UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

INSTITUTO DE FÍSICA E FACULDADE DE EDUCAÇÃO

TRADIÇÃO CULTURAL, CONTRASTE ENTRE TEORIAS E ENSINO DE FÍSICA

Alexandre Custódio Pinto

João Zanetic (Orientador)

Dissertação apresentada ao Instituto de Física e à Faculdade de Educação como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de mestre em Ensino de Ciências - Modalidade Física.

Fevereiro de 2003

Ao que vive do meu pai em mim.

RESUMO
Partindo de perspectivas educacionais oriundas da epistemologia de Paul Feyerabend, este trabalho apresenta a educação em ciência concebida como a iniciação em uma tradição cultural. O contraste entre teorias é identificado como um aspecto importante no Ensino de Física, imprescindível em uma abordagem cultural. Compõe ainda o trabalho uma reflexão sobre as possíveis compreensões do papel de especialistas implícitas no ensino de ciências. Um texto subsídio ilustra alguns elementos da abordagem educacional apresentada com o estudo da noção de inércia aplicada ao problema do movimento da Terra.

ABSTRACT Starting of educational perspectives derived from Paul Feyrebend´s epistemology. . The confrontation between theories is identified as an important aspect in physics teaching. indispensable in a cultural approaching. The work is still composed of a reflection on the possible comprehension of the role of specialists implicit in science teaching. A text subsidy illustrates some elements of the educational approach presented with the study of the notion of inertia applied to the problem of the movement of the Earth. this work presents the education in science conceived as a initiation in a cultural tradition.

pela minha humanidade.CEEP. Em especial a Simone. À memória do grande amigo Alexandre Antônio. pelo incentivo. . À Erika e ao Cristian pela mecânica relacional (mecânica 24 horas). pela minha formação. Aos Companheiros e Companheiras da Fundação Florestan Fernandes FFF e do Centro de Educação. minha mãe Irene. A todos que foram meus alunos. À minha esposa Cláudia. pela Orientação não só na realização deste trabalho. Ao Professores Manoel Robilotta e José Sérgio. em especial ao grupo de estudos do João. pelo financiamento parcial desta pesquisa. meu filho Giordano Bruno e a memória de meu pai Onofre. Em especial ao Luizão e ao Villani pela minha formação em mecânica e relatividade. questionamento e respeito às minhas idéias.AGRADECIMENTOS Agradeço ao Professor e Amigo João Zanetic. E. Paulão e Prado. pelas críticas e sugestões que muito ampliaram minha compreensão. por compartilharem de uma dupla missão. ao CNPq. Ao Zé e à Cris por estimularem minha forma de escrever. mas na condução da vida. com quem aprendi mais que ensinei. Aos Colegas do corredor. Aos meus Professores e Colegas do IFUSP. em especial a Moniquinha e a Nádia. Estudos e Pesquisas . Ao Ferreira da CTR/CUT pela atenção e valor dado a este trabalho. FEUSP e IQUSP.

. Sim. (.. mas que espécie de ciência? . fui um bom físico. porém. . e de Linda (sua mãe) ele recebera apenas indicações muito vagas: a ciência era uma coisa com a qual se faziam helicópteros. de modo que não tem condições de julgar. a própria ciência. Cozinha heterodoxa. Bom demais. Toda descoberta da ciência pura é potencialmente subversiva: até a ciência deve.ADMIRÁVEL MUNDO NOVO . temos de mantê-la cuidadosamente acorrentada e amordaçada. Sim..Sim . Fez esforço desesperado para compreender o que o Administrador queria dizer.. .. em suma.essa é outra parcela no custo da estabilidade.) E toda a propaganda da ciência que fazemos no colégio.Os senhores não receberam instrução científica. ele não o sabia. no meu tempo.continuou Mustafá Mond . Conhecia a palavra. cozinha ilícita. Quanto a mim.. Um pouco de ciência verdadeira. com uma teoria ortodoxa de arte culinária que ninguém tem o direito de contestar e uma lista de receitas às quais não se deve acrescentar nada. uma coisa que fazia com que a gente risse das Danças do Trigo. também o é a ciência. Shakespeare e os velhos do pueblo nunca se haviam referido à ciência. Ciência? O Selvagem franziu a testa. O que significava exatamente. às vezes. Ela é perigosa. Não é somente a arte que é incompatível com a felicidade. salvo com autorização do cozinheiro-chefe. uma coisa que impedia de ter rugas e de perder os dentes. ser tratada como um inimigo possível.1932 . Mas houve tempo em que eu era apenas um jovem lava-pratos cheio de curiosidade. bastante bom para compreender que toda a ciência é simplesmente um livro de cozinha. Sou eu cozinheiro-chefe agora. Pus-me a cozinhar um pouco a meu modo.perguntou sarcasticamente Mustafá Mond. TRECHO DA OBRA DE FICÇÃO CIENTÍFICA DE ALDOUS HUXLEY ADMIRÁVEL MUNDO NOVO .

O Filosofo trabalhando – foto preferida de Feyerabend .

.........................................60 III .................................................O PROBLEMA DA (I)MOBILIDADE DA TERRA......... MITOS E LENDAS ................................53 6...............................................NOÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DE PAUL FEYERABEND .........................................45 5.....134 9................................ EM DEFESA DA RACIONALIDADE CIENTÍFICA.............................................................................................................40 4.. O PRINCÍPIO DE MACH.................................................................................... CONHECENDO OS ESPECIALISTAS .........131 8.................................27 2....82 3.......................... MECÂNICA RELACIONAL..... PROPAGANDA......................104 1...................................13 I .............. ACHATAMENTO NA FORMA DA TERRA ............................................................... RELIGIÃO..................................... A NOÇÃO DE ESPAÇO ABSOLUTO ........................147 11...161 ................................ PROLIFERAÇÃO DE TEORIAS ..........................112 4.Sumário INTRODUÇÃO... INCOMENSURABILIDADE E INTERPRETAÇÕES NATURAIS ...............................................................................................................................67 1...................................................105 2.... ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO .........................................139 10.................................PERSPECTIVAS EDUCACIONAIS ........................................... TODOS DEVEM SER IGUALMENTE INICIADOS NA TRADIÇÃO CIENTÍFICA?...................................................................110 3......................A HISTÓRIA DESTE TRABALHO ........ MAIS ARGUMENTOS.....122 7............ A TERRA SE MOVE? ........................................................................... CONTRA-INDUÇÃO E MAIS .........................119 6................................... O ARGUMENTO DA TORRE............................................................... ONDE A PEDRA CAI? ............................................................. CIÊNCIA.......17 II ............................................. A NOÇÃO DE INÉRCIA ..............................................149 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..............22 1.........................................114 5............ A CIÊNCIA COMO TRADIÇÃO CULTURAL .........................................................................35 3...... O PÊNDULO DE FOUCAULT...................70 2...............................96 IV ......................... OBEDIÊNCIA VERSUS OUSADIA NA FORMAÇÃO CIENTÍFICA...........................................................................158 BIBLIOGRAFIA...............................................

No segundo capítulo. no entanto. fornecer elementos para uma reflexão sobre a concepção de Ciência difundida socialmente.INTRODUÇÃO A partir de limitações metodológicas do processo de construção do conhecimento científico e do estudo de teorias alternativas presentes na epistemologia de Paul Feyerabend. segundo nossa interpretação. é apresentada com uma tradição cultural entre outras (seção 1). a existência. Optamos por escrever este capítulo. na prática científica. fazendo progredir a Ciência baliza (seção do 2). neste trabalho. por eles serem parte fundamental do trabalho e por permearem todas as análises e discussões realizadas posteriormente. dos principais elementos epistemológicos presentes na nossa análise do Ensino de Física: a Ciência. apresentamos uma descrição. Tendo por fundamento as implicações educacionais da epistemologia de Feyerabend apresentamos uma proposta para o Ensino de Física estruturada por conflitos entre teorias. ao invés de apresentarmos estes elementos na introdução. Iniciamos o primeiro capítulo com algumas considerações sobre a história deste trabalho. bem como. identificar algumas perspectivas educacionais para o Ensino de Física. de procedimentos conflitantes com o método científico de um determinado período histórico. a concepção científico de anarquismo 3). pretendemos. a epistemológico como conhecimento (seção . ao invés de possuir um corpo de conhecimentos perfeito e acabado. sua relação com o Ensino de Física e suas limitações. mas.

e. jovens e adultos) nas tradições culturais. contendo algumas críticas às idéias de Feyerabend. elaboramos. algumas das noções epistemológicas de Feyerabend apresentar-se-ão inconsistentes ou até mesmo contrárias a uma "verdadeira" descrição da prática científica. começamos por nos perguntar se todos devem ser rígida e igualmente iniciados na tradição científica durante a formação básica (seção 1). justificamos porque mesmo os aspirantes a físicos (ou a professores de . a interação entre teorias alternativas e aquelas estabelecidas por diferentes grupos de pesquisa (seção 5). Com isto. ainda no capítulo segundo.Introdução 14 impossibilidade de redução total entre teorias sucessivas em conseqüência de alguns aspectos incomparáveis em seus conceitos fundamentais e o vínculo destes conceitos às diferentes formas de percepção fenomenológica (seção 4). passamos a discutir as lições epistemológicas aprendidas com o estudo das concepções sobre a Ciência expressas no capítulo anterior e suas conseqüências para a educação: concebendo a educação escolar como um processo de iniciação de pessoas (crianças. e em decorrência da primeira seção. pretendemos esboçar alguns limites da epistemologia de Feyerabend e suas implicações para a análise do Ensino de Física desenvolvida neste trabalho. Atentos a este problema. atentando ao desenvolvimento de uma prática da tolerância e considerando a Ciência como uma tradição cultural dentre outras. a seguir. por fim. No terceiro capítulo. a seção 6: Em defesa da racionalidade científica. Se consideradas fora de um amplo contexto. deslocando a discussão para o nível superior de Ensino. indicamos alguns elementos para a reflexão sobre o Ensino de Ciências no nível básico apoiados na prática da (transform)ação social por professores e alunos frente aos peritos ou especialistas de diferentes tradições culturais (seção 2).

permitindo-lhes ampliar suas concepções da Ciência e refletir sobre as conseqüentes implicações educacionais aqui apresentadas. por meio da problematização da noção de inércia. seguir seus métodos e procedimentos. Auxiliando-os no desafio de estudar a Física. buscar sua racionalidade e . Como subsídio para a utilização e aprofundamento de nosso trabalho em situações de Ensino elaboramos um texto didático sobre a noção de Inércia tratando especificamente do problema do movimento da Terra (capítulo IV). participar da prática de diferentes grupos de pesquisa (seção 3). uma variedade de modelos epistemológicos e. exemplificando uma abordagem do Ensino de Física apoiada em contrastes. - aos pesquisadores da Ciência e do seu Ensino. principalmente. - aos professores e estudantes da Física em geral. possibilitando-lhes um primeiro passo na direção de explorar e reconhecer os limites de seus trabalhos de investigação como pertencentes a uma determinada tradição de pesquisa. como uma introdução à leitura de Paul Feyerabend. como reflexões sobre suas próprias pesquisas. e. Nosso trabalho pode contribuir: - aos professores de Física.Introdução 15 Física) devem conviver com diferentes visões de mundo.

e. ao mesmo tempo.Introdução 16 objetividade. . estar atento aos seus aspectos humanos e à coexistência de teorias e modelos alternativos que possibilitam explicitar os limites do conhecimento e flexibilizar suas verdades.

frente ao "aprendizado" da Ciência.A HISTÓRIA DESTE TRABALHO1 Com o intuito de permitir uma maior compreensão do conteúdo dos capítulos seguintes. A primeira experiência ocorreu nos primeiros anos da minha graduação na licenciatura em Física entre 1994 e 1997. quase não conversávamos. Meu pai. sem o seu esforço e sacrifício eu não poderia estar escrevendo hoje estas palavras. minha interação com ele não se dava no âmbito do discurso. . de onde talvez venha minha inspiração para as "exatas".I . meus avós eram trabalhadores rurais e meus pais vieram para a cidade com o intuito de sobreviver às transformações sociais de sua época. juntos ganhávamos dinheiro em apostas. mas fazíamos muitas coisas juntos. Minas Gerais. na ocasião. desde os meus quatro anos de idade jogávamos dominó e. descrevo inicialmente duas experiências de vida fundamentais para justificar a origem e a natureza deste trabalho. natural do município de Ubá. ele sempre incentivou meus estudos. Nasci de uma família pobre. A primeira refere-se a uma crise vivida por mim (ACP) enquanto estudante de Física em minha relação pessoal com o que acreditava ser o "verdadeiro" significado do conhecimento científico. ele 1 Em primeira pessoa. com o jogo. possuía uma incrível habilidade de efetuar operações matemáticas fundamentais "de cabeça" e uma surpreendente capacidade de fazer previsões em jogos de dominó. e a segunda vem de minha atividade como professor de Física com uma postura intolerante. nunca foi à escola e fico admirado com o modo como conseguia sobreviver aos "tempos modernos".

ou Gnose. e principalmente as idéias da Teoria da Relatividade. estudou até a quarta série do primário. reclamava quando eu ficava muitas horas lendo . Ela me forneceu. na época. Talvez guiada por um instinto de proteção. paradoxalmente. inclusive orgânico. por sua religiosidade e incansável busca da "verdade".Bahia. de onde talvez venha minha postura tolerante para com as diversas concepções culturais e religiosas. Minha mãe. sempre questionou meus estudos. Até hoje meu irmão ainda ganha muito mais dinheiro nesta área do que eu em Ensino. O desacordo entre a Física e a Gnose gerava um mal estar.você vai ficar louco .A história deste trabalho 18 morreu prematuramente em 1997. um "modelo" muito interessante de "verdade". natural de Itabuna . Em 1994 ingressei no curso de licenciatura em Física na Universidade de São Paulo e no mesmo ano passei a freqüentar uma instituição "religiosa" denominada Movimento Gnóstico. e. Essa instituição fundamenta seus estudos em fragmentos filosóficos de antigas tradições como a alquimia e elementos da cultura oriental. Isso me levou diversas vezes a pensar em abandonar a Física. Foi contra minha atitude de abandonar o emprego como eletricista industrial para estudar Física. e possui técnicas e métodos próprios de investigação da "realidade" do conhecimento. . inclusive para a "realidade" do mundo físico. O avanço no estudo em Física. entre outras.ela dizia. Em sua vida passou por diferentes igrejas e eu sempre a acompanhei. deixando uma vida em que a Física não existia. Mas ela é responsável pela segunda componente do conflito aqui descrito. causou em mim um profundo conflito entre estas duas formas de enxergar o mundo.

presente na epistemologia de Feyerabend. falava a aula inteira. Nesse ano comecei a participar de um projeto de iniciação científica2 com o meu atual orientador (JZ). dava . e. métodos e equações. e 12 aulas de matemática para as antigas sexta e sétima séries. no início. elaborava longas listas de exercícios. Comecei a ensinar Física a partir do meu segundo ano de licenciatura e. Passei a gostar muito mais da Física e a apreciar com maior respeito seus princípios. para mim. As aulas eram "tradicionais". A visão de Ciência. Minha primeira participação foi no estudo do livro Contra o método. Precisava convencê-la de que estudar Física e seu Ensino me traria um futuro promissor. O problema só se revolveu em 1997 quando nasce uma das principais inspirações para este trabalho. pondo fim ao que na época consistia. dentre outras atividades. de Feyerabend. guiava minha prática na imitação de meus antigos professores do segundo grau. O estudo de Feyerabend trouxe paz e tranqüilidade para minha vida como estudante de Física e foi um elemento fundamental para que eu não desistisse dos estudos da Física e de me tornar um de seus professores. dois segundos e dois terceiros. realizávamos encontros semanais para debater a leitura de livros sobre a História e a Filosofia da Ciência. não deixando os alunos "interromperem" e "atrapalhar" o Ensino. quase uma doença gerada pelo conflito entre a Física e a Gnose. Foram os três anos mais angustiantes de minha vida. O segundo evento desenrolou-se em minha atuação como professor. funcionou como um remédio me libertando da busca da "verdade". Em meu primeiro ano tinha 24 horas/aula por semana: 12 aulas de Física para dois primeiros anos.A história deste trabalho 19 Creio que só não o fiz por causa de minha mãe. a maioria de vestibulares.

desrespeitar minha autoridade de professor ou copiar os trabalhos dos colegas. "Para que serve a física?". fugiu escondendo-se na multidão. Tentei caminhar em sua direção. Quase todos os meus alunos detestavam e repudiavam a Física. da minha matemática. ao me ver. PIBIC/CNPq . Daqueles que conseguiram sobreviver até o final do ano. Nunca mais fui o mesmo. aquilo dito. ou melhor.A história deste trabalho 20 uma prova por semana. "trabalhando" como trocador de passes de ônibus. pressionado pelo "conselho de classe". Parece existir um "consenso" social. Há alguns meses o encontrei. através de minha prática. ainda era possível reprovar um grande número de alunos e eu o fiz. Certamente ele desistiu dos estudos por causa de minhas aulas. mas pareciam conformados de sua importância. tive de reconsiderar alguns casos. Quanto à matemática eles também a detestavam. ele rapidamente abaixou a cabeça. No ano seguinte R não voltou mais à escola. não prestar atenção na aula. superior às opiniões individuais. além de enormes listas para casa chegando até a elaborar um trabalho de matemática para as "férias" com mais de 100 exercícios de álgebra para os alunos da sexta e sétima séries. mas. Acreditava que os alunos só aprenderiam por meio do esforço e do cansaço... não só por entregar quase todas as provas em branco. ao sair de uma estação do metrô. Receio que. as "minhas 2 É possível levar a Física Quântica para o segundo grau? Com bolsa de iniciação científica. segundo o qual aprender matemática é um inevitável sacrifício ao qual todos devem se submeter. ser ela. tentei reprovar a maioria. "Qual o sentido desta aula?". como o pior aluno. Naquela época. como quem vê um fantasma. principalmente. um especial (R) era considerado por mim. na época. mas. Mas. e. Dentre os alunos reprovados. por interromper as aulas com perguntas "depreciativas" tais como: "Por que preciso aprender isso?".

associadas a outras. As idéias de Feyerabend. como nos exercícios de Física. E só não abandonei a missão de professor por assumir o "projeto socrático" aprendido com Feyerabend de mostrar aos professores a existência de limites nos métodos da Ciência. que devem ser consideradas na leitura dos capítulos seguintes. São exatamente alguns dos resultados dessa minha busca os constituintes dos capítulos seguintes e às vezes. uma como estudante e outra como professor. mas só assim podemos visualizá-los e compreendê-los um pouco melhor.A história deste trabalho 21 Ciências" tenham contribuído para a destruição de sua vida. A Física. a matemática e qualquer outra elaboração da mente humana devem ser ensinadas como tais e a vida e o desejo das pessoas devem ser respeitados acima de quaisquer "postulados algorítmicos" ou "resultados de pesquisas experimentais". São estas as duas principais experiências da relação entre minha vida e o saber da Física no encontro com as idéias de Feyerabend. contribuíram para uma revisão dos limites de minha concepção da Física e principalmente de seu Ensino.a da Física. tornando-os mais flexíveis e tolerantes com aqueles que não "conseguem" ou que verdadeiramente não "desejam" olhar para o mundo por uma "realidade suprema" . . seus "efeitos" foram intencionalmente "exagerados".

Feyerabend casou-se também com a noção de "tradições históricas". a física Grazia Borrini. Matando o tempo. vodu e medicina alternativa presentes em seu livro Adeus à Razão.II . Paul K. um dos mais famosos filósofos da Ciência. Minha última paralisia veio de algum sangramento dentro do cérebro. quando ainda muito jovem. (. Cf. São devidos a Grazia também os elementos de astrologia. recebeu o título de doutor honoris causa em Letras e Humanidades pela Universidade de Chicago. e. 197. mas do amor. mas amor. especializou-se em teatro tornando-se assistente de Bertolt Brecht. p. e a influência de professores de personalidade forte como Hans Thirring e Felix Ehrenhaft. praticou canto com Adolf Vogel. orientado por Karl Popper. não escritos.1 Paul Karl Feyerabend (1924-1994). quando era estudante em Viena. estudou Filosofia em Cambridge. FEYERABEND. a sobrevivência não intelectual. e Adeus à Razão. ampliando significativamente os exemplos de limites da abordagem científica em sua "filosofia".. Ao casar-se com Grazia. 369. ao lado de sua esposa. Da formação de Feyerabend destacamos o contato com a filosofia de Ernst Mach. não declarações finais.NOÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DE PAUL FEYERABEND Estes devem ser os últimos dias. em um hospital.. Nós os sorvemos um por um. um destacado pensador austríaco: pesquisou eletrodinâmica clássica na Universidade de Viena onde obteve seu doutorado em Física. em Física. . em 1947. Eu queria que depois de minha partida ficassem algumas coisas minhas.) Isto é o que eu gostaria que acontecesse. ele lembra 1 As últimas palavras escritas por Feyerabend. p. Sobre seu convívio com Ehrenhaft.

2 Feyerabend cresceu ao lado de importantes cientistas notando que seus trabalhos se sustentavam por si mesmos. Em seguida eram demonstradas propriedades novas e surpreendentes da luz . Cada demonstração era acompanhada por algumas observações delicadamente irônicas sobre a "Física Escolar" e sobre os "teóricos" que constroem castelos no ar sem levar em conta as experiências que Ehrenhaft improvisava e continuava a improvisar em todos os campos e que produziam uma pletora de resultados inexplicáveis. A primeira coisa a pôr de parte era a lei da inércia: era de supor que os objetos que não sofressem interferências em vez de seguirem uma linha reta se moviam em hélice. 2 3 Paul K.e assim por diante. Esse pode ter sido um dos motivos a levá-lo a uma postura anarquista3 frente aos métodos da Ciência... conviveu em toda sua vida de estudante com visões antagônicas da realidade apoiadas na Física. não necessitando de legitimações externas. Mas ele ia mais longe e criticava igualmente os fundamentos da Física Clássica. p. Como professor inspirou sua prática pedagógica nas aulas de Karl Popper ao deixar que os estudantes apresentassem seminários sobre temas livres. A relatividade e a teoria quântica eram rejeitadas à partida como especulações quase evidentemente ociosas. Contra o Método. 348. Começava depois um ataque cerrado contra os princípios da teoria eletromagnética e especialmente contra a equação div B = 0. Voltaremos a considerar essa influência ao explicar a concepção "anarquista" de Feyerabend sobre o processo de construção do conhecimento científico na seção 3 deste capítulo. . A este respeito a atitude de Ehrenhaft estava muito próxima da de Stark e Lenard. FEYERABEND.Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 23 . que citou mais de uma vez aprovadoramente. não era pouco o que tínhamos que engolir.

368. FEYERABEND. 99. em parte curiosos. em conseqüência de novas políticas educativas. Esses novos alunos sentavam-se. p. em parte desdenhosos.. Ele adotou uma perspectiva diferente: Compreendi então que os argumentos complicados e as histórias maravilhosas que havia contado à minha assistência mais ou menos sofisticada. Paul K. de contribuir para a difusão da razão e do progresso da humanidade! Que maravilhosa oportunidade de uma nova onda de esclarecimento!5 Contudo o mais importante é o modo como Feyerabend. Matando o tempo. o 4 5 Paul K. em parte simplesmente confusos. FEYERABEND. Adeus à razão. poderiam não passar de sonhos. Que oportunidade para um profeta em busca de seguidores! Que oportunidade. diferentemente de seus colegas.Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 24 Qualquer assunto era possível desde que fosse exposto com clareza e tivesse consistência. com toneladas de bibliografia distribuída de antemão". . reflexos da presunção de um grupo pequeno que conseguira escravizar toda a gente com as suas idéias. Quem era eu para dizer a estas pessoas o que e como pensar? (.. esperando receber "educação". mexicanos e índios entraram na universidade.) Seriam sofisticações sem interesse que os filósofos haviam conseguido acumular ao longo dos anos e que os liberais tinham rodeado de frases cheias de sentimentalismo para serem agradáveis. p.4 De suas experiências didáticas Feyerabend sofreu grande influência quando. negros. disseram-me os meus amigos racionalistas. Para o professor Feyerabend esse procedimento "é certamente melhor que o método de se concentrar num tópico fixo. percebeu a situação.

era a de um condutor de escravos muito requintado e muito sofisticado.tornou-se-me agora bastante clara . 368. Quanto a essa missão . Adeus à razão.. . Neste sentido. da sua dignidade e que se esperava que fossem agora absorver pacientemente e repetir depois as idéias anêmicas dos porta-vozes dos captores tão humanos? (.) Foram estas as idéias que me vieram à mente ao olhar a minha assistência e me fizeram ter uma revulsão e recuar de terror em face da missão que devia efetuar. da sua cultura. as exceções e principalmente o dogmatismo de alguns seguidores destas propostas metodológicas. A ira perante a destruição insensata de realizações culturais com as quais muito poderíamos ter aprendido.criticando as análises da natureza da Ciência usualmente propostas. mas de argumentos descobertos ao fio de encontros ocasionais. E isso eu não queria ser. perante a segurança arrogante com que certos intelectuais interferem na existência das pessoas. O ponto de vista subjacente à sua obra não resulta de uma operação do pensamento solidamente planejada.6 Como Filósofo.. FEYERABEND. p. ele não desenvolveu uma metodologia da pesquisa científica. Contra o Método . mas procurou apontar as limitações.para provocar Lakatos que morreu antes de poder responder .Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 25 mais indicado para oferecer às pessoas que haviam sido despojadas da sua terra. e o desprezo pelo fracasso melífluo de que se servem para embelezar as 6 Paul K. principalmente quando se referem à exclusão das características humanas do fazer científico. Feyerabend escreveu sua mais importante obra.

