e ilegalidade que, refletir-se-á em diversas obras de reflexão
política como, por exemplo, a de Isócrates.
Destarte, para este trabalho o fator mais importante a destacar sobre a
“Guerra do Peloponeso” é a consequente crise da democracia após o término desta.
O final do século V e início do IV marcam as primeiras experiências de Platão com
as aspirações anti-democráticas e, a tirania dos Trinta acaba por levá-lo ao total
desprezo pela política vigente.

16 Ver artigo Platón e a Guerra del Peloponeso de Domingo Plácido.


2.6 Tirania na Grécia Clássica

Apesar de ser vista negativamente pelos gregos, a tirania sempre esteve


presente na história grega desde os primeiros tempos arcaicos ou pré-clássicos.
Entre os interessados em política o homem tirânico provocou e provoca intensas
discussões acerca de seu caráter, sua forma de agir, seu governo, etc. Amado e
odiado, o tirano foi muitas vezes considerado salvador e outras assassino
sanguinário. É uma figura por si só intrigante e controvérsia, por isso despertou
imensa curiosidade entre leigos e estudiosos. Análises superficiais e profundas
foram realizadas a respeito do Estado tirânico com o intuito de desvendar o
significado de sua emergência, o porquê dos homens entregarem-se em certas
épocas a esta figura duvidosa.
Em princípio deve-se, antes de tudo, buscar a origem do termo “tirano” de
modo a esclarecer seu real sentido. A palavra túrannos não era negativa,
provavelmente apareceu na Lídia (costas da Ásia Menor) e designava um senhor ou
rei. Contudo, por conta de sua origem oriental o termo passou a ser associado pelos
gregos a déspotas bárbaros, assim acabou ganhando um sentido pejorativo, onde
17
passou a ser atribuído a detentores de poder absoluto sem escrúpulos. Na
realidade o tirano não se dava este título, mas sempre era dado por quem o
considerava como tal. O tirano chamava-se a si mesmo de rei. Porém, na Grécia
antiga o rei oficial provinha da aristocracia e exercia concomitantemente a função de
chefe de estado e sacerdote religioso, ao contrário do tirano que chegava ao poder
através da usurpação e da violência, era a elevação de um único homem acima das
leis e do próprio Estado. Dessa maneira o tirano transformava-se num sinistro
personagem sempre associada à ilegalidade e crueldade.
Este personagem apareceu principalmente em épocas conturbadas, o tirano,
às vistas de todos, era o homem mediador e disciplinador das relações partidárias.
Foi muitas vezes o “demagogo” por excelência e guia da multidão desenfreada e
cega. Na opinião de alguns autores o tirano representava o povo contra a elite,
enquanto para outros era o representante de alguma facção oligárquica privada de
poder político. Para os primeiros a tirania existiu apenas em cidades
economicamente comerciais e populosas exigentes de um poder absoluto que

17 GLOTZ, Gustave. A Cidade Grega.


contivesse e organizasse a multidão de modo a atiçá-la contra a elite dominante, o
tirano, nesta concepção, é um instrumento da massa, usado por ela com o objetivo
de satisfazer suas aspirações. De acordo com os segundos a tirania é oriunda de
uma disputa entre setores privilegiados da sociedade, onde estão incluídos os ricos
comerciantes, o tirano apoia-se na massa para vencer tal disputa a favor de um
setor.
Contudo, a tirania caracteriza-se pela efemeridade. Apesar de poderoso o
tirano não conseguiu em parte alguma manter-se por muito tempo na direção do
Estado. Assim, parece ser uma medida enérgica e radical contra os males que
solapam a polis, mas sempre com vistas a sua superação. É como um remédio
amargo que ninguém quer beber. Por isso os antigos apresentavam a tirania como a
mais degenerada das formas de governo, o tirano aparece somente quando o
Estado não pode mais se recuperar dos problemas que o cometem. Dentro da
concepção cíclica de tempo dos gregos a tirania seria a “morte” do Estado.
As realizações dos tiranos foram comparadas no século VI aos dos grandes
legisladores como Licurgo e Sólon por restabelecerem a ordem em períodos
conturbados. A origem do Estado tirânico vincula-se a épocas de grandes
transformações de ordem sociais e econômicas, ou seja, períodos instáveis, isto
explica sua efemeridade. Porém, longe de ser facilmente explicada por modelos
generalizantes, a tirania (ou tiranias) constitui-se singularmente em cada contexto
específico, assim os casos devem ser verificados à parte de forma a desvendar suas
nuances essenciais à compreensão histórica. Destarte, passa-se agora a analisar a
polis de Siracusa com o intuito de apontar os elementos que possibilitaram a ida de
Platão a este local com fins políticos.

2.7 A Magna Grécia

Os primeiros estabelecimentos fundados por grupos de particulares em busca


de uma descompressão das tensões econômicas e políticas, e não por iniciativa
oficial, apareceram no mundo grego na região que hoje faz parte da Itália, a Sicília.
Mapa 3 – A Magna Grécia

FONTE: KAGAN, Donald.(2006)

Nesta região chamada Magna Grécia desenvolveu-se também a cultura helênica,


ou grega, apesar de possuir uma organização social fora dos padrões comuns à
Grécia antiga. As poleis pertencentes a esta região desenvolveram-se
apartadamente em relação às metrópoles hegemônicas do mundo grego, não
apenas devido à posição geográfica, mas também como resultado de um processo
histórico diverso. O principal fator foi o caráter de povoamento particular numa área
favorável à expansão agrícola e às relações comerciais. Não tardou as poleis
sicilianas tornarem-se prósperas e independentes. Mesmo com as dessemelhanças
os gregos não hesitaram em denominar as cidades da Sicília de poleis, inclusive a
tirânica Siracusa, pois, como mencionado em tópico anterior, a palavra polis não se
referia à estrutura de governo. 18
Durante a maior parte do período clássico a tirania estava desassociada do
que os gregos chamavam de polis e a história da Magna Grécia era um fenômeno a

18 FINLEY, M. I. Os Gregos Antigos. p.48


parte, contudo, Siracusa não deixou de constituir culturalmente o mundo grego.
Inclusive, a própria existência de cidades autônomas e autogovernadas evidencia o
pertencimento desta realidade ao seu contexto histórico. O foco desta exposição é a
compreensão do contexto sócio-político que permitiu ou, o que levou Platão a
acreditar na possibilidade de aplicar suas ideias nesta polis.

2.8 Siracusa, uma polis tirânica

A história da tirania em Siracusa constitui um fenômeno atípico dentro do


mundo grego, mas de todo instigante por sua singularidade que levou o ateniense
Platão a tentar três vezes durante sua vida transformá-la na polis ideal. A
reconstrução de sua história é um empreendimento demasiado difícil devido à falta
de fontes, contudo na própria obra de Platão há indiretamente a alusão às suas
experiências com a tirania desta polis. Destarte, por hora nos deteremos nas
características que chamaram a atenção desse importante pensador político.
Começa-se pela origem da tirania em Siracusa. Em meados do século V
instituiu-se uma democracia na polis siracusana, onde foram declarados dez mil
cidadãos. Siracusa se auto-declarava capital e senhora da ilha. Em decorrência do
alto número de cidadãos tornou-se um campo propício ao florescimento da política
demagógica, a agitação democrática adquiriu formas extremas. A agitação e
desorganização política somadas às guerras entre as poleis sicilianas levaram à
revolta popular em Siracusa, de onde Dionísio, o velho proclamou-se tirano (405 a.
C). Seu governo representava o perfeito modelo de tirania nascida da anarquia
19
gerada pelo regime democrático. E, seu filho Dionísio, o jovem fora criado para
seguir os passos do pai.
Dionísio se apresentava como defensor universal da cultura grega frente aos
bárbaros e convencia todos os habitantes da magna Grécia a comungar desta ideia.
Diante das incursões cartaginesas à ilha siciliana o povo colocava-se ao lado do
tirano com receio da submissão aos invasores. Contudo, Dionísio entregou aos
cartagineses várias poleis e submeteu a seu poder outras tantas por meios violentos
e desaforados. Saqueou cidades, escravizou populações, o que o beneficiou
eficazmente em termos econômicos. O aumento da riqueza de Siracusa permitiu a

19 BURCKHARDT, Jacob. História de la cultura griega. Tomo I. p.252


formação de uma polícia secreta bem organizada com o intuito de reprimir e prevenir
a revolta dos habitantes das poleis dominadas. Além disso, Dionísio possuía uma
espécie de corte e uma guarda pessoal para se defender da massa populacional,
estas características são responsáveis pela atribuição a este regime do título de
“pai” da tirania moderna. Aos olhos de Platão, o meio século de democracia fora a
justificativa para a existência histórica de um regime tão violento, para ele Dionísio
era a encarnação do tirano em sua pior face. Tirania que não se desfez com sua
morte em 367 a. C, pois seu filho possuía a mesma alma tirânica. Contudo, Platão
viu na inteligência e na perspicácia destes homens a possibilidade do
desenvolvimento de legisladores e, até mesmo, de reis-filósofos como tanto
sonhava.
3 O PENSAMENTO POLÍTICO PLATÔNICO E A GRÉCIA CLÁSSICA

