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Revista da

ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA ISSN 0102-1788

48
VOL 23
Jul / Dez 2007

NESTA CASA ESTUDA-SE O DESTINO DO BRASIL


REVISTA
DA
ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA

VOL 23
2º Semestre 2007

EdESG

ISSN 0102-1788

Rio de Janeiro 2007


Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p. 21 -39, ago/dez. 2007 1
Revista da Escola Superior de Guerra / v.23, n. 48 (jul/dez. 2007) – Revista da Escola
Rio de Janeiro : ESG, 2007. Superior de Guerra

Semestral
A Revista é uma publicação se-
ISSN 0102-1788
mestral da ESCOLA SUPERIOR
1. Ciência Militar - Periódicos. 2. Política - Periódicos. I. Escola DE GUERRA, do Rio de Janeiro.
Superior de Guerra (Brasil). II. Título. Com tiragem de 1.000 exemplares,
circula em âmbito nacional e
CDD 320.981 internacional.

Comandante e Diretor de Estudos


Almirante-de-Esquadra
Luiz Umberto de Mendonça

Subcomandante e Subdiretor de Estudos


Major-Brigadeiro-do-Ar
Nilson Prado Godoy

Chefe do Departamento de Estudos


General-de-Brigada
José Luís Gonçalves Menin

Padronização Bibliográfica
Cleide Santos Souza
(CRB-7/3381)

Projeto, Produção Gráfica e Impressão


Gráfica da Escola Superior de Guerra

Diagramação e Arte Final


Anério Ferreira Matos

2 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p. 21 -39, ago/dez. 2007


SUMÁRIO

Apresentação 5


A nova geopolítica mundial e seus reflexos para o brasil 7
José Benedito de Barros Moreira

Análise da Política de Segurança e a Política de Defesa da República


Federal da Alemanha. Sugestões para o Brasil 23
Alberto Hallwass

A importância do Atlântico Sul para a segurança nacional e integração


Regional 43
Ilques Barbosa Júnior

Geopolítica e pós-modernidade 95
Guilherme Sandoval Góes

A viabilização de investimentos para a defesa e a modernização da


indústria nacional 127
GT Juventude – CGERD/SP

Política educacional e a universidade pública brasileira 149


Adelio de Souza Monteiro

Mercosul e o futuro do bloco econômico 169


Paulo Ribeiro Branco Junior

Tempos depois, uma nova guerra fria 189


José Amaral Argolo

Revista da Escola Superior de Guerra Rio de Janeiro V. 23 n. 48 p. 1-202 jul/dez. 007

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p. 21 -39, ago/dez. 2007 3


4 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p. 21 -39, ago/dez. 2007
Apresentação
Almirante-de-Esquadra Luiz Umberto de Mendonça
Comandante e Diretor de Estudos da Escola Superior de Guerra

A Revista da ESG, nesta edição, se apresenta com nova feição gráfica,


resultante de modernização realizada sob a égide dos princípios que guiam o
processo de evolução da Escola Superior de Guerra. O seu conteúdo, porém,
mantém o que de melhor a tradição da instituição revelou em mais de meio
século de existência: o permanente estudo da projeção do Brasil no contexto
internacional, baseado no conhecimento da realidade do País e na plena
compreensão do panorama geoestratégico mundial.
Neste sentido, esta nova edição da Revista da ESG traz no seu âmago
temas relevantes desenvolvidos a partir de discussão acadêmica crítica e
realista, fruto de estudos empreendidos por parte de estagiários, aí incluídos os
do CGERD, e membros do corpo permanente. Com o objetivo de proporcionar
ao leitor uma visão aprofundada sobre os principais aspectos geopolíticos
e geoestratégicos do mundo contemporâneo, a Revista da ESG segue seu
perfil pioneiro de apresentar trabalhos acadêmicos que condicionam o futuro
do desenvolvimento brasileiro. Com efeito, na era da globalização em que
vivemos, a inserção internacional de um país de dimensões continentais,
como o Brasil, enfrenta necessariamente desafios e obstáculos que deverão
ser antecipados, de modo que, no seu devido tempo, sejam superados e
ultrapassados.
Que seja esta uma edição seminal a produzir nova e importante
contribuição para a criação de um corpo de conhecimento positivo sobre a
realidade do País e suas perspectivas de projeção internacional. Construir
sólido fundamento de um saber teórico assegurador da grandeza geopolítica
do Brasil é o eixo do pensamento acadêmico desta Escola. Nosso lema “Nesta
Casa estuda-se o destino do Brasil” reflete e sintetiza a essência científico-
filosófica que norteia todos os segmentos da sociedade que aqui se congregam
e se irmanam na construção de um Brasil soberano e justo.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.


p. 521- -39,
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6 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p. 521- 6,
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A nova geopolítica mundial e seus reflexos
para o Brasil

José Benedito de Barros Moreira


General-de-Exército, Secretário de Política, Estratégia e Assuntos Internacionais / Ministério
da Defesa.
(Palestra proferida no Centro Brasileiro de Relações Internacionais em dezembro de 2007).

I – INTRODUÇÃO

O Brasil é fruto do gênio português. Do descobrimento à Independência


a visão estratégica dos dirigentes lusitanos propiciaram a criação, expansão e
consolidação de um dos maiores países do mundo, em território e população.
Dos portugueses, os brasileiros herdamos características culturais
peculiares, com miscigenação de raças e costumes, que levaram o antropólogo
brasileiro DARCI RIBEIRO a vislumbrar a gênese, ainda em formação, de um
povo único, o povo brasileiro, produto final de processo histórico de fusão de
europeus, africanos e indígenas.
Considerando que este estudo tem por pano de fundo a concepção
geopolítica surgida no Sec XIX com FRIEDRICH RATZEL e RUDOLF KJËLLEN,
é um agradável passeio retornar no tempo, ao Sec XV, e esboçar uma breve
avaliação dos fenômenos geopolíticos que possibilitaram a formação do Brasil.
Não, necessariamente, na visão do fatalismo geográfico, também utilizado pelos
nazistas para a expansão do REICH, - o LEBENSRAUM – sob as bênçãos
teóricas do Gen KARL HAUSHOFER. Sim, na acepção de La Blache e seus
seguidores, que no compromisso da Geografia enxergaram uma possibilidade
a ser inteligentemente manipulada pelo livre arbítrio do homem.
O primeiro fenômeno geopolítico que em relação ao tema nos interessa
explorar é o papel pioneiro e revolucionário de Portugal, ao dar início às grandes
navegações. Antes um país periférico em relação ao grande fluxo de comércio
que tinha no Mediterrâneo seu centro de gravidade, Portugal, seguido de
Espanha e, mais tarde, dos Países Baixos, França e Inglaterra, assumiram a
vanguarda do desenvolvimento e colocou o Atlântico como centro do intrincado
jogo de xadrez político que passou a viger. Simultaneamente, progressiva
decadência abateu-se sobre as grandes cidades-estado italianas que, então,
tornaram-se periféricas.
A pujança portuguesa nos mares, no início apenas rivalizada por
Espanha, deu origem ao conceito geopolítico mais inesperado – O TRATADO
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DE TORDESILHAS -, possivelmente igualado no Sec XX pela Cortina de
Ferro que tacitamente dividiu o mundo entre americanos e soviéticos. Assim,
o futuro ecúmeno brasileiro, antes mesmo de descoberto, já estava atrelado
ao Império Português.
Mais adiante, um evento histórico de suma importância, a unificação das
coroas portuguesa e espanhola com Felipe II, em 1580, com repercussões
geopolíticas de vulto, anulou as fronteiras das colônias e propiciou a expansão
geográfica do Brasil para oeste, sobre a calha do Amazonas, do Paraná e do
Paraguai.
Para concluir esse curto passeio histórico, com viés geopolítico, cabe
ressaltar a importância da presença da família real portuguesa no Brasil, alçado
a sede do Império em decorrência da invasão de Portugal, em 1808, pelas
tropas napoleônicas. Esse fato, associado à continuidade política decorrente
da Independência brasileira ter sido encabeçada por um membro da Casa dos
Bragança, aquele que seria imortalizado no Brasil como D. Pedro I e em Portugal
D. Pedro IV, propiciou o necessário ponto de referência que, contrariando a
lógica da época, a diáspora colonial, manteve uno o colosso continental.

II – A GEOPOLÍTICA CLÁSSICA

Se os acontecimentos históricos do passado recente ou longínquo foram


fortemente determinados por fenômenos geopolíticos claramente identificáveis,
não é menor hoje essa influência, muito embora o processo acelerado da
mundialização possa embuçar suas características mais marcantes.
Sob esse ponto de vista, soe simplificar a análise e buscar nos fundamentos
da ciência geopolítica seus pilares mais representativos. Correndo o risco que
a síntese propicia, consideremos como essenciais ao todo geopolítico de um
país seu território, povo, posição relativa e limites.
Do primeiro vetor, devemos realçar a extensão, a forma e a disponibilidade.
Esta última, às vezes esquecida, é de indubitável importância, pois grandes
desertos ou cadeias montanhosas podem reduzir, em muito, o ecúmeno
estatal disponível. O povo, que dá alma ao estado, deve ser avaliado por sua
homogeneidade racial, lingüística, cultural; a vontade nacional, expressa no
patriotismo do povo, e o desenvolvimento social e econômico correspondentes
são fatores igualmente essenciais. A posição relativa definirá as pressões
que o Estado eventualmente sofrerá, suas áreas de influência e as disputas
territoriais decorrentes. Finalmente, o conceito de fronteiras na acepção clássica
– terrestre, marítima e aérea -, é a imagem mais intimamente relacionada à

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manutenção da soberania do Estado. Este trabalho postula o reconhecimento
da importância de novas fronteiras do Estado – fronteiras do Sec XXI – e reflete
sobre a conseqüência que isso poderá exercer sobre a concepção clássica de
soberania estatal.

III – O PLANETA TERRA – UMA TOMOGRAFIA



Buscaremos, em seguida, identificar os principais vetores que estão a
interagir para tornar nosso planeta um lugar violento, imprevisível e perigoso.
De todos eles, é a hegemonia americana e seu protagonismo no mundo que
merecerá nossa atenção especial, por razões óbvias.

1 - A hegemonia militar dos EUA

Ao despertar do novo século, o mundo atônito deu-se conta de um atentado


terrorista de grande vulto perpetrado contra os Estados Unidos da América (11
Set 01), indiscutivelmente a nação com o maior poderio militar do planeta. Esse
evento é um divisor de águas, um daqueles pontos de inflexão que mudam a
história da humanidade. Sua importância não pode ser minimizada, seus efeitos
serão prolongados por um período ainda não dimensionável e toda a verdade que
o cerca só será plenamente conhecida em algumas décadas. Mas para o exato
entendimento da ação hegemônica americana é necessário recuar alguns anos.
O exercício dessa hegemonia foi potencializado pelo esfacelamento
da União Soviética, e teve seus pródromos na I Guerra do Golfo Pérsico, ao
ensejar nova fase de presença militar americana no Oriente Próximo, esmaecida
desde a derrubada do Xá pelos aiatolás, no IRÃ, em 1979. Nesta primeira
fase, o governo Clinton exercitou o poder de forma indireta (soft power), e o
mundo não se deu conta das primícias do exercício sem limites do poder militar
americano, enfim percebido após o retorno do Partido Republicano ao poder
(2001). A História não havia terminado!
A I Guerra do Golfo Pérsico trouxe para a Península Arábica centenas
de milhares de militares ocidentais. Este fato foi identificado pelos islamitas
radicais como verdadeira heresia cometida pelos dirigentes dos países da
região, principalmente da Arábia Saudita, e por americanos e seus aliados
já identificados por setores radicais como os novos cruzados. O domínio
econômico já exercido pelos EUA naquela área agora se tornava mais sufocante
pela continuidade da presença militar, mesmo após a derrota acachapante
de SADDAM HUSSEIN, que teve seu exército numeroso e mal equipado

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previamente guindado a um dos maiores do mundo. Quantidade não é qualidade,
e o passeio do Gen NORMAN SCHWARZKOPF em direção a Bagdá só fez
confirmar esse brocardo. Todavia, serviu para valorizar o sucesso militar dos
aliados, no primeiro teste real das tropas americanas desde a implantação, em
1986, da reformulação do Departamento de Defesa e do emprego combinado
das Forças Armadas imposta pela Lei Nichols/Goldwater.
Por outro lado, as forças árabes mais radicais, revigoradas pela derrota
imposta aos russos no Afeganistão, recearam a repetição daquele fato,
uma nova ocupação por outras vias. Desta maneira, o sucesso na guerra
e a permanência prolongada das tropas aliadas na “península sagrada”, só
fez recrudescer o descontentamento e a revolta latentes, que eclodiram em
inúmeros atentados perpetrados contra os EUA, interna e externamente, de
acordo com a seguinte cronologia:
- 26 Fev 93 – Primeiro atentado às torres gêmeas;
- Out 93 - Ataque às forças americanas na Somália;
- 25 Jun 96 – Atentado contra as tropas americanas no complexo militar
em Dharan, na Arábia Saudita – 19 mortos/400 feridos;
- 7 Ago 98 – Atentados simultâneos às embaixadas americanas no Quênia
e Tanzânia;
- 12 Out 00 – Ataque ao destróier USS COLE.
Assim, para um observador arguto, todo o processo em curso apontava
para a possibilidade de atentados de maiores proporções, dentro ou fora dos
EUA. Entrementes, as preliminares da futura atuação dos novos donos do
poder já estavam bem delineadas no documento denominado Projeto de um
Novo Século Americano (1998), elaborado por republicanos associados ao
governo nascente de George W. Bush. A ação terrorista do 11 Set 01 apenas
justificou, facilitou e acelerou, na ótica americana, a colocação em marcha da
mais formidável máquina de guerra que o mundo já vira. Choque e pavor foram
os efeitos buscados pela ação estrepitosa e midiática das bombas inteligentes
que arrasaram Bagdá, imitação moderna da guerra psicológica praticada cerca
de oito séculos antes pelas selvagens hordas mongóis.
Os pontos capitais dessa nova filosofia de guerra estão definidos no que
foi chamado de Doutrina Bush, por ele próprio enunciada em WEST POINT,
em Jun 02. Caracteriza-se ela pelo uso irrestrito da força para o atingimento
de objetivos políticos e econômicos, de forma unilateral, com a relativização
do Direito Internacional, mesmo sem o respaldo da Organização das Nações
Unidas, admitindo, inclusive, o ataque preventivo aos, assim julgados, eventuais
riscos à segurança dos EUA.

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A indicação de um eixo do mal a ser extirpado – IRAQUE, IRÃ E CORÉIA
DO NORTE – e a declaração da “Guerra ao Terrorismo”, sem limitação de seu
escopo de atuação, trouxe mais intranqüilidade a um mundo de per se violento,
imprevisível e caótico. Depois da devastação do IRAQUE, não deve ter causado
surpresa aos analistas mundiais o esforço empreendido pelos outros dois países
para se defender do ataque preventivo anunciado. Ou terá sido mera coincidência
a retomada dos planos nucleares da Coréia do Norte e do próprio IRÃ, este último,
segundo autoridades do próprio país, apenas com finalidades pacíficas?
A inconclusão das ações no AFEGANISTÃO e as conseqüências
impressentidas da invasão do IRAQUE, baseada esta em premissas
posteriormente identificadas como falsas, fez recrudescer o terrorismo que
se intentava abater. O “Informe sobre Terrorismo nos Estados”, publicado
pelo Departamento de Estado dos EUA, reconhece que em 2006 houve um
acréscimo de 40% no número de mortos vítimas de atentados terroristas. Sem
dúvida a metástase da Al-Qaeda foi em muito favorecida pela truculência da
ação exibida pelos militares da Coalizão, pelos danos colaterais infligidos
aos civis e o relativo desprezo aos direitos humanos, com destaque para os
cometidos em Abu-Ghraib e Guantánamo.

2 - A OTAN

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), sem rumo desde


a queda do muro de Berlim, seguiu a reboque do interesse americano, e na
CIMEIRA DE PRAGA (Nov 02) encontrou seu novo Pacto de Varsóvia, ao
eleger o combate ao terrorismo internacional seu novo foco de atuação. A
extraterritorialidade, a capacidade de atuar em qualquer parte do mundo,
inclusive executar ataques preventivos, só fez aumentar as incertezas do
embaralhado cenário internacional, mormente porque o mundo identifica a
OTAN como mais um instrumento de guerra no arsenal americano. E a relativa
dissintonia da OTAN em relação à União Européia, em face das atitudes
díspares, e até mesmo contraditórias, adotadas por seus membros, sugere a
necessidade de profunda reflexão sobre o futuro dos dois organismos.

3 - A proliferação nuclear

A proliferação nuclear é praga solerte que se alastra, alimentada pela


violência e incerteza que passaram a nortear o relacionamento entre os países.
A segurança institucional que a Paz de Westfália buscou preservar por séculos

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entre as nações, encontra-se hoje estilhaçada pelo voluntarismo unilateral
das potências militares. Como conseqüência, atores estatais perceberam que
a nuclearização militar cria fato consumado a produzir imediata aceitação e
respeito pelo novo patamar alcançado (veja-se o caso da Índia e Paquistão)
sendo, ademais, um tipo de defesa muito menos onerosa que a decorrente da
manutenção de um grande exército convencional.

4 - Os conflitos crônicos

Aos conflitos crônicos, sem solução aparente – PALESTINA, IRAQUE,


AFEGANISTÃO – somam-se aqueles intermitentes – CACHEMIRA e LÍBANO –
ou os que esperam a vez – TAIWAN, CORÉIA DO NORTE. Todos se constituem
em riscos severos para a paz mundial – em maior ou menor grau. E a posse
de armamento nuclear por parte de alguns desses países faz acender a luz
de alerta. Mas é forçoso reconhecer que, de todos esses, o contencioso na
Palestina deve ser resolvido com prioridade máxima.
A implantação do Estado de ISRAEL, fato consumado que não admite
retorno, trouxe um grau de desequilíbrio geopolítico a uma área por si só
efervescente desde tempos memoriais. A integração de ISRAEL ao seu próprio
entorno geopolítico é tarefa complexa, de longa maturação, que só poderá ocorrer
se as partes envolvidas desejarem, de fato, a paz. E se as potências externas à
área deixarem de ser elementos perturbadores do processo de ajuste.

5 - O crime organizado

O crime organizado, tradicionalmente dedicado ao tráfico de drogas,


pessoas e armas agora amplia seu leque de atuação ao incorporar em seu
acervo os delitos eletrônicos. O ataque cibernético à Estônia (Jun 07) veio
acrescentar mais um componente desestabilizador a um mundo completamente
dependente da rede virtual que o entrelaça. Preocupa ainda a possível
integração do crime organizado aos grupos terroristas, cujo exemplo notório
vem da Colômbia, com a simbiose dos narcotraficantes às Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia (FARC).

6 - Potências emergentes

O centro de gravidade econômico do mundo se desloca para a Ásia. O


surgimento na área de novos gigantes econômicos (CHINA e ÍNDIA), associado

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ao soerguimento de RÚSSIA e JAPÃO, faz prenunciar o Sec XXI como o Século
Asiático. Esse esplendor econômico está diretamente vinculado à ascensão do
poder militar, em especial da CHINA, que em duas décadas, mantido o ritmo de
crescimento atual, terá músculos suficientes para desafiar o gigante americano.
Este, confrontado por uma crescente demanda militar e diplomática, sem
respaldo real no seu produto interno, tropeça em suas próprias incoerências e
diminui-se a si próprio. A guerra do IRAQUE e a conseqüente ocupação custará
ao contribuinte americano de 400 bilhões a 2 trilhões de dólares, cifra variável de
acordo com analistas oficiais e independentes, mais ou menos pessimistas. Mais
preciosos ainda são os feridos e os milhares de mortos que, em sudários pretos,
longe dos olhos da imprensa, são descarregados com excessiva freqüência nas
bases americanas. E o choque e o pavor, em bumerangue histórico trágico, faz
a nação norte-americana chorar seus mortos e indagar do propósito e justeza
de uma guerra que em tudo começa a lembrar o Vietnã.
E o desafio asiático surge na figura da Organização de Cooperação
de XANGAI. Fundada em 2001, tem China e Rússia na sua liderança, com
os países da Ásia Central como membros. Índia, Paquistão e Irã são ainda
membros observadores. Trata-se, sem dúvida, não obstante seus membros
recusarem esta versão, de uma organização criada para contrabalançar o poder
americano na Ásia Central, ao impedir sua eventual expansão e ao assegurar
para a CHINA, principalmente, e Rússia uma região de influência exclusiva,
com metade da população do globo.

7 - A escassez de matérias-primas

A escassez de matérias primas – água, alimentos, minerais estratégicos


e petróleo – este último principalmente, é a grande motivação por trás de ações
militares, econômicas e políticos conduzidas pelas grandes potências desde
a I Guerra Mundial. Por exemplo, a presença americana na faixa ocidental
da Ásia. ALAN GREENSPAN, em seu livro recentemente lançado “A ERA DA
TURBULÊNCIA”, declara que a Guerra do IRAQUE foi principalmente sobre o
petróleo. Outros argumentos poderão ser apresentados, dentre eles a Teoria
Geopolítica das Fímbrias, de SPYKMAN, mas para um país que consome mais
de trinta barris de petróleo, por ano, por habitante, a luta pela sobrevivência de
seu padrão de vida perdulário passa necessariamente pela garantia inconteste
das fontes externas de petróleo. Forçoso lembrar que as reservas americanas
em seu próprio território são suficientes para atender a demanda do país por
escassos quatro anos. Essa circunstância fica ainda mais dramática quando se

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confronta esse consumo conspícuo com o da China – pouco mais de um barril
por chinês, por ano, com consumo crescente pelo aquecimento da economia e
ocidentalização dos hábitos (mais de 220 milhões de veículos estão a circular
na CHINA). A curva de consumo chinês cresce assintoticamente e projeta um
cenário futuro em que as duas potências disputarão palmo a palmo suas áreas
de influência no mundo. Desde já, a África, antes um continente relativamente
esquecido, é palco de agressivo interesse chinês e de tardia preocupação
americana.

8 - O meio ambiente

Todo esse processo econômico, competitivo e autofágico, está a causar


sérios danos à Terra Mãe – a Gaia dos gregos. O meio ambiente degradado
responde com o aumento médio de temperatura, com empobrecimento e
desertificação progressiva dos solos e a conseqüente elevação dos mares. A
médio prazo, é previsível que grandes catástrofes poderão afligir a humanidade
como conseqüência do descaso com a natureza.
A produção do dióxido de carbono (CO2) tem sido adotada como medida
padrão da poluição produzida e está diretamente vinculada ao consumo de
energia. Assim, é alarmante a escória gasosa que os EUA e CHINA estão a lançar,
cada um, na atmosfera: cerca de seis bilhões de toneladas de CO2 por ano. O valor
per capita, no entanto, coloca os EUA como o grande vilão da estória, cabendo
a cada americano a produção de cerca de 20 toneladas de CO2 por ano, cerca
de quatro vezes o de cada chinês. A poluição individual brasileira está estimada
em cerca de 2 toneladas de CO2 por ano. Esses números podem sofrer alguma
variação, de acordo com a fonte, mas a verdade é uma só: a Terra adoece.

9 - O mundo plano

Para encerrar esta análise sintética do mundo no Sec XXI é forçoso


reconhecer que o planeta ficou menor em decorrência dos avanços tecnológicos
que teimam em atropelar as expectativas mais otimistas. Esse tema é muito
bem abordado por THOMAS FRIEDMAN em seu livro O MUNDO PLANO.
A interdependência econômica, com a formação de blocos comerciais, a
internete, a terceirização dos trabalhos, o fluxo apátrida de recursos financeiros
e as empresas transnacionais fizeram com que barreiras tradicionais fossem
ultrapassadas ao favorecer o aumento da ingerência externa e reduzir o poder
de decisão do Estado em seu próprio território.

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É necessário atentar para este fato sob a ótica de Defesa Nacional, em
face das conseqüências geopolíticas que acarreta. As novas fronteiras, virtuais
e econômicas, são o ponto fulcral da nova geopolítica mundial e serão a seguir
analisadas.

IV – As novas fronteiras virtuais

Os novos tempos estão a ser caracterizados pela redução do poder do


Estado nos seus assuntos internos. As novas fronteiras são fruto do próprio
avanço tecnológico que as gerou, e se constituem em crescente desafio à
soberania dos países no início do século XXI, mormente para aqueles que se
encontram na periferia do poder e estão sujeitos a tudo perder, inclusive sua
própria independência como Estado soberano.
Se o esgarçamento das fronteiras econômicas e financeiras expõe o
mundo a constantes sobressaltos, a invasão cultural expõe os mais fracos à
progressiva perda da identidade nacional.O poder tecnológico também submete
o mundo ao arbítrio de invasões não consentidas pelo espaço superior, como a
varredura indiscreta realizada por aeronaves ou satélites espiões, que levantam
desde a riqueza do subsolo ao movimento diário dos cidadãos. Telefonemas,
faxes ou qualquer meio de contato via espectro eletromagnético de radiação são
captados sorrateiramente, violando privacidades e desrespeitando soberanias.
Os trinta bilhões de dólares, estimados, anualmente despendidos pela National
Security Agency (NSA) para bisbilhotar eletronicamente o mundo, como um
todo, sem a prévia anuência dos países vasculhados, talvez seja o exemplo mais
acabado deste novo mundo que se oferece à análise. A ausência de fronteiras,
ou o seu ignorar, é uma via de dupla mão, o que induz a medidas, a contra-
medidas e contra-contra-medidas de guerra eletrônica, em um sem-número
de siglas a fatigar a mente de qualquer mortal. Ainda a respeito do “andar de
cima”, na feliz expressão do Gen MEIRA MATTOS, notável geopolítico brasileiro
falecido no início de 2007, o uso de satélites espiões pode descambar para
satélites-bomba, “espada de DAMOCLES” a ameaçar a integridade do planeta
e a sobrepujar qualquer escudo de proteção que venha a ser construído.
A esse respeito, tem sido dúbia a posição americana quanto ao uso militar
do espaço exterior, desde 1967 regulado pela ONU em tratado abrangente
que estabelece sua exploração apenas para fins pacíficos. Essa atitude
está em consonância com política recentemente assumida pelo presidente
daquele país, ao estatuir que os EUA têm o direito de conduzir qualquer tipo
de pesquisa espacial e outras atividades que considere adequadas a seus

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interesses nacionais, e eventualmente negar, se necessário, a adversários o
uso de equipamentos espaciais hostis. A China, em contrapartida, quase como
desafio, realizou recentemente teste bem sucedido de destruição de satélite.
Entrementes, não é confortável a posição de países que hoje dependem,
em larga escala, do uso da rede mundial de computadores (INTERNET) e
do GLOBAL POSITIONING SYSTEM (GPS) nas atividades comezinhas e
até mesmo em equipamentos militares. De modo lento e sutil, a economia,
os transportes, a segurança, tudo enfim, está hoje, em sua quase totalidade,
dependente desses onipresentes sistemas. Se a chave que pode comutá-los
está nas mãos de um único país, onde reside a verdadeira independência para
o exercício inconteste das soberanias nacionais? Não por outra razão, nações
mais desenvolvidas tecnologicamente estão a buscar soluções para elidir esta
vulnerabilidade. Todavia, àquelas da periferia restam poucas alternativas, ou
nenhuma.
Por sua vez, os organismos internacionais, ONU, BIRD, AIEA e outros,
ao cercear as entidades nacionais convertem-se em instrumentos de pressão
sobre as nações periféricas. Como exemplo, o rigor na aplicação do Tratado de
Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP) só é exercido sobre as nações que
não possuem a arma nuclear, sendo olvidado para os participantes do clube,
dos quais deveria ser exigida a progressiva eliminação daquele artefato. E os
protocolos adicionais ao TNP, ao aumentar as restrições aos países signatários,
sob a justificativa de se alcançar mais segurança e controle, criaram maior
cerceamento e dificuldades para desenvolvimento e uso pacífico da tecnologia
nuclear.
Idêntica percepção advém das resoluções adotadas pelo Conselho de
Segurança da ONU. Suas decisões são soberanas e nem sempre correspondem
ao consenso da maioria dos países representados na Assembléia-Geral. A
ampliação de seus membros é uma necessidade geopolítica irretorquível.
Defasado de equação de poder que permeia o novo milênio, sua composição
anacrônica ignora a posição de potências como Alemanha, Japão e Brasil,
dentre outras.

V – AS NOVAS FRONTEIRAS ECONÔMICAS

Com inegáveis reflexos na sanidade do planeta, a demanda mundial


cresce pelo aumento da população e pelo consumo conspícuo que decorre
da melhoria de vida da turma da periferia em deslocamento para o proscênio
mundial. China e Índia, com sua imensa população, não apenas são grandes

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produtores mas passo a passo tornaram-se também atores globais do consumo,
fazendo com que as margens de segurança dos insumos básicos ficassem
mais estreitas e perigosas. Assim, em 1999/2000, a oferta mundial de alimentos
chegou a 2,73 bilhões de toneladas para uma demanda de 2,14 bilhões de
toneladas. Em 2007/2008 a oferta praticamente não se alterou, enquanto a
demanda subiu para 2,41 bilhões de toneladas.
Para o consumo de energia pode-se chegar à mesma conclusão: a oferta
não vem acompanhando a demanda crescente. Os preços do petróleo, não
obstante a desvalorização do dólar americano, atingem patamares recordes,
em face da escassez. Por outro lado, em alguns pontos do planeta a oferta de
água atinge níveis críticos e deixa antever grandes catástrofes humanitárias
nas regiões mais carentes da África e Ásia.
O raciocínio desenvolvido nos conduz necessariamente a considerar
como irreversível, a médio prazo, uma disputa entre as grandes potências
pelo domínio das fontes de matérias-primas estratégicas, em especial pelas
jazidas de petróleo, existentes e por descobrir. Na verdade, esta disputa já
ocorre, e vemos que a presença americana no Oriente Médio é parte desse
processo.
A disputa pelas cobiçadas fronteiras econômicas definirá um panorama
geopolítico totalmente diverso, com possíveis conflitos. Essas fronteiras
situam-se no espaço sideral, no fundo dos mares, nos mares árticos, no
Continente Antártico, e na zona econômica exclusiva (ZEE), hoje definida
pela explotação, adjudicada a cada país, de sua plataforma continental. Para
o Brasil, em particular, com uma ZEE de cerca de 4,5 milhões de Km2, o risco
é óbvio, mormente se os campos petrolíferos explotados pela Petrobrás na
costa brasileira estenderem-se mar adentro, naquela imensa área que já
convencionamos denominar AMAZÔNIA AZUL.
Não bastasse isso, as florestas tropicais, principalmente a Amazônia, com
sua riqueza incomensurável e vasto subsolo a ser descoberto, são objeto perene
da cobiça internacional, hoje existente sob o disfarce do interesse humanitário,
possivelmente com a intenção de reservá-las para posterior usufruto.
O petróleo verde – etanol e biocombustíveis – e suas áreas de produção
tornar-se-ão progressivamente fonte inesgotável de geração de riquezas;
inesgotável porque renovável a cada nova safra. Mais uma vez o Brasil situa-
se no centro desse novo processo, não apenas pelo pioneirismo já exercitado
há mais de duas décadas mas, também, pela imensa disponibilidade de terras
apropriadas ao plantio de cana de açúcar: 80 milhões de hectares, cerca de
dez vezes o território de Portugal.

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VI – UM CENÁRIO PESSIMISTA

A tomografia planetária sumariamente empreendida permite elaborar um


cenário prospectivo não muito otimista, cujos vetores principais são a seguir
apontados:
- tendência à multipolaridade, oporá a China aos EUA;
- o eixo do poder econômico e militar desloca-se para a Ásia;
- a mundialização expõe o mundo a sérios riscos econômicos (efeito
dominó);
- tendência à formação de blocos supranacionais políticos, econômicos
e militares;
- a fadiga do planeta conduzirá a desastres ambientais de vulto;
- aumentará a corrente migratória dos países pobres para os ricos;
- emprego prevalente da força nas disputas internacionais;
- a relativização do direito internacional trará mais risco e insegurança
aos países periféricos;
- as novas fronteiras econômicas serão objeto de acirrada disputa,
desaguando em conflitos pelo controle das matérias-primas essenciais: água,
alimento, minérios e petróleo;
- as ações terroristas aumentarão de intensidade, podendo atingir novas
áreas, com crescente possibilidade de acesso a armas de destruição em massa,
o que está facilitado pela ampliação do clube nuclear.

VII – REFLEXOS SOBRE O BRASIL

O mundo caminha para uma fase de mais incerteza e violência com risco
de envolvimento do Brasil.
A degradação do meio ambiente aumentará a pressão internacional sobre
o país, detentor de vastas áreas protegidas, em especial a Amazônia.
A escassez de matérias-primas – água, alimentos, minérios e petróleo
– acentuará a cobiça internacional sobre nossas riquezas naturais, mormente
pela produção do petróleo verde e, ainda, por eventuais descobertas de vastos
lençóis petrolíferos, em face de apenas haver sido prospectada a décima parte
do território brasileiro.
Os riscos de globalização econômica (efeito dominó) demanda o
fortalecimento interno da classe média consumidora, de forma a reduzir a
dependência do mercado externo e amortecer os efeitos indesejados das
incertezas do mercado global.

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-39, ago/dez. 2007
Desde já, a soberania nacional só é exercida de forma parcial, em
face da subordinação de decisões internas à conveniência de compromissos
internacionais, sejam eles consentidos ou impostos.

VIII – EM BUSCA DE UM MODELO GEOPOLÍTICO

1 - Teoria da turbulência

Logo após a derrocada da União Soviética, nos albores da grande


barafunda deflagrada no Oriente Médio após a invasão do KWAIT por SADDAM
HUSSEIN, o geopolítico francês PIERRE LELLOUCHE cunhou a teoria em
epígrafe ao profetizar que o fim do conflito LESTE-OESTE, ensejado pela
implosão do comunismo, não daria margem a uma nova ordem NORTE-SUL
mas, sim, a um período de turbulência a durar até trinta anos.
Essa assertiva se torna, mais e mais, o retrato fiel do que ocorre hoje no
cenário mundial, com nenhuma perceptiva de solução a curto prazo. Ademais,
para que a paz mundial possa ser alcançada naquele prazo, é necessário que
haja uma solução equânime para os conflitos que se desenrolam na Palestina,
Iraque e Afeganistão. Caso contrário, a humanidade como um todo seguirá a
sangrar e a chaga do terrorismo, a se espalhar.

2 - Teoria do desafio-resposta

O renomado historiador inglês ARNOLD TOYNBEE, ao estudar as


causas do declínio e extinção de inúmeras civilizações, intuiu, com o brilho e a
simplicidade que só a genialidade permite, que isso ocorrera por não haverem
aquelas civilizações obtido a resposta correta aos desafios e obstáculos, em
dado momento emergentes.
Isso vale para cada país e, muito mais amplamente, para toda a
humanidade. Qualquer que seja o campo do poder a ser avaliado – político,
econômico, psicossocial ou militar – é forçoso reconhecer que a humanidade
atinge hoje um daqueles pontos de inflexão que poderá direcionar sua própria
história para o bem ou para o mal.
Cabe às elites mundiais e nacionais descobrir a justa resposta que venha
a conduzir a humanidade pelo caminho da paz e da concórdia, o que só poderá
ser alcançado pelo respeito mútuo e por soluções justas e equânimes para
as partes em disputa. A guerra assimétrica é, nessa ótica, a resposta natural
apresentada por grupos estatais e não-estatais quando confrontados com poder
militar desmedidamente superior.

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Em pleno equilíbrio do terror da guerra fria, ao ser perguntado como
ocorreria a terceira guerra mundial, EINSTEN teria respondido não saber, mas
aduziu que a quarta guerra mundial certamente seria com arco e flecha.
Bem, esperemos que as coisas não sejam exatamente assim...

IX – A RESPOSTA BRASILEIRA AO DESAFIO DE TOYNBEE

O dilema de qualquer país, e da própria humanidade como um todo, é


encontrar a cada momento a resposta adequada ao desafio imposto pelas
circunstâncias nacionais e internacionais.
Para o caso brasileiro, mais uma vez valendo-me da ousadia da
simplificação que este trabalho exige, será apresentado um bloco de propostas
objetivas com o intuito de embasar um plano nacional destinado a aplainar o
caminho para o futuro de uma das maiores nações do planeta, pelo tamanho,
pela população, pela economia pujante mas, principalmente, pelo potencial
que dispõe em todas as esferas do poder.
Assim, considerando que:
- a realidade internacional complexa e agressiva impede a visualização
de cenário futuro preciso e otimista;
- a soberania nacional será posta à prova, na medida em que o Brasil
assuma a condição de potência;
- o poder militar nacional deverá ser compatível com a riqueza a ser
defendida e a postura política que ousarmos assumir; e
- o fator psicossocial (população/qualidade de vida/vontade nacional) é
a principal expressão do Poder Nacional.
Concluímos que a resposta brasileira ao desafio de TOYNBEE deverá
atender às seguintes premissas:
- cooperar para a paz e entendimento entre as nações, sem abandonar
a sábia neutralidade: a ação brasileira na MINUSTAH (HAITI) é um bom
exemplo;
- ampliar o poder militar, com base na indústria nacional de defesa (base
industrial militar);
- modernizar e ampliar a infra-estrutura do país;
- incentivar a inovação e o desenvolvimento científico-tecnológico;
- reduzir as desigualdades regionais e sociais;
- fortalecer e ampliar a classe média;
- desenvolver a indústria, agricultura e setor terciário como instrumentos
de aumento da riqueza, soberania e inclusão social;

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- fortalecer, no âmbito da América do Sul, os laços de cooperação
econômica, integração e crescimento solidário (MERCOSUL);
- ocupar e desenvolver a Amazônia, de forma seletiva; e
- investir massivamente em EDUCAÇÃO, SAÚDE, EMPREGO e
SEGURANÇA PÚBLICA.

X – CONCLUSÃO

Na época em que RATZEL e KJËLEN consolidavam as bases da


geopolítica, no final do Séc XIX e início do Séc XX, o mundo vivia uma época
turbulenta, com formação e desaparecimento de nações e impérios. A soberania
nacional, então, possuía um estreito liame com o respeito às fronteiras
marítimas, terrestres e aéreas.
Neste trabalho procuramos avaliar a influência que as novas fronteiras
econômicas e virtuais exercem no tabuleiro geopolítico mundial no violento,
imprevisível e perigoso início de milênio. As novas fronteiras modificaram de
maneira radical a percepção do conceito de soberania nacional, e exigem dos
países um diferente posicionamento em face dos novos desafios.
Isso porque o avassalador avanço tecnológico pôs ao alcance dos
países mais evoluídos instrumentos modernos, intrusivos e sutis. A soberania
nacional, principalmente dos países periféricos, ficou mais esgarçada, com
maior número de fronteiras a defender. Por sutis e etéreas, as novas fronteiras
não provocam a percepção do risco imediato. Seja pela não percepção do
perigo, seja pela ausência de poder nacional para se contrapor aos riscos da
invasão anunciada, os países da periferia vão gradativamente perdendo o poder
de decidir no seio do espaço nacional.
A reação islamita radical à invasão cultural e material do ocidente, no
que pode ser chamado de choque de civilizações, é uma luta desesperada
para impedir a desfiguração dos estados islâmicos em face da progressiva
aceitação da cultura ocidental, por eles assim percebida. E o que torna
ainda mais dramática essa resistência é que, ao fim e ao cabo, parece ser
irreversível a ocidentalização progressiva do mundo, exceto para aqueles
países que, enclausurados, permanecerem à margem do fluxo histórico. O
exemplo do extinto Império Turco, paulatinamente doente e inerte frente a
uma Europa tecnologicamente invencível, bastaria para realçar o fato de
que a adoção da tecnologia ocidental é essencial para a sobrevivência de
qualquer país moderno. E não há como separar essa tecnologia da cultura
que a gerou.

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Esse é o grande desafio toynbeeano a ser vencido por todos os países
da periferia, caso desejem assegurar sua permanência como nação no mundo
pós-nuclear que está a se formar neste início de milênio. Porque a nova
geopolítica mundial tem suas raízes no acelerado desenvolvimento tecnológico
que surpreende e angustia, pois o remédio que cura a humanidade, também
pode matar o mundo.
Cada país tem suas peculiaridades e deverá encontrar sua própria
resposta ao grande desafio do milênio: sobreviver no intrincado mundo, mais
e mais violento, imprevisível e perigoso. Todavia, qualquer que seja a solução,
deverá ela basear-se na valorização do maior patrimônio nacional – o povo
– sob a forma de educação, saúde, emprego, a par do estabelecimento de
estrutura científico-tecnológica compatível com o poder nacional. Esses dois
pilares – Povo e Tecnologia – serão as bases para edificar um Estado moderno
apto a sobreviver neste mundo em mutação.

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-39, ago/dez. 2007
Análise da Política de Segurança e a Política
de Defesa da República Federal da Alemanha.
Sugestões para o Brasil

Alberto Hallwass
General-de-Brigada, estagiário do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia da Escola
Superior de Guerra em 2007

I - Introdução

“A Segurança Nacional repousa, em última análise,


na Segurança Interna, que está nela compreendida e
subentendida, já que os antagonismos externos somente
se configuram como ameaça concreta à consecução
dos objetivos nacionais quando se manifestam ou
produzem efeito no âmbito interno do País.” 1
(Gen Ex Lyra Tavares)

A recente criação do Ministério da Defesa (MD) trouxe uma série de


desafios que vêm sendo superados gradativamente. Nesse caso, a experiência
de outros países, muitas vezes, serve de inspiração, trazendo excelentes
contribuições na busca da qualidade e no processo do aperfeiçoamento das
instituições nacionais.
Este trabalho apresenta uma análise sintética da Política de Segurança
e das Diretrizes da Política de Defesa da República Federal da Alemanha
(RFA), e da Política de Defesa Nacional do Brasil. Procura-se mostrar as
semelhanças e as diferenças de procedimentos adotados, em relação
aos assuntos de segurança e de defesa, em cada país, e conclui-se com
sugestões para o Brasil. Questiona-se, com base na experiência alemã,
a adequação da Política de Defesa Nacional, bem como a importância de
uma Política de Segurança Nacional para a realidade brasileira. A Política
de Segurança e as Diretrizes alemãs obedecem a uma nítida hierarquia de
responsabilidades entre as atribuições do Chanceler Federal e do Ministro
1
Conceito usado pelo Gen Ex Lyra Tavares, Ministro do Exército, em palestra proferida na
Escola Superior de Guerra, em 26 de junho de 1969.

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42, ago/dez. 2007 23
da Defesa, respectivamente, enquanto que, no Brasil, a existência de uma
Política de Defesa Nacional leva a fixar diretrizes estratégicas típicas de uma
Política de Segurança e que transcendem às atribuições do MD.
Trazer idéias novas para a discussão, respeitadas as realidades de cada
país consiste num dos grandes desafios deste artigo. Busca-se mostrar a
importância de uma política de segurança, os reflexos, pela sua ausência, na
elaboração da Política de Defesa Nacional (PDN) e a conseqüente confusão
conceitual dos termos ligados à segurança e à defesa. Questiona-se, também,
o detalhamento e a abrangência da PDN como política orientadora para todas
as missões preconizadas para as FA brasileiras.

II - Segurança e defesa

A compreensão dos termos segurança e defesa é essencial para discutir


matéria tão importante para o futuro do País. Em caso de dúvida, devem ser
entendidos, também, os conceitos adotados no cenário internacional, pois é
nele que o Brasil está inserido e pretende desempenhar papel de destaque
no futuro.
A segurança caracteriza-se por uma situação, que dimensiona
tranqüilidade ou o grau de risco a que um Estado está sujeito em relação a
uma agressão militar, às ameaças da sua desestruturação, a uma guerra civil,
à migração excessiva de refugiados de guerra, ao terrorismo internacional, ao
aumento da criminalidade, às epidemias e à restrição de recursos. A defesa
caracteriza-se por ações majoritariamente militares, cujo grau de intensidade
varia conforme as eventuais ameaças existentes.
O entendimento de que segurança é um estado e defesa um ato
diretamente ligado a uma ameaça é básico para a compreensão das idéias
que se seguem. A segurança nacional envolve aspectos característicos de
segurança externa, quando está voltada para o quadro internacional, e de
segurança interna, quando busca assegurar as condições para a consecução
dos objetivos nacionais no âmbito interno do país. Uma política de segurança
nacional deve consolidar valores, atitudes, medidas e ações estratégicas de
governo em todas as expressões do Poder Nacional, para evitar o surgimento
de antagonismos e pressões que comprometam o estado de segurança.
A defesa nacional requer o empenho dos cidadãos, da sociedade e
do Estado para garantir o estado de segurança. Uma PDN deve consolidar
objetivos de Estado, com ênfase na expressão militar, para ações de defesa
contra ameaças externas ou internas, potenciais ou manifestas.

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42, ago/dez. 2007
Em caso de um conflito armado, pode-se considerar que ocorre uma
superposição relativa das políticas de segurança e de defesa. Uma política de
segurança estabelece, de forma ampla, os procedimentos para criar condições
que permitam enfrentar ameaças externas e internas, de qualquer natureza,
mesmo durante a situação de normalidade e paz internacionais, enquanto que
a política de defesa, como planejamento setorial, está prioritariamente voltada
para o preparo e o emprego dos meios militares. Uma política de segurança é
mais abrangente e norteia o conteúdo de uma política de defesa, mas ambas
envolvem todas as expressões do poder nacional. Uma política de segurança
eficiente garante o desenvolvimento nacional e uma política de defesa está
voltada para as operações militares e, se necessário, a guerra.

