UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

INSTITUTO DE FÍSICA E FACULDADE DE EDUCAÇÃO

TRADIÇÃO CULTURAL, CONTRASTE ENTRE TEORIAS E ENSINO DE FÍSICA

Alexandre Custódio Pinto

João Zanetic (Orientador)

Dissertação apresentada ao Instituto de Física e à Faculdade de Educação como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de mestre em Ensino de Ciências - Modalidade Física.

Fevereiro de 2003

Ao que vive do meu pai em mim.

RESUMO
Partindo de perspectivas educacionais oriundas da epistemologia de Paul Feyerabend, este trabalho apresenta a educação em ciência concebida como a iniciação em uma tradição cultural. O contraste entre teorias é identificado como um aspecto importante no Ensino de Física, imprescindível em uma abordagem cultural. Compõe ainda o trabalho uma reflexão sobre as possíveis compreensões do papel de especialistas implícitas no ensino de ciências. Um texto subsídio ilustra alguns elementos da abordagem educacional apresentada com o estudo da noção de inércia aplicada ao problema do movimento da Terra.

.ABSTRACT Starting of educational perspectives derived from Paul Feyrebend´s epistemology. A text subsidy illustrates some elements of the educational approach presented with the study of the notion of inertia applied to the problem of the movement of the Earth. The work is still composed of a reflection on the possible comprehension of the role of specialists implicit in science teaching. The confrontation between theories is identified as an important aspect in physics teaching. this work presents the education in science conceived as a initiation in a cultural tradition. indispensable in a cultural approaching.

minha mãe Irene. FEUSP e IQUSP. pela minha formação. com quem aprendi mais que ensinei.CEEP. por compartilharem de uma dupla missão. Em especial a Simone. Aos Colegas do corredor. em especial ao grupo de estudos do João. . pela Orientação não só na realização deste trabalho. À memória do grande amigo Alexandre Antônio. Estudos e Pesquisas . questionamento e respeito às minhas idéias. Aos meus Professores e Colegas do IFUSP. Ao Ferreira da CTR/CUT pela atenção e valor dado a este trabalho. Em especial ao Luizão e ao Villani pela minha formação em mecânica e relatividade. ao CNPq. Ao Professores Manoel Robilotta e José Sérgio. À Erika e ao Cristian pela mecânica relacional (mecânica 24 horas).AGRADECIMENTOS Agradeço ao Professor e Amigo João Zanetic. À minha esposa Cláudia. mas na condução da vida. em especial a Moniquinha e a Nádia. pelo financiamento parcial desta pesquisa. pelo incentivo. Aos Companheiros e Companheiras da Fundação Florestan Fernandes FFF e do Centro de Educação. E. A todos que foram meus alunos. pelas críticas e sugestões que muito ampliaram minha compreensão. meu filho Giordano Bruno e a memória de meu pai Onofre. pela minha humanidade. Paulão e Prado. Ao Zé e à Cris por estimularem minha forma de escrever.

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO . e de Linda (sua mãe) ele recebera apenas indicações muito vagas: a ciência era uma coisa com a qual se faziam helicópteros. Fez esforço desesperado para compreender o que o Administrador queria dizer. bastante bom para compreender que toda a ciência é simplesmente um livro de cozinha. Sim. fui um bom físico.perguntou sarcasticamente Mustafá Mond. Ciência? O Selvagem franziu a testa.. salvo com autorização do cozinheiro-chefe. . Sou eu cozinheiro-chefe agora.. Quanto a mim. Shakespeare e os velhos do pueblo nunca se haviam referido à ciência. O que significava exatamente. ser tratada como um inimigo possível. em suma. porém.continuou Mustafá Mond . Mas houve tempo em que eu era apenas um jovem lava-pratos cheio de curiosidade.) E toda a propaganda da ciência que fazemos no colégio. às vezes.essa é outra parcela no custo da estabilidade. Cozinha heterodoxa. uma coisa que fazia com que a gente risse das Danças do Trigo. de modo que não tem condições de julgar. com uma teoria ortodoxa de arte culinária que ninguém tem o direito de contestar e uma lista de receitas às quais não se deve acrescentar nada. Bom demais. Ela é perigosa. temos de mantê-la cuidadosamente acorrentada e amordaçada. também o é a ciência. ele não o sabia. Conhecia a palavra. mas que espécie de ciência? . Um pouco de ciência verdadeira. no meu tempo. (.Os senhores não receberam instrução científica. Pus-me a cozinhar um pouco a meu modo. TRECHO DA OBRA DE FICÇÃO CIENTÍFICA DE ALDOUS HUXLEY ADMIRÁVEL MUNDO NOVO . Sim. Toda descoberta da ciência pura é potencialmente subversiva: até a ciência deve. uma coisa que impedia de ter rugas e de perder os dentes. a própria ciência.Sim . Não é somente a arte que é incompatível com a felicidade... cozinha ilícita.1932 ... .

O Filosofo trabalhando – foto preferida de Feyerabend .

....................................................... PROPAGANDA.......................40 4......................................................................... A NOÇÃO DE ESPAÇO ABSOLUTO ................................. PROLIFERAÇÃO DE TEORIAS ............................................ CONTRA-INDUÇÃO E MAIS ................ O PRINCÍPIO DE MACH.......NOÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DE PAUL FEYERABEND .............................158 BIBLIOGRAFIA........................................................ MECÂNICA RELACIONAL.......................................................149 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...........122 7..............................161 ....................................PERSPECTIVAS EDUCACIONAIS ..........45 5....105 2.......... ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO ..................................96 IV ........22 1.......................... O PÊNDULO DE FOUCAULT................................................................................. OBEDIÊNCIA VERSUS OUSADIA NA FORMAÇÃO CIENTÍFICA....................................................... RELIGIÃO.........................104 1.................................................... A NOÇÃO DE INÉRCIA ..................................................114 5........... CONHECENDO OS ESPECIALISTAS .......................O PROBLEMA DA (I)MOBILIDADE DA TERRA....................................................................139 10.................................................................... A TERRA SE MOVE? ..Sumário INTRODUÇÃO........................................ CIÊNCIA...............27 2......................................... ONDE A PEDRA CAI? ...............82 3....... MAIS ARGUMENTOS..............131 8............................................................................60 III ..... O ARGUMENTO DA TORRE...........................................................................110 3.........................13 I ........35 3... MITOS E LENDAS .........................................A HISTÓRIA DESTE TRABALHO ...................... INCOMENSURABILIDADE E INTERPRETAÇÕES NATURAIS .....................................70 2.....................................................................147 11........................................112 4............................................... EM DEFESA DA RACIONALIDADE CIENTÍFICA........................67 1............................................... TODOS DEVEM SER IGUALMENTE INICIADOS NA TRADIÇÃO CIENTÍFICA?...53 6.............................................................................134 9....................17 II .......................................................... ACHATAMENTO NA FORMA DA TERRA ........................................................119 6................. A CIÊNCIA COMO TRADIÇÃO CULTURAL ........................

a existência. a epistemológico como conhecimento (seção . a concepção científico de anarquismo 3). Optamos por escrever este capítulo. de procedimentos conflitantes com o método científico de um determinado período histórico. ao invés de possuir um corpo de conhecimentos perfeito e acabado. sua relação com o Ensino de Física e suas limitações. identificar algumas perspectivas educacionais para o Ensino de Física. ao invés de apresentarmos estes elementos na introdução. apresentamos uma descrição. na prática científica. fornecer elementos para uma reflexão sobre a concepção de Ciência difundida socialmente. No segundo capítulo. Iniciamos o primeiro capítulo com algumas considerações sobre a história deste trabalho. é apresentada com uma tradição cultural entre outras (seção 1). Tendo por fundamento as implicações educacionais da epistemologia de Feyerabend apresentamos uma proposta para o Ensino de Física estruturada por conflitos entre teorias. dos principais elementos epistemológicos presentes na nossa análise do Ensino de Física: a Ciência. pretendemos. fazendo progredir a Ciência baliza (seção do 2). no entanto. mas. neste trabalho. segundo nossa interpretação.INTRODUÇÃO A partir de limitações metodológicas do processo de construção do conhecimento científico e do estudo de teorias alternativas presentes na epistemologia de Paul Feyerabend. por eles serem parte fundamental do trabalho e por permearem todas as análises e discussões realizadas posteriormente. bem como.

atentando ao desenvolvimento de uma prática da tolerância e considerando a Ciência como uma tradição cultural dentre outras. contendo algumas críticas às idéias de Feyerabend. elaboramos. pretendemos esboçar alguns limites da epistemologia de Feyerabend e suas implicações para a análise do Ensino de Física desenvolvida neste trabalho. algumas das noções epistemológicas de Feyerabend apresentar-se-ão inconsistentes ou até mesmo contrárias a uma "verdadeira" descrição da prática científica. por fim. deslocando a discussão para o nível superior de Ensino. a seção 6: Em defesa da racionalidade científica. indicamos alguns elementos para a reflexão sobre o Ensino de Ciências no nível básico apoiados na prática da (transform)ação social por professores e alunos frente aos peritos ou especialistas de diferentes tradições culturais (seção 2). a interação entre teorias alternativas e aquelas estabelecidas por diferentes grupos de pesquisa (seção 5). ainda no capítulo segundo. começamos por nos perguntar se todos devem ser rígida e igualmente iniciados na tradição científica durante a formação básica (seção 1). passamos a discutir as lições epistemológicas aprendidas com o estudo das concepções sobre a Ciência expressas no capítulo anterior e suas conseqüências para a educação: concebendo a educação escolar como um processo de iniciação de pessoas (crianças. Se consideradas fora de um amplo contexto. a seguir. justificamos porque mesmo os aspirantes a físicos (ou a professores de .Introdução 14 impossibilidade de redução total entre teorias sucessivas em conseqüência de alguns aspectos incomparáveis em seus conceitos fundamentais e o vínculo destes conceitos às diferentes formas de percepção fenomenológica (seção 4). Com isto. Atentos a este problema. jovens e adultos) nas tradições culturais. e em decorrência da primeira seção. e. No terceiro capítulo.

e. buscar sua racionalidade e . possibilitando-lhes um primeiro passo na direção de explorar e reconhecer os limites de seus trabalhos de investigação como pertencentes a uma determinada tradição de pesquisa.Introdução 15 Física) devem conviver com diferentes visões de mundo. exemplificando uma abordagem do Ensino de Física apoiada em contrastes. como uma introdução à leitura de Paul Feyerabend. uma variedade de modelos epistemológicos e. permitindo-lhes ampliar suas concepções da Ciência e refletir sobre as conseqüentes implicações educacionais aqui apresentadas. - aos pesquisadores da Ciência e do seu Ensino. como reflexões sobre suas próprias pesquisas. por meio da problematização da noção de inércia. participar da prática de diferentes grupos de pesquisa (seção 3). Como subsídio para a utilização e aprofundamento de nosso trabalho em situações de Ensino elaboramos um texto didático sobre a noção de Inércia tratando especificamente do problema do movimento da Terra (capítulo IV). principalmente. Nosso trabalho pode contribuir: - aos professores de Física. - aos professores e estudantes da Física em geral. Auxiliando-os no desafio de estudar a Física. seguir seus métodos e procedimentos.

Introdução 16 objetividade. ao mesmo tempo. . estar atento aos seus aspectos humanos e à coexistência de teorias e modelos alternativos que possibilitam explicitar os limites do conhecimento e flexibilizar suas verdades. e.

minha interação com ele não se dava no âmbito do discurso. Nasci de uma família pobre.A HISTÓRIA DESTE TRABALHO1 Com o intuito de permitir uma maior compreensão do conteúdo dos capítulos seguintes. desde os meus quatro anos de idade jogávamos dominó e. mas fazíamos muitas coisas juntos. sem o seu esforço e sacrifício eu não poderia estar escrevendo hoje estas palavras. e a segunda vem de minha atividade como professor de Física com uma postura intolerante. frente ao "aprendizado" da Ciência. na ocasião.I . ele sempre incentivou meus estudos. com o jogo. meus avós eram trabalhadores rurais e meus pais vieram para a cidade com o intuito de sobreviver às transformações sociais de sua época. ele 1 Em primeira pessoa. Meu pai. nunca foi à escola e fico admirado com o modo como conseguia sobreviver aos "tempos modernos". de onde talvez venha minha inspiração para as "exatas". possuía uma incrível habilidade de efetuar operações matemáticas fundamentais "de cabeça" e uma surpreendente capacidade de fazer previsões em jogos de dominó. natural do município de Ubá. descrevo inicialmente duas experiências de vida fundamentais para justificar a origem e a natureza deste trabalho. A primeira refere-se a uma crise vivida por mim (ACP) enquanto estudante de Física em minha relação pessoal com o que acreditava ser o "verdadeiro" significado do conhecimento científico. . Minas Gerais. juntos ganhávamos dinheiro em apostas. A primeira experiência ocorreu nos primeiros anos da minha graduação na licenciatura em Física entre 1994 e 1997. quase não conversávamos.

ela dizia. estudou até a quarta série do primário. Ela me forneceu. e possui técnicas e métodos próprios de investigação da "realidade" do conhecimento. Essa instituição fundamenta seus estudos em fragmentos filosóficos de antigas tradições como a alquimia e elementos da cultura oriental. na época. um "modelo" muito interessante de "verdade". entre outras. O avanço no estudo em Física. paradoxalmente.A história deste trabalho 18 morreu prematuramente em 1997. Em sua vida passou por diferentes igrejas e eu sempre a acompanhei. inclusive orgânico. Até hoje meu irmão ainda ganha muito mais dinheiro nesta área do que eu em Ensino. natural de Itabuna .Bahia. ou Gnose. Foi contra minha atitude de abandonar o emprego como eletricista industrial para estudar Física. . de onde talvez venha minha postura tolerante para com as diversas concepções culturais e religiosas. causou em mim um profundo conflito entre estas duas formas de enxergar o mundo. Talvez guiada por um instinto de proteção.você vai ficar louco . O desacordo entre a Física e a Gnose gerava um mal estar. e principalmente as idéias da Teoria da Relatividade. inclusive para a "realidade" do mundo físico. e. por sua religiosidade e incansável busca da "verdade". Em 1994 ingressei no curso de licenciatura em Física na Universidade de São Paulo e no mesmo ano passei a freqüentar uma instituição "religiosa" denominada Movimento Gnóstico. sempre questionou meus estudos. reclamava quando eu ficava muitas horas lendo . Isso me levou diversas vezes a pensar em abandonar a Física. deixando uma vida em que a Física não existia. Mas ela é responsável pela segunda componente do conflito aqui descrito. Minha mãe.

a maioria de vestibulares. dois segundos e dois terceiros. Precisava convencê-la de que estudar Física e seu Ensino me traria um futuro promissor. quase uma doença gerada pelo conflito entre a Física e a Gnose. guiava minha prática na imitação de meus antigos professores do segundo grau. Em meu primeiro ano tinha 24 horas/aula por semana: 12 aulas de Física para dois primeiros anos. pondo fim ao que na época consistia. As aulas eram "tradicionais". no início.A história deste trabalho 19 Creio que só não o fiz por causa de minha mãe. dava . e 12 aulas de matemática para as antigas sexta e sétima séries. funcionou como um remédio me libertando da busca da "verdade". O segundo evento desenrolou-se em minha atuação como professor. dentre outras atividades. para mim. não deixando os alunos "interromperem" e "atrapalhar" o Ensino. A visão de Ciência. e. falava a aula inteira. Foram os três anos mais angustiantes de minha vida. realizávamos encontros semanais para debater a leitura de livros sobre a História e a Filosofia da Ciência. elaborava longas listas de exercícios. presente na epistemologia de Feyerabend. Passei a gostar muito mais da Física e a apreciar com maior respeito seus princípios. métodos e equações. O problema só se revolveu em 1997 quando nasce uma das principais inspirações para este trabalho. de Feyerabend. Minha primeira participação foi no estudo do livro Contra o método. Nesse ano comecei a participar de um projeto de iniciação científica2 com o meu atual orientador (JZ). Comecei a ensinar Física a partir do meu segundo ano de licenciatura e. O estudo de Feyerabend trouxe paz e tranqüilidade para minha vida como estudante de Física e foi um elemento fundamental para que eu não desistisse dos estudos da Física e de me tornar um de seus professores.

Certamente ele desistiu dos estudos por causa de minhas aulas. PIBIC/CNPq . na época. como quem vê um fantasma. No ano seguinte R não voltou mais à escola. da minha matemática. as "minhas 2 É possível levar a Física Quântica para o segundo grau? Com bolsa de iniciação científica. "Para que serve a física?". segundo o qual aprender matemática é um inevitável sacrifício ao qual todos devem se submeter. Parece existir um "consenso" social. mas pareciam conformados de sua importância. mas. Daqueles que conseguiram sobreviver até o final do ano. mas. ao me ver. Quase todos os meus alunos detestavam e repudiavam a Física. superior às opiniões individuais. "trabalhando" como trocador de passes de ônibus. como o pior aluno.A história deste trabalho 20 uma prova por semana. ou melhor. e. aquilo dito. Quanto à matemática eles também a detestavam. Há alguns meses o encontrei. além de enormes listas para casa chegando até a elaborar um trabalho de matemática para as "férias" com mais de 100 exercícios de álgebra para os alunos da sexta e sétima séries. um especial (R) era considerado por mim.. Dentre os alunos reprovados. Nunca mais fui o mesmo. por interromper as aulas com perguntas "depreciativas" tais como: "Por que preciso aprender isso?". pressionado pelo "conselho de classe". fugiu escondendo-se na multidão. Mas. não só por entregar quase todas as provas em branco. "Qual o sentido desta aula?". ainda era possível reprovar um grande número de alunos e eu o fiz. Naquela época. tentei reprovar a maioria. Tentei caminhar em sua direção. tive de reconsiderar alguns casos. principalmente. ao sair de uma estação do metrô. não prestar atenção na aula. através de minha prática. desrespeitar minha autoridade de professor ou copiar os trabalhos dos colegas.. ele rapidamente abaixou a cabeça. ser ela. Receio que. Acreditava que os alunos só aprenderiam por meio do esforço e do cansaço.

A história deste trabalho 21 Ciências" tenham contribuído para a destruição de sua vida. a matemática e qualquer outra elaboração da mente humana devem ser ensinadas como tais e a vida e o desejo das pessoas devem ser respeitados acima de quaisquer "postulados algorítmicos" ou "resultados de pesquisas experimentais". que devem ser consideradas na leitura dos capítulos seguintes.a da Física. contribuíram para uma revisão dos limites de minha concepção da Física e principalmente de seu Ensino. E só não abandonei a missão de professor por assumir o "projeto socrático" aprendido com Feyerabend de mostrar aos professores a existência de limites nos métodos da Ciência. mas só assim podemos visualizá-los e compreendê-los um pouco melhor. A Física. como nos exercícios de Física. As idéias de Feyerabend. São estas as duas principais experiências da relação entre minha vida e o saber da Física no encontro com as idéias de Feyerabend. associadas a outras. seus "efeitos" foram intencionalmente "exagerados". uma como estudante e outra como professor. tornando-os mais flexíveis e tolerantes com aqueles que não "conseguem" ou que verdadeiramente não "desejam" olhar para o mundo por uma "realidade suprema" . . São exatamente alguns dos resultados dessa minha busca os constituintes dos capítulos seguintes e às vezes.

Paul K.NOÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DE PAUL FEYERABEND Estes devem ser os últimos dias. estudou Filosofia em Cambridge. ampliando significativamente os exemplos de limites da abordagem científica em sua "filosofia". . Feyerabend casou-se também com a noção de "tradições históricas". ao lado de sua esposa.1 Paul Karl Feyerabend (1924-1994). ele lembra 1 As últimas palavras escritas por Feyerabend. recebeu o título de doutor honoris causa em Letras e Humanidades pela Universidade de Chicago. não escritos. Sobre seu convívio com Ehrenhaft. São devidos a Grazia também os elementos de astrologia. quando ainda muito jovem. mas do amor. em 1947. Da formação de Feyerabend destacamos o contato com a filosofia de Ernst Mach. p. p.. vodu e medicina alternativa presentes em seu livro Adeus à Razão. 369. Eu queria que depois de minha partida ficassem algumas coisas minhas. e Adeus à Razão. não declarações finais. especializou-se em teatro tornando-se assistente de Bertolt Brecht. Ao casar-se com Grazia. e. a física Grazia Borrini. 197. FEYERABEND. mas amor. (. em Física. um destacado pensador austríaco: pesquisou eletrodinâmica clássica na Universidade de Viena onde obteve seu doutorado em Física. Minha última paralisia veio de algum sangramento dentro do cérebro. Matando o tempo. um dos mais famosos filósofos da Ciência.II . orientado por Karl Popper.) Isto é o que eu gostaria que acontecesse. a sobrevivência não intelectual. Nós os sorvemos um por um.. Cf. praticou canto com Adolf Vogel. quando era estudante em Viena. em um hospital. e a influência de professores de personalidade forte como Hans Thirring e Felix Ehrenhaft.

2 3 Paul K.e assim por diante. conviveu em toda sua vida de estudante com visões antagônicas da realidade apoiadas na Física.Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 23 . não necessitando de legitimações externas. p. 348. A este respeito a atitude de Ehrenhaft estava muito próxima da de Stark e Lenard. . Começava depois um ataque cerrado contra os princípios da teoria eletromagnética e especialmente contra a equação div B = 0. Contra o Método. A primeira coisa a pôr de parte era a lei da inércia: era de supor que os objetos que não sofressem interferências em vez de seguirem uma linha reta se moviam em hélice... Cada demonstração era acompanhada por algumas observações delicadamente irônicas sobre a "Física Escolar" e sobre os "teóricos" que constroem castelos no ar sem levar em conta as experiências que Ehrenhaft improvisava e continuava a improvisar em todos os campos e que produziam uma pletora de resultados inexplicáveis. Esse pode ter sido um dos motivos a levá-lo a uma postura anarquista3 frente aos métodos da Ciência. A relatividade e a teoria quântica eram rejeitadas à partida como especulações quase evidentemente ociosas. não era pouco o que tínhamos que engolir.2 Feyerabend cresceu ao lado de importantes cientistas notando que seus trabalhos se sustentavam por si mesmos. FEYERABEND. Voltaremos a considerar essa influência ao explicar a concepção "anarquista" de Feyerabend sobre o processo de construção do conhecimento científico na seção 3 deste capítulo. Mas ele ia mais longe e criticava igualmente os fundamentos da Física Clássica. que citou mais de uma vez aprovadoramente. Em seguida eram demonstradas propriedades novas e surpreendentes da luz . Como professor inspirou sua prática pedagógica nas aulas de Karl Popper ao deixar que os estudantes apresentassem seminários sobre temas livres.

reflexos da presunção de um grupo pequeno que conseguira escravizar toda a gente com as suas idéias. de contribuir para a difusão da razão e do progresso da humanidade! Que maravilhosa oportunidade de uma nova onda de esclarecimento!5 Contudo o mais importante é o modo como Feyerabend.4 De suas experiências didáticas Feyerabend sofreu grande influência quando. percebeu a situação. Quem era eu para dizer a estas pessoas o que e como pensar? (. Para o professor Feyerabend esse procedimento "é certamente melhor que o método de se concentrar num tópico fixo. FEYERABEND. p. Adeus à razão. em parte desdenhosos.Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 24 Qualquer assunto era possível desde que fosse exposto com clareza e tivesse consistência. . em parte curiosos. Matando o tempo. Ele adotou uma perspectiva diferente: Compreendi então que os argumentos complicados e as histórias maravilhosas que havia contado à minha assistência mais ou menos sofisticada. o 4 5 Paul K. com toneladas de bibliografia distribuída de antemão". 99.) Seriam sofisticações sem interesse que os filósofos haviam conseguido acumular ao longo dos anos e que os liberais tinham rodeado de frases cheias de sentimentalismo para serem agradáveis. negros. em conseqüência de novas políticas educativas. poderiam não passar de sonhos. 368. FEYERABEND.. em parte simplesmente confusos. Paul K. Que oportunidade para um profeta em busca de seguidores! Que oportunidade. p.. esperando receber "educação". Esses novos alunos sentavam-se. mexicanos e índios entraram na universidade. diferentemente de seus colegas. disseram-me os meus amigos racionalistas.

Feyerabend escreveu sua mais importante obra. mas de argumentos descobertos ao fio de encontros ocasionais.. perante a segurança arrogante com que certos intelectuais interferem na existência das pessoas..) Foram estas as idéias que me vieram à mente ao olhar a minha assistência e me fizeram ter uma revulsão e recuar de terror em face da missão que devia efetuar. e o desprezo pelo fracasso melífluo de que se servem para embelezar as 6 Paul K.6 Como Filósofo.para provocar Lakatos que morreu antes de poder responder . . E isso eu não queria ser.Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 25 mais indicado para oferecer às pessoas que haviam sido despojadas da sua terra. Contra o Método . da sua cultura. O ponto de vista subjacente à sua obra não resulta de uma operação do pensamento solidamente planejada. principalmente quando se referem à exclusão das características humanas do fazer científico. as exceções e principalmente o dogmatismo de alguns seguidores destas propostas metodológicas. Neste sentido. p. Adeus à razão. Quanto a essa missão .era a de um condutor de escravos muito requintado e muito sofisticado.criticando as análises da natureza da Ciência usualmente propostas. 368. ele não desenvolveu uma metodologia da pesquisa científica. A ira perante a destruição insensata de realizações culturais com as quais muito poderíamos ter aprendido. da sua dignidade e que se esperava que fossem agora absorver pacientemente e repetir depois as idéias anêmicas dos porta-vozes dos captores tão humanos? (. FEYERABEND.tornou-se-me agora bastante clara . mas procurou apontar as limitações.

