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Joana Guerreiro 2º Semestre 09/10 – Prof.

Pedro Aleixo

Psicologia Psicanalítica II
26-Fev A teoria psicanalítica na compreensão da doença
mental.

05-Mar Psicopatologia da Criança. Espectro autista.


12-Mar Psicopatologia da criança. Psicose. Depressão.
19-Mar Psicopatologia do adolescente.
26-Mar Psicopatologia do adulto. Neurose.
16-Abr Psicopatologia do adulto. Psicose.
23-Abr Psicopatologia do adulto. Estados Limite.
30-Abr Psicopatologia do adulto. Narcisismo
07-Mai Psicopatologia do adulto. Depressão.
14-Mai Aplicações terapêuticas da Psicanálise. Aplicações da
Psicanálise.

O Homem é a espécie que sofre mais influências do meio e dos outros. O SN humano é muito
imaturo à nascença. Esta imaturidade é acompanhada de uma grande potencialidade de
desenvolvimento. Daí decorre uma dependência enorme do meio e do outro para sobreviver e se
desenvolver. Há também uma extrema sensibilidade ao meio e, uma grande capacidade de
aprendizagem que, possibilitam esse desenvolvimento.

Esse desenvolvimento pode seguir 2 vias, saudável ou, patológica. Estas vias derivam do
crescimento psíquico do próprio e têm fases descontínuas de desenvolvimento.

As pré-disposições para a patologia podem ou não ser activados se o meio não for
“suficientemente bom”. Não podemos ignorar as bases biológicas de cada um mas, estas serão
influenciadas pelo meio. “99% das enfermidades humanas têm a ver com a negação do amor.”
Maturana, 1991, p.23.

Nas crianças, uma grande capacidade de tolerar a frustração está relacionada com uma menor
probabilidade de seguir a via patológica.

Alguns quadros clínicos que surgem nas diferentes fases da vida, embora diferentes na
aparência, possuem uma essência semelhante, na sua base encontram-se as mesmas
problemáticas. Por exemplo, uma criança esquizofrénica não apresenta os mesmos sintomas que
um adulto, no entanto, no essencial a base da sua problemática é igual.

Como funciona a mente de um bebé?

Nos instantes iniciais da vida, a mente funciona como um detector de tudo o que se passa no
corpo, do estado do organismo. Os sinais transmitidos à mente, são traduzidos em emoções mais
primitivas (prazer/desprazer, etc.). São elas que irão desencadear comportamentos importantes

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para o meio, para o outro (nomeadamente para quem cuida deles). Esses comportamentos
inatos, tais como sorrir, chorar, etc., resultado destas emoções mais primárias, são mensagens
para o meio, que as irá descodificar e interpretar. Há assim, uma comunicação entre o bebé e o
meio. A “mãe”, deverá saber ler estas mensagens e responder adequadamente. Todas as “mães”
têm dentro de si esta capacidade de dar respostas adequadas ao seu bebé, é algo que lhes é
inato. No entanto, algumas, por algum bloqueio, não são capazes de accionar, de pôr em prática
esta capacidade.

O objectivo destas mensagens é a ligação com o outro, o afecto. São estas as primeiras formas
de vinculação, estabelece-se uma relação primária. Segundo Klein, o ego precoce do bebé,
procura esta vinculação e relações de objecto com o meio, com o outro. Mesmo nas primeiras
horas de vida, fala-se num período de hipersensibilidade ao meio, daí a importância do contacto
com a mãe à nascença.

O bebé não é apenas um ser que come e dorme, nos primeiros momentos de vida o bebé
começa a conhecer o meio e a mãe. É altamente reactivo e sensível. A criança vai
desenvolvendo com a mãe um diálogo tónico, carinhoso, com vocalizações recíprocas e jogos
particulares. Enfim, desenvolve-se uma relação primária entre os dois, em que o bebé se insere
no “útero mental”. Segundo Bion, é a preocupação maternal primária que faz a passagem do
útero físico para o “útero psicológico ou mental”. É esta passagem que leva ao desenvolvimento
do narcisismo, que surge através da relação primária.

A libido narcísica e o amor-próprio vão-se construindo. Esta libido narcísica vai ser usada para
amarmos e relacionarmo-nos com o outro. O narcisismo só se desenvolve quando o bebé é
amado e, estabelece relações de afecto com o outro. A libido narcísica nasce e desenvolve-se na
relação, logo desde os primeiros momentos de vida. A reserva de amor-próprio nasce também da
relação. Ninguém ama se não for amado, não sabe amar.

O investimento/devoção da mãe vão então, desenvolver a libido narcísica do bebé, o seu amor-
próprio. A pouco e pouco, o bebé será capaz de a usar para reinvestir em si e no outro –
narcisismo secundário. Assim, da relação que o bebé vai estabelecendo com o outro, vai florescer
e desenvolver-se o narcisismo secundário que, nasce na e pela relação.

A qualidade da relação com a “mãe” no inicio de vida é muito importante. Qualquer omissão ou
inadequação nas respostas vai provocar desregulações emocionais que, podem desencadear
desregulações imunitárias (ex: alergias, etc.), hormonais, etc. Estas desregulações, por sua vez
podem originar perturbações funcionais e psicossomáticas (ex: perturbações no sono, apetite,
digestivas, alergias, etc.). Estas perturbações são as mais frequentes nos primeiros meses de
vida e, podem indicar uma desregulação emocional ou mesmo, serem sinais de uma via
patológica.

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Estas perturbações funcionais ou psicossomáticas apontam para uma especificidade da relação
mãe-bebé. Há estudos que apontam para a existência de diferentes tipos de mães e outros, que
falam de uma relação entre, por exemplo, as cólicas e a solicitude materna – a mãe sente-se
incompetente para responder às necessidades do filho e, este ressente-se. A mãe preocupa-se
excessivamente e não consegue satisfazer o bebé. Este chora, o que é visto pela mãe como
revelador da sua incompetência. As cólicas tendem a desaparecer quando o comportamento da
mãe se altera. Ou seja, o estabelecimento de uma relação íntima e calorosa elimina estas
perturbações. Daí a importância da relação com o meio.

O corpo tem um papel muito importante na interacção mãe-bebé. Deve ser lido pois, transmite ao
“meio” as suas perturbações emocionais. Devemos entender estes sintomas psicossomáticos do
bebé, como mensagens para o meio. E que, provocam uma resposta do mesmo (é esta resposta
que é importante) de modo a facilitar a adaptação do bebé. Se o meio não souber dar uma
resposta adequada, a permanência e o agravamento destas perturbações podem abrir caminho
para patologias futuras. Por exemplo, o período de janela para o risco de uma futura psicose
ocorre entre o 2º e o 3º trimestre de vida – fase de transição Kleiniana, em que, é necessário que
as boas experiências se sobreponham às más.

Estamos numa fase de vida muito inicial em que é natural que surjam alguns desajustes, o
processo de adaptação do bebé ao meio ainda está em curso. Muitas vezes estes sintomas
terminam com uma alteração do comportamento da mãe.

O meio desempenha um papel muito importante para uma harmonização afectiva. Numa fase
inicial, quem regula e fomenta a auto-estima, é o meio, o exterior. É através dele que se constrói
o objecto interno.

Se este ajudar a construir um bom objecto interno, há uma introjecção positiva. Se, pelo contrário
se internaliza um mau objecto interno, houve um mecanismo de introjecção negativa, ou seja,
houve uma prevalência das experiências más sobre as boas – poderá levar a uma psicose, fruto
dessas experiências pouco prazerosas ou mesmo frustrantes. Criam-se muitas vezes objectos
internos persecutórios que muitas vezes têm uma grande capacidade destrutiva (provocam o
caos/a desordem dentro do mundo interno do sujeito).

Por vezes não se criam objectos bons ou maus mas sim, objectos frágeis (que podem levar a
outros desenvolvimentos, nomeadamente uma pré-psicose). Que se traduz numa dificuldade ou
incapacidade de adquirir um objecto interno total (o sujeito reconhece que aquele objecto é fruto
de experiências boas e más). Este objecto frágil resulta, no interior do sujeito, num objecto
compósito – objecto que é fruto de uma unificação patológica, fruto da união das boas e das más
experiências que, na realidade se encontram separadas, há um fosso entre ambas, há então,
uma clivagem no interior do sujeito. O objecto é só um mas, encontra-se clivado, é constituído por

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representações opostas. Estas representações, são depois pouco realistas, as boas são
extraordinariamente boas e as más extraordinariamente más/persecutórias.

O que muitas vezes falha, e leva a que isto aconteça é a ausência de uma mãe suficientemente
boa, a preocupação maternal primária e, outras características maternas que podem levar às tais
perturbações.

Clivagem afectiva: objecto inteiro mas que possui duas partes com um fosso entre elas. Muitas
vezes é o resultado de uma resposta imprevisível do meio, de um objecto frágil com constância
precária. São crianças normalmente irritáveis, com perturbações escolares, etc.

Psicopatologia da criança e do adolescente

A criação de um bom objecto interno é essencial para um bom desenvolvimento. Esta construção
está ligada às experiências satisfatórias da criança com os objectos com os quais se relaciona.
Também existem más experiências. Klein evidencia a importância das boas experiências
prevalecerem sobre as más.

Um bom objecto interno é total e os aspectos bons suplantam os maus. Certos objectos
encontram-se clivados, o bom e o mau não pertencem ao mesmo objecto o que, resulta numa
fragilidade da interiorização do objecto.

A perda do objecto no espaço maternal primário leva a diversos tipos de angústias. Num tempo
pré-verbal, são angústias sem nome, inimagináveis – autistas.

Nas crianças estes diagnósticos são apenas diagnósticos de risco evolutivo. Indicam apenas que
no futuro poderá ocorrer um quadro destes no entanto, poderá ou não evoluir nesse sentido.