III - Aspectos históricos

No plano internacional, os anos que se seguiram à Segunda Guerra


Mundial (2ªGM) foram marcados pela ascensão do comunismo no mundo,
cujo combate passou a ser tarefa primordial do governo norte-americano.
Surgia a Guerra Fria, confronto político-ideológico entre os Estados Unidos da
América (EUA) e a União Soviética.
O Brasil e a RFA viveram experiências históricas distintas a partir do
final da 2ªGM. A RFA, derrotada, submeteu-se às exigências internacionais
ratificadas em tratados e que resultaram na filiação do País a organismos
internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU), Organização
do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), União Européia (UE) e Organização
para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Esta ação integrada tem
como conseqüência principal a estruturação das Forças Armadas (FA) alemãs,
totalmente dependentes da ação militar conjunta no âmbito de alianças,
situação coerente com a visão política alemã, que considera inviável, na
atualidade, um país sozinho enfrentar as ameaças existentes. O Brasil, após
o período de governos militares na América do Sul, busca novos caminhos.
Com relação aos aspectos de segurança e de defesa, destacam-se a recente
criação do MD e a expedição, no ano de 2005, da PDN em vigor.
A RFA, integrando alianças, adota uma política de segurança, que
trata da ação interministerial e dos compromissos junto aos organismos
internacionais de que participa, bem como norteia as Diretrizes da Política
de Defesa, voltadas especificamente para a missão, tarefas e capacidade
das FA alemãs dentro da conjuntura internacional. O Brasil possui uma PDN
direcionada para o ambiente regional onde estão estabelecidos os objetivos

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21- -39,
42, ago/dez. 2007 25
da política, definidas as orientações e as diretrizes estratégicas e excluídas as
missões de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

IV - Diretrizes para a política de defesa da RFA

As Diretrizes da Política de Defesa da RFA contém as orientações do


Ministro da Defesa e norteiam os trabalhos no âmbito do MD daquele país. As
Diretrizes seguem a orientação da Política de Segurança e os compromissos
assumidos, pela RFA, junto aos organismos internacionais de que participa,
estabelecem a missão, as tarefas e a capacidade das FA alemãs e constituem
a base para elaborar a Concepção das FA, sob responsabilidade do Inspetor
Geral das FA, ao qual estão subordinadas todas as Forças Singulares.
As Diretrizes definem os princípios para a configuração da Política de
Defesa, com base nos recursos disponíveis e nos compromissos assumidos
por meio da Política de Segurança nas alianças com a OTAN e a UE. As
FA alemãs, em sua reestruturação, consideram como essencial o Serviço
Militar Obrigatório e a clara configuração das tarefas para atender as novas
condicionantes estratégicas. O Estado tem a responsabilidade de garantir a
segurança do País, observar a missão das FA e, com base nas tarefas e
capacidades operacionais exigidas, atender as necessidades futuras para a
segurança e defesa. A RFA considera que não há, no futuro próximo, perigo
de ataque a seu território por forças convencionais, o que permite reorientar
a sua prioridade no desenvolvimento de capacidade para prevenir conflitos
e gerenciar crises. As FA alemãs têm capacidade autônoma de conduzir
operações de evacuação e salvamento e, de atuar de forma conjunta, nos
demais tipos de operações com os aliados e parceiros no âmbito da ONU, OTAN
e UE. Na área de desenvolvimento e aquisição de armamento, a cooperação
dentro das alianças tem prioridade em relação aos projetos nacionais.
A crescente participação da RFA no contexto internacional aumenta a
sua exposição à ação de agentes não-estatais como o terrorismo internacional
e o crime organizado. Para enfrentar as ameaças mais prováveis, a política de
segurança alemã considera essencial a proteção de seus cidadãos, valendo-
se, inclusive, dos organismos de segurança globais e regionais. As políticas de
segurança e de defesa partem do pressuposto de que a parceria transatlântica
é a base para a segurança alemã, que a Política Européia de Segurança
e Defesa (PESD), considerando a sua atuação integrada e complementar,
assegura a estabilidade na Europa, e que a participação ativa da RFA na ONU
e na OSCE contribui para a própria segurança, o respeito aos direitos humanos,

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o fortalecimento da democracia, o progresso econômico, o desenvolvimento
social e o aperfeiçoamento da qualidade de vida da humanidade. As Diretrizes
caracterizam, com respaldo nas políticas exterior e de segurança, a integração
multinacional das FA alemãs na UE, de acordo com a PESD, e na parceria
transatlântica, bem como a responsabilidade internacional da RFA em todo o
mundo.
Em função da dinâmica do ambiente operacional, alteram-se as
características das missões, amplia-se a participação internacional, mas os
escassos recursos disponíveis interferem no efetivo, nos meios, na estrutura
e na conservação e aperfeiçoamento da capacidade militar básica. Para
enfrentar a escassez de recursos, a Diretriz recomenda medidas para o
redirecionamento do orçamento da defesa em favor de investimentos, redução
de gastos com pessoal, aperfeiçoamento dos planejamentos e cooperação,
a concentração na capacidade militar básica, para o contínuo aumento de
eficiência nas FA alemãs, o aumento na cooperação de armamento no âmbito
da UE e OTAN e pela opção por uma capacidade ampla, acima dos interesses
individuais das forças singulares, com vistas a atender qualquer hipótese de
emprego.
A RFA mantém efetivos militares adestrados, de forma permanente, à
disposição da OTAN e da UE para ações militares rápidas. As FA alemãs
devem estar em condições de serem empregadas isoladamente em situações
de emergência e em missões humanitárias. Em conjunto, em qualquer parte
do mundo, com parceiros, nações amigas ou integradas em organismos
internacionais, participam de operações para conservar, estabilizar e impor a
paz, atuam para prevenir ou controlar conflitos, cumprem missões de combate
contra o terrorismo internacional e assumem, se necessário, o comando de
operações multinacionais. É prioritária a capacitação para a interoperabilidade
e para a ação multinacional, por causa da possibilidade de atuar, nas operações,
de forma integrada com aliados.
As políticas alemãs preconizam que o Estado deve garantir a segurança
dos seus cidadãos, do País e do sistema de valores, bem como os interesses no
contexto europeu e transatlântico, utilizando-se de suas FA como instrumento
à disposição com o objetivo de cumprir as missões de:
- garantir a capacidade de negociação da política exterior;
- contribuir para a estabilidade européia e mundial;
- garantir a segurança e a defesa nacional;
- contribuir para a defesa dos aliados; e
- fomentar a cooperação e integração multinacional.

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Derivam da missão constitucional, dos valores, dos interesses e dos
objetivos fixados nas políticas, para as FA alemãs, as tarefas de:
- prevenção internacional contra conflitos e o gerenciamento de crises,
incluindo o combate contra o terrorismo internacional;
- apoio aos parceiros aliados;
- proteção da RFA e dos seus cidadãos;
- salvamento e evacuação;
- parceria e cooperação; e
- assistência humanitária.
Para a proteção da RFA, da população e da infra-estrutura vital do país
contra ameaças terroristas e assimétricas, embora seja, prioritariamente,
tarefa das forças de segurança pública, as FA estão à disposição, no âmbito
da legislação em vigor, empregando conscritos e reservistas.
A busca da capacidade para atender a missão e as diferentes tarefas
tem reflexos diretos sobre a reestruturação das FA. A perda da prioridade
do emprego tradicional na defesa nacional, que trata da defesa territorial,
em relação à prevenção de conflitos, gerenciamento de crises e as ações
posteriores, exigem forças de perfil com capacidade:
- de comando;
- para obtenção de informações e reconhecimento;
- de mobilidade;
- de eficácia no emprego;
- de apoio e resistência; e
- de sobrevivência e proteção.

V - Política de segurança da RFA

Para a RFA, as condicionantes básicas para a sua política de segurança


mudaram profundamente e as FA alemãs passaram, na última década, pelas
maiores mudanças de sua história, transformando-se em forças de emprego
operacional conforme pode ser constatado nas várias regiões do mundo onde
atuam em missões de paz.
O Livro Branco 2006 – para a Política de Segurança da RFA e para
o futuro das FA alemãs - consiste num documento interministerial, elaborado
pelo Governo, para orientar a Política de Defesa, no âmbito do MD, e as ações
conseqüentes, em todos os ministérios, com o objetivo de preservar o estado de
segurança no País, bem como descreve detalhes sobre os compromissos com
organismos internacionais e a sua importância para a segurança internacional.

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42, ago/dez. 2007
Para a RFA, com a globalização, surgem novas oportunidades, ao mesmo
tempo em que as mudanças profundas no aspecto de segurança trazem
consigo riscos e ameaças, que se refletem na estabilidade alemã e na região
contígua, bem como afetam a segurança global da sociedade internacional.
O controle desses novos desafios requer a aplicação de políticas de exterior,
de segurança, de defesa e de desenvolvimento, instrumentos básicos para a
identificação, prevenção e solução de conflitos.
O terrorismo internacional é tratado como um desafio central que ameaça
a liberdade e a segurança. A proliferação das armas de destruição em massa
e seus meios de lançamento, os conflitos regionais e internos em países, a
desestruturação, a instabilidade interna e a fragmentação de estados, também
são vistos como uma ameaça potencial para a RFA.
As estratégias de defesa, consagradas no passado, contra ameaças
externas não são suficientes para as atuais ameaças assimétricas. A política
de segurança destaca as novas e crescentes complexidades de desafios, que
exigem ação conjunta no âmbito nacional e internacional, incluindo um efetivo
combate das causas, antecipando-se aos riscos e ameaças para enfrentá-los,
com oportunidade, onde apareçam.
A Política de Segurança da RFA, subordinada aos valores da
Lei Fundamental e aos objetivos para preservar os interesses do País,
preconiza:
- defender o direito, a liberdade, a democracia, a segurança e o bem-
estar para os cidadãos alemães e protegê-los das ameaças;
- garantir a soberania e a inviolabilidade do território alemão;
- prevenir crises e conflitos que possam interferir na segurança da RFA
e contribuir com a sua neutralização;
- enfrentar os desafios globais, como o terrorismo internacional e a
disseminação das armas de destruição em massa;
- contribuir com a observância dos direitos humanos e o fortalecimento
da ordem internacional com base no direito dos povos; e
- fomentar o livre comércio mundial como base no bem-estar para
contribuir com a redução do abismo entre regiões ricas e pobres no
mundo.
A Política de Segurança alemã repousa sobre um significado amplo,
futurista e multilateral, que não pode ser entendido como algo unicamente
nacional, nem pode ser assegurado somente pelas FA, mas requer um
envolvimento amplo, para desenvolver estruturas de políticas de segurança
integradas, bem como a consciência do entendimento de segurança global por

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21--39,
42, ago/dez. 2007 29
parte de toda a esfera governamental. A concepção do governo, prevenção
civil de crises, solução de conflitos e consolidação da paz, constitui-se na
pedra fundamental da política alemã.
A Política de Segurança alemã preconiza o controle, a redução e uma
política restritiva na exportação de armamento, a proibição e a não-proliferação
de armas de destruição em massa e a redução de armas nucleares como
elementos importantes para a preservação da paz internacional.
A RFA reunificada julga que lhe cabe um papel importante na conformação
da Europa futura. Como membro da OTAN, UE, OSCE e ONU, a RFA julga-
se um parceiro confiável, que se empenha para a garantia da paz, a defesa
das ameaças globais, a defesa da democracia e dos direitos humanos, com
vistas a um desenvolvimento duradouro e uma segurança coletiva. Essas
organizações se adaptaram às exigências e riscos, impondo novas tarefas
para os estados membros, e no caso da RFA, os soldados alemães passaram
a servir à paz em vários continentes, transformando, assim, as FA alemãs em
forças de emprego.
A OTAN e a UE, em sua parceria estratégica, garantem os pilares
da segurança transatlântica e européia e, em suas responsabilidades
complementares, contribuem com a segurança alemã. As relações
transatlânticas são básicas para a segurança alemã e européia. A OTAN
estabelece um sistema político e militar único para a manutenção e o
restabelecimento da paz, que repousa na confiança mútua e na capacidade
dos países membros da aliança, resultando numa âncora forte para as políticas
de segurança e de defesa alemãs e num elo entre os dois continentes.
A UE é responsável pela estabilidade política, segurança e bem-estar
na RFA e nos demais países membros e vem sendo um ator reconhecido
no gerenciamento internacional de crises com crescente capacidade de
negociação nas políticas exterior e de segurança. A PESD, como parte
integrante da Política Exterior e de Segurança Comum (PESC), define objetivos
de planejamento militares e civis, estabelece estruturas político-militares para
o emprego, configura a agência européia de defesa e formula uma estratégia
de segurança européia. Com isso, a Europa busca as condições para assumir,
no futuro, a sua responsabilidade para uma segurança global e contribuir para
a paz no mundo. Um objetivo prioritário para a Política de Segurança alemã é o
fortalecimento da estabilidade na Europa pela consolidação e aperfeiçoamento
da integração européia e por meio de uma ativa política de boa vizinhança da
UE com os países do Leste europeu, ao Sul do Cáucaso, da Ásia Central, da
região do Mar Mediterrâneo e com a Rússia.

30 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.23


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A RFA apóia a OSCE e a ONU, como instrumentos importantes para a
sua política exterior e de segurança, empenha-se pelo seu fortalecimento e
defende uma ampla reforma da ONU.
Na segunda parte do Livro Branco, são fixadas as missões, tarefas e
capacidades das FA e estas são caracterizadas como instrumento da política
de segurança à disposição do País para assegurar a segurança da RFA.
A proteção da RFA contra ameaças do exterior é mencionada como a
missão principal das FA alemãs conforme decisão política e de acordo com
a Lei Fundamental. A defesa territorial clássica do País e da Aliança constitui
de forma imutável a tarefa central das FA alemãs, mas a possibilidade de
atentados terroristas aumenta a importância da proteção dos cidadãos e da
infra-estrutura. A prevenção e o controle internacional de crises, incluindo
o combate ao terrorismo internacional, são as missões mais prováveis em
futuro próximo. Estas missões interferem de forma marcante na estrutura e
consolidam a dimensão da capacidade, dos sistemas de comando, a prontidão
e o material de emprego militar das FA alemãs.
A interligação entre a segurança interna e externa é crescente. A
prevenção contra ameaças terroristas e outras assimétricas dentro da RFA é
prioritária e é uma missão para a segurança interna, sob responsabilidade das
repartições públicas federais e estaduais. Entretanto, as FA alemãs podem ser
requisitadas para prestar o apoio como forças militares e meios preparados
para este tipo de operação, mas sempre dentro do quadro legal para este
emprego e quando somente a ajuda das FA for capaz de controlar a situação.
O emprego dos meios militares de combate não está autorizado dentro do
País. Esta peculiaridade está sendo estudada pelo governo alemão e deve
ser ampliado o respectivo amparo constitucional no futuro.
A estrutura das FA alemãs precisa ser adaptada às novas e, ao mesmo
tempo, mais prováveis missões. Por isso, as FA estão sendo estruturadas
nas categorias de forças de intervenção, de estabilização e de apoio.
Cada categoria terá a instrução e o emprego adequado para a sua missão
específica. A capacidade das FA alemãs depende de seu pessoal e dos
recursos colocados à disposição. Pré-requisito para o êxito no cumprimento da
missão são FA que possam ser empregadas em seu total espectro de tarefas.
As FA alemãs defendem um aperfeiçoamento continuado da capacidade para
buscar este objetivo. Por isso, são tomadas medidas definidas que permitam
atender o perfil das capacidades preconizadas.
FA modernas e com capacidade são elementos do Estado para a
garantia da segurança. As FA alemãs acompanham a dinâmica do campo da

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21- -39,
42, ago/dez. 2007 31
política de segurança por meio de um continuado processo de transformação.
O objetivo do aperfeiçoamento da capacidade no espectro total das tarefas
exige um livre e amplo pensamento e uma postura das FA alemãs, bem como
maior volume de recursos. A capacidade do comando integrado de operações
é uma condição básica para contribuir na prevenção e controle internacional
de conflitos e crises.
A ação do Estado alemão, na manutenção da segurança, integra ações
políticas, militares, de desenvolvimento, econômicas, humanitárias, policiais e
de informações, como instrumentos para a prevenção de conflitos e controle
de crises. No emprego internacional, a ação integrada é imprescindível, com
vistas à utilização de meios militares e civis. O governo alemão assume os
desafios que lhe são afetos e supervisiona de forma contínua o sistema para
aperfeiçoar os instrumentos da Política de Segurança, para assegurar da
melhor forma a segurança nacional e contribuir para a segurança mundial.
O Ministro da Defesa é o comandante supremo das FA em tempo de paz.
Subordinado ao Ministro, o Inspetor Geral das FA é o principal assessor militar
do Governo Federal e o responsável para desenvolver e efetuar o conceito
geral da defesa militar, que compreende a transformação e os planejamentos
das FA, o preparo, a condução e as ações conseqüentes das operações,
bem como o estabelecimento da doutrina de emprego combinado. O Inspetor
Geral exerce ação de comando sobre o Exército, a Força Aérea, a Marinha, a
Base de Apoio das FA e o Serviço Central de Saúde. Subordinado à Base de
Apoio da FA está a Academia Federal para Política de Segurança2, instituto
equivalente à ESG.
A administração das FA alemãs é centralizada para todas as forças
singulares. Com relação ao pessoal, a Política de Segurança trata da
reestruturação das carreiras, soldos, militares temporários e de carreira,
conscritos para o serviço militar, reservistas, treinamento, instrução e ensino.

VI - Política de defesa nacional no Brasil

No Brasil, as missões das FA podem ser sintetizadas no seu emprego na


defesa da Pátria, na garantia dos poderes constitucionais, na garantia da lei e
da ordem, em atribuições subsidiárias, na prevenção e combate ao terrorismo,
nas ações sob a égide de organismos internacionais, no emprego em apoio
à política exterior e em outros empregos eventuais. Defesa e segurança são
consideradas responsabilidade do Estado e obrigação participativa de todos
2
Bundesakademie für Sicherheitspolitik. Endereço eletrônico: www.baks.org

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os cidadãos, o que significa aplicar o poder nacional e somar esforços para
aperfeiçoar os objetivos nacionais. As FA têm a missão de defender esses
objetivos contra qualquer tipo de óbice pela ação política, dissuasão ou uso da
força, opondo-se aos ataques externos ou internos. O ataque interno deve ser
entendido como uma situação que possa deteriorar as estruturas brasileiras
e o emprego das FA é conseqüência da insuficiência ou ausência de outros
meios capazes de restaurar o ambiente de normalidade.
Com a criação do MD, tornou-se possível ampliar a integração das FA
e padronizar ações na busca do aperfeiçoamento das instituições militares.
A PDN, de 2005, em sua introdução, destaca a prioridade para as ameaças
externas, a finalidade de estabelecer objetivos e diretrizes, para o preparo e
emprego da capacitação nacional, e a coordenação das atividades da defesa
nacional como responsabilidade do MD. Divide, também, a estrutura do
documento em uma parte política, onde são tratados conceitos, o ambiente
internacional e nacional e os objetivos de defesa, bem como uma parte
estratégica com orientações e diretrizes. A prioridade para as ameaças
externas tem reflexos nas orientações estratégicas, que excluem textualmente
a GLO do documento de mais alto nível, elaborado sob responsabilidade do
Ministro da Defesa, que serve de base para a elaboração de planejamentos
operacionais do próprio MD, bem como das forças singulares, razão pela qual
deve conter todas as missões atribuídas às FA.
Ao tratar do Estado, da segurança e da defesa, são apresentados
comentários e definições. Os conceitos precisam ser criteriosamente
elaborados para evitar conflito de idéias em relação ao entendimento
internacional. A parte conceitual carece de uma revisão. Para reflexão do
leitor, qual seria a sua definição para Segurança, Segurança Nacional, Defesa
e Defesa Nacional? E qual a razão que impede a adoção de uma Política de
Segurança Nacional? A sua elaboração poderia ser coordenada pelo Gabinete
de Segurança Institucional ou pelo próprio MD e o seu conteúdo com as ações
interministeriais, justificaria a sua existência para nortear a elaboração da PDN
e das políticas setoriais afins dos demais ministérios.
Na avaliação do ambiente internacional, do regional e entorno
estratégico e do Brasil, observa-se um método que parte do geral para o caso
específico brasileiro, em partes distintas e repetitivas. O modelo alemão, ao
contrário, trata dos diferentes temas simultaneamente em todos os níveis e,
ato contínuo, define as políticas correspondentes, tanto dentro da Política de
Segurança bem como nas Diretrizes da Política de Defesa. As políticas de
ambos os países caracterizam a globalização como causa de um divisor entre

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42, ago/dez. 2007 33
os países com acesso à tecnologia, em desenvolvimento e os de população
excluída do processo de produção, consumo e informação, tornando-se fonte
potencial de conflitos. Já a ordem internacional, caracterizada pela existência
de uma potência hegemônica, que causa assimetria de poder, tensões e
instabilidade na visão brasileira, se constitui em um pilar inquestionável
para a política de segurança da RFA. O multilateralismo, que fortaleceria
princípios internacionais como soberania, não-intervenção e igualdade entre
os Estados com reflexos no desenvolvimento e bem estar da humanidade
é avaliado de forma idêntica. Ambos os países estão preocupados com os
problemas ambientais e a importância dos instrumentos de inteligência e
de segurança no combate às novas ameaças contra a paz, a segurança
e a ordem internacional, caracterizados pelos delitos transnacionais e o
terrorismo internacional. A RFA e o Brasil defendem uma capacidade de
defesa compatível com a estatura dos países e de suas aspirações políticas,
o que requer atualização permanente e reaparelhamento progressivo das
FA, redução da dependência tecnológica e superação nas restrições de
acesso a tecnologias sensíveis por meio do desenvolvimento da indústria
de defesa.
O ambiente regional e o entorno estratégico trata da importância da
América do Sul, onde o Brasil está inserido, bem como incluiu o Atlântico Sul
e os países lindeiros da África, região distante dos focos de tensão e livre
de armas nucleares, o que favorece a busca de soluções negociadas dos
conflitos, ampliação e a modernização da infra-estrutura e o fortalecimento
do processo de desenvolvimento e integração no subcontinente, por meio de
diferentes organismos regionais, bem como a intensificação de cooperação
e comércio com países africanos e a consolidação de uma zona de paz e
de cooperação no Atlântico Sul. As zonas de instabilidade e os ilícitos
transnacionais podem provocar conflitos inter-estatais, tornando prioritária a
defesa do Estado para preservar os objetivos nacionais. O Brasil considera-se
qualificado, pela sua posição geopolítica, como ator principal do processo de
desenvolvimento integrado e harmônico, inclusive nas áreas de segurança e
de defesa regionais.
Na descrição do perfil brasileiro, a PDN parte da importância
geoestratégica pela localização do País no continente e destaca a Amazônia
brasileira, pelo grande potencial de riquezas minerais e biodiversidade, a
importância estratégica do Atlântico Sul, área onde o Brasil tem direito de
explorar sua Plataforma Continental, e a dimensão aeroespacial, importante
para a Defesa Nacional, porque trata da capacitação aeroespacial e do

34 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.23


21--39,
42, ago/dez. 2007
controle do espaço aéreo continental e marítimo, além da sua articulação com
os países vizinhos.
Os objetivos da defesa nacional devem constituir a base que justifica
a elaboração de uma PDN. Os objetivos da PDN brasileira são idênticos aos
da Política de Segurança alemã, enquanto que as Diretrizes da Política de
Defesa alemã consideram como objetivos o cumprimento das missões e
tarefas das FA, bem como a conseqüente busca de capacidades. Os objetivos
da defesa nacional devem emergir do confronto das missões atribuídas às
FA e a legislação complementar pertinente, o que daria a conformidade com
a realidade nacional e internacional. Considera-se básico mencionar como
objetivos da PDN a defesa da Pátria, a garantia dos poderes, da lei e da
ordem, as atribuições subsidiárias, a prevenção e combate ao terrorismo, as
ações sob a égide de organismos internacionais, apoio à política exterior e
outras que possam ser visualizadas. Uma política de segurança estabelece,
de forma ampla, os procedimentos para fazer face às ameaças externas e
internas de qualquer natureza e de forma permanente, mesmo nos períodos
de total tranqüilidade, enquanto que a política de defesa trata do preparo
e emprego da capacidade dos meios militares disponíveis, para assegurar
o cumprimento de todo o espectro de missões preconizadas para as FA.
Sintetizando, os objetivos da defesa nacional, constantes da PDN, não são
adequados para uma política de defesa.
Nas orientações estratégicas, a vertente preventiva da Defesa Nacional,
bem como seus pressupostos básicos, que residem na valorização da ação
diplomática, como instrumento primeiro na solução de conflitos, e na postura
estratégica da capacidade militar, consiste prioritariamente na diplomacia,
características de políticas de segurança. Na vertente reativa da defesa, são
respeitadas as características próprias de uma política de defesa o que fica
claro no próprio texto ao condicionar esta vertente a uma agressão ao País,
ao emprego de todo o poder nacional, com ênfase na expressão militar, e
ao direito de legítima defesa. As orientações estratégicas, que norteiam as
diretrizes conseqüentes, tratam da participação de arranjo de defesa coletiva,
do gerenciamento de crises internacionais, da capacidade da expressão militar
do País e do dimensionamento das FA. Na descrição do tipo das FA de que
o país precisa, enfatiza-se a capacidade para a atividade de inteligência e de
pronta resposta, às quais estão subjacentes as características versatilidade,
interoperabilidade, sustentabilidade e mobilidade estratégica, por meio de
forças leves e flexíveis, aptas a atuarem de modo combinado e a cumprirem
diferentes tipos de missões. O fortalecimento do sistema de defesa depende

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21- -39,
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do apoio governamental, industrial e acadêmico na produção científica e
tecnológica e na inovação. A defesa nacional define prioridade para a defesa
da Amazônia, do Atlântico Sul e da vigilância, controle e defesa do espaço
aéreo continental e marítimo.

VII- Conclusão

Este trabalho destina-se a apresentar idéias novas ligadas à segurança


e defesa, que contribuam no aperfeiçoamento da elaboração de políticas que
envolvam o MD no Brasil. O passado histórico recente vivido pelo Brasil e
pela RFA reflete-se na forma da abordagem, pelos respectivos governos, dos
assuntos relacionados à segurança e à defesa.
Para a RFA, FA modernas e eficientes são um elemento importante
à disposição da segurança nacional. A transformação tem como objetivo
incrementar a prontidão operacional para todo o espectro de tarefas, o
que requer doutrina e ação combinadas no âmbito das FA e uma estreita
aproximação interministerial. O desenvolvimento adicional das capacidades
existentes deve, ao mesmo tempo, levar em conta o envolvimento multinacional
das FA e sua capacidade de conduzir operações integradas, pré-requisito
absoluto para que elas possam tomar parte, com sucesso, em operações
multinacionais de prevenção de conflitos e gerenciamento de crises.
A proteção efetiva do país e de sua população só é possível dentro de
um quadro de segurança nacional, baseado em uma política de segurança
integrada. Medidas preventivas de segurança, a serem providas pelo
estado, necessitam, no futuro, de uma integração total dos instrumentos
políticos, militares, da política de desenvolvimento, econômicos,
humanitários, de policiamento e de inteligência para a prevenção de
conflitos e o gerenciamento de crises. As FA precisam estar em condições
de ir ao encontro do desafio de buscar uma aproximação interministerial,
não importando a tarefa, levando em consideração que os parâmetros de
segurança também estão mudando por causa dos novos riscos e novas
constelações internacionais.
As FA se incumbem de operações no nível nacional e internacional. Isso
também necessita de uma aproximação por todos os lados e integração, que
efetivamente combine instrumentos civis e militares. Uma aproximação desse
tipo tem grande importância no contexto da provisão de uma segurança nas
operações de prevenção de conflitos e gerenciamento de crises. O mesmo se
aplica ao emprego de capacidades militares e civis em operações de ajuda

36 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.23


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humanitária no caso de desastres naturais ou causados pelo homem. O Governo
Federal está levando em consideração os novos desafios para submeter os
instrumentos da política de segurança a uma constante avaliação e, quando
necessário, ao seu aperfeiçoamento. Isso serve para tornar a segurança da
RFA melhor e, ao mesmo tempo, contribuir para a paz no mundo.
O Brasil condena o terrorismo, mas não existe uma estrutura para
operações de contraterrorismo, de dispositivos de segurança para contrapor-
se a ataques cibernéticos e desenvolver uma mentalidade de defesa no
seio da sociedade brasileira. A exclusão, na PDN, do emprego das FA na
GLO e em outras atividades precisa ser revista, pois cabe ao MD baixar
políticas sobre as missões atribuídas às FA. Todas as missões para as FA
estão previstas em lei, de forma que não se justifica qualquer exclusão da
PDN, pois esta deve expressar a visão do Ministro da Defesa, em documento
setorial do Ministério, para orientar as Forças. Os atos públicos estão sujeitos
à legislação, entretanto a autoridade investida de cargo público de chefia
tem competência e obrigação em emitir ordens sobre todas as ações de sua
esfera de atribuições, como orientação aos trabalhos de qualquer natureza
que venham a ser desenvolvidos sob sua responsabilidade. Entre a lei e a
ação de comando está a política.
Observa-se, na PDN, desencontros entre as orientações estratégicas
e as diretrizes, e a sua separação, em partes distintas, torna a PDN de difícil
compreensão, o texto repetitivo, contrariando o princípio da simplicidade. O
conteúdo está excessivamente voltado para ações diplomáticas, típicas de
política exterior e de segurança, e deixa de explorar os aspectos importantes
de natureza militar. A inclusão das missões para as FA, que foram excluídas
nessa PDN, merece ser estudada, pois vivemos uma realidade onde o
emprego dentro do País deve ser considerado como provável. A redação da
PDN é um marco importante para a sociedade brasileira, consiste em orgulho
para aqueles que participaram da sua elaboração e todos devem contribuir
com o seu aperfeiçoamento e das ações de defesa, para preservar livre o
caminho da consecução dos objetivos nacionais.
A PDN em vigor é um documento genérico, sintético, impreciso e
confuso e de caráter defensivo, que evita nomear inimigos ou ameaças e
defende uma atitude conservadora e conciliatória, bem como não define um
sistema de defesa nacional. Em nenhum momento, as missões das FA são
destacadas, mas são elas que constituem os objetivos para a elaboração de
uma política de defesa. Outro aspecto que merece reflexão é a retirada da
PDN de orientações e estratégias voltadas para algumas missões atribuídas

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.23


21- -39,
42, ago/dez. 2007 37
às FA, pois podem ser essas as missões de emprego no futuro próximo. A
justificativa de que legislação específica trata do assunto não procede, pois a
PDN deve transformar a legislação existente em políticas para os integrantes
do MD e das forças singulares.
A mistura de ações típicas de políticas de segurança com as de defesa
é compreensível pela complexidade e interdependência dos campos de sua
abrangência. Isto não é privilégio da realidade brasileira, mas ocorre em
outros países com total amadurecimento em assuntos desta natureza. Existe
um vazio em termos de normatização de ações, que são consideradas de
segurança de Estado, e por isso deveriam estar consolidadas em uma política
acima de uma política de defesa. Como ainda não atingimos o amadurecimento
ideal, pela própria juventude do MD, cabe-nos, como profissionais, envidar
todos os esforços para que possamos ocupar o lugar devido, respaldados
pela competência e objetividade. Se a decisão é pela adoção, no momento,
somente por uma política de defesa, que ela seja completa, esclarecedora e
cubra todo o espectro de missões atribuídas às FA.
Com relação ao terrorismo internacional, visto como uma ameaça a ser
enfrentada pelos órgãos de inteligência e de segurança dos Estados, enquanto
que o emprego das FA se limitaria a ações de apoio, fica a questão da capacidade
de reagir diante de tais situações e será que, na hora do problema, não serão
as FA as envolvidas e mesmo cobradas pela sociedade brasileira? A opção
pela Amazônia, Atlântico Sul e África como áreas estratégicas prioritárias, é
importante para uma potência com aspirações regionais, mas considerando
a indiferença com as outras regiões do planeta, é muito pouco para um país
que deseja um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações
Unidas.
No futuro, o Brasil precisará de FA capazes de dissuadir as ameaças aos
objetivos nacionais, de defender as fronteiras, o território, o espaço aéreo, as
águas jurisdicionais e projetar o poder e a influência do País no exterior, o que
significa uma Marinha oceânica, uma Aeronáutica com capacidade de pronta
resposta estratégica e um Exército expedicionário, para sua total inserção no
ambiente internacional.
Para um País, que aspira projetar seu poder no cenário internacional,
sugere-se, em nível de Governo, uma Política de Segurança Nacional,
interministerial e com definição clara dos objetivos nacionais para garantir
a Segurança e, num segundo nível, uma Política de Defesa Nacional do
Ministério da Defesa, para assegurar o cumprimento das missões das FA
e contribuir com os objetivos formulados na Política de Segurança.

38 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.23


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42 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.23
21- -39,
42, ago/dez. 2007
A importância do Atlântico Sul para a
segurança nacional e a integração regional

Ilques Barbosa Júnior


Contra-Almirante, estagiário do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia da Escola
Superior de Guerra em 2007

I - Introdução

“Preciso de doze horas de controle do Canal da Mancha


para dominar a Inglaterra”.
(Napoleão Bonaparte).

A civilização humana, após longa evolução, iniciava a sua jornada nos


espaços terrestres. Aplicando conhecimentos adquiridos, o horizonte era
ampliado. Territórios foram alcançados, alguns deles possuíam características
que favoreciam a permanência dos agrupamentos humanos. Outros exigiam a
superação de obstáculos. Aqueles possuíam terras férteis, água e abundância de
caça; esses, pela carência de condições para a sobrevivência, forçaram novos
deslocamentos ou, então, a disputa pelos melhores espaços terrestres.
As vitórias nas disputas por espaços terrestres exigiam novos
conhecimentos, entre os quais, a capacidade de transposição de espaços
oceânicos. Nesse contexto, ocorre o início da formação dos Estados-Nação1 e,
a partir do século XIX, a consolidação de um conjunto de conceitos relacionados
com o emprego do poder dos Estados para a conquista das vitórias ou,
modernamente, para a conquista ou a manutenção dos objetivos dos Estados.
Esse conjunto de conceitos passou a integrar uma ciência, a Geopolítica.
Todavia, no decorrer dos tempos, constatamos que alguns Estados
alcançaram vantagens políticas, estratégicas e econômicas, na medida em
que os conhecimentos relativos às atividades marítimas foram aperfeiçoados
e a eles atribuídos maior prioridade frente àqueles que eram destinados às
atividades conduzidas em terra.
Os predomínios da Grécia, Roma, Portugal, Inglaterra e, atualmente, dos
Estados Unidos da América indicam que alguns conceitos, embora delineados
1
Para simplificação, nesse trabalho será empregada a expressão “Estado”, em substituição
a de “Estado-Nação”.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007 43
na Geopolítica, foram alterados a partir de condicionantes somente observados
nos Oceanos. Essa percepção permite que alguns estudiosos denominem
como Oceanopolítica, essa nova forma de orientar o emprego do Poder dos
Estados, a partir dos Oceanos.

II - O Atlântico Sul

1 - Considerações Iniciais.

Os estudos relativos à influência da geografia na política (a Geopolítica)


podem ser considerados como, em certa medida, voltados para a análise
dos desdobramentos de fatores observados em áreas terrestres na política
dos Estados. As definições de Geopolítica, a seguir apresentadas, ilustram,
parcialmente, esse entendimento, quais sejam:
Friedrich Ratzel: “estudo da influência do território sobre a população e
a dispersão do homem”.
Meira Mattos: “Uma indicação de soluções políticas condicionadas pelas
realidades e necessidades geográficas .... O território condiciona a vida de um
estado e limita suas aspirações ....”.
Halford J. Mackinder argumenta que a “geografia deve ser uma ponte
entre as ciências físicas e as sociais, assim como é fundamental o estudo
da influência da geografia na sociedade e o da influência da sociedade no
ambiente”. Nos seus estudos geopolíticos, Mackinder desenvolveu o conceito
de “área pivot”, que alcançava maior relevância político-estratégica, frente a
outras áreas terrestres do planeta, em decorrência de um conjunto de fatores
geográficos, recursos naturais e da proteção contra ataques de potências
marítimas.
Como “área pivot”, Mackinder identificou a Europa Centro-Oriental,
passando a denominá-la de “Coração do Mundo” (figura 1), e a Europa, Ásia
e África como a “Ilha Mundial” (figura 2). A preponderância do determinismo
geográfico de Mackinder, com ênfase em territórios continentais, pode ser
constatada nas seguintes assertivas:
a) quem comanda a Europa Centro-Oriental comanda o Coração do Mundo;
b) quem comanda o Coração do Mundo comanda a Ilha Mundial; e
c) quem comanda a Ilha Mundial comanda o Mundo.
Para ampliar o entendimento dos estudos de Mackinder, relembramos
que seus apontamentos foram realizados no final do século XIX,
quando:

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a) a fase de descobertas de territórios estava encerrada;
b) as ameaças ao Império Britânico, decorrentes do rearmamento e das
pretensões coloniais do Império Austro-Húngaro e da Alemanha;
c) o comércio internacional estava distante da magnitude da
atualidade;
d) a navegação a vapor era incipiente e as atividades marítimas careciam
de infra-estruturas adequadas; e
e) as iniciativas para descobrimento dos recursos naturais nos oceanos
eram quase inexistentes.
Esse conjunto de considerações indica Mackinder como o principal pensador,
do que passou a ser denominado de Teoria do Poder Terrestre .
O Almirante Alfred Thayer Mahan apontou que o controle dos mares,
ao longo da história2, caracterizou um fator de força decisivo em todas as
guerras. Com o mesmo entendimento, tivemos o Almirante Temístocles,
vencedor da Batalha Naval de Salamina, que considerava o “comando do mar
como primordial para o comando de todas as coisas”, e Ratzel, ao destacar a
importância do tráfico marítimo3 e o valor estratégico das ilhas oceânicas, em
sua obra “O mar, origem da grandeza dos povos”.
Para Mahan, os mares facilitam a mobilidade, pois não existem obstáculos
naturais, exceto em situações de mar adverso. O ordenamento jurídico relativo
aos espaços oceânicos, àquela época pouco restringia a movimentação dos
navios e a disponibilidade de portos era fundamental para o apoio logístico dos
navios.
Na atualidade, a tecnologia permite que situações de mar adverso
sejam evitadas. Por outro lado, observamos uma crescente complexidade
no ordenamento jurídico, que passou a impor restrições à navegação nos
mares, tanto a mercante como a realizada por navios de guerra. Devido à
modernização das plantas propulsoras, os navios mercantes ampliaram a
2
Na história da humanidade, encontramos diversos exemplos, onde ocorre o predomínio
do poder marítimo sobre o terrestre, quais sejam: a Cultura Grega, cuja disseminação,
que tanto influenciou a Civilização Ocidental, decorre da vitória dos gregos sobre os
persas, na Batalha Naval de Salamina, a Pax Romana, que perdurou enquanto o Mar
Mediterrâneo era o “mare nostrum”, as Grandes Navegações, que permitiram a um país,
de reduzidas dimensões territoriais, transformar-se em um império, a Pax Britânica,
onde um país insular e carente de recursos naturais, amparado nas “regras” da “Royal
Navy”, também forma um império e, finalmente, o que alguns autores denominam de Pax
Americana, onde a importância da liberdade de navegação respalda o pré-posicionamento
dos poderosos grupos de batalha da Marinha dos EUA, nucleados em porta-aviões com
propulsão nuclear.
3
Tráfico Marítimo - compreende o comércio marítimo, a atividade empresarial do transporte
marítimo e conseqüente exploração do navio como meio de transporte.

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autonomia e algumas forças navais ainda passaram a contar com eficiente
apoio logístico móvel4.
A superioridade dos conceitos postulados por Mahan, frente aos de
Mackinder, é respaldada pelos seguintes fatos:
a) as vitórias das potências marítimas nos confrontos com as potências
terrestres;
b) o comércio mundial, prioritariamente realizado por meio de navios
mercantes5;
c) a magnitude dos recursos naturais existentes no mar;
d) o constante desenvolvimento de tecnologias para a exploração desses
recursos;
e) a importância dos oceanos para o meio ambiente; e
f) a crescente ocupação humana de áreas marítimas6.
A influência dos espaços oceânicos foi consolidada pelo que passou a
ser denominado de Teoria do Poder Marítimo, tendo no Almirante Mahan seu
principal formulador. Entretanto, a Teoria do Poder Marítimo deixou de alcançar
o mesmo prestígio acadêmico da apresentada pelos estudiosos do Poder
Terrestre, em grande medida, pela exigência de maiores conhecimentos sobre
as atividades marítimas.
Dessa maneira, é conveniente empregar os conceitos apresentados por
Mahan para iniciar a análise da influência dos fatores observados nos oceanos
na política dos Estados, ou seja, a Oceanopolítica.

2 - A Oceanopolítica: discussão preliminar de conceitos básicos.

A Oceanopolítica também envolve o estado como elemento central para a


adoção de decisões soberanas sobre o destino de sua população, assim como
nas relações de poder entre estados. A grande distinção entre a Geopolítica e
a Oceanopolítica, decorre das dimensões, das características e possibilidades
da área marítima e da constatação de que as fronteiras entre países são
estabelecidas, a partir das diversas interações decorrentes das relações de
4
Como exemplo de apoio logístico móvel, apontamos a Marinha dos Estados Unidos da
América que vem promovendo a substituição das tripulações com os navios ainda em
operações no mar.
5
Atualmente, cerca de 50.000 navios mercantes transportam 90% do comércio mundial.
6
Em águas de jurisdição brasileira, a Petrobras possui 43 sondas, 93 plataformas e opera
69 navios petroleiros e 996 poços ativos. Na Bacia de Campos são realizadas atividades
logísticas de transporte envolvendo 275 toneladas/mês, para o abastecimento de 45000
pessoas, na grande maioria brasileira, que vivem em área marítima onde o Brasil exerce
direitos distintos daqueles previstos para o Mar Territorial.

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poder, e não, prioritariamente, por proximidades indicadas em demarcações
físicas no terreno. Nessas interações, têm destaque especial, em um mundo
cada vez mais interdependente, aquelas que possuem características
econômicas.
É oportuno mencionar que a Geopolítica foi desenvolvida a partir de
estudos de uma parte do globo terrestre, onde prepondera a continuidade dos
territórios continentais, ao contrário de abaixo da Linha do Equador (como
pode ser observado na figura 3), quando a ocupação dos espaços passa para
os oceanos.
Os argumentos relativos à Oceanopolítica ainda encontram respaldo em
fatos históricos, que envolveram nações que observavam a Teoria do Poder
Terrestre (as continentais) e as que delineavam suas decisões considerando
a Teoria do Poder Marítimo (as marítimas).
Assim, apontamos as iniciativas da França, Alemanha e Rússia que, em
períodos distintos, procuraram dominar o “Coração do Mundo”, observando
conceitos existentes na Teoria do Poder Terrestre. Nessas iniciativas,
destacamos os esforços despendidos, por esses países, no sentido de também
possuírem Marinhas com capacidade oceânica e de projeção de poder. Em
todas as ocasiões, os esforços desses países não alcançaram êxito.
Como exemplos, temos as derrotas da França nas batalhas de Cabo São
Vicente, Aboukir e Trafalgar que, além de impedirem a invasão da Inglaterra,
possibilitaram a transformação de um país insular no Império Britânico.
Impedido de invadir a Inglaterra e desprovido de uma Marinha com capacidade
de apoiar o esforço de guerra da França, Napoleão Bonaparte volta-se para
o “Coração do Mundo”. Entretanto, as derrotas nas batalhas navais impedem
o fortalecimento do Império Francês sendo, portanto, determinantes para as
derrotas nas batalhas de Borodino, para a Rússia, e Waterloo, principalmente
para a Inglaterra.
Ainda temos as derrotas da Alemanha em duas guerras mundiais, sendo
precedidas pelas derrotas nas batalhas navais do Atlântico, que impediram a
manutenção do fluxo logístico dos países centrais e do eixo e, novamente, a
invasão da Inglaterra.
Ao verificarmos as características dos países líderes da Organização
do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), visualizamos uma associação dos
conceitos dessa Organização com alguns daqueles previstos na Teoria do
Poder Marítimo, pois algumas das considerações de Mahan estão presentes
no preparo e emprego do Poder Militar da OTAN. Dentre esses, temos a
atribuição de prioridade para as Marinhas, disponibilidade de apoio em bases

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94, ago/dez. 2007 47
ultramarinas, políticas econômicas que fortalecem o comércio exterior e a
mentalidade marítima.
Dessa maneira, a vitória na Guerra Fria também pode ser considerada
como uma conseqüência do emprego das principais Marinhas da OTAN na
contenção do avanço soviético, por meio da manutenção da liberdade de
navegação e do fluxo logístico indispensável para projeção de poder sobre
terra em diversas regiões do mundo, como na Coréia e Vietnã.
Entretanto, alguns estudiosos consideram que a Geopolítica engloba
a Oceanopolítica. Todavia, por atuar em ambiente totalmente diverso do
terrestre, a Oceanopolítica desenvolve uma série de conceitos onde são
analisadas as características dos portos, os recursos existentes no mar, a
mentalidade marítima e as conexões comerciais, históricas e culturais com
países que, em muitas oportunidades, estão separados por um imenso
oceano.
Dessa maneira, os conceitos da Oceanopolítica devem orientar o
entendimento da importância da ocupação dos espaços oceânicos, seja por
meio de navios e embarcações de todos os tipos, ou então, em conseqüência
das inúmeras atividades de exploração de recursos naturais. Essa realidade
destaca, como veremos, a crescente relevância da CNUDM.
As diretrizes da CNUDM estabeleceram direitos e deveres relativos ao
Mar Territorial, à Zona Contígua, à Zona Econômica Exclusiva e à Plataforma
Continental. Essas diretrizes estabelecem conexões jurídicas, anteriormente
somente observadas em territórios continentais, entre o mar e todas as
possibilidades de interação do poder do Estado, seja ele costeiro ou, ainda
e de forma inédita, aquele que distante de seu território continental, possui
interesses em uma determinada área marítima.
Esse novo ordenamento jurídico está contribuindo para o estabelecimento
de um novo tipo de fronteiras, as “marítimas”. Na figura 5, podemos observar
áreas onde o estado, como previsto na CNUDM, possui direitos a preservar
e deveres a cumprir. No entanto, a Oceanopolítica envolve áreas marítimas
ainda mais distantes, que as delimitadas pelas “fronteiras marítimas”, pois o
tráfico marítimo estabelece a necessidade de adoção de medidas destinadas
a manter ou a conquistar objetivos do Estado, a salvaguardar a segurança da
vida humana no mar e a preservar o meio ambiente.
Essas medidas podem provocar situações de tensão nas relações entre
os Estados. Dentre essas situações, temos os assuntos relativos à Segurança
Nacional, a integração de países e a carências jurídicas da CNUDM e do Direito
Internacional, especialmente quanto aos seguintes aspectos:

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a) a possibilidade do envolvimento de navios mercantes ou instalações
marítimas em atentados terroristas, como alvos ou vetores do ataque,
caracteriza séria ameaça à Segurança Nacional de qualquer país, devido
ao potencial de destruição ser capaz de afetar importantes infra-estruturas
econômicas e o meio ambiente, além da perda de vidas humanas. A
Organização Marítima Internacional, para fazer frente a essa ameaça,
ampliou a Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana
no Mar, por meio de resoluções, visando o atendimento da Segurança
Nacional dos países envolvidos com atividades marítimas. Assim, passamos
da Segurança da Vida humana para a Segurança do Estado;
b) a necessidade de aperfeiçoamento das pesquisas científicas e
atividades marítimas, especialmente dos respectivos controles de execução e
dos benefícios decorrentes;
c) a ocupação humana dos espaços oceânicos poderá respaldar a
ampliação de direitos dos países nesses espaços, com base em uma espécie
de reedição atualizada do conceito de “Utis Possidetis7”. Nesse contexto,
as recentes resoluções da Comissão de Limites da Plataforma Continental
da Organização das Nações Unidas (CLPCNU), com relação à Plataforma
Continental do Brasil, alcançam uma relevante importância, pois permitirá a
incorporação de uma área marítima de grandes dimensões e com significativas
riquezas ao patrimônio do País. Na figura 6, pode ser visualizada a área marítima
motivo do pleito brasileiro;
d) a regulamentação da pesca de espécies migratórias, em alto mar. É
oportuno destacar que a pesca predatória de algumas dessas espécies afeta
a biomassa oceânica, o que provoca efeitos que dificultam a preservação dos
recursos vivos que habitam tanto o Mar Territorial, como a Zona Econômica
Exclusiva e a Plataforma Continental; e
e) a importância do fortalecimento do Direito Internacional, em um cenário
político-estratégico caracterizado pela existência de uma unipolaridade militar
e, especialmente, como veremos no capítulo 2, por iniciativas que procuram
alterar conceitos fundamentais nas relações internacionais, como o de Estado,
Soberania Nacional e Segurança Nacional.
Para ampliar o entendimento do cenário, onde se inserem as situações
de tensão acima mencionadas, é oportuno acrescentar que alguns países vêm
apresentando conceitos relativos à ocupação e a assunção de autoridade e
responsabilidades sobre áreas marítimas com dimensões distintas daquelas
7
Utti Possidetis. Princípio do Direito Internacional defendido, inicialmente, pela França sobre o
qual dizia que uma determinada área pertence a quem realmente a ocupa.