FEYERABEND. alguns elementos de sua epistemologia. 7 Paul K. . 343. Contra o Método. na seção seguinte.7 Impulsionados por essa mesma força e tendo em mente essas experiências da vida de Feyerabend passamos a discutir. p.Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 26 suas malfeitorias foram e continuam a ser a força que me moveu neste livro".

podem aceitá-lo e utilizar sugestões científicas . p. cientistas e historiadores. sem apelo direto à experiência. de fundamental importância histórica por permitir uma "solução" para o problema de Hume . 20. bases do saber científico.1 À margem da Filosofia. Este equívoco apóia-se na falsa suposição de que os dados científicos. FEYERABEND. 3 Hume. isto é. queria dizer que podemos argumentar sobre a probabilidade de que algo venha a suceder novamente no futuro como vinha acontecendo no passado. mudança científica. p. David Hume abalou de forma irreparável a certeza do conhecimento científico ao analisar o problema da indução3. 2 1 . ao questionar o uso do método indutivo na ciência. Larry LAUDAN e outros. e não o único repositório de informação válida. crêem que o conhecimento científico é verdadeiro por comprovação metodológica. As pessoas podem consultá-lo.mostra que a Ciência não Paul K. Cf.2 Ainda no século XVIII.1. não podemos provar logicamente. ou seja. muitas pessoas. suficiente e inequívoca para escolhas sem ambigüidade entre hipóteses divergentes.mas não sem que antes tenham sido consideradas as alternativas locais e muito menos ainda como algo que se espera já. reconhecido por desenvolver uma nova lógica para a investigação científica. Hume criou dificuldades para o pensamento racional do século XVIII instaurando o ceticismo. Com essa crítica. que essa forma de proceder seja válida. professores. os resultados das observações e dos experimentos geram uma base verdadeira. colocando em dúvida as relações de causalidade. porém. dentre elas. 39. A Ciência como tradição cultural a "ciência" ortodoxa é uma instituição entre muitas. A não validade dessa suposição ingênua é um dos pontos de consenso entre os modernos filósofos da Ciência.um dos mais importantes filósofos da Ciência. Popper . Adeus à razão.

em conjecturas muito rigorosamente comprováveis. É revisável. ou a mais importante fonte de conhecimentos válidos na solução de problemas da vida humana e na investigação ou explicação dos fenômenos da natureza. mas. a Ciência ortodoxa é considerada por ele como uma instituição do saber entre muitas. um saber conjectural. mas sim construções humanas. Em seu conjunto.A ciência como tradição cultural 28 corresponde a uma verdade final e absoluta.4 Diversos modernos filósofos da Ciência abordaram o problema de pontos de vista diferentes e construíram sofisticados sistemas lógicos ou sociológicos para tentar recuperar a supremacia racional do saber científico. um saber seguro. Baseia-se em conjecturas comprováveis. de certo modo vai na contra-mão desta tendência consiste em abrir mão da superioridade científica frente às outras formas de resolução de problemas tradicionalmente estabelecidas. na melhor das hipóteses. ou seja. Não existiriam razões objetivas e absolutas para preferir a ciência e o racionalismo 4 Karl POPPER. Para ele o saber científico não é. em qualquer caso. que é o objeto de estudo dessa seção. . Uma solução bastante polêmica adotada por Feyerabend. 151. Tolerancia y responsabilidad intelectual. uma teoria científica não pode ser colhida diretamente de dados observacionais ou experimentais. Esta concepção está de acordo com a visão de que as teorias científicas não são frutos da natureza. precisamente. É sempre um saber hipotético. e não como a única. mas antes a um conjunto de conhecimentos sempre provisórios. p. sempre só em conjecturas. Neste sentido. as teorias constituiriam a Ciência que deveria ser considerada apenas como uma dentre muitas tradições culturais.

mas de modo algum exclusiva de 5 6 Larry LAUDAN e outros. 7. não possuímos um quadro geral bem confirmado de como a Ciência funciona. 354. 6 A concepção feyerabendiana da Ciência como uma tradição cultural não difere da prática científica como ela é hoje exercida nas instituições de pesquisa e Ensino de Ciências.A ciência como tradição cultural 29 ocidental a outras tradições humanas. Tivemos. valores estes mutáveis no decorrer da história e de significação diversa em diferentes culturas. pois mesmo para os outros modernos filósofos da Ciência. certa vez. os meios (formais.5 Feyerabend critica também a idéia do conhecimento científico ser obtido independentemente de vontades pessoais e circunstâncias culturais. ideológicos) disponíveis na altura e os desejos daqueles que com eles trabalham. Não existem condições duradouras que limitem a investigação científica. nem uma teoria da Ciência que mereça assentimento geral. a saber. propõe que a maneira como os problemas científicos são abordados e resolvidos depende das circunstâncias em que surgem. experimentais. a Ciência é "posta em seu lugar como uma forma interessante. p. Sua compreensão faz notar a Ciência livre de influências externas como a de uma lógica soberana. Adeus à razão. . mudança científica. FEYERABEND. p. que agora se encontra efetivamente refutada. Com isso. o positivismo ou empirismo lógico. Paul K. de uma verdade absoluta ou da racionalidade suprema. uma posição filosófica bem desenvolvida e historicamente influente. e em seu lugar.

mas fornece instrumentos que permitem ampliar vertiginosamente o poder de destruição humano. da tecnologia e do progresso. Lembramos aqui que a ciência não é em si só a causa de mazelas sociais.7 A existência de possíveis "efeitos colaterais" da apropriação indevida do progresso científico. sem levar em conta as tradições culturais dos "selvagens". No entanto. com a destruição dos valores espirituais que davam significado às vidas humanas até esferas antropológicas. nações e culturas. mas que também provocaram em outros povos muitas mazelas. em nome da Ciência. 214. possuidora de muitas vantagens.possuíam um "sistema imunológico" que lhes permitia superar uma enorme variedade de ameaças do organismo social. os malefícios de sua utilização para o fortalecimento da imposição ideológica/cultural/comercial/tecnológica pelos detentores da produção científica. são inegáveis. FEYERABEND. mas também de muitos inconvenientes". p. no caso da Segunda Guerra e na Guerra Fria que a sucedeu. exploravam o seu meio envolvente sem o 7 8 Paul K. ou melhor. . Assim. Por exemplo. levaram quase ao extermínio. estamos ressaltando não a Ciência em si como a vilã nos conflitos entre os povos. secas .A ciência como tradição cultural 30 conhecimento. Contra o Método. apoiado nos estudos de Lévi-Strauss. não podemos ignorar a anterior existência de povos "primitivos" desprovidos de um aparato equivalente à Ciência. com irreparáveis prejuízos materiais. Quanto ao trabalho de extensão da Ciência. o desprezo do saber das tradições milenares de tribos e povos "primitivos" cuja interferência.8 Afetaram desde esferas mais psicológicas. inundações. como por exemplo. Feyerabend faz notar sobre as tribos "primitivas" sabiam como fazer face às catástrofes naturais como pragas. Em épocas normais. mas o uso que se faz dela como elemento de validação da "verdade" a ser difundida.

346. Adeus à razão. tachado de "o pior inimigo da Ciência" (Nature. Descartes. por esse mesmo motivo. p.A ciência como tradição cultural 31 danificar. . Newton. aplicando os conhecimentos de propriedades de plantas. Joule. Whewell deram razões religiosas para algumas de suas suposições mais básicas. enquanto os antropólogos descobrem que a abordagem objetiva que 9 Paul K. profissionais do campo do ambiente e desenvolvimento aprenderam e ainda aprendem de populações locais. Como exemplo mencionamos os contributos de tradições resistentes ao efeitos colaterais da racionalização científica ortodoxa como a arte do período paleolítico e a eficácia de sistemas médicos não ocidentais. primeiro pelos gangsters do colonialismo e depois pelos humanitários do auxílio para o desenvolvimento. 9 Por outro lado. Thomson. 1987). a concepção da Ciência como tradição cultural e o conseqüente respeito às outras tradições podem trazer grandes contribuições com as quais não só os cientistas mas toda a humanidade podem se beneficiar. A conseqüente incapacidade de grande parte do chamado Terceiro Mundo é o resultado da. Apesar do crescente reconhecimento da Ciência se beneficiar da interação com outras tradições culturais. Feyerabend foi. não uma razão para a. Por quê? Porque eu dizia que abordagens não ligadas a instituições científicas podiam ter algum valor. interferência do exterior. mudanças climáticas e interações ecológicas que estamos a recuperar muito lentamente. Eram tais abordagens heresias profanas? Os cientistas por certo não pensaram sempre deste modo. Estes conhecimentos foram gravemente afetados e parcialmente destruídos. FEYERABEND. Darwin prestou atenção nos criadores de animais e naturalistas.

cozinhamos com o microondas. ou da estruturação ou modelagem matemática e. não estão livres do compromisso com a descrição dos fenômenos naturais. como a Ciência. dentre as outras tradições já intimamente incorporadas na vida das pessoas.10 Ao considerar a Ciência como uma tradição cultural Feyerabend não está dando às outras tradições o caráter de "científicas" ou "racionais" mas. as Ciências. A Ciência consiste em um modo diferente de conhecer o universo e os fenômenos naturais. Falamos da Ciência do "Outro" e quase nunca da "Nossa" Ciência. está mostrando a Ciência. dentro de um amplo contexto histórico e cultural11. a Química ou a Biologia.A ciência como tradição cultural 32 eles seguiam como óbvia lhes fornecia caricaturas . Enfatizamos a idéia de Ciência como uma tradição cultural corresponder a uma descrição da prática científica como ela é hoje exercida nos grandes centros de pesquisa. estão dispensadas da crítica conceitual. nem tão pouco. ao contrário. pode facilitar o rompimento do atual distanciamento e descomprometimento da maior parte da sociedade frente às questões da Ciência. Difundir a concepção de Ciência como uma tradição cultural. . submetemo-nos a exames por meio de tomografias 10 Paul K. 154. como a Física. ou da utilização de procedimentos metodológicos. como qualquer outra tradição.e assim por diante. Matando o tempo. FEYERABEND. inclusive aqueles advindos de conhecimentos mais elaborados. essa é a essência de seu caráter de tradição cultural. p. A sociedade contemporânea parece simplificar e conviver tranqüilamente com grandes problemas e conflitos da vida e do mundo contemporâneos.

13 Trecho de uma fala de Galileu na peça "Vida de Galileu". envolvimento e responsabilidade com essa tradição humana. dos livros. Ela se relaciona com muitas outras instituições sociais.A ciência como tradição cultural 33 computadorizadas ou ressonância nuclear magnética. pg. das possíveis implicações éticas de sua utilização. 11 Esse é um dos principais equívocos das críticas à concepção de ciência como tradição defendida por Feyerabend. muitas vezes. da vida das pessoas. é difundir exemplos da relação entre a Ciência e o poder. dos jornais. Esse e outros equívocos serão discutidos na seção final deste capítulo. é disseminar a idéia de que apesar de estarmos longe do objetivo de "aliviar a canseira da existência humana"13 a tradição científica. das revistas de divulgação. paradoxalmente não "digerimos" o microondas. também contribuiu para um "potencial bem estar" da humanidade. . da nossa participação. da construção desse conhecimento. na segunda seção do próximo capítulo. Aceitamos. 165. esses produtos tecnológicos como "milagres" que só aos "santos" é permitido compreender. A responsabilidade social do cientista deve ser problematizada em um complexo contexto sócio-econômico-cultural bastante amplo.. ao conceber a Física como uma tradição cultural. incorporar a essa maneira de olhar o mundo suas reais dimensões hoje ausentes das escolas. de sua real serventia. e nos comunicamos por meio do microcomputador. da mídia. Assim. não "examinamos" o tomógrafo nem nos "comunicamos" com o computador. mas estamos cada vez mais afastados dos fundamentos científicos. Atuar contra uma mistificação do poder da "Ciência do Outro". assim como outras tradições sobreviventes no mundo contemporâneo. 12 Voltaremos a esta questão ao discutir a função dos peritos e especialistas na sociedade contemporânea. de Bertolt Brecht. A Ciência é uma instituição social..12 Faz-se necessário.

A ciência como tradição cultural 34 Enfim. não como algo absoluto e inquestionável dado pela natureza. de mitos e princípios "inquestionáveis". muitas vezes implícitos. considerar a Ciência como uma tradição cultural entre muitas permite enxergar o conhecimento e a produção científica como frutos de um processo dinâmico da construção humana. implica em reconhecer a presença de crenças. impõe a presença de dúvidas. significa compreender a existência de rupturas conceituais e de mudanças na prática científica. erros e outros atributos humanos na prática científica.. . corresponde a apropriar-se do conhecimento científico. mas como uma elaboração proveniente dos físicos. químicos.. que são humanos antes de serem cientistas. biólogos. nos conceitos fundamentais da formulação das teorias científicas. incertezas..

ou atualmente. contra-indução e mais Os fatos. Propaganda. em certos momentos. analisamos as relações da Ciência com outras instituições do saber procurando mostrar a inexistência de razões objetivas e absolutas que justifiquem uma superioridade do saber científico sobre as outras maneiras de solucionar problemas e de dar respostas às inquietudes da mente humana. operações e resultados que constituem as ciências não têm uma estrutura comum. Buscamos explicitar a existência de procedimentos metodológicos e ideológicos conflitantes. operações metodológicas ou resultados experimentais. E como principais conseqüências: . seja no decorrer da história. entre os diversos grupos de pesquisa científica. agora. pretendemos problematizar a não existência de uma unidade definida rigidamente como Ciência. segundo essa sua tese. indispensáveis para o processo da Ciência. Feyerabend apresenta como tese principal uma crítica à existência de uma estrutura comum para toda a prática cientifica constituída seja por fatos históricos. Contra o Método.2. As investigações científicas. isto é.1 Na seção anterior. a analisar a prática científica de um ponto de vista mais internalista. nesta seção. Passamos. Em seu mais famoso livro. ou seja. não possuem um conjunto de elementos capazes de as definirem inequivocamente. não há elementos que se verifiquem em todas as investigações e só nelas. apresentamos a natureza cultural da Ciência principalmente por uma perspectiva externalista.

as contraregras: (-1) introduzir hipóteses que conflitem com teorias confirmadas ou corroboradas. Contra o Método. Feyerabend e o pluralismo metodológico. 1 2 Paul K. a partir do estudo de acontecimentos históricos. propõe. contra-indução e mais 36 os êxitos científicos não podem ser explicados de maneira simples. p. 235. P.2 Como já mencionamos. (+2) eliminar hipóteses que não se ajustem a fatos bem estabelecidos. [e] . 11. K. FEYERABEND. Isso só seria possível se houvessem modos de proceder que pudéssemos extrair das situações particulares da investigação e cuja presença fosse de molde a garantir o sucesso.. que se mantêm ligadas às suas raízes no empirismo e no indutivismo são: (+1) só aceitar hipóteses que se ajustem a teorias confirmadas ou corroboradas. no capítulo 2 de Contra o Método. de muitos. FEYERABEND. Cf. As duas principais regras metodológicas de "o método científico". p. Paul K. e. 3 Cf. a título de exemplo.o sucesso da "ciência" não pode ser usado como argumento para a abordagem de problemas ainda por resolver de acordo com um modelo-padrão. . REGNER. 3 Para mostrar os limites da utilização de regras metodológicas desta natureza e verificar a possibilidade de fazer avançar a Ciência agindo em oposição ao "método científico". p.. na existência do que poderíamos identificar como "o método cientifico".. Feyerabend. mas também de uma análise abstrata da relação entre idéia e ação. a ilusão da correspondência entre o saber científico e uma verdade absoluta deve-se à crença. em uma versão contemporânea.Propaganda.. 12. Anna C. Contra o Método.

Novas teorias conquistam seguidores e passam a fazer parte da tradição científica não por serem testadas.Propaganda. Feyerabend fundamenta as idéias na História da Ciência analisando o modo como Galileu divulga a doutrina copernicana e a maneira como cria uma nova Física de contribuição fundamental para o avanço do conhecimento científico. ou apoiadas de modo melhor que as antigas rivais. P. p. apoiando seu fazer científico em regras de natureza contra-indutiva. As contra-regras são apenas. 237. sobretudo pela propaganda de seus defensores. K. REGNER. não podem ser simplesmente incorporadas ao "método científico". A propaganda depõe contra a noção de uma ciência absoluta e racionalmente construída.4 Nesse estudo. mas. exemplos de limites metodológicos da prática científica. contra-indução e mais 37 (-2) introduzir hipóteses que não se ajustem a fatos bem estabelecidos. ou seja. . A propaganda presente na proposição de uma teoria aspirante à tradição científica não deve ser concebida (em quase todos os casos) em seus aspectos 4 Anna C. ou testáveis. A utilização de regras contra-indutivas associadas às regras indutivas não garante o avanço da Ciência e elas também não constituem um padrão metodológico absoluto. Feyerabend e o pluralismo metodológico. De sua perspectiva. e tão somente. A utilização de propaganda na conquista de adeptos às novas teorias científicas é um outro elemento analisado por Feyerabend. Galileu seguiu por um caminho contrário "ao método científico" estabelecido em sua época.

no que se refere às influências culturais sobre as escolhas científicas. também há consenso entre os modernos filósofos da Ciência ao admitirem que fatores metafísicos. ou seja. A avaliação é mais do que uma simples questão de relacionar a teoria com a evidência.e que por certo foi propaganda. e devendo talvez ser evitada por "cientistas profissionais honestos". Dessa forma os escritos de Galileu constituem uma obra que com freqüência esteve associada à propaganda . Mas a propaganda deste tipo não é um aspecto marginal acompanhando meios supostamente mais substanciais de defesa. teológicos e outros fatores não científicos desempenham um importante papel na avaliação de teorias científicas. FEYERABEND. segundo Feyerabend. os cientistas.5 Além de pecadores por contrariarem "o método científico" e de oportunistas por utilizarem propagandas para convencer os oponentes de suas idéais. como em algumas maquiavélicas estratégias de merchandising. Contra o Método. uma só Ciência. 159. 5 Paul K. a propaganda faz parte da essência das coisas. contra-indução e mais 38 nocivos. Nas circunstâncias que estamos a considerar. Segundo Laudan. .Propaganda. p.6 Além de sugerirmos conceber a Ciência como uma tradição cultural dentre outras. não podem se libertar das crenças não científicas a que são submetidos durante sua formação. não são neutros culturalmente. acrescentamos agora a idéia de não existir uma unidade.

Cada grupo atua em pesquisas envolvendo o conhecimento científico enraizado em seu fazer por elementos culturais que influenciam suas escolhas entre teorias ou procedimentos metodológicos disponíveis. violando inconscientemente "o método científico". 6 Larry LAUDAN e outros. Dentre estes elementos destacamos: a compatibilidade com crenças metafísicas culturalmente compartilhadas. que poderíamos chamar rigorosamente de "a tradição científica". mudança científica. e às vezes o de.. desenvolver novas teorias ou procedimentos experimentais. O reconhecimento desses elementos na prática científica leva a uma nova e frutífera maneira de olhar para o conhecimento científico. e assim. suas teorias e prescrições metodológicas: a Ciência como Tradição Cultural. manter a tradição. para alimentar novos grupos de pesquisa. mas diversos grupos de pesquisa formando distintas tradições científicas.. a exposição às propagandas e promessas de novas teorias ou procedimentos experimentais. contra-indução e mais 39 uma só Física ou uma só Química. 20. p. e mesmo o desejo individual de cada integrante do grupo de ser reconhecido por seus pares em um sempre pequeno-grande feito. .Propaganda.

dentre eles Boltzmann. por 1 Paul K. por exemplo.: as condições exteriores que lhe são impostas pelos fatos da experiência não lhe permitem deixar-se limitar na construção do universo conceitual aderindo a um sistema epistemológico. A variedade de opiniões é necessária ao conhecimento objetivo. abriu o seu caminho nesse tal sistema. p. FEYERABEND. Einstein.. não pode dar-se ao luxo de levar tão longe a sua luta pela sistematicidade epistemológica.. às vítimas aterradas ou ávidas de um (antigo ou moderno) mito.3. porém. E um método que encoraja a variedade é também o único método compatível com uma perspectiva de humanidade. Einstein. Anarquismo epistemológico A unanimidade da opinião pode servir a uma igreja. Contra o Método. Ele nos faz notar que o epistemólogo.1 A concepção de uma prática científica relativamente livre de regras lógicas absolutas ou princípios epistemológicos rígidos não é algo novo. ao procurar um sistema claro. Deve. 50. . está presente em escritos de diversos cientistas. ou os seguidores fracos e voluntários de um tirano. e também em filósofos como Mill e Wittgenstein. critica os esforços dos filósofos "racionais" e "sistemáticos" apresentando o fazer científico independente de regras fixas ou metodologias rígidas. e já se sente inclinado a interpretar o conteúdo ideológico da ciência na acepção do seu sistema. Duhem. O cientista. e Bohr. Mach.

o melhor que um filósofo da Ciência. e pelo convívio com Thirring e Ehrenhaft. dentre os modernos filósofos da Ciência. Em sua concepção. FEYERABEND. sentir-se-ão impelidos a pôr de lado infantilidades como regras lógicas e princípios epistemológicos e começar a pensar em formas mais complexas .e mais não podemos fazer devido à natureza do material. Ao ouvirem a nossa história. os cientistas ficarão sensibilizados para a riqueza do processo histórico que querem transformar. 223. de longe. pelo estudo de Mill. consideram.3 2 3 Paul K. demonstrar a inerente complexidade da investigação e prepará-los. 328. as peculiaridades da situação em que estão atuando. Paul K. pode fazer para os cientistas é enumerar métodos práticos. apresentar-se ao epistemólogo sistemático como um tipo de oportunista sem o menor escrúpulo. influenciado principalmente pelas idéias de Mach. para o atoleiro em que estão prestes a entrar.2 Feyerabend. p. Assim. mas sempre. muitas vezes conflitantes. dar exemplos históricos. FEYERABEND. adotou. quando confrontados com um problema concreto de investigação. os cientistas podem se servir de diferentes referenciais filosóficos. uma postura autodenominada de anarquismo epistemológico.Anarquismo epistemológico 41 conseguinte. acima destes modelos. a função da epistemologia da Ciência não é a de fornecer um sistema único sob o qual o cientista deve guiar rigidamente ou limitar sua prática. deste modo. p. apresentar casos estudados que contenham processos diversos. nenhum modelo epistemológico pode produzir padrões e elementos estruturais úteis a todas as atividades científicas. Adeus à razão. . Adeus à razão.

contra algo que se pretenda erigir como "o" método. não significa. do que oposição a toda e qualquer organização. Como indicado por Regner. soluções perfeitas para o problema da sobrevivência. ao contrário. imutável de ordem.ou seja. Em suas palavras: Antes de Darwin. para toda e qualquer situação . Na sua tradução metodológica. . Ele. demarcadora do que seja "ciência". é devastadora. na forma como o estamos descrevendo. "anarquismo" significa. Feyerabend e o pluralismo metodológico.Anarquismo epistemológico 42 É importante salientar que o anarquismo epistemológico de Feyerabend difere. REGNER. Esta idéia é defendida por Feyerabend em Consolando o especialista. fixo. ser contra todo e qualquer procedimento metodológico. restrito de regras que se pretenda universalmente válido. fundamentalmente. era costume considerar os organismos como objetos de criação divina e. absoluto. antes. P. produz uma imensa variedade de formas e 4 5 Anna C. tanto do ceticismo como do anarquismo político (ou religioso). Feyerabend compara sua descrição epistemológica do progresso do conhecimento científico com a teoria de evolução de Darwin.5 Para justificar como a Ciência pode avançar sem um plano racionalmente organizado. como "a" característica distintiva. não pretende ser apenas uma prescrição metodológica. 233. não tem razão de ser. portanto. oposição a um princípio único. Darwin chamou a atenção para inúmeros "erros": a vida não é uma realização cuidadosamente planejada e meticulosamente efetuada de objetivos claros e definidos. mas contra a instituição de um conjunto único. p. por conseguinte.4 O anarquismo epistemológico. é efetivamente uma descrição de como historicamente o conhecimento da Ciência evoluiu. K.

. Leis. deve 6 7 Paul K. Adeus à razão.Anarquismo epistemológico 43 deixa a cargo de uma determinada fase que alcançou (e das envolventes naturais existentes na altura) a definição dos insucessos. FEYERABEND. são resultados transitórios. Boltzmann e outros ao demonstrarem que o desenvolvimento do conhecimento não é um processo bem planejado e que decorre normalmente. teorias. fatos. ao selecionar os "fatos históricos" ou "componentes lógicos" de seu modelo. os cientistas não são escravos obedientes que ao entrarem no Templo da Ciência procuram ansiosamente adaptar-se às suas regras. inclusive os mais elementares princípios lógicos. FEYERABEND. também ele precisa de muitas idéias e procedimentos para se manter em curso. Segundo sua leitura. padrões básicos de pensamento. 6 Partindo da influência Darwiniana. também ele se apresenta devastador e cheio de erros. seguem em frente e redefinem constantemente a ciência (e o conhecimento e a lógica) através do seu trabalho. p. não propriedades definidoras do processo. Paul K.7 O anarquismo epistemológico não implica o abandono de toda e qualquer forma de pensar a prática científica. não perguntam "o que é a ciência?" ou "o que é o conhecimento?" ou "como procede um bom cientista?" adaptando depois a sua investigação às limitações contidas na resposta. Deste modo. Adeus à razão. Mas significa antes que o epistemólogo. Feyerabend tece uma analogia com o processo de evolução das Ciências ilustrando sua concepção de anarquismo epistemológico. produzindo conceitos que os permitam compreender e justificar. 221. 221. também não proíbe os filósofos de refletirem sobre as atividades dos cientistas. esta concepção está implícita nas idéias de Mach. e. p.

aqui apresentada. que seu trabalho pode gerar se considerado por um ponto de vista dogmático. o cientista terá maior oportunidade (o que não implica necessariamente que o fará) de explorar seus pressupostos. questionando as balizas de seu exercício. o que se possa fazer inadvertidamente em nome deles. em meio a tantos outros.Anarquismo epistemológico 44 sempre referir suas conclusões aos exemplos analisados. desta forma. com o intuito de contribuir para seu alargamento e qualificação. ou. limitando. Se estiver consciente deste aspecto da natureza de sua prática. A noção de anarquismo epistemológico combate a imposição de princípios absolutos e regras lógicas que se pretendam universalmente válidos. políticos. . Ao reconhecer a existência de limites em sua metodologia de pesquisa o cientista (e o filósofo da Ciência que tenta compreender os seus procedimentos) estará mais atento a problemas éticos. pior. Enfim. ao considerar uma pluralidade de métodos e o convívio de teorias contrastantes na formação e na prática dos cientistas e professores de Ciências. a concepção de anarquismo epistemológico. gnosiológicos. Um cientista interessado em ampliar a compreensão de seus resultados experimentais ou proposições teóricas adotará uma perspectiva mais pluralista. constitui uma descrição mais humana da produção do conhecimento científico. comparará teorias com outras teorias e valorizará os momentos de conflito entre seus elementos de trabalho como oportunidades de aprimorar seu conhecimento. estéticos. seus conceitos às situações as quais eles se aplicam.

. como esses conceitos sucessivos ou concorrentes são analisados nas respectivas metodologias de trabalho adotadas por diferentes defensores ou articuladores de diferentes teorias. em que a natureza geral do objeto descoberto já é conhecido. A busca por tentar entender como ocorre a mudança científica entre teorias sucessivas e a forma como são estabelecidos vínculos entre seus princípios têm levado à formulação de numerosas idéias sobre o significado do conhecimento científico. fazem parte desse esforço por tentar descrever como se relacionam entre si os conceitos de teorias sucessivas ou concorrentes e. Ao contrário. As noções de incomensurabilidade e interpretação natural. freqüentemente não pode ser redefinido sem uma drástica mudança em seu significado conceitual. não são como a descoberta da América. quando analisado em uma teoria rival ou sucessiva. Incomensurabilidade e interpretações naturais As descobertas importantes. Um conceito claramente definido numa teoria. FEYERABEND. 1 Paul K. presentes na epistemologia de Feyerabend. A incomensurabilidade deve-se à suposição da existência de diferentes padrões conceituais e metodológicos entre teorias distintas.1 Uma questão muito debatida pelos modernos filósofos da Ciência é a da natureza da mudança de constituição do conhecimento científico. Matando o tempo. 100.4. p. elas são como reconhecer que se estava sonhando.

