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Práticas agroflorestais na aldeia de Chicueia do Posto Administrativo

de Machipanda

Remane, I. A. D1. & Bila, A. D2.


1
Engenheiro Florestal, Universidade Eduardo Mondlane, C. P 257, Maputo,
Moçambique, remane_principe2005@hotmail.com
2
Professor Associado, Universidade Eduardo Mondlane, C. P 257, Maputo,
Moçambique. Adolfo.bila@gmail.com

Resumo

O presente trabalho teve como objectivo geral fazer o levantamento das práticas
agroflorestais tradicionais existentes no Posto Administrativo de Machipanda. O estudo
foi realizado na aldeia de Chicueia na qual foram entrevistados 38 agregados
familiares. O levantamento de dados foi feito através de um inquérito que inclui
perguntas sobre a componente das práticas agroflorestais, principais espécies, principais
usos da componente perene e disposição espacial e temporal dos componentes. As
principais práticas identificadas em Chicueia foram hortas caseiras (29%), pequenas
matas (5%), aquaflorestas (3%), cultivo em faixas (5%), árvores em terraços irrigados
(24%), cercas vivas (13%) e árvores de uso múltiplo em áreas de cultura (21%). As
principais espécies agrícolas cultivadas em Chicueia são, o feijão vulgar (74%), milho
(66%), couve (63%), cebola (53%) e repolho (47%). As principais fruteiras são, a
manga (68%), a banana (58%), o abacate (55%) e a goiaba (50%). As principais
espécies florestais utilizadas em Chicueia são Syzygium spp. (16%) e Pericopsis
angolensis (16%). Os animais identificados em Chicueia foram: boi, cabrito, cabrito do
mato, galinha e peixe. O arranjo espacial variou de misto à zonal e o temporal de
intermitente, interpolado à concomitante. Os principais usos da componente perene
identificados na área foram alimentação, Forragem, Vedação, Medicamentos, Fixação
do solo, Madeira, Lenha e Sombra sendo a alimentação o principal uso

Palavras Chaves: Práticas agroflorestais, Posto administrativo de Machipanda, Aldeia


de Chicueia.
1.INTRODUÇÃO

Moçambique é um país em vias de desenvolvimento que tem sofrido sérios problemas


de desmatamento, fundamentalmente causada pela actividade humana. O desmatamento
é directamente causado pela acção do homem sobre a natureza, principalmente devido à
destruição de florestas para a obtenção de solo para cultivos agrícolas e pela extracção
da indústria madeireira (Marzoli, 2007). Devido a falta de um planeamento adequado
para sua execução resultam, principalmente, em perdas de solo das camadas mais
férteis, em sua maioria, que podem chegar a 200 Mg/ha/ano (Franco & Campello,
2005).

Segundo Marzoli (2007) a taxa média anual de desmatamento em Moçambique é de


0,58%, o que significa que o país perde, por ano, cerca de 219 mil hectares de cobertura
florestal sendo a Província de Inhambane a que apresenta os valores mais baixos
(11,000 hectares por ano) e a Província de Nampula a que apresenta os valores mais
altos com cerca de 33,000 hectares por ano. Em termos relativos a taxa anual mais baixa
é encontrada em Niassa (0.22%) e a mais alta em Maputo (1.67%).

O crescente aumento da exploração de áreas verdes, leva-nos à busca de soluções


sustentáveis para a continuidade dessa actividade pelas gerações vindouras. A demanda
por sistemas agroflorestais muitas vezes está ligada a grande exploração que ocorre ao
longo do país, ocasionada, principalmente por pequenos produtores, em áreas florestais,
sem que haja o adequado planeamento dessa actividade (Embrapa, 2007).

Os sistemas agroflorestais têm sido praticados em todas as partes do mundo desde


tempos imemoriais e têm sido usada como estratégia de desenvolvimento rural nos
trópicos e de mitigação dos vários problemas que advêm da pressão humana sobre os
recursos (Nair, 1993).

Segundo Sanchez (1987) os sistemas agroflorestais são geralmente adoptados para


melhorar as propriedades físicas e químicas do solo. Esse mesmo autor acrescenta que a
junção de árvores com culturas anuais ou animais numa mesma unidade de maneio de
terra proporcionam uma maior protecção do solo contra a erosão, uma maior reciclagem
de nutrientes e mantém a matéria orgânica do solo tornando-o mais fértil.
Em geral as espécies ou proveniências escolhidas para introduzir num sistema
agroflorestal devem possuir um alto potencial de fixação de Nitrogénio, serem
tolerantes as limitações ambientais, especialmente níveis baixos de nutrientes e
resistência ao ataque de pragas (Dommergues, 1987).