A Grécia, principalmente Atenas, ficou conhecida como a “mãe da política”


contemporânea, pois, como exposto no primeiro capítulo, na polis grega nasceu o
pensamento político ocidental. Algo muito importante a se destacar é a estreita
relação entre teoria e prática no mundo grego, não havia a separação entre
ambas.20 Toda reflexão se realizava com o intuito prático, de modo a solucionar os
problemas da vida humana no âmbito político, social, público, etc. Até mesmo a
filosofia é imbuída deste senso prático, nos século IV sua principal preocupação é o
homem e sua relação com a comunidade, sua maneira de agir e pensar o mundo
que o cerca. Assim, este contexto histórico permitiu ao homem questionar a si
mesmo e a cultura da qual faz parte, originando um grande número de obras que
investigam e buscam compreender o cerne da natureza humana enquanto
pertencente a um todo universal.
A política é entendida como a arte da vida humana em comunidade, sua
existência é, pois, inseparável desta. Diferentemente de hoje, participar da política
na Grécia significava possuir um alto domínio cultural, por isso era necessário que o
cidadão pleno adquirisse uma esmerada educação. Apenas os homens mais bem
educados podiam ocupar cargos políticos importantes, ser um cidadão completo
significava, antes de tudo, agir dentro da polis de forma a demonstrar seu amor, seu
respeito, sua gratidão por esta que é sua “pátria”. Participar ativamente da vida
política revestia o homem grego do status de politai, era a definição do
pertencimento do homem a um grupo que lhe devia e lhe concebia proteção.
Somente o homem político podia se considerar Homem em todos os sentidos e, até
mesmo, poder se considerar como o mais próximo dos deuses guardiões da cidade.
O chefe político imbuía-se assim do papel sumário de sacerdote da polis, sendo
responsável pelos cultos e cerimônias religiosas. O cidadão na Grécia é quem guia a
multidão em todos os aspectos da vida, é o modelo a ser seguido e reverenciado,
pois ele é o único plenamente Homem. Esta ideia de cidadão não é privilégio de
Atenas, em toda polis grega constituinte de um grupo político há esta concepção de
cidadão como o homem pleno, a diferença esta na forma de se conseguir tal título

20 “Por toda a parte surge a consciência de que na ação prática do homem existe uma norma do que
é proporcional (πρέπον, άρµοττον), a qual à semelhança do direito, não pode ser impunemente
transgredido.” (JAEGER, p.207)
Atenas, a “mãe da democracia”, fez surgir a curiosa figura do orador, nas
reuniões do conselho dos 500, ou boulé, desfilavam os melhores oradores gregos.
Quase como num campeonato os mais belos discursos políticos eram proclamados
em voz alta com o intuito de persuadir a plateia participante. Um discurso bem
elaborado e bem recitado poderia ser a diferença entre estar ou não no poder, por
conta disso quem pretendia a um cargo político não media esforços para aprender o
ofício do bem falar em público. Existiam até mesmo concursos que elegiam o melhor
orador e o melhor escritor, a arte retórica atinge seu cume nesta época, pode-se
dizer que a polis não é apenas a “mãe” da política, mas também dos discursos
21
políticos. O sofista e o professor de gramática são oriundos deste contexto,
aparecem como resultantes do poder de convencimento, ou poder persuasivo,
necessário a quem almeja pertencer ao seleto grupo dos cidadãos plenos e,
portanto, próximos dos deuses. Nestas condições, o orador era estimado e
procurado pelos desejosos de status e poder, contratar os serviços de um orador ou
de um retórico constituía uma prática comum aos pertencentes a uma polis
“democrática”.
O precursor em Atenas da oratória foi o governante Péricles no século V,
através de sua eloquência promoveu o afloramento cultural ateniense, construiu
templos, teatros, etc. e abriu o caminho a ebulição da oratória e retórica. Seus belos
discursos persuadiam os atenienses à necessidade da construção de obras
culturais, ao mesmo tempo falava aos ouvidos das pessoas o que elas queriam
ouvir, assim em pouco tempo Atenas se tornou o centro cultural do mundo
mediterrâneo. Pessoas de todas as partes iam à Atenas para ouvir os inflamados
discursos. Deve-se ressaltar o cuidado a ser tomado quando se analisa o período de
Péricles, por vivermos em uma época onde há o enaltecimento da democracia e da
mudança como valor positivo, temos a tendência a projetar nossa visão de mundo
neste período. Assim, cremos ter sido uma época sem problemas, que apenas
trouxe benesses ao mundo, o chamado “século de ouro” ou século de Péricles tem
de ser analisado sem esta lente que destorce a realidade, como um contexto
historicamente construído e que, portanto, possui diversas nuances próprias do

21 “Foi das necessidades mais profundas da vida do Estado que nasceu a ideia da educação, a qual
reconheceu no saber a nova e poderosa força espiritual daquele tempo para a formação de
homens, e a pôs à serviço desta tarefa.” (JAERGER, p.337)
22
período. É inegável a promoção por Péricles do que se definiu como cultura
ateniense, mas o que foi exatamente essa cultura? A que poder ou poderes ela
servia?
Ao contrário do que imaginamos não são todos os que ao olharem para o
século V a. C veem prosperidade e aperfeiçoamento humano. Para alguns analíticos
Péricles não foi mais que um demagogo responsável pelo enfraquecimento que
teria, inclusive, levado Atenas a cair sob o domínio espartano no final do mesmo
século. Este período de hegemonia espartana marcou a vida ateniense de forma
extremamente negativa, principalmente o domínio dos Trinta tiranos que seguiu. Em
princípios do século IV Esparta gozava entre os gregos de prestígio e poder político-
militar consequente da vitória na Guerra do Peloponeso. Esta vitória representava a
decadência da democracia frente à oligarquia, o que despertou nas elites
aristocráticas gregas o fascínio pela politeia espartana. Esparta torna-se o símbolo
da força e da coragem grega, a única capaz de vencer as tendências negativas da
alma humana. Assim, é justamente após o término da Guerra do Peloponeso que
fortalece o estereótipo do “tipo” lacedemônio, homem viril e guerreiro. A curiosidade
em relação às instituições espartanas cresce proporcionalmente a sua influência na
Grécia, mormente pelas elites enfraquecidas devido aos regimes democráticos. Os
elogios às poleis lacedemônias partem daqueles que viam na democracia a forma
de governo mais corrompida existente, pois se guiava, segundo eles, através da
ignorância de uma multidão desenfreada e desejosa de lisonjas. Para os contrários à
democracia e seu espírito libertário Péricles agiu como um confeiteiro que agrada o
freguês doente dando-lhe as mais deliciosas guloseimas, porém mata-o com esta
dieta sob a justificativa de ter-lhe proporcionado prazer. Os aristocratas atenienses
passam então a admirar a austeridade espartana e sua politeia, Atenas deveria
seguir o exemplo de Esparta que teria sido a pior das sociedades e tornou-se a
melhor vencendo apenas as suas tendências negativas. Assim, ao invés de agradar
a massa, a polis deveria proporcionar a seus filhos condições de se tornarem
Homens em pleno sentido e, isto não é alcançado sem esforço.
O melhor exemplo desta aristocracia ateniense desgostosa em relação ao regime
democrático é o filósofo e pensador político Arístocles, mais conhecido como Platão,
palavra que significa “ombros largos” devido a sua robusta compleição física ou