.7 Impulsionados por essa mesma força e tendo em mente essas experiências da vida de Feyerabend passamos a discutir. Contra o Método.Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 26 suas malfeitorias foram e continuam a ser a força que me moveu neste livro". 343. FEYERABEND. alguns elementos de sua epistemologia. na seção seguinte. p. 7 Paul K.

p.2 Ainda no século XVIII. Hume criou dificuldades para o pensamento racional do século XVIII instaurando o ceticismo. professores.mostra que a Ciência não Paul K. ou seja. cientistas e historiadores. que essa forma de proceder seja válida. Adeus à razão. Este equívoco apóia-se na falsa suposição de que os dados científicos. de fundamental importância histórica por permitir uma "solução" para o problema de Hume . crêem que o conhecimento científico é verdadeiro por comprovação metodológica. colocando em dúvida as relações de causalidade. dentre elas. sem apelo direto à experiência. David Hume abalou de forma irreparável a certeza do conhecimento científico ao analisar o problema da indução3. As pessoas podem consultá-lo. queria dizer que podemos argumentar sobre a probabilidade de que algo venha a suceder novamente no futuro como vinha acontecendo no passado. muitas pessoas. e não o único repositório de informação válida. Com essa crítica. A Ciência como tradição cultural a "ciência" ortodoxa é uma instituição entre muitas.1 À margem da Filosofia.um dos mais importantes filósofos da Ciência. 3 Hume. suficiente e inequívoca para escolhas sem ambigüidade entre hipóteses divergentes. podem aceitá-lo e utilizar sugestões científicas . reconhecido por desenvolver uma nova lógica para a investigação científica. Larry LAUDAN e outros. 39. bases do saber científico. os resultados das observações e dos experimentos geram uma base verdadeira. A não validade dessa suposição ingênua é um dos pontos de consenso entre os modernos filósofos da Ciência.1. mudança científica. Popper . 20. porém. ao questionar o uso do método indutivo na ciência. isto é. p. não podemos provar logicamente. 2 1 .mas não sem que antes tenham sido consideradas as alternativas locais e muito menos ainda como algo que se espera já. FEYERABEND. Cf.

precisamente. que é o objeto de estudo dessa seção. Em seu conjunto. É sempre um saber hipotético. . sempre só em conjecturas. de certo modo vai na contra-mão desta tendência consiste em abrir mão da superioridade científica frente às outras formas de resolução de problemas tradicionalmente estabelecidas. Uma solução bastante polêmica adotada por Feyerabend. um saber seguro. um saber conjectural. ou seja. em qualquer caso. mas antes a um conjunto de conhecimentos sempre provisórios. a Ciência ortodoxa é considerada por ele como uma instituição do saber entre muitas. Para ele o saber científico não é. em conjecturas muito rigorosamente comprováveis.4 Diversos modernos filósofos da Ciência abordaram o problema de pontos de vista diferentes e construíram sofisticados sistemas lógicos ou sociológicos para tentar recuperar a supremacia racional do saber científico. É revisável. uma teoria científica não pode ser colhida diretamente de dados observacionais ou experimentais. mas. as teorias constituiriam a Ciência que deveria ser considerada apenas como uma dentre muitas tradições culturais. Esta concepção está de acordo com a visão de que as teorias científicas não são frutos da natureza. e não como a única. Tolerancia y responsabilidad intelectual. p. 151.A ciência como tradição cultural 28 corresponde a uma verdade final e absoluta. mas sim construções humanas. Não existiriam razões objetivas e absolutas para preferir a ciência e o racionalismo 4 Karl POPPER. ou a mais importante fonte de conhecimentos válidos na solução de problemas da vida humana e na investigação ou explicação dos fenômenos da natureza. Baseia-se em conjecturas comprováveis. na melhor das hipóteses. Neste sentido.

6 A concepção feyerabendiana da Ciência como uma tradição cultural não difere da prática científica como ela é hoje exercida nas instituições de pesquisa e Ensino de Ciências. ideológicos) disponíveis na altura e os desejos daqueles que com eles trabalham. Sua compreensão faz notar a Ciência livre de influências externas como a de uma lógica soberana. a Ciência é "posta em seu lugar como uma forma interessante.A ciência como tradição cultural 29 ocidental a outras tradições humanas. a saber. não possuímos um quadro geral bem confirmado de como a Ciência funciona. uma posição filosófica bem desenvolvida e historicamente influente. Adeus à razão. mudança científica. p. Tivemos. Não existem condições duradouras que limitem a investigação científica. nem uma teoria da Ciência que mereça assentimento geral. 354. propõe que a maneira como os problemas científicos são abordados e resolvidos depende das circunstâncias em que surgem. p. que agora se encontra efetivamente refutada. Com isso. . mas de modo algum exclusiva de 5 6 Larry LAUDAN e outros.5 Feyerabend critica também a idéia do conhecimento científico ser obtido independentemente de vontades pessoais e circunstâncias culturais. 7. valores estes mutáveis no decorrer da história e de significação diversa em diferentes culturas. o positivismo ou empirismo lógico. os meios (formais. experimentais. pois mesmo para os outros modernos filósofos da Ciência. de uma verdade absoluta ou da racionalidade suprema. e em seu lugar. FEYERABEND. certa vez. Paul K.

da tecnologia e do progresso.7 A existência de possíveis "efeitos colaterais" da apropriação indevida do progresso científico. Quanto ao trabalho de extensão da Ciência. mas que também provocaram em outros povos muitas mazelas. sem levar em conta as tradições culturais dos "selvagens". Feyerabend faz notar sobre as tribos "primitivas" sabiam como fazer face às catástrofes naturais como pragas. levaram quase ao extermínio. p. estamos ressaltando não a Ciência em si como a vilã nos conflitos entre os povos. são inegáveis. com irreparáveis prejuízos materiais. Assim. exploravam o seu meio envolvente sem o 7 8 Paul K. mas também de muitos inconvenientes".8 Afetaram desde esferas mais psicológicas. como por exemplo. apoiado nos estudos de Lévi-Strauss.possuíam um "sistema imunológico" que lhes permitia superar uma enorme variedade de ameaças do organismo social. possuidora de muitas vantagens. não podemos ignorar a anterior existência de povos "primitivos" desprovidos de um aparato equivalente à Ciência. no caso da Segunda Guerra e na Guerra Fria que a sucedeu. mas o uso que se faz dela como elemento de validação da "verdade" a ser difundida. mas fornece instrumentos que permitem ampliar vertiginosamente o poder de destruição humano. os malefícios de sua utilização para o fortalecimento da imposição ideológica/cultural/comercial/tecnológica pelos detentores da produção científica. Em épocas normais. em nome da Ciência. secas .A ciência como tradição cultural 30 conhecimento. ou melhor. Contra o Método. 214. No entanto. com a destruição dos valores espirituais que davam significado às vidas humanas até esferas antropológicas. . Por exemplo. nações e culturas. FEYERABEND. o desprezo do saber das tradições milenares de tribos e povos "primitivos" cuja interferência. inundações. Lembramos aqui que a ciência não é em si só a causa de mazelas sociais.

FEYERABEND. mudanças climáticas e interações ecológicas que estamos a recuperar muito lentamente. Estes conhecimentos foram gravemente afetados e parcialmente destruídos. 9 Por outro lado. Apesar do crescente reconhecimento da Ciência se beneficiar da interação com outras tradições culturais. Descartes. profissionais do campo do ambiente e desenvolvimento aprenderam e ainda aprendem de populações locais. aplicando os conhecimentos de propriedades de plantas. A conseqüente incapacidade de grande parte do chamado Terceiro Mundo é o resultado da. por esse mesmo motivo. p. Eram tais abordagens heresias profanas? Os cientistas por certo não pensaram sempre deste modo. não uma razão para a. enquanto os antropólogos descobrem que a abordagem objetiva que 9 Paul K. tachado de "o pior inimigo da Ciência" (Nature. a concepção da Ciência como tradição cultural e o conseqüente respeito às outras tradições podem trazer grandes contribuições com as quais não só os cientistas mas toda a humanidade podem se beneficiar. 1987). interferência do exterior. Adeus à razão. Newton.A ciência como tradição cultural 31 danificar. primeiro pelos gangsters do colonialismo e depois pelos humanitários do auxílio para o desenvolvimento. Joule. 346. Por quê? Porque eu dizia que abordagens não ligadas a instituições científicas podiam ter algum valor. Thomson. Como exemplo mencionamos os contributos de tradições resistentes ao efeitos colaterais da racionalização científica ortodoxa como a arte do período paleolítico e a eficácia de sistemas médicos não ocidentais. Whewell deram razões religiosas para algumas de suas suposições mais básicas. . Darwin prestou atenção nos criadores de animais e naturalistas. Feyerabend foi.

FEYERABEND. ao contrário. A sociedade contemporânea parece simplificar e conviver tranqüilamente com grandes problemas e conflitos da vida e do mundo contemporâneos. 154. nem tão pouco. estão dispensadas da crítica conceitual. pode facilitar o rompimento do atual distanciamento e descomprometimento da maior parte da sociedade frente às questões da Ciência. como a Física. cozinhamos com o microondas. inclusive aqueles advindos de conhecimentos mais elaborados.A ciência como tradição cultural 32 eles seguiam como óbvia lhes fornecia caricaturas . está mostrando a Ciência.10 Ao considerar a Ciência como uma tradição cultural Feyerabend não está dando às outras tradições o caráter de "científicas" ou "racionais" mas. não estão livres do compromisso com a descrição dos fenômenos naturais. A Ciência consiste em um modo diferente de conhecer o universo e os fenômenos naturais. dentro de um amplo contexto histórico e cultural11. p. ou da utilização de procedimentos metodológicos.e assim por diante. ou da estruturação ou modelagem matemática e. Difundir a concepção de Ciência como uma tradição cultural. . Enfatizamos a idéia de Ciência como uma tradição cultural corresponder a uma descrição da prática científica como ela é hoje exercida nos grandes centros de pesquisa. Falamos da Ciência do "Outro" e quase nunca da "Nossa" Ciência. dentre as outras tradições já intimamente incorporadas na vida das pessoas. como qualquer outra tradição. essa é a essência de seu caráter de tradição cultural. submetemo-nos a exames por meio de tomografias 10 Paul K. a Química ou a Biologia. como a Ciência. as Ciências. Matando o tempo.

envolvimento e responsabilidade com essa tradição humana.A ciência como tradição cultural 33 computadorizadas ou ressonância nuclear magnética. Esse e outros equívocos serão discutidos na seção final deste capítulo.. e nos comunicamos por meio do microcomputador. A Ciência é uma instituição social. da mídia. não "examinamos" o tomógrafo nem nos "comunicamos" com o computador. 165. mas estamos cada vez mais afastados dos fundamentos científicos. dos livros. das revistas de divulgação. A responsabilidade social do cientista deve ser problematizada em um complexo contexto sócio-econômico-cultural bastante amplo. de sua real serventia. também contribuiu para um "potencial bem estar" da humanidade. é disseminar a idéia de que apesar de estarmos longe do objetivo de "aliviar a canseira da existência humana"13 a tradição científica. paradoxalmente não "digerimos" o microondas. ao conceber a Física como uma tradição cultural. na segunda seção do próximo capítulo. da nossa participação. Assim. 11 Esse é um dos principais equívocos das críticas à concepção de ciência como tradição defendida por Feyerabend. é difundir exemplos da relação entre a Ciência e o poder. 13 Trecho de uma fala de Galileu na peça "Vida de Galileu". 12 Voltaremos a esta questão ao discutir a função dos peritos e especialistas na sociedade contemporânea. da construção desse conhecimento. . incorporar a essa maneira de olhar o mundo suas reais dimensões hoje ausentes das escolas. das possíveis implicações éticas de sua utilização. esses produtos tecnológicos como "milagres" que só aos "santos" é permitido compreender. Atuar contra uma mistificação do poder da "Ciência do Outro". Ela se relaciona com muitas outras instituições sociais. assim como outras tradições sobreviventes no mundo contemporâneo. dos jornais. muitas vezes. de Bertolt Brecht.12 Faz-se necessário. pg.. da vida das pessoas. Aceitamos.

. nos conceitos fundamentais da formulação das teorias científicas. significa compreender a existência de rupturas conceituais e de mudanças na prática científica. considerar a Ciência como uma tradição cultural entre muitas permite enxergar o conhecimento e a produção científica como frutos de um processo dinâmico da construção humana. impõe a presença de dúvidas. erros e outros atributos humanos na prática científica. incertezas.A ciência como tradição cultural 34 Enfim. que são humanos antes de serem cientistas.. muitas vezes implícitos. corresponde a apropriar-se do conhecimento científico. mas como uma elaboração proveniente dos físicos. biólogos.. implica em reconhecer a presença de crenças. de mitos e princípios "inquestionáveis". . químicos. não como algo absoluto e inquestionável dado pela natureza.

isto é. indispensáveis para o processo da Ciência. seja no decorrer da história. em certos momentos. Propaganda. ou atualmente. pretendemos problematizar a não existência de uma unidade definida rigidamente como Ciência. não há elementos que se verifiquem em todas as investigações e só nelas. Em seu mais famoso livro. Feyerabend apresenta como tese principal uma crítica à existência de uma estrutura comum para toda a prática cientifica constituída seja por fatos históricos. operações e resultados que constituem as ciências não têm uma estrutura comum. operações metodológicas ou resultados experimentais. não possuem um conjunto de elementos capazes de as definirem inequivocamente. As investigações científicas.1 Na seção anterior. Buscamos explicitar a existência de procedimentos metodológicos e ideológicos conflitantes. Passamos. entre os diversos grupos de pesquisa científica. ou seja. segundo essa sua tese. agora.2. Contra o Método. analisamos as relações da Ciência com outras instituições do saber procurando mostrar a inexistência de razões objetivas e absolutas que justifiquem uma superioridade do saber científico sobre as outras maneiras de solucionar problemas e de dar respostas às inquietudes da mente humana. contra-indução e mais Os fatos. apresentamos a natureza cultural da Ciência principalmente por uma perspectiva externalista. nesta seção. E como principais conseqüências: . a analisar a prática científica de um ponto de vista mais internalista.

. 11.. Anna C. que se mantêm ligadas às suas raízes no empirismo e no indutivismo são: (+1) só aceitar hipóteses que se ajustem a teorias confirmadas ou corroboradas. 12. no capítulo 2 de Contra o Método. e.Propaganda. FEYERABEND. Feyerabend e o pluralismo metodológico. de muitos. Isso só seria possível se houvessem modos de proceder que pudéssemos extrair das situações particulares da investigação e cuja presença fosse de molde a garantir o sucesso. 235. p. FEYERABEND. a partir do estudo de acontecimentos históricos. Cf.2 Como já mencionamos. 3 Para mostrar os limites da utilização de regras metodológicas desta natureza e verificar a possibilidade de fazer avançar a Ciência agindo em oposição ao "método científico". Contra o Método. [e] . as contraregras: (-1) introduzir hipóteses que conflitem com teorias confirmadas ou corroboradas. mas também de uma análise abstrata da relação entre idéia e ação... Contra o Método. na existência do que poderíamos identificar como "o método cientifico". REGNER. em uma versão contemporânea. As duas principais regras metodológicas de "o método científico". P. propõe. p. a ilusão da correspondência entre o saber científico e uma verdade absoluta deve-se à crença. .o sucesso da "ciência" não pode ser usado como argumento para a abordagem de problemas ainda por resolver de acordo com um modelo-padrão. 1 2 Paul K. Feyerabend. Paul K. K. p. (+2) eliminar hipóteses que não se ajustem a fatos bem estabelecidos. contra-indução e mais 36 os êxitos científicos não podem ser explicados de maneira simples. a título de exemplo. 3 Cf.

K. P. apoiando seu fazer científico em regras de natureza contra-indutiva. sobretudo pela propaganda de seus defensores. ou testáveis. não podem ser simplesmente incorporadas ao "método científico". p. contra-indução e mais 37 (-2) introduzir hipóteses que não se ajustem a fatos bem estabelecidos. A utilização de propaganda na conquista de adeptos às novas teorias científicas é um outro elemento analisado por Feyerabend. Feyerabend e o pluralismo metodológico. ou apoiadas de modo melhor que as antigas rivais. ou seja. A utilização de regras contra-indutivas associadas às regras indutivas não garante o avanço da Ciência e elas também não constituem um padrão metodológico absoluto. 237. Feyerabend fundamenta as idéias na História da Ciência analisando o modo como Galileu divulga a doutrina copernicana e a maneira como cria uma nova Física de contribuição fundamental para o avanço do conhecimento científico. As contra-regras são apenas. . A propaganda depõe contra a noção de uma ciência absoluta e racionalmente construída. Novas teorias conquistam seguidores e passam a fazer parte da tradição científica não por serem testadas. A propaganda presente na proposição de uma teoria aspirante à tradição científica não deve ser concebida (em quase todos os casos) em seus aspectos 4 Anna C.4 Nesse estudo. exemplos de limites metodológicos da prática científica. REGNER. De sua perspectiva. mas. Galileu seguiu por um caminho contrário "ao método científico" estabelecido em sua época.Propaganda. e tão somente.

segundo Feyerabend. não são neutros culturalmente. uma só Ciência. contra-indução e mais 38 nocivos. A avaliação é mais do que uma simples questão de relacionar a teoria com a evidência.Propaganda.6 Além de sugerirmos conceber a Ciência como uma tradição cultural dentre outras. p. também há consenso entre os modernos filósofos da Ciência ao admitirem que fatores metafísicos. os cientistas. FEYERABEND. 5 Paul K. Mas a propaganda deste tipo não é um aspecto marginal acompanhando meios supostamente mais substanciais de defesa. acrescentamos agora a idéia de não existir uma unidade. . não podem se libertar das crenças não científicas a que são submetidos durante sua formação. 159. ou seja. no que se refere às influências culturais sobre as escolhas científicas. e devendo talvez ser evitada por "cientistas profissionais honestos". Nas circunstâncias que estamos a considerar. Dessa forma os escritos de Galileu constituem uma obra que com freqüência esteve associada à propaganda . Segundo Laudan.e que por certo foi propaganda. a propaganda faz parte da essência das coisas. Contra o Método. como em algumas maquiavélicas estratégias de merchandising. teológicos e outros fatores não científicos desempenham um importante papel na avaliação de teorias científicas.5 Além de pecadores por contrariarem "o método científico" e de oportunistas por utilizarem propagandas para convencer os oponentes de suas idéais.

suas teorias e prescrições metodológicas: a Ciência como Tradição Cultural. e às vezes o de. Dentre estes elementos destacamos: a compatibilidade com crenças metafísicas culturalmente compartilhadas.Propaganda.. que poderíamos chamar rigorosamente de "a tradição científica".. mudança científica. Cada grupo atua em pesquisas envolvendo o conhecimento científico enraizado em seu fazer por elementos culturais que influenciam suas escolhas entre teorias ou procedimentos metodológicos disponíveis. 6 Larry LAUDAN e outros. 20. para alimentar novos grupos de pesquisa. . mas diversos grupos de pesquisa formando distintas tradições científicas. manter a tradição. desenvolver novas teorias ou procedimentos experimentais. O reconhecimento desses elementos na prática científica leva a uma nova e frutífera maneira de olhar para o conhecimento científico. violando inconscientemente "o método científico". a exposição às propagandas e promessas de novas teorias ou procedimentos experimentais. e mesmo o desejo individual de cada integrante do grupo de ser reconhecido por seus pares em um sempre pequeno-grande feito. contra-indução e mais 39 uma só Física ou uma só Química. p. e assim.

critica os esforços dos filósofos "racionais" e "sistemáticos" apresentando o fazer científico independente de regras fixas ou metodologias rígidas. dentre eles Boltzmann. 50. e também em filósofos como Mill e Wittgenstein. e Bohr. porém. Deve. abriu o seu caminho nesse tal sistema. FEYERABEND.. E um método que encoraja a variedade é também o único método compatível com uma perspectiva de humanidade. por exemplo. às vítimas aterradas ou ávidas de um (antigo ou moderno) mito.3. Anarquismo epistemológico A unanimidade da opinião pode servir a uma igreja. ou os seguidores fracos e voluntários de um tirano..1 A concepção de uma prática científica relativamente livre de regras lógicas absolutas ou princípios epistemológicos rígidos não é algo novo. ao procurar um sistema claro. Mach. A variedade de opiniões é necessária ao conhecimento objetivo. Contra o Método. Einstein. O cientista. Einstein. está presente em escritos de diversos cientistas. Ele nos faz notar que o epistemólogo. por 1 Paul K. e já se sente inclinado a interpretar o conteúdo ideológico da ciência na acepção do seu sistema. não pode dar-se ao luxo de levar tão longe a sua luta pela sistematicidade epistemológica. Duhem.: as condições exteriores que lhe são impostas pelos fatos da experiência não lhe permitem deixar-se limitar na construção do universo conceitual aderindo a um sistema epistemológico. p. .

3 2 3 Paul K. pode fazer para os cientistas é enumerar métodos práticos. muitas vezes conflitantes. adotou. mas sempre. 328. quando confrontados com um problema concreto de investigação. as peculiaridades da situação em que estão atuando. apresentar casos estudados que contenham processos diversos. Adeus à razão. dentre os modernos filósofos da Ciência. deste modo. apresentar-se ao epistemólogo sistemático como um tipo de oportunista sem o menor escrúpulo. . sentir-se-ão impelidos a pôr de lado infantilidades como regras lógicas e princípios epistemológicos e começar a pensar em formas mais complexas . p.2 Feyerabend. acima destes modelos. FEYERABEND. 223. Adeus à razão. pelo estudo de Mill. de longe. consideram. influenciado principalmente pelas idéias de Mach. o melhor que um filósofo da Ciência.e mais não podemos fazer devido à natureza do material. nenhum modelo epistemológico pode produzir padrões e elementos estruturais úteis a todas as atividades científicas. os cientistas podem se servir de diferentes referenciais filosóficos.Anarquismo epistemológico 41 conseguinte. os cientistas ficarão sensibilizados para a riqueza do processo histórico que querem transformar. uma postura autodenominada de anarquismo epistemológico. Paul K. Assim. FEYERABEND. para o atoleiro em que estão prestes a entrar. a função da epistemologia da Ciência não é a de fornecer um sistema único sob o qual o cientista deve guiar rigidamente ou limitar sua prática. Em sua concepção. demonstrar a inerente complexidade da investigação e prepará-los. Ao ouvirem a nossa história. p. dar exemplos históricos. e pelo convívio com Thirring e Ehrenhaft.

imutável de ordem. demarcadora do que seja "ciência". p.ou seja. não pretende ser apenas uma prescrição metodológica. era costume considerar os organismos como objetos de criação divina e. produz uma imensa variedade de formas e 4 5 Anna C.Anarquismo epistemológico 42 É importante salientar que o anarquismo epistemológico de Feyerabend difere. contra algo que se pretenda erigir como "o" método. não significa. não tem razão de ser. do que oposição a toda e qualquer organização. mas contra a instituição de um conjunto único. absoluto. REGNER. soluções perfeitas para o problema da sobrevivência. Em suas palavras: Antes de Darwin. antes. Esta idéia é defendida por Feyerabend em Consolando o especialista. oposição a um princípio único. K. é efetivamente uma descrição de como historicamente o conhecimento da Ciência evoluiu. Na sua tradução metodológica. para toda e qualquer situação .4 O anarquismo epistemológico. por conseguinte.5 Para justificar como a Ciência pode avançar sem um plano racionalmente organizado. P. portanto. 233. ser contra todo e qualquer procedimento metodológico. restrito de regras que se pretenda universalmente válido. como "a" característica distintiva. Como indicado por Regner. . Ele. na forma como o estamos descrevendo. Feyerabend compara sua descrição epistemológica do progresso do conhecimento científico com a teoria de evolução de Darwin. Feyerabend e o pluralismo metodológico. "anarquismo" significa. fundamentalmente. Darwin chamou a atenção para inúmeros "erros": a vida não é uma realização cuidadosamente planejada e meticulosamente efetuada de objetivos claros e definidos. fixo. é devastadora. tanto do ceticismo como do anarquismo político (ou religioso). ao contrário.

p. Mas significa antes que o epistemólogo. também ele se apresenta devastador e cheio de erros. produzindo conceitos que os permitam compreender e justificar. FEYERABEND. fatos. Leis. 221. Segundo sua leitura. 6 Partindo da influência Darwiniana. inclusive os mais elementares princípios lógicos. não propriedades definidoras do processo. deve 6 7 Paul K. os cientistas não são escravos obedientes que ao entrarem no Templo da Ciência procuram ansiosamente adaptar-se às suas regras. padrões básicos de pensamento. e. ao selecionar os "fatos históricos" ou "componentes lógicos" de seu modelo. são resultados transitórios. p. Deste modo. FEYERABEND. também ele precisa de muitas idéias e procedimentos para se manter em curso. teorias.Anarquismo epistemológico 43 deixa a cargo de uma determinada fase que alcançou (e das envolventes naturais existentes na altura) a definição dos insucessos. esta concepção está implícita nas idéias de Mach. Boltzmann e outros ao demonstrarem que o desenvolvimento do conhecimento não é um processo bem planejado e que decorre normalmente. Adeus à razão.7 O anarquismo epistemológico não implica o abandono de toda e qualquer forma de pensar a prática científica. seguem em frente e redefinem constantemente a ciência (e o conhecimento e a lógica) através do seu trabalho. 221. não perguntam "o que é a ciência?" ou "o que é o conhecimento?" ou "como procede um bom cientista?" adaptando depois a sua investigação às limitações contidas na resposta. Paul K. . Feyerabend tece uma analogia com o processo de evolução das Ciências ilustrando sua concepção de anarquismo epistemológico. também não proíbe os filósofos de refletirem sobre as atividades dos cientistas. Adeus à razão.

questionando as balizas de seu exercício. desta forma. Um cientista interessado em ampliar a compreensão de seus resultados experimentais ou proposições teóricas adotará uma perspectiva mais pluralista. ao considerar uma pluralidade de métodos e o convívio de teorias contrastantes na formação e na prática dos cientistas e professores de Ciências. A noção de anarquismo epistemológico combate a imposição de princípios absolutos e regras lógicas que se pretendam universalmente válidos. Se estiver consciente deste aspecto da natureza de sua prática. aqui apresentada. limitando.Anarquismo epistemológico 44 sempre referir suas conclusões aos exemplos analisados. . a concepção de anarquismo epistemológico. o que se possa fazer inadvertidamente em nome deles. políticos. gnosiológicos. o cientista terá maior oportunidade (o que não implica necessariamente que o fará) de explorar seus pressupostos. em meio a tantos outros. Ao reconhecer a existência de limites em sua metodologia de pesquisa o cientista (e o filósofo da Ciência que tenta compreender os seus procedimentos) estará mais atento a problemas éticos. pior. ou. que seu trabalho pode gerar se considerado por um ponto de vista dogmático. estéticos. comparará teorias com outras teorias e valorizará os momentos de conflito entre seus elementos de trabalho como oportunidades de aprimorar seu conhecimento. seus conceitos às situações as quais eles se aplicam. constitui uma descrição mais humana da produção do conhecimento científico. com o intuito de contribuir para seu alargamento e qualificação. Enfim.

4. A incomensurabilidade deve-se à suposição da existência de diferentes padrões conceituais e metodológicos entre teorias distintas. em que a natureza geral do objeto descoberto já é conhecido. presentes na epistemologia de Feyerabend. fazem parte desse esforço por tentar descrever como se relacionam entre si os conceitos de teorias sucessivas ou concorrentes e. 1 Paul K. . Matando o tempo. Um conceito claramente definido numa teoria. quando analisado em uma teoria rival ou sucessiva. freqüentemente não pode ser redefinido sem uma drástica mudança em seu significado conceitual. As noções de incomensurabilidade e interpretação natural. Incomensurabilidade e interpretações naturais As descobertas importantes. FEYERABEND.1 Uma questão muito debatida pelos modernos filósofos da Ciência é a da natureza da mudança de constituição do conhecimento científico. Ao contrário. não são como a descoberta da América. 100. A busca por tentar entender como ocorre a mudança científica entre teorias sucessivas e a forma como são estabelecidos vínculos entre seus princípios têm levado à formulação de numerosas idéias sobre o significado do conhecimento científico. elas são como reconhecer que se estava sonhando. p. como esses conceitos sucessivos ou concorrentes são analisados nas respectivas metodologias de trabalho adotadas por diferentes defensores ou articuladores de diferentes teorias.