Os sistemas agroflorestais são pouco exigentes em relação a insumos agrícolas e


proporcionam um maior rendimento das culturas agrícolas visto que parte das árvores
que compõem o sistema melhoram a fertilidade do solo (Sanchez, 1987).

O presente trabalho tem como objectivo geral, fazer o levantamento das práticas
agroflorestais tradicionais existentes no Posto Administrativo de Machipanda.

2.MATERIAS E MÉTODOS

2.1 Descrição da área de estudo


O estudo foi realizado no posto administrativo de Machipanda do Distrito de Manica
localizado à aproximadamente 25 Km da sede do distrito, a 6 Km da fronteira com o
Zimbabué e a 18o59”19’ Sul e 32o44”3’ Este ( Figura 1).

Figura 1: Localização da área de estudo

O clima é tropical húmido, a precipitação média anual varia entre 1000 - 1020 mm. A
o
temperatura média anual é de 21.2 C. Machipanda é constítuido por cadeias
montanhosas que chegam a atingir cerca de 1500 – 2000 m de altitude (MAE, 2005).
Os solos são argilosos vermelhos óxicos ou castanhos avermelhados, profundos, bem
drenados. Nos declíves superiores, cumes das montanhas e nos afloramentos rochosos
os solos são líticos, com textura franco-arenosa, pouco profundos e de drenagem
excessiva. Os solos em geral apresentam baixa fertilidade e um alto risco de erosão
(MAE, 2005).

A vegetação do posto administrativo de Machipanda pode ser enquadrada segundo


Marzoli (2007) na zona ecológicas do tipo 1, florestas húmidas de montanha e miombo
húmido. Em geral estas formações apresentam três estractos (Arbóreo, herbáceo e
graminal) e são dominados por Pteleopsis myrtifolia, Erythrophleum, Newtonia e
Millettia.

2.2 Levantamento de dados

O levantamento de dados foi feito com base num questionário no qual foi dirígido as
famílias que praticam a agricultura de subsistência e que tinham a componente perene
em seus campos.

As entrevistas foram feitas com a ajuda de um tradutor pois a maioria dos agricultores
só fala a língua local. Segundo Pijnenburg & Cavane (2000) a presença de um tradutor
é uma vantagem visto que este é alguém conhecido na zona e evita a desconfiança por
parte dos respondentes.

Para complementar e cruzar os dados, fez-se a observação directa nas machambas dos
entrevistados.

Para determinar o número de agregados familiares a serem entrevistados usou-se uma


amostragem de modo que se obtivessem resultados estatísticamente representativos da
população do posto administrativo de Machipanda. Para a amostragem usou-se a
seguinte fórmula:

Z2 [p(1- p)] N

n
Z [p(1- p)] + (N - 1) C 2
2
 p
Onde:
n- Tamanho da amostra;
Zα – Nível de confiança escolhido com o nível de certeza de 95% (1,96)
p – Percentagem com qual o fenómeno se verifica (50%)
N – Numero total da população
Cρ – Margem de erro (5%)

Esta fórmula é usada para populações abaixo de 100.000 habitantes na qual são
consideradas populações finitas e pequenas (Rea e Parker, 1997).

Machipanda apresenta um número total de 44911 habitantes (INE, 1997) e com base na
formúla acima foram necessários 381 agregados familiares. Com base no número de
habitantes de cada aldeia estratificou-se a amostra para determinar-se o número de
agregados familiares a inquerir por aldeia. A estratificação seguiu as mesmas
porporções que existem no posto admnistrativo, isto é, a percentagem que o número de
habitantes da aldeia (2074) representa em relação ao número total de habitantes de todo
o posto e o número de agragados familiares inquerido foi de 38.

2.3 Análise de dados

Para o processamento de dados usou-se o pacote estatístico SPSS na qual criou-se uma
base de dados de modo que se gerassem frequências.

3.RESULTADOS E DISCUSSÃO

3.1 Características dos agregados familiares

A Tabela 1 mostra o número de indíviduos entrevistado na aldeia por género.