Três noções gerais regulam os compromissos da psicopatologia da criança:


• Desenvolvimento
• Organizações do funcionamento mental
• Interacções (em particular familiares)

Psicoses infantis

Surgem 3 quadros sintomáticos possíveis que se apresentam de maneira clinicamente diferente


segundo a idade da criança e o início dos distúrbios:

• Autismo calmo (que normalmente corresponde à psicose autista primária) – surge nas
primeiras semanas ou dias de vida. Ocorre em crianças entre os 0 e os 3 anos.

• Autismo agitado (que normalmente corresponde à psicose autista secundária) – as suas


primeiras manifestações surgem entre os 6 e os 18 meses.

• Pré-psicoses ou psicoses simbióticas

Psicose autista primária – autismo calmo

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Desde muito cedo (2º/3º trimestre de vida), que se podem encontrar alguns sintomas de uma
certa retirada autista mas, apenas por volta dos 2/3 anos estes sintomas se tornam mais
evidentes.

No primeiro semestre há algumas distorções que se podem observar: se a criança não chora, não
reclama, não protesta; ausência de diálogo tónico (ausência de diálogo com os pais: pedir colo,
ausência de vocalizações, de gestos antecipatórios, etc.); perturbações do sono; ausência de
reacção a estranhos. Caracteriza-se por um isolamento extremo, crianças permanecem imóveis
durante muito tempo independentemente do que se passa à sua volta, mostram um desinteresse
passivo pelo meio que as rodeia. Parecem considerar esse meio como sendo repleto de objectos
inanimados. Podem sair destes momentos e passar para momentos de angústia de pânico.

Todos estes sinais vão-se intensificando com o tempo. Não se pode no entanto deixar de fora
factores constitucionais intrínsecos ao bebé. Deve-se tentar perceber de onde vêm estas
desregulações.

Muitas vezes originam-se no espaço maternal primário, mães ou ambientes que não estavam
suficientemente disponíveis, não eram suficientemente acolhedores, protectores para a criança. O
meio não a soube acolher e responder-lhe de forma adequada. Esta falta de disponibilidade
revela-se na ausência de capacidade de revêrie, preocupação maternal primária, etc., na
incapacidade da mãe em dar respostas adequadas ao bebé.

Devido a uma hipersensibilidade constitucional do bebé, a sua relação com o meio é afectada,
a relação mãe-bebé é distante, na interacção com o meio despoletam-se estas deformações.

Também se deve à falha do bebé na capacidade de interiorização dos elementos alfa e da sua
transformação. São crianças com dificuldade de interiorização do objecto continente –
identificação adesiva. As crianças encontram-se, segundo Meltzer, num estado de fusão
imitativa dos objectos que leva à identificação adesiva. Aderem aos objectos, às superfícies, o
interior e o exterior não existem enquanto tal, existem espaços bidimensionais, sem essa
dimensão de profundidade. Esta identificação adesiva que no início é um mecanismo de
desenvolvimento, um mecanismo identificatório primitivo (o contacto físico entre a mãe e o bebé é
inicialmente essencial) mas acaba por se transformar num mecanismo de defesa. Estas defesas,
presentes nos sujeitos autistas, defendem-nos de angústias dos mais variados tipos.

É a permanência neste estado de fusão com os objectos e as pessoas (que para eles são como
objectos inanimados) que caracteriza as crianças autistas. Este mecanismo de defesa protege-os
do seu maior medo, agarram-se a estes objectos para não caírem no “buraco negro” (depressão
inimaginável). Para isso, a criança cria uma relação com os chamados objectos autistas, adere
aos objectos para ter certo tipo de sensações.

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A criança sente o objecto autista como fazendo parte dela própria, não havendo distinção entre
ela e o objecto. Retirarem-lhe o objecto é o mesmo que lhe arrancarem uma parte do corpo, o
objecto faz parte dela, está dentro dela.

O processo de separação da mãe deve ser feito com calma mas, em crianças com espectro
autista, esta separação foi abrupta e de tal modo precoce que a criança não teve tempo de a
integrar então, recorre a esses objectos autistas. A separação é revivida como uma ruptura. Ficou
um buraco dessa separação, para o tapar as crianças usam os objectos autistas (ou objectos
autistas anormais ou, objectos psicóticos). É o medo da “perda do ser” que domina estes sujeitos.

Os objectos autistas não têm valor simbólico, pois não têm o valor de brinquedo. Não há objectos
transitivos e portanto, o chamado espaço intermédio preenchido por esses objectos, para que a
criança não sinta a separação de uma forma total, não existe. Todas as crianças passam por uma
fase autista, em que possuem objectos autistas. Mas, numa criança normal, entre os 6 e os 10
meses esta fase dá lugar a uma em que esses objectos se transformam em objectos transitivos e,
posteriormente em objectos do mundo exterior. A criança autista primário, distingue-se das outras
crianças desde a fase do objecto autista.

Psicose autista secundária - autismo agitado

Estas crianças eram bebés normais até se verificarem as primeiras manifestações psicóticas.
Muitas vezes eram crianças extremamente precoces. Do ponto de vista neurológico estas
crianças não apresentam qualquer anomalia.

Do ponto de vista sintomático, podem apresentar o mesmo quadro que os autistas primários.
Apresentam os mesmos distúrbios, as mesmas recusas de comunicação, o desinteresse pelo
meio que os outros autistas. O que difere nestes casos são os meios que usa para se isolar.

Em situações em que os autistas primários parecem agir de forma passiva, estes parecem
construir um escudo contra o meio. Esta “carapaça” afecta sobretudo a psicomotricidade, que se
caracteriza por uma instabilidade e agitação incessante. Estas crianças também evitam o
contacto visual. Tal como os autistas primários, mostram-se insensíveis ou indiferentes a ruídos
sonoros que não lhes interessam e, também é característico destas crianças a auto-mutilação
como forma de fazer face à angústia.

Estes sintomas têm uma função de defesa activa contra as invasões do meio.

Apesar do autismo primário ser normalmente caracterizado como calmo e o secundário como
agitado, por vezes surgem quadros de autismo primário agitado e vice-versa ou, episódios calmos
em autismos agitados e vice-versa.

O que distingue as crianças autistas das esquizofrénicas é que as segundas estão mais
integradas, não sofreram um processo de desintegração.

Pré-psicoses ou Psicoses simbióticas

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Manifestações psicóticas que sobrevêm entre os 2 e os 6 anos. São segundo Misès,
caracterizam-se por uma desarmonia evolutiva de estrutura psicótica (há umas zonas do
desenvolvimento que funcionam e outras que não, ou que evoluem de forma diferente). Parecem
ter-se desenvolvido normalmente até uma certa idade (18 meses, 2/3 anos). O início dos
distúrbios pode ser súbito e exteriorizar-se como consequência a um determinado evento
traumático, como uma separação inesperada da mãe, hospitalização, doença física ou ainda,
perda ou “quebra” de um objecto transitivo. Outras vezes os sintomas vão evoluindo
progressivamente e assiste-se a uma paragem no desenvolvimento psicomotor – incapacidade de
comunicação adequada com o outro. Produzem por vezes discursos absolutamente
incompreensíveis. Não distinguem o “eu” do “tu”.

Também há uma certa retirada, não tão radical como acontece nas crianças autistas, mas estas
crianças tendem a refugiar-se no jogo solitário. Quando o seu mundo solitário é invadido reagem
de forma irada e agressiva.

A angústia destas crianças é uma angústia de separação, a separação da mãe provoca uma
grande angústia que é manifestada com colericamente. Para estas crianças há sempre o risco de
perder o objecto. O objecto interno foi interiorizado mas, na ausência não o consegue tranquilizar,
pois não é suficientemente equilibrado para o fazer.

Depressão

Caracteriza-se por uma perda do entusiasmo, um abatimento, apatia. Está associada a um valor
pessoal, à auto-estima e, à perda do amor. É sobretudo uma reacção à perda de amor do objecto.

Se há perda então a criança já foi amada mas, por alguma circunstância houve a perda do amor
do objecto – depressão simples.

Pode-se fazer um paralelismo entre a depressão e outros estados caracterizados pela falta de
amor – em todos há uma má internalização do objecto interno.

A consciência de que há amor pelo objecto é algo que vai sendo construído no decurso do
desenvolvimento, ao longo do 1º e 2º ano de vida. Também surge nesta altura o sentimento do
valor pessoal, da vergonha, o desejo de ser valorizado e admirado, a troça e todas estas
dimensões narcísicas. O olhar do outro, o que ele reflecte é extremamente importante, o olhar de
alguém que aprecia, valoriza. O olhar do outro é o nosso primeiro espelho. Ter valor para o
objecto, ser desejado, amado, admirado terá uma importância fulcral no desenvolvimento do
narcisismo. A dimensão narcísica é um dos atributos mais importantes, ou mesmo a dimensão
nuclear do indivíduo. São os alicerces da estrutura humana, é o que estrutura a personalidade
humana. Esta dimensão nasce da relação com o outro, independentemente das forças instintivas,
pulsionais de cada um. O outro de que se fala é não só o objecto privilegiado mas também, a
família, a sociedade, etc.

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Quando descubro que sou amado, descubro que tenho lugar no interior do outro, o que significa
que não sou esquecido por ele. Ele também tem um lugar dentro de mim, também não o
esqueço, nem mesmo na sua ausência – interiorização do objecto.

Não é apenas importante a relação que estabelecemos com os objectos externos, mas também a
que temos com o nossos objectos internos que se vão construindo e com os quais me vou
relacionar – meu mundo interior. Temos uma multiplicidade de objectos internos, uns mais
tolerantes e compreensivos outros, mais tiranos.

Vulnerabilidade depressiva: auto-estima muito regulada pelo outro

A auto-estima é algo que decorre do outro. Surge inicialmente um narcisismo dependente, em


que o indivíduo ainda não regula a sua auto-estima interiormente, ela é regulada apenas pelo
exterior. É necessário no entanto, que essa regulação, com o tempo, passe do exterior para o
interior.

