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Foi com muito prazer que recebi o convite de CARTA

AKOTIRENE para escrever este texto. Minha satisfação se deve


a dois importantesfatores: o primeiro diz respeito a minha
admiração e afeto pela autora. Akotirene é uma filha de Oxum
retada, como se diz na nossa terra, além de batalhadora. culta.
inteligente e de uma personalidade muito determinada, pois
sabe conquistar seus sonhos políticos e intelectuais. 0 segundo
diz respeito ao tema do livro. a fnferseccü/7a//dado,certamente
um dos conceitos mais importantes das Ciências Sociais hoje no
Brasile nomundo.
Em 20q9, Demarginalizing
the{ntersectionof Rale and Sex:
A Bfack Féminis{ Critique ofAntidiscdmination Doutrine, Feminist
rheo/y and4nf/racisfRo#f7cs,de KimberléCrenshaw. completa30
anos de sua primeira publicação. Desde então, muitas pesquisas
e temas têm sido abordados pela perspectiva interseccíonal,
mas, como não poderia deixar de ser, o termo tem sofrido críticas
Como demonstrado por Akotirene, para nós, feministas negras.
interseccionalidadeé mais do que um conceito - é uma teoria e
também uma ferramenta de luta política que nasce do cotidiano.
dos enfrentamentos e dos desafios políticos das mulheres
negras. pois sabemos que o pensamento feminista negro é um
conjunto de experiências e ideias compartilhadas por mulheres
negras que envolve interpretaçõesteóricas da realidade a partir
de certo ponto de vista
Coincidentemente a escrita deste texto ocorreu poucos dias
depois da conferência de abertura de Kimberlé Crenshaw na
FEMINISMOS
Escola internacional do Pensamento Feminista Negro Decolonial,
em que a feminista respondeu às críticas ao conceito, e destacou PLURAIS
a característica mais importante da interseccionalidade:sua
perspectivapolítica. Reiterandoas reflexões da autora, a
COORDENAÇÃO
interseccionalidadepermanece como conceito central das
DJAMIU RIBEIRO
nossas análises, e tenho certeza de que @s leitor@sterão esta
convicção ao finalizar a leitura deste livro

ANGEU FIGUEIREDO
Professora e pesquisadora do Centro de Artes
Humanidades e Letras(CAHL-UFRB)
FEMINISMOS
PLURAIS
COORDENAÇÃO
DJAMlm RIBEIRO

CARA
AKOTIRENE

SÂO PAULO l 2019


Copyrighto 2018
Todos os direitos reservados a Pólen Livros, e protegidos pela
Lei 9.610, de 19.2. 1998. É proibida a reprodução total ou parcial
sem a expressa anuência da editora

Este livro foi revisado segundo o Novo Acordo Ortográfico


da Língua Portuguesa

Direção Editorial
Lizandra Magoa deAlmeida

Revisão
Estela Rosa
Luana Balthazar

PrQjçto gráâtco e diagramação


Daniel Mantovani

Dados Internacionaisde Catalogaçãona Publicação(CIP)


Angélica llacqua CRB-8/7057
SUMÁRIO
Akotirene, Cada
Interseccionalidade/ Cada Akotüene. São Paulo : Sueli Carneiro ; Cruzando o Atlântico em
P(51en,2019. memória da interseccionalidade 17

152p.(FeminismosPlurais/ coordenação de Djamila Ribeiro)


ISBN 978-85-98349-69-5 Vamos pensar direito: interseccionalidade
57
1. Feminismo2. Negras 3. Mulheres 4. Discriminação5. Identidade (, a.s íliulhei(,s n(,gtas ...... + + +ee+aoBeB ...-.e+++ .

social 6. Identidade de gênero 7. Opressão(Psicologia) 1. Título ll.


Ribeiro, Djamila 111.Série Atlântico e diferenças entre irmãs:
críticas ao conceito de interseccionalidade 75

19-0634 CDD 305.42


A crítica de Angela Davas. 105

Índices para catálogo sistemático: 111


Cruzar o Atlântico nem sempre encerra a travessia.
1. Feminismo :.Di$í7ilninação
.;' " ,, .. ', www.polenlivros.com.br Notas e referências 117
www.facebook.com/polenlivros
l@polenlivros
(11) 3675-6077
AGRADECIMENTOS

Ao meu Ori pela firmeza


da escrita

A Djamila Ribeiro e à sua


família ancestral pela confiança
intelectual depositada.

A minha mãe pelas rezas


de tranquilidade.
A Zelinda carros, Gabriela
Monteiro e Lorena Camelo
pelos olhos atenciosos que
revisaram estaslinhas.

Agradeço pelas referências


a Cada Ramos, Carol Lira
Wellington Pereira, Ariana
Salva, Cristiano Rodrigues,
Sayõ Adinkra e Márcia Macedo
Das entranhas eu sotl enc7uziihadas
Boca do mundo Mlarie!!e desbrava
M.isericórdia em volta revolta.
A baía do racismo, do capitalismo,
Do sexismo não nos mata.
Meu sangue quando jorra,
molha e nasce muitas de mim
Od o tempo crava Kawâ.
Das entrantms eü soü encruzilhadas
Chibata dejwro meu corpo de agita.
De mulheres negras !ésbicas$aveladas
Das entranha eu sou e?tartizilhadas
Da terra preta, do sagrado,
Do pé preto, mulher calcanhar rachado,
mão traçada de calo.
Das entranhas ea sotl encmzithadas
Chibata dejéwo minam língua navalha,
Ira de }ágdmas Kawê
.f;bEO/zascegzzasXangó
Maré vespa preta Maré
Ira vira Kawõ
fogo nas cigz/asXangÓ
Mlaré.

Deise Fatuma,
Mlaré}(awõ pela vozde }úadeiíe Franco
APRESENTAÇÃO
DjamilaRibeiro

FEMINISMOS
P IH RÉIS O objetivo da coleção Feminismos Plurais é trazer
para o grande público questões importantes referentes
aos mais diversos feminismos de forma didática e
acessível.Por essa razão, propus a organização --uma
vez que sou mestre em Filosofia e feminista de uma
série de livros imprescindíveis quando pensamos
em produções intelectuais de grupos historicamente
marginalizados: essesgrupos como sujeitospolíticos.
Escolhemos começar com o feminismo negro
para explicitar os principais conceitos e de6lnitiva-
mente romper com a ideia de que não se está discu-
tindo projetos. Ainda é muito comum se dizer que o
feminismo negro traz cisões ou separações, quando
é justamenteo contrário. Ao nomear as opressões
de raça, classe e gênero, entende-se a necessidade de
não hierarquizar opressões,de não criar, como diz ; aB
Angela Davis, em .A4a/;mexes
negras /za consrmç;ão de ma =
nova zzfop/a, "primazia de uma opressão em relação

13
a outras". Pensar em feminismo negro é justamente transexualidade, afetividade, interseccionalidade,
romper com a cisão criada numa sociedade desigual. empoderamento, masculinidades. É importante
Logo, é pensar proUetos,novos marcos civilizatórios, pontuar que essa coleção é organizada e escrita por
para que pensemos um novo modelo de sociedade. mulheres negras e indígenas, e homens negros de
Fora isso, é também divulgar a produção intelec- regiões diversas do país, mostrando a importância de
tual de mulheres negras, colocando-as na condição pautarmos como sujeitos as questões que são essen-
de sujeitos e seres ativos que, historicamente, vêm ciais para o rompimentoda narrativadominantee
fazendo resistência e reexistências. não sermos tão somente capítulos em compêndios
Entendendo a linguagem como mecanismo de que ainda pensam a questão racial como recorte.
manutenção de poder, um dos objetivosda coleção é Grada Kilomba em -l)Za/zfarío/zs
.Ademanes.-Epísodes
o compromisso com uma linguagem didática, atenta ofEveOdayRacism, diz.
a um léxico que dê conta de pensar nossas produções
e articulações políticas, de modo que seja acessível, Esse livro pode serconcebido como um modo
como nos ensinam muitas feministas negras. Isso de de "tornar-se um sujeito" porque nesses escri-
tos eu procuro trazer à tona a realidade do
forma alguma é ser palatável,pois as produções de
racismo diário contado por mulheres negras
feministas negras unem uma preocupação que vincula baseado em suas subjetivídades e próprias
a sofisticação intelectual com a prática política. percepções. (KILOMBA, 2012, p. 12)
Neste volume, a autora Cada Akotirene discute o
conceito de interscciónalidade como forma de abarcar Sem termos a audácia de nos compararmos com
as vivências e intersecçõesa que está submetida uma o empreendimento de Kilomba, é o que também
pessoa, em especial, a mulher negra. O termo derme pretendemos com essa coleção. Aqui estamos falando
um posicionamento do feminismo negro dente às ''em nosso nome''. '
opressões da nossa sociedade cisheteropatriarcal
branca e de base europeia, desfazendo a ideia de um Djamila Ribeiro
feminismo global e hegemónico como voz única.
Com vendas a um preço acessível,nosso objetivo a
E- é contribuir para a disseminação dessas produções.
Para além desse título, abordamos também temas
5-
-= =
como encarceramento, racismo estrutural, branqui-
tude, lesbiandades, mulheres indígenas e caribenhas,

14 15
CRUZANDO O HLÂNTICO EM MEMÓRIA
DA INTERSECCIONALIDADE
esvaziamento. A interseccionalidade visa dar insüu-
mentalidade teórico-metodológica à inseparabilidade
estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriar-
cado3 produtores de avenidas identitáiias em que
mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelo
cruzamento e sobreposiçãode gênero, raça e classe,
modernos aparatos coloniais.
Segundo Kimberlé Crenshaw, a interseccionali-
dade permite-nos enxergar a colisão das estruturas, a
interação simultânea das avenidas identitárias, além
do üacasso do feminismo em contemplar mulheres
Este volume da Coleção FeminismosPlurais, negras, já que reproduz o racismo. Igualmente, o
movimento negro falha pelo caráter machista, oferece
coordenadopela filosofa Djamila Ribeiro, traz a
ferramentas metodológicas reservadas às experiências
raiz política, o fundamento e os contrapontos ao
conceito de interseccionalidade. Tal conceito é uma apenas do homem negro.
sensibilidade analítica,2 pensada por feministas Feitas consideraçõesiniciais às/aos leitoras/es o
negras cujas experiênciase reivindicaçõesinte- desafio político é rejeitar quaisquer expectativasliterá-
lectuais eram inobservadastanto pelo feminismo rias elitistas,jargões acadêmicos,escrita complexa na
branco quanto pelo movimento antirracista, a rigor, terceira pessoa e abstrações cientíâcas paradoxais sob
focado nos homens negros. a sombra iluminista eurocêntrica, míope à gramática
ancestral de ÀÊica e diáspora. Do meu ponto de vista, é
Surge da crítica feminista negra às leis antidiscrimi-
nação subscrita às vítimas do racismo paüiarcal. Como imperativo aos ativismos, incluindo o teórico, conceber
conceitoda teoria críticade raça, 6oicunhadopela a existência duma matiz colonial moderna cujas rela-
intelectual alto-estadunidense Kimberlé Crenshaw. ções de poder são imbricadas em múltiplas estruturas
mas, após a Conferência Mundial contra o Racismo, dinâmicas, sendo todas merecedoras de atenção política.
Combinadas, requererão dos grupos vitimados:4
G= 0
Disciíininação Racial, Xenofobia e Formas Conexas
de Intolerância,em Dwban, na Aftica do Sul, em
5-
1. instrumentalidade conceptualde raça, classe, -=
2001, conquistou popularidade acadêmica, passando
=-m nação e genero;
do significado originalmente proposto aos perigos do

18 19
2. sensibilidade interpretativa dos efeitos iden- de depositar neste texto pontos de vistas produzidos
titários :
pelas intelectuais negras, escrever pretoguês brasileiro,s
3. atenção global para a matiz colonial mo- como Lélia Gonzalez, pensadora ameíticana --já que
derna, evitando desvio analítico para apenas
neocolonizadores acadêmicos não podem abocanhar a
um eixo de opressão.
interseccionahdade e nem sequer têm autoridade para
É oportuno descolonizar perspectivas hegemó-
nicas sobre a teoria da interseccionalidadee adotar dominar o ponto de vista feminista negro.
Indo ao encontroda reflexãoepistemológica
de
o Atlântico como locus de opressões cruzadas, pois
Patrícia HiU Collins, feminista negra estadunidense,
acredito que esse território de águas traduz, funda- considero a interseccionalidade como um "sistema
mentalmente, a história e migração forçada de afri-
de opressão interligado". Escrevo na primeira pessoa,
canas e aâicanos. As águas, além disto, cicatrizam
alinhamento à esquerda, sem recuo da ancestralidade
feridas coloniais causadas pela Europa, manifestas
nas etnias traficadas como mercadoúas, nas culturas aíticana, forasteirade dentro, na visão de Collins,
desafiando as Ciências Sociais por autodefinição e
afogadas, nos binarismos identitários, contrapostos
humanos e não humanos. No mar Atlântico temos o autoavaliação intelectual negra, avessa às ferramentas
modernas de validação científica.
saberduma memória salgada de escravismo, energias Vei)ho às mulheres de cor,ó caribenhas, terceiro
ancestrais protestam lágrimas sob o oceano.
-mundistas, lésbicas e africanas, invocar a teoria no espí-
Segundo profecia iorubá, a diáspora negra deve
rito, responder a Cartas de Gloria Anzaldúa na â'on-
buscar caminhos discursivos com atenção aos acordos
teira do seu pensamento mes/izo,"buscando impedir o
estabelecidos com antepassados. Aqui, ao consultar
sangue coagular na caneta", repetindo o gesto da sua
quem me é devido, Exu, divindade aRicana da comu-
mão escura que segura a caneta sem o medo de escrever
nicação, senhor da encruzilhada e, portanto, da inter-
para outras irmãs espalhadaspelo mundo.
seccionalidade, que responde como a voz sabedora de
Movida por escrevivências, como Concepção
quanto tempo a língua escravizada esteveamordaçada
Evaristo,8 proponho cantiga decolonial por razões
politicamente, impedida de tocar seu idioma, beber da
psíquicas, intelectuais, espirituais, em nome d'águas
própria fonte epistêmica cruzada de mente-espírito. e
atlânticas. Mulheres negras infíltradas na Academia,
=

Antes de sepreparar o pensamento feminista negro


engajadas em desfazerem rotas hegemónicas da teoria 5-
e a interseccionalidade como metodologias, a encruzi-
feminista e maternarem a-feto, de si, em prol de quem
<c

CU lhada engolia oferendas analíticas contra nós, razão


sangra, porque o racismo estruturado pelo colonialismo
==.

20 21
moderno insiste em dar cargas pesadas a mulheres onde estqam as populações de cor acidentadaspela
negras e homens negros. Lavouras identitárias plantam modernidade colonialista até a encruzilhada, buscar
negritudes onde não existem e impõem para nossos alimento anaUtico para a fome histórica de justiça.
úteros significados ocos e ocidentais do feminismo
O feminismo negro dialoga concomitantemente
branco em deüimento da matripotência iorubana. entre/com as encruzilhadas, digo, avenidas identitárias
Já estabelecendo o diálogo teórico entre o pensa- do racismo, cisheteropatliarcado e capitalismo. O letra-
mento interseccional de Audre Lorde e Achille
mento produzido neste campo discursivo precisa ser
Mbembe, enquanto as mulheres brancas têm medo aprendido por lésbicas, gays, bissexuais e transexuais,
de que seus filhos possam crescer e serem coop- (LGBT), pessoas deficientes, indígenas, religiosos do
tados pelo patriarcado, as mulheres negras temem candomblé e trabalhadoras. Visto isto, não podemios
enterrar seus filhos vitimados pelas necropolíticas,9 mais ignorar o padrão global basilar e administrador
que confessional e militarmente matam e deixam de todas as opressões contra mulheres, consüuídas
morrer, contrariando o discurso cristão elitista-branco
heterogeneamente nestes grupos, vítimas das colisões
de valorização da vida e confia o aborto -- que é um múltiplas do capacitismo, terrorismo religioso, cishete-
direito reprodutivo. Não havemos de escapar desta ropatriarcado e imperialismo. Tais mulheres depositam
encruzilhada teórica. Nela, como é sabido, muitos
confiança na oferenda analítica da interseccionah-
se confiindiram, seguiram a esmo metodológico o dade, preparada por suas intelectuaisalém de, suces-
caminho do socorro epistêmico às mulheres negras sivamente, oferecerem no espaço público o alimento
acidentadas, múltiplas vezes, em avenidas identitá- político para os Outros,'' proporcionando o fluxo
rias. Daí não ter cabimento exigirem agência política entre teoria, metodologia e prática aos acidentados
para que se levantem sozinhas depois dos impactos durante a colisão, amparando-os intelectualmentena
da colonização, nem as matarem como a mãe preta, própria avenida do acidente. Apesar de abordagens
sobrenatural, matriarca, guerreira, que tudo aguenta eurocêntricas por vezes chegarem na contramão para
e suporta. dar socorro epistemológico,ignorando o contexto do
Contrariando o que está posto, o prometofeminista acidente e causando, por consequência, mais fluxos no
negro, desde sua fundação, trabalha o marcador racial cruzamento de raça, gênero e classe. . . E o modismo a
c= o
e3 = para superar estereótipos de gênero, privilégios de acadêmico da interseccionalidadel 5«
classe e cisheteronormatividades articuladas em nível
= .s A serventia contemporânea promove carreiras -=
global. Indistintamente,seus movimentos vão, desde acadêmicas da Europa e branquitudes brasileiras, já