Tabela 1: Número de indivíduos entrevistados na aldeia de Chicueia por género.
Entrevistados Total
Aldeia Mulheres Homens
Número % Número % Número
Chicueia 8 21 30 79 38

No total foram entrevistadas 38 pessoas na aldeia de Chicueia. Dos 38 entrevistados,


79% são homens e 21% mulheres.

3.2 Práticas agroflorestais na aldeia de Chicueia

A Tabela 2 mostra a frequência das práticas agroflorestais de acordo com a natureza dos
seus componentes na aldeia de Chicueia.

Tabela 2: Frequência das práticas agroflorestais segundo a natureza dos componentes


em Chicueia - Posto administrativo de Machipanda.
Práticas Número Frequência (%)
Agrisilvicultural 25 66
Agrosilvipastoríl 11 29
Silvipastoríl 2 5
Total 38 100

Em chicueia 66% das práticas agroflorestais apresentam culturas agrícolas combinadas


com espécies arbóres/arbustivas (agrisilvicultural), 29% das práticas incluem para além
das culturas agrícolas e essências florestais espécies animais (agrosilvipastorícia),
constituídos por gado bovino, caprino e galináceo. As práticas silvipastorís, isto é, a
combinação de animais e espécies florestais ocorrem com baixa frequência, apenas 5%.
Essas práticas são constituídas por espécies do género Eucalyptus e Pinus, colmeias
para a produção de mel (foto 1) e cabritos do mato.
Foto 1: Colmeia para a produção de mel dentro dum “wood lot”

A Figura 1 mostra a frequência das culturas agrícolas encontradas nas práticas


agroflorestais em Chicueia.

Figura 1: Principais culturas agrícolas em Chicueia - Posto administrativo de


Machipanda.

Em Chicueia são cultivadas cerca de 16 espécies agrícolas sendo o feijão vulgar, o


milho, a couve, a cebola e o repolho as culturas mais cultivadas pelos agricultores,
representando 74%, 66%, 63%, 53%, 47% respectivamente.

Na opinião dos agricultores essas espécies são as mais preferidas pelos agricultores
devido ao elevado nível proteíco e pelo elevado uso ao nível da aldeia podendo sempre
haver troca de experiência entre eles para o combate de pragas e doenças assim como na
obtenção de sementes. Segundo MINAG (2006) o milho e o feijão são as culturas de
subsistência e mais culticvadas no País.
A Figura 2 mostra a frequência das fruteiras presentes nas práticas agroflorestais em
Chicueia.

Figura 2: Principais fruteiras em Chicueia - Posto administrativo de Machipanda.

A manga é a fruteira mais cultivada pelos agricultores na aldeia de Chicueia, cerca de


68% dos agricultores utilizam esta espécie nas suas machambas. Muitos dos
agricultores utilizam a mangueira não só para a alimentação mas também para a
vedação de suas machambas daí que explica-se o grande uso da mesma. Outras espécies
como a banana (58%), abacate (55%) e goiaba (50%), são amplamente usadas devido ao
seu uso múltiplo.
A Figura 4 mostra a frequência das espécies florestais encontradas nas práticas
agroflorestais em Chicueia.

Figura 3: Principais espécies florestais em Chicueia - Posto administrativo de


Machipanda.
Em Chicueia o Pericopsis angolensis e o Syzygium spp. representam as espécies
florestais mais usadas pelos agricultores em suas machambas (16%). Nota-se que estas
espécies florestais são muito pouco utilizadas pelos agricultores, havendo espécies
como a Azanza garckeana e Cocus nucifera que somente são utilizadas por 3% à 5%
dos agricultores.

A Tabela 3 apresenta as frequências dos principais usos da componente perene na aldeia


de Chicueia.

Tabela 3: Principais usos da componente perene na aldeia de Chicueia - Posto


administrativo de Machipanda.

Usos Número Frequência (%)


Alimentação 36 95
Forragem 5 13
Vedação 5 13
Medicamento 4 11
Fixação do solo 16 42
Melhorar a fertilidade do solo 0 0
Controle de Pragas 0 0
Madeira 2 5
Lenha 10 26
Sombra 1 3

Em relação aos usos, na aldeia de Chicueia a alimentação é o principal uso, sendo que
95% dos agricultores usam as espécies perenes para a alimentacão. Em Chicueia,
espécies como goiaba, manga, abacate, cana de açucar e banana representam a maioria
das espécies que as pessoas usam para a alimentação.