Sintomas que revelam movimentos depressivos

Defesas maníacas, sintomas psicossomáticos (muito típico em crianças), perturbações do


comportamento, dificuldades escolares (quando os fenómenos depressivos se instalam vai
surgindo uma repercussão na escola), acidentes (actos depressivos), punem-se pelos outros,
comportamentos delinquentes, agressividade, alguns tipos de obesidade ou anorexia.

Irrequietudes ou hiperactividade são também muitas vezes sintomas que escondem uma
depressão.

René Spitz – Síndrome do Hospitalismo

Segundo Spitz, perturbações na relação precoce com a mãe podem resultar numa depressão
anaclítica ou no chamado síndrome do hospitalismo, dependendo do tipo de privação que a
criança sofre e da altura em que ela surge.

A depressão anaclítica traduz-se numa dor psíquica (depressão) em fases precoces do


desenvolvimento que resulta de uma privação afectiva parcial.

A síndrome do hospitalismo resulta de uma privação afectiva total e duradoura, durante os


primeiros 18 meses de vida. É caracterizada por um atraso global no desenvolvimento (psíquico,
relacional, mas também físico e biológico). Os efeitos depressivos do hospitalismo desenvolvem-
se sequencialmente.

Manifestações ditas neuróticas (não são neuroses)

São transformações ou deslocamentos da angústia. Segundo Winnicot, uma mãe que se adapta
de forma quase perfeita ao bebé e cria nele uma ilusão de que ela e o bebé são um só (solicitude
primária). Com o tempo, esta ilusão transforma-se numa desilusão, o bebé começa a perceber
que ele e a mãe não são um só. Quando há falta de mãe nasce uma angústia no bebé. Se o bebé

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não for capaz de tolerar essa angústia, o seu ego não for capaz de a dominar/conter, podem
surgir sintomas fóbicos, manifestações mais obsessivas, que são deslocamentos dessa angústia.

Latência – organizações latentes

O período de latência vai desde cerca dos 6 anos até à puberdade.

Os processos de latência surgem pelo início do funcionamento da instância super-egóica/ideal do


ego. Idade da razão, em que o super-ego sucede ao conflito edipiano, como uma renúncia às
pulsões incestuosas. Para que a criança possa entrar neste período é importante que resolva o
conflito edipiano de modo a que haja tranquilidade para entrar nesta nova fase. O objectivo deste
período é a renúncia da criança aos desejos libidinais focalizados nas figuras parentais que
ocorre em parte, pela eficácia do superego sobre a relação com os pais. A substituição destas
figuras por deslocamentos que as substituem tende à formação de novos objectos.

O período de latência descrito como um de acalmia, silencioso, só o é em aparência. Há de facto


uma deserotiação, como que um adormecimento dos instintos mas é um período de intensa
actividade psíquica. Assim, não há um adormecimento mas sim uma conservação dos instintos.
Uma deslocação dos investimentos anteriormente dirigidos às figuras parentais para outros
objectos.

O investimento em novos objectos pode intitular-se contra-investimento na medida em que ajuda


o superego e contribui para o desimpedimento. É a origem da liberdade de pensamento e de
acção. O desaparecimento do Complexo de Édipo e a organização edipiana do mundo são fruto
de um compromisso entre o superego e o ego. A prova da impossibilidade edipiana evita a
confusão entre percepção e representação (ter um filho do pai ou da mãe e odiar o rival), incita a
criança para outros objectos mais “possíveis”.

A criança adquire ainda, a partir dos objectos parentais edipianos) a capacidade de distinguir os
sexos (como uma marca fundamental que diferencia os indivíduos) e reconhecer qual é o seu,
distingue adulto e criança, etc.

Esta é uma idade aberta ao conhecimento alargado e não, um período de latência. A criança vai
ao mesmo tempo interiorizar e aprender melhor as regras e normas do mundo que a rodeia,
noções de justiça, moralidade, capacidade de se colocar no lugar do outro (empatia).

Para que a criança possa desenvolver estas capacidades, é necessário que tenha passado por
um período anterior em que experimentou o amor, o dar e o receber, a zanga, a competição, etc.
A capacidade de amar e também de se zangar com os objectos sem que estes se destruam, é
importante que estes objectos tenham tolerância (relações primárias com a mãe).

É também nesta altura que a criança desenvolve a sua autonomia, uma autonomia ainda
assistida, pois os pais estão sempre presentes mesmo que seja à distância, estão presentes se a
criança precisar deles mas não para fazer por ela, o seu papel é dar-lhe condições para que se

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sinta confortável e confiante para fazer por ela própria. Tudo isto é importante para a segurança
do ser e do pensar. Para a criança se tornar capaz de pensar por si e ter mais confiança nas suas
capacidades, são estas as experiências de autonomia. Se estas experiências não forem vividas
nesta altura poderá fazer com que o período seguinte (adolescência) seja de crise.

O período de “latência” caracteriza-se por uma obrigatoriedade de desvinculação do mundo


infantil. Se esta desvinculação não ocorrer e o indivíduo entrar na adolescência ainda com
grandes laços ao mundo infantil, a adolescência poderá ser vivida com muita crise.

Esta preparação para a adolescência ocorre através do afrouxamento dos laços familiares (para
que a criança esteja preparada para se vincular a novos objectos extrafamiliares).

Se o objecto primário não cumpre a sua função de narcisismo e de transmissão de segurança,


pode comprometer a procura pela autonomia - importância da construção de um bom objecto
interno. Se este desejo de autonomia, aventura, crescimento não acontece, podem surgir
diversos mecanismos de defesa inconscientes e outros sintomas.

Adolescência

Período de grande desejo sexual. É necessário que já não haja laços fortes com os objectos do
mundo infantil para que o indivíduo entre na adolescência.

Vários problemas se vão colocar na adolescência: corpo, questões libidinais, questões ligadas ao
ser (“Quem é que eu sou?”), ao grupo, etc.

A puberdade é uma fase marcada por alterações ligadas ao corpo, descobrir esse corpo que é
novo e, adaptar-se a ele. Não só do dele mas também dos outros (pares). O adolescente pode
olhar para este novo corpo com curiosidade, vontade de explorar ou, com medo, repulsa,
retraimento. O corpo pode então ser algo de fascinante ou pelo contrário, ser vivido com
dificuldade.

O jovem vai percepcionar-se de acordo com o que lhe transmitiram os objectos anteriores
(primeiro espelho em que a criança se vê, revê e avalia). A imagem corporal subjectiva que o
jovem vai construindo ao longo da adolescência está relacionada com o espelho desses objectos
anteriores.

A ansiedade, o medo do ridículo, as dimensões narcísicas surgem também nesta altura. Surgem
também alguns sinais de depressão (apatia), sentimentos de vazio (quando não consegue investir
noutros objectos), dificuldades nas ligações com esses novos objectos desconhecidos, falta a
segurança para ir ao encontro do desconhecido. Estas vivências que estão num certo sentido
numa linha narcísica e depressiva, são muito comuns na adolescência.

Muitas vezes levam a uma dificuldade no acesso ao par sexual por questões relacionadas com a
baixa auto-estima. Nesta altura surge um novo objecto, um objecto sexual e também outros,
orgânicos e genitais. Estes investimentos vão-se sobrepor aos anteriores, que tinham uma função

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educativa. Este é um objecto mais livre, é um objecto que se escolhe, que não vai reprimir, é um
objecto de liberdade. É um objecto que pode levar a processos de criatividade (novas ideias).

A adolescência é então um processo de autonomia e auto-afirmação, de independência,


conquista, é um período fecundo, período de grande desenvolvimento. Há uma remodelação de
tudo o que tem a ver com a estrutura do superego. Não é um processo de luto, mas sim uma
nova forma do jovem se relacionar com os pais. A corrente libidinal que os ligava aos pais vai-se
esbater. A sua relação com eles torna-se mais igual, mais madura. Esta nova relação leva
também ao aparecimento de conflitos. Estes conflitos são construtivos para ambas as partes e
impulsionam o desenvolvimento do adolescente. Esta relação conflituosa tem impactos ao nível
da estruturação do superego, enriquece-o.

Processos de identidade mal resolvidos podem levar a problemas de emancipação e autonomia


genital. Este equilíbrio frágil da identidade pode quebrar-se e atinge-se um desequilíbrio: estudos
psicopatológicos que podem passar pela depressão ou psicose. Um dos aspectos mais graves
são as erupções psicóticas, os estados psicóticos podem estar relacionados com a baixa auto-
estima.

Na psicose a auto-estima atinge o valor mais baixo que se conhece. O sujeito não tem noção se
apercebe dessa baixa auto-estima pois esta é inconsciente e são criados mecanismos de defesa
que impedem o sujeito de se aperceber e de se confrontar com o que é constrangedor para si.
Em contrapartida, o sujeito constrói a chamada compensação narcísica, um sentimento de
superioridade e omnipotência. Esta compensação advém do medo de liquidação/destruição. O
sujeito constrói um novo mundo, pois o real é-lhe insuportável.

Na adolescência o grupo desempenha um papel fulcral, pois a construção da sua identidade


ocorre através da relação com o outro, nomeadamente os pares. O adolescente identifica-se com
os seus pares e esta identificação transmite-lhe segurança.

Psicopatologia do adulto. Neurose.


A neurose é uma doença da relação. É o resultado de uma adaptação patológica a um meio
patogénico, que se traduz num esforço por parte do sujeito em adaptar-se a esse meio que não
lhe permite um desenvolvimento adequado. A neurose é portanto, um desvio ao desenvolvimento.
É nos processos relacionais entre a criança e as figuras importantes (promotoras do
desenvolvimento da saúde) que deve ser procurada a compreensão destas neuroses.

As neuroses nascem no seio de um conflito intra-psíquico. Nascem da luta entre as dimensões


ligadas aos processos pulsionais, a criança move-se no equilíbrio entre os instintos (id) e as
regras (introjectadas no superego). Nesta luta podem ganhar o id ou as defesas do ego ao
serviço do superego ou ainda, estabelecer-se um compromisso entre eles, surgindo então o
sintoma (exemplo: lavar-se obsessivamente está muitas vezes relacionado com o retorno
recalcado de pulsões sexuais consideradas indecentes).