Lavoisier passou a enxergar o oxigênio onde antes se via ar deflogistizado. Problemas de indeterminação surgem claramente nas tentativas de .2 Quanto à existência de estruturas de pensamentos incomensuráveis entre si. Feyerabend. e. Galileu aprendeu a ver o pêndulo onde Aristóteles via uma queda forçada para o lugar natural. por uma mesma palavra e apresentarem expressões matemáticas equivalentes. desenvolve três teses centrais a seu favor.Incomensurabilidade e interpretações naturais 46 Noções incomensuráveis são aquelas que. possuem significados profundamente diferentes na passagem da formulação de uma teoria à outra. um outro exemplo bem ilustrativo e muito importante em nosso mundo contemporâneo é a indeterminação da tradução. termo a termo. ao apresentar a noção de incomensurabilidade. podemos considerar a diferença inconciliável entre as formas de pensamento ocidental e oriental. ou seja. tornam sem sentido. a idéia de que não é possível traduzir-se. A existência de: (1) esquemas de pensamento incomensuráveis entre si. Einstein introduziu a noção de espaço-tempo com significado distinto das noções de espaço e tempo da mecânica newtoniana. determinados sistemas conceituais e que agem à base das cosmovisões encerradas nas nossas teorias científicas. e. e. muitas vezes. Por exemplo. serem expressas. (3) princípios ontológicos condicionantes das ideologias subjacentes a culturas diversas que impedem. (2) estágios incomensuráveis no desenvolvimento da percepção no indivíduo (reportando-se a Piaget). na teoria da relatividade. apesar de referirem-se a um mesmo fenômeno. os elementos de uma linguagem a outra.

'Lies' pode significar tanto 'repousa' quanto 'mente' (do verbo mentir). 166. ele se lembra de si mesmo aos oito ou nove anos.. P. Nota do tradutor 4 Paul Auster. é claro. em seus livros. K. Neste sentido. O inventor da solidão. universal e inabalável que repousa escondida no centro do mundo. juntamente com uma nota de rodapé do tradutor. e a súbita sensação de poder que experimentou em si mesmo quando descobriu que era capaz de brincar com as palavras dessa forma . a grande Babel de língua zumbindo e se entre chocando no mundo externo à sua vida escolar. p. ele não havia considerado a existência de outras línguas além do inglês. 5 2 Anna C. ilustra bem a indeterminação contida na estrutura da linguagem: (. faz notar que quando novas teorias surgem. "Aqui há mais um jogo de palavras do autor: 'the . que mente escondida no centro do mundo". 242.. truth that lies hidden at the center of the world'. O escritor norte-americano contemporâneo Paul Auster sempre utiliza. jogos de palavras que servem para exemplificar a característica incomensurável da tradução entre línguas.Incomensurabilidade e interpretações naturais 47 tradução entre termos próprios de uma língua à outra. do Português ao Japonês ou Inglês e vice-versa. ampliando o sentido conferido aos fatos. E como pode a verdade absoluta e inabalável mudar de língua para língua?4 Feyerabend questionou a proposição de que as teorias sucessivas não passam por variações em seus significados lingüísticos...) ao escrever a palavra "escolar". as declarações da linguagem anterior se alteram. 3 . Feyerabend e o pluralismo metodológico. Outra leitura da frase seria 'a verdade .como se houvesse acidentalmente descoberto um caminho secreto para a verdade: a verdade absoluta... A seguinte citação de um trecho de um dos livros deste autor.3 Em seu entusiasmo de estudante. cf. REGNER. por exemplo. p.

Incomensurabilidade e interpretações naturais 48 Quanto à existência de estágios incomensuráveis no desenvolvimento da percepção. Neste sentido. investiga as relações desses com outras atividades. assim também o inventor de uma nova visão do mundo (e o filósofo da ciência que tenta compreender o seu procedimento) tem que ser capaz de dizer coisas sem sentido até que o sem sentido criado por ele e pelos seus amigos atinja as dimensões suficientes para atribuir sentido a todas as partes da nova concepção. Feyerabend propõe que o cientista. a partir das idéias de Piaget sobre o desenvolvimento infantil. a única maneira possível para desvelar seus significados é vivenciando-os. proceda: como um antropólogo ao estudar a cosmologia de uma tribo: aprende sua linguagem e informa-se dos seus hábitos sociais. mesmo as que pareçam 5 Euclides A. frente a uma nova visão dos fenômenos com os quais está habituado a descrever por sua teoria (língua). . só descobre o princípio de atribuição de sentido depois de agir desse modo durante muito tempo sendo a atividade de jogo um pressuposto necessário do florescer posterior do sentido -. Feyerabend tece uma analogia entre o processo de constituição da linguagem em uma criança e o processo de desenvolvimento de uma nova teoria por um cientista: Tal como uma criança que começa a servir-se das palavras antes de as ter compreendido. MANCE. O Filosofar como Prática de Cidadania. que soma cada vez mais fragmentos lingüísticos por compreender na sua atividade lúdica.6 No que diz respeito à existência de princípios ontológicos condicionantes das ideologias subjacentes a culturas diversas que impedem determinados sistemas conceituais e sua impregnação da língua.

interiorizando-as. p. nem em apoio à percepção do 6 7 Paul K. não consistindo. nem em um obstáculo. 256. . Contra o Método. 242. A partir dela.Incomensurabilidade e interpretações naturais 49 irrelevantes. como as pressuposições necessárias (a priori). o modo de pensar europeu e o nativo. entendê-las. completando seu estudo com o conhecimento da sociedade nativa e de seu próprio desenvolvimento pessoal. por exemplo. sem buscar "traduções" prematuras. Interpretações naturais podem ser entendidas como "idéias tão intimamente associadas à observação que se torna necessário um esforço especial para nos darmos conta da sua existência e para determinarmos o seu conteúdo". em Kant. as chamadas interpretações naturais. FEYERABEND. Anna C. p. 79. Esses óculos conceituais constituem a segunda noção abordada nessa seção. procura identificar as idéias-chave e. como os preconceitos ou ídolos que devem ser removidos antes do início de uma análise séria do fenômeno. e decidir acerca da possibilidade ou não de reproduzi-lo na linguagem ocidental7 Tomar consciência da existência de conceitos incomensuráveis entre teorias distintas sobre um mesmo fenômeno natural possibilita um constante questionamento da validade de nossas percepções. de forma absoluta. 8 Paul K. então. REGNER. notamos que os proponentes de uma teoria científica vêm o mundo com óculos conceituais diferentes e somos levados a considerar nossa percepção aparentemente natural como uma dentre outras interpretações possíveis para o fenômeno analisado. em Bacon. Contra o Método. P. Feyerabend e o pluralismo metodológico. em Galileu. pode estabelecer comparações entre.8 Feyerabend identifica a presença de conceitos similares à sua noção de interpretação natural em importantes filósofos e na prática dos cientistas. p. surgem de maneira diferente. FEYERABEND. K.

se eliminarmos todas as interpretações naturais. com passos iguais aos seus.por outro lado. "ele insiste numa discussão crítica a fim de decidir quais as interpretações naturais podem ser conservadas e quais devem ser substituídas". eliminaremos também a capacidade de pensar e perceber. é evidente que uma pessoa que enfrentasse um campo de percepções sem uma única interpretação natural ao seu dispor ficaria completamente desorientada e nem sequer poderia começar a tratar de ciência.Incomensurabilidade e interpretações naturais 50 fenômeno observado.10 Um exemplo bastante interessante utilizado por Galileu para denunciar a contaminação da evidência empírica é a falácia do gato. quando a vêem cintilar ao longo dos beirais dos telhados. p. não devemos acreditar cegamente em todas as evidências dos sentidos. Aí a Lua surge-lhes do mesmo modo que um gato que realmente corresse por cima das telhas e os arrastasse atrás de si. a partir da qual se pode descobrir quão facilmente qualquer um pode ser enganado pela simples aparência. 87. ou digamos que pelas impressões dos sentidos.ou fornecidas por outros instrumentos experimentais que são prolongações dos sentidos. acrescentaríamos . Paul K. Esse acontecimento é a aparência para aqueles que se deslocam ao longo de uma rua durante a noite e que são seguidos pela Lua.. uma 9 10 Paul K.9 Segundo o modo de proceder de Galileu. . FEYERABEND.. FEYERABEND. não podemos nunca nos livrar de todas as interpretações naturais pois. 84. . mas ao contrário. Galileu não realiza juízos globais sobre a observação. Contra o Método. p. Contra o Método.

os membros de uma tradição. Citado em Paul K. . se a razão não intervier. mas também deve-se ao caldo cultural no qual estamos imersos. Feyerabend e o pluralismo metodológico. E toda teoria tem um significado mais amplo contido na tradição cultural sobre a qual foi formulada. a existência de interpretações naturais justifica-se dada a "contaminação" histórica e fisiológica da evidência. principalmente. limitada por interpretações naturais em sua relação com os fenômenos. 81. possuem finalidades ou précompreensões que definem as interpretações naturais surgidas em seu fazer científico levando-os a escolher certas peculiaridades dos fenômenos considerados.12 Toda teoria é. dependem. FEYERABEND. iludirá de modo demasiado óbvio os nossos sentidos. nossa maneira de olhar não é somente nossa maneira de olhar. Cf. Assim. nada permite espelhar totalmente o fenômeno na mente de uma pessoa. p. mas. Anna C. como os químicos analíticos.126. p. p. por exemplo. mas somente representá-lo ou conceituá-lo parcialmente. P. REGNER. portanto. As descrições fenomenológicas não são apreendidas diretamente da relação com a observação. 237. 11 12 Dialoque. Toda e qualquer interpretação natural possui em sua natureza íntima a característica básica de nos conectar de forma sempre parcial ao fenômeno observado.11 Diferentes interpretações naturais são como o olhar com diferentes óculos ou de diferentes perspectivas para um mesmo fenômeno.Incomensurabilidade e interpretações naturais 51 aparência que. Assim. não há nenhuma forma de se observar fenômenos livre de interpretações. Em outras palavras. ao invés disso. ou seja. K. Contra o Método. da tradição de interpretadores a que pertencemos.

Apesar de existirem muitas interpretações naturais. de diversas tradições culturais. intentam expulsar os maus espíritos causadores das doenças.Incomensurabilidade e interpretações naturais 52 Existem laboratórios farmacológicos realizando pesquisas em plantas com o intuito de isolar substâncias ativas e formalizar. sob os cânones da Ciência contemporânea. ambas permitem operar de maneira equivalente ao solucionar o problema a que se propõem: curar determinada doença. A existência de conceitos incomensuráveis entre teorias sucessivas ou concorrentes. Remédios são produzidos e comercializados originando-se. a noção de interpretação natural e a idéia de que as evidências empíricas são aprendidas dentro de uma tradição cultural completam nossa concepção de Física como uma tradição cultural dentre outras. assim. de conhecimentos milenares elaborados e transmitidos sob outra interpretação natural. ser consideradas valiosas se proporcionarem uma intervenção consciente sobre os próprios fenômenos alcançando os propósitos previstos pela tradição em que foram elaboradas e são elementos importantes para o aprendizado e desenvolvimento científico. os conhecimentos milenares de tribos indígenas sobre determinadas ervas utilizadas em rituais de cura. contudo. Enquanto os remédios se propõem a reagir quimicamente alterando os processos biológicos e proporcionando a defesa do organismo contra bactérias e vírus os seres elementais contidos nos chás indígenas. . Trata-se de duas tradições diferentes. a farmacológica e a indígena. e embora elas pareçam muito diferentes entre si. embora se expressem de formas distintas. sobre os mesmos fenômenos. e. todas podem. durante o ritual de cura. utilizando as mesmas substâncias.

FEYERABEND. mas não contestado. um ponto de vista que é totalmente verdadeiro.1 A última e uma da mais importantes noções da epistemologia de Paul Feyerabend. com pouca compreensão ou sentimento em relação aos seus motivos racionais. destacando que para a proliferação de idéias Mill indica quatro diferentes motivos: Primeiro. como a opinião geral e predominante de qualquer assunto muito raramente ou nunca é toda a verdade. ao analisar a diversidade de perspectivas da Ciência. nem sequer se entenderá o seu 1 Paul K. consideradas neste trabalho. porque uma pessoa pode ter razões para rejeitar uma perspectiva e esta ser mesmo verdadeira. p. Em quarto. será considerado como um preconceito. só com o choque de opiniões contrárias é que a restante verdade tem oportunidade de intervir. Proliferação de teorias servir-se da ciência para denegrir e talvez mesmo eliminar todas as alternativas. porque uma perspectiva problemática pode conter e normalmente contém. Ela implica na constatação de que os cientistas desenvolvem e sustentam teorias alternativas.5. negá-lo é assumir a nossa própria infalibilidade. e. mesmo quando estas conflitam com "fatos" ou "resultados experimentais" amplamente confirmados e estabelecidos. 47. Feyerabend considera as idéias de John S. Adeus à razão. significa servir-se de uma reputação bem merecida para manter um dogmatismo contrário ao espírito daqueles que o conquistaram. é a de proliferação de teorias. uma parte de verdade. Mill. Em terceiro lugar. . Em segundo lugar.

Proliferação de teorias 54 sentido. HEBERT.3 E o aconselhou a optar pela carreira de pianista. Um professor de Física de Max Planck chegou a afirmar-lhe certa vez "A física acabou. 46. expressou a opinião que o esboço básico das teorias físicas estava muito bem estabelecido e que restavam somente "duas pequenas nuvens" no horizonte. p. Como sabemos Planck entrou nesta rua "sem saída" e abriu uma pequena passagem para uma cidade muito maior e inexplorada . um dos físicos de renome da época. temos uma lição a aprender com a história da Ciência. a saber. p.2 Quanto à proposição de não existirem garantias das teorias atualmente estabelecidas corresponderem a uma verdade definitiva. Deve-se admitir que Lord Kelvin soube escolher bem suas "nuvens". os resultados negativos da experiência de Michelson-Morley e a falha da lei de Rayleigh-Jeans em predizer a distribuição da energia radiante num corpo negro.47. A realidade quântica. Nos referimos à postura dos físicos no final do século XIX quando se admitia a investigação em Física ter chegado ao seu fim. É uma rua sem saída". Adeus à razão. meu jovem. uma vez que esses foram precisamente os dois problemas que eventualmente produziram as mudanças revolucionárias na estrutura conceitual da Física que ocorreram no 2 3 Paul K.a Física Quântica. e mostre em que consiste o seu significado. Cf. A aplicação bem sucedida das leis de Newton em diversos problemas do universo mecânico mostrava o poder de validade da Física Clássica que parecia incontestavelmente estabelecida. FEYERABEND. a menos que se verifique um contraste com outras opiniões. . Nick. e aceitá-lo será uma mera confissão formal. David Bohm relata que também Lord Kelvin.

como ocorreu com a proposta de Aristarco para o movimento da Terra em torno do Sol que ficou esquecida por muitos num longo período por contrariar as "evidências" dos sentidos fornecidas em conformidade com a Física Aristotélico-Ptolomáica. 68.4 Muitas vezes corremos o risco de negar uma teoria alternativa e esta se mostrar "verdadeira" mais tarde. Neste exemplo. Feyerabend faz notar que: os ingredientes ideológicos do nosso saber e. Causality and chance in modern physics. Impedir Galileu de estudar e divulgar as novas Ciências.Proliferação de teorias 55 século vinte em conexão com a teoria da relatividade e a teoria quântica.. como a inquisição. são descobertos com o auxílio de teorias que os refutam. é não abandonar a teoria mas 4 David BOHM. das nossas observações. portanto. na eventualidade de uma contradição entre uma teoria nova e interessante e uma coleção de fatos firmemente estabelecidos. por exemplo. por elementos externos à prática científica. a partir do contraste com as interpretações fornecidas por teorias alternativas desenvolvidas por Galileu em suas Duas Novas Ciências. significaria coibir a proliferação de teorias retardando o avanço da Ciência. .. após o advento da teoria heliocêntrica de Copérnico. No que diz respeito à existência de preconceitos implícitos na prática científica e a oportunidade de explicitá-los a partir do contraste com uma teoria alternativa. p. em especial. o melhor procedimento. as "evidências" da imobilidade da Terra estavam articuladas de tal modo que só puderam ser contestadas.

Teorias alternativas não são incorporadas e aceitas quando novas idéias teóricas são criadas. O contraste permite que os fundamentos de ambas as teorias (a tradicionalmente estabelecida e uma jovem teoria opositora) sejam fortalecidos com uma substancial melhora na compreensão de ambas.Proliferação de teorias 56 servirmo-nos dela para a descoberta dos princípios ocultos responsáveis pela contradição. . Precisamos de um modelo 'exterior' de crítica. ou mesmo 5 Paul K. a oportunidade de contrastar os "fatos" que fundamentam as teorias cientificas tradicionalmente estabelecidas por grupos de pesquisa consolidados com jovens teorias alternativas. para além de uma apropriação meramente formal e dogmática dos resultados das equações matemáticas. ou seja. Essas Jovens Teorias Alternativas quase sempre se inspiram em antigas teorias alternativas que haviam sido desconsideradas pelos setores representativos da Ciência. para que se possa entender e ampliar o sentido ou significado de suas proposições básicas e princípios fundamentais.5 Esta é a característica da proliferação de teorias com maior implicação para nosso trabalho. 89. de um conjunto organizado de suposições alternativas. Para ampliarmos a compreensão conceitual de uma teoria não podemos analisá-la de 'dentro'. FEYERABEND. Contra o Método. como foi o caso da teoria heliocêntrica de Copérnico que foi formulada a partir da proposta de Aristarco. p. Um aspecto importante da interação entre teorias rivais descrito por Feyerabend reside na consideração de que a proposta de uma nova teoria nunca é imediatamente incorporada pelos grupos de pesquisa.

No processo de incorporação de uma teoria alternativa não só os elementos racionais entram em jogo mas todo um conjunto de atributos essencialmente humanos6. ou que se choque frontalmente contra as verificações da hipótese do Big Bang . Nesse sentido há a necessidade de dar tempo para que novas teorias alternativas da Física superem suas imperfeições iniciais e consigam se estabelecer.. requerendo verificações inteiramente novas. uma teoria alternativa que negue a constância da velocidade da luz. à luz de seus novos princípios teóricos. rever os procedimentos experimentais utilizados para medir a velocidade da luz até então realizados e revisar os "fatos" que fundamentam a idéia do Big 6 Como os contraditórios procedimentos contra-indutivos e o uso de propagandas descritos na seção 2 deste capítulo . pois É evidente que uma nova visão do mundo tomará algum tempo até se manifestar e que nunca teremos êxito na tentativa de a formularmos na sua plenitude.fatos bem estabelecidos e aparentemente "comprovados" .não deve ser combatida por isso só.. os cientistas de tendência empirista confrontam de imediato a nova ciência com o "status quo" e anunciam triunfantemente que ela "não está de acordo com os fatos e princípios admitidos".Proliferação de teorias 57 dados empíricos são descobertos. Esta necessidade de "esperar" e "ignorar" grandes massas de observações e medições críticas quase nunca é analisada pelas nossas metodologias. Será preciso também. mas só quando toda uma nova visão de mundo toma seu lugar. Sem levarmos em conta a possibilidade de que uma nova Física ou uma nova Astronomia possam ter que ser julgadas segundo uma nova teoria do conhecimento.7 Por exemplo.

por que os cientistas se envolvem com elas? O que os leva a questionar "fatos" amplamente estabelecidos? Ou por quê dialogar com uma teoria que de imediato não nos oferece nada de novo? Para responder essas questões recorremos a uma interessante analogia entre Ciência e arte como tradições culturais de natureza semelhante à constituição do conhecimento e ao progresso .. consenso entre todos os grupos de pesquisa. Contra o Método. FEYERABEND. a simplicidade da apresentação. O mais importante é que nunca existirá. romper as fronteiras das teorias estabelecidas. 152. p. a elegância da expressão. será possível. FEYERABEND. empenho. então o estilo. por parte dos defensores das teorias estabelecidas. 159. tolerância. a tensão entre a intriga e a narração. p.8 7 8 Paul K. passam a ser traços importantes do que conhecemos. respeito e interesse de fortalecer suas idéias denunciando erros conceituais e falsas interpretações de dados empíricos. e nem desejamos que exista. a qualidade sedutora do conteúdo. . vontade e capacidade de convencer e conquistar novos adeptos (até com uso legítimo de propagandas) e..Proliferação de teorias 58 Bang. Contra o Método. denunciar com convicção os equívocos da teoria alternativa proposta ou. Só então. rever experimentos e rediscutir princípios básicos exige por parte dos proponentes das teorias alternativas verbas. Paul K. Mas. o que é também possível. Poderíamos perguntar: se novas teorias alternativas são problemáticas. Dão vida ao que é dito e ajudam-nos a vencer a resistência do material observacional. uma vez que se tenha compreendido que um ajustamento empírico estrito não tem grande valor e que deve ser afrouxado em tempos de mudança.

Proliferação de teorias

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Podemos conceber uma parte da prática científica - aquela que está além da "evidência empírica" - como um processo de produção artística, com a diferença de o material ser o pensamento e a matemática e não a tinta, ou o mármore, ou o metal, ou sons melodiosos... A proliferação de teorias entendida aqui como a interação entre teorias bem estabelecidas e teorias alternativas não implica em uma ruptura conceitual da noção de racionalidade científica. Os atores da Ciência, como sempre fizeram, continuam trabalhando em uma dada teoria, em sua tradição. Cada cientista, corretamente segue seu grupo de pesquisa e defende-o tenazmente. Cabe ainda lembrar que as proposições de novas teorias sempre partem de cientistas de dentro de grupos de pesquisa bem estabelecidos. Ou seja, para construir uma teoria rival, é necessário conhecer tão bem, se não melhor, a teoria que está sendo questionada. A noção de proliferação permite notar ocorrências ocasionais de rupturas em alguns grupos e justifica o modo como essa ruptura gera novos grupos. Diferentes grupos discutem entre si, sem necessariamente (ou quase nunca) chegar a um acordo, se opõem e conflitam entre si.

6. Em defesa da racionalidade científica

Não sou contra uma ciência assim entendida. Essa ciência é uma das mais maravilhosas invenções do espírito humano. Mas sou contra as ideologias que se servem do nome da ciência como arma de extermínio cultural.1

Esboçamos a seguir algumas considerações sobre nossa interpretação da obra de Feyerabend, sua crítica, seus limites e uma nova concepção para a racionalidade científica como concebida por Regner2. No entanto, alertamos que não caberia neste trabalho uma justificação extensiva das críticas à filosofia por ele desenvolvida. Na seção 3, ao apresentarmos a noção de anarquismo epistemológico, procuramos distinguir essa abordagem do anarquismo político e religioso. Neste sentido reafirmamos que as idéias de Feyerabend exploradas neste trabalho não implicam em uma metodologia da pesquisa científica bem definida. Mas antes, os elementos da epistemologia aqui estudados, pretendem explicitar a existência de limites nas filosofias da Ciência que procuram descrever ou fazer prescrições sobre o modo como o conhecimento científico avança. Entendemos as idéias de Feyerabend não como um conjunto de regras (epistemo)lógicas rígidas, mas sim, como limitações de princípios e regras dessa natureza, que, muitas vezes, se encontram envolvidas por uma "racionalidade" e isolada de "atributos humanos" e da efetiva prática científica sobre as quais se
1

Paul K. FEYERABEND, Contra o Método, p. 15.

Em defesa da racionalidade científica

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fundamentam. Sobre as implicações de sua epistemologia para a vida das pessoas em geral e dos cientistas em particular, Feyerabend escreveu:

a minha preocupação não é nem a racionalidade, nem a ciência, nem a liberdade - abstrações desta natureza revelam-se mais prejudiciais do que benéficas - mas a qualidade da vida dos indivíduos. Esta qualidade deve ser conhecida por intermédio de experiência pessoal antes de poderem ser apresentadas quaisquer sugestões. Por outras palavras: as sugestões para a mudança devem provir de amigos, e não de "pensadores" longínquos.3 Feyerabend, em nossa interpretação, não desenvolveu uma lógica da pesquisa científica, não criou uma estrutura das revoluções científicas e não explorou uma formação do espírito científico4. Sua epistemologia não é um novo sistema filosófico ou um conjunto de premissas lógicas que devem compor argumentos e ser analisados pela razão, mas antes, um conjunto de regras práticas que podem ser vivenciadas por aqueles que delas se interessarem:

... comentários vagos e imprecisos que fiz sobre o estado, a ética, a educação e a máquina da ciência deverão ser analisados pelas pessoas a que se destinam. São opiniões subjetivas e não diretrizes "objetivas"; devem ser testados por outros sujeitos, não por critérios "objetivos" e receberem poder político apenas depois de todas as pessoas interessadas os terem considerado: o consenso daqueles a quem se dirigem, e não os meus argumentos, é que acabarão por decidir a questão.5
2

Anna C. K. P. REGNER, Feyerabend e o pluralismo metodológico Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 27. 4 Estamos parafraseando aqui três grandes epistemólogos contemporâneos: Popper, Kuhn e Bachelard, nesta ordem 5 Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 357.
3

irracionais e deveriam ser postos de lado. Isso sim constitui realmente uma 6 Veja por exemplo Alan SOKAL & Jean BRICMONT. poderia compreender sob si o princípio nem tudo vale como princípio de ordem inferior. Ao dizer "tudo vale" ele simplesmente pretendia mostrar que todas as regras e critérios têm seus limites e que não devem ser mantidos a todo custo. 84-91 . A interpretação que estamos justificando é compartilhada por Anna Carolina Regner. não depende da prévia aceitação desse princípio ou de qualquer princípio que fosse universalmente válido. não pretendendo uma nova "teoria da ciência" ou da "racionalidade". ao interpretarem como implicação imediata de suas idéias o preceito de que todas as regras e critérios científicos seriam inúteis. pg. Entendido como um meta-princípio. com a crítica que elabora contra o "racionalismo". 7 O "tudo vale" é um bom exemplo do estilo irônico e dos muitos gracejos presentes nos escritos de Feyerabend. Cabe igualmente ressaltar que a análise da ciência feita por Feyerabend. Sobre o "tudo vale" ou "qualquer coisa serve" ser lido como o princípio filosófico fundamental da epistemologia de Feyerabend ela nos alerta para o fato de que: Não cabe aqui a crítica de que este princípio seria auto-destrutivo. Essa não é a interpretação de nosso trabalho. Isso por Feyerabend ter escrito em seu Contra o Método que "tudo vale".Em defesa da racionalidade científica 62 As principais críticas às idéias de Feyerabend referem-se a ele como um relativista radical ou um anarquista ingênuo6. atinente a um particular contexto. Imposturas Intelectuais. enquanto tudo vale seria o único princípio que se aplicaria a todos os contextos.

muitas vezes se sentiu angustiado pela falta de ressonância de suas idéias entre os alunos e pelo mal estar gerado na 7 Anna C. Feyerabend escreve ao justificar a dedicatória de seu livro a Lakatos: Imre Lakatos gostava de embaraçar os seus opositores sérios com gracejos e ironias. 86..Em defesa da racionalidade científica 63 dificuldade na leitura de seus textos. esse problema. se por um lado dificulta a compreensão de suas idéias.9 Apesar desse seu estilo irônico e humorístico Feyerabend em sua atuação como professor . REGNER. torna muito mais desafiante. por outro.mas a exclamação apavorada de um racionalista que observa a história um pouco mais de perto.não penso que possam ser utilizados e produtivamente discutidos os "princípios" fora da situação concreta de investigação que supomos que afetam . seus escritos são ricamente fundamentados. Feyerabend e o pluralismo metodológico.8 Contudo. Imposturas Intelectuais. K. pelo que. Alan SOKAL & Jean BRICMONT.como todo professor . p. como teríamos rido os dois lendo juntos semelhantes efusões. por que não. como também do próprio conhecimento da Física. 8 . REGNER.. Biologia. Além disso. de grande fôlego. amplas e amplamente equivocadas que me foram feitas após a publicação da primeira edição inglesa do livro. p. humana sua leitura e estudo. P. lembrei-me muitas vezes do meu convívio com Imre. também eu. Feyerabend e o pluralismo metodológico. 235. de vez em quanto. Química. adotei uma escrita de estilo irônico. K. com referências em trabalhos reconhecidos da história e filosofia da Ciência. "O principal problema quando se lê Feyerabend é saber quando levá-lo à sério". Ao ler as muitas críticas sérias. prazerosa e. No prefácio à 2a edição inglesa de Against Method de 1988. P. 235. Anna C. 9 Cf. pg. Exemplo disso é o final do Capítulo 1: "qualquer coisa serve" [ou "tudo vale"] não é um "princípio" que eu sustente .

disseram meus amigos. as idéias de Feyerabend não constituem uma filosofia da Ciência entendida como um conjunto de regras metodológicas rígidas ou de princípios lógicos. que participa da comissão avaliadora desta dissertação. mas apenas algumas de suas versões petrificadas e tirânicas. política. Com apenas algumas exceções.) Mas as pessoas que encontrava pareciam privadas de idéias concretas que lhes fossem próprias. Feyerabend desistiu de um curso em Yale após se aborrecer a ponto de chorar ao final de um seminário: "Isto é culpa sua". Matando o tempo. O Professor do Instituto de Física da USP. costuma contar uma história em que. noções que permitem questionar os limites de sistemas epistemológicos e de suas interferências. mas ao invés disso. 141. dentre outras. Nunca "denegri a razão". de um teatro melhor. um começo difícil . de filmes melhores e assim por diante (.10 E é esse um dos principais efeitos nocivos de uma interpretação descontextualizada das idéias de Feyerabend11 . de uma melhor organização da sociedade. de melhores relações entre os indivíduos. Eu via as coisas de outro modo.. FEYERABEND. ficavam sentadas chorando. alguns de seus alunos ficaram tão aborrecidos que chegaram a abandonar o curso de física após uma leitura de Contra o Método. Tampouco eu supunha que minha crítica pudesse ser o fim da questão. elas concordavam com minha crítica. em nome da "verdadeira" prática científica nas esferas econômica. Era um começo. Como indicado na seção 3. ao invés de mudar.Em defesa da racionalidade científica 64 maioria de seus ouvintes ao chocarem-se com suas idéias. certa vez. 11 10 .algo importante a ser considerado neste trabalho. Manoel Robilotta. p.. seja isto o que for. contudo.do quê? De uma melhor compreensão das ciências. cultural e da educação. Paul K. "Primeiro você denigre a razão e depois espera que as pessoas digam algo interessante".