22 23
mal-acostumadas com a apropriação intelectual inde- com alteridade, baseado na memória, informação
ancestral do espírito, e não pela marcação morfoHlsio-
vida, a ponto de órgãos consultivos de igualdade e de
controle social das nações adorarem políticas públicas IÓgica, anatómica, fenotípica.
Seria perda de tempo essa epistemologia acom-
cumulativas, transversais e pró-formas, de suposto
caráter interseccional, antidiscriminatório. Denü'e estas panhada de expedientes ideológicos da cosmovisão
ocidental, essa patologia histórica. O maior recurso
práticas, costumam usar a interseccionalidadecomo
correspondente às minorias políticas ou à diversidade,
colonial da eurocivilização consiste em priorizar
o corpo, ignorar ferimentos que tendem a comple-
chegando mesmo a questionar a agência da mulher
negra, como se encruzilhada fosse tão somente o lugar
xiHicar rapidamente, enquanto diagnosticam, às
da decisão da vítima: levantar-seou continuar caída? pressas, o problema "negro," das "lésbicas," de
Sentir ou não as feridas da colonização? É da mulher "gênero," dos "latino-americanos
negra o coração do conceito de interseccionalidade. O pensamento feminista se deu mediante a cons-
trução a ferro e águas atlânticas, e a interseccionali-
Quemjá viu algum socorro prestado olhar as carac-
terísticas fenotípicas da pessoa vitimada? Avaliar se é
dade veio até nós como ferramenta ancestral.Não
mulher de verdade" e neste caso, se tem vagina, ou por acaso, Sojourner Truth, nascida acorrentada ao
escravismo, vendida em leilão aos nove anos de idade,
qual sua língua, se nativa ou estrangeira?O feminismo
negro está interessado em socorrer considerando os junto ao gado, tornou-se pioneira do feminismo negro.
Em discurso de improviso .Eu não soz/ z/mcz mu/#er?,ii
sentidos: se a pessoa está responsiva aos estímulos
lésbicos, se soReu "asfixia racial", se foi tocada pela proferido em 1851, durante a Convenção dos Direitos
das Mulheres de Ohio, em Akron, ela denunciou
polícia, se está escutando articulações terceiro-mun-
distas. A única cosmovisão a usar apenas os olhos é a que "ninguém nunca me ajudou a subir nas carrua-
ocidentale esses olhos nos dizem que somos pessoas gens, nem pular poças de ]ama [...], eu tive treze
de cor, que somos Outros. A concepção de mundo 6Hhose vi a maioria ser vendida pra escravização
Nestes Êagmentos, a intelectualpioneiramente arti-
que interessa ao feminismo negro se utiliza de todos
os sentidos.E repito, não socorre as vítimas do colo- cula raça, classe e gênero, questionandoa categoria
'« ,l.
nialismo moderno prestando atenção à cor da pele, mulher universal, mostrando que se a maternagem
ao gênero, à sexualidade, genitália ou língua nativa. obrigatória revela um destino biológico para todas as 5«
c= o -=
Considera isto. sim, humanidades. Orixá ilustra bem mulheres, seria apropriado ressaltar que os HHhose as
= .g filhas das africanas eram vendidos escravizados.
nossa base ética civilizacional: o corpo se relaciona
g .R
24 25
Em 1867,no discurso "Keeping the Thing Going deve fazer o que ambos marido e patroa -- querem,
While ThingsAre Stining", SojournerTrudt aumentou como se faltasse vontade própria e, o que é pior, capa-
a ênfasecontra o machismo dos homens negros, que cidade crítica. Independentemente da idade, o racismo
conquistaram o suítágio omitindo qualquer referência infanüliza as mulheres negras. Velhice é como a raça
às mulheres negras. O pensamento interseccional é vivida; e classe-raça cruza gerações, envelhecendo
explicou a matriz de opressão cisheterossexista,etária, mulheres negras antes do tempo.
divisora sexual do trabalho, segundo a qual, na minha De tal modo, atravessamos séculos articu-
tradução: as mulheres negras eram trabalhadoras nas lando raça, classe, gênero e nação. Em dias atuais,
casas das "mulheres brancas insüuídas," chegavam aguardamos a impressão da face feminista negra de
em casa e tinham o dinheiro tomado por "maridos Harriet Tubmam, generala, abolicionista suftagista,
ociosos", bastante ofendidos porque não havia "comida nas cédulas de vinte dólares nos Estados Unidos,
pronta dentro de casa". Então, a pensadora denuncia circulando o valor interseccional.E a lembrança das
a infanülização da mulher negra: "Eu quero que você rotas ancestrais partidas do Rio Combahee à ferrovia
considereque sou uma criança de alguéme, eu tenho subterrânea para libertar escravizados. Há mais de 150
idade suficiente para ser mãe de todo mundo aqui". anos, mulheres negras invocam a interseccionalidade
A despeito do feminismo hegemónico argumentar e a solidariedade política entre os Outros. Simultâneo
que na velhice as mulheres experimentam discrimina- a isto, atestam que o machismo presente na comu-
ções geracionais impostas pelo mercado de trabaUio, o nidade negra deve recebera crítica dada ao racismo
qual as consideram velhas; e de classe, porque perdem 6emiliista, estando o Coletivo Combahee Rever, orga-
o dinheiro da aposentadoria para netos e adultos nização negra lésbica nascida em 1974, em Boston,
da família,é a marcaçãode raçaque garantiráàs Massachusetts, em 1977, a defender o pensamento
mulheres brancas seguridade social, pois estas tiveram interseccional, através das Irmãs Bárbara Smith e
emprego formal, e a marcação de classe irá mantê-las Beverly Smith, respectivamente, editora dos livros
na condição de patroas. No pensamento de vanguarda escritos por mulheres de cor, lésbicas e teóricas femi-
de Sqourner Truta, raça impõe à mulher negra a expe- nistas. Manifestaram ao lado das mulheres de cor que:
=
riência de burro de carga da patroa e do marido. Para n
a mulher negra inexiste o tempo de parar de trabalhar. Acreditamos que a política sexual sob o pa-
0
vide o racismo esüutural,i2que as mantém fora do triarcado é tão onipresente nas vidas das mu-
CU mercado formal, atravessando diversas idades no não lheres negras, quanto às políticas de classe e
raça. Também achamos, muitas vezes, difícil
emprego, expropriadas; e de geração, infantil, porque
26 27
separar opressões de raça, classe e sexo por- Ademais, foi brilhante o pensamento feminista
que, nas nossas vidas, elas são quase sempre negro de Sojourner Truth, que arte(:usou discursiva-
experimentadas simultaneamente. Nós sabe mente as estruturas de racismo, capitalismo, cisheteropa-
mos que existeuma coisa que ê uma opres- tliarcado e etaiismo, marcando a sensibilidadeanalítica
são sexual-racial que nem é somente racial
da interseccionahdadeà compreensão das experiências
nem somente sexual, por exemplo, a história
do estupro das mulheres negras por homens aUibuídas às mulheres negras, dezesseis anos antes do
brancos como arma de repressão política. Capital, publicado em 1867. O Dr. Carlos Moore, ao
Mesmo sendo feministas e lésbicas, nos soli- tratar da teoria de Marx e Engels, assinala que
darizamos com os homens negros progressos
tas, e não defendemos o Racionamento que as O raciocínio de ambos era simples: a car-
mulheres brancas separatistas reivindicam.:: nificina e pilhagemfora da Europa seriam
a base para o desenvolvimento vertiginoso,
Por certo, produçõese posicionamentos
como no Ocidente, do Capitalismo industrial e
da classe de trabalhadores assalariados. Por
esse. além de encontrarem caminhos de ressarcir vozes
sua vez, isso levaria à revolução e, enalm, ao
secularmente inaudíveis até a publicação, advertem Socialismo. Eles pouco se importavam com
equívocos analíticos da sociedade civil e Estado toda as consequências do imperialismo ocidental
vez que a mzlüer é tomada de modo universal. Diga-se para suas vítimas não ocidentais. Na verda-
de passagem, iniquidades de gêneronunca atingiram de, estavamconvencidosde que a domina-
mulheres em intensidades e frequências análogas. ção ocidentalera o agenteda "civilização
e, assim, para o bem dos próprios povos co
Gênero inscreve o corpo racializado. Entretanto, Ionizados. Engels seria bem explícito neste
l
enfoques socialistas encurtados à cantilena de classe sentido: "Não há calamidade histórica que
negaram humanidadesafricanas, além do fato de não seja compensada pelo progresso. E ape-
negras serem mulheres e estuproscoloniais terem- nas o modus operandi que se modiHíca".:'
nas transformado em produtoras e reprodutoras de
vidas expropriadas no trabalho de parto, e seus filhos Ao contrário do raciocínio ocidental, as
em mercadoriasas quais, elas, em tese, mães, não mulheres negras evidenciaram destreza corpórea, n
a)
=

tinham o direito à propriedade. É fetiche epistemicida insubmissão política em defesa do abolicionismo e 5-


omitirmos clivagens racistas, sexistas e cisheteronor- sufrágio, preocupadas em superar toda e qualquer =
':(

CU
mativas esü'uuradas pelo Ocidente cristão. opressão, sem que, para isto, credenciais acadêmicas

28 29
validassem este conhecimento. A teoria feminista Sem dúvida, mulheres negras foram marinheiras
argumentou haver discursos masculinos produzidos das primeiras viagens uansatlânticas, trafegando
pela ordem patriarcal, responsáveis por modelar identidades políticas reclamantes da diversidade, sem
subjetividades femininas condicionadas a tornar a distinção entre nauÊágio e suâ'ágio pela liberdade dos
mulher uma categoria de Outro: obedientes HHhas, negros escravizados e contra opressões globais. Elas
boas esposas, mães compulsórias e cúmplices das construíram o pensamento feminista negro e, por
violências praticadas contra elas, conforme assinala mais que lembranças ancestrais nos remetam às aguas
Simone de Beavouir, no livro O sega/zdo sexo,:5publi- do Rio Combahee, nunca esqueceremos que, em
cado em 1949,e Marilena Chauí, em 1985,no artigo 1969, o feminismo negro de Frances Beal publicou
"Participando do debate sobre mulher e violência" .:' o "Black Women's Manifesto; Double jeopardy: To
Notemos que mulheres negras, na condição de be Black and Female"," argumento teórico e politi-
Outro, propuseram ação, pensamento e sensibili- camente contra a necropolítica colonialista moderna,
dade interpretativa contra a ordem patriarcal racista, cruzando capitalismo, imperialismo ocidental e
capitalista, sem nenhuma conivência subjetiva com racismo estrutural, e tendo em vista que
a dominação masculina. As mulheres negras esco-
lheram lutar pelo sun'ágio e pela abolição, defenderam Os Estados Unidos patrocinam clínicas de
esterilização em países não brancos, espe-
os homens negros e as companheiras brancas, reco- cialmente na Índia, onde cerca de 3 milhões
nhecendo que, quer seja descrito, quer sda analítico, de jovens homens e meninos em Nova Déli
isolado de outras categorias de análise, o marcador e arredores foram esterilizadosem salas de
gênero explica as violências sofridas por mulheres cirurgia improvisadas, montadas pelos traba-
brancas, bem como a categoria raça explica o racismo lhadores americanos da força de paz. Nestas
circunstâncias, é compreensível que certos
imposto aos homens negros.
países considerem o Corpo da Paz não como
A interseccionalidade nos mostra mulheres
um projeto benevolente, não como evidência
negras posicionadas em avenidas longe da cisgene- da preocupaçãoda América com áreas sub-
ridade branca heteropatriarcal. São mulheres de cor, desenvolvidas, mas como uma ameaça à sua
lésbicas, terceiro-mundistas, interceptadas pelos trân- própria existência.';
sitos das diferenciações, sempre dispostos a excluir
=

0 identidades e subjetividades complexificadas, desde Com efeito, a interseccionalidade exige orientação


-=
a colonização até a colonialidade, conforme pensam geopolítica. Ori rege cabeças negras em diálogo com as
<(

Mana Lugones e Avtar Brah. epistemologiasdo Sul.'ç Do ponto de vista feminista

30 31
negro, intelectuais estadunidenses são consideradas Gonzalez, pensadora brasileira que reposicionou
como tais - saberesperiféricosdo lado sul-nortista: a região colonizada, .4míâücaZ,ad//za,criticando o
norte porque, dos Estados Unidos, vivem sob a batuta monoculturalismo epistêmicodos Estados Unidos.
supremacista-imperialista de publicação, difusão e A ameRicanidade proposta por Lélia Gonzalez,
tradução de conhecimento ao resto do mundo, e sul, na década de 1980 e, em seguida, a abordagem deco-
pois sofrem racismo e sexismo epistêmicosimpostos lonial, consolidadanos anos 2000 de modo cabal,
pela geografiado saberdo Norte Global. através de Mana Lugones, pensadora argentina,
Antes de serem estadunidenses, as feministas são criticam a postura missionária da civilização ocidental
negras e refletem experiências pós-coloniais nas águas - metodologicamente interseccionam as estruturas de
atlânticascomo nós, suas irmãs de barco, noutra raça, gênero, sexualidade, nação e classe, estabele-
América. Uma vez que a água para as mulheres cendo coro latino-americano contra o colonialismo,
negras é fundamento epistemológico, não sendo à imperialismo e monopólio epistêmico ocidental.
toa, por identidade ancestral, sermos todas chamadas As duas concepções rompem ficções do discurso
de ialodês título consagrado a Oxum, senhora das hegemónico estadunidense que vê a "América'' como
águas e mensageirapolítica das reivindicaçõesdas um capitão salvador do resto do mundo, e não calha
mulheres, na Nigéria vale considerar, que distante de sê-lo,nem no item Norte Global, segundoLélia
do feminismo branco com "místicas femininas"20 em Gonzalez, voz desobedientenas Ciências Sociais,
alusão representativa da prisão feminina no espaço expositora do sexismo e racismo na cultura brasileira.
privado Oxum representa aquela que tem autori- Nesta direção, a biograHlade Lélia Gonzalez,zi da
dade no espaço público-privado para reivindicar em Coleção Retratosdo Brasil N egro, produzida por Alex
nome da comunidade, como marcam os pontos de Rales e Flavia Rios, utiliza o tom feministanegro para
vistas de Jurema Werneck e Sueli Carneiro. apresentarOxum, orixá regenteda pensadora, nacio-
Em presença do paradigma a&ocêntrico, valho- nalidade, gênero e classe, movimentando a tcxtura
me das intelectuais africanas Oyêronké Oyêwúmi, intelectualnão Ihear, não objetiva e não neutra da
Bibi Bakare, Sylvia Tamale, Chimamanda Ngozi interseccionalidade, revelando arranjos ancestrais c''» e13
Adichie, sem rejeitar a descolonização epistêmica, do ponto de vista de Lélia Gonzalez, sobretudo na a
0 aâocentrada, das pensadoras bell hooks, Angela década de 1980. Em seguida, publicam A perspec- =-
;aB
< Davas,Patrícia Hall Collins, Jasbir Puar, Audre Lorde, tiva interseccionalde Lélia Gonzalez,22conârmando =

Alice Walker, conceituadas amefticanas por Lélia a antecipação conceptualde interseccionalidade na u. a--

32 33
diversidade de marés na história do feminismo, rejeita
pensadora "que, militante acadêmica, articulava o
a brancura das ondas feministas, que não passaram
racismo, o sexismo e a exploração capitalista" .23
experiências da colonização e nem sequer compu-
Fazendo jus ao pensamento de Lélia Gonzalez,
seram o prqeto intelectual emocionado, manifesto de
a tradição feminista negra estadunidensenos deu a
força teórica negra, sem estar presa às correntes euro-
matriz interseccional, publicando a obra .A4u/#e/e$
/tzfa cêntricas e saberes narcísicos.
e cZmse,24escrita pela íilósofa Angela Davas, em 1981.
Contrária ao padrão de apagamento linguístico,
Os efeitos do capitalismo, racismo e sexismo marcam
interiorização espiritual e arquitetõnica, dos quais
o ponto de vista feminista negro, reconhecendo as
partem os genocídios europeus, alargados pela expor-
mulheres brancas como trabalhadoras companheiras
tação de corpos feminizados, pelo saqueamento, cate-
antiescravocratas, não obstante, próximas do racismo.
quização e falsa descobertada América, convalido a
A obra debate o trabalho doméstico, a exploração de
"desobediência epistêmica," argumentada por Wãter
classe, os abusos sexuais direcionados às mulheres Mignolo,zsem defesa da identidadepolítica e não da
exploradas como negras, como trabalhadoras, como
política de identidade. Do meu ponto de vista deco-
mulheres-- além do choro da mulher negra e suas
lonial, é contraproducente empregar interseccionali-
denúncias serem consideradas ilegítimas. Também
dade para localizar apenas discriminações e violências
considera que os homens negros soüeram consequên-
inlstitucionaiscontra indígenas, imigrantes, mulheres,
cias de raça-sexo, mergulhadas de estereotipias,lincha-
negros, religiosos do candomblé, gordos e grupos iden-
mentos e classiâcação racial acusatórias de sê-los
abusadores sexuais das mulheres brancas. titálios diversiâcados. O padrão global moderno impôs
estas alegorias humanas de Outros, diferenciadas na
O livro .4ífz?/a Moman, o primeiro de bell hooks,
aparência, em que preconceitos de cor, geração e capa-
também publicado em 1981, ajusta a metodologia
cidade Hisica, apeúeiçoam opressões antinegros e anti-
interseccionalarticulando o impacto sexista na expe- mujheres -- mercadorias humanas da mat:riz colonial
riência das mulheres negras durante e após a escrava-
moderna heteropaüiarcal do sistema mundo.
tura, a desvalorização da subjetividade, o machismo
O problema não está necessariamente nas
dos homens negros, o racismo feminista e a vontade n
intelectual de trabalhar o paradigma aftocêntrico para
respostas identitárias dadas à matriz colonial, mas
quais metodologias usamos para formular tais E-
0 defenderum povo. Teoria, metodologiae instrumento
respostas,que, não raro, enveredampara uma depen- =
< prático, a interseccionalidaderevela o ciclo lunar da
CU dência epistemológica da Europa Ocidental e Estados
militância encabeçada pelas intelectuais negras, numa
35
34
Unidos; a exemplo, feminismo da mulher universal e estereotipadas de â'acas, mães compulsórias, assim
marxismo. Ademais, as correntesmarxistas e o femi- como os pretos caracterizados de não humanos,
nismo hegemónico podem ser resumidas nos seguintes macacos engaiolados pelo racismo epistêmico.
tópicos: somente nas relações do "sistema sexo- Pretas e pretos são pretas e pretos em qual-
gênero" a fêmea da espécie humana é transformada quer lugar do mundo. Na profusão de identidades
numa mulher domesticada, segundo o pensamento de viajantes, contingentes, fluidas, a cor da pele não
Gayle Rubin.:ó Ou, ainda, somente nas relações capi- se desarticula da identidade preta, a qual, em tese,
talistas um negro é transformado em escravo, como no poderia ser vista como de brasileiro impedido de
pensamento de Karl Marx. Duas formulações obce- entrar nos Estados Unidos, da mesma forma os afri-
cadas a darem o norte salvacionista europeu às identi- canos pretos, comumente vistos africanos e não pelas
dades políticas, respectivamente, de mulheres e classes nacionalidades recém-chegadasno Brasil. Sabe por
uabalhadoras, afastando-se os negros da condição quê? Não podemos fugir da raça e das conexões entre
de trabalhadores e negras da identidade de mulher. categorias analíticas, quem bem sabe disso é o projeto
Preferemignorar que as ideologias,hoje conhecidas intelectualnegro. A Europa somente abre mão da
como xenofobia, neoliberalismo, divisão internacional identidade política de padrão global colonialista
do trabalho, opressão patriarcal de gênero e discrimi- quando epidemiasapontam o problema da região
nação racial, vieram, com certeza, a partir do século ocidental, exigindo que diga a nação afetada pela
XV. com os "descobrimentos"da Europa. Depois, o presença de aRicanos e não o continente. Quando o
neocolonialismo, no final do século XIX, dividiu o inverso acontece, o problema particular de um país
continente africano e trouxe signi6cados identitários africano é transformado no problema da Aftica, por
multifacetados para a diáspora negra, lacunas discur- isto Chimamanda Ngozi Adichie alerta sobre o perigo
sivas propositalmente secundarizadas. Havemos de da história única e Patrícia Hall Collins diz que os
concordar quando Audre Lorde diz: "as ferramentas eixos da sociabilidade humana atuam e influenciam
do opressor não vão derrubar a casa grande".27 simultaneamente, dando às pessoas acesso à comple-
De pronto, a interseccionalidade sugere que xidade do mundo e de si mesmas.
raça traga subsídios de classe-gênero e esteja em um A interseccionalidade permite às feministas criti-
patamar de igualdade analítica. Ora, o androcen- cidade política a fim de compreenderem a fluidez das 5-
<( üismo da ciência moderna imputou às fêmeas o lugar identidades subalternas impostas a preconceitos, subor- =
CU
social das mulheres, descritas como machos castrados, dinações de gênero, de classe e raça e às opressões

36 37
esüutwantes da matiz colonial moderna da qual saem.
religiosas soÊidas, ignorando que os ataques impostos
Eu não posso falar da perseguição do homem africano
aos homossexuais e às lésbicas no tenitório sem utilizar
ao candomblé são, precisamente,ataques contra a
cujtura do povo negro. A indumentária aftorreligiosa
aporte interseccionalna identi6cação dos noneamentos
para alguns brancos é situacional, individual e provi-
evangélicos, heterossexistas, propalados pela Europa, sória, por vezes, até mesmo mais um capital cultural,
porque, "ideologicamente derrotado, ele não o fez simbólico e político. Basta lembrarmos como Pierre
porque gostasse de Jesus Cristo ou dos brancos".a
Verger, Antânio Cardos Magalhães e Nina Rodrigues
Adiante, Dr. Carlos Moore, na obra -Racismo
& fizeram carreira intelecual e política valendo-se da
Sociedade: novas bases epistemológica para entender o autoridade religiosa no candomblé e produziram
racismo,29censura atuações neoidentitárias, quando racismose sexismoscom a licença poderosade seus
inobservamas estruturasdo racismo e sexismo.Na
cargos religiosos.
perspectiva do autor, tentarmos equiparar racismo a O cisheteropatriarcado refaz, do mesmo modo,
opressões emergentes como gordofobia, preconceitos o confessionário das misoginias contra as mulheres
contra feios ou bullying, signiâca desconsideraro lésbicas, reestruturando as sistemáticas do colo-
racismo como uma esMitura de dominação docu- nialismo moderno. Para o pensador decolonial
mentada em pelo menos 4 mil anos de existência.
Grosfoguel, genocídio e epistemicídio são estruturas
Estou de acordo que "tanto os homossexuais brancos modernas inseparáveis, tais quais sexismo e racismo.':
quanto os negros são estigmatizados pela homo6obia
Logo, a partir da sua concepção, se as aíticanas e
de negros, mulheres ou homens, a despeito de esses africanos nas Américas foram impedidos de pensar,
últimos serem o alvo principal do racismo".3' orar ou praticar seus fundamentos,submetidosaos
Por outro lado, a epistemologia feminista negra, racismos epistêmicosreligiosos e depois ao racismo
pensada por Patrícia HiU Coxins, recrimina argu- de cor, o sexismo fez as mulheres serem queimadas
mentos de competição entre os mais excluídos, as como bruxas na inquisição, destruídas sob a forma
hierarquias entre eixos de opressão e violações consi- de bibliotecas de oralidade, na Europa. Os indígenas,
deradas menos preponderantes. Juntos, racismo, capi- por serem seguidores da espiritualidade não-cristã
talismo e heteropaüiarcado devem ser tratados pela do sistema do mundo moderno colonial, sofreram a
e3 =0 interseccionalidade observando os contornos identi-
c=
l.LJ .X matança que permanece aos não-brancos, implica-
tários da luta antirracista diaspórica, a exemplo dos ções políticas esboçadas pelas intersecções coloniais =
= .g
brancos de candomblé, que argumentam opressões dinamizadas por fluxos identitários.