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indicadas na CNUDM. É o caso de alguns estudiosos do Chile, que advogam
o conceito de “Território Oceânico Nacional”. Na figura 7, pode ser observada
a dimensão dessa área marítima.
A Rússia também apresentou uma proposta de expansão dos limites da
Plataforma Continental a CLPCNU. Entretanto, diferentemente do ocorrido com a
do Brasil, a proposta russa não foi aceita; devido a questões de limites de áreas
marítimas com países vizinhos. Nesse contexto, é oportuno mencionar que, em
agosto de 2007, a comunidade internacional tomou conhecimento que um mini-
submarino havia colocado uma bandeira Russa, a 4261 metros da superfície do
Oceano Ártico8. Essa iniciativa está relacionada a reservas de petróleo e gás.
O Brasil, por sua vez, vem promovendo o conceito de Amazônia Azul,
pautado nas diretrizes da CNUDM, sobre Mar Territorial, Zona Contígua, Zona
Econômica Exclusiva e Plataforma Continental, de modo a alertar os brasileiros
sobre a importância de uma área de dimensões superiores a Amazônia
Continental.
Além da possibilidade de outras pretensões semelhantes às comentadas,
também podem contribuir para o aparecimento de tensões o fato de alguns
países ainda não terem aderido a CNUDM. Essa fragilidade da CNUDM
caracteriza fator complicador nas relações internacionais, pois algumas das
áreas marítimas apontadas são consideradas patrimônio da humanidade;
outras, inseridas no ordenamento da CNUDM, passam a estar envolvidas em
legislação específica.

3 - O espaço oceanopolítico do Brasil

Após a análise de aspectos da Oceanopolítica, estamos em condições


de abordar, com maior amplitude de conceitos, a questão do Brasil relativa ao
Oceano Atlântico Sul.
De início, é necessário justificar e, a seguir, indicar o espaço oceanopolítico
de interesse do Brasil.
A dificuldade para a identificação de um espaço oceanopolítico pode
ser constatada por meio da diversidade de tópicos a serem analisados para a
sua demarcação, tais como:
a) as linhas de comunicações marítimas9. As do Brasil estão indicadas
na figura 8 e envolveram, em 2006, US$ 230 bilhões;
8
Site www1.folha.uol.com.br/follha/mundo.
9
Expressão que representa a rota de navegação empregada pelo tráfico marítimo. Os navios
mercantes navegando materializam as linhas de comunicações marítimas.

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b) as ameaças aos Estados, considerando a internacionalidade das
atividades marítimas e os diversos matizes das ameaças da atualidade;
c) a continuidade dos espaços oceânicos e a mobilidade das correntes
marítimas, na medida em que ampliam a potencialidade do tráfico marítimo e
das atividades de exploração dos recursos do mar comprometerem o ambiente
marinho;
d) as vulnerabilidades estratégicas, como as plataformas de exploração
de petróleo e gás, usinas de energia e a localização de contingentes humanos
e centros econômicos próximos ao litoral. A figura 9 indica a localização das
bacias de exploração de petróleo e gás no Brasil;
e) os compromissos internacionais, como acordos, tratados e resoluções
de organismos internacionais, inclusive aquelas relacionadas com as operações
de paz. Dentre tantos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil,
pode ser destacada a Convenção para a Salvaguarda da Vida Humana no
Mar, a Convenção de Hamburgo de 1978, que estabelece a área marítima de
responsabilidade do País, ilustrada na figura 10, e o Tratado Interamericano
de Assistência Recíproca, figura 11, e o de Coordenação da Área Marítima do
Atlântico Sul, figura 12;
f) os imperativos estratégicos, que devem ser atendidos de modo a
ser preservada a capacidade do estado costeiro fortalecer a Segurança
Nacional. Como imperativos estratégicos brasileiros apontamos a segurança
da navegação nas linhas de comunicações marítimas e nas proximidades
das seguintes posições estratégicas: Canal do Panamá, salientes nordestino
e africano, Estreito de Magalhães, Passagem de Drake, Canal de Beagle e
nas proximidades da Antártica e no Cabo da Boa Esperança. As posições
estratégicas constam da figura 13;
g) os eventos da história do país, que acarretam afinidades culturais com
outros países. Como a participação da Marinha do Brasil em dois conflitos
mundiais, onde patrulhamos área marítima da Costa Oeste da África até o
Estreito de Gibraltar e escoltamos comboios entre o Caribe e a costa sul do
Brasil, bem como as relações históricas, culturais e econômicas com os países
do Caribe e da América do Sul e da África; e
h) as dimensões do litoral e a existência ou não de ilhas oceânicas
propícias a estabelecimento de apoio logístico fixo e de hidrovias que integrem
o interior ao ambiente marítimo e vice-versa. Temos no comprimento do litoral
brasileiro, da ordem de 8000 km (10000 km, se considerarmos a extensão
do Rio Amazonas até Manaus), na Ilha da Trindade e nos Arquipélagos de
Fernando de Noronha e São Pedro e São Paulo e a foz do Rio Amazonas

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importantes marcos geográficos que contribuem para as dimensões da
Plataforma Continental.
A partir da análise desses tópicos, é possível apresentar como espaço
oceanopolitico do Brasil, a seguinte área marítima: “O Atlântico Sul, parte
do Atlântico Norte (até 18º de latitude norte), o Mar do Caribe, a Costa
Oeste da América do Sul (Oceano Pacífico), a Antártica, a Costa Oeste e
a Costa Leste (até Moçambique) da África (Oceano Índico)”. Esse espaço
oceanopolítico pode ser visualizado na figura 14.
Uma outra proposta, esta constante na Política de Defesa Nacional,
contempla parte do Atlântico Norte (até 16º de latitude norte), a Costa
Oeste da África, a Antártica, Leste da América do Sul e Leste das Antilhas
Menores. Nesse espaço oceanopolítico, não estão inseridas as áreas
marítimas do Oceano Pacífico e do Oceano Índico. Nesse caso, deixaram
de serem atendidos alguns dos tópicos empregados para a demarcação de
um espaço oceanopolítico, como os relativos às linhas de comunicações
marítimas, posições estratégicas como o Canal do Panamá, compromissos
internacionais, como o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca e a
Operação de Manutenção da Paz no Haiti, e laços históricos e culturais.
No interior do espaço oceanopolítico, ainda podem ser consideradas às
“fronteiras marítimas”. É nesse contexto, que deve ser entendida a magnitude
da importância das resoluções da Comissão de Limites da Plataforma
Continental da ONU, pois estamos demarcando a expansão do Brasil para
o Leste. Sobre o ponto de vista da Segurança Nacional e em situações de
conflito, as linhas de comunicações marítimas devem ser protegidas, como
ocorreu nas Guerras Mundiais, como se “fronteiras marítimas” fossem,
mesmo quando alcançarem espaços oceânicos de outros países.
Quando analisamos, de forma conjunta, os desdobramentos de eventuais
situações de tensão nas relações entre o Brasil e outros estados, a expansão
do nosso patrimônio para o Leste, a exploração de recursos naturais existentes
no mar, as nossas vulnerabilidades estratégicas e a importância estratégica
das linhas de comunicações marítimas apontamos que o Oceano Atlântico
Sul representa a “Sobrevivência” e a “Prosperidade” do Brasil.
“Sobrevivência” porque pelo mar recebemos os produtos e realizamos
serviços vitais para o fortalecimento do Poder Nacional e, conseqüentemente,
para a neutralização das vulnerabilidades estratégicas com maior capacidade
de impacto na Segurança Nacional e “Prosperidade” porque é a partir do mar
que enviamos produtos necessários para a obtenção dos recursos financeiros,
que são fundamentais para o desenvolvimento nacional.

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III - Segurança nacional

1 - Considerações Iniciais

O conceito de Estado alcançou um novo patamar em 1648, no Tratado


de Westphalia. Após a Revolução Francesa, esse conceito adquire outros
contornos, com a substituição do emprego de mercenários pelo de cidadãos
em armas, nas tarefas relacionadas com a segurança de uma coletividade,
que passa a refletir, com maior nitidez, uma identidade de caráter mais amplo,
a Nação.
Ainda observamos que, nesse período da história, ocorre a formação
de Forças Armadas constituídas de nacionais, a serem empregadas na
preservação da Soberania Nacional. Esse conceito, por sua vez, decorre da
transferência dos poderes do soberano, como representante do que de mais
importante deve ser preservado para efeitos de segurança, para um conjunto
de cidadãos que, por possuírem diversos aspectos comuns, estão dispostos
a ter um mesmo destino.
Assim, constatamos que evoluímos de uma segurança proporcionada
por agrupamentos de seres humanos, para outra, onde ocorre a participação
de uma coletividade, tanto no que se refere ao emprego dos cidadãos em
situações de tensão como de seus representantes na seleção de valores e
interesses (objetivos10) a serem preservados ou alcançados, especialmente
nas sociedades democráticas.
Dessa maneira, podemos admitir que o conceito de Segurança Nacional
está associado ao de Estado e envolve objetivos do Estado e, eventualmente,
o emprego de Forças Armadas para a consecução ou manutenção desses
objetivos.
Entretanto, constatamos que nas relações internacionais, onde existia o
predomínio dos Estados, passaram a atuar novos atores, como as organizações
internacionais, organizações não-governamentais, empresas multinacionais
e o crime organizado, entre outros, assim como passou a ser possível a
comunicação – em tempo real – envolvendo os, até então, distantes Estados
e os novos atores. É oportuno observar que as relações internacionais da
atualidade abrangem, além de conceitos tradicionais, como a Soberania
Nacional e a Auto-Determinação dos estados, outros temas, como a questão
10
Para simplificar o entendimento, nesse trabalho, vamos considerar objetivos nacionais como
sinônimos de interesses nacionais. Essa decisão decorre da constatação do emprego,
inclusive na Política de Defesa Nacional, da expressão interesses nacionais em detrimento
de objetivos nacionais, observada pela ESG.

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ambiental, as minorias étnicas, a pobreza, os fenômenos da natureza, o
“apartheid” tecnológico e o controle da proliferação de armas de destruição
em massa. Ao analisarmos essas constatações, apontamos:
a) a influência das sociedades dos Estados mais desenvolvidos, em
assuntos de Segurança Nacional, pode estar contribuindo para distorções no
entendimento do papel dos Estados; e
b) a proliferação de atores nas relações internacionais provoca propostas
de alterações no conceito de Segurança Nacional, passando da nacional para
uma outra, onde, além das instituições nacionais, pode ocorrer a atuação de
instituições internacionais11.
Como o conceito de Segurança Nacional envolve o Estado, a conquista e
a preservação de objetivos e as Forças Armadas; o que, em síntese, representa
a própria existência do Estado e, em decorrência, a estabilidades das relações
internacionais é oportuno aprofundar a discussão do assunto “Segurança
Nacional”, antes de analisarmos os desafios a serem superados para o seu
aperfeiçoamento no Brasil.

2 - Segurança nacional

Uma definição, que podemos denominar de tradicional, do conceito de


Segurança Nacional envolve somente o atendimento dos objetivos do Estado,
sendo possível considerar aspectos dos direitos e liberdades individuais ou
mesmo da comunidade internacional, desde que inseridos na situação político-
estratégica do Estado.
Nos Estados Unidos da América (EUA), a Segurança Nacional está
diretamente relacionada com a sobrevivência do Estado. É alcançada por
meio do emprego dos poderes econômico, militar e político e do exercício da
diplomacia12, destacando-se:
a) emprego da diplomacia para fortalecer aliados e isolar ameaças;
b) manutenção de Forças Armadas no estado da arte, eficientes e
eficazes;
c) fortalecimento da Defesa Civil e da preparação para o enfrentamento de
situações de emergência, inclusive uma adequada legislação anti-terrorismo;
d) assegurar a resistência, a capacidade de reação e a redundância, no
que se refere à infra-estrutura crítica;
11
Os envolvimentos de diversos setores da Organização das Nações Unidas em assuntos que,
há pouco tempo, pertenciam ao ambiente interno de cada país ilustram esse argumento.
12
Disponível: //en.wikipedia.org/wiki/National_security.

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e) emprego de serviços de inteligência para detectar e neutralizar ou evitar
ameaças e espionagem e proteger informações classificadas; e
f) emprego de serviços secretos de contra-inteligência ou polícia secreta
para proteger a nação de ameaças internas.
A Escola Superior de Guerra (ESG) define Segurança Nacional como a
garantia relativa, para a nação, da conquista e manutenção de seus objetivos
permanentes, proporcionada pelo emprego do seu Poder Nacional. Quando se
trata de ameaças de qualquer origem, forma ou natureza situadas no domínio
das relações internacionais, o problema é de segurança externa. Quando se
trata de ameaças que possam manifestar-se ou produzir efeitos no âmbito
interno do país, o problema é de segurança interna.
As abordagens dos EUA e da ESG deixam de mencionar, ao menos
claramente, valores que cada vez mais vêm sendo reclamados pela comunidade
internacional, como o respeito às minorias e a privacidade, no ambiente interno,
e o multilateralismo, no ambiente externo.
Uma expansão dessas abordagens pode ser encontrada na Política de
Defesa Nacional, onde segurança caracteriza uma condição que permite ao
País a preservação da Soberania e da Integridade Territorial, a realização dos
seus interesses nacionais, livre de pressões e ameaças de qualquer natureza, e
a garantia aos cidadãos do exercício dos direitos e deveres constitucionais.
Para Thomaz Guedes da Costa13, segurança é uma concepção que
vai além de considerações puramente militares, alicerçando-se na estrutura
socioeconômica da sociedade, no indivíduo e em grupo de pessoas. Marco
Cepik14 conceitua Segurança Nacional como uma condição relativa de proteção
coletiva e individual dos membros de uma sociedade contra ameaças plausíveis
à sua sobrevivência e autonomia.
No entanto, observamos que a Política de Defesa Nacional e Thomaz
Guedes Costa deixam de empregar a expressão — Segurança Nacional”. Entre
as prováveis causas desse fato, podemos apontar o dilema existente entre o
estabelecimento de medidas planejadas para o fortalecimento da Segurança
Nacional, ou seja, o Estado, e o atendimento dos direitos civis e liberdades
individuais.
De uma maneira geral, a Segurança Nacional prevê medidas que
procuram beneficiar a sociedade como um todo, visando, diretamente, a

13
Professor do Center for Hemispheric Defense Studies, subordinado ao Comando Combinado
Sul, das Forcas Armadas dos Estados Unidos da América.
14
Professor da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador da Universidade Federal
do Rio de Janeiro.

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preservação da Soberania Nacional e da capacidade de Auto-determinação
do Estado. Para tal, pode ser considerada a adoção de níveis de controle da
mídia e restrições ao direito de ir e vir e a privacidade15. Todavia, tais medidas,
além de beneficiarem o Estado, também podem ser, indevidamente, adotadas
para limitar os direitos civis e as liberdades individuais dos cidadãos.
Para dificultar a aceitação das medidas destinadas a Segurança Nacional,
temos as ameaças de difícil identificação que, por isso, são denominadas de
difusas ou assimétricas e onde estão inseridas as possibilidades de ocorrência
de ataques ou de desdobramentos de fenômenos da natureza com capacidade
de abalar as estruturas de um Poder Nacional, afetando, inclusive, a comunidade
internacional. As suas origens são as mais diversas, podendo ser organizações
terroristas ou criminosas, uma organização internacional16 ou os furacões e
maremotos.
Assim, fica caracterizado um cenário político-estratégico onde assegurar a
Segurança Nacional (o Estado) exige a redução na dificuldade de identificação
das ameaças17, o que acarreta uma maior diversidade nas atividades de
inteligência e, considerando as diversas origens das ameaças, a ampliação da
integração com outros países das medidas necessárias para a neutralização
dessas ameaças. Essa situação reflete o dilema da Segurança Nacional:
“atender o Estado (Soberania Nacional) ou as liberdades individuais e os direitos
civis”. Quando privilegiamos as liberdades individuais e os direitos civis, o
dilema indica a redução da participação do Estado na vida dos cidadãos; o que,
como analisaremos, contribui para o aparecimento do conceito de Segurança
Humana.

3 - Segurança humana.

Durante a Guerra Fria existiam, basicamente, dois agrupamentos de


países: a leste, liderados pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas,
estavam os países que adotavam o comunismo, e, a oeste, liderados pelos
EUA, estavam aqueles que, em sua maioria, optaram pelo capitalismo. Em
15
Nos Estados Unidos da América persiste a controvérsia decorrente da implantação, em
decorrência dos atentados de 11 de setembro de 2001, do USA Patriot Act, envolvendo a
questão relativa à extensão do comprometimento da segurança nacional em benefício dos
direitos e liberdades individuais ou, ao contrário, o comprometimento dos direitos e liberdades
individuais em benefício da segurança nacional. Disponível: //en.wikipedia.org/wiki/USA_
PATRIOT_Act.
16
A OTAN caracterizou uma ameaça real para a Sérvia.
17
Na atualidade, segundo Afonso Barbosa, temos dificuldades para identificar a ameaça, mas
temos a percepção da sua existência.

56 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


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que pese o perigo da simplificação das relações internacionais, é possível
admitir que, nesse período, a identificação das ameaças aos estados decorria
de apreciações político-estratégicas, onde a influência da variável política era
predominante.
Após a Guerra Fria, além da redução da importância dos agrupamentos
políticos de países18, aumentou a prevalência das variáveis econômicas nas
relações internacionais. É o início da Globalização Contemporânea19; que
acarreta diversos desdobramentos, sendo o principal deles o fortalecimento
da idéia de um Governo Mundial. Nesse sentido, antes de analisar o conceito
de Segurança Humana, é conveniente apresentar algumas definições de
Globalização. Dentre outras, temos:
Joseph E. Stiglitz: “É a integração mais estreita dos países e dos povos
do mundo que tem sido ocasionada pela redução de custos de transporte e
de comunicações e a derrubada de barreiras artificiais aos fluxos de produtos,
serviços, capital, conhecimento e (em menor escala) de pessoas através das
fronteiras....”.
Michael Hardt e Antonio Negri: “.... globalização de malhas de produção
... atira sua rede de amplo alcance para tentar envolver todas as relações de
poder dentro da nova ordem mundial - e ao mesmo tempo exibe uma poderosa
função policial contra novos bárbaros e povos rebeldes que ameaçam sua
ordem....” “ ...as fronteiras dos Estados-Nação, entretanto, são cada vez mais
permeáveis a todo tipo de fluxo. Nada pode trazer de volta os escudos higiênicos
das fronteiras coloniais”.
Dessas definições decorrem alguns questionamentos, quais sejam:
a) a Globalização está relacionada com um ordenamento jurídico
supranacional ? Tendo uma resposta afirmativa, devemos admitir alterações
nos conceitos de Soberania e de Segurança Nacional; e
b) o ordenamento jurídico supranacional pode contemplar o Direito
de Intervenção20 a algum estado ou organismo internacional ? Da resposta
afirmativa, podemos nos remeter à necessidade de identificação dos

18
Os redirecionamentos político-estratégicos da Organização do Tratado do Atlântico Norte e o
término do Pacto de Varsóvia ilustram esse argumento.
19
Denomino de “Globalização Contemporânea” por considerar que a globalização também
ocorreu durante a disseminação da Cultura Grega e nos períodos da Pax Romana, das
Grandes Navegações e da Pax Britânica.
20
Michael Hardt e Antonio Negri, O Império, pág. 35. Direito de Intervenção. “Ele é geralmente
concebido como o direito ou o dever que tem os senhores dominantes da ordem mundial
de intervir em territórios de outros senhores no interesse de prevenir ou resolver problemas
humanitários.”

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.4321- -39,


94, ago/dez. 2007 57
crimes ou transgressões, que constituiriam esse ordenamento jurídico
supranacional.
De início, ficam evidentes as dificuldades para a identificação desses
crimes e transgressões. Em um exercício de imaginação, alguns temas que
alcançam repercussão na comunidade internacional, poderiam ser considerados
como balizas para a mencionada identificação; quais sejam:
a) a inobservância de liberdades individuais e direitos civis;
b) o comprometimento do meio ambiente;
c) as minorias étnicas e camadas sociais desprotegidas;
d) a imposição de dificuldades para a internacionalização de recursos
naturais; e
e) a imposição de dificuldades para a ocupação de territórios escassamente
povoados.
O relatório sobre o Desenvolvimento Humano do Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento, divulgado em 1994, aborda algumas das
balizas mencionadas e consolida diversas iniciativas que fortalecem o conceito
de Segurança Humana.
Essas iniciativas prevêem que o papel protagonista em assuntos de
segurança deixa de ser exercido pelo estado, sendo transferido para uma
diversidade de opções, tais como: os indivíduos, grupos de indivíduos, minorias
étnicas e, até mesmo, a humanidade como um todo. Na mesma direção, é o
pensamento de Norberto Bobbio, quando afirma ... “que haverá paz estável,
uma paz que não tenha a guerra como alternativa, somente quando existirem
cidadãos não mais deste ou daquele Estado, mas do mundo”.
Dessa maneira, podemos apontar que Segurança Nacional envolve,
basicamente, a preservação do Estado, de suas prerrogativas nas relações
internacionais e da sociedade que o compõe. A Segurança Humana, por sua
vez, abrange tudo o que está relacionado com os seres humanos.
Também pode ser apontado que, na Segurança Nacional, cabe às
Forças Armadas, às Polícias Militares e Civis e às Instituições de Inteligência o
cumprimento de missões atinentes às demandas de segurança do estado, pois,
a essas instituições é autorizado o emprego da força, desde que observadas
legislações específicas.
Para o atendimento das diversas necessidades da Segurança Humana
(pobreza, meio ambiente et cetera), é necessário empregar todas as instituições
de um governo, inclusive as Forças Armadas. Essa realidade respalda os
seguintes entendimentos:

58 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


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94, ago/dez. 2007
a) às Forças Armadas devem ser alocadas capacidades compatíveis com
o emprego em atendimento do previsto na Segurança Humana, assim como
prepará-las para o cumprimento de missões onde não ocorrerá o emprego da
força; e
b) o atendimento das demandas da Segurança Humana ocorrerá na
mesma intensidade de uma execução eficiente de adequados programas de
governo.
A análise desses entendimentos revela comprometimentos do conceito
de Segurança Humana, pois a fragilidade militar sempre caracteriza um
aumento na probabilidade de conflitos e a execução de programas de governo
pressupõe o fortalecimento do Estado, na medida em que são necessárias
instituições nacionais capazes de cumprirem os programas idealizados
ou, então, para interagirem com eventuais participações de instituições
internacionais no equacionamento dos problemas indicados pela Segurança
Humana.
Quando associamos a análise referente à Segurança Nacional, as
definições de Globalização, com destaque para as propostas de relativização do
conceito de Soberania Nacional21 e as considerações sobre Segurança Humana
observamos que alguns dos temas, incluídos na agenda desse novo conceito
p. 43 - 94,
de segurança, foram avaliados como possíveis balizas para a identificação de
crimes ou transgressões transnacionais.
Dessa maneira, delineados aspectos relativos à Segurança Nacional
e quanto a Segurança Humana, é oportuno identificar e analisar os desafios
necessários para o aperfeiçoamento de uma Segurança Nacional que
corresponda aos objetivos do Brasil.

Desafios à Segurança Nacional no Início do Século XXI.

Antes de iniciarmos as considerações sobre os desafios22 à Segurança


Nacional é conveniente reiterar que estamos em um cenário político-estratégico,
onde existem situações de cooperação e, ao mesmo tempo, uma acirrada
competição pela disputa de mercados e de recursos naturais. Ampliando um
pouco mais a complexidade das relações internacionais, a maior relevância
dos objetivos econômicos também contribuiu para o ressurgimento de temas
21
A União Européia caracteriza um bom exemplo de relativização do conceito de Soberania
Nacional.
22
Os desafios que serão apresentados decorrem da atualização da aula inaugural dos Cursos
de Política e Estratégia Marítima e de Comando e Estado-Maior, da Escola de Guerra Naval,
1996.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007 59
que, embora latentes, deixavam de receber prioridade na agenda política de
alguns países.
Esses temas, em grande medida, coincidem com aqueles constantes no
conceito de Segurança Humana, como as já mencionadas questões ambientais,
das minorias étnicas e a penúria em que vive grande parcela da população
mundial. Nesse contexto, também passou a receber destaque a divulgação do
conceito de bem público internacional23, que deve ser protegido e explorado
em benefício da comunidade internacional.
A partir de conceitos que afetam pilares fundamentais das relações
internacionais e avaliados como de difícil execução, considero adequado
e oportuno analisar os desafios para a Segurança Nacional que devem ser
superados para o atendimento dos objetivos do Brasil.
A partir de uma relação de desafios, que deve ser considerada como
preliminar, serão analisados – separadamente – o Desafio Cultural, o Político-
Estratégico, o Estrutural e o Orçamentário. Embora a análise seja segmentada,
poderá ser observado que ocorrem interações entre os desafios.

Desafio Cultural:

A participação marginal do Brasil, em dois conflitos mundiais e na Guerra


Fria, pode ter contribuído para dificultar o desenvolvimento de uma cultura
relativa à segurança nacional destinada – prioritariamente – ao atendimento
de nossos objetivos. Esse entendimento respalda Samuel Pinheiro Guimarães,
que considera necessário consolidar conhecimentos autóctones para que
possamos ver o mundo segundo o nosso ponto de vista.
Outros aspectos também contribuem para ampliar, ainda mais, as
dificuldades relacionadas com o Desafio Cultural, quais sejam:
a) a elevada dinâmica de desenvolvimento da tecnologia; e
b) a crescente integração de sistemas de emprego dual (civil e militar).
Nessa situação, a ESG tem papel relevante, pois Civis e Militares podem,
juntos, aperfeiçoar o estudo de assuntos relativos à Segurança Nacional. Uma
maior participação de Civis nas Escolas Militares de Altos Estudos de Política
e Estratégia das Forças Armadas também contribuiria para o equacionamento
do Desafio Cultural.
Entretanto, a superação do Desafio Cultural exige, ainda, uma maior
interação entre os diversos setores da sociedade, de modo a que estigmas,
23
Podem ser consideradas como bem público internacional as reservas florestais e a água.

60 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


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preconceitos e conceitos alienígenas sejam neutralizados e o conhecimento
nacional seja ampliado e consolidado.
Adicionalmente, será necessário atribuir prioridade para o atendimento dos
objetivos nacionais, considerando parâmetros econômicos24 e as vulnerabilidades
estratégicas do País. Atribuir prioridade associando a economia com suas
possibilidades e limitações, pode acarretar profundas alterações no pensamento
militar brasileiro sobre Segurança Nacional, especialmente, quando for constatado
que a Sobrevivência e a Prosperidade do Brasil decorrem do Atlântico Sul.

Desafio Político-Estratégico:

O Desafio Político-Estratégico decorre, basicamente, de um cenário onde


estados desaparecem ou são reorganizados mediante intervenção externa25,
ocorre concentração de poder e estabelecem-se normas internacionais para a
preservação do “status quo”, é quase nula a probabilidade de confrontação militar
entre grandes potências, mas vem sendo observada uma elevada quantidade de
conflitos armados, busca-se o desarmamento nuclear, mas prolifera a capacidade
atômica, existem esforços para consolidação dos organismos internacionais,
todavia ocorre o comprometimento do Direito Internacional.
Como existem essas contradições e novos conceitos são, apressadamente,
avaliados como soluções para os problemas dos Estados, passam a ser factíveis
possibilidades de ameaças ao país que se contrapuser às iniciativas destinadas
ao atendimento das demandas da Segurança Humana.
A superação do Desafio Político-Estratégico exigirá, na impossibilidade
de uma perfeita identificação das ameaças, a neutralização das principais
vulnerabilidades estratégicas do País. No caso brasileiro e considerando o
cenário visualizado, constatamos que as principais vulnerabilidades estratégicas
estão localizadas no Atlântico Sul.
Apesar de caracterizar – integralmente – uma vulnerabilidade estratégica,
a necessidade de modernização26 e a inexistência de uma consolidação do vasto
e diversificado ordenamento jurídico relacionado com as atividades marítimas,
24
Como parâmetros econômicos podem ser apontados: a dependência da balança comercial
brasileira do tráfico marítimo e as vantagens do transporte de cargas no ambiente marítimo
ou fluvial. A figura 15 contém uma comparação entre os meios de transporte.
25
Exemplos: desaparecimento - Iugoslávia e de reorganização - Sérvia, Montenegro e
Croácia.
26
Como modernização, indicamos a necessidade de ser revista a venda, sem impostos, de
combustíveis a embarcações estrangeiras operando nas mesmas áreas marítimas das
embarcações brasileiras, que adquirem, às vezes no mesmo local, combustíveis onde os
impostos são inseridos.

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tanto o internacional como o nacional, ampliam as dificuldades econômicas que
são impostas a essas atividades.
As vulnerabilidades estratégicas localizadas no Atlântico Sul podem ser
consideradas como de elevada capacidade de comprometimento da Segurança
Nacional, principalmente quando observamos a dependência apresentada pela
economia do Brasil ao comércio exterior27 e obtenção de energia nos espaços
oceânicos.
O equacionamento do Desafio Político-Estratégico exige um esforço
redobrado de vontade política, especialmente do ponto de vista externo, pois
é possível prever resistências a iniciativas, que fortalecem a estatura político-
estratégica do Brasil.

Desafio Estrutural:

O Desafio Estrutural envolve aspectos estratégicos, logísticos,


operacionais, táticos e administrativos das instituições com atribuições
relacionadas com a Segurança Nacional.
Em um cenário marcado por uma elevada complexidade nas relações
internacionais, onde passa a ser mandatória a disponibilidade de capacidades
multidisciplinares, torna-se necessário otimizar a preparação específica e o
preparo e o emprego dos recursos humanos e materiais, de forma combinada.
Para tal, devemos alcançar:
a) fundamentação intelectual autóctone, que permita adequada revisão
de conceitos e planejamentos; e
b) estruturas organizacionais que estejam perfeitamente em consonância com
os objetivos a serem mantidos ou alcançados e com o cenário político-estratégico
da atualidade e daqueles que possam ser visualizados. Nesse aspecto, ressalta
a importância da definição de uma estrutura de Segurança Nacional combinada e
que eventuais alterações possam ser agilmente implementadas; e
c) superação de corporativismos profissionais de diversas matizes, que
dificultam o aperfeiçoamento do sistema de Segurança Nacional, com destaque
para a neutralização das nossas vulnerabilidades estratégicas.

Desafio Orçamentário:

As dificuldades para a implantação de uma adequada Segurança Nacional


decorrem, em grande medida, de recursos orçamentários insuficientes.
27
Em 2006, como mencionado, o comércio exterior brasileiro alcançou a US$ 230 bilhões.

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Entretanto, é necessário mencionar que também perduram as dificuldades
para o aperfeiçoamento de um sistema de Segurança Nacional combinado,
assim como de um esforço coordenado de comunicação social destinado a
sensibilizar a sociedade brasileira.
O equacionamento desse Desafio exige constante aperfeiçoamento no
emprego dos recursos disponíveis e a mobilização de diversos segmentos da
sociedade brasileira. Tal mobilização deve superar as nossas idiossincrasias,
de modo a ampliar a participação do segmento político em assunto que,
tradicionalmente, é incorretamente avaliado como de exclusiva competência
das Forças Armadas.
Deve ser destacado que, embora em alguns países possa estar
ocorrendo reduções orçamentárias, as dificuldades decorrentes não acarretam
perdas de capacidades estratégicas ou operacionais. Esse fato decorre do
desenvolvimento, com êxito, de sistemas de Segurança Nacional por um
conjunto de países, como ocorre no âmbito da União Européia, e da atribuição de
prioridade para o investimento em sistemas complementares, com capacidade
de emprego Civil e Militar.
Dentre os desafios, destacamos o Cultural como o de maior relevância,
pois, quando equacionado, será possível, a partir de conhecimento próprio, a
identificação e, principalmente, o desenvolvimento e constante aperfeiçoamento
de uma Segurança Nacional adequada para o Brasil.
Da interação dos desafios, identificamos que o Atlântico Sul caracteriza
uma área onde a Segurança Nacional, caso comprometida, provocará um
elevado impacto na estatura político-estratégica do Brasil, o que favorecerá,
eventualmente, a ampliação da probabilidade de imposição de medidas
contrárias à consecução ou a manutenção dos objetivos nacionais.

IV - Integração regional

1 - Considerações Iniciais

A integração de países é um objetivo sempre presente nas relações


internacionais. Entretanto, como os objetivos dos Estados são de diversas
características, algumas vezes coincidentes e outras divergentes, podemos
admitir que “integração”, basicamente, corresponde a uma eventual redução
de direitos e a assunção de deveres, que beneficiam os Estados envolvidos e
o estabelecimento de métodos que permitam o acompanhamento do exercício
dos direitos e a execução dos deveres acordados.

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21--39,
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Apesar da simplicidade do conceito, é importante destacar que
“integração” é um processo complexo e multidisciplinar, assim como exige
vontade política das lideranças e perseverança para a superação de óbices.
O contido no parágrafo único do Art. 4º da nossa Constituição Federal reflete
essa assertiva28.
Dentre os óbices que exigem maiores esforços para serem superados,
podemos citar aqueles que decorrem de sentimentos e percepções
relacionadas à Soberania Nacional. Na figura 16, podemos observar projetos
de integração física, a partir da proximidade territorial, e visualizar dificuldades
para a integração, especialmente entre estados que ainda possuem litígios
fronteiriços. Na América do Sul, a integração ainda deve superar as barreiras
naturais, como a Amazônia, a Cordilheira dos Andes e o Pantanal Mato-
Grossense.
Por outro lado, a CNUDM, o ordenamento jurídico que envolve os
espaços oceânicos, neutraliza óbices decorrentes dos mesmos sentimentos e
percepções, pois o Alto Mar é patrimônio da humanidade e na Zona Contígua,
Zona Econômica Exclusiva e na Plataforma Continental os estados possuem
direitos e deveres distintos daqueles relacionados com o Mar Territorial, onde
a Soberania Nacional é plenamente observada.
Assim, a integração a partir dos espaços oceânicos possui vantagem
comparativa sobre a relacionada com a proximidade territorial, apresentando
fatores políticos, jurídicos e de ordem econômica capazes de contribuir para
fortalecimento da integração prevista em nossa carta magna.
Como a integração é um processo onde podem ocorrer múltiplas
interações, torna-se necessário, previamente, estabelecer definições, que
contribuam para uma análise da importância do Atlântico Sul na Integração
Regional. Para tal, definimos que a Integração Regional, desse trabalho, além
de envolver os países da América do Sul, inclui os da costa oeste da África,
Moçambique, os insulares e os territórios de países europeus no Atlântico Sul
e os países que participam de atividades no Continente Antártico. A inclusão
de países não-americanos na análise decorre dos efeitos da Globalização na
Integração Regional.
Após a definição, resta empregar, como porto de partida para essa análise,
um espaço oceânico de 4.411.000 km2, denominado de Amazônia Azul, onde
estamos consolidando a nossa última fronteira: a marítima.

28
Parágrafo único do Art 4º. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica,
política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade
latino-americana de nações.

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2 - Amazônia Azul.

Após constatarmos as dimensões da Amazônia Azul, retomamos para a


análise à continuidade do espaço oceânico, por estabelecer a condição básica
para uma integração de países pela inexistência de obstáculos no mar. Essa
continuidade29, aliada ao comércio marítimo, ao movimento das correntes
marítimas e dos recursos vivos e a existência de recursos não-vivos na
Plataforma Continental, permite, na percepção da Marinha do Brasil, a análise da
importância da Amazônia Azul, empregando vertentes que podem ser agrupadas
nas atividades Econômicas, Ambientais, Científicas e aquelas relacionadas
com a Soberania Nacional. No entanto, foi identificada a necessidade de mais
uma vertente para uma adequada análise. Aquela que envolve as relações
internacionais: a Diplomacia.
Apesar das dimensões da Amazônia Azul, a continuidade do espaço
oceânico também permite que essas vertentes sejam analisadas sob uma
perspectiva ainda mais ampla, qual seja: o Atlântico Sul.

Vertente Econômica

Nas linhas de comunicações marítimas do Brasil passaram, em 2006,


recursos financeiros da ordem de US$ 230 bilhões, o que representa 95% do
comércio exterior do Brasil, sendo que 30 % desse comércio é realizado com
os países da América do Sul e outros da África. A figura 8 ilustra as linhas de
comunicações marítimas.
A atividade de pesca, especialmente das espécies migratórias, adquire
relevância quanto à Integração Regional, pois para evitar o comprometimento
financeiro dessa atividade, torna-se necessário adequados métodos de
controle dos estoques existentes. Esses métodos, certamente, serão eficientes
sempre que considerarem a mobilidade desses recursos e uma integração de
procedimentos e de levantamentos estatísticos, a serem elaborados nos países
envolvidos nessa atividade.
Na exploração de petróleo e gás natural identificamos mais uma oportunidade
de integração, pois são realizados intercâmbios comerciais, onde a disponibilidade
na região de um determinado tipo desses recursos naturais, além de reduzir custos,
permite que sejam evitadas áreas geográficas com elevada freqüência de conflitos.
Como ocorre entre o Brasil e a Argentina e o Brasil e a Venezuela.
29
Para um melhor entendimento da importância da continuidade dos oceanos, para a Integração
Regional, pode ser conveniente analisar o contido nas figuras 17, 18 e 19.

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Ainda temos a favorecer a integração, por meio do Oceano Atlântico Sul, a
exaustão de alguns dos recursos naturais existentes nos territórios continentais, as
restrições ambientais para a exploração ou, como no caso do Brasil, a localização
de reservas em áreas territoriais, onde ainda persistem conflitos de interesses.
Outro fator que também contribui para a integração decorre do
fortalecimento dos países considerados na Integração Regional, caso adotem
programas conjuntos para a exploração de recursos naturais não-vivos,
especialmente minérios, em áreas marítimas do Oceano Atlântico Sul. Tal
iniciativa, em acréscimo, tem potencial para dificultar a exploração desses
recursos por países extra-região.

Vertente Ambiental

A continuidade dos espaços oceânicos e a mobilidade das correntes


marítimas ampliam a potencialidade do tráfico marítimo e das atividades de
exploração dos recursos do mar comprometerem o ambiente marinho. Assim,
torna-se vital a implantação de medidas, que somente terão êxito, por meio de
acordos internacionais.
Dentre os acordos internacionais que, sob a ótica ambiental, favorecem
a Integração Regional temos a Convenção Internacional para a Prevenção
da Poluição Causada por Navios (MARPOL 73/78), que introduziu regras
específicas para estender a prevenção da poluição do mar às cargas perigosas
ou equivalentes às dos hidrocarbonetos.
Como outros exemplos de conversações internacionais, que respaldam a
Integração Regional, temos o Código de Conduta para a Pesca Responsável e
os Planos Internacionais de Ação Correlatos e o Acordo para a Implementação
das Disposições da CNUDM sobre Estoques de Peixes Transzonais e de Peixes
Altamente Migratórios.
Em essência, a Vertente Ambiental está relacionada com o desenvolvimento
sustentável e, de acordo com alguns cientistas, com a vida humana nos próximos
anos. As figuras 17, 18 e 19 indicam a possibilidade de comprometimento
ambiental, em escala mundial, a partir dos espaços oceânicos.

Vertente Científica

Em que pese a importância da integração das atividades científicas, em


benefício da humanidade, identificamos nessa vertente algumas dificuldades
para a integração.

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Dentre as atividades científicas, que contam com elevado nível de
Integração Regional, temos o Programa Antártico Brasileiro e o Programa
Piloto do Sistema Global de Observação dos Oceanos e diversos programas
direcionados para a previsão e o acompanhamento das condições
meteorológicas.
Também existem oportunidades caracterizadas por programas, que
desenvolvidos em âmbito nacional, podem ser aplicados em benefício de países
da América do Sul e da África. Nesse conjunto temos, no Brasil, o Programa
de Levantamento da Plataforma Continental, o Programa de Avaliação da
Potencialidade Mineral da Plataforma Continental e o Programa de Avaliação
do Potencial Sustentável dos Recursos Vivos da Zona Econômica Exclusiva,
além de alguns dos desenvolvidos pela Petrobrás, como os Programas
Tecnológico de Renovação de Combustíveis; de Recuperação Avançada de
Petróleo; Tecnológico de Meio Ambiente; Tecnológico de Dutos; e Tecnológico
de Águas Profundas.
As dificuldades decorrem, basicamente, dos potenciais desdobramentos
econômicos das aplicações da biodiversidade marinha e da necessidade de
serem preservados conhecimentos sobre o ambiente marítimo, que podem ser
empregados por forças navais em situações de conflito.

Vertente Soberania Nacional

As atividades desenvolvidas na vertente Soberania Nacional, a


semelhança do constatado na científica, também apresentam oportunidades
e dificuldades para a Integração Regional.
As oportunidades estão relacionadas com a internacionalidade das
atividades marítimas e as ameaças difusas da atualidade. Esse binômio, como
comentado, confere aos espaços oceânicos nível elevado de envolvimento
com a Segurança Nacional.
Para o equacionamento dessa situação, no âmbito regional, temos a
Coordenação da Área Marítima do Atlântico Sul (CAMAS) e, no internacional,
a Organização Marítima Internacional (OMI).
Dentre as atribuições dessas organizações, temos aquelas direcionadas
para o acompanhamento do tráfego marítimo30, o que contempla medidas
destinadas à salvaguarda de vidas humanas no mar e à proteção de patrimônios
nacionais. Em outras palavras, tanto a CAMAS como a OMI possuem atribuições
30
Compreende a navegação sob a égide do trânsito dos navios ou embarcações, o deslocamento
de um navio de um ponto a outro.

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94, ago/dez. 2007 67
quanto à segurança denominada na língua inglesa como “safety”, voltada para
a Salvaguarda da Vida Humana no Mar, como “security”, destinada para a
Segurança Nacional.
Para ilustrar essa argumentação, apontamos que a CAMAS, formada,
em 1965, por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai vem contribuindo desde
então, para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar e Preservação do Meio
Ambiente e, em situações de emergência ou de conflito, está preparada para
estruturar adequada proteção para o tráfego marítimo.
O cumprimento da missão da CAMAS exige elevado intercâmbio de
informações sobre as movimentações dos navios mercantes. Para tal, foram
criadas, em cada um dos países, organizações nacionais que devem interagir,
na medida do possível, em tempo real, com as demais organizações do
sistema.
Dessa maneira, foram elaborados planos que contribuem, desde tempos
de paz, para o fortalecimento da Soberania Nacional, pois esforços são
implementados no sentido de aperfeiçoar, constantemente e de forma integrada,
o acompanhamento do tráfego marítimo no Atlântico Sul.
A OMI, criada após a tragédia do Titanic, vem alterando sua destinação,
acrescentando ao acompanhamento da navegação mercante, o relativo à
preservação do meio ambiente e as ameaças de toda ordem, inclusive a
terrorista.
As dificuldades decorrem do analisado no capítulo 2, quando observamos
que a Soberania Nacional está diretamente relacionada com a Segurança
Nacional. Nesse sentido, pode ocorrer a necessidade de um país dispor de
capacidades que neutralizem vulnerabilidades estratégicas, mesmo quando existir
a possibilidade de algum nível de comprometimento da Integração Regional.

Vertente Diplomática

As dificuldades apontadas nas Vertentes Cientifica e Soberania Nacional


ampliam a importância da Vertente Diplomática, pois caberá informar aos
demais países que buscam a Integração Regional, em pauta, as reais intenções
de um determinado programa científico ou de uma eventual aquisição ou
aperfeiçoamento de um sistema de Segurança Nacional.
Dessa constatação, por ser também favorecida pelas características
dos oceanos, especialmente o ordenamento jurídico, a Vertente Diplomática
indica que eventuais dificuldades podem ser neutralizadas pela elaboração de
compromissos internacionais, que orientam diversas atividades realizadas nos

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oceanos. Dentre tantos, temos a mencionada Convenção para a Salvaguarda
da Vida Humana no Mar, a Convenção de Hamburgo de 1978, a resolução da
Organização das Nações Unidas declarando o Atlântico Sul como Zona de
Paz e Cooperação, o Acordo para Implementação das Disposições da CNUDM
sobre os Estoques de Peixes Transzonais e de Peixes Altamente Migratórios, a
Convenção da Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico
e o Programa Piloto do Sistema Global de Observação dos Oceanos.
Na vertente Diplomática ainda identificamos a forma de emprego de
forças navais, como mais um fator onde o Atlântico Sul favorece a Integração
Regional, na medida em que, na ocorrência de controvérsias, podem ser
evitados graves constrangimentos à Soberania Nacional e, em conseqüência,
escaladas indesejáveis em manobras de crise. Tal assertiva decorre do contido
na CNUDM, pois as forças navais podem realizar desde visitas aos portos,
passagem inocente por áreas marítimas ou, ainda, posicionarem-se de forma
a ameaçar, mesmo que do alto mar, vulnerabilidades estratégicas.
Da análise das Vertentes Econômica, Ambiental, Científica, Soberania
Nacional e Diplomática, realizada considerando as características dos oceanos,
constatamos que o Atlântico Sul favorece a Integração Regional, pois caracteriza
um meio onde passa a riqueza dos países, tanto do ponto de vista do comércio
internacional como da obtenção de recursos e conhecimentos de toda a ordem.
Também favorece o controle de manobras de crise, ao ampliar os espaços político-
estratégicos para posicionamentos dos Estados e, adicionalmente, evidencia a
necessidade da integração para uma adequada preservação ambiental.