Para resumir e finalizar nossa abordagem das noções epistemológicas de Feyerabend exploraremos uma analogia entre a razão e o mapa de uma cidade. ao adotar uma postura semelhante em seus escritos. mas ao contrário. Feyerabend e o pluralismo metodológico. Anna Regner. não diminuem a racionalidade científica. O cientista possui um mapa (razão) para percorrer uma cidade (prática). K. 12 13 Para parafrasear os dois principais livros estudados. Anna C. E conclui Feyerabend seu Contra o método. ora redesenhando o mapa (mudando sua razão). acaba sendo o meio pelo qual qualquer decisão pela Ciência seja muito mais racional. fortalece-a. calcada na visão esclarecida e sopesada de razões. do que tem sido.Em defesa da racionalidade científica 65 Neste trabalho interpretamos a filosofia de Feyerabend de modo que o ato de dar Adeus à Razão e a tentativa de agir Contra o método12. . P.13 Apresentamos assim uma concepção interacionista da razão e da prática científica. REGNER. Mas a cidade tem atividade humana e está em constante modificação. dizendo: "a racionalidade de nossas crenças se verá consideravelmente acentuada". p. desta forma ele deve agir ora modificando sua prática (atuando na cidade). tornando-a mais flexível e humana. 244. que deve ser vista como tal. aqui também é preciso estar atento aos limites da analogia. a uma razão contextualizada: Expondo-a [a Ciência] em seus mecanismos irracionais. A distinção entre a razão (o mapa) e a prática (a cidade) deve considerar duas entidades diferentes mas não disjuntas. nos pergunta se o desvelamento da Ciência exposto por Feyerabend não conduziria a uma nova racionalidade. Mas. à luz das regras do racionalismo.

Em nenhum momento as idéias de Feyerabend significam que o conhecimento científico pode avançar sem uma interação entre uma razão e uma prática. em defesa da racionalidade científica. . agir "contra o método" significa violar sua prática (modificar a cidade.Em defesa da racionalidade científica 66 O "Adeus à Razão" significa que o cientista guiado por sua prática (o caminhar pela cidade) pode apagar e redesenhar a razão (o mapa) ao perceber sua inadequação. construir uma nova avenida) a partir de uma nova razão ou um projeto interessante de pesquisa (um novo mapa). Agimos assim. Por outro lado.

elas compõem um conjunto de reflexões sobre os ideais. p. mas ao contrário. pretende perpetuar. Adeus à razão. dentro da educação geral. contra 1 tentativas sistemáticas de Nesse capítulo. 366. objetivos e valores 1 Paul K. além de saberes: hábitos. .a escola. Cabe enfatizar a contextualização do Ensino científico dentro da instituição de Ensino em que se insere . tendo a científica incluída em seu bojo. A educação escolar. Antes de iniciarmos a apresentação de considerações sobre as possíveis perspectivas educacionais das noções esboçadas no capítulo anterior é importante explicitar que compreendemos o Ensino de Ciências.PERSPECTIVAS EDUCACIONAIS A melhor educação consiste na imunização das pessoas educação.III . valores e crenças socialmente estabelecidos como importantes. como algo que vai além da mera transmissão de conceitos. passamos a discutir as lições epistemológicas aprendidas com o estudo das concepções sobre a Ciência expressas no capítulo anterior e suas implicações para a educação em geral e para o Ensino de Física em particular. FEYERABEND. As perspectivas educacionais aqui apresentadas não devem ser vistas como princípios metodológicos ou sistematizações de práticas pedagógicas de modo a constituírem-se em objetivos ou num referencial para que professores de Ciência ou de Física possam organizar suas aulas.

ou um modo mais simples ou fácil . Não se trata de uma transposição das noções epistemológicas de Feyerabend para a fundamentação de uma teoria de Ensino ou para aprimorar as práticas educativas. Não estamos propondo uma teoria que careça de validação empírica ou diretrizes metodológicas para organizar o Ensino. justificação de certas escolhas e estabelecimento de objetivos e valores para o Ensino no contexto das instituições escolares. Ao apresentar perspectivas educacionais tendo por base a filosofia de Feyerabend não pretendemos. em momento algum. uma didática eficiente. Assim toda a justificação se fundamenta muito mais em escolhas valorativas que em dados empíricos e seu sentido é muito mais o de orientar que conduzir ações da prática educativa.para analisar questões especificas da educação. e em especial professores de Física.sua filosofia . avaliarem sua própria prática. 2 As noções educacionais desenvolvidas neste trabalho apresentam uma natureza predominantemente programática em detrimento de uma formulação prescritiva ou de uma fundamentação descritiva.Perspectivas Educacionais 68 associados aos processos educativos em Ciências que podem contribuir para a elucidação de questões que permitam aos atores da educação. mas sim de propiciar o uso de seu modo de pensar . desenvolver referenciais para uma forma mais rápida. mas procurando contribuir com noções que funcionem como limitadores na elaboração de ações educativas. vivências e casos particulares são explorados como sintomas de situações limites que em maior ou menor grau permeiam todas as relações educacionais. No entanto.

conteúdos e práticas de Ensino. Construtivismo: uma pedagogia esquecida da escola) . Visamos sim. As noções educacionais que serão apresentadas podem subsidiar mas não conduzir as ações de professores e outros agentes de Ensino inseridos em instituições escolares com contextos específicos. a consideração dos valores prioritários. Nesse sentido nosso trabalho só estará concluído quando seus leitores o vincularem a situações reais de Ensino. 2 Quanto à dimensão institucional da educação escolar. é algo mais parecido com uma arte-prática. socialmente estabelecidos. com predominância na escolha de métodos. Na concepção subjacente a este trabalho a educação não é uma Ciência. geralmente estar ausente das pesquisas específicas de ensino de ciências. mas pode fornecer elementos importantes caso se deseje refletir sobre o modo como as práticas são desenvolvidas.Perspectivas Educacionais 69 de educar. Nosso trabalho não terá valor nenhum se for considerado como ponto de partida para a elaboração de um projeto de Ensino. Se pensadas fora de um contexto escolar específico as noções discutidas fornecerão uma visão exterior e meramente abstrata da prática escolar. compartilhamos das idéias de José Sérgio Fonseca de Carvalho. (ver: CARVALHO.

respondeu Buda. . . . É preciso levar em conta as condições dos grupos locais.E cada uma aproximar-se-á de Deus à sua maneira: através da certeza. ou a melhor.Como é que o senhor pode dar respostas diferentes para a mesma pergunta? .Deus existe? . ou mesmo a pior fonte da sabedoria.Existe . aproximou-se outro homem. não existe . .disse Buda. um terceiro homem fez a mesma pergunta: .disse um dos seus discípulos. No final da tarde.Você terá que decidir . .Deus existe? . ou seja.Porque são pessoas diferentes .1.Mestre. é imprescindível conhecer. respeitar e valorizar as outras tradições que já fazem parte da vida dos . Depois do almoço.respondeu o Iluminado. quando um homem se aproximou.perguntou.de modo que ninguém pode ser-lhe indiferente mas não como a única. que absurdo! . da negação e da dúvida. . Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? “Buda estava reunido com os seus discípulos certa manhã.” Maktub A partir da idéia de que a Ciência é uma tradição cultural dentre outras nos perguntamos: como a Física deve entrar na formação básica? Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? Respondemos a essas questões sugerindo que a Ciência deve ser ensinada como uma maneira de ver entre muitas outras e não como a única via que leva à "verdade" ou à "realidade".Deus existe? quis saber . Também na educação básica devemos considerar o Ensino de Ciência como uma importante componente do conhecimento socialmente estabelecido e que deve compor os currículos escolares .Não.respondeu Buda. Para pensar a Ciência como uma tradição cultural tivemos de admitir a existência na prática científica de vontades pessoais e escolhas que dependem das circunstâncias culturais sob as quais atuam os diversos grupos de pesquisa.

Essas disciplinas. e ainda. No contexto educacional. de elementos associados aos valores e procedimentos dos espaços institucionais em que são desenvolvidas. nas quais as pessoas precisam ser educadas. ou . como a Física.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 71 educandos. ele professa também em favor da tradição a que corresponde e de certo modo reproduz e mantém vivo um saber que herdou. O que o professor faz quando ensina é permitir que o aluno reconheça-se no espelho das realizações humanas tradicionalmente organizadas pelo que conhecemos como disciplinas escolares e suas técnicas. a Antropologia ou a Geografia. as atividades de Ensino estão subordinadas ao compromisso essencial para a constituição das instituições escolares e tem a missão de difundir e preservar algumas tradições culturais publicamente consideradas como preciosas para a humanidade. com o conhecimento que transmite. são tradições públicas com séculos de acumulações e detentoras dos saberes desenvolvidos a partir de toda uma conjuntura social por nossos antepassados e que precisam ser valorizadas e respeitadas. além de conteúdos. mas também com a instituição de Ensino a que pertence. a Química. As disciplinas são vivas e compõem-se. Cada uma das disciplinas escolares constitui parte de tradições culturais e deve ser vista como muito mais que um conjunto de conteúdos ou uma lista de habilidades a serem alcançadas por um aluno individualmente. O professor tem um compromisso não só com o aluno. garantindo-lhe a preservação e a continuidade. Ao afirmar que nem todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica não estamos afirmando que a Ciência no mundo contemporâneo. A Ciência deve ser inserida entre estas tradições e conquistar seu valor próprio e lugar na vida das pessoas. neste sentido. sendo responsável por sua perpetuação.

um agrônomo extensionista precisa conhecer as crenças mágicas dos agricultores com os quais vai dialogar. a política. Por exemplo. Ao contrário. Tem sua estrutura lógica interna e reage. A tentativa de destruir. estamos dizendo que. o pensamento mágico não é ilógico nem é pré-lógico.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 72 mais especificamente no Brasil. como qualquer outro. a nosso modo de ver. contribui para o estabelecimento de uma falsa cientificidade. estas crenças mágicas não devem ser simplesmente ignoradas. Não considerar a cultura dos estudantes gera um conflito entre os conhecimentos de diferentes tradições culturais pertencentes às suas vidas e aqueles da Ciência que se pretende ensinar e que precisam ser explicitados nas atividades de ensino. por isso mesmo. está indiscutivelmente ligado a uma linguagem e a uma estrutura como a uma forma de atuar [a uma tradição]. o conhecimento científico está tão afastado do público em geral que. até onde pode. o desprezo e principalmente o fato de ignorar outros modos de conhecimento concorrentes ao científico corresponde. noutra estrutura e noutra maneira de atuar [noutra tradição] lhe desperta uma reação . Tão perigoso como atribuir à Ciência uma excessiva carga de verdade propiciando seu mau uso por parte de um discurso autoritário (não só vinculado à miopia científica mas também de outras esferas sociais como a religião. Este modo de pensar. a economia. etc) é negar a uma pessoa a oportunidade de compreender e utilizar os conhecimentos da Ciência para melhorar sua compreensão do mundo. a um dos principais equívocos da inserção do saber científico na educação básica em geral. Sobrepor a ele outra forma de pensar. domina o cotidiano das pessoas de modo a impedir a manifestação de outras tradições culturais. que implica noutra linguagem. o desrespeito. ao ser substituído mecanicamente por outro. como indica Paulo Freire.

que era pastor. vir conversar com ele. mas é muito difícil mudar a forma das pessoas pensarem. conta que: um professor de Biologia da escola em que leciono. 31. nervoso. Uma reação de defesa ante o "invasor" que ameaça romper seu equilíbrio interno.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 73 natural. bastante interessante uma professora de Física da rede pública de Ensino do estado de São Paulo. segundo entendemos. respondeu para ela.Eu aprendi isso na faculdade e o seu pai? . Declaração de uma professora da rede oficial de ensino do Estado de São Paulo.2 Nesse caso. Extensão ou comunicação? p. equivocadas por acharem-se detentoras da "verdade absoluta". ambas as posições estão. entrou em atrito com uma aluna evangélica e a mesma disse que não assistiria mais suas aulas e pediria para seu pai. . e assumida pela Diretora. que o que estava ensinando era científico e verdadeiro e o que o pai dela sabia era "papo furado". E a "solução" encontrada pelo Conselho de Escola. E completou: . Eu penso que essa não foi a melhor solução. ao explicar evolução das espécies. O professor. A situação descrita corresponde a um exemplo de confronto entre discursos autoritários bastante presente em escolas e geralmente impregnados em diversas esferas de atuação no cotidiano contemporâneo. Para solucionar o conflito entre dois discursos autoritários (a " Ciência" autoritária do professor x a "religião" 1 2 Paulo FREIRE.1 Em um exemplo.Isso gerou muita polêmica na escola e a diretora junto com o conselho de escola decidiu que a aluna não precisaria mais assistir as aulas de Biologia. foi autoritária e a pior possível. com escola localizada na Cidade de Itapevi.

permitindo-lhes relacionar . em maior ou menor grau. está imerso. do currículo e dos agentes escolares às idéias de outras tradições pertencentes à vida dos alunos. O aluno deve conhecê-la. em maior ou menor grau. a tolerância por parte da instituição de Ensino. Devem antes possuir. mas precisa realizar sozinho todas as escolhas em que ela seja significativa e ser capaz de dirigir sua própria vida. O segundo aspecto é a oportunidade de "pertencer" à tradição científica. por membros de um Conselho de Escola. entendemos que nem todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 74 autoritária da aluna) foi tomada uma medida mais autoritária ainda (de uma "educação" autoritária) – e. da comunidade na qual a escola está inserida. O primeiro. Por isso. e em particular o povo brasileiro. na relação de todos os estudantes com a realidade do conhecimento científico vivida nos cursos de Física. do professor. Tolerância e oportunidade são os dois pilares fundamentais de uma educação científica que pretenda superar o discurso autoritário ao qual a civilização contemporânea. O conhecimento científico é inegavelmente uma das mais importantes construções da humanidade e proibir-lhe o acesso em "razão" desta ou daquela tradição cultural é igualmente um grande erro. pior. o que poderíamos designar como cultura científica básica. significando que a Ciência não deve ser imposta como a verdade única ou maior. Uma educação apoiada na concepção de Ciência como tradição cultural que pretenda ir na contra-mão da educação autoritária precisa ser entendida sempre em dois aspectos complementares: tolerância versus oportunidade. Esse conflito entre "verdades" é um sintoma limite de um processo que está presente.

Estamos preocupados com a educação em Ciência como algo mais amplo do que as definições econômica ou sociológica permitem conceber. certamente. Uma educação maior na qual a aquisição de saberes está associada à atribuição de valores ao conhecimento. lingüística ou literatura. para cada escola. Identificamos a educação neste trabalho com o que preferimos chamar de iniciação à tradição científica a termos como treinamento. o que não impede de alguns. contrariamente ao Ensino da Ciência única. porém. instrução. A educação científica não pode ser construída somente em prol dos interesses de produzir cientistas mas sim de fornecer às pessoas a possibilidade de ampliarem seus domínios de pensamento.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 75 matematicamente grandezas simples presentes em seu dia-a-dia. fazerem da lingüística uma de suas tradições. mas. para cada um dos alunos. assim como. apropriar-se ao seu modo dos conceitos científicos ou conseguir encontrar uma informação importante sobre determinado fenômeno estudado. verdadeira e soberana. para cada comunidade. para cada classe de aula. nem todos precisam dominar e se interessar por investigações sobre semântica. ler uma notícia sobre Ciência. como na perspectiva de Peters: . ação e emoção. fazer uma estimativa. necessitam ser educados de forma a utilizar a língua como instrumento básico e serem capazes de decodificar textos importantes para sua vida. A educação científica para o grande público em geral pode se dar sem que ocorram rigorosamente estas atividades específicas e estas ainda podem ocorrer sem que satisfaçam todos os critérios implicados pela educação científica. por serem estes termos muito específicos. Dessa maneira a Física até o nível médio do Ensino contribuiria de forma diferente para cada cidade.

fruto da elaboração humana ao invés de uma verdade eterna. devem se adaptar.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 76 O conceito de "educação" [como iniciação] não privilegia qualquer tipo particular de processos. gostem da Física. Isto significa que. a escola e a comunidade. Daí. o professor e o programa escolar precisam respeitar as idéias oriundas da cultura local e trazidas pelos alunos e não utilizar a autoridade conferida a eles para impor suas "verdades" de modo intolerante. saibam . como o de treinamento. antes. como o treinamento. ao estudarem a Física juntos. só se estabelece com uma política educacional e um processo apropriado de formação de professores para que eles simultaneamente eduquem e sejam educados. o professor e o aluno serão iniciados na prática da Física e em seus procedimentos de forma consciente e de forma a se envolverem no que estão fazendo sempre de modo a perceberem que algo valioso está ocorrendo em suas vidas. critérios aos quais os processos. ou de atividades. A instituição de Ensino.3 A educação em Ciências como uma iniciação à tradição científica pressupõe uma progressiva tomada de consciência sobre a aquisição de conhecimentos. como fazer preleções. sugere. Dessa perspectiva o conhecimento científico precisa ser apresentado como um valioso produto humano e não como uma verdade superior. Uma educação que tolera o convívio do conhecimento científico com o de outras tradições e que procura transmitir o saber como algo valioso. mas não necessariamente. é possível que estejamos educando alguém enquanto o treinamos. por exemplo. Um destes critérios é o de que algo valioso deve se manifestar.

p. de algum modo. Educação como iniciação. ao professor de Física é preciso ser ofertada a possibilidade de ler sobre Física e conversar sobre Física. ela deve conter um mínimo de compreensão. . mas.4 Assim. Mas. 113. acrescentamos]. entendam como se faz Física e sejam formados em Física. só para dar um exemplo. inovações e "alterações" em seus procedimentos e métodos. Para que alguma coisa seja considerada como educação. seja formado em Física e tenha conhecido físicos. p. não entenderíamos isso como "educação". se ele não soubesse o que estava aprendendo. PETERS. enquanto aprendia [ou ensinado enquanto ensinava. a tradição da Física. ele não é visto como uma enciclopédia especializada de Física. É importante também que ele se mantenha informado da Física de seu tempo. 107. por exemplo. nesta concepção da educação científica é fundamental que o professor de Física. porque: um homem pode ser condicionado a fugir de cachorros ou ser induzido a fazer algo por sugestão hipnótica. ou mesmo alguém que consegue desvendar os misteriosos fenômenos que estão por trás do funcionamento de aparelhos tecnológicos do cotidiano. Assim. Sendo um "missionário" de sua "tradição" deve entender minimamente suas descobertas. pelo mesmo motivo: como. tenham vivido e ainda acompanhem. Educação como iniciação. Para compor um corpo docente que intermedie a relação entre as tradições científicas e os valores da instituição escolar. S. é visto como um elo 3 4 R. Algumas formas de exercícios também podem ser excluídas. R. a que exige do aluno a repetição interminável de atos estereotipados que participam de séries limitadas. S.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 77 Física. ou a fonte de respostas aos problemas de um livro didático. PETERS.

como a privação do aluno desse conhecimento são em igual intensidade um ato de irresponsabilidade e desrespeito. com a instituição escolar que agrega os valores sociais aos saberes científicos. Respeitar o aluno é ensinar do melhor modo possível os conhecimentos tradicionalmente acumulados como Ciência. .. tanto para com o aluno como para a tradição científica a qual o professor deveria representar. 83. 5 6 José Sérgio Fonseca de CARVALHO. os seus alunos e os físicos.pelo menos como alunos . O verdadeiro conteúdo do estudo está no envolvimento com o professor e com o programa6 da disciplina. os gráficos e as anotações são apenas acessórios e não o material de estudo em si. para com a instituição a que ele pertence. Tanto a doutrinação em uma tradição. Agradecemos ao prof José Sérgio pela elucidação da natureza programática desse trabalho em detrimento de uma prerrogativa prescritiva. os textos. embora seja possível que um professor ensine sem recorrer ao respeito mútuo. Para isso os livros. sem que os ensine e sem que seu Ensino reflita as responsabilidades institucionais da instituição escolar. pela hierarquia e pelos valores característicos dessa instituição social. p. entre suas aulas e essa tradição culturalmente representada pela Física.. e. pois . também. não é possível que ele respeite seus alunos . Construtivismo: uma pedagogia esquecida da escola. como o zelo pelos conhecimentos.. Os alunos precisam conhecer e viver a Física como uma tradição cultural.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 78 de ligação entre a escola e a comunidade.5 Uma aula de Física deve permitir mais que memorizações ou anotações de fórmulas ou termos conceituais sem sentido.

museus. os experimentos e os modelos matemáticos são menos importantes. conceitos. em romances e em histórias em quadrinhos. É caminhar sobre sua história. pelo contrário. Com isto não estamos dizendo que a lógica. experimentos. é apropriar-se de seus valores. teatros. se tornar um cidadão. Devemos mostrar diversos locais da cidade. principalmente aqueles locais que mais gostamos e deixar o estrangeiro escolher onde quer ficar por mais tempo durante a visita. Neste sentido. é conversar com seus personagens. explicações de fenômenos ou princípios da Ciência. o raciocínio. Seremos seus guias. eles são elementos essenciais e imprescindíveis em uma aula de Física por transmitirem uma compreensão estrutural tanto do que é a Ciência como de seus conceitos. centros culturais e os principais pontos turísticos. apresentá-lo às pessoas e explicar o que elas estão fazendo. da economia. vamos levar o estrangeiro nos diversos setores da cidade. os problemas de infra-estrutura. É importante fazê-lo compreender e participar da vida na cidade.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 79 Iniciar-se na tradição científica é mais que aprender algumas leis. só para mencionar alguns exemplos possíveis. etc em que ele terá que se envolver se quiser. Mas não devemos enganar o estrangeiro mostrando só o que há de bom. consideremos a visita de um estrangeiro a uma cidade desconhecida. da criminalidade. a Física como uma tradição cultural exige uma educação baseada em peças de teatro. de política. é reconhecer seus erros. é discutir filosoficamente seus princípios e métodos. a observação de fenômenos. em letras de música. traduzir algumas das palavras que estão usando e explicar seus costumes. Para concluir. expressando mais facilmente a natureza humana do conhecimento científico. vamos mostrar-lhe as dificuldades. um dia. Terminada a visita estaremos satisfeitos se o estrangeiro ficar com uma .

geometria. um dia. cálculo. de algum modo. Mas não devemos enganar ou iludir o aluno mostrando apenas exemplos didáticos simples e fáceis. ele deve se sentir em algum momento como um físico ou um professor de Física. principalmente aqueles que mais gostamos e que permitem maior relação com os valores que devemos trabalhar. pode ser entendida como a visita de um aluno à cidade da Física. contar-lhes quem são os físicos. traduzir alguns dos conceitos e equações da Física.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 80 boa lembrança do passeio. o aluno escolher aquilo em que quer se aprofundar. se tornar um físico. se tiver o desejo ou a necessidade de voltar algum dia sozinho e não se perder e. montagem de experimentos. É importante fazê-lo compreender e imitar o processo de construção do conhecimento. a concepção de educação como iniciação. além do discurso e dos textos. material de divulgação científica e explicar-lhes os principais problemas estudados pela Física. e deixar. museus de Ciência. e explicar as atividades de diferentes grupos de pesquisa. souber explicar alguns fenômenos utilizando . explicitar as muitas aproximações que adotamos para simplificar os problemas e indicar-lhe a destreza em álgebra. vamos mostrar-lhe as dificuldades experimentais e teóricas. Analogamente. se ele resolver fixar morada em nossa cidade ou tornar-se um de seus guias turísticos. Vamos caminhar com o aluno pelas diversas áreas da Física. outras formas de interação com o conhecimento que possam despertar o interesse de diferentes alunos: peças de teatro. Terminadas as aulas de Física estaremos satisfeitos se o aluno valorizar os conhecimentos que lhe transmitimos. etc que ele precisará desenvolver se quiser. Devemos utilizar. se possível conhecer algum e explicar o que eles fazem. os professores. mais ainda. Nós. na formação básica. letras de música. seremos seus guias. orientados pelos objetivos das instituições escolares.

em construções artísticas. etc.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 81 a Física. Por outro lado. conseguir utilizar a matemática para relacionar grandezas Físicas de seu cotidiano. . A Física como tradição cultural comunica-se com um contingente variado de leitores inteligentes do mundo contemporâneo. no outro extremo das diferentes aptidões e vontades manifestadas pelos alunos. tiver o desejo e a capacidade de ler algo mais sobre Física. a Física trabalhada como tradição cultural poderá inspirar a sua utilização em ensaios críticos sobre a realidade vivenciada ou em poemas românticos ou realistas. literárias.