Na sua maioria os agricultores das aldeias de Chicueia pastam os seus animais em áreas
livres, o que ultimamente vem contríbuindo em grande parte para a degradação das
florestas, somente 13% dos agricultores na aldeia é que utilizam espécies cultivadas nas
suas áreas para a alimentação dos seus animais. Somente cabritos, galinha e peixes é
que benefeciam-se dos produtos da machamba, a papaia é a espécie mais utilizada para
a alimentação dos cabritos, a goiaba e o Syzygium spp. representam as espécies perenes
lenhosas mais usadas em Chicueia na alimentação dos peixes.
Espécies como a Lantana camara, banana, abacate, mangueiras, cana de açucar, são
usadas na aldeia de Chicueia como cercas vivas nas machambas (foto 2). Cerca de 13%
dos agricultores de Chicueia vedam as suas áreas com estas espécies e outros recorrem a
arames. Zanoli et al. (2009), defende que esta espécie apesar de ser muito usada em
zonas tropicais como cercas vivas, é muito perigosa a saúde do homem visto que as suas
bagas são tóxicas e em animais pode causar fotossensibilização secundária
(hepatógena). A espécie Lantana camara, que se usa para sebes ornamentais, pode
ainda tornar-se numa erva daninha nociva para as próprias culturas (Verheij, 2005).

Foto 2: Lantana camara servindo como vedação de uma machamba

Poucas espécies perenes presentes nas machambas são utilizadas para o tratamento de
doenças, somente 11% das famílias em Chicueia é que afirmam recorrer a certas
espécies como a abacateira, o eucalipto, a bananeira para o tratamento das doenças. A
abacateira e o eucalipto são usadas por muitos agricultores como medicamento para a
cura da tosse, dores de cabeça e constipação.

Muitos dos agricultores de Chicueia utilizam a bananeira para a fixacao do solo (foto 3)
principalmente junto aos cursos de água alegando que esta protege o solo contra erosão.
Poucos agricultores recorrem ao uso do Capim vetiver para o controlo da erosão mas
esta possui raízes profundas que podem ir até 6m de profundidade o que aumenta a sua
estabilidade e permite que ela resista ao arrancamento pela força das águas. Além disso
esta espécie possui um colmo denso que premite a redução do escoamento superficial e
aumenta deste modo a infiltração (Coelho, 2005).
Foto 3: Bananeiras plantadas ao longo do curso de água para evitar a erosão do do solo

Cerca de 26% dos entrevistados em Chicueia, utilizam os produtos da machamba como


conbustível lenhoso (Pericopsis angolensis), evitando desse modo recorrer as florestas
para a obtenção dos mesmos. Somente 3% das famílias entrevistadas é que usa as
arvores presentes nas machambas para a sombra.

As práticas agroflorestais mais comuns na aldeia de Chicueia são as hortas caseiras


(Homegardens), pequenas matas (woodlots), aquaflorestas, cultivo em faixas, árvores
em terraços irrigados, cercas vivas e árvores de uso múltiplo em áreas de cultura. De
seguida encontra-se uma breve descrição dessas práticas.

i. Hortas caseiras

Neste tipo de prática, os agricultores utilizam várias espécies, formando um sistema


multiestratificado. A maioria das espécies plantadas neste tipo de prática na aldeia de
Chicueia são fruteiras pois estas servem de alimentação para a família (foto 6). Fruteiras
como a Uapaca kirkiana, mangueira, goiabeira, litcheira, abacateira, papaeira, são
fortemente usadas nas hortas caseiras pelos agricultores devido a sua riqueza em
vitaminas e proteínas. Esta prática é usada por 29% dos agricultores. Nas hortas caseiras
a componente perene encontra-se distríibuida aleatoriamente ao longo da machamba daí
que o arranjo espacial é designado misto e o arranjo temporal é interpolado (a
componente arbórea está sempre presente e faz-se a rotação entre as culturas agrícolas e
por vezes estas encontram-se no campo ao mesmo tempo).
Em relação as culturas agrícolas, culturas como feijão, milho, couve, repolho, batatas e
outras são as preferidas pelos mesmos. A componente animal nas hortas caseiras é
constítuida por animais como boi, cabrito, porco e galinha. Os bois, cabritos e porcos
ficam em áreas vedadas e as galinhas ficam dispersas nas machambas. Os agricultores
afirmam que as galinhas ajudam no controlo das ervas daninhas.