V - Políticas e estratégias

1 - Considerações Iniciais

As Políticas e Estratégias serão apresentadas considerando,


separadamente, temas relacionados com o Atlântico Sul, a Segurança Nacional
e a Integração Regional.
Entretanto, conceitos e considerações decorrentes da oceanopolítica
indicam o Atlântico Sul como de relevante importância para a Segurança
Nacional e a Integração Regional. Assim, as Políticas e Estratégias terão como
moldura o Poder Marítimo, de modo a ampliar a estatura político-estratégica
do Brasil e fortalecer a Segurança Nacional e a Integração Regional.
Apesar de o Atlântico Sul influir, decisivamente, na Sobrevivência e
Prosperidade do Brasil, foi constatado a inexistência de algumas Políticas

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007 69
que, a partir do Poder Marítimo, estabeleçam diretrizes fundamentais para a
segurança e o desenvolvimento de nosso País, assim como Políticas em nível
governamental abaixo daquele que podemos considerar como adequado.
Devido à amplitude das atividades marítimas, em algumas das propostas
de Políticas e Estratégias foram incluídas Políticas Setoriais.

2 - Políticas e estratégias

Antes da apresentação das Políticas e Estratégias, é oportuno indicar


a necessidade de serem aprofundados estudos no sentido da criação de
um ministério, que teria como atribuição a coordenação e, eventualmente,
execução das atividades do Poder Marítimo, que são realizadas pelo
governo. Como denominação provisória, pode-se imaginar o Ministério do
Desenvolvimento Marítimo, que envolveria, por exemplo, as atividades
desempenhadas pela Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca e Secretaria
Especial dos Portos.
Algumas das atribuições atualmente realizadas pelo Ministério dos
Transportes, especialmente aquelas relacionadas com as hidrovias e os
sistemas logísticos associados, também poderiam ser transferidas para o
Ministério do Desenvolvimento Marítimo.

2.1 - Atlântico Sul

Política Nacional de Desenvolvimento Marítimo. Inexistente.

Objetivos: Marinha Mercante, Atividades Marítimas e Fluviais, Atividades de


Pesca, Atividades de Lazer e de Turismo no Ambiente Marítimo e Fluvial, Instalações
Marítimas e Fluviais, Infra-estrutura Logística Marítima e Fluvial, Exploração dos
Recursos do Mar e da Plataforma Continental e do Poder Naval.

Estratégia:
- Estratégia Nacional para a Divulgação da Importância das Atividades
Marítimas e Fluviais para o Brasil.

Políticas Setoriais:
(1) Política Nacional de Marinha Mercante. Existente.
Objetivos: Navios Mercantes, Atividades Marítimas e Fluviais, Instalações
Marítimas e Fluviais e Infra-estrutura Logística Marítima e Fluvial.

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Estratégias:
- Estratégia de Ampliação e Aperfeiçoamento das Atividades Marítimas
e Fluviais;
- Estratégia de Ampliação e Aperfeiçoamento das Instalações Marítimas
e Fluviais;
- Estratégia de Ampliação e Aperfeiçoamento da Infra-estrutura Logística
Marítima e Fluvial;
- Estratégia para Ampliação das Ofertas de Trabalho para Profissionais
destinados às Atividades Marítimas e as Fluviais;
- Estratégia para Consolidação das Leis, Normas e Regulamentos
relacionados com as Atividades Marítimas e Fluviais.

(2) Política Nacional para os Recursos do Mar. Existente.


Objetivos: A exploração eficiente e sustentável dos Recursos Vivos e
Não-vivos no Atlântico Sul.

Estratégias:
- Estratégia de Desenvolvimento das Atividades Pesqueiras;
- Estratégia para Aperfeiçoar o Emprego da Energia das Marés e das
Correntes Marítimas; e
- Estratégia para Consolidação das Leis, Normas e Regulamentos
relacionados com as atividades de Exploração dos Recursos do Mar.

(3) Política Nacional de Indústria Naval. Inexistente.


Objetivos: Recuperação de Estaleiros Nacionais e das Fábricas de
Peças Navais.

Estratégias:
- Estratégia de Fortalecimento da Construção Naval e de Reparos Navais,
voltada para a Marinha Mercante;
- Estratégia de Aperfeiçoamento do Sistema de Financiamento para a
Construção Naval; voltada para a Marinha Mercante;
- Estratégia para Fortalecimento da Construção Naval e de Reparos
Navais, voltada para Navios de Guerra;
- Estratégia de Aperfeiçoamento do Sistema de Financiamento para a
Construção Naval; voltada para Navios de Guerra;
- Estratégia de Fortalecimento da Construção Naval e de Reparos Navais,
voltada para as atividades de Exploração de Recursos do Mar;

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94, ago/dez. 2007 71
- Estratégia de Aperfeiçoamento do Sistema de Financiamento para a
Construção Naval, voltada para as atividades de Exploração de Recursos do
Mar; e
- Estratégia para Consolidação das Leis, Normas e Regulamentos
relacionados com as atividades da Indústria Naval.

(4) Política Nacional de Sistemas de Transportes. Inexistente.


Objetivo: A Infra-estrutura Logística, em especial a marítima.

Estratégias:
- Estratégia para o Fortalecimento e a Integração de Sistemas Transporte
Fluvial, Rodoviário, Ferroviário e o Marítimo; e
- Estratégia para o desenvolvimento do Sistema Portuário Marítimo.

(5) Política Nacional de Desenvolvimento de Turismo e Lazer Marítimo


e Fluvial. Inexistente.
Objetivo: O fortalecimento do turismo e do lazer no ambiente
marítimo.

Estratégias:
-Estratégia para a Formação de Recursos Humanos;
-Estratégia para o Fortalecimento e a Integração de Sistemas Transporte
Fluvial, Rodoviário, Ferroviário e o Marítimo, voltada para o Turismo; e
-Estratégia para o desenvolvimento do Sistema Portuário Marítimo.

2.2 - Segurança Nacional

Política de Segurança Nacional. Inexistente.

Objetivos: Manutenção e conquista dos objetivos do Brasil. A Paz,


segundo os nossos objetivos.

Estratégias:
- Estratégia para Ampliar a Participação de Civis nas Escolas de Altos
Estudos de Política e Estratégia; e
- Estratégia para Aperfeiçoamento da Inteligência Estratégica sobre
Assuntos Marítimos e do Poder Naval.

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Políticas Setoriais
(1) Política de Defesa Nacional. Existente.
Objetivos: Neutralização das vulnerabilidades estratégicas localizadas
nos espaços oceânicos e fortalecimento da capacidade de dissuasão estratégica
das Forças Armadas do Brasil.

Estratégias:
- Estratégia para a Divulgação da Importância do Oceano Atlântico Sul
para a Sobrevivência e Prosperidade do Brasil;
- Estratégia para o Desenvolvimento de um Poder Naval com capacidade
de operar em dois ambientes: o Oceânico e o Fluvial;
- Estratégia para Ampliar a Capacidade de Apoio Logístico Fixo do Poder
Naval;
- Estratégia para o Fortalecimento da Indústria de Defesa; e
- Estratégia para Aperfeiçoamento do Emprego Combinado das Instituições
envolvidas com a Segurança Nacional, nos Espaços Oceânicos. Na figura 20
podemos observar que o aperfeiçoamento das operações combinadas exige
a participação de um número elevado de instituições.
(2) Política Nacional de Segurança Pública. Inexistente.
Objetivos: O Desenvolvimento do Brasil, em um ambiente de paz
social.

Estratégias:
- Estratégia para Aperfeiçoamento do Emprego Combinado das Instituições
envolvidas com a Segurança Pública, nos Espaços Oceânicos.
(3) Política Nacional de Defesa Ambiental. Inexistente.
Objetivos: A Preservação da Capacidade de Desenvolvimento
Sustentável do Brasil, no ambiente marítimo.

Estratégias:
- Estratégia para Aperfeiçoamento do Emprego Combinado das Instituições
envolvidas com a Defesa Ambiental.

2.3 - Integração Regional

a) Política Nacional de Integração Regional. Inexistente.


Objetivo: A Integração Regional.
Estratégias:

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94, ago/dez. 2007 73
- Estratégia para Coordenar a Participação nos fóruns internacionais que
tratam de Assuntos Marítimos entre o Brasil e os países da América do Sul
e os da Costa Oeste da África (Moçambique), os insulares e os territórios de
países europeus no Atlântico Sul e os países que participam de atividades no
Continente Antártico;
- Estratégia para Ampliar a Cooperação e o Intercâmbio do Brasil com
os países da América do Sul e os da Costa Oeste da África (Moçambique), os
insulares e os territórios de países europeus no Atlântico Sul e os países que
participam de atividades no Continente Antártico; e
- Estratégia para Ampliar a Participação do Brasil na Organização das
Nações Unidas, Organização dos Estados Americanos, Colégio Interamericano
de Defesa e Junta Interamericana de Defesa.

VI - Conclusão

A influência dos espaços oceânicos, apesar de analisada em diversos


estudos geopolíticos, deixou de alcançar a mesma relevância das áreas
terrestres. Essa realidade decorreu, basicamente, da necessidade de um elenco
de conhecimentos sobre as atividades marítimas que, no Século XIX e início
do Século XX, ainda eram incipientes. Nesse contexto, coube ao Almirante
Mahan formular os conceitos que atribuem aos espaços oceânicos uma maior
capacidade de influenciar os destinos dos Estados; sendo que o conjunto desses
conceitos passou a ser denominado de Teoria do Poder Marítimo.
A evolução dessa Teoria vem permitindo que um conjunto de conceitos
passasse a integrar e a aperfeiçoar a Oceanopolítica; a ciência que formula
orientações para a conquista ou manutenção dos objetivos do Estado
considerando as atividades marítimas.
Tais conceitos decorreram da ampliação dos conhecimentos relativos
ao tráfico marítimo e da exploração dos recursos do mar, da localização de
vulnerabilidades estratégicas nos espaços oceânicos ou em suas proximidades
e da importância crescente da preservação ambiental.
Ainda favorecendo o desenvolvimento da Oceanopolítica, temos a
possibilidade de escassez dos recursos naturais existentes nos territórios
continentais, as dificuldades relacionadas à preservação do ambiente
terrestre, o ordenamento jurídico e as conseqüências político-estratégicas
decorrentes da promulgação da Convenção das Nações Unidas sobre
o Direito do Mar e a magnitude do comércio marítimo provocado pela
Globalização.

74 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007
Assim, a partir de conceitos da Oceanopolítica, foi possível a identificação
de tópicos para orientar a demarcação do espaço oceanopolítico de interesse
do Brasil, qual seja: o Atlântico Sul, parte do Atlântico Norte (até 18o de latitude
norte), o Mar do Caribe, a Costa Oeste da América do Sul (Oceano Pacífico), a
Antártica, a Costa Oeste e a Costa Leste (até Moçambique) da África (Oceano
Índico).
Nesse espaço oceanopolítico identificamos que, para o Brasil, o Oceano
Atlântico Sul representa:
- Sobrevivência, devido à diversidade e relevância dos insumos e bens
de capital constantes em nossa pauta de importações, assim como a exploração
de petróleo e gás e a localização das principais vulnerabilidades estratégicas
nas proximidades ou no interior do Mar Territorial, Zona Econômica Exclusiva
ou Plataforma Continental do Brasil;
- Prosperidade, em decorrência da necessidade vital de exportação de
produtos e equipamentos, de modo a viabilizar o fluxo financeiro para o nosso
desenvolvimento.
Como a Oceanopolítica envolve medidas destinadas a manter ou a
conquistar objetivos do Estado, entre os quais temos a segurança (security)
do Estado no ambiente marítimo e a preservação ambiental, podemos
admitir a possibilidade de ocorrência de situações de tensão nas relações
internacionais. Nesse contexto, constatamos a necessidade do fortalecimento
e, simultaneamente, da atualização do conceito de Segurança Nacional.
O fortalecimento envolve a permanência de fundamentos tradicionais,
como a Soberania Nacional, das atribuições das Forças Armadas para a
conquista e manutenção dos objetivos do Estado e do Estado como ator principal
no atendimento desses objetivos e nas relações internacionais.
A atualização, por sua vez, envolve uma crescente incorporação na
Segurança Nacional de aspectos apontados na Segurança Humana, como a
observância das liberdades individuais e direitos civis, a preservação ambiental,
a proteção de minorias étnicas, a redução de assimetrias sociais e a proteção
contra fenômenos da natureza.
Entretanto, o fortalecimento e a atualização da Segurança Nacional indicam
desafios que devem ser superados, especialmente quando considerando o
Atlântico Sul como área vital para o Brasil.
O Desafio Cultural representa o esforço para aperfeiçoar o conhecimento
das relações internacionais, a partir de nosso ponto de vista, e de alterar o
pensamento militar brasileiro na direção dos espaços oceânicos. O Desafio
Político-Estratégico a ampliação da capacidade de identificação de ameaças

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007 75
e a de neutralização de nossas vulnerabilidades estratégicas, sendo que as
principais estão localizadas no Atlântico Sul ou nas proximidades do litoral.
O Desafio Estrutural está relacionado com o aperfeiçoamento do preparo e
do emprego das instituições com atribuições na Segurança Nacional, das
respectivas estruturas organizacionais e da disponibilidade de capacidades
multidisciplinares. O Desafio Orçamentário envolve um aumento dos recursos
destinados a Segurança Nacional e a ampliação da nossa capacidade de
aperfeiçoar o sistema de Segurança Nacional, que deve ser combinado e contar
com sistemas com características de duplo emprego (Civil e Militar).
A importância do Atlântico Sul para a Integração Regional decorre
principalmente do ordenamento jurídico estabelecido pela Constituição do
Mar, que neutraliza, além do Mar Territorial, os sentimentos e percepções
observadas quanto à Soberania Nacional nos territórios continentais.
Para ampliar esse entendimento, foram analisadas as atividades
desenvolvidas no ambiente marítimo: as Econômicas, Ambientais, Científicas
e as relacionadas com a Soberania Nacional. Sendo que essas atividades
foram agrupadas em vertentes, a semelhança do empregado pela Marinha do
Brasil na Amazônia Azul. Entretanto, as características dos espaços oceânicos
e a CNUDM permitiram que a análise dessas atividades fosse realizada
considerando o Atlântico Sul, assim como indicaram a necessidade da inclusão
de mais uma vertente, a relacionada com as atividades diplomáticas.
A Vertente Econômica destaca a importância do comércio marítimo, da
implementação coordenada de esforços para a exploração e preservação
dos recursos naturais e do intercâmbio comercial decorrente da exploração
de petróleo e gás natural, o que evita áreas geográficas distantes do espaço
oceanopolítico de interesse do Brasil.
Na Vertente Ambiental tem destaque a necessidade da integração de
métodos e procedimentos, pois somente dessa maneira ocorrerá adequada
preservação ambiental.
A Vertente Científica favorece a Integração Regional, na medida em que
ocorre a participação de países em atividades científicas, tais como as que
envolvem a Antártica e as observações dos Oceanos, além daquelas conduzidas
nacionalmente, mas que também vem sendo ou podem ser realizadas em
apoio a outros países.
Na Vertente Soberania Nacional tem relevância as atividades relacionadas
com o controle naval do tráfego marítimo, sejam elas destinadas à segurança
(safety) da vida humana no mar ou para a segurança (security) dos estados
contra ameaças estatais, a terrorista, a proveniente do crime organizado ou

76 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007
aquelas que, por afetarem o ambiente, tem condições de também afetarem a
qualidade de vida ou a economia dos países.
A Vertente Diplomática agrupa os acordos, as convenções e os tratados
internacionais que contribuem para a neutralização das dificuldades para a
Integração Regional decorrentes das atividades realizadas no âmbito das
demais vertentes, especialmente na Científica e Soberania Nacional. Essa
Vertente ainda destaca as vantagens do emprego dos espaços oceânicos para
o equacionamento de manobras de crise entre Estados.
Os países que deixaram de observar a importância dos Oceanos para
a Segurança Nacional e Integração Regional, passaram para a história como
coadjuvantes e, em muitas situações, tiveram seus objetivos submetidos a
sérias constrições. Infelizmente, o Brasil pode ser incluído no grupo de países
que deixaram de atribuir aos Oceanos a mesma importância observada nos
países líderes.
Dessa maneira, para reverter esse cenário desfavorável e fortalecer, ainda
mais, a “Importância do Atlântico Sul para a Segurança Nacional e a Integração
Regional”, será necessário elaborar e implementar a Política Nacional de
Desenvolvimento Marítimo, a Política de Segurança Nacional e a Política
Nacional de Integração Regional, assim como elaborar e, eventualmente,
aperfeiçoar algumas das correspondentes Políticas Setoriais e Estratégias. O
conjunto dessas Políticas e Estratégias tem como um dos objetivos principais
o fortalecimento do Poder Marítimo e do Poder Naval.
Finalmente, apontamos como oportuna uma nova interpretação do
conceito “Utis Possidetis”, para o estabelecimento de fronteiras marítimas e
como preocupantes as iniciativas de alguns países, especialmente da Rússia,
relacionadas com a expansão dos limites de suas respectivas Plataformas
Continentais. Tais considerações respaldam o insigne Rui Barbosa quando
dizia:
- Pôs Deus o mar a bramir em nossas costas para pregar que não
durmamos; e
- Esquadras não se improvisam.

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Figura 1
Coração do Mundo

Figura 2
Ilha Mundial

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007 83
Figura 3
Espaços oceânicos ao sul do Equador

Ao sul do Equador ocorre a predominância de Espaços Marítimos

Figura 4
Mar territorial zona contígua
zona econômica exclusiva e plataforma continental

84 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007
Figura 5
Fronteiras marítimas
(indicadas por silhuetas de navios patrulha da Marinha do Brasil)

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007 85
FigurA 6
Limites da plataforma continental – Amazônia Azul

F igura 7
Território oceânico chileno
(Imagem Aproximada)

86 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007
Figura 8
Linhas de comunicações marítimas

As linhas de comunicações marítimas ultrapassam os limites da Amazônia Azul, o que amplia


as dificuldades para a execução de uma adequada proteção.

Figura 9
Bacias de exploração de petróleo e gás

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21--39,
94, ago/dez. 2007 87
Figura 10
Área marítima de responsabilidade do Brasil

Figura 11
Tratado Interamericano de Assistência Recíproca

O Tratado Interamericano de Assistência Recíproca permitiu, em 2001, que todos os países


americanos, inseridos na Integração Regional, apresentassem posição comum e contrária ao
ataque terrorista aos EUA.

88 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007
Figura 12
Coordenação da área marítima do Atlântico Sul

O Controle Naval do Tráfego Marítimo na AMAS favorece a Integração Regional, tanto do


ponto de vista da Salvaguarda da Vida Humana no Mar (Safety), como quanto a Segurança
Nacional (Security), para neutralizar ameaças aos Países, sejam elas provenientes de outros
estados ou aquelas denominadas de difusas (terrorismo, crime organizado e ambiental).

Figura 13
Posições estratégicas

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21--39,
94, ago/dez. 2007 89
Figura 14
Espaço oceanopolítico do Brasil

Nesse espaço oceanopolítico, o Brasil desponta como o país que possui o Poder Nacional
mais expressivo; estando, como pode ser observado, posicionado muito próximo do centro
geográfico desse espaço.

Figura 15
Vantagens do transporte marítimo / fluvial

90 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.4321- -39,


94, ago/dez. 2007
figura 16
Projetos de integração fisíca – proximidade terrestre

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007 91
figura 17
Correntes marítimas e as oceânicas

figura 18
Conexões espaços oceânicos e território continental

92 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007
figura 19
Interferência humana na zona costeira

figura 20
Aperfeiçoamento das operaçoes combinadas nos EUA, em benefício da
segurança nacional
(observar o número e a diversidades de instituições envolvidas com sn)

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43


21- -39,
94, ago/dez. 2007 93
94 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.43
21- -39,
94, ago/dez. 2007
Geopolítica e pós-modernidade
Guilherme Sandoval Góes
Capitão-de-Mar-e-Guerra (RM1) Coordenador da Divisão de Assuntos Geopolíticos da ESG.
Doutorando e Mestre em Direito pela UERJ.

I - Introdução

Planeta Terra. Início do século XXI. Ainda sem contato com outros
mundos habitados. Entre a luz e sombra, descortina-se a pós-
modernidade. O rótulo genérico abriga a mistura de estilos, a
descrença no poder absoluto da razão, o desprestígio do Estado.
A era da velocidade. A imagem acima do conteúdo. O efêmero e
o volátil parecem derrotar o permanente e o essencial. Vive-se
a angústia do que não pôde ser e a perplexidade de um tempo
sem verdades seguras. Uma época aparentemente pós-tudo: pós-
marxista, pós-kelseniana, pós-freudiana. 31

O Estado contemporâneo vem passando por drásticas mutações em


conseqüência de um quadro internacional pós-bipolar, que já não conta mais
com o alto grau de previsibilidade estratégica da época da Guerra Fria. Com
efeito, a ordem internacional no limiar deste terceiro milênio é bem diferente
daquele cenário anterior, caracterizado pelo jogo geopolítico equilibrado de
superpotências equivalentes disputando áreas de influência entre si.
Na esteira desta complexidade, descortina-se a pós-modernidade,
cuja dinâmica se abriga, como bem capturou a maestria reflexiva do Professor
Barroso, no desprestígio do Estado nacional dentro de um cenário pós-tudo,
que em pouco mais de uma década já vivenciou dois grandes momentos
de ruptura paradigmática: a queda do muro de Berlim (1989) e a queda das
torres gêmeas (2001). Tais eventos têm desdobramentos jusgeopolíticos
relevantes, na medida em que trazem no seu âmago a crise do Estado Social,
a revivificação magnificada da ordem política liberal, e, especialmente, os
riscos de neutralização ética da Constituição e da proteção constitucional dos
hipossuficientes (camadas menos favorecidas do tecido social pátrio).
BARROSO, Luís Roberto. Fundamentos Teóricos e Filosóficos do Novo Direito Constitucional
31

Brasileiro (Pós-modernidade, teoria crítica e pós-positivismo). In: A nova interpretação


constitucional. Ponderação, Direitos fundamentais e Relações Privadas. Rio de Janeiro,
Renovar, 2003, p. 2.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007 95
É nesse diapasão que nasce um novo ciclo estatal da pós-modernidade,
paradigma ainda em construção e que a doutrina vem denominando de Estado
Pós-Social ou Estado Pós-Moderno. 32 Decerto que até o presente momento
o modelo pós-moderno de Estado ainda se encontra sob intensa névoa
conceitual, carecendo de maior desenvolvimento científico, seja no âmbito da
Ciência Política, seja no âmbito do próprio Direito Constitucional. No entanto, já
é possível diagnosticar sinais de desconstrução do modelo westfaliano a partir
do declínio do conceito de soberania absoluta e de uma tendência perigosa de
regressar aos tempos de estatalidade mínima, garantidora apenas dos direitos
fundamentais de primeira dimensão (direitos civis e políticos).
É por isso que vamos, ao longo deste artigo, procurar examinar
os ciclos estatais da modernidade, desde o absolutismo até o welfarismo,
passando antes pelo liberalismo político. Em seguida, vamos identificar as
transformações da ordem internacional com o desiderato de traçar as linhas
teóricas dominantes da ordem internacional pós-moderna em que vivemos.
Aliás, é neste último nível de paradigma que se concentrarão nossas principais
perscrutações geopolíticas, ideológicas e jurídicas.
Por fim, vamos tentar demonstrar que o estrategista brasileiro tem o
grande desafio de conceber, com agudeza de espírito, um novo paradigma
de estatalidade positiva atenuada que harmonize de um lado o binômio livre
iniciativa - abertura mundial do comércio e, do outro, o trinômio dignidade da
pessoa humana - desenvolvimento nacional - justiça social. E assim é que o
grande imperativo categórico das relações internacionais do Brasil de hoje
é saber articular geopoliticamente a tríade sul-americana (arco amazônico,
pacto andino e cone sul). Em suma, é este o nosso espectro temático.

II - Os ciclos estatais da modernidade: de Westfália à queda


do muro de Berlim

Para examinar as características centrais que circunscrevem o Estado


Pós-Moderno é importante investigar antes a evolução social do Estado
Moderno, desde o nascimento do Estado Absoluto após a celebração da Paz
de Westfália de 1648, perpassando pelo surgimento do Estado Liberal após

32
Com o objetivo de melhor sistematizar o conceito de Estado Pós-Social, vale explicitar a
seguinte classificação da evolução da fenomenologia estatal:
a) Modelos da pré-modernidade: Estado-cidade (polis grega) e Estado medieval;
b) Paradigmas da modernidade: Estado absoluto, Estado liberal e Estado social;
c) Concepção da pós-modernidade: Estado pós-social.

96 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007
a Revolução francesa de 1789 33 até finalmente se alcançar o Estado Social,
com o advento da Constituição de Weimar, na Alemanha, em 1919, o grande
símbolo da constitucionalização dos direitos sociais e econômicos. 34
A figura abaixo tem o condão de apresentar uma visão panorâmica acerca
da trilha ascensional dos ciclos estatais da modernidade, onde o conceito de
Estado evolui progressivamente, desde de uma linhagem absolutista até o
estágio final do Welfare State. Não há falar em progressão retilínea e previsível,
ao revés, a evolução social do Estado é feita de marchas e contramarchas e
cuja rota de desenvolvimento se imbrica com o conjunto de idéias dominantes no
seio da sociedade e, principalmente, com o grau de proteção que cada modelo
estatal atribui ao catálogo jusfundamental de direitos do cidadão comum.

33
O marco inicial da fase de constitucionalização dos direitos fundamentais é controverso,
havendo certa divergência doutrinária acerca de sua paternidade, isto é, se tal homenagem
deve ser prestada à Declaração de Direitos do Povo da Virgínia de 1776, ou, à Declaração
Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. De toda sorte, independentemente
de qualquer que seja a posição adotada em relação à paternidade da constitucionalização
dos direitos fundamentais, o importante é compreender o papel das Declarações francesa e
americana no processo de evolução dos direitos humanos. Com efeito, são os americanos
que projetam a idéia de direitos fundamentais, enquanto que os franceses legam ao mundo
os direitos humanos. Cf. SARLET, Ingo. Ob. cit. p. 49.
34
Da mesma forma, doutrinadores há que preferem declarar a Constituição do México de
1917 como o primeiro grande marco do nascimento do Estado Social (welfare state), pois
foi esta a primeira Constituição a positivar os direitos fundamentais de segunda dimensão,
aí incluídos os direitos sociais, econômicos, culturais e trabalhistas.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007 97
Destarte, impende trazer a lume inicialmente o advento da assinatura
do Tratado de Westfália em 24 de outubro de 1648 que pôs fim à Guerra dos
Trinta Anos, conflito que perdurou de 1618 a 1648. Tal Guerra é apontada
como sendo a primeira guerra civil generalizada que ensangüentou a
Europa ocidental no século XVII, dos Pirineus ao Mar do Norte, do Báltico
ao Reno.
No plano da evolução social do Estado, a Paz de Vestfália marca o fim
do feudalismo e o início de outra era estatal, o absolutismo monárquico, que
Sahid Maluf captura com precisão quando afirma verbis:

No fim da idade Média, com a queda de Constantinopla, o domínio


do islamismo sobre todo o oriente, a reforma religiosa e a influência
das doutrinas anticlericais, as monarquias se desvencilharam do
domínio papal, caminhando para a forma absolutista que assinala
o período de transição para os tempos modernos. 35

Para além disso, é importante ainda destacar que o Tratado de Westfália


simboliza também o nascimento do Estado nacional propriamente dito,
porque se verifica - pela primeira vez no âmbito da fenomenologia estatal - a
reunião dos três elementos essenciais formadores do Estado moderno (povo,
território e governo soberano). 36
E mais ainda: grande parte da doutrina do direito internacional público
entende que a sociedade internacional nasce com o evento westfaliano,
ocasião em que se estabelece - em bases sólidas - o princípio da
igualdade jurídica dos Estados e, na sua esteira, o princípio do equilíbrio
europeu. A partir de Westfália, o desenvolvimento do direito internacional
público ganha novo impulso no sentido de uma maior regulamentação
internacional positiva.37 Enfim, repita-se por fundamental, somente após
o Tratado de 1648 é possível falar-se em Estado nacional propriamente
dito, bem como é possível falar-se em sociedade internacional moderna,
caracterizada pela existência de Estados efetivamente soberanos, onde a
lógica de relacionamento inter-estatal é o respeito mútuo, consolidado no
princípio da igualdade jurídica dos Estados na ordem jurídica internacional.

35
Cf. Sahid Maluf ob.cit,,p.112.
36
KELSEN, Hans. Teoria geral do estado e do direito. Tradução Luís Carlos Borges, São
Paulo: Martins fontes, 1990, p. 207.
37
SILVA, Geraldo Eulálio do Nascimento & ACCIOLY, Hildebrando. Manual de direito
internacional público. 15 ed., São Paulo: Saraiva, 2002, p.11.

98 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007
Pela primeira vez, tem-se aquilo que se poderia chamar de percepção da
concretude do Estado pela Sociedade Civil e também de um Estado em
relação aos demais.
Assim sendo, o sistema westfaliano lança as bases de um quadro
internacional pautado no equilíbrio de poder entre os Estados europeus e com
espeque não só na igualdade jurídica dos Estados, mas, também na igualdade
religiosa adquirida com o fim das guerras santas que reconheceu expressamente
a igualdade das três grandes confissões que coexistiram durante o Sacrossanto
Império Romano Germânico: o catolicismo, o luteranismo e o calvinismo. A partir
de 1648, desaparecem as guerras religiosas e surgem as razões de Estado.

1 - A Revolução francesa e o Estado Liberal

O Estado Absoluto começa a entrar em declínio a partir das reivindicações


burguesas em França e da reação de colonos ingleses na América do Norte.
Com efeito, as revoluções liberais do século XVIII (Declaração de Virgínia de
1776 e Revolução francesa de 1789) selam o nascimento do Estado de Direito
e do constitucionalismo moderno, cuja base estrutural pressupõe, inicialmente,
obediência à lei e a partir do século XX aos princípios constitucionais (pactum
constitutionis) que dão garantias ao cidadão.
E assim é que o Estado Liberal enquanto primeira versão do Estado de
Direito reage ao absolutismo, cuja concentração monolítica do poder político
colocava nas mãos do monarca a tríade funcional do poder: o poder executivo
(Administração Pública), o poder legislativo (criação do direito positivo) e
o poder judiciário (prestação da tutela jurisdicional).38 Observe que nesse
mister, o modelo Liberal de Estado lança as bases do Estado Constitucional
de Direito, quais sejam: a separação de poderes e a declaração de direitos
fundamentais acima do próprio Estado. É a dicção legal do artigo 16 da
Declaração de 1789 que projeta esta idéia-força: “A sociedade em que não
esteja assegurada a garantia dos direitos (fundamentais) nem estabelecida a
separação de poderes não tem Constituição”.
Eis aqui muito bem delineado o núcleo constitucional do Estado Liberal:
a limitação do poder estatal (Estado Mínimo que não se intromete na esfera
das relações privadas) e o respeito ao catálogo das liberdades públicas, mais
precisamente a proteção dos direitos civis e políticos (primeira dimensão
dos direitos fundamentais). Com efeito, fácil é perceber que a matriz liberal foi

38 FRIEDE, Reis. Curso analítico de direito constitucional e de teoria geral do estado. Rio de
Janeiro: Forense, 2005, pp.213.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007 99
fruto das aspirações da burguesia ascendente em França, que detentora do
poder econômico, encontrava-se desprovida de poder político e era obrigada
a se submeter aos excessos do Rei, especialmente os fiscais. Daí a linha
dominante do Estado Liberal se voltar precipuamente para a garantia das
liberdades públicas, mediante a fixação de zonas de não-interferência do
Estado no campo privado.
Enfim, sob a égide do individualismo inspirado na Ilustração do século
das Luzes e rejeitando o Estado de Polícia de privilégios estamentais do
período anterior, a matriz liberal fixou um modelo de estatalidade mínima
garantidora apenas da igualdade formal, ou seja, todos são iguais perante a
lei. Plasmada nesta concepção negativista e minimalista do Estado, a ideologia
liberal se atrelou apenas ao catálogo de direitos de participação política e
aos círculos de liberdades do indivíduo, aí incluída a livre iniciativa. Não se
pode falar ainda em direitos sociais e trabalhistas, aliás o trabalho humano era
percebido como simples mercadoria 39 e o desemprego como mera fatalidade
estrutural do capitalismo.40
Sem embargo de sua importância para a consolidação do conceito
de Estado Democrático de Direito, entendemos que o Estado Liberal
circunscreveu, em essência, uma era histórica que se entremostrou insuficiente
na busca da igualdade material, vale dizer, aquelas condições mínimas de
vida digna e capaz de gerar a igualdade de oportunidades para todos os
cidadãos. Destarte, afigura-se-nos justo dessumir que o Estado Liberal e sua
concepção de estatalidade mínima protegiam na verdade a classe burguesa e
não o homem comum em si. Tendo como epicentro constitucional a autonomia
privada, o Estado Liberal nada mais fez senão acentuar as assimetrias sociais
e econômicas, gerando um quadro lamentável de verdadeira inópia humana,
sem precedentes na História. 41
39 Como bem demonstra Paulo Afonso Linhares o radicalismo da burguesia fez sacrificar os
outros direitos da liberdade no altar da chamada livre iniciativa. Neste sentido, o próprio
trabalho humano passou a ser tido como mercadoria e, como tal, objeto de exploração
por parte dos detentores do capital. Cf. LINHARES, Paulo Afonso. Direitos fundamentais e
qualidade de vida. São Paulo: Iglu, 2002, p. 76.
40 ALVES, J.A. LINDGREN. A declaração dos direitos humanos na pós-modernidade. Revista
no., Rio de Janeiro. Disponível em http:/www.no.com.br. Acesso em 27 de julho de 2004.
41 Isto significa dizer que a engenharia constitucional do modelo liberal não teve o condão
de garantir a dignidade da pessoa humana, ainda que em sua expressão mínima. Nesse
diapasão é muito importante perceber que nem mesmo os paradigmais avanços da
democracia liberal, tais como: (i) a igualdade formal perante a lei, (ii) a garantia dos direitos
civis e políticos, (iii) a limitação do arbítrio estatal mediante a separação de poderes e muitos
outros, foram capazes de criar as condições mínimas indispensáveis ao efetivo gozo dos
direitos fundamentais garantidores de vida digna para de todos os cidadãos.

100 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007
Esta é a razão pela qual o liberalismo entra em crise, suscitando a
criação da segunda versão do Estado de Direito, qual seja o Welfare State,
entre nós, denominado de Estado do Bem-Estar Social ou simplesmente
Estado Social. Com o novo paradigma estatal surge uma nova segmentação de
direitos fundamentais, agora ditos de segunda dimensão e direcionados para a
materialização da dignidade da pessoa humana, solapada que tinha sido pelo
Estado Liberal. Ora se é verdade que a matriz liberal, vazada no pensamento
individualista burguês e sob influência do racionalismo iluminista, lançou
cimentos indestrutíveis à limitação do arbítrio estatal e à garantia dos direitos civis
e políticos, por outro, não menos verdade é o impulso que o paradigma social,
sob o pálio do welfarismo, fará medrar na evolução dos direitos fundamentais
ao fixar um novo catálogo de direitos positivos, voltado precipuamente para o
bem-estar social de toda a sociedade. É o que veremos a seguir.

2 - A Constituição de Weimar e o Estado Social

Grande parte da doutrina aponta a Constituição mexicana de 1917 e


em especial a de Weimar de 1919 na Alemanha como marcos delimitadores
do nascimento do Estado Social. Com efeito, não se pode ilidir que tais
Constituições inovaram a ordem constitucional no que diz aos direitos sociais,
econômicos, culturais e trabalhistas. Em conseqüência, não seria justo deixar
de homenageá-las, vez que pioneiras na positivação sistemática desta nova
plêiade de direitos fundamentais.
Destarte, sob os influxos da Constituição de Weimar, desponta o Estado
Social bem mais intervencionista e, como bem assinalou Celso Lafer, com o
dever de propiciar a todos o “direito de participar do bem-estar social.” 42 Pelo
menos, no campo dos direitos fundamentais, o Estado Social realinha seu eixo
constitucional, deslocando-o para uma concepção de estatalidade positiva
que rejeita a postura absenteísta da matriz liberal. Volta-se, por conseguinte,
para combater o déficit econômico-social das classes menos favorecidas do
tecido social (hipossuficientes) e que no Brasil somente foram assinaladas a
partir da Constituição de 1934.
Com base nos princípios da justiça social e da dignidade da pessoa
humana, a engenharia constitucional do Welfare State ganha dimensão
dirigente/emancipatória e passa a instituir normas programáticas destinadas
a promover o bem estar geral. E – ao fazê-lo - o novo ciclo estatal se insere
42
LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos fundamentais. São Paulo: Ed. Companhia das
letras, 1991.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007 101
em trajetória ético-jurídica, cujo postulado fundamental é a liberdade por
intermédio do Estado, e, não, mas, a liberdade perante o Estado do
modelo liberal burguês. Sem negar os direitos civis e políticos conquistados
pela doxa liberal, o Estado Social se vê compelido a proteger também os
direitos atrelados à igualdade material.
E assim é que o Estado deixa de ser vislumbrado como o inimigo
número um da sociedade civil e passa a simbolizar a pré-condição material
da igualdade de todos. E observe com agudeza de espírito que não se trata
aqui de mera igualdade formal (todos são iguais perante a lei); vai muito além
disso, na medida em que busca a igualdade real em seu núcleo essencial e
que significa igualdade de oportunidades para todos. É o direito a ter direitos
constituindo-se na base da cidadania do Estado Social. Para tanto, aplica-se a
antiga máxima que nem Aristóteles e nem Rui Barbosa deixaram escapar, qual
seja: tratar desigualmente os desiguais na medida da sua desigualdade. É o
Estado intervindo nas relações privadas para proteger os hipossuficientes.
É por tudo isso que o Estado Social é visto como uma ameaça à livre
iniciativa e aos ditames da economia de mercado e o fato é que a crítica
pós-moderna vem tentando enfraquecer o paradigma social sob os influxos
do fenômeno da globalização. Daniel Sarmento, por exemplo, alerta que não
convém “embarcar” na onda da neutralização axiológica da Constituição e
do Direito, proposta por certas correntes do pós-modernismo jurídico, pois
a adoção desta perspectiva prejudicaria mais ainda a posição dos excluídos
numa sociedade já tão desigual e assimétrica como a brasileira. 43 Já o
Professor Luís Roberto Barroso, com a maestria reflexiva que lhe é peculiar,
evidencia a constatação inevitável e desconcertante de que o Brasil chega
à pós-modernidade sem ter conseguido ser liberal nem moderno (social).44
(grifos nossos).
Sem desmerecer sua dimensão ético-social, há que se reconhecer,
entretanto, que, hoje em dia, vive-se o eclipse do welfarismo que se agravou
com a queda do muro de Berlim. Com efeito, grande parte da doutrina
jusconstitucionalista já não mais hesita em professar o colapso do Estado
Social, colocando em seu lugar o Estado Pós-Social, cuja tendência vem
43
SARMENTO, Daniel. Os direitos fundamentais nos paradigmas liberal, social e pós-social-
(pós-modernidade constitucional?). In: FERRAZ Jr., Tércio Sampaio (Coord.). Crises e
desafios da Constituição brasileira. Rio de Janeiro, 2002., p.414.
44
Cf. BARROSO, Luís Roberto. Fundamentos Teóricos e Filosóficos do Novo Direito
Constitucional Brasileiro (Pós-modernidade, teoria crítica e pós-positivismo). In: A nova
interpretação constitucional. Ponderação, Direitos fundamentais e Relações Privadas. Rio
de Janeiro, Renovar, 2003, p. 5.

102 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007
apontando para a restauração do arquétipo neoliberal. Nesse sentido, precisa
a lição de Lindgren Alves, verbis:

Com o fim da bipolaridade estratégica e da competição ideológica


entre liberalismo capitalista e o comunismo, a ideologia que se
impôs em escala planetária não foi, a da democracia baseada no
welfare state, (...) Foi a do laissez-faire absoluto, com a alegação
de que a liberdade de mercado levaria à liberdade política e à
democracia. Eticamente justificou-se (...) mas a própria noção
de Estado-providência tornou-se condenada como inepta à
competitividade, num momento em que o desemprego era aceito
como fatalidade estrutural. 45

Enfim, são investigações conceituais como estas que entremostram


a tendência de formação de um pós-modernismo estatal com espeque
na agenda desestatizante, que não se preocupa com a proteção dos
hipossuficientes e, muito menos, ainda, com o agravamento do ciclo da
periferia no mundo subdesenvolvido. Daí nossa preocupação bem viva no
que tange ao esvaziamento axiológico da Constituição no mundo periférico
em atendimento aos interesses geoestratégicos dos centros mundiais de
poder e em especial dos Estados Unidos. Esta é a razão pela qual vamos
investigar no próximo segmento temático as relações entre a geopolítica
mundial e a construção da ordem internacional pós-moderna, sucessora
incontinênti da ordem jurídica bipolar.

2 - Sociedade internacional e pós-modernidade

O conceito de pós-modernidade enquanto condição sócio-político-


cultural do capitalismo contemporâneo, desenvolvido dentro de uma sociedade
pós-industrial ou financeira, 46 é ainda muito controvertido no âmbito da
doutrina, tanto pátria, quanto alienígena. O termo é de uso corrente, porém
45
ALVES, J.A. LINDGREN. A declaração dos direitos humanos na pós-modernidade. Revista
no., Rio de Janeiro. Disponível em http:/www.no.com.br. Acesso em 27 de julho de 2004.
46
O conceito de sociedade pós-industrial se dá, por sua vez, a partir da passagem da
predominância das relações de produção industriais para as relações pautadas em serviços
e trocas de bens abstratos, exempli argumentandi, o desenvolvimento da informática e a
conseqüente movimentação de capitais em vias virtuais (especulação financeira).

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007 103
com imensa carga intrínseca de incoerência teórico-conceitual. Diferentes
concepções disputam primazia sobre o conceito, sendo certo mesmo afirmar
que a pós-modernidade, muito embora seja um movimento contemporâneo
e forte, ainda não é completamente claro no que diz aos seus fundamentos
éticos, sociológicos, filosóficos e jurídicos.
Daí toda uma plêiade de elementos fractais dispostos a representá-lo,
desde:

(i) o descrédito das meta-narrativas modernas de François Lyotard 47


(a condição pós-moderna desacredita a ciência como sendo a única
fonte definitiva da verdade), perpassando-se

(ii) pela lógica cultural do capitalismo tardio de Fredric Jameson,48


(lógica incapaz de promover a transformação social, notadamente
nos países de industrialização tardia),

(iii) pela crítica da teoria do agir comunicativo de Jürgen Habermas 49


que rejeita a postura neomarxista (preocupada em combater os
ideais iluministas) e concebe uma concepção procedimentalista de
democracia deliberativa, 50

(iv) pela construção teórica da hiper-modernidade de Gilles Lipovetsky51


(visão anti-khuniana de que não houve quebra do paradigma
da modernidade, mas, apenas uma aproximação popperiana da
realidade atual, na medida em que ainda reinam na sociedade
contemporânea os valores da modernidade, como por exemplo, o
individualismo, a explosão do consumismo, o liberalismo político,
a metamorfose da ética,etc.) até, finalmente, chegar-se à
47
LYOTARD, François. O pós-moderno explicado às crianças, Lisboa, Dom Quixote, 1987.
48
JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo - A lógica cultural do capitalismo tardio, São Paulo:
Ática, 2002.
49
HABERMAS, Jurgen. Direito e democracia entre facticidade e validade. Trad. de Flávio
Beno Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.
50
Para uma análise percuciente entre a concepção procedimentalista de Habermas em
contraposição a uma concepção substancialista da democracia e da justiça de John Rawls,
veja-se, por todos, NETO, Cláudio Pereira de Souza. Teoria constitucional e democracia
deliberativa: um estudo sobre o papel do direito na garantia das condições para a cooperação
na deliberação democrática. Rio de Janeiro: Renovar, 2006.
51
CHARLES, Sébastien & LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. Tradução de
Mario Vilela, Barcarolla, 2004.

