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s edições de literatura histórica - quer de fontes quer de

estudos - ocupam lugar de relevo nos interesses do público.


André Ferrand de Almeida
_ _Que é preciso satisfazer, prezando a qualidade. Não poucos
leitores querem conhecer o passado, e não se limitam a convencionais
interpretações. Há muitos que se embrenham afoitamente em novas
perspectivas e em novas problemáticas. Que podem contribuir para
esclarecer os dias que vivemos. Novas margens, outras margens.
Com este conjunto de publicações, a Comissão Nacional para as
A formação
Comemorações dos Descobrimentos Portugueses iniciou, em 1997,
uma nova colecção que se designou Outras Margens: assim mesmo. do espaço
Onde têm saído alguns títulos de importância para alargar o número
de leitores do que tem vindo a ser investigado e escrito em Portugal.
Em que cabem também reedições de obras fundamentais, que se
brasileiro
encontravam esgotadas. Sobre o passado de um Povo que pelo Mundo
se espalhou. e o projecto
Joaquim Romero Magalhães
Comissárío-Geral da CNCDP
do Novo Atlas
da América
Portuguesa

f O « I U 5 A l I.HASItl, 1 5 0 0 Í O O O
; « X%,
COMISSÃO NACIONAL
PAR^ AS COMEMORAÇÕES
DOS DESCOBRIMENTOS PORTUGU
ANDRÉ FERRAND DE ALMEIDA

A FORMAÇÃO DO ESPAÇO
B R A S I L E I R O E O PROJECTO
DO NOVO ATLAS DA
AMÉRICA PORTUGUESA
(1713-1748)

Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses


LISBOA 2001
C o O u t M
Aos meus pais

Título: A formação do espaço brasileiro e o projecto do Novo Atlas


da América Portuguesa (17Í3-1748)

Autor: André Ferrand de Almeida

© Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses


Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor

Revisão: Francisco Paiva Boléo


Capa: Fernando Felgueiras
Paginação: Jorge M. Beío
Fotolitos: Multitipo - Artes GráEicas, Lda.
Impressão e acabamento: Gráfica Maiadouro, S. A.

1.* edição: Fevereiro de 2001


ISBN: 972-787-025-2
Depósito legal: 158 405/00

CNCDP - Catalogação na Fonte

ALMEIDA, André Ferrand de


A formação do espaço brasileiro e o projecto do Novo Atlas da
América Portuguesa (1713-1748) l André Ferrand de Almeida.
- Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos
Descobrimentos Portugueses, 2001. - 208p; 24cm. -
{Outras Margens). - ISBN 972-787-025-2
l - ALMEIDA, Andié Ftrund de
APRESENTAÇÃO
No dia 20 de janeiro de 1680, cumprindo ordens reais, ancorou
junto à ilha grande de São Gabriel - no rio da Prata, em território
hoje uruguaio, fronteiro a Buenos Aires e dela distante umas oito
léguas - a pequena esquadrilha (cinco embarcações) do Mestre de
Campo D. Manuel Lobo.
Deveria ele erguer, na região, uma fortificação e fundar povoa-
ção, dando início a uma «nova colónia».
Tratou-se de ato político de audácia extrema, tão a gosto da
gente e dos governantes lusitanos, pois há apenas 12 anos havia ces-
sado a guerra da Restauração e ainda ecoavam as turbulências do
início da regência do Príncipe D. Pedro.
A que visava tão temerária ação? Nada mais nada menos do
que, uma vez mais, buscar os limites naturais sonhados desde os tem-
pos de D. Manuel, com o descobrimento do rio da Frata pela expe-
dição armada por D. Nuno Manuel e Cristóbal de Haro (1514) e o
reconhecimento de que o marco de Tordesilhas cortava a costa sul-
-americana nas proximidades do Equador, conforme a afirmação de
Estevão Froes na sua carta ao Venturoso (Santo Domingo, 30 de
Julho de 1514).
Se, no extremo norte, Filipe III, nos primeiros lustros do século
xvn, atribuíra aos seus súditos portugueses a árdua tarefa de expul-
sar da Costa Norte (inclusive das margens do rio Amazonas) os
franceses, holandeses, ingleses e irlandeses que lá se haviam estabe-
lecido, e fizera doação de capitanias a súditos portugueses em terri-
tórios flagrantemente castelhanos (penso em Bento Maciel Parente,
por exemplo), no sul a situação era bem diversa, pois, desde Carlos V,
vinham os monarcas castelhanos fechando a questão: na Cananéia
principiavam os seus domínios.
É bem verdade que os indómitos bandeirantes faziam tábua
rasa sobre tais reivindicações e foram pouco a pouco transformando
as numerosas missões espanholas do Guairá e Tapes em territórios
preferenciais de caça ao índio, na busca de mão-de-obra para a flo-
rescente agro-indústria que, a partir do final do século xvi, ganhara
impressionante impulso. Mas também é certo que a Coroa portu-

;:
APRESENTAÇÃO APRESENTAÇÃO

guesa eximia-se de açoes de governo para apoiar seus indomáveis Obviamente, lembra Ferrand de Almeida, a dissertação de Delisle
súditos paulistas. serviu como elemento de pressão na agilização da contratação dos
A Nova Colónia do Sacramento foi, portanto, ponto extrema- jesuítas estrangeiros, mas a génese do «Novo Atlas do Brasil» é ante-
mente conspícuo na nova orientação da Coroa em relação à sua rior a ela.
política brasileira e origem de quase um século de violentos confli- Se a atuação dos padres Capassi e Diogo Soares, os dois jesuítas
tos e guerras. Também ela foi, se não fulcro, pelo menos motivação enviados ao Brasil, foi importante para dar a partida no novo atlas,
para as tentativas de colonização da banda septentrional do rio ela não foi, de forma alguma, suficiente, tal a vastidão dos territó-
da Prata e da efetiva ocupação do Continente de São Pedro (Rio rios reconhecidos e ocupados pelos luso-brasileiros entre o crepús-
Grande do Sul) e Santa Catarina, que teriam lugar no início do culo da atuaçào dos padres matemáticos e a véspera do Tratado de
século seguinte, já reinando D. João V. Houve sempre, como seria Madrid (1750).
óbvio, intransigente oposição castelhana, não obstante o Tratado Em sucessivos e extremamente bem elaborados capítulos, Fer-
Provisional (1681) e, principalmente, o de Utreque (6 de fevereiro de rand de Almeida estuda a notável obra cartográfica dos dois jesuítas
1715). (notadamente a do padre Soares), os avanços para oeste na direção
Na margem septentrional do Amazonas (Estado do Amapá), lin- das minas do Mato Grosso e no Rio Grande de São Pedro, o estabe-
deiros àquela altura não eram mais os castelhanos mas os franceses lecimento da ligação fluvial entre aquelas minas e Belém do Pará e
(e, rio acima e passado o tempo, os ingleses), atraídos pela negligên- as negociações diplomáticas que dariam ao Brasil a posse dos terri-
cia daqueles e, também, pela decadência que caracterizou o reinado tórios além-Tordesilhas, já com a aplicação do uti fossideús de fato.
do último dos Áustrias (Carlos II). Em que pese a modéstia do autor ao afirmar, em suas pertinen-
Embora em Utreque ficasse reconhecida a equivalência rio de Vi- tes conclusões, que seu «estudo não constitui mais do que um esboço
cente Pinzón = rio Oiapoque, sempre a diplomacia francesa coloca- para um recolocar de questões que pensamos essenciais para a com-
ria sob suspeição (a meu ver, com razão) tal identificação e só o génio preensão da progressiva definição do espaço brasileiro nos séculos
do Barão do Rio Branco conseguiria, volvidos quase dois séculos, XVII e XVIII», ele é, na realidade, um extremamente bem elaborado e
fosse ela aceita. fundamentado repensar da gesta magnífica que foi a ocupação terri-
Estas são as premissas do excelente estudo de André Ferrand de torial do interior brasileiro naquele magnífico mas muito esquecido
Almeida. Com rara clarividência, percebeu ele que, anteriormente século XVII]. Trata-se, portanto, de excelente contribuição à historio-
ao alarme causado pela leitura, na Real Academia de Ciências de grafia luso-brasileira daqueles tempos em que a crítica de Frei Vicente
Paris (27 de novembro de 1720), da célebre dissertação de Guil- de Salvador dos portugueses no Brasil contentaram-se em «as andar
laume Delisle, «Primeiro Geógrafo do Rei» de França intitulada [as terras descobertas por Cabral] arranhando ao longo do mar como
Détermination géograyhique de Ia situation et de 1'éienáue dês différentes caranguejos» foi posta inteiramente de parte, sendo iniciado o reco-
panies âe Ia Terre, já no Brasil (São Paulo) e em Portugal (Conselho nhecimento, a conquista e a ocupação de mais de 8 500 000 quilóme-
Ultramarino) sentira-se a necessidade premente da confecção de tros quadrados, aos quais seria dada impressionante unidade, na maior
mapa detalhado do interior do território (os senões) da capitania de integração de raças, costumes e religiões já vista pela humanidade.
São Paulo nas partes em que confinavam com os territórios espa-
nhóis, máxime após o descobrimento do ouro nos rios Caxipó e
Cuiabá (1718). Max justo Guedes
Surgiu daí, em face da inexistência, em Portugal, de matemáti-
cos capacitados para a espinhosa missão, a ideia de que viessem
jesuítas alemães ou italianos (menos passíveis de suspeição por
parte dos governantes espanhóis) para percorrerem os sertões, pelas
bandas de São Paulo e do Maranhão, e desenharem mapas muito
individuais dos mesmos.

L2 l3
AGRADECIMENTOS

A realização deste trabalho não teria sido possível sem o auxílio


de várias pessoas que, em diferentes momentos e de maneira
diversa, me ajudaram de forma muito significativa.
Gostaria, antes de mais, de manifestar o meu reconhecimento ao
Professor Doutor Artur Teodoro de Matos, não apenas pela orienta-
ção metodológica desta dissertação mas também pelo seu interesse e
apoio na realização deste mestrado, sem os quais não teria sido pos-
sível concluí-lo.
Ao Dr. Inácio Guerreiro, a quem devo a sugestão de trabalhar
sobre a Cartografia do Brasil no século XVIII, quero também agrade-
cer o encorajamento à realização desta investigação, e as indicações
bibliográficas fornecidas. Ao Professor Doutor Luís Filipe Thomaz,
embora não directamente ligado à elaboração deste estudo, desejo
agradecer especialmente a sua amizade e o apoio demonstrado ao
longo de todo o mestrado, e salientar a sua importância na minha
formação científica.
Um agradecimento muito especial é devido ao Contra-Almirante
Max Justo Guedes, pela forma de transmitir o seu entusiasmo pela
História da Cartografia do Brasil, pelas pistas de investigação sugeri-
das, pelas indicações bibliográficas e, finalmente, pelo apoio conce-
dido aquando da minha estadia no Rio de Janeiro, sem o qual a pes-
quisa realizada nos Arquivos e Bibliotecas desta cidade, fundamental
para este trabalho, teria sido mais difícil, por vezes impossível.
Ao Professor Doutor Luís Ferrand de Almeida quero agradecer os
conselhos preciosos e informações bibliográficas essenciais. Do mesmo
modo, não posso deixar de lembrar o Professor Dauril Alden pela
sua disponibilidade e pelo interesse manifestado por este estudo,
para além das valiosas indicações de pesquisa. Quero ainda agrade-
cer aos Professores Doutores Joaquim Romero Magalhães e Maria Bea-
triz Nizza da Silva o encorajamento a prosseguir a investigação sobre
a História do Brasil Colonial. À Doutora Angela Maria Domingues

í5
r
AGRADECIMENTOS

agradeço, muito particularmente, a disponibilidade sempre demons-


trada em diferentes conversas, o auxílio bibliográfico e as importan-
tes indicações de pesquisa sobre os Arquivos e Bibliotecas do Rio de
Janeiro. Aos Doutores Dalton Sala e Carlos Francisco Moura desejo
manifestar o meu reconhecimento pelo auxílio prestado quer ao
nível da obtenção de bibliografia quer da pesquisa documental. Ao
Dr. Mário Olímpio Ferreira agradeço sobretudo a amizade e o seu
apoio, sempre manifestados ao longo da elaboração do presente tra- NOTA PRÉVIA
balho. Finalmente, ao Doutor João Carlos Garcia agradeço a sua
amizade que se traduziu em comentários valiosos, principalmente na
fase final de redacção deste estudo. O estudo que se segue foi realizado entre 1995 e 1998, e
Das instituições onde trabalhei, algumas merecem um destaque retoma, com pequenas alterações, o texto da dissertação de mes-
especial. Aos funcionários do Arquivo Histórico Ultramarino, da trado em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa
Mapoteca do Itamaraty e da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é que foi apresentado à Faculdade de Ciências Sociais é Humanas da
devido um reconhecimento particular pelo seu auxílio à investigação Universidade Nova de Lisboa em Dezembro de 1998. As provas
ali realizada. Não quero também esquecer o Serviço de Documenta- públicas tiveram lugar no fim de Maio de 1999.
ção Geral da Marinha, no Rio de Janeiro, onde fomos acolhidos de Antes de passar a explicar a sua organização, gostaria de, em
forma excepcional, e de agradecer, em especial, a Maria do Brasil, breves palavras, descrever um pouco da sua génese e explicitar os
responsável pela Mapoteca, todo o auxílio prestado. seus objectivos, bem como as suas limitações. Este trabalho teve a
Agradeço também à Comissão Nacional para as Comemorações sua origem num pequeno estudo sobre os Jesuítas Matemáticos e o
dos Descobrimentos Portugueses e ao Instituto de História de Além- projecto de D. João V de realização de um atlas do Brasil, que foi
-Mar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade realizado no quadro de um seminário de investigação da parte esco-
Nova de Lisboa, na pessoa do Professor Doutor Artur Teodoro de lar do Mestrado. Tendo, ainda nessa altura, o propósito de escrever
Matos, a atribuição de uma bolsa de seis meses que me permitiu uma tese sobre a presença dos portugueses na índia, não me aper-
prosseguir o mestrado. cebi então das enormes dificuldades com que se depara, inevitavel-
À Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica devo mente, quem queira trabalhar em Portugal sobre a História do Bra-
a atribuição de uma Bolsa de Mestrado, sem a qual não poderia ter sil Colonial, o que só veio a acontecer mais tarde, quando me decidi
realizado este estudo. Também a deslocação ao Rio de Janeiro não a apresentar um projecto para a elaboração da tese de mestrado
teria sido possível sem o financiamento da JNICT, enquanto a per- neste domínio de investigação. A situação é paradoxal, mas verda-
manência no Brasil durante mais de um mês foi concretizada graças deira. Em primeiro lugar, as bibliotecas portuguesas estão mal equi-
ao apoio da Fundação Cultural Brasil-Portugal, à qual manifesto o padas no que toca à bibliografia produzida sobre a História do Brasil
meu reconhecimento. Colonial nos últimos vinte anos. Trata-se, claro está, principalmente
Por fim quero agradecer aos meus amigos, aos meus pais e à de bibliografia estrangeira. Mas, se a ausência de alguns livros em
Ana pelo apoio e pela paciência que comigo tiveram durante o língua inglesa pode ser mais desculpável (ainda que para certas
longo processo de elaboração deste trabalho. obras fundamentais o não seja), a inexistência, em algumas das prin-
cipais bibliotecas públicas portuguesas, de obras de referência essen-
ciais escritas em português e publicadas no Brasil não tem qualquer
desculpa. É que, queira-se ou não, a História do Brasil Colonial não
deixa de ser também parte da História do Império Colonial Portu-
guês. Quando a esta situação se junta a insuficiente produção por-
tuguesa de estudos sobre o Brasil Colonial, que só muito lentamente

l 6 l -
NOTA P R É V I A NOTA P R É V I A

se vai alterando, o panorama torna-se ainda menos animador. Por cano, principalmente a partir do século XVII, trouxe inúmeros confli-
outro lado, até no que respeita às obras de referência mais antigas, tos com outras potências europeias e, principalmente, com a Espa-
as lacunas são grandes. O mesmo se pode dizer sobre as publicações nha. Como não podia deixar de acontecer. É que o alargamento do
periódicas não portuguesas. Em consequência, corre-se o risco de território do Brasil, sobretudo no interior, que teve lugar essencial-
repetir o trabalho já feito, de seguir pistas de investigação menos mente durante a primeira metade do século XVIII, foi feito à custa
prometedoras ou de não ter em conta, por ignorância da sua exis- dos direitos da coroa de Espanha, tal como tinham sido delimitados
tência, o que é ainda mais de lamentar, o trabalho de outros investi- no Tratado de Tordesilhas. Daí que seja, antes de mais, contra os
gadores, que se pode revelar fundamental para a nossa pesquisa. interesses espanhóis na América do Sul que a coroa portuguesa vai
Não pretendo, ao salientar as dificuldades com que se depara o definindo a sua estratégia de ocupação territorial. De fora deste tra-
investigador de História do Brasil Colonial, desculpar as insuficiên- balho ficou, no entanto, uma análise mais detalhada da evolução da
cias do estudo que se segue. Mas importa sublinhar as peculiarida- organização administrativa do território em relação com o seu alar-
des da situação de uma área de investigação que tem necessaria- gamento e ocupação ao longo das primeiras décadas do século XVIH.
mente repercussões sobre os trabalhos a ela ligados, mais que não Embora nunca me tivesse proposto realizá-la, penso que constitui
seja pelo tempo acrescido que acaba por exigir do pesquisador. um complemento essencial ao processo de construção do espaço
Este estudo, intitulado «A Formação do Espaço Brasileiro e o brasileiro aqui esboçado.
Projecto do Novo Atlas da América Portuguesa (1713-1748)», tinha A primeira parte deste estudo é constituída por um capítulo
originalmente ambições mais vastas. Propunha-se dar conta de todo introdutório sobre a definição do espaço brasileiro durante o século
o esforço de descobrimento e organização do espaço brasileiro XVII. Embora este período caia fora do âmbito cronológico da tese,
desde 1620 até cerca de 1750, dando um especial destaque às repre- trata-se de um momento-chave para a definição das fronteiras do
sentações cartográficas do território durante a primeira metade do Brasil que não podíamos deixar de abordar. São aqui discutidas a
século xviil, em particular ao trabalho dos «Padres Matemáticos». importância da União Ibérica para a expansão do território do Bra-
Contudo, as dificuldades de uma investigação tão abrangente, sil, o impacto da conquista do Nordeste pelas Províncias Unidas, e a
nomeadamente devido às limitações de tempo, e à consequente conquista do Maranhão e exploração da bacia do Amazonas. A esta
impossibilidade de ser exaustivo nas pesquisas a realizar nos dife- última questão é dado especial destaque pela importância da incor-
rentes arquivos, portugueses e estrangeiros, já por si suficiente- poração deste imenso território na constituição do Brasil. Também
mente dispersos, obrigaram a uma restruturação do projecto inicial as bandeiras paulistas são analisadas dado o seu papel fundamental
e à definição de objectivos mais realizáveis, nomeadamente pela limi- no reconhecimento do território. Por último, o problema dos «limi-
tação do âmbito cronológico da tese. tes naturais» do Brasil, e o modo como este argumento foi utilizado
Por outro lado, o facto de o trabalho se situar entre campos pela diplomacia portuguesa contra as pretensões territoriais espa-
muitas vezes separados e bastante específicos, como o são a Histó- nholas não podia deixar de ser aqui abordado, ainda que de forma
ria do Brasil Colonial, a História da Cartografia e a História da Ciên- breve.
cia, acabou por colocar dificuldades não antevistas, quer ao nível do A segunda parte, onde se discute a importância dos Tratados de
conhecimento de cada uma destas disciplinas quer da sua articula- Utreque na sua articulação com a expansão portuguesa no Brasil,
ção, o que nem sempre foi possível resolver da melhor forma. pretende salientar a génese da estratégia da diplomacia portuguesa
Neste estudo, a ênfase foi colocada na articulação entre a polí- de abandonar o acordo de Tordesilhas e de o substituir por uma
tica definida pelo Estado português para o espaço que veio a consti- negociação com a Espanha que reconhecesse a Portugal a soberania
tuir o Brasil, por um lado, e o reconhecimento do território e a sua sobre os territórios que ocupava na América do Sul. E certo que isto
representação cartográfica durante a primeira metade do século correspondia, grosso modo, a ideia de um Brasil limitado ao Sul pelo
XVIII, por outro. Não se trata apenas da relação entre a coroa portu- Prata e, ao Norte, pelo Amazonas. Mas até esta concepção já sofrera
guesa e os colonos no processo de descobrimento e ocupação do alterações que estão patentes na oposição portuguesa à tentativa
território sul-americano, A competição pelo continente sul-ameri- francesa de ocupar os territórios do Cabo do Norte, ou, melhor
NOTA PRÉVIA NOTA PRÉVIA

dizendo, de controlar a margem norte do Amazonas, já que era esse não se pode dizer da colonização do Rio Grande do Sul, cujo su-
o objectivo dos franceses, como depressa se percebeu. Aqui se ana- cesso se ficou a dever, em grande parte, à articulação dos interesses
lisa também o esforço de reconhecimento da região amazónica da Coroa com os dos colonos.
encorajado pela coroa portuguesa no período posterior a Utreque, Ao longo deste trabalho, procurou-se, sempre que possível, ao
depois estimulado pelo aparecimento da Dissertação de Guillaume retomar a análise de dados já conhecidos, propor outras leituras ou
Delisle, que situava a linha de Tordesilhas muito mais para Oriente optar criticamente por aquelas, já anteriormente feitas, que nos
do que o que pretendiam os portugueses. É neste quadro que o dis- pareceram mais correctas. Simultaneamente foi realizado um grande
curso dos diplomatas portugueses sofre nova evolução, sublinhando esforço de pesquisa de documentação de arquivo até aqui não utili-
estes a necessidade de abandonar a discussão de um acordo com a zada ou raras vezes referida. Apesar de estar consciente de ter
Espanha sobre os respectivos domínios na América do Sul com base ficado aquém do que procurei atingir, tenho, ao mesmo tempo, a
em Tordesilhas. Irnpunha-se fazer respeitar os compromissos alcan- esperança de que apesar das suas óbvias limitações este estudo
çados em Utreque, independentemente da opinião dos geógrafos. possa ter alguma utilidade para quem se interessa pela História do
Mais do que geográfica, esta era para os diplomatas uma questão Brasil Colonial.
política.
Na terceira parte, sem dúvida a principal deste trabalho, preten-
demos explicar a contratação dos «Padres Matemáticos» em Itália e
a génese do projecto de elaboração de um novo atlas do Brasil, com
base em observações feitas com novos instrumentos de precisão.
Procuramos, principalmente, articular o contexto internacional com
a política científica de D. João V, mostrando em seguida as dificul-
dades de concretização no terreno do projecto de levantamento dos
novos mapas do Brasil, que levara tanto tempo a preparar. Simulta-
neamente, sublinhamos os interesses económicos e administrativos
do rei, mais do que científicos, com o envio dos jesuítas matemáti-
cos ao Brasil. Os propósitos de D. João V eram também geoestraté-
gicos, é certo. Daí que pretendesse os melhores mapas, pois só assim
poderia conhecer de forma mais efectiva o espaço de que reclamava
a posse. Por isso procedemos a uma análise mais detalhada dos
mapas elaborados pelos jesuítas, para melhor poder avaliar o alcance
do trabalho por eles realizado e o impacto que teve no reino.
A quarta parte pretende dar conta da estratégia expansionista da
Coroa Portuguesa no Brasil contemporâneo, em grande parte, da
missão dos Padres Matemáticos. Do mesmo modo é sublinhada a
importância das iniciativas dos colonos no processo de reconheci-
mento do território e os conflitos entre as iniciativas de exploração
destes e a política da coroa portuguesa para o território brasileiro.
O que não significa que a Coroa não procurasse depois retirar divi-
dendos dos resultados do reconhecimento do território realizado à
revelia do poder central por alguns colonos. Se a situação de conflito
entre a Coroa e os particulares foi uma realidade no Mato Grosso e
em Cuiabá tal como algumas vezes no Alto Amazonas, já o mesmo

20 2 l
SIGLAS E ABREVIATURAS
1. A D E F I N I Ç Ã O DO TERRITÓRIO
Arquivos e Bibliotecas
A.H.U. -
Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa)
A.N.RJ. -
Arquivo Nacional do Rio de Janeiro
A.N.T.T. -
Arquivos Nacionais/ Torre do Tombo
A.R.S.I. -
Arquivo Geral da Companhia de Jesus (Roma)
B.A.C. -
Biblioteca da Academia das Ciências (Lisboa)
B.N.L. -
Biblioteca Nacional de Lisboa
B.N.RJ. -
Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
B.N.P. -
Biblioteca Nacional de Paris
B.P.E. -
Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Évora
I.H.G.B. -
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
(Rio de Janeiro)
S.D.G.M. - Serviço de Documentação Geral da Marinha
(Rio de Janeiro)
S.G.E. - Serviço Geográfico do Exército (Rio de Janeiro)

Obras

AGTM - Jaime Cortesão, Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid,


Instituto Rio Branco, 9 tomos, Rio de Janeiro, 1950 e 1963.
HCJB - Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, 10
tomos, Rio de Janeiro, 1938-1950.

Revistas

ABNRJ - Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.


RJHGB - Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de
Janeiro.
RIHGRGS - Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do
Sul, Porto Alegre.

.12
1.1. O Brasil na União Ibérica

A União Ibérica, enquanto tal, não teve para o Brasil consequên-


cias negativas em termos territoriais. Não só a coroa de Espanha não
procurou alargar as suas colónias na América do Sul à custa do Bra-
sil, como o território brasileiro se expandiu de forma significativa
entre 1580 e 1640. Longe de ter constituído um entrave ao expan-
sionísmo luso-brasileiro na América do Sul, a União Ibérica acabou
por favorecê-lo. Não foi só em termos territoriais que a Monarquia
dos Habsburgo favoreceu o Brasil. O contrabando da prata do Peru,
realizado através do rio da Prata, possibilitou, durante várias déca-
das, o acesso a este metal que tinha um papel fundamental na eco-
nomia do Brasil e do Reino. Graças, também, ao grande número de
portugueses estabelecidos em Lima e em Buenos Aires, frutificava
este comércio ilegal, perante a incapacidade de o Estado espanhol
lhe conseguir pôr termo.
Mas é o alargamento do território do Brasil que aqui mais nos
interessa destacar. Enquanto no Norte do Brasil foram criadas as
capitanias do Maranhão e do Pará à custa dos rivais franceses, ingle-
ses, irlandeses e holandeses, no Sul a penetração do território e o
seu reconhecimento foi o resultado do esforço dos bandeirantes
paulistas, realizado, em grande parte, à custa das missões do Para-
guai dos jesuítas espanhóis e contra os protestos da Companhia de
Jesus.
Deve, contudo, sublinhar-se que, no Norte, os ganhos territo-
riais se concretizaram com a aprovação da Monarquia Dual que,
face às ameaças estrangeiras e perante a impossibilidade de realizar
a ocupação da região com colonos espanhóis, decidiu apoiar a
expansão portuguesa no Maranhão e mesmo no Pará, contribuindo
de forma decisiva para o alargamento territorial da colónia brasileira.
Ao contrário, no Sul, a situação é bem diversa. Em lugar de uma
expansão territorial apoiada pelo Estado, os habitantes de S. Paulo
apropriaram-se de um vasto território em total oposição aos interes-
ses da coroa de Espanha. Mas também não se pode dizer que os

25
A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O
A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O

paulistas pretendessem prestar um serviço aos interesses da coroa


tas4. Uma divisão que teria consequências importantes mesmo após
portuguesa. A penetração no interior do continente foi, sobretudo,
a expulsão dos holandeses. Como sublinhou Evaldo Cabral de
fruto do interesse dos bandeirantes paulistas na mão-de-obra indí-
Mello, «o conflito que lateja por baixo do movimento restaurador e
gena, muito embora, desde o século XVI, a busca de metais preciosos
do período de reconstrução que se seguiu à capitulação holandesa
também tenha motivado inúmeras explorações do sertão1.
tem a ver fundamentalmente (mas não pura ou exclusivamente)
com o choque de interesses entre os senhores de engenhos e de
outras propriedades confiscadas pelo governo neerlandês e os novos
1.2. As Províncias Unidas e o território brasileiro
proprietários lusobrasileiros que as adquiriram»5.
Seja como for, a presença holandesa foi bem mais importante
Apesar dos seus inegáveis benefícios, a União Ibérica foi tam-
nos centros urbanos da costa, onde se concentravam os colonos
bém, em parte, responsável pela maior ameaça estrangeira ao domí-
holandeses, nunca demasiado numerosos, que dificilmente se mis-
nio português no Brasil. Na verdade, o conflito entre a Espanha e as
turavam com os luso-brasileiros. Por outro lado, apesar das tentati-
Províncias Unidas (1568-1648) não deixou de ter repercussões signi-
vas para implantar o calvinismo, a população local mantinha-se ape-
ficativas em quase todo o Império Português e, particularmente, no
gada à religião católica, que constituiu mais uma barreira cultural a
Brasil. Se é certo que, mesmo sem a União Ibérica, é provável que o
uma eficaz implantação holandesa6. Paradoxalmente, e apesar do
Império Português tivesse sido igualmente atacado pelas forças
confisco dos bens das ordens religiosas, os lusobrasileiros católicos
holandesas, a união dos dois reinos peninsulares fornecia o pretexto
beneficiaram de uma liberdade religiosa real, podendo mesmo con-
que legitimava as iniciativas bélicas das Províncias Unidas.
tar com a assistência de sacerdotes católicos desde que não questio-
A conquista de Pernambuco, em 1630, pelos holandeses da
nassem o domínio holandês7.
Companhia das índias Ocidentais, e o controlo posterior dos princi-
No que respeita à produção de mapas da colónia brasileira, a
pais centros produtores de açúcar entre Sergipe e o Maranhão pri-
cartografia holandesa, bem mais rigorosa do que a portuguesa, é
varam o Brasil das suas regiões mais ricas durante mais de duas
reveladora de uma colonização limitada, essencialmente, ao litoral e
décadas. O seu poder militar e naval garantia-lhes o controlo da
incapaz de avançar para o interior do Continente. São raros os
comercialização do açúcar e, consequentemente, da principal ri-
mapas holandeses que nos revelam do sertão brasileiro muito mais
queza do Nordeste 2 . No entanto, a extensão do seu controlo dos
do que os mapas portugueses anteriores à invasão holandesa. O que
mecanismos da produção açucareira nunca foi, ainda assim, com-
não é de admirar, porque o reconhecimento do sertão brasileiro,
pleta. O que se relaciona directamente corn a precariedade da paz,
liderado pelos paulistas, teve lugar essencialmente durante a se-
realidade que o Brasil holandês quase nunca conheceu nos seus vinte
gunda metade do século XVII e durante o século seguinte. Em todo o
e quatro anos de existência3. Por outro lado, se uma parte impor-
caso, nunca até à data do domínio holandês se tinham produzido
tante dos senhores de engenho continuava a ser portuguesa, muitos
tantos mapas e de tal qualidade da região do Nordeste brasileiro.
deles não eram exactamente os mesmos que detinham a sua posse
Graças aos engenheiros, pintores e cartógrafos trazidos pelos holan-
antes da conquista holandesa. Neste sentido, a presença holandesa e
deses, fizeram-se centenas de mapas, plantas, pinturas e desenhos,
a guerra de resistência que se lhe seguiu não deixaram de influenciar
das capitanias controladas pelos holandeses. Merece destaque, entre
de uma forma importante o sistema de propriedade no Nordeste,
dividindo os senhores de engenho em emigrados e colaboracionis-
* Evaldo Cabral de Mello, Olinda Restaurada, pp. 384-406; Evaldo Cabral de
Mello, A Frenda dos Mazombos, Companhia das Letras, São Paulo, 1995, pp. 135-136;
1 Luís Ferrand de Almeida, A Diplomacia Portuguesa e os Limites Meridionais do Bra-
José António Consalves de Mello, Tempo dos Flamengos, Ed. Massangana, Recife,
sil, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1957, pp. 22-27.
1987, pp. 132-135.
2 A obra fundamental sobre a presença dos holandeses no Nordeste é o exce-
5 Evaldo Cabral de Mello, Olinda Restaurada, p. 383.
lente estudo, recentemente revisto e ampliado, de Evaldo Cabral de Mello, Olinda
6 José António Gonsalves de Mello, Tempo dos Flamengos, pp. 242-246.
Restaurada: Guerra e Açúcar no Nordeste, 1630-1654, Topbooks, Rjo de Janeiro, 1998.
7 Evaldo Cabral de Mello, O Negócio do Brasil: Portugal, os Países Baixos e o Nor-
3 Evaldo Cabral de Mello, Olinda Restaurada, pp. 15-16.
deste, 1641-1669, Topbooks, Rio de Janeiro, 1998, pp. 125-126.

2fi
27
A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O

os cartógrafos holandeses, George Markgraf, que levou a cabo um do século XVII e, longe de figurar o curso do rio, limita-se à sua foz,
trabalho minucioso de cartografia das regiões de Pernambuco, Ser- junto a Belém12. Por seu lado, os holandeses, também desde os
gipe, Paraíba e Rio Grande8. finais do século xvi, tinham estabelecido as colónias de Orange e
Na verdade, o período correspondente à ocupação holandesa do Nassau na margem direita do rio Xingu, que lhes serviam de entre-
Nordeste não foi suficientemente longo para permitir um avanço do postos para estabelecer trocas com os índios13.
reconhecimento do interior e da sua colonização. Afinal, convém Foi necessário que os franceses se procurassem fixar em S. Luís,
não esquecer que também o avanço português no interior do Brasil no Maranhão, em 1612, para que a Coroa tomasse providências.
foi o resultado de diferentes esforços que se prolongaram por vários Esta área que, ao contrário do vale amazónico, cabia seguramente a
séculos. Portugal pela partilha de Tordesilhas, ficara também desocupada
devido às dificuldades de prosseguir a colonização a partir de Per-
nambuco. Entre o Maranhão e Pernambuco ficava o Ceará, região
1.3. A conquista do Maranhão e a exploração extremamente inóspita, onde a ocupação prosseguiu a custo. Por
da bacia amazónica outro lado, devido ao regime dos ventos, era extremamente difícil
navegar para Pernambuco a partir do Maranhão.
Na região amazónica, onde os portugueses já tinham sido pre- Após a conquista do Maranhão e a expulsão dos franceses, em
cedidos pelos espanhóis no século XVI, após algumas viagens explo- 1615, os portugueses prosseguiram o seu esforço de ocupação do
ratórias, não houve qualquer esforço continuado de implantação. litoral, estabelecendo, na foz do Amazonas, o forte do Presépio, que
Votada a região ao abandono por portugueses e espanhóis, que iria dar origem à cidade de Belém. Sancionando este movimento
tinham outras prioridades no continente sul-americano, aqui se vie- expansionista, Filipe IV viria a criar, em 1621, o Estado do Mara-
ram estabelecer com mais sucesso colonos ingleses, irlandeses, nhão separado do Estado do Brasil14. Esta separação irnpunha-se,
holandeses e franceses9. antes de mais, pela impossibilidade de comunicar por mar com as
Em 1595, Walter Raleigh subiu o Orinoco em busca do «El restantes capitanias do Brasil. E já que os caminhos por terra eram
Dorado». E, alguns anos mais tarde, em 1610, Thomas Roe coman- ainda praticamente inexistentes, não restava outra solução à Coroa
dou uma importante expedição que explorou o Amazonas, tendo a não ser a criação de um novo Estado, abrangendo as capitanias do
navegado mais de 400 quilómetros rio acima. Cerca de dez anos Pará, Ceará e Maranhão, administrado directamente a partir de Lis-
mais tarde Roger North trouxe mais de cem colonos ingleses e irlan- boa, para onde, além do mais, a navegação era relativamente fácil e
deses para efectivar a posse da região e voltou a subir o r i o . Aos rápida.
ingleses se deve, aliás, a primeira tentativa de cartografar o curso do Consolidada a presença portuguesa no Maranhão, a expulsão
Amazonas11. Apesar de incompleta dá-nos bem a medida da pene- definitiva dos ingleses e irlandeses do Amazonas só viria a ter lugar
tração fluvial dos colonos ingleses e da sua determinação no reco- já na década de 30 do século xvil. Os holandeses conseguiram resis-
nhecimento de um território que pretendiam colonizar. Basta dizer tir melhor ao avanço português. Apesar da destruição dos seus for-
que a primeira cartografia portuguesa da região amazónica data já tes na foz do rio Xingu, conseguiram manter as suas trocas com os
indígenas da região. Após a conquista de Pernambuco, ocuparam
S. Luís em 1641 e só viriam a ser expulsos do Maranhão em 1644.
8 Ver Mapa: Imagens da Formação Territorial Brasileira, Odebrecht, Rio de Janeiro,

1993, pp. 115-131.


12 Cf. Max Justo Guedes, Brasil - Cosia Norte: Cartografia Portuguesa Vetustíssima,
9 Artur César Ferreira Reis, Limites e Demarcações na Amazónia Brasileira, Rio de

Janeiro, 1947 tomo i, pp. 31-33. Serviço de Documentação Geral da Marinha, Rio de Janeiro, 1968.
13 Artur César R Reis, Limites e Demarcações na Amazónia Brasileira, tomo I, p. 34.
10 Max Justo Guedes, História Naval Brasileira, Serviço de Documentação Geral
M Desde o seu início, o avanço dos portugueses no Maranhão esteve intrinseca-
da Marinha, Rio de Janeiro, 1975, vol. i, tomo II, pp. 589-592.
11 Sarah Tyacke, «English Charting of the River Amazon c. 1595-c. 1630», in Wil-
mente ligado à necessidade de abastecer os engenhos de açúcar do Nordeste em
liam K. Storey (Ed.), Scientific Aspeas ofEuroyean Expansion (An Expanding World, Vol. 6), escravos índios e alimentos, Cfr. John Manuel Monteiro, Negros da Terra, índios e Ban-
deirantes nas Origens de São Paulo, Companhia das Letras, São Paulo, 1994, p. 78.
Variorum, 1996.

28 29
A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O

Desde o início do estabelecimento dos portugueses na foz do assim a qualquer iniciativa holandesa, mandou o governador prepa-
Amazonas que o projecto de fazer deste rio uma via de penetração rar uma expedição de reconhecimento do rio sob o comando de
no Continente em direcção ao Peru foi acalentado por alguns colo- Pedro Teixeira, um dos homens do Pará mais experientes nas guer-
nos, entre os quais se contam Simão Estácio da Silveira e Bento ras contra os europeus e índios17. Em Outubro de 1637, a expedição
Maciel Parente15. Tratava-se de chegar à prata espanhola e fazer do de Pedro Teixeira abandonou Belém. Era composta por cerca de 900
grande rio a via de escoamento deste metal em direcção à Europa. homens, dos quais 70 eram soldados e os restantes indígenas. Dela
Apesar do total desconhecimento das reais dificuldades de navega- fazia parte o piloto Bento da Costa, que estava incumbido de carto-
ção do Amazonas, sabia-se que por ele era possível chegar às índias grafar a expedição18.
de Castela e imaginava-se que, desse modo, seria mais simples Enquanto Frei Andrés de Toledo embarcou em S. Luís em direc-
alcançar a prata do Potosi. Esta ideia, que tinha por base um grande ção a Lisboa para relatar ao rei a sua viagem, a expedição coman-
desconhecimento da geografia do Continente, das dificuldades de dada por Pedro Teixeira rumou a Quito subindo o Amazonas19.
navegação e da extensão dos rios da bacia amazónica, iria sobrevi- Depois de vencer inúmeras dificuldades, alcançou finalmente Quito
ver durante o século seguinte e servir como motivação a diversos em Outubro de 1638.
exploradores portugueses. Em todo o caso, durante a primeira O presidente da Audiência de Quito, Alonso Perez Salazar,
metade do século XVII, a Monarquia Ibérica só poderia ver com mandou escrever uma descrição da viagem e desenhar um mapa,
preocupação a abertura de uma nova via de escoamento da Prata, de feito com base no roteiro do piloto Bento da Costa. Remeteu ambos
onde poderia resultar um aumento do contrabando que já então se ao vice-rei do Peru. Embora tenha acolhido bem os portugueses,
fazia em grande quantidade pelo rio da Prata. Alonso Salazar não deixou de se aperceber dos riscos que compor-
Em 1637 chegaram ao Pará, vindos de Quito, dois leigos francis- tava para os interesses espanhóis na região a facilidade com que os
canos, Frei Andrés de Toledo e Frei Domingos de Brieva, acompa- colonos do Pará podiam navegar rio acima:
nhados por alguns soldados espanhóis. Tinham descido o Amazonas
até Belém, fosse pelo receio de enfrentar os índios da região de Enca- «porque no se trata de descubrir, ni abrir camino, sino de camino
abíerto de su naturaleza por un rio tan caudaloso, que no ai poder
bellados no regresso a Quito, fosse pela vontade de explorar o rio.
humano que Ie pueda zerrarse, ni poner puerta mas fuerte que Ia de el
O então governador do Estado do Maranhão, Jácome Raimundo de prezepto de Ia prohibizíon. (...) Cada rio, de donde quiera que venga y
Noronha, apressou-se a dar conta do sucedido em carta dirigida para entra en este, da entrada para Ias províncias donde tiene su nazimiento,
Lisboa, tendo mandado traçar um mapa da viagem de acordo com a todo Io que es navegable en canoas, y se ha de tener por cierto, que
descrição da descida do Amazonas feita pelos franciscanos16. como pueda ser de provecho para íos Portugueses, y otras naziones,
Com o pretexto de escoltar os soldados espanhóis e um dos lei-
gos franciscanos, Domingos de Brieva, e da necessidade de reconhe- 17 Sobre a expedição de Pedro Teixeira há inúmeras publicações. Citamos apenas
cer o rio e de estabelecer alianças com os indígenas, antecipando-se os estudos que nos parecem mais relevantes: Jaime Cortesão, «O significado da expedi-
ção de Pedro Teixeira», in Anais do IV Congresso de História Nacional, vol. Ill, Rio de Janeiro,
1950; Idem, História do Brasil nos Velhos Mapas, Rio de Janeiro, 1965, vol. i, pp. 404-410;
15 Ver a petição de Símão Estácio da Silveira ao Rei, impressa em Madrid, a 16
Artur César Ferreira Reis, «A grande aventura de Pedro Teixeira», in R1HGB, vol. 175,
de Junho de 1626, in Rosemarie Erika Horch, As Tentativas de Penetração Amazónica por
Rio de Janeiro, 1941, pp. 249-266; Max Justo Guedes, «Aspectos Náuticos da Expedição
Vias Fluviais no séc. XVII, separata da Revista da Universidade de Coimbra, vol. XXXII,
1985, pp. 228-230. Bento Maciel Parente, que já então era capitão-mor do Pará, apre- de Pedro Teixeira (1636-1639)», in Francisco Contente Domingues e Luís Filipe Barreto,
sentou um memorial com objectivos semelhantes, em Agosto do mesmo ano (vide A Ahertura do Mundo, vol. II, Presença, Lisboa, 1987, pp. 73-83.
18 Max Justo Guedes, «Aspectos Náuticos da Expedição de Pedro Teixeira (1636-
A.B.N.RJ., vol. 92, tomo l, n.D 189). O certo é que nenhum deles levou a cabo a tarefa.
Em vez disso, Parente foi enviado ao Brasil para combater os holandeses e recebeu, -1639) », pp. 74-75.
19 O relato de Frei Andrés de Toledo foi impresso em Madrid, em 1641, por Frei
em 1637, a concessão da capitania do Cabo do Norte.
16 Ver a carta de Jácome Raimundo de Noronha de 29 de Maio de 1637 in ABNRJ, José de Maldonado com o título Relación dei primer descubnmienío dei rio de Ias Amazo-
vol. 26,1905, pp. 430-431; o auto e o desenho do curso do Amazonas feito de acordo nas, por oiro nome Maranon, hecho por Ia Religion de nuestro Padre San Francisco, por médio
com a descrição dos franciscanos, com data de 22 de Maio de 1637, encontram-se no de los religiosos de Ia Província de San Francisco de Quito; para informe de ta Católica Majes-
A.H.U., Cartografia do Brasil, n.° 826. tad de! Rey Nuestro Senor y su Real Conse/o de índias.

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navegaran todo Io que fuere o pudierse ser navegable sin reparar en Ias Ainda que unidos numa só Monarquia, os interesses dos colo-
prohiviziones. Este es el punto exempzial, porque si se deja abierta Ia
nos das duas coroas eram conflituaís na região Arnazónica como em
navegazion de este rio, como Io que dará no previniendo este dano con
outras partes da América do Sul. O exemplo da expansão dos pau-
alguna guarda (ô) defensa por ia Corona de Castilla, no abra nazion, de
Ias que navegan !as costas de Ias índias, que deje de intentar el dar vista listas à custa das missões jesuítas do Paraguai não podia deixar de
a todo Io que pudieren navegar y sondar y reconozer Ias riveras de el criar, justamente, expectativas semelhantes quanto ao comporta-
rio y vocas que entran en e\»20. mento dos portugueses do Pará. Daí que o remédio apontado pelo
presidente da Audiência de Quito passasse pela delimitação dos
Nas palavras de D. Alonso Salazar, verdadeiramente proféticas domínios respectivos das duas coroas ibéricas na América:
para a história da Amazónia brasileira, a bacia amazónica com o seu
infindável número de rios constituía uma área extremamente vulne- «For muchas razones, convendria que V. M. se serviese de mandar que
rável da América espanhola. Os afluentes do Amazonas eram poten- brevemente se tomase resoluzion, en division de los limites y confines
ciais vias de penetração no interior do continente que dificilmente de Ias dos Coronas, porque de Ia comfusion se siguen íncomvenientes
graves que se han experimentado en Ias invasiones que por tierra han
as proibições régias de navegação poderiam inviabilizar. Os colonos
echo, y hazen los portugueses de los estados de el Brasil por Ia parte
portugueses ou de nações inimigas haviam de navegar onde fosse que comfina con Ia Província y Govierno de el Paraguay. l corno por
possível fazê-lo. É certo que o perigo era, à data da carta do presi- aquella parte Ias hazen solarnente para cautibar Índios y llevarlos para
dente da Audiência de Quito, ainda longínquo. Só durante o século servirse de ellos en los trapiches de Azucar, y vender-los, Ias han de
seguinte o avanço dos portugueses lhe viria a dar razão. Mas o diag- hazer en Ias poblaziones de este rrio para Io mismo, y para sentar sus
nóstico da situação não deixava de estar correcto. poblaziones, I introduzir Ia comunicazion con estas províncias.»22
A proibição de navegar o rio das Amazonas não era suficiente,
por ser impossível de fazer cumprir. Impunha-se portanto povoar o De facto, como temia D. Aíonso, na viagem de regresso ao Pará,
rio se queria garantir-se a soberania espanhola no Amazonas. Por ao chegar junto à foz de um afluente do SolimÕes, o rio Japurá, a
conversa com Pedro Teixeira soubera D. Alonso que o capitão por- que chamou rio do Ouro, Pedro Teixeira tomou posse da região
tuguês trazia um regimento do governador do Maranhão que só para a Coroa de Portugal, estabelecendo ali o limite dos domínios
deveria abrir quando, no regresso de Quito ao Pará, passasse a pro- portugueses no Amazonas. Fundou na foz do rio a povoação de
víncia dos Omáguas. Não lhe fora difícil deduzir as intenções por- Franciscana que, por falta de gente, não viria a ser ocupada. Esta
tuguesas de fundar alguma povoação ou forte na região e o risco em «fundação» ficaria, assim, sem efeito, o que motivou mais tarde
que punham a soberania espanhola naquele espaço: diversas especulações sobre o local exacto do seu estabelecimento,
bem como sobre a identificação do rio do Ouro que, a começar por
«Qualquiera poblazion que hagan sea en Ia provinzia de los Omáguas, Berredo, alguns pensaram poder situar no rio Aguarico, afluente do
ô en otra qualquiera parte de este rio, hade ser mui pernicioza para rio Napo. Não pretendemos, neste estudo, voltar a discutir esta
todas estas provinzias, esto represento a V.M. como una de Ias cosas questão que, a nosso ver, já foi há muito resolvida por Jaime Corte-
mas importantes para Ia conservazion de ellas (...) de ninguna forma são23. Interessa-nos sim chamar a atenção para o facto de a tentativa
comviene darles lugar a que eilos pueblen, aunque sea con nombre de
de situar o local da fundação de Franciscana muito para Ocidente do
fortaleza contra los holandeses en aquel sitio, que como he dho es de
trezientos y treinta léguas de Ia mar.»21 local onde, efectivamente, teve lugar, datar já da segunda década do
século xvill, e que ela serve de uma forma clara o intuito expansio-
nista dos portugueses do Pará.
20 Informazion de. el Liz. â. ° Dom Allonso Ptrtz de Salazar, Presidente de Ia Audiência

de Quito, en que da auenta, de Ia rezoluzion que se tomo en Ia bueha de los Portugueses a Ias
Provinzias de! Maranon, in Jaime Cortesão, «O significado da expedição de Pedro Tei- 22 Informazion de el Liz. â." Dom Allonso Perez de Salazar..., /«Jaime Cortesão, «O sig-
xeira», p. 197. nificado da expedição de Pedro Teixeira", p. 201,
21 Informazion de el Liz. d." Dom Allonso Perez de Salazar..., in Jaime Cortesão, «Q sig-
23 Ver os dois estudos já citados de Jaime Cortesão: «O significado da expedição
nificado da expedição de Pedro Teixeira», p. 200. de Pedro Teixeira", pp. 185-187, e História do Brasil nos Velhos Mapas, pp. 404-407.