38 39
De lá para cá, esse padrão eurocêntrico restaurou auto-invisibilizante para se trasvestirem ora de esquerda,
prerrogativas cristãs, nacionalistas, racializadas da ora de não-binários,ora somentede humanos, tendo
engrenagem do mundo moderno e responde teori- em vista, biologicamente, raça inexistir.
camente às problemáticas criadas por ele mesmo. A articulação metodológica proposta pelas femi-
Nenhum estudante sério e imparcial pode ser nistas negras, anualmentechamada de interseccio-
enganadopelo conto de fadas da bela Civilização nalidade, recupera as bagagens ancestrais perdidas,
de escravos do Sul".s2 A matriz de opressão euro- milhões delas espiritualmente, presentes nestas
peia tem procurado retirar os racismos ocidentais palavras do transatlântico, pois que nas palavras de
do foco usando a interseccionalidade
para cruzar Farani, Carrascosa, Augusto, Sousa, Campos e Reis
gênero-nação-sexualidade, de modo a expor quão "os projetos decolonial e negro-feministafarão a
desempoderadas são as mulheres terceiro-mundistas. recalibragemdesteinstrumento náutico para corrigir-
As categorias gênero e sexualidade, racializadas, nos dos perigos de invisibilização dos locais aüodias-
permitem nomear os aRicanos de homófobos, cultos poricamente potentes"."
de orixás de amaldiçoados, de perversos os sacrifícios Com articulação teórica, podemos reassumir a
animais, homens negros de feminicidas, normativos e discussão sobre colonialidade da natureza, concei-
incivilizados, opostos à Europa e aos Estados Unidos. tuada pelo peruano Aníbal Quijano no giro deco-
Sem embargo, às feministas negras não resta alter- lonial do final dos anos 1990,pois, certamente,a
nativa intelectual senão a de abarcar o transatlântico e diáspora negra sofreu apropriação privada do mar
dar sentidos, além da cosmovisão colonial, às relações Atlântico, tenitório a cargo de lemanjá guardiã aüi-
de poder reconâguradas pela modernidade, imbricadas cana iorubá das cabeças-oris e também da consciência
e postas à apreciação analítica da teoria interseccional; de existirmos há pelos menos 3 milhões de anos,
construindo uma canoa de resgatediscursivo daquelas e segundo as descobertas arqueológicas. Quinhentos
daqueles outros, negados por critérios raciais e por sepa- destes de escravização promovida pelo branco colo-
ratismos identitários, a ponto de raça, categoria analí- nizador. "Nada é sagrado para a civilização ocidental
tica imprescindível na abordagem interseccional, soâer branca e cristã",3' já nos disse Abdias Nascimento.
O impacto do colonialismo à natureza 6ezmilhares H
interiorização diante de sexualidade e gênero, pois o
branco LGBT, a mulher dita ocidental, a classe traba- de pretos serem atirados ao Oceano e lançou a dico- :-
0 ;aB
lhadora e o brasileiro mestiço, jamais declaram que são tomia entre natureza e humanidade do padrão capi- =
CU
brancos no Brasil, e deixam de analisar a branquitude talista global. As feminilidades e masculinidades

40 41
construídas pelo cisheteropaüiarcado e racismo,
negro que propôs interseccionalidade. Ela, inadver-
juntos, saíram dessa experiência;no Atlântico, aíh- tidamente, escolhe ler tripla dimensão da realidade
canas choraram feminilidadese aâicanos seguraram histórica: divisão sexual do trabalho, controle sexual
o choro das masculinidades. Mulheres negras desde reprodutivo das mulheres e racismo.
então são castigadas mais vezes, segundo bell hooks,3s Por antipatia, disputa política e contestaçãoà
por chorarem muito diante dos colonos, somentepara consubstancialidade, defendo a teoria interseccional,
incomoda-los em seus sonos injustos, de acordo com confiando na densidade do pensamento das femi-
Conceição Evaiisto." nistas negras ao declarar através de Audre Lorde que
A diáspora negra deu suor, lágiiinas e sangue ao
gosto do Mar. O apagamento epistêmico ainda é o Qualquer ataque contra pessoas negras é uma
sal-brio" da experiência salgada de modo que me questão lésbica e gay, porque eu e milhares de
ancoro completamenteà teoria do ponto de vista outras mulheres negras somos parte da comu-
feminista negro. Metodologicamente, adoto atitude nidade lésbica. Qualquer ataque contra lésbi-
cas e gays é uma questãode negros,porque
decolonial,:' transdisciplinar ensinando a teoria trans-
milhares de lésbicas e gays são negros. Não
gredir como belahooks, cartografando o pensamento existehierarquia de opressão.Eu não posso
de mulheres negras e terceiro-mundistas. me dar ao luxo de lutar contrauma forma
Banco esta gramática ancestralpara sentidos de opressão apenas. Não posso me permitir
analíticos sobre interseccionalidade, em respeito à acreditarque ser livre de intolerânciaé um
direito de um grupo particular.':
"ori-entação" analítica, ação consciente do Ori
cabeça -- em direção ao Sul Global e às memórias
nauRagadas pelo colonialismo, suâcientemente abor- Mulher + negra + nordestina + trabalhadora +
dado por Fanon,s8 M.aria Lugones39e Curiel40. travesti + gorda, segundo a metodologia de Patrícia
De nada adianta intelectuais defenderem a desco- Hia Colllins, ü'ata-se de visão interseccional inválida
lonização do feminismo sem legitimar negrura pers- ao prometo feminista negro. A interseccionalidade
pectivista em nível psíquico, cognitivo e espiritual das impede aforismos matemáticos hierarquizantes ou
epistemes. Sem afastar modelos ocidentais do tipo comparativos. Em vez de somar identidades,analisa-
0 materialismo histórico, junto com a "consubstancia- se quais condições estruturais atravessam corpos, quais 5-
<c
lidade" recomendadapor Daniele Kergoart, soció- posicionalidades reorientam significados subjetivos ;aE
=
loga 6ancesa, que recusa o pioneirismo feminista desses corpos, por serem experiências modeladas por
e durante a interação das estruturas, repetidas vezes
42 43
colonialistas, estabilizadas pela matriz de opressão, sob
a forma de identidade. Por sua vez, a identidade não
pode se abster de nenhuma das suas marcações, mesmo
r violência sexista e o aborto são muitas vezes temas
secundarizados, apesar de gênero e geração serem arti-
culados racialmente. Em tempo, para a pesquisadora
que nem todas, contextualmente, estejam explicitadas. Fabiana Leonel, "a encruzilhada das várias categorias
Notemos, analiticamente,o medo sentido por nas dinâmicas sociais forma uma complexa rede de
mulheres brancas ao passarem pelas periferias em desigualdade que se perpetua e se reestrutura".4z
certos horários. Para a interseccionalidade, importa O pensamento interseccional nos leva reco-
saber, além disso, a aflição imposta ao negro visto nhecer a possibilidade de sermos oprimidas e de
como perigoso, na medida em que a vulnerabilidade corroborarmos com as violências. Nem toda mulher
de um, surge mediante a presença desconfiada do é branca, nem todo negro é homem, nem todas as
outro. Erróneo argumentarmosa favor da centrali- mulheres são adultos heterossexuais, nem todo
dade do sexismo ou do racismo, já que ambos, adoe- adulto heterossexual tem locomoção política, visto
cedores e tipiHlcados,são cruzados por pontos de as geograHlas do colonialismo limitarem as capa-
vistas em que se interceptam as avenidas identitárias. cidades humanas. Segundo o professor Cristiano
A rigor, qualquermisóginoteria condiçõesde Rodrigues, além disso, a interseccionalidade esti-
violentar uma mulher, branca ou negra, rica ou pobre, mula o pensamento complexo, a criatividade e evita
que cruzasse o espaço. A interseccionalidadenos a produção de novos essencialismos.4s
instrumentaliza a enxergar a matriz colonial moderna Recomenda-se, pela interseccionalidade, a arti-
contra os grupos tratados como oprimidos, porém culação das clivagens identitárias, repetidas vezes
não significa dizer que mulheres negras, vítimas do reposicionadas pelos negros, mulheres, deficientes,
racismo de feministas brancas e do machismo prati- para finalmente defender a identidade política
cado por homens negros, não exerçam técnicas adul- contra a matriz de opressão colonialista, que sobre-
tistas, cisheterossexistas e de privilégio acadêmico. vive graças às engrenagens do racismo cishetero-
Ao lado de homens negros da sua geração, as patriarcal capitalista. Sendo assim, não apenas o
mulheres negras mais velhas podem nem perceber racismo precisa ser encarado como um problema das
a imposição política que exercem em relação às feministasbrancas, mas também o capacitismo como
G= =0
G= mais jovens, aconselhando-asa pauta da juventude, problema das feministas negras cada vez que igno- 5«
onde disputam com jovens negros a descentralidade ramos as mulheresnegras que vivem a condição de -=
= .g
do debate sobre violência policial, uma vez que a marca física ou gerada pelos trânsitos das opressões

44 45
Quando se fala branco se está falando para 41ém
modernas coloniais: so6'endo o racismo por serem
da cor da pele, até devido a fluidez e contingência da
negras, discriminadas por serem deficientes. Portanto,
experiência de "brancura" a mesma pessoa é iden-
na heterogeneidade de opressões conectadas pela
tiãcada de modo diferenciado em regiões diferentes,
modernidade, afasta-se a perspectivade hierarquizar
sofrimento, visto como todo soítimento está intercep- pois para a Europa, entretanto,só é branco o branco
europeu. Vejamos o branco como sistema político, em
tado pelas estruturas.
que raça, classe e gênero proporcionam uma expe-
Não existe hierarquia de opressão, já aprendemos.
riência imbricada de privilégios, não podendo a raça
Identidades sobressaltam aos olhos ocidentais, mas
negra sobrepujar a inscrição idendtária, sob risco de
a interseccionalidadese refere ao que fmemos politi-
mau uso da ferramenta interseccionalidade.
camente com a matiíz de opressão responsável por Bastante evidente no caso Rachel Dolezal,«
produzir diâaenças, depois de enxerga-lascomo identi-
ativista estadunidense negra que, em suma, é branca.
dades.Uma vez no fluxo das esüuturas,o dinamismo
Reservando anotações de saúde mental, sua trans-
idendtáiio produz novas formas de viver, pensar e sentir,
racialidade foi frustrada pelo "pacto narcísico",
podendo ficar subsumidas a certas identidades ]nsur-
conforme explica Dra. Mana Aparecida Bento.'s
gentes, ressigni6cadas pelas opressões.
A identidade branca desmascara quem se passa por
O "pardo dilema", discutido pela professora Joyce
negro sem sê-lo, dando as chances políticas de ser
Lopes, auxilia entendermos a interseccionalidade de raça branco de verdade.
junto aos demais marcadores sociais. A autoclassmcação
A interseccionalidade nos permite partir da
do sujeito que se declara negro sendo ele branco, destoa
avenida estruturada pelo racismo, capitalismo e
a aplicação da interseccionahdade, porque o racismo não
cisheteropaüiarcado, em seus múltiplos trânsitos,
alcança esta experiência, por mais que se apresentede
para revelar quais são as pessoasrealmenteaciden-
turbante, signmcados religiosos de candomblé, seja de
tadas pela matriz de opressões. A interseccionalidade
classe trabalhadora, a sistemática racista não alcança esta
dispensa individualmente quaisquer reivindicações
identidade na mat:riz de opressão, ali, na avenida em que
identitárias ausentes da coletivamente constituída,
esüutwas se articulam, simplesmente, porque o racismo
a) por melhores que soam as intenções de quem deseja
estáaí, como dito, há mais de 4 mil anos, há quinhentos
se filiar à marca fenotípica da negritude, neste caso,
0
anos mostrando a sua modemidade. Acessórios estéticos
as estruturasnão aüavessamtais identidadesfora da ;aE
=
de negro são resolvidos quando as identidadestiram as
categoria de Outros.
CU aparências e mantêm suas peles brancas.

47
46
Logicamente, para a Europa, branquitude é um os beneHiciosda branquitude, ao mesmo tempo que a
sistema de poder muito além da brancura da pele, brancura gera oportunidades de trabalho, aspirante à
distinto do caso brasileiro, da mestiçagem, como classe média, garantindo dignidades no acesso a bens
quer a democraciaracial defendidapelas elites e serviços, boas escolas para estudar, sem soRer depre-
brancas e trânsitos regionais com seus desloca- dação ambiental ou falta de saneamento.
mentos de privilégios." Daí interseccionalidade ser Distanciando do contexto dos direitos civis esta-
útil para perceber onde começa o racismo e termina dunidenses e trazendo para perto, mulheres negras
a discriminação regional, a xenofobia e as opressões pobres pariram 6]hos com microcefãlia,a não por
ressigniHicadas contextualmente. causa da pobreza. Todavia, porque são negras, vitmias
A interseccionalidade é sobre a identidade da qual do racismo, gerador de pauperização, atendimento
participa o racismo interceptado por outras estruturas. público precário, ausência de saneamento, impedindo
'l:rata-sede experiência racializada, de modo a requerer os mosquitos de picarem trabalhadorasbrancas com
saimios das caixinhas particulares que obstaculizam mesma õ'equência. Epidemias como zika e microcefaha
as lutas de modo global e vão servir às diretrizes hete- são, antes de tudo, dimensões do racismo instituciona-
rogêneas do Ocidente, dando lugar à solidão política lizado, conforme explica a epidemiologista e pesquisa-
da mulher negra, pois que são grupos marcados pela dora de interseccionalidade, Emanuele Góes.4PMesmo
sobreposição dinâmica identitária. É imprescindível, a branquitude crítica, definida categoricamente por
insisto, utilizar analiticamente todos os sentidospara Lourenço Cardoso como aquela reflexiva sobre a
compreendermos as mulheres negras e "mulheres de respectiva condição antinacista e privilegiada por ser
cor" na diversidade de gênero, sexualidade, classe, branca, não deveria empregarinterseccionalidadeem
geografias corporiÊcadas e marcações subjetivas. beneficio analítico próprio, quiçá, usar da gramática
É fácil discursivamente desautorizarmos usos racial para reconhecer esse lugar, quando contextos
hegemânicos de interseccionalidade, resgatando forem neutralizados raça por classe, geração, esco-
somente Du Bois ao considerar branquitude um privi- laridade, religião, terútório, procissão dentre outros
légio, pois isto implica no valor político de ter mais um marcadores sociais, erroneamente agregados no lugar
U
de raça.seCabe à identidadebranca usar interseccio-
a)
salário, o "salário público e psicológico".'7 Esse salário
amortiza os prquízos de ser pobre numa nação capi- nalidade para desconstruir a falsa vulnerabilidade 5-
talista. e dificulta a união de classetrabalhadora, pois uniformizada, demonstrar o contexto das branqui-
o trabalhador branco tem um salário a mais e recebe tudes, não incorrer de oportunismos fraudulentos no

48 49
sistema de cotas raciais chegando a "desenterrar a
O conceito interseccionahdade está em disputa
avó negra ou colocarem o pé na senzala",si conforme
menciona Joyce Lopes. Interseccionalidade revela a acadêmica, há saqueamento da riqueza conceitual e
que classe pode dizer de raça, da mesma forma que apropriação do território discursivo feminista negro
raça informa sobre classe. "Raça é a maneira como quando trocamos a semântica feminismo negro para
a classe é vivida", conforme ensina Angela Davas.sz feminismo interseccional, retirando o paradigma aRo-
Em função da popularidade acadêmica da inter- cêntrico. A proposta de conceber a inseparabilidade do
seccionalidade, vale dizer que seja para refletir patriar- cisheteropauiarcado, racismo e capitalismo está locali-
cado na Alemanha -- e dizer isto não é desmerecera zada no arcabouço teórico feministanegro, e quem o
pauta, legítima - a proposta metodológica da inter- nega comete epistemícidio e racismo epistêmico. "E,
assim como o blues, lamento dos escravos negros, é
seccionalidade funciona como localizador da expe-
riência do racismo, comungado às outras estruturas apresentado à admiração dos opressores. E um pouco
de opressão estilizada que agrada ao explorador e ao
presentes, discursiva e politicamente, na vida de traba-
racista''."
lhadoras domésticas na Europa, por exemplo, quase
Necessitamos compreender cisheteropaüiarcado,
sempre levadas a escravizações sexuais. As feministas
capitalismo e racismo, coexistindo, como modeladores
alemãs devem utilizar-se do conceito para perceber a
de experiências e subjetividades da colonização até os
experiência diferenciada das mulheres negras naquele
dias da colonialidade. Para nós, mantermos o femi-
país, cruzada por marcações sociais múltiplas em
nismo negro é dizer que a interseccionahdade denota
investigação analítica das suas.
A interseccionalidade não é narrativa teóiíca riqueza epistêmica, que desta vez não será tirada da
de excluídos. Os letramentos ancestrais evitam diáspora afncana. O feminismo negro substituído por
feminismo interseccional equivale explorar a riqueza
pensarmos em termos como "problema negro",
intelectual de lítica e chamar isso de modernidade.
'problema da mulher" e "questão das travestis".
Acredito, por identidade política, que devamos
Aprendamos com a pensadora Grada Kilomba que
mencionar a interseccionahdade como sugestão
as diferençassão sempre relacionais,todas e todos
são diferentesuns em relação aos outros. Raciocínio das feministasnegrassse não dizer feminismointer-
n
c.= =o exato sobre a interseccionalidade, desinteressada
C.D

nas diferenças identitáiias, mas nas desigualdades


seccional, uma vez que este escamoteia o termo
negro, bem como o fato de terem sido as feministas 5-
= .g negras proponentes da interseccionalidade enquanto =
impostas pela matriz de opressão.s3
metodologia, visando combater multideterminadas
50
51
discriminações,pautadas inicialmente no binómio erótico e político nos quais as mulheres negras somente
raça-genero. 'cabem serem Evas do movimento - extensão da coluna
Estou certa do neoliberalismo usuõ'uir do conceito masculina heterossexual, nunca subversivas Z,f//ras,
de interseccionalidade,
em virtude de ele ter sido lésbicasnão podem existir sem serem esquecidasdas
cunhado no campo do Direito e este campo ser manu- narrativas cristãs contemporâneas." Saunders relata:
seado pelo brancocentrismo, punitivismo e criminali-
zação de pessoas negras. Então prefere o feminismo Eu estive no Brasil quando Luana Barbosa íoi
assassinada. Foi horrível. Após sua morte, os
interseccional, querendo usar a seletividade racial do debates começaram a emergir online. As pes
Direito, disposta a fazer uso do conceito, porém não soamdiscutiam sobre ela ser trans ou lésbica,
do conteúdo, antepor ao período em que o conceito surgiram debates que destacavam as diíicul
foi cunhado por Kimberlé Crenshaw, em 1989.A prer- jades que as mães lésbicas negras soâ'em e
rogativa do Direito pode criminalizar homens negros, ser uma mãe lésbicanegra foi algo questão
nado. Enquanto eu assistia esses debates em
africanos, defender encarceramentos, sem dizer que torno de políticasidentitárias,eu não pude
estesinstitutos discordam das bases epistemológicas deixar de pensar que mesmo quando levanta-
do feminismo negro. O despautériometodológico ram sua blusa e mostraram os seus seios isso
é tanto que usam até interseccionalidadeno campo não foi suficiente para escrevê-la enquanto
punitivo particular reportando ao pensamento femi- 'humana" aos olhos da polícia.s'
nistanegro de Angela Davis, uma abolicionistapenal.
Contrariamente, a interseccionalidade aplica a Na mesma fundamentação, Luiza Bairros,
criação de mais conflitos às leis binárias do Direito e intelectual brasileira, denunciou a articulação de
defesa das lutas antirracistas, tendo em vista imporem racismo-sexismo presente nos recursos masculinistas
cisgeneridadesheteropaüiarcais, que ignoram lésbicase da comunidade negra, pois, na percepção de Bairros,
trens negros como vítimas do racismo, mulheres negras sofremos discriminação por parte dos militantes
como duplamente discriminadas. Comparáveis, comu- homens, que não aprofundam a questão da mulher
nidades negras parecem usar a cisgeneridade referen- e ainda desenvolvem boicote da militância feminista

G= =0
G=
ciada pelos olhos, onde machos nomlativos são vistos
verdadeiramentecomo negros. Desta maneira, a epis-
dentro do Movimento Negro.s7
Pesquisadoras negras, inversamente, mostram 5-
temologia sapatão sugerida pela Dra. Tanya Saunders, parceria política desenvolvendo trabalhos acadê- =
S .a menciona os legados da colonização em nível psíquico, micos emersos de articulação de raça, masculinidade L.u a.