104 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007
(v) superação do positivismo jurídico, fruto do giro epistemológico da
revolução da linguagem de Wittgenstein II 52 que abriu espaço para a
teoria discursiva do direito pós-positivista dos dias presentes (passagem
do paradigma axiomático-dedutivo do positivismo jurídico para o
paradigma axiológico-indutivo do neoconstitucionalismo). Em essência,
a dogmática pós-positivista é uma construção hermenêutica que valoriza
a dimensão retórica das decisões judiciais a partir da sua aceitação pela
comunidade aberta de interpretes da Constituição (Peter Häberle). 53
Em termos simples e em linha de pensamento um pouco distinto,
podemos sintetizar a condição pós-moderna de acordo com as seguintes
características:
a) No campo da evolução social do Estado, representa a passagem do
Welfare State para o assim chamado Estado Pós-Social;
b) No plano internacional, simboliza a mudança da ordem geopolítica
bipolar para uma ordem mundial ainda disputada por duas grandes
correntes: de um lado, a unipolaridade da pax americana com
predominância cêntrica da superpotência norte-americana e, do
outro, a multipolaridade de escopo global com crescente equilíbrio
de poder de potências globais e regionais;
c) Na esfera do direito, retrata o colapso do positivismo jurídico (império
da letra da lei), despontando em seu lugar o neoconstitucionalismo
(interpretação jurídica que reaproxima ética e direito). 54
52
Na lição de Écio Oto Ramos Duarte, temos, verbis: De outro lado, a tentativa de oferecer
pautas justificativas que assegurem a racionalidade do método jurídico deve se dar conta de
que a fundamentação normativa, hoje, deve ser mediada desde os pressupostos discursivos
inseridos na estrutura pragmática consolidada a partir de uma razão lingüística. Para esse
intento, é necessário um escorço das teorias básicas apresentadas pela Filosofia da
Linguagem, especialmente as elaboradas por autores como Wittgenstein, Searle e Austin.
Além dessas construções teóricas estruturarem os pressupostos de uma teoria filosófica
da linguagem capaz de imprimir a razão lingüística na reflexão dos fenômenos jurídicos, é
salutar frisar que o próprio giro pragmático ocorrido na Filosofia da Linguagem provocará,
por sua vez, um “giro epistemológico” no âmbito das investigações metodológico-jurídicas
que, agora, desde um paradigma de racionalidade discursiva, deverá refletir-se em um novo
condicionamento à elaboração da própria Teoria do Direito.(grifos nossos). Cf. Teoria do
discurso & correção normativa do direito: aproximação à metodologia discursiva do direito.
p. 35.
53
HÄBERLE, Peter. Hermenêutica constitucional. A sociedade aberta dos intérpretes da
Constituição: contribuição para a interpretação pluralista e ‘procedimental’ da Constituição.
Trad. de Gilmar Ferreira Mendes. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1997.
54
Para uma abordagem mais detalhada sobre o neoconstitucionalismo e a reaproximação entre
a ética e o direito, vide GÓES, Guilherme Sandoval. “Neoconstitucionalismo e dogmática
pós-positivista”. In: A reconstrução democrática do direito público no Brasil. Organizador
Luís Roberto Barroso. Rio de Janeiro, Renovar, 2007.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007 105
Todas estas visões podem ser agregadas sob a égide de um pós-
modernismo geopolítico, que Gilberto Bercovici capta com nitidez ao chamar
Natalino Irti para ressaltar que: “De sua base territorial e espacial originária, o
nomos passa a ser conformado pelo domínio econômico, que não se dá em
territórios e locais estáveis e determinados, mas nos espaços voláteis dos
mercados. Os grandes espaços de nosso tempo são, para Irti, os espaços da
livre economia, os mercados. A economia e a técnica exigem um novo espaço
mundial, edificando um novo e diverso nomos da Terra, cuja formação ainda
está marcada pelos conflitos entre o poder localizado dos territórios e o poder
planetário da economia mundial”.55
E assim é que exsurge com plenitude a idéia-força de que o território do
Estado já não é mais símbolo de lebensraum (espaço vital) na delimitação das
fronteiras entre Estados nacionais. Em tempos de estatalidade pós-moderna,
o novo conceito de lebensraum não se atrela mais à conquista de territórios,
mas, sim, à conquista de mercados e mentes (massificação por estruturas
eficazes de marketing).
Desloca-se para a centralidade das relações pós-modernas a abertura
mundial do comércio, patrocinada pelo poder jurígeno das empresas
multinacionais. É nesse sentido que Ignácio Ramonet 56 põe a nu a idéia de
civilização do caos dos novos senhores do mundo (conglomerados financeiros
e industriais privados), do planeta saqueado (destruição sistêmica do meio
ambiente), das metamorfoses do poder e suas formas negociadas, reticulares
e horizontais (mídia, grupos de pressão e organizações não-governamentais),
do choque das novas tecnologias (lado a lado com o choque de civilizações
das guerras étnicas) e tudo isso fazendo exalar nessa sociedade ocidental
pós-moderna um mau cheiro de remorso e algo parecido com um sentimento
de náusea. 57
Infelizmente, esta é a compilação que se faz do quadro pós-moderno.
É forçoso reconhecer que a pós-modernidade estatal vem trazendo até
agora uma perspectiva sombria de agravamento do ciclo da periferia, de
empobrecimento estatal, de desamparo de hipossuficientes. Em nome de
uma globalização econômica de cunho neodarwinista patrocinada pela idéia
55
BERCOVICI, Gilberto. ‘O Estado de exceção econômico e a periferia do capitalismo’. In:
e-premissas, Revista de estudos estratégicos. ISSN 1981-1438 nº 2 janeiro/junho 2007, p.
66.
56
Para uma investigação científica importante acerca da nova ordem mundial após a queda
do muro de Berlim e a perspectiva de um neo-hegemonismo norte-americano, sugere-se a
leitura de RAMONET, Ignácio. A geopolítica do caos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.
57
Cf. Geopolítica do caos, pp. 7-12.

106 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007
de comércio sem fronteiras, advoga-se a fragmentação do modelo westfaliano
de modo a preponderar a competitividade e eficiência das empresas privadas.
Apregoa-se a tese de soberania limitada e de valores universalmente aceitos.
Concordamos plenamente com Luís Roberto Barroso quando afirma que:
Na política, consuma-se a desconstrução do Estado tradicional, du­
ramente questionado na sua capacidade de agente do progresso
e da justiça social. (...) Quando a noite baixou, o espaço privado
invadira o espaço público, o público dissociara-se do estatal
e a desestatização virara um dogma. O Estado passou a ser o
guardião do lucro e da competitividade. 58

É preciso, portanto, ganhar sensibilidade estratégica apurada para


compreender a era pós-moderna que vem gerando uma globalização neo-
hobbesiana, cruel e desumana para a periferia do sistema mundial. Com efeito,
o mundo subdesenvolvido - à deriva no processo decisório internacional - vai
sendo manobrado por forças externas que imprimem destinos infaustos que não
lhe são próprios. Por conseguinte, rejeitamos com veemência a fragmentação
do modelo westfaliano determinada por fatores de política internacional e
voltada precipuamente para a consecução de interesses geoestratégicos dos
centros mundiais de poder. Nesse passo, é preciso acompanhar a evolução da
mundialização do comércio, que a pós-modernidade imponha na sociedade
internacional periférica, notadamente quando se tem em conta a desconstrução
do Estado Social em combinação com o fim da bipolaridade geopolítica, que
juntas colocam em perigo a força axiológica da Constituição.
Enfim, são estas as considerações acerca da pós-modernidade, período
ainda circunscrito por um plexo de antinomias conceituais e filosóficas que
Claudia Lima Marques tão bem sintetizou nas seguintes palavras verbis:

Assim, em um tempo conhecido como pós-industrial, com uma


filosofia pós-estruturalista e discursiva, uma era do vazio e de caos,
de desregulamentação, de privatizações, de forte exclusão social,
da “euforia do individualismo e do mercado”, era de globalização,
de radicalismo tribal, de convivência e intolerância, de antinomias
tão fortes que já se prevê o fim da história, a morte da ciência, o fim
dos valores e outras catastróficas previsões para a nova era.59
58
Cf. Interpretação e aplicação da constituição, p. 305.
59
MARQUES, Claudia Lima&ARAUJO, Nadia de. O novo direito internacional – Estudos em
homenagem a Erick Jayme. Rio de Janeiro, Renovar, 2005, pp.xx –xxi.

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-39, ago/dez. 2007 107
Esta é a razão pela qual vamos em seguida examinar as
características e os desafios da sociedade internacional contemporânea
mediante um breve exame das transformações da ordem jurídica
internacional ao longo da modernidade e da pós-modernidade. É o que
tentaremos fazer a seguir.

1 - Transformações da ordem internacional

Este segmento temático foi elaborado com a expectativa de apresentar


uma breve visão panorâmica das transformações da ordem internacional com o
fito de organizá-las sistematicamente. Como primeiro ponto a ser desenvolvido,
optamos por classificar a evolução das ordens jurídicas internacionais em três
grandes categorias, a saber: a ordem eurocêntrica, a ordem bipolar e a ordem
pós-moderna. A figura abaixo mostra estas três grandes transformações da
ordem internacional.

A ordem eurocêntrica surge juntamente com a formação da sociedade


internacional a partir de 1648 com a Paz de Westfália, perpassa pelo
Congresso de Viena de 1815 (fim das guerras napoleônicas) e pelo Tratado

108 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


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de Versalhes de 1919 (formação da Liga das Nações), até, finalmente,
alcançar-se o fim da Segunda Grande Guerra Mundial, evento que sela
definitivamente o colapso do mundo eurocêntrico e a criação da Organização
das Nações Unidas. 60
Já a ordem internacional bipolar nasce com as Conferências de
YALTA e de POTSDAM de 1945, 61 que fazem a divisão geopolítica do mundo
e estabelecem o direito de veto dos membros permanentes do Conselho de
Segurança da ONU ( é o assim chamado sistema internacional yaltiano). A
principal característica da ordem bipolar era a sua alta previsibilidade estratégica,
garantida pela simetria de poder entre dois grandes centros geopolíticos
mundiais. Neste contexto de confrontação bipolar, tínhamos, de um lado, a
expansão soviética de inspiração mackinderiana e, do outro, a contenção norte-
americana sob influência spykmaniana. Aplicava-se para os demais países do
sistema mundial o chamado princípio do alinhamento político necessário, isto é,
escolher e barganhar para qual dos dois lados iriam se perfilhar.
E assim é que a ordem bipolar vigorou por mais de quatro décadas sob
um único eixo jusgeopolítico: a atrição entre expansão soviética e a contenção
norte-americana, ou seja, entre a estratégia de expansão soviética nas suas três
grandes de linha de avanço - frente européia (Cortina de Ferro), frente central
(Oriente Médio e Ásia Central) e a frente asiática (Sudeste asiático notadamente
a Coréia e o Vietnã) e a contenção norte-americana através das três grandes
alianças multinacionais da ocasião - Organização do Tratado do Atlântico Norte
(defesa da Europa Ocidental); Organização do Tratado do Centro ( proteção
das regiões do Oriente Médio e da Ásia Central) e Organização do Tratado do
Sudeste Asiático ( proteção do sudeste asiático e Japão).
Finalmente, a nova ordem pós-moderna que entra em vigor a partir da
queda do muro de Berlim e perdura até os dias de hoje. Com rigor, temos plena
consciência de que muitos autores entendem que ainda estamos vivendo na
ordem internacional anterior no sentido de que o sistema internacional yaltiano
60
É nesse momento histórico que a hegemonia norte-americana deixa de ser implícita e,
passa, efetivamente, a moldar as relações internacionais. É por isso que o estrategista
deve examinar a ordem internacional pós-eurocêntrica a partir da análise da evolução do
pensamento estratégico estadunidense, começando-se pela Geoestratégia da Contenção
que entra em vigor logo após o fim da Segunda Guerra Mundial (ordem bipolar) e ao depois
adentrando aos modelos estratégicos de Clinton e Bush.
61
Tais conferências fizeram a divisão geopolítica do mundo. Pela Conferência de Yalta, na
cidade da Criméia, a área de influência da URSS foi limitada ao Leste europeu, enquanto
que, na Conferência de Potsdam, ocorreu a divisão da Alemanha (Berlim foi dividida em
quatro zonas de influência: britânica, norte-americana, francesa e soviética). Ainda em
Potsdam, a Coréia foi repartida entre os EUA e a URSS, ficando a Coréia do Sul sob controle
norte-americano e a Coréia do Norte sob a influência soviética.

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-39, ago/dez. 2007 109
permanece válido presentemente, não existindo ainda uma nova Conferência das
Nações Unidas que tivesse revogado o status quo yaltiano. Sem querer entrar nesse
importante debate, acreditamos, no entanto, que, independentemente da aceitação
ou não do fim da bipolaridade ideológica como marco inicial de uma nova ordem
internacional pós-moderna, o fato é que o colapso da União Soviética gerou grandes
transformações jusgeopolíticas nas relações internacionais. Não se pode negar
que a era pós-bipolar é completamente distinta da ordem internacional anterior
pautada em dois grandes centros de poder com equivalência em todos os campos
do poder nacional (político, militar, econômico, psicossocial e tecnológico).
A questão central que pretendemos debater então é acerca das
características dessa nova ordem pós-moderna que chega sob os influxos de
dois grandes eventos no campo das relações internacionais, quais sejam a
perspectiva de imposição de um cenário internacional unipolar, sob o acicate
de uma Pax Americana e a fixação da Doutrina Bush com viés preventivo que
neutraliza axiologicamente o direito internacional público. Em suma, é este o
nosso próximo espectro temático.

2 - Dilemas da ordem internacional pós-moderna: a Pax Americana e a


Doutrina Bush

A doutrina jurídica não costuma investigar os elementos teóricos que


informam essa perspectiva de unipolarismo geopolítico mundial e seus
reflexos no campo jurídico-constitucional. Na doutrina pátria, um dos poucos
autores que enfrentou o tema foi Daniel Sarmento, e, mesmo assim de forma
perfunctória, valendo, pois, reproduzir seu magistério, in verbis:

O colapso do comunismo, simbolizado pela queda do muro de Berlim,


eliminou uma das ideologias rivais que se defrontavam e disputavam
espaço num mundo até então bipolar. Com o fracasso retumbante
da experiência marxista-leninista e o advento da Pax Americana, o
capitalismo ficou mais a vontade para impor, agora sem concessões,
o seu modelo econômico e social, que constituiria, segundo alguns, o
‘fim da história’.Como se o fiasco do socialismo pudesse ofuscar os
problemas crônicos do capitalismo, em especial a sua tendência para
promover a desigualdade e aprofundar a exclusão social.62

62
SARMENTO, Daniel. Os direitos fundamentais nos paradigmas liberal, social e pós-social-
(pós-modernidade constitucional?). In: FERRAZ Jr., Tércio Sampaio (Coord.). Crises e
desafios da Constituição brasileira. Rio de Janeiro, 2002, p. 399.

110 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007
Com a devida vênia, não concordamos com a visão do eminente jurista,
na medida em que associa o conceito de Pax Americana ao fim da história de
Francis Fukuyama63 e, portanto, com a idéia de triunfo do capitalismo e fiasco
do socialismo.
Com rigor, a concepção de Pax Americana é muito mais ampla, é um
conceito geopolítico, cujo significado é a imposição de um cenário internacional
unipolar com predominância cêntrica norte-americana em todos os campos
do poder nacional (político, econômico, militar, cultural e tecnológico).
Na verdade, por ser a única superpotência ainda remanescente, acredita-
se que estamos vivendo sob os auspícios dessa Pax Americana. No entanto,
acreditamos que tal tipo de intelecção é errôneo, na medida em que os EUA não
têm capital geopolítico suficiente para impor um cenário internacional unipolar,
vale dizer, um quadro mundial onde não haja reação política, econômica,
militar, cultural e tecnológica por parte das demais nações do mundo.
O estabelecimento da Pax Americana seria sinônimo da natural
envergadura estadunidense para reger unilateralmente as relações
internacionais, o que evidentemente não parece ser verdadeiro. Indiscutível
é sua supremacia militar, cuja força efetiva suplanta todas as demais nações
do planeta em conjunto, fazendo mesmo valer a expressão “second to none”.
No entanto, se é inegável a unipolaridade no campo militar, o mesmo não
se dá com relação às outras dimensões do poder nacional, em especial as
dimensões econômica e cultural.
Nesse sentido, pergunta-se: seria minimamente razoável falar-se em
unipolarismo cultural diante do choque de civilizações, tal qual concebido por
Samuel Huntington? 64 E a reação do Islã e sua radicalização religiosa? Seria
sensato concordar com a idéia de universalização inconteste do pensamento
ocidental? E mais ainda: seria lídimo aceitar a subordinação econômica e
tecnológica do Japão e da União Européia aos Estados Unidos? Não seria
melhor pensar-se em extremada competição desses três centros mundiais
de poder nas áreas econômica e tecnológica? E finalmente, a postura
independente das potências regionais Brasil, Rússia, Índia e China (o assim
chamado BRIC)? Não seria mais consentâneo reconhecer um rol de nações
emergentes em busca de liderança regional?
Com a devida vênia a pensamento contrário, definitivamente, não
podemos concordar com a idéia de que estamos a viver sob o pálio de uma
63
FUKUYAMA, Francis. O fim da história. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1998.
64
HUNTINGTON, Samuel. O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial. Rio
de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1998.

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Pax Americana. Ao revés, o mundo dos fatos entremostra que não é tão
simples como imaginaram aqueles doutrinadores do fim da História (Francis
Fukuyama). De feito, a pretensão de uma ideologia única e vitoriosa querer
simbolizar o marco zero de um novo recomeço da história da humanidade
a partir do triunfo do capitalismo não é destarte tão convincente. Não temos
dúvida, a sociedade internacional da era pós-moderna não pode - ou pelo
menos não deve - ser caracterizada pela predominância cêntrica de um único
pólo geopolítico de poder, ao contrário, deve-se buscar nos elementos factuais
do mundo real aqueles sinais identificadores de um cenário internacional
tipificado pela multilateralidade de escopo global. 65
Há que se reconhecer que as tendências mais significativas da sociedade
internacional pós-moderna apontam induvidosamente para uma correlação de
forças - antes vista como militar, mas hoje como sócio-cultural.
Pela primeira vez na história, a política mundial é ao mesmo tempo
multipolar e multicivilizacional (Samuel Huntington). A modernização propiciada
pelo fenômeno da globalização da economia não está sendo acompanhada
pela universalização da ocidentalização, muito ao revés, a influência relativa
do Ocidente está em declínio nas sociedades não-ocidentais, especialmente
a islâmica e a asiática. O Islã está explodindo demograficamente, ao mesmo
tempo em que se radicaliza a questão político-religiosa entre os países
muçulmanos e seus vizinhos. A perspectiva de nuclearização do Irã assombra
o mundo ocidental. A eleição democrática do Hamas na Palestina desafia as
estruturas da ordem jurídica internacional: como lidar com um grupo terrorista
democraticamente eleito pelo povo? Enfim, as civilizações não-ocidentais estão
reafirmando cada vez mais o valor de suas próprias culturas como a indicar a
forte comoção gestada pela publicação da caricatura considerada blasfematória
do Profeta Maomé, o que entremostra o hiato civilizacional dos dias de hoje.
De tudo se vê, portanto que, sob a égide de uma sociedade internacional
multifacetada, não há falar em ideologia única, capitalista, democrática,
universal e neoliberal. Ao contrário, é o choque entre civilizações imbricado
com disputas comerciais que estão a haurir o complexo cenário político-
constitucional do Estado Pós-Moderno. De suma importância, por conseguinte,
o exame percuciente se os Estados Unidos conseguirão impor um paradigma
pós-moderno de Pax Americana, caracterizado pela supremacia absoluta da
nação estadunidense em todos os campos do poder nacional.
65
Aliás,um modo muito especial de compreender os fenômenos conflituais da sociedade
internacional atual é através do estudo da multipolaridade do mundo contemporâneo,
cujas identidades culturais passam a representar, em um plano mais amplo, verdadeiras
identidades civilizacionais.

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-39, ago/dez. 2007
Preferimos optar pela construção acadêmica de que o paradigma da
ordem jurídica internacional de hoje em dia tende para o multilateralismo de
escopo global, sem predominância cêntrica de uma única nação. Sob
tal ótica, advogamos a tese de que é preciso fixar três variantes do cenário
mundial pós-moderno, em cujo seio se mesclam as dimensões econômica,
cultural e militar. Com isso queremos destacar que a sociedade internacional
contemporânea pode ser caracterizada a partir de um cenário internacional
que é, a um só tempo:
a) economicamente trilateral (Estados Unidos, União Européia e
Japão),
b) culturalmente multipolar (choque de civilizações de Samuel Huntington),
e
c) militarmente unidimensional (supremacia norte-americana
incontrastável).
Isso significar dizer, por outras palavras, que o fim da Guerra Fria
criou um contexto mundial, no qual a superioridade militar dos EUA não foi
necessariamente seguida pela sua hegemonia econômica e muito menos ainda
pelo alinhamento cultural automático ao pensamento ocidental. Convivem, nos
primórdios da sociedade internacional pós-moderna, uma economia mundial
triangular, um multiculturalismo de escopo global e uma supremacia militar
incontrastável. 66 Eis aqui, por conseguinte, um primeiro desdobramento
sistêmico da sociedade internacional contemporânea.
Mas isso não basta, é preciso avançar nessa investigação acerca das
características que estão a tipificar tal sociedade e passar a analisar seu
segundo grande dilema, id est, a queda das torres gêmeas do World Trade
Center que traz no seu bojo a justificação moral da tão propalada Doutrina
Bush. A questão que se impõe é saber quais seriam os impactos de tal doutrina
sobre o Direito e em especial sobre o Direito Internacional Público. Seria
legítima a elaboração da doutrina estadunidense deste jaez nesse alvorecer
do terceiro milênio?

66
Uma perspectiva como essa admite a idéia de que a ruptura no equilíbrio geopolítico bipolar
gerou um quadro de multipolaridade com a predominância dos Estados Unidos, mas, que
não se confunde, em nenhuma hipótese, com ordem unipolar, sob o pálio de uma Pax
Americana, tal como os antigos modelos romano ou britânico. Aqui, há que se admitir que
a superação histórica do bipolarismo e o fracasso da ideologia comunista abriram caminho
para um contexto internacional imprevisível, hipercomplexo e ainda inacabado. Neste
sentido, existe, indubitavelmente, um campo amplo de reflexões a fazer, no entanto, já é
possível diagnosticar a natureza híbrida da sociedade internacional contemporânea, cujo
centro de gravidade gira em torno de três grandes eixos: unipolaridade militar, pluralismo
cultural e trilateralismo econômico.

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A primeira consideração a fazer diz com o ressurgimento de uma era de
choque intercivilizacional que traz de per se elementos de guerra santa. De um
lado, a violência radicalizada da Al-quaeda e do outro a visão maniqueísta da
política externa de Bush: a luta do bem contra o mal. Nesse passo, o ataque
de 11 de setembro de 2001 se tornou pretexto para a elaboração da Doutrina
Bush, concepção da iniciativa preventiva que permite atacar primeiro e
perguntar depois. Nesse sentido, não é sem razão a crítica lacerante que
vem recebendo do resto do mundo, seja pela interrupção que provoca no
processo de consolidação do multilateralismo de escopo global, seja pelo
menosprezo que empresta aos demais Estados nacionais e em especial ao
direito internacional público.
Em lapidar lição, o Professor Antônio Celso Alves Pereira ensina que:

Consagrada como “Doutrina Bush”, a nova estratégia destaca,


en­tre seus pilares o contraterrorismo e a legítima defesa
preventiva. For­mulada pelo Conselho de Segurança Nacional,
mais precisamente pela então assessora presidencial
Condoleezza Rice, e anunciada de forma definitiva pelo
presidente em discurso na Academia Militar de West Point, em
01/06/2002, representa uma radical mudança dos conceitos
geoestratégicos que vigoravam no país desde a Guerra
Fria, e se justificaria por sua finalidade, ou seja, criação
de instrumentos legais para controle absoluto de todas as
atividades individuais, princi­palmente de imigrantes, e, da
mesma forma, de concessão ao presi­dente de poderes para
atacar preventivamente, em qualquer parte do mundo, grupos
terroristas ou Estados hostis aos norte-americanos. 67

Em verdade, os desdobramentos dos atentados terroristas aos símbolos


do poder nacional estadunidense ainda não são totalmente conhecidos. Pelo
ineditismo do evento, há que se reconhecer que a compilação do quadro
geoestratégico decorrente ainda é incipiente; muitos subprodutos e resultados
ainda não foram totalmente desvelados.
No campo jurídico-constitucional da proteção dos direitos humanos,
por exemplo, o leitor haverá de se lembrar que a queda das torres gêmeas

67
ALVES PEREIRA, Antônio Celso. Direitos Humanos e terrorismo”, in Direitos
Fundamentais:estudos em homenagem ao Professor Ricardo Lobo Torres (Orgs. Daniel
Sarmento e Flávio Galdino. Rio de Janeiro:Renovar, 2006, p. 130.

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impacta negativamente na garantia das liberdades individuais. A chamada lei
patriótica aprovada sob os influxos da Doutrina Bush vem neutralizando os
direitos fundamentais em prol da segurança nacional. De feito, a Doutrina
Bush desloca para a centralidade do constitucionalismo estadunidense a
Guerra contra o Terror.
Os fatídicos 11 de setembro de 2001 (EUA), 11 de março de 2004
(Espanha) e 7 de julho de 2005 (Grã-Bretanha) são eventos internacionais
que reforçam a fundamentação ética desta cada vez maior denegação dos
direitos fundamentais de primeira dimensão. Com isso, podemos constatar
que o alvorecer do terceiro milênio vivencia um fenômeno jurídico no mínimo
curioso e paradoxal, qual seja o maior centro democrático do planeta veste a
roupagem westfaliana do modelo absolutista para neutralizar os mais antigos
direitos fundamentais do homem: os direitos civis e políticos de inspiração
liberal burguesa.
A questão não é nem de negação de direitos sociais positivos, sujeitos à
reserva do possível (limitações financeiras do Estado), mas, sim, de eliminação
de liberdades individuais e políticas, valores fundantes da sociedade norte-
americana e direitos fundamentais de primeira dimensão, repita-se por
fundamental, direitos de primeira dimensão sendo neutralizados eticamente por
leis de emergência feitas sob o clamor de uma maior sensação de segurança.
Como se vê, os Estados Unidos que se auto-intitulam guardiões universais do
princípio democrático, na verdade, violam direitos humanos, seja na sua Base
de Guantánamo em Cuba, seja em seu próprio território mediante a aplicação
da lei patriótica.
Para além disso, a invasão do Iraque, sem a devida autorização do
Conselho de Segurança das Nações Unidas, contribui para enfraquecer o
direito internacional público no sentido de sujeitá-lo a interesses geopolíticos
da única superpotência remanescente do planeta. Eis que atitudes deste jaez
projetam quadro jurídico anômico nas relações internacionais, isto é, direito
sem regras, direito sem solução de continuidade, direito ad hoc. Sob tal ótica,
fica a sensação de que o princípio democrático tem interpretação própria
quando aplicado à Venezuela de Hugo Chaves e exegese diferente quando
praticado no Iraque. Tudo ao talante da nação mais poderosa do planeta.
Já no plano juspolítico, entendemos que a Doutrina Bush tem inspiração
marcadamente antikantiana, vez que desconsidera a perspectiva da paz
perpétua, desqualificando a via da cooperação internacional e optando por
um unilateralismo nocivo do tipo: “ou é meu amigo ou é meu inimigo”. Esta
visão binária da cooperação internacional é retrógrada e faz mais atual do que

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nunca a idéia clássica de que no Direito Internacional, Deus está morto e o
céu está vazio. 68
Em nome da segurança nacional, a doutrina estadunidense retira,
das profundezas de sua sepultura, conceitos superados da velha teoria dos
negadores práticos do Direito Internacional (Espinoza, Lasson, Gumplowicz,
Lundstedt e outros), 69 cuja lógica conceitual se pauta na supremacia da
lei interna e na inexistência de normas cogentes de Direito Internacional
Público. Podemos mesmo usar a figura retórica de um mundo internacional
hobbesiano, cujo estado de natureza caótico legitima a idéia de que os tratados
internacionais só serão respeitados quando harmônicos com os interesses
específicos do Estado-Leviatã, o todo-poderoso, único capaz de gerar paz e
segurança no âmbito internacional.
Assim, cumpre-nos indagar até que ponto o conceito de segurança
nacional dá azo para a fundamentação ética da Doutrina Bush no plano
internacional. Doutrinadores de escol há que radicalizam sua posição
discordante, Noam Chomsky, por exemplo, vê sinais de terrorismo de Estado
nas ações externas norte-americanas, como a indicar sua lição:

Para os Estados Unidos, é a primeira vez, desde a Guerra de 1812,


que o território nacional sofre um ataque, ou mesmo é ameaçado.
Muitos comentaristas tentaram fazer uma analogia com Pearl
Harbor, mas se trata de um equívoco. Em 7 de dezembro de 1941,
as bases militares em duas colônias americanas foram atacadas
- e não o território nacional, que jamais chegou a ser ameaçado.
Os Estados Unidos preferiam chamar o Havaí de “território”, mas
de fato era uma colônia. Durante os últimos séculos, os Estados
Unidos exterminaram as populações indígenas (milhões de
pessoas), conquistaram metade do México (na verdade, territórios
indígenas, mas isso é outra questão), intervieram com violência
nas regiões vizinhas, conquistaram o Havaí e as Filipinas (matando
centenas de milhares de filipinos) e, nos últimos cinqüenta anos,
particularmente, valeram-se da força para impor-se a boa parte
do mundo. O número de vítimas é colossal. Pela primeira vez, as
armas voltaram-se contra nós. Foi uma mudança dramática (...)
devemos reconhecer que em grande parte do mundo os EUA são
68
MELLO, Celso D. de Albuquerque. Curso de Direito Internacional Público. 12ed., v.1. Rio de
Janeiro:Ed. Renovar, 2000, p. 51.
69
Cf. MELLO, Celso D. de Albuquerque. Op. cit. p.103.
116 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,
-39, ago/dez. 2007
vistos como um Estado líder do terrorismo, e por uma boa razão.
Podemos considerar, por exemplo, que em 1986 os EUA foram
condenados pela Corte Mundial por uso ilegal da força (terrorismo
internacional). (grifo nosso) 70

Sem concordar com a exegese forte de Noam Chomsky no que tange


ao enquadramento dos EUA como Estado líder do terrorismo internacional,
é importante, no entanto, levar em consideração que os dois grandes
dilemas da sociedade internacional pós-bipolar são decorrentes diretamente
da política externa dos EUA. Com efeito, é preciso que o leitor vislumbre
criticamente os conceitos de Pax americana e Doutrina Bush, contrastando-
os com a possibilidade de um cenário prospectivo de multipolaridade
sem predominância cêntrica unilateral.
É tempo de concluir, ressaltando a relevância da compreensão do
cenário internacional pós-Guerra Fria. Não há mais espaço para intelecções
ingênuas no campo internacional. O estrategista hodierno tem a tarefa de
desvelar o enigmático jogo internacional dos centros mundiais de poder,
notadamente os Estados Unidos da América, maior potência econômico-
militar do planeta. Analisar o cenário internacional significa antes de tudo
compreender os modelos de estratégia global dos EUA. E assim é que,
falar em Pax Americana, no momento em que o direito internacional público
vivencia seu momento mais melancólico, é concordar com a imagem de um
cenário mundial unipolar, ditado unilateralmente pela única superpotência
remanescente do planeta.
Da mesma forma, falar em Doutrina Bush, enquanto concepção
de legítima defesa, é concordar com outra imagem distorcida do direito
internacional público, qual seja, o desrespeito ao conceito de soberania
nacional dos países mais fracos do cenário mundial. Na verdade, a idéia-
força que impele a política externa estadunidense é a perspectiva de obter
legitimidade internacional para suas operações de intervenção unilateral.
É por isso que a nova estratégia de segurança nacional dos EUA não
tardou a fixar seus dois novos pilares de sustentabilidade, quais sejam:
(i) promote freedom, justice and human dignity e
(ii) confront challenges by leading growing community of
democracies.
Aqui, o leitor deve compreender, com agudeza de espírito, que não
70
CHOMSKY, Noam. 11 de setembro. Tradução Luiz Antonio Aguiar. 6ª ed. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2002, pp. 12 e 17.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007 117
se trata de promover a prosperidade mundial, mas, tão-somente de usar
a força axiológica dos princípios reitores do atual Estado Democrático de
Direito (dignidade da pessoa humana e respeito à vontade majoritária)
para fundamentar eticamente sua ânsia interventiva. Com efeito, o gênio
pragmático do estrategista estadunidense logo percebeu a importância
da dignidade da pessoa humana como novo centro axiológico do Estado
Democrático de Direito e por isso mesmo um vetor geopolítico com elevada
densidade axiológica capaz de legitimar intervenções militares em solo
estrangeiro.
De tudo até aqui analisado fica o alerta de Paul Kennedy quando realça
a idéia de que “without strategy there is only drift”. 71 Com efeito, um país
sem estratégia é um país sem rumo, um país à deriva, facilmente seduzido
pela força atrativa de modelos estratégicos alienígenas. No Brasil, há um
vazio estratégico que impede a efetiva concretização da Constituição, na
exata medida do descompasso entre a letra da Constituição e a formulação
de políticas públicas. Daí nossa concordância plena com Gilberto Bercovici
quando afirma que uma outra questão que ignoramos ultimamente é a questão
do desenvolvimento. Sem um Estado que promova uma efetiva política de
desenvolvimento, podemos colocar o que quisermos na Constituição, e,
infelizmente, estaremos condenados a ficar denunciando o fato de que a
Constituição prevê algo que na realidade não se concretiza. 72
Esta a razão pela qual vamos em seguida traçar linhas teóricas
para uma possível geopolítica brasileira para o século XXI, dentro de um
escopo mais amplo de um geodireito autônomo com latitude suficiente
para aperfeiçoar as relações entre o direito constitucional e a estratégia
nacional.

IV - Elementos para uma geopolítica brasileira para o


século XXI

Hodiernamente, dentro de um contexto mundial globalizado, a projeção


de um país no concerto das nações é função de sua estratégia de inserção
internacional. Neste mister, é dever do estrategista pátrio traçar as linhas
dominantes da política internacional do país. Não obstante isto, verifica-se
que o Brasil nas últimas décadas vem mostrando ser incapaz de engendrar
71
CERAMI, Joseph. HOLCOMB, James. Strategic Studies Institute. U.S. Army War College,
february, 2001, p.1.
72
Cf.,ob.,cit.p. 79.
118 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,
-39, ago/dez. 2007
um projeto nacional de desenvolvimento que contemple nossas reais
possibilidades de inserção autônoma no cenário internacional. Conforme
visto alhures, é imperioso a construção de um geodireito autóctone que não
aceite tratamento inferiorizado.
Nossa Carta Magna preconiza no seu artigo quarto a busca da
formação de uma comunidade latino-americana de nações. Não deixa de
ser uma orientação geopolítica importante para a política externa brasileira.
No entanto, acreditamos que a integração latino-americana, muito embora
seja a melhor trajetória geopolítica a trilhar, é de difícil execução. O México
já se encontra irremediavelmente vinculado aos EUA; os países do Caribe
e da América Central também estão mais próximos estrategicamente dos
EUA do que a qualquer país sul-americano; enfim uma integração deste jaez
seria praticamente impossível, pelo menos no período de curto ou médio
prazo. Assim sendo, conjeturamos como melhor solução para a geopolítica
brasileira nestes primórdios da pós-modernidade a redução do nosso espaço
vital para o subcontinente sul-americano.
É este induvidosamente nosso verdadeiro lebensraum, nosso efetivo
espaço vital. Dessarte, entendemos que a integração sul-americana deve ser
o ponto de partida de qualquer projeto brasileiro de inserção internacional. Em
outros termos, a construção de um modelo geopolítico brasileiro deve partir
do fortalecimento da América do Sul, como passo inicial de um projeto de
inserção internacional muito mais amplo e que englobe também as relações
com os centros mundiais de poder, com a África e, finalmente, com a Ásia.
Assim sendo, defendemos a tese de que o estrategista pátrio tem
o desafio de arquitetar a integração da chamada tríade sul-americana,
composta pelos três grandes conjuntos geopolíticos do nosso subcontinente
(Arco Amazônico, Pacto Andino e Cone Sul). Eis aqui a primeira etapa de
uma concepção geopolítica genuinamente brasileira. Em seguida, deve-
se então configurar as três grandes frentes extracontinentais: a primeira
voltada para os centros mundiais de poder (EUA, Europa e Japão), a
segunda denominada de frente atlântica, atrelada à projeção brasileira sobre
a África e, finalmente, a terceira denominada frente sul-sul e que engloba
principalmente a interligação IBAS-Mercosul.73 A figura abaixo sintetiza
nossa concepção geopolítica multipolar.
73
Integração da Índia, Brasil e África do Sul, cujo Fórum de Diálogo acaba de ser realizado
em Pretória, nascendo a proposição de formar uma grande zona de livre comércio entre os
países do Mercosul, da África do Sul e da Índia. Para além dessa integração, a frente sul-
sul engloba ainda a integração Mercosul - Países árabes e o assim chamado BRIC (Brasil,
Rússia, Índia e China).

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007 119
ALTERNATIVAS GEOPOLÍTICAS
PARA O ESTADO BRASILEIRO

Centros
mundiais de
poder
A r co Frente
A mazônico SUL-SUL
FRENTE IBAS
ATLÂNTICA MERCOSUL
Pacto C one
A ndino Sul

Com efeito, a integração do chamado triângulo geopolítico sul-americano


é o melhor projeto de integração da América do Sul. Sob o acicate orientador da
liderança benigna brasileira, a integração destes grandes conjuntos geopolíticos
pode ser feita a partir da exploração de suas vocações naturais e pautada no
caráter de intercomplementaridade sub-regional. 74 Já com relação aos Centros
74
E assim é que no âmbito do Arco Amazônico, por exemplo, a postura brasileira deveria
caminhar no sentido de integrar os países da região por intermédio de acordos multinacionais
de construções de hidrelétricas (setor onde o Brasil desponta como um grande competidor
internacional), valorização de redes pan-amazônicas de ciência&tecnologia e saúde
(pesquisas cientificas em torno da biodiversidade seriam priorizadas em todas as
universidades dos países amazônicos, visando a agregar maior valor às suas descobertas
e assegurando as patentes sul-americanas, evitando, por conseguinte a fuga de recursos
pela pirataria e tráfico ilegal de ervas e sementes), intensificação do turismo ecológico
(construção da infra-estrutura necessária ao seu desenvolvimento), etc. A questão indígena
tem que ser solucionada em tautocronia com a perspectiva de incrementar a exploração
dos minerais nobres da Amazônia. Em suma, o conceito estratégico da FLORESTANIA,
que alguns Estados brasileiros vêm desenvolvendo deveria ser exportado a todos os
demais países amazônicos. O zoneamento ecológico da região possibilitaria engendrar
melhores estratégias de aproveitamento econômico em âmbito continental. A integração da
Comunidade Andina de Nações é bem mais complicada, mas nem por isto impossível. O
ponto nodal do posicionamento geopolítico brasileiro dentro da frente andina deve apontar
para a mitigação da iniciativa norte-americana em dilargar o Plano Colômbia para os seus
países lindeiros. Já o Mercosul é inquestionavelmente o principal fórum de integração
sul-americana. As outras duas frentes, a amazônica e a andina, são complementares
dentro do processo de inserção internacional da América do Sul. Este é um rol meramente
exemplificativo, com certeza muitas outras iniciativas poderiam aqui ser elencadas, mas
não há espaço para tanto, fica apenas a sinalização de uma vibrante integração a partir
destas três grandes frentes: amazônica, andina e platina.

120 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007
Mundiais de Poder, nossa estratégia deve ser a de manter posição firme contra
os subsídios agrícolas dos EUA, Europa e Japão, bem como a questão da lei
de patentes e das transferências de tecnologia. O Brasil também não pode abrir
mão de seu submarino nuclear e de seu programa aeroespacial (o estrategista
brasileiro deve esperar reação dos EUA nesse mister). Com relação à frente
atlântica é importante destacar a aproximação com o continente a partir da
revolução do biodiesel e de outros investimentos brasileiros ligados à construção
civil. Finalmente, a frente sul–sul pode abrir amplas perspectivas de integração
trilateral envolvendo os países do Mercosul, da África do Sul e da Índia,
formando-se, portanto, uma grande zona de livre-comércio no hemisfério sul. De
tudo se vê por conseguinte a importância de o estrategista pátrio sistematizar
a inserção internacional do Brasil. Sem visão ampla não será possível moldar o
sistema de forças geopolíticas sul-americanas em direção única. Não há outro
caminho a trilhar a não ser o de buscar a integração do triângulo geopolítico sul-
americano. Com efeito, a interligação das frentes amazônica, andina e platina
é uma concepção com latitude geopolítica capaz de enfrentar a influência dos
centros mundiais de poder.

V - Conclusão

O presente trabalho procurou mostrar que o mundo pós-moderno vem


passando por transformações radicais em conseqüência de dois grandes
momentos de ruptura paradigmática: a queda do muro de Berlim (1989) e a queda
das torres gêmeas (2001). Tais eventos têm desdobramentos jusgeopolíticos
graves que trazem no seu âmago a desconstrução do welfare state, a revivificação
magnificada da doxa liberal e, principalmente, os riscos de neutralização axiológica
do direito internacional ante a postura unilateralista e preemptiva da política externa
estadunidense. Esta é a compilação de um quadro pós-moderno hipercomplexo
que já não conta mais com aquela alta previsibilidade estratégica da ordem
internacional bipolar, cuja linha mestra era a disputa de espaços geográficos com
base no princípio do alinhamento geopolítico necessário.
E assim é que, na esteira desta complexidade pós-moderna, a dinâmica
do Estado também se acelera, na medida em que se vê compelido a incorporar
na sua equação estratégica variáveis advindas de interesses vitais dos centros
mundiais de poder. Entendemos fundamental destacar a idéia-força de que a
verticalização de relações geopolíticas entre centro e periferia obstaculiza a
criação de um projeto genuinamente nacional de desenvolvimento. Destarte,
urge ao estrategista brasileiro, sem submissão aos centros mundiais de poder

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.9521- 126,


-39, ago/dez. 2007 121
e em especial aos Estados Unidos da América, desvelar a intrincada tessitura
que interliga a geopolítica e a Constituição.
É por tudo isso que outro caminho não se teve senão o de trilhar –
inicialmente - a longa evolução dos ciclos estatais da modernidade, desde o
nascimento do Estado nacional propriamente dito a partir da Paz de Westfália
de 1648, perpassando-se pelo Estado Liberal de estatalidade mínima e
garantidor da livre iniciativa até finalmente chegar-se ao paradigma estatal
do bem estar social. Pretendeu-se, portanto, demonstrar que a proteção dos
direitos fundamentais é fruto do modelo de Estado que se adota. É nesse
sentido que acreditamos que o estrategista brasileiro tem o grande desafio
de conceber, com agudeza de espírito, um novo paradigma de estatalidade
positiva atenuada que harmonize de um lado o binômio livre iniciativa - abertura
mundial do comércio e, do outro, o trinômio dignidade da pessoa humana -
desenvolvimento nacional - justiça social.
Na virada do século XX para o século XXI, uma geopolítica submissa
aos centros mundiais de poder é o grande avisador de tempos sombrios para
o Brasil. Não temos dúvida, o grande imperativo categórico das relações
internacionais brasileiras nesses tempos de estatalidade pós-moderna é
induvidosamente saber articular geopoliticamente a tríade sul-americana
(arco amazônico, pacto andino e cone sul) como ponto de partida para uma
grande geopolítica genuinamente nacional que se projete em três grandes
frentes externas:
a) a frente norte com os centros mundiais de poder;
b) a frente atlântica que cuida dos interesses brasileiros na África e no
Atlântico Sul; e, finalmente
c) a frente sul-sul que trata da interligação do Mercosul com o IBAS e
com os países árabes, bem como as perspectivas de integração no âmbito
dos BRIC.
Esta é a única maneira de vencer o ciclo da periferia.

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-39, ago/dez. 2007
A viabilização de investimentos para a defesa
e a modernização da indústria nacional
Grupo de Trabalho Juventude

Ursula Elisa Blumer, Ronaldo Lopes Canteiro, Mussoline da Silveira Soares


Filho, Edwaldo Sarmento, Élcio Assis Cardoso, Getúlio Ursulino Netto, Merheg
Cachum, Nélson Antunes, Paulo José Cavalcanti Albuquerque
Estagiários do Curso de Gestão de Recursos de Defesa CGERD/SP em 2007

I - Introdução

Um país com uma população beirando os 200 milhões de habitantes,


com uma extensão de aproximadamente 8.500.000 km², com uma plataforma
continental de mais de 900.000 km², na qual está quase toda a sua produção
de petróleo e gás natural , bem como com todo um espaço aéreo de 22
milhões de km² para ser protegido, deve ter tanto Forças Armadas equipadas
e adestradas como uma Indústria Nacional de Defesa moderna e avançada.
Isso acontece em nosso país?
Os orçamentos dos Comandos Militares, além de terem um percentual
baixo se os analisarmos em relação ao nosso Produto Interno Bruto (PIB),
possuem uma fragilidade ainda maior: são quase que em sua totalidade
vinculados a pagamento de pessoal, principalmente inativos e pensionistas.
Isso termina gerando insuficiência de recursos para outros gastos, mormente
investimentos.
As carências orçamentárias terminam por se refletir na nossa Indústria
Nacional de Defesa, que teve tanto êxito no cenário mundial nas décadas de
70 e 80 do século passado. A sua situação atual, bem como os óbices que a
prejudicam, serão analisados com mais minudência nesse trabalho.
Será efetuada uma análise de uma nova forma de captação de
investimento, a securitização, os ativos envolvidos, os participantes dessas
operações, assim como os riscos que as permeiam, detendo-se na Entidade
de Propósito Especial, que é uma criação nova no mercado, sendo enfocadas
também as vantagens desse tipo de operação financeira, em um país como o
Brasil, cujo custo do dinheiro é dos mais altos no mundo, bem como a quem
cabe a responsabilidade de fiscalizar esse novel instituto do mercado de
capitais.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


12721- 148,
-39, ago/dez. 2007 127
O modus operandi dessa nova forma de investimento e a possibilidade de
capitalização da Indústria Nacional de Defesa serão dissecados, assim como
as operações serão detalhadas em seus aspectos principais, analisando-se
primordialmente o papel da União, assim como as garantias que essa dará
aos investidores e, como haverá recursos públicos envolvidos, mencionar-
se-á a atuação do Tribunal de Contas da União no processo.
Finalmente, medidas complementares serão sugeridas para que
sejam possibilitadas todas as condições para que o nosso país possa
ter uma Indústria Defesa moderna e eficiente, podendo suprir quase que
totalmente as necessidades das nossas Forças Armadas e que permita
à nossa Base Industrial de Defesa voltar a possuir uma importância
fundamental na nossa balança comercial, com altos ganhos no mercado
externo, conforme aconteceu no apogeu dessa indústria, nas décadas de
70 e 80.

II - A situação atual dos orçamentos militares e as


necessidades do setor de defesa

1 - Condicionantes da Defesa Nacional

Cumprir a missão a qualquer preço. Mensagem a Garcia. Esses são


jargões comuns nas nossas Forças Armadas que têm o significado de que
o militar, uma vez que recebeu as suas ordens de cumprimento de missões,
tem o dever de cumpri-las. Isso, por mais imbuídos de que estejam os nossos
soldados da importância da realização das suas tarefas, nos dias de hoje já
não funciona, em virtude do constante aperfeiçoamento e da sofisticação dos
equipamentos bélicos.
A Constituição Federal, em seu artigo 142 estabelece que “As Forças
Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são
instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na
hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República,
e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por
iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.
Além dessa referência explícita à missão das Forças Armadas, que está
incluída no capítulo II do título V da nossa Carta Magna, existem também
como balizadores das missões dos militares dois documentos da mais alta
relevância, que são a Política de Defesa Nacional e a Política Militar de
Defesa.