SJ 33
A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O
A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O

É de sublinhar que, no mais conhecido relato sobre a viagem de Isto é, passou a ser entendido pela diplomacia portuguesa como a pri-
regresso a Belém de Pedro Teixeira, não encontramos qualquer refe- meira tentativa de delimitar no terreno os domínios portugueses e
rência ao auto de posse do capitão português junto à foz do rio do espanhóis na América. Pouco importa que se tratasse de uma região
Ouro. Trata-se do Novo Descobrimento do Grande Rio das Amazonas do específica - a Amazónia. Ou que tivesse sido uma apropriação de ter-
padre Cristobal de Acuna, impresso em Madrid em 1641. Contudo, ritório sem qualquer respeito pelo meridiano de Tordesilhas.
por se tratar de obra impressa, principalmente depois da Restaura- O estabelecimento de missões no Alto Amazonas por parte dos
ção de 1640, é provável que qualquer referência ao auto de posse jesuítas espanhóis da Província do Peru iniciou-se por volta de 1637.
pudesse ser vista como uma legitimação do mesmo acto, o que a Do lado português, o esforço de implantação das ordens religiosas
Coroa de Espanha nunca poderia aceitar. Mas, nas restantes relações na região amazónica é bem anterior, praticamente contemporâneo
existentes, seja a Relación dei Descuhrimiento dei Rio de Ias Amazonas, da conquista do Pará. Os primeiros franciscanos chegaram logo em
manuscrito atribuído ao jesuíta Alonso de Rojas, sejam os relatos de 1617, seguidos pelos carmelitas, em 1624. Outras ordens, como os
Pedro Teixeira e de Filipe de Matos Cotrim, nada consta sobre o mercedários e os capuchinhos, também já possuíam missões antes
auto de posse. Já o rio do Ouro surge identificado de forma clara, de 1650. Mas seriam, sobretudo, os jesuítas a desempenhar o papel
nestes dois últimos relatos, com o rio Japurá e, na obra de Acuna, principal no quadro da missionação na Amazónia.
com o rio Yquiari, afluente do Japurá 24 . Estabelecidos no Maranhão desde 1622, logo a partir de 1630 os
Se é inegável que subjacente à expedição de Pedro Teixeira esta- jesuítas planearam a substituição dos franciscanos no Pará, uma vez
vam as intenções expansionistas do governador do Estado do Mara- que, segundo Luís Figueira, superior dos jesuítas do Maranhão, os
nhão e dos colonos do Pará, procurando garantir a posse da maior franciscanos, devido à sua pobreza e ao pequeno número de mis-
parte do curso do Amazonas para a Coroa de Portugal, não é menos sionários, não tinham meios de proteger os índios contra os colo-
verdade que, mais que os interesses da Coroa portuguesa, eram os nos26. Para estes, como para os paulistas no sul, os índios consti-
interesses específicos dos colonos do Pará na mão-de-obra indígena e tuíam a indispensável mão-de-obra. Em 1636, Luís Figueira visitou
nas drogas do sertão que se pretendiam ressalvar. Por outro lado, há as missões franciscanas da bacia amazónica e, um ano mais tarde,
que ter em conta que o feito de Teixeira ganhou outro significado publicou em Lisboa o Memorial sobre as terras e gentes do Maranhão,
devido ao fim da Monarquia Dual em 1640, e não se sabe que signi- Grão Pará e Rio das Amazonas17. Este relatório descrevia, não apenas
ficado teria se a Restauração da independência se tivesse malogrado25. a região e os seus recursos, mas a forma como os índios eram mal-
Finalmente, convém lembrar que à expedição de Teixeira não se tratados pelos colonos, sublinhando a necessidade de modificar a
seguiu uma ocupação sistemática e continuada da região amazónica política missionária a bem da protecção dos índios. O memorial
até à foz do rio Japurá. Os colonos de Belém continuaram a subir o teve um enorme impacto junto do Conselho de Estado, onde, ape-
rio para fazer «descimentes» de índios ou procurar «drogas», mas a sar das opiniões divergentes, os jesuítas conseguiram o apoio neces-
ocupação do território permaneceu limitada a alguns fortes, estabele- sário para a sua causa. A lei de 1638 concedia-lhes o controlo exclu-
cidos em lugares estratégicos, e às missões das ordens religiosas. Só sivo das missões do Amazonas. Contudo, a oposição da Mesa da
nos finais do século xvii e, principalmente, no século xvm, é que o Consciência e Ordens a esta lei tornou o processo mais moroso.
auto de posse de Pedro Teixeira viria a ganhar toda a sua importância. Finalmente, em 1643, Luís Figueira conseguiu sair de Portugal com
outros 14 jesuítas rumo ao Pará. Mas a tragédia do seu naufrágio e
2* Cristobal de Acuna, Novo Descobrimertio do Grande Rio das Amazonas, Madrid,
morte junto da ilha de Marajó pôs fim à primeira tentativa de esta-
1641, caps. LVI e LVII (ed. Agir, Rio de Janeiro, 1994, pp. 125-127). belecimento de missões jesuítas no Pará28.
25 Embora Cortesão tenha sustentado a tese de que o governador do Maranhão,

Jácome Raimundo de Noronha, pertenceria a um grupo de nobres descontentes com


26 Mathias C. Kiemen, The Indian Policy of Portugal In lhe Amazon Region, 1614-
a política de Filipe IV em relação a Portugal e ao seu império, nada permite estabele- -1693, Washington, 1954, pp. 48-50.
cer qualquer relação directa entre a expedição de Pedro Teixeira e o processo que 27 O Memorial de Figueira foi publicado por Serafim Leite, Luiz Figueira. A sua
conduziu à Restauração de 1640 (Cf. Jaime Cortesão, «O significado da expedição de vida heróica e a sua obra literária, Lisboa, 1940, pp. 207-211.
Pedro Teixeira», pp. 176-179). 28 Mathias C. Kiemen, The indian Policy of Portugal in lhe Amazon Region, pp. 50-55.
l
A DEFINIÇÃO DO TERRITÓRIO A D E F I N I Ç Ã O DO TERRITÓRIO

Só em 1653 é que os jesuítas retomariam o projecto. Liderados longo das margens dos rios Ucayali, Huallaga, Maranon e Napo, não
pelo padre António Vieira, um grupo de jesuítas iniciou um impres- progrediram muito durante várias décadas. Muito provavelmente
sionante esforço de missionação. Em seis anos, fundaram 54 missões devido à falta de missionários ou à sua inadaptação ao clima
entre o Ceará e a Amazónia, nomeadamente ao longo do Amazonas húmido da floresta amazónica. Foi só em 1686 que o jesuíta Samuel
e dos seus afluentes. Também a eles se ficou a dever, tal como a outros Fritz foi destacado para a região dos índios Omagua, um território
membros das restantes ordens religiosas, embora a estes últimos em situado abaixo da foz do Napo, onde já anteriormente os francisca-
menor grau, a exploração de muitos rios da bacia amazónica. Assim, nos tinham procurado estabelecer uma missão. Entre 1686 e 1689,
a partir de meados do século XVII, os rios Negro, Solimões, Tocantins Fritz estabeleceu diversas missões junto dos Omagua e da vizinha ~
e Madeira começaram a ser reconhecidos pelos missionários29. tribo dos Yurimagua até que, por se encontrar doente com malária,
Mas a oposição aos jesuítas por parte das outras ordens religio- se decidiu a procurar ajuda numa missão de mercedários portugue-
sas e, principalmente, dos colonos, que viam ameaçados os seus res- ses, situada abaixo da foz do Rio Negro. Daqui foi enviado para
gates de índios, culminaram na expulsão dos membros da Compa- Belém, onde foi acolhido no Colégio da Companhia de Jesus30.
nhia de Jesus para Portugal. Os jesuítas tiveram de esperar até 1680, Em Belém, depois da sua recuperação, Fritz sustentou os direi-
quando o regente do Reino, o futuro D. Pedro II, decidiu o seu tos da Coroa espanhola sobre a totalidade da bacia amazónica, de
regresso ao Pará e Maranhão. A nova lei de Abril de 1680 proibia a acordo com o meridiano de Tordesilhas, que passava, segundo enten-
escravização dos índios, estipulava o monopólio dos jesuítas sobre dia, pela foz do Amazonas. Os portugueses não tinham, assim, quais-
as missões do interior e garantia-lhes, além do mais, a autoridade quer direitos sobre aquele espaço. Em contraste, estes contrapu-
temporal sobre os índios. Após nova revolta dos colonos, desta vez nham a expedição de Pedro Teixeira e a tomada de posse que este
limitada à cidade de S. Luís do Maranhão, que resultou em nova fizera para a coroa portuguesa da maior parte do Amazonas. O padre
expulsão dos jesuítas, a Coroa decidiu punir severamente os res- Fritz tinha-se apercebido durante os seus anos de missão junto dos
ponsáveis. Ao mesmo tempo, o Conselho Ultramarino promulgava, Omagua e Yurimagua da pressão constante que os colonos portu-
em 1686, o Regimento das missões. Esta lei, que anulava o mono- gueses do Pará mantinham sobre as tribos indígenas. Mais do que as
pólio dos jesuítas, regulava as relações entre missionários e índios, missões eram os colonos e a sua exploração dos rios em busca de
por um lado, e entre estes e os colonos, por outro, estabelecia o índios para escravizar que o jesuíta temia31.
completo controlo das missões pelos missionários mas, simultanea- Em todo o caso, a contestação pelo padre Fritz do direito dos
mente, determinava que os missionários tinham de autorizar que portugueses fazerem descimentos num espaço que ficava, na sua
alguns índios trabalhassem para os colonos mediante pagamento. opinião, muito para ocidente da linha de Tordesilhas, veio demons-
Tratava-se, no fundo, de um compromisso entre as pretensões dos trar a inevitabilidade do conflito pelo controlo da bacia amazónica.
colonos de continuar a utilizar a mão-de-obra indígena e a necessi- Neste sentido, a redistribuição, em 1693, das áreas de missionação
dade de manter uma rede de missões. Esta lei manteve-se em vigor, na Amazónia por diferentes ordens religiosas, decidida pela coroa
quase sem alterações, até meados do século XYlll. portuguesa, corresponde a uma vontade de garantir a presença de
A questão da delimitação de uma fronteira entre domínios por- um maior número de missionários e, consequentemente, de uma
tugueses e espanhóis no Amazonas só se veio a pôr de uma forma cristianização mais rápida e eficaz dos índios, mas, sobretudo, da
mais efectiva com os conflitos entre os colonos portugueses e os sua incorporação num espaço controlado pelos portugueses32.
missionários jesuítas espanhóis, protagonizados pelo padre Samuel
Fritz nos finais do século xvii. Depois da sua fundação, entre 1637 e 30 Cfr. Francisco Mateos, «Avances Portugueses y misiones espanolas en Ia Amé-
1652, as missões dos jesuítas espanhóis de Maynas, estabelecidas ao rica dei Sura, Missionalia Hispânica, ano v, n.Q 15, Madrid, 1948, pp. 486-488; John
Hemming, Red Cold, The Conquest ofthe Brazilian Indians, pp. 436-438.
31 Francisco Mateos, «Avances Portugueses y misiones espanolas en Ia América
29 Sobre as expedições de exploração dos rios da região amazónica, realizadas dei Sur», p. 488; Rodolfo Garcia, «O Diário do Padre Samuel Fritz», in R.I.H.G.B.,
pelos jesuítas portugueses, ver Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, t. 81, 1917, pp. 355-374.
tomo III, pp. 255-259; 268-279; 313-338; 357-358; 369-372; 382; 391. 32 Mathias C. Kiemen, ThelndianPolícyofPortug/ilmtheAmazonReffon, pp. 175-179.

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A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O
A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O

Em 1698, o embaixador francês em Lisboa, Rouillé, apresentava


Entre 1695 e 1710 teve lugar um conflito, simultaneamente reli-
queixa dos portugueses do Pará ao Duque de Cadaval e entregava-
gioso e político, pelo controlo do Solimões. Expulso das suas mis-
-Ihe um memorial sobre os direitos franceses sobre as terras situadas
sões, onde foi substituído por frades carmelitas, Samuel Fritz diri-
entre o Amazonas e o Orenoco. A resposta a este memorial, a cargo
giu-se a Quito, onde solicitou protecção militar para as missões.
de Roque Monteiro Paím, salientava a precedência dos direitos por-
Embora o envio das tropas espanholas ao Solimões não tenha sido
tugueses na região do Cabo do Norte até ao rio de Vicente Pinzón,
eficaz para combater os portugueses, graças ao seu apoio Fritz pôde
de Oiapoque ou rio Fresco, por onde supostamente passava a fron-
recuperar alguns dos índios das suas antigas missões. Mas a res-
teira com as índias de Castela. À França caberia somente o território
posta do governador do Pará não se fez esperar. Em 1710 foi
para Norte do rio Oiapoque. A reacção francesa, em novo memo-
enviado um destacamento militar ao Solimões que culminou com a
rial, reafirmava a anterioridade dos direitos franceses sobre todo o
captura de outro jesuíta que trabalhava com Fritz e a destruição das
território até à margem norte do Amazonas e questionava a possi-
missões. Os Omagua sobreviventes foram juntar-se às missões
bilidade de identificar os rios de Vicente Pinzón e Oiapoque. Graças
espanholas estabelecidas no Ucayali ou às missões dos Carmelitas
à pressão da diplomacia francesa sobre Portugal, o compromisso
portugueses no baixo Solimões. Ficou assim criada, no antigo terri-
entre ambas as coroas foi alcançado com o Tratado Provisional de
tório dos Omagua, uma região praticamente despovoada que servia
1700, que estipulava a suspensão da posse das terras em litígio entre
de área de fronteira entre as missões portuguesas e espanholas no
o Oiapoque e o Amazonas e a destruição dos fortes portugueses ali
Amazonas33.
existentes35.
Também na região do Cabo do Norte foi o conflito com os fran-
ceses, nos finais do século XVII, que pretendiam alargar a Guiana até
à margem norte do Amazonas, que originou um novo interesse da
1.4. As bandeiras paulistas e o desbravamento
Coroa no reconhecimento da região e pela sua delimitação. Depois
do sertão
de várias tentativas frustradas, os franceses tinham conseguido em
1664, graças ao apoio dado por Coíbert ao projecto, estabelece r-se
Até finais do século XVI, os colonos de S. Paulo tinham conse-
na ilha de Caiena. A criação da Companhia da França Equinocial em
1663, permitira reunir os recursos necessários e, no ano seguinte, os guido obter a mão-de-obra indígena de que necessitavam para os
primeiros 1200 colonos, comandados por Lefebre de Ia Barre, desem- seus empreendimentos agrícolas no planalto de Piratininga, graças
barcaram na Caiena. Contudo, os conflitos com ingleses e holande- às contínuas guerras com os índios em que se achavam envolvidos.
ses acabou por atrasar o esforço de colonização. Foi a partir de 1688 Não ultrapassaram as proximidades do rio Tietê, apesar de datarem
que o projecto francês de controlar as terras entre o Amazonas e o já do final do século as primeiras expedições punitivas contra as tri-
Orenoco foi posto em marcha. De Ferrolles, enviado ao Cabo Norte bos, que implicavam um maior avanço no sertão e um conjunto de
em missão de reconhecimento, ameaçou o comandante do forte do meios que não tinha comparação com os pequenos resgates ou o
Araguarí. Mas foi só em 1697 que se resolveram a atacar as fortale- apresamento directo praticados até então. Datam também deste
zas de Macapá e do Paru, que foi destruída, dando início ao conflito período e dos primeiros anos do século xvn inúmeras expedições ao
luso-francês pela posse da região. A recuperação de Macapá pelos sertão em busca de minas de ouro, impulsionadas pelo governador
portugueses, pouco tempo depois, repôs a situação anterior, mas D. Francisco de Sousa36.
não pôs fim às pretensões francesas34.
^Cfr. J. F. Borges de Castro, Collecção dos Tratados, tomo li, Lisboa, 1856, pp. 83-
-88; Virgínia Rau e Maria Fernanda Gomes da Silva, Os Manuscritos do Arquivo da Casa
33 Francisco Mateos, «Avances Portugueses y misiones espanolas en Ia América
de Cadaval respeitantes ao Brasil, Coimbra, 1956-1958, tomo l, pp. 448-472, e tomo li,
dei Sur», pp. 489-492; Manuel Maria Wermers, «O Estabelecimento das Missões Car- pp. 5-7. Ver também, sobre o contexto político e diplomático luso-francês, Luís Fer-
metitanasno Rio Negro e nos Solimões {1695-1711)», Actas do V Colóquio Internacional rand de Almeida, A Diplomacia Portuguesa, pp. 193-208.
de Estudos Luso Brasileiros, vol. II, Coimbra, 1965, pp. 551-563. 36 John Manuel Monteiro, Negros da Terra, índios e Bandeirantes nas Origens de São
34 Max Justo Guedes, Os limites territoriais do Brasil a Noroeste e a Norte, in Luís
Paulo, Companhia das Letras, São Paulo, 1994, pp. 57-60.
Albuquerque, Portugal no Mundo, Alfa, Lisboa, 1989, vol. m, pp. 208-210.
A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O

Foi já durante o século xvn que as expedições dos paulistas lugar devido à pressão constante mantida sobre as populações indí-
ganharam outra dimensão e se dirigiram para o Guaíra, região habi- genas, mas também devido aos ataques contra as missões dos jesuí-
tada pelos índios Guarani, onde os jesuítas tinham começado a tas e as cidades espanholas 41 . Foram, assim, responsáveis pelo
estabelecer reduções. Os bandeirantes vieram, assim, a confrontar- «ermamento» de um vasto espaço entre as povoações do planalto de
-se com os jesuítas da Assistência Espanhola que, avançando a par- Piratininga e as missões espanholas das regiões do Paraguai, facili-
tir do Vice-reinado do Peru, procuravam desde 1609 «reduzir» ao tando-lhes ainda mais a penetração no sertão e o seu reconheci-
cristianismo as tribos indígenas junto dos rios Paraná e Uruguai mento.
(Tape), Iguaçu e Parapanema (Guaíra), Paraguai e Mbotetei (Itatim), Mas as bandeiras não foram apenas responsáveis pelo despo-
através da sua rede de missões, criando ao mesmo tempo povoa- voamento dos sertões. Na verdade, este movimento esteve também
ções que garantissem a ocupação humana do território para a coroa na origem do estabelecimento de novas vilas entre 1640 e 1650.
de Espanha37. Entre estas contam-se Guaratingueta, Taubaté e Jacareí, para além
O resultado, trágico para as populações indígenas, do confronto de Curitiba, Itu, Sorocaba e Judiai42.
das bandeiras paulistas com a estratégia jesuítica de implantação de A Restauração de 1640 poucas alterações trouxe ao panorama
missões é por demais conhecido. Se, numa primeira etapa (1628- traçado para o período anterior. Se os paulistas, derrotados em 1641
-1640), várias reduções da província do Paraguai foram destruídas e em Mbororé, suspenderam durante algum tempo os seus ataques às
milhares de índios escravizados, na fase seguinte (1641-C.1656) os missões do Paraguai e Uruguai, nem por isso abandonaram as suas
jesuítas conseguiram reagrupar os índios, refundar missões e deter o contínuas entradas no sertão em busca de índios e de metais precio-
avanço dos paulistas para o Sul, mesmo se à custa de um grande sos. A Coroa, aliás, incentivou fortemente a busca de prata e de
esforço e com numerosas perdas humanas38. A autorização para a ouro43. Menos clara é a relação entre a iniciativa estatal e a famosa
obtenção de armas para os índios das missões, conseguida em Espa- bandeira de Raposo Tavares que o levou, de S. Paulo até ao Pará,
nha pelos jesuítas, modificara o equilíbrio de forças na região. Se os entre 1648 e 1651. Se a bandeira comprovava a possível ligação flu-
paulistas acabaram por desistir das suas expedições contra as mis- vial entre os dois Estados do Brasil, desconhece-se em que medida
sões espanholas, mas não do apresamento de índios, também os teria secretos objectivos geoestratégicos. Na verdade, ignora-se qual
jesuítas não levaram a cabo nenhuma ofensiva militar para recupe- a sua repercussão, se a houve, na política da Coroa face ao espaço
rar o território das antigas missões39. brasileiro e mesmo na sua representação cartográfica44.
Além da destruição das missões, os habitantes do planalto de
Piratininga foram responsáveis pela destruição de Vila Rica, e pelo
41 Ver Luís Ferrand de Almeida, A Diplomacia Portuguesa, pp. 57-60; Maria Beatriz
abandono de Santiago de Xerez e Ciudad Real, deixando a provín-
Nizza da Silva, A Projecção do Tratado de Tordesilhas na América: a Expansão Brasileira e
cia espanhola do Paraguai reduzida à cidade de Assunção. O que é a Fronteira de Tordesilhas nos Séculos XVI e XVII, in E! Tratado de Tordesillas y su Época,
interessante constatar é que uma parte dos antigos moradores des- Sociedad V Centenário dei Tratado de Tordesillas/ Comissão Nacional para as Come-
tas cidades se transferiu para a região de S. Paulo40. morações dos Descobrimentos Portugueses, Madrid, 1995, pp. 3444-1445.
Os avanços dos paulistas para o Sul e para o interior estiveram, 42 John Manuel Monteiro, Negros da Terra, pp. 81-82.

43 Luís Ferrand de Almeida, A Diplomacia Portuguesa, pp. 89; 98-99.


assim, na origem do despovoamento do território, em primeiro
44 Cf. John Manuel Monteiro, Negros da Terra, p. 81; ver a opinião contrária de

Jaime Cortesão em Raposo Tavares e a Formação Territorial do Brasil, Portugália, Lisboa,


37 Francisco Mateos, «Avances Portugueses y mísiones espanolas en Ia América 1964, principalmente no vol. II, pp. 193-251; também se encontra resumida na sua obra
dei Sur«, pp. 467-468. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, vol. Ill, Livros Horizonte, Lisboa, 1984,
38 Maria Beatriz Nizza da Silva, A Projecção do Tratado de Tordesilhas, pp. 1445- pp. 651-652. As citações da obra Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid que fizer-
-1447. mos neste estudo, referem-se, regra geral, à 2." edição, feita em Lisboa ern 1984, excepto
39 Francisco Mateos, «Avances Portugueses y misiones espanolas en Ia América quando nos referirmos aos apêndices documentais, que só constam da 1.' edição em 9
dei Sur», Missionalia Hispânica, ano V, n.° 15, Madrid, !948, pp. 468-478. tomos feita pelo Instituto Rio Branco, no Rio de Janeiro, entre 1950 e 1963. Neste caso,
40 Sérgio Buarque de Holanda, O Exiremo Oeste, Brasíliense, São Paulo, 1986, as referências remeterão para as Partes e tomos respectivos, em que se subdivide esta
pp. 141-150. edição, e não para os volumes I a rv, que só correspondem à edição portuguesa.

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A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O
A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O

nou mais complexo a partir do momento em que, a esta representa-


Seja como for, há que reconhecer que as bandeiras permitiram ção dos limites norte e sul da colónia americana, a ideia de um Bra-
um reconhecimento do interior do Continente, dificilmente possível sil-Ilha veio acrescentar os limites pelo sertão, dados pela ligação
de outro modo. E seria com base neste conhecimento do território entre as nascentes do rio da Prata e do Amazonas48.
pelos sertanistas que a ocupação dos territórios mais ocidentais do Muito provavelmente, como consequência da divulgação desta
Brasil se tornaria uma realidade45. concepção geográfica, presente em algumas obras dos séculos XVI e
xvii, o Brasil passou a ser, assim, figurado como uma quase-ilha em
alguma da mais importante cartografia portuguesa, assim se man-
1.5. Os «limites naturais» do Brasil e a linha tendo mesmo durante a União Ibérica, ao ponto de ter passado com
de Tordesilhas esta forma para a cartografia de outros países europeus49. Como
compreender este fenómeno? Permanência (e eficácia) do mito,
Com a partida dos holandeses em 1654 renascia o projecto de imperfeição cartográfica, ou ambas as coisas50?
um Brasil limitado ao norte pelo Amazonas e, ao sul, pela bacia do E importante distinguir dois aspectos deste problema: de um
Rio da Prata. Aliás esta ideia não parece nunca ter abandonado com- lado temos a influência do mito nas representações cartográficas do
pletamente os ministros da Coroa portuguesa. Em 1648, o padre Brasil; do outro temos a sua possível repercussão na exploração geo-
António Vieira, face às circunstâncias internacionais adversas de gráfica do mesmo espaço. Ora, no que toca a este último aspecto,
guerra contra a Espanha e a Holanda, sustentara num parecer entre- não é possível estabelecer uma relação directa entre o mito e o
gue ao rei, e em oposição aos membros do Conselho de Estado, a movimento das bandeiras51. Seja como for, importa sublinhar que,
devolução da capitania de Pernambuco aos holandeses, ressalvando de uma maneira geral, as bandeiras visam a satisfação de interesses
a sua aquisição ou conquista posterior. Mas, ao mesmo tempo, o particulares, seja a captura de índios, seja a busca do ouro, e não
próprio Vieira manifestava, de uma forma clara, a sua percepção de outros objectivos como o controlo e apropriação de território para o
um Brasil que se estenderia do Amazonas ao Prata: Estado.
Mais do que a relação entre o mito, enquanto pré-figuração geo-
«Na América temos o estado do Brasil, que começa no Rio das Ama-
gráfica do Brasil e a efectiva formação deste, tão cara a Jaime Corte-
zonas, debaixo da linha, e acaba no rio da Prata, em trinta e um graus
são, interessa-nos sobretudo perceber como o mito foi aproveitado
para a parte do Sul, com mais de mil léguas de costa.»46
pelo Estado português, a partir de finais do século xvii, enquanto
Curiosamente, a ideia de o Brasil ser limitado ao Norte pelo rio
Amazonas e, ao Sul, pelo Prata deve remontar aos primeiros decé- 48 A primeira referência conhecida encontra-se nas obras de um piloto e cosmó-

nios do século XVI, aos começos da colonização efectiva. Provavel- grafo português que se encontrava ao serviço de França, João Afonso: a Cosmographie
mente porque seriam estes os limites pretendidos para a colónia, foi publicada em 1544 e os Voyages Aventttreux, escritos por voita de 1536, foram
publicados em 1559 (Ver Luís Ferrand de Almeida, A Diplomacia Ponuguesa, pp. 63-64;
segundo o projecto de D. João III47.
Jaime Cortesão, ACTM, vol. III, p. 639).
A verdade é que esta representação da colónia americana (embora 49 Maria Fernanda Alegria, «Representação do Brasil na produção dos cartógrafos
com variações) se iria divulgar e impor durante o século XVI e, prin- Teixeira-, m Maré Liberum, n.° 10, 1995, pp. 202-203.
cipalmente, no seguinte, nomeadamente na cartografia. É certo que 50 Maria Fernanda Alegria, «Representação do Brasil na produção dos cartógrafos

se trata de uma cartografia patrocinada pelo Estado. Mas tudo se tor- Teixeira», pp. 194-195; Luís Ferrand de Almeida, A Diplomacia Portuguesa, pp. 47-55.
51 Talvez possa ser considerada uma excepção a expedição de Gabriel Soares de

Sousa, em 1592, em busca da Lagoa Eupana ou Lago Dourado, «limite-fecho da


45 Sérgio Buarque de Holanda, O Extremo Oeste, pp. 48-49. mítica Ilha-Brasil, onde se uniam, alérn do São Francisco, o Prata e o Tocantins» e as
46 Pape! que fez o Padre António Vieira a favor da entrega de Pernambuco aos Holan- tentativas posteriores efectuadas por D. Francisco de Sousa, também nos finais do
deses, in Escritos Históricos e Políticos (Pé. António Vieira), org. Alcir Pécora, Martins Fon- século XVI (Cfr. Jaime Cortesão, AGTM, vol. m, p. 648). Mas há que sublinhar que o
tes, S. Paulo, 1995, p. 384. que atraiu estas entradas ao sertão foi a busca do ouro e não propriamente dos limi-
" Luís Ferrand de Almeida, A Diplomacia Portuguesa, pp. 22-27; Jorge Couto, tes «naturais» do Brasil no sertão sul-americano.
A Construção do Brasil, Cosmos, Lisboa, 1997, pp, 210-216.

43
42
A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O A D E F I N I Ç Ã O DO T E R R I T Ó R I O

discurso legítimador de uma estratégia que visava a ocupação de onde só o litoral tem um tratamento mais detalhado, e uma repre-
uma parte importante do território sul-americano em clara oposição sentação cartográfica mais rigorosa, possibilitada pela existência de
ao meridiano de Tordesilhas. instrumentos de precisão astronómica. É, exactamente, a relação
Já cerca de 1654, o padre jesuíta Simão de Vasconcelos, na sua existente, durante a primeira metade do século XVIII, entre o progres-
crónica sobre o Brasil, contestava a interpretação castelhana de Tor- sivo descobrimento do espaço sul-americano e a necessidade cres-
desilhas e referia o Amazonas e o Prata como as «duas chaves de cente, por parte do Estado, de melhorar a sua representação carto-
prata, ou de ouro, que fecham a terra do Brasil», insistindo que eram gráfica por forma a intervir com mais eficácia no território que viria
estes rios que defendiam o Brasil e o demarcavam de Castela, não a formar o Brasil, que procuraremos discutir nos próximos capítulos.
apenas no litoral, mas também no sertão52. Mais tarde, durante as
negociações que antecederam a assinatura do Tratado Provisional de
1681, a concepção do Brasil-Ilha foi utilizada pelos diplomatas por-
tugueses (e rejeitada firmemente pelos espanhóis) para justificar a
fundação da Colónia do Sacramento e os direitos portugueses à
margem oriental do Prata53.
Se a figuração do espaço brasileiro como um todo é, como
vimos, precoce, convém sublinhar que esta é, antes de mais, o resul-
tado do trabalho dos cartógrafos do Estado. Ora, entre esta imagem
e a realidade do espaço conhecido e controlado pelo mesmo Estado,
ou mesmo ocupado pelos seus colonos, há uma enorme distância.
Só com o descobrimento do ouro, nos finais do século XVII e
durante as primeiras décadas do século xviii, e a migração popula-
cional para o sertão que estes descobrimentos motivaram, é que o
Estado foi delineando uma política mais coerente para o território.
Mesmo assim, já bem entrado o século XVIII, o Brasil surge-nos
como um arquipélago de algumas ilhas de povoamento, um espaço
imenso fragmentado em vários centros populacionais, especializa-
dos em actividades económicas diversas, e separados entre si por
distâncias enormes.
Por outro lado, há também uma grande diferença entre uma
representação geral do território, patente na cartografia do século XVII,

52 Pé. Sirnão de Vasconcelos, Livro primeiro das noticias antecedentes, curiosas e neces-

sárias das coisas do Brasil, in Chronica da Companhia de Jesu do Estado do Brasil, vol. I,
Vozes, Petrópolis, 1977, p. 61.
53 O Secretário de Estado, D. Fr. Manuel Pereira, na resposta remetida a 18 de

Janeiro de 1681 ao enviado espanhol, sustentava a coincidência da linha de Tordesi-


lhas com a delimitação dos respectivos domínios pelo Prata e pelo Amazonas: «que
maravilhoso acaso, hum mysterio da providencia, que a linha da repartição lançada
de Norte a Sul, sem respeyto a estes rios, nem à noticia delles (pela não haver,
quando se acordou neste meyo da divisão do Orbe) cortasse taÕ ajustadamente por
estes dous termos, como se os fosse buscar muy de propósito pêra estas demarca-
ções» (cit. in Luís Ferrand de Almeida, A Diplomacia Portuguesa, pp. 146-147).

1.1 í
OS TRATADOS DE U T R E Q U E
E A EXPANSÃO PORTUGUESA
NA AMÉRICA DO SUL
2.1. Os resultados das negociações de Utreque

Os Tratados de Utreque (1712-1715), para além de terem posto


fim à Guerra de Sucessão de Espanha, reconhecendo a Filipe de
Anjou o direito ao trono espanhol em detrimento do pretendente da
Casa de Áustria, o arquiduque Carlos, significaram para Portugal a
recuperação da Colónia do Sacramento, então ocupada pelas tropas
espanholas, e a desistência da França das suas pretensões aos terri-
tórios existentes entre os rios Amazonas e Oiapoque1.
Se a recuperação da Colónia do Sacramento e do seu «territó-
rio», estabelecida pelo tratado de 6 de Fevereiro de 1715, não encer-
rou o contencioso com a coroa espanhola sobre os limites meridio-
nais do Brasil, já o reconhecimento pela França do rio Vicente
Pinzón ou Oiapoque como limite da Guiana com o Pará e a renún-
cia às pretensões de navegação e comércio no Amazonas, que fica-
ram definidos no tratado assinado com a coroa portuguesa em 11 de
Abril de 1713, apesar das contestações posteriores, teriam conse-
quências mais duradouras para a fronteira do Norte do Brasil. Apa-
rentemente, os Tratados de Utreque traziam, assim, sem dúvida, van-
tagens para Portugal2.

1 Ver o texto do Tratado com a Espanha em J. F. Borges de Castro, Collecção dos


Tratados, Convenções, Contratos e Actos Públicos celebrados entre a Coroa de Portugal e as
mais Potências desde 1640 até ao Presente, Imprensa Nacional, Lisboa, 1856, tomo II,
pp. 263-272. O tratado com a França está reproduzido ern Artur César Ferreira Reis,
Limites e Demarcações na Amazónia Brasileira, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1947,
tomo i, pp. 200-206.
2 Sobre o significado destes Tratados escreveu Jaime Cortesão: «Portugal não
saía de Utreque sem vantagens. Ao sul, sobre o Prata, recobrava a Colónia do Sacra-
mento e o seu "território"; e a norte, o Vincente Pinzón ou lapoque, como limite da
Guiana com o Pará, e melhor do que isso, a cedência por parte da França, das suas
pretensões à navegação e ao comércio no Amazonas. Não é demais insistir sobre a
importância deste facto. Mau grado todas as tentativas posteriores dos governos fran-
ceses para minar essa cláusula do convénio, o velho sonho do Conde de Pagan, de uma
França equatorial que ocupasse a Amazónia, recebia em Utreque um golpe mortal."
(faime Cortesão, AGTM, vot. i, p. 24.)

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OS TRATADOS DE UTREQUE E A EXPANSÃO PORTUGUESA... OS TRATADOS DE UTREQUE E A EXPANSÃO PORTUGUESA...

No entanto, Utreque não representou nas relações entre Portugal Pinzón seria o próprio Amazonas ou outro grande rio, como o Ara-
e Espanha mais do que uma trégua temporária, adiando para mais guari 5 .
tarde a resolução do conflito sobre a posse da Colónia do Sacra- No entanto, Reclus não demonstrou a ignorância geográfica dos
mento3. A desistência da coroa espanhola dos seus direitos quanto à diplomatas negociadores de Utreque e, muito embora tenha havido
posse da Colónia do Sacramento era ambígua e não representou o disputa posterior entre portugueses e franceses sobre a identificação
abandono, por parte do Estado espanhol, da sua estratégia de con- do rio que devia constituir o limite entre os domínios respectivos, a
trolar as duas margens do Rio da Prata. questão era bem mais complexa do que a interpretação feita por
O avanço científico no cálculo da longitude, durante a primeira Reclus. O problema antecede mesmo a assinatura do tratado e tem
metade do século xvm, viria a dar novos argumentos aos diplomatas de ser perspectivado à luz da competição luso-francesa pela posse
espanhóis para sustentar a legitimidade das suas pretensões. Mas da foz do Amazonas desde os finais do século xvii.
era pela sua posição geoestratégica e pela sua importância na rede Em todo o caso, para os franceses, a melhor forma de pôr em
de contrabando da prata e dos couros que a Colónia lesava forte- causa o estabelecido em Utreque foi questionar a identificação entre
mente os interesses do Estado espanhol. Razões suficientes para que o rio de Vicente Pinzón e o rio Oiapoque do Cabo Orange. Assim,
o projecto da sua reconquista não tivesse desaparecido da mente dos alguns anos após o tratado, o governador da Caiena defendeu a des-
governantes espanhóis. locação da fronteira do Oiapoque para o Cabo do Norte. Mas, foi
Contudo, o diferendo com França a respeito dos direitos de com base nos trabalhos de diversos geógrafos ao serviço do Rei de
soberania sobre a margem norte do Amazonas, apesar da renúncia França, como Jean Baptiste Bourguignon d'Anville, Philippe Buache
francesa manifestada em Utreque, não deixou de se prolongar no e, sobretudo, Charles Marie de La Condamine, que a França procurou
período posterior. E, de facto, como mais tarde se veio a comprovar, fundamentar posteriormente a legitimidade das suas pretensões. La
o receio português de ver os franceses estender o seu domínio até ao Condamine afirmou explicitamente que o verdadeiro Vicente Pin-
Amazonas tinha um fundamento real. zón era o rio Araguari e não o Oiapoque, devendo, portanto, os
A estratégia da coroa francesa foi levada a cabo a dois níveis limites da colónia francesa ser fixados nas proximidades do Cabo do
diferentes. Por um lado, pela via diplomática, questionou o que fora Norte, tal como a França sempre desejara antes de Utreque6. Esta
negociado em Utreque, sustentando que os limites acordados entre posição manteve-se ao longo da segunda metade do século XVIII e
as possessões francesas e portuguesas não eram passíveis de ser durante o século XIX7.
demarcados in loco. Por outro, alguns anos mais tarde, a coroa de Ao abordar o problema da identificação do rio de Vicente Pin-
França retomou os projectos de colonização da região do Cabo do zón não é possível, contudo, deixar de mencionar o trabalho do
Norte4. Barão do Rio Branco, José da Silva Paranhos. Negociador brasileiro
Segundo Elysée Reclus, o Tratado de Utreque, em lugar de solu- do tratado que fixou as fronteiras entre o Brasil e a Guiana Francesa,
cionar o conflito luso-francês, acabou por complicá-lo por ter esta- no final do século XIX, Rio Branco reuniu um conjunto impressio-
belecido como limite entre as possessões portuguesas e francesas
um rio que ninguém conseguia identificar com segurança. Para ele,
5 Elysée Reclus, Amérique du Sud. UAmazome ei La Plaia, Guyana, Brésit, Paraguay,
os diplomatas de Utreque, desconhecedores da geografia sul- Vruguay, Republique Argentine, Paris, 1894, pp. 85-86 (tradução), cit. in Frédéric Mauro
-americana não faziam ideia onde se localizava o rio Oiapoque ou (coord.), O Império Luso-Brasileiro 1620-1750, Nova História da Expansão Portuguesa,
o Vicente Pinzón. Enquanto os portugueses consideravam ser o rio Lisboa, 1991, vol. vi!, p. 122.
em questão aquele cujo estuário se situava entre a montanha 6 Sobre La Condamine e a sua expedição ao Amazonas em 1743, ver: Charles

de Prata e o Cabo Orange, para os franceses o verdadeiro Vicente Marie de La Condamine, Relalion abrégée á'un voyage fail datis 1'ititerieur de 1'Arnérique
Méridionale, Paris, 1745; António Lafuente e António Mazuecos, Los Cahaíltros dei
Punio Fijo, SERBAL/ CSIC, Madrid, 1987, pp. 120-127; 140-143.
3 Jaime Cortesão, AGTM, vol. l, pp. 210-215. 7 Sobre esta matéria ver Max Justo Guedes, «Os limites territoriais do Brasil a

4 Joaquim Caetano da Sylva, UOyapock et 1'Arnazone: question hrésilienne ei fran- Noroeste e a Norte», in Luís de Albuquerque, Portugal no Mundo, vol. III {Sécs. XVIII-
çaise, vol. l, 1893, pp. 83-112. -XX), Publicações Alfa, Lisboa, 1989, pp. 212-228.

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nante de fontes manuscritas para comprovar a sua argumentação 8 . Fresco, ou mesmo com o Marony, que veio a constituir a divisão
Se as suas teses sobre os direitos brasileiros aos territórios do Cabo entre as Guianas francesa e holandesa, e mesmo, não poucas vezes,
do Norte e sobre a identificação do rio de Vicente Pinzón com o com próprio rio Oiapoque10.
Oiapoque se podem situar na continuidade do que defenderam os Aliás, só é possível entender o debate sobre o rio de Vicente
seus antecessores portugueses no século XVIII, não é menos verdade Pinzón no quadro da competição territorial entre Portugal e França
que as teses de Elysée Reclus se situam no prolongamento do que pela colonização da região amazónica. Iniciada a colonização da
antes fora sustentado por geógrafos e diplomatas franceses, identifi- França Equinocial ou Guiana em 1664, era natural que os colonos
cando-se, nas suas linhas gerais, com a argumentação geográfica e franceses, impelidos pelos sucessivos governadores, procurassem
histórica sustentada pelos franceses aquando das negociações com o expandir os seus domínios mais para Sul. A insuficiente presença
Brasil para delimitação da fronteira da Guiana. portuguesa na região do Cabo do Norte, quase limitada aos fortes
O estudo levado a cabo pelo Barão do Rio Branco permite, pelo do Araguari e de Gurupá, levou os franceses a prosseguirem as suas
menos, compreender que, se a identificação do rio de Vicente Pin- tentativas de alargamento da área colonizada. O conflito militar e
zón nem sempre coincidiu com o rio Oiapoque, no período que diplomático entre Portugal e França acerca da delimitação dos res-
antecede Utreque, e mesmo antes do Tratado Provisional de 1700, pectivos domínios na Amazónia, culminou no Tratado Provisional
tanto ao nível das descrições geográficas como da cartografia, a de 1700, que não fez mais do que adiar para mais tarde a resolução
verdade é que essa identificação foi feita por várias vezes e por da questão da soberania sobre a região entre os rios Amazonas e
alguns dos melhores conhecedores da região. Entre estes podemos Oiapoque.
mencionar o cartógrafo jesuíta Aloísio Conrado Pfeil9. Contudo, Há, contudo, que destacar um aspecto fundamental: ao longo
não podemos esquecer que Pfeil trabalhava para D. Pedro II, das negociações que antecederam a assinatura do Tratado Provisio-
embora nem sempre esse facto determinasse as suas opiniões. nal, os diplomatas franceses sempre negaram a identificação do rio
Aquando do conflito com os jesuítas espanhóis no Solimões, deu Oiapoque com o Vicente Pinzón; ao contrário, os diplomatas portu-
razão a Fritz quanto aos direitos espanhóis sobre a maior parte do gueses, baseados nos trabalhos do padre Pfeil, sustentaram a identi-
Amazonas. dade dos dois rios e o facto de ser ali a primitiva fronteira entre os
Não cabe no âmbito do presente trabalho a discussão detalhada domínios portugueses e espanhóis. Ora, independentemente de
do problema da identificação geográfica do rio de Vicente Pinzón ao saber quem teria efectivamente razão, o certo é que o compromisso
longo dos séculos xvii e XVIII. É uma questão que merece ser estu- atingido em 1700, aparentemente favorável aos franceses pela neu-
dada por si só e que está longe de ter sido cornpletamente resolvida. tralização que estabelecia dos territórios compreendidos entre o
Basta-nos, portanto, saber que a identificação do rio não foi total- Araguari e o Oiapoque, era claro ao mencionar nos seus artigos I e
mente clara durante os séculos XVI e XVII, e que foi com base nessa IV, «o rio de Oiapoque ou de Vicente Pinson»11.
ausência de unanimidade de opiniões, que a França pretendeu sus- O reconhecimento da equivalência entre ambos os nomes era,
tentar os seus direitos a toda a margem norte do Amazonas. sem dúvida, uma vitória para a diplomacia portuguesa. Anos mais
Mas vale a pena lembrar que, se houve cartógrafos que identifi- tarde, em Utreque, viria a França a reconhecer os direitos portugue-
caram o rio de Vicente Pinzón com o rio Calçoene ou com o rio Ara- ses sobre os territórios antes disputados e o rio Oiapoque como
guari, ambos ao sul do Oiapoque, também é verdade que o mesmo fronteira entre os respectivos domínios. Mas tratava-se, para a parte
rio foi identificado com outros, a norte do Oiapoque, como o rio francesa, de apenas mais uma trégua. No período posterior a Utre-
que, os objectivos de poder navegar e comerciar no Amazonas esti-
8 Ver Obras do Barão do Rio-Branco, 5 voís., Ministério das Relações Exteriores, Rio veram na base de novos projectos para fazer avançar os limites da
de Janeiro, 1945 (2.a ed.). Interessam-nos sobretudo os vols. !!i (Questões de Limites:
Guiana Francesa 1." Memória) e IV (Questões de Limites: Guiana Francesa 2.* Memó-
ria). Na edição de 1945 só foi editado, no vol. rv, o texto da 2.1 Memória e não os Sobre esta problemática ver Rio-Branco, Obras, vol. rv, pp. 51-88.
10

apêndices documentais que correspondiam a 3 tomos na edição de 1899. Ver o texto do tratado em ern J. F. Borges de Castro, Collecção dos Tratados,
11

9 Rio-Branco, Obrai, vol. IV, pp. 91-96. tomo n, pp. 83-88.

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OS TRATADOS DE UTREQUE E A EXPANSÃO PORTUGUESA...
OS TRATADOS DE U T R E Q U E E A E X P A N S Ã O P O R T U G U E S A . . .

Guiana para Sul, procurando negar o que ficara acordado no tratado


e, de novo, identificar o Vicente Pinzón com outros rios, nomeada- O Conselho Ultramarino não ficou muito impressionado com a
mente o Araguari12. ameaça holandesa, mas autorizou a edificação de um novo forte do
rio Negro no local proposto, desde que feito à custa do seu capitão.
Um ano depois, o Conselho solicitava ao governador do Maranhão
2.2. As pretensões francesas e a defesa do Pará informações mais precisas sobre o comércio dos holandeses no rio
Negro, considerando que se não examinara com cuidado qual o tipo
O período posterior ao tratado de Utreque é revelador de uma de trocas os holandeses mantinham com os índios situados em ter-
preocupação clara, por parte do poder central, na defesa e reconhe- ritório pertencente à coroa portuguesa. Ordenava também ao gover-
cimento da região amazónica. Embora com um atraso de cinco anos nador que desse instruções ao capitão do forte do rio Negro para
em relação à assinatura do tratado de paz com a França em 1713, tentar impedir por todos os meios as referidas trocas. Por fim, para
D. João V, em carta dirigida ao novo governador do Estado do Mara- se obter um conhecimento mais preciso do rio Negro e dos seus
nhão, Bernardo Pereira Berredo, informava-o de que, de acordo com afluentes, bem como dos restantes rios do Estado do Maranhão, o
o texto do Tratado de Utreque, que então lhe enviava, poderia o Conselho mandava desenhar um mapa hidrográfico daquele Estado
governador ficar a conhecer o que ficara acordado entre as coroas de que devia conter informações exactas sobre cada um dos rios,
Portugal e de França acerca das terras situadas entre o rio das Ama- nomeadamente sobre a sua localização e sobre os produtos que se
zonas e o rio de Vicente Pinzón. Instava-o ainda a tomar posse podiam obter em cada um deles15.
daquele território, caso ainda não o tivesse feito, e a restaurar os for- O desconhecimento da configuração da rede hidrográfica do rio
tes ali estabelecidos antes da assinatura do Tratado Provisional de Negro era, portanto, uma realidade em Portugal. Ou não teria qual-
1700, bem como a construir novas fortalezas necessárias à defesa da quer sentido o pedido do Conselho Ultramarino. Ignoramos se o
região, devendo o engenheiro do Estado colocar os marcos delimi- mapa do rio Negro e dos restantes rios do Estado chegou efectiva-
tadores13. Dando cumprimento às ordens régias, em Março de 1719 mente a ser desenhado. Mas, dada a falta de engenheiros, é bem
Berredo apressava-se a dar conta das medidas implementadas, logo provável que não e desconhecem-se quaisquer referências posterio-
após tomar posse do governo do Maranhão. Visitara as fortalezas da res a este mapa. Já em 1692, em pleno período de conflito com a
cidade de S. Luís e informara-se do estado dos fortes do interior França, D. Pedro II solicitara ao padre jesuíta Aloísio Pfeil que
desta capitania, passando em seguida para a capitania do Pará, onde fizesse o mapa do rio Negro, desconhecendo-se se este o chegou
procedera da mesma forma, ordenando que se reparassem de ime- efectivamente a traçar16.
diato, nas duas capitanias, as fortalezas que se encontravam arrui- A presença dos holandeses na Amazónia e a manutenção do
nadas14. Chamava ainda a atenção do Rei para a necessidade de comércio com os índios ao longo dos rios supostamente pertencen-
mudar de local o forte do rio Negro, uma vez que, segundo o capi- tes à coroa portuguesa, particularmente no rio Negro, não consti-
tão do forte, e de acordo com as informações obtidas junto de tuíam uma novidade. Os índios Manao, que forneciam escravos aos
alguns missionários, só deslocando a fortaleza rio acima seria possí- portugueses, tinham também relações comerciais com os holande-
vel impedir as trocas que os holandeses, muitas vezes através dos ses. Esta situação, que se manteve durante as duas primeiras décadas
seus índios, mantinham com os índios das cabeceiras do rio Negro,
abastecendo-os de todos os tipos de produtos, nomeadamente de 15 Consulta do Conselho Ultramarino de 10 de Outubro de 1720 (A.H.U.,

armas, pondo em causa a segurança da capitania do Pará. Códice 269,fl.135).


16 O padre jesuíta Aloísio Conrado Pfeil, suíço de língua alemã, foi um impor-

tante cartógrafo da região amazónica nos finais do séc. XVII. Desenhou, em 1684, o
12 Rio-Branco, Obras, vol. IV, pp. 104-105; Joaquim Caetano da Silva, 1'Oyapock
Mapa do Grande Rio das Amazonas, que ofereceu a D. Pedro II, e fez ainda outros dois
et !'Amazone, vol. l, pp. 82-94. mapas importantes: o Mapa da Missão do Maranhão (1685) e o Mapa do Rio Amazonas
13 Carta régia de 19 de Julho de 1718 (A.H.U., Códice 269, fl. 98).
e Capitania do Cabo None (1700). Desconhece-se o paradeiro destes mapas. Cfr. Sera-
14 Carta régia de 27 de Julho de 1719 (A.H.U., Códice 269, fls. 114v.-l 15).
fim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, tomo IV, pp. 284-285 e tomo IX,
pp. 49-52.

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do século xviil, iria sofrer uma alteração profunda nos anos seguintes. alemão Samuel Fritz fizera da capitania do Pará, com a carta geográ-
Entre 1723 e 1725, os portugueses levaram a cabo uma guerra siste- fica que D. Luís lhe enviara, ficaria este ciente da falta de informações
mática contra os índios Manao, para conseguirem um controlo que tinham estado na base do mapa da América do Sul gravado por
directo de toda a região, conhecida por ser densamente povoada. Guillaume Delisle19. Terminava a carta declarando que procuraria res-
E, por volta de 1730, o baixo rio Negro, onde o domínio português ponder com todo o cuidado a futuros pedidos de informação do
era mais efectivo, já atingia níveis críticos de despovoamento17. Conde sobre o Estado do Maranhão. Contudo, no tocante ao restante
A política de construção de fortes em pontos estratégicos dos território brasileiro era-lhe impossível obter dados fidedignos devido
principais cursos fluviais procurou, desde o início do estabeleci- às grandes distâncias que o separavam das outras regiões do Brasil.
mento dos portugueses, impedir as incursões dos estrangeiros. Na Esta carta reveste-se, para nós, de uma grande importância. Através
verdade, não era fácil controlar de uma forma efectiva um espaço dela ficamos a saber, não apenas das diligências que o Conde da
tão imenso como a Amazónia, principalmente devido ao escasso Ribeira Grande fez junto do governador do Maranhão, mas também
número de homens e aos insuficientes meios militares existentes no que aquele estava a par dos trabalhos de Guillaume Delisle, pelo
Pará. Foram assim construídos, durante o século xvn, os fortes do menos no que tocava à cartografia do Brasil, e das suas possíveis
Gurupá, do Paru e do Araguari, a que se seguiram outros, como o de implicações para os interesses portugueses na América do Sul.
São José do Rio Negro, estabelecido em 1669, para evitar as desci- O problema da vizinhança dos franceses no Pará permanecia
das de colonos espanhóis pelo Amazonas, tal como o do Solimões, actual, mesmo com a renúncia formal da França em Utreque aos ter-
construído depois de 1684. A ameaça francesa na região do Cabo do ritórios do Cabo do Norte. A questão da abertura do comércio com
Norte esteve na origem da reconstrução do forte do Paru e no esta- a Caiena que, muito provavelmente, interessava não apenas aos fran-
belecimento da fortaleza de Santo António de Macapá (Cumaú), em ceses mas também aos habitantes do Pará, não podia deixar de mere-
1687, que, no entanto, não foram suficientes para deter o expansio- cer a maior atenção da Coroa. Em 1721, o Conselho Ultramarino foi
nismo francês na região. peremptório na proibição de qualquer comércio com a colónia fran-
É possível que o mapa dos rios do Estado do Maranhão, enco- cesa20. O governador da Caiena, em carta dirigida a Bernardo Pereira
mendado pelo Conselho Ultramarino, sempre tenha acabado por ser Berredo, propunha o estabelecimento do comércio com a capitania
traçado. Sabe-se que, a 20 de Junho de 1720, o governador do Estado do Pará, assegurando que lhe tinha sido prometido pelo seu Rei. Pelo
do Maranhão, Bernardo Pereira Berredo, escreveu ao Conde da Ri- seu lado, o governador do Maranhão, cauteloso, considerava que se
beira Grande, D. Luís da Câmara, embaixador português em Paris, não devia permitir por prejudicar não apenas os interesses dos
remetendo-lhe um mapa mais exacto do Estado do Maranhão e a homens de negócios que tinham comércio com o Pará, mas também
cópia de um relatório que enviara ao Rei pela mesma altura18. Na sua por lesar os direitos da Fazenda Real. Contudo, sempre achava que o
carta afirmava que, comparando este mapa e o que o padre jesuíta Rei poderia autorizar que em cada ano fosse uma canoa de Belém à
Caiena e que da Caiena também pudesse vir uma canoa a Belém,
17 Manuel Lucena Giraldo, Laboratório Tropical. La expedicion de Limites ai Orinoco, porque se podiam trocar alguns produtos, que não tinham saída no
4750-1767, Caracas, CSIC, 1993, p. 55. A ameaça holandesa sobre a Guiana espanhola Reino, por outros úteis ao Estado do Maranhão, nomeadamente o
era uma realidade desde a segunda década do século xvn: os holandeses, graças à sua cobre para os engenhos, não se devendo permitir que nestas trocas
aliança com aiguns chefes caribes, serviam-se destes índios para se abastecerem de
entrasse a venda de índios como queriam os franceses.
escravos, destinados às suas plantações de tabaco e de cana. Os afluentes do Orinoco,
nomeadamente o Caroni, constituíam a sua principal via de penetração no interior do
território espanhol (cfr. Manuel Lucena Giraldo, Laboratório Traficai, pp. 44-46.) laços familiares para se fazer ouvir junto do monarca francês. Essa posição permitia-lhe,
18D. Luís Manuel da Câmara deixou Lisboa, com destino a Paris, a 27 de Maio de sem dúvida, obter informações preciosas para o Governo português (Ver Jaime Cortesão,
1714, acompanhado, entre outros, pelo seu secretário, Alexandre de Gusmão. Sabe- ACTM, vol. II, pp. 201-203). Vera carta de Bernardo Pereira de Berredo ao Conde da Ri-
mos que em Outubro desse ano, depois de se ter detido algum tempo em Espanha em beira Grande e a Informação sobre o Estado do Maranhão enviada ao Rei, arnbas data-
serviço do Rei, já estava em Paris. O Conde da Ribeira Grande era filho do segundo das de 20 de Junho de 1720, m Jaime Cortesão, AGTM, Parte m, tomo II, pp. 191-203.
Conde e da Princesa Constança Emília de Rohan, pertencente a uma das mais impor- I9 jaime Cortesão, AGTM, Parte III, tomo l, pp. 191-192.

tantes famílias da aristocracia francesa. Estava, portanto, muito bem colocado pelos 30 Artur C. F. Reis, Limites e. Demarcações na Amazónia Brasileira, tomo I, p. 131.