52 53
e classe, a citar Ana Flauzina,s8 Juliana Borgess9 e A ausência de articulação entre raça, classe
Vilma Reisóo. Elas denunciam e condenam politica- e gênero, tanto na teoria feministaquanto na
mente a violência policial praticada contra os homens produção aÊocêntrica,ó2por certo criou inobservân-
negros,o etiquetamentoe a seletividaderacial. Fora cias interseccionais produtoras do alarmante cenário
do Brasil, a extensivaliteraHra feminista negra de de violência contra as mulheres negras, pois, ainda
bell hooks agencia o amor, com vistas a desenvolver na década de 1980, logo após surgirem as primeiras
empatia e engajamentos teóricos para com os homens delegadas da mulher, as publicações feministas
negros, não tratando como sentimento romântico, trabalhavam a mulher universal. O Estado, por sua
lembrando certamente de Rosa Parks, costureira vez, se alimentava destas concepções para formu-
negra que inâingiu as leis segregacionistasestaduni- lação e avaliação de políticas públicas.
denses, recusando-se a dar o assento no õnibus para Por outro lado, a morte da feministanegra brasi-
o branco. Dr. Luther King, reverendo ativista negro, leira Beatiiz Nascimentoós, "a adântica", é bastante
emblemática neste sentido. Setores do movimento
ajudou a mobilizar idas e vindas a pé de mulheres
negrase homens negros em boicote aos transportes negro argumentaram que o racismo motivou o crime,
públicos, articulando classe, raça e gênero na irman- ocorrido em 1995, quando supostamente o homicida
dade amorosa. não aceitou a intromissão duma mulher negra no rela-
Se o machismo fez Luther King mais conhecido cionamento violento. Segundo a Xo/Ba de S.jazz/o, no
que Rosa Parks, sonegandoo mérito das mulheres julgamento,a namoradado assassino,Áurea Gwgel
negras terem espalhado cartazes pelas ruas, realizarem da Silveira, também 6oi condenada por tentar desqua-
os trabalhos domésticos em suas próprias casas e nas lificar a vítima. Áurea disse que Beauiz Nascimento
das patroas e frequentarem a igreja durante a noite fazia orgias e aliciava menores, tentando manchar a
sem usar o transporte público por quase um ano, a lite- memória da companheira morta e defender a do réu
ratura feminista branca, segundo bell hooks, prefere confesso, seu agressor doméstico. Por estasrazões polí-
revelar "o retrato da masculinidade negra que cons- ticas, a interseccionalidade, na uadição do feminismo
trói homens negros como fracassados, psicologica- negro interessa à sua proponente, Kimberlé Crenshaw
=
mente fodidos, perigosos, violentos, maníacos sexuais Na compreensão de Luiza Baços, aponta possibili-
n a)
c= = cuja insanidade é informada por sua incapacidade de dades de pensar os aspectos raciais da discriminação de
l.U .3Z
gênero, sem perder de vista os aspectos de gênero da -=
cumprir seu destino masculino falocêntrico em um
= .g discriminação racial.«
contexto racista''.o'

54 55
VAMOS PENSAR DIREITO:
INTERSECCIONALIDADE E AS MULHERES NEGRAS
mulheres de cor"" para descrever a localização
interseccionaldas mulheres negras e sua marginali-
zação estrutural, apartada à teoria crítica da raça e
conceito provisório de interseccionalidade.
Desde então, o termo demarca o paradigma
teórico e metodológico da tradição feminista negra,
promovendo intervenções políticas e letramentos
jurídicos sobre quais condições estruturais o racismo,
sexismo e violências correlatas se sobrepõem, discri-
minam e criam encargos singulares às mulheres negras.
Conforme dissemos, é o padrão colonial moderno o
Criticaro mau uso ou a despolitização
do responsávelpela promoção dos racismos e sexismos
conceitonão invalidaa sua capacidadeex- institucionais contra identidades produzidas durante
plicativa da experiência, quer dizer, a crítica a interação das estruturas, que seguem atravessando
deve ser feita aos sujeitos que, imbuídos de os expedientesdo Direito moderno, discriminadas à
uma perspectiva interseccional, deixam de dignidade humana e às leis antidiscriminação.
falar das desigualdadesraciais e de contribuir A inalterabilidade do feminismo branco, movi-
na luta antirracista
mento antirracista e instâncias de direitos humanos,
4nge/a /!kz/ez'Medo,Apresentação e comentá- se deve ao fato destes, absolutamente, encontrarem
rios à entrevista de Ochy Curial.ós dificuldades metodológicas práticas na condução
das identidades interseccionais. Sensibilidade analí-
Em 1989, Kimberlé Crenshaw publicou em tica a interseccionalidade impede reducionismos
inglês o artigo "Demarginalizing the Intersection da política de identidade - elucida as articulações
of Race and Sex: A Black FeministCritiqueof das estruturas modernas coloniais que tornam a
Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and identidade vulnerável, investigando contextos de
Antiracist Politics",M inaugurando o termo inter- colisões e fluxos entre estruturas, frequência e tipos H

G= = seccionalidade. Posteriormente, em 1991, reaplicou de discriminações interseccionais.


l.LJ
cn
.X
<( na publicação "Mapeando as margens: interseccio- No campo jurídico, podemos identificar a =
S .s nalidade, políticas de identidade e violência contra exclusãoracial por critério de gênero promovida pelo

58 59
universalismo das políticas públicas relacionadas, o de preencherem lacunas acadêmicas sobre o encar-
fato de mulheres e meninas negras estarem situadas ceramento negro e violências contra as mulheres,
em pelo menos dois grupos subordinados que, usando apartes da subordinação interseccional. Traz
Requentemente, perseguem agendas contraditórias, insumosgendriHlcadosem direção ao Estado Penal,
dando impressão de que todas as violências policiais demonstrando como os expedientes racializados da
dilatadaspara o sistema penal são contra homens revista vexatória inspeção do ânus em busca de
negros. Todas as violências domésticas dilatadas entorpecentes para visitas institucionais desfazem
para o encarceramentofeminino ou feminicídios são laços familiares das masculinidades avessas a nego-
impostas às mulheres brancas. ciação do corpo patriarcal.
Destarte, as mulheres negras sucumbem aos Some-se o fato de o colonialismo cristão
ativismos comunitários voltados menos para si, enove- embarcar votos de silenciamento das religiões de
lados pelo padrão moderno no qual suas identidades matriz africana, evitar o acesso de sacerdotesde
são revertidas às de mães solteiras, cheias de família candomblé e umbanda ao cumprimento da assis-
desestruturadas, "mulheres da paz" e6etivas no resgate tência religiosa às internas -- direito previsto na
dejovens crüninosos. Através destaarticulação de raça, Lei de ExecuçãoPenal, que violado, traz solidãoe
gênero, classe e tenitório, em que os fracassos das polí- complexidades à saúde da população negra.
ticas públicas são revertidos em Racassos individuais, Ademais, celas são ambientes domésticos.ó8
Mulheres sentenciadas convivem alheias à Lei Mana
ausências paternas na trajetória dos adolescentes e
jovens são inevitavelmente sentenças raciais de mortes da Penha, por sua vez, incapaz de perceber as identi-
deflagradas pela suposta guerra às drogas. dades pelo prisma da violência interseccional, inde-
Além disso,o padrãocolonialora elegeas pendentementede qual soja o espaço de afetividade.
mulheres negras como dirigentes do tráHlcode drogas, Ora, os agressores não-cisgêneros, hegemõnicos,
ora homicidas de companheiros violentos, quando quando encarcerados como se fossem meramente
não, pactuamcom as coaçõesimpostaspor Hllhose mulheres, abusam impunemente das cís Zadyssabendo
maridos encarceradospara que transportemdrogas que, fundamentalmente,a lei parte do corpo bioló-
até o sistema prisional, numa faceta hedionda puniti-
vista das mulheres negras.
c= .X:o
gico e visão colonial. Contornos interseccionaisda
Lei de Execução Penal, de costas para a Lei Mana da 5-
LLJ
O cenário mencionadotraz para os feminismos Penha, têm levado vítimas a silenciarem suas queixas =
S .s e movimentos antirracistaschances metodológicas para não perderem beneHiciosde remissão da pena,

60 61
havendo de ser descartada, caso o mau comporta-
mento e indisciplina conüumem agressores e agre- . criminalizar o racismo e o sexismo institucionali-
didas já privados de liberdade. zados contra as mulheres negras sem enveredar pelos
A despeito dos direitos humanos permitirem mesmos expedientes que as levaram recorrer às leis
acesso irrestrito, independentemente de raça, sexo. antidiscriininação, senão desmarginalizar raça e

nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer gênero.Adorando nisto o ponto de vista de Crenshaw.
outra condição, as mulheres negras se veem diante frequentemente
e por engano,pensamosque a mter-
seccionalidade é apenas sobre múltiplas identidades,
dos expedientes racistas e sexistas das instituições
no entanto, a interseccionalidade é, antes de tudo,
públicas e privadas por lhes negarem primeiro trabalho
uma lente analítica sobre a interação estrutural em
e, depois, o düeito humano de seremreclamantes das
seus efeitos políticos e legais. A interseccionalidade
discriminações sofridas. A ãnterseccionalidade instru-
mentaliza os movimentos antirracistas, feministas e nos mostra como e quando mulheres negras são
discriminadas e estão mais vezes posicionadas em
instâncias protetivas dos direitos humanos a lidarem
avenidasidentitárias, que farão delas vulneráveisà
com as pautas das mulheres negras. Compreenderem,
colisão das estruturas e fluxos modernos.
por exemplo, que nos Estados Unidos a General Por serem mulheres e negras, há limite de ajuris-
Motora, até a década de 1960, não cona'atava
dição compreender a entrada das mulheres e dos
mulheres negras e, quando passou a fazê-lo na década
negros no mercado de trabalho se, a bem da verdade,
seguinte,mantevea discriminaçãode raça e gênero
as mulheres trabalhavam na parte administrativa da
prescrita às demissões compulsórias e restrições para
General Motors e os negros nas funções que exigiam
admissãobaseadasna altura e no peso corporal de
seus funcionários. força Hisica,linha de montagem.Nenhum dos
Em 1976, a trabaUiadora Emma DeGraHenreid e homens pretos reclamantes nos tribunais precisaria
combinar duas causas numa ação para serem enten-
várias mulheres negras processaram a General Motors
por discriminação, sob o argumento de que a empresa
didos pelo juiz, enfim, eram negros; as mulheres
brancas também não precisavam combinar duas
segregavaa força de trabalhopor raça e gênero,pois
C marcações identitárias numa ação por serem apenas
os homens negros trabalhavam na linha de montagem
mulheres -- a classe trabalhadora dirige-se a nós por e
não sermos capitalistas, o cruzamento do racismo e 5«
0 e as mulheres brancas nos serviços de secretariado.
Para a Corte, tradicionalmentemasculina e branca. é
sexismo geram vulnerabilidades e ausência de seguri- =
<(

CU
muito difícil compreender a identidade interseccional
dade social para mulheres negras.

62
63
Com efeito, o pensamento interseccional de feminismos coparticipantes desta discriminação, porque
Kimberlé Crenshaw explica esta colisão entre avenidas insistem em produzir iDlsumosteóricos para o Estado e
identitáriaspromotoras de barreiras raciais e sexistas sociedade civil sem, antes, anahticamente conceberem
para mulheres negras que, em tese, não se encai- identidades interseccionais, sendo improvável enüen-
xavam nos tipos de trabalhos oferecidos às mulheres e tarem o racismo desconsiderando tamanha obviedade.
nem elegíveispela multinacionalaos homens negros. Se. de um lado, nem todas as mulheresforam
Explicitamente, trata-se de "discriminação intersec- excluídas das indústrias e nem todos os negros foram
cional", combinada racialmente para contratação de excluídos do mercado de trabalho, somente a análise
pessoas negras por política de gênero. A complexidade interseccional destacou a forma com que as mulheres
da prática discTiininatória não se encerra em si mesma, negras sobem a discriminação de gênero, dando
e revela a ocorrência de mulheres negras sofrerem a múltiplas chances de interseccionar esta expenencia.
interpelação dos tribunais e serem discriminadas por Quando ausentes os letramentos interseccíonals
estes, que consideram improcedentes suas queixas, já para as abordagens feministas e antirracistas, ambos
que não conseguiriam combinar duas causas na mesma reforçam a opressão combatida pelo outro, prqudi-
ação processual de racismo e sexismo. cando a cobertura dos direitos humanos.
A interseccionalidade baseada no feminismo negro Em 2004, o Estado brasileiro também recebeu
conta os porquês de mulheres brancas poderem repre- condenação pela inobservância da discriminação racial
sentar judicialmente as mulheres de cor, bem como os sofrida por Simone André Diniz, pois, em 1997, ao
homens negros poderem representar toda comunidade pleitear uma vaga de empregada doméstica, ela encon-
negra na Corte, enquanto as mulheres negras, segundo trou no anúncio da Ão/bao requisito de "preferência
Kimberlé Crenshaw, não estarem elegíveispara branca", presencialmente sua inelegibihdade do pleito
demarcar a própria experiência particular da discrimi- por ser uma mulher negra. Após essa vítima apresentar
nação sem que suas causas fossem indeferidas. a queixa na Delegada Policial de Investigaçãode
Crenshaw se propõe a dessencializar a identidade, Crimes Raciais, o Estado brasileiro,sobretudoatravés
sem deixar de explicar as estruturas modeladas nesta do Ministério Público, esvaziou a investigaçãopolicial,
=
identidade, produtoras de contextos aprimorados, solicitando o arquivamento, por considerar que a crimi-
adiante, pela exclusão política, silenciamento e discrimi- nosa, senhora Aparecida Gisele Mota da Salva, nem
<(
nação. Quer investigar o fracasso da lei, considerando sequerpraticou aros que pudessem constituir o racismo =
CU
os equívocos retóricos dos movimentos negros e dos previsto na Lei 7.716/89, havendo o deferimento do

64 65
juiz competente sem a desmarginalização de classe. Urge enfoque interseccional de feministas
raça e gênero sugerida pela interseccionalidade. brancas, capaz de compreender a inimputabilidade
Todavia, as leis antirracistas, assim como as pautas imposta aos homens brancos após cometerem crimes
do movimento negro, também ignoram o marcador contra a administração pública. Brancos legam a
de gênero informante da opressão, o mesmo se dá nos nação inteira, agradem mulheres e, no entanto, têm
movimentos feministas com a insistência do marcador
penas suavizadas. A interseccionalidade leva em conta
de gênero que não enxerga raça, acentuando as expe- a classe, promotora das negociatas com as polícias e
riências de opressões feminizadas. O Artigo 5' da sistemas penais, diferentemente dos homens negros
Constituição Brasileira assegurao direito flindamental pobres, aos quais foram imputados os estereótiposde
de todas e todos serem tratados iguais perante a Lei, perigosos, agressores de mulheres e maníacos sexuais.
sem distinção de qualquer natureza. Em tese, caso os Assim, vejamos a Lei Mana da Penha, resultante
instrumentos protetivosdo nosso país queiram, de fato, duma articulação internacional de feministas maio-
combater as discriminações que impedem o exercício ritariamente brancas, de classe média e acadêmicas,
das liberdades fundamentais, precisam averiguar as que representam o direito das mulheres viverem sem
performances sexistas e racistas de seus expedientes violência e homenageia a farmacêutica Mana da
usando a abordagem interseccional. Penda Maia Fernandes, vítima de duas tentativas
Com efeito,o Estatutoda Criançae do de homicídios, e a posterior impunidade do marido,
Adolescente(ECA) deve compreender que nem todo professor universitário Marco Antonio Heredia
menor de idade é visto pela justiça como adolescente, Viveros, que a deixou paraplégica e, após ser julgado
já que as experiênciasgeracionaissão diferenciadas em 1996, cumpriu apenas dois anos de reclusão.
pelo racismo, transformando negros em menores e Ao contrário de homens brancos, universitários e
brancos em adolescentesdurante as sentenças das de classe média, os homens negros se deparam com o
medidas socioeducativaspelosjuizados, quando raça discurso feminista de encarceramento em massa, pois
e gênero se cruzam. Socialmente, a experiência de
gênero racializada leva adolescentes a serem tratados Infelizmente, encarceramentosempre sig-
como homens negros, com responsabilidades precoces nificou mais do que privação de liberdade.
c= de classe, que deram margens aos atou inftacionais, às No caso das mulheres enquanto que visi-
G= =0 bilizamos a violência doméstica no debate
cn < sentenças definidas e às discriminações que fluem em -=
E .s público, não trazemos para o centro do de-
atenção às identidades interseccionais. bate a invisibilidade e situação de extrema