Nos dias de hoje. com um número crescente de "peritos": além dos professores existem os inspetores. etc.. Conhecendo os especialistas o patrão sustenta. ao seu modo e autorizados por suas 1 Trecho da letra da música "Pois é. a família cresce. geólogos.1 Considerando que nem todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica e tendo em mente a inexistência de uma única tradição que poderíamos chamar de "a" Física. biólogos. químicos. assistentes sociais. Mesmo as escolas contam. passamos a analisar seu papel na formação básica (até o nível médio) a partir das relações que podem ser estabelecidas entre alunos e cientistas das diversas tradições culturais: físicos. Ao discutir esta relação estaremos analisando a função dos cientistas como intermediadores entre a sociedade e o conhecimento científico estabelecido e nos referindo a eles como especialistas ou peritos. o cientista inventa uma flor que parece a razão mais segura p’ra ninguém saber. a relação entre os cidadãos comuns e o conhecimento científico é cada vez mais dependente de especialistas. de outra flor que tortura. o jornal comenta um rapaz tão moço. astrônomos. psicólogos educacionais. farmacêuticos. supervisores. o café o almoço.2.. engenheiros. também. secretários. conselheiros. cada vez mais. médicos e outros profissionais que apóiam suas práticas no conhecimento científico. que. pra que?" de Sidnei Miller. . diretores. ministros. O calor aumenta. coordenadores pedagógicos.

definem e controlam. implicitamente. Um Ensino de Física sem tais dimensões torna inconcebível a possibilidade de mudança científica.. enriquecidas e transmitidas por milhões de pessoas que estão a aprender vivendo e fazendo. que esvazia o conhecimento científico de suas dimensões histórica. cuja posse poderia conferir a uma pessoa o direito de lhe chamarem educada. O distanciamento é maior ainda ao considerarmos a . para quem viver e aprender eram sinônimos.. poderão ter o direito de ensinar. um mestre" acabaram. só aqueles que possuírem um diploma do sistema educativo. transmitindo. em que "cada adulto. filosófica.2 Uma educação dogmática. sociológica e cultural e que desconsidera a natureza humana impregnada no saber. Deste modo. a partir de noções educacionais em geral abstratas.. como denuncia Majid Rahnema: as Culturas e as Civilizações foram formadas.Conhecendo os especialistas 83 credenciais estipulam. Não foi o produto de algumas fábricas institucionais. O conhecimento vem sendo tratado como um produto comercial e a figura do antigo mestre tem dado lugar à do professor entendido como um "vendedor" de conhecimentos.) os velhos tempos. tal como tinham de aprender para viver e aprendiam o que quer que pudesse interessarlhes. Agora. a educação foi transformada num bem escasso. durante milhares de anos. a educação não foi uma mercadoria escassa. bem como à comunidade a que pertenciam.. segundo os critérios por ele próprio estabelecidos. a maneira como o Ensino deve ocorrer. a noção de que o conhecimento científico é uma verdade incontestável. Antes de ser instituído o atual sistema educativo. corresponde a uma das principais causas de distanciamento entre as pessoas e o conhecimento científico. (.

Conhecendo os especialistas 84 grande parcela da população que é excluída da educação (sem a formação do ensino fundamental e menos ainda do médio) no caso de nosso país. quando não se percebe que a técnica não aparece por casualidade.3 2 Majid Rahnema. Citado em Paul K. FEYERABEND. Extensão ou comunicação? p. em muitos casos. que a técnica bem acabada ou "elaborada". manuscrito. assexuada. se encontra. contaminados pela tendência em admitir a Ciência como um conjunto de conhecimentos que aumenta continuamente em direção à "verdade". 16 de Abril de 1985. 347. que se repete. Os próprios cientistas responsáveis por grandes mudanças na Ciência estão. p. como bem compreendeu Paulo Freire: o equivoco de não ver a realidade como totalidade. Education for Exclusion or Partipation?. condicionada históricosocialmente. 34. . O poder proveniente da ilusão de que a Ciência é superior às outras tradições por sua cumulatividade e sua inter-relação com o Ensino da Ciência contrário a uma noção mais ampla da realidade dentro de um contexto mais geral (histórico-socio-cultural) constitui a principal fonte do equivoco da extensão por meio da capacitação de líderes ou especialistas. Stanford. como já afirmarmos. 3 Paulo FREIRE. quando se tenta a capacitação dos camponeses com uma visão ingênua do problema da técnica. por exemplo. Isto é. Equívoco. Adeus à razão. tanto quanto a ciência de que é uma aplicação prática. Isso pode ser evidenciado pela maneira como descrevem seus próprios trabalhos e reinterpretam o trabalho de seus antecessores de forma a tornar invisível as rupturas científicas e manter o poder atribuído aos especialistas como "donos da verdade. Não há técnica neutra.

Segundo a primeira opinião: (+A) um perito é alguém que produz conhecimentos importantes e possui técnicas importantes. os fenícios e muitos outros povos que ocuparam o antigo Próximo Oriente. Neste sentido. Adeus à razão. p. e depois com Platão e Aristóteles (. século V a. FEYERABEND. na Grega Antiga (Atenas. . na Babilônia e na Assíria. lideres ou especialistas na sociedade contemporânea. mitos e preconceitos dos debates modernos: os peritos foram algo de natural no Egito.. A primeira discussão sobre os problemas do conhecimento especializado de que há registro teve lugar na Grécia. nos séculos V e IV a. entre os hitits. entre os sofistas. com os seus argumentos e as suas perspectivas.C.) Podemos aprender com estes velhos pensadores.). na Suméria. encontramos em Feyerabend uma interessante investigação da função e dos valores atribuídos aos peritos em outras culturas por estarem elas livres dos problemas.C.. os hurritas. Os seus conhecimentos não devem ser 4 Paul K. segundo Feyerabend. mas propomos elementos que permitam (re)pensar o valor e o poder atribuído a eles na educação em Ciência no nível básico de Ensino. o qual tem vindo a ser descoberto ao longo dos anos.4 Sobre as decisões de quem deve governar a cidade e a interação dos peritos com o restante da sociedade. foram formuladas duas opiniões sobre o papel dos peritos..Conhecendo os especialistas 85 É importante explicitar que não pretendemos negar a importância dos peritos. 71. Desempenharam um papel importante na astronomia e na matemática da Idade da Pedra.

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postos em causa ou alterados pelos leigos. Devem ser assumidos pela sociedade precisamente da forma sugerida pelos peritos. 5 Nesta perspectiva reis, sacerdotes, arquitetos, médicos quase nunca (ou nunca) discutiriam as suas funções ou o modo como o conhecimento que produzem interagiriam com a vida da sociedade. Na Grécia Antiga esta posição era objeto de chacota e escárnio. A segunda opinião, concebida pelos gregos sobre a função dos peritos na sociedade, se contrapunha frontalmente à primeira e os representantes dessa visão fizeram notar que:

(-A) os peritos ao chegarem aos seus resultados, limitavam a sua visão. Não estudam todos os fenômenos, mas apenas aqueles de um campo especial; e não examinam todos os aspectos dos fenômenos especiais, apenas aqueles que esporadicamente se relacionam com os seus interesses bastante limitados. Seria, por conseguinte, disparatado considerar as idéias dos peritos como 'verdadeiras', ou 'reais' (...) E, seria igualmente disparatado apresentá-las à sociedade sem terem a certeza de que os objetivos profissionais dos peritos estão de acordo com os objetivos da sociedade.6 Poderíamos nos perguntar: qual dessas duas (ou qual outra?) concepções decorrem da formação científica em nossas atuais escolas de formação básica? Ou ainda, que visão da função dos peritos predomina em nossa sociedade? Antes de esboçarmos uma resposta a estas questões, a exemplo das situações indicadas no capítulo 1 e do relato de uma professora mencionado na primeira seção deste capítulo, apresentamos, como sintoma de um problema
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Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 71.

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muito mais complexo, uma breve descrição de um acontecimento vivido e descrito por (ACP):

certa vez fui com minha prima levar sua filha ao médico e fiquei surpreso com o que ela muito irritada me disse após sair do consultório: "O médico me perguntou o que ela (sua filha) tinha!" e, surpreendentemente, confessou-me seu desejo reprimido de responder: "não é o senhor que é o médico? Como posso eu saber o que ela tem? Se soubesse não precisaria estar aqui!". Fiquei em silêncio e me perguntei o que teria acontecido se ela respondesse dessa forma ao médico? E, porque não o fez?

Esse "medo" perante os especialistas (no caso, indicado pela repressão em se opor ao médico) e a incompreensão dos procedimentos técnicos elementares aos quais somos submetidos em nosso convívio diário (no caso, o fato do diagnóstico médico se fundar no histórico do paciente mais que em resultados de testes ou exames) são os sintomas que nos permitem responder as questões formuladas recorrendo à primeira concepção (+A) da relação entre os peritos e a sociedade apresentada pelos gregos antigos. Ou seja, parece que nos tempos atuais os peritos, como os médicos ou os biólogos com os quais estão relacionados, por exemplo, produzem conhecimentos; seus conhecimentos não são postos em causa, criticados, questionados ou alterados pelos leigos; os conhecimentos científicos parecem alterar as vidas das pessoas em função de interesses que não beneficiam a maioria da sociedade, os conhecimentos são assumidos pela sociedade precisamente da forma sugerida. Esse exemplo ilustra

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Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 71.

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mais uma vez o autoritarismo presente em nossa sociedade e na educação contemporânea. O pior é admitir as recomendações dos peritos sem compreender minimamente seus significados. Em nossa sociedade contemporânea é cada vez mais dessa maneira que os conhecimentos da Ciência e os cidadãos comuns se relacionam,

os cidadãos recebem a mensagem dos peritos e não de um pensamento autônomo. É o que atualmente se considera "ser racional". Partes cada vez maiores da vida dos indivíduos, famílias, [escolas,] aldeias, cidades estão a ser ocupadas pelos especialistas. E breve, uma pessoa não poderá dizer "estou deprimida" sem ter de ouvir a objeção, "com que então acha-se psicólogo?" Kant escreveu há muito tempo: "Se eu tiver um livro que deduza por mim, um clérigo que tenha consciência por mim, um médico que decida a minha dieta e assim sucessivamente, não preciso de me preocupar comigo. Não preciso pensar, basta que pague - os outros prontamente aceitarão a fastidiosa tarefa por mim."7

Estaria desse modo terceirizada a experiência de viver?

Uma educação como iniciação, apoiada na noção de Ciência como tradição cultural e na concepção (-A) da função dos peritos na sociedade, implica que não devemos mostrar tão somente as grandes conquistas da Ciência sem contrapor a elas suas eventuais conseqüências ruins; devemos valorizar os personagens, peritos, especialistas ou grandes nomes da Ciência enfatizando sua

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Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 21.

mas generalizam rapidamente para toda uma nova maneira de enxergar e se relacionar com o mundo e a vida. incluindo ai o professor ou o autor do livro didático. denunciando seus conflitos. os estudantes. são os donos da "verdade" castra de imediato essa incerteza e instabilidade produzida pelo conflito entre . como em política. Ao enfrentarem conflitos gerados por novos conhecimentos. Uma educação científica geral apoiada nesses princípios possibilita aos alunos distinguir e limitar as noções estudadas aos domínios em que são formuladas. Ao contrário. Parece-nos que não é dessa maneira que a educação ocorre nas escolas de formação básica. Não só encaram o conflito em relação ao conhecimento que estão estudando. suas angústias. Esses momentos de instabilidade são condição necessária para o aprendizado e devemos respeitá-los não impondo nossas próprias opiniões como "verdades científicas" mas deixando sempre a eles as escolhas finais.Conhecendo os especialistas 89 natureza humana. É importante para um cidadão comum entender. a concepção implícita de que os especialistas. suas incertezas. por exemplo. parecem adquirir percepções instáveis. que as leis da Física ou os princípios da Biologia são fundamentalmente e estruturalmente diferentes das "Leis do livre Mercado" ou dos "princípios da nova ordem mundial". e sempre estando atentos para o domínio de validade dos conceitos da Ciência. mas somente no que diz respeito aos seus trabalhos em eletrodinâmica ou relatividade e não considerá-lo um "gênio" em todo e qualquer assunto. economia ou estratégia militar.. É importante valorizar as citações de Einstein. por exemplo.. como um grande físico. por exemplo.

recorrem a livros e outros 8 Por exemplo. Atualmente em minhas aulas incorporei essa atividade8 (incluir defesas absurdas e incoerentes em algumas de minhas exposições) o que me parece trazer bons resultados. Fiquei surpreso e angustiado.Conhecendo os especialistas 90 conhecimentos e "resolve" autoritariamente de forma antecipada e dogmática todas as escolhas importantes. Ao apresentarmos novas concepções. de certo modo. .pensa o aluno. ao incluir o argumento da torre na discussão sobre a imobilidade da Terra defendo enfaticamente que a Terra não se move contrariando a informação corrente sobre a mobilidade da Terra. é melhor ficar do lado dele! . Levantei a mão e ela disse-me para ficar quieto. em minhas aulas. descrita por ACP: lembro-me que quando estava na quarta série do antigo primeiro grau uma professora de ciência entrou certo dia em nossa classe. ficam um pouco mais livres e atentos para analisar minhas idéias. Mas não é tarefa simples abdicar de fazer as escolhas pelos outros quando estamos de posse da autoridade conferida à função de professor. Lembro-me do imenso esforço que realizei naquele dia para acompanhar as idéias expostas a ponto de ficar com uma tremenda dor de cabeça. pois ela era a professora que eu mais gostava. mas ele é o professor. e começou a explicar coisas sobre a ciência que me pareceram muito estranhas e contraditórias.o que o professor diz parece absurdo. Ao final de longos trinta minutos a professora irritada comunicou-nos que a aula havia sido um "blefe" e as coisas que ela disse eram absurdas frente ao que vínhamos estudando. um pouco mal humorada. muitas vezes. Os alunos são levados sempre a desconfiar do que eu estou dizendo e. conceitos ou conhecimentos aos estudantes nunca conseguimos nos libertar totalmente da impregnação de uma verdade potencial embutida em nossos argumentos. Pena que alguns. Aqui cabe menção a outra ilustrativa situação de experiência pessoal. . logo deve ser verdade.

aderirá a esses modelos por muito confuso que se sinta. além de desenvolver um forte senso crítico corresponde a uma interessante estratégia de Ensino. É preciso lembrar que a Física está 9 Paul K. mas a maioria dos alunos parece gostar do jogo. Será incapaz de descobrir que o apelo da razão a que cede tão prontamente não passa de uma "manobra política". do mesmo modo um racionalista [ou um aluno que se prenda à razão do professor] bem ensinado obedecerá à imagem mental de seu "mestre". Contra o Método. atitudes.9 Quanto à escolha de valores. e será incapaz de se dar conta de que aquilo que considera como a "voz da razão" é apenas um efeito causal posterior do Ensino que lhe foi ministrado. p. O esforço de convencê-los com argumentações recorrentes e utilizar a Física para esse processo. ou seja. 32. conteúdos e elaboração das atividades a serem objeto do Ensino de Ciências e da Física na escola básica. cabe ainda acrescentar outros elementos da dimensão externa ao conhecimento científico propriamente dito.Conhecendo os especialistas 91 professores mais "honestos" para resolver meus embustes. permite evitar que: tal como um cachorro bem ensinado obedecerá ao seu dono por mais confuso que se sinta e por mais urgente que seja a adoção de novos critérios de comportamento. observará os modelos de argumentação que aprendeu. FEYERABEND. . para ampliar a relação entre a concepção social de especialista e a educação científica. Mostrar a eventual falibilidade dos especialistas e peritos e tentar diminuir a rigidez da autoridade do conhecimento durante a educação científica no nível básico de Ensino possibilita uma maior distinção entre a força lógica e o efeito material do conhecimento científico.

ou como se deve ensinar. Os currículos. em primeiro lugar. que não compete somente aos professores. mas também. por exemplo. objetivos e outros parâmetros para a organização da educação escolar devem dialogar sempre. Toda instituição de Ensino está imersa em uma comunidade e seu contexto sócio-cultural que deve ser explicitado e discutido por todos os agentes e atores do processo de Ensino. por esse motivo. diretores ou qualquer dos outros especialistas da educação definir o que se deve ensinar. os detalhes finais de como ensinar a resolução de problemas em matemática. ou a incorporação de regras . Que fazer quando um aluno traz uma questão não considerada no planejamento das aulas mas de fundamental relevância para a continuidade de estudos de um determinado assunto? Ou como agir frente a um acontecimento inesperado seja. parâmetros. Muito mais adequado que um conjunto qualquer de valores. em última instância. as propostas de especialistas em educação não se ajustarão ao contexto de uma instituição escolar específica e. orientadores educacionais e outros agentes da escola. serão artificiais e enganadoras. a comunidade em que a escola está inserida. Também um monitoramento rigoroso ou uma sistematização exaustiva do processo educativo ou ainda a limitação a um sistema pedagógico rígido pode matar as reais oportunidade de Ensino. Caso contrário. conteúdos. com a realidade da comunidade a que se destinam. planejamentos.Conhecendo os especialistas 92 presente junto com a Biologia. a Química e as outras disciplinas Humanas e Sociais e mais ainda. o ataque ao World Trade Center ou a inundação de parte da escola pelas chuvas recentes? Quem melhor para decidir. ditados de forma autoritária sobre os professores é a definição pela escola de seu projeto político pedagógico envolvendo não só os professores. coordenadores. e fundamentalmente.

não estamos propondo a eliminação dos especialistas. pode ser surpreendido. por várias maneiras diferentes de resolver as contas. ou a contextualização histórica de um fato se não os professores envolvidos diária e arduamente nesta tarefa? Um professor de matemática ao ensinar subtração. ao jardineiro cabe cuidar do jardim. Em nossa concepção. E por que não aproveitar o procedimento trazido pelo aluno e estimulá-lo a apresentar ao restante da classe? Existirão referenciais absolutos que justifiquem “teorias educacionais oficiais”. por exemplo. e assim por diante. das necessidades de seus alunos. Ao médico cabe curar e orientar para a saúde. e muitas vezes o é. da instituição a que pertencem.Conhecendo os especialistas 93 gramaticais na escrita. Mas também em educação. os professores podem se servir de diferentes pesquisas em educação. nenhum modelo de Ensino pode produzir padrões e elementos estruturais absolutos que sirvam a todas as situações de Ensino. "modelos pedagógicos gerais" ou "parâmetros curriculares nacionais" para a organização de uma dada aula sem levar em conta as reais necessidades dos alunos que compõem uma classe dentro de uma determinada escola? A prática de cada especialista tem suas peculiaridades próprias no contexto social e institucional no qual está inserido. mas sempre devem considerar as peculiaridades da situação em que estão atuando. muitas vezes conflitantes. ao professor cabe educar e ensinar. quando confrontados com um problema concreto em sala de aula. a função das pesquisas em educação não é a de estabelecer um referencial preciso sob o qual o professor deve guiar-se rigidamente ou limitar sua prática de atuação. .

deste modo. para as dificuldades de que só eles poderão decidir como enfrentar. sentir-se-ão impelidos a pôr de lado as "teorias educacionais da moda" e os "princípios psico-pedagógicos rígidos" e começar a pensar em formas próprias. ao ouvirem a nossa história. parâmetros curriculares gerais ou pretensas teorias educacionais modernas. o melhor que um trabalho de investigação em Ensino de Ciência pode fornecer para os professores é explicitar contextos institucionais. em muitos casos. Ao estudarem nossos trabalhos teóricos ou experimentais. humanizantes e determinadas por uma proposta político pedagógica coletiva. E. enriquecer os programas das licenciaturas. resgatar os valores socialmente estabelecidos para a escola. permitir fórum de debate entre professores de áreas afins ou simplesmente garantir a assinatura de revistas e jornais pela biblioteca escolar são "medidas pedagógicas" significativas.Conhecendo os especialistas 94 É preciso ainda garantir a formação e o acesso permanente à informação oferecidos aos professores. desde que sejam respeitados certos valores sócio-culturais discutidos e estabelecidos no âmbito da . Assim. A educação científica no âmbito escolar deve representar uma componente importante de um projeto político pedagógico livrando-se da rigidez de procedimentos pedagógicos pré determinados. demonstrar a complexidade das relações de Ensino e prepará-los. organizar exemplos históricos. enumerar atividades práticas. é somente assim que podemos ajudá-los. Se quiserem promover avanços e transformar seu modo de Ensino. os professores e os outros atores do processo educativo ficarão sensibilizados para a riqueza desse processo e as peculiaridades do Ensino de Ciência. apresentar casos estudados que contenham processos diversos. mais criativas. e contribuir para envolver a comunidade escolar na escolha do modo de trabalhar.

diretores. para cada situação. experiências e espaços de troca entre professores. é disponibilizar um máximo possível de recursos. Esse modo de organizar a orientação de professores pode afligir alguns teóricos e especialistas da educação por estarem preocupados em melhorar a pretensa eficácia dos procedimentos de ensino. e. como representantes de tradições culturais oriundas do saber que lhes cabe ensinar. . coordenadores ou assistentes pedagógicos no que se refere as práticas em sala de aula. os professores. em cada aula.Conhecendo os especialistas 95 instituição de Ensino a que pertence e desde que esta instituição de Ensino esteja de acordo com uma política de conscientização crítica. alunos e a comunidade. A função dos especialistas em educação. possam a cada instante decidir. Para que eles. mas esta aflição não é legítima da perspectiva dos professores e de outros atores educacionais nas instituições de ensino que são aqueles que têm as reais condições de. de acordo com a proposta político pedagógica das instituições que compõem. decidir a forma de ensinar. libertação ideológica e valorização da cultura agregando ou questionando valores representativos da sociedade na qual ela se insere. em cada momento de uma aula.

Estamos interessados na relação do estudante de Física do nível superior (aspirante a físico ou a professor de Física) com os métodos científicos.3. . na educação básica e no Ensino de Física. Tendo em mente esses elementos. os modelos epistemológicos e principalmente com o convício na prática de diferentes grupos de pesquisa. p. nesta seção. mas a faculdade de julgar é um talento particular que não pode ser ensinado. Insistimos no fato de considerarmos que a formação desses profissionais só pode ocorrer em um ambiente de pesquisa com uma máxima diversificação de grupos estabelecidos e 1 Immanuel KANT. Crítica da razão pura. Obediência versus Ousadia na formação científica O entendimento é capaz de ser instruído e abastecido por regras. especialmente no que se refere ao conflito entre aprender e obedecer às regras metodológicas nas quais são inseridos ao longo de sua formação e duvidar e ousar ou questionar essas mesmas regras e preceitos. algumas perspectivas educacionais para a formação em Física no nível Superior de Ensino. já indicamos algumas peculiaridades de sua atuação como tal. 102. mas somente exercitado. passamos a analisar a formação científica dos especialistas em Física.1 Passamos a analisar. Na seção anterior ao discutir a função do "especialista" na sociedade contemporânea.

Nas situações de conflito costuma-se simplesmente ignorar o conhecimento prévio do aluno em favor do saber científico. conforme denuncia Villani: .2 Já mencionamos anteriormente que os estudantes não são conceitualmente neutros. antes dos estudantes cederem à autoridade do discurso do professor. de exemplos apropriados. ou seja. com a autoridade do professor e do livro-texto. ao chegarem à escola trazem conhecimentos adquiridos em outras tradições de sua experiência de vida e das relações desenvolvidas de todo seu convívio no mundo que o cerca.pelo menos nas séries iniciais. 3 Alberto VILLANI. 2 Com essa ressalva estamos restringindo nossa discussão à formação realizada nas universidades que associam pesquisa e ensino em oposição às muitas "escolas de ensino superior" que têm surgido recentemente no Brasil. assim. numa forma já final. abstrata e sistematizada. o conhecimento científico adquirido na escola é apresentado.19 . Nas atividades de sala de aula e de estudo individual surgem conflitos entre o conhecimento trazido pelo estudante e o conhecimento da Física . Desse modo.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 97 atuantes possibilitando.3 Com uma concepção de conhecimento definitivo e autoritário ficam eliminadas algumas dimensões importantes da constituição e natureza do saber científico. Ensino de Física: dos fundamentos à prática. a vivência. p. a Física escolar acaba por ficar alijada das dimensões filosófica e histórica que conferem à Ciência o caráter de tradição cultural.. corroborada. na melhor das hipóteses. É o que normalmente acontece no Ensino de Física. o debate e a discussão da Física e de seu Ensino entre os estudantes..