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Não foi, contudo, no tempo do governo de Berredo que se pro-


Uma vez que as dúvidas não tinham ficado dissipadas, um ano
curou explorar e tomar posse efectiva dos territórios limítrofes com
depois o capitão Diogo Pinto da Gaya foi enviado novamente à
a Caiena. As iniciativas de exploração da região do Oiapoque ou
frente de uma tropa de guarda-costa em missão de reconhecimento
Vicente Finzón couberam ao seu sucessor, João da Maia da Gama.
ao Oiapoque. Chegado ao mesmo local onde antes havia estado
Em 1723, o capitão João Pais do Amaral foi enviado às terras do
Pais do Amaral e Palheta, e tendo as pedras sido identificadas como
Cabo Norte em busca dos marcos que supostamente dividiriam,
sendo as dos marcos por soldados que tinham acompanhado os
desde o século XVI, os domínios portugueses e espanhóis na
seus antecessores, Pinto da Gaya ordenou que se copiassem os «ris-
região21. Elaborou nessa altura o seu roteiro da costa brasileira desde
cos» que cada uma das pedras apresentava. Concluíram então que
o rio Araguari até ao Oiapoque ou Vicente Pinzón22. Regressado a
nenhuma das ditas pedras fora lavrada e que os desenhos que nelas
Belém do Pará teve de dar conta do que descobrira ao governador23.
se podiam ver eram o resultado das forças da natureza. Ficava assim
Encontrara no cume de um monte, perto do rio, não exactamente os
encerrada a busca dos marcos que deveriam originalmente separar
marcos que se procuravam, mas uma «pedra natural» onde estavam
os domínios portugueses e espanhóis e cuja colocação se atribuíra a
esculpidas armas que pareciam ser, de um lado as de Portugal e, do
outro, da Coroa de Espanha24. Carlos V ou, mais tarde, a Bento Maciel Parente27.
Embora as tentativas de encontrar os marcos delimitadores fizes-
O governador não deve ter ficado plenamente convencido por-
sem parte da estratégia portuguesa de afirmação da antiguidade dos
que, anos depois, em 1727, ordenou ao sargento-mor Francisco de
seus direitos sobre a região, o facto de estes se terem revelado final-
Melo Palheta que se deslocasse ao mesmo local para examinar a
mente um logro em nada puseram em causa a importância das expe-
mesma pedra e verificar a sua autenticidade25. A 13 de Maio do
dições de reconhecimento à região do Oiapoque, realizadas em 1727
mesmo ano, voltando ao local junto à boca do rio Oiapoque, agora
• e 1728, que se sucederam à primeira missão realizada por Pais do
identificado como a montanha de Prata, Palheta fez copiar sobre
Amaral. As tropas de guarda-costa que realizaram estas expedições,
papel os desenhos das pedras26.
para além de garantirem, pela sua presença dissuasora, a soberania da
coroa portuguesa na região, levaram a cabo um trabalho fundamental
21 Sobre esta questão ver o artigo de Max Justo Guedes «Teria Carlos V man- de exploração dos rios e da costa entre o Amazonas e o Oiapoque.
dado demarcar os limites entre os seus domínios e os de D, João III no Norte do Bra- Contudo, a ausência de conflitos militares ou diplomáticos com a
sil?», in Actas da VIII Reunião Internacional de História da Náutica e da Hidrografia (Viana
do Castelo - Setembro de 1994), IICT (policopiado).
França nos anos subsequentes não significaram o abandono por parte
22 «Roteiro da Cosia de Araguary athe o Rio de Vintente Pinson pelo nome da terra Gua-
dos franceses dos projectos de expansão para sul do Oiapoque.
yapoco que mandou fazer o cappitam comandante JoaÕ Paiz do Amaral por ordem do Gover-
nador e cappitam General do Estado João da Maya da Gama indo o dito cappham coman-
dante a reconhecer a parage honde estavaÕ os marcos das terraz de Portugal &".» (B. N. R. 2.3. A expedição de Francisco de Melo Palheta
J., Ms. -7,4,7 n.° 2). ao rio da Madeira
^•Autos Cíveis de Justificação sobre as terras do Cabo Norte.1723» ( cópia existente no
Arquivo Histórico do Itamaraty, Documentação Rio-Branco 340/1/13; o manuscrito A expedição de Francisco de Melo Palheta ao rio Madeira tem
está na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro mas não nos foi possível localizá-lo).
24 Max justo Guedes, «Teria Carlos V mandado demarcar os limites entre os seus
sido considerada por diversos historiadores como um dos marcos
domínios e os de D. João III no Norte do Brasil?», p. 18. importantes no reconhecimento da região Arnazónica28. Já em 1716
25 Ver o texto do Regimento dado pelo governador João da Maia da Gama a
Francisco de Melo Palheta em Artur C. F. Reis, Limites e Demarcações na Amazónia Bra-
no Arquivo Histórico do Itamaraty, Documentação Rio-Branco 340/ l/ 13; o original
sileira, tomo l, pp. 226-234, e ern Rio Branco, Frontières entre lê Brésil et Ia Guyane Fran-
caise, Second Mémoire, Berna, 1899, Apêndice Documental, tomo IV, pp. 229-235, cit. está na B.N.R.J. mas não conseguimos localizá-lo). Cfr. F. A. Varnhagen, História Gera!
em F. A. Varnhagen, História Geral do Brasil, tomo IV, Melhoramentos, S. Paulo, 3.* ed., do Brasil, tomo IV, p. 18, nota 48.
27 Ver Max Justo Guedes, «Teria Carlos V mandado demarcar os limites entre os
s/d, p. 18, nota 48.
26 «Termo da Vistoria que fez o Sargento-mor Comandante Francisco de Melo Palheta às
seus domínios e os de D. João III no Norte do Brasil?», pp. 16-17, 20-21; Cfr. Rio-
pedras da Montanha d'Ayan que fica na boca do rio Oyapock. 13 de Maio de 1727" (cópia -Branco, Obras, vol- IV, pp. 88-89.
28 Sobre esta expedição, ver a «Narração da viagem e descobrimento que fez o sargento*

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a Coroa solicitara ao governador do Maranhão uma relação do rio missionários jesuítas parecem ter retomado as suas actividades, e
Amazonas que referisse a distância das missões pertencentes às em 1714 possuíam quatro missões: Tupinambaranas, Canumã, Aba-
diferentes ordens religiosas em relação a Belém do Pará e a Quito. caxis e Andirases31. Cerca de um ano antes da expedição de Palheta,
Mais ainda: pedia-se ao governador que averiguasse se havia al- o padre João Sampaio deve ter fundado a aldeia de Santo António
guma demarcação «natural» ou acordada por «posse ou facto» que das Cachoeiras, situada entre o Rio Jamari e a primeira cachoeira do
estabelecesse a divisão entre os domínios das duas coroas ibéricas29. Rio Madeira32.
A ausência de qualquer referência à expedição de Pedro Teixeira e A iniciativa do envio de Palheta ao Madeira não faz parte das
aos direitos de posse que daí teriam resultado leva-nos a pensar que, iniciativas régias de exploração do território, ou ainda das bandeiras
mesmo aos olhos da coroa portuguesa, o estabelecimento de limites resultantes do esforço de particulares, ainda que se possa inscrever
claros entre os territórios espanhóis e portugueses constituía um tra- no mesmo movimento de reconhecimento do espaço. É certo que,
balho por realizar. É neste sentido, pensamos, que se deve interpre- antes de partir do Reino para tomar posse do governo do Estado do
tar a estratégia, levada a cabo por sucessivos governadores do Maranhão, João da Maia da Gama fizera uma representação ao Rei
Estado do Maranhão e apoiada pela Coroa, de explorar os rios da sobre diversos aspectos relativos ao alargamento do Estado, entre os
Amazónia cada vez mais para Ocidente. A estes objectivos do quais se destacavam o descobrimento de minas de prata que, segundo
Estado vinham acrescentar-se, como estímulo para os colonos, o informações por ele obtidas, podiam existir naquele Estado, e a aber-
apresamento de índios e as drogas do sertão. tura do comércio com Quito. Este último projecto não é novo, pois
O rio da Madeira não era um rio desconhecido. Em 1716, o desde as primeiras décadas do século xvii e, posteriormente, depois
capitão-mor do Pará, João de Barros da Guerra, subira o rio ao longo da expedição de Pedro Teixeira, em 1637-1639, se pensara no Ama-
de 70 léguas perseguindo índios, e os missionários portugueses da zonas como uma via de acesso à prata do Peru.
Companhia de Jesus frequentavam-no desde 1669 e fundaram nas Ambas as questões tiveram o melhor acolhimento do Conselho
suas margens várias aldeias30. As dificuldades em dar assistência a Ultramarino. Em relação às minas de prata, ordenava-lhe o Rei, em
estas aldeias, quer pelo número reduzido de missionários quer pelo Março de 1722, que o informasse da sua localização precisa e da dis-
facto de estes estarem frequentemente doentes, obrigando-os a tância a que ficavam das povoações espanholas, bem como do pos-
ausentarem-se para Belém, tornou as aldeias presas fáceis dos colo- sível contacto dos colonos espanhóis com os franceses da Caiena, ou
nos, que conseguiram capturar e descer um grande número de com os holandeses do Soriname. Sobre o comércio com Quito, a res-
índios, apesar dos protestos dos jesuítas. No início do século xvin, os posta foi semelhante: seria uma forma de obter alguma prata, o que
só poderia beneficiar o Estado do Maranhão e o Reino33.
-mor Francisco de Melo Palheta no Rio da Madeira e suas vertentes... desde i i de Novembro
de ÍJ2.2 the 12 de Setembro de 1723", publicada em 1884, a partir de uma cópia de um 31 Serafim Leite, HCJB, tomo III, pp. 393-400.
manuscrito da Torre do Tombo existente na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 32 A data da fundação da aldeia de Santo António das Cachoeiras não é fácil de
por Capistrano de Abreu em «A bandeira de Francisco de Mello Palheta ao Madeira determinar com precisão. Serafim Leite (HCJB, tomo 111, p. 401), baseado nos «Catá-
no documento da narração da viagem», republicado in Capítulos de História Colonial e logos do Maranhão» da Companhia de Jesus ( A.R.S.I., Brasília 27 ) e na obra de José
os Caminhos Antigos e o Povoamento do Brasil, Ed. Universidade de Brasília, Brasília, Gonçalves da Fonseca, «Navegação feita da cidade do Gram Pará até à boca do Rio da
1982, pp. 305-316. Embora nos tenha sido impossível localizar o manuscrito copiado Madeira", escrita entre 1749 e 1750, refere o ano de 1723, corrigindo Fonseca. Con-
no Arquivo da Torre do Tombo, encontrámos um outro manuscrito da «Narração» da tudo, pela leitura do manuscrito que narra a viagem de Palheta fica-se com a impres-
viagem de Palheta existente na Biblioteca Pública de Évora, Colecção Manizola, são de que, à data da expedição ao rio da Madeira, a aldeia de Santo António já exis-
Códice 41-2. tia e só isso explicaria que o padre João Sampaio, depois de chegar ao acampamento
29 Ver a citação da Provisão Régia de 5 de Outubro de 1716 feita por J. H. Cunha de Palheta com os soldados que traziam mantimentos do Pará, a 4 de Junho de 1723,
Rivara, Catálogo dos Manuscritos da Biblioteca Pública Eborense, vol. I, Imprensa Nacio- decidisse regressar à sua aldeia alguns dias depois, o que faz pensar que a aldeia já
nal, Lisboa, 1850, p. 120. devia estar estabelecida há algum tempo (Cf. Capistrano de Abreu, Capítulos de His-
3°Basílio de Magalhães, Expansão Geográfica do Brasil Colonial, Companhia Edi- tória Colonial e os Caminhos Antigos e o Povoamento do Brasil, p. 306 ).
tora Nacional, São Paulo, 1935; Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, M Ver as ordens régias de 25 de Março de 1722 in Annaes da Bibliotheca e Archivo

tomo III, pp. 391-393. Publico do Pará, tomo I, 1902, pp. 196-197.

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OS TRATADOS DE U T R E Q U E E A EXPANSÃO P O R T U G U E S A . . .
OS TRATADOS DE UTREQUE E A E X P A N S Ã O P O R T U G U E S A .

Ainda que com estes antecedentes, a missão de Palheta resul- Nos princípios de Fevereiro, subindo pelo Amazonas, a tropa de
tou, em última análise, da decisão do governador do Estado do Palheta atingiu a embocadura do rio Madeira. Estabeleceram depois
Maranhão. Como o próprio capitão-geral explicou ao Rei, em Outu- um acampamento perto das margens do Madeira e construíram,
bro de 1722, tinham chegado a Belém do Pará algumas canoas com segundo as ordens do sargento-mor, novas canoas, mais pequenas,
informações importantes vindas do rio da Madeira, que ali tinham uma vez que parte das embarcações que possuíam eram demasiado
ido em busca de escravos. Ao fim de cerca de vinte dias de viagem grandes para poder atravessar as cachoeiras e navegar no rio, devido
rio acima tinham encontrado, na margem do rio, os vestígios de à grande quantidade de pedras. A preparação dos cabos para puxar
uma povoação recém-abandonada. Tinham achado ali uma cruz e as canoas pelas cachoeiras também os ocupou durante bastante
um altar, o que demonstrava tratar-se de uma povoação de cristãos, tempo. A 4 de Junho chegaram finalmente os reforços com manti-
para além de peles de boi e cabeças de carneiro. Por outro lado, mentos, enviados de Belém. Com eles vinha também o padre jesuíta
todas as aldeias dos índios nas margens do rio se encontravam aban- João de Sampaio, que se dirigia para a sua missão de Santo António
donadas34. das Cachoeiras. Poucos dias depois, a tropa de Palheta retomava a
Reflectindo sobre quem poderia ter levado dali os índios, o navegação do rio Madeira. Mas as dificuldades em ultrapassar as
governador concluíra que só poderiam ter sido os espanhóis de Santa cachoeiras obrigou-os várias vezes a fazer caminho por terra, aberto
Cruz de La Sierra ou os bandeirantes paulistas35. Decidiu, assim, a corta-mato, transportando as canoas e os mantimentos. Os pro-
mandar averiguar de quem se tratava, uma vez que se fossem os blemas no atravessamento das cachoeiras também são descritos na
colonos espanhóis não era conveniente deixá-los controlar o rio da carta que João da Maia da Gama escreveu ao Rei, pouco depois do
Madeira. Mas, se o rio fosse navegável até ao território espanhol, tal- regresso de Palheta ao Pará, em Setembro de 172338.
vez fosse possível estabelecer relações comerciais e, nomeadamente, Após alguns encontros pacíficos corn índios nas margens do
obter alguma prata de Potosi. No caso de se tratar dos paulistas, não Madeira, a tropa de Palheta passou, nos começos de Julho, a última
poderia deixar de ser útil estabelecer a comunicação com eles36. cachoeira do rio e, deixando o rio da Madeira que corria para Oeste,
Não podia ser mais claro o propósito de, por um lado, deter o entrou no rio Mamoré. A l de Agosto a expedição chegou final-
avanço dos espanhóis no Madeira, que o governador considerava estar mente à confluência do rio Mamoré com o Guaporé39. Seguiram
em domínio português, e, por outro lado, procurar estabelecer comér- depois o rio Mamoré, onde se cruzaram com uma canoa de índios
cio com os mesmos espanhóis para obter a tão cobiçada prata do Peru. das missões de Moxos, que lhes cedeu um guia para os conduzir à
Em Novembro de 1722, João da Maia da Gama organizou uma povoação da Exaltação da Santa Cruz de Cajuvava, administrada
expedição constituída por trinta soldados acompanhados de vários pelos jesuítas espanhóis40.
índios, num total superior a cem homens. Nomeou para cabo da O encontro com os jesuítas espanhóis foi pacífico. Os homens
expedição o sargento-mor Francisco de Melo Palheta, que tinha de Palheta foram recebidos com grandes manifestações de alegria,
ordem para levar a cabo o reconhecimento do rio, cabendo-lhe puderam hospedar-se durante alguns dias na missão e receberam
escrever a descrição da viagem e realizar os necessários cálculos de
Códice 269, fls. 261v.-262); ver também a «Narração da viagem e descobrimento que fez
latitude37.
o sargento-mor Francisco de Melo Palheta no Rio da Madeira», in Capistrano de Abreu,
Capítulos de História Colonial e os Caminhos Antigos e o Povoamento do Brasil, pp. 305-316.
38Ver a Carta de João da Maia da Gania ao Rei escrita à margem da ordem régia
3*O conteúdo desta carta encontra-se transcrito na carta régia de 18 de Fevereiro
de 1724, dirigida por D. João V ao governador do Estado do Maranhão, João da Maia de 18 de Fevereiro de 1724 (B.P.E., Códice CXV / 2-15, n.° 13).
39 -Narração da viagem", in Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial e os
da Gama (A.H.U., Códice 269, fls. 261v.-262; B.P.E., Códice CXV/ 2-15, n.° 13;
B.N.R.J, 7-2-21, n.° 279). Caminhos Antigos e o Povoamento do Brasil, p. 310.
40 A expedição de Palheta nunca atingiu a cidade de Santa Cruz de Ia Sierra.
35 Carta régia ao governador do Maranhão de 18 de Fevereiro de 1724 (A.H.U.,

Códice 269, fls. 261v.-262). A aldeia de Exahadón de Ia Santa Cruz de Cavibairas, onde Palheta efectivamente
36 Carta régia ao governador do Maranhão de 18 de Fevereiro de 1724 (A.H.U.,
esteve, deriva o seu nome do dos índios cajuavas, cajuvavas ou cayoabas que ocupa-
vam as terras entre os rios Yacuma e Yruyani, dois afluentes do Mamoré (Cf. Basílio
Códice 269, fls. 261v.-262}.
de Magalhães, Expansão Geográfica do Brasil Colonial, p. 223 ).
37 Carta régia ao governador do Maranhão de 18 de Fevereiro de 1724 (A.H.U.,

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OS TRATADOS DE U T R E Q U E E A E X P A N S Ã O P O R T U G U E S A . - . OS TRATADOS DE U T R E Q U E E A E X P A N S Ã O P O R T U G U E S A . . .

mantimentos para o regresso. Contudo, o encontro parece ter sido ouvido pelos ditos Padres prometeram cumprir e guardar tudo acima
requerido»113.
menos idílico do que os testemunhos dos portugueses deixam trans-
parecer41. Ainda assim, Maia da Gama não deixava de dizer ao Rei
que, de acordo com as informações obtidas, os padres jesuítas Não é crível, contudo, que ouvida esta proclamação das preten-
tinham dito que gostariam muito de manter relações de amizade e sões portuguesas sobre o Madeira e parte do Mamoré, os jesuítas
de comércio com os portugueses. Contudo, sempre acrescentava, tivessem acedido a elas sem contestação ou que, tendo-o feito, o
com algum cepticismo, que ignorava se o governador de Santa Cruz pretendessem cumprir. Torna-se aqui essencial a confrontação com
de La Sierra seria da mesma opinião. Desconfiava ainda das infor- as fontes espanholas, que nos afirmam precisamente o contrário: os
mações fornecidas pelos jesuítas sobre o rio Beni por pensarem os jesuítas, apesar do bom acolhimento dado à tropa de Palheta, re-
portugueses que no rio haveria ouro e, nas montanhas que o rodea- cusaram não apenas a abertura do comércio com os portugueses do
vam, minas de prata, que os padres desejariam reservar só para si. Pará, como contestaram os supostos direitos da coroa portuguesa
Os dados fornecidos pelos jesuítas sobre o rio Beni serviram, con- sobre o Madeira e o Mamoré44. É pelas fontes espanholas que sabe-
tudo, para traçar o curso do rio no mapa que o governador enviou mos que Palheta, ao referir-se aos direitos portugueses sobre o Ama-
para Lisboa juntamente com a relação da viagem de Palheta e a sua zonas, terá mencionado o rio Napo como sendo nele o local, cerca
carta dirigida ao Rei42. de quatrocentas léguas para ocidente da foz do Madeira, onde Pedro
Após as iniciais manifestações de contentamento, os padres Teixeira colocara os marcos que separavam os domínios das duas
jesuítas não podiam deixar de ficar preocupados com a chegada da coroas.
expedição portuguesa à aldeia de Cajuvava. Se aquela era uma mis- Embora saibamos que, na verdade, não foi no rio Napo que
são pacífica, Francisco Palheta não deixou de lhes lembrar ao que Pedro Teixeira terá reclamado a posse de parte do Amazonas para a
vinha, reclamando para a posse da coroa portuguesa todo o rio coroa portuguesa, o que importa ressaltar é o esforço português de
Madeira desde a sua boca, seguindo o Mamoré até à confluência fundamentar os seus avanços para oeste, não apenas no auto de
com o Guaporé, sublinhando que nem os jesuítas nem os índios das Pedro Teixeira, mas também na própria obra do padre Acuna45. Cre-
missões estavam autorizados a descer o rio Mamoré para lá da sua mos que foi pelo menos a partir desta data que se difundiu a ideia
junção com o Guaporé: errónea de que fora na boca do rio Napo e não no rio SolímÕes que

«em virtude do tratado feito entre os nossos reis e pela conservação


dos povos, que lhe assinalava de hoje por diante não passassem para 43 «Narração da viagem», m Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial e os

baixo da boca dos rios Mamoré e Itenis, nem lhe interessassem daí Caminhos Antigos e o Povoamento da Brasil, p. 315.
para baixo gentilidade alguma, por estes pertencerem ao sereníssimo •" Segundo os documentos publicados por Pablo Pastells e Francisco Mateos,
entre os quais se encontra uma carta de Palheta ao governador de Santa Cruz de Ia
senhor nosso Rei de Portugal, pois de 1639 que senhoreava o rio das
Sierra datada de 10 de Agosto de 1723, para além de outros documentos das autori-
Amazonas até a laguna onde se achavam os marcos pertencentes à
dades espanholas e cartas dos jesuítas sobre a chegada da expedição de Palheta, tanto
coroa de Portugal e 400 léguas da boca do rio Madeira até o dito
os jesuítas como as autoridades espanholas rejeitaram as pretensões portuguesas
marco, como diz o Padre Acuna no seu livro Maranhão, e quando sobre o rio da Madeira e a oferta de abertura de um comércio regular com as missões
excedam fazendo o contrário do requerimento, que inda Sua Mages- dos Moxos (Cf. Pablo Pastells e Francisco Mateos, Historia de Ia Comyania de Jesus en
tade que Deus guarde tinha poderes neste Estado para fazer entregar Ia Provinda dei Paraguay, vol. vi, pp. 282-285, 293-294, 317-318, 347-349, 352-353,
e repor tudo o que tocasse a seus domínios e senhorios (...) o que 370-371).
45 A obra do padre Cristobal de Acuna é o A/ovo Descobrimento do Grande Rio das

Amazonas, impressa em 1641. Acerca da expedição de Pedro Teixeira e do local onde


41 Referirno-nos aqui quer ao texto da «Narração» da viagem de Palheta quer à teria sido lido o Auto de Posse, ver Max Justo Guedes «Aspectos Náuticos da Expedi-
carta escrita por João da Maia da Gama ao Rei, na sequência do regresso de Palheta ção de Pedro Teixeira», in Francisco Contente Domingues e Luís Filipe Barreto, A Aber-
a Belém, já citada anteriormente. tura do Mundo, Presença, Lisboa, 1987, pp. 73-83 e David Sweet, A Rich Realm ofNaiure
n Carta de João da Maia da Gama ao Rei, escrita à margem da ordem régia de Desiroyed: The Middk Amazon Valley, -1640-1750, University of Wisconsín, 1974,
18 de Fevereiro de 1724 (B.P.E., Códice CXV/ 2-15, n.D 13). pp. 210-219 e 242-243.
OS TRATADOS DE UTREQUE E A EXPANSÃO PORTUGUESA...
OS TRATADOS DE U T R E Q U E E A E X P A N S Ã O P O R T U G U E S A .

Teixeira lera o auto de posse e, supôstamente, ali colocara os mar-


das Ciências de Paris, a 27 de Novembro de 1720, intitulada Deter-
cos de demarcação, tese que só servia os interesses portugueses e
mination géograyhique âe Ia situation et de 1'étendue dês différentes yarties
lhes sancionava a expansão para Oeste. A expedição de Belchior
4e Ia Terre, veio dar novos argumentos às potências que contestavam
Mendes Morais ao rio Napo em 1731, visando tomar posse da boca
a extensão do alargamento dos territórios portugueses na América
do rio para a coroa portuguesa, poderá ser vista como o prossegui-
do Sul49. Segundo Delisle, tanto as terras do Cabo do Norte, que a
mento desta estratégia46.
França reclamava, como a Colónia do Sacramento, ficavam a Oci-
dente do Meridiano de Tordesilhas e, portanto, fora da soberania
2.4. O problema da Colónia do Sacramento portuguesa.
e a Dissertação de Guillaume Delisle Sabemos que, a 9 de Março de 1721, D. Luís da Cunha, que
substituíra em Paris o Conde da Ribeira na qualidade de ministro
Em 1719, D. Luís da Cunha, então embaixador em Madrid, plenipotenciário, em carta escrita ao Secretário de Estado Diogo
reconhecendo as dificuldades de pôr em prática o acordado com a Mendonça Corte-Real, relatava que Delisle lera a sua dissertação na
Espanha em Utreque, devido às divergências na interpretação da Academia, onde afirmava que a coroa portuguesa possuía injusta-
expressão «território da Colónia do Sacramento»47, solicitara, a 15 mente a região do Cabo do Norte e a Colónia do Sacramento, ao
de Dezembro, ao Secretário de Estado, Diogo Mendonça Corte- mesmo tempo que considerava pertencerem a Portugal as ilhas
-Real, o envio de um mapa da região da Colónia. Só assim seria pos- Molucas50.
sível mostrar quais os limites pretendidos pelo rei de Portugal, já Algum tempo depois, D. Luís da Cunha enviou para Portugal
que o território fora pedido sem recorrer à «quimérica» demarcação um exemplar da dissertação que não chegou ao seu destino51. Nos
ajustada no Tratado de Tordesilhas. Acrescentava que tinha procura- finais de Setembro desse ano, o Secretário de Estado escrevia a
do obter, sem qualquer sucesso, um mapa da região junto dos padres D. Luís da Cunha afirmando que pensava que este já tivesse enviado
da Companhia de Jesus para nele se poder basear para conduzir as ao Rei o atlas de Guillaume Delisle. Pedia-lhe que se informasse
negociações com a corte de Espanha acerca da Colónia. Na ausência sobre o que costumava o rei de França dar aos estrangeiros que lhe
do mapa, pedia ao Secretário de Estado que lhe dissesse de que faziam uma oferta idêntica. No entanto, não deixava de dizer que
modo se devia pedir o território da Colónia que, de forma impre- recordara ao Rei ter Delisle escrito uma dissertação que «tirava» a
cisa, se colocara no Tratado de Utreque, uma vez que os assuntos Portugal a Colónia do Sacramento. Sabia que o Conde da Ribeira
daquela natureza só podiam ser ajustados à vista dos mapas e, Grande tinha contactado Delisle sobre o assunto e pensava que
depois, eram mandados executar por comissários que tinham por também o referira ao Regente, mas ignorava o resultado destas dili-
missão regular os limites ia loco43. gências52. O Conde da Ribeira teria, assim, ainda antes do seu
A consciência, manifestada por D. Luís da Cunha, sobre a impor- regresso a Lisboa, em Dezembro de 1720, tomado conhecimento do
tância e a necessidade imperiosa de se possuírem mapas precisos
dos territórios sul-americanos sob domínio português não podia ser
49 O texto da dissertação foi publicado por Jaime Cortesão, AGTM, Parte III,
mais clara. Sem eles, era praticamente impossível efectivar as nego-
tomo l, pp. 206-221.
ciações de partilha com a Espanha. 50 Jaime Cortesão, AGTM, vol. II, p. 332.
Pouco tempo depois, a leitura da dissertação de Guillaume 51 Segundo Jaime Cortesão, interferências das autoridades espanholas junto à
Delisle, «Primeiro Geógrafo do Rei» de França, na Academia Real fronteira corn a França teriam impedido, devido à violação da correspondência diplo-
mática, que a primeira cópia da dissertação de Delisle chegasse a Lisboa. A 27 de
Outubro, D. Luís da Cunha afirma que mandara a cópia e que falara já ao Cardeal
46 Ver F. A. Varnhagen, História Geral do Brasil, torno IV, p. 17; Artur C. Ferreira
Dubois para que aquela se não imprimisse, ao que este anuiu, embora não viesse a
Reis, -No Rumo de Oeste», in RJHGB, vol. 175, Rio de Janeiro, 1941, pp. 280-282.
cumprir a palavra dada (AGTM, vol. II, pp. 334-335).
47 Sobre este problema ver Luís Ferrand de Almeida, Alexandre de Gusmão, o Bra-
"Jaime Cortesão, AGTM, Parte III, tomo l, p. 223. Dias depois, a 7 de Outubro,
si! e o Tratado de Madrid, INIC, Coimbra, 1990, pp. 25-30.
o Secretário de Estado pedia a D. Luís da Cunha que lhe enviasse a dissertação, caso
w Jaime Cortesão, AGTM, vol. l, pp. 255-256.
já se tivesse tornado pública. Ver J. Cortesão, AGTM, Parte III, tomo [, pp. 224-225.

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teor da dissertação e pressionado o Regente e o próprio Delisle a torial do conflito sobre a posse da Colónia desde a sua fundação e
esse respeito. das tentativas infrutíferas de chegar a um acordo entre as duas
De qualquer forma, os esforços posteriormente desenvolvidos coroas, afirmava que, pelo tratado de paz assinado em Utreque
por D. Luís da Cunha junto do abade Dubois, futuro cardeal, para a coroa de Espanha tinha restituído a Colónia do mesmo modo que a
evitar a publicação das passagens da dissertação que punham em coroa de Portugal tinha restituído as praças conquistadas durante a
causa, devido aos cálculos que estabeleciam a posição da linha de guerra. Daqui concluía que o tratado de Utreque resolvera o pro-
Tordesilhas, a legitimidade da expansão portuguesa para Ocidente blema, substituindo-se esse acordo ao processo difícil e controverso
na América do Sul e, nomeadamente, a posse da Colónia do Sacra- de determinação da linha de Tordesilhas. Não cabia, portanto, aos
mento, são bem reveladores dos receios portugueses53. geógrafos decidir a questão, uma vez que o ponto controverso da
Só a 11 de Novembro de 1722, D. Luís da Cunha conseguiu propriedade da Colónia, que dizia respeito à dificuldade em regular
enviar ao Secretário de Estado, Diogo Mendonça Corte-Real, uma os confins dos domínios das duas coroas pela divisão da linha de
cópia da dissertação, lembrando-lhe que, para convencer Delisle de Tordesilhas, estava encerrado por um acordo amigável estabelecido
que se havia enganado e desistir de publicar as passagens da disser- em Utreque. À dúvida sobre a possibilidade da coroa de Espanha
tação que lesavam as pretensões portuguesas na América do Sul, era considerar a Colónia uma fortaleza estrangeira sobre território pró-
necessário ter feito algumas observações astronómicas recentes, prio, à semelhança de Gibraltar e, portanto, com o seu espaço limi-
uma vez que sem elas não era possível contestar a opinião de um tado pelo tiro de canhão, respondia Corte-Real que a questão não se
geógrafo consagrado como Delisle. Por outro lado nem a corte de podia colocar nestes termos. A coroa portuguesa nunca pretendera
França nem a de Espanha se podiam servir da opinião de um geó- ter uma fortaleza em território da coroa de Espanha. Pelo contrário,
grafo contra o que estava estipulado nos tratados e, só no caso de tal a Colónia fora ali estabelecida por D. Pedro II considerar que ali se
se verificar seria necessário demonstrar o erro de Deíisle. situavam os confins dos seus domínios naquela região. E, apesar dos
Sem que a dissertação de Delisle deixasse de preocupar os minis- conflitos, sempre os castelhanos tinham acabado por restituir a
tros do Rei, assistiu-se, do lado português, a um enfatizar da argu- posse da Colónia, admitindo implicitamente com esta restituição
mentação jurídica para justificar a posse da Colónia do Sacramento. que pela Colónia se dividiam os domínios respectivos de uma e de
Ou seja, mesmo admitindo que a dissertação pudesse estar certa outra Coroa. Só assim se podia entender, na sua opinião, a existên-
quanto à determinação da linha de Tordesilhas, considerava-se que o cia do artigo 7.° do tratado de Utreque, que estipulava a possibili-
que era fundamental era defender o que estava acordado nos tratados, dade de o rei de Portugal aceitar, caso assim o entendesse, um equi-
sobretudo o que ficara estipulado em Utreque. Mas esta argumentação valente pela Colónia porque, dizia Diogo de Mendonça, o Rei não
surgiu precisamente corno resposta às dúvidas de D. foão V e antece- tinha qualquer direito para poder obrigar o rei de Espanha a deixar-
deu o retomar das negociações com a coroa de Espanha em 1725. -Ihe construir uma fortaleza nos seus domínios. Reforçava a ideia de
Em Maio de 1724, o Secretário de Estado, instado pelo Rei, que, pelo acordado em Utreque, a Colónia era a baliza dos domínios
explicava por escrito o seu pensamento sobre o problema da Coló- americanos da coroa portuguesa ao Sul e que, portanto, todos os
nia do Sacramento e seu «território». Diogo Mendonça Corte-Real territórios entre a Colónia e o Rio de Janeiro lhe pertenciam.
considerava tratar-se de uma questão que já não dizia respeito aos Afirmava, por fim, que nunca entrara nas discussões dos geógra-
professores de Geografia mas aos de Direito. Depois de fazer o his- fos, confessando o seu pouco ou nenhum conhecimento de Geogra-
fia, aproveitando para sublinhar que, caso a disputa não tivesse ficado
terminada com as negociações de Utreque, o rei teria ainda funda-
53 Como sublinhou Jaime Cortesão: «Era a primeira vez que uma assembleia
mento para discutir a extensão dos seus domínios até Montevideo54.
científica, tão autorizada, pronunciava, por modo tão pouco discutível e até com
afectada isenção, uma sentença sobre o velho pleito geográfico-político. Conhecida
que fosse, a dissertação de Delisle nào podia deixar de impressionar vivamente 54 «Parecer.- de Diogo Mendonça Corte-Rea! de 31 de Maio de 1724 (Biblioteca
D. João V e os seus ministros» (ACTM, vol. II, p. 331). Ver sobre este assunto Jaime Nacional de Lisboa, Arquivo Tarouca, n.° 158, «Cartas de Diogo Mendonça Corte-
Cortesão, AGTM, vol. u, pp. 327-348. -Reaf ao Conde de Tarouca», vol. 6.)

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OS TRATADOS DE U T R E Q U E E A E X P A N S À O P O R T U G U E S A .
OS TRATADOS DE UTREQUE E A EXPANSÃO PORTUGUESA...

Ouvido, algum tempo depois, sobre a mesma matéria, D. Luís ela causados, sobretudo se não fosse possível mante-la com a exten-
da Cunha revelava-se mais realista, prudente e mais incisivo na sua são de terras pretendida, já que um «domínio tão limitado metido
argumentação do que o Secretário de Estado55. Começava D. Luís nos vastos estados de outra potência» estava sempre «exposto a
da Cunha por lembrar como se opusera, em 1719, à ideia de fortifi- grandes inconvenientes pela impossibilidade de ser socorrido»56.
car Montevideo, contrariamente ao que sustentara o conselheiro Antecipava-se aqui D. Luís da Cunha a Alexandre de Gusmão, ao
António Rodrigues da Costa, porque aquela decisão daria azo a que pôr em causa a ideia da preservação da Colónia a todo o custo,
a coroa espanhola procurasse deter os portugueses na região a todo questionando a sua viabilidade no quadro de um constante antago-
o custo, temendo o seu alargamento até ao rio Negro, quando era nismo espanhol e na ausência da obtenção de um território mais
sabido que a coroa portuguesa se contentaria com o estabeleci- extenso que o do tiro de canhão57.
mento dos limites dos domínios portugueses pelo rio de S. João. Como podemos verificar, foi a expectativa de encontrar uma
Pensava, assim, que os portugueses deviam procurar manter a posse solução negociada com a Espanha para o problema da Colónia do
da Colónia sem tentar estender as suas conquistas na região. Con- Sacramento que levou D. João V a consultar de novo os seus minis-
tudo, concordava, em princípio, com Diogo de Mendonça sobre a tros em 1724. A discussão sobre a Colónia antecede em cerca de um
interpretação do que fora alcançado em Utreque. ano as negociações diplomáticas entre as duas potências ibéricas
Com a devolução da Colónia, a coroa de Espanha tinha aceitado, com vista à troca das infantas D. Mariana Vitória e D. Maria Bárbara
de forma implícita, a argumentação dos geógrafos portugueses que e o seu casamento com os príncipes herdeiros das duas coroas ibé-
sustentavam pertencerem a Portugal a margem oriental do rio da ricas. A aproximação entre Portugal e Espanha era também uma
Prata e todo o território compreendido entre o Brasil e a Colónia do consequência do corte de relações diplomáticas entre a França e a
Sacramento. Em todo o caso, devia aceitar-se como justa a linha de Espanha, que teve lugar depois da devolução de D. Mariana Vitória
demarcação ajustada em Utreque sem ser necessário recorrer de a Madrid, pondo em causa o projectado casamento com Luís XV
novo aos conhecimentos dos geógrafos, o que se devia evitar a todo Bem diferente fora a situação no período imediatamente poste-
o custo, principalmente depois da publicação da dissertação de rior à Paz de Cambrai de 1721, em que a aproximação entre as cor-
Delisle que dava razão às pretensões espanholas sobre a Colónia. tes de França e de Espanha acabou por lesar fortemente os interes-
Se defendia o que fora decidido em Utreque e que se não vol- ses portugueses. O tratado pusera fim às hostilidades entre as duas
tasse à argumentação de natureza geográfica para sustentar a posse nações e às ambições de Filipe V ao trono francês. Após a morte de
da Colónia, D. Luís da Cunha não estava seguro de que aquele tra- Luís XIV, em Setembro de 1714, Filipe de Anjou não escondera os
tado constituísse uma base duradoura de entendimento. E, por isso, seus desejos de obter a coroa de França. Contra estas pretensões se
acrescentava que caso se considerasse que a devolução da Colónia tinha formado em 1718 a Quádrupla Aliança, que englobava, para
pelo tratado de Utreque não encerrava definitivamente a questão, além da França, a Inglaterra, as Províncias Unidas e a Áustria. Com
como pretendia Diogo de Mendonça Corte-Real, e se admitisse que a descoberta de uma conspiração urdida pelo Cardeal Alberoni,
a coroa espanhola tinha cedido a Colónia a Portugal como um terri- ministro de Filipe V, para o derrube do Regente de França, Filipe de
tório dentro dos seus domínios, o certo é que não só não competia Orleães, o exército francês entrara em Espanha e ocupara a Catalu-
a Portugal, como não lhe assistia qualquer direito para poder exigir nha em Abril de 1719. Em Dezembro, terminara a guerra e o Car-
maior extensão de território, ficando a decisão do problema inteira- deal Alberoni fora afastado do governo espanhol. A 26 de Fevereiro
mente ao arbítrio da coroa espanhola.
Lembrava, por fim, a D. João V que na negociação que se espe-
56 Carta de D. Luís da Cunha a Diogo de Mendonça Corte-Real de 28 de Junho
rava com os espanhóis se devia ponderar se as vantagens que se de 1724 (A.N.T.T., M.N.E., Livro 793).
obtinham com a posse da Colónia compensavam os problemas por 57 Mais tarde, em 1736, D. Luís da Cunha voltaria a insistir na necessidade de

chegar a um acordo negociado com os espanhóis sobre a Colónia (Cf. Instruções Iné-
ditas de. D- Luís da Cunha a Marco António Azevedo Continha, Academia das Ciências de
55 Ver a Carta de D. Luís da Cunha ao Secretário de Estado de 28 de Junho de
Lisboa, Coimbra, 1929, pp. 153-154).
1724 {A.N.T.T-, M.N.E., Livro 793).

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'O
OS TRATADOS DE U T R E Q U E E A E X P A N S Ã O P O R T U G U E S A . . .

de 1720, Filipe V aderira à Quádrupla Aliança e manifestara a sua


renúncia à coroa de França.
O Congresso de Paz deveria reunir-se em Cambrai em Outubro.
Foi acreditando que os seus ministros, graças à aliança inglesa, seriam
admitidos no Congresso, que D. João V aí enviou o Conde de
Tarouca e D. Luís da Cunha, acompanhados de Alexandre de Gus-
mão, António Galvão Castelo Branco, e Marco António de Azevedo
Coutinho, com o objectivo de fazer reconhecer os direitos portugue-
ses sobre a margem esquerda do Rio da Prata, segundo o estabelecido 3. OS P A D R E S MATEMÁTICOS
em Utreque. Mas a sua participação nas negociações não foi aceite, E O P R O J E C T O DO N O V O A T L A S
devido à oposição da França e ao fraco empenho da Inglaterra. DA AMÉRICA PORTUGUESA
O tratado de paz, assinado em Cambrai a 27 de Março de 1721,
obrigava a França a defender os interesses espanhóis contra a desis-
tência do monarca de Espanha de vir a ocupar o trono de França.
A 13 de Junho a Inglaterra declarava-se garante deste tratado. Não
admira, portanto, que D. João V estivesse preocupado. De uma
guerra de que fora responsável, Filipe V saíra-se com grande des-
treza, e os seus interesses na América saíam incólumes do conflito.
No quadro da aliança franco-espanhola, podemos compreender que
a divulgação da dissertação de Delisle constituíra mais um revés
para Portugal.
A aproximação entre as coroas ibéricas, em 1725, através da
projectada troca das princesas e da constituição de uma aliança
ofensiva e defensiva, poderia permitir também ultrapassar alguns
diferendos existentes entre as duas potências, nomeadamente a
questão da Colónia do Sacramento e do seu território. Era este um
dos objectivos de D. João V, e as instruções dadas a José da Cunha
Brochado, enviado como plenipotenciário a Madrid para tratar das
negociações juntamente com António Guedes Pereira, eram explíci-
tas a este respeito53. Contudo, só foi possível chegar a acordo em
relação aos casamentos dos herdeiros das duas coroas, e a busca de
uma solução para o diferendo sobre a Colónia do Sacramento foi
mais uma vez adiada devido à intransigência de ambas as partes na
defesa de teses opostas quanto à presença portuguesa na margem
oriental do Prata.

58 Ver o texto das instruções dadas por D. João V a José da Cunha Brochado e a

correspondência deste sobre as negociações em Espanha /« Jaime Cortesão, AGTM,


Parte III, tomo i, pp. 133-153.

"2
«As observações mais exalas e modernas que há das capitanias do sul, além de.
algumas plantas topográficas posteriores, são as que no ano de 1750 e alguns
seguintes fizeram os padres Dtogo Soares e Domingos Capaci, geógrafos man-
dados pelo senhor rei dom João V, os quais observaram toda a costa que decorre
de Santa Catarina de Moz, na latitude de 21 graus e vinte minutos ao sul do
Equador, até a altura de 28 graus, tinta minutos e quarenta segundos em que
se acha situada a Vila da Laguna, e ainda até a foz do rio da Prata na altura
de 31 graus, bem como todas as mais observações que fizeram pelo continente
das capitanias do Rio de Janeiro, de São Paulo, Minas Gerais, comarcas de
Ouro Preto, Ribeirão do Carmo, Caeté, Sabará Pitangui, Serro do Frio, Minas
Novas e pane de Goiás, de que tudo me consta levantaram plantas...»
Luís dos Santos Vilhena, Pensamentos Políticos sobre a Colónia, 18011.

3.1. A génese de um projecto

Se a Dissertação de Guillaume Delísle teve um impacto impor-


tante junto da coroa portuguesa, revelando a urgência da elaboração
de novos mapas do Brasil, podemos afirmar, sem sombra de dúvida,
que o projecto de contratação dos jesuítas italianos para realizar
estes mapas lhe é anterior.
Em Dezembro de 1717 o ouvidor-geral da capitania de São Paulo,
Rafael Pires Pardinho, enviava ao Conselho Ultramarino um relato
onde denunciava o avanço dos jesuítas espanhóis no povoamento
dos sertões que considerava pertencerem àquela capitania, uma
vez que os seus moradores sempre os tinham frequentado como
sendo da demarcação da coroa de Portugal2. É difícil determinar

1 Trata-se da 24.' carta de Luís dos Santos Vilhena, datada de 1801, intitulada
originalmente Reflexões políticas sobre as 24 colónias pertencentes a Portugal e muito princi-
palmente as do Estado do Brasil na América meridional, reeditada com novo título na
colecção Publicações Históricas do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, 1987.
2 Ver as Consultas do Conselho Ultramarino feitas a propósito deste relato, a

primeira datada de 29 de Abril de 1719 (I.H.G.B., 1-1-25, pp. 146-147 v.), e a segunda
de 23 de Agosto de 1720 (I.H.G.B., 1-1-25, pp. 276-278v.). Os originais destes do-
cumentos devem encontrar-se no Arquivo Histórico Ultramarino, mas não nos foi
possível localizá-los.

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OS P A D R E S MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS OS P A D R E S MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS

com segurança a que «sertões» se referia o ouvidor, uma vez que em dos mesmos jesuítas no interior da América do Sul. Mas o mapa foi
termos práticos, para os paulistas, os domínios das duas coroas con- considerado «muito informe» pelo Conselho Ultramarino, opinando
finavam um com o outro ao longo de quase todo o curso do rio este que o seu autor não devia possuir conhecimentos de Geografia,
Paraguai, abrangendo uma área imensa que se estendia do actual já que o mapa não possuía escala, nem estava graduado. Recomen-
Uruguai até ao Mato Grosso. Na ausência de uma demarcação dos dava, assim, o Conselho que, reunidas todas as informações que se
domínios das coroas ibéricas reconhecida pelas duas partes, colonos pudessem obter sobre a questão, se enviasse àquelas campanhas o
paulistas e jesuítas espanhóis queixavam-se mutuamente dos avan- engenheiro da capitania, acompanhado de algumas pessoas práticas,
ços respectivos num território a que ambos se achavam com direi- nomeadamente alguns «paulistas sertanejos», para averiguarem a
tos. De facto, na parte norte do seu curso, o rio Paraguai funcionava extensão do avanço castelhano no sertão. Caberia ainda ao enge-
realmente como fronteira, mesmo para os jesuítas das missões espa- nheiro fazer um mapa detalhado,
nholas. Assim, em 1718, respondendo à ordem do vice-rei do Peru
que ordenava o encerramento do caminho fluvial por onde comu- «assignalando nelle os rios e cordilheiras que houver em todo aquelle
nicavam as missões do Paraguai com as de Chiquitos, o superior districto, e apontando o rio ou serrania que lhe parecer poderá servir de
das missões de Chiquitos, depois de se referir a dois recontros entre devisa e separação por aquela parte entre os domínios de uma e outra
Coroa»5.
os índios das missões e os portugueses junto do rio Paraguai, afir-
mava:
Já aqui encontramos presente a preocupação em encontrar as
«Por los dos casos referidos se vê Io que importa el cursar estos cami- balizas naturais - os rios ou as montanhas - para definir os limites
nos; y deseamos saber, de que modo los han de cerrar los que han entre os domínios das duas coroas. Não há qualquer referência à
informado contra ellos; si ha de ser con cal, canto, o palizada: porque linha de Tordesilhas ou a direitos previamente existentes sobre
esta será otra obra como el muro de Ia China; pues en Ia distancia de aquele território.
mas de cien léguas de norte a sur, que tiene esta costa de los Chiquitos Meses depois, uma carta de D. Pedro de Almeida, Conde de
por Ia parte dei Rio Faraguay, no es uno, sino vários caminos que tie- Assumar e governador de São Paulo, trazia novos dados para a com-
nen los Portugueses para entrar en nuestras tierras; y aunque se los preensão do problema: alguns sertanistas de S. Paulo tinham desco-
cierren, no sabrán ellos abrirlos?»3
berto ouro muito perto do rio Paraguai, não longe do local onde os
padres espanhóis da Companhia de Jesus tinham fundado uma
Com o relato de Rafael Pires Pardinho vinha também um mapa,
nova aldeia poucos anos antes6. Parece tratar-se de uma referência
ao que parece obtido pelos vizinhos da vila de Itú junto dos padres quase certa ao descobrimento de ouro junto aos rios Coxipó e
jesuítas espanhóis. Ali se assinalava a forma como os sertões da Cuiabá feito por sertanistas em 1718. À preocupação com o avanço
capitania de S. Paulo confinavam com territórios pertencentes a
dos espanhóis somava-se a dificuldade em controlar os habitantes
Espanha e os locais onde os padres começavam a estabelecer novas
da colónia, sempre em busca de novas minas. A solução proposta
povoações4. O mapa, quer fosse obtido junto dos jesuítas espanhóis
pelo Conselho Ultramarino era a separação da capitania de S. Paulo
quer fosse copiado a partir de um original feito pelos jesuítas, servia
do governo das Minas, já anteriormente defendida, e a fundação de
agora, nas mãos do ouvidor de S. Paulo, para contestar a expansão
uma nova povoação na região das minas para garantir a posse
daquele sertão e uma melhor administração das minas7.
3 Súplica do superior das Missões de Chiquitos de 6 de Outubro de 1718, m Jaime

Cortesão, Manuscritos da Colecção De Angelis, Rio de Janeiro, 1955, tomo VI, p. 138. 5 Consulta do Conselho Ultramarino, 29 de Abril de 1719 (I.H.G.B., 1-1-25,
* De acordo com a consulta do Conselho Ultramarino de 29 de Abri! de 1719, pp. 146-147).
afirmava Pardinho que os vizinhos de Itú «se tinham encontrado no sertão com os «Consulta do Conselho Ultramarino de 31 de Outubro de 1719 (I.H.G.B., 1-1-
padres da Companhia castelhanos, donde lhes viera o mapa incluso da Forma que -25, pp. 156-159).
aquelles sertões confinam com os de Hespanha e do sitio em que os ditos padres 7 Consulta do Conselho Ultramarino de 31 de Outubro de 1719 (I.H.G-B., 1-1-

principiam a fazer novas povoações» (I.H.G.B., 1-1-25, p. 146). -25, pp. 156-159).