66 67
violência no cárcere. As prisões dependem igualdade, saúde, assistência, mulheres, por desco-
da violência para funcionarem.ó9 nhecerem identidades interseccionais passíveis da
transversalidade orçamentária e de gestão.
Convergente à pesquisadora Juliana Borges. Além da violência atravessar as raças, classes e
sendo informada também pela centralidade desta gerações, as queixas das mulheres negras sobem
pauta na "interseccionalidade política", formulada estigmatizaçãopelos aparelhosdo Estado, devido às
por Kimberlé Crenshaw, podemos exemplificar muheres negras serem moradoras de espaços conside-
inúmeros expedientes continuativos dessa violência rados perigosos, identificados como pontos de tráfico
de gênero atravessada por raça -- supostamente resol- de drogas pelas médias televisivas. O machismo, além
vida pelo Estado através do encarceramento que se disto, propicia aos agressores de mulheres, delegados,
manifesta na inoperância das delegadas de atendi- juízes e ativistas de direitos humanos, o encontro de
mento à mulher aos sábados, domingos e feriados, nos iguais, porque a polícia que mata os homens no espaço
horários soturnos e madrugadas, períodos de maior público é a mesma que deixa as mulheres morrerem
ocorrência de violências contra as mulheres negras dentro de suas casas'o o desprestígio das lágrimas de
moradoras de bairros periféricos; redes de atendi- mulheres negras invalida o pedido de socorro político,
mento e centros de referência geralmente instalados epistemológico e policial.
longe dos territórios vulnerabilizados, em prejuízo às Outra consideraçãoa se fazer é sobre o fato de
rotas feitas pelas vítimas em busca de apoio jurídico mulheres negras quererem mediar o fim da violência
e suportepsicossocial.Tudo isto somado o fato de sem, necessariamente,demandarem a prisão dos seus
o sistema de notificação ser denso e exaustivo, além companheiros, levando em conta a marca colonial
de conduzido por profissionaisque não conhecem conter a privação de liberdade. Dizer isto não significa
a política de atenção à saúde da população negra, defender o pagamento de cesta básica à punição alter-
encarando o problema de saúdecomo sendo de segu- nativa por danos físicos, patrünoniais, psicológicos e
rança pública. A cor da vítima para ser autodeclarada morais contra a mulher, mas reafirmar a necessidadede
durante a notiÊlcaçãoda violência soõida atesta um identiâcar o elitismo e racismos da Lei Mana da Penha
dado mal coletado,em prquízo da consistênciados e seus a priori raciais infantilizantes da mulher negra,
c= = relatórios elaborados pelas governanças acerca das querendo "ela dar e retirar a queixa sem a presença do
G= 0
cn .:l: assimetrias de raça e gênero e, metodologicamente, juiz". Confomie pensam os autores de -D/smxsos fzeEros. =
S .s tornam defasadas políticas públicas de promoção da legislaçãopenal, política criminal e racismo

68 69
Pelo que se pode constatar a demanda pela discutida por Heliete Safhoti sobre simbiose do racismo,
proteção das mulheres tem a branquitude
capitalismo e patriarcado. Ou bastasse visitar as contri-
como parâmetro, saturando a experiência
daquelasque têm no terrorracial um ingre- buições da pesquisadora Cecilia Sardenberg na marca
diente patente que autoriza e potencializa interseccionaldos seus trabalhos," neles há o moni-
toda a sorte de vilipêndios que as assaltam.7i toramento e avaliação das políticas para as mulheres,
amiúde na visão de Kimberlé Crenshaw
Pouco mencionam o caráter analítico das produ-
ções teóricas sobre violências de gênero, o caráter O problema não é simplesmenteque as mu-
lheres que dominam o movimento de anti-
universalizante produzido por feministas brancas. violência são diferentes das mulheres de cor,
Ora, as primeiras delegadas especializadas de atendi- mas que 6'equentementetêm poder para de-
mento à mulher, durante a década de 1980,no Brasil. terminar sda através de recursos materiais ou
estiveram ausentes dos conteúdos interseccionais. retóricos, se as diferenças interseccionais de
sobremaneira os estudos sobre violências de gênero mulheres não-brancas serão incorporadas na
discorreram sobre dominação masculina, dominação formulação básica de políticas. Assim, a luta
pela incorporação dessasdiferenças não é um
patriarcal e negociação da violência. Sabemos que as conflito insignificante ou superficial sobre
intelectuais Angela Davis, bell hooks, Audre Lorde, quem se sente à Rente da mesa."
Patrícia HiU Collins e vozes feministasde Tina Turner
nos Estados Unidos e Elza Soaremno Brasil, já tinham O Direito tem sua dinâmica interseccional,miso-
gritado a violência à mulher negra neste período, mas ginias e racismos institucionais e dá conta dos mesmos
até as abordagens progressistas e antirracistas esco- recursos administrativos responsáveis por obstruir
lheram não beber da fonte feminista negra. "Se não se às mulheres negras o direito de registrarem queixas,
nomeia uma realidade, sequer serão pensadas melho- levando em conta discursos prévios sobre mulheres
rias para uma realidade que se é invisível" .72 fáceis, raivosas, perigosas, sexualmente disponíveis.
O epistemícidio da teoria feminista produziu os O descrédito das reivindicações das mulheres negras
altos índices de violência contra a mulher negra. Houve é consequência da intersecção complexa do sistema
n
falta de metodologias73adequadas às realidades das
0 mulheres negras e a preocupação cenüal com a categoria
moderno, atravessado por discriminações de raça 5«
e de gênero, no qual o letramento interseccional de
gênero, adiando a marcação racializada do 6enâmeno, Kimberlé Crenshaw conclui que =
CU

70 71
A interseccionalidade pode fornecer os meios heterossexismo. Podemos mencionar adolescentes
para lidar com outras marginalizações tam- Mortas após abortos inseguros. Superincluído, gênero
bém. Por exemplo, a raça também pode ser
aponta para a criminalização do direito reprodutivo,78
uma coalizão de pessoasheterossexuais
e quando a interseccionalidade exporia classe e geração
homossexuais e assim servir como base para
na experiência de gênero, explicando o acesso das
a crítica das igrdas e outras instituições cultu-
rais que reproduzem o heterossexismo.7' mulheres adultas e brancas às clínicas particulares,
em condição segura de abortamento.
Por último, a interseccionalidade conceituada Crenshaw menciona a subinclusão da discrimi-
por Kimberlé Crenshaw, após a Conferência Mundial nação, segundo o argumento da "diferença" tornar
de Durban, buscou instrumentaíizar especialistas em invisível um conjunto de problemas emersos de
torno dos compromissos estabelecidospelas Nações forças económicas, culturais e sociais silenciadas. A
Unidas, desestabilizaro padrão de poder moderno, violência racial contra a mulher atinge um nível de
cruzar as diretrizes da Declaração Universal dos complexidade subinclusivo, por isto, após Durban,
Kimberlé Crenshaw definiu interseccionalidade como
Direitos Humanos(DI.JDH) e Convenção para a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
A conceituaçãodo problema que busca cap-
Contra Mulheres (CEDAW).
turar as consequências esüuturais e dinâmicas
Os Estados-Nações precisam reconhecer, moni- da interáção entre dois ou mais eixos da subor-
toras e apresentar soluções para a discriminação dinação. Ela trata especiâcamente da forma
interseccional sob o risco de infringirem os acordos pela qual o racismo, o patriarcalismo, a opres-
mundialmente estabelecidos na Conferência de sões de classe e outros sistemas discriminató-

Durban, em 2001. Enfrentar o desempoderamento" rios criam desigualdadesbásicas que esü'utu-


ram as posições relativas de mulheres, raças,
imposto ao Sul Global, prestando atenção à subor- etnias, classes e ouü'as. Além disso, a intersec-
dinação interseccional e as estratégias partidas da cionahdade trata da forma como ações e po-
periferia para o centro. líticas especíâcas geram opressões que fluem
Sem êxito, tentam resolver as problemáticas ao longo de tais eixos, constituindo aspectos
C das nações através do que Crenshaw chamou de dinâmicos ou alvos do desempoderamento.79
a)
0 'superinclusão", na medida em que um problema
<(
interseccional é absorvido pela estrutura de gênero, =
sem investigaroutras estruturascomo o racismo ou

72 73
ATLÂNTICO E DIFERENÇAS ENTRE IRMÃS:
CRÍTICAS AO CONCEITO DE INTERSECCIONALIDADE
mulheres negras no Atlântico. Somos informadas das
dimensões económicas, políticas, ideológicas e das
diferenças entre nós, conforme Audre Lorde revela
em "Irmã intrusa, idade, raça, classe e sexo: mulheres
redefinindo diferenças".8: Universalizante e deliberada,
a sororidade dá a Casa impressão de existir empada
e homogeneidade de posicionamento terceiro-mun-
dista, aíhcano e estadunidensecontra o colonialismo
moderno.
Em nome da umã universal, parcelas signiâca-
tivas de nós negam a existência do racismo estrutural
Entender como o apagamento da categoria raça nas plataformas feministas, que desconhecem privi-
ocorre pode ser feito traçando as Fobias como légios acadêmicos que nos separam e os Impasses
a hterseccionalidade viajou, píiineiramente por estarmos decididas a lutar ao lado dos homens
a partir da história das mulheres negras e do
negros, mesmo sabendo do teor hegemónico das suas
feminismo negro para o feminismo em geral, masculinidades. "As mulheres negras têm umbigos
e do feminismodo Sul para o Norte Globais.
diferentese seus cordões foram cortados em contextos
Sana Sala/z, O mal-estar na Teoria Interseccio- diferentes".82
Para Audre Lorde, após a colonização,
nal: hterseccionalidade nas teorias viajantes.80 aprendemosa tirar lucro das diferenças,eliminar o
excedente humano através de desumanizações etni-
Na diáspora africana, "irmã" pode ser conside- corraciais constando lesbofobia e etaiísmo militantes.
rada aquela intelectualcuja experiência atlântica fez 'Na América, essa norma é geralmente definida pelo
viagens teóricas pelo feminismo decolonial proposto branco, magro, masculino, jovem, heterossexual,
por Mana Lugones, precursora do enfoque moderno cristão e financeiramente seguro".83
colonial de gênero. Irmã também pode ser a mulhe- De todo modo, o traço civilizacional de Aftica
rista, a mais nova do barco das ialodês a publicar
0
pontos de vistas de mulheres subalternizadas.
nos posicionamentos da diáspora, a 6'onteira mestiza
enfie México e Estados Unidos, a experiência indí- 5-
Independentemente das incursões teóricas, temos gena massacradanas Américas são massa ances- =
ca
provas da multidimensionalidade do pensamento de tral do pensamento
feministanegro,decoloniale

76 77
abro-latino-americano.Emoção exata para cruzarmos as mulheres negras aguentam dor Hisica; por classe são
pontos de vistas, conftontarmos as imaãs mulheristas vistas como protótipos da feminização da pobreza e
e historicizarmos a polissemia das mulheres de cor, atravessamgerações sendo cheias de famílias, vito-
aüavessadas pela interseccionalidade atlântica. riosas das dificuldades impostas pelo imperialismo
Ora, até o termo diáspora vem do contexto grego, colonial. A saber, estesestereótiposrecaem nas auto-
expressa separação geográfica. A diáspora dâ'icana84 ridades religiosas do candomblé, constrangidasa
traz memória e água do Atlântico às Américas e à sustentar arquétipos matriarcais, presas nas imagens
Europa. Podemos entender,já no comércio de escra- de controle. Elas estão impedidas de gritar as violên-
vizados pelo mar Mediterrâneo, na Antiguidade; e do cias fora do escopo familiar tradicional.
oceano Indico e do mar Vermelho, na Idade Média, Com certeza, devemos ao colonialismo moderno
estas dispersões de africanas e aíticanos, desafios intelectuais dentro das epistemologiasfemi-
nistas, além daqueles vigorosamente feitos contra o
Consequentemente à desorganização social e androcentrismo e linearidades científicas, real motivo
política dos diferentes povos atingidos pelo ho- de pensar como Bernadino-Crosta e Gros6oguel87que,
locausto aíhcano num modelo de globaliza-
de fato, alguém situado socialmente no lado oprimido
ção económica, cultural e política que precede
o atual, numa perspectiva predatória que emer- das relações de poder não significa que vai pensar epis-
ge da Europa e se espalha pelos demais con- temicamente a partir do lugar epistêmico subalterno.
tinentes novas alternativastiveram que ser O prejuízo da ferramenta interseccionalidade ocorre
gestadas e aplicadas, no sentido de se buscar mediante maus usos acadêmicos por pessoas negras
patamares de existência e resistência cultural.8s
fora do lugar epistêmico, na medida em que as genea-
logias de masculino/feminino agregam superinclusões
A matriarcalidade negra, criticada por bela analíticas de pesquisadoras negras, silenciando signifi-
hooks, faz parte das reificações culturais elaboradas cados inscritos nos corpos das fêmeas posicionadas no
pelas ciências sociais, validadas equivocadamente mundo. Não é de agora as críticas às metanarrativas
por setores antirracistas, por discursos modernos, ocidentais sobre maternidade e gênero elaboradas pela
em certa medida, a fim de tirar proveito dos estereó- e
=

G=
CD =
a)

0
tipos produzidos para mulheres negras consideradas
branquidade científica e pelos feminismos negros. A
teoria feminista, quase na íntegra, foi produzida pela 5-
LLJ .X:
bestiais, masculinizadas, sub-humanas, incapazes de Europa Ocidental e Estados Unidos -- parece óbvio, =
= .g produzir conhecimento.8óVistas pelas lentes de raça, é preciso dizer, que ela não pode fotografar a Aftica

78 79
com suas lentes, visto que a imagem trazida à luz traz caso considere o saber das sociedades pré-coloniais
efeitos de subinclusão epistêmica, revela epistemíci- antes do transe Atlântico. A interseccionalidade nasce
dios causados pela centralidade da categoria gênero no contexto estadunidense, não há dúvida a respeito
ou categoria interseccionalidadeque seja, prestigiada distol seria válido global e analiticamente, a partir
e financiada pelo Norte Global. O discurso político de da nigeriana, prestarmos atenção às formas em que
sororidade às mulheres terceiro-mundistas preenche a antiguidade como privilégio entrelaça anualmente
a carreira acadêmicade quem desenvolvepesquisas gênero, marcador analítico criado para explicar privi-
feministas instrumentalizadas pela visão ocidental, légios dos homens em instituições que, pelo menos no
incabíveis até se forem feminismos negros. contexto afncano, no passado não revelavam superio-
O desafio imposto às epistemologiasafricanas é ridade masculina, de acordo com Oyéwümí.8ç
desaprovar, publicamente, teorias diásporicas negras, Pela crítica africana, as epistemologias feministas
onde os conceitos feministas e os estudos de gênero difundiram conceitos, ideias e emoções de maneira
estejampautados em categorias ocidentais, confeccio- hegemónica,transpondo significados mal traduzidos.
nadas de forma simplista, binária e de família nuclear, Autoridades femininas reais, como Oba,90 foram
em que o macho é sempre superior, como pontua os desfeitas, traduzidas somente para majestade ancestral
trabalhos de Oyêrónké Oyéwümí.88 masculina. Sistemas de conhecimento foram igno-
Os povos colonizados herdaram traumas rados, com vistas, por exemplo, à negação de experiên-
psíquicos, perderam signiâcados espirituais, linguís- cias marcadas pela maternidade, casamento e família,
ticos e cosmológicos como parte da subjugação da desenraizadas do modelo nuclear ocidental, razão da
Europa ao conhecimento de aíticanas e aãicanos, daí pesquisadora Oyêrónké Oyéwümí mencionar gênero
a marginalização das epistemes locais, segundo pensa como categoria historicamenterecente para o povo
a pesquisadora nigeriana, requerer um feminismo iorubá, com aplicação particular da colonização euro-
que aborde a produção de conhecimento a partir das peia e valor epistêmico colonial. Longe de desconsi-
categoriasafricanas e de como anualmentea antigui- derar a aplicação de gênero racializado por Kimberlé
dade modela interconexõesdas relaçõessociais. O Crenshaw:,Avtar Brah e Paüicia Hia Collins, apenas
a) feminismo negro não pode manusear exclusivamente de acordo com Oyêrónké, dizer que conteúdos biologi-
0- o mítico aludido ao povo perdedor, levantar hipó- zantes submetidos à cultura não criaram a dominação
cu
teses apressadas sobre genitálias mutiladas, papéis masculina e dominação patriarcal fora do Ocidente. =
sociais aüibuídos às mulheres, cânticos sagrados, Mesmo a biologia é posterior ao conhecimento iorubá,

80 81
de modo que demonstramios anacronismos históricos Oyéwümí demonstra que gênero analiticamente não
sobre mulheres africanas, após colonização, é maior interpreta como a fêmea setorna mulher e mãe, então,
prova do respeito à irmandade, às diferenças entre as diferenças biológicas, centrais para validação da
umas. teoria feminista não determinam gendramentos inva-
Feministas brancas e negras usam a abordagem riáveis. A "matripotência" - supremacia da materni-
da interseccionalidade para evidenciar hierarquias dade, ausente abordagem interseccional contextuali-
impostas pelos machos, desconhecendo o fato dessas zada, gera pressas analíticas sobre a realidade iorubá
subordinações funcionarem no sistema de antiguidade que segue sendo teoricamente considerada primitiva
adquirida, não pelas relações de poder propagadas e oposta à tecnologia ocidental, nega a construção
por gênero. De acordo com Oyêrónké Oyéwümí,9' a da maternidade aplicada às ialodês dissociada de
iyá, ou a maternidade, explanaa categoriamais estru- contratos sexuais do casamento, aplicada à noção
turante e fluida em dinâmicas sociais, políticas e de errónea de mães solteiras ou de mulheres dependentes
organização espiritual, mas linguisticamente dos homens, a exemplo da woman
mulher que contém homem demonstrando a
O fato de que as categorias de gênero ociden- variação epistêmica na diáspora causada pela colo-
tais são apresentadas como inerentes à natu- nização. Em Áftica, na localização demarcada pela
reza(dos corpos), e operam numa dualidade categoria antiguidade, a hierarquia socialmente cons-
dicotâmica, binaúamente oposta ente mas
culino/feminino, homem/mulher,em que truída é vista como recurso transponível,pois que
o macho é presumido como superior e, por- no territóüo variam os contextosde idade e geração.
tanto, categoria deânidora, é particularmente O sistema dissocia anatomia do corpo e sistemas de
alienígenaa muitas culturas aíhcanas. Quan- gênero, refazendo privilégios de antiguidade cons-
do realidades aÊicanas são interpretadas truída formal e contextualmente,pouco interessa se
com base nessas alegações ocidentais, o que é jovem ou velho o corpo, definitivamente,o ponto
encontramos são distorções, mistificações
linguísticas e muitas vezes uma total falta de de vista biológico não produz poder cultural. Embora
compreensão, devido à incomensurabilidade a aRicana de Uganda, Sylvia Tamale discorderefle-
n
tindo que
5-
das categorias e instituições sociais.o:

0 Mulheres solteirase sem filhos carregam


Na obra The lave/zí/o/zof Morre/z. .A4aê/nga/z =
um estigmapermanente,como um ímã em
<c