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A neurose é assim, a consequência de conflitos entre as exigências pulsionais e as defesas do
ego ao serviço do superego e, os seus sintomas são o simbolismo deste conflito que tem como
base a história da infância do sujeito. Este conflito obtém as suas raízes nas conflitualidades
edipianas.

Na passagem da latência para a adolescência há uma dessexualização, uma desmistificação das


figuras parentais o que, permite estabelecer relações mais simétricas entre pais e filhos. Quando
este processo não ocorre de forma apropriada, podem surgir relações conflituais que abrem a
porta à regressão/fixação. Assim, a relação genital foi atingida e pode infiltrar-se nela modos de
relação antigos, de fases anteriores ou haver processos de regressão para fases anteriores que
não foram suficientemente resolvidas.

Estas dificuldades originadas na altura do complexo de Édipo, podem atingir o “eu”. No entanto,
nas neuroses o “eu” nunca é fragmentado ou clivado, mesmo que possa estar distorcido na sua
relação com o exterior, é sempre um “eu” inteiro. Na neurose a realidade nunca é negada, mesmo
que haja exigências do princípio do prazer, o princípio da realidade sobrepõe-se. As neuroses
inscrevem-se nas dinâmicas genitais.

Tipos de neuroses
Neurose obsessiva (ver Homem dos Ratos, 1909)
Foi isolada por Freud em 1894/5. O motor da defesa nesta neurose é o medo da castração. O
conflito psíquico nesta neurose exprime-se por sintomas compulsivos, actos indesejados que o
sujeito se vê quase obrigado a realizar mas, não de forma fácil, há uma luta psíquica intensa.
Este conflito psíquico pode exprimir-se por uma ruminação mental, pessoas com dúvida, com
dificuldade em tomar decisões. Há uma espécie de regressão favorecida pelo facto de que o
próprio processo do pensamento é sexualizado. Existe um emperrar do pensamento e da acção.
A acção decorre do pensamento portanto, o pensamento bloqueia a acção, o pensamento em
desenvolver-se.

Há uma regressão pulsional, uma regressão sádico-anal (os obsessivos estão expostos a
conflitos entre a agressividade e a submissão, a crueldade e a gentileza, a ordem e a desordem),
acompanhada de uma modificação ligada à agressividade que, no conflito edipiano é contra o
rival. Aqui, a agressividade desloca-se do objecto rival para o objecto de amor o que, conduz a
uma certa ambivalência afectiva pois, amor e ódio são o mesmo objecto. Há então um processo
regressivo de uma relação triangular para uma relação dual (amor/ódio).

Na génese da neurose obsessiva houve dificuldades em estabelecer uma relação serena,


suficientemente segura e tranquila com o rival edipiano. Se há uma regressão significa que o
sujeito não conseguiu levar ao fim a resolução do complexo de Édipo, não foi feita a
desconflitualização. Muitas vezes estamos perante um rival que é violento, inconstante, muitas

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vezes extraordinariamente inteligente. Muitas vezes temido ao mesmo tempo que não é capaz de
servir de objecto de identificação.

Por vezes, a regressão leva a que haja uma regressão do superego, os processos agressivos
estendem-se ao superego. E este, em vez de ter uma função de ideal (aquilo a que se aspira),
tem uma função de restrição fundada no medo. O rival ao ser temido leva à restrição do superego
e, não deixa que o sujeito seja conduzido a um ideal do ego, há uma introjecção de processos
ligados ao medo. Aqui, o ego obedece ao superego, a utilizando complexos mecanismos de
defesa e submetendo-se a situações que exigem um dispêndio de energia constante, podendo
mesmo tornar-se esgotante. O ego obedece ao superego como nunca obedeceu aos seus
educadores.

A neurose obsessiva é a doença da interdição, o sujeito impede-se, são pessoas contidas e


rigorosas. Estes movimentos decorrem de uma conflitualidade intra-psíquica entre o retorno do
recalcado (que tende a vir ao de cima) e o impedimento do sujeito que não deseja que esse
recalcado retorne. Há uma alternância entre actos pulsionais e punitivos. Daí a existência de
múltiplos rituais que caracterizam esta neurose que, segundo Freud, são como “o disfarce meio
cómico, meio trágico de uma religião privada”.

Mecanismos de defesa típicos da neurose obsessiva:

Deslocamento - pelos sintomas, deslocamento do conflito para pequenos detalhes sem


importância que adquirem uma proporção exagerada e levam a comportamentos obsessivos sem
qualquer relação com a realidade objectiva, excepto no que eles representam inconscientemente
para o indivíduo.

Anulação retroactiva – a obrigação de fazer o contrário daquilo que havia sido feito anteriormente.
Exemplo: compulsão à lavagem.

Isolamento – isolar um pensamento ou um comportamento dotado de um significado para a


neurose, de tal forma que a sua conexão com outros pensamentos se rompa. Este mecanismo,
normalmente usado como um dos meios do ego para orientar o curso do pensamento, encontra-
se amplificado no obsessivo.

Neurose Histérica (ver caso Dora)

Foi dela que a psicanálise nasceu. É ela o paradigma da problemática da neurose, o


recalcamento ocupa um lugar central no seu sistema defensivo.

Pode manifestar-se no plano físico ou no plano psíquico. Paralisias, cegueiras, tremuras,


espasmos musculares, etc. são sintomas que perderam a sua frequência na sociedade actual.
Actualmente são mais comuns sintomas como cefaleias, insónias persistentes, perturbações
funcionais nos aparelhos respiratório, cardiovascular, digestivo, ginecológico. Já no plano
psíquico, inibição intelectual, perturbações da memória, sonambulismo, etc.

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O histérico representa a verdadeira encarnação da omnipresença e da ignorância de Eros: tudo o
que toca é erotizado. Reivindicação de interesse, desejo de seduzir, sugestibilidade, teatralismo,
dramatização, profusão de uma actividade de devaneio mais ou menos dissimulada (também com
temas eróticos prevalecentes). Existe uma busca de sedução ao mesmo tempo que há uma
evitação de relações sexuais, o que esconde nas mulheres uma certa frigidez e, nos homens
problemas de ejaculação precoce. Nos homens é habitual vanglória e ostentação das conquistas,
de uma virilidade que não se tem. Esta virilidade passa muitas vezes para o plano social de forma
agressiva.

A histeria revela-se assim como uma forma de preencher a falta de ser. Todos os meios lhe
servem para isso, quer sejam fisiopatológicos ou psicopatológicos.

No cerne da histeria, há uma falta fundamental que surge em todos e nos mais variados
momentos, uma depressão mais ou menos profunda com a qual o sujeito procura não contactar.
Estes comportamentos são uma forma de colmatar essa falta. Daí a procura incessante do outro,
a necessidade desta estimulação constante, o sujeito precisa desta excitação para se sentir vivo
e não sentir a dor da depressão (o grande receio).

A perda do objecto, que muitas vezes o sujeito liga a outros, mais do que procurar o outro traduz-
se na procura do objecto perdido na infância (figura materna e/ou paterna, figuras diversas que
podem surgir condensadas). Procura a figura materna ou paterna, num fenómeno de
condensação, figuras do passado podem condensar-se num único objecto, o outro torna-se um
precipitado de figuras passadas. Há a procura de um outro, mas que não é mais do que imagens
de objectos antigos.

Na origem destas relações erotizadas pode estar uma mãe mais parece ter excitado a criança
(mãe pouco disponível, deu-lhe algo mais superficial, mais de embelezamento do que de
compreensão, de cumplicidade) do que satisfeito as suas necessidades de compreensão e
cumplicidade.

Muitas vezes a criança, para colmatar esta falta de atenção materna, vai procurar o pai e fazer
um poderoso investimento um tanto ou quanto incestuoso.

Também na neurose obsessiva esta perda de amor materno ou paterno está presente, tal como
em todas as doenças relacionais. A forma como os indivíduos se defendem é diferente mas a
depressão infantil está lá.

Na neurose obsessiva, o sujeito defende-se não amando o outro e investindo em si mesmo, daí a
inflação narcísica, uma tentação de domínio do objecto. Quando se descompensam podem fazer
quadros de fazer quadros de melancolia. Já na neurose histérica quase que se sucede o inverso,
em vez deste narcisismo há um sentimento de inferioridade, considera que não tem valor para o
objecto. Na neurose histérica o domínio do objecto também existe mas no sentido da sedução.

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Neurose obsessiva – grandiosidade, inflação, rejeita o objecto e investe o amor em si mesmo
(inflação narcísica)

Neurose histérica – pequenez, inferioridade

O sujeito histérico ama o objecto incondicionalmente, chegando mesmo a idealizá-lo, não quer
reconhecer as características más/negativas (também presente na neurose obsessiva, a forma de
defesa é que difere) e inflamando as características positivas.

O recalcamento do mau objecto está igualmente presente na neurose histérica e na obsessiva.

Neurose fóbica ou histeria de angústia

Na fobia, ao contrário do que acontece na neurose (encontra-se recalcado), o mau objecto é


projectado no exterior (fora das dinâmicas relacionais fundamentais da criança). Mas, antes de
ser projectado, é recalcado e deslocado para outro objecto (exemplo: pequeno Hans e o cavalo).

O medo é da realidade, é dela que o sujeito foge. São sujeitos muitas vezes tímidos que fogem
do contacto e também, por vezes, do desejo libidinal.

No centro da fobia: timidez, condutas.

A agressividade do pequeno Hans, projectada sobre o pai, é deslocada para o cavalo pelo qual
ele receia ser mordido. O perigo projectado assim no mundo externo, remete para a uma
realidade interna.

Psicopatologia do adulto. Psicose (Ver caso Schreber)

A génese da psicose encontra-se num desinvestimento libidinal no objecto. Tanto em relação às


pessoas como ao mundo real. Segundo Freud, este desinvestimento está ligado à perda
catastrófica do amor, num colapso do seu mundo interior. O delírio surge para compensar a
falta/perda de alguns objectos exteriores, no sentido de recuperar estes investimentos perdidos.