76
OS PADRES MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO NOVO ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS

Reunido o Conselho Ultramarino, em Agosto de 1720, para dar Mundo, não possuísse no século XVIII cartógrafos portugueses sufi-
novo parecer sobre a penetração espanhola no interior, considerou cientemente qualificados para enviar ao Brasil? Na verdade, desde
que, apesar de o governador ter encarregado um jesuíta de fazer um as primeiras décadas do século XVií que a cartografia portuguesa do
mapa dos sertões de S. Paulo, não era de esperar que nem este reli- Brasil pouco progredira em relação ao reconhecimento do território.
gioso nem o engenheiro da capitania, tivessem os conhecimentos Depois dos levantamentos de campo, realizados nos finais do século
necessários para fazer o mapa com o rigor exigido, uma vez que xvi e no início do século xvn, os mapas do Brasil dos cartógrafos Tei-
este necessitava da «sciencia particular da cosmographia, para poder xeira tendem a repetir-se. Tratava-se, além do rnais, de uma carto-
arrumar as terras, os rios e montes pelos grãos»8. Isto é, os fenóme- grafia quase só limitada à costa. Seria necessário esperar pela Res-
nos geográficos a cartografar eram, basicamente, a rede hidrográ- tauração e pelo renovamento que a cartografia do Reino sofre por
fica, o relevo e as povoações existentes. Mas, para o fazer de forma esta altura, graças à contratação de técnicos estrangeiros, para que
rigorosa, não era possível encomendar o mapa a um engenheiro
se iniciasse urna alteração desta decadência na elaboração de mapas.
militar ou a um jesuíta qualquer: impunha-se procurar alguém mais
Ainda assim, à data da contratação dos Padres Matemáticos, a
especializado, com conhecimentos de cosmografia, de matemática e
situação da cartografia em Portugal não se podia considerar satisfa-
de astronomia.
tória. Apesar do esforço desenvolvido pelo engenhe iro-mo r, Manuel
Devido à dificuldade em encontrar no Reino quem se pudesse
Azevedo Fortes, ao nível do ensino da cartografia e do apoio da
incumbir da tarefa, recomendava o Conselho que o rei solicitasse ao
Academia Real da História, de que fazia parte, não se pode dizer
Geral da Companhia de Jesus que enviasse para Portugal «dous reli-
que se tivessem obtido resultados suficientes que permitissem dis-
giosos mathematicos alemães ou italianos, por serem duas nações
pensar o recurso a técnicos estrangeiros.
menos suspeitosas a esta Coroa» para que, mandando-os o rei ao
A escolha da Itália ou da Alemanha como países de recruta-
Brasil «um pela banda de São Paulo, e outro pela do Maranhão» per-
corressem «aquelles sertões» e fizessem «mapas mui individuais» 9 . mento potencial devia-se, por um lado, como está explícito na con-
É importante ter em atenção que, de acordo com esta consulta, o sulta do Conselho Ultramarino, ao facto de nem os Estados italianos
objectivo era que os dois jesuítas fizessem o levantamento cartográ- nem os Principados alemães terem interesses conflituais com os do
fico completo do Brasil partindo um do Norte e outro do Sul, Império Português mas, sobretudo, ao avanço dos estudos científi-
devendo depois encontrar-se no interior do continente sul-ameri- cos nestes países. Também a opção pela Companhia de Jesus não
cano. É certo que este projecto não tinha em conta a verdadeira oferece uma grande surpresa. Antes de mais, os colégios da Compa-
extensão do espaço sul-americano mas, nesta altura, a Coroa estava nhia eram, principalmente desde o século xvn, conhecidos pela qua-
longe de poder supor que para o realizar necessitaria não só de mais lidade do ensino das matemáticas e da astronomia, sobretudo na
cartógrafos como de muitos meios técnicos e humanos de que ainda Alemanha, na Áustria, em Itália e em França. Por outro lado, os
não dispunha. A ideia original de mandar vir dois matemáticos jesuítas eram, ainda nesta altura, a ordem religiosa mais importante
jesuítas de Itália ou da Alemanha para fazerem os mapas do Brasil de todo o Império Português, com uma preponderância ainda maior
surge aqui pela primeira vez de uma forma explícita. no Brasil.
O recurso a cartógrafos estrangeiros era incontornável devido à A consulta do Conselho Ultramarino não podia ser mais clara
inexistência de cartógrafos suficientemente qualificados em Portu- quanto à utilidade de possuir mapas detalhados do território brasi-
gal. Mas, corno foi possível que Portugal que, durante os séculos XVI leiro:
e XVII, fora pioneiro na elaboração de mapas do Novo e do Velho
«porque esta diligencia será sumamente conveniente, para tirar as con-
fusões que dos limites dos governos daquelle Estado e Bispados, com
B ConsuIta do Conselho Ultramarino, de 23 de Agosto de 1720 (I.H.G.B., 1-1-25, que se perturbam muito aqueles vassalos, e se embaraçam uns aos
pp. 278-278v.). outros reciprocamente; porque também por este modo se poderá
"Consulta do Conselho Ultramarino, de 23 de Agosto de 1720 (I.H.G.B., 1-1-25, conhecer por onde nos convém fazer a separação dos domínios de
pp. 278-278v.). Castela pelo sertão, a qual questão é grave e poderá involver grandes

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OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO N O V O ATLAS OS PADRES M A T E M Á T I C O S E O PROJECTO DO N O V O ATLAS

dissenções se nos não prevenirmos ante tempo para constituirmos ministros do rei, já anteriormente alertados para a necessidade de
limites certos entre os dominios desta Coroa com a de Castela» 10 . mandar levantar, sem demora, os mapas dos territórios ocupados
pelos portugueses na América do Sul.
Tratava-se de dar forma aos limites entre as diferentes capita- Por outro lado, no período posterior à leitura da dissertação, a
nias e bispados do Brasil, e à própria divisão entre os Estados do questão dos limites do Maranhão (que, enquanto Estado separado
Brasil e do Maranhão. Ou seja, era necessário organizar espacial- administrativamente do Brasil, englobava a Amazónia, ou seja, o
mente o Brasil de uma forma lógica, o que não era possível fazer-se Fará) não podia deixar de merecer especial atenção devido ao dife-
sem possuir mapas detalhados. Até àquele momento os bispados e rendo com a França sobre os territórios do Cabo do Norte. Este
as capitanias progrediam em função das entradas e descobrimentos facto pode explicar, em parte, que os jesuítas italianos sejam conhe-
feitos no sertão pelos naturais de cada um deles, o que criava uma cidos, numa primeira fase, como os «matemáticos e missionários do
enorme confusão, já que as diferentes unidades administrativas (reli- Maranhão».
giosas e civis) se interpenetravam entre si, em lugar de possuírem Mas a verdade é que o «Maranhão» acabou por não ser privile-
limites territoriais precisos, contínuos e facilmente reconhecidos por giado com o envio de um dos Padres Matemáticos. Não é fácil per-
todos. ceber porquê. A ameaça francesa permanecia real na região do Cabo
Mas era a «separação dos dominios de Castela pelo sertão» que do Norte, tal como se mantinham as rivalidades com os jesuítas
mais preocupava os conselheiros depois dos avisos de Rafael Pires espanhóis na Amazónia ocidental. Daí o procurar-se reforçar o con-
Pardinho. Estavam conscientes da necessidade de reconhecer, trolo sobre a maior parte da bacia amazónica, quer através da
quanto antes, o território interior do Brasil para estabelecer os limi- reconstrução dos fortes, quer do policiamento dos rios, ou ainda
tes mais convenientes à coroa portuguesa. Não há aqui qualquer fomentando expedições de reconhecimento daquele espaço. Parale-
referência ao Tratado de Tordesiíhas ou às dificuldades técnicas em lamente, as ordens religiosas, graças à sua rede de missões, princi-
determinar por onde passaria o meridiano do mesmo nome. Fala-se palmente os jesuítas, mas também os carmelitas, os franciscanos e
sim, para prevenir conflitos futuros, de procurar «limites certos» os mercedários, mantinham toda a sua importância por garantirem
entre os domínios das duas coroas. Ora, este termo parece aqui que- a manutenção de núcleos populacionais, por muito instáveis que
rer designar ou os cursos de água ou as montanhas, que pudessem estes pudessem ser11.
constituir barreiras naturais que servissem de limite aos territórios No entanto, quando o governador do Estado do Maranhão e
dos dois Estados ibéricos. Pará, João da Maia da Gama, solicitou ao Rei, em Agosto de 1723,
Cremos, portanto, que nesta altura os membros do Conselho o envio de mais engenheiros para superintenderem nas obras de
estavam convencidos de que muito estava ainda por definir na ocupa- reparação e construção das fortalezas do Pará, pedindo também que
ção do espaço sul-americano, e que a delimitação das fronteiras entre os dois Padres Matemáticos que já se encontravam na Corte e
os territórios portugueses e espanhóis não seria pacífica também no que, segundo ele, se tinham mandado vir de Itália a seu pedido,
sertão. É na sequência desta consulta do Conselho Ultramarino que embarcassem para o Maranhão «para tirarem as plantas e fazerem
obteve uma decisão favorável do rei, que o Geral dos Jesuítas terá Mappas de tudo», a resposta do Rei foi negativa, recomendando ao
sido contactado para que fossem enviados dois matemáticos da governador que se servisse dos dois engenheiros que estavam no
Companhia para o Reino. Maranhão. Quanto aos jesuítas, era bastante claro, a razão da sua
Se dúvidas houvesse sobre os objectivos da coroa portuguesa contratação era não apenas fazer os mapas do Estado do Maranhão
ao contratar os matemáticos jesuítas, elas ficariam, assim, dissipa-
das. Contudo, a importância da dissertação de Guillaume Delisle
não pode ser negada. Ela contribuiu, claro está, para influenciar os 11 Manuel Maria Wermers, «O Estabelecimento das Missões Carmelitanas no

Rio Negro e nos Solimões (1695-1711)», Actas do V Colóquio Internacional de Estudos


Luso-Brasileiros, Coimbra, 1965, pp. 527-572, Dauril Alden, The Making of an Enter-
10 Consulta do Conselho Ultramarino, de 23 de Agosto de 1720 (I.H.G.B., 1-1- prise, The Society of Jesus in Portugal, Its Empire and Beyond, 1540-1750, Stanford, 1996,
-25, pp. 278-278v.). pp. 597-603,

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OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS OS P A D R E S MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO N O V O ATLAS

mas também os mapas do Estado do Brasil e da Colónia do Sacra- tante, que fora já professor em Évora e que, em 1720, substituíra na
mento: Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão o professor Inácio
Vieira16. Foi ainda escolhido nesse ano para sócio fundador da Aca-
«E sobre o que ínsinuaes dos dous Padres da Companhia Mathemati- demia Real da História, e encarregado, em 27 de Dezembro, junta-
cos que forão mandados vir a vossa instancia, não foi assim como refe- mente com o engenheiro-mor Manuel Azevedo Fortes, de tratar dos
ris, senão pellas reprezentações que me fés o meu Conselho Ultrama-
«pontos geográficos» 17 . Tal como Azevedo Fortes, Manuel de Cam-
rino, e o fim para que se pedirão, e se dirigio a sua vinda foi para virem
fazer Mappas da Nova Collonea do Sacramento e desse mesmo Estado pos publicou algumas obras importantes para a divulgação da geo-
e do do Brasil, e virem pellos certões ate avistarse hum com o outro.»12 metria18. Manuel de Campos seria, muito provavelmente, um dos
mais importantes matemáticos do país, perfeitamente habilitado
Contudo, se a resposta do Rei remete para a Consulta do Con- para proceder à selecção dos jesuítas italianos para o projecto do rei.
selho Ultramarino de 1720, que antes analisámos, há que sublinhar Pela correspondência que enviou de Roma, provavelmente diri-
que a referência específica que faz à Colónia do Sacramento é, gida ao Provincial de Portugal, não parece abusivo aceitar que,
muito provavelmente, um sinal das preocupações crescentes que o aquando da sua partida de Portugal, já o padre Manuel de Campos
soberano tem, por esta altura, com a conservação da Colónia13. A tinha sido incumbido por D. João V de avaliar os conhecimentos
Colónia só fora devolvida, na sequência do tratado de Utreque, em científicos, sobretudo matemáticos, dos jesuítas italianos, e de os
1716, e desde essa data a Coroa multiplicou os seus esforços no sen- acompanhar em Roma, até à sua vinda para Lisboa19.
tido de assegurar a sua reconstrução e repovoamento. Paralelamente, Em 25 de Maio de 1722, naquela que é a primeira referência
procurou negociar com a Espanha a difícil questão do «território» da conhecida feita aos matemáticos italianos, escrevia o padre Manuel
Colónia, tentando obter, sem resultados, a aceitação das pretensões de Campos que fora informado da chegada iminente a Roma de
portuguesas1'1. Mas as preocupações com a segurança da Colónia dois jesuítas napolitanos, «Mathematicos, e Missionários do Mara-
eram bem visíveis. Não nos devemos esquecer de que foi em 1719 nhão»20. Os dois jesuítas chegariam apenas um dia mais tarde a
que o conselheiro António Rodrigues da Costa sugeriu a ocupação Roma e, desde esse instante, seriam acompanhados pelo padre
de Montevideo, como forma de reforçar a presença portuguesa na Manuel de Campos durante a sua permanência na cidade dos Papas.
região. Sugestão que viria a ser seguida poucos anos mais tarde, em Os jesuítas foram apresentados a 27 do mesmo mês ao Cardeal
1723, e que se saldou por um completo fracasso.

16 Sobre a Aula da Esfera, mas apenas para o século xvil, ver Luís de Albuquer-

3.2. A contratação dos jesuítas m a t e m á t i c o s que, «A "Aula de Esfera" do Colégio de Santo Antão no Século XVII», Anais da Aca-
cm Itália demia Portuguesa de História, 2." série, vol. 21, Lisboa, 1972, pp. 335-391.
17 Sobre o padre Manuel de Campos ver Jaime Cortesão, ACTM, vol. II, pp. 327-

-328; Francisco Rodrigues, Históna da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal,


Ern Maio de 1721 partiam de Lisboa como acompanhantes dos tomo IV, vol. I, pp. 410-415; Joaquim Pereira Gomes, artigo «Manuel de Campos» in
Cardeais da Cunha e Pereira de Lacerda, que iam a Roma para par- Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, voi. 4, pp. 709-710.
ticipar na eleição do novo Papa, os padres jesuítas Jerónimo Casti- 18 Trata-se dos Elementos de Geometria Plana e Sólida, impressos em Lisboa em

lho e Manuel de Campos15. Este último era um matemático impor- 1735, da Trigonometria Plana, publicada em 1737, e da Synopse Trigonométrica, também
impressa no mesmo ano, sendo todas as obras para serem utilizadas na Aula da
Esfera do Colégio de Santo Antão. Cfr. Luís de Albuquerque, «A Geometria em Por-
1!Carta régia de 26 de fevereiro de 1724 (A.H.U., Códice 269, fls. 266v.-267). tugal no início do século xvm», Cito - Revista do Centro de História da Universidade de
13Ver, por exemplo, os documentos com as respostas de D. Luís da Cunha e Lisboa, vol. 5, 1984/85, p. 90; Francisco Rodrigues, História da Companhia de Jesus na
Diogo Mendonça Corte-Real às dúvidas do rei sobre a legitimidade da posse da Assistência de Portugal, tomo tv, vol. l, p. 413.
Colónia, já analisados no capítulo anterior. 19 Ver as Cartas de Roma do padre Manuel de Campos, 1721-1722 (A.N.T.T.,
14 Luís Ferrand de Almeida, Páginas Dispersas, p. 172, Armário Jesuítico, livro n.° 27, fls. 397-413).
15 O que não veio a acontecer porque Inocêncio XIII foi eleito a 8 de Maio desse :o Cartas de Roma do padre Manuel de Campos, 1721-1722 (A.N.T.T., Armário
mesmo ano. Jesuítico, livro n." 27, fl. 397).

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OS P A D R E S M A T E M Á T I C O S E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS OS PADRES M A T E M Á T I C O S E O PROJECTO DO N O V O ATLAS

Pereira de Lacerda, e ao embaixador português em Roma, André de nenhum tinha experiência de trabalho de campo para levantar
Melo e Castro, Conde de Galveias. mapas. A aprendizagem deveria, portanto, ter lugar em Portugal.
Na mesma carta em que refere estes eventos, Manuel de Cam-
pos dá-nos a conhecer a sua primeira avaliação dos seus compa-
nheiros italianos. Considerava-os excelentes missionários e teólogos 3.3, Os jesuítas italianos em Portugal
e louvava os seus conhecimentos de matemática. Mas sempre ia e a política científica de E>. João V
acrescentando que, apesar de um dos jesuítas ter ensinado matemá-
tica durante três anos, necessitavam de mais alguma experiência: João Baptista Carbone e Domingos Capassi chegaram a Lisboa
«com pouco mais exercício sahirão perfeytos Mathematicos, porque a 19 de Setembro de 1722. Entre esta data e a da partida da missão
tem a Ciência, que basta, e bons fundamentos»21. dos matemáticos régios para o Brasil, em Novembro de 1729, pas-
Quem eram então estes «Missionários do Maranhão»? Sabemos saram mais de sete anos. É muito tempo, se pensarmos na rapidez
que ambos escreveram ao Padre Geral, solicitando-lhe que os en- com que os jesuítas tinham sido contratados em Roma, chegando a
viasse para as missões, um deles em 1717 e, novamente, em 1722, e Portugal no mesmo ano em que foi impressa em Paris a dissertação
o outro em 172122. Do cruzamento destes pedidos com os desejos de Guillaume Delisle. Pareceria que, à urgência inicial da missão, se
de D. João V terá resultado a decisão do Geral Tamburini de lhes tinham sobreposto outras prioridades. Contudo, se tivermos em
atribuir a missão que o monarca pretendia que os jesuítas levassem conta o que antes dissemos sobre a falta de experiência de trabalho
a cabo no Brasil. de campo dos dois jesuítas, podemos pensar que os anos passados
Giovanni Battista Carbone nascera em Oria (Lecce), a 2 de em Portugal foram, em parte, um período de treino para a tarefa que
Setembro de 1694. Entrou na Companhia de Jesus em Dezembro de os aguardava no Brasil.
1709. Após o noviciado, estudou Retórica, entre 1711-1712, no Na verdade, se a razão por que os jesuítas foram mandados vir de
Colégio Máximo de Nápoles. De 1712 a 1714 ensinou Gramática e Itália foi a de fazerem os mapas do Brasil, o certo é que, num primeiro
Religião Católica no Colégio Teatino. Nos três anos seguintes estu- momento, as observações astronómicas parecem ter acabado por rele-
dou Filosofia, de novo no Colégio Máximo. Ensinou Humanidades gar para um plano secundário a missão original dos padres. É assim
em Lecce entre 1717 e 1719. Desde esta última data dedicou-se ao que, pretendendo acompanhar as principais nações da Europa nos
estudo da Teologia no Colégio dos Nobres durante cerca de um ano. progressos que ali se verificavam no campo da Astronomia, D. João V
Nos"dois anos que antecederam a sua vinda para Portugal, recome- mandou instalar um observatório astronómico em Lisboa.
çara o estudo da Filosofia e veio a especializar-se em Lógica no A pedido do rei, D. Luís da Cunha chegou mesmo a obter em
Colégio Máximo de Nápoles23. França os planos e uma relação do Observatório de Paris24. Foram
Domenico Capassi era originário de Nápoles, onde nasceu em também encomendados um grande número de instrumentos cientí-
1694, a 29 de Agosto. Entrou na Companhia de Jesus a 6 de Março ficos em Inglaterra, na Holanda, em França e na Itália, destinados ao
de 1710. Tal como Carbone, fora, também em Nápoles, professor de Observatório de Lisboa. Entre 1724 e 1730 a correspondência diplo-
Gramática e de Humanidades. mática está cheia de referências às remessas destes instrumentos:
Ficamos sem saber qual dos dois jesuítas ensinara anteriormente óculos, relógios de pêndula, telescópios de reflexão, micrómetros,
matemáticas. Mas uma coisa é certa: nenhum deles era astrónomo, barómetros, sextantes e quadrantes foram enviados continuamente
para Portugal25. Em França, recorreram os diplomatas aos serviços
21 Cartas de Roma do padre Manuel de Campos, 1721-1722 (A.N.T.T., Armário

Jesuítico, livro n.° 27, fl. 398).


22 Francisco Rodrigues, História da Companhia de Jesus na Assistência de Portuga!, 24 Carta de D. Luís da Cunha a Diogo de Mendonça Corte-Real datada de Paris,
p. 413. 3 de Fevereiro de 1725 (in Jaime Cortesão, ACTM, Farte III, tomo i, p. 254).
23 Os dados biográficos sobre o padre Carbone foram extraídos de urna ficha 25 Sobre as encomendas de instrumentos de medição astronómica, ver: Jaime
que está no Arquivo Geral da Companhia de Jesus (A.R.S.I.), em Roma, elaborada em Cortesão, AGTM, vol. II, pp. 349-356 e Parte III, tomo l, pp. 253-260; Francisco Rodri-
1942 por Edrnond Lamalle, S.)., a partir das notas do padre Guilherme Kratz. gues, História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, tomo IV, vol. I, pp. 415-

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dos mais importantes geógrafos, como Guillaume Delísle, Jean Bap-


tiste Bourguignon D'Anvilíe e Jacques Cassini (Cassini II), tendo mento dos relógios. Contudo as opiniões sobre a precisão dos reló-
este último examinado um sextante que fora encomendado a gios italianos nem sempre eram as melhores. Alguns apresentavam
inúmeras deficiências na marcação das horas e desregulavam-se
Nicholas Bion, importante construtor francês de instrumentos 20 .
A pedido de D. Luís da Cunha o próprio Cassini II se encarregou de com facilidade30.
Em Inglaterra, dois judeus portugueses, Isaac de Sequeira Samuda,
construir um instrumento, ao que parece para calcular a longitude27.
primeiro e, seguidamente, Jacob de Castro Sarmento serviram de
Também Suíly, inglês estabelecido em França, que montara em Ver-
intermediários e de conselheiros para a aquisição de instrumentos
salhes uma oficina onde fabricava relógios, foi contactado pelos
matemáticos31. Ambos mantiveram correspondência com o padre
diplomatas portugueses, já que se sabia das suas experiências para
construir uma «pêndula» que fosse rigorosa para determinar a longi- Carbone que, de Lisboa, supervisionava as encomendas. Isaac Sa-
muda, enquanto membro da Royal Society, debatia com o padre Car-
tude no mar28. Por fim, Lefevre, um engenheiro francês especiali-
bone questões relativas à Astronomia e à utilização dos instrumen-
zado no fabrico de instrumentos de precisão, fabricou um meío-cír-
culo azimutal29. tos científicos e fazia a ponte com alguns dos mais importantes
membros da Sociedade Real. Através dele foi possível a Carbone
De Itália vieram sobretudo relógios, mas também telescópios e
quadrantes. Pediu-se ao Padre Manuel de Campos e a Frei José da contactar George Graham, um dos mais famosos fabricantes de
relógios de Londres, que construiu um relógio de pêndula ou relógio
Fonseca e Évora, quando se encontravam em Roma, que recolhes-
sem, junto dos sacristães de algumas das igrejas de Roma e de oscilatório, destinado a observar a duração dos eclipses dos astros32.
Por outro lado, o padre Carbone instruía directamente o enviado
alguns relojoeiros, toda a informação possível sobre o funciona-
português em Londres, António Galvão de Castelo Branco, no tocan-
te à compra de instrumentos matemáticos. Carbone e Galvão tive-
-416; Luís Ferrand de Almeida, A propósito do tTestamento Político» de D. Luís da Cunha,
Coimbra, 1948 (1951), pp. 8-9. Ver também a correspondência de D, Luís da Cunha
ram ainda importantes contactos com o astrónomo inglês Samuel
para a Corte no ano de 1724 {A.N.T.T., M.N.E., Livro 793). Molyneux que, para além de ter dado conselhos sobre a aquisição
26 Em 1725, um agente português escrevia de Paris: «Mr. Bion me entregou o de diversos instrumentos, mandou ele próprio construir para o rei
sextangle, depois que por ordem da Academia, conforme lhe mandey pedir, foy bem de Portugal um telescópio de reflexão e deu instruções a Carbone
examinado no Observatório por Mr. Cassiny» (in Jaime Cortesão, ACTM, Parte III, sobre a sua utilização. Molyneux manteve ainda com o jesuíta ita-
tomo I, p. 259). O tratado de Nicholas Bion é o Traité de Ia construction et dês yrincipaux
usares dês instruments de mathématiaues, La Haye, 1716 (Cfr. Hélène Vérin, La doire dês
liano uma correspondência sobre observações astronómicas realiza-
Ingénieurs, Albin Michel, Paris, 1993, pp. 301, 424, 434). das por ele e por outros membros da Royal Society como Edmond
27 D. Luís da Cunha, Correspondência para a Corte no ano de 1724 (A.N.T.T., Halley e James Bradley33. Halley fora nomeado professor de Geo-
M.N.E, Livro 793, B. 603-603v.).
!fl «Esta Machina do tamanho de uma Pendulla de Bufete he muyto coriosa, e a
30 Ver os manuscritos enviados de Itália pelo Padre Manuel de Campos, onde se
experiência que se fez levando-a ern hum coche correspondeu ao intento; porque
sem embargo dos seus grandes e differentes movimentos não variou de hum encontra uma carta de Frei José da Fonseca e Évora e as informações enviadas pelos
segundo; e assim se deve fazer outra experiência no mar» (Carta de D. Luís da Cunha relojoeiros italianos sobre os relógios (A.N.T.T., Cartório dos Jesuítas, Maço 78, n."
ao Secretário de Estado enviada de Senlis, a 23 de Março de Í725, in Jaime Cortesão, 50, n.Q 65 a n.° 70, n.° 78, n.° 81 a 90).
31 Luís ferrand de Almeida, A propósito do 'Testamento Político' de D. Litís da
AGTM, Parte III, tomo i, pp. 256-257). Algum tempo depois, em nova carta mandada
de Bruxelas, em Novembro de 1725, a Diogo de Mendonça Corte-Real, afirmava Cunha, pp. 13-14 e Jaime Cortesão, ACTM, vol. II, pp. 350-351.
32 Ver as instruções de George Graharn sobre relógios oscilatórios ou de pêndula
D. Luís da Cunha que «Quanto ã Pendulla para se poder conhecer a longitude» não
lhe fora dito que a mandasse fazer, nem conviria fazê-Io «sem que a experiência que de 26 de Janeiro de 1725: Directiones aã erígcnda Horologia 02 tu. {A.N.T.T., Cartório
se determinava fazer mostrace a sua utilidade e exactidão», como o próprio Sully lhe dos Jesuítas, Maço 78, n.° 43 e n.° 44). George Graham (ca. 1674-1751) desempenhou
dissera (in Jaime Cortesão, ACTM, Parte III, tomo l, p. 258). um papel importante no apoio a John Harrison para a construção do seu primeiro
29 Ver a instrução de Lefevre, Explication dês yrincipalles pieces aui composent k
cronometro de marinha para calcular a longitude no mar. Cfr. Norman J. W. Thrower,
demy arde azimutal ti ia methode de lê disposer a cês diferend usages f ar Lefebre ingenieur Longitude in lhe Contexi of Cartography, in William J. Andrewes (ed.), The Quest For Lon-
pour insíruments de Mathemathiques aux deux globes a Paris (A.N.T.T., Cartório dos gitude, Harvard University, Cambridge, Massachusetts, 1996, pp. 59-60; Dava Sobel,
Jesuítas, Maço 78, n.° 46). Longitude, Walker and Company, Nova Iorque, 1995, pp. 74-87.
33 Afirmava Molyneux a Carbone em carta de 7 de Janeiro de 1725: «J'ai considere

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rnetria em Oxford em 1704, e sucedera a John Flamsteed como astró- Observatório de Greenwich e o primeiro astrónomo real de Ingla-
nomo real ern 1720, tendo passado desde então a dirigir o Observa- terra. A semelhança do que Giovanni Domenico Cassini (Cassini I)
tório Real de Greenwich. James Bradley era professor de Astrono- fizera em Itália e, mais tarde em França, defendendo o uso das obser-
mia na Universidade de Oxford. vações dos eclipses dos satélites de Júpiter como método para cal-
Mas o esforço de modernização não se limitou à aquisição dos cular a longitude39, Flamsteed publicou as suas próprias tabelas dos
instrumentos e à aprendizagem do seu funcionamento. A compra movimentos dos satélites de Júpiter em 1683, e nesse mesmo ano
de diversos livros de astronomia, como as obras do astrónomo tornou públicas as suas previsões dos eclipses dos satélites de Júpiter
inglês John Flamsteed34, o tratado de Nicholas Bion sobre o uso de para 1684, a que se vieram juntar outras nos anos seguintes40.
instrumentos matemáticos35, as efemérides de Eustachio Manfredi, Como interpretar todo este súbito interesse pela ciência moderna
e as efemérides de Philieri e as de Philippe Desplaces36, para além em Portugal quando, ao longo do século XVII, se tinha assistido à sua
das obras de Isaac Newton37, completava o trabalho paralelo de contestação sistemática, principalmente pelos membros da Compa-
renovação técnica. nhia de Jesus41? Na verdade, há que salientar que, na primeira
Eustachio Manfredi foi um dos grandes cientistas italianos do metade do século XVIII, se dão mudanças importantes na atitude de
século XViii. Dirigiu o Instituto de Ciência de Bolonha, desde 1711, e vários membros da Companhia em relação à ciência moderna.
foi membro da Royal Sodety e da Acaãémie dês Sciences. Apesar de pró- Nota-se uma tendência crescente para o abandono do aristotelismo,
ximo da cúria romana, Manfredi era, no entanto, um profundo tal como era entendido até então, e um interesse renovado pelos
conhecedor da cosmologia newtoniana, muito embora também saberes científicos e pelo experimentalismo no que terão sido
fosse um crítico de Newton. As suas Epftemerides motuum coelestium influenciados pelo ambiente intelectual do Iluminismo.
foram célebres em toda a Europa38. John Flamsteed foi o fundador do Esta mudança foi muito mais visível em países como a França e
a Itália, ou ainda no Império Germânico, do que em Portugal ou em
Espanha 42 . O exemplo do astrónomo jesuíta Jean-François Foucquet
avec beaucoup de satisfaction lês observations que vous m'avez fait 1'Honneur de me
communíquer qui ont été faites dans i'observatoire Royale de Lisbone de 1'Eclipse
que, entre os finais do século XVlí e as primeiras décadas do século
Lunaire du ler de Novembre 1724. Et aussi !es observations dês Eclipses du premier XViii, escreveu em chinês um tratado de astronomia onde criticava
satellíte de Júpiter qui y ont este faites aussi. Je lês ai communiqués a Monsieur Hal- as doutrinas de Tycho Brahe e salientava os progressos que se
ley, Astronome du Roy a 1'observatoire de Greenwich et au jeun Monsieur Jacques tinham verificado no estudo da astronomia na Europa, citando as
Bradley un dês Professeurs de Mathematique dans notre Université d'Oxford. Nous opiniões de homens de ciência como Picard, La Hire, Cassini, Hal-
lês avons examine soigneusement et je crois que l'on peut se fier à leur exactitude»
(in A.N.T.T-, Cartório dos Jesuítas, Maço 78, n.° 54); Ver também a Description d'un
ley, Gassendí, entre outros, demonstra bem como as novas ideias se
Telescope de RefJexion presente três kutnblemenl a Sá Ma/esté k Roy du Portugal, enviada iam divulgando43. Também Q Joarnal de Trévoux ou Mémoires pour ser-
de Londres por Samuel Molyneux ern 2 de Setembro de 1725, t a sua outra carta,
dirigida ao Padre Carbone, datada de 16 de Dezembro de 1725 (A.N.T.T., Cartório
39 As primeiras efemérides de Cassini foram publicadas em Bolonha em 1668, e de-
dos Jesuítas, Maço 78, n.° 39 e n.° 53). Todos fazem parte de um conjunto de manus-
pois corrigidas na nova edição de 1693 feita pela Academia Real das Ciências de Paris.
critos que pertenceram ao Padre Carbone.
w Sobre Cassini e John Fíamsteed ver Albert Van Helden, Longitude and lhe Satel-
34 Luís Ferrand de Almeida, A propósito do «Testamento Político' de D. Luís da
lites of Júpiter, in William J. Andrewes (ed.), The Quest For Longitude, Harvard Univer-
Cunha, p. 11.
sity, Cambridge, Massachusetts, 1996, pp. 93-100.
35 Luís Ferrand de Almeida, A propósito do «Testamento Político» de D. Luís da
41 Ver J. S. da Silva Dias «Portugal e a Cultura Europeia (Séculos XVI a XVIII)», in
Cunha, p. 10; Jaime Cortesão, AGTM, Parte III, tomo i, p. 259.
Bibhs, Revista da Faculdade de Letras, Coimbra, vol. xxvill, 1952, pp. 407-421; 448-461.
36 Nas notas das encomendas de Carbone vindas de Roma pode ler-se «3 cópias de
42 Sobre o caso espanhol ver Horácio Capei, Geografia y Matemáticas en Ia Espana
Efemérides de Manfredi» e «3 cópias de Efemérides de Philieri» (A.N.T.T., Cartório dos
dei siglo XVIll, Oikos-Tau, 1982, pp. 17-78; 125-152; Rodolfo Nunez de Ias Cuevas,
Jesuítas, Maço 78, n.° 89); ver ainda Jaime Cortesão, AGTM, Parte III, tomo I, p. 286.
Historia de Ia Cartografia Espanola in AÃ.W., La Cartografia de Ia Península Ibérica l Ia
37 Cartas de Diogo Mendonça Corte-Real, c. Março-Abril 1725 (B.N.L., Arquivo
seva extensió ai Continent America, Instituí Cartogràfic de Catalunya, Barcelona, 1991,
Tarouca, 158, vol. 7).
pp. 185-188.
38 Sobre Eustachio Manfredi ver Vincenzo Ferrone, Scienza Nattira Religione,
43 Cfr. Jean-Claude Martzloff, «La science astronomique européenne au service
Mondo Newtoniano e Cultura Italiana ne! Primo Setiecento, Jovene Editore, Nápoles, 1982,
pp. 84, 99-100. de Ia diffusion du Catholicisme en Chine. L'oeuvre astronomique de Jean-François

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vir à fhistoire dês sdences et dês aris fundado pelos jesuítas Jacques manteve o interesse pela ciência moderna e deu continuidade aos
Philippe Lallernant e Michel Lê Tellier, publicado entre 1701-1767,
contactos internacionais, principalmente com a Inglaterra. É através
se foi usado como arma contra as ideias dos filósofos franceses, não
destes contactos que a obra de Isaac Newton se tornará mais conhe-
deixava também de apresentar os trabalhos científicos realizados
cida em Itália40. Em 1713, Francesco Bianchini deslocou-se a Ingla-
pelos jesuítas e por outros, acabando por constituir, principalmente
terra ao serviço da Santa Sé e aproveitou a viagem para numerosos
a partir de meados do século xvm, um importante meio de divulga-
contactos com os cientistas ingleses, nomeadamente com Isaac
ção da cultura científica44.
Newton, John Keill e John Flamsteed47. Um ano mais tarde era fun-
Em Itália, os jesuítas Jacopo Belgrado (1704-1789) e Ruggiero dada em Roma uma nova academia científica, a Academia Gualtieri,
Giuseppe Boscovich (1711-1787) são exemplos de dois cientistas
sob a protecção do cardeal Filippo António Gualtieri48. Dela faziam
importantes que pertenceram à Companhia de Jesus. O primeiro foi
parte Francesco Bianchini e Celestino Galiani. A vontade de relançar
matemático na corte do Duque de Parma, onde montou um obser-
o estudo da ciência moderna e, particularmente, das ideias de New-
vatório astronómico. O segundo foi um dos mais importantes cien- ton era clara49. Mas Roma não era a única cidade italiana onde estas
tistas jesuítas do século xvili, tendo deixado vários trabalhos sobre
ideias circulavam: Bolonha, Florença, Nápoles, Pisa constituíam
astronomia, óptica, matemática e engenharia. Planeou o observató-
outros centros importantes. Aliás, Bianchini e, sobretudo, Galiani
rio do Colégio Romano, onde também foi professor de matemática.
acabaram por se servir da academia de Gualtieri para difundir as
Teve ainda um papel importante na difusão das teorias de Newton
ideias de Newton por estes centros, alguns dos quais contavam tam-
em Itália.
bém com importantes academias.
Mas o caso italiano é sobretudo importante porque foi exacta- O conhecimento e o debate em torno da ciência moderna em
mente em Itália onde se procurou com mais empenho compatibilizar
Nápoles interessa-nos mais de perto, porque foi daqui que saíram os
o cristianismo católico com a ciência moderna. E isto já na segunda
dois jesuítas matemáticos solicitados à Companhia de Jesus por
metade do século XVII. A Academia Ksico-Matemática, fundada em
D. João V. Convém, no entanto, não ter demasiadas ilusões no que
Roma pelo Cardeal Giovanni Giusto Ciampini em 1677, depressa se
toca aos jesuítas. A abertura às novas correntes por parte dos mem-
tomou no centro de investigação científica mais importante de Itália.
bros da Companhia seria uma excepção e não a regra, nomeada-
Esta academia, ainda que ligada à Igreja Católica, contou com a ade-
mente no Colégio Máximo de Nápoles, que tinha contudo uma his-
são de alguns dos cientistas italianos mais importantes e manteve
tória importante no domínio do ensino da matemática durante os
contactos contínuos com a Royal Sodety e a Académie dês Sciences.
séculos XVI e XVII50. O certo é que o debate entre cartesianismo e
A liberdade de discussão, que vigorava no interior da academia, tor-
newtonianismo existiu em Nápoles e não é impossível pensar que
nava possível o debate de todas as hipóteses científicas, mesmo
aquelas que podiam representar um perigo para a ortodoxia católica,
46 Vincenzo Ferrone, Sãenza Nawra Religione, pp. 21-36.
como a defesa do sistema heliocêntrico, que Leibniz expôs diante da
47 Vincenzo Ferrone, Scienza Natura Religione, pp. 57-64.
academia. A morte do cardeal Ciampini, em 1698, acabou por signi-
^Vincenzo Ferrone, Scienza Natura Religione, pp. 77-81.
ficar também o fim da Academia Físico-Matemática45. 39 «II programma scientifico deil'academia riflette assai bene Ia volontà di Bian-
No entanto, o exemplo da academia perdurou e um grupo de
estudiosos, liderados por Francesco Bianchini e Celestino Galiani,

Foucquet, 1665-1741», Mélanges de !'Eco!e Prançaise de Rome - halie ei Méditerranée,


Aeíigiune, p. / -j),
tomo 1017 2, 1989, pp. 982-987).
Romano Gato, Tra Scienza e Immaginazione, lê matemaiiche presso il collegio gesui
44 Alfred R. Desautels, Lês Mémotres de Trevoux ei k Mouve.me.nt dês Idées au XVIIIe _-i /jrri ,z-Ji - - i i _-, C r-il—kl,: ti . mo/i c_i u:-.».^-:- J
siecle, ?70f-f734, Institutum Historicum Societatis lesu, Roma, 1956.
45 Seguimos aqui, mais uma vez, a importante obra de Vincenzo Ferrone, Scienza
Naiura Religione, Mondo Newioniana e Cultura Italiana nel Primo Settecento, Jovene Edi-
ematics, natural philosophy and experimentalism injesitil Culture (1580-C.1Ó70), Euro-
tore, Nápoles, 1982. Para a fundação da academia ciarnpiníana ver as pp. 12-18. T !„: ;-. Institute,
T—,-;•...•.„ Florença,
Cl-, 1 QQO
pean Universíty 1999

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alguns dos seus ecos chegassem até aos dois matemáticos jesuítas51. monarca mas fica limitado a círculos relativamente restritos, ligados
Deste debate dá conta Giovambattista Capassi, professor no semi- à corte, à Companhia de Jesus, ou à Congregação do Oratório56.
nário de Aversa, irmão de Domenico Capassi, na sua Historíae philo- Por outro lado, esta vontade de acompanhamento da evolução
sophiae synoysts, sive âe origine et yrogressu phifosophiae, publicada em que os saberes científicos estavam a sofrer nos principais centros
Nápoles em 1728. Giovambattista Capassi dedicou a sua história da europeus, de que a França e a Inglaterra constituíam os principais
filosofia a D. João V, para a instrução do Príncipe do Brasil, em agra- expoentes, tem outros propósitos que o da simples curiosidade cien-
decimento pelos benefícios que o rei português lhe concedera a ele tífica. É que o rei já se tinha apercebido do valor estratégico destes
e ao seu irmão52. saberes, nomeadamente quando aplicados à cartografia. Mas é tam-
Contrariamente ao que pensava Luís António Verney, as novas bém o poder do Estado, mais que não seja em relação a outros Esta-
ideias não deixaram de encontrar adeptos ern Portugal53. A corres- dos, que se procura reforçar.
pondência do padre Carbone com Isaac de Sequeira Samuda é um Do mesmo modo, as incontáveis encomendas de livros (muitos
bom exemplo disso54. Manuel de Campos e Diogo Soares, outro deles destinados às Bibliotecas Reais), de estampas, de atlas e de
matemático jesuíta de que adiante falaremos, são outros dois jesuí- mapas, realizados por D. João V, se podem ser reveladoras de um
tas que partilharam este novo interesse pela ciência moderna. A pró- verdadeiro interesse do rei, não o são menos de uma vontade de
pria Academia Real da História desempenhou um papel não negli- ostentar uma imagem de rei «ilustrado» que também era visível na
genciável nesta abertura cultural, como se pode ver pela publicação sua política artística57.
da Geografia Histórica de Todos os Estados Soberanos de Europa de D. Luís Não se sabe ao certo a partir de que momento terá ficado
Caetano de Lima em 1734 e 173655. pronto o primeiro Observatório Astronómico de Lisboa. A verdade
Mas este interesse pela ciência não se traduziu em Portugal em é que se procedeu à instalação de um observatório no Colégio de
nenhuma reforma do ensino durante a primeira metade do século Santo Antão e que outro observatório funcionou, pelo menos
xvili, nomeadamente na Universidade de Coimbra, ou nos colégios durante algum tempo, no Paço da Ribeira, provavelmente para per-
dos Jesuítas, pelo que as doutrinas aristotélicas continuaram a ser mitir ao rei realizar ele próprio algumas observações astronómicas58.
ensinadas como até então. Há portanto que não exagerar o alcance
deste novo interesse pela astronomia, pela física, pela geografia e 56 J. S. Silva Dias, «Portugal e a Cultura Europeia (Séculos XVI a XVIII)», in

pela matemática. Ele tem lugar à sombra da protecção tutelar do Biblos, vol. XXVIII, 1952, pp. 348-364; Francisco Contente Domíngues, Ilustração e Cato-
licismo. Teodoro de Almeida, Edições Colibri, Lisboa, 1994.
57 Sobre este renovarnento científico e cultural ver: L. Ferrand de Almeida, «D.

51 Sobre a difusão das ideias de Newton e a reabilitação de Galileu em Nápoles João V e a Biblioteca Real», m Revista da Universidade de Coimbra, vol. XXXVI, Coimbra,
durante a primeira metade do século xvm, ver Vincenzo Ferrone, Scienza Naiura Reli- 1991, pp. 413-438; Idem, A propósito do «Testamento Político» de D. Luís da Cunha, Coim-
gione, pp. 136-148; 464-486. bra, 1948 (1951), pp. 8-19; Rómulo de Carvalho, A Astronomia em Portugal no Século
52 Vincenzo Ferrone, Scienza Natura Religione, pp. 495-498. XVIII, 1985, pp, 37-55; Idem, A Física Experimental em Portugal no Século XVIII, 1982,
53 O comentário do Prof. Luís de Albuquerque acerca do ensino da Geometria pp. 9-71; Idem, A História Natural em Portugal no Século XVIII, 1987, pp. 9-29; J. S. da Silva
em Portugal durante a primeira metade do século xvni, contrariando a ideia de Ver- Dias, «Portugal e a cultura europeia (Séculos XVI a XVIII)», in Biblos, vol. xxvm, 1952,
ney acerca da total inexistência deste ensino, é com certeza extensível a outras áreas pp. 320-344; 364-387. Especificamente sobre a política artística, ver Marie-Thérèse
do saber científico: «A Geometria, agradasse ou não aos arguentes dos actos univer- Mandroux-França, La polititfue anistique européenne du Roijean V de Portuga! eu direction
sitários conimbricenses, era estudada e transmitida, quanto mais não fosse pela de Paris. Sources raisonnées, ín Histoire du Ponugai, Histoire Européenne. Actes du Colloaue,
necessidade que dela tinham na arte militar» (in Luís de Albuquerque «A Geometria Fundação Calouste Gulbenkian/ Centro Cultural Português, Paris, 1987, pp. 111-145;
em Portugal no início do século xvin», Oto - Revista do Centro de História da Universi- Nuno Saldanha (coord.), Joanni V Magnifico. A Pintura em Portugal ao Tempo de D. João
dade de Lisboa, vol. 5, 1984/85, p. 96). V, IPPAR, Lisboa, 1994. Ver também: António Filipe Pimenteí, Os Grandes Empreendi-
54 Ver as cartas de Isaac Sequeira Samuda para Carbone, in A.N.T.T., Cartório mentos Joaninos, Marie-Thérèse Mandroux-França, A Patriarcal do Rei D. João V de Por-
dos Jesuítas, Maço 78, n.° 52, n.° 56, n.° 72, n.° 75, n.° 76. tugal; Ayres de Carvalho, A Acção Mecenática Joanina e a Roma Papal, in AÃ.W., O Triunfo
55 D. Luís Caetano de Lima, Geografia Histórica de Todos os Estados Soberanos da do Barroco, Catálogo da Exposição, Fundação das Descobertas/Centro Cultural de Belém,
Europa, Academia Real, 2 vols., Lisboa, 1734 e 1736; Rómulo de Carvalho, História do Lisboa, 1993, pp. 31-53; 71-89.
Ensino em Portugal, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1996, p. 393. 58 Rómulo de Carvalho, A Astronomia em Portugal no Século XVIII, pp. 40-46.
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domínio da Geografia, de que fora encarregado o próprio Guillaume


Os observatórios só devem ter ficado prontos em 1724, data da pri-
Delisle, tinha um enorme interesse pela Geografia e pela Astrono-
meira observação conhecida feita pelos padres Carbone e Capassi59.
mia, que se traduziu no grande apoio de que estas ciências benefi-
Sobre o interesse manifestado por D. João V pelas observações
ciaram durante o seu reinado62.
realizadas pelos padres jesuítas não há lugar para dúvida. O que é
A renovação que a cartografia sofreu em França entre os finais
menos fácil de determinar é se o interesse pela ciência, ainda que
do século XVII e a primeira metade do século XViii constituiu uma
público, era realmente genuíno. Tal como a preocupação com as
verdadeira «Revolução Cartográfica», sem paralelo com o que se
ciências era comum a vários soberanos europeus, a sua função no
passava nos restantes Estados europeus. Coube a Colbert a inicia-
reforço do prestígio da imagem do monarca era inegável em qual-
tiva de lançar o projecto de uma cartografia sistemática da França
quer corte europeia do século XVIII. Como se pode ver, aliás, pela
sustentada pelo próprio Estado. A partir de 1663 vemo-lo solicitar
forma como D. António Caetano de Sousa descrevia o comporta-
mapas detalhados de cada província do Reino aos funcionários
mento «científico» do rei em relação às observações astronómicas
locais e encomendar novos mapas e descrições detalhadas das
feitas pelos padres matemáticos:
regiões até aí não cartografadas. Em 1668 Colbert confiou o projecto
«mandoulhe El Rey buscar todos os instrumentos que podiaÕ ser neces- de concepção e execução da nova carta geográfica da França à Aca-
sários para as operações a que assistiu a sua Real pessoa, observando démíe dês Sciences, por ele fundada dois anos antes.
sdentificamente os movimentos dos astros, os eclypses do Sol, da Lua, e Os astrónomos Jean-Dominique Cassini (Cassini I), director do
movimentos celestes, que admíravaõ os professores a sciencia com que Observatório de Paris, e Jean Picard foram os principais responsá-
penetrava as rnais dificultosas demonstrações, corn que discorre nos veis pela construção do mapa63.' Recorreram à técnica da triangula-
pontos mais delicados desta belíissíma scíencía, que tanto estima, que ção geodésica por cálculo trigonométrico a partir da medição de
humanando-se chegou a ser ele mesmo, levado da curiosidade, quem uma base, que fora aperfeiçoada pelo holandês Willebrord Snel Van
com as suas Reaes mãos ajustou os instrumentos para as observações: e
Roijen nos começos do século xvn, conseguindo assim obter resulta-
para prova da estimação, que faz desta sciencia, mandou vir mais hum
grande número de admiráveis instrumentos, obrados pelos mais peritos dos notáveis em termos de precisão dos mapas64.
artífices da Europa, que hoje com tanto aplauso florecem»60. Mas o projecto de uma cartografia matemática da França era tal-
vez demasiado ambicioso para a época, uma vez que a aplicação das
Como já foi dito, não era caso único na Europa, este súbito inte- novas técnicas à cartografia tomava a tarefa de construção do novo
resse manifestado pelo rei português pela Ciência. Em França, para
mencionar o exemplo mais significativo de desenvolvimento cientí-
62 «Si Louís XIV ne s'intetesse aux sciences que dans Ia mesure ou eiles servent
fico associado à protecção do Estado, desde o século xvn que o
sã gloire, son arrière petit-fils Louis XV (1710-1774), en revanche, est sincèrement
poder real concedia uma protecção particular à Geografia, tendo passioné par 1'astrònomie. Dês Page de 9 ans, il visite dês cabinets scientífiques. L'un
Luís XIII criado o título de «Geógrafo do Rei». Luís XIV, por seu d'eux 1'intéresse particulièrement, celui de M. d'Hermiaud; il y admire compas, bus-
lado, se é verdade que só visitou o Observatório de Paris uma vez, soles, lunettes astronomiques et surtout six sphères celestes dont trois illustrent lês
pouco tempo depois da sua criação nos finais do século XVII, parece systèmes de Ptolomée, de Tycho Brahé et de Copernic.(...) Lors de I'écíipse du Solei!
du 24 juillet 1721, Jacques Cassini, dit Cassini Ií, fils de Jean Dominique Cassini, et
ter acompanhado com alguma atenção os trabalhos cartográficos
Maraldi bénéfícient de Fordre de lui faire suivre cê phénomène en ie lui expliquant.
realizados sob a supervisão da Acaãémie Française, sem contudo ter Lê futur roí reçoit une éducation scientifique et technique si poussée qu'il est três vite
manifestado um grande interesse pessoal pelos saberes geográfi- un amateur compétent.» (In Micheline Grenet, La yassion dês astres au XVIIe siècle: De
cos61. Já Luís XV, que beneficiara de uma esmerada educação no L'astrohgie à 1'astronomie, p. 224.)
63 Sobre a renovação da cartografia em França ver Josef W. Konvitz, Cartography

in France Í660-1848, Science, Engineering, and Statecmft, The University of Chicago


59 Rómulo de Carvalho, A Astronomia em Ponuga! no Século XVIII, pp. 37-53.
Press, Chicago & London, 1987, pp. 1-21; Monique Pelletier Lê Monde vu de France:
60 D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portuguesa,
évolution du l6e au 18e Siècle, in La Cartografia Francesa, Institut Cartografic de Cata-
tomo viil, Livro VII, pp. 148-149.
lunya, Barcelona, 1996, pp. 49-65.
61 Sobre a política científica de Luís XIV ver Micheline Grenet, La passion dês
^Josef Konvitz, Cariography in France 1660-184$, pp. 2-3.
astres au XVIIe siècle: De 1'astrohgie à 1'astronomie, Hachette, Paris, 1994, pp. 161-174.
OS P A D R E S M A T E M Á T I C O S E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS
OS P A D R E S M A T E M Á T I C O S E O PROJECTO DO N O V O ATLAS

mapa de França extremamente morosa. É assim que a medição do no observatório de Paris. A partir daqui tornava-se possível, desde
meridiano de Paris, começada em 1679, só viria a terminar-se em que se possuíssem os instrumentos adequados, saber com relativa
1718, sob a direcção de Cassini II. E a triangulação geral da França só segurança a longitude de qualquer lugar comparando a hora da
foi terminada em 1744. Mas a lentidão na execução do mapa não se observação do eclipse com os valores obtidos por Cassini66.
deveu apenas a problemas técnicos. Após a morte de Colbert, em Que a França fosse tomada como modelo inspirador por D. João V
1683, o projecto teve de ser interrompido porque o seu sucessor, o não tem nada de especialmente extraordinário. O mesmo fez o czar
Marquês de Louvois, enquanto ministro que supervisionava as acti- Pedro o Grande, na Rússia, para onde convidou o geógrafo francês
vidades da Academia, não considerou urgente o prosseguimento dos Joseph Nicolas Delisle. Este, depois de ter recusado as ofertas do czar,
trabalhos e só depois da morte deste, em 1691, foi possível retomar acabou por aceitar a proposta de Catarina II para dirigir o Observa-
as medições no terreno. Por outro lado, convém não esquecer que, tório de S. Fetersburgo e organizar uma academia segundo o modelo
por muito lento que o processo de construção da primeira carta geo- da Academia das Ciências de Paris67. Aqui se dedicou também Nico-
désica da França tenha sido, o certo é que foi o primeiro e o único las Delisle à elaboração de rnapas do Império Russo. Pedro o Grande,
Estado da Europa a realizar semelhante projecto naquela época. contudo, não se limitou a sofrer as influências francesas. As suas des-
O prosseguimento ao longo de tantos anos desta tarefa de locações à Europa em 1697 e 1698, nomeadamente à Inglaterra e à
Estado que era a elaboração do mapa de França acabou também por Holanda, não foram menos importantes, e o czar foi fortemente
funcionar como um motor de desenvolvimento de actividades cien- influenciado pelo desenvolvimento científico e técnico então em curso
tíficas com ela relacionadas. Exemplo disto são as expedições cientí- nestes dois países68.
ficas de Maupertuis, Clairaut, Camus, Lemonnier e Outhier à Sué- Em Portugal, durante os anos que aqui permaneceram, sobre-
cia, em 1734-1737, e de La Condamine, Bouguer, Jussieu e Godin ao tudo entre 1724 e 1729, os jesuítas italianos realizaram várias obser-
Peru, em 1735-1744. Ambas se destinavam a determinar matemati- vações astronómicas, não apenas em Lisboa rnas também noutras
camente se a terra era alongada em direcção aos pólos, como pen- partes do Reino. Algumas destas observações foram publicadas nas
savam muitos dos académicos franceses, ou se, pelo contrário, Philosophical Transactions da Royal Society de Londres69 e nos Acta
como sustentara Newton, na região dos pólos a terra sofria um EmditOTum de Leipzig70, numa clara política de afirmação através da
achatamento. Como se sabe, as expedições viriam a dar razão às Ciência, junto das principais nações europeias71. Graças a estas publi-
teses de Newton65. cações e à correspondência científica dirigida a Carbone é possível
A necessidade de obter instrumentos astronómicos cada vez reconstituir uma parte do trabalho realizado pelos jesuítas. Sabemos
mais precisos, estimulada pela necessidade de medições rigorosas assim que para o cálculo da longitude terão utilizado telescópios para
exigidas pelo mapa geodésico de França acabou por ter uma influên-
cia não negligenciável no aperfeiçoamento destes instrumentos cien-
66 Joseph Konvitz, Cartography in France 1660-1848, pp. 4-5.
tíficos. As medições das coordenadas geográficas realizadas pelos
67 Numa Broc, La Géographie dês Philosophes. Géographes et Voyageurs Français au
académicos e, mesmo antes do início do projecto, por Picard e Cas- XVlHe Siècle, Publications Université de Strasbourg/ Ophrys, 1974, pp. 158-161;
sini I, vieram revelar numerosos erros de latitude e de longitude nos 68 Ver o catálogo da exposição Peter the Grea! and Holíand, Amsterdams Histo-
mapas anteriormente elaborados. Cassini I já era um dos grandes risch Museum, Uitgeverij Thoth, Bussum, 1997.
especialistas no cálculo das longitudes quando se estabeleceu em 69 Philosophical Transactions, XXXIII (1726); XXXIV (1728); XXXV (1729); XXXVI
(1731).
França, a convite de Colbert, em 1669. As suas tábuas dos movi-
70 Acta Eruditorum, Lipsiae, 1725; 1726; Ad nova Acta Enidttorutn auae Lipsiae yubli-
mentos dos satélites de Júpiter, que possibilitavam um cálculo mais cantur, Suplementa, l (1735); Opuscula otnnia Adis Erud. Lipsiensibus inserta VI (1746),
rigoroso das longitudes, foram elaboradas em 1668 e revistas para a VII (1746).
edição impressa de 1693. Nesta edição eram mencionadas as horas 71 «havendose empregado em fazerem várias observações Astronómicas com

dos eclipses dos satélites de Júpiter referidas às observações feitas grande estudo, conseguirão o aplauso da Corte, e satisfação dei Rey, as quaes se
imprimirão, e participarão as Nações Estrangeiras, de quem íbrão estimadas pela sua
exactidão» (in D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portu-
65 Josef Konvitz, Cartography in France 1660-1848, pp. 9-12. guesa, tomo viu, Livro VII, pp. 148-149).