No primeiro estracto encontram-se espécies como a Uapaca kirkiana, Annona


senegalensis, Brachystegia Spp. e Combretum molle na qual servem para a producão de
lenha e frutos. No Segundo estracto encontram-se as fruteiras na qual servem para a
produção de frutos para a família e no último estracto da machamba encontram-se as
culturas agrícolas sendo algumas tolerantes a sombra (Inhame) e outras não tolerantes.

ii. Pequenas matas (woodlots)

Espécies como o Eucalyptus spp. e Pinus spp. são usadas nessas pequenas matas (foto7)
para a produção de estacas, longarinas, lenha, madeira e medicamentos. As espécies de
eucaliptos são plantadas com o espaçamento de 1,5 x 1,5 m, para a produção de
longarinas e lenha e para a produção de madeira é usado um espaçamento de 2,5 x 2,5
m. Dentro das pequenas matas existem colmeias destinadas à produção de mel e ao
redor das pequenas matas espécies como a Callistemon viminalis são plantadas para a
atracção de abelhas (foto 8).

Foto 7: Pequena mata de Eucalipto Foto 8: Abelha extraindo néctar na flor de Callistemon viminalis

Estes produtos são destinados a venda nos mercados locais e parte servem para o uso
familiar. As folhas de Eucalyptus spp. são usadas para fins medicinais para a cura de
constipação. As pequenas matas de pinheiro servem para a produção de estacas e são
plantadas duma forma organizada (arranjo zonal) seguindo um espaçamento de 2,5 x 2,5
m. As folhas do pinheiro quando secas são utilizadas para a produção de uma fumança
na época de colecta do mel pois estas têm a capacidade de deixar as abelhas “fracas”.
Apenas 5% dos agricultores entrevistados é que possuem este tipo de prática e utilizam
essas áreas para a criação de cabritos do mato e para a produção de mel. Nas pequenas
matas o arranjo temporal é intermitente (a componente arbórea está sempre presente e a
agrícola vai chegando ao final do seu ciclo e cultivadas de novo, podendo ser a mesma
cultura ou uma outra.).

iii. Aquaflorestas (Aquicultura com árvores)

Esta prática consite em criar peixes em tanques e ao redor dos tanques plantar árvores
na qual as suas folhas e frutos vão caíndo dentro do tanque de modo que os peixes
possam alimentar-se. Na aldeia de Chicueia somente 3% dos agricultores é que possuem
tanques para a criação de peixes. Ao redor do tanque são plantadas espécies como a
goiaba, Syzygium spp, Ficus capensis e Lantana camara na qual os seus frutos caíem
dentro do tanque e os peixes alimentam-se (foto 9).

Foto 9: Tanque para a criação de peixes

Nota-se na foto 9 que as taludes dos tanques estam errodidas, isso por falta de vegetação
protectora ao longo dos tanques. O agricultor afirma que no momento em que ele faz a
colecta dos peixes tem que sempre retirar a areia de dentro do tanque.

A colecta é feita atráves da remoção de toda a água que encontra-se dentro do tanque,
abri-se um lado do tanque com enxadas e a água saí, após a retirada da água, colecta-se
o peixe num curto espaço de tempo visto que estes dependem da água para a sua
respiração e após ter-se retirado os peixes, fecha-se o curso de saída de água e abri-se o
curso de entrada da água que encontra-se oposto ao curso de saída e ao lado tem um
caminho de água na qual o agriultor desvia do rio que serve como fonte de alimentaçã
de água para o tanque. Somente um entrevistado é que possui tanque para a criação de
peixes. Neste tipo de prática o arranjo espacial é misto e o temporal e intermitente.

iv. Cultivo em faixas

Os agricultores usam a laranjeira e a bananeira nas fileiras e entre estas plantam as


culturas agrícolas. Entre as fileiras de laranja são plantadas culturas como cebola,
tomate, couve e feijão e entre as fileiras de banana plantam a batata reno e a couve (foto
10). Os agricultores de Chicueia usam o cultivo em faixa como uma prática e não como
tecnologia. O espaçamento dentro das fileiras de laranja é de 8m e entre das filas é de
5,5m, no plantio da bananeira, o espacamento dentro das linhas é de 0,5m e entre as
filas é de 7m.

