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A Exponencial Formal

Resumo

Estas notas têm o objetivo de definir formalmente a exponenciação com


base sendo um número real positivo e a expoente sendo um número real
qualquer. Aqui apenas compilamos de maneira (supostamente) organizada
escritas das referências [1] e [3] , disto isto segue que não há a pretensão de
ser original por aqui.
A fim de chegarmos a todas as conclusões desejadas necessitamos de
conhecimentos em sequências, integrais, séries numéricas e de potências;
mais geralmente, um primeiro curso de Análise Real cobre esses e outros
tópicos.

1 Definição pela Série


n
xk x n
X  
Vamos fixar x ∈ R e definir as sequências an = e bn = 1 + . Analisaremos
k! n
k=0
primeiro a sequência (an ). Pelo teste da razão podemos facilmente ver que lim an sempre
n→∞
existe:
|x|n+1 n! 1
lim · n = |x| · lim = 0 < 1 , ∀x ∈ R.
n→∞ (n + 1)! |x| n→∞ n + 1

X xk
Podemos então definir uma função E : R → R como E(x) = . E como tal série de
k!
k≥0
potências converge em toda reta, sabemos dos resultados de Análise Real que a função E
será analı́tica em R. Com isso, para obtermos a derivada de tal função a derivação termo
a termo é válida e iremos utilizá-la:
∞ ∞ ∞
X k · xk−1 X xk−1 X xk
E0 (x) = = = = E(x)
k! (k − 1)! k!
k=1 k=1 k=0

Ora, esta é uma propriedade bastante interessante! Vamos usá-la novamente em um


momento posterior. Vejamos outra propriedade de E e um resultado que será útil adiante.

1
Propriedade Fundamental de E. Para x, y ∈ R quaisquer, vale E(x) · E(y) = E(x + y).

Prova: Como a função E é dada por uma série que converge em toda a reta podemos usar
o produto de Cauchy de séries de potências. Assim,
∞  ∞  ∞
X xk  X yk  X
E(x) · E(y) =   
   = ck
k!   k! 
k=0 k=0 k=0

k k
xj yk−j
!
X 1 X k k n−j
onde, ck = · = x y
j! (k − j)! k! j
j=0 j=0

Por outro lado, usando o teorema binomial, obtemos:


 
∞ ∞ k
(x + y)k X  1 X k k k−j 
X !
E(x + y) = =  x y  .
k!  k! j 
k=0 k=0 j=0

Comparando ambas as expressões vemos que E(x) · E(y) = E(x + y). 

Desigualdade de Bernoulli. Seja x ≥ −1 em R. Então vale (1 + x)n ≥ 1 + nx , ∀n ∈ N.

Prova: Será feita por indução. O caso n = 1 é óbvio.


Agora assumindo o resultado válido para n = k vamos prová-lo para k + 1.

(1 + x)k+1 = (1 + x)k (1 + x) ≥ (1 + kx)(1 + x) = 1 + kx + x + kx2 = 1 + (k + 1)x + kx2 ≥ 1 + (k + 1)x.

Note que precisamos supor x ≥ −1 para garantir que 1 + x ≥ 0. 

Primeiro analisemos (bn ) com x ≥ 0. Pelo teorema binomial temos


n n
n xk X xk n(n − 1)(n − 2) . . . (n − k + 1)
n !
x
 X
bn = 1 + = = ·
n k nk k! nk
k=0 k=0

Como x > 0, (bn ) é crescente e note também que se 1 ≤ k ≤ n temos

xk n(n − 1)(n − 2) . . . (n − k + 1) xk
· ≤ .
k! nk k!
Mostramos assim que bn ≤ an , ∀x ∈ R e ∀n ∈ N. Portanto (bn ) é crescente e limitada
superiormente por E(x). Logo existe L = lim bn .
n→∞

Por outro lado, para cada m ≤ n temos


m
xk n(n − 1)(n − 2) . . . (n − k + 1)
n
x
 X
1+ ≥ ·
n k!
k=0
nk

2
m
X xk
Fazendo n → ∞ e mantendo m fixo obtemos L ≥ ·. Fazendo agora m → ∞ temos
k!
k=0
que L ≥ E(x). Ora, já tı́nhamos concluı́do acima que L ≤ E(x). Portanto,

xk
n
x
 X
lim 1 + = = E(x) , ∀x ≥ 0.
n→∞ n k!
k=0

Considere agora x < 0. Para tal x fixado vamos trabalhar apenas com naturais tais que
−x2
n > −x. Desse modo n2 > x2 =⇒ > −1. Logo, pela Desigualdade de Bernoulli
n2
obtemos !n
−x2 (−x2 ) x2
1+ 2 ≥ 1 + n 2 = 1 − , ∀n > −x.
n n n
Disso segue então que:
!n !n
x2 x2 x2
1≥ 1− 2 ≥1− =⇒ lim 1 − 2 = 1.
n n n→∞ n