CU
APican Sente of Western Gender Discourses?S O'yêxóx)ké

82 83
seuspescoços. Elas são vistaspela sociedade pública. As feministas Sueli Carneiro e Cristiane
como imaturas, até mesmo como um ser hu. Cury costumam lembrar que,
mano pela metade. Assim, os papéis domésti-
cos de mãe, esposa e dona de casa tornam-se [. . .] embora Oxalá só possa usar a cor branca,
as consüuções fundamentais da identidade ele põe nos cabelos a pena vermelha, o eko-
das mulheres em Á.ética.m dide, em homenagem ao sangue menstrual,
símbolo da fertilidade e da concepção. Então,
Na diáspora aíticana brasileira, o prestígio político percebem que a dominação masculina não se
das grandes mães funciona estritamente nos terreiros explica pela natureza iníêrior da mulher, mas
pelo reconhecimento de suas potencialidades
de candomblé, espaço de resistência negra restau-
e pelo temor que isso inspira.9'
rada por laços de abeto,família e hierarquia, no qual
uma ialorixá carrega os valores ancestrais e culturais Podemos dizer que a interseccionalidade produz
torneados de Aítica. A mulher torna-se mãe dentro da
deslocamentos epistêmicos de Aftica para a diáspora
relação com a ancestralidade, não-nuclear, podendo
em decorrência de nem sempre nós, pesquisadoras
ser matiilinear, em que filhos independem dos laços
negras, dedicarmoso trabalho intelectualamplo
sanguíneos e do estado civil. Significa então dizer
e aprofundado de reflexão acadêmica. E preciso
que não somente homens adultos podem gozar de
entender a maternidade guardada pelas ialodês, a
prestígios oportunizados pela antiguidade e postos na
família não-nuclear e não-heterossexual. Sem dúvida, igualdade de poder proposta por Oyá, a autoridade
cor roxa de Nana e suasirmandadesreligiosasmais
a dedicação à pesquisa interseccional sobre como a velhas. Compreendermos quando a feminista africana
dominação masculina se reconâgura, posicionada Bebi Bakare-Yusuf recomenda aos feminismos
nestearranjo pulverizado de poderes, pode revelar se
homens com cargos religiosos transpõem masculini- Aceitar que a maternidadeé uma experiên-
dades hegemónicas para dentro das comunidades, ou, cia potencialmente aberta a todas as mulhe-
se pensadoras acadêmicas usam a classe para subor- res e não se liga ou reduz as mulherespara
dinar imiãs não-letradas para ftlnções domésticas. a experiência ou identidade. No entanto, os
Para amefricanase para epistemologias
aíti- proponentes da teoria do sexo dual não re- '=

c.= o canas, o macho não é a norma. Das iabás, apren-


conhecem que a maternidade ocorre dentro 5«
;a=
c-= =
de contextos moldados por papéis e identi
demos com Oxum a transpor poderes patriarcais e dades socialmente desiguais para homens e
E .a
nos impor sem perder a doçura, a maternidade e voz mulheres. Somente uma teoria que é profbn-

84 85
damente cúmplice do poder patriarcal, por- compõe, sem centralidade, o problema estrutural. Em
tanto, pode reduzir a identidade feminina ao segundo, a descolonização feminista proposta nesta
aspecto materno.'o abordagemvaloriza mais a América Latina e Caribe,
não somente por conta de o Terceiro Mundo ser visto
A interseccionalidade, conforme vimos, nos pelo feminismo europeu e estadunidensecomo mero
coloca na encruzilhada do pensamento feminista atavismoimprodutivo, além disso, o Norte Global
negro. E possível, embora ilegítimo, identidades ignora a potência metodológica das epistemeslatino
políticas se alimentarem da interseccionalidade na .a6'o-caribenhas no projeto feminista negro.
ausência do feminismo negro, é possível evitar a Grosso modo, .La /zac/onÀeíexossewz/a/,97
um clássico
interseccionalidade de Kimberlé Crenshaw para não da pensadora dominicana, contém instrumentalidade
legitimar usos brancocêntricos. Falo isto sabendo interseccional, ainda que, usando referências lésbicas
quê, na crítica das feministas à ciência, defen- do Norte para expor similitudeentre famílianuclear
demos a validade das experiências como conheci- heterossexual e nação. A intelectual demonstra equiva-
mentos situados constituintes do prometointelectual lência entre os membros na(zonais e familiares. ambos
emancipatório, que a boa ciência está ancorada na têm histórias corporificadasl nação e família servem às
parcialidade, na provisoriedade, na instrumentali- leis naturalizadas por laços nacionais. A Constituição,
dade teórica, sem Hlnitudecaracterística do homem nesta abordagem, é a lei paternalista da família nuclear,
moderno heteropatriarcal. com respectivos entes nacionalistas cruzados obri-
Cartografo aqui os registros teóricos das minhas gatoriamente, de laços heterossexuais compulsórios
irmãs por conhecê-las bastante. Procuro coloca-las e direitos civis pontuais, legalizadosaos membros
para conversar numa língua moura esperando Os/s da família. Todavia, lésbicas caberiam naturalmente
/z enk exercer a objetividade forte latina, chamada a nestas nações caso fossem nomiadvas, heterossexuais
prestar contas nas sete encruzilhadas discursivas. construídas em oposição binária aos homens, caso
O lesbofeminismode Ochy Curiel critica a inter- compusessem discursos jurídico-legais do regime polí-
seccionalidade de Kimberlé Crenshaw por ser liberal, tico heterossexual. Sendo assim, o posicionamento
normativa e fraturada em termos identitários, segundo interseccional de Crenshaw deveria reconhecer a diver- n
a)
5-
=

sua concepção. A interseccionalidade desconsidera o sidade de experiências corporiíicadas pelo sistema


0
sistema mundo colonial de gênero como o articulador colonial moderno, irresüitas à centralidade de raça, =
das experiências intercruzadas, as quais o racismo até porque a pensadora entende que lesbofobia é tão

86 87
desumanizante quanto o racismo escravocrata de heterossexistano argumento de Crenshaw Anterior à
outrora. Metodologias reduzidas às violências raciais discussão, o pensamento feminista negro de Pathcia
contra mulheres de cor secundarizam as demais opres- HiE Collins nominalmente valida a interseccionalidade
sões combatidas pelo prdeto político lesbofeminista cunhada por Kimberlé Crenshaw, usando o mesmo
antirracista decolonial, nos moldes satisfatórios, se campo discursivo sobre família heterossexuale nação,
acaso fincar o pensamento feminista negro de Patrícia neste caso, do regime supremacista branco formali-
Hill Collins, nos Estados Unidos, e terceiro-mun- zado nos Estados Unidos, que foi capaz de controlar
a sexualidade das mulheres brancas através de normas
distas como Lélia Gonzalez, Jurema Werneck, Sueli
Carneiro e Luiza Bairros por conseguinte,fazendo sociais defensoras da virgindade pré-marital, objeti-
jus ao conceito de "matiz de opressão" esboçado vando a pureza racial das famílias brancas. Igualmente,
por Collins, inalcançado,por sua vez, em Kimberlé segundo Collins, os negros desenvolveram o aâocen-
Crenshaw. A autora se questiona sobre üismo da família negra, miniatura de Àflica. Negros
e negras, mesmo estranhos, se cumprünentam na rua
[. . .] o que a proposta da interseccionalidade como umãos e innãs de sangue dessa nação heterosse-
faz? Como seu nome indica, intersecciona. xual, por meio de hierarquias naturalizadas no ideal da
Então, o problema da interseccionalidade é família tradicional, articuladas, graças à intersecciona-
que, por meio dela, púmeiro se assume que
as identidades se constroem de maneira au- lidade de raça, nação e classe.
tónoma, quer dizer, que minha condição de
mulher estáseparada da minha condição de Por exemplo, espera-seque as mulheres reali-
negra e que minha condição de negra tam- zem muito o trabalhodomésticoque mantém
a íàmDia íimcionando, enquanto os deveres dos
bém está separada da minha condição de lés-
bica. E de classe. Esse é o primeiro problema. homens comecem apoio financeiro. De uma
maneira similar, nos EUA, cidadãos por nas-
E que há um momento em que, como as au-
topistas, isso se intersecciona." cimento ou naüualizados adquirem direitos e
responsabilidades decorrentes da associação
nadonal. Os cidadãossão prometidosdirei-
a)
E precisodizer que a pensadora,assim como tos, tais como a igualdade de proteção,abrigo
Crenshaw, está trabalhando com o âmbito jurídico da lei, o acesso ao seguro, pensões de velhice,
numa proposta decolonial. Discorre sobre leis criadas educação pública gratuita e outros serviços de
assistência social. Os cidadãos também devem =
<(

pelo padrão liberal, tendo ressalvas em relação à marca


t.u a.

88 89
cumprir certas obrigações enfie si. Espera-se que
os cidadãos paguem impostos, observem a lei e para demais nações, mas são eles próprios os primeiros
se envolvam em serviço quando necessário.» a usarem discursos homogêneos para estabelecer
guerra contra o terrorismo, eliminando populações
Jasbir Puar critica a interseccionalidade
de indesejáveis,fazendo referência anacrónica aos aten-
Kimberlé Crenshaw devido à reifícação da diferença tados às Torres Gêmeas, em 2001, coordenados pela
organização Al-Qaeda.
de gênero esvaziar os agenciamentos das mulheres E sabido, desde a Conferência Mundial de
de cor. A objeção importante é a perspeaiva jurídica
secundarizar o "homonacionalismo", categoria da Durban, que os Estados Nações diante do atentado
identidade moderna nacionalista tolerante aos gays, têm motivos políticos contra os diferentes, racia-
lésbicase trans hegemânicosem relação aos outros lizados, embora tenham assumido o combate ao
segmentoshumanos racializados e discutidos pela racismo e à discriminação racial e a promoção da
intelectual. A interseccionalidade não dá conta de igualdade usando letramentos da interseccionalidade
configurações identitárias recentes e sem fixação de política e representacional,de Crenshaw, visando
gênero na abordagem, o fato de termos não-ociden- prevenir iniquidades globais. O atentadoterrorista
tais heterossexuais, sem privilégio algum de gênero ou promoveu giro conceitual à interseccionalidade,
sexualidade,impedidos de migrarem nacionalmente. sobretudo naquela oportunidade em que signatários
assumiram diretrizes focadas no Sul Global contra o
Na verdade, em decorrência disto, estão impedidos
racismo institucional, assumiram responsabilidades
de entrar nos países desenvolvidos por serem vistos
como racializados, terceiro-mundistas. de cooperação internacional em favor às populações
de cor, a citar negros ausentes nas universidades
Geopoliticamente, a interseccionalidade de
Crenshaw fez dos Estados Unidos os mais avançados públicas, a pauperização das mulheres negras, dentre
ações focadas no binómio raça-gênero entrelaçados
campos de estudos sobre diferença; a Europa, no
bloco imperialista, já construiu legitimidade, manipu- pelas dinâmicas globais.
lando o léxico sem, necessariamente, possuir a marca Ora, critériosdas diferençasservemà união
-« ..
do movimento de mulheres de cor, precedente nos nacionalista, desiguala muçulmanos, latinos e
outros perigosos de fora, representantes das iden- e
= Q)
Estados Unidos, anterior à terminologia cunhada.
C3 0
G= =
tidades nocivas, inelegíveis ao regime jurídico da
Os Estados IJnidos divulgam a modernidade de
= .g pautas identitárias, passam credibilidade nacionalista
homonacionalidade,mobilizada contra o terro- -=
E 'à rismo, sendo os heteros,os que vêm de fora. O
90 91
corpo nacional aceita homossexuais e marca a dife- Sistematicamente, os terceiro-mundistas, prin-
rença externa de raça, produz insumos aos montes cipalmente africanos, são acusados de cometerem
de movimentosliberaisgays e de lésbicas, sem crimes de ódio, são estigmatizados por serem mora-
conflito identitário, atravessando publicidades da dores de baixos perigosos, segregados racialmente,
Coca-Cola, despontandoa modernidadeestaduni- povoados de famílias desestruturadas de gênero, lares
dense contra o Terceiro Mundo. marcados pela ausência do macho, conforme acres-
As conquistas legais para homoafetivos servem ao centa Jasbir Puas, que,
controle protocolar das sexuahdades homonacionais e
De fato, muitas das estimadas categoriasdo
plausibilidade das teorias pós-modernas com suas infi-
mantra interseccionalista -- originalmente
nitas identidades e diferenças intersecçionais; servem voltado para a raça, classe e gênero e agora
para cumprir racismos transnacionais e pós-colonia- incluindo sexualidade, nação, religião, idade
listas, manter as clivagens identitárias da condução e deHtciência são o produto de agendasco
feministabranca, apta a enüecortar toda e qualquer lonialistas modernistas e regimes de violência
identidade dizendo-se ocidental, LGBT Em suma, epistêmica, operantes mediante uma forma-
ção epistemológica ocidental/euro-america-
apagando a interseccionalidade das mulheres de cor,
na através da qual toda a noção de identidade
das epistemes originais e radicalidade feministas. discreta tem emergido, por exemplo, em ter-
Em maior diálogo, cito Jin Haritaworn sobre mos de sexualidade e império.:''
enunciados legais do Norte à punição dos migrantes
homófobos na nação alemã.'" Tratam-se de huma- Houria Bouteldja, na crítica descolonial ifzdegê/ze,
nidades vetadas de cidadania em consequência dos acolhe a interseccionalidadenos moldes ideológicos
preconceitos contra muçulmanos e outros indesejá- da tradição feminista negra estadunidensede Angela
veis, à luz da interseccionalidade estrutural, conse- Davas, já que a HHósofaexpôs a história, os elitismos
quente subordinação múltipla, apontadas concei- e racismo estrutural do movimento feminista na sua
tualmente por Kimberlé Crenshaw Supremacistas produção teórica interseccionalsobre as categorias
brancas impuseram o discurso identitário nacionalista mulheres, classe e raça articuladamente.
de controle populacional contra os de fora, assim, os n
a) E por estar afastada da complexidade analí-
0 LGBT precisam viver em paz e os grupos humanos tica do projeto descolonial que a intersecciona-
CU
de cor indesejadosvão morrer ou serão condenados lidade serve às tentativassalvacionistasdo femi- =
CU por crimes de ódio às sexualidades não-hegemónicas. nismo ocidental, porta voz moderno das mulheres

92 93
oprimidas. Por contradição, junto ao movimento, raciais e de gênero. Sendo assim, articular raça, classe
ausenta os pontos de vistas contra a negrofobia. e gênero nem sempre revela preocupação com parcelas
islamofobia, ciganofobia, a violência policial reite- oprimidas, existem setores ágeis em tirar lucro político
rando a mesma crítica feita por Chandra Mohanty, e simbólico das engrenagens identitárias, são mulheres
Rente o feminismo branco ocidental pautado em cúmplices que estão querendo a fama do heroísmo.
categoriasbinárias, em busca de explicaçãoteórica Para a intelectual, de nada adianta a //z(7Üê/ze
para o desempoderamentouniversal das mulheres, denunciar o patriarcado //zd@êrzee manter protegido
conforme quer a teoria feministabranca, tomada o patriarcado branco; ignorar a opressão de gênero
pela divisão sexual do trabalho.:': O ocidente secun- ao masculino, se a matriz colonial moderna faz !ndz-
dariza classe e raça, faz das mulheres terceiro-mun- gê/zessofrerem juntos. Discursos feministas intersec-
distas vistas pelos "olhos ocidentais" como Outras, cionais à parte, precisamos assumirjunto à pensadora
eternamente trabalhadoras exploradas, cheias de que inexiste esta mulher que não faça concessão ao
famílias. De novo, a interseccionalidadeassegura patriarcado, seja adepta ou não do véu, //z(/Üêfze
ou
interesses e lutas comuns entre irmãs inexistentes. branca. Por estratégia política e anuidade, todas nós já
Sua crítica /7zc7@àzeà interseccionalidade se dizemos vistas grossas ao patriarcado. "E o véu tradi-
volta, além disso, à esquerdabranca pronta a atribuir cional, que cobre a maior parte do rosto da mulher, é
mérito às muçulmanas e muçulmanos caso demons- usado apenas por uma pequena maioria"."'
trem serem dignos de apoio, façam a linha liberal das Vejamos que somente o pensamento articulado
pesquisadorasacadêmicasdo islã aliadas à moda da da proposta descolonial propõe a raça produzir densi-
interseccionahdade. Uma das razões da interseccio- dade política às clivagens do gênero, classe, nação,
sexualidade com vistas acabar o eurocentrismo e
nalidade ser tão preocupada com opressão é o colo-
nialismo moderno do feminismo ocidental justiÊcar modernidade representadas nele. A intersecciona-
solidariedade às mulheres que usam o véu, omitindo lidade está na moda acadêmica,portanto, sem a
razões neoliberais,imperialistasdo racismo midiá- radicalidade feminista negra descolonial, ela apoia
tico que divulgao véu descontextualizado.E mais, contradições históricas marcadas pelas diferenças e
os Estados Unidos não criaram a interseccionalidade. silenciamento de pontos de vistas.
Bouteldja acredita que os colonizadores e racistas 5-
0 As mulheres z'?zd gê/zestêm consciência de
foram os primeiros na História a usarem a sobrepo- tudo isso. Elas conhecem muito bem a opres- =
sição de estruturas para esquemas hierárquicos étnicos,
:(

c6
são de seushomens e sabem também o pre-

94 95
ço que elas têm que pagar. Nesse quadro, a para enxergar outros setores, o trânsito é único,
primeira alavanca que elas vão usar é menos neste caso, promovido pelo padrão branco judaico-
o feminismo que o antinacismo e não é Por cristão, mentor do colonialismo e imperialismo,
azar que depois de trinta anos encontramos
mulheres imigrantes engajadas nas lutas con-
um bloco monolítico na sua concepção. Neste
tra o meio carcerário, contra os crimes poli- ponto de vista, a interseccionalidadede Kimberlé
ciais. Acrescentoa tudo isso a dialéticada Crenshaw se torna inconvenienteao igualar opres-
violência patüarcal, que redobra sua força à sões. O racismo do negro não é igual a gordofobia
medida que a virilidade masculina é prdudi- da mulher branca, menos ainda, homens negros
cada pelo colonialismo e pelo racismo.:" não são menos oprimidos que mulheres negras.
Precisaríamos prestar atenção à matriz da colo-
A crítica Mulherista Aâ'icana de Gilza Marquei nização antes de impormos às mulheres negras
transforma o argumento feminista de "sistemas discri- a condiçãode mais oprimidasna diáspora, pois
minatórios" equivalentesem falácia, aqui a expe- homens negros não são algozes das mulheres
riência diaspórica admite haver, sim, hierarquia de negras, nem protegidos pela concepção mulhe-
opressão, na qual o racismo é a tecnologia principal.:'s rista, existe sim, a compreensão do racismo ser a
O mulherismo africano não é o mesmo indicado por ideologia central na subalternidade humana, sendo
Alice Walker nos ensaios"ln Searchof Our Mothers'
o credor de práticas coloniais que nem cabem ser
Gardens",:" em 1983, tendo como referência intelec- chamadas de "discriminação
tual a estadunidenseCleonora Hudson. Acredita-se
Dialogando com a crítica, a interseccionalidade
na umandade entre as mulheres de ascendência afri-
descarta análises aritméticas ou competitivas sobre
cana, respeitando e opondo;se ao feminismo negro, quem sofreu primeiro; não aposta a vulnerabilidade
considerado pelas mulheristas uma reatualização maior para os negros ou quer apreciar de longe as
intelectual do feminismo branco.
opressões alheias, conforme nos ensina Patrícia Hall
Rejeitando o rótulo "feminista" e contrapondo Collins. O projeto feminista negro adota coalização
ao pensamento feminista negro, matriz da intersec- e solidariedade políticas em prol dos oprimidos por
cionalidade, o pensamento mulherista não equipara classe. sexualidades ou território, dentre diferentes =
c= =
c= o
estruturas interdependentes cruzadas por eixos do
racismo, patriarcalismo, sexismo para explicar a
marcações. A interseccionalidade pode ajudar a 5-
enxergarmos as opressões, combatê-las, reconhe- -=
= .g vulnerabilidadedas mulheres negras, nem arti- cendo que algumas opressões são mais dolorosas.
cula estruturas e posicionalidades interacionais
96 97
Às vezes oprimimos, mas às vezes somos opres- ética do cuidado e responsabilidadediscursiva. De
sores. Concordo que racismo, por ser estrutura de acordo com Patrícia Hill Collins,
poder, é intransferível de negro contra o branco, por Mulheiismo e Feminismonegro se beneficia-
isso que o negro, para discriminar, precisa de poder riam por examinar o crescente descompasso
racial assegurado exclusivamente quando ele está entre o que as mulheres negras privilegiadas,
fardado,representandoa instituição,não a si próprio. especialmente aquelas na academia, identiâl-
Contudo, a branquitude continua dirigente. cam como temas importantes e o que o gran-
De todo modo o mulherismo aüicana manifesto na de número de mulheres aRoamericanas que
estão fora do ensino superior considerariam
pensadora Adn l.Jrasse contesta o íêminismo negro e a
digno de atenção.:08
interseccionalidade.

