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VI Seminário de Iniciação Científica – SóLetras - 2009 ISSN 1808-9216

VIDAS SECAS EM QUADRINHOS

Valdete Barros Esteves (G – UENP/JCR)


valdete.barrosesteves@hotmail.com
Adenize Franco (Orientadora – UENP/JCR)

Introdução

Tendo em vista que a “Arte Sequencial” é uma inovação no


âmbito da literatura, esta pesquisa tem como finalidade divulgar essa
nova maneira de transposição literária. Devemos, entretanto, reconhecer
que tal método não substitui nem tão pouco desvaloriza a literatura em
sua forma original, ao contrário, percebemos que essa linguagem
caracteriza-se como incentivo, visto que sem dúvidas atrairá
principalmente os leitores mais jovens.
Para tanto, essa comunicação tem o objetivo de estabelecer
uma comparação entre a obra literária “Vidas Secas”, de Graciliano
Ramos, e sua transposição para a “Arte Seqüencial”, ou “História em
Quadrinhos”, como é mais conhecida, bem como levar o leitor a conhecer
um pouco mais sobre essa nova forma de transposição literária.
A história em quadrinhos (HQs), segundo Will Eisner, pode
ser compreendida como uma possibilidade de dramatizar idéias, sendo
que tal recurso é caracterizado pelo movimento e permite a materialidade
da expressão, desta forma substitui a linearidade do verbo pela
simultaneidade de uma poética da ilustração.
Considerando a afirmação de Eisner, percebemos a relação
narrativa que existe entre o texto literário e a arte seqüencial. Desse
modo, buscaremos no decorrer desse artigo apresentar algumas relações
existentes entre essas duas formas artísticas que se aproximam através
de linguagens distintas.
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Graciliano Ramos e Vidas Secas

Graciliano Ramos nasceu em Quebrângulo, pequena cidade


do estado de Alagoas, a 27 de outubro de 1892. Era o mais velho dos
dezesseis filhos do casal Sebastião Ramos e Maria Amélia Ferro. Em 1904
Ramos fundou “O Dilúculo”, jornalzinho escolar responsável pela
publicação de seu primeiro conto “O pequeno mendigo”. O período de
1916 a 1920, apesar de ser marcado pela morte da esposa, foi também o
período em que rascunhou seus primeiros contos “A Carta” e “Entre
grades”, os quais foram embriões dos romances “São Bernardo” e
“Angústia”. Em 1933 foi editado seu primeiro livro “Caetés. Já em 1936 foi
preso sob a acusação de ser aliancista, passando por vários presídios até
janeiro de 1937, quando foi libertado e abrigado na casa de José Lins do
Rego. Foi em março de 1938 a publicação de “Vidas Secas”. Faleceu em
20 de março de 1953, aos sessenta anos. Por ironia, foi, postumamente,
que seus livros passaram a ter grande sucesso de público.
Na literatura, “Vidas Secas” insere-se no ciclo do romance
regionalista nordestino desenvolvido ao longo dos anos 30, constituindo-
se num dos marcos de Neo-Realismo na literatura brasileira. Foi traduzido
em mais de quinze idiomas e publicado em pelo menos vinte países.
Quanto ao título o autor idealizou chamá-lo “O mundo coberto de penas”,
depois cogitou denominá-lo “Fuga”, mas foi por sugestão de Daniel
Pereira, irmão do editor José Olimpio, que se chegou à expressão “Vidas
Secas”, como sendo a melhor condensação à áspera condição humana dos
personagens.
Trata-se de uma obra cuja seqüência é descontínua, o que
possibilita a leitura aleatória, estruturado em três movimentos: retirada –
permanência na fazenda – retirada. Percebe-se que a obra se passa na
caatinga, sem, contudo, querer exaltar aquele cenário e sim caracterizar a
capacidade que a fome tem de embrutecer o ser humano, como é
evidenciado em Fabiano. Desse modo, verificamos a marca da concisão no
estilo do escritor. Vale ressaltar ainda que Graciliano Ramos foi além de
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outros escritores regionalistas, pois não se deteve apenas a pesquisas da


região, mas fez também pesquisas psicológicas.
A genialidade do escritor transcende a meras pesquisas,
haja visto que consegue adentrar ao universo fantástico do pensamento
de uma cachorra, o que é brilhantemente desenvolvido principalmente no
capítulo “Baleia”, que foi o ponto de partida para o desenvolvimento da
obra em questão, prova disso é um trecho da carta que escreve a sua
esposa Heloisa de Medeiros Ramos:

Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil,


como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma duma
cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo.
O bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás.
(CASTRO, p.25, 2002).

É evidenciada no livro uma zoomorfização dos humanos,


devido ao fato de serem atormentados pela sede, fome e cansaço,
experimentando uma condição muito aquém do necessário para
sobrevivência, tudo culmina para o embrutecimento do ser humano.
Dentre todos os personagens o que mais demonstra esta
sequidão interior é Fabiano, neste sentido o livro retrata uma caatinga não
externa, mas interna, embrenhada no ser humano, tal qual o patriarca da
família, que por vezes é tão próximo como também tão distante do
homem. Em trechos do texto vemos o patriarca comparando, tanto ele
quanto a família a ratos, em outro momento diz-se um “cabra”,
remetendo a idéia de nível social inferior e também conotando a idéia de
animalização. Usa com a mulher e os filhos a mesma linguagem que
utiliza no tratamento com os animais. Diz ainda assemelhar-se a um
macaco, e completando a auto-imagem degradante de Fabiano, ele
considera-se “uma coisa da fazenda, um traste”, pois lhe falta uma
propriedade “vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios”, não era
digno de respeito. Entretanto o momento mais marcante desta secura
interior é quando o patriarca compara-se a um bicho e ainda orgulha-se
disso, conforme trecho extraído do livro, abaixo:
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Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém


tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:
- Você é um bicho, Fabiano.
Isso era para ele motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho capaz
de vencer dificuldades (RAMOS, p.18, 2002)

Em contraponto percebe-se um processo de


antropomorfização de Baleia, a cadela da família, apresentando
sentimentos e pensamentos nitidamente humanos:

Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa


camarinha,... Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo
cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano
enorme. (RAMOS, p.91, 2002).