•(-.
97
OS PADRES MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS

observar os eclipses do primeiro satélite de Júpiter e os eclipses do tornavam especialmente valiosos os seus conselhos76. Corno diria
Sol e da Lua, bem como relógios para conhecer a sua duração. Para a um seu biógrafo, nele descobriu o rei «mais um grande talento e
medição da latitude utilizaram um quadrante, um sextante com 3 capacidade para qualquer emprego e ordenou ficasse em Portugal
pés de raio e um quadrante mural com cinco pés de raio72. para se valer dele no seu real serviço»77. Em 1724 foi nomeado
Foi, sobretudo, Capassi quem, enquanto Carbone ficou na «Matemático Régio» e foi nessa qualidade que realizou com Capassi
corte, percorreu o país, fazendo diversas observações astronómi- as observações astronómicas até 1726 e, sozinho, a partir de 1728.
cas73. Até 1726 trabalhou com Carbone no observatório do Colégio Foi depois professor de latim e de matemática do Príncipe D. José e
de Santo Antão e no observatório do Paço. Mas, em Junho deste de italiano e geografia da Princesa das Astúrias, D. Maria Bárbara.
ano, deslocou-se a Coimbra onde permaneceu até ao Verão de 1727, O Rei nomeou-o ainda responsável pelos pagamentos das obras do
fazendo diversas observações. Nesta data partiu para o Porto, e daí Convento de Mafra e, em 1745, seu secretário particular, vindo a
para Braga e para outras localidades no Norte do país, onde conti- ocupar-se de uma parte dos assuntos relacionados com Roma,
nuou os seus trabalhos, até ser chamado pelo Rei para, nos finais de nomeadamente da obtenção da autorização do Papa para o estabe-
1729, partir para o Brasil. lecimento dos novos bispados no Brasil e das encomendas artísticas
A obra de Capassi, intitulada Lusitânia Astronomice Iliistrata, ligadas à nova capela de S. João Baptista, que viria a ser montada na
nunca foi impressa e reúne as observações astronómicas feitas em Igreja de S. Roque, em Lisboa78. A 6 de Fevereiro de 1749 foi
Coimbra, Porto e Braga entre 1726 e 172774. Esta experiência adqui- nomeado reitor do Colégio de Santo Antão, onde veio a morrer em
rida por Capassi viria a revelar-se extremamente útil aquando da Abril do ano seguinte, gozando de grande prestigio e reconheci-
missão brasileira. Carbone também continuou a trabalhar em Lisboa mento. Eduardo Brazão considera que Carbone, devido à sua grande
na ausência de Capassi e manteve com este uma troca de corres- influência política durante o reinado joanino, «foi uma espécie de
pondência onde debatiam as dúvidas que se colocavam a este Eminence grise do tempo de Luís XIII»79.
último no decurso dos seus trabalhos fora da capital75. A importância de Carbone como conselheiro do rei e homem
Mas ao padre Carbone estava reservado um destino diverso do influente da corte de D. João V não está suficientemente estudada.
do seu companheiro italiano. Para além de ter ficado responsável Sabe-se, por exemplo, que pelo menos desde 1744, foi um dos pro-
pelo observatório do Colégio de Santo Antão, decidiu D. João V tectores de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de
requisitá-lo para o seu serviço pessoal porque, a Carbone além dos Pombal, quando este era ainda diplomata em Londres e, posterior-
conhecimentos científicos, reconhecia o rei diversas qualidades que mente, em Viena. Interveio por diversas vezes a seu favor junto do
rei e conseguiu-lhe importantes somas de dinheiro para financiar,
72 Rómulo de Carvalho, «Relações científicas do astrónomo francês Joseph-
sobretudo, as suas actividades de representação diplomática, mas
-Nicolas de 1'Isle com Portugal-, in Arquivo de Bibliografia Portuguesa, Anos X-X1I, não apenas estas, chegando a entregar-lhe dinheiro para fins pes-
n." 377 38, 1964-1966, Coimbra, 1967, pp. 30-33; 36-38; Ver os manuscritos de Ca- soais80. Desde 1725, pelo menos, que o padre Carbone desfrutava
passi, Lusitânia Asirortomice Uiustrata e Obsetvationes Astronómicas habitas lum Conimbn-
cae tum in borealibus Lusitaniae Loas (in A.N.T.T.,Cartório dos Jesuítas, Maço 78, n.° 57
en.°58). 76 D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, p. 149.
73 D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, 77 In Necrológio de Carbone, L" dos P.es que morrem, f. 67 e 68, Arquivo da Pro-
p. 149. víncia Portuguesa da Companhia de Jesus, cit. por Francisco Rodrigues, História da
"Esta obra de Capassi encontra-se no A.N.T.T., Cartório dos Jesuítas, Maço 78, Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, p. 414; Ver também o Elogio Fúnebre do
n.° 57- Ver Francisco Rodrigues, História da Companhia de Jesus na Assistência de Portu- Padre João Baptista Carbone da companhia de Jesus, composto e oferecido á mesma sagrada
gal tomo IV, vol. I, pp. 416-417; Serafim Leite, Historia da Companhia de Jesus no Bra- companhia por Fernando António da Costa de Barboza, Lisboa, Oficina de Manuel
sil, Tomo VIU, pp. 130-131; Joaquim Pereira Gomes, «Domingos Capassi», in Enciclo- Manescal da Costa, 1751 (E.N.L, H.G. 14961// 12 P.).
pédia Luso-Brasileira de Cultura, vol. 4, pp. 885-886; Jaime Cortesão, AGTM, vol. II, 7B Ver Sousa Viterbo e R. V. de Almeida, A Capela de S. João Baptista erecta na

pp, 355-356. Igreja de S. Roaue, Lisboa, 1900, pp. 130-142.


"Ver as cartas de Capassi para Carbone, in A.N.T.T., Cartório dos Jesuítas, maço 79Eduardo Brazão, Relações Externas de Portugal no reinado de D. João V, vol. II, p. 205.
78, n. 0 61,n.°63en.°64. 30 Rocha Martins, O Marquês de Pombal, pupilo dos Jesuítas, Lisboa, 1924, pp. 9-43.

99

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OS P A D R E S MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO NOVO ATLAS OS P A D R E S M A T E M Á T I C O S E O P R O J E C T O DO NOVO ATLAS

de um estatuto especial no seio da Companhia de Jesus e, claro está, sil, em Abril de 1728, tinha surgido um conflito de jurisdição sobre
também na corte. Este estatuto permítia-Ihe dispor livremente de estas minas entre os oficiais da Bahia e os das Minas Gerais84. Tor-
importantes somas de dinheiro dadas pelo rei, oferecer e receber nava-se, assim, urgente determinar a quem pertenciam as minas. Ao
presentes, tomar chocolate e fumar tabaco, ausentar-se da casa de mesmo tempo, lembrava o Conselho Ultramarino ao rei na consulta
Santo Antão fora das horas habituais, levantar-se ou dormir de que se fizera sobre a questão, era necessário traçar os limites por
acordo com as suas necessidades, entre outros privilégios81. onde se devia estabelecer a divisão entre os Estados do Maranhão e
O estatuto de excepção e a sua ascendência sobre o rei, faziam do Brasil por forma a evitar novos conflitos. Para levar a cabo este
de Carbone um interlocutor privilegiado dos mais diversos grupos. trabalho, considerava o Conselho ser conveniente que partissem
Entre estes podem contar-se os representantes diplomáticos ingleses para o Brasil os jesuítas matemáticos João Baptista Carbone e Domin-
que admiravam grandemente a eficiência do padre italiano na reso- gos Capassi, que tinham sido
lução dos seus assuntos na corte, bem como o trato do padre e a sua
honestidade. Em contraste, não há indícios de que o seu estatuto «mandados vir de Itália para effeito de fazerem o Mapa do Maranhão,
especial tivesse beneficiado a Companhia no que quer que fosse, ou a fim de que discorrendo pelos certoes daquelles Estados, fizessem
que Carbone tenha feito qualquer diligência importante em favor Mapas de todas as terras dos referidos Estados, descrevendo o que
dos seus companheiros da Província portuguesa da Companhia de devia ficar na Jurisdição de Cada Estado e Suas Capitanias»85.
Jesus82. Carbone terá tido também alguma intervenção nos primeiros
esforços desenvolvidos junto do Gerai da Companhia de Jesus para a D. João V decidiu então, a 19 de Outubro de 1729, o envio dos
contratação em Itália e na Alemanha de técnicos para as demarca- padres ao Brasil. Se o problema da determinação da jurisdição sobre
ções que se anteviam para depois da assinatura do Tratado de as novas minas descobertas no sertão da Bahia parece ter funcio-
Madrid. Mas a sua morte impediu-o de dar continuidade à tarefa83. nado como factor determinante para a decisão régia, o que estava
em causa era, antes de mais, executar um projecto existente ante-
riormente. Os jesuítas, que tinham sido contratados em Itália para
3.4. O projecto do «Novo Atlas da América fazerem os mapas do Brasil e do Maranhão, muito embora, no
Portuguesa» decreto régio, só o Maranhão seja mencionado a este propósito,
deviam, para além de traçar estes mapas, fazer propostas concretas
Devido às notícias da descoberta de novas lavras no interior da sobre a divisão administrativa do Brasil, corn base nas observações
Capitania da Bahia, de que dera conta a D. João V o vice-rei do Bra- feitas no-terreno, é claro.
No Alvará que, em 18 de Novembro desse ano, enviou ao vice-
-rei do Brasil, ao governador do Maranhão e demais governadores
61 Licenças que fede ao R.P. provincial o Pé. João Bautisia Carbone, 26 de Agosto de

1725 (B.N.L, Colecção Pombalina, códice 474, fl. 263).


82 Dauril Alden, The Making of an Enterprise, The Society of Jesus in Portugal its 84 A carta do vice-rei do Brasil, Vasco Fernandes César de Meneses, de 12 de
Emyire, and Beyond, Stanford; 1996, p. 611. Abril de 1728, está transcrita em Inácio Accioli de Cerqueira e Silva, Memórias Histó-
83 «Ao Pé. Carbone que Deus tem havia S.M. encomendado escrevese ao Padre ricas e Políticas da Provinda da Bahia, vol. II, pp. 382-383. As minas novas, descobertas
Geral para que quizese mandar convidar alguns sujeitos da Companhia ou Italianos, em 1727, a que se refere a carta, são as minas de Arasuahi e Fanado que, a partir de
ou Alemães bem instruídos nos estudos Matemáticos, e observações astronómicas Maio de 1729, ficaram submetidas à jurisdição do ouvidor de Serro Frio, com subor-
para irem à dita diligensia, advertindo que ainda seria mais estimável se juntamente dinação ao vice-rei. (F. A. Varnhagen, Historia Geraldo Brasil, tomo IV, p. 140, n. 93; Basí-
tivesem vocasaõ de empregarse nas Missões do Brazil, com a serteza de serem assis- lio de Magalhães, Expansão Geográfica do Brasil Colonial, p. 237); sobre os descobri-
tidos de tudo o necesario asim nas suas perigrinações, como na rezidensia das mes- mentos na capitania da Bahia ver também as cartas régias de 18 e 21 de Maio de 1729
mas missões (...). Não chegou o Pé. Carbone a dar conta antes da sua morte do efeito e as do vice-rei do Brasil datadas de 30 e 31 de Agosto 1729 {A.H.U., Does. Avulsos,
desta comiçaõ e se Vossa Paternidade tem alguã notisia, dezeja Sua Majestade ser Bahia, 1729). Sobre descobrimentos feitos noutras capitanias ver Jaime Cortesão, His-
informado do que tiver resultado dela» (in carta do Secretário de Estado Marco Antó- tória do Brasil nos Velhos Mapas, tomo II, pp. 149-150.
nio Azevedo Coutinho ao Padre António Cabra!, 11 de Abril de 1750, ACTM, Parte 85 Decreto de D. João V de 19 de Outubro de 1729 (A.H.U., Does. Avulsos, Bahia,
V, p. 26). 1729).

100 101
OS P A D R E S MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS

LEGENDA DA FIGURA l

Mapa 1. Mapa topográfico da Barra... e Prayas do Porto de Nova Colónia dos Portugueses.

Mapa 2. O Grande Rio da Prata na América Portuguesa.

Mapa 3. [Mapa da costa do Brasil entre o Rio Grande de S. Pedro e o cabo


de Santa Maria].

Mapa 4. A Vila da Laguna e barra do Taramandi na costa do Brasil.

Mapa 5. Cana 5a da Costa do Brasil.

Mapa 6. Cana 6a da costa do Brazil.

Mapa 7. [Mapa da costa do Brasil desde a baía de Paranaguá até à foz do Rio
da Prata].

Mapa 8. O Rio de S. Francisco Xavier,

Mapa 9. Carta 4" A costa da Ponta da Araçatuba... ale a barra de Ararapira.

Mapa 10. Caria 7a da costa do Brazil.

Mapa ll. Cana 9a da cosia do Brazil.

Mapa 12. [Plano da Barra e Porto do Rio de Janeiro].

Mapa 13. Cana 10a da costa do Brazil, ao meridiano do Rio dt janeiro.

Mapa 14. Nova e 1a cana da Terra Firme, e costas do Brasil.

Mapa 15. Mapa topographico da Capitania do Rio de Jantyro.

Mapa 16. [Mapa do alto rio Doce, rio das Velhas e rio Paraopeba].

Mapa 17. [Mapa do alto rio Doce, o rio das Velhas, o rio Paraopeba e o rio
S. Francisco].

Mapa 18. Cana dos Rios e córregos em que se descobrirão e mineraÕ os diamantes.

Mapa 19. [Mapa da região entre o rio Jequitinhonha e o rio Arasuahi].


Fig. l - Territórios cartografados pelos Padres Matemáticos entre 1730 e 1748
Planta A. Cana topographica da Nova Colónia e cidade do Sacramento.

Planta B. Planta da Fortaleza, ou Bataria da Praya Vermelha.

Planta C. Planta das Fortalezas de terra no morro de S. João.

Planta D. Planta do Fone de S. loão.

Planta E. Planta da Fortaleza da Lage.

Planta E Planta da Fortaleza de S. Sebastião.

Planta G. Planta do Forte de Villeganhon.

Planta H. Planta da fortaleza de N. S. da Conceição.

Planta I. Planta do Forte de S. Diogo.

103
OS P A D R E S M A T E M Á T I C O S E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS

das capitanias do Brasil, D. João V era ainda mais preciso quanto à tarde, Filosofia, durante quatro anos, na Universidade de Évora.
missão dos padres no Brasil: Principalmente, fora professor de Matemática no Colégio de Jesus e
no Colégio de Santo Antão também durante quatro anos. Fora ainda
«eu hei por meu serviço e muito conveniente ao governo e defensa do pregador em Santo Antão e, depois, na Igreja de S. Roque. No ano
mesmo Estado, boa administração da justiça, arrecadação das minhas em que foi chamado para partir para o Brasil, era lente de Teologia
fazendas; e para se evitarem as duvidas e controvérsias que se tem ori-
Moral em Coimbra88. Os trabalhos que veio a realizar no Brasil fize-
ginado dos novos descobrimentos, que se tem feito nos sertões
daquelle Estado, de poucos anos a esta parte, fazerem-se mappas das ram dele um dos mais importantes cartógrafos portugueses do
Cerras do dito Estado, não só pela marinha, mas também pelos sertões,
século xvm.
com toda a distinção, para melhor se assignalem e conheçam os dis- Mas, o que pretendia realmente a coroa portuguesa com o envio
trictos de cada bispado, governo, capitania, comarca e doação; para dos jesuítas? Na provisão régia, passada aos dois padres na mesma
esta diligencia nomeei dois religiosos da Companhia de Jesus, peritos data do alvará, encontramos as instruções, verdadeiramente deta-
nas mathematicas, que são Diogo Soares e Domingos Capassi, que lhadas, sobre a elaboração das cartas geográficas do território bra-
mando na presente occasião para o Rio de Janeiro»86. sileiro:

Os objectivos da missão dos jesuítas ficavam agora verdadeira- «Dareis principio a esta obra pelo Rio de Janeiro, caminhando para a
mente explicitados: os mapas do Brasil eram necessários, não apenas parte que vos parecer mais útil para o meu serviço, porque convém
por razões de segurança, devido ao conflito latente com a Espanha e muito que se façaõ mapas o mais breve que for possível nos vastos cer-
aos potenciais interesses de outras nações estrangeiras, mas também tòes do mesmo Estado, expecialmente nos das Minas, que novamente
para permitir uma melhor exploração dos recursos do território e a se descobrirão para a parte da Capitania do Espírito Santo.»89
sua administração mais eficaz. Ao contrário do que era habitual, os
mapas não se deviam limitar a figurar o litoral («a marinha»), Aqui já não há qualquer referência ao Maranhão, e o monarca
devendo dar uma atenção especial ao interior. Tratava-se, não só de elegia como prioridade as regiões das minas, isto é, aquelas que, do
cartografar as terras do «sertão», até então muito mal conhecidas, ponto de vista económico, eram mais valiosas para a Coroa. Conti-
nuava a provisão:
mas também de definir os limites das dioceses e dos dois Estados,
Brasil e Maranhão. A hierarquia dos restantes espaços em que o ter-
ritório se subdividia - a capitania, a comarca e a doação - e a neces- «Os mapas que fizeres devem ser graduados pela latitud e longetud
geográfica asim na marinha como no certão, sinelando as cidades, vil-
sidade de o conhecer a este nível regional é também sublinhada.
las, lugares e povoaçoens dos portugueses, e dos Índios, e as catas do
Já no decreto régio D. João V justificara a substituição do padre ouro em sua verdadeira latetud e longetud geográfica, praticando o
Carbone na missão do Brasil por este se encontrar ocupado na corte mesmo nos portos, rios, enceadas e abras, tendo entendido que não
ao seu serviço. Domingos Capassi seria acompanhado por um outro basta reprezentar todas estas couzas por linhas e pontos em mapas,
jesuíta, o português Diogo Soares87. Aquele que viria a ser talvez o mas que estes devem ser estoreados expondose nelles por escripto a
principal autor da missão brasileira, o padre Diogo Soares, só agora clareza que for possível, e em livro à parte per extenço tudo o que hou-
aparecia ligado a este projecto. Estudara em Coimbra Filosofia, ver mães digno de notar em cada hua das capitanias cinalladas nos
ditos mapas.»90
Matemática e Teologia, terminando esta última com a defesa de
conclusões magnas. Ensinara Latim em Braga e em Setúbal e, mais
88 Vide Serafim Leite, HCJB, Tomo IX, p. 130; Joaquim Pereira Gomes, «Diogo
Soares», in Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, vol. 17, p. 354.
86 Alvará régio de 18 de Novembro de 1729 (A.H.U., Does. Avulsos, Rio de 89 Provisão régia de 18 de Novembro de 1729 (A.H.U., Conselho Ultramarino,
Janeiro, 1729). O texto do alvará foi publicado por Jairne Cortesão em História do Bra- Códice n.° 248, fl.250). Foi também publicada por Jaime Cortesão, Historia do Brasil
sil nos Velhos Mapas, tomo n, pp. 213-214. nos Velhos Mapas, tomo li, p. 215.
"7 Decreto de D. João V de 19 de Outubro de 1729 (A.H.U., Does. Avulsos, Bahia, 90 Provisão régia de 18 de Novembro de 1729. (A.H.U., Conselho Ultramarino,
1729). Códice n." 248, fl. 250).

104 105
OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS

A distribuição dos núcleos populacionais dos colonos portugue- baseou-se, nomeadamente, nas afirmações de D. António Caetano
ses no território, figurados de acordo com a sua hierarquia («cida- de Sousa, quando este refere que os padres tinham sido enviados à
des, villas, lugares e povoações»), as áreas habitadas pelos índios e América para
os locais onde se procedia à exploração do ouro (as «catas»), deviam
«ordenar as Cartas Geographicas daquelle Estado, e juntamente exami-
estar assinalados com precisão nos novos mapas. Pretendia-se ainda
nar por meyo de exactas observações astronómicas de eclypses, e
que descrevessem num livro à parte tudo o que fosse relevante para immersoens de satellites, assentar nos verdadeiros sítios os Meridianos
a história dos espaços cartografados. Ou seja, para além de um tra- do Brasil, e dos seus principais portos, e cabos, corn respeito aos esta-
balho exaustivo de desenho de mapas, o rei pretendia uma descri- belecidos de Europa, e Ilhas de Cabo-Verde»93.
ção geográfica detalhada do Brasil, devendo os padres procurar
saber: Ora, o «assentar nos verdadeiros sítios os meridianos do Brasil»
em relação aos meridianos de referência normalmente utilizados na
«a capacidade dos portos, e dos rios, se são navegáveis, e athe honde, cartografia europeia, se nos remete para as exigências de rigor astro-
e em que embarcaçoens, em que parte se passa a vão, ou em canoas, nómico a que os mapas do Brasil deviam obedecer, apresentando a
que gente habita as suas margens, se ha nelle algum pescado, se tem
graduação ern latitudes e longitudes, em nada nos permite inferir que
arvoredos na sua vezínhança, se estes se podem cortar e conduzirse
com facelidade para povoados, se ha nos seus destrictos pastos e gado, a coroa portuguesa estivesse especialmente preocupada em determi-
se são habitados de índios ferozes ou domésticos, e que modo tem nar a posição real do meridiano de Tordesilhas.
estes de viver, se os gentios tem alguma forma de relegião e adoraõ Pensamos portanto que, estando obviamente presente no pen-
alguns ídolos, que modo tem de governo entre sy, e de que armas samento de D. João V o conflito de soberania entre as duas coroas
usão»91. ibéricas sobre grandes extensões de território na América do Sul, já
não se coloca, no momento da partida dos jesuítas para o Brasil, a
No fundo, tratava-se de um programa para urn vasto inquérito possibilidade de solucionar o diferendo luso-espanhol no Prata e no
sobre as vias de comunicação no espaço brasileiro, fossem elas os interior sul-americano, a partir da determinação da linha de Tordesi-
caminhos ou os rios (daí o interesse nos portos fluviais); sobre os lhas, nem era esse o fundamento da argumentação dos diplomatas
recursos económicos deste espaço (as madeiras, os pastos, o gado, portugueses, como já antes vimos94. O problema era de carácter
a pesca, os metais preciosos); e, finalmente, sobre as populações político e, particularmente, económico. A coroa portuguesa não
indígenas, abrangendo aspectos que vão desde as informações estava disposta a abdicar de territórios que controlava, ainda que
sobre a sua localização, à sua organização política, capacidade bélica excedessem para Ocidente, como se temia, o «imaginário» meri-
e religião. diano de Tordesilhas95.
Segundo Jaime Cortesão, um dos principais objectivos do envio Quer o trabalho cartográfico quer as preocupações com a des-
dos Padres Matemáticos ao Brasil seria o estudo do «problema da crição da geografia física do Brasil, estavam subordinados, em
soberania das duas nações ibéricas na América do Sul, em relação ao
meridiano de Tordesílhas» (muito embora, acrescentamos nós, a 93 D. António Caetano de Sousa, Historia Genealógica da Casa Real Portuguesa,
provisão régia o não afirmasse)92. Para fundamentar esta sua tese, tomo viu, livro vil, p. 149.
M Ver o importante artigo de Demetrio Ramos Pérez, Los critérios contrários a! tra-

tado de Tordesilhas en el siglo XVIII, determinantes de Ia necessidad de su anulación, in £/


Tratado de Tordesillas y su proyección, tomo !1, 1974, pp. 163-193, onde o autor analisa
"Provisão régia de 18 de Novembro de 1729 (A.H.U., Conselho Ultramarino,
a evolução da posição espanhola em relação ao tratado de Tordesilhas no período
Códice n.° 248, 6. 250).
92 J. Cortesão, Historia do Brasil nos Velhos Mapas, tomo o, p. 193. Ver a sua inter-
entre os tratados de Madrid e Santo Ildefonso. Contudo alguns dos argumentos aqui
discutidos já estão presentes nas negociações que antecedem a assinatura do Tratado
pretação da missão dos padres em ACTM, vol. u, pp. 483-501; esta interpretação é
retomada, e ligeiramente alterada, na História do Brasil nos Velhos Mapas, principal- de Madrid.
95 Carta de D. Luís da Cunha ao Secretário de Estado de 28 de Junho de 1724
mente porque só neste trabalho Cortesão teve acesso à provisão régia (ver, sobre-
tudo, no torno u, as pp. 185-186 e 191-194). (A.N.T.T., M.N.E., Livro 793).

107
106
OS PADRES MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO NOVO ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS

última análise, aos objectivos económicos e administrativos do rei, com o rigor no cálculo das coordenadas geográficas, para o que
que mais não pretendia do que ver representado com um detalhe e eram imprescindíveis os instrumentos de precisão, e à estreita liga-
com um rigor até então inexistentes o imenso espaço que procurava ção existente entre o Estado e um projecto de levantamento de car-
agora conhecer de uma forma mais efectiva. E nesta perspectiva que tas geográficas. O certo é que se a elaboração da carta geodésica da
a provisão régia prosseguia, instruindo sobre a distribuição espacial França se arrastou durante tanto tempo, o que não demoraria uma
dos diferentes poderes e seus territórios de exercício no Brasil: tentativa semelhante para o Brasil, sendo este um espaço infinita-
mente maior do que a França, ainda para mais contando D. João V
«Deveis apontar os limites que tem cada hum dos governos entre sy, e com apenas dois cartógrafos?
os Bispados e comarcas das ouvedorias gerais, tomando para isso as Na verdade, o detalhe topográfico que o rei pretendia nos
noticias da gente pratica da terra; porque athegora não tem havido mapas do Brasil, segundo a provisão régia, implicava a elaboração
devizão regullar principalmente pellos certoens, ficando esta, matéria de um mapa diferente da carta geodésica feita para a França, já que
quasi toda no arbítrio das gentes que foraÕ povoando; porem sempre
esta, se era extremamente rigorosa numa perspectiva astronómica e
deveis asentar por linhas as devizoens que por ora se praticaõ, e tam-
bém as que vos pareserem que são mais cómodas e tem mais certa
matemática, pecava por abstracção, não sendo suficientemente
dívízão pellos rios, montes, e serranias; sinelando os limites que estão detalhada ao nível da figuração dos fenómenos: o relevo, os rios, os
em pratica com linhas de huã cor, e os que vos parecerem milhor com caminhos e as estradas, a vegetação, surgem representados de uma
linhas de outra, também apontareis nos mapas os caminhos e estradas forma demasiado esquemática, insuficiente para quem pretendesse,
que ha pelos certÕes apontando com huã cor as que se praticaõ, e com por exemplo, dar ao mapa uma utilização militar97. Contudo, o pro-
outra as que vos parecerem mais cómodas e breves; e a distancia em jecto joanino não deixa de ser pioneiro a seu modo. É o primeiro
que estão as cidades, villas huas das outras»96. projecto do género pensado para uma colónia, tanto mais significa-
tivo quanto não existia um mapa do Reino feito com o rigor que se
Pretendia o Rei recolher informações que melhor lhe permitis- pretendia agora dos mapas do espaço brasileiro98. Mesmo sem limi-
sem intervir na administração regional do território brasileiro. Assim tes certos que permitam defini-la de uma forma mais ou menos pre-
se explica a insistência em que os mapas apresentassem os limites cisa, há uma ideia da unidade espacial da colónia brasileira que não
reais das diferentes unidades administrativas, civis e eclesiásticas e, é mais do que um projecto que se irá procurar concretizar no futuro.
simultaneamente, os limites ideais, propostos pelos padres, graças Esta política de representação do espaço brasileiro inscreve-se
ao seu conhecimento do território, devendo estes buscar uma divi- numa nova forma de relacionamento da metrópole com aquele
são mais racional, com base nos acidentes geográficos («rios, mon- espaço, do qual pretende efectivar a posse. Esta estratégia não seria
tes e serranias»). O mesmo se passava com os caminhos e estradas: pensável sem o «rush» do ouro que, entre os últimos anos do século
para além dos percursos existentes, deviam os padres assinalar nos XVII e as primeiras décadas do século xvm, foi o principal responsá-
mapas com outra cor outros trajectos possíveis que fossem mais vel pela definição do «universo geográfico da colónia» ao atrair para
seguros ou mais rápidos. O rei concluía a provisão afirmando que o interior um fluxo populacional apreciável, que viria a estar na ori-
deixava ao cuidado dos dois jesuítas o tomarem nota de tudo o que gem de novos núcleos urbanos".
pudesse ser conveniente para um melhor conhecimento do territó-
rio brasileiro.
97 Daniel Nordman, La formaiion de 1'espace français, in Histoire de Ia France, voi. I
Que semelhança possuía o projecto de D. João V para o Brasil
(Uesface {rançais}, Paris, 1989, pp. 112-113; sobre os mapas topográficos elaborados
com a elaboração da carta geodésica de França a que antes nos refe- pelo exército francês ver Josef Konvitz, Cariography in France, pp. 9 e 21-23.
rimos? Posta a questão nestes termos, teríamos de responder que as 98 Ver João Carlos Garcia, A configuração da fronteira luso-espanhola nos mapas dos

semelhanças são quase inexistentes. Estas limitarn-se à preocupação séculos XV a XVIII, in Trabalh de Ia Socieia! Catalana de Geografia, n.° 41, vol. ix, Barce-
lona, 1996, pp. 304-306.
99 Caio César Boschi, O Descobrimento do Brasil: Uma Temática em Discussão (1990),

96 Provisão régia de 18 de Novembro de 1729 (A.H.U., Conselho Ultramarino, in Achegas à História de Minas Gerais (Séc. XVHl), Univ. Portucalense, Porto, 1994,
Códice n.° 248, fl. 250). p. 87.

108 109
OS PADRES MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO NOVO ATLAS

A política de controlo da Coroa far-se-ia sentir de uma forma mais afirmava que, apesar da liberdade que o rei lhes concedera para
notória na região de Minas Gerais a partir de 1709, data da criação da escolherem o lugar por onde deviam começar o traçado das cartas
nova capitania de S. Paulo e Minas de Ouro, acompanhada da funda- geográficas, se tinham decidido pela capitania do Rio. Enquanto
ção de vilas e de outras povoações, da criação de paróquias, a que cor- esperavam que chegassem os instrumentos que lhes faltavam tenta-
responde a implantação das estruturas administrativas do Estado vam ali realizar algumas observações astronómicas que o tempo
(nomeadamente a justiça e o fisco) e da Igreja. A partir dos «arraiais» ainda não tinha permitido.
já existentes surgem, entre 1711 e 1718, as novas vilas: Vila de Nossa Relatava Diogo Soares que já tinham «visto, sondado, e riscado»
Senhora do Ribeirão do Carmo, Vila Rica de Albuquerque, Vila Real toda a baía do Rio de Janeiro e, nomeadamente, desenhado plantas
de Nossa Senhora da Conceição, a que se viriam juntar São João dei Rei, de todas as fortalezas ali existentes. Oferecia a D. João V o roteiro
Vila do Príncipe, Vila Nova da Rainha, Pitangui e São José dei Rei100. da sua viagem, com o desenho da barra do Rio de Janeiro e de todas
Já antes do estabelecimento da nova capitania, através dos regimentos as ilhas que avistara, que traçara para utilização dos pilotos que
das minas, sobretudo o de 1702, procurara a Coroa ordenar a explo- navegavam para o Rio de Janeiro. Aproveitava ainda para fazer algu-
ração mineira, garantindo, simultaneamente, os seus benefícios atra- mas sugestões quanto à necessidade de terminar a fortaleza da Lage,
vés da cobrança dos quintos. Com a nomeação do governador da ponto-chave do porto, e de fortificar a Ilha das Cobras, em cuja
nova capitania, em 1710, vamos notar uma melhoria significativa na planta se encontrava a trabalhar a pedido do governador103.
cobrança dos quintos da Coroa. Este excesso de zelo do padre Soares, levando-o a ocupar-se de
As décadas de 20 e de 30 do século XVIII touxeram novas desco- problemas militares deu, posteriormente, origem a uma censura do
bertas de pedras e metais preciosos no interior: jazidas de diaman- Conselho Ultramarino, que lhe lembrava que o principal objectivo
tes em Minas Gerais e nos sertões da Bahia, minas de ouro em da missão dos jesuítas era fazerem «as cartas geográficas daquellas
Goiás, Cuiabá e Mato Grosso e ainda na região de Serro Frio. Tam- capitanias» e não perderem tempo com quaisquer outras ocupa-
bém aqui o afluxo populacional motivado pelos achamentos dos ções104. Vale a pena que nos retenhamos nesta carta mais alguns ins-
metais e pedras preciosas veio dar origem a novos centros urbanos. tantes. É que, apesar da censura que a ocupação de Diogo Soares em
assuntos de natureza militar suscitou da parte do Conselho Ultra-
marino, o que a carta do padre jesuíta revela é uma grande indefini-
3.5. Os itinerários dos padres no Brasil (ver Fig. i)
ção quanto às prioridades da missão de que estavam incumbidos. Já
Os padres matemáticos chegaram ao Brasil, mais precisamente o sabíamos em parte através da análise da provisão real105.
ao Rio de Janeiro, em Fevereiro de 1730'01. Mas as primeiras notí- O que o Conselho e o rei pretendiam é que os padres se limitas-
cias sobre o andamento dos seus trabalhos datam de 4 de Julho de sem, simplesmente, a fazer as «cartas geográficas» do Brasil, utili-
1730, de uma carta que o padre Diogo Soares escreveu ao rei102. Aí zando os novos instrumentos que tinham sido encomendados na
Europa, medindo de forma precisa as longitudes e latitudes sem se
i°°Jean Louis Bougaud, «Lês Villes du Minas Gerais au XVIIIe Siècle, 1711- envolverem em problemas de outra ordem. Mas as «cartas geográfi-
-1745», Bulleíin dês Eludes Ponugaises et Brésilienneí n.D 44/ 45, Paris, 1985. cas» são os mapas do Brasil à escala regional, isto é, os mapas dos bis-
101 Sabemos, com toda a certeza, que a 16 de Fevereiro de 1730 os padres já esta- pados e das capitanias, e não as plantas dos fortes do Rio de Janeiro.
vam no Rio, pois, segundo uma cópia do alvará régio de 18 de Novembro, remetida Apesar da sua componente técnica e científica, na base da missão dos
a 24 de Fevereiro com uma carta que o governador do Rio de Janeiro dirigiu ao rei
sobre o pagamento dos padres, este foi registado nos livros da Secretaria do Governo
jesuítas estavam, essencialmente, as preocupações administrativas.
do Rio de Janeiro aos 16 de Fevereiro de 1730 (O alvará e as carta do governador
encontram-se no Arquivo Histórico Ultramarino, Does. Avulsos, FUo de Janeiro, 1729). 103 Ver, a respeito desta carta, o parecer do Procurador da Fazenda e a consulta
A correspondência que se conhece dos padres só abrange o período que vai de 1730 do Conseiho Ultramarino de Janeiro de 1731, que estão escritos na margem da carta
a 1735. A maior parte das cartas foi publicada por J. Cortesão, AGTM, Parte III, tomo l, do padre Diogo Soares.
pp. 271-289; ver também Serafim Leite, HCJB., tomo ix, p. 393. 104 Vide 3 consulta do Conselho Ultramarino citada na nota anterior.
103 Carta de Diogo Soares ao rei, de 4 de Julho de 1730 (A.H.U., Does. Avulsos, FUo 105 Provisão régia de 18 de Novembro de 1729 (A.H.U., Conselho Ultramarino,

de Janeiro, 1730). Códice n.° 248, B. 250).

l 10 l ll
OS P A D R E S MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO NOVO ATLAS

Os mapas solicitados aos padres são mapas de conjunto do território gido, relativo aos primeiros descobrimentos feitos em Minas, está
destinados a possibilitar uma intervenção mais eficaz do Estado. datado de 2 de Janeiro desse ano, do Ribeirão do Carmo108.
Os padres permaneceram oito longos meses na capitania do Rio A 19 de Maio de 1734 encontravam-se os dois jesuítas, de novo
de Janeiro, com a estadia apenas interrompida por uma deslocação à juntos, no arraial da Cachoeira, na comarca de Vila Rica, apesar das
capitania do Espírito Santo106. No Rio de Janeiro, como vimos, Diogo previsões negativas do governador do Rio de Janeiro sobre o seu
Soares traçou as plantas das fortificações da cidade, e Domingos relacionamento. De Cachoeira escreveram os dois a Martinho de
Capassi, devido aos seus conhecimentos astronómicos superiores, Mendonça de Pina e Proença. O papel central que Martinho de Men-
deve ter-se dedicado sobretudo aos cálculos das coordenadas geográ- donça desempenhou na missão dos Padres Matemáticos, sobretudo
ficas, estabelecendo a posição do Meridiano do Rio de Janeiro. aquando da passagem destes por Minas Gerais, está patente na cor-
Ainda em 1730, os padres deslocaram-se à Colónia do Sacra- respondência que lhe dirigiram os padres. Principalmente Capassi via
mento. Na sequência do que dissemos atrás, é de salientar que esta em Martinho de Mendonça um verdadeiro amigo, a quem tratava de
deslocação se deve, não a uma ordem do Rei, mas aos pedidos dos uma forma extremamente afectuosa 109 . Com ele discutia as suas
governadores do Rio e da Colónia, Diogo Soares permaneceu na dúvidas a respeito das observações astronómicas que ia fazendo,
Colónia entre 24 de Outubro de 1730 e, pelo menos, os finais de mantendo-o informado dos progressos do seu trabalho.
Junho de 1731. Por esta altura, quando o jesuíta português escreveu Não é difícil perceber o porquê deste entendimento entre os
nova carta, a 27 de Junho, já o padre Capassi se retirara, de volta ao padres e Martinho de Mendonça, um dos mais importantes estran-
Rio de Janeiro. geirados do Portugal setecentista. Martinho de Mendonça de Pina e
A 9 de Dezembro do mesmo ano, estavam ambos os padres na Proença era o autor dos Apontamentos para a educação de um menino
cidade do Rio. O governador, Luís Vahia Monteiro, comentava, em nobre, impressos em 1734, uma obra influenciada por pensadores
carta dirigida neste dia ao governador da Colónia do Sacramento, como Locke, Fénelon e Rollin, onde insistia sobre a necessidade de
António Pedro de Vasconcelos, os desentendimentos entre os dois ensinar, para alérn do Latim, a Geografia, a História, .a Matemática e
jesuítas, considerando que eram de difícil solução porque os tempe- o Direito. As suas viagens pela Europa, onde conheceu e estudou as
ramentos dos dois não eram compatíveis. O mais grave é que isto se obras de Leibniz e Newton, marcaram-no fortemente110. Desde pelo
reflectia no seu trabalho, temendo o governador que não conseguis- menos 1722 que trabalhava na organização da Biblioteca Real e do
sem levar a missão a bom termo pelas dificuldades que tinham em seu catálogo111. Foi depois encarregado por D. João V, em 1733, de se
trabalhar em conjunto: Capassi partira sozinho para demarcar a
costa entre as capitanias do Rio de Janeiro e do Espírito Santo,
108 Notícia 3." Pratica, que dá ao R. P. Diogo Soares o Mestre de Campo José RebeUo
enquanto Diogo Soares ficara de ir até Minas Gerais107.
Perdigão sobre os primeiros descobrimentos das Minas Gerais do Ouro. Do Ribeirão abaixo, 2
Desde a partida de Capassi para a capitania do Espírito Santo, de Janeiro de 1733 (in B.P.E., Códice CXW 1-15, f. 150).
deixamos de conhecer o percurso dos padres até 1734. Sabemos 109 «Meu Senhor, meu arnigo e meu tudo, quanto quizer. Recebi estando nesta

apenas, graças à colecção das «Notícias Práticas» do padre Diogo Villa huà estimadíssima carta de Vossa Mercê, que para mím foi de grande alívio no
Soares, que o mais provável é que este já estivesse em Minas Gerais desterro desta solidão e lhe confesso na verdade, que no cançasso da minha peregri-
nação nada me dava tanto pezo como as saudades da sua pessoa, que commigo inse-
em princípios de 1733, uma vez que um dos relatos que lhe é diri-
paravelmente trazia, e trarei em quanto for vivo. Só para lhe dar hum abraço, me
tivera detido nesta vila ate Vossa Mercê ca chegar» (carta de Capassi a Martinho de
106 Nas tabelas das latitudes deixadas pelos padres, a que se refere à «Capitania Mendonça de Pina e de Proença, Pitangui, 17 de junho de 1734, in A.N.T.T., Manus-
do Espírito Santo pela costa» tem as datas de 1730 e 1731 (Vide A.H.U., Does. Avulsos, critos do Brasil, livro 15, fl. 87).
Rio de Janeiro, 1730). 110 RómuIo de Carvalho, Apontamentos sobre Maninho de Mendonça de Pina e. de

107 Documentos Interessantes para a Historia e Costumes de São Paulo, tomo l, pp. 241- Proença (1693-1743), Lisboa, 1963; Joaquim Ferreira Gomes, Martinho de Mendonça e a
-242, citado tn Jaime Cortesão, AGTM, vol. II, pp. 384-385 e pp. 497-498. Não conse- sua obra pedagógica, Coimbra, 1964; Kenneth Maxwell, O Marquês de Pombal Para-
guimos localizar o texto aqui citado aquando das nossas pesquisas nas bibliotecas do doxo do Iluminismo, Paz e Terra, São Paulo, 1996, p. 11.
Rio de Janeiro. Pensamos tratar-se de um problema de edição. Infelizmente, Cortesão 111 Luís Ferrand de Almeida, «D. João V e a Biblioteca Real», in Revista da Univer-

não refere qual a edição dos Documentos a que se refere esta citação. sidade de Coimbra, vol. xxxvi, Coimbra, 1991, p. 423.

l 12 113
OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO N O V O ATLAS

deslocar ao Brasil para estudar a possibilidade de alterar o sistema donça, falando-lhe da intenção de ir a S. Paulo, aonde chegou nos
de cobrança dos quintos do ouro, adoptando o sistema de capitação, princípios de Fevereiro de 1735. A 12 deste mês escreveu-lhe daqui,
segundo um projecto de Alexandre de Gusmão112. Desempenhou relatando que já estivera em Guaratingueta e que tencionava passar,
ainda funções de governador interino de Minas Gerais entre 1736 e em Maio, às minas de Goiás, dizendo que Capassi pretendia ir até à
1737. O seu envolvimento no trabalho dos Padres Matemáticos costa da cidade de S. Paulo e dali até ao Rio de Janeiro. São estas as
estava também ligado à sua missão em Minas Gerais, já que o rei últimas informações seguras que se conhecem de Capassi antes da
lhe solicitara informações específicas sobre o curso dos rios, a sua sua morte.
navegabilidade, e sobre a distância a que as minas de Cuiabá fica- Em Dezembro de 1735, depois de uma consulta do Conselho
vam das povoações de índios ou de colonos espanhóis113. Ultramarino sobre a necessidade de examinar o caminho do Rio
O padre Capassi tencionava partir em Abril de 1734 para Itau- Grande de S. Pedro para Curitiba, devido aos potenciais conflitos
bira (comarca de Vila Rica), e depois para Pitangui, de onde voltou a com os índios Tape das missões dos jesuítas espanhóis por causa da
dar notícias em Junho do mesmo ano. Entre os finais de Julho e captura de gado nos campos de cima da Serra, também conhecidos
meados de Outubro, o padre italiano foi de S. Sebastião a Vila Rica, por Viamão, decidira o rei que Capassi fosse encarregado de fazer
passando pela comarca do Rio das Mortes, onde permaneceu oito um mapa exacto da região115. Ainda em Outubro de 1735, prova-
dias fazendo observações, passando algum tempo em S. João dei velmente em cumprimento destas ordens, José da Silva Pais, então
Rei. Chegou a S. Paulo, vindo de Santos, a 26 de Outubro de 1734. governador interino do Rio de Janeiro, escrevera ao governador de
Já não abandonou esta capitania e acabou por aí morrer, após dois S. Paulo, para que o padre Capassi se deslocasse ao Rio Grande:
meses de febres malignas, a 14 de Fevereiro de 1736.
Mas, é exactamente no período que antecedeu a morte de «Agora mando esta lancha para o P. Capassi poder continuar as suas
Capassi, durante o ano de 1735, que os dois jesuítas devem ter vol- observações e vai armada de sorte que pode ser para ao menos se livrar
de algum insulto, bom. será que tenhamos do Rio Grande todas aque-
tado a trabalhar em conjunto e feito algumas observações e medi-
las individuações que nos podem ser precisas e úteis para qualquer
ções de latitudes. Segundo Cortesão, tendo ficado em São Paulo, determinação ou operação.» 116
Capassi dedicou-se a fazer o mapa desta capitania, e é possível que
tenha estendido as suas observações até Curitiba114. Mas a morte de Capassi, que viria a ocorrer em Fevereiro de
Diogo Soares, ainda em 1734, escrevia a 19 de Dezembro da 1736, já não lhe permitiu desempenhar-se da tarefa de fazer o reco-
vila de S. José, comarca do Rio das Mortes, a Martinho de Men- nhecimento do Rio Grande e de levantar o mapa da região. Seria
Diogo Soares a realizar este trabalho, embora já só em 1738. Por
112 Sobre o problema da capitação e dos quintos dq ouro, ver Jaime Cortesão, ordem de Silva Pais passou Diogo Soares ao Rio Grande, para reali-
AGTM, vol. II, pp. 437-458.
113Jaime Cortesão, AGTM, vol. n, pp. 443-444; para o texto do Regimento dado a

Martinho de Mendonça a 30 de Outubro de 1733 ver AGTM, Parte II, tomo l, pp. 105- 115 A consulta do Conselho Ultramarino é de 5 de Março de 1735, mas a decisão

-109; sobre a averiguação acerca da distância das minas de Cuiabá aos domínios da do Rei de atribuir a feitura do mapa a Capassi só foi tomada a 22 de Dezembro. Lê-se
coroa espanhola, ver a carta de Domingos Gomes Berliogo a Martinho de Mendonça na consulta: «Parece ao Conselho que esta matéria se não acha ainda com a instrução
de 2 de Março de 1734, onde pode ler-se: «A informação que posso dar a Vossa necessária para se tomar nella a ultima deliberação, para o que se carece de mandar
senhoria da distancia he, que estas minas distaõ das terras de Casteíla Paraguay examinar este caminho por pessoas que possam conhecer a altura da situação, e por
abayxo, onde fica a cidade de Ascensão, cento e outenta léguas, pouco mais ou tanto parece ao Conselho que Vossa Magestade se sirva ordenar que um dos Padres
menos, e Paraguay asima te donde dezaugoa o Rio chamado Cuyaba, cento e vinte Jesuítas Mathematicos, que se acham no Brazil passe a estas terras, e d'ellas tire um
legoas com pouca deferença, e té huã barra de hum rio chamado Sapetuba, terra den- Mappa exacto, e que em companhia do mesmo Padre vá Martinho de Mendonça de
tro, trinta te quarenta legoas, onde se acha hua aldeã muy opolenta dos Padres da Pina, o qual (...) faça as averiguações que elle julgar necessárias e informe interpondo
Companhia Castelhanos, da qual temos tido falias dos índios varias vezes, e nos pro- seu parecer» (in Jaime Cortesão, AGTM, Parte III, tomo II, p. 423).
hibem essa campanha aos nossos certanistas» (in A.N.T.T., Manuscritos do Brasil, livro !1s Carta de José da Silva País ao governador de S. Paulo, 29 de Outubro de 1735

ll,fls.7-8). (A.N.R.J., Col. 84, v. 5) cit. in João Borges Fortes, O Brigadeiro José da Silva Paes e a
i M Jaime Cortesão, AGTM, vol. II, p. 498. Fundação do Rio Grande, Erus, Porto Alegre, 1980, p. 48.

l 14 l 15
OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO N O V O ATLAS

zar o levantamento cartográfico daquele espaço. Com ele trabalhou Num mapa sem título, pertencente à colecção do Morgado de
Francisco Barbuda Maldonado, um militar da confiança de Silva Mateus da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, a que Abeillard
Pais. Em carta dirigida a André Ribeiro Coutinho, que se encontrava Barreto chamou, de acordo com uma das legendas, «Caminho que
a comandar as tropas deixadas no Rio Grande, afirmava Silva Pais: vem da Laguna por S. Pablo», pode ver-se assinalado o «caminho
moderno feito pelo jesuíta matemático italiano entre a Laguna e
«Vai o Roupeta com toda a sua casa e mais três casais com muita famí- S. Paulo», no que parece ser uma alusão clara a um dos trajectos
lia e breve irão mais. Este homem como V. Sá. sabe é muito esperto e feito por Diogo Soares no Rio Grande119. É muito provável que este
pode era companhia de Barbuda tirarem o mapa de todo o Recôncavo mapa tenha sido traçado pelo mesmo jesuíta espanhol que escreveu
do Rio Grande e ainda de examinarem a contracosta da Lagoa Mirim,
a relação sobre a visita dos sertanistas à missão de Nossa Senhora
parece que depois do Barbuda ter feito aí as mais diligências que V. Sá
julgar precisas lhe encarregue também esta com algumas pessoas práti- do Japeiú. Esta relação foi, aliás, escrita para acompanhar um mapa,
cas, para se saber o que isso é que está ern confuso, para que S. M. como se pode perceber pelo seu título: «El gran Paraná nuevamente
saiba o que tem nesse Domínio.»117 delineado segun su mayor extension sobre Ias noticias que dieron
unos Portugueses dei Brasil.»120
Há dois relatos das «Noticias Práticas» que são dirigidos a Diogo Mas voltemos um pouco atrás. Naquela que é a segunda carta
Soares do Rio Grande de S. Pedro em 1738, um datado de Fevereiro que o padre Diogo Soares dirigiu ao rei, a 27 de Junho de 1731,
e o outro de Março. Mas não parece que Diogo Soares aqui tivesse quando se encontrava na Colónia do Sacramento, voltou o jesuíta a
chegado antes de fim de Abril. Ainda neste ano desenhou um dos debruçar-se sobre questões militares, e desenhou a planta da cidade
seus mapas, datado de 1738, mais precisamente o que compreende a e o plano de uma nova fortificação, já que a antiga muralha era insu-
vila da Laguna e a barra do Taramandi (Mapa 4) e, se não desenhou ficiente para conter os moradores. É a sugestão que Diogo Soares,
de imediato os restantes mapas da região que lhe conhecemos, terá no regresso, faz na carta do povoamento e fortificação do Rio
pelo menos traçado os borrões a partir dos quais foram feitos. Grande de S. Pedro que queremos agora destacar121. Desta vez, ao
Sobre a presença de Diogo Soares no Rio Grande encontramos contrário do que acontecera anteriormente, o Conselho Ultramarino
também alguns dados num manuscrito de cerca de 1748, perten- acolheu a sugestão do padre e propôs ao rei que a pusesse em prá-
cente a um jesuíta da redução de Nossa Senhora dos Reis do Japeiú, tica. O receio da ocupação do porto do Rio Grande de S. Pedro
uma das missões do Uruguai. Este manuscrito contém diversas pelos espanhóis era a razão da resposta afirmativa do Conselho132.
informações recolhidas, por volta de 1746, de um Simão Bueno e de
outros sertanistas portugueses, que se dirigiam a Buenos Aires. Aí se
119 A legenda completa é: "Caminho que vem da Laguna por S, Pablo, Ias minas
lê, na parte intitulada «Viage que Hiso el P. Matemático Italiano por generales de los Goyás a ias de Cuyaba y Ias de Mato groesso traginable com ani-
el Brasil», que o jesuíta desembarcara na Lagoa dos Patos ou no Rio males». Há ainda uma outra legenda, correspondente ao número 5 marcado no mapa,
Grande de S. Pedro e que ali tinha tomado o caminho novo da onde pode ler-se: «Camino mas moderno, que hizo el Mathematico Jezuita Italiano
Serra, conhecido por Viamao. Tinha-se depois dirigido aos montes estos annos passados subiendo desde Ia laguna a San Pablo para evitar el ruedo ó
situados junto ao rio Tepicari até chegar aos campos da vacaria dos grande vuelto, que hazia el segundo caminho yendo por Ia Cruz, dei Padre (Serran) a
quien los Portugueses llaman Cruz de los Tapes en busca dei primer Camino mas
Pinares. Tornara por fim o antigo caminho dos conventos em direc- antiguo». O mapa, a que foi atribuído outro título de acordo com outra legenda,
ção a S. Paulo118. encontra-se na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro: «Nottas de Ia cidad de todos los
Ao contrário do que se lê no manuscrito, pensamos que terá Santos situada junto ai mar a ia ciudade de S. Pablo...» (B.N.R.J., Divisão de Manus-
sido Diogo Soares e não um jesuíta italiano a fazer este percurso. critos, Colecção Morgado de Mateus, mapa n.° 18 [ARC 49-18- 9]).
120 Jaime Cortesão, AGTM, Parte III, tomo li, pp, 123-124.