(3) princípios ontológicos condicionantes das ideologias subjacentes a culturas diversas que impedem. possuem significados profundamente diferentes na passagem da formulação de uma teoria à outra. desenvolve três teses centrais a seu favor. termo a termo. e. Por exemplo. serem expressas. e.2 Quanto à existência de estruturas de pensamentos incomensuráveis entre si. determinados sistemas conceituais e que agem à base das cosmovisões encerradas nas nossas teorias científicas. Einstein introduziu a noção de espaço-tempo com significado distinto das noções de espaço e tempo da mecânica newtoniana. muitas vezes. Galileu aprendeu a ver o pêndulo onde Aristóteles via uma queda forçada para o lugar natural. um outro exemplo bem ilustrativo e muito importante em nosso mundo contemporâneo é a indeterminação da tradução.Incomensurabilidade e interpretações naturais 46 Noções incomensuráveis são aquelas que. Lavoisier passou a enxergar o oxigênio onde antes se via ar deflogistizado. apesar de referirem-se a um mesmo fenômeno. ao apresentar a noção de incomensurabilidade. e. na teoria da relatividade. a idéia de que não é possível traduzir-se. Feyerabend. Problemas de indeterminação surgem claramente nas tentativas de . podemos considerar a diferença inconciliável entre as formas de pensamento ocidental e oriental. os elementos de uma linguagem a outra. (2) estágios incomensuráveis no desenvolvimento da percepção no indivíduo (reportando-se a Piaget). tornam sem sentido. por uma mesma palavra e apresentarem expressões matemáticas equivalentes. ou seja. A existência de: (1) esquemas de pensamento incomensuráveis entre si.

Feyerabend e o pluralismo metodológico. P. a grande Babel de língua zumbindo e se entre chocando no mundo externo à sua vida escolar.. Neste sentido. é claro. ele não havia considerado a existência de outras línguas além do inglês. "Aqui há mais um jogo de palavras do autor: 'the . ampliando o sentido conferido aos fatos. jogos de palavras que servem para exemplificar a característica incomensurável da tradução entre línguas.. ele se lembra de si mesmo aos oito ou nove anos.3 Em seu entusiasmo de estudante. O inventor da solidão. K..Incomensurabilidade e interpretações naturais 47 tradução entre termos próprios de uma língua à outra. 3 . p. E como pode a verdade absoluta e inabalável mudar de língua para língua?4 Feyerabend questionou a proposição de que as teorias sucessivas não passam por variações em seus significados lingüísticos. REGNER. A seguinte citação de um trecho de um dos livros deste autor. as declarações da linguagem anterior se alteram.. 242. em seus livros. 166.como se houvesse acidentalmente descoberto um caminho secreto para a verdade: a verdade absoluta. 5 2 Anna C. Nota do tradutor 4 Paul Auster. do Português ao Japonês ou Inglês e vice-versa. p. juntamente com uma nota de rodapé do tradutor. 'Lies' pode significar tanto 'repousa' quanto 'mente' (do verbo mentir). por exemplo. que mente escondida no centro do mundo". O escritor norte-americano contemporâneo Paul Auster sempre utiliza.. Outra leitura da frase seria 'a verdade .) ao escrever a palavra "escolar". truth that lies hidden at the center of the world'. faz notar que quando novas teorias surgem.. e a súbita sensação de poder que experimentou em si mesmo quando descobriu que era capaz de brincar com as palavras dessa forma . cf. ilustra bem a indeterminação contida na estrutura da linguagem: (. universal e inabalável que repousa escondida no centro do mundo.

frente a uma nova visão dos fenômenos com os quais está habituado a descrever por sua teoria (língua). a única maneira possível para desvelar seus significados é vivenciando-os. Feyerabend propõe que o cientista. O Filosofar como Prática de Cidadania. mesmo as que pareçam 5 Euclides A. que soma cada vez mais fragmentos lingüísticos por compreender na sua atividade lúdica. MANCE. proceda: como um antropólogo ao estudar a cosmologia de uma tribo: aprende sua linguagem e informa-se dos seus hábitos sociais. só descobre o princípio de atribuição de sentido depois de agir desse modo durante muito tempo sendo a atividade de jogo um pressuposto necessário do florescer posterior do sentido -. investiga as relações desses com outras atividades. . a partir das idéias de Piaget sobre o desenvolvimento infantil.6 No que diz respeito à existência de princípios ontológicos condicionantes das ideologias subjacentes a culturas diversas que impedem determinados sistemas conceituais e sua impregnação da língua. Neste sentido.Incomensurabilidade e interpretações naturais 48 Quanto à existência de estágios incomensuráveis no desenvolvimento da percepção. Feyerabend tece uma analogia entre o processo de constituição da linguagem em uma criança e o processo de desenvolvimento de uma nova teoria por um cientista: Tal como uma criança que começa a servir-se das palavras antes de as ter compreendido. assim também o inventor de uma nova visão do mundo (e o filósofo da ciência que tenta compreender o seu procedimento) tem que ser capaz de dizer coisas sem sentido até que o sem sentido criado por ele e pelos seus amigos atinja as dimensões suficientes para atribuir sentido a todas as partes da nova concepção.

8 Feyerabend identifica a presença de conceitos similares à sua noção de interpretação natural em importantes filósofos e na prática dos cientistas. não consistindo. interiorizando-as. K. 242. Anna C. 256. Interpretações naturais podem ser entendidas como "idéias tão intimamente associadas à observação que se torna necessário um esforço especial para nos darmos conta da sua existência e para determinarmos o seu conteúdo". p. REGNER. sem buscar "traduções" prematuras. p. surgem de maneira diferente. notamos que os proponentes de uma teoria científica vêm o mundo com óculos conceituais diferentes e somos levados a considerar nossa percepção aparentemente natural como uma dentre outras interpretações possíveis para o fenômeno analisado. de forma absoluta.Incomensurabilidade e interpretações naturais 49 irrelevantes. Feyerabend e o pluralismo metodológico. entendê-las. Contra o Método. em Galileu. FEYERABEND. 79. p. nem em apoio à percepção do 6 7 Paul K. em Bacon. como os preconceitos ou ídolos que devem ser removidos antes do início de uma análise séria do fenômeno. como as pressuposições necessárias (a priori). completando seu estudo com o conhecimento da sociedade nativa e de seu próprio desenvolvimento pessoal. A partir dela. pode estabelecer comparações entre. procura identificar as idéias-chave e. e decidir acerca da possibilidade ou não de reproduzi-lo na linguagem ocidental7 Tomar consciência da existência de conceitos incomensuráveis entre teorias distintas sobre um mesmo fenômeno natural possibilita um constante questionamento da validade de nossas percepções. 8 Paul K. em Kant. FEYERABEND. então. por exemplo. Contra o Método. o modo de pensar europeu e o nativo. P. Esses óculos conceituais constituem a segunda noção abordada nessa seção. nem em um obstáculo. as chamadas interpretações naturais. .

p. ou digamos que pelas impressões dos sentidos. 87. acrescentaríamos . Contra o Método.. se eliminarmos todas as interpretações naturais. "ele insiste numa discussão crítica a fim de decidir quais as interpretações naturais podem ser conservadas e quais devem ser substituídas". . quando a vêem cintilar ao longo dos beirais dos telhados.9 Segundo o modo de proceder de Galileu.10 Um exemplo bastante interessante utilizado por Galileu para denunciar a contaminação da evidência empírica é a falácia do gato.. Esse acontecimento é a aparência para aqueles que se deslocam ao longo de uma rua durante a noite e que são seguidos pela Lua. . FEYERABEND. Paul K. uma 9 10 Paul K. com passos iguais aos seus. FEYERABEND. Galileu não realiza juízos globais sobre a observação.Incomensurabilidade e interpretações naturais 50 fenômeno observado. 84. eliminaremos também a capacidade de pensar e perceber. a partir da qual se pode descobrir quão facilmente qualquer um pode ser enganado pela simples aparência. é evidente que uma pessoa que enfrentasse um campo de percepções sem uma única interpretação natural ao seu dispor ficaria completamente desorientada e nem sequer poderia começar a tratar de ciência. não devemos acreditar cegamente em todas as evidências dos sentidos. Contra o Método. p. não podemos nunca nos livrar de todas as interpretações naturais pois. Aí a Lua surge-lhes do mesmo modo que um gato que realmente corresse por cima das telhas e os arrastasse atrás de si.por outro lado. mas ao contrário.ou fornecidas por outros instrumentos experimentais que são prolongações dos sentidos.

ou seja. Assim. por exemplo. Feyerabend e o pluralismo metodológico. p. Anna C. E toda teoria tem um significado mais amplo contido na tradição cultural sobre a qual foi formulada.12 Toda teoria é. os membros de uma tradição. FEYERABEND. ao invés disso. nada permite espelhar totalmente o fenômeno na mente de uma pessoa.11 Diferentes interpretações naturais são como o olhar com diferentes óculos ou de diferentes perspectivas para um mesmo fenômeno. se a razão não intervier. portanto. a existência de interpretações naturais justifica-se dada a "contaminação" histórica e fisiológica da evidência. Toda e qualquer interpretação natural possui em sua natureza íntima a característica básica de nos conectar de forma sempre parcial ao fenômeno observado. p. 81. como os químicos analíticos. da tradição de interpretadores a que pertencemos. mas. limitada por interpretações naturais em sua relação com os fenômenos. Cf. 237. mas somente representá-lo ou conceituá-lo parcialmente. Citado em Paul K. P. . não há nenhuma forma de se observar fenômenos livre de interpretações. p. Contra o Método. possuem finalidades ou précompreensões que definem as interpretações naturais surgidas em seu fazer científico levando-os a escolher certas peculiaridades dos fenômenos considerados. dependem. nossa maneira de olhar não é somente nossa maneira de olhar. As descrições fenomenológicas não são apreendidas diretamente da relação com a observação.Incomensurabilidade e interpretações naturais 51 aparência que.126. iludirá de modo demasiado óbvio os nossos sentidos. mas também deve-se ao caldo cultural no qual estamos imersos. REGNER. Em outras palavras. K. 11 12 Dialoque. principalmente. Assim.

utilizando as mesmas substâncias. Enquanto os remédios se propõem a reagir quimicamente alterando os processos biológicos e proporcionando a defesa do organismo contra bactérias e vírus os seres elementais contidos nos chás indígenas. e embora elas pareçam muito diferentes entre si. todas podem. durante o ritual de cura. Trata-se de duas tradições diferentes. Remédios são produzidos e comercializados originando-se. . A existência de conceitos incomensuráveis entre teorias sucessivas ou concorrentes. de diversas tradições culturais. Apesar de existirem muitas interpretações naturais. a farmacológica e a indígena. ambas permitem operar de maneira equivalente ao solucionar o problema a que se propõem: curar determinada doença. sob os cânones da Ciência contemporânea.Incomensurabilidade e interpretações naturais 52 Existem laboratórios farmacológicos realizando pesquisas em plantas com o intuito de isolar substâncias ativas e formalizar. e. contudo. assim. de conhecimentos milenares elaborados e transmitidos sob outra interpretação natural. a noção de interpretação natural e a idéia de que as evidências empíricas são aprendidas dentro de uma tradição cultural completam nossa concepção de Física como uma tradição cultural dentre outras. ser consideradas valiosas se proporcionarem uma intervenção consciente sobre os próprios fenômenos alcançando os propósitos previstos pela tradição em que foram elaboradas e são elementos importantes para o aprendizado e desenvolvimento científico. os conhecimentos milenares de tribos indígenas sobre determinadas ervas utilizadas em rituais de cura. sobre os mesmos fenômenos. embora se expressem de formas distintas. intentam expulsar os maus espíritos causadores das doenças.

mesmo quando estas conflitam com "fatos" ou "resultados experimentais" amplamente confirmados e estabelecidos.5. será considerado como um preconceito. Em segundo lugar. Feyerabend considera as idéias de John S. e. Ela implica na constatação de que os cientistas desenvolvem e sustentam teorias alternativas. ao analisar a diversidade de perspectivas da Ciência. mas não contestado. negá-lo é assumir a nossa própria infalibilidade. . Proliferação de teorias servir-se da ciência para denegrir e talvez mesmo eliminar todas as alternativas. Mill. só com o choque de opiniões contrárias é que a restante verdade tem oportunidade de intervir. porque uma pessoa pode ter razões para rejeitar uma perspectiva e esta ser mesmo verdadeira. um ponto de vista que é totalmente verdadeiro. destacando que para a proliferação de idéias Mill indica quatro diferentes motivos: Primeiro.1 A última e uma da mais importantes noções da epistemologia de Paul Feyerabend. Em terceiro lugar. significa servir-se de uma reputação bem merecida para manter um dogmatismo contrário ao espírito daqueles que o conquistaram. p. porque uma perspectiva problemática pode conter e normalmente contém. Adeus à razão. é a de proliferação de teorias. com pouca compreensão ou sentimento em relação aos seus motivos racionais. nem sequer se entenderá o seu 1 Paul K. Em quarto. consideradas neste trabalho. 47. uma parte de verdade. FEYERABEND. como a opinião geral e predominante de qualquer assunto muito raramente ou nunca é toda a verdade.

3 E o aconselhou a optar pela carreira de pianista. FEYERABEND. Deve-se admitir que Lord Kelvin soube escolher bem suas "nuvens". uma vez que esses foram precisamente os dois problemas que eventualmente produziram as mudanças revolucionárias na estrutura conceitual da Física que ocorreram no 2 3 Paul K. a saber. Cf. meu jovem. . A realidade quântica. 46. HEBERT. a menos que se verifique um contraste com outras opiniões.2 Quanto à proposição de não existirem garantias das teorias atualmente estabelecidas corresponderem a uma verdade definitiva. É uma rua sem saída". um dos físicos de renome da época. Um professor de Física de Max Planck chegou a afirmar-lhe certa vez "A física acabou. temos uma lição a aprender com a história da Ciência. Nos referimos à postura dos físicos no final do século XIX quando se admitia a investigação em Física ter chegado ao seu fim. Adeus à razão. p. Nick. p.47. os resultados negativos da experiência de Michelson-Morley e a falha da lei de Rayleigh-Jeans em predizer a distribuição da energia radiante num corpo negro. e mostre em que consiste o seu significado.a Física Quântica. Como sabemos Planck entrou nesta rua "sem saída" e abriu uma pequena passagem para uma cidade muito maior e inexplorada . e aceitá-lo será uma mera confissão formal. A aplicação bem sucedida das leis de Newton em diversos problemas do universo mecânico mostrava o poder de validade da Física Clássica que parecia incontestavelmente estabelecida. expressou a opinião que o esboço básico das teorias físicas estava muito bem estabelecido e que restavam somente "duas pequenas nuvens" no horizonte.Proliferação de teorias 54 sentido. David Bohm relata que também Lord Kelvin.

por exemplo. Impedir Galileu de estudar e divulgar as novas Ciências. as "evidências" da imobilidade da Terra estavam articuladas de tal modo que só puderam ser contestadas. como a inquisição. em especial. significaria coibir a proliferação de teorias retardando o avanço da Ciência. é não abandonar a teoria mas 4 David BOHM. como ocorreu com a proposta de Aristarco para o movimento da Terra em torno do Sol que ficou esquecida por muitos num longo período por contrariar as "evidências" dos sentidos fornecidas em conformidade com a Física Aristotélico-Ptolomáica.. portanto. Causality and chance in modern physics. 68. são descobertos com o auxílio de teorias que os refutam. após o advento da teoria heliocêntrica de Copérnico. o melhor procedimento. No que diz respeito à existência de preconceitos implícitos na prática científica e a oportunidade de explicitá-los a partir do contraste com uma teoria alternativa.. na eventualidade de uma contradição entre uma teoria nova e interessante e uma coleção de fatos firmemente estabelecidos.Proliferação de teorias 55 século vinte em conexão com a teoria da relatividade e a teoria quântica. por elementos externos à prática científica. das nossas observações.4 Muitas vezes corremos o risco de negar uma teoria alternativa e esta se mostrar "verdadeira" mais tarde. . a partir do contraste com as interpretações fornecidas por teorias alternativas desenvolvidas por Galileu em suas Duas Novas Ciências. p. Feyerabend faz notar que: os ingredientes ideológicos do nosso saber e. Neste exemplo.

.Proliferação de teorias 56 servirmo-nos dela para a descoberta dos princípios ocultos responsáveis pela contradição. para além de uma apropriação meramente formal e dogmática dos resultados das equações matemáticas. Teorias alternativas não são incorporadas e aceitas quando novas idéias teóricas são criadas. p. ou mesmo 5 Paul K. como foi o caso da teoria heliocêntrica de Copérnico que foi formulada a partir da proposta de Aristarco. a oportunidade de contrastar os "fatos" que fundamentam as teorias cientificas tradicionalmente estabelecidas por grupos de pesquisa consolidados com jovens teorias alternativas. Um aspecto importante da interação entre teorias rivais descrito por Feyerabend reside na consideração de que a proposta de uma nova teoria nunca é imediatamente incorporada pelos grupos de pesquisa. 89.5 Esta é a característica da proliferação de teorias com maior implicação para nosso trabalho. ou seja. Essas Jovens Teorias Alternativas quase sempre se inspiram em antigas teorias alternativas que haviam sido desconsideradas pelos setores representativos da Ciência. FEYERABEND. Para ampliarmos a compreensão conceitual de uma teoria não podemos analisá-la de 'dentro'. O contraste permite que os fundamentos de ambas as teorias (a tradicionalmente estabelecida e uma jovem teoria opositora) sejam fortalecidos com uma substancial melhora na compreensão de ambas. para que se possa entender e ampliar o sentido ou significado de suas proposições básicas e princípios fundamentais. Precisamos de um modelo 'exterior' de crítica. de um conjunto organizado de suposições alternativas. Contra o Método.

Esta necessidade de "esperar" e "ignorar" grandes massas de observações e medições críticas quase nunca é analisada pelas nossas metodologias. mas só quando toda uma nova visão de mundo toma seu lugar. rever os procedimentos experimentais utilizados para medir a velocidade da luz até então realizados e revisar os "fatos" que fundamentam a idéia do Big 6 Como os contraditórios procedimentos contra-indutivos e o uso de propagandas descritos na seção 2 deste capítulo . ou que se choque frontalmente contra as verificações da hipótese do Big Bang . requerendo verificações inteiramente novas. Nesse sentido há a necessidade de dar tempo para que novas teorias alternativas da Física superem suas imperfeições iniciais e consigam se estabelecer. No processo de incorporação de uma teoria alternativa não só os elementos racionais entram em jogo mas todo um conjunto de atributos essencialmente humanos6..não deve ser combatida por isso só.7 Por exemplo. Será preciso também. à luz de seus novos princípios teóricos. Sem levarmos em conta a possibilidade de que uma nova Física ou uma nova Astronomia possam ter que ser julgadas segundo uma nova teoria do conhecimento. os cientistas de tendência empirista confrontam de imediato a nova ciência com o "status quo" e anunciam triunfantemente que ela "não está de acordo com os fatos e princípios admitidos". uma teoria alternativa que negue a constância da velocidade da luz.Proliferação de teorias 57 dados empíricos são descobertos. pois É evidente que uma nova visão do mundo tomará algum tempo até se manifestar e que nunca teremos êxito na tentativa de a formularmos na sua plenitude.fatos bem estabelecidos e aparentemente "comprovados" ..

rever experimentos e rediscutir princípios básicos exige por parte dos proponentes das teorias alternativas verbas. por parte dos defensores das teorias estabelecidas.8 7 8 Paul K. p. a qualidade sedutora do conteúdo. por que os cientistas se envolvem com elas? O que os leva a questionar "fatos" amplamente estabelecidos? Ou por quê dialogar com uma teoria que de imediato não nos oferece nada de novo? Para responder essas questões recorremos a uma interessante analogia entre Ciência e arte como tradições culturais de natureza semelhante à constituição do conhecimento e ao progresso . O mais importante é que nunca existirá. FEYERABEND. a elegância da expressão. Contra o Método. empenho. romper as fronteiras das teorias estabelecidas. então o estilo. consenso entre todos os grupos de pesquisa. e nem desejamos que exista. p. Dão vida ao que é dito e ajudam-nos a vencer a resistência do material observacional. 159. será possível. o que é também possível. denunciar com convicção os equívocos da teoria alternativa proposta ou. a tensão entre a intriga e a narração. respeito e interesse de fortalecer suas idéias denunciando erros conceituais e falsas interpretações de dados empíricos. Mas..Proliferação de teorias 58 Bang. . Poderíamos perguntar: se novas teorias alternativas são problemáticas. passam a ser traços importantes do que conhecemos. Só então. FEYERABEND. tolerância. uma vez que se tenha compreendido que um ajustamento empírico estrito não tem grande valor e que deve ser afrouxado em tempos de mudança. 152. vontade e capacidade de convencer e conquistar novos adeptos (até com uso legítimo de propagandas) e. a simplicidade da apresentação.. Paul K. Contra o Método.

Proliferação de teorias

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Podemos conceber uma parte da prática científica - aquela que está além da "evidência empírica" - como um processo de produção artística, com a diferença de o material ser o pensamento e a matemática e não a tinta, ou o mármore, ou o metal, ou sons melodiosos... A proliferação de teorias entendida aqui como a interação entre teorias bem estabelecidas e teorias alternativas não implica em uma ruptura conceitual da noção de racionalidade científica. Os atores da Ciência, como sempre fizeram, continuam trabalhando em uma dada teoria, em sua tradição. Cada cientista, corretamente segue seu grupo de pesquisa e defende-o tenazmente. Cabe ainda lembrar que as proposições de novas teorias sempre partem de cientistas de dentro de grupos de pesquisa bem estabelecidos. Ou seja, para construir uma teoria rival, é necessário conhecer tão bem, se não melhor, a teoria que está sendo questionada. A noção de proliferação permite notar ocorrências ocasionais de rupturas em alguns grupos e justifica o modo como essa ruptura gera novos grupos. Diferentes grupos discutem entre si, sem necessariamente (ou quase nunca) chegar a um acordo, se opõem e conflitam entre si.

6. Em defesa da racionalidade científica

Não sou contra uma ciência assim entendida. Essa ciência é uma das mais maravilhosas invenções do espírito humano. Mas sou contra as ideologias que se servem do nome da ciência como arma de extermínio cultural.1

Esboçamos a seguir algumas considerações sobre nossa interpretação da obra de Feyerabend, sua crítica, seus limites e uma nova concepção para a racionalidade científica como concebida por Regner2. No entanto, alertamos que não caberia neste trabalho uma justificação extensiva das críticas à filosofia por ele desenvolvida. Na seção 3, ao apresentarmos a noção de anarquismo epistemológico, procuramos distinguir essa abordagem do anarquismo político e religioso. Neste sentido reafirmamos que as idéias de Feyerabend exploradas neste trabalho não implicam em uma metodologia da pesquisa científica bem definida. Mas antes, os elementos da epistemologia aqui estudados, pretendem explicitar a existência de limites nas filosofias da Ciência que procuram descrever ou fazer prescrições sobre o modo como o conhecimento científico avança. Entendemos as idéias de Feyerabend não como um conjunto de regras (epistemo)lógicas rígidas, mas sim, como limitações de princípios e regras dessa natureza, que, muitas vezes, se encontram envolvidas por uma "racionalidade" e isolada de "atributos humanos" e da efetiva prática científica sobre as quais se
1

Paul K. FEYERABEND, Contra o Método, p. 15.

Em defesa da racionalidade científica

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fundamentam. Sobre as implicações de sua epistemologia para a vida das pessoas em geral e dos cientistas em particular, Feyerabend escreveu:

a minha preocupação não é nem a racionalidade, nem a ciência, nem a liberdade - abstrações desta natureza revelam-se mais prejudiciais do que benéficas - mas a qualidade da vida dos indivíduos. Esta qualidade deve ser conhecida por intermédio de experiência pessoal antes de poderem ser apresentadas quaisquer sugestões. Por outras palavras: as sugestões para a mudança devem provir de amigos, e não de "pensadores" longínquos.3 Feyerabend, em nossa interpretação, não desenvolveu uma lógica da pesquisa científica, não criou uma estrutura das revoluções científicas e não explorou uma formação do espírito científico4. Sua epistemologia não é um novo sistema filosófico ou um conjunto de premissas lógicas que devem compor argumentos e ser analisados pela razão, mas antes, um conjunto de regras práticas que podem ser vivenciadas por aqueles que delas se interessarem:

... comentários vagos e imprecisos que fiz sobre o estado, a ética, a educação e a máquina da ciência deverão ser analisados pelas pessoas a que se destinam. São opiniões subjetivas e não diretrizes "objetivas"; devem ser testados por outros sujeitos, não por critérios "objetivos" e receberem poder político apenas depois de todas as pessoas interessadas os terem considerado: o consenso daqueles a quem se dirigem, e não os meus argumentos, é que acabarão por decidir a questão.5
2

Anna C. K. P. REGNER, Feyerabend e o pluralismo metodológico Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 27. 4 Estamos parafraseando aqui três grandes epistemólogos contemporâneos: Popper, Kuhn e Bachelard, nesta ordem 5 Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 357.
3

com a crítica que elabora contra o "racionalismo". Cabe igualmente ressaltar que a análise da ciência feita por Feyerabend. A interpretação que estamos justificando é compartilhada por Anna Carolina Regner. pg. Entendido como um meta-princípio. irracionais e deveriam ser postos de lado. Imposturas Intelectuais. ao interpretarem como implicação imediata de suas idéias o preceito de que todas as regras e critérios científicos seriam inúteis. poderia compreender sob si o princípio nem tudo vale como princípio de ordem inferior. atinente a um particular contexto. 84-91 .Em defesa da racionalidade científica 62 As principais críticas às idéias de Feyerabend referem-se a ele como um relativista radical ou um anarquista ingênuo6. Isso por Feyerabend ter escrito em seu Contra o Método que "tudo vale". 7 O "tudo vale" é um bom exemplo do estilo irônico e dos muitos gracejos presentes nos escritos de Feyerabend. Sobre o "tudo vale" ou "qualquer coisa serve" ser lido como o princípio filosófico fundamental da epistemologia de Feyerabend ela nos alerta para o fato de que: Não cabe aqui a crítica de que este princípio seria auto-destrutivo. não pretendendo uma nova "teoria da ciência" ou da "racionalidade". Isso sim constitui realmente uma 6 Veja por exemplo Alan SOKAL & Jean BRICMONT. não depende da prévia aceitação desse princípio ou de qualquer princípio que fosse universalmente válido. Essa não é a interpretação de nosso trabalho. enquanto tudo vale seria o único princípio que se aplicaria a todos os contextos. Ao dizer "tudo vale" ele simplesmente pretendia mostrar que todas as regras e critérios têm seus limites e que não devem ser mantidos a todo custo.

mas a exclamação apavorada de um racionalista que observa a história um pouco mais de perto. como teríamos rido os dois lendo juntos semelhantes efusões. de vez em quanto.não penso que possam ser utilizados e produtivamente discutidos os "princípios" fora da situação concreta de investigação que supomos que afetam ..9 Apesar desse seu estilo irônico e humorístico Feyerabend em sua atuação como professor .. Alan SOKAL & Jean BRICMONT. com referências em trabalhos reconhecidos da história e filosofia da Ciência. também eu. se por um lado dificulta a compreensão de suas idéias. p. No prefácio à 2a edição inglesa de Against Method de 1988. Feyerabend escreve ao justificar a dedicatória de seu livro a Lakatos: Imre Lakatos gostava de embaraçar os seus opositores sérios com gracejos e ironias. de grande fôlego. pelo que. como também do próprio conhecimento da Física. 9 Cf. Biologia. P. K. "O principal problema quando se lê Feyerabend é saber quando levá-lo à sério". Além disso.muitas vezes se sentiu angustiado pela falta de ressonância de suas idéias entre os alunos e pelo mal estar gerado na 7 Anna C. prazerosa e. seus escritos são ricamente fundamentados. Anna C. Química. humana sua leitura e estudo. por outro. REGNER. Imposturas Intelectuais. lembrei-me muitas vezes do meu convívio com Imre. pg.como todo professor . torna muito mais desafiante. K. 8 .8 Contudo. Feyerabend e o pluralismo metodológico.Em defesa da racionalidade científica 63 dificuldade na leitura de seus textos. esse problema. Ao ler as muitas críticas sérias. REGNER. por que não. adotei uma escrita de estilo irônico. p. Exemplo disso é o final do Capítulo 1: "qualquer coisa serve" [ou "tudo vale"] não é um "princípio" que eu sustente . amplas e amplamente equivocadas que me foram feitas após a publicação da primeira edição inglesa do livro. Feyerabend e o pluralismo metodológico. 235. P. 235. 86.

em nome da "verdadeira" prática científica nas esferas econômica. Paul K.Em defesa da racionalidade científica 64 maioria de seus ouvintes ao chocarem-se com suas idéias. ao invés de mudar. Manoel Robilotta. Era um começo. "Primeiro você denigre a razão e depois espera que as pessoas digam algo interessante". Feyerabend desistiu de um curso em Yale após se aborrecer a ponto de chorar ao final de um seminário: "Isto é culpa sua". que participa da comissão avaliadora desta dissertação. as idéias de Feyerabend não constituem uma filosofia da Ciência entendida como um conjunto de regras metodológicas rígidas ou de princípios lógicos. 11 10 . Como indicado na seção 3.algo importante a ser considerado neste trabalho. um começo difícil . mas ao invés disso. noções que permitem questionar os limites de sistemas epistemológicos e de suas interferências. de um teatro melhor. de melhores relações entre os indivíduos. 141.. alguns de seus alunos ficaram tão aborrecidos que chegaram a abandonar o curso de física após uma leitura de Contra o Método. costuma contar uma história em que. política. cultural e da educação. certa vez. Com apenas algumas exceções. dentre outras.. contudo. Tampouco eu supunha que minha crítica pudesse ser o fim da questão. Eu via as coisas de outro modo. elas concordavam com minha crítica. de uma melhor organização da sociedade.) Mas as pessoas que encontrava pareciam privadas de idéias concretas que lhes fossem próprias. de filmes melhores e assim por diante (. Nunca "denegri a razão". O Professor do Instituto de Física da USP.10 E é esse um dos principais efeitos nocivos de uma interpretação descontextualizada das idéias de Feyerabend11 . seja isto o que for. disseram meus amigos. p.do quê? De uma melhor compreensão das ciências. Matando o tempo. mas apenas algumas de suas versões petrificadas e tirânicas. ficavam sentadas chorando. FEYERABEND.