Finalmente, podemos fazer a seguinte conta:


!n

x n
 
x n
 x2
1+ 1− 1− 2
x n n x n 1
   
n n
1+ = n =  n =⇒ lim 1 + = = (E(−x))−1 .
n x x n E(−x)

n→∞
1− 1−
n n

Por outro lado, usando a propriedade fundamental de E temos que

1 = E(0) = E(x)E(−x) =⇒ E(x) = (E(−x))−1 , ∀x ∈ R.


Agora podemos finalmente concluir que

x n X xk
 
lim 1 + = = E(x) , ∀x ∈ R.
n→∞ n k!
k=0

2 Definição pelo Logaritmo


2.1 Introdução
Aqui apenas lembraremos como é a definição usual de elevar um número real positivo a
um expoente racional.
Definição 2.1.1. Seja x ∈ R e k ∈ Z. Definimos

xk := x · x · ... · x (k vezes).

Se x > 0 pode ser provado que para cada n ∈ N existe um único q > 0 de modo que qn = x.
Denotaremos tal número q por x1/n . A partir disso tem sentido a expressão xr com r ∈ Q.

3
2.2 O Logaritmo
Definição 2.2.1. Seja R+ = (0, ∞). Definiremos a função real log : R+ → R pondo
Z x
1
log x := dt
1 t
O número log x será chamado de logaritmo natural de x, ou apenas, logaritmo de x.
De imediato, por propriedades da integral definida, temos as seguintes conclusões:

• log 1 = 0 ;
• log x < 0 , se 0 < x < 1 ;
• log x > 0 , se x > 1.

Agora derivando a função log obtemos também o seguinte:

1
• log 0 (x) = > 0 , ∀x ∈ R+ ;

x
−1
• log 00 (x) = 2 < 0 , ∀x ∈ R+ .

x
Com isso vemos que log é estritamente crescente, seu gráfico tem concavidade sempre
para baixo e é de classe C∞ .

Propriedade Fundamental do Logaritmo. Sejam x, y ∈ R+ . Então vale


log(xy) = log(x) + log(y) .

Prova: Temos
Z xy Z x Z xy Z xy
1 1 1 1
log(xy) = dt = dt + dt = log(x) + dt
1 t 1 t x t x t
t
Agora fazemos a mudança de variáveis s = e com isso obtemos
x
Z xy Z y Z y
1 x 1
dt = ds = ds = log(y)
x t 1 sx 1 s
E assim mostramos o resultado. 

Corolário 1. Seja x > 0. Para todo r ∈ Q temos log(xr ) = r log(x).

Prova: Seja n ∈ N. Diretamente da propriedade fundamental do logaritmo temos que


log(xn ) = n log(x). Agora como 1 = xn x−n temos
0 = log 1 = log(xn ) + log(x−n ) =⇒ log(x−n ) = −n log(x) .
p  p q
Tome agora r = com p e q inteiros. Por definição, temos que x q = xp . Portanto
q
 p
p log(x) = q log x q =⇒ r log(x) = log(xr ) .


4
Corolário 2. A função log é um homeomorfismo de R+ em R.

Prova. A função log é contı́nua e estritamente crescente, logo é injetiva e, portanto, bijeção
sobre sua imagem. Além disso, por um resultado de funções contı́nuas monótonas, a
inversa de log será contı́nua e também crescente.
Ora, o domı́nio de log é (0, ∞) e como funções contı́nuas preservam conjuntos conexos
podemos afirmar que a imagem de log é também um intervalo. Sabemos que log(2n ) =
n log(2), logo lim log(2n ) = ∞. Como tal função é crescente concluı́mos que lim log(x) =
n→∞ x→∞
∞. Analisando log(2−n ) de maneira similar conclui-se que lim+ log(x) = −∞. Isso mostra
x→0
que a imagem de log é R, como querı́amos. 