Uma característica fundamental do psicótico é a recusa da realidade. É aqui também que surge
uma distinção destes sujeitos em relação aos sujeitos neuróticos.

Segundo Bion, por muito psicótico e perturbado que o sujeito seja, há zonas de neuroticidade
que se mantém. Todos temos um lado não psicótico e outro mais psicótico da personalidade.
Aspectos como, por exemplo a criatividade, podem depender desta parte mais psicótica.

Assim, mesmo num sujeito psicótico há zonas de foro mais neurótico que se mantêm
preservadas, é possível o psicoterapeuta fazer um trabalho de aliança com o sujeito de modo a
desenvolver essas zonas não-psicóticas e mirrar as zonas psicóticas o mais possível. Por muito
psicótico que seja, o sujeito nunca se afasta completamente da realidade. No entanto, este
contacto com a realidade vai sendo tapado pelos estados psicóticos, pela fantasia.

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No essencial, a fantasia omnipotente visa esconder a realidade. Para que este afastamento se
efective há um ataque não só à realidade como também ao órgão que nos liga a ela, o
pensamento, a mente, o que nos permite perceber a realidade. Fragmenta-se esse órgão através
da identificação projectiva patológica (identificação projectiva excessiva, identificação intrusiva,
projecção nos objectos exteriores, desidentificação projectiva).

Identificação intrusiva – sujeito não está com o outro, penetra no outro (pessoa ou objecto),
arromba o outro, aloja-se nele, não se diferenciam. Para estar com o outro preciso de o ver como
diferente, o psicótico é um sujeito extra-corpório, usurpa o outro, falha-se o sentido de persona. A
pessoa perde o estar com o outro, há a perda da relação. O sujeito psicótico não tem consciência
da diferenciação entre ele e o outro. Há uma perturbação temporal e espacial.

As partículas fragmentadas do ego, partículas da personalidade que vivem uma vida


independente, rodeiam o sujeito de objectos estranhos (objectos bizarros segundo Bion).

Segundo Bion, o sujeito move-se num mundo estranho e povoado de objectos estranhos, e vai
confundir-se com alguns deles. Exemplo: mãe que perde o bebé mas tem um boneco que é o
bebé. Este boneco não representa o bebé, ele é o bebé.

Símbolo (algo que representa o objecto) ≠ equação simbólica (esse algo é o objecto em si)

A baixa auto-estima atinge o seu máximo na psicose. Ao contrário do que acontece na depressão
esta falta de amor próprio não é consciente, existem mecanismos de defesa fortíssimos para
evitar o contacto com a baixa auto-estima. O sujeito nega a realidade interior, rejeitando,
projectando este sentimento de desvalorização.

O sujeito psicótico constrói estacas que o ajudam a proteger-se: compensação narcísica através
da arrogância e megalomania.

Assiste-se na psicose a um grave distúrbio identificativo. Toda a identidade está perturbada,


identidade sexual e pessoal no seu todo. O papel de género (homem/mulher), hierarquia das
gerações (diferença entre pais e filhos dilui-se; sentimentos de carinho, afecto, podem ser
confundidos com actos de cariz incestuoso), são confundidos e transgredidos. Tudo é esbatido.
Estas questões não surgem na neurose, o seu ego é coeso. Na psicose a angústia é a
fragmentação do ego, que é projectado no exterior, este ego sofre múltiplas clivagens. O sujeito
defende-se da percepção da realidade, atacando mesmo as funções de percepção da mesma,
dividindo em pequenos fragmentos.

Para compreender a perda/recalcamento da realidade, Bion põe a tónica na preponderância das


pulsões destrutivas. Considera ainda que tanto a realidade externa, como a interna são odiadas
assim, tudo o que possa aproximar ou relembrar o sujeito da realidade tem que ser atacado. As
relações objectais estão sujeitas aos ataques das pulsões destrutivas e, através da clivagem, são
transformadas em fragmentos múltiplos, expulsos pela identificação projectiva. No entanto, esta

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destrutividade não é pior, o objecto pode ainda ser de tal forma separado e degradado que é
negada a sua existência (alucinação negativa do objecto). É este desaparecimento das
representações da realidade que desorganiza o pensamento e abre as portas à angústia de
aniquilação.

Para alguns autores o desinvestimento não se encontra relacionado com um “ataque contra os
laços”. Apesar de haver uma dimensão destrutiva que invade a psique, esta dimensão é
secundária, acontece através de pulsões sádicas e masoquistas, que procuram fixar-se e
traduzir-se psiquicamente numa consequência da perda de capacidade de ligação, devido à
retirada dos investimentos. Assim, a psicose tem uma dupla origem: conflito com o objecto e a
sua intolerabilidade.

Esta hipótese de desinvestimento proposta por Freud, deixa portas abertas para a reversibilidade,
ao contrário da hipótese destrutiva que se revela irreversível.

Muitas vezes, surgem comportamentos obsessivos para evitar o aparecimento de


comportamentos psicóticos.

Klein caracteriza as psicoses com base na sua descrição das duas posições esquizoparanóide e
depressiva. Sendo a primeira caracterizada pela clivagem em bom e mau objecto e pela
intervenção dos primeiros mecanismos de defesa (clivagem, perseguição, introjecção). As
pulsões agressivas coexistem desde início e são particularmente fortes. A angústia é intensa e de
natureza persecutória (destruição pelo mau objecto). Todas as relações são comandadas pelas
pulsões agressivas que ameaçam constantemente o ego e o objecto.

A predominância da introjecção do bom objecto e a protecção contra as ameaças destrutivas


permitem a passagem para a posição depressiva, em que o objecto se tornou total.

A angústia depressiva incide sobre o perigo fantasmático de destruir ou perder a mãe devido ao
sadismo do sujeito. Esta angústia é combatida através de diferentes mecanismos de defesa:
defesas maníacas ou mais adequadas como a reparação ou inibição da agressividade.

A fixação na posição esquizoparanóide leva às psicoses esquizofrénica e paranóica. Fixações na


posição depressiva leva a psicoses maníaco-depressivas.

Personalidade:

Freud – somos todos neuróticos.

Klein – antes de sermos neuróticos (posição depressiva), fomos psicóticos (posição esquizo-
paranóide).

Bion – alternamos entre as duas.

Psicose vs Neurose

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Neurose - ego não quer saber da realidade mas não a nega, mantém a sua fidelidade às
relações externas e procura “amordaçar” o id. O ego entra em conflito com o id, recusa uma
pulsão indesejada, reprimindo-a no inconsciente - conflito intra-psíquico entre as exigências do id
e a realização do superego. Estas ambivalências são típicas da neurose.

O ego, o superego e o id são estáveis, encontram-se bem integrados. Os sujeitos neuróticos


estabelecem relações de objecto profundas. Têm um ego forte, uma grande capacidade de tolerar
a frustração, conseguem exercer com alguma facilidade o controlo dos seus impulsos. Preservam
uma função simbólica. São indivíduos criativos. Há uma integração entre sexualidade e emoções,
há alguma confusão mas não estão dissociadas.

Através da fantasia, o sujeito neurótico também cria uma nova realidade mas, esta não substitui o
mundo real. O neurótico é capaz de distinguir o que é fantasia do que é real.

Psicose - ego nega-se a perceber a realidade exterior e procura substitui-la por outra, criando
então o delírio (Ex: “Sou o Elvis Presley”). O ego deixa-se dominar pelo id ao mesmo tempo que
se separa da realidade. A percepção do mundo externo é então, perturbada/afectada. Mas
também, a relação com o mundo interior. Segundo Freud, o ego cria autocraticamente, um mundo
interior e exterior. O id domina. Não há um conflito intrapsíquico, mas sim entre o exterior e o
interior. Há lacunas graves nos processos de identidade ou uma identidade mal
construída/integrada. Usam mecanismos de defesa primitivos, fundamentalmente centrados na
clivagem, negação, identificação projectiva, omnipotência.

Teste da realidade – capacidade que o sujeito tem de fazer diferenciações (eu ≠ outro; externo ≠
interno). Capacidade de estar atento e ter empatia, exercer papéis na sociedade e estar
integrado. Muitas vezes caracteriza-se pela construção de outras realidades através de
alucinações.

• Apesar de se distinguirem, ambas surgem de uma frustração muito grande. Frustração


essa que costuma vir de fora mas que, no caso da neurose, também pode vir de dentro, do
superego (que no entanto, decorre do exterior, do superego materno/paterno).

Psicopatologia do adulto. Estados Limite.


Os estados limite correspondem a organizações intermédias situados entre as neuroses e as
psicoses. Apresenta sintomas e mecanismos de defesa das duas linhas. Caracteriza-se por uma
instabilidade estável, uma organização diferenciada.

A angústia parece ser o traço mais constante. Mas, o sujeito não teme é a fragmentação como na
angústia psicótica, não há uma fusão entre o mundo interior e o exterior, ainda que surjam
distorções na relação entre si e o outro. Também não é uma angústia ligada ao medo de uma
punição ou a sentimentos de insucesso ou culpabilidade como na angústia neurótica mas sim, o

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medo do abandono, da perda do objecto. Daí os sintomas depressivos marcados pela vacuidade
e o tédio.

São sujeitos muito dependentes, quer esta dependência seja do outro, ou do álcool ou das
drogas. Caracteriza-os também uma instabilidade das condutas sexuais de tipo caótico,
impulsivo, muitas vezes com arranjos perversos. As passagens ao acto, em todos os domínios,
são tão frequentes como imprevisíveis, incluindo as tentativas de suicídio.

Por trás desta multiplicidade de sintomas, encontram-se mecanismos de defesa como a clivagem
(que incide sobre o objecto, mas também sobre a auto-imagem); a identificação projectiva; a
recusa das percepções, dos pensamentos ou dos sentimentos contraditórios ou incompatíveis; a
omnipotência ou pelo contrário a desvalorização; as passagens ao acto de todos os tipos.