13 Apresentamos assim uma concepção interacionista da razão e da prática científica. fortalece-a. aqui também é preciso estar atento aos limites da analogia. O cientista possui um mapa (razão) para percorrer uma cidade (prática). P. desta forma ele deve agir ora modificando sua prática (atuando na cidade). Anna Regner. Mas. K. calcada na visão esclarecida e sopesada de razões. . que deve ser vista como tal. REGNER. tornando-a mais flexível e humana. dizendo: "a racionalidade de nossas crenças se verá consideravelmente acentuada". A distinção entre a razão (o mapa) e a prática (a cidade) deve considerar duas entidades diferentes mas não disjuntas. mas ao contrário.Em defesa da racionalidade científica 65 Neste trabalho interpretamos a filosofia de Feyerabend de modo que o ato de dar Adeus à Razão e a tentativa de agir Contra o método12. do que tem sido. ao adotar uma postura semelhante em seus escritos. Mas a cidade tem atividade humana e está em constante modificação. acaba sendo o meio pelo qual qualquer decisão pela Ciência seja muito mais racional. à luz das regras do racionalismo. não diminuem a racionalidade científica. E conclui Feyerabend seu Contra o método. ora redesenhando o mapa (mudando sua razão). Para resumir e finalizar nossa abordagem das noções epistemológicas de Feyerabend exploraremos uma analogia entre a razão e o mapa de uma cidade. Anna C. 244. a uma razão contextualizada: Expondo-a [a Ciência] em seus mecanismos irracionais. p. 12 13 Para parafrasear os dois principais livros estudados. Feyerabend e o pluralismo metodológico. nos pergunta se o desvelamento da Ciência exposto por Feyerabend não conduziria a uma nova racionalidade.

Em defesa da racionalidade científica 66 O "Adeus à Razão" significa que o cientista guiado por sua prática (o caminhar pela cidade) pode apagar e redesenhar a razão (o mapa) ao perceber sua inadequação. Agimos assim. construir uma nova avenida) a partir de uma nova razão ou um projeto interessante de pesquisa (um novo mapa). Por outro lado. . Em nenhum momento as idéias de Feyerabend significam que o conhecimento científico pode avançar sem uma interação entre uma razão e uma prática. agir "contra o método" significa violar sua prática (modificar a cidade. em defesa da racionalidade científica.

passamos a discutir as lições epistemológicas aprendidas com o estudo das concepções sobre a Ciência expressas no capítulo anterior e suas implicações para a educação em geral e para o Ensino de Física em particular. como algo que vai além da mera transmissão de conceitos.III . p. As perspectivas educacionais aqui apresentadas não devem ser vistas como princípios metodológicos ou sistematizações de práticas pedagógicas de modo a constituírem-se em objetivos ou num referencial para que professores de Ciência ou de Física possam organizar suas aulas. Cabe enfatizar a contextualização do Ensino científico dentro da instituição de Ensino em que se insere . dentro da educação geral. 366. valores e crenças socialmente estabelecidos como importantes. objetivos e valores 1 Paul K. mas ao contrário. . Antes de iniciarmos a apresentação de considerações sobre as possíveis perspectivas educacionais das noções esboçadas no capítulo anterior é importante explicitar que compreendemos o Ensino de Ciências. além de saberes: hábitos. A educação escolar. FEYERABEND. elas compõem um conjunto de reflexões sobre os ideais. tendo a científica incluída em seu bojo.a escola. Adeus à razão. contra 1 tentativas sistemáticas de Nesse capítulo. pretende perpetuar.PERSPECTIVAS EDUCACIONAIS A melhor educação consiste na imunização das pessoas educação.

vivências e casos particulares são explorados como sintomas de situações limites que em maior ou menor grau permeiam todas as relações educacionais. 2 As noções educacionais desenvolvidas neste trabalho apresentam uma natureza predominantemente programática em detrimento de uma formulação prescritiva ou de uma fundamentação descritiva. e em especial professores de Física. ou um modo mais simples ou fácil . Não estamos propondo uma teoria que careça de validação empírica ou diretrizes metodológicas para organizar o Ensino.Perspectivas Educacionais 68 associados aos processos educativos em Ciências que podem contribuir para a elucidação de questões que permitam aos atores da educação. Não se trata de uma transposição das noções epistemológicas de Feyerabend para a fundamentação de uma teoria de Ensino ou para aprimorar as práticas educativas.para analisar questões especificas da educação. justificação de certas escolhas e estabelecimento de objetivos e valores para o Ensino no contexto das instituições escolares. avaliarem sua própria prática. No entanto.sua filosofia . Assim toda a justificação se fundamenta muito mais em escolhas valorativas que em dados empíricos e seu sentido é muito mais o de orientar que conduzir ações da prática educativa. mas sim de propiciar o uso de seu modo de pensar . em momento algum. uma didática eficiente. desenvolver referenciais para uma forma mais rápida. mas procurando contribuir com noções que funcionem como limitadores na elaboração de ações educativas. Ao apresentar perspectivas educacionais tendo por base a filosofia de Feyerabend não pretendemos.

conteúdos e práticas de Ensino. geralmente estar ausente das pesquisas específicas de ensino de ciências. com predominância na escolha de métodos. mas pode fornecer elementos importantes caso se deseje refletir sobre o modo como as práticas são desenvolvidas. a consideração dos valores prioritários. Na concepção subjacente a este trabalho a educação não é uma Ciência. socialmente estabelecidos. é algo mais parecido com uma arte-prática. Nosso trabalho não terá valor nenhum se for considerado como ponto de partida para a elaboração de um projeto de Ensino. Construtivismo: uma pedagogia esquecida da escola) . As noções educacionais que serão apresentadas podem subsidiar mas não conduzir as ações de professores e outros agentes de Ensino inseridos em instituições escolares com contextos específicos. (ver: CARVALHO. Visamos sim.Perspectivas Educacionais 69 de educar. compartilhamos das idéias de José Sérgio Fonseca de Carvalho. Nesse sentido nosso trabalho só estará concluído quando seus leitores o vincularem a situações reais de Ensino. 2 Quanto à dimensão institucional da educação escolar. Se pensadas fora de um contexto escolar específico as noções discutidas fornecerão uma visão exterior e meramente abstrata da prática escolar.

não existe . que absurdo! . No final da tarde.respondeu Buda. ou seja.Deus existe? quis saber .respondeu o Iluminado.Deus existe? . aproximou-se outro homem. .perguntou.Como é que o senhor pode dar respostas diferentes para a mesma pergunta? . respeitar e valorizar as outras tradições que já fazem parte da vida dos . .Deus existe? .disse Buda.disse um dos seus discípulos. Também na educação básica devemos considerar o Ensino de Ciência como uma importante componente do conhecimento socialmente estabelecido e que deve compor os currículos escolares . . Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? “Buda estava reunido com os seus discípulos certa manhã.1. . Para pensar a Ciência como uma tradição cultural tivemos de admitir a existência na prática científica de vontades pessoais e escolhas que dependem das circunstâncias culturais sob as quais atuam os diversos grupos de pesquisa. um terceiro homem fez a mesma pergunta: .de modo que ninguém pode ser-lhe indiferente mas não como a única. da negação e da dúvida.Não. Depois do almoço.Existe .” Maktub A partir da idéia de que a Ciência é uma tradição cultural dentre outras nos perguntamos: como a Física deve entrar na formação básica? Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? Respondemos a essas questões sugerindo que a Ciência deve ser ensinada como uma maneira de ver entre muitas outras e não como a única via que leva à "verdade" ou à "realidade". ou mesmo a pior fonte da sabedoria. .Mestre.E cada uma aproximar-se-á de Deus à sua maneira: através da certeza. .respondeu Buda.Você terá que decidir . quando um homem se aproximou. ou a melhor. É preciso levar em conta as condições dos grupos locais. é imprescindível conhecer.Porque são pessoas diferentes .

ou . O professor tem um compromisso não só com o aluno. Ao afirmar que nem todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica não estamos afirmando que a Ciência no mundo contemporâneo. As disciplinas são vivas e compõem-se. as atividades de Ensino estão subordinadas ao compromisso essencial para a constituição das instituições escolares e tem a missão de difundir e preservar algumas tradições culturais publicamente consideradas como preciosas para a humanidade. são tradições públicas com séculos de acumulações e detentoras dos saberes desenvolvidos a partir de toda uma conjuntura social por nossos antepassados e que precisam ser valorizadas e respeitadas. sendo responsável por sua perpetuação. mas também com a instituição de Ensino a que pertence. Essas disciplinas. Cada uma das disciplinas escolares constitui parte de tradições culturais e deve ser vista como muito mais que um conjunto de conteúdos ou uma lista de habilidades a serem alcançadas por um aluno individualmente. nas quais as pessoas precisam ser educadas. e ainda. como a Física. O que o professor faz quando ensina é permitir que o aluno reconheça-se no espelho das realizações humanas tradicionalmente organizadas pelo que conhecemos como disciplinas escolares e suas técnicas. No contexto educacional. além de conteúdos. de elementos associados aos valores e procedimentos dos espaços institucionais em que são desenvolvidas. a Antropologia ou a Geografia. com o conhecimento que transmite. garantindo-lhe a preservação e a continuidade. ele professa também em favor da tradição a que corresponde e de certo modo reproduz e mantém vivo um saber que herdou. neste sentido.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 71 educandos. A Ciência deve ser inserida entre estas tradições e conquistar seu valor próprio e lugar na vida das pessoas. a Química.

ao ser substituído mecanicamente por outro. noutra estrutura e noutra maneira de atuar [noutra tradição] lhe desperta uma reação . o desprezo e principalmente o fato de ignorar outros modos de conhecimento concorrentes ao científico corresponde. o desrespeito. Tão perigoso como atribuir à Ciência uma excessiva carga de verdade propiciando seu mau uso por parte de um discurso autoritário (não só vinculado à miopia científica mas também de outras esferas sociais como a religião. domina o cotidiano das pessoas de modo a impedir a manifestação de outras tradições culturais. etc) é negar a uma pessoa a oportunidade de compreender e utilizar os conhecimentos da Ciência para melhorar sua compreensão do mundo. A tentativa de destruir. Ao contrário. a nosso modo de ver. que implica noutra linguagem. o pensamento mágico não é ilógico nem é pré-lógico. a um dos principais equívocos da inserção do saber científico na educação básica em geral. a política. como indica Paulo Freire. estamos dizendo que. por isso mesmo. está indiscutivelmente ligado a uma linguagem e a uma estrutura como a uma forma de atuar [a uma tradição]. estas crenças mágicas não devem ser simplesmente ignoradas. contribui para o estabelecimento de uma falsa cientificidade. Sobrepor a ele outra forma de pensar. até onde pode. o conhecimento científico está tão afastado do público em geral que. como qualquer outro. um agrônomo extensionista precisa conhecer as crenças mágicas dos agricultores com os quais vai dialogar. a economia. Não considerar a cultura dos estudantes gera um conflito entre os conhecimentos de diferentes tradições culturais pertencentes às suas vidas e aqueles da Ciência que se pretende ensinar e que precisam ser explicitados nas atividades de ensino. Este modo de pensar.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 72 mais especificamente no Brasil. Por exemplo. Tem sua estrutura lógica interna e reage.

A situação descrita corresponde a um exemplo de confronto entre discursos autoritários bastante presente em escolas e geralmente impregnados em diversas esferas de atuação no cotidiano contemporâneo. Extensão ou comunicação? p. foi autoritária e a pior possível. E completou: . Declaração de uma professora da rede oficial de ensino do Estado de São Paulo. que o que estava ensinando era científico e verdadeiro e o que o pai dela sabia era "papo furado".Isso gerou muita polêmica na escola e a diretora junto com o conselho de escola decidiu que a aluna não precisaria mais assistir as aulas de Biologia. que era pastor.2 Nesse caso. mas é muito difícil mudar a forma das pessoas pensarem. O professor. nervoso.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 73 natural. ao explicar evolução das espécies. 31. bastante interessante uma professora de Física da rede pública de Ensino do estado de São Paulo. . ambas as posições estão. entrou em atrito com uma aluna evangélica e a mesma disse que não assistiria mais suas aulas e pediria para seu pai. respondeu para ela.1 Em um exemplo. equivocadas por acharem-se detentoras da "verdade absoluta". vir conversar com ele. segundo entendemos.Eu aprendi isso na faculdade e o seu pai? . Eu penso que essa não foi a melhor solução. conta que: um professor de Biologia da escola em que leciono. e assumida pela Diretora. Uma reação de defesa ante o "invasor" que ameaça romper seu equilíbrio interno. Para solucionar o conflito entre dois discursos autoritários (a " Ciência" autoritária do professor x a "religião" 1 2 Paulo FREIRE. E a "solução" encontrada pelo Conselho de Escola. com escola localizada na Cidade de Itapevi.

o que poderíamos designar como cultura científica básica. em maior ou menor grau. O conhecimento científico é inegavelmente uma das mais importantes construções da humanidade e proibir-lhe o acesso em "razão" desta ou daquela tradição cultural é igualmente um grande erro. Uma educação apoiada na concepção de Ciência como tradição cultural que pretenda ir na contra-mão da educação autoritária precisa ser entendida sempre em dois aspectos complementares: tolerância versus oportunidade. pior.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 74 autoritária da aluna) foi tomada uma medida mais autoritária ainda (de uma "educação" autoritária) – e. entendemos que nem todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica. do professor. está imerso. na relação de todos os estudantes com a realidade do conhecimento científico vivida nos cursos de Física. por membros de um Conselho de Escola. mas precisa realizar sozinho todas as escolhas em que ela seja significativa e ser capaz de dirigir sua própria vida. permitindo-lhes relacionar . Esse conflito entre "verdades" é um sintoma limite de um processo que está presente. Por isso. a tolerância por parte da instituição de Ensino. O aluno deve conhecê-la. da comunidade na qual a escola está inserida. em maior ou menor grau. O primeiro. O segundo aspecto é a oportunidade de "pertencer" à tradição científica. e em particular o povo brasileiro. Devem antes possuir. Tolerância e oportunidade são os dois pilares fundamentais de uma educação científica que pretenda superar o discurso autoritário ao qual a civilização contemporânea. significando que a Ciência não deve ser imposta como a verdade única ou maior. do currículo e dos agentes escolares às idéias de outras tradições pertencentes à vida dos alunos.

Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 75 matematicamente grandezas simples presentes em seu dia-a-dia. contrariamente ao Ensino da Ciência única. nem todos precisam dominar e se interessar por investigações sobre semântica. necessitam ser educados de forma a utilizar a língua como instrumento básico e serem capazes de decodificar textos importantes para sua vida. Estamos preocupados com a educação em Ciência como algo mais amplo do que as definições econômica ou sociológica permitem conceber. assim como. A educação científica não pode ser construída somente em prol dos interesses de produzir cientistas mas sim de fornecer às pessoas a possibilidade de ampliarem seus domínios de pensamento. mas. Uma educação maior na qual a aquisição de saberes está associada à atribuição de valores ao conhecimento. ação e emoção. para cada escola. por serem estes termos muito específicos. certamente. ler uma notícia sobre Ciência. fazer uma estimativa. para cada comunidade. para cada classe de aula. A educação científica para o grande público em geral pode se dar sem que ocorram rigorosamente estas atividades específicas e estas ainda podem ocorrer sem que satisfaçam todos os critérios implicados pela educação científica. fazerem da lingüística uma de suas tradições. como na perspectiva de Peters: . para cada um dos alunos. Dessa maneira a Física até o nível médio do Ensino contribuiria de forma diferente para cada cidade. Identificamos a educação neste trabalho com o que preferimos chamar de iniciação à tradição científica a termos como treinamento. verdadeira e soberana. o que não impede de alguns. porém. lingüística ou literatura. instrução. apropriar-se ao seu modo dos conceitos científicos ou conseguir encontrar uma informação importante sobre determinado fenômeno estudado.

é possível que estejamos educando alguém enquanto o treinamos. só se estabelece com uma política educacional e um processo apropriado de formação de professores para que eles simultaneamente eduquem e sejam educados. sugere. como fazer preleções. gostem da Física. como o de treinamento.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 76 O conceito de "educação" [como iniciação] não privilegia qualquer tipo particular de processos. A instituição de Ensino. por exemplo. o professor e o programa escolar precisam respeitar as idéias oriundas da cultura local e trazidas pelos alunos e não utilizar a autoridade conferida a eles para impor suas "verdades" de modo intolerante. a escola e a comunidade. Daí. fruto da elaboração humana ao invés de uma verdade eterna. mas não necessariamente. ou de atividades. como o treinamento. devem se adaptar. Uma educação que tolera o convívio do conhecimento científico com o de outras tradições e que procura transmitir o saber como algo valioso. o professor e o aluno serão iniciados na prática da Física e em seus procedimentos de forma consciente e de forma a se envolverem no que estão fazendo sempre de modo a perceberem que algo valioso está ocorrendo em suas vidas. Dessa perspectiva o conhecimento científico precisa ser apresentado como um valioso produto humano e não como uma verdade superior. critérios aos quais os processos. Um destes critérios é o de que algo valioso deve se manifestar. saibam .3 A educação em Ciências como uma iniciação à tradição científica pressupõe uma progressiva tomada de consciência sobre a aquisição de conhecimentos. ao estudarem a Física juntos. Isto significa que. antes.

é visto como um elo 3 4 R. ele não é visto como uma enciclopédia especializada de Física. a tradição da Física. Educação como iniciação. enquanto aprendia [ou ensinado enquanto ensinava. Algumas formas de exercícios também podem ser excluídas. entendam como se faz Física e sejam formados em Física. só para dar um exemplo. R. ou mesmo alguém que consegue desvendar os misteriosos fenômenos que estão por trás do funcionamento de aparelhos tecnológicos do cotidiano. Educação como iniciação. ao professor de Física é preciso ser ofertada a possibilidade de ler sobre Física e conversar sobre Física. Assim. mas. PETERS. ou a fonte de respostas aos problemas de um livro didático. .4 Assim. acrescentamos]. nesta concepção da educação científica é fundamental que o professor de Física. Para que alguma coisa seja considerada como educação. tenham vivido e ainda acompanhem. porque: um homem pode ser condicionado a fugir de cachorros ou ser induzido a fazer algo por sugestão hipnótica. S. ela deve conter um mínimo de compreensão. 113. É importante também que ele se mantenha informado da Física de seu tempo. p. S. a que exige do aluno a repetição interminável de atos estereotipados que participam de séries limitadas.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 77 Física. Sendo um "missionário" de sua "tradição" deve entender minimamente suas descobertas. p. de algum modo. pelo mesmo motivo: como. Mas. se ele não soubesse o que estava aprendendo. seja formado em Física e tenha conhecido físicos. não entenderíamos isso como "educação". inovações e "alterações" em seus procedimentos e métodos. 107. Para compor um corpo docente que intermedie a relação entre as tradições científicas e os valores da instituição escolar. PETERS. por exemplo.

como a privação do aluno desse conhecimento são em igual intensidade um ato de irresponsabilidade e desrespeito.pelo menos como alunos . pois . também. . como o zelo pelos conhecimentos. pela hierarquia e pelos valores característicos dessa instituição social.5 Uma aula de Física deve permitir mais que memorizações ou anotações de fórmulas ou termos conceituais sem sentido. e. sem que os ensine e sem que seu Ensino reflita as responsabilidades institucionais da instituição escolar. com a instituição escolar que agrega os valores sociais aos saberes científicos.. Para isso os livros. O verdadeiro conteúdo do estudo está no envolvimento com o professor e com o programa6 da disciplina. Os alunos precisam conhecer e viver a Física como uma tradição cultural. os textos. tanto para com o aluno como para a tradição científica a qual o professor deveria representar. 5 6 José Sérgio Fonseca de CARVALHO. 83.. Agradecemos ao prof José Sérgio pela elucidação da natureza programática desse trabalho em detrimento de uma prerrogativa prescritiva. os gráficos e as anotações são apenas acessórios e não o material de estudo em si. embora seja possível que um professor ensine sem recorrer ao respeito mútuo. para com a instituição a que ele pertence. Respeitar o aluno é ensinar do melhor modo possível os conhecimentos tradicionalmente acumulados como Ciência. os seus alunos e os físicos. entre suas aulas e essa tradição culturalmente representada pela Física. p.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 78 de ligação entre a escola e a comunidade.. não é possível que ele respeite seus alunos . Tanto a doutrinação em uma tradição. Construtivismo: uma pedagogia esquecida da escola.

os problemas de infra-estrutura. pelo contrário. eles são elementos essenciais e imprescindíveis em uma aula de Física por transmitirem uma compreensão estrutural tanto do que é a Ciência como de seus conceitos. só para mencionar alguns exemplos possíveis. da economia. em letras de música. Para concluir. vamos levar o estrangeiro nos diversos setores da cidade. os experimentos e os modelos matemáticos são menos importantes. É importante fazê-lo compreender e participar da vida na cidade. a observação de fenômenos. o raciocínio. um dia. É caminhar sobre sua história. experimentos. conceitos. é conversar com seus personagens. é discutir filosoficamente seus princípios e métodos. Seremos seus guias. vamos mostrar-lhe as dificuldades. Neste sentido. expressando mais facilmente a natureza humana do conhecimento científico. Devemos mostrar diversos locais da cidade. da criminalidade. explicações de fenômenos ou princípios da Ciência. é reconhecer seus erros. museus. Mas não devemos enganar o estrangeiro mostrando só o que há de bom. principalmente aqueles locais que mais gostamos e deixar o estrangeiro escolher onde quer ficar por mais tempo durante a visita. é apropriar-se de seus valores. traduzir algumas das palavras que estão usando e explicar seus costumes.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 79 Iniciar-se na tradição científica é mais que aprender algumas leis. centros culturais e os principais pontos turísticos. de política. teatros. a Física como uma tradição cultural exige uma educação baseada em peças de teatro. consideremos a visita de um estrangeiro a uma cidade desconhecida. Com isto não estamos dizendo que a lógica. Terminada a visita estaremos satisfeitos se o estrangeiro ficar com uma . etc em que ele terá que se envolver se quiser. se tornar um cidadão. apresentá-lo às pessoas e explicar o que elas estão fazendo. em romances e em histórias em quadrinhos.

outras formas de interação com o conhecimento que possam despertar o interesse de diferentes alunos: peças de teatro. se ele resolver fixar morada em nossa cidade ou tornar-se um de seus guias turísticos. Nós. a concepção de educação como iniciação. vamos mostrar-lhe as dificuldades experimentais e teóricas. se tornar um físico. pode ser entendida como a visita de um aluno à cidade da Física. geometria. ele deve se sentir em algum momento como um físico ou um professor de Física. contar-lhes quem são os físicos. letras de música. se tiver o desejo ou a necessidade de voltar algum dia sozinho e não se perder e. Mas não devemos enganar ou iludir o aluno mostrando apenas exemplos didáticos simples e fáceis. se possível conhecer algum e explicar o que eles fazem. Devemos utilizar. mais ainda. É importante fazê-lo compreender e imitar o processo de construção do conhecimento.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 80 boa lembrança do passeio. material de divulgação científica e explicar-lhes os principais problemas estudados pela Física. de algum modo. os professores. e deixar. e explicar as atividades de diferentes grupos de pesquisa. um dia. montagem de experimentos. orientados pelos objetivos das instituições escolares. seremos seus guias. explicitar as muitas aproximações que adotamos para simplificar os problemas e indicar-lhe a destreza em álgebra. Vamos caminhar com o aluno pelas diversas áreas da Física. na formação básica. além do discurso e dos textos. cálculo. museus de Ciência. souber explicar alguns fenômenos utilizando . Terminadas as aulas de Física estaremos satisfeitos se o aluno valorizar os conhecimentos que lhe transmitimos. o aluno escolher aquilo em que quer se aprofundar. etc que ele precisará desenvolver se quiser. traduzir alguns dos conceitos e equações da Física. Analogamente. principalmente aqueles que mais gostamos e que permitem maior relação com os valores que devemos trabalhar.