Foto 10: Cultivo em Faixas, Banana(fileiras) e Batata Reno e Repolho (entre as filas)

Os cultivos em faixas constituem práticas muito potenciais para todas as regiões


tropicais, especialmente em áreas com problemas de fertilidade ou com terrenos
declivosos. As fileiras únicas ou multiestratificadas de árvores são interplantadas entre
faixas largas (6-8 m) onde são cultivados o milho, o feijão, a mandioca, a soja, entre
outras culturas anuais. Geralmente são utilizadas árvores leguminosas fixadoras de
nitrogênio e associadas a bactérias do gênero micorrizas, como as espécies do gênero
Acacia, Sesbania, Leucaena, Gliricidia, Calliandra, Prosopis. As árvores são plantadas
primeiro, em fileiras únicas ou duplas com espaçamentos de cerca de 0,5 m à 1 m dentro
das linhas (Engel, 1999).

A sombra produzida pela copa densa das árvores elimina rapidamente as ervas daninhas
e diminui o custo de manutenção. As árvores protegem o solo e a cultura na estação
seca e são podadas anualmente após a colheita agrícola, com o aproveitamento de lenha
e incorporação do material da copa no solo e/ou aproveitamento como forragem
(OTS/CATIE, 1986).

A poda das árvores é um dos aspectos mais importantes do maneio dessa tecnologia.
Dependendo da altura da cultura agrícola e do aproveitamento que se quer dar para o
produto florestal, as árvores são submetidas ao corte raso à 10-15 cm do solo, ou de 0,5
m a 1 m de altura do solo. Cortes a alturas superiores aumentam a capacidade de
brotação e de produção de biomassa futura, porem diminuem as possibilidades de
aproveitamento para lenha (Engel, 1999).

v. Árvores em terracos irrigados

Cerca de 24% dos agricultores em Chicueia praticam agricultura em encostas daí que
recorrem a terraços de modo a reduzir o escoamento superficial e fazer melhor
aproveitamento da água (foto 11). A largura dos terraços vária de 0,5 m à 3m e o
comprimento vária de 35m à 70m.

Os agricultores utilizam pedras para a estabilização dos terraços e muitas das vezes
também recorrem a certas gramíneas mas estas últimas representam uma ameaça para a
produção agrícola visto que são infestantes. A rega nos terraços é feita por gravidade.

A Uapaca kirkiana, Azanza garckeana, Cajanus cajan, Leucaena leucocephala,


Annona senegalensis, Ficus capensis são algumas das espécies usadas neste tipo de
prática. Estas árvores encontram-se distríbuidas aleatoriamente ao longo das áreas e são
usadas para a produção de frutos, lenha, etc. Neste tipo de prática o arranjo espacial é
misto e o temporal é intermitente.
vi. Cercas vivas e quebra ventos

A vedação das machambas é feita usando espécies como a Lantana camara, a banana e
a manga. Nas cercas vivas usam a Lantana camara e a bananeira serve de protecção do
solo contra a erosão, a mangueira protege as culturas agrícolas contra o vento. Estas
culturas para além da função protectora têm outras funções como a produção de frutos,
produção de lenha para a queima de tijolos (foto 2).

No maneio de cercas vivas, a escolha de espécies é um ponto fundamental. Podendo ser


usadas espécies lenhosas, cactáceas, bromeliáceas, ou qualquer espécie que se adapte ao
local. Deve dar-se preferência a espécies de crescimento rápido e com boa capacidade
de rebrotação, com múltiplos usos e das quais se tenha um bom conhecimento
silvicultural para que seja possível a elaboração de um plano de maneio pelo produtor
em função de seus objetivos (Jolin & Torquebiau, 1992).

Na Costa Rica é muito comum o uso de cercas vivas que são aproveitadas para
forragem, como Erythina e Gliricidia sepium, que apresentam vantagens por serem
espécies de múltiplo uso. O sistema utilizado requer poucos insumos e usa apenas a
mão-de-obra familiar (Otárola, 1995).