Além de ter um valor prático. na medida que expressam de maneira rudimentar intuições básicas sobre a natureza que poderão substituir as imagens básicas atualmente utilizadas pela ciência.4 Manter o confronto entre as concepções prévias dos estudantes. contudo.23 . outro exemplo é a luta entre as visões heliocêntrica e geocêntrica do mundo. como possíveis alternativas ao saber científico atual. dessas duas visões de mundo serem ainda hoje totalmente equivalentes como na dualidade onda-partícula. 5 Alberto VILLANI. além de sua importância didática.5 4 Este exemplo será analisado em detalhes na seção seguinte. auxiliando às vezes a solução rápida de problemas cotidianos. Refere-se ao importante resultado. Um exemplo interessante foi a oposição entre as teorias ondulatória e corpuscular para a natureza da luz. implicar em uma completa superação de uma teoria sobre a outra. aprendidas pelos alunos antes do estudo escolar.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 98 Encontramos várias situações na história da Ciência em que o confronto entre idéias concorrentes ao invés de inibir permitiu uma interação construtiva e contribuiu para o avanço da compreensão Física dos fenômenos envolvidos. elas têm também um valor teórico. possui um valor fundamental para a vida e ainda para a própria Ciência . Este ponto também é discutido por Villani ao sugerir que essas idéias não têm somente um papel negativo. Ensino de Física: dos fundamentos à prática. e as noções científicas. Os cientistas oscilaram (ou saltaram?) entre uma descrição e outra em diferentes períodos históricos sem. p. sem uma "vitória final" de uma sobre a outra. de acordo com os princípios da mecânica relacional.se concebida como uma tradição cultural: a constatação dessas idéias prévias serem as fontes iniciais de intuições para o conhecimento científico.

em última análise. Entretanto. 6 A partir da análise desse caso. Villani cita um exemplo muito interessante de uma criança de quatro anos que. é constituída de "pingos" de energia. ou mesmo de fragmentos de conceitos da Física difundidos nos ambientes familiar e outros espaços sociais freqüentados pelos alunos. no começo deste século [-referese ao séc. a idéia de que a luz. ao ser interrogada sobre o que era a luz. XX] Einstein [que poderia ter sido aquele menino com sua visão poética da natureza] propôs. Quando identificados devem ser aprofundados pelos alunos de modo a serem considerados e não ignorados e de alguma forma respeitados durante o Ensino. mesmo os mais finos. muito . respondeu: A luz é como a chuva. Essas idéias são de grande importância em situações em que existam conflitos com o saber científico. feita de pingos muito pequenos que passam por todos os buracos. Para esclarecer esse aspecto positivo da sobrevivência do conflito entre concepções prévias e teorias científicas para o desenvolvimento da Ciência. Villani propõe uma postura mais equilibrada frente aos conflitos de conhecimentos em sala de aula ao atribuir um valor precioso aos conhecimentos prévios dos alunos. mas muito distante e oposta à idéia científica reinante de que a luz é uma onda eletromagnética continua. e com boas razões.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 99 Cabe ressaltar que as noções trazidas pelos alunos não surgem naturalmente e são fruto de conhecimentos de outras tradições. como faz notar ao afirmar que: Certamente no final do século passado um professor teria achado esta idéia poética [a da luz em forma de pingos].

ao invés de expressões como conceitos intuitivos ou concepções espontâneas por considerar que estas últimas transmitem a idéia de conhecimentos do mundo natural passíveis de serem inferidas de experiências puramente empíricas do cotidiano.. o progresso científico se deu retomando imagens simples do passado [e de que a ciência é uma tradição histórica e não uma verdade acabada]. 7 . A formação científica não pode eliminar as concepções prévias dos estudantes mas. que eles precisam aprender a conviver com o conflito entre suas concepções prévias e as noções 6 Alberto VILLANI. p. naturalmente existentes de forma latente e intuitiva ou que surgiriam em manifestações espontâneas..) a percepção de que muitas das idéias espontâneas [melhor dizendo. ao estudante. ou que não devem ser avaliados quanto ao aprendizado do saber científico. precisa estimular o aprendizado da Ciência a partir do esclarecimento dessas concepções em debate "aberto" com as noções da Ciência. e não ao professor. Ensino de Física: dos fundamentos à prática. poderá ajudar professores e estudantes a ter uma posição mais equilibrada sobre o valor do conhecimento espontâneo [ou conhecimento prévio]. concepções prévias] sobre o mundo físico constituíram a base inicial do conhecimento científico do passado e de que. Ensino de Física: dos fundamentos à prática.24.7 A idéia de que as concepções prévias têm algum valor para a Ciência e sua associação com a compreensão de que as verdades científicas são provisórias constitui o elemento principal da análise que estamos desenvolvendo nesta seção.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 100 pequenos. a tarefa de optar pelo saber científico em detrimento de suas intuições prévias tornando-se assim senhor do seu saber e não (re)transmissor de idéias alheias.23 Cf: Alberto VILLANI. muitas vezes. p. Não estamos com isso propondo que os estudantes não devem aprender Ciência e ficar com seus próprios modelos. mas ao contrário. Utilizamos a expressão concepção prévia para os conhecimentos acumulados pelos alunos antes do início do ensino escolar de ciência. capazes de entrar no interior dos materiais e interagir com seus átomos (. ao contrário. Caberá sempre.

é fundamental a apresentação de modelos epistemológicos. um aprofundamento dos conceitos estudados.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 101 científicas. admitir o ódio. em algum momento da formação (melhor seria ao longo de toda ela). consideramos fundamental ao longo da formação em Física um refletir sobre esse processo de inserção. obedecer para saber ousar. estar atento para aproveitar as oportunidades.. e ainda. para assim propiciar um refletir sobre esse processo. que devem ser avaliados e se avaliarem.. quando se estabelece contato com uma comunidade diversificada de pesquisadores. a coragem e a certeza. Além da natural inserção neste processo de duas faces. de modo a compreender melhor a ambas. Laudan. compreender as noções científicas para imprimir-lhes nossas concepções. ou outros. o medo e a dúvida para identificar a paixão. de maneira a perceber a forma como suas concepções permeiam as respostas dadas aos problemas propostos pelo professor e pela vida. Suspeitar que os erros e dificuldades do aprendizado são conseqüências do conflito entre uma intuição mais profunda sobre a natureza e aquela oferecida pela Física pode facilitar. Bachelard. A possibilidade latente de transgredir as regras acrescenta um "tempero" especial permitindo manter o entusiasmo frente às tarefas corriqueiras. imitar para desenvolver a criatividade. Por isso. Na formação científica é preciso considerar as duas "faces do jogo": conhecer o "outro" para reconhecer o "eu". Kuhn. ou pelo menos estimular. superar a indiferença para manter o entusiasmo. . como os de Popper. Conceber a formação científica como jogo entre obediência e ousadia dá maior fôlego aos estudantes naqueles momentos em que atuam nas tarefas mais chatas e entediantes que antecedem a compreensão da Física.

quando possível. . Nessa ocasião. teria ocorrido. Neste sentido é que entendemos as idéias de Feyerabend contra a excessiva simplificação do Ensino das Ciências com a eliminação de seus aspectos histórico. O professor André Assis disse em um seminário realizado na USP ter sido estimulado à busca de uma mecânica alternativa pela incompreensão do referencial sobre o qual se descrevia a força de Lorentz. religioso. Isso. seminários e debates da formação em Física. metafísico e humano. O objetivo da formação científica não pode ser o de destruir as concepções prévias dos estudantes sobre o mundo físico chocando-as autoritariamente com as idéias da Física. serão resolvidas as maiores dificuldades entre os conflitos do conhecimento e outras ainda surgirão em função do reconhecimento mútuo de 8 Cabe mencionar aqui que parece ter sido esse o caso quanto à mecânica relacional. dos debates atuais sobre os limites e as fronteiras do conhecimento científico (contemplando propostas alternativas ou polêmicas)8 em aulas. segundo ele. A resistência oferecida pelo grupo frente às idéias individuais gera o primeiro "campo de batalha" que novas teorias têm de enfrentar se quiserem substituir os padrões científicos amplamente estabelecidos. Enfatizamos que a existência de grupos de estudos ou pesquisa e a "obediência" ao professor ou orientador é indiscutivelmente importante para a formação científica. ainda quando estudante de graduação. das filosofias da Ciência (mais de uma para que não se torne uma diretriz dogmática) e. e as teorias para o contraste devem ser procuradas onde quer que estejam disponíveis. Um maior entendimento do conteúdo de uma dada teoria científica só pode ser obtido com o seu confronto com outras teorias. tanto no presente como no passado.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 102 Enfatizamos a importância de incluir aspectos da história (inclusive com teorias que foram tradicionalmente superadas pela Ciência estabelecida).

concepções prévias e noções científicas. pois. a partir da análise do conflito entre obediência e ousadia. antes de questionar com maior voracidade uma noção científica. Nestes últimos casos tornar-se-ão importantes elementos como a propaganda e a utilização de procedimentos contra-indutivos. Somente concepções capazes de resistir ao debate interno ao grupo sairão para o confronto com outros grupos. Enfim. Mas é preciso. é preciso compreendê-la em profundidade ou contar com o respaldo de quem já tenha uma firme reputação e experiência estabelecida. além de tenacidade. .Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 103 idéias entre os membros do grupo. a visão de Ciência como tradição cultural e suas implicações também para o Ensino em nível superior. Ilustraremos as idéias aqui apresentadas por meio do estudo da noção de inércia aplicada ao problema do movimento da Terra. ter paciência e cautela. esperamos ter completado. ao desenvolver novas idéias. como discutimos na segunda seção do capítulo anterior.

Contraste entre Teorias e Ensino de Física. Dezembro de 2002 .SUBSÍDIO IV . apresentada ao Instituto de Física e à Faculdade de Educação como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de mestre em Ensino de Ciências .Modalidade Física.O Problema da (I)mobilidade da terra Alexandre Custódio Pinto João Zanetic (Orientador) IV Capítulo da Dissertação: Tradição Cultural.UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO INSTITUTO DE FÍSICA E FACULDADE DE EDUCAÇÃO TEXTO .

ou seja. explorando as muitas formas possíveis de responder à questão do movimento da Terra: A Terra se move? Como podemos nos certificar? Apresentamos no texto que segue várias concepções conflitantes sobre essa questão. É importante entendermos juntos cada uma delas. mover-se por sobre nossas cabeças e ao final da tarde se por do outro lado do céu na região chamada de Poente ou Ocidente. Em um período complementar ao dia observamos a noite. além da leitura. a realização das atividades sugeridas. Ao observarmos esse movimento das estrelas não descobrimos a princípio nenhuma modificação nas posições de uma estrela em relação às outras. um esforço de evitar pré-concepções. a realização das pesquisas e a leitura dos textos sugeridos para aprofundamento. Para isso será preciso. Grupos de estrelas fixas associadas. elas giram todas juntas ao redor da Terra e por isso em seu conjunto foram batizadas de estrelasfixas (em observações modernas verifica-se que estas estrelas não são exatamente fixas entre si). No lugar do Sol são as estrelas que navegam no céu do Nascente ao Poente.105 Vamos juntos fazer uma viagem pelo Universo da Física. com um pouco de (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 1. Vamos lá? O Sistema Geocêntrico de Mundo Durante o dia ao olhar para o céu observamos o Sol nascer de um lado. chamado Nascente ou Oriente. A Terra se Move? .

Os planetas. em determinadas épocas do ano. parece razoável.106 imaginação. ainda hoje. chegam até a deslocarem-se no céu em sentido contrário. Por exemplo. quando realizamos medidas do céu a partir da Terra (Astrometria e Mecânica Celeste). Essa proposta foi sistematizada pelo Grego Ptolomeu no segundo século depois de Cristo. para a localização em alto mar utilizase o movimento das estrelas com o auxílio de mapas astronômicos. Noite após noite observamos o conjunto das estrelas-fixas aparentemente girarem ao redor da Terra. além de não acompanharem o movimento das outras estrelas. formaram o que chamamos de constelações. Considerando que observamos nitidamente o movimento do Sol de dia e das estrelas à noite em torno da Terra. A descrição geocêntrica não é a única possível. Esse movimento em sentido contrário ao conjunto das estrelas-fixas é chamado de movimento retrógrado. algumas "estrelas" que não obedecem de igual modo esse movimento noturno nos céus e foram batizadas de "astros errantes" ou "planetas". no entanto. é muito conveniente adotar um sistema de coordenadas em que nós estamos sobre a Terra e juntos com ela em repouso no centro do Universo (Observação Topocêntrica). Há. inicialmente. a Terra ocupa uma posição central no universo e todos os corpos giram ao seu redor. Em alguns casos. Segundo o Geocentrismo. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Todas essas observações ao longo de milênios preocuparam os homens e os levaram a especular sobre a estrutura do Mundo. propor o mais "simples" dos sistemas de mundo: o Geocentrismo.

mover-se por sobre nossas cabeças e ao final da tarde se pôr do outro lado do céu (no Poente). No entanto. é a Terra que está girando. no caso da determinação da órbita dos planetas. praticamente evitamos o movimento de vai- (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . ou seja. A concepção heliocêntrica do mundo permite para alguns problemas simplificar bastante a descrição do movimento. constatamos que esse é somente um movimento aparente. é que observamos esse movimento aparente do conjunto das estrelas. De igual modo. passamos a considerar o Sol parado e a Terra girando ao seu redor. sabendo que a Terra se move. Por exemplo. nos acostumamos a utilizar a observação do movimento dos objetos externos como indicador de que nós é que estamos nos movimentando. Mas. Durante o dia ao olhar para o céu observamos o movimento aparente do Sol. por esse motivo. Sabendo que estamos em um veículo. um automóvel. como no caso do movimento das árvores que observamos dentro de um carro em movimento. podemos ainda levar em conta uma segunda concepção de mundo com uma descrição um pouco mais abstrata: o sistema Heliocêntrico do Mundo. Também à noite. pessoas.107 O Sistema Heliocêntrico Quando estamos em um veículo que se move com velocidade constante (um trem. uma carroça. como sabemos. casas. Ele parece nascer de um lado (Nascente). e. para as observações do movimento das estrelas e do Sol. etc) observamos árvores. postes e tudo o mais que está à beira da estrada se deslocar da frente para trás do veículo. observamos as estrelas aparentemente se deslocando no céu entre o Nascente e o Poente.

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e-vem no céu (movimento retrógrado). No sistema heliocêntrico, a Terra não ocupa uma posição central no universo. Essa posição privilegiada passa a ser ocupada pelo Sol. Esse sistema foi aprimorado pelo polonês Copérnico, no

século XVI, que se inspirou nas concepções de antigos gregos, dentre eles Aristarco, e do cardeal medieval Nicolau de Cusa.

Velocidade de rotação cinemática

A partir das observações astronômicas medimos o período (T) de um dia como sendo de aproximadamente 24 horas (86.400 segundos) e assim podemos calcular a rotação cinemática da Terra (ωk):

ωk =

2π ≈ 7 × 10 −5 s −1 T

Esse cálculo vale tanto para o sistema Geocêntrico como para o Heliocêntrico, com a diferença de considerarmos a rotação das estrelas-fixas ou da Terra respectivamente. Essa velocidade é denominada cinemática por ter sido obtida apenas a partir das posições e dos tempos ocupados pela Terra. Além da rotação relativa entre a terra e o conjunto das estrelas-fixas conhecida desde Ptolomeu, hoje em dia, dispomos de duas outras formas de observar a rotação cinemática da Terra e, conseqüentemente, obter o valor de ωk: a rotação da Terra em relação ao conjunto de Galáxias distantes e a mais moderna das rotações cinemáticas para a Terra, sua rotação em relação à radiação cósmica de fundo - CBR (sigla de Cosmic Background Radiation).

(i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

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A radiação cósmica de fundo é bastante isotrópica, isto é, ela é igualmente distribuída em todas as direções do céu. Mas, como a Terra gira em torno de si mesma, segundo uma concepção heliocêntrica ampliada, ou o universo como um todo responsável pela radiação, gira em torno da Terra, segundo a concepção geocêntrica, surgem desvios Doppler que podem ser detectados e medidos para a determinação de ωk.

Equivalência cinemática entre os sistemas de mundo

Nenhuma das quatro formas de medir o movimento de rotação da Terra (movimento relativo em relação ao Sol, movimento relativo em relação às estrelas-fixas, movimento relativo em relação ao conjunto das Galáxias distantes e movimento relativo em relação à radiação cósmica de fundo) permite escolher entre os sistemas heliocêntrico ou geocêntrico do mundo. O geocentrismo, o heliocentrismo ou qualquer outro sistema que se baseie apenas em grandezas cinemáticas são equivalentes para descrever a aparência do movimento dos céus. Não é possível responder a questão da (i)mobilidade da Terra a partir de descrições astronômicas puramente cinemáticas. Assim, verificamos que não é possível resolver o problema da (i)mobilidade da Terra a partir das observações do movimento aparente das estrelas-fixas ou de outra descrição cinemática e astronômica. Escolher entre o sistema geocêntrico e o heliocêntrico, tendo por base somente estas observações, é mera questão de gosto, ou de simplificação dos dados. Até aqui não há definição para a resposta do movimento da Terra.

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2. Ciência, Religião, Mitos e Lendas (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

Vamos explorar uma segunda forma de responder a questão do movimento da Terra, a partir da realização de uma atividade de pesquisa.

Com o propósito de investigar as mais diferentes fontes de informação possíveis, sugerimos uma atividade de pesquisa e estudo. Essa atividade será tanto melhor quanto mais pessoas puderem participar e quanto mais fontes disporem.

1) Busque em fontes não científicas (folclóricas, religiosas, místicas, lendas, contos, letras de música, textos literários, tradições indígenas, ficções científicas, etc...) informações que ajudem a responder a questão do movimento da Terra. Além das respostas procure identificar quais são seus pressupostos, ou seja, em que se baseiam as informações e a forma como foram obtidas.

2) De posse das informações organize-as em grupos. Primeiro, quanto à resposta propriamente dita (a Terra move-se ou não?); a seguir, quanto à forma como foi obtida a resposta à questão do movimento da terra nas fontes pesquisadas (observação, experimentação, analogia, revelação, etc).

3) Troque suas informações, relate e registre suas impressões sobre o maior número possível de respostas disponíveis.

4) Guarde sua produção e reveja-a durante e ao final da leitura deste texto.

assim. Que silêncio faz o Céu! Adeus.111 5) Aprecie o poema Canção da Janela Aberta. Sem mais cuidados na terra. de Mario Quintana.. identificando as estrofes que se referem ao movimento da Terra ou das Estrelas em torno dela..... reproduzido a seguir. Canção da Janela Aberta Passa nuvem. Cidade Maldita que lá se vai o teu Poeta.. E o quarto. Adeus para sempre. Vou sepultar-me no Céu!.. Passa a lua na janela. Fico olhando para o Céu. pela noite Imensa e triste. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Deito-me ao fundo do barco... Amigos. navega. passa estrela..

é preciso fazer o esforço de se colocar no lugar dos personagens e no tempo em que ela se originou para compreendê-la de forma mais ampla e aceitar sua legitimidade. como veremos mais adiante. não era em nada simplista. Os aristotélicos desenvolveram sofisticados argumentos contrários ao movimento da Terra. A Terra está parada no centro do Universo? Conhecer episódios da História da Ciência nos permite investigar a origem do modo como atualmente a Ciência concebe seus conceitos e responde suas grandes questões. totalmente coerentes com a visão reinante em sua época. que minou as forças dos defensores da concepção geocêntrica do mundo. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 3. utilizado pelos ptolomáicos para justificar o repouso do nosso planeta. interpretar de forma parcial ou desrespeitar os escritos dos filósofos geocentristas que se opuseram à imposição do sistema heliocêntrico do mundo. defendida à época de Galileu. Ao contrário do que costuma ser difundido. Eles foram vencidos pela propaganda de uma nova ciência. Era uma física altamente refinada e fortemente apoiada em dados empíricos. a física aristotélica. Os argumentos contrários ao heliocentrismo não foram resolvidos em confrontos lógicos e racionais. O Argumento da Torre . Mais que entender uma noção científica. descrevemos o Argumento da Torre. à luz das concepções aceitas atualmente. Com o intuito de ilustrar um desses argumentos contrários ao movimento da Terra.112 Passamos a estudar um argumento histórico favorável à resposta de que a Terra não se move. Não podemos simplesmente.

e a pedra atingiria a Terra a essa mesma distância da base da torre.126) Esse argumento propõe um experimento que corresponde a deixar cair do alto de uma torre ou prédio uma pedra e verificar a que distância da linha vertical a pedra se desvia para o lado leste.113 O Argumento da Torre: a observação mostra que os corpos graves caindo de cima tomam uma linha direta e vertical até à superfície da Terra. uma torre de cujo topo deixássemos cair uma pedra. Esse argumento é bastante forte e seu resultado. Segundo essa idéia. Mas. baseado em dados de observação. viajaria muitas centenas de jardas para leste durante o tempo que demorasse a queda da pedra. será preciso aceitar que a Terra não está em movimento. é preciso responder com convicção a pergunta: onde a pedra realmente cai? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Dialogue. a partir da medida do desvio. (GALILEU. a velocidade de rotação da Terra. Porque. Tal é um argumento considerado irrefutável em favor da imobilidade da Terra. p. ou seja. a pedra não se desvie durante seu movimento de queda. antes de prosseguirmos nossa viajem e revelarmos qual o desfecho dessa história. convenceu muitas pessoas à época dos geocentristas. Caso contrário. sendo transportada pelo girar da Terra. caso a pedra se desvie será possível determinar. se ela tivesse a rotação correspondente diária.

h' e h". Então vamos calcular! A pedra é solta de uma altura h do alto de um prédio. Vamos considerar três valores para a altura h (ver figura1): h. Onde a Pedra cai? . Assim na figura 1: d é maior que d' que é maior que d". (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 4. no entanto. Figura 1 Segundo o Argumento da Torre. a pedra deve ser desviada de uma certa distância (d. é possível calcular o desvio que uma “pedra” sofreria durante sua queda de um prédio devido ao movimento leste-oeste da Terra? Sim. d' e d") de sua posição original por conta do movimento da Terra. se a Terra estivesse parada a pedra cairia perpendicular ao prédio. Para o caso da Terra não possuir movimento de rotação d esperado deveria ter valor nulo (d = zero). Quanto maior h maior será d.114 Considerando válido o argumento da Torre. e admitindo que a Terra possui movimento diário de rotação.

115 Vamos calcular qual deve ser o valor de d em função de h? Como podemos a partir da altura do ponto em que a pedra é solta obter o valor do desvio esperado devido ao movimento da Terra? Em primeiro lugar. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . teremos um movimento uniformemente acelerado dado por: h − ho = v o t + 1 2 at 2 (1) onde: h – ho = h é a altura do prédio (h.8 m/s2) t é o tempo de queda da pedra Ficamos então com: h= 1 2 gt 2 (2) t= 2h g (2) Vamos utilizar a equação (2) para calcular o possível deslocamento da pedra. h’ e h”) vo é a velocidade inicial da pedra (no caso nula) a é a aceleração da gravidade local (g de aproximadamente 9. devido ao movimento da Terra. Admitindo uma aceleração da gravidade g constante e que a pedra foi abandonada em repouso no alto do prédio. precisamos obter o tempo de queda da pedra.

r V : Velocidade do ponto P ω : Velocidade angular da Terra: r 2π ≅ 7.116 figura 2 O período de rotação da Terra em volta de seu eixo é de 24 horas ou 86.400 r RT : Posição do ponto P (Raio da Terra = 6.400 segundos. A velocidade de deslocamento na direção leste-oeste de um ponto P da superfície da Terra (ver figura 2) pode ser obtida por: r r r V = ω × RT (3) Com.370 Km) Podemos obter o módulo dessa velocidade dado por: V = ω ⋅ RT ⋅ sinθ (4) (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .3 × 10 − 5 s −1 86.

localizado na Cidade de São Paulo: V = ω ⋅ RT ⋅ sinθ V = 7. 6.2) V = 430 m/s Finalmente. g Assim. e a Colatitude é dada por θ = 66o 27' ou 1. Substituindo os valores na equação 4. obtemos a equação do desvio da pedra multiplicando a velocidade V pelo tempo de queda t obtido na equação 2: d= 2h ⋅V ≅ 193 ⋅ h m g (5) O valor 193 corresponde a uma constante para a Cidade de São Paulo obtida pelo produto de 2 (com g = 9.117 O ângulo θ corresponde a Colatitude (90o . Para a Cidade de São Paulo.8 m/s2) pela velocidade V de 430 m/s. a Latitude é de 23o 33' ou 0.3x10-5 s-1 . obtemos a velocidade de deslocamento leste-oeste para um ponto da superfície da Terra.2 rad.4x106 m . obtemos a relação entre a altura em que a pedra é solta e o valor esperado para o desvio da pedra na direção leste-oeste: d ≅ 193 ⋅ h m (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .Latitude).4 rad. sin(1.

3) Calcule qual deve ser o desvio d na direção leste-oeste de uma pedra abandonada do alto de cada um dos três prédios. 6) Faça a comprovação. considerando o argumento aristotélico da torre. solte uma pedra e confira o valor esperado para o desvio. (Atenção caso você não esteja na Cidade de São Paulo!) 4) Responda à questão: O desvio de uma pedra abandonada do alto de um prédio na Cidade de Natal. para evitar a resistência do ar e primar pela segurança. igual ou maior que o desvio de uma pedra que cai do alto de um prédio de mesma altura localizado na Cidade de Florianópolis? Por quê? 5) Obtenha a equação de desvio para uma pedra que cai de uma altura h na superfície da Lua. É importante usar uma pedra o mais redonda possível. Suba ao local mais alto a que tenha acesso com segurança. deve ser menor. 2) Estime o valor da altura h de cada um deles.118 Vamos realizar uma atividade para nos certificar dos resultados: 1) Escolha três prédios próximos ao local onde você se encontra. 8) Segundo o Argumento da Torre e de posse dos dados observados e cálculos efetuados o que se pode concluir quanto ao movimento da Terra? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . 7) Analise seus resultados. (Cuidado para não cair do prédio ou acertar a cabeça de algum passante!).

podem fazer avançar nossa compreensão.. ou. religião. Registre suas respostas. É o caso dos paradoxos na Teoria da Relatividade. e ainda considerando sua pretensa imobilidade. se conhecem argumentos que coloquem em dúvida a afirmação de que a Terra se move.). 4) Classifique os argumentos encontrados quanto à forma como são obtidos. Organize-os.. Registre suas impressões. propomos uma atividade para encontrar mais argumentos. 2) Pergunte a outras pessoas. a dificuldade de um pássaro reencontrar seu ninho. de diferentes níveis de escolaridade..119 O Argumento da Torre é bastante convincente e por isso um importante instrumento para instigar a busca por mais explicações.)? 6) Guarde todos os seus registros para uma retomada mais à frente. 3) Colecione os argumentos. mas que.. Troque-os com outros. se adequadamente explorados. analogia. religião.. segundo as mesmas categorias usadas na atividade ciência.. etc.. . mitos e lendas: observação. Mais argumentos.. 1) Tomando por base o Argumento da Torre imagine outras situações conflituosas que se originariam do movimento da Terra (por exemplo. mitos e lendas e nos seus novos registros desta atividade (mais argumentos. 5) Qual a diferença entre seus registros na atividade ciência. para além de uma aceitação dogmática do movimento da Terra.. A ciência está repleta de argumentos e exemplos históricos que aparentemente nos levam a situações de conflito do conhecimento. Para o estudo do movimento da Terra. revelação.. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 5. por exemplo. experimentação.

a terra continuara a girar no sentido do Leste. pássaros e insetos. Ao realizar uma experiência certo dia. argumentando que enquanto estava suspenso no ar. Cyrano de Bergerac acreditou completamente na possibilidade de seu vôo transatlântico. (SUGESTÃO: Você também pode usar alguns de seus argumentos para produzir histórias ou contos de ficção que tentem justificar a imobilidade da Terra. não nos separamos da mãe Terra.giram junto com o planeta. Cyrano de Bergerac descreve um fato espantoso que supostamente lhe teria acontecido. porque estamos suspensos no envólucro de ar que também participa da rotação axial da Terra.ou melhor. Infelizmente. partindo da França. o espirituoso escritor francês do século XVII. na realidade. Permanecemos ainda atados.nuvens. e nem mesmo na Europa. o texto O mais Barato Meio de Transportes do interessante livro Aprenda Física Brincando de J. surpreendeu-se em não mais se encontrar em seu solo pátrio. pgs 249 e 250. Em primeiro lugar. suas camadas mais densas . Por que cansar com viagens pelo mundo? Simplesmente eleve-se a alguns metros do solo e espere até que o lugar de destino chegue até você.) O mais Barato Meio de transportes Na sua satírica História dos Estados Lunares (1652). mas no Canadá. isto é apenas ficção. sofreríamos o impacto de um vento com força tão terrível que (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . foi suspenso no ar com todas as suas retortas. Ao aterrissar algumas horas mais tarde. arrastando consigo todas as coisas . PERELMAN. Embora pareça estranho. considerando os argumentos até agora encontrados. O ar . a França.120 7) Aprecie e discuta. se o ar não girasse com o planeta. aeronaves. Eu diria que é um meio muito barato e simples de viajar! Basta subir e permanecer suspenso alguns minutos para pousar num local totalmente diferente e muito mais a Oeste. quando nos alçamos no ar. motivo pelo qual aterrissara na América do Norte. Afinal de contas.