121A carta de Diogo Soares foi publicada por Jonathas C. Monteiro, A Colónia do
" 7 Carta de José da Silva Pais, 29 de Abril de 1738 (A.N.R.J., Col. 84) cit. m João Sacramento (1680-1777), Porto Alegre, 1937, vol. U, pp. 80-82, e encontra-se no
Borges Fortes, O Brigadeiro José da Silva Paes e a Fundação do Rio Grande, Erus, Porto A.H.U., Rio de Janeiro, Doe. n.° 7623, Inv. Castro e Almeida.
Alegre, 1980, pp. 67-68. 122 Consulta do Conselho Ultramarino de 22 de Janeiro de 1732 (A.H.U., Conse-
118 Jairne Cortesão, ACTM., Parte III, tomo II, pp. 123-124. lho Ultramarino, Códice 234, fls. 57v.-59).

116 l 17
OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO N O V O ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO N O V O ATLAS

Mas a fortificação do Rio Grande só veio a acontecer efectivamente na posse de outros dados, mas as incertezas sobre o que terá Diogo
a 19 de Fevereiro de 1737, quando o brigadeiro José da Silva Pais ali Soares feito ainda em Goiás permanecem.
fundou o forte Jesus-Maria-José. Nas instruções dadas ao novo governador pela rainha, em
Afirmava Diogo Soares na sua carta que procurara partir da Janeiro de 1749, também transparece a mesma falta de conheci-
Colónia do Sacramento para a região do Rio Grande, Santa Catarina mento do trabalho de Soares:
e Laguna, devendo passar não apenas na costa mas também pelo
seu interior. Contudo queixava-se de que ficara impossibilitado de o «Os Limites do vosso Governo até agora se não tem precizamente
fazer por Capassi, que regressara entretanto ao Rio de Janeiro, ter prescrito por falta de conhecimento dos sertões. Ao dito Gomes Freire
levado consigo os instrumentos necessários à realização de obser- de Andrade ordenei remetesse as noticias que pudesse recolher para se
vações astronómicas. Salientava a importância estratégica do «Rio determinarem os territórios daquela Capitania, e das suas confinantes.
Grande e seu sertão», de cuja ocupação e povoamento o rei só pode- O mesmo vos recomendo; corno também que acompanheis quanto for
possível com mapas as relações que enviares, e procureis todos os que
ria colher benefícios, principalmente devido à abertura de dois
nos Goiaz tiverem ficado do Pé. Diogo Soares, e mós remetais cuida-
novos caminhos por onde os espanhóis, nomeadamente os jesuítas, dosamente.»127
poderiam aceder às minas. Por outro lado, a simples fortificação do
Rio Grande permitiria a obtenção de novos recursos através do As instruções não esclarecem se estes mapas, que Diogo Soares
comércio e dos impostos alfandegários123. teria deixado, corresponderiam também à região de Goiás rnas, pelo
Finalmente, sabe-se que Diogo Soares veio a morrer nas minas que ali se diz, é bern provável que as expectativas régias fossem
de Goiás em Janeiro de 1748. Ainda em Julho de 1745, foi convo- essas. Infelizmente não dispomos de dados que nos permitam ir
cado pelo governador de S. Paulo, D. Luís de Mascarenhas, para for- mais longe do que as meras suposições e não se pode saber se
mar junta com o provedor da Fazenda Real e o juiz de fora, e dar Diogo Soares chegou efectivamente, ou não, a desenhar mapas de
parecer sobre o auxílio a prestar à bandeira de João Bicudo de Brito Goiás, já que estes nunca foram encontrados.
ao sertão situado entre Camapuã e Cuiabá 124 . Temos notícias da sua
presença em Goiás a partir de 1746125. Mas pouco se sabe sobre os
trabalhos que efectivamente terá feito entre 1740 e 1748. 3.6. Os mapas do Brasil e os trabalhos
Numa das legendas do seu mapa de Goiás, Francisco Tosi dos Padres Matemáticos
Colombina, levado como cartógrafo para a nova capitania pelo seu
primeiro governador, D. Marcos de Noronha, desculpava-se das De que modo elaboraram os Padres Matemáticos os seus
imperfeições do seu trabalho devido ao desconhecimento do sertão, mapas? De que mapas pré-existentes se serviram e para que regiões
considerando que era possível que se tivesse aproximado mais da do Brasil? Até que ponto estes foram indispensáveis para o desenho
verdade o padre Diogo Soares. Porém este, tanto quanto era sabido, das suas cartas geográficas? Qual o papel das medições astronómi-
não fora além do «destricto do Tocantins» e, se fizera muitos ou cas realizadas? Que importância tiveram os instrumentos científicos
poucos mapas da capitania de Goiás, nunca o tinha comunicado a para o cálculo das coordenadas geográficas que estão marcadas nos
ninguém naquelas partes126. Talvez D. Marcos de Noronha estivesse mapas? Estas constituem algumas das questões para as quais gosta-
ríamos de ter encontrado respostas satisfatórias. Mas a escassez das
informações recolhidas só muito parcialmente permite responder a
133 In J. Cortesão, AGTM., Parte III, tomo i, p. 275. algumas das questões levantadas.
u> Ver a consulta do Conselho Ultramarino de 30 de Abril de 1746 (in Jaime
Cortesão, AGTM, Parte III, tomo II, pp. 87-89).
Como não podia deixar de ser, é na correspondência e nos mapas
125 Carta ao Rei de Manuel Antunes da Fonseca, ouvidor de Goiás, onde faz men- feitos pelos jesuítas, que chegaram até nós, que podemos encontrar
ção à guarda do padre Diogo Soares ern Goiás (A.H.U., Does. Avulsos, Goiás, 1746).
116 Jaime Cortesão, Historia do Brasil nos Velhos Mapas, tomo II, p. 264. O mapa 127 Instrução régia ao governador da capitania de Goiás, D. Marcos de Noronha,
de Tosi Colombina encontra-se na Mapoteca do Itamaraty, no Rio de Janeiro. 19 de Janeiro de 1749 (A.H.U., Goiás, Does. Avulsos, 1749).

118 119
T
OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO N O V O ATLAS OS P A D R E S MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO N O V O ATLAS

alguns dados importantes. Alguns meses depois da sua chegada ao e cartógrafos franceses, ingleses e espanhóis. A informação, mesmo
Brasil, afirmava Diogo Soares que já tinha reunido diversos mapas e a mais secreta, circulava entre os colonos das duas coroas.
roteiros de sertanistas para começar o seu trabalho: Da sua passagem pela Colónia do Sacramento em 1731 resulta-
ram três mapas importantes: O Grande, Rio da Prata na America Portu-
«Tenho já junto uma grande copia de noticias, vários Roteyros e Mapas gueza e Austral (Mapa 2); a Cana topográfica de Nova Colónia e cidade
dos melhores sertanistas de S. Paulo e Cuyabá, Rio Grande, e da Prata, do Sacramento no Grande Rio da Prata (Planta A) e o Maypa topográfico
e vou procurando outras a fim de dar principio a algua carta, porque as
da Barra, dos Baixos, das Ilhas, e Prayas do Porto da Nova Colónia dos
estrangeiras andam erradíssimas, não só no que toca ao Sertão, mas
Portugueses (Mapa 1). Se o primeiro mapa parece ter tido por base
ainda nas Alturas e Longitudes de toda esta Costa, se não falhão as
nossas observações, as quais determinamos ratificar antes que deixe- cartas estrangeiras anteriores, já a «Carta Topográfica», que é uma
mos este Rjo, passando a Cabo Prio.»128 planta topográfica da Colónia do Sacramento, parece resultar intei-
ramente do trabalho de levantamento de Diogo Soares. Este mapa
Ao contrário das notícias e roteiros, que conhecemos, pelo apresenta 18 insertos, dispostos em volta da planta da Colónia,
menos em parte, através das «Noticias Práticas» de Diogo Soares, onde se podem ver os principais edifícios e a fortaleza da Colónia,
não é fácil saber com exactidão quais os mapas já então existentes para além de várias ilhas do rio da Prata e as enseadas de Maldo-
que foram efectivamente utilizados pelos dois jesuítas para dese- nado e Montevideo. Também o «Mapa Topográfico», que permite
nhar as suas cartas. Seria born termos para outros mapas os dados localizar parte da informação contida nos insertos da «Carta Topo-
que Diogo Soares nos dá sobre a elaboração dos seus mapas da gráfica», parece ser quase só o resultado do trabalho levado a cabo
Colónia e do Rio da Prata: no local pelos dois jesuítas.
Jaime Cortesão fez um levantamento importante de diversos
«Da cidade passei a tirar o do recôncavo e Ilhas de S. Gabriel, mas mapas existentes na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, num
como a minha anciã toda era o ver estas campanhas, animei-me a tirar total de cerca de 20 mapas, muitos dos quais terão sido desenhados
também com a cautela que me pareceu precisa, hum pequeno mappa por sertanistas, outros por bandeirantes, outros ainda por alguém
dela, que me não foi possível concluir com a exacção que desejo. Para mais qualificado, sendo todos os mapas anónimos e podendo datar-
o do rio da Prata me vali no que não presenciei, dos manuscriptos dos -se, com alguma segurança, a maior parte deles dos anos 20 do sé-
melhores Pilotos e Práticos delia, entre os quais achei alguns de 30, e
culo XVIU130. Vários destes mapas correspondem às regiões das
mais viagens, só deste Rio. Não desprezei por isso as cartas manus-
criptas francezas, hespanholas e inglezas, principalmente no que toca minas, não apenas de Minas Gerais mas também de Cuiabá. Entre
ao novo Canal do Banco Ortiz, que todas aqui achei e extrahí com dili- estes encontra-se um mapa da região de Minas Gerais com o tra-
gência, custo e cautela de Buenos Aires, e assim formei de todas a que çado dos caminhos para o Rio de Janeiro e para S. Paulo que tem
também agora offereço a Vossa Magestade com as plantas das Baterias afinidades com mapas feitos pelos dois jesuítas para a mesma
e Fortes do Rio de Janeiro.»129 região i• .
•- 131
Há também mapas que são da região do Prata e da Colónia do
Não revela Diogo Soares de que forma conseguira obter os Sacramento132. Outros ainda têm assinalados os territórios da capi-
mapas em Buenos Aires. Seja como for, ficamos a saber com toda a tania de S. Paulo confinando junto do curso do Paraguai com os da
certeza que Diogo Soares se baseou, não só nas suas observações coroa de Espanha. Estes últimos, identificados por Cortesão como
feitas In loco, mas também nos mapas manuscritos feitos por pilotos tendo sido utilizados para o traçado do Mapa das Cortes, podendo
datar-se um deles de posterior a 1725 e o outro, que parece ser uma

128Carta de 4 de Julho de 1730 (A.H.U., Does. Avulsos, Rio de Janeiro, 1730).


129Carta de Diogo Soares de 27 de Junho de 1731 (A.H.U., Rio de Janeiro, Inven- 130 Jaime Cortesão, História do Brasil nos Velhos Mapas, tomo li, pp. 217-227.
tário Castro e Almeida, Doe. 7623). Esta carta foi também publicada por Jonathas 131 «Região das Minas Gerais com uma parte dos caminhos de S. Paulo e do Rio
Costa Rego Monteiro, A Colónia do Sacramento (1680-1777), Porto Alegre, 1937, vol. II, de Janeiro» (B.N.R.J., Divisão de Iconografia [ARC 24-1-20]).
pp. 80-82. 132 «Mapa do Rio da Prata» (B.N.RJ., Divisão de Iconografia [ARC 24-1-1]).

120 121
OS PADRES MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO NOVO ATLAS

versão aperfeiçoada do primeiro, de cerca de 1730, devem ter sido concluir que o projecto inicial de fazer o atlas do Brasil nunca foi
conhecidos pelos padres jesuítas133. levado ao seu termo. A imensidão do território brasileiro tornava,
Um outro mapa, que abrange a costa meridional do Brasil desde desde logo, a elaboração do «Novo Atlas da América Portuguesa» de
Porto Seguro até ao Rio da Prata, o «Mapa da Costa do Brasil», apre- difícil concretização, não apenas pela extensão do espaço por des-
senta algumas semelhanças com as maiores cartas geográficas traça- cobrir, mas também porque os cartógrafos eram apenas dois e, um
das pelos jesuítas matemáticos para a mesma região, mas não dis- deles, Domingos Capassi, morreu logo em 1736, cabendo a Diogo
pomos de dados que nos permitam relacioná-los134. Contudo, o Soares dar continuidade à tarefa encetada136.
facto de o mapa ser acompanhado de uma listagem de latitudes e A produção cartográfica conhecida é, apesar de tudo, relativa-
longitudes onde pode ler-se: «Estas horas são do Roteiro português», mente abundante, num total de cerca de 20 mapas, abrangendo
já fez levantar a hipótese da sua atribuição a um dos matemáticos parte das capitanias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, a
jesuítas135. Hipótese que não é confirmada nem pelo tipo de dese- Costa Brasileira desde Cabo Frio até Laguna, as campanhas do Rio
nho do mapa nem pela letra das anotações ou dos topónimos. Por Grande de S. Pedro e a região da Colónia do Sacramento e do Rio
outro lado, as informações relativas ao Rio de Janeiro e à costa para da Prata137. A estes mapas devem acrescenta r-s e as 8 plantas dos for-
norte do Cabo de S. Tomé são quase inexistentes, o que é tanto tes do Rio de Janeiro e a planta da Colónia do Sacramento, elabora-
mais de estranhar quanto sabemos que foi a costa do Rio de Janeiro das por Diogo Soares138.
uma das áreas que os padres cartografaram melhor. Mas o facto de A numeração sistemática de algumas das cartas geográficas que
o mapa poder ser datado do período que antecede a fortificação do chegaram até nós com os números 4 a 10, constituindo uma série de
Rio Grande de S. Pedro em 1737, faz-nos pensar que ele possa ter mapas de dimensões idênticas, ordenada de Sul para Norte, levam-
sido utilizado como fonte por Diogo Soares. -nos a admitir que o projecto de fazer um atlas do Brasil deve ter
De qualquer modo, pensamos que os padres devem ter tido sido mantido por Diogo Soares139. O próprio desenho dos mapas,
acesso, se não a estes, a mapas idênticos aos inventariados por Cor- feitos a nanquim e aguareíados, apresentando, regra geral, o cartu-
tesão, que devem ter utilizado para o desenho do sertão, não só cho com as escalas em léguas no canto superior esquerdo, e a carteia
para as regiões mineiras como também para as campanhas sul rio- com o título do mapa no canto inferior direito, revelam uma inegá-
-grandenses até ao Rio da Prata. vel uniformização. Por outro lado, é bem possível que a Nova e pri-
Não é possível saber com certeza se os mapas que se podem atri- meira cana da Terra firme, e costas do Brazil ao Meridiano Rio de Janeiro
buir com segurança aos dois jesuítas correspondem à totalidade dos (Mapa 14), desenhada numa escala menor, mas abrangendo toda a
mapas por eles elaborados. Somos levados a pensar que não, até por- costa da América do Sul entre o Rio da Prata e Cabo Frio, e ainda
que se há mapas que não foram terminados, a verdade é que, regra uma parte importante do sertão, tivesse sido pensada como carta
geral, não possuímos quaisquer borrões correspondentes aos mapas geral do atlas do Brasil, à semelhança do que acontecera com os
finais existentes. A sobrevivência de um desses borrões faz-nos pen- atlas dos cartógrafos Teixeiras140.
sar que terão existido outros, idênticos, para os restantes. Por outro
lado, dada a extensão do território percorrido, é bem provável que
tenham desenhado mais mapas, nomeadamente do interior do Brasil. 136 A expressão «novo atlas da America Portuguesa» é utilizada por Diogo Soa-

Mas, se o que se conhece do trabalho dos padres corresponder, res na carta que dirige ao Rei, escrita na Colónia do Sacramento, em 27 de Junho de
1731 (in Jonathas C. Monteiro, A Colónia do Sacramento, 1680-1777, Porto Alegre,
grosso modo, aos mapas por eles desenhados, podemos, desde já,
1937, vol. li, pp. 80-82).
137 Ver, no fim deste trabalho, a lista dos rnapas atribuídos aos dois jesuítas.
133 «Parte do Governo de São Paulo e parte dos domínios da Coroa de Espanha» 13aVer a lista das obras dos padres Soares e Capassi em Serafim Leite, HCJB, tomo viu,
(B.N.R.J., Divisão de Iconografia [ARC 4-4-13]); «Parte do Governo de São Paulo e parte pp. 130-131; tomo IX, pp. 130-137; Jaime Cortesão, AGTM, vol. n, pp. 501-505.
dos domínios da Coroa de Casteíla» (B.N.R.J., Divisão de Iconografia [ARC 4-4-9]). 139Estes mapas têm aproximadamente 19x32 cm. Veros mapas 5, 6, 9,10,11 e 13.
134 Mapa da «Costa do Brasil» [ARC 4-6-2]. 140 Sobre os atlas dos Teixeiras ver Maria Fernanda Alegria, Representação do Bra-
135 Cf. Lygia Cunha, Mapas Manuscritos, in Catálogo da Exposição 'Mapas Antigos sil na Produção dos Cartógrafos Teixeira (c.4586'1675), in Maré Liberum n.° 10, Dezem-
séculos xvi-xvm», Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 1978, pp. 14-15. bro, 1995, pp. 189-204.

122 123
OS P A D R E S M A T E M Á T I C O S E O PROJECTO DO NOVO ATLAS

E certo que esta carta não abrange a totalidade do espaço brasi-


leiro mas a verdade é que, se exceptuarmos os mapas da região das
minas, ela corresponde, sensivelmente, à área cartografada pelos
Padres Matemáticos e, sobretudo, ao levantamento que fizeram da
costa meridional do Brasil. Pensamos, assim, não ser abusiva a hipó-
tese de que fosse esta a carta geral pensada para o novo atlas, possi-
bilidade ainda reforçada pela designação que tem de ser a «primeira
carta». Este mapa, não datado, deve ter sido desenhado por Diogo
Soares cerca de 1740141.
Há um outro mapa semelhante à «Nova e primeira carta», inaca-
bado e sem título, que abrange uma área menor, que é com certeza
da autoria de Diogo Soares (Mapa 7). Trata-se de uma representação :^ : r^J)^j^
'•f. i , , - . .A<- ' <?"
do curso dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai, com o traçado da
costa entre a foz do Prata e a barra de Paranaguá. Além de ser mais
pobre em toponímia, também não tem qualquer numeração de lati-
tudes e longitudes, apesar de ter marcados os graus. É possível que
tenha sido desenhado na mesma época que a «Nova e primeira
carta», tal como o mapa intitulado  Vila da Laguna e a Barra do
Taramandi na Costa do Brasil, datado de 1738 (Mapa 4).
Apresenta grandes parecenças com este mapa uma outra carta
geográfica, também ela anónima, que se encontra na Biblioteca
Nacional de Paris (Figura 2). Mais pequena, mas feita numa escala
maior, abrange a costa do Brasil a partir da ilha de Santa Catarina
até à foz do Pão da Prata, compreendendo, no interior, os cursos dos
rios Paraguai, Paraná e Uruguai. Trata-se de uma carta colorida, que
não possui nem título nem qualquer legenda. Não há dúvida de que
se trata de um mapa português, como se pode ver pelos topónimos
assinalados. Contudo se a influência de Diogo Soares parece notória
no desenho deste mapa, não apenas na escolha da região cartogra-
fada, mas também no traçado da linha da costa e da foz do Prata, é
possível também assinalar algumas diferenças importantes, paten-
tes, por exemplo, no desenho dos rios Uruguai e Paraná, da Lagoa
Mirim e do curso do Rio Grande, na abundância de topónimos,
principalmente ao sul deste rio, e na utilização de outro meridiano
de referência que não o do Rio de Janeiro para calcular as longitudes
marcadas no mapa142.

Ml Abeillard Barreto refere o ano de 1738 (Bibliografia Suí-Riograndense, vol. II,

pp. 1291-1292); Cortesão prefere a data de 1740.


142 *Gwe de 1'Etnbotichure de Rio da Prata» (Bibliothèque Nationale de Paris, Car-

tes et Plans, GE DD 2987, n.° 9450).

124
OS PADRES M A T E M Á T I C O S E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO NOVO ATLAS

Aquele que deve ser o último trabalho conhecido de Diogo Soa- que parece ser uma cópia mais tardia do mapa traçado por Diogo
res, feito provavelmente cerca de 1740, é um mapa inacabado que Soares (Figura 3)146.
abrange a região do Rio Grande de S. Pedro, mostrando já a fortifi- Nos mapas dos Padres Matemáticos, principalmente nos refe-
cação do estreito na povoação do Rio Grande e os fortes de Taim e rentes ao litoral do Brasil, o território surge representado com
S. Miguel (Mapa 3)143. grande rigor, mas a informação não é muito abundante, o que é de
Não é fácil, para os mapas elaborados até 1736, determinar com estranhar principalmente por serem mapas feitos a uma escala rela-
toda a certeza a sua autoria. Ou seja, pensamos que, se há mapas, tivamente grande. Ao recorte da linha da costa acrescenta-se a rede
nomeadamente daqueles que são numerados, que têm autoria con- hidrográfica, o relevo e, por vezes, o traçado de caminhos, num
junta, outros há, como os cinco mapas dos «sertões das minas», que desenho quase estilizado. Salvo raras excepções, a toponímia não é
não têm qualquer nome de autor. A estes vem juntar-se o Mapa abundante, íímitando-se a identificar alguns rios e os acidentes da
Topographico da Barra, dos Baixos, das Ilhas e Prayas do Porto da Nova costa. É certo que as parcas referências aos aglomerados populacio-
Colónia dos Portuguezes feito por httm curioso da Companhia de, Jesus nais se poderiam explicar por o Brasil ser um espaço subpovoado.
(Mapa 1), datado de 1731. Este «curioso da Companhia de Jesus» é Contudo, pensamos que, ainda assim, é notória a raridade de topo-
seguramente um dos dois jesuítas, só não sabemos qual, precisa- nímia, bastando para isso observara 10.a carta (Figura 4), correspon-
mente devido ao facto de tantos dos mapas estarem assinados por dente à costa da região do Rio de Janeiro, uma das áreas mais densa-
ambos ou, ao contrário, não terem qualquer nome. Sem dúvida por- mente povoadas de todo o Brasil. Quase não encontramos assinaladas
que Diogo Soares, após a morte de Capassi, trabalhou sobre os povoações e muitas das que estão representadas não apresentam
mapas que este deixou. Há, no entanto, dois mapas que se podem qualquer nome.
atribuir, com alguma segurança, exclusivamente ao padre Capassi. Comparada com a maior parte dos mapas da costa, a «Nova e
O primeiro é.o Mappa topographico da capitania do Rio de janeyro primeira carta» surge mais rica em topónimos. Encontramos assina-
(Mapa 15) que apresenta o nome de Domingos Capassi144. O se- lados muitos nomes de rios, ilhas e povoações. É, ainda, um dos
gundo é o «Plano da Baía do Rio de Janeiro», de que se conhece um poucos mapas com legenda, distinguindo com símbolos diferentes
borrão, além de uma cópia manuscrita reduzida feita por d'Après de as cidades, vilas, fortalezas, «guardas», as missões do Paraná e as do
Mannevíllette, o Plan de Ia Baye de Riojaneiro (Mapa 12), a partir do Uruguai, os «pousos», as "falhas» e as fazendas de gado. Está gra-
qual este fez mais tarde um mapa impresso, intitulado Plan de Ia duada ern latitudes e longitudes e sabe-se que foi utilizada para o
Baye et du Port de Río-Janeiro levée géometriquement en 1730, vérífié par desenho da parte meridional da América do Sul no Mapa das Cor-
1'auleur en 175^45- Da autoria de Diogo Soares parece ser, contudo, tes, que segue de perto a «Nova e primeira carta». Aliás terá sido
a Carta Corográfica da Capitania do Rio de Janeiro desde Paraty athe o mesmo facultado aos negociadores espanhóis do Tratado de Madrid
cabo de S. Thome, de que se desconhece o paradeiro do original, que um exemplar deste mapa147.
é no entanto mencionado por Serafim Leite. Conhece-se sim aquela Os mapas das regiões das Minas ocupam um lugar à parte na
produção cartográfica dos padres. Não apenas por serem os únicos

143 Abeillard Barreto considera que este mapa terá sido elaborado cerca de 1740 por

ter representados os fortes do Taim e S. Miguel, obras de fortificação concluídas por He Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, tomo IX, p. 132.
André Ribeiro Coutinho por esta altura (Bibliografia Siii-Riograndense, vol. n, p. 1292). 147 «Torno a remeter a Vossa Excelência o mapa que lhe habia pedido para con-
144 Encontra-se na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Divisão de Iconografia, ferir nele alguns pontos que Vossa Excelência tocaba no seu papel com diversos que
[ARC 23-1-1]. vão apontados no noso plano. Vae juntamente o do jesuita Diogo Soares, por que no
145Todos estes mapas pertencem à Biblioteca Nacional de Paris. Na colecção do Ser- que eíe comprende o temos pelo mais exacto por ser feito pelo dito Padre sobre o
viço Histónco da Marinha encontra-se o borrão do "Plano da baía do Rio de Janeiro» pro- mesmo terreno» (in carta do Visconde Tomás da Silva Teles a D. José de Carbajal y
vavelmente de Capassi [S.H., Port. 166, div. 9, p. 11] e a cópia reduzida do mapa de Capassi Lencaster, in A.B.N.R.J., vol. LII, 1938, p. 17 ; Cf. Mário Olímpio Clemente Ferreira,
feita por Jean Baptiste Nicolas Denis d'Après de Mannevillette [S.H., Port. 166, Div. 9, A Cartografia ao Serviço cia Diplomacia: o «Mapa âas Cortes» e o Tratado de Madrid (-1750),
p. 8], onde pode ler-se que o plano foi reduzido a partir de uma carta maior traçada por comunicação ao XVII Congresso Internacional de História da Cartografia, Lisboa,
Capassi em 1730. O mapa impresso está na Colecção d'Anville [Ge.DD.2987, n.° 9483]. Junho de 1997, p. 5 (policopiado).

126 127
Fig. 3 - Cana Corográftca da Capitania do Rio de Janeiro desde Paraty athe o cabo de S. Thome.
[Diogo Soares?]. [Cópia?], s/data. 43,1 x 57,6 cm. (S.G.E., Gaveta «Rio de Janeiro Histórica» - 8, 1/5-50 e 1-1/43).

Fig. 4 - CíJrtd •íí?.'1 <is coíw </o Brazil, ao meridiano do Rio de Janeiro. Desde a barra de Mammbaya até cabo frio.
Diogo Soares e Domingos Capassi. [ca. 1737],19 x 32,5 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil, n.° 1143).
OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS

mapas que elaboraram de regiões interiores do Brasil, mas também


por algumas características peculiares. Embora nenhum deles se
possa considerar verdadeiramente terminado, isso em nada diminui
a sua importância. Há quatro pequenos mapas de Minas Gerais
(Mapas 16 a 19 e Figuras 5 a 7), desenhados num estilo semelhante
aos mapas numerados e que talvez se destinassem ou ao mesmo
atlas ou a um conjunto idêntico a elaborar para o interior do Brasil.
Em três destes mapas pode ver-se assinalado o meridiano do Rio de
Janeiro, sendo que num deles encontramos especificamente mencio-
nado «1.° Meridiano» (Mapa 16 - Figura 5), Neste mapa é também
de assinalar a marcação a lápis dos graus de longitude. Embora não
estejam assinados, as semelhanças com os restantes mapas feitos
pelos dois jesuítas saltam à vista: para além dos aspectos já referi-
dos, o desenho do mapa, a letra dos topónimos, e mesmo as carte-
ias, são idênticos às dos mapas dos jesuítas matemáticos.
Estes quatro mapas de Minas Gerais parecem ter sido feitos a
partir de um outro mapa anterior. Pelo menos no caso de um deles
(Figura 6), conhecemos um mapa que em tudo se lhe assemelha e
que pensamos ser mais antigo, datado de 1734, que deve ser da
autoria do padre Capassi, ou resultante do trabalho conjunto dos
dois padres. Trata-se da Carta dos Rios e Córregos em que se descobri-
ram e mineram os diamantes desde o ano de 1729 aihe o presente de 1734
(Mapa 18), que é o único mapa que podemos considerar temático,
um dos poucos que possui legenda, assinalando não apenas os aglo-
merados populacionais (vilas e arraiais) mas também os rios e os
locais onde se buscava o ouro e os diamantes148. Abrange a Comarca
do Serro Frio e a região de Mato Dentro, junto à Vila do Príncipe.
^^^mw
/í UIK WÂÍéifi
Pensamos tratar-se de um mapa elaborado aquando da demarcação
das áreas diamantíferas de Serro Frio, feita por Martinho de Men-
donça de Pina e Proença precisamente em 1734149.
Se algumas das cartas geográficas não apresentam qualquer gra-

148 A este mapa da Comarca do Serro Frio (G.E.A.E.M., n.° 4637, Arm. 3, Prat. 38,
pasta 52) foi atribuído, na Figura l, o número 18, que corresponde também a um dos
quatro mapas de Minas Gerais, precisamente o mapa da Figura 6 (A.H.U., Cartogra-
fia Manuscrita do Brasil, n.° 1172), porque a área cartografada coincide praticamente
nos dois mapas.
"'Ver a carta de Martinho de Mendonça de Pina e Proença sobre a demarcação
das terras produtoras de diamantes na comarca de Serro do Frio, assinalando os limi-
tes certos do distrito onde se devia aplicar o novo regimento e o edital do ouvidor
Rafael Pires Pardínho sobre a mesma demarcação {A.N.T.T., Manuscriios do Brasil,
livro 8, fls. 62-62v. e 68).

130
OS P A D R E S MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO N O V O ATLAS

duação, há que sublinhar que uma das novidades do trabalho dos


Padres Matemáticos é a graduação de vários mapas nas latitudes e
longitudes150. A utilização de instrumentos astronómicos de preci-
são fê-los chegar a valores muito próximos dos correctos. Infeliz-
mente, não se conhecem diários de qualquer dos dois padres e o
pouco que sabemos da evolução dos seus trabalhos resulta da cor-
respondência trocada com os ministros da Coroa, da análise de
algumas anotações manuscritas existentes em alguns mapas e da
Taboada das Latitudes dos prinápaes portos, cabos e ilhas do mar do Sul
na America Austral e Portuguesa, elaborada pelos dois jesuítas entre
1730 e 1737. Trata-se de um conjunto de tabelas onde registaram as
latitudes medidas «pela costa» nas capitanias do Espírito Santo,
S. Paulo e Rio de Janeiro, e «pelo sertão» na capitania de Minas Gerais
e também nas de S. Paulo e Rio de Janeiro151.
Os diários dos padres jesuítas, a existirem, permiti r-no s-iam,
pensamos, compreender dois aspectos essenciais da sua missão: por
um lado, ficaríamos a saber quais os instrumentos astronómicos
efectivamente utilizados para fazer as medições da latitude e da lon-
gitude; por outro, poderíamos conhecer a forma de trabalhar dos
dois jesuítas e as dificuldades técnicas com que se terão defrontado
na execução da missão que lhes foi atribuída. Não é apenas o rigor
da reconstituição do processo de trabalho dos jesuítas que está aqui
em causa. A questão de saber quais os instrumentos científicos uti-
lizados pelos padres assume uma importância não negligenciável se
tivermos em conta o contexto científico da Europa da primeira
metade do século XVIII, em que os saberes como a astronomia, a
geodesia e a cartografia tiveram progressos fundamentais, que foram
possibilitados por grandes melhorias na construção de instrumentos
de precisão.
Como pudemos constatar anteriormente, possuímos alguns
dados sobre as compras de instrumentos científicos realizadas na
Europa, a pedido de D. João V, durante a década de 20 do século
xvill. Se é certo que uma parte destes instrumentos se destinou aos
observatórios astronómicos instalados no Paço e no Colégio de
Santo Antão, para além da Universidade de Coimbra, é lícito pensar

150 Estão neste grupo a «Nova e primeira carta» e as cartas 5.*, 6.', 7,* e 10.*.
151 Taboada das laúiudes dos principaez Portos, Cabos e Ilhas do mar do Sul na Ame-
rica Austral e Portuguesa pelos Padres Diogo Soares e Domingos Capacy Matemáticos Régios
no Estado do Brazil. 1750 - 1737 (A.H.U., Does. Avulsos, Rio de Janeiro, 1730); publicado
com algumas inexactidões m R.I.H.G.B., tomo XIV (1882), pp. 125-126; 142-145.

133
OS PADRES MATEMÁTICOS E O P R O J E C T O DO NOVO ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS

que vários deles terão sido levados pelos padres para o Brasil para aí Regressando, agora, aos mapas dos Padres Matemáticos, pode-
iniciarem os seus trabalhos de cálculo das coordenadas geográficas, mos sublinhar que, de entre os mapas graduados, pelo menos em
tarefa fundamental para a elaboração dos novos mapas. A existência latitudes, assume particular importância a «carta 4.a», que é exacta-
de algumas informações sobre o trabalho e os instrumentos científi- mente o borrão de que antes falámos (Mapa 9). Este mapa, intitulado
cos utilizados pelos padres matemáticos em Portugal antes de 1730, A Costa da Ponta de Araçatuba, Ilha de S. Calharina, Rio de S. Francisco,
permitem-nos, assim, supor com alguma segurança que terão proce- Parnaguá aihe a Barra de Ararapirá com parte do caminho do certão, cons-
dido de forma semelhante no Brasil. Mas quase não dispomos de titui provavelmente o trabalho preparatório que permitiu o desenho
informações concretas sobre as dificuldades específicas com que os da carta 6.a (Mapa 6 - Figura 8), de que se conhecem duas versões154.
padres se defrontaram no Brasil para utilizarem estes instrumentos Mas a carta 4.a é mais rica que quaisquer destas cartas mais acaba-
e de que forma eles foram utilizados para a elaboração dos mapas. das, pela extensão do interior que abrange, assinalando os caminhos
Este problema dos instrumentos de precisão é tanto mais e o desenho da rede hidrográfica. Além do mais, trata-se de uma
importante quanto se pode afirmar que é durante a primeira metade carta cheia de anotações feitas pelo punho de Diogo Soares155. Estas
do século XVIII, sobretudo durante os anos 1730-1740, que se desen- anotações, feitas nas margens do mapa, intituladas «caminho do ser-
volve na Europa uma ética da exactidão em relação aos dados obti- tão» e «corre a costa» correspondem, respectivamente, a uma lista-
dos pelos instrumentos científicos152. Desta forma, a compreensão gem de distâncias entre os diferentes pousos do caminho entre Pou-
crescente de que as variações de latitude, de temperatura e de alti- sos Altos e Curitiba, e aos rumos da linha da costa. As distâncias
tude afectavam os resultados alcançados, iria obrigar à adopção de entre os pousos estão marcadas em léguas e estão também aponta-
práticas de calibração dos instrumentos até então praticamente ine- dos por vezes os rumos e calculadas as latitudes de oito localidades.
xistentes153. Seja como for, há que atentar em que os trabalhos rea- No mapa propriamente dito também se encontram marcadas algu-
lizados pelos Padres Matemáticos no Brasil e em Portugal têm lugar mas destas latitudes, junto do local a que se referem. A estas juntam-
exactamente durante estes anos cruciais de aprendizagem e aperfei- -se outras oito latitudes correspondentes a acidentes da costa. No
çoamento na utilização dos instrumentos científicos para a observa- interior, para além do caminho, estão também representados os rios
ção dos fenómenos da natureza. Apesar da total dependência de e parte do relevo. Alguns dos rios têm legendas sobre a sua navega-
países estrangeiros para a obtenção de instrumentos científicos, o bilidade e sobre a duração dos trajectos em dias.
trabalho dos jesuítas matemáticos é pioneiro no seu tempo e merece Segundo Jaime Cortesão, este «borrão cartográfico, permite,
um estudo detalhado a partir de uma perpectiva da evolução das pois, conhecer o processo normal de trabalho do Padre Diogo Soa-
práticas científicas. res e os instrumentos utilizados: o astrolábio ou o sextante para
observar as latitudes; a bússola para obter os rumos; e muito rara-
mente o telescópio para a observação das longitudes, se é que não
IK Marie Noèlle Bourget et Christian Licoppe, «Voyages, Mesures et Instru-
se limitou a usar as observações anteriormente feitas. Por forma
ments: Une nouvelle expérience du monde au Siècle dês Lumíères», Annales HSS,
Set-Out de 1997, n." 5, pp. 1115-1151.
geral, para calcular esta coordenada, o padre Soares combinava os
153 «Si I'on considèrel'évolution dês pratiques instrumentales et quantificatrices rumos com as distâncias em léguas estimadas»156. Não sabemos se
dês voyageurs entre Ia fin du 17e siècle et Ia fin du 18e siècle, deux périodes, on l'a
vu, émergent de manière distincte. Lês années 1730-1740, tout d'abord, s'imposent 154 Um destes mapas, o mais detalhado, está na Mapoteca do Itamaraty, o outro
comme une période cruciale, rnarquée par 1'émergence d'une éthique de l'exactitude no Arquivo Histórico Ultramarino.
et une transformation profonde dês pratiques de mesure. (...) Face à une nature per- 155 Cfr. Jaime Cortesão, História do Brasil nos Velhos Mapas, tomo 11, p. 230.
cue comme infimment variable, face à un monde ou l'ordre est rare, leur programme 156 Jaime Cortesão, História do Brasil nos Velhos Mapas, tomo II, p. 230. Estas
tend à créer, par Ia calibration et ia coordination dês instruments, lês conditions de informações não constam, claro está, do mapa. Se a dedução relativa à bússola e ao
possibilite pour que se manifestem, lá ou il se peut, 1'ordre et 1'umforrnité de Ia sextante é mais do que provável, já sobre o telescópio não é possível dizer o que quer
nature. Et dans son application, il se trouve de fait lie à un large processus d'expan- que seja, pois não sabemos sequer se Diogo Soares o sabia utlilizar para fazer cál-
sion géographique et d'appropriation matérielle et intelectuelle du monde» (/« Marie culos de longitude, ao contrário do que se passava com Capassi. Mas a ideia de que
Noelle Bourget et Christian Licoppe, «Voyages, Mesures et Instruments: Une nou- Soares, para determinar a longitude de um lugar, recorria a uma combinação entre os
velle expérience du monde au Siècle dês Lumières», Annales HSS, pp. 1149-1150). rumos e as distâncias parece perfeitamente aceitável.

134 135
Fig. 7 - [Mapa da região entre o rio Jequitinhonha e o rio Arasuahi].
[Diogo Soares], [ca. 1736]. 19,9 x 31,4 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil, n.° 1174).

Fig. 8 - Cana 6." da costa do Brazil ao meridiano ao Rio ãe Janeiro desde a ponta de Araçatuha até à barra de Cuaratuba.
Diogo Soares, [ca. 1737]. 19 x 32,5 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil, n.° 1140}-
OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS

Capassi terá feito o mesmo, mas é possível que fosse este o pro- Pensamos, portanto, que a interpretação de Cortesão está direc-
cesso adoptado pelos padres na impossibilidade de fazer observa- tamente relacionada com outra tese sua, isto é, a ideia de que os
ções astronómicas, e é de admitir que não poucas vezes a longitude padres teriam sido enviados ao Brasil para determinar a posição do
tenha sido calculada por este método, corn todas as imprecisões que meridiano de Tordesilhas. Já explicámos neste mesmo trabalho por
daí advinham. A verdade é que os padres devem ter encontrado inú- que discordamos desta explicação. Parece-nos muito mais plausível
meras dificuldades e situações novas, que não podiam prever quando que a opção dos cartógrafos jesuítas em tomar o meridiano do Rio
ainda se encontravam em Portugal157. de Janeiro como meridiano de referência se deveu a outro tipo de
A utilização do meridiano do Rio de Janeiro como meridiano de razões, como, por exemplo, o propósito de conseguir atingir um
referência assinalado das cartas geográficas levou Jaime Cortesão a maior rigor no cálculo das longitudes. Quanto mais distante o meri-
sustentar a tese de que se tratava de uma astúcia dos padres para diano de referência, maiores eram as possibilidades de os cálculos
esconder aos rivais espanhóis a posição das terras ocupadas pelos das longitudes, feitos com base nas observações dos eclipses da lua
portugueses em relação ao meridiano de Tordesilhas. Caso contrá- ou dos satélites de Júpiter, apresentarem erros de cálculo. A confir-
rio, teriam os padres optado por referir as longitudes aos meridianos mar esta tese está o facto de, na China, os jesuítas terem adoptado
de Paris ou da Ilha do Ferro, os mais frequentemente utilizados nos o meridiano de Pequim e não o de Paris como meridiano de refe-
mapas setecentistas. Acreditava Cortesão que nas instruções (supos- rência, precisamente para reduzir a margem de erro nos seus cál-
tamente secretas) dadas aos padres sobre a forma de traçar os culos, como eles próprios sustentaram. Isto mesmo afirmava o jesuíta
mapas do Brasil se mandava graduar as longitudes pelo meridiano Jean-Baptiste Du Halde na sua conhecida descrição do Império da
do Rio de Janeiro. Ora, as únicas instruções que se conhecem são as China, impressa em 1735158.
que constam da Provisão régia, a que já fizemos referência, e no Segundo nos parece, é muito provável que no Brasil se tenha
caso de existirem outras mais secretas, é duvidoso que fossem tão passado precisamente o mesmo com os Padres Matemáticos. É certo
específicas. que a maior proximidade da Europa devia tornar a operação de cál-
Por outro lado, pelo menos desde meados do século xvii que a culo das longitudes no Brasil, principalmente pelo método de obser-
coroa espanhola suspeitava das usurpações territoriais portuguesas vação dos satélites de Júpiter, menos difícil do que na China. As
na América do Sul, tendo-se agravado o conflito entre as duas tabelas astronómicas elaboradas na Europa deveriam, assim, ser rnais
coroas a partir de 1680, quando D. Pedro II mandou fundar a Coló- fáceis de utilizar aqui. Contudo o pouco que sabemos sobre as lon-
nia do Sacramento na boca do Rio da Prata, sustentando que se gitudes calculadas pelos padres matemáticos no Brasil não no per-
situava nos limites da sua colónia da América. Já entrado o século mite ir muito longe nesta explicação. É até possível que a opção em
XVIII, a dissertação de Delisle viria dar novos argumentos de natu- adoptar o meridiano do Rio de Janeiro como meridiano de referência
reza científica às teses espanholas. se prenda precisamente com as dificuldades encontradas em calcular
as longitudes com base em observações astronómicas, tornando-se
portanto mais simples, embora a imprecisão fosse grande, calcular as
157 «Aqui aos 26 de Outubro observei hum eclipse de Sol às cinco horas de tarde,

vindo da villa de Santos com bastante gente, a quem o mostrei. As nuveis, que eraÕ
muitas por três vezes me derão lugar de ver: às 4 horas e 50 minutos a Lua já o enco- 158 A obta de Du Halde é a Descriptiort géograpkique, kistorifjue, chronologique, poli-
bria pela parte Occidental mais de 8 dígitos: as 5 e 4 minutos já se tinhaõ juntados os tiaue, et physiijue de l'empire de Ia Chine et de Ia Tartarie chinoise, Haye, 1735. Aí afirma:
centros de ambos os luminares, mas por se achar a Lua muito apogea, o eclipse, «Quand ã Ia longitude, lês missionaires s'aidèrent parfois dês eclipses de Ia lune et
ainda que central, foi annular com bastante luz ao rodor, as 5 e 12 minutos já o Sói dês satellites de Júpiter, mais ils furent souvent empêchés d'effectuer cette opération
descobria de baixo, e cobria de cima. Dam* por diante, nunca rnais o vi. Nas Ephe- avec Ia pécision désirable (...) C'est sur lê mérídien de Péking que sont comptées cês
merides do ManEredi tal eclipse não acho appuntado; e suponho que nem nas Ephe- longitudes; & c'est pour ne point s'exposer à tomber dans quelque erreur, qu'on na
merides de M. dês PJaces. Que parece a Vossa Mercê?», in carta de Capassi para Mar- pás vouiu lês réduíre au méridíen de Paris» (cit in Theodore N. Foss, «Uma Interpre-
tinho Mendonça de Pina e Proença de l de Novembro de 1734 (A.N.T.T., Manuscritos tação Ocidental da China. Cartografia Jesuíta», Revista de Cultura, n.° 21, II.' Série,
do Brasil, livro 15, fls. 89-89v.; está publicada em Jaime Cortesão, AGTM, Parte III, Outubro/ Dezembro, Macau, 1994, p. 148). Sobre a importância do trabalho do Fe.
tomo i, pp. 285-286). Du Halde ver Numa Broc, La Céograyhie dcs Phtlosophes, pp. 140-150.

138 139
OS PADRES M A T E M Á T I C O S E O PROJECTO DO N O V O ATLAS OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO N O V O ATLAS

longitudes pelo método que combinava os rumos com as distâncias phico que com^rehende os Lemites do governo de S. Paulo, & Minas, e
estimadas. Se a isto acrescentarmos que os padres estão longe de ter lambem os do Rio de Janeiro*60. Assim o pensou H. V. Livermore que,
visitado todos os espaços por eles cartografados e que se serviram de a nosso ver, não conseguiu provar que esta obra foi escrita por
mapas elaborados por outros cartógrafos para desenharem os seus, a Diogo Soares, apesar de alguns indícios nos poderem levar a admi-
dimensão da imprecisão ainda se torna bem rnaior. tir essa possibilidade161.
Para além dos mapas do Brasil, possuímos outros documentos O que Livermore, de facto, demonstrou foi que a Descripçam é
importantes relativos à presença dos padres na América do Sul. São uma versão manuscrita do Itinerário Geográfico com a Verdadeira Des-
eles, para além da correspondência dos dois jesuítas e das tabelas cripção dos Caminhos, estradas, Rossas, titios, Povoaçoens, Lugares, Villas,
com as latitudes de várias localidades no Brasil, as «Notícias Práti- Rios, Montes, e Serras, que ha da cidade do Rio de Janeiro até às Minas
cas» de Diogo Soares, que já antes mencionámos. Estas «Notícias de Ouro, impresso muito provavelmente em Portugal em data inde-
Práticas» constituem uma colecção de informações geográficas e his- terminada, embora datado de 1732 com a indicação de que fora
tóricas, recolhidas pelo padre Diogo Soares, conhecida pelo nome publicado em Sevilha162. Também sobre o suposto autor do Itinerá-
de Noticias Praticas de varias Minas, e do descobrimento de novos cami- rio, Francisco Tavares de Brito, nada se sabe. A provável falsificação
nhos, e outros sucessos do Brazil, existente na Biblioteca Pública de dos dados relativos à autoria, local e data de publicação é tanto mais
Évora159. Estes relatos dizem respeito, sobretudo, aos roteiros segui- compreensível quanto a informação sobre quaisquer aspectos liga-
dos para as minas de Cuiabá e de Goiás, aos novos descobrimentos dos às minas, fosse a sua localização, fossem os caminhos que a elas
de ouro e diamantes feitos em Minas Gerais entre 1726 e 1732 e à conduziam, ambos contemplados no Itinerário, eram considerados
exploração das campanhas do Rio Grande de São Pedro e da Coló- confidenciais pela Coroa, que temia que a sua divulgação desper-
nia do Sacramento, a que se junta uma narração do cerco da Coló- tasse o interesse das nações estrangeiras. Isto mesmo esteve na ori-
nia do Sacramento pelas forças espanholas em 1735. As informações gem da destruição de quase todos os exemplares da obra Cultura e
sobre as minas de ouro e diamantes e os territórios do Rio Grande Opulência do Brasil do jesuíta André João Antonil, publicada em Lis-
de S. Pedro e da Colónia do Sacramento constituíram o centro das boa em 1711, onde este fornecia informações precisas sobre as
atenções do padre Diogo Soares, que sobre eles procurou recolher minas de ouro e as vias de comunicação que as ligavam a outros
todos os dados que conseguiu. Estas «noticias», constituem um con- pontos do Brasil163.
junto precioso de informações de carácter geográfico e histórico e Em todo o caso, apesar de a Descrípçam se referir a toda uma
são fundamentais para a compreensão da expansão territorial brasi- região que foi percorrida pelos Padres Matemáticos entre 1730 e
leira no século XVIII. 1740, não cremos que o facto de nela se incluírem dados relativos
As «Notícias Práticas» correspondem, no fundo, ao projecto, ao cálculo das latitudes para muitos dos locais mencionados nos
delineado por D. João V na Provisão régia de 1729, de levantamento permita atribuí-la com segurança a Diogo Soares. Como antes
de todo o tipo de informações sobre o território junto da «gente pra- observámos, não eram os matemáticos jesuítas os únicos no Brasil a
tica da terra». A preponderância dos relatos sobre as minas e os saber fazer cálculos de latitude, nem estes eram uma novidade no
caminhos terrestres e fluviais percorridos pelos colonos para as
alcançar só confirma os objectivos económicos e administrativos da
160 Este manuscrito encontra-se na Biblioteca Geral da Universidade de Coim-
missão dos padres.
bra, Reservados, cód. 148; Cfr. H. V. Livermore, «An Early Published Cuide to Minas
É ainda possível que Diogo Soares seja o autor de urn roteiro Gerais: The Itinerário Geográfico (1732)», separata da Revista da Universidade de Coim-
anónimo da região das minas, intitulado Descripçam do Mapa geogra- bra, vol. xxvi, 1978, pp. 5-6.
161 H. V. Livermore, «An Early Pubiished Cuide to Minas Gerais: The Itinerário
Geográfico (1732)», pp. 9-10.
159 Noticias Praticas de varias Minas, e do descobrimento de novos caminhos, e outros 162 H. V. Livermore, «An Early Published Cuide to Minas Gerais: The Itinerário
sucessos do Brazil dirigidas ao P. Diogo Soares (B.P.E., cód. CXVI/ 1-15); também publi- Geográfico (1732)», pp. 4-7.
cadas in R.f.H.G.B,, tomo 4 (1842) e tomo 69 (1908); algumas «notícias» estão trans- 163 André João Antonil, Cultura e Opulência do Brasil f or suas drogas e minas, ed.
critas em Afonso de E. Taunay, Relatos Monçoeiros, Martins Ed., S. Paulo, 1976. Andrée Mansuy, I.H.E.A.L, Paris, 1968.