22 GLOTZ, Gustave. A Cidade Grega.


grandeza de espírito. O pensamento Platônico atravessou os séculos influenciando
sistemas políticos, filósofos das mais diversas culturas e ideais sociais, o que
provocou a construção de imagens sobre quem teria sido e o que pensava o referido
23
pensador. Por muito tempo o pensamento platônico ficou restrito aos estudiosos
de sistemas filosóficos, desligado do contexto histórico do qual é oriundo. Os
conceitos contidos nos diálogos platônicos foram sendo re-apropriados, modificados
e servindo de base a ideologias completamente apartadas de seu contexto original.
Isto acarretou o sério problema de um texto filosófico, o platônico, por exemplo, ser
lido como algo fora do tempo e do espaço, ou seja, a-histórico, ou eterno. Na
realidade não é possível haver a compreensão de um escrito, dado historicamente,
desligando-o do meio e das condições históricas que permitiram seu aparecimento.
Deste modo, rebatendo as possíveis discordâncias, este trabalho pauta-se na
análise do contexto histórico para a devida compreensão do pensamento de um
autor e sua obra. Platão e seu pensamento não devem de forma alguma serem
vistos fora de sua época e sociedade, como ateniense (e grego) o filósofo é aqui
entendido inserido no meio que o circundava. Apesar de visar a Verdade universal e
eterna24, foi a partir de uma realidade cultural historicamente construída que Platão
elaborou suas análises sobre o homem, sua natureza, sua vida em comunidade,
enfim, o mundo humano.
Por conseguinte, o pensamento elaborado por Platão não é apenas platônico,
é também grego. Quando se passa a vê-lo como tal os véus que escondem sua face
caem e despimos-nos dos preconceitos e imagens falsamente formadas em nossas
mentes. Sua vida, suas experiências com o mundo grego refletem-se em suas obras
e servem ao historiador uma ampla análise da época em questão. Assim,
começamos agora a expor e traçar a vida e a obra deste personagem relacionando-
as sempre ao seu contexto histórico. 25

23 Platão influenciou desde santos medievais como santo Agostinho até filósofos contemporâneos
como Hannah Arendt.

24 “O seu ‘filósofo’ não é exatamente um professor de filosofia, que se arrogue um título destes,
baseado nos conhecimentos que tem da sua especialidade (τεχνύδριον). E ainda menos é um
“pensador original”, pois não seria possível existirem simultaneamente tantos pensadores quanto
os ‘filósofos’ de que Platão precisa para governar o seu Estado” (Paidéia, Jaeger, p.848).

25 “Tocamos aqui uma das raízes da vontade platônica; é a consciência de que o Homem não
prospera no estado de isolamento, mas sim no interior de um mundo circundante adequado ao
seu ser e ao seu destino.” (JAEGER, p.792).
3.1 Platão, o Homem grego

Platão nasce um ano após a morte de Péricles em 427 a. C, ou seja, suas


primeiras experiências encontram-se no período de crise da democracia ateniense.
Assim, Platão conheceu de perto os programas e aspirações mais definidamente
26
anti-democráticas, filho de ilustre família aristocrática, seu pai, Ariston, descendia
de Codro, rei de Atenas, e sua mãe, Perictione, pertencia a linhagem de Sólon, o
grande legislador. Usufrui em sua mocidade de esmerada educação, tendo sido
discípulo dos mais conhecidos sofistas da época. Portanto, Platão, como filho da
aristocracia ateniense, foi educado e criado como tal, seguindo o ideal grego de
formação completa do homem. Como era o costume entre os aristocratas, Platão
fora incentivado em sua juventude a participar da política, pois como cidadão
ateniense pleno tinha por obrigação tomar parte dos negócios da polis. Contudo, a
proximidade com o meio político de Atenas fez-lhe desenvolver uma profunda
aversão às práticas políticas existentes até então. Viu de perto as mazelas causadas
pela Guerra do Peloponeso e, o fracasso das revoluções oligárquicas representadas
pelos Trinta Tiranos torna-se o ponto de partida para a oposição não só à
democracia como também a todas as formas de governo conhecidas por ele. Desta
forma, o pensamento platônico torna-se uma reação contrária a sua própria época.27
Este ponto é sumário e muito importante a se destacar, Platão é frequentemente
aludido através da imagem de um pensador romântico, sonhador, desligado e
desatento em relação ao mundo que o cercava, preocupado apenas em idealizar
sociedades perfeitas e inatingíveis levado por um profundo otimismo em relação ao
ser humano. Na realidade a elaboração de dois tratados políticos descrevendo a
sociedade ideal, ou melhor, a República e as Leis, refletem seu pessimismo e
desprezo pela política e pela moral da época, já que ambas eram inseparáveis no
mundo grego. Os acontecimentos dos quais foi testemunha em sua juventude o
levam a completa decepção com a polis grega clássica, porém com base nela
elaborou seu pensamento político.
Os acontecimentos que provocaram marcas indeléveis na vida de Platão e
que se refletem em sua obra foram o encontro com Sócrates, aproximadamente em

26 PLÁCIDO SOAREZ, Domingo. Platón y la Guerra del Peloponeso. p.43

27 Ibidem. p. 45
407, quando contava 20 anos e este 63 e a morte de seu mestre e amigo em 399.28
A morte de Sócrates por condenação da polis democrática ateniense arranca as
últimas esperanças que Platão poderia possuir por Atenas e sua politeia. Para
Platão, que via no mestre a encarnação do verdadeiro filósofo, 29 este acontecimento
refletia a total decadência alcançada pelas formas de governo, em especial a
democracia. A corrupção dos sistemas políticos chegou ao ponto da
incompatibilidade deste com a sabedoria, o que na teoria platônica, onde há a
comparação do corpo político com a alma humana, significa o domínio da parte
irascível, ou apetitosa da alma. Assim como na alma, quando não é governado pela
razão a polis padece sob a direção desenfreada dos desejos insaciáveis de uma
massa de ignorantes. O raciocínio platônico é simples, os desejos da alma são
infinitos, tentar saciá-los a qualquer custo gera ainda mais desejos, deixando a alma
desesperada e angustiada. O Estado, como a alma, quando governado pelos
desejos da ignorância é levado ao colapso por não conseguir satisfazer a todos. A
partir deste raciocínio Platão critica veementemente toda a história política do século
V, ao fazer alusões ao passado de Atenas mostra toda sua aversão aos
personagens relacionados à construção da politeia ateniense, principalmente
30
Péricles. Opõe-se, deste modo, a opinião tradicional segundo a qual este último
teria exercido boa influência na história ateniense.
Depois da morte de Sócrates, Platão, juntamente com outros discípulos deste,
fugiu de Atenas com receio de terem o mesmo fim que o mestre. Este fato evidencia
a divergência entre o pensamento socrático e a política ateniense, contudo, apesar
de ter criticado a cidade de Atenas, Sócrates aceita sua condenação serenamente
por ter desfrutado da política de sua polis natal. Sócrates não concordava com as
instituições atenienses, mais foi a partir delas que pode aprender, assim acreditava
dever respeitar suas leis mesmo sendo injustas. Platão, o discípulo mais fiel, mostra
toda a influência de seu mestre e amigo em grande parte dos diálogos, escritos de
31
forma a se aproximar do método socrático de ensino, a maiêutica. Esta forma de

28 TANERY, Paul. A vida, a obra e a doutrina de Platão. In: Anexo. Platão. Fedro. p.12

29 Confer. Nota 24.

30 PLÁCIDO SOAREZ, Domingo. Platón y la Guerra del Peloponeso. p.46

31 Utilizei o termo 'método', mas Sócrates não possuía um 'método' de ensino propriamente dito,
pois a maiêutica era uma conversa dialética que levava os envolvidos a perceberem as
contradições do seu próprio pensamento.
buscar o conhecimento chama a atenção do jovem aristocrata, pois se diferenciava
de todos os métodos de ensino utilizados pelos sofistas ou professores de
gramática. A maiêutica era muito mais uma conversa do que a exposição de um
tema pelo mestre. Realizava-se em praça pública quase como um passatempo, a
praça constituía-se no local mais apropriado para a maiêutica, pois ali os discípulos
e o mestre entravam em contato com a vida coletiva. “Viam o mundo”, por assim
dizer. Para esses pensadores a única maneira de desvendar a alma humana, ou
32
seja, o Homem, era vendo-o de perto. Assim, em concordância com a cultura
grega, o pensamento socrático entende o homem como olhar, o homem é o único
ser capaz de enxergar o mundo que o cerca em sua totalidade. O ignorante é aquele
despreocupado com o meio circundante, contente apenas em possuir a pura e
simples opinião. Questionar o mundo em que vive constitui-se na única forma de se
atingir a totalidade do ser, enxergar o mundo como ele é faz do ser humano Homem
em pleno sentido. Ser Homem é constatar o pertencimento da alma humana à
totalidade universal.
Destarte, Platão transformou-se no Homem grego por excelência, pois muito
além de ser um crítico de sua época, elevou seu pensamento à visão do mundo que
o constituiu. Deixou de ser um mero reprodutor da cultura ateniense para tornar-se
um crítico da mesma. Desta forma, Platão elaborou todo seu pensamento político
33
através da observação das formas de governo existentes no mundo conhecido. A
fortuna de sua família permite-lhe viajar para os principais centros político-culturais
de até então. Gastou quase todos os seus recursos em viagens pelo mundo.
Conheceu o Egito, as demais poleis gregas, dizem que chegou até mesmo a Índia
onde travou conhecimento com brâmanes. Na Magna Grécia conheceu os
pitagóricos de quem herdou o amor pelos números e geometria. Ao contrário da
imagem de um Platão quase monge medieval, o verdadeiro Platão fora um homem
explorador, viajante sedento por conhecimento e, como bom ateniense, receptível a
ouvir todo tipo de questão política. Portanto, a análise sobre a alma e cultura
humana expostas em seus diálogos não foram realizadas no interior de uma sala