128 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


12721- 148,
-39, ago/dez. 2007
A Política de Defesa Nacional voltada preponderantemente para ameaças
externas, é o documento condicionante de mais alto nível do planejamento de
defesa e tem por finalidade estabelecer objetivos e diretrizes para o preparo
e emprego da capacitação nacional, com o envolvimento dos setores militar e
civil, em todas as esferas do Poder Nacional. De ressaltar-se que a coordenação
das ações necessárias à Defesa Nacional é de incumbência do Ministério da
Defesa.
Já a Política Militar de Defesa, que tem por finalidade orientar os
planejamentos estratégicos militares das Forças Armadas e do Estado-Maior
de Defesa, utiliza uma estrutura própria de modelo funcional, cuja aplicação
resulta em objetivos e diretrizes para a orientação do preparo e do emprego da
capacidade militar requerida para a Defesa Nacional. Essa Política é decorrente
da Política de Defesa Nacional e de diretrizes emanadas pelo Presidente da
República, o Comandante Supremo das Forças Armadas, condicionando, a
partir disso, a nossa Estratégia Militar de Defesa.
A Defesa Nacional, que tem basicamente o caráter dissuasório, de
proteger a nossa população, o nosso extenso território, o espaço aéreo e a
nossa costa, é assunto de interesse de toda a sociedade e, como tal, necessita
ser tratada sob a ótica do respaldo da Nação Brasileira.
Estariam, então, as nossas Forças Armadas preparadas para as
missões que lhes são atribuídas pela nossa Constituição e pela legislação
infraconstitucional referenciada? A princípio, não, como se poderá observar
da análise subseqüente, em que o orçamento do Ministério da Defesa e o de
cada Força serão enfocados, bem como a situação atual e as necessidades
das mesmas.

2 - O Orçamento do Ministério da Defesa

Se analisarmos o Orçamento Geral da União, a princípio deduziremos


que o Ministério da Defesa é muito bem aquinhoado, pois é o terceiro em
recursos brutos, atrás apenas dos Ministérios da Previdência Social e da
Saúde. Porém, como qualquer análise superficial, essa afirmação mostra-se
falsa, se analisarmos a grandiosidade da missão das nossas Forças Armadas,
de garantir nossa soberania em um território de aproximadamente 8.500.000
km2, com 8.500 km de litoral, bem como o nosso espaço aéreo, sem esquecer
as inúmeras missões subsidiárias (não finalísticas) que lhes são atribuídas.
Outro aspecto importante a ser ressaltado é o estudo do perfil do orçamento,
onde a rubrica de pessoal consome a maior parte do mesmo.

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Na Lei de Orçamento Anual (LOA) de 2007, o orçamento do Ministério
da Defesa de R$ 38.890,50 milhões correspondeu a 1,86% do nosso Produto
Interno Bruto (PIB), bem como a 4,63% do Orçamento Geral da União,
salientando-se, porém, que a função orçamentária Defesa Nacional, que não
contempla o pagamento de inativos e pensionistas, bem como a amortização
de encargos da dívida, corresponde a apenas 2,1% do orçamento.
Embora não seja o ideal, se atentarmos para as missões já referidas,
de responsabilidade das Forças Armadas, o percentual do PIB, embora tenha
diminuído ao longo do tempo (em 1995 os gastos com Defesa correspondiam
a 2,58% do PIB), não é o dado mais dramático. A alocação dos recursos por
grupos de despesa é o que mais preocupa.
No ano de 2007, 80,2% do Orçamento do Ministério da Defesa
correspondem a gastos com pessoal, 10,5% são despesas de custeio, 4,2%
para amortização e juros da dívida, sobrando ínfimos 5,1% para investimentos
e inversões, ressaltando que dentre esses investimentos não estão apenas
os vinculados a equipamentos, estando incluídos os voltados para a área
administrativa, como obras civis, aquisição de mobiliário etc.
Mais dramática ainda se torna a nossa análise ao atentarmos que, no
corrente exercício, 62,7% do gasto com pessoal correspondem a pagamento
de inativos e pensionistas. Isso termina contribuindo para dificultar ainda mais
o quadro, pois, mesmo sendo notória a baixa remuneração dos militares,
qualquer aumento de soldos gera um efeito cascata muito grande para o Tesouro
Nacional, em função da necessidade de extensão do mesmo aos respectivos
inativos e pensionistas.
O baixo valor com que são aquinhoadas nas despesas de custeio as
operações cotidianas das Forças Armadas dificulta o treinamento para os
nossos soldados, marinheiros e pilotos operarem os equipamentos militares,
bem como a sua manutenção e conservação, propiciando o sucateamento
dos mesmos.
A terceira grande dificuldade é o valor ínfimo destinado aos investimentos
em equipamentos militares, o que tem gerado a diminuição da capacidade de
as Forças Armadas se prepararem para os desafios do futuro, isto é, o nosso
país está perdendo a sua capacidade tecnológica na área de defesa, pois
investe muito pouco em ciência e tecnologia do setor, o que implica também
na diminuição do seu parque industrial voltado para essas atividades, tanto
público como privado.
A partir de agora, faremos uma rápida análise tanto dos orçamentos como
das necessidades de cada Força Armada de per si.

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3 - O Orçamento da Marinha e as suas necessidades

O Comando da Marinha que tem por missão constitucional guarnecer


a nossa plataforma continental de 911.847 km², bem como uma área de 14.8
milhões de km2 sob sua responsabilidade para busca e salvamento, por onde
transitam 95% do nosso comércio exterior e 85% da nossa produção de petróleo,
a chamada Amazônia Azul, recebeu na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2007
a importância de R$ 9.276,10 milhões, dos quais R$ 7.729,20 milhões (83,3%)
para pessoal, R$ 1.050,40 milhões (11,3%) para despesas de custeio, R$ 439,30
milhões (0,6%) para amortização da sua dívida e apenas R$ 439,30 milhões
(4,7%) para investimentos.
Essa situação orçamentária tem gerado sérios problemas de
disponibilidade dos equipamentos, tendo os meios navais uma disponibilidade
média de 48,1% e os aeronavais apenas 40,7%.
Essa degradação dos meios navais e aeronavais implica em uma série
de conseqüências, que vão do comprometimento das tarefas de patrulha e
inspeção naval, com vulnerabilidade das plataformas de petróleo, aumento
do contrabando marítimo e da pesca predatória, ao prejuízo à assistência
médica das populações ribeirinhas da Amazônia, assim como a degradação
da sinalização náutica, comprometendo a segurança da navegação marítima
e fluvial, gerando maiores custos de frete e seguro (aumentando o chamado
custo Brasil), até a existência de um déficit no ensino profissional marítimo, de
sua incumbência, com a conseqüente perda de qualificação dos marítimos e
aquaviários.
A Marinha do Brasil tem sofrido também com a descontinuidade de
recursos para o seu programa de construção do submarino nuclear, que, não
obstante isso, tem apresentado notáveis progressos, como a descoberta de um
processo inédito e mais barato de enriquecimento de urânio. Notícia alvissareira
foi o recente comunicado do Presidente Lula anunciando a injeção de recursos
em tal projeto.
No caso dessa Força, então, as necessidades mais prementes seriam a
renovação de sua frota de meios navais e aeronavais, como o citado submarino
nuclear, novos submarinos convencionais e navios-patrulha para atuarem na
Amazônia, bem como um aumento substancial em sua dotação de custeio, para
evitar a degradação dos equipamentos já existentes, sem deixar de atentar para
que o que é investimento hoje se transforma em custeio amanhã e finalmente
um fluxo adequado e constante de recursos para a efetiva conclusão do projeto
do submarino movido a energia nuclear.
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Não devemos nos esquecer que a Marinha, por previsão constitucional,
tem direito a ganhar percentuais sobre royalties do petróleo produzido em
nossas plataformas marítimas, royalties esses que têm sido freqüentemente
contingenciados visando a produção de superávits primários, por parte das
equipes econômicas dos sucessivos governos.

4 - O orçamento do Exército e as suas necessidades

O Comando do Exército, que tem por missão guarnecer um território


de aproximadamente 8, 5 milhões de quilômetros quadrados e as nossas
fronteiras terrestres de 15.700 km, recebeu no ano de 2007 a importância de R$
17.658,90 milhões, dos quais R$ 15.778,40 milhões (89,4%) para pagamento
de pessoal, R$ 1.641,20 milhões (9,7%) para despesas de custeio, R$v48,8
milhões (0,3%) para amortização da dívida e ínfimos R$ 190,5 milhões (1,1%)
para investimentos.
Essa baixa dotação orçamentária tem inicialmente prejudicado o
treinamento do pessoal, pois os expedientes têm sido reduzidos com a concessão
de meio expedientes, em função da falta de recursos para proporcionar
alimentação à tropa, assim como também faltam recursos para a aquisição de
munição, o que atrapalha a realização dos exercícios operacionais, também
prejudicando sensivelmente a manutenção dos equipamentos militares.
O Projeto Calha Norte, pela sua importância de ocupação e defesa das
riquezas existentes na região Amazônica, que era para ser interministerial, por
omissão da maioria dos órgãos públicos parceiros tem sido quase que um projeto
exclusivo do Ministério da Defesa, gerando com isso, uma responsabilidade
maior desse Ministério, o que termina se refletindo em uma diminuição de
recursos a serem transferidos para os Comandos Militares, particularmente
ao Exército, maior participante desse projeto
Como a Marinha do Brasil, o Exército necessitaria de um substancial
aumento no fluxo de recursos para custeio, providenciando uma melhor
manutenção de seus equipamentos e um maior aprestamento do seu
efetivo de aproximadamente 232.000 militares e 658 Organizações Militares
espalhadas pelo país. Precisaria também de uma melhora de seus meios
bélicos, com a aquisição de novas viaturas e blindados, pois os que possui
têm a idade média de 20 e 34 anos respectivamente, bem como canhões,
já que 52% desses possuem tecnologia da 2ª Guerra Mundial, assim como
é urgente o desenvolvimento de mísseis anti-aéreos terra-ar de tecnologia
nacional .

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5 - O Orçamento da Aeronáutica e as suas necessidades

O Comando da Aeronáutica, que tem por missão guarnecer o nosso


espaço aéreo e, subsidiariamente, fazer o controle de todo o tráfego aéreo
no país, com uma área de responsabilidade de 22 milhões de km², recebeu
em 2007 a dotação de R$ 10.318,70 milhões, assim distribuídos: R$ 6.876,50
milhões (66,6%) para o pagamento de pessoal, R$ 1.348 milhões (13,1%)
para custeio, R$ 805,70 milhões (7,8%) para o serviço da dívida e R$ 1.288,50
milhões (12,5%) para investimentos.
De ressaltar-se que as maiores dotações nas rubricas serviço da dívida
e investimentos por parte da Aeronáutica referem-se a gastos do Programa
de Reaparelhamento da Força, que se iniciou no ano de 2000 e que tem
continuado, se bem que a passos lentos.
Outro aspecto importante a ser levado em conta no caso da Força Aérea é
que houve há tempos atrás uma certa priorização para gastos não militares, como
em infra-estrutura de aviação civil, não obstante as críticas atuais, na EMBRAER
etc, daí inclusive a necessidade maior de um Programa de Reaparelhamento.
A Força Aérea tem uma frota com uma idade média entre 30 e 35 anos
e a sua disponibilidade atual é de 39% de seus meios aéreos. Tem havido
razoável recuperação do número de horas voadas, o que tem melhorado o
aprestamento dos pilotos e das tripulações, porém sem chegar nem perto da
quantidade das horas voadas na década de 1980.
A Aeronáutica necessita concluir com mais velocidade o seu Plano de
Reaparelhamento, com a aquisição do caça supersônico F-X, ampliar sua frota
de helicópteros de transporte e de ataque, adquirir mísseis de últimas gerações,
assim como receber mais recursos para o Projeto Aeroespacial, com o seu
Veículo Lançador de Satélites.
Igualmente à Marinha, a Aeronáutica também tem tido recursos dos
Fundos Aeronáutico e Aeroviário contingenciados, visando a produção de
superávits nas contas públicas, o que termina por desestimular a Indústria
Nacional de Defesa, como veremos no capítulo seguinte.

III - A situação atual da indústria nacional de defesa

1 - Legislação

A Indústria Nacional e, mais particularmente a voltada para a área da


Defesa, é regulada por uma série de textos normativos que, nos últimos
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-39, ago/dez. 2007 133
anos, têm procurado lançar as bases legais que permitam o seu efetivo
desenvolvimento, voltando aos tempos áureos das décadas de 70 e 80, porém
com bases bem mais sólidas do que as daquele período e, principalmente,
apoiada efetivamente em instituições privadas, com o Governo exercendo um
papel complementar, mormente de fomento e apoio.
O primeiro documento a ser citado é a nossa Carta Magna, que em seu
Título VII, Da Ordem Econômica e Financeira, Capítulo I, Dos Princípios Gerais
da Atividade Econômica, em seu Art. 170 assevera que a ordem econômica,
fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, observa alguns
princípios dos quais citaríamos a soberania nacional, a propriedade privada e
a função social da propriedade.
Reiterando a preocupação já citada com a indústria nacional de defesa,
o Ministro da Defesa instituiu, pela Portaria nº 611, de 12 de maio de 2005, a
Comissão Militar da Indústria de Defesa (CMID), com a atribuição principal de
propor e coordenar os estudos relativos ao fomento às atividades de pesquisa,
de desenvolvimento, de produção e de exportação de produtos de defesa, bem
como determinou a sua composição, basicamente por integrantes do Ministério
da Defesa (MD) e Oficiais-Generais das três Forças.
Pelo mesmo documento, foi instituído o Fórum da Indústria de Defesa
(FID), composto por presidente e membros do CMID, representantes das
indústrias, federações e associações ligadas à área de defesa, bem como
por representantes de entidades de ensino, de pesquisa e desenvolvimento,
da logística e mobilização.
Foi criado também o Comitê Técnico da Indústria de Defesa, com
representantes do MD, dos Comandos Militares e de membros convidados
dos Ministérios das Relações Exteriores, do Desenvolvimento, Indústria e
Comércio Exterior, da Ciência e Tecnologia, do Planejamento, Orçamento e
Gestão e da Fazenda.
Posteriormente, pela Portaria nº 899/MD, de 19 de julho de 2005, foi
aprovada pelo Ministro da Defesa a Política Nacional da Indústria de Defesa
(PNID), que tem como objetivo geral o fortalecimento da Base Industrial de
Defesa (BID), e como objetivos específicos: a conscientização da sociedade
quanto à necessidade de o país dispor de uma forte BID; a diminuição progressiva
da dependência externa de produtos estratégicos de defesa, desenvolvendo-os
e produzindo-os internamente; a redução da carga tributária incidente sobre a
BID, inclusive corrigindo as distorções em relação aos produtos importados; a
ampliação de capacidade de aquisição de produtos estratégicos de defesa da
indústria nacional pelas Forças Armadas; a melhoria da qualidade tecnológica

134 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.127


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148, ago/dez. 2007
dos produtos de defesa; o aumento da competitividade da Base Industrial de
Defesa (BID) brasileira para expandir as exportações e, finalmente, a melhoria
da sua capacidade de mobilização industrial.
Deve-se ressaltar que para a implementação da PNID algumas assertivas
foram estabelecidas, quais sejam: as ações estratégicas deveriam priorizar a
preservação da base industrial então existente; as ações estratégicas deveriam
ser indutoras, sem retirar da indústria sua capacidade de empreendimento, sua
iniciativa e seus próprios riscos e as empresas públicas devem desempenhar
suas atividades em complemento às de caráter privado, evitando a concorrência
com estas últimas, corroborando o disposto na CF, que tem como um dos
princípios básicos da ordem econômica a livre iniciativa.
Finalmente, pela Portaria Normativa nº586/MD, de 24 de abril de 2006,
foram aprovadas as ações estratégicas para a PNID, detalhando-as e propondo
procedimentos operativos.

2 - Situação Atual do Setor Industrial de Defesa

O Setor Industrial de Defesa, produtor de itens de alto valor agregado,


que vão desde alimentos, armamentos, aviões militares, eletrônica, foguetes,
navios até a sistemas de armas e viaturas, compõe-se no Brasil de cerca de
300 empresas, proporcionando aproximadamente 30.000 empregos diretos e
mais de 120.000 empregos indiretos e das quais apenas 15 são voltadas para
a exportação.
Se dermos um passeio na história veremos que, conforme informações
do Gen. Amarante, ex-Presidente da IMBEL, houve três ciclos na indústria de
defesa, quais sejam:
- o ciclo dos arsenais, de 1762 a 1889, com arsenais como o de
Marinha e o de Guerra;
- o ciclo das fábricas militares, de 1889 até a década de 40 do último
século, com fábricas pertencentes às Forças Armadas, como as
fábricas do Andaraí, hoje desativada, destinada à fabricação de
granadas de artilharia e morteiros, a de Bonsucesso, produtora
de máscaras contra gases, a de Curitiba, fabricante de viaturas
hipomóveis, a de Itajubá, de armamentos leves e a de Juiz de Fora,
destinada à fabricação de munição de grosso calibre, estas duas
últimas hoje pertencentes à IMBEL e finalmente
- o ciclo da pesquisa e desenvolvimento, dos anos 40 até hoje, que,
se por um lado foi prejudicado pela invasão de equipamentos

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militares importados disponíveis e de baixo custo, depois de
usados na 2ª Guerra Mundial, por outro lado foi gerada no seio
das Forças Armadas a consciência da importância da pesquisa e
desenvolvimento, sendo criados o Centro Técnico Aeroespacial
(CTA), pela Força Aérea, o Instituto de Pesquisas da Marinha e
o Centro Tecnológico do Exército, que, realizando extraordinário
trabalho de fomento industrial, transferiram para a iniciativa privada
uma série de tecnologias que possibilitaram com que nossa
indústria de defesa atingisse o seu apogeu no final da década de
80.
Como já foi dito, em função da base intelectual proporcionada
pelos institutos de pesquisa das três Forças e do fomento governamental
proporcionado pelos governos militares, a partir da década de 60 até o final
dos anos 80, a nossa indústria de defesa alcançou o seu auge, com empresas
como ENGESA, IMBEL, EMBRAER e AVIBRÁS suprindo o mercado interno e
sendo fortemente exportadoras. Para se ter uma idéia, naquele período, mais
de 90% dos meios que mobilizavam o Exército eram nacionais.
A partir da década de 90, com o fim da chamada Guerra Fria, com a
disponibilização de armamentos daí advindos, com o desmonte de barreiras
tarifárias em virtude de políticas econômicas neoliberais e, também por uma
conjuntura nacional caracterizada por idéias desfavoráveis a gastos com defesa,
com a diminuição constante dos orçamentos dos então Ministérios Militares, hoje
Comandos, a indústria nacional de defesa foi levada a uma situação bastante
crítica, da qual hoje está tentando se reerguer.
Esse prejuízo fica ressaltado pelo alto valor agregado dos produtos de
defesa, como já foi mencionado, bem como por meio do chamado efeito spin
off, isto é, a utilização de tecnologias e processos inicialmente empregados na
indústria militar para produzir bens de uso mais amplo, atendendo à sociedade
como um todo.
A revitalização da nossa indústria de defesa, não obstante possuirmos
capacidade tecnológica e industrial bem desenvolvidas, só se dará se o nosso
país superar uma série de óbices como os listados no item seguinte.

3 - Óbices do Setor de Defesa

Conforme explanado no item anterior, para a nossa indústria de defesa


voltar aos áureos tempos das décadas de 70 e 80, e, agora, com bases muito
mais sólidas, por ser preferencialmente ancorada em empresas privadas,

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naturalmente mais eficientes do que empresas estatais, pelo dinamismo
intrínseco do setor privado, deveremos superar a série de óbices que tanto
tem prejudicado a nossa BID e que está listada a seguir:
- redução substancial dos orçamentos militares, acarretando tanto a
perda de eficiência dos seus institutos de pesquisa e seus projetos,
bem como a falta de regularidade nas encomendas militares;
- falta de programas de fornecimento de materiais a longo prazo
(plurianuais);
- excessiva carga tributária existente sobre matérias de defesa;
- dualidade de tratamento tributário entre o aqui produzido e o adquirido
no exterior, que é tributado em aproximadamente menos 42% do que
o produzido por indústria nacional, levando as Forças Armadas, com
orçamentos limitados a optarem por adquirir equipamentos importados;
- aquisição desnecessária de materiais no exterior, reforçada pela
questão tributária, o que gera inclusive uma perigosa dependência
externa em relação a produtos tão estratégicos;
- falta de órgãos financiadores e programas de financiamento para
empresas fornecedoras de produtos de defesa, o que as prejudica
tanto no mercado interno, pois fornecedores estrangeiros possuem
apoio de agências de desenvolvimento estatais em seus países de
origem, como, por exemplo, o EFIBANCA, na Itália, que oferecem juros
e prazos extremamente favoráveis, como também essa ausência de
financiamento impede possíveis exportações;
- inexistência de benefícios fiscais para a exportação de produtos de
defesa;
- falta de garantias bancárias para apoiar possíveis contratos de
fornecimento;
- o fato de as Forças Armadas não possuírem equipamentos militares
produzidos por empresas nacionais prejudica essas últimas, uma vez
que se os tivessem adquirido, as Forças Armadas funcionariam como
vitrine para exposição daqueles produtos (o comprador estrangeiro
se pergunta: será que o produto é bom, pois nem os militares do país
fabricante o utiliza?);
- falta de missões comerciais específicas para o setor de defesa;
- bloqueios tecnológicos imposto por países desenvolvidos (não
teríamos o nível de capability imposto por certas potências ao nosso
país), os quais retardam os projetos de concepção local e
- inexistência de cláusula de compensação comercial, industrial e

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tecnológica, o chamado off set, em alguns contratos de importação
das Forças Armadas, ou mesmo a não participação efetiva da indústria
nacional em programas de off set, não obstante a existência da Portaria
Normativa nº 764/MD, de 27 de dezembro de 2002 que disciplina essa
política.
Se atentarmos para os problemas listados acima, que atingem a indústria
nacional de defesa, veremos que há em quase todos eles o componente da
falta de recursos orçamentários para investimento. Cremos que, ao lado de
outras soluções mais simples, como a equalização da carga tributária produto
nacional/importado e outras, o uso de uma nova modalidade de financiamento,
a securitização, poderá ser um instrumento importante na retomada da nossa
indústria de defesa.

I V - A securiti z ação como forma de possibilitar


investimentos

1 - O que é a Securitização

Securitização é um processo através do qual uma variedade de ativos


financeiros e não financeiros, os chamados ativos-base, são reunidos em uma
espécie de pacote, que assumem a forma de títulos, que são na verdade títulos
financeiros negociáveis e que são então vendidos aos investidores. Os fluxos
de caixa gerados pelos ativos-base são usados para pagar o principal e os
encargos das chamadas securities, além das despesas operacionais. Essas
securities, de outro modo, são lastreadas pelos ativos, sendo conhecidas como
Asset Backed Securities (ABS, expressão traduzida livremente como Securities
Lastreadas por Ativos).
Essa forma de investimento foi criada no início dos anos 1970, nos
Estados Unidos, com a venda de empréstimos hipotecários reunidos em
forma de pool e garantidos pelo governo norte-americano. No ano de
1985, estabeleceu-se nos EUA o mercado de securitização de longo prazo,
quando cerca de US$ 1,2 bilhões em ABS foram emitidos. Desde então, o
mercado de securitização expandiu-se em escala geométrica, com US$ 280
bilhões em novas emissões no ano de 2001 e US$ 350 bilhões em 2002. De
ressaltar-se que, embora o mercado norte-americano de securitização seja
o de maior volume financeiro em escala mundial, a sua taxa de crescimento
vem diminuindo se comparada ao vertiginoso crescimento dos mercados da
Europa e da Ásia.

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2 - Tipos de Ativos Securitizados

Qualquer fluxo de caixa, atual ou futuro, que é gerado por ativos, pode
ser securitizado. À medida que o mercado de securitização vem crescendo e
tornando-se mais sofisticado, a variedade dos ativos que são securitizados vem
aumentando. Abaixo são listados uma relação de ativos securitizados:
- leasing de aeronaves;
- financiamento e leasing de veículos;
- recebíveis de cartões de crédito;
- leasing de equipamentos;
- empréstimos garantidos por imóveis;
- financiamentos hipotecários de imóveis;
- imóveis e
- fluxo de royalties.
Esse último ativo passível de securitização foi destacado em negrito
porque voltar-se-á a mencioná-lo mais à frente.

3 - Participantes do Mercado de Securitização

Uma securitização típica conta com basicamente quatro tipos de


participantes: um originador, os intermediários, os custodiantes e os
investidores.
O originador é o participante do processo que gera o ativo, seja este um
empréstimo, leasing, recebível ou outro modo de fluxo de pagamento. No caso
concreto, um originador concede empréstimos aos consumidores para a compra
de bens, como por exemplo, imóveis ou mesmo automóveis, empréstimo esse
que é garantido pelo ativo financiado. Esse originador então junta uma série de
empréstimos semelhantes, que , na verdade, são créditos a seu favor, numa
operação de securitização e emite títulos lastreados pelos empréstimos aos
consumidores, títulos esses que são quitados pelos pagamentos regulares
que os consumidores fazem sobre seus financiamentos de automóveis ou
hipotecários. De ressaltar-se que, caso o consumidor deixe de pagar as
prestações devidas, os bens financiados são retomados e posteriormente
leiloados, tendo o originador retomado o seu ativo.
Outros participantes da securitização são os chamados intermediários,
os quais estruturam a securitização e ajudam a viabilizar a venda dos ABS
aos investidores. Têm um papel chave na estruturação dos negócios de
securitização, coordenando os atores participantes em todo o processo.

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Existem também os custodiantes, agentes financeiros do mercado
nacional, que têm como função custodiar a operação de securitização e o
BNDES poderia muito bem cumprir essa missão.
Finalmente, há os investidores, os que compram os ABS. Normalmente
são bancos, companhias de seguro e fundos de pensão.

4 - Riscos de uma Operação de Securitização

Nas operações de securitização há uma separação do risco de crédito


dos ativos a serem securitizados com o risco de crédito do originador. Essa
separação é feita com a venda dos ativos especialmente identificados a uma
Entidade de Propósito Especial (Special Purpose Entity ou SPE), a qual
emite ABS para os investidores. Essa SPE é uma empresa-de-papel (shell
company), cujo único objetivo é comprar o pool de ativos do originador com
os fundos recebidos através da emissão dos ABS lastreados pelos próprios
ativos.
Através da venda dos ativos para uma SPE, os ativos são legalmente
separados daqueles do originador. Isso significa que, se o originador requerer
falência, os credores quirografários não teriam qualquer recurso contra o pool
de ativos e os seus respectivos fluxos de caixa, já que uma coisa é o ativo do
originador, outra o é o ativo da SPE.

5 - Vantagens da Securitização

As operações de securitização possuem uma série de atrativos, que,


nos dias de hoje as tornam bastante interessantes. Dentre essas vantagens
citaríamos:
- rapidez de acesso aos recursos securitizados, com um fluxo de caixa
mais ágil;
- diversificação das fontes de captação de recursos, ampliando, assim,
a gama de alternativas disponíveis para capitalização;
- possibilidade de captação de recursos com custos potencialmente
mais baixos, já que a securitização sempre é acompanhada de uma
garantia, sem esquecermos que, na operação de securitização, o risco
do crédito do originador é separado do da SPE;
- possibilidade de pequenos participantes acessarem como
originadores as operações de securitização, pela separação do
risco do crédito e

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- a s a u d i t o r i a s n a s o p e r a ç õ e s s ã o f e i t a s p o r a u d i t o r e s
independentes.

6 - A Securitização no Brasil

As operações de securitização já são corriqueiras no mercado de capitais


brasileiro, que a cada dia se torna mais sofisticado. A Companhia de Valores
Mobiliários (CVM) faz a fiscalização das mesmas que, em função da queda
do chamado risco-Brasil, a cada dia mais atrai investidores estrangeiros,
principalmente com a fartura de crédito que hoje existe no mercado mundial.
No Brasil tem sido muito freqüente no setor imobiliário, tendo a Petrobrás
também captado recursos via essa nova forma de capitalização.

V - A alocação de recursos na indústria nacional de defesa


via securitização possibilitando a sua modernização

1 - A securitização na indústria de defesa

Como já foi explanado anteriormente, um dos maiores problemas da


nossa indústria de defesa é a carência de recursos visando o seu custeio, o
que tem gerado inconstância nas encomendas por parte das Forças Armadas,
ou mesmo, a aquisição no exterior, em virtude da facilidade de financiamento
proporcionada pelas agências financiadoras estatais dos países fornecedores
dos produtos de defesa. Cremos que, não obstante o ineditismo de tal
operação em nosso país para fornecimento militar, a operação de securitização
é perfeitamente viável, desde que submetida a certas condições.
Inicialmente, deve-se ressaltar que tais operações, por serem mais
complexas, devem ser dirigidas a aquisições mais vultosas e de maior
especialização, não podendo ser vulgarizadas, devendo possuir todo um
trâmite especial, semelhante ao que já ocorre com as licitações das Parcerias
Público-Privadas, que na verdade possui escopo semelhante, qual seja, o de
proporcionar capital privado para obrigações de responsabilidade do Estado,
aproveitando a maior disponibilidade de recursos no setor privado.

2 - A arquitetura das operações

Cada operação de securitização teria a seguinte arquitetura:


- o Instituto Tecnológico da Força Armada, no caso de desenvolvimento
Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.
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de meios bélicos, ou outro setor, usuário dos equipamentos a serem
adquiridos, especifica os equipamentos, fornecendo inclusive um
preço-referência, semelhante ao que ocorre nas licitações públicas;
- o grupo de investidores disponibiliza o recurso e efetua a aquisição, já
que os equipamentos seriam de propriedade dos mesmos e locados
em sistema de leasing para as Forças Armadas;
- na aquisição, caso a indústria nacional já possuísse competência
tecnológica para o fornecimento, seria exigido que a empresa fosse de
capital nacional. Caso não tivéssemos capacidade de fornecimento em
nosso país, seria exigido que o fornecedor estrangeiro se associasse
a uma indústria nacional, formando uma joint venture e produzisse os
equipamentos em nosso país, semelhantemente ao que existe nos
EUA desde 1933 e é denominado de Buy American Act;
- os recursos a serem alocados na securitização deveriam ser
suficientes tanto para a aquisição dos equipamentos, como para a sua
manutenção, por um período de tempo determinado, por exemplo, 10
anos e
- após esse período de tempo, o governo teria a opção de ficar com
os equipamentos pelo seu valor residual, podendo inclusive revendê-
los a outros países ou fazer uma nova operação que possibilitasse
a aquisição de equipamentos mais modernos e sofisticados. Essa
eventual venda a Forças Armadas de países amigos geraria recursos
que seriam reinvestidos nos institutos de pesquisa da respectiva
Força.
- Deve-se ressaltar que, como as operações militares possuem um
risco bem mais elevado do que o uso civil dos equipamentos, far-se-ia
um cálculo atuarial dos possíveis sinistros, e o seu pagamento seria
diluído ao longo do contrato, embutido nas prestações.

3 - A União como a originadora da securitização

A obrigação maior da União, obviamente além das especificações e


controle sobre o equipamento a ser adquirido, seria a de montar a SPE,
reservando no orçamento de cada Força os recursos para o pagamento da
securitização, que poderia, inclusive, ter uma carência de alguns anos em
relação ao fornecimento dos mesmos.
Os recursos para o pagamento não poderiam sofrer contingenciamento
por parte da Secretaria do Tesouro Nacional, que se responsabilizaria pelo
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pagamento das operações, igualmente como já ocorre nas operações em que
há financiamento externo, em que o não pagamento na data aprazada pode
deixar a República em default. Essas operações não estariam sujeitas também
ao sistema de precatórios.
A menção que fizemos no item 3.2, no que tange a tipos de ativos
securitizados, em relação a fluxo de royalties, vem bem a calhar à situação porque
passa o Comando da Marinha, que possui milhões de reais contingenciados
referentes a royalties de petróleo e está com a sua frota completamente
sucateada por falta de recursos.

4 - Atuação do Tribunal de Contas da União

O TCU deve ter a incumbência de fiscalizar as operações de securitização


que serão efetuadas pelos Comandos Militares, nas fases em que houver
a efetiva atuação da Administração Pública, sem entrar em choque com a
Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O controle da atividade estatal tem ao longo do tempo sofrido profundas
transformações no Brasil, mormente após a promulgação da Constituição Federal
de 1988. Existe em nossa Carta Magna uma seção inteira (Seção IX) inserida
no Capítulo I do Título IV voltada para as atividades de controle e fiscalização,
normatizando a atuação do Tribunal de Contas da União, bem como dos Tribunais
de Contas Estaduais e Municipais e dos Conselhos de Contas Municipais.
O TCU, baseado no dispositivo inserido em nossa Lei Maior, tem a
missão de exercer o Controle Externo da Administração Pública, como órgão
auxiliar do Congresso Nacional, que é o titular dessa prerrogativa. Para tanto,
cabe ao Tribunal efetuar, com absoluta autonomia, por iniciativa própria ou em
razão de demanda parlamentar, fiscalizações de natureza contábil, financeira,
orçamentária, patrimonial e operacional na União e em todas as atividades da
administração direta e indireta, com foco específico na legalidade, legitimidade
e economicidade dos atos praticados.
Saliente-se que a incorporação na Constituição Federal do princípio da
eficiência, pela Emenda Constitucional no 19/98, determinou notável modificação
do modelo de atuação da Administração Pública e marcante alteração do foco
do Controle Externo. Os Tribunais de Contas já não se podem omitir quanto
à eficiência da ação estatal, uma vez que esta foi incluída como matéria
constitucional pela citada Emenda. Daí que, a partir de então, a atuação do
órgão de controle não pode obviamente restringir-se unicamente à análise da
conformidade e da legalidade dos procedimentos administrativos.
Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.
12721- 148,
-39, ago/dez. 2007 143
Em função do exposto, nas operações de securitização, o papel do TCU,
que será suplementado por auditorias independentes, será o de defender
basicamente a eficiência e legalidade do gasto público, com uma postura
mais pragmática, menos afeita a preocupações com a forma e conteúdo da
documentação, como sói acontecer.

VI - medidas complementares visando a modernização da


indústria de defesa nacional

1 - A Transformação do Círculo Vicioso em Círculo Virtuoso

Como bem foi demonstrado nos capítulos anteriores, a indústria nacional


de defesa tem vivido um círculo vicioso, de falta de encomendas pelas Forças
Armadas, por problemas orçamentários, o que motiva a compra eventual de
produtos estrangeiros, em função de maiores facilidades de financiamento, o
que impede a exportação dos produtos nacionais, por não estarem em uso
pelas Forças Armadas Brasileiras e assim por diante. Cremos, porém, que a
capitalização da nossa indústria via encomendas possibilitadas pelas operações
de securitização, dará início a um período de círculo virtuoso e desse modo
poderemos voltar aos tempos áureos das décadas de 70 e 80, só que agora
em bases mais sólidas.
Estima-se que em virtude das carências mais imediatas das Forças
Armadas, um programa de reaparelhamento poderia gerar a curto e médio
prazos a quantidade de 100.000 empregos diretos e 400.000 indiretos.
A securitização, entretanto, deve ser complementada por uma série de
outras medidas, como veremos a seguir.

2 - Medidas necessárias

Inicialmente, diríamos que há falta de vontade política de apoiar a indústria


de defesa nacional, inobstante todos os esforços da FIESP, por meio do
COMDEFESA. Superado esse óbice e, em decorrência disso relacionaríamos
uma série de medidas complementares.
- montagem de um planejamento estratégico fixando objetivos de curto,
médio e longo prazos;
- redução da carga tributária incidente sobre produtos da indústria de
defesa;
- equalização de tratamento em relação aos tributos devidos por
144 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.127
21- -39,
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aquisições do exterior e as da indústria nacional;
- maior injeção de recursos nos institutos tecnológicos das Forças
Armadas;
- implementação do Brazilian Buy Act, em que toda compra de material de
defesa deva ser feita de empresa de capital nacional e, se não houver
a tecnologia no Brasil, o fornecedor estrangeiro deverá se associar a
empresa nacional, formando uma joint venture, transferindo então a
tecnologia para a produção ser efetuada em território nacional;
- criação de missões comerciais específicas para divulgar os nossos
produtos no exterior;
- implementação de garantias bancárias, bem como financiamento às
exportações, por parte de órgãos de fomento, como o BNDES;
- implementação do uso da política de off set, quando adequado;
- criação de incentivos fiscais para a exportação de produtos de defesa
e
- incentivo para que as indústrias nacionais de defesa cada vez mais
aperfeiçoem o uso dual dos produtos de defesa, possibilitando-as a
terem um portfólio variado, produzindo também produtos civis, o que
lhes facilita a superação de épocas de baixa demanda por produtos de
defesa. É a velha regra de nunca pôr todos os ovos em uma mesma
cesta!

VII - Conclusão

A Defesa Nacional, com tudo o que a envolve, ou seja, a riqueza de um


imenso território, bem como de uma extensa plataforma continental, assim
como a tranqüilidade e a segurança da nossa população, tem sido bastante
negligenciada nas últimas décadas.
O Ministério da Defesa, e seus Comandos Militares, não obstante
possuir o 3º maior orçamento da União, possui uma série de carências, que,
se olhássemos apenas superficialmente o valor orçamentado, poderíamos
não enxergar. O importante é perscrutar o perfil dos orçamentos das Forças
Armadas, quando então se verá uma situação em que as despesas com
pessoal, principalmente o pagamento de inativos e pensionistas, consomem
a quase totalidade dos mesmos. E os investimentos, que possibilitariam
a modernização de equipamentos e frotas militares, de aviões, navios e
blindados constituem-se na parcela mais acanhada das receitas orçamentárias
dos Comandos.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


12721- 148,
-39, ago/dez. 2007 145
Essa deficiência na dotação orçamentária termina por se refletir na nossa
Indústria Nacional de Defesa, tão pujante nas décadas de 70 e 80 do século
passado. Tem havido uma preocupação governamental que, por enquanto
está refletida em uma série de leis e portarias que possuem instrumentos que
visam a apoiá-la. Porém, grande parte dessas boas políticas ainda não foi
implementada, o que se reflete na desconfortável situação porque passa esse
ramo da indústria do nosso país, com uma gama de óbices orçamentários,
tributários, comerciais e tecnológicos que a prejudicam.
O Estado Brasileiro, bastante pesado, com uma série de gastos correntes
e inflexíveis, não possui, nos dias atuais, a mínima condição de realizar esses
tão necessários investimentos nas Forças Armadas, que teriam como primeiro
objetivo tentar recuperar as suas capacidades de maneabilidade e presteza.
Existe, porém uma nova forma de obtenção de investimentos em um mercado
privado, hoje bastante capitalizado e com taxas de juros declinantes, que é a
chamada securitização.
As operações de securitização, que podem ser aplicadas a uma série de
ativos e que têm como escopo principal a obtenção de recursos que seriam
posteriormente pagos com o fluxo de caixa gerado por esses ativos, é uma
operação razoavelmente segura pela existência de uma Entidade de Propósito
Especial, com capital próprio, separado dos outros participantes da operação.
Essa é uma das vantagens da securitização, que por sua credibilidade no
mercado internacional e menores custos das operações , tem a cada dia mais
se desenvolvido no Brasil, sendo inclusive fiscalizada pela Comissão de Valores
Mobiliários.
Então, a alocação nas Forças Armadas de recursos obtidos nas
operações de securitização para ser empregados em seu reequipamento,
preferencialmente a ser feito pela Indústria Nacional de Defesa, ou por joint
ventures com fornecedores estrangeiros, caso aquela não possua capacidade
tecnológica, é o fulcro da nossa proposta. Seriam operações originadas pela
União, mas que teriam tratamento diferenciado quando do seu pagamento,
semelhantemente aos investimentos externos, não sendo também sujeitas
ao sistema de precatórios, o que certamente aumentaria o seu apelo e a sua
competitividade junto aos investidores
Essas medidas de capitalização, aliadas a uma série de outras, como a
equalização de tratamento tributário entre os produtos de defesa adquiridos
no exterior e os no mercado interno, hoje desfavorável a estes últimos, assim
como incentivos às exportações e outras mais , possibilitariam a modernização
da nossa Indústria de Defesa e, por conseguinte, da capacidade das Forças

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Armadas exercerem a nossa SOBERANIA, já que precisamos ser realistas e,
como já observou Henry Kissinger, ex-Secretário do Departamento de Estado
americano, “sem o respaldo de um poder militar, a diplomacia é um mero
exercício de retórica”.

Referências

CLARKSON, Brian. Desmistificando. Securitização para Investidores


sem Proteção de Garantias, artigo da internet, Nova York, Moody’s Investor
Service, jan. 2003.

PINTO, J. R. de Almeida, ROCHA, A. J. Ramalho e SILVA, R. Doring Pinho/


organizadores. As Forças Armadas e o Desenvolvimento Científico e
Tecnológico do País, Brasília, Ministério da Defesa, Secretaria de Estudos e
Cooperação, 2004.

PINTO, J. R. de Almeida, ROCHA, A. J. Ramalho e SILVA, R. Doring Pinho/


organizadores. Desafios na Atuação das Forças Armadas, Brasília, Ministério
da Defesa, Secretaria de Estudos e Cooperação,2004.

TALAMINI, Eduardo e JUSTEN, Monica. Parcerias Público-Privadas: Um


Enfoque Multidisciplinar. 01. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


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148 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.
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Política educacional e a universidade pública
brasileira
Adelio de Souza Monteiro
Coronel de Infantaria, estagiário do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia da Escola
Superior de Guerra em 2006

I - Introdução

Que caminhos existem para que o sistema educacional brasileiro e,


particularmente, a universidade respondam às exigências da sociedade do futuro?
Neste trabalho, utiliza-se o método de planejamento estratégico da Escola
Superior de Guerra (ESG) para a concepção de Políticas de Estado nos campos
político, econômico e psicossocial de modo a estabelecer objetivos para uma
política educacional orientada para o futuro e a conceber as estratégias para
se atingir aqueles objetivos.
A ênfase desse trabalho situa-se em duas vertentes: na aplicação do
método de planejamento estratégico utilizado pela ESG e nas idéias que
possam balizar decisões atuais para que, através da educação, o Brasil extraia
vantagens competitivas de suas potencialidades no futuro.

II - Relações entre a universidade e a sociedade

Um pouco de história. Segundo OLIVEIRA (2004):

“No Brasil, as origens da educação apontam para a Ordem


dos Jesuítas, com forte predominância da influência religiosa
católica, cujas bases assentavam-se em parâmetros clássicos
e humanistas, em detrimento do livre exame e expressão
das idéias e da experimentação científica, essenciais como
instrumentos de transformação do mundo.”

A universidade como instituição social tem buscado atender às demandas


da sociedade, adequando-se às necessidades específicas de cada época.
Portanto, a educação deve buscar atingir, dentre outros objetivos, os
seguintes: colaborar para o desenvolvimento de uma mentalidade científica;
Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.149
21- -39,
168, ago/dez. 2007 149
proporcionar condições para que o indivíduo compreenda as bases econômicas
da sua comunidade e empregue racionalmente os recursos existentes e
desenvolver o espírito de solidariedade e de compreensão possibilitando a
convivência em sociedade.
A universidade é o ponto crítico do processo educacional, pois é na
universidade que serão formados os futuros docentes. Se eles não tiverem
um ensino de boa qualidade, como garantir a qualidade da transmissão de
conhecimentos para as gerações futuras?
Há vários distintos de conhecimento. Desses, interessa, diretamente ao
presente trabalho, os conhecimentos filosófico, empírico e científico. Segundo
o Curso de Metodologia do Ensino Superior “on line”, da Fundação Getúlio
Vargas (FGV, 2006):

“O conhecimento filosófico emerge a partir do questionamento


da condição humana no universo, à luz da razão, por meio de
relações lógicas, fugindo e ultrapassando os limites do real.
[...] prescinde de comprovação experimental.
O conhecimento empírico é incorporado ao nosso cotidiano
pelas próprias experiências vividas e pelas experiências
transmitidas por outras pessoas. [...] vai sendo modificado
ao longo do tempo.
O conhecimento científico busca conhecer, compreender e
desvendar o universo para dominar a natureza e transformá-la
em seu benefício. É um conhecimento racional, sistemático,
exato e verificável.”

Do conhecimento filosófico, a ética destaca-se por ser atual e necessária


nas relações humanas e o conhecimento científico se constitui em fator de
diferenciação entre as nações por gerar ciência e tecnologia. E a ciência e a
tecnologia são fatores geradores de poder.
Há diferenças entre o conhecimento e o saber. O saber produz-se a
partir da transmissão de conhecimentos por meio dos processos de ensino.
E, para que o conhecimento seja transformado em saber, ele depende dos
interesses de classes sociais dominantes, dentro de determinado contexto
histórico, as quais irão determinar quais conhecimentos deverão ser
transmitidos pelo ensino. No Brasil, os interesses de classes mantiveram um
“... modelo dualista de educação: uma educação média e superior para as
classes dominantes e uma educação de nível primário e profissionalizante

150 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


14921- 168,
-39, ago/dez. 2007
para o restante da grande massa da população.” (OLIVEIRA, 2004, p.
945-957.). O saber, portanto, segundo a FGV ( 2006), “transforma uma
hierarquia social em uma hierarquia acadêmica”, refletindo-se nos currículos.
E ambos, conhecimento e saber, podem tanto ser agentes de inclusão
como de exclusão social. É no sentido de inclusão social que devem ser
estabelecidos objetivos para o ensino. E o desenho do processo ensino-
aprendizagem, consubstanciado nos currículos, condiciona o projeto
das instituições de ensino ao cumprimento das metas visualizadas pela
sociedade do momento.
A Lei N° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as Diretrizes
e Bases da Educação Nacional (LDB), prescreve no seu Art. 43 que:

“... a educação superior tem por finalidade: formar diplomados


[...] aptos para a inserção em setores profissionais e para a
participação no desenvolvimento da sociedade brasileira [...]
incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica,
visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia
[...] comunicar o saber através do ensino [...] estimular
o conhecimento dos problemas do mundo presente,
em particular os nacionais e regionais, prestar serviços
especializados à comunidade e estabelecer com esta uma
relação de reciprocidade [...] visando à difusão das conquistas
e benefícios resultantes da pesquisa científica e tecnológica
geradas na instituição.”

Depreende-se que, ao estabelecer as finalidades do ensino superior,


a Lei 9.394/96, na prática, define a universidade liderando o processo
educacional brasileiro. Tal liderança cobra, em contrapartida, responsabilidades
da universidade. E uma das mais importante é a qualidade do ensino. E o
que é um ensino de qualidade? No sistema de educação, destacam-se os
seguintes subsistemas: ambiente escolar, corpo administrativo, corpo docente,
saber (conteúdo) e corpo discente. Para que haja educação e ensino de boa
qualidade é necessário que cada um desses subsistemas também apresente
boa qualidade. E o funcionamento desse sistema e de seus subsistemas deve
estar orientado por políticas e estratégias de Estado, com objetivos definidos
a médio e longo prazos.
Para conceber políticas e estratégias é utilizado, a seguir, um dentre
muitos métodos de planejamento existentes, visando a definir objetivos

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14921- 168,
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educacionais de Estado consubstanciados na pergunta “ O QUÊ FAZER?” e
traçar estratégias de Estado resumidas na pergunta “ COMO FAZER?”.