A Física como tradição cultural comunica-se com um contingente variado de leitores inteligentes do mundo contemporâneo. . Por outro lado. em construções artísticas. no outro extremo das diferentes aptidões e vontades manifestadas pelos alunos. tiver o desejo e a capacidade de ler algo mais sobre Física. literárias. conseguir utilizar a matemática para relacionar grandezas Físicas de seu cotidiano.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 81 a Física. a Física trabalhada como tradição cultural poderá inspirar a sua utilização em ensaios críticos sobre a realidade vivenciada ou em poemas românticos ou realistas. etc.

. engenheiros. biólogos. de outra flor que tortura. diretores. geólogos. pra que?" de Sidnei Miller. a família cresce. supervisores. o cientista inventa uma flor que parece a razão mais segura p’ra ninguém saber. ministros. passamos a analisar seu papel na formação básica (até o nível médio) a partir das relações que podem ser estabelecidas entre alunos e cientistas das diversas tradições culturais: físicos. o jornal comenta um rapaz tão moço. o café o almoço. farmacêuticos. Mesmo as escolas contam. Ao discutir esta relação estaremos analisando a função dos cientistas como intermediadores entre a sociedade e o conhecimento científico estabelecido e nos referindo a eles como especialistas ou peritos. ao seu modo e autorizados por suas 1 Trecho da letra da música "Pois é. coordenadores pedagógicos. com um número crescente de "peritos": além dos professores existem os inspetores. que.1 Considerando que nem todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica e tendo em mente a inexistência de uma única tradição que poderíamos chamar de "a" Física. psicólogos educacionais.2.. químicos. conselheiros. Conhecendo os especialistas o patrão sustenta. . secretários. astrônomos. cada vez mais. médicos e outros profissionais que apóiam suas práticas no conhecimento científico. assistentes sociais. também. O calor aumenta. etc. Nos dias de hoje. a relação entre os cidadãos comuns e o conhecimento científico é cada vez mais dependente de especialistas.

O distanciamento é maior ainda ao considerarmos a ..2 Uma educação dogmática. em que "cada adulto.. Deste modo. cuja posse poderia conferir a uma pessoa o direito de lhe chamarem educada. a educação não foi uma mercadoria escassa. a educação foi transformada num bem escasso. a partir de noções educacionais em geral abstratas. durante milhares de anos.Conhecendo os especialistas 83 credenciais estipulam. um mestre" acabaram. Um Ensino de Física sem tais dimensões torna inconcebível a possibilidade de mudança científica.. segundo os critérios por ele próprio estabelecidos. corresponde a uma das principais causas de distanciamento entre as pessoas e o conhecimento científico. só aqueles que possuírem um diploma do sistema educativo. enriquecidas e transmitidas por milhões de pessoas que estão a aprender vivendo e fazendo. (. para quem viver e aprender eram sinônimos. Agora. implicitamente. Não foi o produto de algumas fábricas institucionais. filosófica. transmitindo. tal como tinham de aprender para viver e aprendiam o que quer que pudesse interessarlhes. Antes de ser instituído o atual sistema educativo. bem como à comunidade a que pertenciam. a maneira como o Ensino deve ocorrer. definem e controlam.. O conhecimento vem sendo tratado como um produto comercial e a figura do antigo mestre tem dado lugar à do professor entendido como um "vendedor" de conhecimentos. que esvazia o conhecimento científico de suas dimensões histórica. poderão ter o direito de ensinar. sociológica e cultural e que desconsidera a natureza humana impregnada no saber. a noção de que o conhecimento científico é uma verdade incontestável. como denuncia Majid Rahnema: as Culturas e as Civilizações foram formadas.) os velhos tempos.

Education for Exclusion or Partipation?.3 2 Majid Rahnema. Isto é. 34. Adeus à razão. . Citado em Paul K. em muitos casos. contaminados pela tendência em admitir a Ciência como um conjunto de conhecimentos que aumenta continuamente em direção à "verdade". assexuada. que a técnica bem acabada ou "elaborada". manuscrito. tanto quanto a ciência de que é uma aplicação prática. 347.Conhecendo os especialistas 84 grande parcela da população que é excluída da educação (sem a formação do ensino fundamental e menos ainda do médio) no caso de nosso país. como bem compreendeu Paulo Freire: o equivoco de não ver a realidade como totalidade. Isso pode ser evidenciado pela maneira como descrevem seus próprios trabalhos e reinterpretam o trabalho de seus antecessores de forma a tornar invisível as rupturas científicas e manter o poder atribuído aos especialistas como "donos da verdade. condicionada históricosocialmente. Não há técnica neutra. como já afirmarmos. p. que se repete. 16 de Abril de 1985. quando não se percebe que a técnica não aparece por casualidade. quando se tenta a capacitação dos camponeses com uma visão ingênua do problema da técnica. se encontra. O poder proveniente da ilusão de que a Ciência é superior às outras tradições por sua cumulatividade e sua inter-relação com o Ensino da Ciência contrário a uma noção mais ampla da realidade dentro de um contexto mais geral (histórico-socio-cultural) constitui a principal fonte do equivoco da extensão por meio da capacitação de líderes ou especialistas. Os próprios cientistas responsáveis por grandes mudanças na Ciência estão. Stanford. Equívoco. 3 Paulo FREIRE. FEYERABEND. Extensão ou comunicação? p. por exemplo.

p. Segundo a primeira opinião: (+A) um perito é alguém que produz conhecimentos importantes e possui técnicas importantes. na Grega Antiga (Atenas.C. FEYERABEND.) Podemos aprender com estes velhos pensadores. com os seus argumentos e as suas perspectivas. segundo Feyerabend. Desempenharam um papel importante na astronomia e na matemática da Idade da Pedra. Neste sentido. A primeira discussão sobre os problemas do conhecimento especializado de que há registro teve lugar na Grécia. na Babilônia e na Assíria. .Conhecendo os especialistas 85 É importante explicitar que não pretendemos negar a importância dos peritos. Adeus à razão. e depois com Platão e Aristóteles (. os hurritas. o qual tem vindo a ser descoberto ao longo dos anos.C. encontramos em Feyerabend uma interessante investigação da função e dos valores atribuídos aos peritos em outras culturas por estarem elas livres dos problemas.. entre os sofistas. mitos e preconceitos dos debates modernos: os peritos foram algo de natural no Egito.). na Suméria. século V a. nos séculos V e IV a. lideres ou especialistas na sociedade contemporânea. Os seus conhecimentos não devem ser 4 Paul K. 71.. foram formuladas duas opiniões sobre o papel dos peritos. os fenícios e muitos outros povos que ocuparam o antigo Próximo Oriente.4 Sobre as decisões de quem deve governar a cidade e a interação dos peritos com o restante da sociedade. mas propomos elementos que permitam (re)pensar o valor e o poder atribuído a eles na educação em Ciência no nível básico de Ensino.. entre os hitits.

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postos em causa ou alterados pelos leigos. Devem ser assumidos pela sociedade precisamente da forma sugerida pelos peritos. 5 Nesta perspectiva reis, sacerdotes, arquitetos, médicos quase nunca (ou nunca) discutiriam as suas funções ou o modo como o conhecimento que produzem interagiriam com a vida da sociedade. Na Grécia Antiga esta posição era objeto de chacota e escárnio. A segunda opinião, concebida pelos gregos sobre a função dos peritos na sociedade, se contrapunha frontalmente à primeira e os representantes dessa visão fizeram notar que:

(-A) os peritos ao chegarem aos seus resultados, limitavam a sua visão. Não estudam todos os fenômenos, mas apenas aqueles de um campo especial; e não examinam todos os aspectos dos fenômenos especiais, apenas aqueles que esporadicamente se relacionam com os seus interesses bastante limitados. Seria, por conseguinte, disparatado considerar as idéias dos peritos como 'verdadeiras', ou 'reais' (...) E, seria igualmente disparatado apresentá-las à sociedade sem terem a certeza de que os objetivos profissionais dos peritos estão de acordo com os objetivos da sociedade.6 Poderíamos nos perguntar: qual dessas duas (ou qual outra?) concepções decorrem da formação científica em nossas atuais escolas de formação básica? Ou ainda, que visão da função dos peritos predomina em nossa sociedade? Antes de esboçarmos uma resposta a estas questões, a exemplo das situações indicadas no capítulo 1 e do relato de uma professora mencionado na primeira seção deste capítulo, apresentamos, como sintoma de um problema
5

Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 71.

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muito mais complexo, uma breve descrição de um acontecimento vivido e descrito por (ACP):

certa vez fui com minha prima levar sua filha ao médico e fiquei surpreso com o que ela muito irritada me disse após sair do consultório: "O médico me perguntou o que ela (sua filha) tinha!" e, surpreendentemente, confessou-me seu desejo reprimido de responder: "não é o senhor que é o médico? Como posso eu saber o que ela tem? Se soubesse não precisaria estar aqui!". Fiquei em silêncio e me perguntei o que teria acontecido se ela respondesse dessa forma ao médico? E, porque não o fez?

Esse "medo" perante os especialistas (no caso, indicado pela repressão em se opor ao médico) e a incompreensão dos procedimentos técnicos elementares aos quais somos submetidos em nosso convívio diário (no caso, o fato do diagnóstico médico se fundar no histórico do paciente mais que em resultados de testes ou exames) são os sintomas que nos permitem responder as questões formuladas recorrendo à primeira concepção (+A) da relação entre os peritos e a sociedade apresentada pelos gregos antigos. Ou seja, parece que nos tempos atuais os peritos, como os médicos ou os biólogos com os quais estão relacionados, por exemplo, produzem conhecimentos; seus conhecimentos não são postos em causa, criticados, questionados ou alterados pelos leigos; os conhecimentos científicos parecem alterar as vidas das pessoas em função de interesses que não beneficiam a maioria da sociedade, os conhecimentos são assumidos pela sociedade precisamente da forma sugerida. Esse exemplo ilustra

6

Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 71.

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mais uma vez o autoritarismo presente em nossa sociedade e na educação contemporânea. O pior é admitir as recomendações dos peritos sem compreender minimamente seus significados. Em nossa sociedade contemporânea é cada vez mais dessa maneira que os conhecimentos da Ciência e os cidadãos comuns se relacionam,

os cidadãos recebem a mensagem dos peritos e não de um pensamento autônomo. É o que atualmente se considera "ser racional". Partes cada vez maiores da vida dos indivíduos, famílias, [escolas,] aldeias, cidades estão a ser ocupadas pelos especialistas. E breve, uma pessoa não poderá dizer "estou deprimida" sem ter de ouvir a objeção, "com que então acha-se psicólogo?" Kant escreveu há muito tempo: "Se eu tiver um livro que deduza por mim, um clérigo que tenha consciência por mim, um médico que decida a minha dieta e assim sucessivamente, não preciso de me preocupar comigo. Não preciso pensar, basta que pague - os outros prontamente aceitarão a fastidiosa tarefa por mim."7

Estaria desse modo terceirizada a experiência de viver?

Uma educação como iniciação, apoiada na noção de Ciência como tradição cultural e na concepção (-A) da função dos peritos na sociedade, implica que não devemos mostrar tão somente as grandes conquistas da Ciência sem contrapor a elas suas eventuais conseqüências ruins; devemos valorizar os personagens, peritos, especialistas ou grandes nomes da Ciência enfatizando sua

7

Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 21.

Não só encaram o conflito em relação ao conhecimento que estão estudando.Conhecendo os especialistas 89 natureza humana. são os donos da "verdade" castra de imediato essa incerteza e instabilidade produzida pelo conflito entre . Ao enfrentarem conflitos gerados por novos conhecimentos.. Esses momentos de instabilidade são condição necessária para o aprendizado e devemos respeitá-los não impondo nossas próprias opiniões como "verdades científicas" mas deixando sempre a eles as escolhas finais. por exemplo. que as leis da Física ou os princípios da Biologia são fundamentalmente e estruturalmente diferentes das "Leis do livre Mercado" ou dos "princípios da nova ordem mundial". suas incertezas. mas generalizam rapidamente para toda uma nova maneira de enxergar e se relacionar com o mundo e a vida. incluindo ai o professor ou o autor do livro didático. Parece-nos que não é dessa maneira que a educação ocorre nas escolas de formação básica. como um grande físico. Ao contrário. economia ou estratégia militar. por exemplo. Uma educação científica geral apoiada nesses princípios possibilita aos alunos distinguir e limitar as noções estudadas aos domínios em que são formuladas. suas angústias.. os estudantes. por exemplo. mas somente no que diz respeito aos seus trabalhos em eletrodinâmica ou relatividade e não considerá-lo um "gênio" em todo e qualquer assunto. É importante para um cidadão comum entender. como em política. É importante valorizar as citações de Einstein. e sempre estando atentos para o domínio de validade dos conceitos da Ciência. a concepção implícita de que os especialistas. denunciando seus conflitos. parecem adquirir percepções instáveis.

recorrem a livros e outros 8 Por exemplo.Conhecendo os especialistas 90 conhecimentos e "resolve" autoritariamente de forma antecipada e dogmática todas as escolhas importantes. descrita por ACP: lembro-me que quando estava na quarta série do antigo primeiro grau uma professora de ciência entrou certo dia em nossa classe. Ao apresentarmos novas concepções. pois ela era a professora que eu mais gostava. conceitos ou conhecimentos aos estudantes nunca conseguimos nos libertar totalmente da impregnação de uma verdade potencial embutida em nossos argumentos. e começou a explicar coisas sobre a ciência que me pareceram muito estranhas e contraditórias. Levantei a mão e ela disse-me para ficar quieto. Fiquei surpreso e angustiado. . logo deve ser verdade.o que o professor diz parece absurdo. Aqui cabe menção a outra ilustrativa situação de experiência pessoal. . ao incluir o argumento da torre na discussão sobre a imobilidade da Terra defendo enfaticamente que a Terra não se move contrariando a informação corrente sobre a mobilidade da Terra. mas ele é o professor. é melhor ficar do lado dele! . Atualmente em minhas aulas incorporei essa atividade8 (incluir defesas absurdas e incoerentes em algumas de minhas exposições) o que me parece trazer bons resultados. Ao final de longos trinta minutos a professora irritada comunicou-nos que a aula havia sido um "blefe" e as coisas que ela disse eram absurdas frente ao que vínhamos estudando.pensa o aluno. Lembro-me do imenso esforço que realizei naquele dia para acompanhar as idéias expostas a ponto de ficar com uma tremenda dor de cabeça. Mas não é tarefa simples abdicar de fazer as escolhas pelos outros quando estamos de posse da autoridade conferida à função de professor. ficam um pouco mais livres e atentos para analisar minhas idéias. Os alunos são levados sempre a desconfiar do que eu estou dizendo e. muitas vezes. em minhas aulas. Pena que alguns. um pouco mal humorada. de certo modo.

do mesmo modo um racionalista [ou um aluno que se prenda à razão do professor] bem ensinado obedecerá à imagem mental de seu "mestre". observará os modelos de argumentação que aprendeu. e será incapaz de se dar conta de que aquilo que considera como a "voz da razão" é apenas um efeito causal posterior do Ensino que lhe foi ministrado.9 Quanto à escolha de valores. cabe ainda acrescentar outros elementos da dimensão externa ao conhecimento científico propriamente dito. além de desenvolver um forte senso crítico corresponde a uma interessante estratégia de Ensino. para ampliar a relação entre a concepção social de especialista e a educação científica. 32. Será incapaz de descobrir que o apelo da razão a que cede tão prontamente não passa de uma "manobra política". FEYERABEND. aderirá a esses modelos por muito confuso que se sinta. atitudes.Conhecendo os especialistas 91 professores mais "honestos" para resolver meus embustes. permite evitar que: tal como um cachorro bem ensinado obedecerá ao seu dono por mais confuso que se sinta e por mais urgente que seja a adoção de novos critérios de comportamento. É preciso lembrar que a Física está 9 Paul K. mas a maioria dos alunos parece gostar do jogo. ou seja. conteúdos e elaboração das atividades a serem objeto do Ensino de Ciências e da Física na escola básica. Mostrar a eventual falibilidade dos especialistas e peritos e tentar diminuir a rigidez da autoridade do conhecimento durante a educação científica no nível básico de Ensino possibilita uma maior distinção entre a força lógica e o efeito material do conhecimento científico. O esforço de convencê-los com argumentações recorrentes e utilizar a Física para esse processo. p. Contra o Método. .

mas também. coordenadores. conteúdos. Que fazer quando um aluno traz uma questão não considerada no planejamento das aulas mas de fundamental relevância para a continuidade de estudos de um determinado assunto? Ou como agir frente a um acontecimento inesperado seja. ditados de forma autoritária sobre os professores é a definição pela escola de seu projeto político pedagógico envolvendo não só os professores. parâmetros. com a realidade da comunidade a que se destinam. as propostas de especialistas em educação não se ajustarão ao contexto de uma instituição escolar específica e. que não compete somente aos professores. em última instância. os detalhes finais de como ensinar a resolução de problemas em matemática. por esse motivo. a comunidade em que a escola está inserida. por exemplo. o ataque ao World Trade Center ou a inundação de parte da escola pelas chuvas recentes? Quem melhor para decidir. serão artificiais e enganadoras. em primeiro lugar. Também um monitoramento rigoroso ou uma sistematização exaustiva do processo educativo ou ainda a limitação a um sistema pedagógico rígido pode matar as reais oportunidade de Ensino. e fundamentalmente. diretores ou qualquer dos outros especialistas da educação definir o que se deve ensinar. ou como se deve ensinar. a Química e as outras disciplinas Humanas e Sociais e mais ainda.Conhecendo os especialistas 92 presente junto com a Biologia. objetivos e outros parâmetros para a organização da educação escolar devem dialogar sempre. ou a incorporação de regras . Caso contrário. Os currículos. orientadores educacionais e outros agentes da escola. planejamentos. Toda instituição de Ensino está imersa em uma comunidade e seu contexto sócio-cultural que deve ser explicitado e discutido por todos os agentes e atores do processo de Ensino. Muito mais adequado que um conjunto qualquer de valores.

muitas vezes conflitantes. por exemplo. e muitas vezes o é. e assim por diante. Em nossa concepção. ou a contextualização histórica de um fato se não os professores envolvidos diária e arduamente nesta tarefa? Um professor de matemática ao ensinar subtração. nenhum modelo de Ensino pode produzir padrões e elementos estruturais absolutos que sirvam a todas as situações de Ensino. da instituição a que pertencem. mas sempre devem considerar as peculiaridades da situação em que estão atuando. não estamos propondo a eliminação dos especialistas. das necessidades de seus alunos. ao professor cabe educar e ensinar. . os professores podem se servir de diferentes pesquisas em educação. "modelos pedagógicos gerais" ou "parâmetros curriculares nacionais" para a organização de uma dada aula sem levar em conta as reais necessidades dos alunos que compõem uma classe dentro de uma determinada escola? A prática de cada especialista tem suas peculiaridades próprias no contexto social e institucional no qual está inserido. Mas também em educação. Ao médico cabe curar e orientar para a saúde. ao jardineiro cabe cuidar do jardim. por várias maneiras diferentes de resolver as contas. pode ser surpreendido. E por que não aproveitar o procedimento trazido pelo aluno e estimulá-lo a apresentar ao restante da classe? Existirão referenciais absolutos que justifiquem “teorias educacionais oficiais”. a função das pesquisas em educação não é a de estabelecer um referencial preciso sob o qual o professor deve guiar-se rigidamente ou limitar sua prática de atuação. quando confrontados com um problema concreto em sala de aula.Conhecendo os especialistas 93 gramaticais na escrita.

E. humanizantes e determinadas por uma proposta político pedagógica coletiva. ao ouvirem a nossa história. A educação científica no âmbito escolar deve representar uma componente importante de um projeto político pedagógico livrando-se da rigidez de procedimentos pedagógicos pré determinados. sentir-se-ão impelidos a pôr de lado as "teorias educacionais da moda" e os "princípios psico-pedagógicos rígidos" e começar a pensar em formas próprias. desde que sejam respeitados certos valores sócio-culturais discutidos e estabelecidos no âmbito da . Ao estudarem nossos trabalhos teóricos ou experimentais. deste modo. mais criativas. organizar exemplos históricos. demonstrar a complexidade das relações de Ensino e prepará-los. em muitos casos. e contribuir para envolver a comunidade escolar na escolha do modo de trabalhar. os professores e os outros atores do processo educativo ficarão sensibilizados para a riqueza desse processo e as peculiaridades do Ensino de Ciência.Conhecendo os especialistas 94 É preciso ainda garantir a formação e o acesso permanente à informação oferecidos aos professores. permitir fórum de debate entre professores de áreas afins ou simplesmente garantir a assinatura de revistas e jornais pela biblioteca escolar são "medidas pedagógicas" significativas. é somente assim que podemos ajudá-los. o melhor que um trabalho de investigação em Ensino de Ciência pode fornecer para os professores é explicitar contextos institucionais. Se quiserem promover avanços e transformar seu modo de Ensino. Assim. enumerar atividades práticas. resgatar os valores socialmente estabelecidos para a escola. para as dificuldades de que só eles poderão decidir como enfrentar. parâmetros curriculares gerais ou pretensas teorias educacionais modernas. enriquecer os programas das licenciaturas. apresentar casos estudados que contenham processos diversos.

libertação ideológica e valorização da cultura agregando ou questionando valores representativos da sociedade na qual ela se insere. diretores. de acordo com a proposta político pedagógica das instituições que compõem. experiências e espaços de troca entre professores. é disponibilizar um máximo possível de recursos. em cada momento de uma aula. os professores. mas esta aflição não é legítima da perspectiva dos professores e de outros atores educacionais nas instituições de ensino que são aqueles que têm as reais condições de. possam a cada instante decidir. Para que eles. Esse modo de organizar a orientação de professores pode afligir alguns teóricos e especialistas da educação por estarem preocupados em melhorar a pretensa eficácia dos procedimentos de ensino.Conhecendo os especialistas 95 instituição de Ensino a que pertence e desde que esta instituição de Ensino esteja de acordo com uma política de conscientização crítica. . decidir a forma de ensinar. em cada aula. coordenadores ou assistentes pedagógicos no que se refere as práticas em sala de aula. para cada situação. e. A função dos especialistas em educação. como representantes de tradições culturais oriundas do saber que lhes cabe ensinar. alunos e a comunidade.

102. mas a faculdade de julgar é um talento particular que não pode ser ensinado. algumas perspectivas educacionais para a formação em Física no nível Superior de Ensino. Tendo em mente esses elementos. p. Na seção anterior ao discutir a função do "especialista" na sociedade contemporânea. especialmente no que se refere ao conflito entre aprender e obedecer às regras metodológicas nas quais são inseridos ao longo de sua formação e duvidar e ousar ou questionar essas mesmas regras e preceitos.1 Passamos a analisar. Insistimos no fato de considerarmos que a formação desses profissionais só pode ocorrer em um ambiente de pesquisa com uma máxima diversificação de grupos estabelecidos e 1 Immanuel KANT. já indicamos algumas peculiaridades de sua atuação como tal. . Obediência versus Ousadia na formação científica O entendimento é capaz de ser instruído e abastecido por regras. nesta seção. Estamos interessados na relação do estudante de Física do nível superior (aspirante a físico ou a professor de Física) com os métodos científicos.3. na educação básica e no Ensino de Física. Crítica da razão pura. os modelos epistemológicos e principalmente com o convício na prática de diferentes grupos de pesquisa. passamos a analisar a formação científica dos especialistas em Física. mas somente exercitado.

de exemplos apropriados. o debate e a discussão da Física e de seu Ensino entre os estudantes. Nas situações de conflito costuma-se simplesmente ignorar o conhecimento prévio do aluno em favor do saber científico..19 .2 Já mencionamos anteriormente que os estudantes não são conceitualmente neutros. a Física escolar acaba por ficar alijada das dimensões filosófica e histórica que conferem à Ciência o caráter de tradição cultural. p. o conhecimento científico adquirido na escola é apresentado.. com a autoridade do professor e do livro-texto. conforme denuncia Villani: . numa forma já final.pelo menos nas séries iniciais. 2 Com essa ressalva estamos restringindo nossa discussão à formação realizada nas universidades que associam pesquisa e ensino em oposição às muitas "escolas de ensino superior" que têm surgido recentemente no Brasil. Ensino de Física: dos fundamentos à prática. 3 Alberto VILLANI. na melhor das hipóteses. Nas atividades de sala de aula e de estudo individual surgem conflitos entre o conhecimento trazido pelo estudante e o conhecimento da Física . É o que normalmente acontece no Ensino de Física. assim. antes dos estudantes cederem à autoridade do discurso do professor. ou seja. a vivência. abstrata e sistematizada.3 Com uma concepção de conhecimento definitivo e autoritário ficam eliminadas algumas dimensões importantes da constituição e natureza do saber científico. Desse modo. ao chegarem à escola trazem conhecimentos adquiridos em outras tradições de sua experiência de vida e das relações desenvolvidas de todo seu convívio no mundo que o cerca.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 97 atuantes possibilitando. corroborada.

Refere-se ao importante resultado. na medida que expressam de maneira rudimentar intuições básicas sobre a natureza que poderão substituir as imagens básicas atualmente utilizadas pela ciência. 5 Alberto VILLANI.23 . além de sua importância didática. Este ponto também é discutido por Villani ao sugerir que essas idéias não têm somente um papel negativo. outro exemplo é a luta entre as visões heliocêntrica e geocêntrica do mundo. implicar em uma completa superação de uma teoria sobre a outra. sem uma "vitória final" de uma sobre a outra. Os cientistas oscilaram (ou saltaram?) entre uma descrição e outra em diferentes períodos históricos sem. Um exemplo interessante foi a oposição entre as teorias ondulatória e corpuscular para a natureza da luz. elas têm também um valor teórico. Além de ter um valor prático. dessas duas visões de mundo serem ainda hoje totalmente equivalentes como na dualidade onda-partícula. possui um valor fundamental para a vida e ainda para a própria Ciência . aprendidas pelos alunos antes do estudo escolar.4 Manter o confronto entre as concepções prévias dos estudantes.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 98 Encontramos várias situações na história da Ciência em que o confronto entre idéias concorrentes ao invés de inibir permitiu uma interação construtiva e contribuiu para o avanço da compreensão Física dos fenômenos envolvidos. contudo. de acordo com os princípios da mecânica relacional. p. como possíveis alternativas ao saber científico atual.5 4 Este exemplo será analisado em detalhes na seção seguinte. e as noções científicas. auxiliando às vezes a solução rápida de problemas cotidianos.se concebida como uma tradição cultural: a constatação dessas idéias prévias serem as fontes iniciais de intuições para o conhecimento científico. Ensino de Física: dos fundamentos à prática.