140 141
OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO N O V O ATLAS

século xviii, por muito que os padres matemáticos dispusessem dos


instrumentos mais rigorosos para proceder a estes cálculos. Se a
Descripçam foi ou não escrita por Diogo Soares é algo que até este
momento, enquanto não dispusermos de outros dados, não é possí-
vel determinar164.
Por fim, existe uma informação, dada por D. António Caetano
de Sousa, que refere que Diogo Soares teria ainda escrito uma «His-
toria Natural dos rios, montes, arvores, hervas, frutos, animaes, e 4. O E S B O Ç O DO
pássaros do Estado do Brasil»165. Esta informação surge, de novo, no
«Elogio Fúnebre» de D. João V, parecendo, apenas, uma simples
«CONTINENTE» BRASIL
repetição do texto da História Genealógica166. Também Diogo Bar-
bosa de Machado, que se deve ter baseado na mesma obra, afirma
que Diogo Soares terá deixado um manuscrito intitulado «História
Natural do Estado do Brasil»167. O facto de não se conhecerem
outras referências a esta obra e de ela não ter sido ainda localizada
não permitem concluir que Diogo Soares a não teria escrito. É até
muito provável que Diogo Soares, de acordo com as instruções da
Provisão régia de 1729, tenha levado ainda mais longe o projecto
joanino de inventariação dos recursos do Brasil, acabando por escre-
ver esta «História Natural».

16J H. V. Livermore, «An Early Publíshed Guide to Minas Gerais: The Itinerário
Geográfico (1732)», pp. 9-10.
165 D. António Caetano de Sousa, Historia Genealógica da Casa Real Portuguesa,
tomo viu, livro vil, p. 149.
166 Cfr. Francisco Xavier da Silva, Elogio Fúnebre e Histórico do mui Alto, Poderoso,

Augusto, Pio, í Fidelíssimo Rey de Portugal o Senhor D. João V, Lisboa, 1750; D. António
Caetano de Sousa, Historia Genealógica da Casa Real Portuguesa, tomo viu, livro vil, p. 149.
157 Cfr. Diogo Barbosa de Machado, BibHoiheca Lusitana, Atlântida, Coimbra,
1967, t. iv, p. 105,

142
«ocupamos o Ryo Grande de Sam Pedro, que na minha openia.0 nos hé de
muito mayores conveniências, naÕ só pelas ventagens do citio, e por formarmos
hum continente sem interroçaõ athe a Laguna; mas porque me parece, que será
muito mais fácil no tratado que se espera para a demarcação dos lemites, entre
as duas Nações que os castelhanos nos cedão o Ryo Grande do que Monte
Vidio, em que por muitas razoens naõ havia de consentir de soríe alguma».
André de Mello de Castro, Conde das Galveias, vice-rei e governador
do Brasil, 17371.

«A Sé Apostólica tem concedido a S. Magestade regular a seu arbítrio os con-


fins dos Bispados do Brasil, em que até o prezente ha grande cohfuzão, permi-
tindo por outra resolução posterior que os que o mesmo Senhor prescrever nos
primeiros cinco anos os possa depois alterar na declaração final dos mesmos
limites. E como este quinquénio está muito adiantado,e sem fruto por falta do
conhecimento individual dos Sertões, que se requer para o regulamento dos con-
fins de cada Dioceze, e para este efeito temos grande falta de Geógrafos que
possaõ ir a formar mapas daquele paiz com alguma exacçaõ, sendo falecidos
os Rés Capassi e Diogo Soares que se tinhaõ mandado a este fim, he Sua
Magestade servido que Vossa Senhoria procure achar ahi alguns sugeitos que
sejão bem capazes desta empreza.«
Marco António de Azevedo Coutinho, secretário de Estado, 17502.

4.1. Os avanços territoriais no Oeste e no


Rio Grande de S. Pedro

A missão dos Padres Matemáticos no Brasil coincidiu, grosso


modo, com a expansão portuguesa em direcção ao Rio Grande de
S. Pedro, por um lado, e ao Mato Grosso, Cuiabá e Goiás, por outro.
Estes dois vectores expansionistas, um dirigido ao interior profundo,
no centro do continente sul-americano, o outro ao Sul, mais ao litoral

1 Carta do Conde das Galveias a Martinho de Mendonça de Pina e de Proença,


27 de Junho de 1737 (A.N.T.T., Manuscritos do Brasil, livro 7, 0. 43).
2 Carta de Marco António Azevedo Coutinho a Manuel Galvão de Lacerda, 4 de
Janeiro de 1750 (;H Jairne Cortesão, ACTA?, Parte V, p. 15).

145
ft

• O ESBOÇO DO « C O N T I N E N T E » B R A S I L

do que ao interior, estiveram na origem da incorporação de novos


territórios na colónia brasileira. Podemos mesmo afirmar que tive-
ram um papel crucial na definição das fronteiras do Brasil no Extremo
Oeste e no Sul.
Até esta data, a única região da América do Sul onde era possí-
vel identificar a existência de uma larga faixa fronteiriça entre domí-
nios espanhóis e portugueses era, precisamente, a região amazónica.
Ali, entre os finais do século xvii e os começos do século XVIH, os
avanços dos missionários espanhóis, a partir do vice-reino do Peru,
por um lado, e dos missionários, colonos e oficiais régios portugue-
ses, a partir de Belém do Pará, por outro, estiveram na origem da
criação de uma vasta área fronteiriça, mesmo na ausência de limites
reconhecidos por ambas as partes.
A Colónia do Sacramento, apesar de todos os conflitos que origi-
nou com a Espanha, desde a sua fundação em 1680, não constituía
uma fronteira. Era antes uma colónia portuguesa isolada, separada do
Brasil em termos territoriais, por muito que os diplomatas portugue-
ses sustentassem que por ali deviam passar os limites-sul do Brasil.
Contudo, a Colónia do Sacramento não era o único núcleo
populacional fundado ao sul de S. Paulo no século XVII. Desde mea-
dos deste século, tinham-se estabelecido ali várias povoações como
Paranaguá, São Francisco, Curitiba e Santa Catarina. A abundância
de gado vacum e as notícias falsas sobre a existência de metais pre-
ciosos na região tinham atraído grande número de povoadores3.
A fundação do núcleo da Laguna, em 1688, apesar de mais tardia,
fazia parte do mesmo movimento expansionista.
Coincidindo com esta expansão populacional para sul, foram
elaborados vários projectos de povoamento do território que se
estendia para sul de São Paulo até ao Rio da Prata4. O primeiro pro-
jecto de colonização do território do Rio Grande, proposto por
Manuel Jordão da Silva, data também de finais do século xvn.
Curiosamente, foi posto de parte pelo Conselho Ultramarino que
temeu que a fundação de uma nova colónia de povoamento agra-
vasse as relações, já tensas, com os espanhóis5. Não se tratava de
um território desconhecido. Já desde os finais do século XVI fora per-
Fig. 9 - A ocupação portuguesa no Brasil.
corrido por bandeirantes e, durante a segunda metade do século XVII,

3 Luís Ferrand de Almeida, Páginas Dispersas, p. 166.


4 Luís Ferrand de Almeida, A Diplomacia Portuguesa e os limites meridionais do Bra-
sil, p. 103.
5 Aurélio Porco, História das Missões Orientais do Urugtiay, tomo I, pp. 339-340.

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tinham-se feito algumas entradas a partir da Colónia do Sacramento importância de não atrasar a fundação da nova colónia que o rei já
e da Laguna. Seria, aliás, a partir da Laguna que se viria a abrir um decidira fazer na foz do Rio Grande de São Pedro. A ocupação do
caminho para o Rio Grande, dando aos seus habitantes o acesso aos porto do Rio Grande era vista como indispensável para garantir a
ricos campos do Viamão. Contudo, a fixação da gente da Laguna no segurança das minas de Cuiabá e Parapanema10. Na sequência desta
Rio Grande, atraída pelos campos de pastoreio e pela abundância de consulta, em 1730, foi delineado pelo Conselho um plano de povoa-
gado selvagem, data apenas de 1725. A abertura, em 1727, dos mento do Rio Grande que acabou por só ser concretizado sete anos
novos caminhos para São Paulo, através de Curitiba e Sorocaba, mais tarde.
permitiu a passagem de milhares de cabeças de gado, fundamentais Aliás, deve ser sublinhado que a ocupação do Rio Grande de
para o abastecimento das regiões das minas6. S. Pedro teve lugar no quadro do reacender do conflito político-
Em 1715, Manuel Gonçalves de Aguiar, sargento-mor da praça -diplomático com a Espanha pela posse da Colónia do Sacramento,
de Santos, foí encarregado pelo governador do Rio de Janeiro de em 1735. Após o cerco da Colónia pelas tropas espanholas coman-
averiguar a possibilidade de abrir um caminho por terra que ligasse dadas pelo governador de Buenos Aires, em Outubro deste ano,
a Colónia do Sacramento a Laguna7. Foi durante estas averiguações sucessivos reforços foram enviados a partir do Brasil e de Portugal.
que a câmara da vila da Laguna lhe fez saber que era conveniente A armada que chegou ao Rio da Prata ainda em 1736, fazia parte
povoar o Rio Grande. Entre as razões apresentadas destacavam-se o destes reforços, mas acabou por não desempenhar um papel muito
clima ameno, a fertilidade do solo, a existência de minas de ouro e relevante no combate contra os espanhóis devido aos desentendi-
prata nas terras das missões dos jesuítas espanhóis, a abundância de mentos entre os comandantes de terra e mar, respectivamente José
gado e o porto da Lagoa dos Patos8. No entanto, nos anos seguintes da Silva Pais e Abreu Pego, tendo sido mal sucedida na sua tentativa
nenhuma iniciativa de povoamento do Rio Grande foi tomada na de conquistar Montevideo. Contudo a opção de ocupar o Rio
sequência dos relatos apresentados ao governador por Manuel Grande de S. Pedro teve um desfecho favorável. Nos começos de
Aguiar9. 1737 o brigadeiro Silva Pais desembarcou, finalmente, no Rio
Durante as décadas de 20 e 30 do século XVIII houve vários pro- Grande com alguns homens e estabeleceu uma fortificação na
jectos de ocupação do Rio Grande, sem que a Coroa, mesmo entrada da Lagoa dos Patos, tomando posse da região para a coroa
quando aprovava os projectos, se decidisse fazê-los executar. Em portuguesa11.
1728, numa consulta feita com base em cartas dos governadores do Se a ocupação do Rio Grande por Silva Pais e a sua fortificação
Rio de Janeiro e de São Paulo, o Conselho Ultramarino sublinhava a constituem talvez o marco mais importante do início da sua incor-
poração no território brasileiro, o posterior sucesso desta empresa
É Luís Ferrand de Almeida, Páginas Dispersas, p. 174.
ficou também a -dever-se a alguns sertanistas e à política determi-
7 Cfr. Relaçam da diligência que o governador do Rio de. Janeiro e das capitanias do sul nada de Silva Pais, que visava garantir a viabilidade económica deste
mandou fazer ao sargento-mor Mamei Gonçalves de Aguiar a iodos os portos do sul, desde a novo espaço. De entre os que mais contribuíram para a colonização
vila de Santos até a Laguna, última povoação desta costa do sul, Junho de 1715, in A.H.U., do Rio Grande destaca-se Cristóvão Pereira de Abreu, um tropeiro
Inv. Castro e Almeida, Rio de Janeiro, n.° 4320-4328; também publicado nos ABNRJ, ligado ao comércio dos couros da Colónia do Sacramento desde os
vol. 39, 1921, pp. 403-409.
primeiros anos do século xvm. A ele se ficou a dever, em 1731, a rea-
8 Cfr. Informação do Juiz e Oficiais da câmara da povoação de Laguna de Santo Antó-

nio, 6 de Janeiro de 1715, in A.H.U., Inv. Castro e Almeida, Rio de Janeiro, n.° 4322; bertura e a rectificação do caminho entre a Laguna e o Rio Grande
também parcialmente transcrito nos ANBRJ, vol. 39, 1921, pp. 407-408. Dauril Alden, que fora primeiro aberto por ordem régia, em 1727, pelo sargento-
Royal Government in Colonial Brazíl, p. 75; Abeillard Barreto, Bibliografia Sul-Rio Gran-
dense, tomo l, p. 18.
'Manuel Gonçalves de Aguiar acompanhou a sua relação de um conjunto de 10 Ver a Consulta do Conselho Ultramarino de 26 de Novembro de 1728, in
dez planos hidrográficos entre o Rio da Prata e Santos, cujo paradeiro se desconhece. Aurélio Porto, História das Missões Orientais do Vruguay, tomo r, p. 342.
É ainda o autor de uma das «notícias práticas» da colecção de Diogo Soares, sobre a 11 Abeillard Barreto, A expedição de Silva Pais e o Rio Grande de São Pedro, in Max
«costa e povoações» do mar do sul, dada em Santos em 1721 ao governador do Rio Justo Guedes (dir.) História Naval Brasileira, vol. II, tomo II, Rio de Janeiro, 1979, pp. 9-
de Janeiro. Cf. Abeiliard Barreto, pp. 18-19. -15; Dauril Alden, Royal Government in Colonial Brazil, Berkeley, 1908, pp. 74-82.

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-mor Francisco de Souza Faria. Aquando do cerco da Colónia do da população junto ao litoral, culminando, por fim, com a fundação
Sacramento pelas tropas espanholas, em 1735, prestou um impor- da Colónia do Sacramento, no Oeste brasileiro, à semelhança do
tante auxílio aos sitiados organizando um corpo de cavaleiros índios que acontecera em Minas Gerais entre os finais do século XVII e os
minuanos para atacar a retaguarda das forças espanholas. Por fim, princípois do século xvni, a actuação do poder central foi muito
distinguiu-se no apoio prestado a Silva Pais aquando da ocupação mais tardia, largamente precedida pela migração populacional em
do Rio Grande12. É certo que a sua colaboração com a ocupação do direcção às minas.
Rio Grande estava directamente ligada aos seus interesses no trans- No Oeste, os novos descobrimentos de ouro em Cuiabá (1718),
porte do gado das campanhas do Rio Grande para a Laguna e daqui Goiás (1725) e, mais tarde, em Mato Grosso (c. 1734) constituíram
para outros pontos do Brasil, mas isto só vem comprovar que o os principais motores da ocupação do interior, originando diversos
sucesso da colonização do Rio Grande, como de outros territórios «arraiais», num processo idêntico ao que ocorrera, desde os finais
do Brasil, foi fruto da articulação entre os objectivos da Coroa e os do século XVii, em Minas Gerais. Ali como aqui, depois de uma fixa-
interesses privados13. ção populacional mais ou menos anárquica, o Estado impôs gra-
Não cabe no âmbito deste estudo a análise detalhada do pro- dualmente a sua autoridade através dos seus aparelhos fiscal e judi-
cesso de colonização do Rio Grande de S. Pedro. Na verdade, como cial. O caso de Cuiabá é um bom exemplo desta política estatal.
procurámos antes demonstrar, se ele se inicia durante a primeira Logo em 1726 teve a visita do governador de São Paulo, sendo ele-
metade do século XVIII, é essencialmente no período posterior ao vada a vila, passando, desde então, a contar com a presença de um
Tratado de Madrid que a ocupação do território, graças, sobretudo, ouvidor.
à emigração de casais açorianos, se vai tornar mais efectiva14. Mas, A ligação entre Cuiabá e São Paulo era feita, essencialmente,
como bem sublinhou Corcino Medeiros dos Santos, o período deci- através de um caminho fluvial. Desde 1720 que esta estrada das
sivo para o povoamento e conquista do território sul-riograndense monções, através dos rios Tietê, Paraná e Paraguai constituía a prin-
corresponde já às três últimas décadas do século XVIII15. cipal via de comunicação para as novas minas de Cuiabá e Mato
Ao contrário do que aconteceu na região ao sul de São Paulo, Grosso16. Algum tempo depois foi aberto um caminho terrestre
onde a intervenção estatal se fez sentir, pelo menos, desde meados entre Goiás e Cuiabá. Do mesmo modo, a partir da Bahía e do Rio
do século XVII, estimulando a busca de metais preciosos e a fixação de Janeiro foram abertos caminhos que faziam a ligação às minas.
As monções eram, para além de morosas, extremamente arris-
cadas. Devido à imensidão da distância entre o porto de embarque,
12 Cristóvão Pereira de Abreu é autor de uma das «Notícias Práticas» de Diogo Araritaguaba, no rio Tietê, e Cuiabá (mais de 3500 km), o trajecto
Soares, precisamente aquela sobre o Rio Grande que, embora não datada, é concer- podia demorar vários meses. O transporte era feito em comboios de
teza de 1736, data em que Cristóvão Pereira obteve a patente de capitão de orde-
canoas, em que as condições de segurança eram, frequentemente,
nanças de Paranaguá, corn que assina o documento, ou então de 1737, mas anterior
à construção do forte da Lagoa dos Patos, facto não mencionado no documento. Cfr. precárias. Daí serem comuns os naufrágios, onde morria muita
General Borges Fortes, «Chrístovão Pereira de Abreu-, in RJHCRGS, IX, 1931, p. 143; gente e se perdiam parte dos bens transportados. Por outro lado, aos
Moysés Vellinho, Capitania d'Ei Rei, Aspectos Polémicos da Formação Rio-Grartdense, Ed. perigos do percurso vinham juntar-se os frequentes ataques de que
Globo, Porto Alegre, 1970, pp. 127-140. as monções eram vítimas por parte dos Paiaguás, os «índios anfí-
13 General Borges Fortes, «Christovão Pereira de Abreu», pp. 140-145; Idetn,
bios» do rio Paraguai17.
O Brigadeiro José da Silva Paes e a Fundação do Rio Grande, Erus, Porto Alegre, 1980,
pp. 75-88; Afonso de E. Taunay, Historia Geral das Bandeiras Paulistas, tomo 8, S. Pauio,
1946, pp. 489-515; Aurélio Porto, História das Missões Orientais do Uruguay, tomo i, 16 Sobre as monções ver o excelente livro de Sérgio Buarque de Holanda, Mon-

pp. 361-369. ções, Brasiliense, 1990, sobretudo as pp. 105-115; 207-248; 249-315.
"Se a chegada dos casais açorianos se inicia em 1748, a verdade é que a rnaior 17 Carlos Francisco Moura, Os Paiaguás, 'índios Anfíbios* do Rio Paraguay, separata

parte destes só se estabelece no Rio Grande depois de 1750. (Cfr. Corcino Medeiros do suplemento dos Anais Hidrográficos, tomo XLI, 1984; lãem, As Fronteiras do Extremo
dos Santos, Economia e Sociedade no Rio Grande do Sul, Século XVIII, Companhia Edi- Oeste e da Amazónia Ocidental e a Estratégia 4a Expansão Portuguesa, VIII Reunião Inter-
tora Nacional, col. Brasiliana, São Paulo, 1984, pp. 22-23). nacional de História da Náutica e da Hidrografia, Viana do Castelo, 1994 (polico-
15 Corcino Medeiros dos Santos, Economia e Sociedade no Rio Grande do Sul, p. 23. piado); Sérgio Buarque de Holanda, Monções, pp. 296-315.

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Em todo o caso, durante várias décadas do século xvin foram a Apesar da desistência de alguns homens, o grupo liderado por
principal via de comunicação entre os antigos centros populacionais Manuel Félix de Lima continuou a viagem rio abaixo onde, de facto,
da costa brasileira e as novas fundações de Cuiabá e Mato Grosso deparou com grande número de índios19. O encontro de um grupo de
contribuindo, de forma inegável, para a sua integração no território indígenas catequizados possibilitou-lhes obter um guia que os condu-
brasileiro. ziu até à missão mais próxima dos jesuítas espanhóis, situada na mar-
gem do rio Baures. Tal como sucedera com os homens de Palheta,
vinte anos antes, os símbolos cristãos acabaram por funcionar como
4.2. A abertura da rota fluvial entre Mato Grosso um elemento de identificação e de entendimento pacífico, rnesmo
e o Pará: o reconhecimento da «estrada» apesar da fama dos paulistas como apresadores de indígenas20.
Guaporé-Mamoré-Madeira Na aldeia de S. Miguel, os sertanistas foram recebidos por um
padre jesuíta. Souberam, assim, que se tratava da mais recente redu-
O esgotamento de algumas lavras nas minas de Mato Grosso, ção das Missões de Moxos21. Da missão de S. Miguel seguiram para
no início da década de 40 do século XVIH, agravou as condições de a de Santa Maria Madalena, situada no rio Ubaí ou Itonamas, outro
vida na região, tornando a sobrevivência dos sertanistas mais difícil dos afluentes do Guaporé. Esta missão era de uma outra riqueza e
do que já tinha sido até aí. Por outro lado, mesmo com a abertura importância. Dirigida pelos padres José Reiter, húngaro, e Atanásio
do caminho entre Goiás e Cuiabá, e a ligação desta a Mato Grosso, Teodoro, italiano, a missão era visivelmente rica quer em gado quer
os géneros alimentares, devido aos custos do transporte, atingiam do ponto de vista agrícola. A monumentalidade da igreja, um edifí-
preços incomportáveis, levando inúmeros habitantes a abandonar a cio de três naves, com cobertura de telha e possuindo três altares
região. bem ornamentados, para além da existência de um órgão e de outros
De entre os que preferiram buscar a sorte noutras paragens a instrumentos musicais não podiam deixar de chamar a atenção dos
ficar em Mato Grosso, reveste-se de particular importância o nome portugueses 22 .
de Manuel Félix de Lima, um «reinol» que fora dos primeiros a che- Ao que parece, depois da recusa do padre Reiter em vender
gar à região durante o rush do ouro, nos primeiros anos da década gado aos sertanistas, Francisco Leme do Prado partiu com alguns
de 30. Manuel Félix de Lima e Francisco Leme do Prado, um pau- dos companheiros, à procura de melhor sorte, em direcção à missão
lista, reuniram à sua volta um grupo de vários sertanistas, consti- de Exaltação da Cruz, no rio Mamoré, onde já estivera Palheta em
tuído por paulistas e reinóis, quase todos endividados e, portanto, 1723. Com Manuel Félix de Lima ficaram, na aldeia de Santa Maria
motivados a abandonar Mato Grosso, na perspectiva de encontrar Madalena, outros sertanistas com alguns negros e índios. Após espe-
novas minas de ouro e de comerciar com as missões espanholas dos rarem em vão por notícias do grupo de Leme do Prado, retomaram
jesuítas de Moxos. Juntamente com índios e escravos deviam perfa- a navegação do Guaporé até a junção com o rio Mamoré e conti-
zer um total de cinquenta homens18. nuaram depois o seu caminho descendo o rio Madeira rumo ao
Em Junho de 1742, liderados por Manuel Félix de Lima, os ser- Pará23.
tanistas desceram o rio Sararé até à sua confluência com o Guaporé
no local chamado Porto da Pescaria. Aí construíram novas canoas,
fizeram abastecimentos e continuaram a viagem, descendo o Gua- 19 Robert Southey, História do Brasil, vol. 3, p. 179.
20 Robert Southey, História do Brasil, vol. 3, pp. 181-182.
poré. Ao fim de alguns dias encontraram outro sertanista, que par-
:i Verdadeira noticia que deo Francisco Leme do Prado do que passou, vio, e experimen-
tira de Mato Grosso meses antes, em busca de índios e de ouro, que tou na viagem que fez destas Mmas do Matto groco feio rio abaixo as Missoens dos Padres
os advertiu de que se continuassem a descer o Guaporé teriam pou- da companhia do Reyno de Castela, a que chamao Moxos, in ABNRJ, vol. 107, 1987, p. 50.
cas possibilidades de sobrevivência devido à presença de índios guer- "Southey, pp. 186-187. Ver também a descrição desta missão feita por Fran-
cisco Leme do Prado. Verdadeira noticia... in ABNRJ, vol. 107, pp. 50-51.
23 «Auto de perguntas feitas a Manoel Felix de Lima e a Manoel de Freitas

Machado», Belém do Pará, 18 de Fevereiro de 1743 (A.H.U., Documentos Avulsos, Pará,


l8Robert Southey, Historia do Brasil, vol. 3, Itatiaia, Belo Horizonte, 1981, p. 177. Caixa 11).

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O grupo de Leme do Prado, seguindo a rota fluvial do Guaporé O grupo de Manuel Félix de Lima, ao fim de cerca de dois meses
ao Mamoré, demorou mais de vinte dias até chegar à missão da de viagem pelo rios Guaporé, Mamoré e Madeira, alcançou a aldeia
Exaltação de Santa Cruz. Do ponto de vista económico, a aldeia de Santo António das Cachoeiras, administrada pelos jesuítas portu-
parecia ser ainda mais próspera do que a anterior, possuindo cacau, gueses. Aqui trocaram a canoa em que vinham por uma embarcação
açúcar, panos de algodão, aguardente, cera, sabão, e muito gado maior e continuaram a descer o rio da Madeira, passando por outras
vacum e cavalar, produtos que a missão exportava para Santa Cruz duas aldeias dos jesuítas, e entraram no rio Amazonas ao fim de um
de Ia Sierra, de onde lhes vinha o vinho, o sal, o trigo e algum ves- mês. Outro tanto demoraram na navegação do Amazonas até alcan-
tuário em linho24. Não tiveram maior sucesso nesta aldeia, nas suas çar Belém do Pará, onde chegaram em Fevereiro de 1743.
tentativas para comprar gado, e foram informados pelos jesuítas que Chegados a Belém, o governador do Estado do Maranhão, João
tinham ordem do governador de Santa Cruz de Ia Sierra para não de Abreu Castelo Branco, mandou o ouvidor do Pará, Timóteo Pinto
lhes venderem o que quer que fosse. Ao saberem da partida do de Carvalho, contra a vontade deste, interrogar os dois sertanistas
grupo de Manuel Félix de Lima pelo rio Madeira, decidiram regres- que ali tinham chegado e deu-lhes ordem de prisão por considerar
sar a Mato Grosso, refazendo em sentido contrário o trajecto que os que tinham violado a lei de 27 de Outubro de 1733, que proibia a
levara até ali. abertura de novos caminhos para entrar ou sair de quaisquer minas
Uma vez chegados ao Mato Grosso, em Janeiro de 1743, o já estabelecidas. Depois de feito o auto de perguntas, enviou os dois
ouvidor João Gonçalves Pereira mandou interrogar os sertanístas sertanístas presos para Lisboa, onde foram interrogados pelos minis-
pelo juiz ordinário. Consciente da importância da viagem realizada, tros do Rei28.
decidiu enviar de novo Francisco Leme do Prado com José Barbosa A reacção do Conselho Ultramarino veio confirmar a proibição
de Sá e João dos Santos Verneque, desta vez ao serviço do Estado, da comunicação entre o Mato Grosso e o Pará, não permitindo a
para obterem mais informações sobre as missões de Moxos25. abertura da rota fluvial recém-descoberta por se recear o contra-
Desta vez os sertanistas foram menos bem acolhidos. Os jesuí- bando de ouro e a fuga ao pagamento dos quintos. Seria natural
tas das missões tinham recebido ordens expressas do provincial e que, caso houvesse algum plano sistemático da Coroa em fomentar
do governador de Santa Cruz de Ia Sierra para lhes barrarem a pas- o reconhecimento do território para Ocidente ele aqui fosse especi-
sagem e não os deixarem sequer visitar as missões26. Apesar disso, ficamente mencionado.
ainda conseguiram voltar a duas das missões onde já tinham Pensamos, por isso, que o inquérito verdadeiramente pormeno-
estado: Santa Maria Madalena e Exaltação da Cruz, onde foram rizado, ordenado pelo ouvidor João Gonçalves Pereira aos sertanis-
informados pelos jesuítas que lhes era interdito não apenas o tas que foram, pela segunda vez, por sua ordem, às missões espa-
comércio mas também a visita às missões. O mais importante desta nholas de Moxos, resultou não apenas da sua iniciativa enquanto
expedição foi a observação do estabelecimento de uma nova mis- funcionário zeloso, mas também, como veremos, do seu interesse
~ 9O
são, fundada cerca de três meses antes, na margem oriental do rio em comerciar com as missões**.
Guaporé 27 . Para além do inquérito, o ouvidor mandou também desenhar
um mapa que remeteu ao Conselho Ultramarino. O mapa, extrema-
mente tosco, mostra a localização das aldeias dos jesuítas espanhóis
™ Verdadeira noticia... m ABNRJ, vol. 107, p. 51.
25 Seguimos aqui David Davidson, Rivers and Empire: lhe Madeira Route and the
no Guaporé, nomeadamente a missão de Santa Rosa, situada na mar-
IncorforaíioH ofthe Braziliaa Far West, 1737-1808, Yale University, 1970, pp. 49-50; ver
também o relato de José Barbosa de Sá, «Relação das povoaçoens de Cuyabá e Mato 19 Ver a Carta de João de Abreu Castelo Branco de 24 de Fevereiro de 1743,
Grosso», escrito em 1775, onde o autor se refere ã sua ida às Missões de Moxos em acompanhada do auto de perguntas feitas aos sertanistas (A.H.U., Documentos Avulsos,
1743 e à expedição anterior de Manuel Félix de Lima (in ABNRJ, vol. 23, p. 42). Pará, Caixa 11), e a resposta de D. João V, redigida por Alexandre de Gusmão, de 17
26 Ver David Davidson, How the Brasilian West Was Won; Freelance & Staie ou lhe
de Junho de 1744 0aime Cortesão, AGTM, Parte III, tomo li, pp. 81-82). Parte das
Mato Grosso Frontier, 1737-1752, in Dauril Alden (ed.), Colonial Roois ofModern Brazil, informações sobre a chegada de Féiix de Lima a Belém e a sua estadia no Reino só se
University of Califórnia Press, Berkeley, 1973, p. 92. encontram em Southey, Historia do Brasil, vol. (li, pp. 193-194.
27 Relação da Z." viagem no anuo de í 743, in ABNRJ, vol. 107, p. 54.
29 David Davidson, Hov the Brasilian West Was Wún, pp. 83-84.

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gem oriental do Guaporé, que a coroa portuguesa pretendia reservar ouro em pó e diamantes por estas minas para os castelhanos, o que eu
para si. Claramente, os padres jesuítas procuravam através do esta- entendo ser muito contra o serviço de sua Magestade lhe dilatei a res-
belecimento desta missão, a que se seguiriam outras duas, impedir a posta.»33
navegação do rio aos portugueses e deter o seu avanço.
Já em 1739 e, novamente, em 1741, João Gonçalves Pereira Conseguiu, entretanto, Manuel Torres apurar quais eram os fi-
sugerira, em cartas dirigidas ao Conselho Ultramarino, a necessi- nanciadores da expedição. Entre eles estava o próprio ouvidor João
dade de determinar a distância das minas de Mato Grosso às mis- Gonçalves Pereira. Sem dar conhecimento ao intendente, tinham
sões espanholas, sublinhando a necessidade de serem concedidos feito seguir um carregamento de «fazenda» para o rio Jaurú:
privilégios aos habitantes da região por forma a garantir a sua fixa-
ção e a posse do território para a coroa portuguesa30. O receio de «para quando lá descobrissem nas aldeãs de Castella meio de a intro-
um ataque espanhol contra as minas de Cuiabá difundira-se entre duzirem a tivessem ali mais prompta para o fazerem de sorte que cá se
não tivesse noticia desta negociação»34.
1736 e 1739, baseado nas explorações fronteiriças feitas pelos colo-
nos da região, que afirmavam ter notícias de que os Jesuítas tinham
feito entradas pelo menos até às nascentes do Paraguai31. As iniciati- À semelhança do que se passaria mais tarde com Manuel Félix
vas do ouvidor Gonçalves Pereira no sentido de determinar a proxi- de Lima, os colonos do Cuiabá temiam ser penalizados se saíssem
midade das missões dos jesuítas e as possibilidades de uma invasão da região sem autorização da Provedoria da Fazenda, devido à sus-
das minas, solicitando a fortificação da região fronteiriça, surgiram peita dê contrabando ilegal de ouro que ficaria a pesar sobre eles.
na sequência dos receios da invasão. Mas a expedição que, em 1740, Autorizada a expedição pelo intendente, em reunião com a câmara
a câmara e o ouvidor decidiram enviar às missões de Chiquitos dos e o ouvidor, foi deliberado, por pressão de Manuel Torres, dar
jesuítas espanhóis, para averiguar a distância entre as minas e a pri- conhecimento da iniciativa ao governador de S. Paulo. Claro que
meira redução, e dissuadir os jesuítas de atacar Cuiabá, tinha incon- sem qualquer referência aos propósitos comerciais da missão35.
fessados objectivos comerciais. Quem o denunciou foi o intendente Os receios do intendente da Provedoria da Fazenda sobre os ris-
da Provedoria da Fazenda Real, Manuel Rodrigues Torres, num ex- cos que a abertura do comércio com as missões espanholas podiam
tenso relatório enviado ao governador de S. Paulo, D. Luís de Mas- comportar para a segurança de Cuiabá e Mato Grosso tinham
carenhas32. Tendo-lhe sido solicitada autorização para a expedição alguma razão de ser, dada a ausência de qualquer fortificação na
às missões espanholas, que devia ser financiada por particulares, o região, a quase inexistência de efectivos militares e a frágil e inci-
piente presença do aparelho do Estado português naquelas longín-
intendente mostrou-se cauteloso:
quas paragens do Extremo Oeste brasileiro. De tudo isto se quei-
«Como eu conhecesse que a sua intenção hia encaminhada a dois fins xava a D. Luís de Mascarenhas:
e que ambos se devião evictar: o primeiro saberem onde estavam os
castelhanos e terem caminho aberto para elles fugirem para elles, caso «com tudo não deicho de com lizura, e singeleza de animo lhe lembrar
que V. Exa ou S. Magestade mandasse cornar conhecimento da desen- a V. Exa. que no Certão destas minas há muito ouro, e que também ha
voltura com que comigo se tinham havido. O segundo poderem passar diamantes; porque eu os vi, e os mandey por amostra a S. Magestade na
monção de 1738, e que a gente que as occupa he revoltoza, e a mayor
delia receoza por suas culpas da justiça, e dos governos, e de bacha con-
30 Ver a Consulta do Conselho Ultramarino de 30 de Janeiro de 1741 acerca de dição, e sem amor á pátria, nem ao Príncipe; porque o não conhecem, e
uma carta de João Gonçalves Pereira de 6 de Setembro de 1739 (A.H.U., Documentos
Avulsos, S. Paulo, Caixa 3). Ver as cartas de João Gonçalves Pereira de 6 e 20 de
Setembro de 1739 e de 4 de Dezembro de 1740 (A.H.U., Documentos Avulsos, Mato 33 Carta de Manuel Rodrigues Torres a D. Luís de Mascarenhas, Cuiabá, 20 de
Grosso, caixa 2). Fevereiro de 1740, in A.H.U., Documentos Avulsos, Mato Grosso, 1740.
31 Em algumas destas explorações estava envolvido João Gonçalves Pereira. 34 Carta de Manuel Rodrigues Torres a D. Luís de Mascarenhas, Cuiabá, 20 de
32 Carta de Manuel Rodrigues Torres a D. Luís de Mascarenhas, Cuiabá, 20 de Fevereiro de 1740, in A.H.U., Documentos Avulsos, Mato Grosso, 1740.
Fevereiro de 1740, in A.H.U., Documentos Avulsos, Mato Grosso, 1740. ^David Davidson, How lhe Brasilian West Was Won, p. 85.

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que em tendo comunicação com os castelhanos o menos que faraó será Nada mais natural que os nomes de Gusmão e de Gomes Freire
fugir para eiles; porque são mui capazes de os introduzirem cá e lhes de Andrade, um enquanto principal responsável político pelo Tra-
entregarem as mesmas minas e S. Magestade não tem neUas força para
tado de Madrid, o outro como um dos principais mentores da sua
rezistir a qualquer revolução dos naturais, quanto mais para o fazer aos
insultos de inimigo, e em S. Magestade perder o Certão destas minas
execução, tivessem sido associados a todos os exploradores frontei-
perde huã grande parte do Estado do Brazil com dispoziçoens para ser riços portugueses, como se estes fizessem parte de um plano siste-
a mais rica, precioza e importante delie por estar nas cabeceiras dos mático de recolha de informações geográficas delineado pela coroa
grandes dois rios da America, o da Prata, e Amazonas para onde tem portuguesa. A confirmar esta interpretação, não encontramos no
suas vertentes todos os que destas minas correm, e nellas nascem»36. manuscrito de Escandon qualquer noção da possível existência de
iniciativas de exploração particulares e estatais não interligadas entre
Este relatório do intendente Manuel Torres permite concluir si, como foi o caso da expedição liderada por Félix de Lima e de outras
que, não só o ouvidor Gonçalves Pereira estava interessado por anteriores e posteriores38,
razões pessoais no comércio com as missões desde pelo menos No Extremo-Oeste, a intervenção do Estado foi, assim, muito
1739, como se torna muito duvidoso que, depois da leitura deste mais tardia do que o descobrimento da terra e dos seus rios feito
relatório, o Conselho Ultramarino tivesse decidido incumbir este pelos sertanistas. No caso da rota Guaporé-Mamoré-Madeira, em
mesmo ouvidor, poucos anos mais tarde, de realizar um inquérito que a Coroa acabou por ver os limites naturais e ideais para a coló-
aos sertanistas enviados às missões de Moxos. Esta iniciativa parece nia na região do Oeste brasileiro, estabelecendo a divisão entre as
ser, tal como outras anteriores, obra sua, sem que tivesse obtido minas do Mato-Grosso e o território das missões de Moxos, foi a
qualquer ordem do governador de S. Paulo ou do Rei. A ligação sua contínua utilização pelos sertanistas, ern clara violação das proi-
entre a segunda expedição às missões de Moxos de 1743 e um pos- bições da mesma Coroa, que tornou possível a recolha de informa-
sível plano pré-existente da coroa portuguesa de reconhecimento ções geoestratégicas essenciais. Estas informações vinham demons-
das fronteiras do interior brasileiro não podiam ser mais duvidosas. trar que a abertura daquela rota à navegação só poderia beneficiar
Na verdade, nada, a não ser as informações que constam do os interesses portugueses.
manuscrito do padre jesuíta Juan Escandon, procurador da província O início do debate em tomo das vantagens da abertura da rota
do Paraguai em Madrid, durante a segunda metade do século xvm, fluvial do Madeira data, pelo menos, de 1748 e prolongou-se durante
permite estabelecer qualquer relação directa entre as acções do ouvi- os anos seguintes39. Foi assim que, em Setembro do mesmo ano, a
dor Gonçalves Pereira e o poder central, em Lisboa37. Sem prejuízo Coroa, consciente da importância daquela estrada fluvial, decidiu
do valor do manuscrito do jesuíta, pensamos que devemos subli- mandá-la reconhecer de forma sistemática. Era necessário controlar
nhar alguns aspectos importantes. Em primeiro lugar, o manuscrito a navegação desde a boca do rio Madeira até ao Mato Grosso, pelo
foi escrito posteriormente ao tratado de Madrid, num quadro de que se impunha evitar que os jesuítas espanhóis continuassem a
contestação da aplicação do tratado feito pelos jesuítas, que lesava estabelecer missões na margem oriental do Guaporé. Neste sentido
fortemente os interesses da Companhia de Jesus na América do Sul. tornava-se, talvez, necessário permitir a navegação entre o Pará e
Além do mais, dada a distância temporal que medeia entre os factos Mato Grosso40.
narrados e a escrita do documento do padre Escandon, é legítimo sus-
peitar de várias inexactidões.
3fl Sobre estas expedições, realizadas em 1740-1741 e 1744-1749, ver; David

Davidson, How lhe Brazilian Wesí Was Won, pp. 86; 97-99; Basílio de Magalhães,
36 Carta de Manuel Rodrigues Torres a D. Luís de Mascarenhas, Cuiabá, 20 de Expansão Geográfica do Brasil Colonial, pp. 226-228.
Fevereiro de 1740, in A.H.U., Documentos Avulsos, Mato Grosso, 1740. 39 Cfr. Angela Domingues, Viagens de Exploração Geográfica na Amazónia em finais
37 Trata-se do manuscrito de Juan de Escandon, Sucesos de tos Jesuítas en Ias Misto- do Século XVIII: Política, Ciência e Aventura, Região Autónoma da Madeira, Funchal/
nes dei Paraguay, existente no Archivo Nacional de Madrid, leg. 120 (Cfr. Francisco /Lisboa, 1991, p. 35.
Mateos, «Avances Portugueses y Misiones Espanolas en Ia América dei Sur», in Mis- 40 Carta de Marco António Azevedo Coutínho ao governador do Maranhão,
sionalia Hispânica, ano v, n,° 15, Madrid, 1948, pp. 500-504); Ver a opinião contrária Francisco Pedro de Mendonça Gorjão, de 15 de Setembro de 1748, inANBRJ, vol. 107,
de Jaime Cortesão m AGTM, vol. m, pp. 660-663. p. 47.

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O ESBOÇO DO « C O N T I N E N T E » B R A S I L O E S B O Ç O DO « C O N T I N E N T E - BRASIL

O governador do Maranhão recebeu, então, ordens para mandar centravam-se na recolha de informações durante a viagem, que este
explorar o rio da Madeira, tarefa que deveria entregar a alguém expe- devia apontar num diário, no cálculo das coordenadas geográficas, e
riente. As instruções da Coroa referiam que os objectivos da viagem na elaboração de mapas:
de exploração eram secretos, devendo o responsável pela expedição
seguir com alguns homens em canoas armadas para poder repelir «descreverá o mesmo Amazonas em mapas, combinando as alturas,
qualquer ataque dos índios selvagens ou cristianizados. Depois de voltas e rios, com as que descrevem o mapa do padre Acunha, e Mon-
feitos os abastecimentos nas últimas aldeias dos jesuítas portugueses sieur de Lacondamine, em que seguirá o que achar mais exacto,
no rio Madeira, não deviam nunca desembarcar em terra, enquanto segundo a conferencia que fizer com o piloto António Nunes, que será
obrigado a fazer todas as observações necessárias em cada dia» 44 .
se encontrassem na região das missões de Moxos, nem trocar pala-
vras com quem quer que fosse que encontrassem ao longo da nave-
António Nunes deveria levar consigo «todos os instrumentos
gação do rio. Caberia ainda ao cabo fazer uma relação muito deta-
capazes de tomar as alturas e agulha de observar os rumos» e era
lhada da viagem, devendo tomar nota de todo o tipo de informações
obrigado a fazer o seu próprio diário da viagem, onde deveria ano-
relativa aos rios, ao relevo, à localização das povoações portuguesas
tar os dias de navegação e as latitudes observadas45.
e espanholas e ao seu número de habitantes41. Da expedição devia
As instruções de Fonseca eram ainda mais precisas quanto ao que
ainda fazer parte alguém que pudesse calcular as coordenadas geo-
este devia fazer a partir do momento em que a expedição entrasse
gráficas. Uma vez chegados ao Mato Grosso deveriam recolher todas
no rio Madeira: esperava-se que tivesseum cuidado redobrado nas
as informações possíveis sobre aquelas minas e as de Cuiabá, e sobre
observações que fosse fazendo, anotando os rumos da corrente do
outros descobrimentos mais recentes, para além, claro está, das
Madeira, o número de cachoeiras, as dificuldades em as atravessar e
informações sobre as missões espanholas.
as distâncias a que se encontravam umas das outras. A preocupação
Seguindo as ordens da Coroa, o governador do Estado do Mara-
com o cálculo das latitudes era uma constante: todos os dias deviam
nhão, Francisco Pedro de Mendonça Gorjão, em Julho de 1749 atri-
tomar a altura do Sol, principalmente na boca dos rios46.
buiu ao sargento-mor Luís Fagundes Machado o comando da expe-
Para além de novos mapas do Amazonas, que antes referimos,
dição42. A José Gonçalves da Fonseca, secretário do governo do
deveria Fonseca desenhar um mapa do rio Madeira que mostrasse
Estado do Maranhão e Pará, e ao piloto António Nunes cabia a rea-
por onde se devia navegar e que permitisse visualizar as informa-
lização de observações astronómicas43.
ções que fosse anotando sobre o rio e seus afluentes, e sobre as mis-
Como seria natural, o regimento dado pelo governador ao cabo
sões de Moxos. Uma vez chegado ao Mato Grosso, também lhe era
tratava essencialmente de questões práticas ligadas à viagem e, prin-
pedido que fizesse um mapa onde registasse todos os dados relati-
cipalmente, à segurança da expedição. As instruções dadas a Fonseca
vos à rede hidrográfica, ao relevo e às povoações portuguesas e
espanholas, nomeadamente sobre Cuiabá e sobre o caminho que
41 Carta de Marco António Azevedo Coutinho ao governador do Maranhão, ligava esta vila ao Mato Grosso47.
Francisco Pedro de Mendonça Gorjão, de 15 de Setembro de 1748, in ABNRJ, vol. 107,
p. 47.
42 Ver as instruções do governador do Maranhão no Regimento que ha de observar 44 Instrução que ha de observar j'oze Gonçalvez da Fonseca tia expedição que por ordem

o sargento-mor desta praça do Pará Luiz Fagundez Machado na expedição de que hê cabo na de Sua Magestade mando fazer feio Rio da Madeyra até ao arrayal das Minas do Mano
forma que abaixo se declara (A.H.U., Does. Avulsos, Pará, 1750). Grosso (A.H.U., Does. Avulsos, Pará, 1750); Não se conhece qualquer mapa do Amazo-
43 "empreenderá a viagem pello rio da Madeira dando lugar a que desde a boca nas do padre Acuna. E muito provavelmente uma referência ao mapa do Amazonas
athé ao Matto Grosso se façaõ os exames e observações peío que leva a instrução do padre jesuíta Samuel Fritz.
necessária Jozê Gonsalves da Fonseca (...) e alguma matéria que sobre este particular 45 Instrução que ha de observar jaze Gonçalvez da Fonseca... (A.H.U., Does. Avulsos,
comferir o mesmo Jozê Gonçalves, e o piloto António Nunes com o dito cabo, este Pará, 1750).
concorrera com o seu parecer no que for conveniente para qualquer averiguação das 46 Instrução que ha de observar joze Gonçalvez da Fonseca... (A.H.U., Does. Avulsos,

que levaõ a seu cargo; pois todas as que houverem de fazer na forma da referida ins- Pará, 1750).
trução são muy importantes ao serviço de Sua Magestade», in Regimento... (A.H.U., 47 Instrução que ha de observar Joze Gonçalvez da Fonseca... (A.H.U., Does. Avulsos,

Documentos Avulsos, Pará, 1750). Pará, 1750).

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Esta viagem de José Gonçalves da Fonseca ao rio Madeira é 4.3. As negociações diplomáticas e a
bem conhecida e Eoi de uma enorme importância para o reconheci- incorporação dos novos territórios
mento da rota fluvial do Madeira43. Sob o pretexto de conduzir no Brasil
dois paulistas, que tinham chegado ao Fará através dos rios Gua-
poré, Mamoré e Madeira, de volta às Minas do Mato Grosso, a Em Março de 1737, depois de vários esforços diplomáticos fei-
expedição, comandada por Luís Fagundes Machado, onde seguia tos pelas potências mediadoras (França, Inglaterra e Holanda), era
Fonseca, partiu de Belém em Julho de 1749. Após nove meses de assinado em Paris um armistício que punha fim às hostilidades entre
viagem chegaram ao Mato Grosso. O regresso foi mais rápido: portugueses e espanhóis no Rio da Prata. Esta convenção tornava,
tendo partido em Setembro de 1750, chegaram a Belém três meses de novo, possível a busca de uma solução negociada para os limites
depois. Desta viagem resultou um conjunto importante de infor- entre os domínios espanhóis e portugueses na América do Sul.
mações sobre as missões espanholas de Moxos, sobre as minas de Antecedendo o fim da guerra, Portugal procurara negociar sepa-
Cuiabá e Mato Grosso e as descrições da rota do Madeira de José radamente com a França a questão dos limites pretendidos para o
Gonçalves da Fonseca e do piloto António Nunes49. Dela ficaram, Brasil, esperando obter mais facilmente por intermédio desta uma
ainda, pelo menos, dois mapas: a «Carta Hidrográfica» que abrange solução para o diferendo com a Espanha. Data desta época o texto
parte do Amazonas e a rota fluvial da boca do rio Madeira até ao da Disseríation que sustentava a legitimidade dos direitos portugue-
Mato Grosso e Cuiabá, e um mapa da mesma rota que se baseia na ses à margem oriental do Rio da Prata. Este texto, escrito em francês
«Carta Hidrográfica» e que acompanha alguns dos manuscritos da por Alexandre de Gusmão e posteriormente anotado por D. Luís da
descrição da viagem de Fonseca50. Cunha, visava demonstrar, na linha da argumentação mais jurídica e
À semelhança do que acontecera com a missão dos Padres histórica do que geográfica, previamente desenvolvida pelos diplo-
Matemáticos, a expedição de Gonçalves da Fonseca e de Fagundes matas portugueses por volta de 1724, a impossibilidade de fazer
Machado é a única, de todas as explorações da rota fluvial que unia executar o Tratado de Tordesilhas. Por um lado, os portugueses
o Mato Grosso ao Pará feitas nesta época, que tinha um carácter estavam na posse da Colónia e faziam uso das suas campanhas
verdadeiramente oficial. desde o Tratado Provisional de 1681, e esta posse fora reconhecida
pela Espanha no Tratado de Utreque. Por outro, o argumento de que
teriam ultrapassado o meridiano de Tordesilhas para Oeste não
podia ser aceite, já que, a ser verdade, também os espanhóis o
teriam feito no Oriente, ao ocuparem as Filipinas51.
48 A descrição da viagem, incompleta, só foi impressa no século XIX: ver José
Algum tempo depois, ouvidas as sugestões de D. Luís da
Gonçalves da Fonseca, Navegação feita da cidade do Gtam Pará até a boca do rio da
Madeira pela escolta que por este rio subio ás minas do Mato Grosso, por ordem mui reco-
Cunha, foi elaborada a «Grande Instrução», também esta escrita,
mendada de Sua Majestade Fidelíssima no anno de 1749, in Collecção de noticias fará a his- com grande probabilidade, por Alexandre de Gusmão52. Esta «ins-
toria e geografia das nações ultramarinas, vol. IV, Academia Real das Sciencias, Lisboa, trução» destinava-se aos representantes portugueses junto das
1826. A outra parte da obra de José Gonçalves da Fonseca sobre as Minas de Cuiabá potências mediadoras. Retomava a argumentação presente na Dís-
e Mato Grosso Eoi publicada separadamente no Brasil: José Gonçalves da Fonseca, sertaiion quanto aos direitos portugueses sobre o Rio da Prata, mas ia
Notícia da Situação de Mato-Grosso e Cuyabá: Estado de umas e outras Minas e Novos des-
mais longe quanto à forma de encontrar um acordo com a Espanha
cobrimentos de Ouro e Diamantes, in R.I.H.G.B, tomo xxix (1866).
49 O relato do piloto António Nunes de Souza, intitulado Derrota desta cidade de
através da mediação da França. Admitia mesmo o fim da aliança
Santa Maria de Belém do Grão Pará para as Minas de Mato Grosso Eoi publicado em luso-britânica e do Tratado de Methuen caso a Inglaterra se escusasse
R.I.H.G.B., tomo 67, parte l, 1906, pp. 256-270.
50 Sobre a história desta expedição e dos seus resultados cartográficos ver: Max

Justo Guedes, Primórdios da exploração do Rio Madeira: a «escolta' do sargento-mor Luís 51 O texto da Dissertation foi publicado por Jaime Cortesão, AGTM, Parte III,

Fagundes Machado e a carta hidrográfica de José Gonçalves da Fonseca, s.d. (policopiado); torno l, pp. 366-416.
David Davidson, Rivers and Empire, pp. 61-62; Isa Adonias, A Cartografia da Região 2 Este texto encontra-se em Jaime Cortesão, AGTM, Parte Hl, tomo l, pp. 420-
AmazÓnica, vol. l, Ministério das Relações Exteriores, 1963, pp. 499-500. -454.