O corolário 2 diz que todo número real y é logaritmo de um único número real positivo x
e que a correspondência y 7→ x é contı́nua.
Junto com a propriedade fundamental, isto significa que log é um isomorfismo contı́nuo
do grupo multiplicativo R+ sobre o grupo aditivo R e seu isomorfismo inverso é também
contı́nuo.
A bijetividade de log implica, em particular, que existe um número real positivo cujo
logaritmo é 1. Tal número será definido como ”e”e o chamaremos de ”base”do logaritmo
natural
log e := 1

2.3 A Exponencial
Definição 2.3.1. Definiremos a função exponencial exp : R → R+ como sendo a inversa da
função logaritmo. Assim, por definição

exp(x) := y ⇐⇒ log(y) = x

Propriedades da Exponencial.

(1) A função exponencial é uma bijeção crescente de R em R+ .

(2) exp ∈ C∞ e (exp)0 (x) = exp(x) , ∀x ∈ R.

(3) Para todos x, y ∈ R vale exp(x) exp(y) = exp(x + y).

(4) Para todo r ∈ Q vale er = exp(r).

(5) Temos que lim exp(x) = ∞ e lim exp(x) = 0+ .


x→∞ x→−∞

5
Prova:

(1) Segue diretamente do que já foi explicado.

(2) Temos exp(log y) = y para todo y > 0. Segue pela regra da cadeia que (exp)0 (log y) ·
1
= 1. Se tivermos log y = x temos que
y

(exp)0 (x) = y = exp(x)

Isso mostra também que exp ∈ C∞ .

(3) Dados x, y ∈ R , ∃!a, b ∈ R+ tais que log a = x e log b = y , ou seja, exp(x) = a e


exp(y) = b. Pela propriedade fundamental do logaritmo temos log(ab) = log(a) +
log(b), com isso

ab = exp log(a) + log(b) =⇒ exp(x) exp(y) = exp(x + y) .




(4) Para todo r ∈ Q vale log(xr ) = r log(x). Em particular,

log(er ) = r log(e) = r =⇒ er = exp(r) .

(5) Segue imediatamente do fato que exp é inversa de log e dos limites já conhecidos:

lim log(x) = ∞ e lim+ log(x) = −∞ .


x→∞ x→0

A igualdade exp(r) = er quando r é racional, juntamente com a propriedade (3) acima,


nos indicam que exp(x) se comporta como potência de base e e expoente x. Sendo assim:
Definição 2.3.2. Para cada x ∈ R definimos ’e’ elevado a x como sendo

ex := exp(x)

Com isso, demos significado a uma potência de ’e’ com expoente real qualquer. Nessa
1
nova notação temos: ex+y = ex e y ; e0 = 1 ; e−x = x ; x < y ⇐⇒ ex < e y ; log(ex ) = x ;
e
elog(x) = x.

6
Mostraremos agora que mesmo com lim ex = lim log(x) = ∞ , a função exponencial
x→∞ x→∞
cresce ”rapidamente”enquano que a função logaritmo cresce ”lentamente”.

• Dado x > 0 o Teorema do Valor Médio aplicado ao intervalo [0, x] nos dá um
k ∈ (0, x) de modo que ex − e0 = ek (x − 0), ou seja, ex = 1 + ek x. Como k > 0 temos que
ek > 1 = e0 . Logo, podemos escrever que ex > 1 + x , ∀x > 0.
A partir disso, temos:
x x x
e n+1 > 1 + > ,n∈N
n+1 n+1
Escrevendo A = (n + 1)n+1 e elevando a expressão acima à (n + 1)-ésima potência,
obtemos:
xn+1 ex x xn A
ex > =⇒ n > =⇒ x <
A x A e x
x n
Logo, lim x = 0 , ∀n ∈ N. Portanto, para todo polinômio p(x) temos que
x→∞ e
p(x)
lim = 0. Ou seja, assintoticamente, a função exponencial é muito maior
x→∞ ex
que qualquer polinômio dado.

• Tomemos aqui x > 1. Novamente pelo Teorema do Valor Médio existe k ∈ (1, x) de
1 1 1
modo que log(x) = (x − 1) < (x − 1) < x. Em particular teremos 0 < log(x) < x 2 .
k 2
Assim,

(log(x))2 log(x) 4 log(x)


0< < x =⇒ 0 < < =⇒ lim =0
4 x log(x) x→∞ x

Isso mostra que a função logaritmo é, assintoticamente, muito menor do que qual-
quer polinômio dado.