32 “A partir da época de Sócrates não eram destituídos de senso prático, interessando-se pela vida
do homem comum e pelos seus problemas”. (A.H. ARMSTRONG, p.125)

33 PLÁCIDO SOAREZ, Domingo. Platón y la Guerra del Peloponeso. p.45


fechada, mas através da observação crítica do mundo constituído pelo homem
enquanto ser culturalmente formado.
Suas viagens pelo mundo deram-lhe a visão geral das instituições humanas e
pode chegar à conclusão de que a condição humana é a mais triste entre todos os
seres. Segundo o pensamento platônico o ser humano não passaria de uma
expressão do desejo de ser divino, o homem é o animal querendo ser Deus.
Portanto, nesta concepção o homem não é um fim em si mesmo, mas um meio de
se atingir o divino. Por ser a expressão de um desejo o homem encontrar-se-ia na
condição de ser incompleto e sempre em busca do divino que lhe falta. Assim, esta
34
seria a causa de toda a dor humana, a falta de Deus. O mundo cultural, onde se
inclui a política, aparece como resultante desse desejo do homem, porém, por conta
de sua natureza múltipla o ser humano se perde no mundo que ele mesmo criou,
distanciando-se cada vez mais do Deus almejado.
A variedade de formas de governo ocorre, segundo Platão, devido também a
existência de diversos tipos de homem. Já que a natureza humana é a
multiplicidade, a divina seria o contrário, ou seja, a unidade e simplicidade. Superar
a condição humana de ser incompleto é alcançar mediante reflexão a Unidade do
Ser.

“A condição humana implica a faculdade de compreender o que


denominamos ideia, isto é, ser capaz de partir da multiplicidade de
sensações para alcançar a unidade mediante reflexão. É a reminiscência do
que nossa alma viu quando andava na companhia da divindade e,
desdenhando tudo o que atribuímos realidade na presente existência,
alçava a vista para o verdadeiro Ser. (PLATÃO. Fedro. p.60)

O divino sendo apenas Um leva a conclusão de que somente há um único modelo


perfeito. Por fim, o divino e perfeito sendo Um e as formas de governo reais
correspondendo aos tipos imperfeitos de homem, permite pensar a existência de
apenas uma única forma de governo ideal ou divina. Assim, Platão vê na política um
meio de guiar os homens ao Deus necessário ao fim do sofrimento humano. Depois
de viajar pelo mundo e conhecer as instituições criadas pelo homem, o pensador
entristece-se com a dura realidade humana, percebe que nenhum homem, ao
menos que sob inspiração dos deuses, pode superar sua imperfeição guiado por
políticas corrompidas. A decepção com as instituições humanas foi tão grande que

34 Deus no sentido de Ser universal e não o Deus cristão.


decide se afastar das práticas políticas de seu tempo. Contrariando o costume dos
jovens aristocratas, Platão abstém-se dos negócios públicos atenienses e passa a
dedicar-se à reflexão filosófica, porém sempre desejoso em agir dentro da polis. 35

3.2 Platão, o pensador político

A política é, sem sombra de dúvida, o tema de maior destaque na obra


platônica, a análise relativa a ela ocupa a maior porcentagem do volume escrito. Isto
demonstra a importância dada aos assuntos políticos, pois Platão concebe a política
como meio de elevação da alma humana à divindade. O divino Belo e perfeito, é o
modelo que deve guiar os homens à felicidade. Quanto mais diferente do Belo, mais
imperfeito e infeliz é o homem, assemelhar-se o quanto possível do Deus é fazer a si
mesmo feliz. Através dessa lógica Platão vê a necessidade de primeiramente definir
este modelo ideal a ser seguido, assim traça em seu principal tratado político, a
República, o perfil do homem divino e do seu Estado ou forma correspondente de
sistema político.
A República é a grande responsável por produzir a imagem de um Platão
despreocupado com a política real. Tida como pura e simples utopia, muitas vezes
ocorre certa negligência por parte de estudiosos da obra platônica que tem não mais
que um devaneio sonhador de um pensador totalmente alheio ao contexto histórico
36
que o rodeava. O afastamento de Platão dos meio políticos atenienses é fruto da
descrença na democracia e nas práticas políticas desta e não do pouco relevo dado
ao tema. A polis divina descrita na República seria a demonstração do quanto o ser
humano está longe do ideal. Platão escreveu esse tratado para que servisse de
base à análise das formas de governo reais, as semelhanças ou dessemelhanças
com o sistema político ideal apontariam as falhas a serem consertadas em uma polis
grega. Como pensador político consciente dos obstáculos à realização pelo homem
da polis ideal, classifica decrescentemente as formas de governo gregas de acordo
com a proximidade ou distância daquela. Algo a se lembrar de suma relevância nos
escritos platônicos é o simbolismo utilizado, desde a escolha dos personagens até a
disposição dos assuntos discutidos têm um significado. Um bom exemplo é esta

35 Ver BARKER, Sir Ernest, 1874 – 1960. Teoria política grega. Cap. XI. Platão e os Estados
Gregos.

36 Ibidem. p.231
classificação decrescente da qualidade dos tipos de governo, segundo alguns
estudiosos, representa o pessimismo platônico, pois transmite a concepção de haver
uma tendência sempre negativa, ou decadente, das instituições humanas. O homem
tende para o pior e, o trabalho da reflexão filosófica permite a luta contra esta
tendência corruptiva da alma humana. 37 Platão denomina o sistema político ideal de
aristocracia ou monarquia, os demais seriam formas mais, ou menos, corrompidas
do primeiro. Como exposto no capítulo anterior, a monarquia era mal quista pelo
mundo grego, pois associava-se à imagem despótica bárbara. Destarte, ao defender
este modelo de governo o pensador ateniense posiciona-se contrariamente à Grécia
do período em questão, o que mostra, mais uma vez, a aversão platônica às
instituições políticas gregas, mormente as atenienses. Na classificação encontrada
no livro VIII da República a democracia é a segunda forma de governo mais distante
do ideal, perdendo apenas para a tirania. Por conseguinte, das poleis gregas a
espartana teria sido a mais semelhante à ideal, chamada de timocracia, esta era um
tipo intermediário entre aristocracia e oligarquia. Não foi considerada aristocracia por
não ser perfeita, mas também não a chama de oligarquia, pois ainda conteria
características da primeira. Desta forma, Platão entende a corrupção do Estado
como algo que se dá paulatinamente através da transformação de um tipo mais Belo
a outro menos Belo. A basiléia, o governo dos melhores homens, representada pela
monarquia ou aristocracia, constitui-se no modelo ideal a ser atingido, enquanto a
timocracia, a oligarquia, a democracia e a tirania, respectivamente, esboçam a partir
de uma visão geral a distância dos homens em relação à perfeição e, também à
felicidade.
A República foi escrita para ser o modelo, Platão mostra ter consciência disso
na própria obra, ou seja, não há a preocupação em verificar se é possível ou não
colocá-lo em prática, o importante é destacar as qualidades da politeia que levaria
os homens à virtude.

"SÓCRATES - Você acha, por acaso, que nossas palavras tenham menos
valor se não formos capazes de demonstrar que é possível tornar realidade
esse Estado que descrevemos?" (PLATÃO, República, livro V).