é constituída de "pingos" de energia. no começo deste século [-referese ao séc. Quando identificados devem ser aprofundados pelos alunos de modo a serem considerados e não ignorados e de alguma forma respeitados durante o Ensino. 6 A partir da análise desse caso. XX] Einstein [que poderia ter sido aquele menino com sua visão poética da natureza] propôs. e com boas razões.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 99 Cabe ressaltar que as noções trazidas pelos alunos não surgem naturalmente e são fruto de conhecimentos de outras tradições. muito . Para esclarecer esse aspecto positivo da sobrevivência do conflito entre concepções prévias e teorias científicas para o desenvolvimento da Ciência. Entretanto. a idéia de que a luz. mesmo os mais finos. ou mesmo de fragmentos de conceitos da Física difundidos nos ambientes familiar e outros espaços sociais freqüentados pelos alunos. Villani cita um exemplo muito interessante de uma criança de quatro anos que. Villani propõe uma postura mais equilibrada frente aos conflitos de conhecimentos em sala de aula ao atribuir um valor precioso aos conhecimentos prévios dos alunos. em última análise. feita de pingos muito pequenos que passam por todos os buracos. respondeu: A luz é como a chuva. mas muito distante e oposta à idéia científica reinante de que a luz é uma onda eletromagnética continua. Essas idéias são de grande importância em situações em que existam conflitos com o saber científico. ao ser interrogada sobre o que era a luz. como faz notar ao afirmar que: Certamente no final do século passado um professor teria achado esta idéia poética [a da luz em forma de pingos].

24. a tarefa de optar pelo saber científico em detrimento de suas intuições prévias tornando-se assim senhor do seu saber e não (re)transmissor de idéias alheias. capazes de entrar no interior dos materiais e interagir com seus átomos (. ao contrário. precisa estimular o aprendizado da Ciência a partir do esclarecimento dessas concepções em debate "aberto" com as noções da Ciência. muitas vezes. e não ao professor. Ensino de Física: dos fundamentos à prática. Ensino de Física: dos fundamentos à prática. naturalmente existentes de forma latente e intuitiva ou que surgiriam em manifestações espontâneas. Não estamos com isso propondo que os estudantes não devem aprender Ciência e ficar com seus próprios modelos. p.. mas ao contrário. que eles precisam aprender a conviver com o conflito entre suas concepções prévias e as noções 6 Alberto VILLANI.23 Cf: Alberto VILLANI. ao invés de expressões como conceitos intuitivos ou concepções espontâneas por considerar que estas últimas transmitem a idéia de conhecimentos do mundo natural passíveis de serem inferidas de experiências puramente empíricas do cotidiano.. ou que não devem ser avaliados quanto ao aprendizado do saber científico.) a percepção de que muitas das idéias espontâneas [melhor dizendo. 7 .7 A idéia de que as concepções prévias têm algum valor para a Ciência e sua associação com a compreensão de que as verdades científicas são provisórias constitui o elemento principal da análise que estamos desenvolvendo nesta seção. ao estudante. o progresso científico se deu retomando imagens simples do passado [e de que a ciência é uma tradição histórica e não uma verdade acabada]. A formação científica não pode eliminar as concepções prévias dos estudantes mas. concepções prévias] sobre o mundo físico constituíram a base inicial do conhecimento científico do passado e de que. Utilizamos a expressão concepção prévia para os conhecimentos acumulados pelos alunos antes do início do ensino escolar de ciência. poderá ajudar professores e estudantes a ter uma posição mais equilibrada sobre o valor do conhecimento espontâneo [ou conhecimento prévio].Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 100 pequenos. p. Caberá sempre.

de maneira a perceber a forma como suas concepções permeiam as respostas dadas aos problemas propostos pelo professor e pela vida. Além da natural inserção neste processo de duas faces. obedecer para saber ousar. para assim propiciar um refletir sobre esse processo. . de modo a compreender melhor a ambas. Suspeitar que os erros e dificuldades do aprendizado são conseqüências do conflito entre uma intuição mais profunda sobre a natureza e aquela oferecida pela Física pode facilitar. consideramos fundamental ao longo da formação em Física um refletir sobre esse processo de inserção. o medo e a dúvida para identificar a paixão. estar atento para aproveitar as oportunidades. em algum momento da formação (melhor seria ao longo de toda ela). compreender as noções científicas para imprimir-lhes nossas concepções. A possibilidade latente de transgredir as regras acrescenta um "tempero" especial permitindo manter o entusiasmo frente às tarefas corriqueiras.. Na formação científica é preciso considerar as duas "faces do jogo": conhecer o "outro" para reconhecer o "eu". superar a indiferença para manter o entusiasmo. imitar para desenvolver a criatividade. como os de Popper. Conceber a formação científica como jogo entre obediência e ousadia dá maior fôlego aos estudantes naqueles momentos em que atuam nas tarefas mais chatas e entediantes que antecedem a compreensão da Física.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 101 científicas.. admitir o ódio. e ainda. ou outros. Laudan. que devem ser avaliados e se avaliarem. Kuhn. a coragem e a certeza. Por isso. Bachelard. é fundamental a apresentação de modelos epistemológicos. quando se estabelece contato com uma comunidade diversificada de pesquisadores. um aprofundamento dos conceitos estudados. ou pelo menos estimular.

das filosofias da Ciência (mais de uma para que não se torne uma diretriz dogmática) e. . teria ocorrido. A resistência oferecida pelo grupo frente às idéias individuais gera o primeiro "campo de batalha" que novas teorias têm de enfrentar se quiserem substituir os padrões científicos amplamente estabelecidos. quando possível. tanto no presente como no passado. Um maior entendimento do conteúdo de uma dada teoria científica só pode ser obtido com o seu confronto com outras teorias. Isso. religioso. serão resolvidas as maiores dificuldades entre os conflitos do conhecimento e outras ainda surgirão em função do reconhecimento mútuo de 8 Cabe mencionar aqui que parece ter sido esse o caso quanto à mecânica relacional. Enfatizamos que a existência de grupos de estudos ou pesquisa e a "obediência" ao professor ou orientador é indiscutivelmente importante para a formação científica. dos debates atuais sobre os limites e as fronteiras do conhecimento científico (contemplando propostas alternativas ou polêmicas)8 em aulas. ainda quando estudante de graduação. segundo ele.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 102 Enfatizamos a importância de incluir aspectos da história (inclusive com teorias que foram tradicionalmente superadas pela Ciência estabelecida). O objetivo da formação científica não pode ser o de destruir as concepções prévias dos estudantes sobre o mundo físico chocando-as autoritariamente com as idéias da Física. seminários e debates da formação em Física. O professor André Assis disse em um seminário realizado na USP ter sido estimulado à busca de uma mecânica alternativa pela incompreensão do referencial sobre o qual se descrevia a força de Lorentz. Nessa ocasião. e as teorias para o contraste devem ser procuradas onde quer que estejam disponíveis. metafísico e humano. Neste sentido é que entendemos as idéias de Feyerabend contra a excessiva simplificação do Ensino das Ciências com a eliminação de seus aspectos histórico.

Somente concepções capazes de resistir ao debate interno ao grupo sairão para o confronto com outros grupos. é preciso compreendê-la em profundidade ou contar com o respaldo de quem já tenha uma firme reputação e experiência estabelecida. a visão de Ciência como tradição cultural e suas implicações também para o Ensino em nível superior. ter paciência e cautela.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 103 idéias entre os membros do grupo. Ilustraremos as idéias aqui apresentadas por meio do estudo da noção de inércia aplicada ao problema do movimento da Terra. ao desenvolver novas idéias. esperamos ter completado. pois. além de tenacidade. concepções prévias e noções científicas. . como discutimos na segunda seção do capítulo anterior. a partir da análise do conflito entre obediência e ousadia. antes de questionar com maior voracidade uma noção científica. Enfim. Mas é preciso. Nestes últimos casos tornar-se-ão importantes elementos como a propaganda e a utilização de procedimentos contra-indutivos.

Dezembro de 2002 . Contraste entre Teorias e Ensino de Física. apresentada ao Instituto de Física e à Faculdade de Educação como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de mestre em Ensino de Ciências .Modalidade Física.SUBSÍDIO IV .O Problema da (I)mobilidade da terra Alexandre Custódio Pinto João Zanetic (Orientador) IV Capítulo da Dissertação: Tradição Cultural.UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO INSTITUTO DE FÍSICA E FACULDADE DE EDUCAÇÃO TEXTO .

É importante entendermos juntos cada uma delas. No lugar do Sol são as estrelas que navegam no céu do Nascente ao Poente. mover-se por sobre nossas cabeças e ao final da tarde se por do outro lado do céu na região chamada de Poente ou Ocidente.105 Vamos juntos fazer uma viagem pelo Universo da Física. A Terra se Move? . chamado Nascente ou Oriente. explorando as muitas formas possíveis de responder à questão do movimento da Terra: A Terra se move? Como podemos nos certificar? Apresentamos no texto que segue várias concepções conflitantes sobre essa questão. ou seja. a realização das atividades sugeridas. Em um período complementar ao dia observamos a noite. Para isso será preciso. um esforço de evitar pré-concepções. Vamos lá? O Sistema Geocêntrico de Mundo Durante o dia ao olhar para o céu observamos o Sol nascer de um lado. com um pouco de (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 1. elas giram todas juntas ao redor da Terra e por isso em seu conjunto foram batizadas de estrelasfixas (em observações modernas verifica-se que estas estrelas não são exatamente fixas entre si). além da leitura. a realização das pesquisas e a leitura dos textos sugeridos para aprofundamento. Ao observarmos esse movimento das estrelas não descobrimos a princípio nenhuma modificação nas posições de uma estrela em relação às outras. Grupos de estrelas fixas associadas.

no entanto. ainda hoje.106 imaginação. Esse movimento em sentido contrário ao conjunto das estrelas-fixas é chamado de movimento retrógrado. Considerando que observamos nitidamente o movimento do Sol de dia e das estrelas à noite em torno da Terra. algumas "estrelas" que não obedecem de igual modo esse movimento noturno nos céus e foram batizadas de "astros errantes" ou "planetas". formaram o que chamamos de constelações. quando realizamos medidas do céu a partir da Terra (Astrometria e Mecânica Celeste). é muito conveniente adotar um sistema de coordenadas em que nós estamos sobre a Terra e juntos com ela em repouso no centro do Universo (Observação Topocêntrica). além de não acompanharem o movimento das outras estrelas. em determinadas épocas do ano. Segundo o Geocentrismo. Noite após noite observamos o conjunto das estrelas-fixas aparentemente girarem ao redor da Terra. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . a Terra ocupa uma posição central no universo e todos os corpos giram ao seu redor. Por exemplo. inicialmente. chegam até a deslocarem-se no céu em sentido contrário. Há. Essa proposta foi sistematizada pelo Grego Ptolomeu no segundo século depois de Cristo. para a localização em alto mar utilizase o movimento das estrelas com o auxílio de mapas astronômicos. Em alguns casos. A descrição geocêntrica não é a única possível. propor o mais "simples" dos sistemas de mundo: o Geocentrismo. parece razoável. Todas essas observações ao longo de milênios preocuparam os homens e os levaram a especular sobre a estrutura do Mundo. Os planetas.

passamos a considerar o Sol parado e a Terra girando ao seu redor. A concepção heliocêntrica do mundo permite para alguns problemas simplificar bastante a descrição do movimento. por esse motivo. no caso da determinação da órbita dos planetas. casas. Também à noite. De igual modo. No entanto.107 O Sistema Heliocêntrico Quando estamos em um veículo que se move com velocidade constante (um trem. um automóvel. podemos ainda levar em conta uma segunda concepção de mundo com uma descrição um pouco mais abstrata: o sistema Heliocêntrico do Mundo. como sabemos. como no caso do movimento das árvores que observamos dentro de um carro em movimento. constatamos que esse é somente um movimento aparente. Sabendo que estamos em um veículo. para as observações do movimento das estrelas e do Sol. é que observamos esse movimento aparente do conjunto das estrelas. praticamente evitamos o movimento de vai- (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . mover-se por sobre nossas cabeças e ao final da tarde se pôr do outro lado do céu (no Poente). ou seja. postes e tudo o mais que está à beira da estrada se deslocar da frente para trás do veículo. nos acostumamos a utilizar a observação do movimento dos objetos externos como indicador de que nós é que estamos nos movimentando. observamos as estrelas aparentemente se deslocando no céu entre o Nascente e o Poente. pessoas. etc) observamos árvores. Por exemplo. Mas. é a Terra que está girando. Ele parece nascer de um lado (Nascente). uma carroça. Durante o dia ao olhar para o céu observamos o movimento aparente do Sol. e. sabendo que a Terra se move.

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e-vem no céu (movimento retrógrado). No sistema heliocêntrico, a Terra não ocupa uma posição central no universo. Essa posição privilegiada passa a ser ocupada pelo Sol. Esse sistema foi aprimorado pelo polonês Copérnico, no

século XVI, que se inspirou nas concepções de antigos gregos, dentre eles Aristarco, e do cardeal medieval Nicolau de Cusa.

Velocidade de rotação cinemática

A partir das observações astronômicas medimos o período (T) de um dia como sendo de aproximadamente 24 horas (86.400 segundos) e assim podemos calcular a rotação cinemática da Terra (ωk):

ωk =

2π ≈ 7 × 10 −5 s −1 T

Esse cálculo vale tanto para o sistema Geocêntrico como para o Heliocêntrico, com a diferença de considerarmos a rotação das estrelas-fixas ou da Terra respectivamente. Essa velocidade é denominada cinemática por ter sido obtida apenas a partir das posições e dos tempos ocupados pela Terra. Além da rotação relativa entre a terra e o conjunto das estrelas-fixas conhecida desde Ptolomeu, hoje em dia, dispomos de duas outras formas de observar a rotação cinemática da Terra e, conseqüentemente, obter o valor de ωk: a rotação da Terra em relação ao conjunto de Galáxias distantes e a mais moderna das rotações cinemáticas para a Terra, sua rotação em relação à radiação cósmica de fundo - CBR (sigla de Cosmic Background Radiation).

(i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

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A radiação cósmica de fundo é bastante isotrópica, isto é, ela é igualmente distribuída em todas as direções do céu. Mas, como a Terra gira em torno de si mesma, segundo uma concepção heliocêntrica ampliada, ou o universo como um todo responsável pela radiação, gira em torno da Terra, segundo a concepção geocêntrica, surgem desvios Doppler que podem ser detectados e medidos para a determinação de ωk.

Equivalência cinemática entre os sistemas de mundo

Nenhuma das quatro formas de medir o movimento de rotação da Terra (movimento relativo em relação ao Sol, movimento relativo em relação às estrelas-fixas, movimento relativo em relação ao conjunto das Galáxias distantes e movimento relativo em relação à radiação cósmica de fundo) permite escolher entre os sistemas heliocêntrico ou geocêntrico do mundo. O geocentrismo, o heliocentrismo ou qualquer outro sistema que se baseie apenas em grandezas cinemáticas são equivalentes para descrever a aparência do movimento dos céus. Não é possível responder a questão da (i)mobilidade da Terra a partir de descrições astronômicas puramente cinemáticas. Assim, verificamos que não é possível resolver o problema da (i)mobilidade da Terra a partir das observações do movimento aparente das estrelas-fixas ou de outra descrição cinemática e astronômica. Escolher entre o sistema geocêntrico e o heliocêntrico, tendo por base somente estas observações, é mera questão de gosto, ou de simplificação dos dados. Até aqui não há definição para a resposta do movimento da Terra.

(i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

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2. Ciência, Religião, Mitos e Lendas (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

Vamos explorar uma segunda forma de responder a questão do movimento da Terra, a partir da realização de uma atividade de pesquisa.

Com o propósito de investigar as mais diferentes fontes de informação possíveis, sugerimos uma atividade de pesquisa e estudo. Essa atividade será tanto melhor quanto mais pessoas puderem participar e quanto mais fontes disporem.

1) Busque em fontes não científicas (folclóricas, religiosas, místicas, lendas, contos, letras de música, textos literários, tradições indígenas, ficções científicas, etc...) informações que ajudem a responder a questão do movimento da Terra. Além das respostas procure identificar quais são seus pressupostos, ou seja, em que se baseiam as informações e a forma como foram obtidas.

2) De posse das informações organize-as em grupos. Primeiro, quanto à resposta propriamente dita (a Terra move-se ou não?); a seguir, quanto à forma como foi obtida a resposta à questão do movimento da terra nas fontes pesquisadas (observação, experimentação, analogia, revelação, etc).

3) Troque suas informações, relate e registre suas impressões sobre o maior número possível de respostas disponíveis.

4) Guarde sua produção e reveja-a durante e ao final da leitura deste texto.

. Passa a lua na janela. Adeus para sempre.. Fico olhando para o Céu. Deito-me ao fundo do barco. passa estrela. Que silêncio faz o Céu! Adeus. E o quarto.111 5) Aprecie o poema Canção da Janela Aberta... reproduzido a seguir. Cidade Maldita que lá se vai o teu Poeta. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . de Mario Quintana.. Canção da Janela Aberta Passa nuvem. pela noite Imensa e triste... identificando as estrofes que se referem ao movimento da Terra ou das Estrelas em torno dela... assim. navega. Amigos.. Vou sepultar-me no Céu!. Sem mais cuidados na terra.

112 Passamos a estudar um argumento histórico favorável à resposta de que a Terra não se move. não era em nada simplista. interpretar de forma parcial ou desrespeitar os escritos dos filósofos geocentristas que se opuseram à imposição do sistema heliocêntrico do mundo. defendida à época de Galileu. Eles foram vencidos pela propaganda de uma nova ciência. Os aristotélicos desenvolveram sofisticados argumentos contrários ao movimento da Terra. Ao contrário do que costuma ser difundido. é preciso fazer o esforço de se colocar no lugar dos personagens e no tempo em que ela se originou para compreendê-la de forma mais ampla e aceitar sua legitimidade. Mais que entender uma noção científica. como veremos mais adiante. Os argumentos contrários ao heliocentrismo não foram resolvidos em confrontos lógicos e racionais. Era uma física altamente refinada e fortemente apoiada em dados empíricos. utilizado pelos ptolomáicos para justificar o repouso do nosso planeta. A Terra está parada no centro do Universo? Conhecer episódios da História da Ciência nos permite investigar a origem do modo como atualmente a Ciência concebe seus conceitos e responde suas grandes questões. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 3. a física aristotélica. à luz das concepções aceitas atualmente. totalmente coerentes com a visão reinante em sua época. que minou as forças dos defensores da concepção geocêntrica do mundo. descrevemos o Argumento da Torre. Não podemos simplesmente. O Argumento da Torre . Com o intuito de ilustrar um desses argumentos contrários ao movimento da Terra.

Segundo essa idéia. a velocidade de rotação da Terra. p. Dialogue. convenceu muitas pessoas à época dos geocentristas. Porque. Mas. caso a pedra se desvie será possível determinar. Tal é um argumento considerado irrefutável em favor da imobilidade da Terra. será preciso aceitar que a Terra não está em movimento. Esse argumento é bastante forte e seu resultado. uma torre de cujo topo deixássemos cair uma pedra. antes de prosseguirmos nossa viajem e revelarmos qual o desfecho dessa história. viajaria muitas centenas de jardas para leste durante o tempo que demorasse a queda da pedra.113 O Argumento da Torre: a observação mostra que os corpos graves caindo de cima tomam uma linha direta e vertical até à superfície da Terra. (GALILEU. e a pedra atingiria a Terra a essa mesma distância da base da torre. a pedra não se desvie durante seu movimento de queda. se ela tivesse a rotação correspondente diária. baseado em dados de observação. ou seja. a partir da medida do desvio. Caso contrário. é preciso responder com convicção a pergunta: onde a pedra realmente cai? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .126) Esse argumento propõe um experimento que corresponde a deixar cair do alto de uma torre ou prédio uma pedra e verificar a que distância da linha vertical a pedra se desvia para o lado leste. sendo transportada pelo girar da Terra.

Para o caso da Terra não possuir movimento de rotação d esperado deveria ter valor nulo (d = zero). Então vamos calcular! A pedra é solta de uma altura h do alto de um prédio. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 4. h' e h". Assim na figura 1: d é maior que d' que é maior que d". se a Terra estivesse parada a pedra cairia perpendicular ao prédio.114 Considerando válido o argumento da Torre. Vamos considerar três valores para a altura h (ver figura1): h. Figura 1 Segundo o Argumento da Torre. é possível calcular o desvio que uma “pedra” sofreria durante sua queda de um prédio devido ao movimento leste-oeste da Terra? Sim. a pedra deve ser desviada de uma certa distância (d. no entanto. e admitindo que a Terra possui movimento diário de rotação. Quanto maior h maior será d. d' e d") de sua posição original por conta do movimento da Terra. Onde a Pedra cai? .

Admitindo uma aceleração da gravidade g constante e que a pedra foi abandonada em repouso no alto do prédio. h’ e h”) vo é a velocidade inicial da pedra (no caso nula) a é a aceleração da gravidade local (g de aproximadamente 9. devido ao movimento da Terra.115 Vamos calcular qual deve ser o valor de d em função de h? Como podemos a partir da altura do ponto em que a pedra é solta obter o valor do desvio esperado devido ao movimento da Terra? Em primeiro lugar. teremos um movimento uniformemente acelerado dado por: h − ho = v o t + 1 2 at 2 (1) onde: h – ho = h é a altura do prédio (h. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .8 m/s2) t é o tempo de queda da pedra Ficamos então com: h= 1 2 gt 2 (2) t= 2h g (2) Vamos utilizar a equação (2) para calcular o possível deslocamento da pedra. precisamos obter o tempo de queda da pedra.

r V : Velocidade do ponto P ω : Velocidade angular da Terra: r 2π ≅ 7. A velocidade de deslocamento na direção leste-oeste de um ponto P da superfície da Terra (ver figura 2) pode ser obtida por: r r r V = ω × RT (3) Com.400 segundos.400 r RT : Posição do ponto P (Raio da Terra = 6.370 Km) Podemos obter o módulo dessa velocidade dado por: V = ω ⋅ RT ⋅ sinθ (4) (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .116 figura 2 O período de rotação da Terra em volta de seu eixo é de 24 horas ou 86.3 × 10 − 5 s −1 86.

localizado na Cidade de São Paulo: V = ω ⋅ RT ⋅ sinθ V = 7. Para a Cidade de São Paulo. obtemos a velocidade de deslocamento leste-oeste para um ponto da superfície da Terra. obtemos a relação entre a altura em que a pedra é solta e o valor esperado para o desvio da pedra na direção leste-oeste: d ≅ 193 ⋅ h m (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .4 rad. Substituindo os valores na equação 4. sin(1.4x106 m .2) V = 430 m/s Finalmente.2 rad. g Assim.3x10-5 s-1 .117 O ângulo θ corresponde a Colatitude (90o .Latitude).8 m/s2) pela velocidade V de 430 m/s. obtemos a equação do desvio da pedra multiplicando a velocidade V pelo tempo de queda t obtido na equação 2: d= 2h ⋅V ≅ 193 ⋅ h m g (5) O valor 193 corresponde a uma constante para a Cidade de São Paulo obtida pelo produto de 2 (com g = 9. 6. a Latitude é de 23o 33' ou 0. e a Colatitude é dada por θ = 66o 27' ou 1.

deve ser menor. 6) Faça a comprovação. 2) Estime o valor da altura h de cada um deles. (Atenção caso você não esteja na Cidade de São Paulo!) 4) Responda à questão: O desvio de uma pedra abandonada do alto de um prédio na Cidade de Natal.118 Vamos realizar uma atividade para nos certificar dos resultados: 1) Escolha três prédios próximos ao local onde você se encontra. para evitar a resistência do ar e primar pela segurança. 3) Calcule qual deve ser o desvio d na direção leste-oeste de uma pedra abandonada do alto de cada um dos três prédios. considerando o argumento aristotélico da torre. 8) Segundo o Argumento da Torre e de posse dos dados observados e cálculos efetuados o que se pode concluir quanto ao movimento da Terra? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . É importante usar uma pedra o mais redonda possível. 7) Analise seus resultados. solte uma pedra e confira o valor esperado para o desvio. igual ou maior que o desvio de uma pedra que cai do alto de um prédio de mesma altura localizado na Cidade de Florianópolis? Por quê? 5) Obtenha a equação de desvio para uma pedra que cai de uma altura h na superfície da Lua. (Cuidado para não cair do prédio ou acertar a cabeça de algum passante!). Suba ao local mais alto a que tenha acesso com segurança.

É o caso dos paradoxos na Teoria da Relatividade. analogia. 2) Pergunte a outras pessoas. de diferentes níveis de escolaridade. e ainda considerando sua pretensa imobilidade.. mitos e lendas: observação. podem fazer avançar nossa compreensão. se adequadamente explorados. 3) Colecione os argumentos. experimentação... mas que.119 O Argumento da Torre é bastante convincente e por isso um importante instrumento para instigar a busca por mais explicações.. se conhecem argumentos que coloquem em dúvida a afirmação de que a Terra se move.).. mitos e lendas e nos seus novos registros desta atividade (mais argumentos. religião. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 5.. segundo as mesmas categorias usadas na atividade ciência.. ou.. Para o estudo do movimento da Terra. por exemplo. etc. 1) Tomando por base o Argumento da Torre imagine outras situações conflituosas que se originariam do movimento da Terra (por exemplo. propomos uma atividade para encontrar mais argumentos. a dificuldade de um pássaro reencontrar seu ninho. revelação. 5) Qual a diferença entre seus registros na atividade ciência. Organize-os. 4) Classifique os argumentos encontrados quanto à forma como são obtidos.. Mais argumentos. Troque-os com outros. Registre suas respostas. para além de uma aceitação dogmática do movimento da Terra. A ciência está repleta de argumentos e exemplos históricos que aparentemente nos levam a situações de conflito do conhecimento.)? 6) Guarde todos os seus registros para uma retomada mais à frente. religião. . Registre suas impressões..

motivo pelo qual aterrissara na América do Norte. Em primeiro lugar. pássaros e insetos. não nos separamos da mãe Terra.giram junto com o planeta.) O mais Barato Meio de transportes Na sua satírica História dos Estados Lunares (1652). Ao realizar uma experiência certo dia. partindo da França. a terra continuara a girar no sentido do Leste. PERELMAN. considerando os argumentos até agora encontrados. aeronaves. Infelizmente. Permanecemos ainda atados. na realidade. o texto O mais Barato Meio de Transportes do interessante livro Aprenda Física Brincando de J. a França. Ao aterrissar algumas horas mais tarde. Por que cansar com viagens pelo mundo? Simplesmente eleve-se a alguns metros do solo e espere até que o lugar de destino chegue até você. Cyrano de Bergerac descreve um fato espantoso que supostamente lhe teria acontecido. sofreríamos o impacto de um vento com força tão terrível que (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . porque estamos suspensos no envólucro de ar que também participa da rotação axial da Terra. foi suspenso no ar com todas as suas retortas. isto é apenas ficção. Eu diria que é um meio muito barato e simples de viajar! Basta subir e permanecer suspenso alguns minutos para pousar num local totalmente diferente e muito mais a Oeste.nuvens.ou melhor. quando nos alçamos no ar. O ar . pgs 249 e 250. Afinal de contas. arrastando consigo todas as coisas . argumentando que enquanto estava suspenso no ar. (SUGESTÃO: Você também pode usar alguns de seus argumentos para produzir histórias ou contos de ficção que tentem justificar a imobilidade da Terra. Cyrano de Bergerac acreditou completamente na possibilidade de seu vôo transatlântico. surpreendeu-se em não mais se encontrar em seu solo pátrio. Embora pareça estranho. e nem mesmo na Europa. o espirituoso escritor francês do século XVII. se o ar não girasse com o planeta. suas camadas mais densas .120 7) Aprecie e discuta. mas no Canadá.