Observe que se c e k são constantes reais, a função f (x) = cekx tem como derivada:

f 0 (x) = ckekx = k f (x)

Esta propriedade de possuir uma derivada proporcional a si própria é responsável pelo


interesse da função exponencial em diversas aplicações. Mostraremos que tal propriedade
é exclusiva das funções do tipo acima.
Teorema. Seja f : R → R uma função derivável tal que f 0 (x) = k f (x) para alguma constante
real k. Se para um certo x0 real tivermos f (x0 ) = c então f (x) = cek(x−x0 ) .

Prova: Defina ϕ : R → R como ϕ(x) = f (x)e−k(x−x0 ) . Temos então

ϕ0 (x) = f 0 (x)e−k(x−x0 ) − k f (x)e−k(x−x0 ) = k f (x)e−k(x−x0 ) − k f (x)e−k(x−x0 ) = 0

Portanto, ϕ será função constante. Veja que ϕ(x0 ) = f (x0 ) = c, logo f (x) = cek(x−x0 ) . 

7
O teorema acima é o que conecta nossas duas definições. Lembre que a função E , definida
na seção 1 , tinha a propriedade de que E0 (x) = E(x) e também E(0) = 1, logo pelo teorema
podemos concluir que E(x) = ex .
Podemos finalmente escrever então a exponencial das formas abaixo, além de termos
mostrado todas as propriedades com as quais já estávamos acostumados.

xn x n
X  
ex = = lim 1 + , ∀x ∈ R .
n! n→∞ n
n=0

3 Outras Bases
3.1 Exponencial em outras Bases
Definiremos agora a potência ax onde a > 0 e x ∈ R.
Definição 3.1.1. Para cada a > 0 e cada x ∈ R definiremos

ax := ex log(a)

Imediatamente da definição segue que log(ax ) = x log(a).


Seja f (x) = ax . Veja que f = g ◦ h onde h(x) = x log(a) e g(x) = ex . Além disso, h é bijeção
C∞ de R em R e g é bijeção C∞ de R em R+ , logo f é bijeção C∞ de R em R+ .
Vejamos agora que nosse definição de exponenciação com base positiva qualquer coincide
com a exponenciação já definida (e conhecida anteriormente) na seção 2.1:
p
p p
log(a) log(a q )
p
x = ∈ Q =⇒ a = e
x q =e = aq
q

Agora vamos ver algumas propriedades (já esperadas) da exponencial na base a > 0:

• f 0 (x) = g0 (h(x))h0 (x) = log(a)ex log(a) = ax log(a) ;

• ax+y = e(x+y) log(a) = ex log(a) e y log(a) = ax a y ;

• a0 = e0 = 1
1
• a−x =
ax
x
• (ax ) y = e y log(a ) = exy log(a) = axy

3.2 Logaritmo em outras Bases


Definição 3.2.1. A função inversa de ax será indicada como loga : R+ → R e será chamada de
logaritmo na base ’a’. Ou seja:

loga (x) := y ⇐⇒ a y = x

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Seja x > 0. Assim
elog(x) = x = aloga (x) = eloga (x)·log(a)
Como a função exponencial é bijeção concluı́mos que log(x) = log(a) loga (x). E esta é a
relação que conecta o logaritmo natural com o logaritmo em outras bases:

log(x)
loga (x) =
log(a)

Terminamos nosso trabalho mostrando algumas propriedades do logaritmo na base ’a’


que são imediatas da relação acima:

 0 1
• loga (x) =
x log(a)
log(xy) log(x) log(y)
• loga (xy) = = + = loga (x) + loga (y)
log(a) log(a) log(a)
log(1)
• loga (1) = =0
log(a)
log(xr ) log(x)
• loga (xr ) = =r· = r · loga (x)
log(a) log(a)

Referências
[1] D. Alexander Brannan. A First Course in Mathematical Analysis. Cambridge University
Press, 2006.

[2] C. C. Pugh. Real Mathematical Analysis. Springer, 2 edition, Mar. 2002.

[3] E. Lages Lima. Curso de Análise, volume 1. IMPA, Rio de Janeiro, RJ, 14 edition, 2017.

[4] T. Tao. Analysis I. Hindustan Book Agency, 3 edition, 2016.

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