É como eu quererfala de marxismonegro. Para Patrícia Hill Collins, a interseccionalidade


Neoliberalismo negro. Psicanálise negra. Gente: sofre críticas por causa da política de tradução.
é tudo teoria brancas é branca em sua essências Apesar de biliar-se à interseccionalidade desde a
desde a sua base de analisei eu respeito as imlãs década de 1990, ser conteudista do termo propria-
que se dizem feministas pretas, mas eu discordo
mente dito, ela acredita que a interseccionalidade
veementementede pressupostoscomo a inter-
seccionahdade e a comia de analisar a sociedade criada por Kimberlé Crenshaw tem uma história
como numa pirâmide. O íêminismo é uma teo- maior que o tamanho do individualismo a quem se
ria branca nascida no século XIX.t07 destina o mérito de cunhar. Saber usar o léxico no
mercado midiático individual por ser sofisticada,
A meu ver, o feminismo negro e o mulherismo dialogar teoricamente, é apenas um componente do
partilham da mesma vontade intelectual de desarti- projeto feminista, na sua concepção. Na anualconjun-
culação das estruturas colonialismo, eurocentrismo tura, a interseccionalidade está longe de dar conta
e imperialismo inesperadamente, acredito na disputa em espessura e coletividade, por sua popularidade
teórica capaz de reconhecer, por exemplo, que a ser fincada de pós-modernismo e pós-estruturalismo
pensadora comum das abordagens, Lélia Gonzalez, fundamentalmente. No seu entendimento a intersec- =
a) conseguia aportar o pan-an'icanismo ao feminismo cionalidade nasceu radicalmente engajada na "liber-
=

0 negro, ensinando nossas gerações o valor ancestral da dade, equidade, justiça social e democracia partici- =
pluralidade teórica manifesta de interdisciplinaridade, pativa", soâ'endo mudança militante intelectual, em
<c

98 99
razão da problemática política de tradução imper- Law Review(Crenshaw,1991).Como uma
feita nos contextosmateriais, sociais e intelectuais teórica crítica da temática racial e advogada,
Crenshawnão íoi uma militantenos movi-
ditados pelo neoliberalismo. mentos sociais. mas estava intimamente fa-
A interseccionalidade propunha enÊ'estar casos miliarizada com o trabalho por justiça social
de violência contra as mulheres de cor, lidar com a dos movimentos.ioç
interconexão das estruturas em direção às mulheres,
veriÊcar a identidade produzida pelo racismo, explo- A crítica de Sueli Carneiro perpassa o não-uso
ração de classe, patriarcado e homofobia, atraves- do termo interseccionalidadedurante suas emprei-
sada pela experiênciacoletivada mulher negra, tadas analíticas. Ressalvada a inovação conceitual,
não presa às geogra6las do saber estadunidenses. nenhuma diz respeito à geração de feministas negras
Importante dizer que mulheres negras precisavam de que aderiu à interseccionalidade.A geração da HHó-
uma respostametodológicaque abarcassemúltiplos sofa brasileira guarda consigo a nota epistêmica do
sistemas de opressão numa proposta teórica enga- feminismo negro, é repetida sua intenção escrita de
jada. A concepção política de Crenshaw, segundo defender outro marco civilizatório de humanidade
Collins, se baseou nas ideias do Coletivo Combahee para as pessoas negras viverem nesta nação.
Rever para cumprir este quesito, procurando estabe- A recusa da interseccionahdade, acredito eu, não
lecer "relações entre identidadeindividual e identi- descredencia a premissa do temia existente há quase
dade coletiva", manter o Foco nas estruturas sociais e cinta anos, aliás, Caz coro à proposta da pensadora
teorizar as experiências focadas nas mulheres de cor de enegrecer o feminismo, considerando o empenho
junto às conexõesestruturais,políticase representa- acadêmico e de articulação ativista das mulheres negras
tivas. Chega a ser inapropriado apagar vozes, segundo não-acadêmicas, anterior à sistematização do conceito.
Patrícia Hill Collins Segundo levantamento bibliográfico de seus escritos, as
mulheres negras coram as que mais lutaram para rede-
Histórias da emergência da interseccionali- mocratizar o país e se levantaram contra a hegemonia
dade costumam clamar que a intelectualfe-
minista a&o-americanaKimberlé Crenshaw pensada na sociedade civil, e na academia dedicaram
'cunhou" o termo interseccionalidade no a vida ao combatedos estereótipos
nacionais,raciali-
= Q)

c= o
c= =
artigo Mapping the Margens:Intersectiona- zados, reduzidos à mulher mulata, empregada domés-
l.LJ .X

lity, Idendty Politics, and Violence against tica, atleta sexual. A tese de doutorado de Carneiro, 'IA =
=-© Women of Color, publicadona Stanford consüução do outro como não-sercomo fundamento

100 101
do ser",::' demonstracomo a categorianação funda o Durban, tambémem razão da promoçãoda igual
contrato biopolítico de exclusão racial neste país, onde a dade racial das nações. Por isto, Sueli Carneiro diz
conexão de raça, classe, género e dinâmicas de epistemí-
cidios se valem do biopoder - racismo institucionalizado Quando Crenshaw chegou com esse debate
à matança do paüimânio ancesüal vivo neste país, atra- da interseccionalidade, eu já estava com essa
vessado em todas as esferas da sociabilidade negra e, late- concepção consolidada de feminismo negro.
ralmente, às balas do corpo negro. Então, a intersecciona- Mas essa geração está agregando conceitos.
Eu sou filhote da Lélia Gonzalez. Eu sou
lidade é recurso metodológico descartado da semântica
uma feministanegra antirracistaque em de-
e não do conteúdo da íilósofa, pois as feministas negras terminado momento, na esü'uturação do ins-
já imbricam raça, gênero e classe, aqui demonstrado pela trumento político de luta que eu, com outras
intelectual. Exemplos desta articulação estão na crítica mulheres, concebi, o GELEDES, pensava o
reconente da autora ao machismo atrelado à ascensão que era ser mulher negra no contextodo fe-
social de homens negros, dispostos a transformar minismo branco hegemónico da época.":
mulheres negras e brancas em mercadorias, com ênfase
Em concordância, a Dra. Claudia Pons Cardoso
à superioridade da mulher branca. Está na denúncia
do estupro colonial da mulher negra, a opressão racial
acredita já termos as respostaspolíticas e perspec-
e de gênero ítmdadora da nação brasileira, estupro esse tivas metodológicas americanas de Lélia Gonzalez,
escondido pela historiografia hegemónica, bem como a pois aHuma que
mentirosa sonoridadedas feministasbrancas, tão opres-
Muitas de suasconsiderações,ainda hoje, inte-
soras quanto seus paüiarcas na sociedade escravocrata. gram os debates de mulheres latinoamericanas
O feminismo negro da geração de Sueli Carneiro, e caribenhas que têm como proposta pensar o
mesmo sem aportar a interseccionalidade,
sugere feminismo desde o Sul. um feminismo desco-
pautas antirracistas, não confessionais, antissexistas, lonizado que atenda e inclua as mulheres que
estão atuando nas margens do "sistema capi-
validadas intelectualmente em atenção à abordagem talista moderno colonial", com o intuito de
feministade Patrícia HiU Collins, às conquistasde consüuir modelos alternativos de sociedade.
governanças antirracistas feitas pela pensadora brasi- Incluo-me enfie estas âemiilistas.u2 e
5-
=

0 leira Luiza Bairros, ex-ministra da igualdade racial,


que seguiam esta linha, até empregar a metodologia ;aB
<

CU =
da interseccionalidadeapós Conferência Mundial de
u.A

102 103
A CRITICA DE ANGELA DAVIS
dos homens negros agressoresde mulheres. Já
sabemosem que medida a colonização produziu o
agressor, acredito já ter passado da hora de o homem
negro se descolonizar.Através da punição da lei é
impossível a ressocialização de alguém que a socie-
dade branca nunca quis, do mesmo modo, no âmbito
das diretrizes mundiais contra o racismo, podemos
dizer que práticas de combate ao racismo institu-
cional não servem para a prisão, afinal, ela nasceu
por demanda do racismo. Neste sentido, o tom neoli-
beral da punição proposta pela interseccionalidade
Se a interseccionalidade de Kimberlé Crenshaw nos leva, segundo a pensadora, a nos concentrarmos
verifica múltiplas retóricas que, estruturalmente pelo nos indivíduos, em nós, vítimas individuais, retirar
Estado e particulamente pelos movimentos feministas a atenção do Estado, apontando agressores negros
e negros, esboçam hegemonia branca masculina -- e ou policiais individuais, para quem fica a sentença
discriminação da comunidade negra, principalmente pesada do racismo, sendo o feminismo carcerário
às mulheres negras, o pensamento da filósofa esta- coniventedo padrão moderno colonial. Angela Davis
dunidense denuncia o paradoxo dessa interseccio- coloca em cheque leis como a Lei Antibaixaria,':'
nalidade, por sugerir paz e justiça social através da pensada pelas feministas brancas acadêmicas na
letiginlidade do Direito moderno, condenado poli- Bahia para criminalizar produções musicais dos
ticamente pela seletividade racial e estereotipou pós- homens negros, sem levar em conta a pauperização
coloniais. Do Direito, a violência letal e o encarce- e os estereótipos racistas imputados, sobretudo
ramento de negros exercem seus principais recursos se consideramos as produções artísticas brancas,
racistas. Além de lesbofobias e machismos serem machistas, que endeusam a beleza da mulher branca
peças da estrutura carcerária idêntica à sociedade ou jogam pedras nas subversivas, usando notas musi-
=
= a)
ampla em qualquer lugar do mundo.
Então, a interserccionalidadede Crenshaw está
cais de classe hegemónica. Para Davis, além disto, a
interseccionalidaderepete o conteúdo do feminismo 5-
c.=
CD =
o: negro sem citar todas as mulheres e organizações =
l.u ..)Z
servindo para garantir êxitos dos chamados por ela
=-H de "feminismos carcerários", engajados na punição anteriores ao termo.

107
106
Para não ser injusta, consta no trabalho Kimberlé forma de reunir tais questões.Elas não es-
Crenshaw sobre a intersecção representacional das tavam separadas em nosso corpo e também
não estão separadasem termos de luta.l:'
mulheres de cor, no clássico "Mapeando as margens:
interseccionalidade,políticas de identidade e violência
A crítica de Angela Davis atravessa a geopolítica
contra mulheres de cor",i:' análise semanal das subor-
da interseccionalidade a fim de descredenciar coope-
dinações raciais e sexuais mutuamente reforçadas. A
raçãoes internacionais disfarçadas que, na verdade,
pesquisadora reconhece que qualquer mulher negra são interessesde controle populacional dos Estados
ouvindo o grupo de hip hop estadunidense2 Live
Unidos para com países africanos
Crew,''s punido com pena de prisão por cantar Nasty
As They Wanna Be identificaa misoginia tão grave Como resultado direto da aliança dos Estados
quanto o racismo. Por isto, precisamos identificar o Unidos com a À&ica do Sul, sob o disfmce de um
racismo e sexismo interseccionados,antes violentos. 'compromisso construtivo" que merece ser
visto a composição cultural condenada, submetida à chamado, de mais apropriada, de "compromis-
so destrutivo" --, mais de quatrocentaspessoas
análise interseccionalbem feita, considerará a prévia
sul-aíticanas foram assassinadas pela polícia e
condenação moral e legalizada dos homens negros pelo
pelasForças Armadas desde o início do ano.'"
racismo, daí devermos analiticamenteperguntaro porquê
desse coco exclusivo no marcador de gênero ou de raça
Com efeito, Angela Davis, por ser abolicionista
penal e crítica da interseccionalidade, ponha que

Menciono essa genealogia que leva a sério


as produções epistemológicas de pessoas
cujo trabalho principal é organizar movi-
mentos radicais porque considero impor-
tante evitar que o termo "interseccionalida-
de" apague histórias cruciais de atavismo.
Havia entre nós aquelas pessoas que, não
c= = tanto em virtude das análisesacadêmicas,
mas por causade nossaexperiência,reco- ;aB
=
l.LJ .X
cn .::ql
= .g nheceram que tínhamos de descobrir uma

108 109
CRUZAR O ATLÂNTICO NEM
SEMPRE ENCERRA A TRAVESSIA
secretarias de igualdade racial, reivindicamos direitos
humanos, aceitamos ser cotas de partidos políticos
brancos, nos tornamos ativistas da sociedade civil
organizada, votamos políticas públicas nas conferên-
cias. Logo, a proposta de Crenshaw nos instrumen-
taliza neste campo de justiças mediadas. Na diás-
pora afncana, nós, ialodês, desenvolvemoscondutas
molhadas e enâ'estamos o padrão colonial dando
movimentoà força da maré, igual Marielle Franco,
morta numa quarta-feira, dia de domínio de Xangâ
ancestral da justiça, e de Oyá, energia guerreira que
A coragem de Kimberlé Crenshaw de cunhar luta sem o medo da morte, e que está viva no rio Níger
a interseccionalidade
no âmbitodo Direito,setor por nove vezes.A presençaancestralde Marielle
branco e elitista, reserva o caráter ético da mulher Franco contornaleis para en#entar os regimesjurí-
negra iletrada que leva o celular escondido na vagina dicos do colonialismo brasileiro.
para atender o HHhopreso. São "forasteiras de dentro". Sigo Kimberlé Crenshawjunto com o método
racializadas,a ponto de não conseguirem
escapar diaspórico feminista atravessado nesta discussão,
da condenação intelectual do sistema mundo, onde visando aumentar os diálogos com as epistemes dos
apenasKart Marx e Emma Goldman segueminimpu- povos colonizados, abranger as travessias teóricas de
táveis. Mas as intelectuais negras desaHlama estrutura corpos navegantes,balançados pelas águas étnicas,
do racismo e assumem as consequências disto. memórias índicas, culturas polissêmicas e posicionali-
Certamente, o Atlântico gera maresia feminista dades transatlânticas. Afinal, o conhecimento deve ir
durante a travessiainterseccional. Longe de ser âag- além das demarcações suadas por linhas imaginárias
mentada, liberal e cisheterossexista,a intersecciona- do horizonte e, Hmalmente,valer-sede raça, classe,
lidade é dimensão prática, precisamos do horizonte território e gênero, mas enlanguescendo-se.
n q) enquanto os navios estão atravessando, mas a fome Acompanho Kimberlé Crenshaw. pois uma vez n
G= 0 de justiça depende da vida garantida agora. Diante protegidos do racismo, podemos nos proteger de toda
do Estado Democrático de Direito, o regulador oficial e qualquerviolência e lutar por mais tempo contra =
S-a
das relações sociais, temos pleitos políticos, propomos as necropolíticas. Por mais que argumentem que a

112 113
interseccionalidade reitera o discurso da punição.
no campo prático, nenhuma de nós gostaria de ver
o assassino da feminista negra lésbica vereadora
Marielle Franco em liberdade, aquela mulher negra
atingida na encruzilhada do racismo, sexismo e lesbo-
fobia, atirada ao trânsito colonial voltado contra
mulheres negras. A interseccionalidade é a auto-
ridade intelectual de todas as mulheres que um dia
foram interrompidas. A interseccionalidadeé sofisti-
cada fonte de água, metodológica, proposta por uma
intelectualnegra, por isto é tão difícil engolir os seus
fluxos feitos mundo afora.

n a)
G= =
l.LJ .X

E .a

114
NOTAS E REFERENCIAS
da compaixão branca. Neste sentido, a noção de "vitimado'
l No original "(...) in our name". HALL, Stuart. Culnral resguarda o caráter político de afetação e alcance das injus-
Identityand Diáspora. In: RUTHERFOlZD, Jonaüian(ed.). tiças sociais aos grupos identitários--já as noções de agência
]tímüQ Comeu/z1O, CuZüx? l)i@zence. London: Lawrence política e autodefinição negras correspondem ao lugar histó-
and IN'hishart Limited, 1990, p. 222. rico dos que foram escravizados e não escravos,portanto são
2 vítimas no sentido de ütimados.
De acordo com Kimberlé Crénshaw, a hterseccionalidade
é, snnultaneamente, a maneira sensível de pensar a identi- 5. O pretoguêsresu]ta da interação entre língua do colonizador
dade e sua relação com o poder, não sendo exclusivapara e resistência linguística dos africanos. Como as mulheres
mulheres negras, mesmo porque as mulheres não-negras brancas não maternaram seus filhos, impuseram a educação
devem pensar de modo articulado suas experiências identi- dos pequenosàs mulheres negras, estas ütimas transmitiram
tárias. Ademais, transexuais, travestise queers estão incor- por gerações os signos linguísticos de Aftica para o sistema
porados a perspectiva da autora. Este volume contém contri- linguístico colonial, segundo Lélia Gonzalez, autora da
buições oriundas da segunda edição da Escola Internacional termo. As mães pretas atearam como intelectuaisda socie-
do Pensamento Feminista Negro Decolonial ministrado pela dade brasileira e não foram meras serviçais. Se consciência
Doutora Kimberlé Crenshaw, na University of Wisconsin é tudo aquilo que a memórianão pode apagar,segundo
law Scholl, para o Coletivo Angela Davis, da Universidade argumentava, é preciso compreender que mães pretas trans-
Federal do Recôncavo Baiana; no período de 5 a ll de mitiram a intelectualidade africana para a sociedade brasi-
agosto de 2018. [eira, a prova do golpe linguístico está simbolizado na paixão
3 O pat:riarcado é um sistema político modelados da cultura e patriarcal pela bunda da brasileira, na verdade memória
dominação masculina, especialmentecontra as mulheres. quimbundu.
E reforçado pela religião e família nuclear que impõem 6. Na epistemologia feminista negra adotamos uma política de
papéis de gênero desde a inBancia baseados em identidades tradução que respeita os signiâcados políticos originais, neste
binárias, informadas pela noção de homem e mulher bioló- caso ''mulheres de cor'' contém mais representatividade
gicos, sendo as pessoas cisgêneras aquelas não cabíveis, que ''mulheresnão-brancas''.Para maior compreensãover
necessariamente,nas masculinidades e feminilidades duais NASCIMENTO, Tatiana. Quem nomeou essas muheres
hegemónicas. A despeito do gênero atribuído socialmente, 'de cor"? Políticas feministas de tradução que mal dão conta
pessoas não-cis estão fora da identiâcação estética, corpórea das sujeitas negras traduzidas. Translation, 13, p. 127-142,
e morto-anatómicas instituídas. Para melhor compreensão, jun. 2017. Disponível em: http://seer.u#gs.br/index.php/
consultar as ''Orientações sobre identidade de gênero: translatio/article/view/71586. Acesso em: 21 ago. 2018
conceitos e termos", um guia técnico sobre pessoas transe-
xuais, travestis e demais üansgêneros formulado pela pesqui- 7. ANZALDUA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para n
a) sadora Jaqueline Games de Jesus. as mulheres esciítoras do Terceiro Mundo. Tradução de
Edina de Marco. RelúfaEstudos
/ib7zínísfas,
v. 8, n. 1,p. 232, 5-
0 4. As feministas negras, como bell hooks, reconhecem os 2000.Disponívelem: https://periódicos.ufsc.br/index.php/
;aE =
impactos supremacistas brancos na trajetória indiüdual e ref7article/view/9880/9106. Acesso em: 21 ago. 2018.
coletiva, mas rdeitam o lugar político de vítimas passíveis L.U B-B