Na verdade. Um motociclista correndo a 100 km/h enfrenta diretamente uma formidável massa de ar mesmo nas condições atmosféricas mais calmas. mesmo que pudéssemos ascender ao topo da atmosfera ou se a Terra não tivesse absolutamente invólucro algum de ar. o que é Inércia? É o que precisamos ter uma noção. Não haveria diferença alguma. É o mesmo que dar um salto dentro do vagão de trem em movimento. quando nos separamos da superfície da Terra em rotação. ou se o ar permanecesse imóvel enquanto nos movêssemos nele. sentiríamos o mesmo vento vigoroso. Vamos lá? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . traçaria um arco. Em pequenos intervalos de tempo. a nossos pés. Saltamos e descemos novamente no mesmo lugar. enquanto a Terra. com a velocidade com que a Terra se move abaixo de nós. por causa da inércia.121 comparado a ele o pior dos ciclones pareceria uma brisa suave (um ciclone ou furacão move-se com a velocidade de 40 m/s ou 144 km/h: na latitude de Leningrado. De fato. contudo. não poderíamos nos beneficiar com o barato método de viajar imaginado pelo humorista francês. a Terra nos transportaria pelo ar com a velocidade de 230 m/s ou 828 km/h). se permanecêssemos imóveis no ar em movimento. continuamos por inércia a nos mover com a mesma velocidade . por exemplo. nós executamos um movimento retilíneo (segundo uma tangente). Mas então. este fato pode ser desprezado. Por isso. Em ambos os casos.isto é.

da noção de impetus usada para explicar o movimento de um projétil (uma pedra atirada no ar). Essa constatação observacional é de grande importância para muitas situações práticas vivenciadas por todos nós. Essa constatação. A Noção de Inércia . de modo muito mais complexo e sofisticado. da diminuição na velocidade do objeto até o completo fim do movimento. chegam a um fim por conta própria. Por isso. a Lua. um carro.122 Desde criança aprendemos das outras pessoas e nos acostumamos a observar que os objetos. na verdade interrompidos por causas que ignoramos. é a base da Física Aristotélica que vigorou por mais de dois mil anos. esse se gastaria com o movimento. aparentemente natural. em que os astros (o Sol. Aristóteles organizou o mundo em dois tipos de movimentos: o terrestre (imperfeito). parecem tender ao repouso. por exemplo. em que os objetos tendiam naturalmente ao repouso e o celeste (perfeito). ou qualquer outra coisa. até que. parece-nos natural que os objetos em movimento tendam ao repouso. ao seu fim. o projétil atingiria a situação de repouso. uma bola. ao se movimentarem. Treinados pelos outros e acostumados a tais observações admitimos que os movimentos. Quando empurramos uma cadeira. notamos logo uma tendência. É o caso. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 6. as Estrelas) permaneciam indefinidamente em movimento. No sofisticado modelo aristotélico muitas noções complementares foram se agregando para complementar as explicações. O projétil armazenaria sob a forma de impetus a força inicialmente aplicada para lançá-lo.

a menos que algo atue sobre ele imprimindo-lhe uma força. assim permanecerá. uma bola) eles tendem ao repouso. Precisamos agora. aqui. Ela inverte a justificação aristotélica introduzindo novos elementos. Apesar de observarmos as árvores em movimento.123 Podemos assim expressar a explicação aristotélica para o movimento terrestre: quando há força. quando não há força atuando sobre o objeto. mais uma vez. ele mantém seu estado de movimento ou de repouso inalterado. e só há movimento quando há força. mudar nosso ponto de vista quanto às observações dos movimentos terrestres que nos parecem tão naturais. A Inércia é um princípio oposto à concepção de movimento de Aristóteles. Na ausência de atrito os objetos permaneceriam indefinidamente em movimento e não parariam. Na concepção inercial. sabemos que somos nós que nos movemos). Mas. Esse fato pode ser melhor observado ao diminuirmos (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Também. Significa que. se um objeto está em repouso. (uma cadeira. sua tendência natural é permanecer em movimento. por meio de outras forças ocultas que lhe são impressas. as chamadas forças de atrito que existem no contato dos objetos e a superfície sobre a qual se apóiam. Uma noção que permite uma nova visão do movimento é a noção de inércia. a menos que algo externo imprima uma força sobre ele. um carro. há movimento. Estamos lembrados que para se contrapor ao geocentrismo exploramos o heliocentrismo alterando nosso ponto de vista (Reveja o exemplo do carro seguindo em uma estrada. como explicar as nossas observações cotidianas cristalizadas desde a mais tenra idade? Considerando a noção de inércia no caso dos objetos que empurramos. não de modo natural mas. se um objeto está em movimento.

Quando usamos a Noção de Inércia para explicar o lançamento de projéteis. Esse fato tem implicações profundas na maneira como as pessoas olham para os astros e para o céus. Note que a separação aristotélica entre movimento celeste-perfeito e movimento terrestre-imperfeito também se desfaz por conta da introdução da noção de inércia. são como projéteis que nunca caem e ficam em movimento indefinidademente. A noção ou princípio de inércia pode ser enunciado de forma mais elegante como a propriedade segundo a qual a matéria não pode por si própria alterar seu estado cinético. influenciando pensares religiosos. Segundo a noção de inércia é preciso tanta ação para gerar o (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Assim. a atração gravitacional responsável por sua trajetória parabólica e a resistência do ar. não precisamos mais da noção de impetus. só tende ao repouso por conta de forças que atuam sobre ele. culturais etc. Por esse motivo dizemos que a noção de inércia e outras da Física Clássica pertencem a uma nova visão de mundo. atrito. a trajetória elíptica é devida a força de atração gravitacional e a natureza perpétua do movimento em função da ausência de forças de resistência como a resistência do ar. É exatamente essa a situação dos astros celestes.124 o atrito com uma superfície: é mais fácil empurrar um objeto em um piso encerado que em um piso áspero e sujo. O estado cinético é a condição de movimento ou repouso de um dado objeto. no caso. pela inércia: o objeto lançado permanece em movimento e devia mesmo permanecer assim naturalmente. diferente da visão aristotélica. o movimento se estenderia para sempre e em linha reta. Não fosse a resistência do ar e a atração da gravidade terrestre. místicos. etc.

como para atingir o repouso. além da tendência a permanecer parado na ausência de forças externas. a palavra inércia tal qual vem sendo utilizada desde os escolásticos para designar tendência exclusiva ao repouso. No nosso dia-a-dia. igualmente há a tendência de continuar em movimento. é melhor adotar no cotidiano. Para efetuar curvas um objeto também precisa de forças externas que exercem acelerações modificando a direção de seu movimento. segundo o contexto dado. Do ponto de vista da inércia da Física a expressão deveria ser entendida como: enquanto os processos estão parados tendem a ficar parados. por exemplo. na ausência de forças externas além de manter sua velocidade constante um objeto permanecerá em movimento em linha reta. Desse modo. moleza ou apatia. na ausência de forças externas. quando já em movimento. a palavra inércia costuma ser exclusivamente relacionada ao repouso e expressa um sentido de preguiça. mas se começam a andar é difícil pará-los. no sentido da Física Clássica com incorporação das obras de Descartes. Galileu e Newton.125 movimento. Mas. No entanto. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . É importante destacar que estamos discutindo a noção de inércia dentro do contexto da Física e que existem outros contextos possíveis com outros significados para a palavra inércia. Assim. a dificuldade de pôr um carro em movimento não é diferente da de fazê-lo parar. A significação da Física Clássica pode tornar ambígua (com duplo sentido) a expressão: a inércia do sistema judiciário.

Represente (por desenho) cada uma das situações apresentadas no texto. de algum material duro e pesado. propomos mais uma atividade. composto por trechos dos diálogos dos Dois sistemas de mundo. Ela não está horizontal. A seu ver. pratos e talheres e) justificativa do uso do cinto de segurança f) movimento de foguetes 2) Leia o texto a seguir. Mais a frente.: . 1) Dadas as situações a seguir. Simplício e Sagredo discutem sobre o movimento de uma bola sobre uma superfície. em que os personagens Salviati. explique cada uma delas segundo a concepção aristotélica de movimento natural e segundo o princípio da inércia. De acordo com a concepção aristotélica De acordo com a concepção da inércia Diálogos Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo SALV. que como sabemos ajusta-se à forma redonda da Terra. Diga-me agora: Suponhamos que se tenha uma superfície plana lisa como um espelho e feita de um material duro como o aço. como o bronze.. indicando a condição cinética resultante da bola e explicando-a.. e sobre ela foi colocada uma bola perfeitamente esférica. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . de Galileu Galilei1. Por esse motivo Alexandre Koyré e Allan Frankin defende que Galileu definiu somente a inércia circular.126 Para complementar nossa apresentação da noção de inércia. Situação a ser analisada a) lançamento de projéteis b) movimento da Lua em volta da Terra c) patinação no gelo d) puxar uma toalha de sobre a mesa sem derrubar copos. mas inclinada. o que acontecerá quando a soltarmos? 1 Galileu não formulou precisamente o princípio da inércia. em seus diálogos ele explica que a superfície lisa e horizontal considerada neste exemplo pode ser a superfície da água do mar.

.. enquanto permanecesse sobre a superfície inclinada. ao passo que. é preciso uma força para lançar o corpo ou mesmo mantêlo parado. . de forma que um declive mais acentuado implique maior velocidade. SALV. pelo contrário. e quão rapidamente? Lembre-se de que eu falei de uma bola perfeitamente redonda e de uma superfície altamente polida. e com um movimento continuamente acelerado . SALV. Analogamente.: Compreendo perfeitamente. até aqui você me explicou o movimento sobre dois planos diferentes..: Não espontaneamente. surgem diferenças conforme a inclinação do plano seja maior ou menor. afim de remover todos os impedimentos externos e acidentais.. mas ela o faria se fosse puxada ou lançada para cima.: Mas se quiséssemos que a bola se movesse para cima sobre a mesma superfície.. nem qualquer outro obstáculo acidental. SALV.: E se fosse lançada com um certo impulso.127 SIMP. não leve em consideração qualquer impedimento do ar causado por sua resistência à penetração. um corpo lançado com uma dada força se move tanto mais longe quanto menor o aclive. E por quanto tempo a bola continuaria a rolar. acha que ela subiria? SIMP.: . Num plano inclinado para cima.: Muito bem. e o movimento impresso no corpo diminui continuamente até cessar de todo. estou certo de que rolaria espontaneamente para baixo. SALV. Você diria ainda que. o corpo móvel desce espontaneamente e continua acelerando.: O movimento seria constantemente freiado e retardado. nos dois casos. e é preciso empregar uma força para mantê-lo em repouso. e em resposta a sua pergunta digo que a bola continuaria a mover-se indefinidamente. Num plano inclinado para baixo. e duraria mais ou menos tempo conforme o impulso e a inclinação do plano fossem maiores ou menores. SIMP. qual seria seu movimento. num aclive. se houver. e de que amplitude? SIMP. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .. sendo contrário à tendência natural.: Não acredito que permaneceria em repouso.

: Ela teria que se mover nessa direção. Mecânica. Não havendo declive. SALV.: Aqui preciso pensar um instante sobre a resposta. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . uma vez que não há aclive nem declive. se este espaço fosse ilimitado. como no aclive? SIMP.: Mas com que tipo de movimento? Seria continuamente acelerado. Mas se não há razão para que o movimento da bola se retarde.: Não posso ver nenhuma causa de aceleração. SIMP. por quanto tempo você acha que a bola continuaria se movendo? SIMP. Parece-me portanto que o corpo deveria naturalmente permanecer em repouso. por conseguinte.: Parece-me que sim. não havendo aclive. Mas eu me esqueci.. o movimento sobre ele seria também ilimitado? Ou seja. Mas que sucederia se lhe déssemos um impulso em alguma direção? SIMP.: Exatamente. (Moysés. Não pode haver resistência ao movimento. faz pouco tempo que Sagredo me deu a entender que isto é o que aconteceria. não pode haver tendência natural ao movimento. Então. SALV. SALV. desde que o corpo móvel fosse feito de material durável.: Tão longe quanto a superfície se estendesse sem subir nem descer. SALV. e. ou continuamente retardado. perpétuo? SIMP. pgs 67 e 68) 3) Utilize o princípio da inércia para explicar porque o Experimento da pedra que cai de uma torre (Argumento da Torre) não é adequado para provar que a Terra não está se movendo. como no declive.128 Diga-me agora o que aconteceria ao mesmo corpo móvel colocado sobre uma superfície sem nenhum aclive nem declive. ainda menos há razão para que ele pare.: Acredito que aconteceria se colocássemos a bola firmemente num lugar.

identifique e explique os argumentos que podem ser descartados segundo o princípio da inércia. Conta a história que. fique tranqüilo em sua cama e lembre-se de que a terra está girando. O homem que enviou essas cartas foi preso e processado por fraude. Cada um deles recebeu. pelo preço de 25 centavos. PERELMAN. Numerosos simplórios enviaram. pelo Correio. abra as cortinas de sua janela e admire o céu estrelado". depois de ouvir silenciosamente o veredito e de ter pago pesada multa.000 km por dia.o de Paris . assumindo uma pose teatral.o senhor estará viajando a mais de 25. um anúncio oferecendo um agradável e pouco dispendioso modo de viajar. quais são os novos argumentos em favor do (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . uma carta com o seguinte teor: "Senhor. 5) Leia e discuta o texto Contudo ela se move extraído do interessante livro Aprenda Física Brincando. a importância pedida. Contudo ela se move Os jornais de Paris publicaram. repetiu solenemente as famosas palavras de Galileu: "Contudo. À altura do paralelo 49 . de J. Mas.129 4) Retome sua lista/coleção de argumentos em favor da imobilidade da Terra obtida nas atividades anteriores. certa vez. Pg 12. mais tarde. ela se move". o réu. Até aqui a noção de inércia parece eliminar vários argumentos contrários ao movimento da Terra. Se desejar uma bela vista.

130 movimento da Terra? Mostrar não existir nada que prove que a Terra está parada não significa aceitar que ela esteja em movimento. Não é? Vamos continuar nossa viagem visitando mais uma nova noção da Física Newtoniana e buscando elementos para responder a nossa questão sobre o movimento da Terra. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .

131 Para continuarmos estudando o problema da (i)mobilidade da Terra precisamos ampliar nossa compreensão descrevendo melhor o cenário no qual a Terra está inserida. onde a natureza “representaria” os fenômenos físicos. o espaço absoluto seria o “palco”. O espaço absoluto seria aquele que está realmente em repouso e em relação ao qual todos os movimentos devem ser descritos. Na linguagem atual da ciência. É o palco adequado para descrever as experiências. inclusive o princípio da inércia. não acessível aos nossos sentidos. introduzida por Newton. Decorre que um referencial qualquer que se mova com velocidade constante e em linha reta em relação a um referencial inercial é também inercial. foi substituída por uma noção mais genérica denominada referencial inercial. qualquer referencial que se desloque com velocidade constante e em linha reta em relação ao espaço absoluto. além de um referencial que esteja absolutamente em repouso. A Noção de Espaço Absoluto . Assim. Segundo a mecânica de Newton. Mas há uma dificuldade. teremos uma infinidade de outros referenciais inerciais. Se encontrarmos um referencial inercial. A noção de referencial inercial é mais geral que a noção de espaço absoluto por incorporar. a noção de espaço absoluto. Como encontrar um referencial verdadeiramente inercial? Ou como determinar o espaço absoluto? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 7. logo. Um referencial inercial é um sistema de referência no qual são válidas as leis da mecânica de Newton. encontramos em Newton a noção de espaço absoluto. nos livros e artigos de física.

(i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Com as aproximações mencionadas é possível obter medidas para os resultados experimentais bastante precisas. não precisamos. Ou melhor. Por exemplo. já para o movimento da Lua entorno da Terra. como já estudamos. para serem corretamente definidas além de seu valor (módulo) necessitam de uma direção e um sentido. e. em relação a um referencial inercial. a saber: 1) a lei da inércia. 2) o princípio fundamental da dinâmica: r r F =m⋅a r a força resultante sobre um corpo F é igual ao produto da sua massa inercial m r pela sua aceleração a . usualmente adotamos o referencial das "estrelas-fixas" como (aproximadamente) inercial e assim por diante. A força e a aceleração são grandezas vetoriais. não podemos. para o movimento de pequenas massas sobre a Terra.132 Na verdade. Nos referenciais inerciais e somente nesses referenciais são válidas as leis da mecânica de Newton. a própria Terra pode ser considerada o referencial (aproximadamente) inercial. Apesar de nunca podermos acessar o espaço absoluto ou os referenciais inerciais concretamente. ou princípio da inércia. para cada situação. isso é. é correto utilizarmos aproximações materiais para resolver os problemas. Não há problema em não dispormos de referenciais verdadeiramente inerciais.

133 3) lei de ação e reação: r r F12 = − F21 a toda ação de uma força corresponde uma reação com mesmo módulo. para aprender mais sobre as leis de Newton e a correta utilização dos referenciais inerciais é fundamental estudar alguns capítulos e resolver os problemas de livros didáticos de Física. a noção de espaço absoluto e a noção de referencial inercial. podemos avançar em nossa viagem conhecendo agora dois novos argumentos que utilizam as Leis de Newton em favor do movimento da Terra. Física volume 1 do Tipler e Física de Eisberg. Antes de prosseguir. (sugestões: Mecânica do GREF.) Tendo compreendido as Leis de Newton. a noção de inércia. a saber: 1) O achatamento na forma da Terra. 2) O pêndulo de Foucault Vamos lá? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . e. Física Básica de Nussenzveing. mesma direção e sentido oposto.

diz respeito ao achatamento na forma da mesma devido a efeitos centrífugos. por isso dizemos que a Terra é achatada. A gravitação igual das partes sobre todos os lados daria uma forma esférica aos planetas. (Isaac NEWTON. Livro III. se nossa Terra não fosse mais alta ao redor do equador do que nos pólos. para justificar o movimento da Terra. se a matéria está num estado fluído. portanto. e. não fosse por suas revoluções diurnas num círculo. tem um diâmetro menor nos pólos que no equador. Nosso planeta não tem a forma de uma esfera perfeita. os mares abaixariam ao redor dos pólos e. Proposição 18. ou seja. Teorema 16. problema 3 em que Newton calcula a partir de sua lei da gravitação a proporção do eixo de um planeta para os diâmetros perpendiculares a ele) (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 8. Ver também proposição 19.134 Uma observação interessante descrita por Newton no seu célebre livro Principia. colocariam todas as coisas sob a água. Devido a este movimento circular acontece de as partes que se afastam do eixo tentam subir do equador. Principia.. por sua subida em direção ao equador ela vai aumentar os diâmetros de lá e por sua descida dos pólos ela vai diminuir o eixo. subindo em direção ao equador. Ele possui. A descrição desse efeito de achatamento dos planetas em função de seu movimento de rotação foi realizada pela primeira vez por Newton: os eixos dos planetas são menores do que os diâmetros perpendiculares aos eixos.. na verdade. uma forma elipsoidal. Achatamento na Forma da Terra .

uma existência real. para estudar seu movimento de rotação em torno de si mesma não podemos utilizar diretamente as leis de Newton. segundo a mecânica de Newton. No entanto. Uma solução possível para continuar estudando o achatamento da Terra com a mecânica newtoniana é introduzir no referencial da Terra uma força imaginária denominada força centrífuga. com a criação dessa força pode-se utilizar corretamente as leis da Mecânica Newtoniana e determinar as equações de movimento para a Terra.135 Newton calcula a razão entre o diâmetro da Terra no equador e o diâmetro de pólo a pólo e obtém o valor: 230 229 Mas qual o agente causador deste achatamento? Por que a Terra fica achatada? Sabemos que a Terra não é um referencial inercial e. e ρρ é o vetor posição em coordenadas esféricas dos pontos sobre a superfície da Terra. ou ao espaço absoluto. portanto. A força centrifuga a ser introduzida é dada por: r ˆ Fcentrifuga = −m ⋅ ω 2 ρρ Em que: ω é a velocidade angular de rotação da Terra em relação a um ˆ referencial inercial. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Essa força é uma força fictícia e não possui. Para calcular a razão entre o diâmetro da Terra no equador e o diâmetro de pólo a pólo que expressa o achatamento na forma da Terra é preciso integrar a força gravitacional acrescida da força centrífuga para um elipsóide (esfera achatada).

R. para uma compreensão mais aprofundada. 6. Symon (ver especialmente exercícios 6. obtido a partir da introdução da força centrífuga nas leis de Newton.0044) podemos calcular.136 Não apresentaremos aqui o desenvolvimento matemático completo que. por considerações dinâmicas. é expresso por: Requador R pólos =1+ 5ω 2 R 3 4GM (6) Em que: Requador é o raio da Terra no equador Rpólos é o raio da Terra entre os pólos R é o raio médio da Terra = 6. a velocidade angular de rotação da Terra: ω= 4GM 5R 3  Requador   − 1  R   pólos  (7) ω = 7. de K.36 x 106 m G é a constante de gravitação universal = 6. pode ser estudado nos capítulos 6 e 7 do livro Mecânica.67 x 10-11 N m2/ kg2 M é a massa da Terra = 6 x 1024 kg ω é a velocidade angular de rotação da Terra Adotando para o valor da razão entre os raios o resultado obtido por Newton e que está bem próximo das modernas observações experimentais (230/229 ≈ 1.4 x 10-5 s-1 (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .21 e 7.17.10) O resultado obtido no cálculo para a razão entre os raios da terra no equador e entre os pólos.

levandose em conta a rotação de um dia (24 horas): ω k = 2π ≈ 7. diferentemente da situação cinemática. segundo as leis de Newton.137 Esse valor para a velocidade de rotação da Terra é praticamente o mesmo que calculamos por observações astronômicas e considerações cinemáticas. teremos uma mesma situação do ponto de vista de uma descrição cinemática. podemos afirmar. e por isso. uma vez que. possibilita afirmar que é a Terra que está girando sobre si mesma e não o restante do universo que gira ao redor da Terra. de acordo com esse novo argumento. Podemos dizer que no primeiro caso (análise cinemática) há uma simetria entre a mobilidade e a imobilidade da Terra. Como vimos. a velocidade de rotação cinemática não permite afirmar que é a Terra que está girando. não produziria o achatamento na forma do nosso planeta e ele teria uma forma perfeitamente esférica. Tanto faz a Terra girar em volta de si mesma. que a Terra realmente está em movimento! (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . ou seja. Mas esse efeito.3 × 10 −5 s −1 T Obtivemos assim dois valores iguais para a velocidade de rotação da Terra: o primeiro ωk a partir de considerações cinemáticas e o segundo ω a partir de equações da dinâmica de Newton. ou todo o resto do universo girar em volta da Terra. que considera apenas as velocidades e as posições entre os corpos. obtemos a mesma velocidade relativa entre a Terra e o conjunto de estrelas-fixas. tanto no heliocentrismo como no geocentrismo. Já no segundo caso (análise dinâmica) não se verifica a mesma simetria. O achatamento na forma da Terra permite-nos calcular a rotação dinâmica da Terra. Isto porque o giro do universo ao redor da Terra.

138 Assim como os defensores da Física Aristotélica e da imobilidade da Terra se apoiaram no Argumento da Torre e convenceram inumeráveis mentes humanas. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . os defensores da Mecânica de Newton se utilizam agora do Argumento do Achatamento na Forma da Terra para convencer de que ela se move.

mesmo que a base girasse. A criação de Foucault é até hoje a melhor "prova" do movimento de rotação da terra porque independe de medidas astronômicas.139 Vamos explorar mais um fantástico argumento em favor do movimento da Terra: O experimento do Pêndulo de Foucault. Se o pêndulo fosse montado sobre uma base giratória. A experiência proposta por Foucault é relativamente simples e para realizá-la basta observar o movimento de um longo pêndulo oscilando por um grande período de tempo. Foucault pendurou seu pêndulo na enorme abóbada do Panthéon. Um fato interessante da oscilação pendular é que o plano de oscilação do pêndulo é definido pelas condições iniciais em que a massa é posta em movimento. O pêndulo de Foucault . em Paris. ele construiu um novo argumento em favor do movimento da Terra. ele permaneceria oscilando sempre em um mesmo plano. ou seja. o físico francês Jean Baptiste Leon Foucault inventou outra simples e interessante maneira de se obter a velocidade de rotação dinâmica da Terra (ωd) e assim comprovar seu movimento de rotação. Em 1851. Assim. Foucault pode determinar a rotação da Terra a partir do estudo da variação do plano de oscilação de um pêndulo. Nessa (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 9. Um pêndulo é um sistema constituído por uma massa pendurada em uma linha e que oscila de um lado para o outro de modo regular. pode ser realizada em uma sala fechada sem se olhar para o céu ou considerar as grandes distâncias das dimensões terrestres como no efeito do achatamento da Terra. Na mais famosa de suas demonstrações. Admitindo que o planeta Terra é uma base gigante e está girando para qualquer pêndulo.

para continuar estudando o movimento do pêndulo é introduzir no referencial da Terra uma nova força imaginária (Outra. Em seu experimento com o pêndulo. A força de Coriolis pode ser escrita como: r r r FCoriolis = −2mω d × v Em que: m é a massa em movimento. ωd é a velocidade angular da Terra em relação ao espaço absoluto ou a um sistema de referência inercial.140 ocasião. cheia de chumbo com massa total de 28 Kg. Mas como explicar a mudança no plano de oscilação do pêndulo de Foucault utilizando as leis da Mecânica Newtoniana? Lembrando mais uma vez que a Terra não é um referencial inercial. ele usou um comprimento de 67 metros e a massa suspensa era uma esfera oca de cobre. Aqui continua existindo a força centrífuga. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . como ele já esperava. sabemos. segundo a concepção newtoniana. Essa nova força foi descoberta em 1831 por Coriolis e por isso ficou conhecida como Força de Coriolis. A força de Coriolis é. A solução então. que o plano de oscilação do pêndulo mudava lentamente com o tempo em relação à superfície da Terra. por isso. e. Foucault observou. mas ela não é responsável pela alteração no plano de oscilação do pêndulo). também uma força fictícia devida ao movimento de rotação da Terra em relação ao espaço absoluto (ou a um referencial inercial). Diferente da que explica a forma da terra. que não podemos simplesmente utilizar as leis de Newton. (8) v é a velocidade da massa em movimento.