Encontra-se nos sujeitos borderline, na maior parte dos casos, a mesma dimensão traumática
ligada à carência do objecto primário, por insuficiência ou por excesso, assinalando a patologia
narcísica.

Muitas vezes os pais não eram figuras ausentes mas sim, simbióticos, são pais que não
promovem a autonomia, não permitem a independência. São relações que não permitiram à
criança invocar a ausência da mãe. Promovem o apego mais que exploração, não conseguem
tolerar esta autonomia, reprimem as conquistas e independência. Exemplo: “Mãe posso ir brincar
lá para baixo? Oh filho não preferes ficar comigo? Vais deixar-me aqui sozinha?”. São pais
narcísicos que fazem tudo pelos filhos mas esperam algo em troca. São pais que também
possuem organizações patológicas. Esta hiperprotecção esconde muitas vezes uma tendência
depressiva da mãe.

Muitas vezes este apego excessivo por parte de uma das figuras parentais, é complementado
com a ausência da outra ou com uma relação instável entre o casal. A criança não consegue
adquirir confiança suficiente, não lhe foi reconhecida qualquer capacidade de fazer algo por si só.
A constituição de um bom objecto interno encontra-se ligada a esta confiança.

Há nestes sujeitos uma difusão da identidade, “não sei muito bem quem sou”, “não me consigo
compreender”, “estou sozinho” (sentimento de vazio), “estou perdido”.

A manutenção da ligação com a realidade é o que mais a diferencia das psicoses, mesmo os
estados limite mais graves, têm uma resposta satisfatória ao teste da realidade, mesmo que em
determinadas alturas possam ter estados psicóticos. Os sujeitos borderline, ao contrário dos
psicóticos (que se ficam nas retiradas autistas), continua a interessar-se e a investir na realidade
e no mundo exterior. No entanto, decepcionam-se muito facilmente com os outros e rompem
laços, há portanto, por vezes, um desinvestimento objectal. Mas, a retirada é apenas
circunstancial e não total, limita-se apenas ao sujeito/objecto que decepcionou/frustrou, mantendo
um investimento satisfatório nos outros objectos.

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Os sujeitos borderline não conseguem manter uma estabilidade na relação com o objecto. Há
instabilidades no investimento no objecto (ex: saltar de desporto para desporto, profissão para
profissão, etc.). Quando lhes é assinalado o mínimo reparo/dificuldade, não são capazes de
tolerar e abandonam o objecto. Muitas vezes é apenas uma retirada temporária. Desistem com
facilidade da relação com o outro. Têm dificuldade em entrar em contacto com as experiências
emocionais do outro e de si próprio. Em estados mais graves não conseguem ir ao encontro do
outro, têm um superego quase inexistente.

Muitas vezes volta a investir no mesmo objecto – “Não gostava mas agora já gosto.”; “Era mau,
mas agora é óptimo” – clivagem do objecto. O mesmo objecto pode ser bom e mau, há uma
oscilação entre estes dois estados, uma alternância afectiva. A temporalidade da oscilação pode
ser de 5 minutos, como de dias, meses ou anos.

O mecanismo de defesa privilegiado dos sujeitos borderline é a clivagem. Muitas vezes, para
além da clivagem do objecto surge também uma clivagem do self (bom self – bom objecto; mau
self – mau objecto). Há ainda uma grande alternância de humor, passam de estarem
contentes/eufóricos para um estado de tristeza, de uma auto-estima alta e grandiosa para uma
baixa auto-estima. São no entanto alternâncias estáveis, é uma instabilidade estável. Devido a
estas instabilidades de humor e auto-estima, são sujeitos com dificuldade em manter relações
íntimas estáveis. Possuem diferentes graus na sua patologia sexual: dificuldade em associar a
sexualidade e o afecto. São sujeitos com uma vida sexual caótica, tendências infantis e
perversões.

Sujeitos que evidenciam uma fraqueza do ego, dificuldades de tolerância à frustração, dificuldade
em controlar impulsos e dificuldades sublimatórias.

Têm uma grande vulnerabilidade narcísica. O narcisimo é algo que nasce da relação, nas
primeiras relações. Exemplo: criança que chega a casa depois da escola e conta aos pais os
saberes e conquistas que teve mas, em vez de ser alvo de elogios, valorização e enriquecimento
por parte dos pais, é desvalorizada e desprezada.

São indivíduos que facilmente ficam ressentidos, com raiva, ruminam uma vingança. Outra
característica destes sujeitos é a irritabilidade e susceptibilidade face a contrariedades.
Aborrecimento e desinteresse constantes. Tendência para culpabilizarem os outros pelos seus
fracassos.

Alguns destes estados limite surgem na infância, são designados de pré-psicoses, são estados
limite que podem evoluir para uma psicose na adolescência ou idade adulta.

Na base deste tipo de funcionamento (epiopatogenia) encontra-se a importância da construção de


um bom objecto interno. Esta patologia surge numa altura em que se está a construir o objecto
interno. Assim, este objecto torna-se extremamente frágil, é um objecto interno que facilmente

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desaparece/se perde. Daí o sujeito muitas vezes o evocar. Angústia da perda do objecto: “Se me
separo dele será que desaparece de dentro de mim?”

Angústia da depressão: perda do amor do objecto

Angústia da neurose: castração

Angústia da psicose: fragmentação

Angústia do estado-limite: perda do objecto

Psicopatologia do adulto. Narcisismo.

Personalidades Narcísicas

Tónica principal neste tipo de funcionamento: agressividade

Face a determinadas zonas do desenvolvimento, a interacção com o meio pode levar à


manifestação de sintomas agressivos, o que reflecte a sua importância. Existem, no entanto,
factores inatos, predisposições inatas para apresentar manifestações agressivas.

Apesar de tudo, quando existem traumas físicos ou psicológicos, as manifestações de


agressividade são mais intensas e podem desenvolver determinados modos de funcionamento
nos quais a agressividade se encontra no cérebro desses funcionamentos. Exemplo: narcísicos;
paranóides; masoquistas.

O que caracteriza, no limite, o comportamento narcísico, é uma falta de interesse no mundo


externo, o afastamento desse mundo quando o sujeito desiste da relação com a realidade. Um
exemplo deste desinteresse é a megalomania, característica deste tipo de sujeitos. Esta
megalomania traduz-se num desinvestimento da libido objectal no mundo externo e consequente
investimento no ego.

Um indivíduo com uma perturbação narcísica tipicamente internalizou um “mau” objecto primário.

Este mau objecto primário fazem com que o sujeito tenha uma má imagem de si próprio, baixa
auto-estima e auto-confiança.

Para se defenderem, e suportar essa dor que permanece no seu “Self Verdadeiro”, estes
indivíduos transformam-no num “Self Falso” que é omnipotente e invulnerável. O narcisismo
patológico envolve um Verdadeiro Self debilitado, imaturo e disfuncional, acoplado a uma ficção
compensatória, Falso Self.

Um sujeito narcísico possui o seu regulador de auto-estima no exterior, a sua auto-valorização e


auto-estima vêm do feedback da sua audiência. O seu ego não é capaz de desempenhar estas
funções.

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É esse falso self que vai regular a sua auto-estima através do que Vaknin (2010) chama de
Suplemento Narcísico (qualquer forma de atenção: admiração, fama, medo, idolatração,
aprovação, etc.).

Este Suplemento Narcísico funciona então como um mecanismo de defesa compensatório. Na


ausência deste Suplemento Narcísico sentem-se vazios. Daí a sua constante busca deste
suplemento.

Esta disfunção é uma reacção a um meio abusivo e traumatizante.

Indivíduos com personalidade narcísica apresentam 3 características:

• Amor próprio Patológico: uma auto-centração excessiva, como se o sujeito fosse o


centro do mundo. Manifestações de grandiosidade; tendências exibicionistas (intelectuais,
poder, riqueza). Estes sujeitos apresentam, para além deste sentimento de superioridade,
ambições desmedidas e excessivas, podendo reflectir-se em construções megalómanas.
Quando, por ventura, estas ambições falham (o que acontece frequentemente, dado
tratarem-se de projectos irrealizáveis) o sujeito entra em estado de depressão.

Existe, portanto, uma alternância entre estes sentimentos de grandiosidade e os de


insegurança e, mesmo, desprezo, que se sucedem quando o sujeito se confronta com a
incapacidade de realizar as suas idealizações. São sujeitos que não toleram sentir-se
medíocres, isto é, iguais aos outros.

• Amor objectal Patológico: este sujeitos sentem uma grande necessidade de admiração
pelos outros. No entanto, procuram apenas ser admirados, não retribuem essa admiração
o que leva ao estabelecimento de relações meramente superficiais.

Sendo estes sujeitos dependentes da admiração de outros, o seu locus de controlo


encontra-se no exterior. O regulador da sua auto-estima encontra-se no exterior.

Estes sujeitos possuem um “amor invejoso”: na medida em que há falta de interesse pelos
outros, pelo seu trabalho, o que por vezes esconde sentimentos de inveja em relação ao
que os outros fazem. Assim, este sentimento surge, por vezes, numa tentativa de alcançar
o que o outro possui.

São sujeitos com uma reduzida capacidade de tolerância em depender do outro. Existe
uma dificuldade em suportar estas zonas de dependência o que leva à idealização
excessiva que alterna com a desvalorização excessiva (tal como acontece no amor próprio
patológico).

• Superego Patológico: incapacidade em exprimir formas de auto-crítica e uma finura na


forma como se vêm. Leva a que sintam dificuldade em lidar com os afectos e em sentir
remorso ou tristeza. Flutuações de humor abruptas e excessivas que decorrem de
fracassos, daí a oscilação entre estados de planificações de projectos desmedidos e os

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tais sentimentos de desprezo. Quando lhes dizem que fizeram algo de errado ou, sentem
que estão a falhar, retraem-se na vergonha, mais do que na culpa, e tentam preservar
fundamentalmente um certo orgulho, através da admiração externa. A sua dependência da
admiração externa é muito grande e serve de certa forma para preservar o orgulho.
Quando sentem que estão a falhar entram num estado depressivo.