Depois de descrever a polis ideal, Platão pretende que ela seja utilizada na análise
dos sistemas de governo, portanto a praticidade da República reside na ideia de

37 No diálogo Fedro o mito da Parelha Alada ilustra esta tendência do homem à ilusão ou corrupção.
cotejo, e na base do discernimento dos elementos constituintes de um sistema
político.
Vários analíticos da República classificaram o pensamento político platônico
como inútil por não apresentar a demonstração em detalhes de como seria possível
38
atingir este sistema ideal. A questão nesta obra é esculpir o Belo e mostrá-lo a
39
quem o desconhece. Para o pensamento político platônico analisar e escrever
detalhadamente as falhas dos sistemas de governo é prender-se a multiplicidade
infinita dos problemas humanos, dedicar-se a isso é ocupação para mais de uma
vida. Nesta concepção todas as formas de governo existentes são imperfeitas, o que
as diferencia é a distancia que as separa da perfeição. Sendo todas imperfeitas,
deduz-se serem também todas infelizes. A natureza humana reflete a expressão do
desejo de Deus, porém o desejo é a causa sumária da dor, assim, na visão
platônica, a vida humana é dor por ser destituída da perfeição divina, daí a ideia de
que todos os seres humanos padecem no sofrimento. Por isso Platão se nega a
descrever e analisar os problemas humanos em seus pormenores, pois considera
todos os homens, com exceção do filósofo, infelizes. Assim, o relevante é imbuir-se
no conhecimento dos elementos pertencentes à alma de quem superou a condição
do desejo, ou seja, da dor.
Aquele que superou a dor, o desejo e compreendeu o eterno e divino, foi
chamado por Platão de filósofo. Este não é um especialista em sistemas filosóficos,
mas quem se alçou a contemplação da essência de tudo o que existe, seu intelecto
deixa a condição humana de pura absorção da cultura circundante para a reflexão
total da beleza da luz divina. A alma deste homem torna-se divina, eterna e imutável
40
como Deus, assim a polis divina também possui as características deste homem,
a partir desta comparação emerge a concepção de rei-filósofo. Por ser o único
dentre os homens verdadeiramente feliz, apenas um Estado governado por ele se
encontraria em total harmonia. Desta forma, conclui-se não haver nenhuma forma de
governo humana que não precise se reformular, pois um filósofo platônico nunca
governou. Assim, vê-se o pessimismo da concepção platônica em relação a tudo o
que é humano, alcançar o "Estado ideal" significa a superação da cultura constituída

38 Por exemplo: KELSEN, Hans, 1881-1973. A ilusão da justiça.

39 “O paralelo entre a construção ideal socrática e a imagem do ser humano mais belo indica qual é
a verdadeira finalidade visada por Platão na República.” (JAEGER, p.836)

40 Ver capítulo A República I da Paideia de Jaeger, em especial O curriculum do filósofo.


pelos homens. As "politeias reais" são as maiores inimigas da formação de um
filósofo platônico, pois a cultura criada por elas gera somente barreiras à
contemplação do divino. Segundo Platão, quando um homem desses aparece é
graças à inspiração dos deuses, no entanto as pessoas comuns o veem como inútil
à sociedade. Vencer os numerosos obstáculos impostos pela cultura humana é
digno apenas de homens divinos, por isso são tão raros.

"Sócrates - Uma tal natureza, dotada de todos os predicados que lhe


atribuímos há pouco, indispensáveis para um perfeito filósofo, raramente
surge entre os homens e tais pessoa são pouco numerosas".
"Sócrates - Embora poucos em número, numerosas e poderosas as causas
que concorrem para a corrupção." (PLATÃO, República, livro VI).

Na polis apresentada na República, pelo contrário, o homem divino não seria


um "acidente", ou resultado da graça dos deuses, mas a regra, o modelo almejado e
admirado por todos. Desta forma, poderia até mesmo aparecer mais de um filósofo
para governá-la, originando um Estado aristocrático, porém, nenhum homem desses
tornou-se rei, fato lamentado por Platão que vê nisto a causa dos males humanos.

"Sócrates - Se nos Estados os filósofos não se tornarem reis ou se aqueles


que agora são chamados reis e soberanos não se dedicarem
verdadeiramente e seriamente à filosofia, se não forem necessariamente
excluídas as pessoas que aspiram somente a uma ou a outra, não haverá
para os Estados, caro Glauco, remédio para os males que os afligem, nem,
ao que parece, para o gênero humano, como não poderá jamais se realizar
e ver a luz do sol o Estado perfeito que ora expusemos em teoria. Era
exatamente isso que me deixava hesitante em falar, pois previa que haveria
de parecer por demais paradoxal, sendo ademais difícil de entender que
felicidade alguma, privada ou pública, poder se tornar possível num Estado
diferente do nosso." (PLATÃO, República, livro V)

Contudo, em consonância ao contexto histórico da época, o pensamento político


41
platônico nasce com um sentido pragmático. Apesar de jamais ter realizado suas
idéias, Platão sempre visou a utilidade de suas obras, dispondo-se sem exitar a
quem as quisesse ouvir.

3.3 Da teoria à prática

41 Confer. Nota 36
A vontade em realizar suas ideias levou Platão à Siracusa, na Magna Grécia,
por três vezes. Como exposto anteriormente neste trabalho monográfico Dionísio, o
velho governava a polis de Siracusa sob o regime tirânico o que, aparentemente,
contradiz a concepção platônica sobre o Estado tirânico e o caráter humano
correspondente exposto na República. Este tratado político fora escrito após a
primeira experiência de Platão com o tirano, quando contava aproximadamente
quarenta anos, e há uma grande semelhança entre Dionísio e o tirano descrito na
obra. Siracusa era a típica polis democrática convertida em tirânica, exatamente na
ordem como Platão concebia a transformação de um regime político a outro. A
classificação platônica das formas de governo aponta a tirania como a pior de todas,
e o tirano é chamado de “lobo em pele de homem”. Entretanto, apesar do desprezo
pela tirania, Platão percebe em Siracusa a possibilidade de por em prática suas
ideias políticas, por isso não perdeu a oportunidade de travar conhecimento com os
tiranos.
As experiências com este tirano de fato contribuíram para a formação do
pensamento político platônico e, também, na sua visão de mundo em geral. Pois a
viagem à Siracusa marca-o, não apenas politicamente, como pessoalmente. Nesta
polis conheceu Díon, sobrinho de Dionísio, o velho, homem que veio a ser um dos
grandes amigos de Platão, aliado e defensor das ideias deste durante a estada em
Siracusa. Porém, a amizade entre ambos não agrada Dionísio, por isso força o
ateniense a deixar a cidade numa galera lacedemônia que o desembarcou em
Egina. Reconhecido como ateniense foi vendido como escravo, condição livrada
42
graças a um amigo, Anniceris de Cirene, onde só então pôde voltar à Atenas.
As esperanças nutridas por Platão com a realização de seus ideais em
Siracusa provavelmente devem-se à concepção cíclica de tempo tipicamente grega.
Tal concepção entende os acontecimentos como fases de um ciclo de vida e morte
que infinitamente se repetem. A tirania, deste modo, seria a “morte” da polis, ou seja,
não havendo nenhuma forma de governo pior, após a tirania poderia ser
estabelecido qualquer outro tipo de sistema político, inclusive o ideal e divino. Assim,
a polis tirânica converte-se em instrumento dos planos políticos do pensador
ateniense. Contudo, a tarefa acabou por se constituir em uma grande aventura
quase trágica. Isto ocorreu devido à dificuldade, conhecida por Platão, em lidar com

42 Confer. Nota 28.


uma forma de governo tão extremada quanto a tirania, somada ao gênio difícil e
pouco receptível de um tirano. Arriscar a vida fora a maior prova da convicção de
Platão por seus ideais políticos. Para ele eram válidos dentro do mundo humano na
medida em que fossem utilizados para tornar a polis e seus cidadãos melhores.
Imbuído destas intenções dirige-se à Magna Grécia, pois, segundo sua análise, ali
se encontrava o contexto político mais propício à constituição de uma politeia justa –
43
monárquica ou aristocrática. Essa primeira tentativa de realizar as ideias
posteriormente expressas na República evidencia, mais uma vez, a importância da
teoria com fins pragmáticos na obra platônica. Apesar do fracasso na empreitada,
esta primeira experiência tornou-se decisiva à construção e definição da obra
considerada um dos maiores clássicos do pensamento político universal: a Politeia
(Πολιτεια) - traduzida pelos latinos por República.
A partir da observação do caráter de Dionísio, o velho e a corte deste, Platão
traça nos livros VIII e IX, do texto acima referido, a polis e alma tirânicas. Mostra a
infelicidade do homem que escolhe ser tirano e a violência característica do sistema
político governado segundo as paixões e desejos da multidão representada por um
único guia. A tirania resulta da falta de organização e excesso de “liberdade”
(libertinagem) bases do regime democrático. Todo o excesso fomentaria, assim, à
reação contrária, a servidão e violência tirânica emergem como contraponto à
liberdade proclamada e, como tentativas do estabelecimento de alguma ordem.
Quando a desordem, a anarquia e o individualismo extremo se estabelecem na polis
a própria multidão que anteriormente proclamava a liberdade apoia o governo de um
único homem detentor de poder absoluto. Com a promessa de expurgar todos os
males o tirano conquista a confiança daqueles que se veem arruinados pela
desordem. Assim, a tirania é a última alternativa desesperada de uma polis. Nesta
concepção, o aparecimento desta forma de governo indica a falência do aparato
estatal.
“Sócrates - Pelo que parece, você está descrevendo talvez a tirania como é
conhecida por todos. Segundo o provérbio, o povo, tentando evitar a fumaça
da escravidão sob homens livres, caiu no fogo a serviço de escravos e, em
lugar daquela excessiva e pura liberdade, pôs sobre si mesmo o jugo da
mais dura e amarga escravidão.” (PLATÃO, República, livro VIII).