Nas cercas vivas o arranjo espacial é zonal visto que a componente encontra-se
arranjada geometricamente ao redor da machamba e o arranjo temporal e intermitente.

vii. Árvores de uso múltiplo em áreas de cultura

As culturas arbóreas usadas pelos agricultores nesta prática são o limoeiro, a abacate, a
goiabeira, etc. Estas encontram-se dispersas na área formando um sistema
multiestratificado. Estas estão viradas para a produção de alimentos para a família e por
vezes parte dos frutos são vendidos quando a produção é boa. Esta prática é usada por
21% dos agricultores entrevistados. Dentro das áreas são abertos sulcos para a
circulação de água na qual regam as culturas agrícolas como o feijão, o milho, a couve,
etc. (foto 12). Nesta prática o arranjo espacial e misto e o temporal é intermitente.
4. CONCLUSÃO
Na área em estudo foram identificados os três tipos de práticas, agrisilvicultural,
agrosilvipastoríl e silvipastoríl sendo que representavam 66%, 29% e 5%
respectivamente.

As principais espécies agrícolas cultivadas pelos agricultores naaldeia de Chicueia são,


o feijão vulgar, o milho, a couve, a cebola e o repolho. As principais espécies fruteiras
cultivadas são, a manga, a banana, o abacate e a goiaba. As principais espécies florestais
utilizadas em Chicueia são Syzygium spp. e Pericopsis angolensis.

Os animais identificados em Chicueia são: o boi, o cabrito, o cabrito do mato, a galinha


e peixe. Em Mugiriundo os animais identificados são: boi, porco, cabrito, e Galinha.

Os principais usos da componente perene identificados na área são: alimentação,


forragem, vedação, medicamento, fixação do solo, madeira, lenha e sombra sendo que a
alimentação é o principal uso.

Em todas as aldeias as práticas agroflorestais são de subsistência havendo alguns casos


em que estes vendem mas não podendo se considerar comercial devido ao volume
comercializado.

Em Chicueia onde foram encontradas sete práticas diferentes o arranjo espacial assim
como o temporal variaram. Nas hortas caseiras o arranjo é misto e interpolado, nas
pequenas matas é zonal e intermitente, no cultivo em faixas é zonal e intermitente, na
aquafloresta é misto e intermitente, nas árvores em terraços irrigados é misto e
intermitente, nas cercas vivas é zonal e intermitente e nas árvores de uso múltiplo com
culturas agrícolas é misto e intermitente.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Zanoli, J. C. C.; Garcia, A. F.; Mingatto F. E. 2009. Lantadeno A e o efeito


hepatotoxicos da planta Lantana câmara em animais. VI encontro de zootecnia.
6. Anexo
Anexo 1: Lista dos nomes cientificos e famílias das espécies agrícolas e fruteiras
Nome comum Nome cientifico Familia
Abacate Persea americana Laureaceas
Abóbora Cucurbita pepo Cucurbitaceae
Alface Lactuca sativa L. Asteraceae
Alho Allium sativum Alliaceae
Amora Morus sp. Moraceae
Ananas Ananas comosus Bromelioideae
Banana Musa sp. Musaceae
Batata doce Ipomoea batatas Convolvulaceae
Batata reno Solanum tuberosum L. Solanaceae
Cana de açucar Saccharum spp. Poaceae
Cebola Allium cepa Alliaceae
Couve Brassica Oleracea Brassicaceae
Ervilha Pisum sativum L. Fabaceae
Feijão vulgar Phaseolus vulgaris L. Fabaceae
Feijão boer Cajanus cajan Fabaceae
Girassol Helianthus annuus Asteraceae
Goiaba Psidium guajava Myrtaceae
Inhame Dioscorea spp. Dioscoreaceae
Laranja Citrus sinensis Macfad Rutaceae
Limão Citrus limon Rutaceae
Litch Litchi chinensis Sapindaceae
Mandioca Manihot esculenta Crantz Euphorbiaceae
Manga Mangifera indica L. Anacardiaceae
Milho Zea mays L. Poaceae
Papaia Carica papaya L. Caricaceae
Pepino Cucumis sativus Cucurbitaceae
Pessêgo Prunus persica Rosaceae
Repolho Brassica Oleracea Brassicaceae
Tangerina Citrus reticulata Blanco Rutaceae
Tomate Lycopersicon esculentum Solanaceas
Trigo Triticum aestivum Poaceae