III - Política educacional orientada para o futuro e a


universidade pública brasileira

1 - Fases do método

De forma sumária pode-se dividir as fases do planejamento em três:


diagnóstica (análise do ambiente), política (escolha) e estratégica (ação).
Na fase diagnóstica, no ambiente externo identificar-se-ão ameaças e
oportunidades a que o país está sujeito. No ambiente interno, determinar-se-ão os
pontos fortes e fracos do país e do sistema educacional brasileiro, considerando-
se aspectos de ordem conjuntural e estrutural e do diagnóstico, como um todo,
resultarão necessidades que deverão ser atendidas pela educação.
Na fase política serão estabelecidos os objetivos de Estado e de Governo.
Para isso, serão concebidos cenários, constituídos de um conjunto consistente
de eventos futuros (EV), os quais resultam de Fatos Portadores de Futuro
(FPF) - fatos já ocorridos ou que estão ocorrendo e que poderão causar ao
tema em estudo, algum impacto no futuro. Esses cenários denominados de
otimista, pessimista e médio permitirão chegar a um cenário mais provável
e, a partir deste, a um cenário desejado ou normativo. Este último cenário
cumpre o propósito final da fase que é definir objetivos de Estado e de governo
respondendo à pergunta “ O QUÊ FAZER?”.
A fase estratégica culminará com propostas de ações, no setor da
educação, respondendo à pergunta “ COMO FAZER?”, em conformidade com
os objetivos das políticas de Estado e de governo.

Fase do diagnóstico

Nessa fase, serão apresentadas sínteses das conjunturas mundial, sul-


americana e brasileira tomando-se como referência o documento “ Avaliação
da Conjuntura 2006”, editado pelo Centro de Atividades Externas (CAExt),
da ESG, pois não se pode tratar o tema educação de forma isolada, mas no
contexto temporal das sociedades internacional, regional e local e nos âmbitos
das áreas políticas, econômicas e sociais.
As características do sistema internacional de hoje e do futuro, segundo
o (CAExt)/ESG, são de modo resumido: a hegemonia norte-americana;

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a globalização econômica, onde, paulatinamente, o Estado-Nação vem
cedendo terreno para o mercado econômico e onde os governantes sentem-
se ameaçados de substituição pelos dirigentes de grandes corporações
multinacionais e a emergência dos Estados continentais ou mega-estados,
caracterizados por grandes extensões territoriais, por vastos recursos naturais,
por grande população e por economias dinâmicas.
O sistema mundial no início desse terceiro milênio sinaliza, ainda, algumas
macro-tendências, das quais duas interessam diretamente a este trabalho
acadêmico. A primeira indica que, para meados do ano 2050.

“... a estrutura mundial de poder poderá estar apoiada nas


economias dos Estados Unidos, do Japão e dos países
denominados de BRIC’s (Brasil, Rússia, Índia e China).
Atualmente, os BRIC’s são os países possuidores de
grande espaço territorial, recursos naturais em quantidades
consideráveis, grande população e força econômica auto-
sustentável e que são capazes de, num futuro próximo, manter
e ampliar suas potencialidades, o que lhes permitirá ocupar
destacada posição de poder”. (CAExt (Coord.), 2006, p.11-13)

A segunda é a de

“... uma outra ordem multipolar de poder, mais democrática,


mais estável e mais legítima, como solução ao atual
desequilíbrio de forças entre as nações, substituindo a atual
ordem hegemônica, liderada pelos Estados Unidos. Inserido
nesse contexto o Brasil desfrutaria de condições favoráveis
para ampliar sua participação no sistema internacional”.
(CAExt (Coord.), 2006, p.11-13).

Essas macro-tendências favorecem o Brasil na busca de seu lugar de


destaque no cenário internacional. Entretanto, para fazer jus à futura posição, há
que vencer desafios, dentre os quais o aumento dos hiatos financeiro, científico
e tecnológico entre os países já industrializados e aqueles em desenvolvimento.
Uma das respostas a esses desafios encontra-se numa sólida base educacional
da população.
A América do Sul, no âmbito de uma ordem multipolar, deverá transformar-
se num dos pólos do sistema internacional. Nesse contexto, a formação de

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blocos regionais, a exemplo do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), se
articulados entre si conformarão a integração sul-americana, dotando-a de
poder de influência no cenário internacional. Essa integração não deverá
acontecer somente por meio da construção de uma infra-estrutura física e da
convergência de interesses econômicos, mas deverá realizar-se em outros
setores importantes abrangendo todos os campos do poder nacional, quais
sejam, o político, o econômico, o militar, o psicossocial e o científico-tecnológico,
nos quais a educação e a universidade pública exercem uma ação transversal.
Pode-se, ainda, sintetizar as grandes contradições da América do Sul e do
Brasil nos seguintes termos:

“... dependência econômica, científica e tecnológica em


relação aos países do “primeiro mundo”; desigualdades
socioeconômicas crescentes; trabalho informal; disparidades
regionais no âmbito da América do Sul; [...] falta de políticas
e estratégias públicas consistentes, continuadas, eficientes e
eficazes por parte dos setores governamentais”. (LAMPERT,
2003, p. 454).

Uma solução para alterar esse quadro passa necessariamente pela


educação. Contrariamente, a ação política das elites dominantes, desejosas
da manter seu “status quo” secular, receia colocar a educação como prioridade
de Estado. Mascaram suas intenções na retórica das promessas de que a
educação será prioritária após as próximas eleições.
Estando o Brasil imerso nesse contexto, torna-se necessário fazer
uma síntese da atual conjuntura brasileira. Na expressão política do poder
nacional, a estrutura de um Estado misto de regulador e de liberal em processo
de modernização, traz à tona duas dimensões: liberalização e participação.
Liberalização no que se refere ao pluralismo e à competição entre as
elites participantes do processo político. Participação no que diz respeito à
incorporação da sociedade a esse processo político. Ambas dimensões têm
repercussões sobre a cidadania. O cidadão sujeita-se, ao mesmo tempo, a uma
cidadania regulada pela multiplicidade de normas institucionais do Estado e a
uma cidadania surgida e pautada pelos direitos adquiridos por aquelas mesmas
normas e que, por vezes, conduzem à confrontação Estado-cidadão. Assim, a
dupla condição de cidadania faz aumentar a pressão da demanda por satisfação
de direitos que, na maioria das vezes, suplantam a capacidade do Estado de
atendê-las. E no emaranhado e multiplicidade de normas, o Estado, por vezes,

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perde a sua eficácia. Isso repercute na educação, ainda marcadamente dual,
caracterizada por privilégios a que têm acesso as elites de maior poder aquisitivo
em contraposição à falta de oportunidades para a maioria da população. Esse
é o cenário onde manobram os partidos de representação política. Aliado a
esse quadro, vive-se, atualmente, no Brasil, uma crise ética, onde a corrupção
saiu do campo individual para tornar-se marcadamente coletiva e corporativa,
atingindo os partidos políticos e autoridades governamentais dos três poderes
da república. A crise ética, na prática, institucionalizou-se.
No campo psicossocial, quanto à ética e aos valores, observa-se uma
profusão de “códigos de ética” nas grandes corporações, tanto estatais quanto
privadas, na tentativa de suprir a deficiência fundamental da entronização e da
prática dos valores individuais, grupais e corporativos. Nesse campo, algumas
vulnerabilidades podem ser apontadas, segundo o CAExt (2006, p.35-37):

“... - aproximadamente um terço da população com mais


de vinte e cinco anos tem menos de quatro anos de
estudo; [...] a geração de empregos, fator de estímulo
para a procura do ensino, revela-se aquém da demanda
quantitativa e qualitativa; o desperdício dos mais qualificados
profissionalmente por desqualificação dos postos de trabalho
é o resultado da estagnação tecnológica conjuntural (o grifo
é nosso); há desproporção entre o nível cultural-tecnológico
e as exigências do mundo atual...”

As conjunturas anteriormente apresentadas permitem deduzir que se o


Brasil deseja ser alçado à condição de potência nas próximas décadas, há que
pensar o futuro. E para isso, há que ensinar à criança, ao jovem e ao adulto de
hoje a pensar sobre o futuro nos planos individual e coletivo, desenvolvendo
a “cultura de pensar o futuro”.
No ambiente externo, dentre as ameaças que podem se concretizar,
estão as seguintes possibilidades: o Brasil não acompanhar o ritmo de
desenvolvimento das potências do futuro e destas ampliarem o hiato econômico,
financeiro, científico, tecnológico e da prestação serviços em relação ao Brasil.
Nesse ambiente, entretanto, uma grande oportunidade que se apresenta para o
Brasil é a de que aquelas potências irão necessitar daquilo que o Brasil dispõe
potencialmente: água, biodiversidade, capacidade de geração de energia e
outros recursos naturais. Por isso, o Brasil precisa, desde já, direcionar seus
investimentos em educação para as áreas de pesquisa, ciência e tecnologia

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


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de modo a aumentar suas vantagens comparativas em relação aos demais
países anteriormente relacionados.
Quanto ao ambiente interno, dentre os pontos fracos a serem ressaltados
destacam-se os seguintes: o Brasil mantém uma política educacional dualista;
a formação superior ainda privilegia, de certo modo, o saber humanista em
detrimento do saber direcionado para a ciência e a tecnologia; aumentam
as desigualdades regionais no país e aumentam o desemprego e o
subemprego.
Os pontos fortes a considerar são: a população brasileira ainda pode
ser classificada como jovem, o que se traduz como potencialidade; a classe
docente, mesmo desvalorizada, continua dedicada à educação; a Lei N° 9.394
(LDB) amenizou o problema da oferta de vagas em escolas públicas e os
atuais programas governamentais contribuem para ampliar as oportunidades
de acesso da população ao ensino superior.
No setor da educação os planos, programas e projetos governamentais,
entretanto, ainda não conseguiram atender, dentre outras, às seguintes
necessidades: um ensino básico de boa qualidade que prepare o jovem para
ingressar na universidade e acompanhar o curso superior; proporcionar aos
docentes condições adequadas de trabalho, plano de carreira e remuneração digna;
formação profissional superior e de qualidade e privilegiar o saber científico sem
descuidar-se do saber humanístico. Atender a essas necessidades superando os
óbices existentes, particularmente os de ordem econômica e os decorrentes da falta
de eficientes e eficazes políticas públicas em educação, constitui-se num passo
importante para que o país possa chegar ao futuro, dentro de algumas décadas,
em condições de disputar com os demais países uma posição de destaque e
assumir sua posição de liderança no cenário latino-americano.

Fase política

Uma educação orientada para futuro implica criar, desenvolver e consolidar


uma “cultura de pensar sobre o futuro”. Mas, qual é o horizonte temporal que
define esse futuro? Para isso, devem ser consideradas algumas premissas.
A primeira delas é a posição que o Brasil poderá assumir no concerto das
nações próximo do ano 2050, tomando-se como base os países que, ao lado
de Estados Unidos e Japão, conformarão os BRIC’s. Outra premissa, a ser
considerada no plano individual, refere-se ao ciclo de aprendizado e maturação
de uma pessoa que ingressa no ensino básico, nos dias de hoje, com 7 anos
de idade. Segundo (RIBEIRO, 2002, p. 427-441):

156 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


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“ ... espera-se que um jovem opte por uma carreira universitária
em torno dos dezesseis ou dezessete anos, ao iniciar o último
ano do segundo grau. Daí a um ano, ele estará começando um
curso universitário de quatro ou cinco anos. Sua maturidade
profissional é de se esperar que ocorra daí a quinze ou vinte
anos. [...]. Opto por uma carreira hoje, com dezessete anos,
e espero ser um profissional reconhecido aos trinta e cinco,
quarenta anos, entre 2020 e 2025...”

Considerando-se uma criança que inicia sua vida escolar no corrente ano,
na 1ª série do ensino básico, ela ingressará na universidade 11 anos mais tarde,
por volta de 2017 e concluirá seu curso de graduação em torno de 2021 (curso
de 4 anos) ou 2022 (curso de 5 anos), caso não haja repetência e chegará à
maturidade profissional, dentro de 15 a 20 anos. Ou seja, algo entre 2036 e 2042.
Se ela optar por ser um docente do ensino fundamental e iniciar sua carreira
no magistério, imediatamente após concluir sua graduação, seus alunos de 1ª
série do ensino básico chegarão às portas da universidade por volta dos anos de
2032 e 2033 e atingirão sua maturidade profissional em torno dos anos de 2047
e 2053. Portanto, ao redor de 2050. Baseado nessas premissas , o horizonte
temporal de planejamento situa-se próximo ao ano de 2050.
Passa-se, então, à confecção de cenários exploratórios, em cujo mister se
utilizou a técnica denominada de “brainstorming” ou “tempestade cerebral”, de
cunho eminentemente criativo e cujo objetivo é o de gerar idéias ou identificar
fatos. Do emprego dessa técnica resultaram alguns Fatos Portadores de Futuro
(FPF): 2006 é um ano de eleições para Presidência da República; generaliza-
se a corrupção envolvendo parlamentares e partidos políticos; há crescente
evasão monetária para o exterior motivada pela busca de segurança financeira
no futuro; o atual mercado de trabalho é incapaz de absorver os profissionais
recém-egressos das universidades; proliferam os institutos de ensino básico e
superior privados e a educação ainda privilegia a área humanística.
Algumas condicionantes poderão afetar esses FPF, quais sejam: no curto
prazo, a disputa política pela Presidência da República; a médio prazo, a opção
por políticas de Estado que privilegiem as leis do mercado e a longo prazo, a
possibilidade de continuar um sistema educacional marcadamente humanista.
Essas condicionantes poderão agir sobre os Eventos Futuros (EV), derivados
dos FPF. E os EV, combinados entre si, conformarão os cenários pessimista,
médio e otimista. Da seleção dos EV desses três cenários, ancorada por outras
premissas básicas, conceber-se-á o cenário de ocorrência mais provável.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


14921- 168,
-39, ago/dez. 2007 157
As premissas básicas tanto de natureza ética (valores, tradições
e costumes) quanto pragmáticas (compromissos políticos, ideológicos e
partidários) que poderão influir sobre a concepção do cenário mais provável
podem ser enumeradas como a manutenção dos valores consubstanciados
na preeminência da pessoa sobre o Estado, na liberdade e na igualdade de
oportunidades, todas convergindo para a busca da justiça social. As de natureza
pragmática sinalizam para a manutenção do Estado de Direito.
Concebido o cenário mais provável, ele é, então, apresentado a quem
determina sua elaboração ou ao responsável por tomar decisões, nesse
trabalho designado como decisor estratégico e que, em última instância, é o
Presidente da República. Este, de acordo com sua visão pessoal pode alterar
os EV, definindo o que se chama de Cenário Desejado ou Normativo. Assim,
após os passos anteriormente descritos, chegou-se a esse cenário.
Cenário desejado ou normativo: o atual presidente se reelege;
pressionado pela opinião pública e pelos movimentos sociais, o governo altera a
política econômica que vinha praticando e procura manter controle efetivo sobre
o fluxo de capitais do Brasil para o exterior. Isso contribui para reter capital no
país e para aumentar os investimentos internos, com reflexos positivos sobre
a melhoria da educação; na área política os eventuais e pontuais escândalos,
envolvendo parlamentares do Congresso Nacional, não chega a afetar a
credibilidade do legislativo, pois os ilícitos são apurados e exemplarmente
punidos, face à pressão da opinião pública catalisada por uma mídia atuante;
o mercado de trabalho é ampliado, visando atingir o pleno emprego; as
universidades públicas e os estabelecimentos de ensino básico recebem mais
recursos mas, em conseqüência das políticas públicas mantidas há longo tempo,
não se recuperam de modo significativo na parte material e financeira; aumentam
os investimentos para o desenvolvimento de pesquisa básica e aplicada nas
universidades, mas ainda não são suficientes para reverter a situação atual; a
evasão de docentes diminui, mas ainda assim a qualidade do ensino público não
melhora significativamente; e a educação, como um todo, continua marcada pelo
saber humanista, mas começa a privilegiar o saber científico.
Baseado neste cenário, são definidos os objetivos de Estado e de
Governo, os quais possibilitarão manter os objetivos fundamentais brasileiros,
quais sejam, aqueles objetivos permanentes, independentes de governos
e que são decorrentes da formação histórica do país constituindo-se em
necessidades, interesses e aspirações nacionais em qualquer época:
democracia, integração nacional, integridade do patrimônio nacional, paz social,
progresso e soberania.

158 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.149


21- -39,
168, ago/dez. 2007
Assim, o decisor estratégico estabelece os seguintes objetivos de Estado:
no campo político, a manutenção dos princípios democráticos sustentados
pela confiança do povo brasileiro nos seus três poderes constitucionais; no
campo econômico, a retomada do crescimento econômico com incentivos do
Estado; e no campo psicossocial, o aumento dos investimentos nas áreas
de saúde, de segurança e no setor educacional, proporcionando a todos os
brasileiros uma educação continuada e de boa qualidade, orientada para o
futuro.
Do mesmo modo, estabelece, também, seus objetivos de governo: no
campo político, a busca prioritária da credibilidade do povo no poder legislativo
por meio da aprovação de leis que reestruturem as relações político-partidárias e
modernizem o sistema eleitoral; medidas que dêem condições ao poder judiciário
de exercer uma ação mais efetiva e eficaz, de modo a afastar a sensação de
impunidade e contribuir para criar um clima de tranqüilidade e segurança e
ações do poder executivo que contribuam para aumentar a confiança do povo
nesse poder; no campo econômico, a retomada do crescimento econômico
por meio de incentivos para a criação, disseminação e consolidação das
atividades econômicas enfocando as vocações produtivas regionais e locais,
de modo a permitir a redução das desigualdades sociais e a distribuição de
renda mais justa; no campo psicossocial, o aumento dos investimentos em
saúde preventiva, em segurança pública e em educação.
Para o sistema educacional, inserido no campo psicossocial, são fixados
como objetivos de governo: a melhoria e o aperfeiçoamento da qualidade no
ensino básico, dando condições ao discente para ingressar no ensino superior
com uma base humanística e científica, a qual lhe permita acompanhar o curso
superior; a priorização do ensino superior, com as finalidades de melhorar a
qualidade da educação nos cursos de graduação; de possibilitar a criação de um
acervo considerável de conhecimento em pesquisa básica; de criar as condições
adequadas e suficientes para o desenvolvimento de pesquisa aplicada e de
ampliar a oferta de cursos de extensão. Os objetivos educacionais estabelecidos
visam, em suma, proporcionar à população as melhores condições de educação
continuada.
Desse conjunto de objetivos, seleciona-se o objetivo de Estado:
“proporcionar a todos os brasileiros uma educação continuada e de boa
qualidade, orientada para o futuro”. Baseado nesse objetivo prosseguirá o
estudo para a fixar estratégias de Estado – aquelas de longo prazo e que
perpassam vários períodos de governo – deixando-se, agora, à margem dessa
análise, os objetivos políticos e econômicos delineados.

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


14921- 168,
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Fase estratégica

Esta fase constitui-se das seguintes etapas: concepção estratégica,


programação, execução e controle. Dessas, a concepção estratégica é a que
culmina na opção estratégica, determinada por um conjunto de ações que
garantem da melhor forma, com eficiência e eficácia, a realização dos objetivos
de Estado e a consecução do cenário desejado. Deixar-se-á de considerar as
etapas da programação, da execução e do controle, pois o seu tratamento,
por ser de cunho eminente prático, extrapola os objetivos e dimensões do
presente trabalho.
As ações propostas, componentes da opção estratégica, são as seguintes:
“pensar sobre o futuro”, “educação que concilie a ética com a ciência e a
tecnologia” e “universidade como prioridade”.

Pensar sobre o futuro

A criança, o jovem e o adulto de hoje devem ser educados para não só


interagir e conviver com as mudanças rápidas e drásticas em todos os campos
do conhecimento humano, mas sobretudo, visualizar o futuro e preparar-se
para ele. “Antecipá-lo e moldá-lo” (TOFFLER, 1977). Daí a necessidade de uma
política educacional voltada para o futuro que efetivamente crie e consolide a
“cultura de pensar sobre o futuro”. Como fazê-lo?
Começar, desde já, pela universidade. Incluir o ensino sobre planejamento
estratégico em seus currículos, em todas as áreas do conhecimento, pois o
futuro impacta a todas elas. Nos currículos do nível médio propõe-se incluir
assuntos relacionados a estudos do futuro, utilizando filmes e literatura de
ficção científica, conjugados com posterior discussão em grupo, de modo a
desenvolver o espírito questionador sobre assuntos éticos e científicos. Para
o ensino fundamental indica-se inserir, em seus currículos, estudos sobre o
futuro traduzidos em práticas pedagógicas que utilizem concursos científicos,
jogos e literatura de ficção científica. Os jogos permitem interagir com o grupo,
despertar a liderança e desenvolver a capacidade de formular estratégias de
modo indireto, enquanto que os concursos científicos ampliam as possibilidades
para o desenvolvimento do espírito científico inovador. Para despertar na criança
a capacidade de pensar no futuro, recomenda-se utilizar os jogos, as artes e a
literatura infantil de cunho científico e humanista por meio de atividades lúdicas.
Entretanto, em qualquer nível de ensino, quaisquer que sejam as atividades
desenvolvidas, elas deverão estar orientadas para “indagações sobre futuro”.

160 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


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Visto que cada pessoa, a seu modo, já pensa sobre o futuro, o fundamental
é estimular e motivar esse pensamento, orientá-lo para o seu uso racional de
modo a contribuir para formar uma verdadeira cultura de pensar sobre o futuro
de forma objetiva e coletiva, transcendendo as necessidades, interesses e
aspirações individuais.
E quanto ao humanismo? Para MORIN (2001), “... a educação precisa
lidar com a idéia de unidade da espécie humana de forma integrada com
a idéia de diversidade. Unidade e diversidade devem estar presentes em
todas as esferas”. Portanto, os currículos devem tratar do conhecimento não
fragmentado, estanque, mas integrar as disciplinas. Por exemplo, ensinar
biologia sob a ótica do respeito ao meio ambiente. Resumindo os pensamentos
de MORIN (2001): “... a função vital da educação do futuro é permitir que os
indivíduos obtenham uma nova visão de mundo [...], primar pelo sentimento
de solidariedade, permitindo a convivência em sociedade”.
Conjugando os pensamentos científicos característicos de TOFFLER
(1977) e os humanistas de MORIN (2001), pode-se inferir que a educação
para o futuro deve estar orientada para promover a preeminência da pessoa
humana, a liberdade, a igualdade de oportunidades e, ao final, conduzir à
justiça social.

Educação que concilie a ética com a ciência e com a tecnologia

Assiste-se, nos dias atuais, de forma global e, particular a um debate


que conduz à ASCENÇÃO DA ÉTICA. A origem da palavra ética vem do grego
“ethos”, que quer dizer o modo de ser, o caráter. Os romanos traduziram o
“ethos” grego, para o latim “mos” (ou no plural “mores”), que quer dizer costume,
de onde vem a palavra moral. Portanto, ética e moral, pela própria etimologia,
dizem respeito a uma realidade humana que é construída histórica e socialmente
a partir das relações coletivas dos seres humanos nas sociedades onde nascem
e vivem. A ética , em seu sentido mais amplo, pode ser entendida como a
“ciência da conduta humana”. O Homem, por outro lado, tem a capacidade de
construir seu destino, dado que é dotado de consciência e de vontade, podendo
decidir sobre a realização de seu projeto de vida individual com reflexos na
vida coletiva. E as ações do Homem, como ser social, devem visar ao Bem
Comum. Segundo a ESG ( 2006), o Bem Comum é o:

“... ideal de convivência que, transcendendo à busca do


bem-estar, permite construir uma sociedade onde todos, e

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14921- 168,
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cada um, tenham condições de plena realização de suas
potencialidades como pessoa e de conscientização e prática
de valores éticos, morais e espirituais.”

Rumo ao Bem Comum, na busca do bem-estar individual e coletivo,


o homem apropria-se dos conhecimentos gerados pela ciência e os aplica,
gerando tecnologia. As novas tecnologias, por sua vez, criam as condições
para produzir novos conhecimentos e os mais variados artefatos. Mas, a
má utilização desses artefatos pela conduta humana pode comprometer o
bem-estar da humanidade, pois a ciência e a tecnologia não podem passar
ao largo de questões éticas, posto que é o Homem aquele que faz ciência e
aplica a tecnologia. Deve-se, então, orientar a conduta do Homem por meio da
educação para evitar-se que, no futuro, produção científica e tecnologia dêem
origem à invenção de artefatos que possam afetar negativamente a existência
da humanidade. E como ensinar ética? Sobretudo pelo exemplo! Transmitir
ensinamentos éticos de modo atrativo significa trazê-los para a prática. Estudar
filósofos clássicos e contemporâneos no contexto temporal de seus escritos,
extrair ensinamentos práticos, transpô-los para o presente, compará-los com
a realidade e projetar seus ensinamentos no futuro. Assim, o estudo da ética
torna-se um ponto de referência para ações presentes e futuras, partem da
visão escolástica para a pragmática e criam condições reflexivas para que
atos do presente antecipem visões de futuro. Desse modo, julgamentos sobre
o conhecimento científico poderão anteceder sua produção, bem como sua
posterior utilização para desenvolver tecnologias que conduzam a resultados
benéficos. Concilia-se, então, a ética com a ciência e a tecnologia.

Priorizar a universidade

Algumas questões fundamentais são colocadas para o sistema


educacional: o que é prioritário, o ensino básico ou o superior? O que se deseja
para a universidade pública? Continuará a universidade com as perspectivas
dualista e elitista? Privilegiará o saber escolástico e clássico ou buscará
equilibrar os saberes humanista e científico? Um dos caminhos conduz à
implementação de ensino básico de qualidade, porém arrastado pelo ensino
universitário de excelência, o qual deverá receber prioridade.
Não se trata de importar modelos alienígenas para a universidade pública
brasileira, mas de verificar o que tornou outros países mais desenvolvidos e
o que pode ser adaptado à realidade do Brasil. Naqueles países, um fator

162 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.149


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168, ago/dez. 2007
diferencial é a existência de ampla base científica com capacidade para criar
novos conhecimentos, para incorporar novas tecnologias e com facilidades para
repassá-las à sociedade. Desse repasse resultam aumento de oportunidades,
redução de diferenças sociais e atenuação de desigualdades regionais. Nos
países mais desenvolvidos, o Estado nos níveis federal, estadual e municipal
são financiadores das universidades públicas e esse é um importante papel do
Estado, já que a pesquisa básica, normalmente realizada nas universidades
e cujo retorno se dá a longo prazo, não é um atrativo para o setor privado.
Contrariamente, a pesquisa aplicada interessa diretamente a esse setor.
Concentrar, num mesmo espaço geográfico, universidades e parque
industriais e tecnológicos é fator de desenvolvimento econômico e social que
permite criar empregos, gerar tributos e seus benefícios decorrentes. O Estado
de São Paulo é um exemplo dessa conjugação no Brasil, particularmente, nas
regiões de São José dos Campos, Campinas, São Carlos e na própria capital
do Estado.
E segundo TAVARES (1998), para se ter uma universidade pública
fortalecida e de qualidade, sintonizada com as tendências do futuro:

“... as atividades de ensino, pesquisa e extensão devem voltar-


se com ênfase progressiva para a promoção da qualidade de
vida das comunidades regionais e/ou nacional, gerando novas
oportunidades e facilitando o acesso à própria universidade. Isto
tem a ver [...] com o desenvolvimento de políticas e metodologias
voltadas para o aprimoramento do ensino secundário, uma das
tarefas para as quais a universidade é altamente vocacionada.
Não há sociedade estruturalmente desenvolvida capaz de
produzir ciência, tecnologia e cultura dissociadas da existência
de universidades públicas saudáveis. Por outro lado, só
haverá universidades completamente saudáveis quando estas,
independentemente de se caracterizarem como centros de
excelência no ensino, na pesquisa e nas atividades de extensão,
constituam também fóruns privilegiados de discussão dos
problemas prioritários da sociedade.”

E nas universidades, como conciliar os saberes humanista científico


e, ao mesmo tempo, atender às demandas sociais do país e às exigências
internacionais de um mercado cada vez mais competitivo? Verificou-se que
os países que “poderão” comandar as relações internacionais no futuro,

Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


14921- 168,
-39, ago/dez. 2007 163
apresentam deficiências que poderão ser supridas pelo Brasil. É sobre essas
vantagens atuais e futuras que as decisões de hoje devem ser tomadas e suas
ações implantadas. Trata-se de manter e ampliar as conquistas tecnológicas
brasileiras e de criar as condições para ser competitivo hoje e no futuro.
Para isso, deve-se orientar a educação superior para o desenvolvimento
científico e tecnológico focalizando-a sobre os recursos potenciais do Brasil
de hoje: a preservação e a conservação da água, a produção de energia e o
desenvolvimento econômico da biodiversidade.
Em termos territoriais, a atual distribuição geográfica das universidades
públicas e privadas brasileiras, concentradas nas regiões sul e sudeste do
país, contribuem para acentuar as desigualdades regionais. Trata-se, de
desconcentrar o ensino superior ampliando a oferta de vagas nas demais
regiões. Como cada região possui culturas e recursos naturais próprios, é
prudente investir numa educação superior que priorize essas peculiaridades e
potencialidades e que permita desenvolver “parques industriais e tecnológicos”
conjugados com as universidades daquelas regiões. Desse modo, a educação
superior contribuirá para os desenvolvimentos regionais e para o crescimento
econômico e o desenvolvimento do Brasil.

IV - Conclusão

Do tema analisado pode-se concluir que a sociedade apresenta


inúmeras expectativas para o futuro e que a satisfação de seus anseios passa
necessariamente pela vertente da educação. Portanto, há necessidade de
políticas públicas serem estabelecidas em vários campos da expressão do poder
nacional, as quais mantêm uma estreita relação com a política educacional.
Esse conjunto complexo de políticas interagindo entre si maximizarão seus
resultados recíprocos quando suas ações estratégicas forem aplicadas e
acompanhadas de modo sistêmico.
Para concretizar essas estratégias educacionais optou-se por um conjunto
de ações estratégicas:“ pensar sobre o futuro”, “ educação que concilie
a ética com a ciência e a tecnologia” e “ priorizar a universidade”. Essas
ações, se implantadas com determinação política, investimentos públicos
e privados, acompanhamento e cobrança por parte da sociedade, poderão
contribuir para que sejam atingidos os objetivos traçados para o sistema
educacional. Dentro desse enfoque o Brasil de hoje deve optar, ainda, por buscar
o equilíbrio entre o saber humanista e o saber científico, tendo a universidade
pública como principal agente impulsor de sua política educacional.

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-39, ago/dez. 2007
Para que o Brasil possa ocupar posição de destaque no sistema e
comunidade internacionais, mantendo sua soberania e conquistando o
progresso, é necessário que esteja amparado em políticas públicas e, dentre
elas, numa política de educação orientada para o futuro e que, nesse mister,
invista no aperfeiçoamento de suas instituições e no seu maior patrimônio, o
povo brasileiro. Age-se, assim, sobre os elementos básicos da nacionalidade:
HOMEM, TERRA e INSTITUIÇÕES.

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Mercosul e o futuro do bloco econômico

Paulo Ribeiro Branco Junior


Major de Infantaria da Aeronáutica Concludente do Curso Superior de Inteligência Estratégica
da ESG em 2006

I - INTRODUÇÃO

Após várias tentativas de integração dos países latino-americanos,


ocorridas desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a formação do Mercado
Comum do Sul (Mercosul) foi a solução encontrada por Brasil, Argentina,
Paraguai, Uruguai e recentemente, a Venezuela, para se adaptar ao novo
cenário internacional, regido pela Globalização.
No plano político-estratégico, o Mercosul refletiu uma mudança radical
na relação entre seus membros, sobretudo Brasil e Argentina que, após
décadas de desconfiança, receio mútuo e limitada cooperação, decidiram
optar pela aliança em vez do antagonismo. Representantes do governo
brasileiro se referem ao Mercosul como o tema de maior importância política
nas relações externas de seus quatro membros iniciais, bem como dos
demais países sul-americanos que possuem aspirações integracionistas.
O Mercosul é, portanto, o resultado de uma política regional de
integração entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, cujo projeto foi
institucionalizado com a assinatura do Tratado de Assunção, em 26 de
março de 1991, que previu a formação de uma zona de livre-comércio, uma
união aduaneira e a constituição de um mercado comum entre os quatro
países, com a livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos. Os
principais objetivos têm sido promover o comércio inter e intra-regional,
modernizar a economia local e projetar a região de forma competitiva no
mercado internacional. Como pano de fundo desta comunidade está o
anseio do Brasil pela integração sul-americana.
Apesar dos grandes avanços na integração, o Bloco econômico
passou por algumas crises, decorrentes da política cambial de seus
membros, da recessão econômica, da redução dos investimentos externos
e da drástica redução de liquidez financeira internacional.
Outros fatores desestabilizadores do Mercosul têm sido a possível
criação da Área de Livre-comércio das Américas (ALCA) e a também
possível conturbação e fragmentação dos países da América do Sul, em

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função de fatores políticos, como o ressurgimento de governos populistas,
e de fatores econômicos, como a realização de acordos bilaterais que vêm
sendo firmados com países desenvolvidos.
Este trabalho tem como objetivos realizar o diagnóstico dos ambientes
externo e interno ao Mercosul, evidenciar a dinâmica dos fatores que
influenciam o seu processo evolutivo e, finalmente, formular uma hipótese,
considerada a mais provável, sobre a situação do Bloco em 2010. A grande
dinâmica político-econômica do ambiente regional e mundial justifica o
estabelecimento de um marco temporal menor que cinco anos.
O estudo é relevante na medida em que fornece dados que podem
contribuir para o estabelecimento da política brasileira em relação ao
Mercosul, questão fundamental no que se refere às pretensões do Brasil
de se inserir, competitivamente, no cenário global.

II - HISTÓRICO RECENTE DO MERCOSUL

O Mercosul foi firmado entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, em


26 de março de 1991, por meio do Tratado de Assunção, que estabeleceu
um “período de transição”, entre 1991 e 1994, no qual se previu o
cumprimento das seguintes metas: a liberalização comercial, baseada em
reduções tarifárias progressivas e eliminação de restrições comerciais,
uma coordenação gradual das políticas macroeconômicas e setoriais, o
estabelecimento de tarifa externa comum, a fixação de um regime geral de
origem, de cláusulas comuns de salvaguarda, de um sistema de solução
de controvérsias, o estabelecimento de listas de exceções ao programa
de liberalização comercial para os produtos “sensíveis” e a harmonização
legislativa em áreas pertinentes.
Em 17 de dezembro de 1994, por meio do Protocolo de Ouro Preto,
os quatro países criaram uma nova estrutura institucional para o Mercosul
e estipularam uma Tarifa Externa Comum (TEC), para vigorar a partir
de 1995, dando início à fase denominada União Aduaneira. O Protocolo
de Ouro Preto foi, finalmente, o instrumento que atribuiu personalidade
jurídica internacional ao Mercosul, para negociar com outros países e
blocos econômicos.
Desde então, o Chile (em 1996), a Bolívia (em 1997), o Peru (em
2003), além da Colômbia e do Equador (em 2004), mediante acordos
bilaterais, passaram a ser considerados Membros Associados do Mercosul,
podendo participar das reuniões de cúpula, com representação em níveis
presidencial e ministerial. A Venezuela, membro associado desde 2004,

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encaminhou, em 2005, pedido de adesão ao Bloco, sendo integrada como
membro-pleno em julho de 2006. Importa mencionar que os membros
associados não utilizam uma tarifa externa comum ao comerciarem com
terceiros países.

III - DIAGNÓSTICO DO MERCOSUL

1 - Ambiente Externo ao Bloco

O ambiente mundial se caracteriza pela chamada globalização, ou


seja, a crescente interdependência e hierarquização dos povos e das
economias, com a ampliação dos fluxos de capitais e da competitividade
entre as empresas no mercado internacional. Este processo traz, como
conseqüência, o enfraquecimento da soberania e das fronteiras político-
econômicas nacionais.
A globalização decorre da progressiva abertura dos mercados,
favorecida pelo fim da guerra fria e pelo surgimento de outros polos de poder
econômico, em acréscimo à já existente potência norte-americana, bem como
pelo avanço das tecnologias de transporte, informação e comunicação.
Neste ambiente competitivo, surge a tendência à regionalização, que
não se opõe à globalização, mas constitui um passo para alcançá-la, no
qual os países, organizados em blocos, erguem barreiras para proteger a
esfera de influência das zonas econômicas em que estão inseridos.
Para os países subdesenvolvidos, como é o caso dos membros do
Mercosul, a globalização representa um desafio, pois a abertura econômica
descontrolada ameaça o seu desenvolvimento, podendo ser um instrumento
dos países desenvolvidos para manter sua hegemonia sobre os demais.
Em paralelo à crescente globalização, existem fatores
desestabilizadores no cenário internacional, que afetam o processo de
integração.
É o caso, entre outros, das incessantes oposições raciais e religiosas,
principalmente entre muçulmanos e judeus. A possível intervenção militar
norte-americana no Irã, a fim de controlar o seu desenvolvimento nuclear,
pode catalisar uma união dos países muçulmanos, sobretudo os árabes,
contra o restante do mundo.
Em virtude não só de questões raciais e religiosas, mas também por
motivações políticas, cresce a probabilidade da ocorrência de outro fator
desestabilizador: a sensação de insegurança e impotência frente às ações
terroristas.

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-39, ago/dez. 2007 171
Na América Latina, por sua vez, há uma incerteza no panorama
político, em face da previsão de pleitos presidenciais, até o fim de 2006
no Brasil, na Venezuela, no Equador e na Nicarágua. Na Colômbia, foram
realizadas eleições, no dia 28 de maio de 2006, tendo saído vitorioso o
candidato à reeleição Alvaro Uribe, com o discurso político de “segurança
democrática”. No Peru, foi eleito, em 04 de junho de 2006, o social-
democrata Alan García, em detrimento do nacionalista de esquerda
Ollanta Humala. Em julho do mesmo ano, no México, saiu-se vitorioso o
conservador Felipe Calderón, que defende uma política de alinhamento
com os EUA.
O secretário-geral da OEA – Miguel Inzulza – durante a IV Cúpula
das Américas, ocorrida no fim de 2005, declarou que, apesar de a América
Latina ter vivido seu melhor ano econômico, em 2004, comparado às
duas décadas anteriores, e de ter sido reforçado o regime democrático na
região, ainda permanece com um panorama indefinido. Segundo Inzulza,
a atmosfera de incerteza é resultado das dúvidas quanto à capacidade e à
vontade política dos governos locais em levar desenvolvimento econômico
e social aos duzentos milhões de pobres existentes na região.
Dois relatórios publicados, em novembro de 2005, no jornal norte-
americano Miami Herald, um da Agencia Central de Inteligência (CIA)
dos EUA e o outro da Comissão da União Européia para Assuntos Sul-
Americanos, apresentam o consenso de que, na nova ordem mundial,
a América Latina mantém uma tendência de se tornar cada vez mais
irrelevante, pelo baixo investimento em pesquisa e em educação, comparado
às potências asiáticas. Segundo os documentos, a ausência de progresso
social expõe a região a alternativas políticas populistas, demagógicas e
autoritárias. (ALMANAQUE ABRIL, 2006)
Segundo documento da CIA que relata as tendências globais para
2020, existe a tendência de ocorrer maior fragmentação na América Latina,
nos aspectos econômico, de investimento e de política comercial. A previsão
também destaca o Brasil e o Chile como comerciantes globais, e estima o
aumento da dependência do México e dos países andinos em relação aos
EUA e ao Canadá.
Segundo previsões feitas, em 2005, pela Conferência das Nações
Unidas para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), a América Latina
tende a atrair investimentos externos, porém em níveis menores do que
outras regiões em desenvolvimento.
Na América do Sul, além das causas político-econômicas, as
tensões também advêm de alguns movimentos de guerrilha e dos crimes

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transnacionais, sobretudo do narcotráfico, do contrabando, da lavagem de
dinheiro e de outros a eles conexos.
A retomada do nacionalismo e do populismo na América do Sul,
principalmente na Venezuela e na Bolívia, além das medidas pouco
amistosas do presidente deste país, em 2006, não cumprindo contrato de
seu governo com a empresa brasileira PETROBRÁS, nacionalizando as
reservas de gás e cercando as instalações da Empresa com forças militares,
têm causado instabilidade político-econômica no continente, com reflexos
negativos para o Mercosul, principalmente por que a Bolívia é membro
associado deste Bloco.
A instabilidade na região também decorre da decisão do presidente
Hugo Chávez, em abril de 2006, de retirar a Venezuela da Comunidade
Andina (CAN), acusando o Peru e a Colômbia de traidores, por terem
assinado tratados bilaterais de livre-comércio com os EUA.
Para completar o quadro de falta de harmonia política no continente,
prosseguem as tratativas para implementação da Alternativa Bolivariana
para a América (ALBA), projeto de integração socioeconômica inspirado
na idéia de integração latino-americana de Simon Bolívar, proposto pelo
presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que recebeu o apoio do presidente
de Cuba, Fidel Castro, e, mais recentemente, do presidente da Bolívia, Evo
Morales.
Este ambiente de tensões e incertezas culminou em maio de 2006,
com o não comparecimento dos presidentes Néstor Kirchner, da Argentina,
Tabaré Vázquez, do Uruguai, e Nicanor Duarte Frutos, do Paraguai, na
Cúpula América Latina e Caribe -União Européia, realizada em Viena.

2 - Ambiente Interno ao Bloco

Pode-se analisar a evolução do Mercosul, dentre vários aspectos,


pelo nível de integração comercial, pelo grau de consolidação da união
aduaneira (eliminação das barreiras ao comércio entre os membros
do Grupo, além da aplicação de uma tarifa externa comum – TEC – no
comércio com terceiros países) e pelo estágio do processo de constituição
de um mercado comum propriamente dito.
Apesar das disputas e conflitos entre os países-membros, como o
ocorrido entre Uruguai e Argentina, quanto à instalação de fábricas de
celulose às margens do rio Uruguai, a integração comercial é a área onde
maiores avanços podem ser notados, ficando os aspectos político, militar,
científico-tecnológico e social em segundo plano.

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-39, ago/dez. 2007 173
A união aduaneira, a despeito dos progressos, não está totalmente
implementada, pois a TEC ainda não é aplicada a várias mercadorias
importadas pelos países do Bloco.
O processo de constituição de um mercado comum propriamente
dito, onde está implícita a livre circulação de bens, serviços, capital e mão-
de-obra, ainda requer muito esforço e compromisso, principalmente no que
diz respeito ao fluxo de serviços e de mão-de-obra. A coordenação das
políticas macroeconômicas e cambiais, indispensáveis para a viabilidade de
um mercado comum, também se encontra em fase inicial de execução.
Um exemplo da falta de harmonia de políticas fiscais e econômicas se
verifica na legislação financeira do Uruguai, que, pelo fato de ser extremamente
liberal, transformou Montevidéu no paraíso fiscal na região platina.

Aspectos sociais, econômicos e fisiográficos do Mercosul

Na realidade, o Mercosul se trata da reunião de países


subdesenvolvidos, em graus diferentes, onde existem assimetrias macro
e sócio-econômicas. O Brasil, com a maior economia da região, possui os
piores índices sócio-econômicos. Na Argentina e no Uruguai, os melhores
indicadores sociais não refletem a situação econômica. O Paraguai, por
sua vez, possui baixa renda per capita, fraca urbanização e crescimento
vegetativo relativamente alto, característico de uma economia apoiada no
setor primário e na produção rural tradicional.
A pobreza de grande parte da população é característica de todos os
países do Bloco, o que se verifica não só no nordeste brasileiro, no Chaco
argentino e paraguaio, mas também nas grandes metrópoles, como Rio
de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, Belo Horizonte, etc, o que causa
tensões sociais e instabilidade política.
Via de regra, os integrantes do Bloco não priorizam seus investimentos
em educação, pesquisa e desenvolvimento tecnológico, tendo como
conseqüência a baixa média de escolaridade e a má qualidade da força de
trabalho.
O mercado consumidor dos quatro integrantes-plenos do Bloco,
apesar de grande (cerca de 232 milhões em 2004, não considerada a
população venezuelana), mantém baixo poder aquisitivo.
Politicamente, os países ainda estão em processo de estabilização
do regime democrático. A instabilidade econômica e a ineficiência das
instituições e do Estado são fatores que dificultam a expansão do Bloco do
Cone-Sul.

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Na tabela a seguir pode-se verificar alguns índices de desenvolvimento
dos membros-plenos do Mercosul, em 2004. Foram incluídos os dados da
Venezuela, que integrou o Bloco em 2006.

Fontes: Banco Mundial, acesso em abril de 2006, atualizado até 2004;


e Almanaque Abril 2006

Os três gráficos seguintes expõem o grau de participação de cada


membro no PIB total do Mercosul (gráfico 1), a participação deste Bloco no
PIB mundial (gráfico 2), ambos referentes a 2004, e a participação do Mercosul
no comércio exterior de cada membro, em 2002 (gráfico 3).

Gráfico 1

Fonte: Banco Mundial

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Gráfico 2

Fonte: Banco Mundial

Gráfico 2

Fonte: CEPAL; Almanaque Abril: Atualidades Vestibular 2006

O crescimento do comércio intra-regional total (exportação e importação)


do Mercosul entre 1990 e 2002 foi de 148,8%, enquanto o comércio extra-

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regional teve um incremento de 94,8%. (REVISTA DE ECONOMIA POLÍTICA,
2005)
Quanto ao aspecto fisiográfico e econômico, o Mercosul apresenta, como
ponto forte, a rede hidrográfica da bacia platina, que favorece o escoamento
da produção industrial e agropecuária.
O núcleo geoeconômico do Mercosul é constituído pelo Rio de Janeiro,
São Paulo, Belo Horizonte, Campo Grande, Curitiba e Porto Alegre, no Brasil;
Buenos Aires, Córdoba, Mendoza e Rosário, na Argentina; Assunção e os
setores nordeste e leste do Paraguai; e Montevidéu, que concentra grande
parte da população e uma importante área portuária do Uruguai.
Como infra-estrutura de transporte no Mercosul, além dos rios da Bacia
Platina, existe uma razoável malha rodoviária e ferroviária, que integra os
Estados do Centro-Sul brasileiro aos países platinos.
As rodovias que ligam Assunção, Buenos Aires e Montevidéu a São
Paulo e ao litoral brasileiro se revestem de especial importância, pelo fato de
os portos localizados no estuário do Rio da Prata estarem em águas rasas,
gerando a necessidade de parte do escoamento da produção ser feito pelos
portos brasileiros, sobretudo o do Rio Grande. Também se destaca a BR-277,
que possibilita a ligação entre Assunção e o porto de Paranaguá, no Estado
do Paraná. Está prevista, ainda, a construção de uma rodovia que ligará os
portos do Rio Grande, no Brasil, ao de Antofagasta no Chile.
Outro ponto forte é a atual ligação rodoviária entre Manaus e Caracas,
constituindo a primeira ligação internacional, desta natureza, na Amazônia.
Apesar da atual malha rodo-ferro-hidroviária, ainda falta a adequada infra-
estrutura de transportes, que possibilite a comunicação eficiente entre as regiões
de expansão econômica e que, também, efetue a ligação Atlântico-Pacífico.
Nesta linha de raciocínio, a projetada ligação rodoviária entre o Estado
do Acre e o litoral pacífico, através das cidades de Rio Branco, Assis Brasil,
e as cidades de Cuzco e Arequipa, chegando ao Porto de Matarani, no Peru,
constitui fator de influência para o crescimento do Mercosul, favorecendo
principalmente o Brasil. Esta ligação permitiria, ainda, a conexão com o rio
Amazonas, por meio do rio Madeira. Assim, tanto o centro-sul quanto o norte
do Brasil teriam acesso ao oceano Pacífico, e vice-versa.
Outro ponto forte do Mercosul é a enorme fronteira de expansão
econômica constituída pela Amazônia brasileira e pela Patagônia Argentina, pois
são áreas que comportam grande crescimento demográfico, desenvolvimento
agropecuário, e onde se encontram fartas reservas minerais e petrolíferas.
Do ponto de vista energético, sabe-se que o maior potencial hidráulico
brasileiro, ainda pouco explorado, se localiza na bacia amazônica,
principalmente nos afluentes da margem esquerda do rio Amazonas.