43 BARKER, Sir Ernest, 1874 – 1960. Teoria política grega. p.116


Em convergência ao desprezo grego pela tirania, Platão teme o aparecimento
desta. Porém, contrariamente à ideia grega de que todo governo de um único
homem é tirânico, o pensador ateniense introduz um grande abismo entre a tirania e
a monarquia. (...) “é evidente para qualquer um que não existe Estado mais
miserável que o tirânico, nem um mais próspero que o monárquico.” (PLATÃO,
República, livro XI, p.295) Desta forma, a quantidade de pessoas detentoras do
poder não é suficiente para a classificação das formas de governo. A qualidade do
governante, ou governantes, coloca-se em primeiro lugar na análise exposta na
República. Ou seja, mais importante que discutir quantos devem governar é analisar
as características essenciais de cada tipo de politeia. Na visão platônica a discussão
central apresentada por Heródoto é pouco relevante, pois os três personagens –
Otanes, Dario e Megabizo – preocupam-se basicamente em apontar as qualidades e
os defeitos gerados pelo governo de um, de poucos e de muitos, causadores da
tirania, atribuindo à quantidade de governantes preponderância à qualidade dos
mesmos.
Destarte, dada a relevância do caráter de quem governa para a classificação
de um sistema político e da concepção de tirania como fechamento de um ciclo,
segundo alguns autores fora este raciocínio que levou Platão a ver a possibilidade
de transformar o tirano Dionísio, o velho em monarca. Além disso, o tirano platônico
é representante de todo o povo e a ele a multidão confia suas questões, por isso
aquele que conseguisse convencer um homem tirânico estenderia sua influência por
sobre um povo inteiro. Daí compreende-se o esforço empreendido pelo pensador
ateniense em travar conhecimento com o tirano de Siracusa. Platão viu uma
oportunidade ímpar em poder tirar suas ideias da teoria e pô-las em prática. Bastaria
para isso converter o caráter tirânico em filosófico, transformando Dionísio no tão
sonhado rei-filósofo descrito na República ou, pelo menos, semelhante a este. 44
Apesar do fracasso desta primeira tentativa em aplicar suas ideias, evidencia-
se através desta experiência o viés pragmático do pensamento político platônico.
Certa ou errada, a análise exposta na República foi desenvolvida com finalidade
teórica e prática, baseada nas reflexões de Platão sobre o mundo grego que lhe foi
contemporâneo. Não cabe aqui julgar a obra deste personagem, mas perceber as
nuances indicadoras do pertencimento, ou distanciamento, deste homem ao

44 BURCKHARDT, Jacob. História de la cultura griega. Tomo I. p.255.


contexto histórico em questão. Assim, em consonância com a época, toda reflexão
política platônica possui um fim prático e objetivo.
4 O TIRANO: DE “LOBO EM PELE DE HOMEM” A AGENTE DA POLITEIA
DIVINA

Tempos depois da primeira viagem à Siracusa, Platão escreve a República


onde define o tirano como a mais infeliz das criaturas, um homem de caráter tão
45
terrível que se converte em “lobo”. A maneira pela qual o tirano é descrito nos
livros VIII e IX da República somada à experiência quase trágica vivida por Platão
com Dionísio podem nos fazer acreditar que o filósofo nunca mais voltaria a pensar
numa outra empreitada semelhante, entretanto não exitou em retornar mais duas
vezes à Siracusa para tentar convencer Dionísio, o jovem, filho de Dionísio, o velho,
a aplicar seus ideais políticos. Como enunciado no segundo capítulo desta
monografia, a primeira viagem de Platão à Magna Grécia o marcam profundamente
em todos os aspectos, principalmente em seu pensamento político. O caráter
tirânico descrito no livro IX remete à figura de Dionísio, o velho. Contudo, após
verificar o retorno de Platão à Siracusa por mais duas vezes surgem as seguintes
questões: por que o filósofo ateniense volta a pensar na possibilidade de transformar
uma polis tirânica na cidade ideal da República? Por que apesar de considerar o
tirano um “lobo em pele de homem” tenta ensinar-lhe a ser um verdadeiro monarca?
Que traços da personalidade tirânica permitiram Platão acreditar na possibilidade da
realização de seus ideais políticos?
A polis “ideal” descrita na República é reconhecido pelo próprio Platão como
pouco provável de ser implantada em algum lugar, porém, como já enunciado, não
deixou de acreditar que este era o único meio para se alcançar a perfeição humana
e, unida a ela, a felicidade. Assim, não poupou esforços para, pelo menos,
aproximar algum sistema político grego da aristocracia ou monarquia da República.
Devido à dificuldade de transformar uma polis grega na “ideal” e à multiplicidade de
formas de governo existentes na Grécia da época, Platão opta por analisar tais
poleis a fim de averiguar qual delas ofereceria as melhores condições de mudança.
Desta forma chega à conclusão de que a polis tirânica é a que possui as
46
características essenciais para a realização de seu empreendimento. Mas, o que
fez o filósofo concluir que tal regime político fosse o melhor instrumento para a

45 Platão. República. p.284.

46 BURCKHARDT, Jacob. História de la cultura griega. Tomo I. p.255


aplicação de seus ideais políticos? Pois bem, a resposta pode estar em seu último
tratado político intitulado Leis e na Carta VII, carta direcionada por Platão à Siracusa.
Ambos os textos explicitam a aparente contradição entre a visão política descrita na
47
República e as experiências de Platão com o mundo grego. Afinal, a questão
central deste trabalho monográfico é justamente propor a reflexão sobre a
“divergência” entre teoria e prática no pensamento político platônico. Assim,
desacreditando as falsas imagens criadas ao longo da história sobre o personagem
em destaque, convidamos os interessados em análises políticas (platônicas
principalmente) a interpretar os textos de Platão através deles próprios, ou seja,
despir-se dos julgamentos baseados apenas em sendo comum.
Em mais de dois mil anos de história os escritos do pensador ateniense foram
sendo re-apropriados e re-significados de acordo com as visões dos contextos
históricos que os interpretavam. Por isso emergiram diversas sombras e
elucubrações sobre quem realmente teria sido o aristocrata grego Platão. A forma
simples de escrever abriu espaço a qualquer leitura, cada pessoa tem a sensação
de ter entendido toda sua filosofia, pois vê apenas o que ver, aquilo que lhe faz
sentido. Contudo, esquece-se de que Platão foi um homem grego e, como tal, deve
ser compreendido a partir do mundo que possibilitou seu aparecimento. Além disso,
a forma de escrever, as questões políticas e filosóficas abordadas em suas obras
somente foram possíveis graças a um mundo que lhe serviu de campo experimental.
A polis da República nunca deixou de ser uma polis grega.
Assim, comecemos agora a explorar dois textos de Platão, as Leis e a Carta
VII, com o intuito de fomentar as investigações acerca da teoria e prática platônicas.

4.1 As Leis: o legislador e a Polis Legal

O tratado de Leis é uma obra inacabada escrita por Platão no fim de sua vida.
48
Vê-se que é inacabado pela falta de ordem na exposição da matéria, omissões,
referências a passagens inexistentes, repetições de trechos, etc. A própria divisão

47 “A vida e a obra são neste pensador inseparáveis e de ninguém se poderia afirmar com maior
razão que toda a sua filosofia não é senão expressão da sua vida e esta a sua filosofia.”
(JAEGER, p.1295).