Um observador colocado no pólo. Nessa situação.141 O caso mais simples para o experimento do pêndulo de Foucault ocorre para oscilações em um dos pólos terrestres. em relação à Terra. verá exatamente o oposto. Para qualquer posição entre o equador e o pólo a variação de direção no plano de oscilação do pêndulo pode ser obtida por: ω d sinα Em que ωd é a velocidade angular da Terra em relação ao espaço absoluto ou a um sistema de referência inercial e α é a Latitude no local do experimento. ou seja. o pêndulo de Foucault não modifica seu plano de oscilação em relação à Terra porque o produto vetorial da velocidade de rotação da Terra r r pela velocidade de oscilação é igual a zero: ω d × v = 0 . Como a Terra está girando exatamente sob o pêndulo. 2) Calcule a variação de direção no plano de oscilação do pêndulo de Foucault para a Cidade de São Paulo. após aproximadamente 24 horas o plano de oscilação vai estar na mesma posição. ou ao espaço absoluto. entretanto. o pêndulo vai ficar oscilando sempre em um mesmo plano em relação a um sistema inercial. que estava no início do experimento. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . No equador. Propomos mais uma breve atividade: 1) Calcule a variação de direção no plano de oscilação do pêndulo de Foucault para a Cidade de Paris com latitude igual a 48o 51'. o plano de oscilação modificando-se com o passar do tempo.

artifício disposto para contrabalançar a resistência da matéria. como outrora. relaciona. a dualidade de uma dimensão abstrata. O Pêndulo de Foucault . mas que não se opunha às leis do Pêndulo.Umberto Eco A esfera. A esfera de cobre emitia pálidos reflexos cambiantes sob a incidência dos últimos raios de sol que penetravam pelos vitrais. a natureza terciária do π. antes lhes permitia manifestarem-se. Em que elas são semelhantes? Em que diferem? 4) Leia e discuta o texto O Pêndulo de Foucault do livro de Umberto Eco. e o sulco. garantia a permanência do movimento. a circunferência ao diâmetro de todos os círculos possíveis . porque no vácuo qualquer ponto material pesado. transmitindo sua atração a um cilindro oculto no cerne da esfera. na base.de modo que o oscilar de uma esfera de um pólo a outro decorre de uma arcana conspiração entre a mais intemporal das medidas. a unidade do ponto de suspensão. o tetrágono secreto da raiz e a perfeição do círculo.mas quem quer que o tivesse advertido no encanto daquele plácido respirar . por alguma razão divina. mudando infinitesimalmente de (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . móvel na extremidade de um longo fio fixado à abóbada do coro. teria oscilado de modo regular por toda a eternidade. Se.142 3) Compare as experiências do Pêndulo de Foucault e da Pedra que cai da Torre. sua ponta estivesse roçando uma camada de areia úmida espalhada sobre o pavimento de coro. que não sofresse a resistência do ar nem o atrito com seu ponto de apoio. o qual. Sabia também que na vertical do ponto de suspensão. Eu sabia . embora irracional para as mentes sublunares. teria desenhado a cada oscilação um leve sulco no solo. descrevia suas amplas oscilações em isócrona majestade. suspenso da extremidade de um fio inextensível e sem peso.que o período era regulado pela correlação entre a raiz quadrada do comprimento do fio e a do número π. transcrito a seguir. um dispositivo magnético.

a estrutura invisível de um pentáculo. às quatro da tarde de 23 de junho. deixando adivinhar uma simetria radiada . a fixar aquela cabeça de pássaro.. aflorando os pontos opostos de sua astigmática circunferência. Contudo. não houvesse modificado. ter-se-ia alargado sempre em forma de brecha. pois o Pêndulo me levaria a crer que o plano de oscilação teria realizado uma rotação completa. Mas não era este desvio da Lei. Não melhor talvez a peripécia.como um esqueleto de mandala. registrada na extensão do deserto. Talvez a igreja abacial de Saint-Martin-des-Champs fosse o verdadeiro Templo. e juntos rodávamos sob o Pêndulo que na realidade não mudava jamais a direção do próprio (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . aquele elmo emborcado. em trinta e duas horas. dos traços que deixaram caravanas infinitas e erráticas. readquirir velocidade a meio do percurso e desferir seus golpes de sabre confidentes no quadrado oculto das forças que o destino lhe apontava.elipse que girasse em torno de seu próprio centro com uma velocidade angular uniforme. Talvez o cálculo. no qual o Pêndulo realizaria seu círculo aparente em vinte e quatro horas. e eu com ela. proporcional ao seno da latitude. Como teria girado se o ponto fosse fixado ao alto da cúpula do Templo de Salomão? Talvez os Cavalheiros tivessem experimentado também lá. Naquele momento. de vala. Se eu permanecesse muito tempo. o significado final. o Pêndulo amortecia a própria velocidade numa extremidade do plano de oscilação. não era esta violação da medida áurea que tornava menos admirável o prodígio. Eu sabia que a Terra estava rodando. resistente ao passar das horas. teria sido vítima de uma ilusão fabulatória. descrevendo uma elipse achatada . único lugar em que o ponto de suspensão incide sobre o prolongamento do eixo de rotação da Terra. para recair indolente em relação ao centro. que de resto a própria Lei previa. a experiência só teria sido perfeita no Pólo. e SaintMartin-des-Champs e Paris inteira comigo. aquele ápice de lança. de uma rosa mística.143 direção a cada instante. enquanto desenhava no vazio as suas diagonais.. de uma estrela. tornando ao ponto de partida.

depois no Observatoire. o sistema solar. e pende daquele furo. mas o lugar onde o fio estava ancorado era o único ponto fixo do universo. só para ficar balançando?" "Serve para demonstrar a rotação da Terra. eu podia ver o Quid. desde 1855 está aqui. substância. não tem figura forma peso quantidade ou qualidade. e ao longo do infinito prolongamento ideal do fio.. opinião. para o alto em direção às mais remotas galáxias estava. no seu ponto central. porque lá em cima. lá onde se celebrava o mistério da imobilidade absoluta. a Rocha... um único ponto permanecia. a caligem luminosíssima que não é corpo. E eu participava agora daquela experiência suprema. eixo.. número. de onde pendia. e em seguida sob a cúpula do Panthéon. as nebulosas." "Mas por que permanece fixo?" "Porque um ponto. ordem.144 plano. "Foi primeiro experimentado numa cave em 1851. O Pêndulo dizia-me que. não era propriamente à Terra que o meu olhar se dirigia. a Garantia. Por isso. bem. nem um tempo ou um espaço. Finalmente.. não é erro nem verdade. como direi. na travessa da abóbada". eu que embora me movesse com tudo e com o todo. com um fio de sessenta e sete metros e uma esfera de vinte e oito quilos. quer dizer todo ponto que esteja no meio dos pontos que você vê. o globo. e não vê. aquele ponto - (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . deixando que o universo se movesse em torno dele. A Terra girava. dizia o moço. imaginação. entre um rapaz de óculos e uma jovem que infelizmente não os tinha. cavilha. imóvel por toda a eternidade. não é apreendido pela sensibilidade. o Ponto Eixo. em formato reduzido. os buracos negros e todos os filhos da grande emanação cósmica. não é um lugar. engate ideal. não sente. não é alma. Se considerarmos que o ponto de suspensão permanece fixo. embora tudo se movesse. "É o pêndulo de Foucault". mas ao alto. não é treva nem luz. Sacudiu-me um diálogo. o Não-Movente. inteligência.. eternidade. desde os éons primitivos à matéria mais viscosa. medida. "E para que serve. preciso e desenvolvido.

não gira. e pensava que fosse problema Dele. o En-sof. Este resultado confirma de forma brilhante o movimento da Terra! Mais uma vez verifica-se a coincidência entre o valor da velocidade de rotação dinâmica (ωd) obtida a partir do experimento de Foucault e os valores apresentados anteriormente.você não vê. Mas logo em seguida o casal se afastou ele. tanto pelas descrições cinemáticas como pela descrição dinâmica a partir do achatamento da Terra. O resultado da experiência de Foucault. Conseqüentemente. se não.3 × 10 −5 s −1 .. e portanto não tendo dimensão não pode mover-se nem à esquerda nem à direita." "Nem com a Terra girando?" "A Terra gira. ambos sem terem registrado na memória a experiência terrificante daquele seu encontro .com o Uno. tendo estudado nesses manuais que lhe obnubilaram as possibilidades de maravilhar-se. Está bem?" "Problema dele. pg 9 à 12) A velocidade de rotação do plano de oscilação pendular obtida por Foucault é precisamente a mesma velocidade de rotação da Terra.. não tem dimensão. Se lhe agrada. Nem mesmo este si mesmo existe. inacessível ao arrepio do infinito. o Indizível. Entendeu? Se um ponto não tem dimensão.145 o ponto geométrico . ou seja ω d = 7. nem para baixo nem para cima. assim como o achatamento na forma da Terra." Miserável. ela inerte. mas o ponto não. diferentemente da situação cinemática. O pêndulo de Foucault. permite afirmar que é a (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Tinha sobre a cabeça o único lugar estável do cosmo. não pode sequer girar em torno de si mesmo. é assim. Como não cair de joelhos diante do altar daquela certeza? (Umberto ECO. e não dela. o único ponto resgatado da danação do panta rei. danese.primeiro e último .

segundo as leis de Newton. o giro do universo ao redor da Terra. nem todas as mentes humanas são facilmente convencidas e novas visões de mundo nos fazem repensar nossos argumentos. como diz Umberto Eco. Encontramos uma nova assimetria entre a mobilidade e a imobilidade da Terra. Convém conhecer os argumentos daqueles que não se convenceram com os mais claros e simples argumentos em favor do movimento da Terra. Por isso. por mais sólidos que eles nos pareçam de início.146 Terra que está girando sobre si mesma e não o restante do universo que gira ao redor da Terra. Isto porque. que a Terra realmente está em movimento! Novas mentes humanas podem ser convencidas com esse simples e brilhante argumento de Foucault que confirma a Mecânica de Newton e comprova que a Terra não está imóvel. de acordo com o Argumento do Pêndulo de Foucault. podemos afirmar. cair de joelhos diante do altar daquela certeza? Por sorte. Vamos prosseguir um pouco mais o caminho e ouvir novos personagens. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . não produziria nenhuma alteração no plano de oscilação do pêndulo. * * * * * * * * * Chegamos ao fim de nossa viagem? Está respondida a questão que nos colocamos? Podemos considerar definitivamente válida a afirmação de que a Terra se move? Podemos.

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10. O Princípio de Mach (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

Há dois detalhes da Física Newtoniana que já apresentamos e que parecem não ter sido totalmente resolvidos: o primeiro é a impossibilidade de se encontrar um referencial que seja verdadeiramente inercial; o segundo é o fato da simetria para descrições cinemáticas não se verificar em descrições dinâmicas. Será possível existir uma Mecânica, baseada em novos argumentos, que não se utilize da noção de espaço absoluto, nem de referenciais inerciais e que restabeleça a simetria entre as descrições dinâmicas e cinemática do movimento? Muitas das críticas à concepção de espaço absoluto (ou de referencial inercial) já haviam sido formuladas no início do Século XVIII, por parte de filósofos como Leibniz e Berkeley. As grandes conquistas da Mecânica Newtoniana e seu sucesso no campo da astronomia, no entanto, ofuscaram essas críticas por mais de 150 anos. Em 1883 a contestação da noção de espaço absoluto ressurge nos trabalhos do Físico austríaco Ernst Mach. Para contestar as noções newtonianas de inércia e espaço absoluto, Mach, formulou em sua obra The Science of Mechanics o seguinte princípio:

Para mim só existem movimentos relativos. Não vejo, neste ponto, nenhuma diferença entre translação e rotação. Obviamente não importa se pensamos na Terra como em rotação em torno de seu eixo, ou em repouso enquanto as estrelas fixas giram em torno dela. O Princípio da Inércia deve ser concebido de tal forma que a segunda suposição leve exatamente aos mesmos resultados que a primeira. Torna-se então evidente que, na sua formulação, é preciso levar em

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conta as massas existentes no Universo. (Daniel Gardelli, Origem da Inércia, Cad. Cat. Ens. Fis., vol.16, n1. pg48)
Para Mach é preciso, à luz de seu Princípio, rever a Noção de Inércia e conseqüentemente as demais leis da Mecânica Newtoniana. Segundo essa nova concepção de inércia proposta por Mach, a massa inercial de um objeto se originaria da interação entre a massa desse objeto com todas outras massas do universo inteiro. Assim, em um universo vazio não haveria inércia. Esse princípio choca-se com a Mecânica Newtoniana que atribui a inércia a uma propriedade intrínseca da matéria e não a uma interação com as outras massas do universo. Apesar da importância de sua crítica, Mach não desenvolveu uma formulação quantitativa para seu princípio, fato que não lhe deu popularidade no meio científico. A tarefa de implementar quantitativamente o princípio de Mach para a reformulação das leis de Newton foi iniciada e abandonada sem sucesso por grandes nomes da ciência dentre os quais Einstein, o pai da Relatividade, e Schrödinger um dos principais fundadores da Mecânica Quântica. A Mecânica Relacional, apresentada a seguir, retoma as críticas de Mach à Física Newtoniana implementando-as quantitativamente em termos do formalismo da física contemporaneamente aceita e consolidando o princípio de Mach como um novo Argumento para discutir a questão da (i)mobilidade da Terra. Vamos conhecê-la?

(i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

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Finalizando nossa viagem, vamos apresentar um breve resumo da Mecânica Relacional, uma proposta alternativa à mecânica de Newton que pretende explicar os fenômenos da dinâmica e gravitação há muito conhecidos. Essa nova Mecânica foi desenvolvida pelo Físico brasileiro André K. T. Assis, professor livre-docente do Instituto de Física da Universidade de Campinas, e retoma a discussão crítica sobre as noções de espaço-absoluto e inércia implementando quantitativamente as idéias de E. Mach. É importante esclarecer que nosso intuito neste trabalho não é discutir a validade dessa proposta teórica, mas o de utilizá-la do ponto de vista da ampliação do conhecimento. Uma nova concepção da mecânica pode servir de fonte para novas argumentações alternativas e fornecer-nos elementos de contraste para uma compreensão mais profunda dos princípios implícitos na discussão sobre a inércia e o problema da (i)mobilidade da terra, como vimos até aqui discutindo. Assim como o estudo do Argumento da Torre traz contribuição para entendermos a Noção de Inércia, o Princípio de Mach, na formulação da Mecânica Relacional, aumenta nossa compreensão dos fenômenos inerciais. Como sugerido por Mach, na proposta da Mecânica Relacional não há a necessidade de admitirmos a existência do espaço absoluto (ou referencial inercial), não existem forças fictícias, ou seja, todas as forças são descritas em termos de interações reais entre os corpos, obedecendo a lei de ação e reação e, o mais importante para nossa discussão, todas as descrições cinematicamente

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11. Mecânica Relacional

ou seja. Campinas. Assis. Aplicações e Exercícios. K. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Eletrodinâmica de Weber – Teoria. e. Editora da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. 1995. O sistema mais simples que poderíamos considerar é aquele composto de duas partículas. Desse potencial obtemos a força de Weber 2 Para uma justificação detalhada ver: A. são restabelecidas as simetrias. Dordrecht. O potencial de interação entre duas cargas elétricas. a Lei da Gravitação Universal deve ser modificada de modo a assumir uma forma análoga à força de Weber2 para cargas elétricas. Nessa nova proposta todas as forças são baseadas em interações entre os corpos materiais. Não faz sentido. K.150 equivalentes para a (i)mobilidade da Terra tornam-se dinamicamente equivalentes. falar de movimento de um único corpo em um Universo completamente vazio de outros corpos materiais. Assis. separadas por & uma distância relativa r12. que se movem com uma velocidade relativa r12 e aceleração relativa &12 na formulação de Weber. segundo a Mecânica Relacional. Kluwer Academic Publishers. 1994. T. é dado por r& U 12 = & q1q 2 1  r2  1 − 122   2c  4πε o r12   (9) (εo é a constante de permissividade no vácuo e c é a velocidade da luz). Como acontecia nas forças de Coriolis e Centrípetas. Para a implementação das idéias de Mach. q1 e q2. com termos dependentes da velocidade e da aceleração relativas entre os corpos interagentes. Weber’s Electrodynamics. não há força entre qualquer corpo e o “espaço vazio”. A. T. no estudo da interação gravitacional entre os corpos em movimento.

são apresentados os seguintes postulados ou axiomas: 1) a força é uma quantidade vetorial que descreve a interação entre corpos materiais. e. pode ser escrita como m g1m g 2  &2 r12  1 − ξ 2  U 12 = G r12  2c    (11) (G é a constante de gravitação universal e ξ é um parâmetro cosmológico). 2) a força que uma partícula pontual A exerce sobre uma partícula pontual B é igual e oposta à força que B exerce sobre A e é direcionada ao longo da linha reta conectando A até B.151 Analogamente a energia de interação entre duas massas gravitacionais. mg1 e mg2. para uma correta implementação do princípio de Mach. separadas por uma distância relativa r12. A partir dessa expressão para o potencial. considerando o princípio de Mach. obtém-se uma nova expressão para a força de interação gravitacional r  ˆ & dU 12 r  ξ  r2 ˆ F21 = − r12 = Gm g1m g 2 12 1 − 2  12 + r12 &&   r12   2   2 dr12 r12  c   (12) Além da modificação da Lei da Gravitação Universal. na Mecânica Relacional. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra r ˆ & dU 12 q1q 2 r12  r 2 r &&  r 1 − 122 + 12 212  ˆ F21 = −r12 = 2  dr12 4πε o r12  2c c   (10) .

esse problema equivale a encontrar o potencial gravitacional e a força de interação de uma partícula movendo-se no interior de infinitas cascas esféricas concêntricas constituídas pelas estrelas.. ASSIS. T. utilizando as expressões (11) e (12).. podem ser expressos em apenas um:4 1) A soma de todas as energias de interação (gravitacional. p. Mecânica Relacional.) agindo sobre qualquer corpo é sempre nula em todos sistemas de referência. mecânica relacional . André K T Assis. Como resultados são obtidos: 3 André K. elástica.5 O princípio de Mach é implementado quantitativamente quando calculamos o potencial e a força gravitacional. Não apresentaremos os desenvolvimentos matemáticos que devem ser examinados em: ASSIS. nuclear. p. de mesma natureza que qualquer outro tipo de energia potencial (Ver.152 3) a soma de todas as forças de qualquer natureza (gravitacional. elétrica. ASSIS. elástica.. Os resultados precisam coincidir com a situação oposta: as cascas esféricas se movendo em relação a uma partícula fixa em seu interior. magnética. elétrica. pág 207. p..200 Na Mecânica Relacional derivamos a energia cinética como uma energia de interação gravitacional. Mecânica Relacional. em termos de Energia. entre uma partícula teste e o restante do universo.3 Esses três postulados.) entre qualquer corpo e todos os outros corpos no Universo é sempre nula em todos os sistemas de referência. Considerando a simetria esférica.200 4 (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .. T. 218) 5 André K. Mecânica Relacional.

como a precessão do periélio dos planetas. é a equivalência dinâmica entre movimentos equivalentes do ponto de vista cinemático. (15) Com a formulação matemática da Mecânica Relacional é igualmente fácil resolver todos os problemas anteriormente resolvidos pela mecânica newtoniana. (14) c) como subproduto é deduzida uma relação fundamental entre as constantes cosmológicas descoberta por Dirac em 1930. movimento circular uniforme. A característica principal da Mecânica Relacional. movimento com força constante. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Essa equivalência fornece um novo argumento em favor do movimento de rotação da Terra ao permitir enxergar com novos olhos os casos do Pêndulo de Foucault e do achatamento na forma da Terra. A mecânica Relacional permite ainda explicar problemas que vão além do que a física newtoniana alcançava. como o movimento retilíneo uniforme. movimento oscilatório. Existem também já alguns testes experimentais que corroboram resultados previstos pela mecânica relacional e outras propostas experimentais ainda em vias de serem desenvolvidas. Dando um significado de interação com o restante do universo a essas duas energias. a anisotropia da massa inercial e o movimento de partículas em alta velocidade. de Coriolis e outra sem nome).153 a) para o cálculo do potencial: uma expressão equivalente à energia cinética somada a energia de repouso relativística.. e o que a diferencia da teoria clássica de Newton e da teoria da Relatividade de Einstein.. (13) b) para o cálculo da força: uma expressão equivalente à segunda lei de Newton somada a três expressões de forças equivalentes ao que chamamos de forças fictícias (centrífuga. etc.

mecânica relacional . utilizando os resultados descritos em (14) a Terra seria achatada em função de uma interação sua com o restante das estrelas e demais astros do universo. Assis questiona as descrições dos experimentos sobre a forma da Terra e do pêndulo de Foucault que alegam serem provas de que a interpretação heliocêntrica é melhor.". se a Terra permanecesse imóvel e todo o restante do universo girasse ao seu redor. ou mais precisa que a geocêntrica. Assim. a mudança de direção no plano de oscilação do pêndulo de Foucault é devida a uma interação deste com as demais massas do universo. mecânica relacional .154 a) Achatamento na forma da Terra: segundo o desenvolvimento da Mecânica Relacional . tanto faz girar o planeta. pág 265) b) Pêndulo de Foucault: de acordo com a Mecânica Relacional. obtém-se o mesmo efeito. como girar todo o resto em torno dele. (ver detalhes em: ASSIS. então os efeitos dinâmicos também têm de ser os mesmos. Assim. "se a situação cinemática é a mesma. (ver detalhes em: ASSIS. Mach. com o mesmo valor numérico calculado para o achatamento. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . pág 266) Assim. Verifica-se quantitativamente a suposição de Mach. o pêndulo continuaria igualmente mudando a direção do seu plano de oscilação. utilizando os resultados descritos em (14). seguindo as idéias de E.

155 Como fica então a resposta a nossa questão inicial quanto ao movimento da Terra? Segundo a mecânica relacional.6 Como vimos os sistema geocêntrico e heliocêntrico são cinematicamente equivalentes já na mecânica clássica. ASSIS. não havendo nenhuma razão física mais profunda. p.. Todas as forças locais atuando sobre a pessoa serão contrabalançadas pela força exercida pelo universo distante. qualquer outro sistema de referência será também equivalente. mas também dinamicamente. E escolher entre um sistema e outro é uma questão puramente de gosto ou de simplicidade prática.230. Por esse motivo. E isto não apenas cinematicamente como sempre se soube. T. com a nova argumentação aplicada aos resultados experimentais. O que acontece na Mecânica Relacional é uma ampliação desta equivalência também para a descrição dinâmica do movimento de rotação da Terra. como explica Assis: . são completamente equivalentes e ainda mais. qualquer sistema de referência é igualmente válido. ambas as concepções de mobilidade e imobilidade para a Terra são igualmente válidas e corretas. 6 André K. Mecânica Relacional. nós utilizamos a palavra "(i)mobilidade" (com o i entre parênteses) para expressar o estado de movimento e/ou repouso da Terra desde o início deste trabalho. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .. Essas duas visões de mundo. tal que sua própria velocidade e aceleração sejam sempre nulas. Qualquer pessoa ou sistema de referência pode-se considerar realmente em repouso enquanto que todo o universo move-se ao redor desta pessoa de acordo com sua vontade.

156 Assim sugerimos. a partir do Princípio de Mach e da formulação da Mecânica Relacional. * * * * * * * * * Como atividade final propomos a elaboração de um quadro síntese resumindo todas as respostas quanto ao movimento da Terra. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . aspectos totalmente antagônicos. podem ser concebidas como descrições complementares de um mesmo fenômeno físico: a (i)mobilidade da Terra. para o conflito entre o geocentrismo e o heliocentrismo uma solução análoga à dada ao conflito entre a natureza ondulatória e corpuscular da luz: a dualidade onda-partícula que junta. as concepções em que se apóiam. paradoxalmente em uma mesma teoria. Uma vez escolhida uma forma de descrever o fenômeno a outra deixa de ser válida. Argumento Concepção de mundo Experimento Resposta * * * * * * * * * A resposta à nossa questão quanto ao movimento da Terra fica assim indeterminada por esse nosso último e fabuloso argumento. De igual modo. as descrições geocêntrica e heliocêntrica para o movimento de rotação da terra. segundo a mecânica relacional. os argumentos e todas os experimentos estudados a partir deste texto.

não podemos nos perder da História da Ciência e nem desprezar boas teorias alternativas. garantir com certeza se a Terra está móvel ou imóvel? O que podemos afirmar com certeza é que jamais devemos ignorar os argumentos. se quisermos compreender cada vez mais. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . E. por mais simples que nos pareçam.157 Sobram-nos questões: Quais dos argumentos estudados não são válidos? Quais são? Quais novos argumentos surgirão? Poderemos um dia.

Da procura. uma proposta alternativa de ensino relacionada ao movimento da Terra e ao conceito de Inércia.... e do ensino de física em particular. a partir do encontro com noções da epistemologia de Paul Feyerabend... Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo . em função dessa perspectiva analítica.Considerações Finais De tudo.... A certeza de que precisamos continuar.. Do medo... pluralidade metodológica... um encontro. existência conceitos . ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando. uma escada.. Do sonho.. uma ponte. Neste trabalho apresentamos algumas perspectivas para a análise do ensino de ciências. (Fernando Pessoa). A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Desenvolvemos uma concepção da ciência como tradição cultural que incorpora aspectos como a compatibilidade do conhecimento científico com crenças metafísicas a culturalmente compartilhadas. a o uso legítimo de de propagandas... Da queda um passo de dança. Apresentamos também.

seria bastante interessante associar este trabalho a um conjunto síntese completo das epistemologias de outros filósofos da ciência como Popper. Tendo em vista que a filosofia de Feyerabend se propõe a apresentar somente limitações aos sistemas metodológicos. que se investigasse a dinâmica de trabalho e as relações coletivas de diferentes grupos de pesquisa e estudo de Física. não consistindo em uma metodologia sistemática da pesquisa científica. Como continuidade desse trabalho propomos. como no exemplo da Mecânica . Laudan. etc. podem ser obtidas de teorias novas. recupera a natureza de arte-prática do processo educativo. No que se refere ao conflito obediência versus ousadia. na formação científica de nível superior.. As propostas alternativas.. para o contraste. A dualidade onda-partícula. opondo-se às restrições de uma pedagogia distante ou autoritária. Kuhn. professores e comunidade em que a escola está inserida. a contaminação da observação por diferentes interpretações naturais e a compreensão de que as evidências empíricas são aprendidas dentro de uma cultura específica. seria muito apropriado. Como resultado do olhar sobre a Educação desenvolvemos uma abordagem cultural que.Considerações Finais 159 incomensuráveis entre teorias sucessivas ou concorrentes. Lakatos. em continuidade à nossa pesquisa. cumpre o papel de difundir as tradições culturais e respeita as diferentes aptidões e vontades manifestadas por alunos. Bachelard. para uma compreensão mais ampla das idéias aqui discutidas. a noção de espaço-tempo ou as leis do eletromagnetismo são tópicos da Física que poderiam ser abordados segundo as perspectivas educacionais que desenvolvemos. ainda. explorar outros temas da Física a partir de teorias contrastantes e por uma abordagem cultural.

O aprofundamento e a qualificação das nossas idéias sobre a visão da função dos especialistas. enriquecer ou se opor às nossas observações quanto ao Ensino da Física.Considerações Finais 160 Relacional. o caminho se faz ao andar. . Como recomendou um outro poeta a um caminhante. como a teoria do éter. a teoria do calórico. implícitas no ensino de ciências e na sociedade. poderiam também ser ampliados com investigações mais específicas. ou de teorias há muito superadas. dentre muitas outras possibilidades. professores e estudantes de Ciências. Mas há que se considerar sempre o contexto em que as idéias serão discutidas e a decisões nunca podem ser antecipadas. Por fim. Os resultados das atividades e as impressões de alunos e professores sobre a abordagem proposta podem consistir em um rico material de análise que permitiria complementar. Também é de fundamental importância verificar em situação de ensino a resposta ao uso do texto subsídio aqui proposto. cabe enfatizar que as idéias resultantes deste trabalho podem subsidiar mas não conduzir a prática de pesquisadores.

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