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21- 188,
-39, ago/dez. 2007 177
IV - O FUTURO DO MERCOSUL

1 - Análise dos Fatores de Influência

Para a formulação da hipótese mais provável quanto ao futuro do


Mercosul, serão considerados os fatores de influência sócio-econômico-
institucionais, bem como o posicionamento político dos países envolvidos,
englobando os quatro países fundadores do Bloco, além dos EUA, de outros
países do continente sul-americano e da União Européia.

Fatores sócio-econômicos e institucionais dos países-membros

Economicamente, o Mercosul apresenta papel importante para seus


integrantes, principalmente para os menores, como é o caso do Paraguai,
onde mais de 50% do comércio exterior se realiza no ambiente intra-
regional. O crescimento da corrente de comércio entre os países-membros,
desde a criação do Bloco, enseja pensar que o custo de abandoná-lo seria
maior que o de fazer adequações e concessões para a sua manutenção e
crescimento.
O futuro do Mercosul depende, sobremaneira, do desenvolvimento de
seus países integrantes. Os fatores sócio-econômicos e institucionais do
Mercosul não são favoráveis. Excetuam-se os recursos naturais disponíveis
e a possibilidade de integração da patagônia Argentina, do norte e nordeste
brasileiro e das regiões produtivas dos outros países da América do Sul ao
núcleo geoeconômico existente.

Posicionamento Político dos Países Envolvidos

Os fatores políticos têm sido decisivos na evolução do Mercado Comum


do Sul. Isto se percebeu na criação do Bloco e nas crises ocorridas.

Argentina

Diferentemente do Brasil, que vê o sucesso do Mercosul como estratégia


para o cumprimento de uma ampla política de inserção global, a Argentina
enfoca o Bloco do Cone-Sul e sua relação com o Brasil por um prisma,
predominantemente, econômico e comercial.
A política externa argentina, durante a década de 1990, buscou manter
uma aliança econômica e comercial com o Brasil, no âmbito do Mercosul e,
concomitantemente, com os EUA, nas questões da defesa nacional. Esta

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-39, ago/dez. 2007
posição se explica pela intenção velada da Argentina de impedir que o Brasil
se consagre como líder da região. (CAMPBELL, 2000)
Apesar dos recentes atritos com o Uruguai, a política externa da
Argentina, com o apoio da opinião pública, considera o Mercosul fundamental
para o crescimento econômico.

Brasil

A política externa brasileira tem como prioridade a integração do


continente sul-americano e latino-americano, como estratégia de inserção no
mundo globalizado. Para o Brasil, a consolidação do Mercosul constitui etapa
fundamental do processo.
Além da integração, o Brasil tem como pontos fulcrais de sua política
externa a defesa do multilateralismo respeitoso às regras da OMC, o combate
aos subsídios agrícolas praticados pela União Européia e pelos EUA, e a
busca pela redução dos acordos de liberalização comercial nos setores de
alta tecnologia e serviços.
Na busca pela integração regional, além de envidar esforços para
fortalecer o Mercosul, o governo brasileiro propôs, em 1993, a Área Sul-
Americana de Livre-comércio (ALCSA), para incluir o próprio Mercosul,
a Comunidade Andina (CAN) e o Chile. Esta proposta não teve sucesso,
acabando por se desdobrar em vários acordos bilaterais de liberalização entre
o Mercosul e os demais países.
Com a mesma estratégia política, o Brasil liderou a fundação, em dezembro
de 2004, da Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA), integrada por
todos os países do continente, com exceção da Guiana Francesa.
A fim de obter maior poder de negociação no cenário internacional,
principalmente em relação à ALCA, o Brasil vem, isoladamente e por meio do
Mercosul, procurando parceria com vários blocos econômicos, a exemplo da
União Européia.

Uruguai e Paraguai

Tanto o Uruguai quanto o Paraguai se sentem desprezados pelo Brasil


e pela Argentina, no âmbito do Mercosul. Ambos se consideram prejudicados
pelas “amarras” jurídicas impostas pelo Bloco, que os impedem de realizar
acordos com outros países e de conseguir a conseqüente abertura para o
mercado e para o investimento de outras regiões do Globo.
O governo paraguaio e, em parte, o uruguaio entendem que, de um lado,
não conseguiram aproveitar as oportunidades do Mercosul e que, de outro,

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ficaram tolhidos no comércio extra bloco, obtendo como resultado prático a
substituição de antigos parceiros por integrantes do bloco do Cone-Sul, em
vez do desejado aumento do fluxo de comércio com uma balança comercial
favorável.
Esta visão ficou evidenciada pelo presidente paraguaio, em maio de
2006, quando, em entrevista a jornalistas, disse que o Paraguai e o Uruguai
pedirão uma autorização especial ao Brasil e à Argentina, para negociar
tratados bilaterais de livre-comércio fora do âmbito do Mercosul. Indiretamente,
o Chefe de Governo estava anunciando o rompimento da união alfandegária.
Na prática, Paraguai e Uruguai demonstram a intenção de realizar tais acordos
com a potência norte-americana, assim como já o fizeram Colômbia, Chile e
Peru.

Venezuela

O governo venezuelano, representado pelo presidente Hugo Chávez,


busca a liderança política na América Latina, baseada na ideologia
bolivariana.
Após anunciar sua saída da Comunidade Andina (CAN), a Venezuela
assinou, em 23 de maio de 2006, o protocolo de adesão ao Mercosul como
membro-pleno, o que depende de ratificação dos Chefes de Estado dos quatro
integrantes originais.
Assim com a Argentina, foi favorável às atitudes do governo boliviano de
nacionalizar suas reservas de hidrocarboneto, o que também desestabiliza o
Mercosul e põe em xeque a capacidade do Brasil de liderar o continente sul-
americano.
Apesar de efetuar um discurso político contrário aos EUA, o governo
venezuelano mantém sólida relação comercial com aquele País, no setor
petrolífero.

Demais países sul-americanos

Mesmo com a instabilidade política e as incertezas vividas na América


do Sul, geradas por períodos eleitorais, pelo viés nacionalista e populista de
alguns governantes e pelos acordos bilaterais de alguns países do Continente
com os EUA, algumas iniciativas de integração foram aceitas, como é o caso
da recém criada Comunidade Sul-Americana das Nações. Isto demonstra,
de certa forma, o reconhecimento destes países sobre a necessidade de
união regional para a sobrevivência e para o desenvolvimento das economias
nacionais.

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21- 188,
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Entretanto, a concretização dos tratados bilaterais de livre-comércio
(TLCs) firmados pelo Peru e pela Colômbia, com os EUA, vem dificultando a
possível expansão do Mercosul e a própria integração continental.
Paradoxalmente, o presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, afirmou, em
28 de maio de 2006 (dia da sua reeleição), que pretende investir no comércio
exterior e aprofundar o tratado comercial firmado entre a CAN e o Mercosul.
Uribe disse, ainda, que vai “avançar em conversas formais com países centro-
americanos” para uma integração entre a CAN e a América Central. (FOLHA
ON-LINE, 2006)
Além disso, a decisão da Bolívia, membro associado do Bloco, de
nacionalizar suas reservas de hidrocarbonetos, de forma pouco (ou nada)
negociada, causou grande impacto negativo no Mercosul, de modo que a própria
capacidade de transacionar e de transigir deste pretenso mercado comum,
bem como a suposta liderança do Brasil, passaram a ser questionadas.
O Chile, por seu turno, importante país do continente, apesar de membro
associado do Mercosul, mantém baixo fluxo de comércio com este, privilegiando
outras parcerias, como os EUA e a APEC. Além da ligação comercial, o Chile
mantém forte vínculo político com os EUA, inclusive na área de defesa.
Assim como o Chile, a Colômbia e o Paraguai estão alinhados, política
e militarmente, com os EUA.

EUA

O fundamento da política exterior dos EUA tem sido, desde sua
independência, alcançar e firmar sua hegemonia sobre todo o continente
americano e, a partir de sua vitória na Segunda Guerra Mundial, manter a
situação privilegiada que alcançou no ambiente internacional, evitando a
emergência e a articulação de potências regionais que possam contestar sua
liderança mundial.
Com esse intuito, a potência norte-americana concebeu a ALCA, com
a dupla finalidade de ampliar as exportações de bens de alta tecnologia e
de serviços, e de ocupar os mercados controlados pela União Européia nas
principais economias sul-americanas.
Segundo Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro na Grã-Bretanha
e nos EUA, e atual presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior
da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a superpotência norte-
americana só se interessa em negociar a ALCA com os países sul-americanos
se for seguido o “modelo NAFTA”. (BARBOSA, 2006)
Segundo esta moldura, os países contratantes com o Bloco norte-
americano devem aceitar o acesso limitado ao mercado daquele país

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16921- 188,
-39, ago/dez. 2007 181
hegemônico, pela imposição de cotas e restrições tarifárias e não-tarifárias
para produtos considerados sensíveis pelos norte-americanos. Este tipo de
acordo-padrão também prevê a exclusão do exame das normas de antidumping
e subsídios, remetido à Rodada multilateral de Doha1, além da inclusão de
marcos regulatórios que limitam, severamente, a capacidade dos governos
dos países sulistas de promoverem medidas de apoio ao desenvolvimento.
Segundo um representante da Ministério das Relações Exteriores, em palestra
realizada na Escola Superior de Guerra do Brasil, em 2006, para a aceitação
do “modelo NAFTA” pelo País, seria necessário realizar seis emendas
constitucionais e alterar trinta e três leis federais.
Os EUA aparentam ter a economia mais aberta à concorrência externa
do mundo, porém praticam uma política de proteção seletiva dos setores
menos competitivos, com barreiras tarifárias e não-tarifárias, tais quais as
sanitárias, as ambientais, os subsídios, preços mínimos garantidos, tarifas e
cotas de importação, créditos, etc.
A fim de minar a resistência aposta pelo Mercosul em relação à ALCA, o
governo norte-americano tem promovido, com sucesso, o isolamento do bloco
do Cone-Sul, mediante a oferta tentadora de acordos bilaterais com os países
do continente, com redução tarifária diferenciada para as economias menos
expressivas.
Para justificar estes tratados de livre-comércio, a Secretária de Estado
Rice afirmou, em março de 2006, durante a 36ª conferência do “Conselho das
Américas”, realizada em Washington, que os EUA têm a intenção de auxiliar
seus parceiros, na garantia dos valores democráticos contra demagogias e
autoritarismos que impedem o desenvolvimento. Segundo Condoleezza, o
livre-comércio é a chave para promover a justiça social, criando condições
para o combate à pobreza e à desigualdade.

União Européia

A União Européia, assim como o Mercosul, deseja avançar nas difíceis


negociações para estabelecer um acordo entre os blocos.
Na reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), em dezembro
de 2005, na cidade de Hong Kong, foi previsto o fim dos subsídios agrícolas
praticados pelo bloco europeu, apenas em 2013, com exceção do algodão,
aplicado a um grupo de pequenos países pobres.
O presidente da Comissão Européia, órgão executivo daquele
Mercado Comum, viajou ao Brasil, no fim de maio de 2006, para encontrar
1
A “Rodada de Doha” é nome dado à proposta de rodada de desenvolvimento, lançada na 4ª
Reunião Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Doha/Catar em 2001,
considerada fundamental para a negociação de regras mais justas em seu âmbito.

182 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.


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-39, ago/dez. 2007
o presidente brasileiro, com a pauta de impulsionar o processo de chegada
a um acordo.
Em entrevista, realizada pouco antes da visita, o representante europeu
admitiu que a América Latina não é a prioridade para os EUA e para a
União Européia, que estão dando mais atenção ao comércio com os países
asiáticos. (SCHELP, 2006). Entretanto, acrescentou que a América Latina não
pode ser esquecida, em razão da perspectiva de “taxas de crescimento muito
convidativas”, da “forte ligação cultural” e da predominância de democracias
na região.
Cabe esclarecer que as taxas de crescimento da América Latina são, em
média, a metade da Ásia. A estratégia da União Européia, como também do
países asiáticos, é a de disputar não só o mercado, mas também a influência
na região, com os EUA.

APEC, CEI, China e Índia

Países importantes, no cenário mundial, como a China e a Índia,


agindo de maneira isolada, e outros países, atuando em bloco, se encontram
na constante busca pela abertura e ampliação de seus mercados. Assim,
existe a tendência de que a “Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico”
(APEC), que inclui potências econômicas, como EUA e Japão, e de que a
“Comunidade dos Estados Independentes” (CEI), que inclui a Rússia, entre
outros conglomerados econômicos, procurem acordos com Mercosul e com
seus países integrantes, de forma isolada.
É importante ressaltar, porém, que a América Latina não é a região prioritária
para os países e blocos econômicos em questão. Enquanto a APEC volta a sua
atenção para o comércio com o NAFTA, a CEI procura parceria com a União
Européia. Já a China e a Índia são, comercialmente, “multifocais”, podendo ser
chamados de comerciantes globais ou “global traders”. A China tem buscado
contatos com o Mercosul, a fim de realizar acordos comerciais. A Índia, por sua
vez, já mantém este tipo de pacto com o Bloco desde janeiro de 2004.

2 - Hipótese mais provável para o Mercosul em 2010

Considerando os fatores de influência acima analisados, formula-se


a seguinte hipótese como sendo a situação mais provável do Mercosul em
2010:

 Continuarão as incertezas políticas na América do Sul, prejudicando a


segurança para investidores externos;

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-39, ago/dez. 2007 183
 Em função do interesse estratégico pelo fortalecimento do Mercosul e
pela integração do continente sul-americano, Brasil e Argentina chegarão
a um acordo que permita ao Paraguai e ao Uruguai realizarem acordos
bilaterais com os EUA, a fim de evitar o rompimento do Bloco. Assim, na
prática, o Mercosul passará da condição de União Aduaneira a uma Área
de Livre-Comércio.
 O Bloco econômico se encontrará mais exposto à concorrência internacional,
alcançando um estágio um pouco mais moderno de competitividade, no qual
ocorrerá a concentração de capitais e a eliminação de empresas menos
eficientes, nas regiões mais desenvolvidas dos países-membros. Contudo,
a competitividade continuará fundamentada na baixa remuneração da
mão-de-obra;
 Manter-se-á o fluxo comercial intrazona, com a eventual ocorrência de
instabilidades ou pequenas baixas conjunturais;
 Pequenos avanços ocorrerão nas relações entre os países do Cone-Sul e
a União Européia, não chegando, porém, a um acordo de livre-comércio,
em todos os setores econômicos, até 2010. O prazo de 2013 para
manutenção dos subsídios agrícolas permanecerá, e o fluxo de comércio
entre os blocos continuará no mesmo ritmo de crescimento atual;
 A incorporação da Venezuela ao Mercosul “aquecerá” a economia regional
e ampliará o poder político do Bloco;
 Não terá havido acordo para a criação da ALCA. Entretanto, embora não
desintegrado, o Mercosul estará enfraquecido pelos acordos bilaterais dos
países sul-americanos com o NAFTA ou com os EUA;
 O Bloco do Cone-Sul prosseguirá nas tratativas com a China, sem chegar
a um acordo vantajoso;
 As relações comerciais com a Rússia e com a Índia estarão em ritmo lento
de crescimento;
 Os índices de desenvolvimento social sofrerão ligeira melhora no âmbito
do Mercosul, seguindo o pequeno crescimento econômico da região.

V - CONCLUSÃO

A consolidação do Mercosul possui importância estratégica para seus


membros mais fortes e, principalmente, para o Brasil, servindo como etapa de
integração e de fortalecimento regional, para o alcance do objetivo maior de
proporcionar melhores condições de negociação da ALCA e de inserir seus
membros no ambiente global.
Segundo Celso Lafer, ministro das relações exteriores do Brasil, entre
1999 e 2000, a ALCA é uma opção, enquanto que o Mercosul é um destino.

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Para ele, as condições sócio-fisiográficas que envolvem o bloco sul-americano
são muito fortes, impossibilitando outra atitude que não a integração.
Muitas têm sido as dificuldades vividas pelo Mercosul. A insatisfação e
a declarada intenção do Paraguai e do Uruguai de abandonar o Bloco, para
firmarem acordos bilaterais de livre-comércio com os EUA, vêm constituindo a
mais recente ameaça ao avanço no seu processo de consolidação.
Porém, outras crises graves já ocorreram, sem que o Mercosul se
desfizesse. A elevação do comércio intrabloco torna seus membros, sobretudo
os menores, dependentes da integração já efetivada.
Levando em consideração a evolução do Bloco e seus fatores de
influência, tanto políticos (traduzidos pela aparente intenção dos governos
integrantes) quanto sócio-econômicos, formulou-se uma hipótese sobre a
situação mais provável do Mercosul em 2010, na qual se prevê que, apesar de
toda a crise momentânea, o Mercosul continuará em processo de integração,
sem a saída de seus membros, num lento ritmo de crescimento. Assim,
os partícipes mais importantes do Bloco, em função do maior interesse na
integração regional, serão mais flexíveis, aceitando, parcialmente, a realização
dos acordos bilaterais de seus membros com os EUA e outros blocos.
Desta forma, provavelmente, em 2010, os problemas atuais do bloco
regional só poderão postergar, temporariamente, o avanço do processo de
integração decorrente da globalização.
Em face deste cenário prospectivo, interessa ao Brasil buscar a
consolidação da liderança regional, mediante a manutenção e aprimoramento
de políticas voltadas para a integração sul-americana, seguindo o padrão
histórico da diplomacia brasileira.
É importante destacar que tal liderança só poderá ser obtida após o
desenvolvimento e fortalecimento do poder nacional, de modo que o Brasil
seja atrativo e respeitado em todos os campos, não apenas econômico, mas
também político, psicossocial, científico-tecnológico e militar.

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188 Revista da Escola Superior de Guerra, v.23, n.48, p.p.169
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Tempos depois, uma nova Guerra-Fria
José Amaral Argolo
Advogado, Jornalista e Professor. Estagiário do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia
- CAEPE da Escola Superior de Guerra em 2007.

Lavrenti Beria1 estava morto quando Nikita Khruschev, Primeiro Secretário


do Partido Comunista da União Soviética, pronunciou o longo, célebre e hoje
não mais secreto discurso durante o XX Congresso do PCUS (fevereiro de
1956), denunciando o culto à personalidade e os crimes praticados por ordem
de Joseph Stálin. O homem que, com coração e pulso de ferro, liderou o povo
e o exército da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas durante a Grande
Guerra Patriótica (1941-1945) contra as forças da Wehrmacht, também prestava
conta dos seus atos junto ao Cosmo.
No entanto, as engrenagens da espionagem, contrapropaganda e
desinformação, azeitadas desde a vitória dos bolcheviques (1917), mantinham-
se – como ainda hoje – em perfeitas condições operacionais.
Dezenas de milhares de agentes cuidadosamente instalados na Europa
ainda devastada; nas metrópoles e cidades do interior dos Estados Unidos
da América; nos escaldantes sertões do Continente Africano e nos rincões
do Oriente Próximo, asseguravam um gigantesco fluxo de mensagens às
equipes de supervisores, analistas e decodificadores do recém-criado (13
de março de 1954) Comitê de Segurança do Estado (KGB), sucessor dos

1
Nascido na Geórgia, em 1899, Lavrenti Beria foi o chefe da NKVD no período que se
estendeu de novembro de 1938 a janeiro de 1946. Comandou a ampla rede de campos
de trabalhos forçados e, durante a Segunda Guerra Mundial (denominada Grande Guerra
Patriótica), supervisionou a remoção das indústrias de defesa para o Leste, enquanto as
tropas alemãs avançavam na direção de Moscou.
Foi, ainda, encarregado de conduzir o projeto ultra-secreto que resultou na construção da
bomba atômica soviética. O primeiro artefato (de plutônio) explodiu no dia 28 de agosto
de 1949. Todavia, em 26 de junho de 1953, três meses após a morte de Stálin, Beria foi
acusado de se associar um grupo de conspiradores para “tomar o poder e liquidar o sistema
soviético com o propósito de restaurar o capitalismo e o domínio da burguesia” (KNIGHT,
Ami. Beria – O lugar-tenente de Stálin, p. 275).
Beria e os conspiradores adiante citados foram condenados e executados: Vsevold
Merkulov, ex-vice-chefe do MGB; Vladimir Dekamozov, ex-funcionário da Seção Econômica
da Cheka e ex-secretário de Beria; Bogdan Kobulov, ex-primeiro vice-comissário do Povo
para Segurança do Estado; Sergei Goglize, ex-vice-ministro de Segurança do Estado
e chefe da Terceira Diretoria do MGB; P.A. Meshik, ex-chefe do MVD da Ucrânia e Lev
Vlodzimiski, ex-chefe do Departamento de Investigações do NKVD nda URSS.

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-39, ago/dez. 2007 189
primeiros órgãos de inteligência e contra-inteligência da URSS; quais sejam:
Cheka (instituída em dezembro de 1917 por determinação de Vladimir Illich
Ulianov), GPU (Administração Política do Estado), NKVD (Comissariado do
Povo para Assuntos Internos), NKGB (Comissariado do Povo para Segurança
do Estado, órgão originário do NKVD e posteriormente reintegrado a este no
início da Grande Guerra).
Muito embora os imensos complexos de edifícios e propriedades rurais
destinados a prover conforto, isolamento necessário e treinamento rigoroso
aos agentes que, posteriormente, seriam enviados ao exterior (protegidos
pelas mais diferentes histórias de cobertura) ficassem afastados da Capital, o
imaginário ocidental considera até hoje o prédio da Lubyanka, no coração de
Moscou, o mais importante de todos.
Talvez no início fosse assim.
Com o passar dos anos e, muito especialmente após a morte de Joseph
Stálin e os desdobramentos da política externa soviética, aquela construção de
sólidas paredes passou a abrigar tão-somente seções administrativas do KGB e
uma central de interrogatórios (localizada nos porões) onde, em câmaras à prova
de som, prisioneiros “confessavam os seus crimes” sob tortura e, em seguida – a
semelhança do que ocorreu com o coronel Oleg Penkovski -, eram executados.
Vejamos algumas peculiaridades do jogo fascinante da espionagem.
A História confirma que as atividades no campo da inteligência devem
estar revestidas de total sigilo para preservar os agentes de campo e seus
controladores onde quer que estejam. O ofício exige o anteparo da semi-
invisibilidade e recursos que somente os Estados Nacionais (e talvez algumas
mega-corporações) podem oferecer.
Ao longo do Século XX nenhum outro país superou a URSS no quesito
espionagem2. Seja pelo refinamento e/ou planejamento das operações, recursos
econômicos disponibilizados, pessoal qualificado e disseminado tanto no
extenso território da União Soviética como no exterior (incluindo os países
ocupados e anexados durante o Segundo Conflito cujos órgãos de Inteligência
foram redimensionados e transformados em tentáculos do Poder soviético).
No auge da sua força (e quando ainda dispunha de uma extensão territorial
quase duas vezes o tamanho do Brasil [17 milhões de quilômetros quadrados] e

2
Há quem defenda a primazia do Mossad (Israelense) por sua eficácia nas ações externas.

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-39, ago/dez. 2007
população estimada [no período supra-assinalado] em mais de 300 milhões de
pessoas pertencentes às mais diferentes etnias), a identificação de um simples
agente por parte dos órgãos de Inteligência ocidentais constituía uma tarefa
quase impossível, principalmente devido às dificuldades de acesso às regiões
onde foram construídas cidades secretas e campos de treinamento.
Localidades onde, por exemplo, as pessoas (por hipótese) somente
falavam inglês sem sotaque, mantinham-se atualizadas com as novidades
tecnológicas e culturais para, somente então, após cinco anos ou mais de
imersão total e algumas viagens aparentemente inofensivas ao exterior
[principalmente nos países do Bloco Socialista], eram lançadas em missões
complexas cuja duração se estendia, muitas vezes, por duas, três décadas de
paciente trabalho.
Histórias de cobertura não faltavam. Os documentos de famílias inteiras
dizimadas pelas tropas especiais alemãs durante o avanço na direção de
Moscou em 1941 foram reaproveitados e seus antigos titulares (principalmente
crianças e jovens) ganharam novos (as) fisionomias.
Assim, por ocasião da reviravolta no Conflito, quando o que sobrou das
divisões panzer e demais unidades motomecanizadas e da infantaria de assalto
da Wehrmacht e das Waffen SS buscou o caminho das linhas de defesa do
Dniepr, do Vístula, do Danúbio e do Reno; em meio à massa de refugiados que
deambulava na direção do que restou de suas vilas e aldeias, seguia uma teia
de agentes experimentados, motivados e apoiados financeiramente, levando-se
em conta os estragos proporcionados por cinco anos de conflito armado com
a Alemanha e seus aliados.
Naquele gigantesco cenário de devastação que se estendia da Polônia
à Finlândia, passando pela Hungria, Romênia, Iugoslávia, Grécia, Letônia,
Estônia, Lituânia, parte da Áustria e a própria Alemanha (sem esquecer a França,
Bélgica, Holanda e Dinamarca); entre tantas centenas de milhares de pessoas
que escaparam às batalhas campais e bombardeios aéreos estratégicos, um
número incalculável de “comerciantes”, “profissionais liberais”, “educadores”
etc misturou-se à geléia geral e desapareceu no anonimato.
A bem dizer o Primeiro Tempo do jogo começara muito antes, nos
anos vinte, em seguida à criação da Cheka, mas os movimentos do Bispo,
do Cavalo, da Torre e da Rainha ganhariam força exatamente três décadas

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depois, quando todos os simpatizantes e controladores estavam a postos para
os embates silenciosos da Guerra Fria. Como aconteceu com Kim Philby,
MacLean, Burgess, Vassall e outros tantos.

Peão 2 da Rainha

A Inteligência (diferentemente da Inteligência Humana) aplicada na


produção do conhecimento e/ou captação de dados, assim como na arte
dinâmica e sutil de desinformação, será sempre tão bem articulada na sua
gênese quanto melhores e mais precisos os indicadores históricos e culturais
que fundamentam a percepção dos seus planejadores.
Não sem razão o Museu Britânico esteve fechado à visitação publica até
o final do Século XIX. A clientela privilegiada era composta pelos diplomatas,
cientistas, historiadores e agentes dos serviços de Inteligência da Coroa.
Destacam-se igualmente nesse patamar tanto os centro-europeus
(dentre os quais os judeus da Diáspora, que herdaram singular talento dos
seus antepassados e organizaram um eficiente sistema de espionagem e
contra-espionagem) e os orientais (chineses, coreanos e japoneses). Mais
recentemente o mundo islâmico passou a ocupar-se desse mister com
resultados práticos bastante consideráveis.
De volta ao Leste Europeu.
Se, desprovidos das paixões ideológicas, examinarmos a densidade do
amálgama russo (estendendo-se de Pedro o Grande a Nicolau II e, deste, a
Lênin e seus sucessores) veremos uma grande quantidade de pessoas dotadas
de sólido arcabouço intelectual: poetas, cientistas e romancistas; artistas,
militares, jornalistas, professores etc, que contribuíram para sedimentar os
valores daquele povo.
Percebe-se, de imediato, o refinamento e a delicadeza na arte do ballet, a
riqueza da poesia, o estoicismo dos soldados e oficiais nos campos de batalha,
os sentimentos despertados pela música; a grandiosidade e vastidão dos
cenários descritos pelos escritores são elementos indissociáveis à compreensão
da alma russa.
Some-se nesse esforço tentativo o longo e rigoroso inverno que modifica
substancialmente o comportamento das pessoas, aumentando a introspecção e

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redimensionando o foco das atenções para outras atividades, inclusive lúdicas,
como o jogo-de-xadrez (paixão nacional, assim como as obras de Alexander
Pushkin, Fiodr Dostoievski e Leon Tolstoi).
Ora, o xadrez (cuja prática sempre foi e continua sendo estimulada pelo
Estado nas unidades de ensino – todos os níveis – durante a existência da
URSS) é um jogo que exige astúcia e qualidade em cada lance. Um simples
movimento com um dos peões pode vir a ser transformado em armadilha mortal
para o Rei.
Foram, por conseguinte, muito bem acolhidas pelos líderes revolucionários
de 1905 e 1917 as participações tanto daqueles jovens intelectuais do estrangeiro
(caso de Feliks Dzerjinski, polonês) como dos nacionais, não importando a etnia,
nas organizações bolcheviques (a exemplo de Leon Davidovitch Bronstein:
Leon Trotsky, de ascendência judaica, criador do Exército Vermelho e, não fora
a ação subterrânea e ininterrupta de Stálin, o provável sucessor de Vladimir
Illich Ulianov).
No Estado Soviético, e em que pesem os gastos gigantescos com
o desenvolvimento e produção de armamentos, os recursos destinados
à manutenção e/ou implementação das operações de Inteligência
eram praticamente inesgotáveis. Privilegiou-se o aperfeiçoamento dos
homens/mulheres nelas engajados (as), independentemente dos avanços
tecnológicos.
Apoiada por uma serie de êxitos nos quesitos Agitação e Propaganda
(Agit-Prop, segundo a terminologia leninista) a URSS conquistou e ou ampliou
posições em todos os Continentes. Mesmo hoje, passados cinqüenta anos
do discurso de Nikita Khruschev no Politburo, são inegáveis os resultados
práticos obtidos pelas esquerdas, principalmente na Europa Ocidental, África
e Américas.
Assim também aconteceu no Brasil. A História de algumas operações
secretas no País ainda está para ser escrita. Mas alguns indicadores e/ou
personagens são conhecidos. Por exemplo, as atividades de Olga Benário
(companheira de Luís Carlos Prestes, Secretário-Geral do PCB); as ações
destinadas a assegurar êxito na infiltração e exfiltração dos agentes que
serviam como correios, transportavam recursos financeiros e/ou prestavam
apoio logístico para algumas lideranças revolucionárias e seus grupos-de-fogo;

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os pesados investimentos realizados principalmente junto ao setor gráfico para
a confecção de material de propaganda; a aquisição de lotes de armas curtas
e equipamentos de comunicação destinados às frações da guerrilha urbana
e rural; as estratégias utilizadas para prover a compra/aluguel de pequenas
propriedades no campo ou nas cidades; o treinamento e formação de quadros
capazes de dirigir o País na hipótese da vitória nas urnas ou por intermédio da
Revolução Armada etc.
Um exemplo singular:
O comandante guerrilheiro Ernesto Che Guevara chegou ao Brasil em
1966 (procedente de Praga) antes de viajar incógnito (supostamente como
comerciante [identificado como Ramón Benitez]) para a Bolívia, onde instalou
um foco insurrecional [que, imaginava, serviria como coluna-mãe para as demais
que seriam projetadas em seguida por toda a América Latina]. Poucos meses
depois (outubro de 1967) seu grupo era dizimado e ele próprio capturado pelos
Rangers bolivianos treinados pelos Estados Unidos, conduzido sob forte escolta
para o povoado de La Higuera e executado a tiros no interior de uma pequena
escola de ensino fundamental.
Para que viesse no Brasil sem ser incomodado, foi organizado um
forte esquema de proteção. Até hoje pouco se sabe a respeito do curto
período em que Che Guevara permaneceu em solo brasileiro. Apenas que
agentes russos e tchecoslovacos participaram das ações de cobertura. A
documentação sobre Che Guevara continua arquivada e classificada como
ultra-secreta.
Mesmo assim, apesar de todos os cuidados, Ernesto Guevara foi
fotografado pelo Centro de Inteligência do Exército Brasileiro quando embarcava
na aeronave 3 que o transportou ao Aeroporto de São Paulo; dali para a frente
ele viajou de trem até a fronteira com a Bolívia, de onde seguiu por terra (via
Corumbá/Quijarro) até La Paz. Os cabelos arrancados pela raiz, a barba
raspada, os óculos de grau, as próteses dentárias, roupas sóbrias e chapéu,
além do passaporte uruguaio utilizado não foram suficientes para evitar que
fosse identificado.
3
Existem inúmeras versões para a viagem de Ernesto de Chegava até ingressar no sertão
boliviano. Originariamente, ao que se sabe, ele deixou Cuba seguindo diretamente para
Moscou. De lá, por intermédio de avião, foi até Praga e, em seguida, de trem, cruzou a
Áustria, Alemanha chegando a Paris. Da Capital francesa ao Brasil o esquema de proteção
foi muitas vezes ampliado..

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Armas, munições e muito dinheiro foram alocados para as organizações
da Esquerda Armada não somente durante os Anos de Chumbo como
também muito antes (anos vinte e trinta), para fomentar revoltas e acelerar as
transformações políticas rumo ao comunismo.
Tchecos, russos, alemães orientais, búlgaros e até mesmo poloneses
seguramente atuaram na instalação das redes destinadas a prover o suporte
das operações de Inteligência contra os governos que se seguiram ao
Movimento Militar de Março de 1964, principalmente no âmbito das Operações
Psicológicas.
Essas Operações, na sua quase totalidade, foram muito bem difundidas por
intermédio da Imprensa – e não somente por parte das corporações noticiosas
engajadas. Gráficas regulares e clandestinas imprimiam milhões de exemplares
de jornais alternativos, cartazes, panfletos e manifestos contra o regime, de tal
sorte que os objetivos de médio e longo prazos foram alcançados.
Como reforço a História das operações secretas na contemporaneidade
vale registrar que, no âmago do KGB, funcionava a pleno vapor um Departamento
de Desinformação. Como observaram Victor Marchetti e John D. Marks (A
CIA e o Culto da Inteligência, p. 141): “A propaganda negra de um lado, e a
desinformação de outro, são virtualmente indistinguíveis. Ambas referem-se à
difusão de falsas informações a fim de influenciar a Opinião Pública e dificultar
as ações das agências inimigas.
Os autores supra-assinalados acrescentam, a propósito, que a
Desinformação pode ser interpretada como um tipo de Propaganda Negra
(segredo absoluto quanto às fontes) apoiada por falsos documentos. É
a divulgação desses dados que faz com que o inimigo tire conclusões
equivocadas
Alemanha Nacional Socialista e a URSS (esta última copiando e ate
mesmo aprimorando alguns métodos da primeira) aproveitaram o avanço
tecnológico observado nos primeiros anos do Século XX para disseminar
propaganda. Os resultados práticos desses trabalhos não somente estimularam
a Opinião Pública a aceitar as ações de Estado como aumentaram o numero
de simpatizantes na órbita externa.
Quanto aos Estados Unidos da América, somente quando a Segunda
Guerra Mundial estava próxima do ponto de mutação [isto é, quando as forças

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alemãs apresentaram os primeiros sintomas de exaustão, antes mesmo do
colapso do Sexto Exército em Stalingrado] o Governo daquele país (por
intermédio do Office of Strategic Services e do Office of War Informations)
deu início aos programas de Guerra Psicológica..
No âmbito da CIA, organização criada em 1947 durante a administração
Harry Truman, foi implementado o Grupo de Ação Dissimulada: Covert Action,
onde até hoje trabalham pesquisadores e profissionais de alto nível nos campos
da História, Psicologia, Sociologia, Antropologia, Jornalismo, Publicidade e
Propaganda.
Vale recortar que o presidente do Chile, Salvador Allende, foi assassinado
(1973) por intermédio de uma dessas ações dissimuladas [existe farta
documentação disponibilizada a respeito]. Como conseqüência o país
mergulhou em um longo período de exceção sob a tutela do general Augusto
Pinochet.

O Pôquer da Águia Careca

Allen Dulles, primeiro civil a dirigir a Agência Central de Inteligência (CIA),


foi exonerado pelo presidente John Fitzgerald Kennedy após o colapso da
intrincada operação paramilitar em Playa Girón (Baía dos Porcos, Cuba, 1961)
onde anticastristas exilados e treinados pela CIA na Flórida foram rechaçados
após uma serie de combates e capturados pelas colunas do recém-criado
Exército Revolucionário.
Diz-se que a História pessoal de Allen Dulles confunde-se com a da própria
Agência. Originário do Serviço Diplomático dos EUA ele integrou o Office of
Strategic Services durante a Segunda Guerra Mundial e, em seguida, convidado
por William Donovan, ingressou nos quadros da CIA onde ali vivenciou alguns
dos momentos mais dramáticos do Pós-Guerra (o clímax da Guerra Fria
aconteceu no período compreendido entre 1952-1964).
Resumidamente:

 Guerra da Coréia
 Deposição do Primeiro-Ministro Iraniano Mohammed Mossadegh e
entronização do Xá Reza Pahlevi
 Derrubada, em 1954, do presidente eleito da Guatemala Jacobo Árbenz,

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por intermédio de um golpe paramilitar co-patrocinado pela United Fruit
 Revolta na Hungria (1956)
 Revolução Cubana (em janeiro de 1959 as colunas de guerrilheiros sob o
comando de Fidel Castro entraram em Havana)
 Instalação (1956 estendendo-se a 1969) de uma base norte-americana na
região de Peshawar (Paquistão) de onde partiam aeronaves equipadas
com câmeras especiais destinadas às ações de espionagem.
 Defecção de alguns dos mais preeminentes agentes da espionagem
britânica
 Construção do Túnel de Berlim, quase que imediatamente descoberto
pelos soviéticos e transformado em ação reversa por parte da Inteligência
da Republica Democrática Alemã (leia-se aqui Markus Wolf)

Os EUA também compreenderam a necessidade da concepção de


uma mentalidade de Inteligência e injetaram bilhões de dólares na formação
e treinamento dos agentes, na pesquisa e desenvolvimento de tecnologias e
na ampliação e/ou disseminação das redes de espionagem principalmente no
Leste da Europa e Extremo Oriente. África e Américas Central e do Sul vieram
em seguida.
Quanto ao psicologismo dos norte-americanos, difere bastante daquele
que se percebe nos Europeus. Como nunca foram atacados militarmente, a sua
maior preocupação esta voltada para as ameaças de contaminação ideológica
e insucessos na política industrial e comercial no exterior, reduzindo assim a
sua esfera de influência.
Todavia, mesmo contando com dois fortíssimos aliados: a liberdade de
Imprensa e a opção pela democracia; ainda assim os EUA vêm perdendo a
não cruenta batalha das mídias. Isso porque, sob o prisma da Comunicação,
os porta-vozes oficiais dos EUA verbalizam tão-somente contradições. Por
exemplo, como criticar outros governos se, internamente, não conseguem
equacionar problemas graves como racismo, desemprego/subemprego e a
imensa dívida interna? A tragédia provocada pela passagem do furacão Katrina,
em Nova Orleans, demonstrou a fragilidade da administração do presidente
George W. Bush em relação às políticas públicas.
Em contrapartida, os EUA e seus aliados no Ocidente conquistaram
amplas vitórias quando incentivaram as ações do Movimento Solidariedade
(Polônia), defenderam a reunificação alemã (o desmantelamento do Muro
de Berlim [1989] e o fim da opressão soviética sobre a Ucrânia e os Estados
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Bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia), acelerando com isso o colapso dos
regimes comunistas no Leste Europeu e o final melancólico da URSS.
O Projeto Guerra nas Estrelas, anunciado no Governo do presidente
Ronald Reagan com grande estardalhaço nas mídias, foi notável para estimular
o colapso do regime comunista na URSS. Com efeito, não havia como resistir
àqueles tantos bilhões de dólares que seriam aplicados no desenvolvimento e
lançamento de satélites (geoestacionários ou não) transportando canhões de
raios laser capazes de interceptar e destruir mísseis balísticos intercontinentais
(MIRVs), além de outros equipamentos ultra-sensíveis de rastreamento/
monitoração.
Tudo isso sem esquecer os investimentos direcionados às pesquisas
e produtos no âmbito das tecnologias digitais, bem como aqueles relativos à
ampliação das corporações de defesa dos EUA e os órgãos de Inteligência que
subsidiam com dados confiáveis o Chefe de Estado e seus assessores.
Nada disso, porém, impediu a ampliação da paranóia coletiva,
principalmente a partir da segunda metade da década de setenta. Embora
durante toda a Guerra-Fria os dois maiores rivais jamais tivessem se enfrentado
no campo de batalha, neste novo cenário que se avizinha é bem possível que a
acidulação da retórica dos chefes de Estado dos EUA e da Federação Russa
possa resultar em iniciativas ainda mais traumáticas do que aquelas praticadas
nos tempos do bloqueio de Berlim.
Se, em relação à antiga URSS, a guerrilha Chechena exibe talentos e
recursos capazes de resistir, como ainda o fazem, às corporações armadas
da segunda maior potencia militar do Planeta (após o fracasso das operações
militares que se estenderam por dez anos de duros combates no Afeganistão
contra os talibãs armados e treinados), o presidente russo Vladimir Putin vem
implementando ações práticas de alto impacto nos órgãos de difusão, tais como
testes com mísseis balísticos indetectáveis pelos mais modernos sistemas de
radar; instalação de baterias de mísseis terra-ar apontados na direção dos
países do Ocidente; retomada das operações navais em nível estratégico
no Mediterrâneo e uma bem sucedida ação na região do Ártico (fixação de
uma bandeira da Federação Russa no fundo do mar, destacando – com essa
iniciativa – as pretensões russas sobre as riquezas minerais inexploradas,
principalmente o petróleo, e se antecipando as demais nações).

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Tudo isso sem esquecer o apoio declarado ao Irã em sua intenção de dar
prosseguimento ao programa de enriquecimento de urânio para fins pacíficos,
contrariando a versão norte-americana (e israelense), segundo a qual este país,
além de subsidiar grupos terroristas, pretende construir armas de destruição
em massa.
Enquanto a nova Guerra Fria ganha corpo e transparece tanto nas
reuniões de cúpula como nos desencontros registrados pelas diferentes mídias,
o movimento pendular da Historia não deixa dúvidas sobre o que virá. As
ameaças aos EUA se avolumaram, notadamente no Mundo Islâmico, a partir
da derrocada do Xá (1979) e ascensão ao Poder (no Irã), do Aiatollah Ruhollah
Komeini e seus milhões de seguidores.
Excetuada a Arábia Saudita, o Kuwait e os Emirados Árabes, principais
clientes -compradores dos EUA no quesito defesa, os demais países que integram
o Mundo Islâmico (mais de um bilhão de pessoas) apóiam declaradamente a
Síria e o Irã (não mais sozinhos diante de qualquer provável confrontação)
O fato é que, seja no plano midiático ou nas ações militares externas, os
EUA vêm amargando derrotas sucessivas. Senão vejamos:
No longínquo Afeganistão – imediatamente após o impacto decorrente
dos múltiplos atentados de 11 de Setembro de 2001 – fora Cabul e algumas
aldeias próximas à Capital – o restante do país continua nas mãos dos talibãs.
Emboscadas bem sucedidas contra os comboios norte-americanos são
freqüentes no Vale do Kandahar, causando grande numero de baixas.
No Iraque, independentemente da destituição, fuga, captura, condenação
e morte do presidente Saddam Hussein, as forças norte-americanas amargam
perdas irreparáveis (entre mortos e feridos), por conta dos franco-atiradores,
minas e ataques com armas antitanque e mísseis terra-ar.
Os órgãos que integram a Comunidade de Inteligência norte-americana,
seu formidável aparato humano, econômico e tecnológico; todos os recursos
destinados à vigilância por intermédio de satélites e/ou sistemas ultra-
sofisticados até o momento não conseguiram localizar, prender ou eliminar o
Inimigo Número 1 dos EUA: Osama Bin Laden.
A formidável organização descentralizada e horizontal da Al Qaeda;
os recursos financeiros provenientes de milhares de doadores espontâneos
em todo o mundo; a capilaridade e a experimentação dos seus agentes em

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combates reais (no sul do Líbano, no Iraque, no Afeganistão e na fronteira
deste país com o Paquistão) constituem obstáculos notáveis ao poderio militar
norte-americano.
Some-se às ações não letais os videotapes difundidos pelo idealizador
daquele que é considerado o maior atentado já praticado na História e que
reverberam como bombas no Ocidente. Suas palavras ditas em tom solene e
pausado, retroalimentam a campanha contra os cruzados que se contrapõem
a verdadeira fé dos muçulmanos
Independentemente disso vale citar um pouco mais o mais novo teatro
de operações desse conflito: as Américas Central e do Sul. Comecemos por
Cuba, cenário de um dos episódios mais representativos dos anos sessenta: a
Crise provocada pela instalação e descoberta dos mísseis soviéticos de médio
alcance equipados com ogivas nucleares.
A memória da Guerra Fria registra, ainda, os complôs da CIA para
assassinar o dirigente cubano Fidel Castro, iniciativas que ultrapassaram a
casa das dezenas (15 confirmadas pela própria Agência norte-americana).
Fidel Castro, 80 anos, gravemente doente e internado há quase um ano,
foi substituído na Chefia do Governo por seu irmão Raul. Mesmo assim continua
assessorando, com sua experiência e combatividade, as ações de governo.
Nas Américas do Central e do Sul, muito especialmente, o Castrismo vem
conquistando novas cores por intermédio de lideranças políticas legitimamente
eleitas.
Essas lideranças, tanto da Nicarágua, Argentina, Venezuela, Brasil,
Equador etc, registram maior liberdade de ação que seus antecessores. Por
conseguinte, a subserviência aos interesses de Washington é coisa, digamos,
do passado.. .

Referências

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Ministro de Estado da Defesa, e destina-se a desenvolver e consolidar os
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planejamento da Segurança Nacional, considerando, também, os aspectos
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