48 “Já na antiguidade a obra póstuma dos últimos anos de Platão, as Leis, mal encontrou intérpretes
e apenas alguns leitores teve.” (JAEGER, p.588).
em doze livros foi feita por seus posteriores. Provavelmente começou a ser escrito
em 360 a. C, ou seja, após suas viagens à Siracusa, quando haviam se passado
sete anos da inauguração da Academia por Platão. O conteúdo desta obra se refere
às formas de governo existentes no mundo grego. Com as Leis a pretensão foi
fornecer aos legisladores um modelo de legislação. Propõe a forma de cidade que
almeja o melhor para os homens de seu tempo, descreve suas instituições, redige
suas leis, fixa seus costumes e usos. O que há em Leis é uma “imagem” da polis
ideal da República, é uma adaptação ao contexto histórico do século IV a. C da
49
utopia daquela. É a melhor polis possível dentro do mundo humano, ou seja,
mesmo o autor admitindo a dificuldade da realização do ideal, ele ainda é a base
para a elaboração da segunda melhor polis: a Polis Legal. É o reconhecimento de
que as leis são redigidas para homens reais e não deuses perfeitos. Assim, nesta
obra Platão se refere explicitamente ao seu contexto histórico, já que trabalha agora
com uma polis possível de ser construída por homens no tempo e espaço humanos,
ao contrário do ideal da República que seria o modelo eterno e imutável.
Uma das críticas a respeito do Estado ideal se refere à inexistência neste de
leis escritas. Isto apontaria a ingenuidade do autor, pois segundo os defensores
desta hipótese, o fato de não haverem leis já basta para indicar sua ineficácia e falta
de pragmatismo. Porém, esquecem-se de que a República fora escrita de modo a
descrever a politeia ideal, perfeita, para que servisse de base à análise das formas
50
de governo imperfeitas. Para Platão a existência de leis por si só em uma polis
indica sua corrupção, por isso na polis divina da República não há lei nenhuma, pois
está em total harmonia e gera a si mesma. Como na Natureza, cada espécie cumpre
sua função intuitivamente e instintamente sem precisar ser coagida e, é feliz e
virtuosa por cumprir bem a função que lhe cabe. Por conseguinte, é uma concepção
orgânica do Estado. Analogamente ao corpo, um órgão não é superior ou inferior ao
outro, mas diferente e essencial. O mau funcionamento de uma parte acarreta o
adoecimento de todo o corpo. Assim, cada órgão exerce sua função sem a
necessidade de leis que o ordene ou relacione suas atividades fundamentais ao
devido bom funcionamento do corpo. Um corpo saudável se “auto-governa”.

49 PLÁCIDO SOAREZ, Domingo. Platón y la Guerra del Peloponeso. p.49

50 BARKER, Sir Ernest, 1874 – 1960. Teoria política grega. p.235


Aos moldes da República o tratado de Leis discute a qualidade das formas de
governo existentes no mundo grego, entretanto esta discussão possui um fim
diverso. Na primeira os tipos de sistemas políticos são classificados através da
semelhança com a forma ideal de modo a revelar os defeitos da politeia. Em Leis a
qualificação das formas de governo é feita com o intuito de apontar o tipo de sistema
político que abre a possibilidade de transformação, ou seja, não importa para Platão
descrever a polis grega mais semelhante à ideal, mas verificar qual oferece a
oportunidade de mudança. Desta forma, não há uma contradição ou negação da
51
República, mas sim um objetivo diferente. Se a República é o modelo, as Leis
demonstram como aplicar, mostram o caminho mais curto para se alcançar a melhor
politeia. A prática ganha ênfase, evidenciando a importância da prática para o
pensamento político platônico. Afinal, para a cultura grega teoria e prática eram
inseparáveis. 52
Destarte, pode-se verificar o destaque dado à prática nas Leis a começar pela
53
escolha dos três personagens do diálogo. Eles representam as duas principais
formas de governo gregas, a lacedemônia e a ateniense. Um cretense e um
espartano escutam as palavras do Ateniense anônimo. Como exposto em páginas
anteriores a escolha das personagens é de extrema relevância à compreensão do
raciocínio do autor. Apesar das críticas ferrenhas feitas por Platão à democracia
ateniense e à classificação dos sistemas políticos lacedemônios como os mais belos
dentro do mundo grego, nas Leis “O Ateniense” representa claramente a sabedoria
possível de ser atingida somente em Atenas. As personagens lacedemônias ouvem
atentamente os conselhos e análises do Ateniense, isto significa a consciência que
Platão possuía de si mesmo como cidadão de Atenas. Mesmo sendo averso à
democracia admite só poder ter formado sua filosofia em uma polis semelhante à
Atenas. A democracia ateniense criou uma grande massa de indivíduos
fracassados, porém também possibilitou o surgimento de homens “divinos” não
encontrados em nenhum outro lugar na Grécia.

51 “O fato de a última das obras de Platão sobre o Estado ter por título Leis e regular
legislativamente todos os pormenores da vida dos cidadãos já indica uma mudança de critério.”
(JAEGER, p.1297).

52 “O encanto especial da obra reside precisamente na originalidade com que o velho Platão aborda
aqui de um modo inteiramente nova uma série de importantes problemas concretos.” (JAEGER,
p.1298).

53 Ibidem. p.1303
Desta forma sua última obra aborda desta vez as principais causas dos
problemas vivenciados pelas poleis gregas, a guerra, a falta de disciplina, as leis
frutos do acaso, etc. Segundo Platão o Estado é o responsável pelas mazelas do
homem, pois tem em suas mãos o aparato necessário ao aperfeiçoamento da alma.
As mudanças não são realizadas por falta de sabedoria daqueles que conduzem o
aparato estatal. Assim, a transformação de uma polis se inicia pelos seus
governantes. As ovelhas devem ser guiadas por bons pastores.
A existência de leis na polis revela o caráter humano de seu último tratado
54
político. Na cidade ideal e divina não há a necessidade de leis, mas ao se lidar
com homens a utilização de normas é fundamental. Os homens precisam de
orientação. É neste ponto que se introduz a figura do legislador, alguém sábio capaz
de guiar os indivíduos em direção à harmonia. Contudo, tais indivíduos devem
aceitar serem conduzidos e, é aí que emerge a necessidade de saber quem
aceitaria este legislador como guia. A partir desta questão Platão passa a analisar
qual politeia grega possibilita a formação de homens suficientemente dispostos a
seguir as palavras de um sábio. Assim, a polis tirânica é apontada como possuidora
desta politeia. É a única a reunir as condições essenciais à ação do legislador.
Na visão platônica a tirania é resultante das forças degeneradoras da
democracia. Os próprios cidadãos não suportando mais a instabilidade e a falta de
ordem apelam por alguém que resolva os problemas do Estado. Encontram-se em
tamanho abandono que seguem o primeiro a prometer tirá-los da terrível situação
55
onde se veem. O tirano surge aos olhos da massa como salvador dotado de
poderes divinos. Entretanto, segundo Platão, não percebem que se entregam a mais
infeliz das criaturas, à “um lobo em pele de homem”. Contudo, se um homem sábio
conseguisse convencê-lo a elaborar uma legislação capaz de elevar a polis à
semelhança da divindade finalmente os problemas humanos cessariam. A tendência
dos cidadãos em pôr nas mãos do tirano todas as questões da vida poderia ser
aliada de um legislador verdadeiramente sábio, pois se utilizando da influência do
tirano sobre os homens poderia transformar uma polis inteira desde suas bases. Nos

54 “Nas Leis, o autor sente-se impelido a concretizar mais. Esta obra pressupõe uma Humanidade
que quer saber exatamente o como e o quê, uma Humanidade que precisa de leis para todos e
cada um dos detalhes da sua conduta.” (JAEGER, p.1315)

55 BARKER, Sir Ernest, 1874 – 1960. Teoria política grega. p.247


trechos seguintes extraídos do tratado de Leis Platão explicita as características da
tirania e do tirano que permitem a ação de um sábio legislador:

“O Ateniense - (…) Se, porventura, um determinado país reunir as


condições necessárias para que os cidadãos venham a ser felizes, é
imprescindível cair do céu, para essa cidade, o legislador participante da
verdade.
Clínias – Tens toda razão.
O Ateniense – Assim, na hipótese de se verificar as condições indicadas,
que poderá desejar de direito quem possuir essa arte, além de conceder-lhe
a sorte a oportunidade de empregar o seu talento?”(PLATÃO,Leis)

Quando existe uma polis que oferece um meio propício ao desenvolvimento


do Homem o legislador tem por dever auxiliar o governante ou governantes da
mesma. Assim, pode-se perceber que Platão atribui a si mesmo o papel de
legislador e mestre político, pois justamente esta concepção o lava à Siracusa por
três vezes.

“O Ateniense - (…) Dai-me uma cidade, nos diria, governada por um tirano,
mas que seja jovem e naturalmente dotado de boa memória, facilidade de
aprender, coragem e magnanimidade, e que aquilo a que nos referimos há
pouco como devendo acompanhar as partes da virtude se encontre também
presente em sua alma, para que tudo o mais possa ser de utilidade.”
(PLATÂO, Leis).