Tudo isto reflecte a relação entre o sujeito e o exterior. Mas o que se passará no interior do
sujeito?

O interior do sujeito é caracterizado por um sentimento de vazio, daí estes sujeitos procurarem
sensações fortes e intensas, no fundo, algo que os faça sentirem-se vivos. Sentem-se sozinhos.

Segundo Kernberg, quem mais estudou estas perturbações, quando a agressividade é excessiva
o sujeito pode cair num Narcisismo Maligno, que se encontra entre a perturbação narcísica e a
anti-social. Transtorno de personalidade narcísica com síndrome do narcisismo maligno.

Narcisismo Maligno

Estes sujeitos são caracterizados por uma personalidade narcísica típica, um comportamento
anti-social, um sadismo ego-sintónico e uma orientação paranóide, em contraste com a
personalidade anti-social, ainda têm a capacidade de investir em relações não exploradoras com
os outros e, ao contrário da perturbação narcísica, não buscam constantemente Suplemento
Narcísico.

O seu sadismo ego-sintónico pode expressar-se numa “ideologia” consciente de agressividade


auto-afirmadora mas também, muito frequentemente, em tendência suicidas crónicas. Estas
tendências emergem não como parte de um síndrome depressivo mas sim em momento de crise
emocional, com a fantasia subjacente (consciente ou inconsciente) de que ter a capacidade de
tirar a vida a alguém reflecte uma superioridade e um triunfo acima do medo de dor ou morte
usual. Cometer suicídio, para estes sujeitos, é uma forma de exercer um controlo sadistico sobre
os outros ou de “abandonar” um mundo que sentem que não conseguem controlar.

Estes sujeitos podem apresentar um comportamento anti-social racionalizado – por exemplo,


como líderes de gangues sadisticos ou grupos terroristas. Uma auto-imagem idealizada e um ego
sadistico, ao serviço da ideologia, racionaliza o comportamento anti-social e pode coexistir com a
capacidade de lealdade aos seus próprios camaradas.

Personalidade anti-social

A personalidade anti-social é a forma mais grave de narcisismo (tem tudo o que tem o narcisismo
e mais ainda) patológico. Consiste num narcisismo levado a um grau excessivo, com uma grave
perturbação do superego ou uma quase inexistência do mesmo, importante regulador.

Estes sujeitos foram alvo de alguma forma de violência na infância. A agressividade encontra-se
no centro destes sujeitos.

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Segundo Klein e Kernberg, o superego precoce (que se forma a partir das identificações com os
objetos nos processos de projecção e introjecção), será o percussor do superego no futuro.O
superego vai-se construindo nas relações que o sujeito estabelece. Quando o ódio e a agressão
se encontram marcadamente na relação, são estes os percussores do superego que a criança vai
interiorizar. São estes os modelos de relação que serão interiorizados. A zona de agressividade
pode ser construída na interiorização das relações estabelecidas na infância. Há então a
ausência de um superego forte e coeso, superego esse que é responsável pela regulação da
nossa auto-estima, da nossa auto-crítica.

Esta ausência de um superego integrado leva a que o sujeito não possua capacidade de auto-
crítica e, assim, o seu regulador de auto-estima vai estar bastante dependente do exterior. No
fundo, estes são sujeitos que não toleram a dependência mas, na realidade são muito
dependentes do outro, da sua admiração, do que pensam dele, se o consideram poderoso, etc.,
para que se possam sentir minimamente seguros (o regulador da auto-estima está cá fora).

As dimensões morais, éticas, estéticas e a empatia encontram-se ausentes nestes sujeitos. São
indivíduos muito assustados, o que os torna também inseguros, sentem-se muitas vezes
ameaçados e por isso, reagem frequentemente com agressividade. A agressividade é usada para
se defenderem de um mundo perigoso, ameaçador. Este mundo reflecte as modalidades de
relação que viveram, a interiorização do objecto interno. A violência e agressividade que usam
nas relações interpessoais reflectem a falta de bons objectos na infância. Viveram relações de
objecto baseadas na agressividade. Esta deformação do superego deve-se à instabilidade e
agressividade destas relações de objecto primário.

Esta falta de segurança nas relações de objecto primárias leva, igualmente, a que estes sujeitos
encarem aqueles que são benevolentes e bons como sujeitos fracos. Existe, portanto, uma
grande valorização de objectos poderosos.

A responsabilidade dos pais nestas relações de objecto primárias é evidente, já que os


precursores do superego advêm dessas primeiras relações (provavelmente mesmo antes do
nascimento, mas essencialmente logo desde o nascimento).

Quando se cruzam com bons objectos que os desiludem por razões inevitáveis, têm reacções de
zanga, raiva, ódio exagerados para a situação. Pois estes sujeitos tendem a ter um ódio muito
elevado que deriva das relações de objecto que interiorizou. São indivíduos medrosos que acham
sempre que estão a ser atacados.

Estes sujeitos apresentam uma orientação paranóide, defesas psicopáticas (deslealdade,


desonestidade, mentira, fraude, agressividade, etc.), que usam como forma de ligar com estas
situações. Estas defesas impossibilitam que estes sujeitos interiorizem um sistema de valores.
Enquanto os indivíduos com personalidades narcísicas possuem um sistema de valores

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interiorizado, que fundamentalmente identificam em sujeitos poderosos, os indivíduos anti-sociais
não o conseguem fazer.

Segundo Henderson, existem dois tipos de funcionamento psicopático:

Agressivos: Sujeitos que obtêm gratificações ao realizar assaltos à mão armada, violam, matam,
etc. São sujeitos normalmente perigosos.

Passivos: sujeitos que roubem, se prostituem, etc. Acabam também por ser agressivos mas
expressam uma “agressividade em lume brando”; “lobos com pele de cordeiro”. São sujeitos que
obtêm gratificações ano nível das funções mais básicas corporais, como beber, comer ou drogar-
se. Têm dificuldade em enquadrar a sexualidade com a ternura. Em casos mais graves surge o
sadismo sexual, homicidas sexuais, etc., em que toda a capacidade de gratificação sexual não
existe, o que existe é uma forma de auto-mutilação, um impulso destrutivo.

A patologia anti-social tem um prognóstico bastante reservado, ao contrário do que se verifica


com as personalidades narcísicas. Para estes sujeitos o outro é um mero objecto que está ali
para o satisfazer e venerar. Não há empatia ou capacidade de olhar para o outro enquanto
pessoa.

Os sintomas típicos da personalidade narcísica na área do amor-próprio patológico são uma auto-
referência e auto-centração excessivas. Estes sujeitos apresentam também manifestações muito
grandes de grandiosidade, tendências exibicionistas, uma atitude de superioridade e ambições
desmedidas e excessivas. Quando estas ambições falham (o que acontece frequentemente, dado
tratarem-se de projectos irrealizáveis) o sujeito entra em estado de depressão.

Existe, portanto, uma alternância entre estes sentimentos de grandiosidade e os de insegurança


e, mesmo, desprezo, que se sucedem quando o sujeito se confronta com a incapacidade de
realizar as suas idealizações. São sujeitos que não toleram sentir-se medíocres, isto é, iguais aos
outros.

Na área do amor objectal patológico, os sintomas predominantes destes sujeitos são a inveja
excessiva (consciente e inconsciente); a desvalorização dos outros como uma defesa contra a
inveja; apropriação das ideias ou propriedades dos outros; uma incapacidade em depender dos
outros numa relação mútua; e uma grande incapacidade em sentir empatia pelos outros. O
estado do Ego destes sujeitos é caracterizado por um sentimento crónico de vazio e isolamento,
evidência de uma incapacidade em aprender, e um sentimento difuso de insignificância da vida.

Estes sujeitos apresentam também um superego patológico, que se reflecte na incapacidade em


experienciar formas de auto-critica o que leva a que sintam dificuldade em lidar com os afectos e
em sentir remorso ou tristeza. Estes sujeitos experienciam flutuações de humor abruptas e
excessivas que decorrem de fracassos, daí a oscilação entre estados de planificações de
projectos desmedidos e sentimentos de desprezo. Quando tal acontece, estes sujeitos retraem-se

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na vergonha, mais do que na culpa, e tentam preservar fundamentalmente um certo orgulho,
através da admiração externa, isto é, a sua dependência da admiração externa é muito grande e
serve de certa forma para preservar o orgulho.

Segundo Kernberg, a perturbação da personalidade anti-social apresenta uma patologia ainda


mais séria do superego. Segundo Henderson (cit. in Kernberg, 1992), o comportamento anti-
social destes sujeitos reflecte-se, ou de forma passiva, através de mentiras, roubos, falsificações,
burla e prostituição, de forma agressiva, através de assaltos à mão armada, assassínios e
violações.

A personalidade anti-social é caracterizada por uma gravíssima perturbação ou mesmo


inexistência do superego (regulador importante). O superego vai-se construindo nas relações que
o sujeito estabelece. A zona de agressividade pode ser construída na interiorização das relações
estabelecidas na infância. Esta ausência de um superego integrado leva a que o sujeito não
possua capacidade de auto-crítica e, assim, o seu regulador de auto-estima vai estar bastante
dependente do exterior. No fundo, estes são sujeitos que não toleram ser dependentes do outro
mas que são bastante dependentes da regulação exterior. As dimensões morais e éticas
encontram-se também ausentes nestes sujeitos.

Psicopatologia do adulto. Depressão.


Angústia da depressão: perda do amor do objecto

Está por trás de vários sintomas como por exemplo, sintomas neuróticos ou psicóticos. Há vários
tipos de depressão: limite, psicótica, etc.

Inicia-se com uma privação narcísica: a criança não recebeu afecto suficiente. Para que haja
depressão, é preciso que haja uma perda. Se há uma perda, a criança já foi amada, já existiu
uma relação objectal de afecto e vinculação.