119
118
8 EVARISTO, Conceição. Literatura negra: uma poética de 14. M00RE, Car]os. O ]Mamísmoe a g esfâoxaaa/...Kàr/lidame
nossa alto-brasilidade.1996. Dissertação(Mestrado em Fnednc# .Ellgeh#?nfe ao racismo e à escoa acho. Belo Horizonte:
Letras). Pontiãcia UniversidadeCatólica do Rio de Janeiro Nandyala, 2010. p. 79
PUC-Rio.'
15. BEAUVOIR, Simone de. O segzl/zda
sexo.Tradução de Sérgio
9. Segundo a concepção do sociólogo camaronês Achille Müliet. 2' ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
Mbembe, o conceito de Foucault, biopoder, não alcança a
permanênciado terror colonial promovido pelas milícias 16 MARILENA, Chauí. Participando do debate sobre mulher e
urbanas, exércitosprivados e aparelhos do Estado autoÚ- violência. IN: FRANCHETTO, Bruna; CAVALCANTI, V
zados a violentar e matar populações racializadas. Por isto. C., Malta Laura; HEILBORN, Mana Luiza(ed.) Pezvecüvas
articulo o termo necropolítica proposto pelo autor ao femi- an/POB70/óEic d mz//hm.São Paulo: Zahar Editores, 1985.p.
nismo negro da pensadora cahbenha estadunidense Audre 25-47
Lorde, usando demarcar as diferenças de pontos de vistas e 17. Cf.: BEAL, Frances. B/ack Momefz?lida/zlXesío,' l)oz/b/eleopandy.
de opressõesraciais entre as mulheres no tocante as trajetó- Zoóei?/ackand];êmaZe.
Nova York: Third World Women's
das de seus filhos.
Alliance, 1969. Disponível em: http://wwwhartford-hwp.
10. com/archives/45a/196.html. Acesso em: 27 ago. 2018.
Uso a categoria Outros intercambiando o pensamento de
Sueli Carneiro e Grada Kilomba. Os Outros, neste caso, são 18 No original: "The IJnited States hastbeen sponsoring steri-
aqueles üstos pela identidade do Ser universal, autoinvisili- lization clinica in non-white countries, especiallyin Índia
zante, branca, cis, heteropatriarcal como os diferentes dos
humanos normativos. where already some 3 miUion young men and boys in and
around New Delhi have been sterilized in make-shiR opera-
11 Originalmente o discurso é .2z:n'Z / .,4 Momazz?, traduzido ting rooms set up by the american peace corpo workers
pelo Doutor Osmundo Piolho da Universidade Federal do Under diese circumstances, it i$ understandable why certain
Recôncavo da Bacia(Cachoeira). A tradução foi publicada counüies view the Peace Corps not as a benevolent project,
not as evidence of america's concern for underdeveloped
no Eorfg/ Geledá, em 8 dejaneiro de 2014. Cf.: SOJOUNER,
Truz. Z não soz/ama mz//#m7 Sojourner Truth. Tradução áreas, but rather as a threat to their very existence". Cf.:
de Osmundo Pinho, Ge/e(i8,8 jan. 2014. Disponível em: BEAL, Frances. B/ízcê Momenk ]14aiz#êsfa,.
Z)oz/ó/eJropandy.'
https ://www. geledes.org.br/e-nao-sou-uma-mulher- Zo óeB/ackand.l;êma/e.
Nova York: Third World Women's
soHourner-üuth/. Acesso em: 27 ago. 2018. AJliance, 1969. Disponível em: http://ww.hartford-hwp.
com/archives/45a/196.html. Acesso em: 27 ago. 2018
12. Cf.: ALMEIDA, Silvio de. O gz/eé xacísmo
esfm/üza/?
Belo (Tradução da autora)
Horizonte: Letramento, 2018.(Col. Feminismos Plurais).
19 Boavenura de Sousa Santos discute cultura, subjetividade e e
0
13. Cf.: ASNOVIDADES DE SEMPRE. Declaração do Coletivo
Combahee Rever. ll noH 2013. Disponível em: http://rodií-
relações de âonteiras esmagadas pela colonização, de modo
a nos sugere a subversão epistêmica que é ''aprender que
5-
;aB
'( gosilvadoo.blogspot.com/2013/11/declaracao-do-coletivo- existe o Sul; aprender a ir para o Sul; aprender a partir do =
combahee-tiver.html.Acesso em: 27 ago. 2018. Sul e com o Sul''.
U. Bn

120 121
20 A mística feminina, publicada em 1963,por Betty Friedman desmantelar a casa do mestre". Tradução de Renata. Geledés,
feminista estadunidense da segunda onda feminista, recebe 10 jul. 2013. Dkponível em: https://wwwgeledes.org.br/
crítica negra, principalmente de bell hooks, segundo a qual mulheres-negras-as-ferramentas-do-mestre-nunca-irao-
não foi o sexismoque impediuas mulheresbrancasde desmantelar-a-casa-do-mestre/. Acesso em: 27 ago. 2018
irem para o espaço público, mas o fato delas recusarem o 28. CARMICHAEL, Stokely. O poder /negro.2' ed. Belo
trabalho feito por mulheres negras.
Horizonte: Nandyala, 2018. p. 23
21. RATTS, Alex; RIOS, Flavia. .Lé#aGoa.gaze.
São Paulo: Selo 29. M00RE, Carlos. Racismo & Soc/idade.' novas ó es epísfe-
Negro, 2010.(Coleção Regatos do Brasil Negro)
moZkig/ca.s .roxa e/z/enter o racismo. Belo Hlorizonte: Mazza
22 Idem. A perspectivainterseccionalde Lélia Gonzalez. In: Edições, 2007.
CHALHOUB, Sidney; PINTO, Ana Flávia Magalhães.
30. Ibidem, p. 282
Qotg) Pensadores negros pensadores negras:Brasil séculosXIX
e XXI. Cruz das Almas: EDUFRB; Belo Horizonte: Fino 31. GROSFOGUEL, Ramón. A estrutura do conhecimento nas
Traço, 2016. p. 447 v. ll.(Coleção UNIAFRO) universidades ocidentalizadas: racismo/sexismo epistêmico
23. Ibidem. p. 393. e os quatro genocídios/epistemícidios do longo século XVI
Soc&dadeeEstado, v. 31, n. 1, p. 25-49, 2016.
24. DAVIS, Angela. .ZMaZ&e/?s,raça e classe'. São Paulo: Boitempo,
2016 32. DU BOIS, W E. B. .4sa/masdagezzíe
negra.Rio deJaneiro
Lacerda, 1999.p. 715
25 MIGNOLO, Walter D. "Desobediência epistêmica: a
33. CARjZASCOSA, Denise(org.) 7}aci /ndo lzo af nflco
opção descolonial e o significado de identidade em polí-
negro: carta náutica a#odiãspallcw para TravessiasLitwárias.
\Xca". Cadernos de Letras da UFF: Dossiê: Litwatura, língua e
Salvador: Editora Oguns Toques, 2017. p. 22
!de?zf/dado,
n. 34, p. 287-324,2008. Disponível em: http://
www. cadernosdeletras. uH. br/ index.php/cadernosdeletras . 34. NASCIMENTO, Abdias. O genocáóo do negro órmíZe/xo..
Acesso em: 21 ago. 2018. processo de z/m xacómo ma.scazada. São Paulo: Editora Paz e
26 xíu o emaào The Trc©ici% Women:motesof the "PoÍitical Terra, 1978. p. 119. v. 30.(Coleção Estudos brasileiros)
Eco/zo/np'
of Sex", de Gayle Rubin, publicadoem 1975, 35 H00KS, be]]. ]V2o soz/ ez/ z/ma mz//bm.. mzl/#er?s negras
traduzido pelo SOS Corpo, no qual a antropólogacritica e jeml esmo. Tradução livre da Plataforma Gueto
a insuâciência marxista de explicar a subordinação e Disponível em: https://plata6ormagueto.files.wardpress
opressão das mulheres, e faz o mesmo com Freud, Lacar e com/2014/ 12/nc3a3o-sou-eu-uma-mulhertraduzido
Leva Strauss. Cf.: RUBIN, Gayle. 0 27z@co
de mzl/&ezn../zof pdf. Acesso em: 21 ago. 2018.
E-
C oóxea econom/a.po.Z#/cado sexo. Recite: SOS Corpo, 1993.
36. EVARISTO, Concepção. Literatura negra: uma poética
0 27. Este &aginentoconsta da Conferência do New York Universiq de nossa aRo-brasilidade. 1996. Dissertação(Mestrado em ;aB=
Institute 6or the Humanities. 1979. Cf.: LORDE. Audre. Letras). PontiHlciaUniversidadeCatólica do Rio de Janeiro,
'Mulheres negras: As ferramentas do mestre finca irão PUC-Rio. L.U B-a

122 123
37. Embora estqa assimilado o conteúdo analítico do grupo Eletrânicos), Florianópolis, 2013. p. 10. Disponível em
Decoloniabdade, localiza em particular este conceito em https://poligen.polignu.org/sites/poligen.polignu.org/êles/
Maldonato Torres na discussão sobreracismo epistêmiconas feminismo%20negro2.pdf.Acesso em: 21 ago. 2018
diásporas e vejo convergênciatransdisciplinar irretocável aos
escritos fanoninanos do Doutor Deivison Mendes Faustino 44. Conforme documentárioTbe Rachel Divide, dirigido por
Laura Brownson,em 2018
sobre colonialismo, racismo e luta de classes. Enüetanto, optei
por não üabalhar dentro do campo teórico absolutamente 45. BENTO, Mana Aparecida Silvo.Pactosnaicísicosno radsmo:
masculino, visando aumentar a publicidade dos trabalhos branquitude e poder nas organizações empresariaise no
intelectuais de mulheres negras. poder público. 2002. Tese Q'sicologia Social) Instituto de
Psicologia da Universidade de São Pauta, Departamento
38. FANON, Frantz. Em defesa da revolução aâicana: Terceiro
Mundo. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1980. de Psicologiada Aprendizagem, do Desenvolvimentoe da
Personalidade,São Paulo
39. LUGONES, Maiía. Rumo a um Feminismo descolonial.
46. Privilégio é vantagem estável, esüutural e branca, con6omie
EsMdos.Fêmffzisfas,
Florianópolis,v. 22, n. 3, set./dez. 2014.
aparece em Du Bois, na obra J?econsrrz/@o
nqxa a .4málfa.
Disponível em: https://peiiodicos.ufsc.br/index.php/ref7 Heterossexuahdade negra, a meu ver, não pode ser conside-
ardcle/view/36755. Acesso em: 21 ago. 2018.
rada privilégio, porque o racismo interdita a espontaneidade
40. CUR]EL, Ochy. lxz nadofz #efmosemd. a/zcí/ísüde/ dliczzxsolu# da sexoa6etividadenegra. Está evidentena Campanha do
dica y eí tégimm heterosexçila! desde !a antropologia de !a damiitación. b,4NU, em 1991, ''Reaja à.üo]ência racial, beije a sua preta
Colombia: Brecha Lésbica y en la Roncera, 2013. em praça pública'
41 DIFUSÃO HERÉTICA EDIçõES FEMWISTAS & 47. DU BOIS, W E. B. B/acÊ Reranszmcfzo/z /fz .4menaa. Oxford
LESBICAS INDEPENDENTES.Textosescolhidos
de Oxford University Press, 2014.
Audre Lorde. Disponível em: https://wwwmpba.mp.br/ 48. Em 2016, o Ministério da Saúde demonstrou que a cada dez
cites/default/files/biblioteca/direitos-humanos/direitos-
mulheres afetadas, oito eram pretas e pardas(negras). A Dra.
da-populacao-lgbt/obras.digitalizadas/audre.lorde -.
Jurema IÀümeck elaborou o Boletim Epidemia de Zika e
textos.escolhidos.portu.pdf. Acesso em: 21 ago. 2018.
Mulheres Negras.
42. CASTRA, Fabiana Leonel. Negras, jovens, feministas: sexua-
49 GOES, Emanuele. A nossa dor não sai no jornal: Mulheres
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promovida pelo Centro de Cultura Negra do Maranhão e Feminismos Plurais)
pelo Grupo deMulheres Negras Mãe Andreza. 60 REIS, Vilma. Atucaiados pelo Estado: as políticas de segu-
53 Ver a entrevista
de GradaKilomba,realizadapelaãló- rança pública implementadasnos baixos popularesde
sofa Djamila Ribeiro, para a Carta Capital, em 30 de Salvador e as representaçõesdos gestores sobre jovens
março de 2016, na qual a pesquisadoraaborda o racismo homens negros (1991-2001).2005. Dissertação (Mestrado
como problemática branca. Cf.: RIBEIRO, Djamila. "0 em Ciências Sociais) -- Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais, Universidade Federal da Bacia, Salvador.
racismo é uma problemática branca", diz Grada Kilomba.
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conversa-com-grada-kilomba. Acesso em: 21 ago. 2018. 61 No original: "The portrait of black masculinity that
54. FANON, Frantz. Zm (Zdãsada /wo/%ão (!Pira/za.-Zemdro emergemin this work perpetuallyconstructs black men as
]Ma/zdo.Lisboa: Sá da Costa Editora, 1980. p. 41 'failwes'' who are psychologicany''fückedup,'' dangerous,
Violent, sex maniacs whose insanity is informed by üieir
55. Refiro-me aos feminismos negros na diáspora, o aâo-latino, inability to ftilâll üieir phallocenüicmasculine destiny
caribenho, ialodê, terceiro mundistas, americanos, todos in a racist context". Cf.: H00KS, bell. .B/acêZ,goês.'face
conexos. a/zd Represa zfaffo/z. Nova York: Routledge, 1992. p. 82
(Tradução da autora).
56. SAUNDERS, Tanya. Epistemologia negra sapatão como
vetoude uma praxis humana libertária. Emódlcm, Salvador, 62. Não confundir com a Aítocentricidadedo Doutor Moles K
n. 7, v. 1, p. 114,maio/out. 2017. Disponível em: https:// Asante.
portalseer.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/
view/22275. Acesso em: 27 ago. 2018. 63 Apesar desta nota estar ausente na primeira tiragem, é indis-
pensável conhecermos a trajetória intelectua! de Beatriz
57. BAIRROS, Luiza, A mulhernegrae o Feminismo.COSTA, Nascimento. Historiadora, intelectualenganadadentro do e
Ana Alise Alcântra;SARDENBER, CecíliaMana B. movimento negro e movimento de mulheres negras, além 5«
Qalgà O Femínbmo do Brasa!: re$exõesteóricase perspecthas. de teórica do prometoaÊocentrado de nação, no qual a
'(

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lectual e quilombola. Possibilidade nos dias de destruição, br/ri/handle/ri/18987. Acesso em: 23 ago. 2018.
lançado pela União dos Coletivos Pan-Aâicanistas de São
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bound.uchicago. edu/cgi/viewcontent. cgi?article= 1052&- FeminismosPlurais)
context=uclf. Acesso em: 28 ago. 2018. 73 O Estado Brasileiro deveria consultar publicaçõesfocadas
67. Idem. ''Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas nas mulheresnegras,a saber: Bruna Cristina Jaquetto
Peneira-- Tramas e dramas de gênero e de cor: A violência
de identidade e violência contra mulheres não-brancas.
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Tradução de Carol Correia. Disponível em: https:// 2016, e Suelaine Carneiro -- Mulheres Negras e Violência
www.geledes.org.br/mapeando-as-margens-interseccio- Doméstica: decodifícando os números Geledés Instituto
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-%E2%80%8Aparte-14/. Acesso em: 21 ago. 2018. 74. SARDENBERG. Cecília Mania Bacellar. Da Crítica Feminista c''» eO
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128 129
75 CRENSHAWI Kimberlé. Mapeando asmargens:interseccio- 79 CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de
nalidade, políticas de identidade e üolência contra mulheres especialistas em aspectos da discriminação racial relativos
não-brancas. Tradução de Carol Correia. Disponível em: ao gênero. .Revés/aEsfz/dosEemí/zzsras,
v. 10, n. 1, p 175,
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.mulheres-nao-brancas-de-ldmberle-crenshaw%E2%80%8A Acesso em: 21 ago. 2018
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77. Ver o conceito de empoderamento segundo a pensadora discontents-intersecdonality-as-traveling-theory/Acesso
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Horizonte: Grupo Editorial Letramento,2018.(Coleção mulheres redefinindo diferenças. Tradução de Virgínia
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78 De acordo com a Dra. leis Concepção,duranteaula sobre Acesso em: 27 ago. 2018
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nacionais sem mencionar a dimensão racial, uma subin- 83 No original: "ln america, tais norm is usuaUy deíined as
clusão evidente está no caso de Alyne da Salva Pimentel
white, thin, male, young, heterosexual, christian, and fínan-
Teixeira, jovem, negra, pobre e grávida que foi à Casa de ciaUy secure". Cf.: LORDE, Audre. .4gq Racq C7hs a d
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Sex. Moram Re(/d?fzfng
Z)z@zence.
California: SusterOutsider
em Belford Roxo, no estado do Rio de Janeiro, em 2002. O
Crossing Press, 1984. p. 116.
médico realizou o atendimento, depois a mandou de volta
para casa, a jovem morreu deixando uma ilha de 5 anos 84. Conforme pensa Stuart Hall, a diáspora envolve uma
de idade. O Brasil foi condenado em 2011, por obstruir a dimensão cultural particular e comunitáúa maior que a
saúde das mulheres e por suas ações e omissões em relação relação biná:ria entre colonizador e o Outro; ela não é a
aos direitos reprodutivosconsoantesa Convenção sobre a üonteira excludentefuâ, dividida entre os de dentro e
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra os de fora, abrange reconâgurações étnicas e nacionais a
0
a Mulher(CEDAW), mas, os aspectos raciais do problema
não foram tomados de maneira interseccional, nem o fato
emersas de tradições, cruzamentos e travessias identitárias.
Este conteúdo também pode ser acessado na Enciclopédia
5-
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difaentes pueblos afectados por el holocausto aíticano, en un C3%B3nk%El%BA%B9%CC%81.oy%C4%9Bw%C3%B
modelo de globalización económica, cultural y política que 9m%C3%AD.-jornadapelaacademia.pdf.Acesso em
precedela actual y en una perspectivapredatoda que emerge 21 ago. 2018
de Europa y se expandepor los demás continentes;nuevas 90 No Brasil, Oba é título do oiÍxá Xangâ, o Rei. Usamos agudo
alternativas tuvieron que ser gestadas y aplicadas em el sentido
na última vogal para fazer referência a terceira esposa de
de buscarexistencia
y resistenciacultural".WERNECK,
Xangõ, mas Oyêwümí atestao prquízo da tradução. Cf.
Jurema. De lalodês y Feministas: reflexionessobre la accion OYÉWÜM[, Oyêronké. 7he ]avmffon of Moram. ]4aêfng
políticade las moeres negrasen America Latina y EI Caribe. afz Jl#zaa/z Sazse of Hes/em Gmcí« Z)&cnzl es. Minneapolis
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constructionsof women' s identity in Aftica' certain obligadons to one another. US. citizens are expected
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esüutura classeno Brasil". Rwísfa Cu/f. ano 20, n. 223, p
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150
CARLA AKOTIRENE é mestra e doutoranda
em Estudos Interdisciplinares de Gênero
Mulheres e Feminismos pela Universidade
Federal da Bahia (UFBAI. Atua como
assistente social no município de Salvador,
acolhendo vítimas de violência doméstica
Concentra estudos sobre racismo e sexismo
'1

nstitucionais
lllHI l:g nas
IHl:B penitenciárias
l femininas
l
e coordena
a OparáSaberes,
l projetode
Impresso em março de 2019 na Rettec Gráfica e extensão da UFBA para a instrumentalização
Editora, nas fontesCalisto MT e Bebas Neue, em
Pólen Soft 80g no miolo e Ningbo 250gna capa. teórica
l e mel ógicade mulheresnegras
can citasa mestrado e doutorado
em univers es públicas

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