4.2 A Carta VII: Platão e os tiranos de Siracusa, Dionísio, o velho e Dionísio, o


jovem

A Carta VII é uma das treze cartas atribuídas a Platão dirigidas à Siracusa,
portanto é um documento histórico de sumo valor. Por algum tempo se duvidou da
autenticidade dessas cartas, contudo os historiadores dedicados ao estudo das
obras de Platão e ao platonismo já dão como julgado o processo que condenava tais
textos de inautênticos. A sua autenticidade garante ao historiador uma fonte decisiva
à análise da biografia do autor, sobretudo ao se referir às suas relações com os
tiranos da Magna Grécia. Ou seja, é um documento chave para a compreensão da
concepção platônica de tirania e a relação desta com o contexto histórico já
analisado, o mundo grego clássico.
Essas cartas foram redigidas quando Platão contava mais de sessenta anos e
dedicava-se exclusivamente à Academia. Após as tentativas de aplicar suas ideias
em Siracusa sente a necessidade de explicar aos parentes do amigo Díon, cunhado
de Dionísio, o velho, as razões que o levaram à tentar transformar o tirano em
verdadeiro monarca. A Carta VII, escrita em tom de confissão, mostra um Platão
desiludido com a política, porém disposto a tentar quantas vezes fosse preciso
auxiliar uma alma desejosa de ajudá-lo a por em prática seus ideais políticos.
Começa o texto alertando a quem deseja receber sua ajuda que somente se
colocará a disposição de quem realmente acreditar nos seus planos, pois afirma não
falar com base em opiniões superficiais do tema. Assim, mesmo depois das três
tentativas fracassadas o filósofo ainda crê na possibilidade de mudar a politeia
siracusana. O fato de demonstrar estar disposto a ir mais vezes à referida polis
denota que Platão via uma possibilidade real de fazer de Siracusa a melhor polis
grega da época. Por desejar muito aplicar suas ideias escreveu cartas à Siracusa na
esperança de algum parente ou amigo de Díon possuir os mesmos projetos deste,
ou seja, lutar por um sistema político capaz de elevar os homens à felicidade
divina.56

“Escreveste-me para que eu tenha a certeza de que vossos projetos são


iguais ao de Dião, e pedis ajuda de minha parte na medida do possível, por
atos ou por palavras. Eu, de mim, só vos digo que se vossa maneira de
pensar e vossos planos forem como os dele, disponho-me a ajudar-vos;”
(PLATÂO, Carta VII, p.137)

Dando sequência a sua confissão, começa a expor como e quando passou a


ter aversão às práticas políticas da época. Desta forma, reporta-se ao período de
sua mocidade, quando era comum a aristocracia incentivar os jovens a ingressar na
política. Porém, o jovem Platão viveu uns dos períodos mais conturbados da história
de Atenas, a perda da hegemonia para Esparta e a tomada do poder pelos Trinta
Tiranos. Visto pela maioria dos atenienses como um período obscuro, o jovem
Platão, ao contrário, acreditou que pudesse haver uma melhora nas instituições,
entretanto admite ter sido apenas ilusão da mocidade. O interessante a se notar é
que desde cedo o filósofo se mostrava simpático a regimes cujo sustentáculo é o
57
poder absoluto, o que representa uma oposição à opinião da grande maioria dos
cidadãos atenienses. Importante lembrar é que os Trinta Tiranos tomaram o poder
por conta dos interesses espartanos (sempre defensores de regimes fortes), o que

56 BURCKHARDT, Jacob. História de la cultura griega. Tomo I. p.256

57 Ver BARKER, Sir Ernest. Teoria política grega. cap.XII.


explica o desprezo ateniense por esta fase. Platão acaba por concordar que fora um
período terrível para Atenas e, passa a criar aversão pelas práticas políticas da
época. Somada a isso a morte de Sócrates em 399 a. C, dois anos após a queda
dos Trinta, põe termo a qualquer esperança de mudar as instituições de sua polis
natal. “À vista de semelhantes fatos e de outros de não menor gravidade, senti-me
revoltado e me conservei afastado daquelas práticas odientas.” (PLATÂO, Carta VII,
p.138).
A idade e o aprofundamento nos estudos levaram-no a completa decepção
com a política, todavia nunca deixou de pensar em uma resolução para os
problemas pelos quais passava o mundo grego de então. 58 Esteve sempre à espera
de uma oportunidade para agir, pois não via com bons olhos a fama que possuía de
ser um homem de pouca ação. Este sentimento é consequente do descrédito que os
gregos da época clássica em geral possuíam pela teoria desprovida de prática, pois
se tornava um pensamento “morto” e inútil.
O pessimismo era tamanho em relação aos sistemas de governo da época
que Platão concluiu haver a necessidade de medidas extremas para a melhora das
cidades. A partir desta concepção vê em Siracusa e nos seus governantes tiranos
uma maneira de alcançar seus objetivos.

“Por fim, cheguei à conclusão de que as cidades de nosso tempo são mal
governadas, por ser quase incurável sua legislação, a menos que se
modificassem para melhor.” (PLATÃO, Carta VII, p.139)

59
Entretanto, por considerar a tirania apenas uma situação transitória, ambos os
Dionísios se sentiram alvo de conspiração por parte do pensador ateniense. Ao
tentar transformar os tiranos em reis-filósofos de certa forma havia a tentativa de
derrubar a tirania, porém não necessariamente seus governantes. Para Platão
pouco importava quem seria o agente transformador da polis, desde que este
trabalhasse em prol da união entre a sabedoria e a política.
Por fim, na Carta VII Platão narra os acontecimentos e as causas que,
segundo ele, explicam o porquê do seu fracasso em Siracusa. Apesar da
possibilidade real de aplicar suas ideias os interesses de quem se sentia bem no

58 PLÁCIDO SOAREZ, Domingo. Platón y la Guerra del Peloponeso.p.44

59 GLOTZ, Gustave. A Cidade Grega. p.95


regime tirânico venceu o desejo de uma sociedade melhor. A Carta VII fora mais
uma tentativa de alertar os siracusanos desejosos de transformar sua polis na
melhor possível a tomar cuidado com aqueles que apenas pensavam em interesses
próprios. Platão se lamenta mostrando que Siracusa não se transformou em um
modelo para todo o mundo grego clássico porque não quis, pois o contexto político e
social eram os mais propícios.

“Nunca houvera uma ocasião como aquela, de vir a concretizar-se nos


mesmos homens a união da filosofia e do governo das cidades.”
“(...) era chegado o momento de tentar pôr em prática meus projetos de
legislação e de governo. Bastava persuadir um único homem, para que tudo
me saísse bem.” (PLATÃO, Carta VII, p.141).

Assim, comparando-se a um médico, Platão diz não abandonar um paciente


doente quando este é curável. Por isso nunca negou os chamados dos Dionísios. 60

60 “Em face dele surge a analogia entre o legislador e o ginasta, cujos ofícios se ocupam
respectivamente da alma sã e do corpo são, tal como o juiz e o médico se ocupam
respectivamente, por sua vez da alma e do corpo doentes.” (JAEGER, Paidéia, p.796)
5 CONCLUSÕES

O problema exposto ao longo desta monografia foi a possível contradição


entre a concepção de tirania do pensador ateniense Platão apresentada no livro VIII
da República, uma obra de meia idade, e os acontecimentos referentes à sua vida.
Neste texto a tirania e o tirano são descritos e analisados de forma extremamente
pejorativa, o tirano é chamado de “lobo em pele de homem” e a polis tirânica é
entendida como a mais miserável de todas. Entretanto, após analisar a biografia do
autor percebi uma contradição entre a teoria e a prática de Platão. Afinal, porque
mesmo considerando o tirano um homem tão ruim o personagem em questão
buscou se aproximar e convencer os tiranos siracusanos Dionísio, o velho e
Dionísio, o jovem a por em prática o sistema político descrito na República?
Esta questão me levou a outro tratado político do mesmo autor, as Leis, uma
obra do fim da vida. Neste, contrariamente à República, a tirania é apontada como
um meio de se atingir a melhor polis. O tirano deixa de ser somente um “lobo” e
passa a poder ser um agente transformador da politeia. Assim, a convergência entre
a ideia de tirania exposta nas Leis e o que o autor praticou ao longo de sua vida
levou-me, primeiramente, a hipótese de ter ocorrido uma mudança na sua visão
política. Contudo, após averiguar bem as obras em destaque notei não haver uma
negação da polis descrita na República pelo tratado de Leis ou pela sua ação em
Siracusa. Na realidade, tudo que o filósofo e pensador político fez foi tentar por em
prática as ideias do primeiro tratado. A diferença entre os textos reside nos objetivos
pelos quais foram escritos. A República é o modelo ideal e eterno de polis, fora
pensada para que servisse de base à análise dos sistemas políticos existentes. As
Leis tem como objetivo orientar os futuros legisladores desejosos de transformar
para melhor as poleis da época, ou seja, foram escritas para o homem, entendido
como ser imperfeito e necessitado de aperfeiçoamento.
O fato de ter tentado por três vezes fazer dos tiranos reis-filósofos evidencia
que para Platão não importava quem iria governar, mas como iria governar. Sendo
bem orientado por alguém verdadeiramente sábio, o tirano também poderia fazer de
uma polis a melhor e mais bela.
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Imagem da epígrafe disponível em:


http://cantodobardo.blogspot.com/2007_08_01_archive.html
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