Saltamos e descemos novamente no mesmo lugar.isto é. continuamos por inércia a nos mover com a mesma velocidade .121 comparado a ele o pior dos ciclones pareceria uma brisa suave (um ciclone ou furacão move-se com a velocidade de 40 m/s ou 144 km/h: na latitude de Leningrado. Vamos lá? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . enquanto a Terra. por exemplo. ou se o ar permanecesse imóvel enquanto nos movêssemos nele. quando nos separamos da superfície da Terra em rotação. mesmo que pudéssemos ascender ao topo da atmosfera ou se a Terra não tivesse absolutamente invólucro algum de ar. com a velocidade com que a Terra se move abaixo de nós. Em ambos os casos. Em pequenos intervalos de tempo. Na verdade. nós executamos um movimento retilíneo (segundo uma tangente). sentiríamos o mesmo vento vigoroso. contudo. De fato. traçaria um arco. Mas então. se permanecêssemos imóveis no ar em movimento. por causa da inércia. este fato pode ser desprezado. a Terra nos transportaria pelo ar com a velocidade de 230 m/s ou 828 km/h). Não haveria diferença alguma. Por isso. o que é Inércia? É o que precisamos ter uma noção. Um motociclista correndo a 100 km/h enfrenta diretamente uma formidável massa de ar mesmo nas condições atmosféricas mais calmas. não poderíamos nos beneficiar com o barato método de viajar imaginado pelo humorista francês. É o mesmo que dar um salto dentro do vagão de trem em movimento. a nossos pés.

de modo muito mais complexo e sofisticado. Aristóteles organizou o mundo em dois tipos de movimentos: o terrestre (imperfeito). parece-nos natural que os objetos em movimento tendam ao repouso. É o caso. esse se gastaria com o movimento. Essa constatação observacional é de grande importância para muitas situações práticas vivenciadas por todos nós.122 Desde criança aprendemos das outras pessoas e nos acostumamos a observar que os objetos. a Lua. parecem tender ao repouso. ou qualquer outra coisa. em que os objetos tendiam naturalmente ao repouso e o celeste (perfeito). até que. da diminuição na velocidade do objeto até o completo fim do movimento. da noção de impetus usada para explicar o movimento de um projétil (uma pedra atirada no ar). Por isso. na verdade interrompidos por causas que ignoramos. as Estrelas) permaneciam indefinidamente em movimento. um carro. ao se movimentarem. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 6. Quando empurramos uma cadeira. em que os astros (o Sol. chegam a um fim por conta própria. o projétil atingiria a situação de repouso. uma bola. é a base da Física Aristotélica que vigorou por mais de dois mil anos. notamos logo uma tendência. Essa constatação. A Noção de Inércia . Treinados pelos outros e acostumados a tais observações admitimos que os movimentos. ao seu fim. aparentemente natural. O projétil armazenaria sob a forma de impetus a força inicialmente aplicada para lançá-lo. por exemplo. No sofisticado modelo aristotélico muitas noções complementares foram se agregando para complementar as explicações.

aqui. (uma cadeira. Na ausência de atrito os objetos permaneceriam indefinidamente em movimento e não parariam.123 Podemos assim expressar a explicação aristotélica para o movimento terrestre: quando há força. Uma noção que permite uma nova visão do movimento é a noção de inércia. Na concepção inercial. Estamos lembrados que para se contrapor ao geocentrismo exploramos o heliocentrismo alterando nosso ponto de vista (Reveja o exemplo do carro seguindo em uma estrada. uma bola) eles tendem ao repouso. mais uma vez. a menos que algo externo imprima uma força sobre ele. por meio de outras forças ocultas que lhe são impressas. Significa que. assim permanecerá. e só há movimento quando há força. sabemos que somos nós que nos movemos). a menos que algo atue sobre ele imprimindo-lhe uma força. Apesar de observarmos as árvores em movimento. Precisamos agora. há movimento. Ela inverte a justificação aristotélica introduzindo novos elementos. A Inércia é um princípio oposto à concepção de movimento de Aristóteles. sua tendência natural é permanecer em movimento. Esse fato pode ser melhor observado ao diminuirmos (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . um carro. quando não há força atuando sobre o objeto. como explicar as nossas observações cotidianas cristalizadas desde a mais tenra idade? Considerando a noção de inércia no caso dos objetos que empurramos. se um objeto está em repouso. mudar nosso ponto de vista quanto às observações dos movimentos terrestres que nos parecem tão naturais. Mas. se um objeto está em movimento. as chamadas forças de atrito que existem no contato dos objetos e a superfície sobre a qual se apóiam. Também. não de modo natural mas. ele mantém seu estado de movimento ou de repouso inalterado.

no caso. são como projéteis que nunca caem e ficam em movimento indefinidademente. Quando usamos a Noção de Inércia para explicar o lançamento de projéteis. culturais etc. diferente da visão aristotélica. pela inércia: o objeto lançado permanece em movimento e devia mesmo permanecer assim naturalmente. a trajetória elíptica é devida a força de atração gravitacional e a natureza perpétua do movimento em função da ausência de forças de resistência como a resistência do ar. só tende ao repouso por conta de forças que atuam sobre ele. A noção ou princípio de inércia pode ser enunciado de forma mais elegante como a propriedade segundo a qual a matéria não pode por si própria alterar seu estado cinético. influenciando pensares religiosos.124 o atrito com uma superfície: é mais fácil empurrar um objeto em um piso encerado que em um piso áspero e sujo. O estado cinético é a condição de movimento ou repouso de um dado objeto. Segundo a noção de inércia é preciso tanta ação para gerar o (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . não precisamos mais da noção de impetus. É exatamente essa a situação dos astros celestes. etc. Esse fato tem implicações profundas na maneira como as pessoas olham para os astros e para o céus. a atração gravitacional responsável por sua trajetória parabólica e a resistência do ar. atrito. Note que a separação aristotélica entre movimento celeste-perfeito e movimento terrestre-imperfeito também se desfaz por conta da introdução da noção de inércia. Não fosse a resistência do ar e a atração da gravidade terrestre. Assim. místicos. Por esse motivo dizemos que a noção de inércia e outras da Física Clássica pertencem a uma nova visão de mundo. o movimento se estenderia para sempre e em linha reta.

É importante destacar que estamos discutindo a noção de inércia dentro do contexto da Física e que existem outros contextos possíveis com outros significados para a palavra inércia. moleza ou apatia.125 movimento. mas se começam a andar é difícil pará-los. é melhor adotar no cotidiano. Galileu e Newton. segundo o contexto dado. a palavra inércia costuma ser exclusivamente relacionada ao repouso e expressa um sentido de preguiça. A significação da Física Clássica pode tornar ambígua (com duplo sentido) a expressão: a inércia do sistema judiciário. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . a palavra inércia tal qual vem sendo utilizada desde os escolásticos para designar tendência exclusiva ao repouso. Mas. no sentido da Física Clássica com incorporação das obras de Descartes. Assim. Desse modo. como para atingir o repouso. Do ponto de vista da inércia da Física a expressão deveria ser entendida como: enquanto os processos estão parados tendem a ficar parados. No entanto. quando já em movimento. na ausência de forças externas além de manter sua velocidade constante um objeto permanecerá em movimento em linha reta. por exemplo. Para efetuar curvas um objeto também precisa de forças externas que exercem acelerações modificando a direção de seu movimento. igualmente há a tendência de continuar em movimento. na ausência de forças externas. além da tendência a permanecer parado na ausência de forças externas. No nosso dia-a-dia. a dificuldade de pôr um carro em movimento não é diferente da de fazê-lo parar.

como o bronze. propomos mais uma atividade. de algum material duro e pesado. A seu ver. Represente (por desenho) cada uma das situações apresentadas no texto.. o que acontecerá quando a soltarmos? 1 Galileu não formulou precisamente o princípio da inércia. 1) Dadas as situações a seguir. Simplício e Sagredo discutem sobre o movimento de uma bola sobre uma superfície. e sobre ela foi colocada uma bola perfeitamente esférica..: . Diga-me agora: Suponhamos que se tenha uma superfície plana lisa como um espelho e feita de um material duro como o aço. Mais a frente. de Galileu Galilei1. mas inclinada. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Situação a ser analisada a) lançamento de projéteis b) movimento da Lua em volta da Terra c) patinação no gelo d) puxar uma toalha de sobre a mesa sem derrubar copos. indicando a condição cinética resultante da bola e explicando-a.126 Para complementar nossa apresentação da noção de inércia. explique cada uma delas segundo a concepção aristotélica de movimento natural e segundo o princípio da inércia. que como sabemos ajusta-se à forma redonda da Terra. pratos e talheres e) justificativa do uso do cinto de segurança f) movimento de foguetes 2) Leia o texto a seguir. em que os personagens Salviati. De acordo com a concepção aristotélica De acordo com a concepção da inércia Diálogos Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo SALV. Ela não está horizontal. em seus diálogos ele explica que a superfície lisa e horizontal considerada neste exemplo pode ser a superfície da água do mar. Por esse motivo Alexandre Koyré e Allan Frankin defende que Galileu definiu somente a inércia circular. composto por trechos dos diálogos dos Dois sistemas de mundo.

pelo contrário. o corpo móvel desce espontaneamente e continua acelerando.: E se fosse lançada com um certo impulso. Você diria ainda que. e em resposta a sua pergunta digo que a bola continuaria a mover-se indefinidamente. qual seria seu movimento.127 SIMP. SALV.: Não espontaneamente. sendo contrário à tendência natural.: Compreendo perfeitamente. . de forma que um declive mais acentuado implique maior velocidade. se houver. nem qualquer outro obstáculo acidental... acha que ela subiria? SIMP. é preciso uma força para lançar o corpo ou mesmo mantêlo parado. não leve em consideração qualquer impedimento do ar causado por sua resistência à penetração.: . até aqui você me explicou o movimento sobre dois planos diferentes. e de que amplitude? SIMP. afim de remover todos os impedimentos externos e acidentais.. num aclive.. SALV. SALV. SALV. E por quanto tempo a bola continuaria a rolar. e com um movimento continuamente acelerado . Num plano inclinado para cima. e quão rapidamente? Lembre-se de que eu falei de uma bola perfeitamente redonda e de uma superfície altamente polida. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . enquanto permanecesse sobre a superfície inclinada. e é preciso empregar uma força para mantê-lo em repouso. e o movimento impresso no corpo diminui continuamente até cessar de todo. um corpo lançado com uma dada força se move tanto mais longe quanto menor o aclive. e duraria mais ou menos tempo conforme o impulso e a inclinação do plano fossem maiores ou menores. Analogamente. SIMP. mas ela o faria se fosse puxada ou lançada para cima.: Não acredito que permaneceria em repouso. surgem diferenças conforme a inclinação do plano seja maior ou menor.: Mas se quiséssemos que a bola se movesse para cima sobre a mesma superfície.: O movimento seria constantemente freiado e retardado. Num plano inclinado para baixo.. estou certo de que rolaria espontaneamente para baixo.: Muito bem. ao passo que.. nos dois casos.

: Tão longe quanto a superfície se estendesse sem subir nem descer. Então. ou continuamente retardado. por quanto tempo você acha que a bola continuaria se movendo? SIMP. SALV. (Moysés. como no declive. Mas que sucederia se lhe déssemos um impulso em alguma direção? SIMP. faz pouco tempo que Sagredo me deu a entender que isto é o que aconteceria.: Aqui preciso pensar um instante sobre a resposta.: Acredito que aconteceria se colocássemos a bola firmemente num lugar.: Exatamente. desde que o corpo móvel fosse feito de material durável.128 Diga-me agora o que aconteceria ao mesmo corpo móvel colocado sobre uma superfície sem nenhum aclive nem declive. não pode haver tendência natural ao movimento.: Não posso ver nenhuma causa de aceleração. Parece-me portanto que o corpo deveria naturalmente permanecer em repouso. não havendo aclive. uma vez que não há aclive nem declive. SALV. SALV. Mas eu me esqueci. como no aclive? SIMP. se este espaço fosse ilimitado. Mas se não há razão para que o movimento da bola se retarde. e.: Mas com que tipo de movimento? Seria continuamente acelerado. Mecânica. SIMP. Não havendo declive.: Ela teria que se mover nessa direção. o movimento sobre ele seria também ilimitado? Ou seja.: Parece-me que sim. por conseguinte. Não pode haver resistência ao movimento. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . SALV. ainda menos há razão para que ele pare. perpétuo? SIMP.. pgs 67 e 68) 3) Utilize o princípio da inércia para explicar porque o Experimento da pedra que cai de uma torre (Argumento da Torre) não é adequado para provar que a Terra não está se movendo.

a importância pedida. assumindo uma pose teatral. pelo preço de 25 centavos. O homem que enviou essas cartas foi preso e processado por fraude. repetiu solenemente as famosas palavras de Galileu: "Contudo. À altura do paralelo 49 . um anúncio oferecendo um agradável e pouco dispendioso modo de viajar. identifique e explique os argumentos que podem ser descartados segundo o princípio da inércia.000 km por dia. Conta a história que. Numerosos simplórios enviaram. 5) Leia e discuta o texto Contudo ela se move extraído do interessante livro Aprenda Física Brincando. depois de ouvir silenciosamente o veredito e de ter pago pesada multa. certa vez. ela se move".o senhor estará viajando a mais de 25. Cada um deles recebeu. de J. fique tranqüilo em sua cama e lembre-se de que a terra está girando. PERELMAN. mais tarde. quais são os novos argumentos em favor do (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Mas. pelo Correio. Até aqui a noção de inércia parece eliminar vários argumentos contrários ao movimento da Terra. o réu.o de Paris .129 4) Retome sua lista/coleção de argumentos em favor da imobilidade da Terra obtida nas atividades anteriores. Contudo ela se move Os jornais de Paris publicaram. uma carta com o seguinte teor: "Senhor. Se desejar uma bela vista. abra as cortinas de sua janela e admire o céu estrelado". Pg 12.

Não é? Vamos continuar nossa viagem visitando mais uma nova noção da Física Newtoniana e buscando elementos para responder a nossa questão sobre o movimento da Terra.130 movimento da Terra? Mostrar não existir nada que prove que a Terra está parada não significa aceitar que ela esteja em movimento. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .

introduzida por Newton. É o palco adequado para descrever as experiências. foi substituída por uma noção mais genérica denominada referencial inercial. teremos uma infinidade de outros referenciais inerciais. O espaço absoluto seria aquele que está realmente em repouso e em relação ao qual todos os movimentos devem ser descritos. Segundo a mecânica de Newton. Na linguagem atual da ciência. Se encontrarmos um referencial inercial. encontramos em Newton a noção de espaço absoluto. o espaço absoluto seria o “palco”. Mas há uma dificuldade. A noção de referencial inercial é mais geral que a noção de espaço absoluto por incorporar. Um referencial inercial é um sistema de referência no qual são válidas as leis da mecânica de Newton. a noção de espaço absoluto. A Noção de Espaço Absoluto . Assim. não acessível aos nossos sentidos.131 Para continuarmos estudando o problema da (i)mobilidade da Terra precisamos ampliar nossa compreensão descrevendo melhor o cenário no qual a Terra está inserida. onde a natureza “representaria” os fenômenos físicos. qualquer referencial que se desloque com velocidade constante e em linha reta em relação ao espaço absoluto. Como encontrar um referencial verdadeiramente inercial? Ou como determinar o espaço absoluto? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 7. nos livros e artigos de física. além de um referencial que esteja absolutamente em repouso. Decorre que um referencial qualquer que se mova com velocidade constante e em linha reta em relação a um referencial inercial é também inercial. inclusive o princípio da inércia. logo.

não podemos. 2) o princípio fundamental da dinâmica: r r F =m⋅a r a força resultante sobre um corpo F é igual ao produto da sua massa inercial m r pela sua aceleração a . A força e a aceleração são grandezas vetoriais. é correto utilizarmos aproximações materiais para resolver os problemas. como já estudamos. a própria Terra pode ser considerada o referencial (aproximadamente) inercial. Nos referenciais inerciais e somente nesses referenciais são válidas as leis da mecânica de Newton. para serem corretamente definidas além de seu valor (módulo) necessitam de uma direção e um sentido. já para o movimento da Lua entorno da Terra. para cada situação.132 Na verdade. para o movimento de pequenas massas sobre a Terra. usualmente adotamos o referencial das "estrelas-fixas" como (aproximadamente) inercial e assim por diante. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Com as aproximações mencionadas é possível obter medidas para os resultados experimentais bastante precisas. Por exemplo. e. Apesar de nunca podermos acessar o espaço absoluto ou os referenciais inerciais concretamente. não precisamos. Não há problema em não dispormos de referenciais verdadeiramente inerciais. Ou melhor. em relação a um referencial inercial. isso é. ou princípio da inércia. a saber: 1) a lei da inércia.

Física Básica de Nussenzveing. Antes de prosseguir. a noção de espaço absoluto e a noção de referencial inercial. mesma direção e sentido oposto. 2) O pêndulo de Foucault Vamos lá? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . podemos avançar em nossa viagem conhecendo agora dois novos argumentos que utilizam as Leis de Newton em favor do movimento da Terra. (sugestões: Mecânica do GREF. e. a noção de inércia. para aprender mais sobre as leis de Newton e a correta utilização dos referenciais inerciais é fundamental estudar alguns capítulos e resolver os problemas de livros didáticos de Física. Física volume 1 do Tipler e Física de Eisberg.) Tendo compreendido as Leis de Newton.133 3) lei de ação e reação: r r F12 = − F21 a toda ação de uma força corresponde uma reação com mesmo módulo. a saber: 1) O achatamento na forma da Terra.

A descrição desse efeito de achatamento dos planetas em função de seu movimento de rotação foi realizada pela primeira vez por Newton: os eixos dos planetas são menores do que os diâmetros perpendiculares aos eixos. portanto. Achatamento na Forma da Terra . A gravitação igual das partes sobre todos os lados daria uma forma esférica aos planetas. os mares abaixariam ao redor dos pólos e. e. subindo em direção ao equador. Ver também proposição 19. por isso dizemos que a Terra é achatada. se nossa Terra não fosse mais alta ao redor do equador do que nos pólos.134 Uma observação interessante descrita por Newton no seu célebre livro Principia. Nosso planeta não tem a forma de uma esfera perfeita. uma forma elipsoidal. Livro III. Teorema 16. na verdade. Proposição 18. Ele possui. (Isaac NEWTON. tem um diâmetro menor nos pólos que no equador. se a matéria está num estado fluído. Devido a este movimento circular acontece de as partes que se afastam do eixo tentam subir do equador. diz respeito ao achatamento na forma da mesma devido a efeitos centrífugos. colocariam todas as coisas sob a água.. problema 3 em que Newton calcula a partir de sua lei da gravitação a proporção do eixo de um planeta para os diâmetros perpendiculares a ele) (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 8. não fosse por suas revoluções diurnas num círculo. para justificar o movimento da Terra. ou seja. por sua subida em direção ao equador ela vai aumentar os diâmetros de lá e por sua descida dos pólos ela vai diminuir o eixo.. Principia.

A força centrifuga a ser introduzida é dada por: r ˆ Fcentrifuga = −m ⋅ ω 2 ρρ Em que: ω é a velocidade angular de rotação da Terra em relação a um ˆ referencial inercial. para estudar seu movimento de rotação em torno de si mesma não podemos utilizar diretamente as leis de Newton. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . com a criação dessa força pode-se utilizar corretamente as leis da Mecânica Newtoniana e determinar as equações de movimento para a Terra. portanto. Essa força é uma força fictícia e não possui. ou ao espaço absoluto.135 Newton calcula a razão entre o diâmetro da Terra no equador e o diâmetro de pólo a pólo e obtém o valor: 230 229 Mas qual o agente causador deste achatamento? Por que a Terra fica achatada? Sabemos que a Terra não é um referencial inercial e. No entanto. e ρρ é o vetor posição em coordenadas esféricas dos pontos sobre a superfície da Terra. uma existência real. Uma solução possível para continuar estudando o achatamento da Terra com a mecânica newtoniana é introduzir no referencial da Terra uma força imaginária denominada força centrífuga. segundo a mecânica de Newton. Para calcular a razão entre o diâmetro da Terra no equador e o diâmetro de pólo a pólo que expressa o achatamento na forma da Terra é preciso integrar a força gravitacional acrescida da força centrífuga para um elipsóide (esfera achatada).

136 Não apresentaremos aqui o desenvolvimento matemático completo que.17. a velocidade angular de rotação da Terra: ω= 4GM 5R 3  Requador   − 1  R   pólos  (7) ω = 7.21 e 7. pode ser estudado nos capítulos 6 e 7 do livro Mecânica. 6.0044) podemos calcular. é expresso por: Requador R pólos =1+ 5ω 2 R 3 4GM (6) Em que: Requador é o raio da Terra no equador Rpólos é o raio da Terra entre os pólos R é o raio médio da Terra = 6.67 x 10-11 N m2/ kg2 M é a massa da Terra = 6 x 1024 kg ω é a velocidade angular de rotação da Terra Adotando para o valor da razão entre os raios o resultado obtido por Newton e que está bem próximo das modernas observações experimentais (230/229 ≈ 1. Symon (ver especialmente exercícios 6. obtido a partir da introdução da força centrífuga nas leis de Newton. por considerações dinâmicas. R.10) O resultado obtido no cálculo para a razão entre os raios da terra no equador e entre os pólos. para uma compreensão mais aprofundada.36 x 106 m G é a constante de gravitação universal = 6.4 x 10-5 s-1 (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . de K.

Isto porque o giro do universo ao redor da Terra. levandose em conta a rotação de um dia (24 horas): ω k = 2π ≈ 7. ou seja. não produziria o achatamento na forma do nosso planeta e ele teria uma forma perfeitamente esférica. Como vimos. podemos afirmar. uma vez que. teremos uma mesma situação do ponto de vista de uma descrição cinemática. diferentemente da situação cinemática. Podemos dizer que no primeiro caso (análise cinemática) há uma simetria entre a mobilidade e a imobilidade da Terra. de acordo com esse novo argumento. e por isso. segundo as leis de Newton. Já no segundo caso (análise dinâmica) não se verifica a mesma simetria. que considera apenas as velocidades e as posições entre os corpos. tanto no heliocentrismo como no geocentrismo.137 Esse valor para a velocidade de rotação da Terra é praticamente o mesmo que calculamos por observações astronômicas e considerações cinemáticas. ou todo o resto do universo girar em volta da Terra. obtemos a mesma velocidade relativa entre a Terra e o conjunto de estrelas-fixas.3 × 10 −5 s −1 T Obtivemos assim dois valores iguais para a velocidade de rotação da Terra: o primeiro ωk a partir de considerações cinemáticas e o segundo ω a partir de equações da dinâmica de Newton. Tanto faz a Terra girar em volta de si mesma. possibilita afirmar que é a Terra que está girando sobre si mesma e não o restante do universo que gira ao redor da Terra. a velocidade de rotação cinemática não permite afirmar que é a Terra que está girando. Mas esse efeito. que a Terra realmente está em movimento! (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . O achatamento na forma da Terra permite-nos calcular a rotação dinâmica da Terra.

(i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .138 Assim como os defensores da Física Aristotélica e da imobilidade da Terra se apoiaram no Argumento da Torre e convenceram inumeráveis mentes humanas. os defensores da Mecânica de Newton se utilizam agora do Argumento do Achatamento na Forma da Terra para convencer de que ela se move.

mesmo que a base girasse. Assim. Um fato interessante da oscilação pendular é que o plano de oscilação do pêndulo é definido pelas condições iniciais em que a massa é posta em movimento. Foucault pode determinar a rotação da Terra a partir do estudo da variação do plano de oscilação de um pêndulo. Admitindo que o planeta Terra é uma base gigante e está girando para qualquer pêndulo.139 Vamos explorar mais um fantástico argumento em favor do movimento da Terra: O experimento do Pêndulo de Foucault. em Paris. O pêndulo de Foucault . Foucault pendurou seu pêndulo na enorme abóbada do Panthéon. Na mais famosa de suas demonstrações. A criação de Foucault é até hoje a melhor "prova" do movimento de rotação da terra porque independe de medidas astronômicas. Em 1851. Se o pêndulo fosse montado sobre uma base giratória. ele permaneceria oscilando sempre em um mesmo plano. ele construiu um novo argumento em favor do movimento da Terra. Nessa (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 9. o físico francês Jean Baptiste Leon Foucault inventou outra simples e interessante maneira de se obter a velocidade de rotação dinâmica da Terra (ωd) e assim comprovar seu movimento de rotação. A experiência proposta por Foucault é relativamente simples e para realizá-la basta observar o movimento de um longo pêndulo oscilando por um grande período de tempo. ou seja. pode ser realizada em uma sala fechada sem se olhar para o céu ou considerar as grandes distâncias das dimensões terrestres como no efeito do achatamento da Terra. Um pêndulo é um sistema constituído por uma massa pendurada em uma linha e que oscila de um lado para o outro de modo regular.

que o plano de oscilação do pêndulo mudava lentamente com o tempo em relação à superfície da Terra. A força de Coriolis pode ser escrita como: r r r FCoriolis = −2mω d × v Em que: m é a massa em movimento. A solução então. também uma força fictícia devida ao movimento de rotação da Terra em relação ao espaço absoluto (ou a um referencial inercial). ωd é a velocidade angular da Terra em relação ao espaço absoluto ou a um sistema de referência inercial. que não podemos simplesmente utilizar as leis de Newton. Foucault observou. por isso. e. (8) v é a velocidade da massa em movimento. para continuar estudando o movimento do pêndulo é introduzir no referencial da Terra uma nova força imaginária (Outra. Essa nova força foi descoberta em 1831 por Coriolis e por isso ficou conhecida como Força de Coriolis. Mas como explicar a mudança no plano de oscilação do pêndulo de Foucault utilizando as leis da Mecânica Newtoniana? Lembrando mais uma vez que a Terra não é um referencial inercial. A força de Coriolis é. segundo a concepção newtoniana. Em seu experimento com o pêndulo. como ele já esperava. mas ela não é responsável pela alteração no plano de oscilação do pêndulo). Aqui continua existindo a força centrífuga.140 ocasião. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . sabemos. Diferente da que explica a forma da terra. ele usou um comprimento de 67 metros e a massa suspensa era uma esfera oca de cobre. cheia de chumbo com massa total de 28 Kg.