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O ESBOÇO DO - C O N T I N E N T E » BRASIL O E S B O Ç O DO «CONTINENTE» BRASIL

a cumprir as suas obrigações de auxílio militar contra a Espanha. nas negociações para a criação dos novos bispados uma simples
Propunha-se conceder à França privilégios comerciais idênticos aos estratégia para a obtenção de um reconhecimento religioso da posse
gozados pelos holandeses e ingleses, devendo a França garantir a das regiões das minas54.
segurança de Portugal e do seu império contra nações inimigas. De facto, tratava-se, antes de mais, de organizar o espaço reli-
A desadequação destas propostas, quer pelas excessivas exigên- gioso de uma forma mais racional de modo a permitir que as popu-
cias feitas à França quer pela irredutibilidade das pretensões portu- lações pudessem beneficiar de uma assistência espiritual mais efec-
guesas sobre o Rio da Prata, só podiam ter conduzido ao fracasso tiva. Afinal, não só cabia ao Estado garantir esta assistência no
destas negociações paralelas, como de facto veio a suceder. Elas quadro do Padroado régio, como era reconhecido o papel funda-
tiveram, no entanto, o mérito de fazer perceber às outras duas mental desempenhado pela religião católica na «civilização» dos
nações mediadoras, a Inglaterra e a Holanda, que era necessário evi- costumes das populações e enquanto factor de unidade no seio do
tar um acordo separado entre Portugal e a França, demonstrando a Império.
urgência da assinatura de um armistício entre a Espanha e Portugal, Já no trabalho de elaboração de mapas do Brasil, encomendado
o que conseguiram em 1737. aos dois matemáticos jesuítas em 1730, era possível ver a vontade
Foi no contexto destas negociações diplomáticas que D. Luís da do poder central de melhorar a sua organização do espaço brasi-
Cunha escreveu um texto fundamental sobre o estado do Reino e do leiro, nomeadamente do espaço religioso, pelas informações que
Império Português: as Instruções a Marco António de Azevedo Cou- solicitava sobre os limites das diferentes unidades administrativas
tinho. Embora seja um texto que aborda os mais diversos assuntos em que se dividia o Brasil e nas quais os bispados estavam incluí-
de natureza política e económica, nele se encontra também expressa dos. Desde essa época o conhecimento do interior e, sobretudo, a
a opinião de D. Luís da Cunha quanto aos limites do Brasil: sua figuração cartográfica permanecia insuficiente.
Num parecer sobre os limites dos novos bispados e prelazias do
«os marítimos deverião ser o Rio de Vicente Penssão <sic> mais ao Brasil, atribuído por Cortesão ao jesuíta Inácio Rodrigues, descul-
norte do das Amazonas, como está decidido pelo tratado de Utrecht e pava-se o autor dos possíveis erros geográficos presentes no texto
da parte de Sul o Rio da Prata, conforme o sentimento dos nossos geó-
devido ao muito tempo que decorrera desde que estivera em alguns
grafos, ainda que os espanhóis digaò o contrario. E os limites terrestres
poderião ser o Rio Paraguay, que nelle desagoa, subindo por elle athé dos locais a que se referia55. Por outro lado, da vastidão do territó-
ao lago Xaraves, ainda que o seu nascimento parece vir de mais longe, rio e do seu povoamento não davam suficiente conta os mapas do
tirando delle uma linha para West por espaço de 100 legoas, segundo Brasil:
se vê no mapa, athé encontrar o Rio Madeira que vai confundir a sua
corrente com a do Rio das Amazonas»53. «apenas se acha nas Cartas Geographícas uma idea da costa do mar,
mas ainda essa, por ser em ponto miúdo, diminutissima quanto aos
A solução para o problema dos limites do Brasil não passava precisos lugares da Costa por nomes de Villas, e Sítios de pouca monta,
apenas pela obtenção de um acordo diplomático com a Espanha. Na os quaes não costumão pôr-se nas cartas (...) mas são essenciaes
quando se trata de semelhantes divizoens de districtos e das circuns-
verdade, era necessário legitimar por todos os meios disponíveis a
tancias que devem considerar-se ao fazelas; para as quaes não pode a
expansão portuguesa para Ocidente por forma a garantir a segu-
única vista da Carta produzir o conceito necessário a quem se não aju-
rança das regiões das minas e a sua posse por Portugal. Tal como em dar das espécies memorativas do que tiver visto e pizado»56.
1676, ao estabelecer-se o bispado do Rio de Janeiro se lhe dera por
limite sul o Rio da Prata, também em 1745 o projecto de criar novas
dioceses no Brasil correspondia a uma vontade de sancionar pela via
eclesiástica os controlo de um território. Seria, contudo, errado ver 54 David Davidson, Rivers and Empire, pp. 54-55.
55 «Parecer sobre os limites dos bispados e prelazias novamente criados no Bra-
sil» (('« Jaime Cortesão, ACTM, Parte III, tomo II, pp. 168-184).
53 Instruções Inéditas de. D. Luís da Cunha a Marco António de Azevedo Cominho, Aca- 56 «Parecer sobre os limites dos bispados e prelazias novamente criados no Bra-
demia das Ciências, imprensa da Universidade, Coimbra, 1929, p. 216. sil» (in Jaime Cortesão, ACTM, Parte III, tomo II, p. 183).

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O projecto de criar um bispado na região das minas remonta A análise detalhada das negociações que estiveram na origem
pelo menos a 1722, muito embora só em 1745 se tenha procurado do tratado assinado em Madrid em Janeiro de 1750, bem como das
obter a aprovação papal para a criação de dois novos bispados, um tentativas posteriores para a sua execução in loco, caem fora do
com sede em S. Paulo e o outro em Minas Gerais. Para as regiões âmbito deste estudo. Interessa-nos aqui, sobretudo, perceber como
onde a descoberta de ouro tinha sido mais tardia foram solicitadas os limites ali acordados constituem o culminar de um processo
duas prelazias, uma em Goiás e outra em Cuiabá, com jurisdição longo de definição do espaço sul-americano, ainda que o problema
sobre o Mato Grosso. dos limites dos domínios de Portugal e de Espanha na América do
No mesmo ano de 1745, em Dezembro, pela bula Candor Luas Sul não tenha encontrado uma solução definitiva no século xvm.
eram estabelecidos os novos bispados e prelazias. Mas as negocia- O Tratado de Madrid, que revogava o de Tordesilhas, conside-
ções com a Santa Sé prolongaram-se durante o ano seguinte, já que rado inaplicável, punha fim a um diferendo de séculos acerca da
os diplomatas portugueses pretendiam obter a autorização papal determinação da passagem deste meridiano na América do Sul. Por-
para a coroa portuguesa poder ajustar posteriormente os limites defi- tugal renunciava à posse da Colónia do Sacramento e ao projecto de
nitivos das dioceses do Brasil e do Maranhão, argumentando com o estabelecer os limites sul do Brasil no Rio da Prata. Em troca, a
insuficiente conhecimento do «sertão» e com a falta de mapas ver- Espanha entregava a Portugal o território dos Sete Povos das mis-
dadeiramente detalhados que permitissem decidir por onde se sões de índios do Uruguai. Reconhecia ainda a soberania portu-
deviam traçar os limites entre os bispados, principalmente no inte- guesa sobre as regiões de Santa Catarina, Rio Grande de S. Pedro,
rior do continente. Foi assim possível convencer a Santa Sé a dar o Mato Grosso, Cuiabá e Goiás e ainda sobre a rnaior parte da bacia
seu consentimento a que os limites dos bispados definidos nos amazónica.
cinco anos posteriores à bula pudessem depois ser alterados quando Tendo por base, para a definição dos limites das duas coroas, a
fossem estabelecidos na sua forma definitiva. busca de barreiras naturais como os rios e o relevo, por um lado, e
Pouco tempo depois, em 1748, criava a Coroa duas novas capi- o princípio do uti possid&tis, isto é, a efectiva ocupação do território
tanias no Brasil: uma em Goiás e outra em Mato Grosso. Tal como feita por portugueses e espanhóis, pré-existente à assinatura do tra-
no caso das dioceses, tratava-se de organizar o espaço de uma tado, por outro, o tratado acabou por dar forma ao território brasi-
forma mais racional de modo a permitir urna melhor gestão dos leiro numa configuração muito próxima do Brasil actual.
recursos e uma administração mais eficaz. Além do mais impunha- O tratado, pelas alterações que significava em relação à divisão
se reforçar a presença do Estado em territórios que faziam fronteira da América do Sul segundo Tordesilhas é, regra geral, visto como
com as missões espanholas de Moxos. Estava, obviamente, em uma grande vitória da diplomacia portuguesa, que conseguia por
causa o reforço da soberania portuguesa sobre estes territórios. esta forma ver sancionada a ocupação de territórios sul-americanos
As negociações directas entre Portugal e Espanha para encontrar que os colonos e os missionários portugueses vinham fazendo desde
uma solução para o diferendo que opunha as duas nações na ques- há longo tempo. Para reforçar esta ideia, é normalmente citado
tão da definição dos domínios respectivos na América do Sul foram como exemplo o «Mapa das Cortes», com base no qual o tratado foi
iniciadas em 1747, depois do restabelecimento das relações diplo- assinado. Este mapa, elaborado provavelmente em Portugal com
máticas ocorrido no ano anterior. A este facto não foi estranha a base em diferentes fontes cartográficas e textuais, sob a orientação
morte do rei de Espanha, Filipe V, e a sua substituição por Fernando de Alexandre de Gusmão, teria induzido em erro os diplomatas
VI, casado com a filha de D. João V, D. Maria Bárbara de Bragança, espanhóis, não só pelas inexactidões que contém relativamente ao
que desempenhou um pape! activo na reaproximação das duas cor- território sul-americano, mas também e, principalmente, por estar
tes e, nomeadamente, na busca de uma solução para o problema viciado nas longitudes, apesar de, no mapa, só as latitudes estarem
sul-americano57. numeradas58.

57 Luís Ferrand de Almeida, Alexandre, de Gusmão, o Brasil e o Tratado de Madrid 58 Jaime Cortesão, ACTM, vol. iv, pp. 877-883; Luís Ferrand de Almeida, Alexan-

, Coimbra, 1990, pp. 34-35. dre de Gusmão, o Brasil e. o Tratado de Madrid (1735-1750), p. 42.

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Ainda admitindo que esta deformação do território sul-ameri- mento da ocupação territorial feita pelos portugueses na América do
cano possa ter levado os diplomatas espanhóis a pensar que o Sul. Por outro lado, os conflitos entre portugueses e espanhóis nas
avanço dos portugueses para oeste do meridiano de Tordesilhas era faixas fronteiriças onde se defrontavam os colonos das duas coroas,
menor do que o que acontecia na realidade, o acordo conseguido quer na região amazónica, quer em Mato Grosso, quer ainda na
em Madrid não pode ser apenas explicado por uma viciação da car- região do Uruguai, não eram benéficos a nenhum dos dois Estados
tografia, por muito que esta possa ter desempenhado um papel e só traziam vantagens à França e à Inglaterra pelo enfraquecimento
importante. Até porque não faltava a fundamentação científica das que implicava das duas nações ibéricas. À Espanha era necessário,
teses espanholas relativamente às usurpações territoriais portugue- ainda que com grandes cedências territoriais, deter o avanço cons-
sas em relação ao meridiano de Tordesilhas. Tratava-se da Diserta- tante dos portugueses, já que não tinha meios humanos e militares
tión Histórica y Geográfica sobre el Meridiano de Demarcación escrita por que lhe permitissem recuperar todo o território ocupado pelos portu-
Jorge Juan e António de Ulloa, impressa em 1749, onde estes auto- gueses que lhe deveria pertencer segundo o Tratado de Tordesilhas61.
res, baseados nas observações astronómicas feitas por La Conda- Mais difícil do que o reconhecimento da soberania portuguesa
mine e D. Pedro Maldonado na bacia amazónica e num mapa fran- sobre os territórios das minas situados no interior da América do
cês da América do Sul de 1742, mandado fazer pelo conde de Sul, foi aceitar a troca da Colónia do Sacramento pelo território dos
Maurepas, Ministro da Marinha de França, para além do mapa do Sete Povos das missões jesuítas situados na margem esquerda do rio
Amazonas feito por La Condamine, procuraram demonstrar a ocupa- Uruguai. A cedência daquele território, onde estavam implantadas
ção ilegítima do território espanhol na América do Sul feita pelos missões que pertenciam à província jesuíta do Paraguai surgia como
portugueses. A Portugal, segundo os autores da Disertaciótt, cabia uma traição a esta ordem religiosa que desempenhara até então um
devolver à coroa espanhola, se o Tratado de Tordesilhas fosse res- papel central na pacificação e «civilização» dos índios e na ocupação
peitado, um território com mais de 400 léguas marítimas de longi- do espaço sul-arnericano em nome da coroa espanhola. A resistên-
tude, de Oriente a Ocidente, ao longo de todo o continente sul-ame- cia do diplomata espanhol, José de Carvajal, principal negociador do
ricano. Só razões políticas importantes permitem explicar que o tratado pelo lado da Espanha, a esta proposta portuguesa da autoria
texto da Diseriación não tenha circulado, apesar de impresso, tendo de Alexandre de Gusmão só foi vencida mediante a ameaça dos
os vários exemplares ficado armazenados na Secretaria de Despacho diplomatas portugueses de romper as negociações62.
de Marina e índias até 1775, quando num novo contexto de antago- Mas se a cedência da Colónia do Sacramento era tão importante
nismo entre as coroas ibéricas, a divulgação da obra de Juan e Uiloa para Carvajal, ao ponto de ter aceitado trocá-la pelo território das
se tornou oportuna. Mas se o texto não foi divulgado até àquela sete missões jesuítas, tal devia-se menos ao facto de constituir uma
data é mais difícil de aceitar que Carvajal não tenha dele tido conhe- ameaça militar portuguesa do que ser, na realidade, uma porta por
cimento aquando das negociações com Portugal59. onde se passava uma parte importante do contrabando no Rio da
Na verdade, para a coroa espanhola, na visão de Carvajal era Prata. E não era apenas o comércio ilícito feito por portugueses que
fundamental chegar a um acordo com Portugal60. A írredutibilidade se pretendia evitar. Na verdade, tratava-se de impedir a penetração
da diplomacia espanhola na defesa do meridiano de Tordesilhas comercial inglesa na América espanhola, que ganhara novo alento
como linha demarcadora não impedira até àquela data o alarga- depois dos tratados de Utreque, e que se servia da Colónia do Sacra-
mento para a obtenção dos couros e da apetecida prata63. Alérn do
59 Luis J. Ramos Gómez, Jorge Juan y António de Ulloa y el Meridiano dt Tordesillas:

Ia Disertación Histórica y Geográfica (1747-1776) in El Tratado de Tordesillas y su Época, 51 Manuel de Lucena Giraldo, El Tratado de Limites de 4750 desde Ia perspectiva

Sociedad V Centenário dei Tratado de Tordesillas/ Comissão Nacional para as Come- espaiiola, in E! Tratado de Tordesiílas y su Época, Sociedad V Centenário dei Tratado de
morações dos Descobrimentos Portugueses, Madrid, tomo Hl, 1995, pp. 1561-1589. Tordesillas/ Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portu-
60 Sobre Carvajal e a sua política em direcção a Portugal ver Didier Ozanam, La gueses, Madrid, tomo in, 1995, pp. 1611-1625.
Política Exterior de Espana en Tiempo de Felipe V y de Fernando VI, in Rarnón Menendez 52 Manuel de Lucena Giraldo, El Tratado de Limites de 1750 desde Ia perspectiva

Pidal, Historia de Espana, tomo XXIX (La Época de los Primeros Borbones, voi. l), Espasa espanola, pp. 1618-1619; Jaime Cortesão, ACTM, vol. IV, pp. 884-902.
Calpe, Madrid, 1996, pp. 644-661. 63 Luís Ferrand de Almeida, «Problemas do Comércio Luso-Espanhol nos Meados

168 169
O E S B O Ç O DO « C O N T I N E N T E » BRASIL O E S B O Ç O DO - C O N T I N E N T E » B R A S I L

mais, não podia Carvajal ignorar os projectos acalentados pelos e Melo, grande crítico do que fora alcançado em Madrid, não in-
ingleses em 1740, que consistiam no envio de uma importante fluenciou favoravelmente a aplicação do tratado. Do mesmo modo,
armada ao estuário do Prata para a conquista de Buenos Aires e a a morte de Carvajal, em 1754, seguida do falecimento de D. Maria
ocupação dos territórios entre a Colónia do Sacramento e o Rio Bárbara, em 1758, e de Fernando VI, em 1759, com a substituição
Grande de São Pedro64. Ou seja, para além do contrabando, Carvajal deste por Carlos III, também adversário do convénio, acabaram por
via na Colónia, como bem salientou Jaime Cortesão, «a segura base conduzir à anulação do tratado em 1761.
de uma possível invasão inglesa»65. Assim se explica que cedesse à Apesar de não ter sido possível aplicá-lo, o Tratado de Madrid
chantagem diplomática de Alexandre de Gusmão, aceitando por fim constituiu um marco profundamente inovador na definição dos
o território dos Sete Povos como o equivalente a dar à coroa portu- limites das duas coroas ibéricas na América do Sul. Ao admitir a
guesa pela Colónia do Sacramento. Ao mesmo tempo que fazia a revogação de Tordesilhas e o estabelecimento dos limites territoriais
paz com Portugal, a coroa espanhola garantia, pelo menos de um com base em novos critérios, como a ocupação da terra pelos colo-
ponto de vista formal, a sua soberania exclusiva sobre o Rio da Prata. nos e a busca de balizas naturais, abriu um precedente que iria
Como é sabido, a execução do acordado em Madrid revelou-se influenciar profundamente as negociações posteriores, nomeamente
extremamente difícil, não apenas pela falta de um número suficiente o Tratado de Santo Ildefonso, assinado em 1777. Por outro lado, o
de quadros qualificados e de instrumentos científicos de que as na- trabalho das comissões demarcadoras permitiu recolher uma quan-
ções ibéricas se pudessem servir para levar a cabo, no terreno, as tidade e uma qualidade sem precedente de informações científicas
demarcações dos limites estabelecidos pelo tratado, mas também sobre o território suí-americano que melhorou grandemente o seu
pelo desconhecimento geográfico que tinham do interior sul-ameri- conhecimento por parte dos dois Estados.
cano e das dificuldades que as demarcações poderiam implicar. Mas
foi sobretudo a resistência que o tratado encontrou na sua aplicação
por parte dos jesuítas espanhóis, que se recusaram a abandonar o
território dos Sete Povos, dando origem à chamada Guerra Guaraní-
tica (1754-1756), e a oposição que se fez sentir em Portugal contra a
cedência da Colónia do Sacramento e o abandono da antiga preten-
são de estender até ao rio da Prata os limites meridionais do Brasil,
que acabaram por inviabilizar o tratado.
A morte de D. João V, em 1750, e a subida ao trono de D. José,
que significou a ascensão ao governo de Sebastião José de Carvalho

do Século XVIII», separata da Revista de História Económica e Social, 1982, p. 103; Ángel
Sanz Tapia, El Final dd Tratada de Tordesillas: La expedición dei virrey Cevallos ai Rio de
La Plata, Sociedad V Centenário dei Tratado de Tordesiílas, Valladolid, 1994, p. 18.
A questão da importância do contrabando inglês realizado através da Colónia do Sacra-
mento não é pacífica, principalmente no que respeita ao seu âmbito cronológico. Luís
Ferrand de Almeida, num trabalho que continua hoje de leitura fundamental, subli-
nhou o facto de o contrabando inglês, feito através da praça portuguesa, constituir
uma realidade no século xviu, mas não nas décadas imediamente posteriores à fun-
dação da Colónia. Neste sentido não têm qualquer fundamento as teses que pro-
curam explicar o estabelecimento da Colónia devido a uma possível influência
inglesa. Cfr. Luís Ferrand de Almeida, A Colónia do Sacramento na Época da Sucessão de
Espanha, pp. 36-38; 148-150.
64 Jaime Cortesão, AGTM, vol. tv, pp. 755-761.

"Jaime Cortesão, AGTM, vol. IV, p. 762.

170 171
01

o
z
n
r
c
C/3

O'
rr
c/1
Embora estejamos plenamente conscientes de que este estudo
não constitui mais do que um esboço para um recolocar de questões
que pensamos essenciais para a compreensão da progressiva defini-
ção do espaço brasileiro nos séculos xvii e XVIII, cremos ser possível
avançar algumas conclusões, ainda que provisórias.
Em primeiro lugar, fica, de certo modo, demonstrado que a for-
mação do território brasileiro é resultante de um processo extrema-
mente complexo, fruto de diferentes projectos, tentativas e hesita-
ções. A constituição deste espaço e, sobretudo, das suas áreas de
fronteira no século xvni, foram, antes de mais, o resultado da conju-
gação de esforços privados e de estratégias estatais nem sempre, na
sua origem, coincidentes nos seus objectivos e nos seus interesses.
Neste sentido, convém sublinhar a evolução do entendimento
do problema da delimitação dos domínios portugueses e espanhóis
na América do Sul, por parte dos ministros da coroa portuguesa.
Impossibilitada a resolução técnica do problema, como ficou patente
no Tratado Provisional de 1681, assistimos, no século XVTII, a suces-
sivas soluções diplomáticas parciais que, longe de resolverem a ques-
tão, permitiram o seu adiamento. Aos limites definidos de acordo
com o meridiano de Tordesilhas procuraram-se substituir os limites
negociados no Tratado de Utreque, que reconheciam os direitos por-
tugueses sobre a margem oriental do rio da Prata e a posse da Coló-
nia do Sacramento, do mesmo modo que estabeleciam a posse por
Portugal da margem norte do Amazonas.
Por outro lado, durante as primeiras décadas do século xviii,
devido, essencialmente, à descoberta de minas de ouro no interior,
que projectaram o Brasil para o primeiro lugar nas preocupações
geopolíticas do Império, a Coroa delineou uma nova estratégia de
domínio territorial que tinha por objectivo a busca de limites «natu-
rais» que justificassem os políticos. Ou seja; estas balizas naturais
deviam ser encontradas de forma a sancionar a ocupação do territó-
rio já feita pelos luso-brasileiros, garantindo simultaneamente a
soberania portuguesa sobre outros territórios que, ainda que não
colonizados, a coroa portuguesa pretendia reservar para si.

175
CONCLUSÕES CONCLUSÕES

É neste quadro que devemos entender o projecto de contratação É aos sertanistas, fossem eles «paulistas» ou «reínóis», que se
dos Padres Matemáticos. Este surge, assim, no contexto de uma deveu, em primeiro lugar, a abertura da rota das monções de S. Paulo
(re)definição da política do Estado de reconhecimento do território - a Cuiabá e, num segundo momento, o descobrimento e exploração
controlado ou a controlar - em resposta aos avanços dos missioná- da rota do Madeira. A abertura desta estrada fluvial, unindo o Mato
rios jesuítas espanhóis, e da necessidade de encontrar novos limites Grosso e o Pará, foi feita à revelia da Coroa e numa violação clara
para o Brasil, em função da colonização já efectuada ou em vias de das suas proibições. Se o Estado português reconheceu, posterior-
realização e, sobretudo, de acordo com os interesses económicos da mente, a importância geoestratégica desta rota, ordenando a sua
Coroa. exploração por uma expedição oficial e decidindo a sua abertura à
Contudo, o projecto do «Novo Atlas da América Portuguesa», navegação, o certo é que, neste caso, o Estado apenas veio sancionar
tal como finalmente foi encomendado aos dois cartógrafos jesuítas, o que já fora realizado pelos sertanistas.
se visava uma exacta representação do território brasileiro do «Mara- As fronteiras do Brasil, delineadas no Tratado de Madrid na sua
nhão» ao «Rio da Prata», constituía também um esforço no sentido configuração quase actual resultaram, no essencial, do movimento
da realização de mapas das áreas mineiras do «sertão» e, portanto, de de ocupação territorial da primeira metade do século XVIII, que o
uma apropriação de um espaço eminentemente valioso, até aí não Estado tentou controlar e do qual procurou beneficiar, mobilizando
figurado cartografícamente. os seus recursos diplomáticos por forma a garantir-lhes um reco-
Ao reforço da autoridade do Estado nas novas regiões das nhecimento político.
minas, através do fisco, do aparelho judicial, da política de fixação O que é interessante, no caso do Brasil, é a forma como o Estado
das populações através da transformação dos «arraiais» das minas procurou, desde cedo, articular a ocupação do território feita pelos
em núcleos urbanos, e mesmo, da presença militar, vinha juntar-se o colonos e, em outros casos, pelo mesmo Estado, com um projecto
projecto de uma nova divisão administrativa e eclesiástica que se de organização do espaço onde a delimitação dos dois Estados, do
pretendia efectivar com base nos resultados cartográficos da missão Maranhão e do Brasil, dos bispados, das capitanias e das outras uni-
dos padres matemáticos. dades administrativas constituíam uma tarefa essencial. Mas este era
Se o «Novo Atlas da América Portuguesa» não passou de um um projecto desmedido para a vastidão do território que se preten-
projecto só concretizado em parte para o Brasil meridional e para a dia organizar, principalmente se dependente apenas do trabalho de
região das minas, nem por isso o trabalho cartográfico dos padres dois cartógrafos jesuítas. Só ao longo do século XVIII seria possível ao
matemáticos deixa de ter importância. Tratou-se da primeira tenta- Estado português levar a cabo de forma efectiva o levantamento car-
tiva realizada no século xvili de fazer mapas de todo o território da tográfico do território brasileiro, trabalho este que se prolongou du-
colónia a partir de observações feitas no terreno, ainda que com rante o século seguinte. De qualquer modo, o entendimento de que
uma técnica mista, que misturava observações astronómicas feitas só pelo conhecimento geográfico detalhado do território e pela rea-
com instrumentos científicos, com informações e mapas de serta- lização de mapas rigorosos, com indicação de latitudes e longitudes,
nistas e bandeirantes. Por outro lado, os mapas dos padres jesuítas onde o espaço estivesse claramente definido e delimitado, era possí-
foram não apenas fundamentais para a preparação do Tratado de vel intervir no território e administrá-lo de uma forma eficaz, já era
Madrid, sobretudo para o Brasil meridional, como foram utilizados uma realidade para os ministros da coroa portuguesa durante a pri-
para traçar o «Mapa das Cortes» que serviu de base às negociações meira metade do século xvm.
diplomáticas.
Mas é fundamental sublinhar que uma parte importante da
recolha de informações geográficas sobre o interior da América do
Sul resultou não de um plano sistemático traçado pela Coroa mas
sim das explorações realizadas por sertanistas, em busca de índios,
de metais e de pedras preciosas, ou ainda com o propósito de reali-
zar trocas com as missões dos jesuítas de Moxos e Chiquitos.

176 177
LISTA DOS MAPAS E PLANTAS DO BRASIL
DOS PADRES MATEMÁTICOS
OU QUE LHES FORAM ATRIBUÍDOS

Planta do Forte de Villeganhon na enceada do Rio de Janeiro.


Diogo Soares. 1730. 19,4 x 31,2 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil,
n.° 1081).

Planta do Forte de S. Diogo na Barra do Rio de Janeiro.


Diogo Soares. 1730. 18,4 x 31,4 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil,
n.° 1082).

Planta da Fortaleza, ou Bataria da Praya Vermelha na Costa do Sul da Barra do


Rio de Janeiro, e a pouca distância dela.
Diogo Soares. 1730. 19,3 x 32,5 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Bra-
sil, n.° 1083).

Planta da Fortaleza da Lage na Barra do Rio de Janeiro.


Diogo Soares. 1730. 18,8 x 32 cm. (A.H.U, Cartografia Manuscrita do Brasil,
n.° 1084).

Planta da fortaleza de N. S. da Conceição da Cidade do Rio de Janeiro.


Diogo Soares. 1730. 19 x 32,3 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil,
n.° 1085).

Planta das Fortalezas de terra no morro de S. João, Barra do Rio dejaneyro.


Diogo Soares. 1730. 19,3 x 32,2 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Bra-
sil, n.° 1086).

Planta da Fortaleza de S. Sebastião da Cidade do Rio de Janeiro.


Diogo Soares. 1730. 19,5 x 32,7 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Bra-
sil, n.° 1087).

Planta do Forte de S. loão na Barra do Rio de laneyro.


Diogo Soares. 1730. 19 x 32 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil,

179
LISTA DOS MAPAS E PLANTAS DO BRASIL LISTA DOS MAPAS E PLANTAS DO BRASIL

[Plano da Barra e Porto do Rio de Janeiro]. Domingos Capassi. 17301. Nova e 1." carta da Terra Firme, e costas ao Brasil ao Meridiano do Rio de Janeiro,
desde o Rio da Prata athe Cabo Frio, com o novo caminho do Certão do Rio Grande
Carta topographica da Nova Colónia e cidade do Sacramento no Grande Rio da athe a cidade de S. Paulo. O.E.D. Ao Poderozisstmo Rey e Senhor D. João V. Pelo
Prata.T.D.E.O. Ao Poderosíssimo Rey e [S\enhor D. João V &c. Pelo PM. Diogo PM. Diogo Soares S. J. seu G.R. no mesmo Estado.
Soares S.I. Seo Geographo no Estado do Brazil. Anno de f 731 Diogo Soares, [ca.1740]. 50 x 71,4 cm. (S.G.E., Gaveta «Mapas da Costa do
Diogo Soares. 1731. 54 x 79,8 cm. (A.H.E., 014/M-1/G-2 -B-3). Brasil», 2/ 7-36 e 4-3/ 33).
O Grande Rio da Praia na América Portuguesa e Austral.T.D.E.O. Ao Poderosís- A Vila da Laguna e barra do Taramandí na costa do Brasil e America Portiigueza
simo Rey e Senhor D. JoaÕ V no seo real Concelho Ultramarino. Pelo PM. Diogo a 1a aos 28. 19'. 31» a 2." aos 29. 51'. 57. 17 de íatitud austral. Pelo P.M. Diogo
Soares S.I. Seo Geographo no Estado do Brazil. Colónia. 1731. Soares S. J. Geogr. Reg. no mesmo estado. 1738.
Diogo Soares. 1731. 42,5 x 71,2 cm. (A.H.E. 018/M-11/G-2-B-10). Diogo Soares. 1738. 23,4 x 31,2 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Bra-
[Mapa da costa do Brasil entre o Rio Grande de S. Pedro e o cabo de Santa sil, n.° 1215).
Maria]. [Diogo Soares], [ca.1740]. 23,7 x 32,5 cm. (A.H.U., Cartografia Ma- Carta 4." A costa da Ponta da Araçatuba, Ilha de S. Catarina, Rio de S. Francisco
nuscrita do Brasil, n.° 1243). a Parnagttá até a barra de Ararapira com farte do caminho do Certão.
Mapa topográfico da Barra, dos baixos, das Ilhas e Prayas do Porto de Nova Coló- Diogo Soares, [ca. 1737]. 30,2 x 43,5 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do
nia dos Portugueses feito por um curioso da Companhia de Jesus a efeito de se Brasil, n." 1138).
oportunamente fortificar no anno de Í73Í. Carta 5." da Costa do Brasil ao Meridiano do Rio de Janeiro. Desde a barra de Ibe-
Diogo Soares ou Domingos Capassi. 1731.44,5 x 64,3 cm. (A.H.E., 017/M- petuba até à ponta do Guaruyaba, na E. de Syri.Peh P.M. Diogo Soares S. J. C.
-1/G-2-B-3). R. no E. do Brazil.
Diogo Soares, [ca. 1737].19,4 x 32,2 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do
Mapa topographico da Capitania do Rio dejatteyro. Feito e offerecido A Magestade
Brasil, n.° 1139).
de El Rey N. Senhor Dom João o V. [...] Capasi da Companhia [...] de Jesu.
Domingos Capassi. [ca. 1730]. 48 x 87 cm. (B.N.R.J., Iconografia, ARC 23-1-1). Carta 6." da costa do Brazil ao meridiano do Rio de Janeiro, Dez a ponta de Ara-
çatuba athe à barra de Guaratuba. Pelo P.M. Diogo Soares S. J. G. R. no Estado
Carta Corográfica da Capitania do Rio de Janeiro desde Paraty athe o cabo de
do Brazil.
S. Thome2.
Diogo Soares. 1737.18,1 x 31,3 cm. (Mapoteca do Itamaraty, n.° 778a).
[Diogo Soares?].[ca.1735 ]. 43,1 x 57,6 crn. (S.G.E., Gaveta «Rio de Janeiro
Histórica» - 8, 1/5-50 e 1-1/43). Cana 6." da costa do Brazil ao meridiano do Rio de Janeiro desde a ponta de Ara-
çatuba até à barra de Guaratuba. Pelo P.M. Diogo Soares S. J. G. R. no Estado do
[Mapa abrangendo a costa do Brasil desde a baía de Paranaguá até à foz do
Brazíl.
Rio da Prata e, no sertão, os cursos dos rios Paraguay, Uruguay e Paraná].
Diogo Soares, [ca. 1737]. 19 x 32,5 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do
[Diogo Soares].[ca.1740]. 44 x 63 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Bra-
Brasil, n.° 1140).
sil, n." 1244).
Carta 7-" da costa do Brazil, ao meridiano do Rio de Janeiro. Desde a barra de Ber-
1 Conhece-se a cópia reduzida deste mapa feita por Jean Baptiste Nicolas Denis d'Après tioga athe ponta de Guaratuba. Pelo P.M. Diogo Soares S. J. G. R. no Estado do
de Manneviliette intitulada «Plan de Ia Baye de Riojaneiro» (B.N.P., Section de Canes et Brazil.
Plans, SH, PF166, Div. 9, p. 8), depois gravada, em 1751, pelo mesmo d'Après de Manne- Diogo Soares, [ca. 1737]. 19 x 32,3 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do
viliette, com o título «Plan de Ia Baye et du Port de Rio-Janeiro levée géometriquement en Brasil, n.° IU\}.
1730, vérifié par 1'auteur en 1751» (B.N.P., Caries et Plans, Ge.DD. 2987, n.° 9483). Este
Caria 9-a da costa do Brazil desde a Barra de Santos até a da Marambaya. Pelos
último mapa existe também na Biblioteca Nacional de Lisboa (B.N.L., C.C. 699 V).
PP. Diogo Soares e Domingos Capaci S. J. G. R. no Estado do Brazil.
J Este mapa inclui-se nesta listagem porque pelo seu título e dimensões parece
Diogo Soares e Domingos Capassi. [ca. 1737], 18,8 x 31,7 cm. (A.H.U., Car-
ser o mesmo que consta da listagem proposta por Jaime Cortesão e por Serafim Leite.
tografia Manuscrita do Brasil, n.° 1142).
Contudo, depois de uma melhor observação, temos dúvidas sobre a atribuição deste
mapa a Diogo Soares ou mesmo a Capassi. O mapa em questão é, muito provavel- Carta 10." da costa do Brazil, ao meridiano do Rio de Janeiro. Desde a barra de
mente, uma cópia daquele que foi identificado por Serafim Leite, apesar de não se Marambaya até cabo frio. Pelos PP. Diogo Soares e Domingos Capacy S. J. G. R-
encontrar assinado, ao contrário do mapa indicado por Serafim Leite (Cfr. Serafim no Eslado do Brazil.
Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, tomo ix, p. 132; Jaime Cortesão, ACTM, Diogo Soares e Domingos Capassi. [ca. 1737].19 x 32,5 cm. (A.H.U., Carto-
vol. II, p. 503). grafia Manuscrita do Brasil, n.° 1143).

180 181
LISTA DOS MAPAS E PLANTAS DO BRASIL

O Rio de S. Francisco Xavier na América Austral e Portuguesa. Aos Z6. 12' e $8»
de Latitud. Pelo PM. Diogo Soares Geógrafo Régio no Estado do Brazil.
Diogo Soares, [ca. 1737]. 19,5 x 31, 6 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do
Brasil, n* 1144).

Cana dos Rios e córregos em que se descobrirão e mineraõ os diamantes desde o


Anno de 1729 athe o yrezenle de 4734.
[Domingos Capassi ou Díogo Soares].1734. 64,4 x 48,1 cm. (G.E.A.E.M.,
n.° 4637, Arm. 3, Prat. 38, pasta 52).

[Mapa da região do aíto rio Doce (Ribeirão do Carmo), rio das Velhas e rio MAPAS E PLANTAS
Paraopeba],
[Diogo Soares] . [ca. 1736]. 19,7 x 32,4 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita
do Brasil, n.° 1175).

[Mapa abrangendo a região entre o alto rio Doce (Ribeirão do Carmo), o rio
das Velhas, o rio Paraopeba e o rio S. Francisco].
[Diogo Soares], [ca. 1736]. 19,7 x 32,4 crn. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do
Brasil, n.°1173).

[Mapa da região entre os rios Arasuahi, Jequitinhonha e rio das Velhas].


[Diogo Soares], [ca. 1736]. 19,8 x 32,4 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do
Brasil, n° 1172).
[Mapa da região entre o rio Jequitinhonha e o rio Arasuahi].
[Diogo Soares], [ca. 1736]. 19,9 x 31,4 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do
Brasil, n.°1174).

182
Os mapas e plantas a seguir apresentados estão numerados de acordo
com o mapa da figura l e a legenda respectiva, que se encontram nas
páginas 102 e 103. A descontinuidade da numeração deve-se ao facto
de apenas alguns dos mapas e plantas referidos na figura l serem
reproduzidos neste caderno a cores.
Mapa 2 - O Grande Rio da Prata na América Portuguesa e Austral.
Diogo Soares- 1731. 42,5 x 71,2 cm. (A.H.E. 018/M-11/G-2-B-10).

Mapa 3 - [Mapa da costa do Brasil entre o Rio Grande de S. Pedro e o cabo de Santa Maria]
[D10go Soares], [ca.1740]. 23,7 x 32,5 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil, n.» 1243).
i s"-"

Mapa 4 - A Vila da Laguna e barra do Taramandi na costa do Brasil e America PorJugueza.


Diogo Soares. 1738. 23,4 x 31,2 cm.(A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil, n.° 1215),

Mapa 5 - Carta $.a da Costa do Brasil ao Meridiano do Rio de Janeiro. Desde a barra de Ibepetuba até à poma do Guarupaba, na E. de Syri.
Diogo Soares, [ca. 1737].19,4 x 32,2 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil, n.° 1139).
Mapa 7 - [Mapa abrangendo a costa do Brasil desde a baía de Paranaguá até á foz do Rio da Prata e, no sertão, os cursos dos rios Paraguay,
Uruguay e Paranã].[Diogo Soares].[ca.1740]. 44 x 63 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscnta do Brasil, n.° 1244).

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Mapa 8 - O Rio de S. Francisco Xavier na América Austral e Portuguesa.


Diogo Soares, [ca. 1737]. 19,5 x 31, 6 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil, n.° 1144).
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Mapa 9 - Carta 4." A costa da Ponta da Araçatuba, Ilha de S. Catarina, Rio de S. Francisco a Parnaguá até a barra de Ararapira
com parte do caminho do Cenão. Diogo Soares, [ca. 1737], 30,2 x 43,5 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil, n.° 1138).

Mapa 10 - Cana 7-" da cosia do Brazií, ao meridiano do Rio de Janeiro. Desde a barra de Bertioga alhe ponta de Guaraluba.
Diogo Soares, [ca. 1737]. 19 x 32,3 cm. (A.H.U., Cartografia do Brasil, n,° 1141).
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Mapa 12 - Plan de Ia Baye de Riojaneiro siluee a Ia coste du Bresil par ZZ" 54' de Latitude Méridionale
eí 45 deg. à 1'Occident du Míridien de Paris. Réduit sur celui aui a été leve en 1730 W /e P Capassi.
Jean Baptiste Nicolas Denis d'Après de Manevillette. [1751]. 31,4 x 19,2 cm.
(B.N.P., Canes ei Plans, SH, PF.166, Div.9, p. 8.)
Mapa 14 - Nova e -í." curtia dá Terra Firme, e cosias do Brasil ao Meridiano do Rio de Janeiro, desde o Rio da Prata athe Cabo Frio,
com o novo caminho do Ceríão do Rio Grande aihe a cidade de S. Paulo.
Diogo Soares, [ca.1740]. 50 x 71,4 cm. (S.G.E., Gaveta «Mapas da Costa do Brasil», 2/ 7-36 e 4-3/ 33)

'

Mapa 17 - [Mapa abrangendo a região entre o alto rio Doce (Ribeirão do Carmo), o rio das Velhas, o rio Paraopeba e o rio S. Francisco].
[Diogo Soares], [ca. 1736]. 19,7 x 32,4 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil, n.° 1173).
Mapa 18 - Carta dos Rios e córregos em que se descobrirão e mineraõ os diamantes desde o Anuo de 1 /Z9 ache o yrezente d
[Domingos Capassi ou Diogo Soares].1734. 64,4 x 48,1 cm. (G.E.A.E.M., n.° 4637, Arm.3, Prat.38, pasta 52)

Planta A — Cana topogríifthiai da Nova Colónia e cidade do Sacramento no Grande Rio da Prata,
Diogo Soares. 1731. 54 x 79,8 cm. {A.H.E., 014/M-1/G-2-B-3)
Planta G - Planta do Forte de Villeganhon na enceada do Rio de Janeiro.
Diogo Soares. 1730. 19,4 x 31,2 cm. (A.H.U., Cartografia Manuscrita do Brasil, n.° 1081).

-n
O
Z
H
m

w
r
K—l

O
C:
FONTES MANUSCRITAS

ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO

Documentos Avulsos:

Bahia-, caixas 12, 27-33.


Colónia do Sacramento: caixas 3, 4.
Espírito Santo: caixas 2, 3.
Goiás: caixas 1-9.
Limites: caixa 1.
Maranhão: caixas 838, 841.
Mato Grosso: caixas 2-5.
Minas Gerais: caixas 1-30.
Pará: caixas Ia, 2a, 3a, 4, 4a, 5, 6, 6a, 6b, 10a, 11-13.
Rio Grande do Sul: caixa 1.
Rio de Janeiro: caixas 11, 12, 20-24, 26.
São Paulo: caixas 1-3.

Códices:

56, 88, 127, 193, 209, 227, 228, 234, 236, 239, 241, 244, 248, 254, 266, 269,
271,907,908, 1213, 1215.

ARQUIVO HISTÓRICO DO ITAMARATY (RIO DE JANEIRO)

Documentação Rio-Branco: livro 340/1/13.


Arquivo Duarte da Fonte Ribeiro: lata 288, maço 8, pasta 8.

INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO {RIO DE JANEIRO)

Colecção do Conselho Ultramarino:

livros 1-1-25; 1-3-3; 1-2-2; 1-2-4; 1-1-26; 1-1-21; 1-2-26.

187
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ARQUIVO NACIONAL DA TORRE DO TOMBO 3, 1,17


4,2,3
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Cartório dos Jesuítas: Maço 78, n.° 39 a 90.
77 3, l, n.° 7
7, 4, 7, n.° 2
Ministério dos Negócios Estrangeiros: 77 2, 21, n.° 279.
livros 790 a 795. 23, 2, l
caixa 2, maço 1. 1-21,2, 21, n.°5
1-21, 1,36
Ministério da Instrução Pública: n." 27, n.° 28. 1-30,26, 12, n.° 1.
Manuscritos do Brasil: livros 7, 8, 11, 15. I - 30, 25, 6
1-32, 15, 11
Manuscritos da Livraria: n.° 389-391;
Arquivo da Casa Fronteira: n.° 99; n.° 226; n.° 251; n.° 101, tomos 5 e 8
BIBLIOTECA PÚBLICA E ARQUIVO DISTRITAL DE ÉVORA

BIBLIOTECA NACIONAL (LISBOA) Códices CXV / 2-15 n.° 13; CXVI / 1-15.
Colecção Manízola: códice 41-2,
Reservados:

Colecção Pombalina:
códices 613, 643, 661, 664, 717.
Arquivo da Casa Tarouca:
n." 26, vols. 10a 12.
n.° 158, vols. l, 3 a 8.
n.° 180, vols. l a 3.
n.° 229, vols. l a 3.
Fundo Geral:
códices 618, 11570.

BIBLIOTECA DA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS (LISBOA)

Manuscritos da Série Azul: 591, 605, 607, 608.

BIBLIOTECA GERAL DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Reservados: códice 148.

BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO

Manuscritos:

1,4, l
2,3,8

189
FONTES E BIBLIOGRAFIA

SERVIÇO DE DOCUMENTAÇÃO GERAL


DA MARINHA (RIO DE JANEIRO)

Cartografia Fotografada, 1730-1750 (espólio de Abeillard Barreto).

GABINETE DE ESTUDOS ARQUEOLÓGICOS DE ENGENHARIA MILITAR

FONTES CARTOGRÁFICAS n.° 4637, Arm. 3, Prat. 38, Pasta 52.


n.° 4609, Arm. 3, Prat. 38, Pasta 52.

BIBLIOTECA NACIONAL DO RIO DE JANEIRO


ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO
Iconografia;
Cartografia Manuscrita do Brasil:
ARC 4-3-2
n.° 826 ARC 4-4-9
n.° 850 ARC 4-4-13
n.° 1031 a n.c 1088 ARC 4-6-2
n.° 1138an. c 1144 ARC 23-1-1
n.° 1172 a n.c 1175 ARC 24-1-1
n.° 1215 ARC 24-1-13
n.° 1243 ARC 24-1-20
n.° 1244 ARC 24-1-21
n.° 1246
Manuscritos:
Colecção Morgado de Mateus, mapa n.° 18 (ARC 49-18-9)
ARQUIVO HISTÓRICO DO EXÉRCITO (RIO DE JANEIRO)

Mapoteca: MAPOTECA DO ITAMARATY (RIO DE JANEIRO)


004/M-2/G-1-B-5
n.° 771 3a
005/M-5/ G-3-C-13
n." 778 a
006/ M-l/ C-2-B-3
0077 M-l/ G-2- B-3
014/ M-l/ G-2-B-3 BIBLIOTECA NACIONAL DE PARIS
015/ M-l/ G-3- B-3
017/M-1/G-2-B-3 Cartes et Plans:
018/M-11/G-2-B-10
136/M-11/G-3 Ge.DD.2987: n.° 9471; n.° 9482; n.° 9483; B 9449; B 9451.
SH, PH 166, Div. 9, p. 8.
SH, PR 166, Div. 9, p. 11.
SERVIÇO GEOGRÁFICO DO EXÉRCITO (RIO DE JANEIRO) SH, PP. 166, Div. 13, p. 6 D.

Cartografia vária não catalogada

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202 203
ÍNDICE DAS ILUSTRAÇÕES

FIGURAS NO TEXTO

Figura l - Territórios cartografados pelos Padres Matemáticos 102


Figura 2 - Mapa português anónimo da costa do Brasil entre a ilha
de Santa Catarina e a foz do rio da Prata 125
Figura 3 - Carta. Corográfica da Capitania do Rio de Janeiro desde Paraty
athe o cabo de S. Thome 128
Figura 4 - Carta 10." da costa do Brazil, ao meridiano do Rio de Janeiro.
Desde a barra de Marambaya até cabo frio 129
Figura 5 - Mapa da região do alto rio Doce (Ribeirão do Carmo), rio
das Velhas e rio Paraopeba 131
Figura 6 - Mapa da região entre os rios Arasuahi, Jequitinhonha e rio
das Velhas 132
Figura 7 - Mapa da região entre o rio Jequitinhonha e o rio Arasuahi.. 136
Figura 8 - Cana 6." da costa do Brazil ao meridiano do Rio de Janeiro
desde a ponta de Araçatuba até à barra de Guaratuba 137
Figura 9 - A ocupação portuguesa no Brasil 146

MAPAS E PLANTAS A CORES


(Entre as páginas 184 e 185}

Mapa l - Mapa topográfico da Barra, dos baixos, das Ilhas e Prayas do Porto da
Nova Colónia dos Portugueses feito por um curioso da Companhia de Jesus a
efeito de se opportunamente fortificar no anno de 1731
Mapa 2 - O Grande Rio da Prata na América Portuguesa e Austral
Mapa 3 - Mapa da costa do Brasil entre o Rio Grande de S. Pedro e o cabo
de Santa Maria
Mapa 4 - A Vila da Laguna e barra do Taramandi na costa do Brasil e America
Porlugueza

205
Í N D I C E DAS ILUSTRAÇÕES

Mapa 5 - Carta 5- * da Costa do Brasil ao Meridiano do Rio de Janeiro. Desde a


barra de Ibepetuba até à ponta do Guarupaba, na E. de Syri
Mapa 7 - Mapa abrangendo a costa do Brasil desde a baía de Paranaguá até
á foz do Rio da Prata e, no sertão, os cursos dos rios Paraguay, Uruguay
e Paraná
Mapa 8 - O Rio de S. Francisco Xavier na América Austral e Portuguesa
Mapa 9 - Carta 4." A costa da Ponta da Araçatuba, Ilha de S. Catarina, Rio de
S. Francisco a Pamaguá até a barra de Ararapira com pane do caminho do Senão ÍNDICE GERAL
Mapa 10 - Cana 7a da costa do Brazil, ao meridiano do Rio de Janeiro. Desde a
barra de Benioga athe ponta de Guaratuba
Mapa 11 - Cana 9." da costa do Brazil desde a Barra de Santos até à da Marambaya
APRESENTAÇÃO 9
Mapa 12 - Plan de Ia Baye de Riojaneiro situes a Ia coste du Bresil
AGRADECIMENTOS 15
Mapa 14 - Nova e 1." carta da Terra Firme, e costas do Brasil ao Meridiano do Rio
NOTA PRÉVIA 17
de Janeiro, desde o Rio da Prata athe Cabo Frio
SIGLAS E ABREVIATURAS 22
Mapa 17 - Mapa abrangendo a região entre o alto rio Doce (Ribeirão do
Carmo), o rio das Velhas, o rio Paraopeba e o rio S. Francisco
1. A DEFINIÇÃO DO TERRITÓRIO 23
Mapa 18 - Cana dos Rios e córregos em que se descobrirão e mineraõ os diaman-
1.1. O Brasil na União Ibérica 25
tes desde o Anno de 1729 athe o prezente de 1734
1.2. As Províncias Unidas e o território brasileiro 26
Planta A - Carta topographica da Nova Colónia e cidade do Sacramento no Grande
1.3. A conquista do Maranhão e a exploração da bacia amazónica .. 28
Rio da Prata
1.4. As bandeiras paulistas e o desbravamento do sertão 39
Planta G - Planta do fone de Villeganhon na enceada do Rio de Janeiro
1.5. Os «limites naturais» do Brasil e a linha de Tordesílhas 42

2. OS TRATADOS DE UTREQUE E A EXPANSÃO PORTUGUESA NA


AMÉRICA DO SUL 47
2.1. Os resultados das negociações de Utreque 49
2.2. As pretensões francesas e a defesa do Pará 54
2.3. A expedição de Francisco de Melo Palheta ao rio da Madeira .. 59
2.4. O problema da Colónia do Sacramento e a Dissertação de
Guillaume Deliste 66

3. OS PADRES MATEMÁTICOS E O PROJECTO DO NOVO ATLAS DA


AMÉRICA PORTUGUESA 73
3.1. A génese de um projecto 75
3.2. A contratação dos jesuítas matemáticos em Itália 82
3.3. Os jesuítas italianos em Portugal e a política científica de
D. João V 85
3.4. O projecto do «Novo Atlas da América Portuguesa» 100
3.5. Os itinerários dos padres no Brasil 110
3.6. Os mapas do Brasil e os trabalhos dos Padres Matemáticos . . 119

207
206
Í N D I C E GERAL

4. O ESBOÇO DO «CONTINENTE» BRASIL 143


4.1. Os avanços territoriais no Oeste e no Rio Grande de S. Pedro .. 145
4.2. A abertura da rota fluvial entre Mato Grosso e o Pará:
o reconhecimento da «estrada» Guaporé-Mamoré-Madeira . . . 152
4.3. As negociações diplomáticas e a incorporação dos novos
territórios no Brasil 163

5. CONCLUSÕES 173

LISTA DOS MAPAS E PLANTAS DOS PADRES MATEMÁTICOS 179


MAPAS E PLANTAS 184/185
FONTES E BIBLIOGRAFIA 185
ÍNDICE DAS ILUSTRAÇÕES . . . 205

V 11

208