Nostalgia: não há perda do objecto, está apenas ausente. O sujeito sente saudades dele mas, o
objecto pode retornar e retornará.

Luto: reacção à perda do objecto, uma ligação afectiva que se quebra. A perda não é imputável
ao próprio nem ao objecto. Não se faz apenas de uma morte, também se faz o luto de uma
relação.

Depressão: há, tal como no luto, a perda do objecto, de uma ligação afectiva. Mas, neste caso, o
sujeito já atribui a responsabilidade ao objecto, este passa a ser um mau objecto por ter
desaparecido, ter deixado de investir ou, ao próprio (eu não presto, não valho nada).

Luto

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O luto traduz-se numa aprendizagem, durante este processo o sujeito aprende a dirigir a libido,
dirigida anteriormente para o objecto perdido, para outro(s) objecto(s). Aprender a investir noutro
objecto.

O sujeito vai tentar reparar o objecto. Em vez de se virar contra ele vai (hiper)idealizar as boas
características do objecto e ignorar as más que são, muitas vezes, introjectadas. Esta introjecção
das más características do objecto vai levar a que estas se organizem no interior do sujeito como
um introjecto maligno, dando origem a um superego maligno, sádico.

No seu interior o sujeito vai cada vez mais idealizar as boas características do objecto e
introjectar as más no self de tal forma que estas passam a ser suas, o sujeito começa a
culpabilizar-se podendo então dar origem a uma depressão por culpabilidade.

Luto patológico

Muitas vezes designado como estados melancólicos. Como se as pessoas esperassem que o
objecto regresse. Exemplo: durante dois anos os pais continuavam a mudar os lençóis da cama,
pôr um prato na mesa e, cozinhavam a contar com o filho que perderam.

Depressão

Depressão de inferioridade ou narcísica

Por vezes o sujeito atribui a causa deste abandono a si próprio – surge uma depressão narcísica.
O sujeito considera que a perda ocorreu por uma deficiência sua, sente-se inferior e pouco
apreciado (há uma deficiência no amor-próprio), julga-se o culpado do objecto já não o amar, não
é suficientemente bom para isso. São sujeitos com um locus de controlo e uma auto-estima no
exterior. Esta inferioridade é colmatada por processos anti-depressivos que não lhe permitem
sentir o que se encontra no centro: auto-valorização, sentimentos grandiosos, megalomania, auto-
idealizações.

Depressão psicótica (angústia de aniquilamento)

A depressão inscreve-se numa perda, se esta perda é muito precoce, a reacção do sujeito será
uma resistência ao contacto, à procura do objecto, há um desinvestimento objectal associado a
um ódio muito profundo. A psicopatologia vai originar uma psicopatia.

O sujeito por vezes sente-se desprezível, horrível, subjacente a estes sentimentos está o delírio
de aniquilamento. Fruto da projecção, quem deseja aniquilar é o mundo e não a si próprio.

Na depressão psicótica o sujeito acaba por fazer o desinvestimento “completo”/brutal do mundo


objectal. Para o compensar o sujeito cria novas realidades, surge o delírio para colmatar este
desinvestimento e o sujeito conseguir sobreviver, suportar a realidade – delírio surge como uma
defesa.

Depressões limite (angústia de separação)

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Domina o sentimento de profundo vazio interior que está ligado à ausência do bom objecto
interno. São pessoas com dependências funcionais importantes, precisam sempre de um apoio,
muito dependentes do objecto. Há uma excessiva ligação ao outro, o outro é o objecto que se
precisa. Há o medo da perda do objecto.

Depressões por culpabilidade

Decorre de uma relação com um objecto que não é real mas sim, idealizado. O sujeito culpabiliza-
se pela perda do objecto. Introjecta no self e sente como suas as qualidades negativas do
objecto. Estes objectos malignos no seu interior podem incorporar o superego. Transforma-se
num superego sádico, tirano, transforma-se numa instância crítica que não perdoa, sempre atento
às falhas, tornando o sujeito culpado de tudo. Gera sentimentos de culpabilidade e
implacabilidade. Este superego sádico apenas se centra nos insucessos e falhanços, não
valorizando o que o sujeito faz de bom.

Muitas vezes é na análise que o sujeito se confronta com este objecto e, entra em depressão. É
através da relação terapêutica que o sujeito desmantela este introjecto maligno. É necessário
ainda que estes sujeitos também desmantelem a idealização do objecto de modo a que consigo
voltar a canalizar a libido para novos objectos, reais.

O sujeito depressivo está muito ligado ao passado e aos seus objectos. Não é capaz de tirar
prazer do presente, nem de olhar para o futuro. Muitas vezes espera que os objectos voltem.

Estes objectos são, muitas vezes, objectos que estabeleceram relações narcísicas com o sujeito
(exemplo: “eu amo-te, se me amares.”; Mãe: “vais brincar com os teus amigos e deixas-me aqui
sozinha?”), que eram fonte de auto-estima.

Aplicações terapêuticas da Psicanálise.


A Psicanálise da criança aparece no início do séc.XX. Com base no estudo dos adultos, Freud vai
definir a criança do ponto de vista psicanalítico e cria um modelo recapitulador da ontogénese do
homem. Isto é, visível no desenvolvimento faseado apresentado por Freud, nomeadamente o
desenvolvimento psicossexual.

As duas figuras mais importantes da psicanálise da criança são Melanie Klein e Anna Freud. No
entanto, divergem substancialmente em diversos pontos, dando origem a duas linhas de
pensamento diferentes.

Anna Freud preconizava um papel educativo do terapeuta, mas Klein rejeitava-o. Anna Freud fala
de uma fase preparatória na qual o psicanalista conduzia a criança pela terapia, mas Klein nega
isso referindo que as angústias da criança fazem com que ela se envolva demais na terapia.

Nos anos 60, aparece Winnicott que adopta uma posição intermédia entre Freud e Klein. Fala do
papel importante do meio envolvente para o bom desenvolvimento da criança. Daqui nasceram

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conceitos como o de holding, através também de trabalhos que fez com crianças em pediatria.
Faz uma ligação entre pediatria e psicanálise.

Há uma especificidade na terapia com crianças, uma vez que elas levam os pais. A análise da
criança deve passar pelos pais, e o trabalho com estes é tanto mais importante, quanto mais
novas forem as crianças. É importante que eles se envolvam para desenvolver o bom superego
da criança, por exemplo. Por outro lado, se os pais não forem envolvidos, sentir-se-ão excluídos e
poderão comprometer e prejudicar a terapia. As crianças são extremamente sensíveis ao mal-
estar familiar e daí também se interagir junto com os pais, também são eles que podem decidir o
fim do processo terapêutico.

O enquadramento é também diferente da psicanálise clássica. O uso do divã é muitas vezes


posto de lado e as sessões podem decorrer no chão, por exemplo. É aconselhável a criação de
um espaço adequado, simples, livre e contentor, bom para as crianças.

O jogo e o desenho são técnicas usadas e definidas por Klein. Estas são equivalentes à
associação livre nos adulto. Exemplo: desenho conjunto em que, o Terapeuta faz um risco e a
criança é convidada a continuá-lo (Winnicott).

Outra especificidade da psicanálise infantil prende-se com os fenómenos de transferência. A


análise a crianças tem algumas dificuldades, sendo uma delas a transferência. Devido à sua
natureza arcaica, são difíceis de ser contidas pelo analista. Estas derivam de um mecanismo de
identificação projectiva maciça. É então difícil para o analista tratá-las, dar-lhes um nome.

Muitas vezes, as crianças são incluídas em grupos terapêuticos, nomeadamente crianças com
níveis arcaicos de funcionamento. Permite às crianças resolver certos problemas, principalmente
do foro relacional.

Outro tipo de terapia conjunta é entre pais e bebés. Bebés que têm problemas de sono,
estômago, etc. Pretende-se desbloquear estes aspectos que prejudicam a relação entre os pais e
o frágil bebé.

Hoje em dia, a psicanálise infantil está extremamente desenvolvida.

Terapias de Grupo: os teóricos tentam trazer os benefícios da psicanálise para as dinâmicas


grupais. Tentam ligar o inter ao intra-psíquico.

Terapia Familiar: Preocupa-se com o psiquismo colectivo, as dinâmicas relacionais familiares.


Trabalha-se para se atingirem dinâmicas mais saudáveis. Usada frequentemente com problemas
de anorexia e outras. Muitas vezes, estes problemas ocorrem porque o jovem é visto como o
elemento mais fraco, sente-se pressionado e acaba por manifestar problemas.

Psicodrama Psicanalítico: Criado por Moreno. Inscreve-se na prática do teatro espontâneo.


Questões fundamentais são o improviso, a interacção e “jogo de papéis” (role playing). Tem o
objectivo de catarse, de libertar o sujeito. A isto junta-se a escuta e a interpretação psicanalítica.

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Estas duas juntam-se para que se possa dar a emergência dos conflitos psíquicos. O sujeito vai
representá-los e interpretá-los: o sujeito vai ver-se de outra perspectiva, vai confrontar-se a si
próprio e às personagens do seu mundo interior, personagens estas que podem ser tiranas. O
objectivo do Psicodrama é levar o sujeito a desenvolver novas formas de confrontação consigo e
com os outros.

Há uma regra fundamental: “tudo dizer”, ao que se junta “tudo representar”. Está aqui presente a
associação livre: escolha livre de cenas e papéis, o sujeito é actor, encenador, crítico e autor.

As dinâmicas transferências vão-se diluir e espalhar em rede e assim tornam-se mais passíveis
de serem dirigidas, analisadas, compreendidas.

Grupo Análise: Terapia com vários analistas e em grupo em que se resolvem problemas.

Aplicações da Psicanálise.
Psicanálise e Medicina: Contribui para o desenvolvimento da psicossomática: junção entre o
físico e o psíquico. Pressupõe que há somatizações das doenças mentais. Por outro lado, o
médico deve adoptar uma atitude terapêutica para com o doente e passar a preocupar-se pelas
suas dimensões psicológicas - implicações para a prática clínica.

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