Um observador colocado no pólo.141 O caso mais simples para o experimento do pêndulo de Foucault ocorre para oscilações em um dos pólos terrestres. Para qualquer posição entre o equador e o pólo a variação de direção no plano de oscilação do pêndulo pode ser obtida por: ω d sinα Em que ωd é a velocidade angular da Terra em relação ao espaço absoluto ou a um sistema de referência inercial e α é a Latitude no local do experimento. No equador. ou ao espaço absoluto. Nessa situação. em relação à Terra. Como a Terra está girando exatamente sob o pêndulo. o pêndulo vai ficar oscilando sempre em um mesmo plano em relação a um sistema inercial. entretanto. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . verá exatamente o oposto. Propomos mais uma breve atividade: 1) Calcule a variação de direção no plano de oscilação do pêndulo de Foucault para a Cidade de Paris com latitude igual a 48o 51'. o pêndulo de Foucault não modifica seu plano de oscilação em relação à Terra porque o produto vetorial da velocidade de rotação da Terra r r pela velocidade de oscilação é igual a zero: ω d × v = 0 . o plano de oscilação modificando-se com o passar do tempo. que estava no início do experimento. após aproximadamente 24 horas o plano de oscilação vai estar na mesma posição. ou seja. 2) Calcule a variação de direção no plano de oscilação do pêndulo de Foucault para a Cidade de São Paulo.

que o período era regulado pela correlação entre a raiz quadrada do comprimento do fio e a do número π. que não sofresse a resistência do ar nem o atrito com seu ponto de apoio. O Pêndulo de Foucault . A esfera de cobre emitia pálidos reflexos cambiantes sob a incidência dos últimos raios de sol que penetravam pelos vitrais. a dualidade de uma dimensão abstrata. mudando infinitesimalmente de (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . sua ponta estivesse roçando uma camada de areia úmida espalhada sobre o pavimento de coro. descrevia suas amplas oscilações em isócrona majestade. Se. transcrito a seguir. e o sulco. teria desenhado a cada oscilação um leve sulco no solo. suspenso da extremidade de um fio inextensível e sem peso. garantia a permanência do movimento. porque no vácuo qualquer ponto material pesado. como outrora. um dispositivo magnético. na base. embora irracional para as mentes sublunares. teria oscilado de modo regular por toda a eternidade. relaciona. artifício disposto para contrabalançar a resistência da matéria. móvel na extremidade de um longo fio fixado à abóbada do coro. o qual. Em que elas são semelhantes? Em que diferem? 4) Leia e discuta o texto O Pêndulo de Foucault do livro de Umberto Eco. antes lhes permitia manifestarem-se.de modo que o oscilar de uma esfera de um pólo a outro decorre de uma arcana conspiração entre a mais intemporal das medidas.Umberto Eco A esfera. a natureza terciária do π. Eu sabia .mas quem quer que o tivesse advertido no encanto daquele plácido respirar . Sabia também que na vertical do ponto de suspensão. a unidade do ponto de suspensão. transmitindo sua atração a um cilindro oculto no cerne da esfera.142 3) Compare as experiências do Pêndulo de Foucault e da Pedra que cai da Torre. por alguma razão divina. o tetrágono secreto da raiz e a perfeição do círculo. mas que não se opunha às leis do Pêndulo. a circunferência ao diâmetro de todos os círculos possíveis .

dos traços que deixaram caravanas infinitas e erráticas. e eu com ela. Naquele momento. aquele ápice de lança. Talvez a igreja abacial de Saint-Martin-des-Champs fosse o verdadeiro Templo. descrevendo uma elipse achatada .elipse que girasse em torno de seu próprio centro com uma velocidade angular uniforme. deixando adivinhar uma simetria radiada . Contudo. Eu sabia que a Terra estava rodando. não houvesse modificado. resistente ao passar das horas. que de resto a própria Lei previa. pois o Pêndulo me levaria a crer que o plano de oscilação teria realizado uma rotação completa. registrada na extensão do deserto. proporcional ao seno da latitude. único lugar em que o ponto de suspensão incide sobre o prolongamento do eixo de rotação da Terra. tornando ao ponto de partida. no qual o Pêndulo realizaria seu círculo aparente em vinte e quatro horas. readquirir velocidade a meio do percurso e desferir seus golpes de sabre confidentes no quadrado oculto das forças que o destino lhe apontava. Não melhor talvez a peripécia. o Pêndulo amortecia a própria velocidade numa extremidade do plano de oscilação. a fixar aquela cabeça de pássaro. o significado final. para recair indolente em relação ao centro. aquele elmo emborcado. a estrutura invisível de um pentáculo..143 direção a cada instante. ter-se-ia alargado sempre em forma de brecha. e SaintMartin-des-Champs e Paris inteira comigo. aflorando os pontos opostos de sua astigmática circunferência. em trinta e duas horas. às quatro da tarde de 23 de junho. e juntos rodávamos sob o Pêndulo que na realidade não mudava jamais a direção do próprio (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Se eu permanecesse muito tempo. de vala. de uma estrela. enquanto desenhava no vazio as suas diagonais. teria sido vítima de uma ilusão fabulatória. Como teria girado se o ponto fosse fixado ao alto da cúpula do Templo de Salomão? Talvez os Cavalheiros tivessem experimentado também lá.como um esqueleto de mandala.. não era esta violação da medida áurea que tornava menos admirável o prodígio. de uma rosa mística. Mas não era este desvio da Lei. Talvez o cálculo. a experiência só teria sido perfeita no Pólo.

deixando que o universo se movesse em torno dele. a Rocha. os buracos negros e todos os filhos da grande emanação cósmica. depois no Observatoire. eixo. para o alto em direção às mais remotas galáxias estava. "Foi primeiro experimentado numa cave em 1851. engate ideal. desde 1855 está aqui. imóvel por toda a eternidade. não é um lugar. aquele ponto - (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . embora tudo se movesse. o Não-Movente. não é alma. mas ao alto. número. não é treva nem luz. nem um tempo ou um espaço. opinião. Por isso... e em seguida sob a cúpula do Panthéon. inteligência. na travessa da abóbada". O Pêndulo dizia-me que. o globo. Finalmente. não é apreendido pela sensibilidade.. de onde pendia. só para ficar balançando?" "Serve para demonstrar a rotação da Terra. em formato reduzido.144 plano. bem. ordem. entre um rapaz de óculos e uma jovem que infelizmente não os tinha. e pende daquele furo. substância.. cavilha. E eu participava agora daquela experiência suprema. A Terra girava. a caligem luminosíssima que não é corpo. lá onde se celebrava o mistério da imobilidade absoluta. a Garantia. mas o lugar onde o fio estava ancorado era o único ponto fixo do universo.. o Ponto Eixo. no seu ponto central. desde os éons primitivos à matéria mais viscosa.. um único ponto permanecia. e não vê. medida. eternidade. porque lá em cima. eu podia ver o Quid. não sente. como direi." "Mas por que permanece fixo?" "Porque um ponto. "É o pêndulo de Foucault". Sacudiu-me um diálogo. não tem figura forma peso quantidade ou qualidade. "E para que serve. imaginação. não é erro nem verdade. o sistema solar. quer dizer todo ponto que esteja no meio dos pontos que você vê. as nebulosas. e ao longo do infinito prolongamento ideal do fio. não era propriamente à Terra que o meu olhar se dirigia. dizia o moço. Se considerarmos que o ponto de suspensão permanece fixo. com um fio de sessenta e sete metros e uma esfera de vinte e oito quilos. eu que embora me movesse com tudo e com o todo. preciso e desenvolvido.

nem para baixo nem para cima. Nem mesmo este si mesmo existe.você não vê. Este resultado confirma de forma brilhante o movimento da Terra! Mais uma vez verifica-se a coincidência entre o valor da velocidade de rotação dinâmica (ωd) obtida a partir do experimento de Foucault e os valores apresentados anteriormente. assim como o achatamento na forma da Terra. não gira." "Nem com a Terra girando?" "A Terra gira.145 o ponto geométrico . e pensava que fosse problema Dele. tendo estudado nesses manuais que lhe obnubilaram as possibilidades de maravilhar-se. O resultado da experiência de Foucault. Mas logo em seguida o casal se afastou ele.3 × 10 −5 s −1 . ou seja ω d = 7. Tinha sobre a cabeça o único lugar estável do cosmo.com o Uno.. inacessível ao arrepio do infinito. não pode sequer girar em torno de si mesmo. Se lhe agrada. e não dela. o único ponto resgatado da danação do panta rei. pg 9 à 12) A velocidade de rotação do plano de oscilação pendular obtida por Foucault é precisamente a mesma velocidade de rotação da Terra. o En-sof. danese. permite afirmar que é a (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Entendeu? Se um ponto não tem dimensão. é assim.primeiro e último . mas o ponto não. se não." Miserável. Como não cair de joelhos diante do altar daquela certeza? (Umberto ECO. tanto pelas descrições cinemáticas como pela descrição dinâmica a partir do achatamento da Terra. Está bem?" "Problema dele. não tem dimensão. diferentemente da situação cinemática. ela inerte. ambos sem terem registrado na memória a experiência terrificante daquele seu encontro .. O pêndulo de Foucault. e portanto não tendo dimensão não pode mover-se nem à esquerda nem à direita. Conseqüentemente. o Indizível.

146 Terra que está girando sobre si mesma e não o restante do universo que gira ao redor da Terra. nem todas as mentes humanas são facilmente convencidas e novas visões de mundo nos fazem repensar nossos argumentos. * * * * * * * * * Chegamos ao fim de nossa viagem? Está respondida a questão que nos colocamos? Podemos considerar definitivamente válida a afirmação de que a Terra se move? Podemos. Isto porque. podemos afirmar. como diz Umberto Eco. por mais sólidos que eles nos pareçam de início. Convém conhecer os argumentos daqueles que não se convenceram com os mais claros e simples argumentos em favor do movimento da Terra. que a Terra realmente está em movimento! Novas mentes humanas podem ser convencidas com esse simples e brilhante argumento de Foucault que confirma a Mecânica de Newton e comprova que a Terra não está imóvel. de acordo com o Argumento do Pêndulo de Foucault. o giro do universo ao redor da Terra. Encontramos uma nova assimetria entre a mobilidade e a imobilidade da Terra. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Por isso. cair de joelhos diante do altar daquela certeza? Por sorte. não produziria nenhuma alteração no plano de oscilação do pêndulo. Vamos prosseguir um pouco mais o caminho e ouvir novos personagens. segundo as leis de Newton.

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10. O Princípio de Mach (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

Há dois detalhes da Física Newtoniana que já apresentamos e que parecem não ter sido totalmente resolvidos: o primeiro é a impossibilidade de se encontrar um referencial que seja verdadeiramente inercial; o segundo é o fato da simetria para descrições cinemáticas não se verificar em descrições dinâmicas. Será possível existir uma Mecânica, baseada em novos argumentos, que não se utilize da noção de espaço absoluto, nem de referenciais inerciais e que restabeleça a simetria entre as descrições dinâmicas e cinemática do movimento? Muitas das críticas à concepção de espaço absoluto (ou de referencial inercial) já haviam sido formuladas no início do Século XVIII, por parte de filósofos como Leibniz e Berkeley. As grandes conquistas da Mecânica Newtoniana e seu sucesso no campo da astronomia, no entanto, ofuscaram essas críticas por mais de 150 anos. Em 1883 a contestação da noção de espaço absoluto ressurge nos trabalhos do Físico austríaco Ernst Mach. Para contestar as noções newtonianas de inércia e espaço absoluto, Mach, formulou em sua obra The Science of Mechanics o seguinte princípio:

Para mim só existem movimentos relativos. Não vejo, neste ponto, nenhuma diferença entre translação e rotação. Obviamente não importa se pensamos na Terra como em rotação em torno de seu eixo, ou em repouso enquanto as estrelas fixas giram em torno dela. O Princípio da Inércia deve ser concebido de tal forma que a segunda suposição leve exatamente aos mesmos resultados que a primeira. Torna-se então evidente que, na sua formulação, é preciso levar em

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conta as massas existentes no Universo. (Daniel Gardelli, Origem da Inércia, Cad. Cat. Ens. Fis., vol.16, n1. pg48)
Para Mach é preciso, à luz de seu Princípio, rever a Noção de Inércia e conseqüentemente as demais leis da Mecânica Newtoniana. Segundo essa nova concepção de inércia proposta por Mach, a massa inercial de um objeto se originaria da interação entre a massa desse objeto com todas outras massas do universo inteiro. Assim, em um universo vazio não haveria inércia. Esse princípio choca-se com a Mecânica Newtoniana que atribui a inércia a uma propriedade intrínseca da matéria e não a uma interação com as outras massas do universo. Apesar da importância de sua crítica, Mach não desenvolveu uma formulação quantitativa para seu princípio, fato que não lhe deu popularidade no meio científico. A tarefa de implementar quantitativamente o princípio de Mach para a reformulação das leis de Newton foi iniciada e abandonada sem sucesso por grandes nomes da ciência dentre os quais Einstein, o pai da Relatividade, e Schrödinger um dos principais fundadores da Mecânica Quântica. A Mecânica Relacional, apresentada a seguir, retoma as críticas de Mach à Física Newtoniana implementando-as quantitativamente em termos do formalismo da física contemporaneamente aceita e consolidando o princípio de Mach como um novo Argumento para discutir a questão da (i)mobilidade da Terra. Vamos conhecê-la?

(i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

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Finalizando nossa viagem, vamos apresentar um breve resumo da Mecânica Relacional, uma proposta alternativa à mecânica de Newton que pretende explicar os fenômenos da dinâmica e gravitação há muito conhecidos. Essa nova Mecânica foi desenvolvida pelo Físico brasileiro André K. T. Assis, professor livre-docente do Instituto de Física da Universidade de Campinas, e retoma a discussão crítica sobre as noções de espaço-absoluto e inércia implementando quantitativamente as idéias de E. Mach. É importante esclarecer que nosso intuito neste trabalho não é discutir a validade dessa proposta teórica, mas o de utilizá-la do ponto de vista da ampliação do conhecimento. Uma nova concepção da mecânica pode servir de fonte para novas argumentações alternativas e fornecer-nos elementos de contraste para uma compreensão mais profunda dos princípios implícitos na discussão sobre a inércia e o problema da (i)mobilidade da terra, como vimos até aqui discutindo. Assim como o estudo do Argumento da Torre traz contribuição para entendermos a Noção de Inércia, o Princípio de Mach, na formulação da Mecânica Relacional, aumenta nossa compreensão dos fenômenos inerciais. Como sugerido por Mach, na proposta da Mecânica Relacional não há a necessidade de admitirmos a existência do espaço absoluto (ou referencial inercial), não existem forças fictícias, ou seja, todas as forças são descritas em termos de interações reais entre os corpos, obedecendo a lei de ação e reação e, o mais importante para nossa discussão, todas as descrições cinematicamente

(i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

11. Mecânica Relacional

com termos dependentes da velocidade e da aceleração relativas entre os corpos interagentes. 1995. O sistema mais simples que poderíamos considerar é aquele composto de duas partículas. ou seja. q1 e q2. Dordrecht. K. A. Como acontecia nas forças de Coriolis e Centrípetas. Kluwer Academic Publishers. Para a implementação das idéias de Mach. a Lei da Gravitação Universal deve ser modificada de modo a assumir uma forma análoga à força de Weber2 para cargas elétricas. é dado por r& U 12 = & q1q 2 1  r2  1 − 122   2c  4πε o r12   (9) (εo é a constante de permissividade no vácuo e c é a velocidade da luz). Campinas. Aplicações e Exercícios. Eletrodinâmica de Weber – Teoria. que se movem com uma velocidade relativa r12 e aceleração relativa &12 na formulação de Weber. segundo a Mecânica Relacional. separadas por & uma distância relativa r12. Desse potencial obtemos a força de Weber 2 Para uma justificação detalhada ver: A. 1994. T. T. Nessa nova proposta todas as forças são baseadas em interações entre os corpos materiais. são restabelecidas as simetrias. K. Não faz sentido. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . falar de movimento de um único corpo em um Universo completamente vazio de outros corpos materiais. e. O potencial de interação entre duas cargas elétricas. Assis.150 equivalentes para a (i)mobilidade da Terra tornam-se dinamicamente equivalentes. Editora da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Weber’s Electrodynamics. não há força entre qualquer corpo e o “espaço vazio”. Assis. no estudo da interação gravitacional entre os corpos em movimento.

são apresentados os seguintes postulados ou axiomas: 1) a força é uma quantidade vetorial que descreve a interação entre corpos materiais. considerando o princípio de Mach. na Mecânica Relacional. pode ser escrita como m g1m g 2  &2 r12  1 − ξ 2  U 12 = G r12  2c    (11) (G é a constante de gravitação universal e ξ é um parâmetro cosmológico). (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra r ˆ & dU 12 q1q 2 r12  r 2 r &&  r 1 − 122 + 12 212  ˆ F21 = −r12 = 2  dr12 4πε o r12  2c c   (10) . 2) a força que uma partícula pontual A exerce sobre uma partícula pontual B é igual e oposta à força que B exerce sobre A e é direcionada ao longo da linha reta conectando A até B. obtém-se uma nova expressão para a força de interação gravitacional r  ˆ & dU 12 r  ξ  r2 ˆ F21 = − r12 = Gm g1m g 2 12 1 − 2  12 + r12 &&   r12   2   2 dr12 r12  c   (12) Além da modificação da Lei da Gravitação Universal. e.151 Analogamente a energia de interação entre duas massas gravitacionais. separadas por uma distância relativa r12. A partir dessa expressão para o potencial. mg1 e mg2. para uma correta implementação do princípio de Mach.

218) 5 André K... ASSIS.. podem ser expressos em apenas um:4 1) A soma de todas as energias de interação (gravitacional. em termos de Energia. magnética.5 O princípio de Mach é implementado quantitativamente quando calculamos o potencial e a força gravitacional. André K T Assis. Mecânica Relacional.. elástica. Não apresentaremos os desenvolvimentos matemáticos que devem ser examinados em: ASSIS. p. de mesma natureza que qualquer outro tipo de energia potencial (Ver. Mecânica Relacional. T. utilizando as expressões (11) e (12).3 Esses três postulados. pág 207. Como resultados são obtidos: 3 André K. Mecânica Relacional. mecânica relacional .152 3) a soma de todas as forças de qualquer natureza (gravitacional.) agindo sobre qualquer corpo é sempre nula em todos sistemas de referência. Considerando a simetria esférica. entre uma partícula teste e o restante do universo. ASSIS. p. T.200 4 (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . esse problema equivale a encontrar o potencial gravitacional e a força de interação de uma partícula movendo-se no interior de infinitas cascas esféricas concêntricas constituídas pelas estrelas. elástica. p. elétrica. nuclear. Os resultados precisam coincidir com a situação oposta: as cascas esféricas se movendo em relação a uma partícula fixa em seu interior.) entre qualquer corpo e todos os outros corpos no Universo é sempre nula em todos os sistemas de referência.200 Na Mecânica Relacional derivamos a energia cinética como uma energia de interação gravitacional.. elétrica.

Existem também já alguns testes experimentais que corroboram resultados previstos pela mecânica relacional e outras propostas experimentais ainda em vias de serem desenvolvidas. de Coriolis e outra sem nome). Essa equivalência fornece um novo argumento em favor do movimento de rotação da Terra ao permitir enxergar com novos olhos os casos do Pêndulo de Foucault e do achatamento na forma da Terra. Dando um significado de interação com o restante do universo a essas duas energias. etc. é a equivalência dinâmica entre movimentos equivalentes do ponto de vista cinemático. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . A mecânica Relacional permite ainda explicar problemas que vão além do que a física newtoniana alcançava..153 a) para o cálculo do potencial: uma expressão equivalente à energia cinética somada a energia de repouso relativística.. (14) c) como subproduto é deduzida uma relação fundamental entre as constantes cosmológicas descoberta por Dirac em 1930. como o movimento retilíneo uniforme. movimento com força constante. movimento oscilatório. como a precessão do periélio dos planetas. (13) b) para o cálculo da força: uma expressão equivalente à segunda lei de Newton somada a três expressões de forças equivalentes ao que chamamos de forças fictícias (centrífuga. e o que a diferencia da teoria clássica de Newton e da teoria da Relatividade de Einstein. movimento circular uniforme. A característica principal da Mecânica Relacional. a anisotropia da massa inercial e o movimento de partículas em alta velocidade. (15) Com a formulação matemática da Mecânica Relacional é igualmente fácil resolver todos os problemas anteriormente resolvidos pela mecânica newtoniana.

o pêndulo continuaria igualmente mudando a direção do seu plano de oscilação. mecânica relacional . utilizando os resultados descritos em (14). mecânica relacional . (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Assis questiona as descrições dos experimentos sobre a forma da Terra e do pêndulo de Foucault que alegam serem provas de que a interpretação heliocêntrica é melhor. Assim. (ver detalhes em: ASSIS. "se a situação cinemática é a mesma. se a Terra permanecesse imóvel e todo o restante do universo girasse ao seu redor. Assim. com o mesmo valor numérico calculado para o achatamento. pág 265) b) Pêndulo de Foucault: de acordo com a Mecânica Relacional. utilizando os resultados descritos em (14) a Terra seria achatada em função de uma interação sua com o restante das estrelas e demais astros do universo.". tanto faz girar o planeta. pág 266) Assim. Verifica-se quantitativamente a suposição de Mach. então os efeitos dinâmicos também têm de ser os mesmos. obtém-se o mesmo efeito. como girar todo o resto em torno dele. Mach.154 a) Achatamento na forma da Terra: segundo o desenvolvimento da Mecânica Relacional . a mudança de direção no plano de oscilação do pêndulo de Foucault é devida a uma interação deste com as demais massas do universo. ou mais precisa que a geocêntrica. (ver detalhes em: ASSIS. seguindo as idéias de E.

p. não havendo nenhuma razão física mais profunda. são completamente equivalentes e ainda mais. como explica Assis: . mas também dinamicamente. 6 André K.6 Como vimos os sistema geocêntrico e heliocêntrico são cinematicamente equivalentes já na mecânica clássica. Mecânica Relacional. nós utilizamos a palavra "(i)mobilidade" (com o i entre parênteses) para expressar o estado de movimento e/ou repouso da Terra desde o início deste trabalho..230. E escolher entre um sistema e outro é uma questão puramente de gosto ou de simplicidade prática. E isto não apenas cinematicamente como sempre se soube. com a nova argumentação aplicada aos resultados experimentais. Essas duas visões de mundo. ASSIS. tal que sua própria velocidade e aceleração sejam sempre nulas. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . qualquer outro sistema de referência será também equivalente. Qualquer pessoa ou sistema de referência pode-se considerar realmente em repouso enquanto que todo o universo move-se ao redor desta pessoa de acordo com sua vontade.. ambas as concepções de mobilidade e imobilidade para a Terra são igualmente válidas e corretas. Por esse motivo. T. Todas as forças locais atuando sobre a pessoa serão contrabalançadas pela força exercida pelo universo distante. O que acontece na Mecânica Relacional é uma ampliação desta equivalência também para a descrição dinâmica do movimento de rotação da Terra.155 Como fica então a resposta a nossa questão inicial quanto ao movimento da Terra? Segundo a mecânica relacional. qualquer sistema de referência é igualmente válido.

Argumento Concepção de mundo Experimento Resposta * * * * * * * * * A resposta à nossa questão quanto ao movimento da Terra fica assim indeterminada por esse nosso último e fabuloso argumento. * * * * * * * * * Como atividade final propomos a elaboração de um quadro síntese resumindo todas as respostas quanto ao movimento da Terra. segundo a mecânica relacional. os argumentos e todas os experimentos estudados a partir deste texto. a partir do Princípio de Mach e da formulação da Mecânica Relacional. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . as descrições geocêntrica e heliocêntrica para o movimento de rotação da terra. para o conflito entre o geocentrismo e o heliocentrismo uma solução análoga à dada ao conflito entre a natureza ondulatória e corpuscular da luz: a dualidade onda-partícula que junta. Uma vez escolhida uma forma de descrever o fenômeno a outra deixa de ser válida. paradoxalmente em uma mesma teoria. as concepções em que se apóiam. aspectos totalmente antagônicos.156 Assim sugerimos. De igual modo. podem ser concebidas como descrições complementares de um mesmo fenômeno físico: a (i)mobilidade da Terra.

garantir com certeza se a Terra está móvel ou imóvel? O que podemos afirmar com certeza é que jamais devemos ignorar os argumentos. por mais simples que nos pareçam. não podemos nos perder da História da Ciência e nem desprezar boas teorias alternativas. E. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . se quisermos compreender cada vez mais.157 Sobram-nos questões: Quais dos argumentos estudados não são válidos? Quais são? Quais novos argumentos surgirão? Poderemos um dia.

ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando. A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar... uma proposta alternativa de ensino relacionada ao movimento da Terra e ao conceito de Inércia. Desenvolvemos uma concepção da ciência como tradição cultural que incorpora aspectos como a compatibilidade do conhecimento científico com crenças metafísicas a culturalmente compartilhadas..Considerações Finais De tudo. a o uso legítimo de de propagandas.. uma escada. Da procura. um encontro. Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo .. Da queda um passo de dança.... a partir do encontro com noções da epistemologia de Paul Feyerabend. Apresentamos também.... Neste trabalho apresentamos algumas perspectivas para a análise do ensino de ciências.... uma ponte. (Fernando Pessoa). em função dessa perspectiva analítica. pluralidade metodológica.. Do sonho. Do medo. e do ensino de física em particular. A certeza de que precisamos continuar... existência conceitos .

ainda. a contaminação da observação por diferentes interpretações naturais e a compreensão de que as evidências empíricas são aprendidas dentro de uma cultura específica. explorar outros temas da Física a partir de teorias contrastantes e por uma abordagem cultural. etc. seria muito apropriado. em continuidade à nossa pesquisa. não consistindo em uma metodologia sistemática da pesquisa científica. recupera a natureza de arte-prática do processo educativo. No que se refere ao conflito obediência versus ousadia. Lakatos. As propostas alternativas. Kuhn. na formação científica de nível superior. seria bastante interessante associar este trabalho a um conjunto síntese completo das epistemologias de outros filósofos da ciência como Popper. como no exemplo da Mecânica .Considerações Finais 159 incomensuráveis entre teorias sucessivas ou concorrentes. Como resultado do olhar sobre a Educação desenvolvemos uma abordagem cultural que.. opondo-se às restrições de uma pedagogia distante ou autoritária. que se investigasse a dinâmica de trabalho e as relações coletivas de diferentes grupos de pesquisa e estudo de Física.. para uma compreensão mais ampla das idéias aqui discutidas. a noção de espaço-tempo ou as leis do eletromagnetismo são tópicos da Física que poderiam ser abordados segundo as perspectivas educacionais que desenvolvemos. Tendo em vista que a filosofia de Feyerabend se propõe a apresentar somente limitações aos sistemas metodológicos. professores e comunidade em que a escola está inserida. Laudan. podem ser obtidas de teorias novas. para o contraste. Como continuidade desse trabalho propomos. Bachelard. cumpre o papel de difundir as tradições culturais e respeita as diferentes aptidões e vontades manifestadas por alunos. A dualidade onda-partícula.

Também é de fundamental importância verificar em situação de ensino a resposta ao uso do texto subsídio aqui proposto.Considerações Finais 160 Relacional. enriquecer ou se opor às nossas observações quanto ao Ensino da Física. . ou de teorias há muito superadas. Por fim. Os resultados das atividades e as impressões de alunos e professores sobre a abordagem proposta podem consistir em um rico material de análise que permitiria complementar. O aprofundamento e a qualificação das nossas idéias sobre a visão da função dos especialistas. Mas há que se considerar sempre o contexto em que as idéias serão discutidas e a decisões nunca podem ser antecipadas. Como recomendou um outro poeta a um caminhante. professores e estudantes de Ciências. dentre muitas outras possibilidades. como a teoria do éter. o caminho se faz ao andar. cabe enfatizar que as idéias resultantes deste trabalho podem subsidiar mas não conduzir a prática de pesquisadores. poderiam também ser ampliados com investigações mais específicas. implícitas no ensino de ciências e na sociedade. a teoria do calórico.

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