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Casamentos Prematuros

Os casamentos prematuros são um flagelo social em Moçambique. Milhares de


raparigas principalmente nas zonas rurais do país, são vítimas desta prática nociva que
afecta negativamente a sua sobrevivência e desenvolvimento, privando-as de ter acesso
aos serviços de proteção, educação, saúde e outros, que garantem a realização dos seus
direitos como crianças e raparigas.

Moçambique é um dos países ao nível mundial com as taxas mais elevadas de


prevalência de casamentos prematuros, afectando cerca de uma em duas raparigas,
representando uma grande violação dos direitos humanos das raparigas. Esta situação
influencia negativamente os esforços para a redução da pobreza e o alcance dos
objectivos de desenvolvimento do milénio em particular, influenciando para que as
raparigas fiquem grávidas precocemente e deixem de ter acesso a educação,
aumentando os riscos de mortalidade materna e infantil.

O combate aos casamentos prematuros em Moçambique ainda não tem sido uma
prioridade nacional, na medida em que os diferentes instrumentos legislativos e de
políticas existentes sobre a protecção da criança, não abordam, de forma específica e
concreta, a questão do casamento prematuro como violação dos direitos da criança e da
rapariga em particular, bem como não apresentam uma meta ou compromisso politico
para a sua eliminação.

A pressão económica exercida sobre os agregados mais pobres e as práticas


socioculturais prevalecentes, continuam a conduzir as famílias a casarem suas filhas
cada vez mais cedo, quando as raparigas ainda não atingiram maturidade suficiente para
o casamento e para a gravidez ou para assumirem a responsabilidade para serem esposas
e mães. A maior parte das desistências escolares estão ligadas a gravidez precoce nas
raparigas, numa fase do seu desenvolvimento físico e emocional em que elas ainda não
se encontram preparadas para gerar uma criança, com consequências bastante sérias
para a sua saúde e para a sobrevivência dos seus filhos. Moçambique encontra-se em
10˚ lugar no mundo entre os países mais afectados pelos casamentos prematuros,
atendendo os dados relacionados com a proporção de raparigas com idades os 20-24 que
se casaram enquanto crianças, isto é, antes dos 18 anos de idade.
A maior parte destes casamentos são de facto uniões, mais do que casamentos
legalmente registados, mas são usualmente formalizados através de procedimentos
costumeiros como o pagamento do lobolo para a família da rapariga. Moçambique
encontra-se ainda atrasado nos esforços de prevenção e combate contra este fenómeno,
apresentando um nível de prevalência de casamentos prematuros acima dos restantes
países da África Austral e Oriental, ficando apenas atrás do Malawi.

A gravidez na adolescência, ou gravidez precoce, que tem tido uma relação directa com
o casamento prematuro, também é uma realidade em Moçambique, tal acontece como
acontece com o casamento prematuro, a tendência de progresso na redução da gravidez
precoce tem sido encorajadora, mas ainda bastante tímida. As meninas com educação
secundária e superior têm tendência a ficar gravidas muito mais tarde em relação as
raparigas que possuem apenas a educação primária ou nenhuma educação.

O problema da gravidez precoce está fortemente associado ao casamento prematuro,


uma vez que as mães adolescentes casaram-se antes da idade certa para o casamento. O
casamento prematuro é mais prevalecente nas províncias do norte e centro do que no sul
do pais. As famílias mais pobres são muito mais propensas a se casar cedo do que as
raparigas oriundas de meios mais ricos. Um outro aspecto importante na análise das
determinantes do casamento prematuro vs gravidez precoce considerados pela
Coligação para a Eliminação dos casamentos prematuros em Moçambique (CECAP) e
Oxford policy management, tem haver com a influência da religião como factor que
contribui ou não para a incidência dos casamentos prematuros.

De acordo com está análise, as meninas de famílias religiosas (muçulmanos, cristãos


etc.) têm uma probabilidade significativamente menor de se casarem antes dos 18 anos,
em comparação com as meninas que declaram não ter religião. Este facto vem
desmitificar a percepção de que as meninas oriundas principalmente da religião
muçulmana tem maior probabilidade ou vulnerabilidade de contraírem o casamento de
forma precoce.

O casamento prematuro prejudica a rapariga no que respeita ao acesso, permanência e


conclusão do sistema educativo. Estudos nacionais indicam que a decisão de casar e
tomada muitas vezes ou quase sempre pelos pais da menina, o que evidencia que os pais
e ou parentes directos da menina continuam a exercer uma forte influência sobre o
futuro das filhas.
Casamentos prematuros são uma das piores formas de violação dos direitos humanos e
da criança pois coloca a raparigas sob um elevado riso de violência e de doenças,
prejudicando todo um processo de potenciais oportunidades que a rapariga deveriam ter,
privando-as dos seus direitos a saúde, educação, desenvolvimento e igualdade de
género. As raparigas sujeitas ao casamento prematuro enfrentam uma maior
probabilidade de desistência da escola, separação precoce dos progenitores, infecção
com doenças de transmissão sexual incluindo o HIV e SIDA, violência domestica e
sexual, trabalho infantil, mortalidade materna e infantil e gravidez precoce, que tem
resultado em casos alarmantes de fistula obstétrica que expõe as raparigas a
discriminação e desprezo familiar e da sociedade.

O casamento prematuro para alem de aumentar a mortalidade materna e infantil, tem


uma forte ligação com a incidência da pobreza e tem um impacto negativo na
produtividade nacional.