Nota-se ainda que tal humanização é visível até mesmo


pelo fato de possuir um nome, visto que nem mesmo os filhos do casal
têm nomes, sendo chamados de “o menino mais novo” e “o menino mais
velho”.
Sabe-se que Vidas Secas foi o quarto romance de Graciliano
Ramos, publicado em 1938, logo após sua saída da prisão, depois de oito
meses preso. Um romance nascido de contos demonstra uma estrutura
diferenciada, de capítulos autônomos, ordenados por justaposição,
permitindo leituras variáveis e em seqüência aleatória. Nota-se, contudo,
que o capítulo “Baleia” é o único que recebe tratamento de conto, pois
contém um único conflito dramático, uma tensão interna acentuada por
um epílogo sem possibilidade de continuação, os demais não apresentam
tais características, são apenas quadros autônomos, que se justapõem,
com recorrências e cruzamentos entre si.
Tal seqüência compartimentada fez com que os
personagens tenham do mundo uma visão fragmentada e desconexa, o
que faz com que o leitor perceba um trabalho de amarração das imagens,
para que assim possa visualizar a totalidade do drama sertanejo, em que
as pessoas são simples, com sonhos pequenos, isso é evidenciado no
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personagem de Sinhá Vitória, cujo único sonho é ter uma cama de lastro
de couro.
Tendo em vista que esta pesquisa visa estabelecer uma
comparação, é importante ressaltar que tal comparação está conceituada
nas idéias de Tânia Franco Carvalhal quando diz:

Em síntese, o comparativismo deixa de ser visto apenas como


confronto entre obras e autores. Também não se restringe à
perseguição de uma imagem, de um tema, (...) ambiciona um
alcance ainda maior, que é o de contribuir para a elucidação de
questões literárias que exijam perspectivas mais amplas.
(CARVALHAL, p.86, 1992).

Baseados na afirmação da autora, busca-se a partir das


considerações até aqui expostas, estabelecer as relações existentes entre
o romance Vidas Secas e a transposição de alguns de seus capítulos para
os quadrinhos.

Arte Sequencial: Vidas Secas em quadrinhos

A HQ é considerada um dos principais contadores de


histórias através de imagens, empregando imagem e texto, ou diálogo.
Entretanto, apesar de lutar para ser aceita, ainda é tida como um veículo
problemático. Com a proliferação do uso de imagens, a partir da segunda
metade do século XX, a HQ ganhou destaque no âmbito da leitura visual.
A ascensão e o estabelecimento da revista em quadrinhos
se deram ao longo de mais de 60 anos, essa evolução partiu de tiras pré-
publicadas em jornais para as histórias completas e originais e
posteriormente para graphic novels, sendo, portanto necessária uma
maior sofisticação por parte do escritor e do artista.
Devido ao fato de a Arte Sequencial chamar mais atenção
para a forma do que para o conteúdo literário, é encarada como uma
ameaça à própria literatura. No texto, o ato de ler envolve uma conversão
de palavras em imagens, os quadrinhos por sua vez, aceleram esse
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processo fornecendo imagens, portanto pode ser usado não como


ameaça, mas como aliado do texto literário. Conforme Eisner:

A função fundamental da arte dos quadrinhos (tira ou revista), que


é comunicar idéias e/ou histórias por meio de palavras e figuras,
envolve movimento de certas imagens (tais como pessoas e
coisas) no espaço. Para lidar com a captura ou encapsulamento
desses eventos no fluxo da narrativa, eles devem ser decompostos
em segmentos seqüenciados. Esses segmentos são chamados
quadrinhos (EISNER, p.38, 2005).

Quanto à transposição de “Vidas Secas” para a “Arte


Seqüencial”, apesar de serem apenas quatro páginas, visto se tratar de
um piloto solicitado pela Editora Globo a Rodrigo Rosa, nota-se na cor
avermelhada a alusão ao calor, ao sol abrasador, como se ele existisse
apenas para castigá-los. A aridez e a representação de personagens
raquíticos retratam a fome. Percebe-se ainda que nas imagens a família
está caminhando, o que evidencia, desta forma, a itinerância e a fuga em
busca a um mínimo de meio de subsistência.
Vemos ainda urubus voando, à espreita de alimento,
simbolizando a morte. Os personagens estão em busca de sombra, como
demonstram os balões dos quadrinhos, tanto na capa, quanto no primeiro
quadro, conotando o calor insuportável a que estão expostos. Nota-se
ainda, o grande sofrimento no rosto da família, sendo que “Sinhá Vitória”,
apesar de todos os percalços ainda conserva o amor de mãe, pois está
carregando um baú na cabeça e o filho mais novo na cintura, remetendo à
idéia de proteção.
Quando o menino mais velho, fustigado pelo sol escaldante
e o cansaço, deita no chão, Fabiano, em primeira estância, é tomado pela
ira, tendo vontade de deixá-lo. Depois, condói-se e coloca-o nos ombros
carregando-o e ficando a viagem mais lenta ainda. Nota-se nos balões
uma linguagem direta, áspera, dura e agressiva, caracterizando o
vocabulário típico da região.
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(fig. 1 – primeira página da transposição de Rodrigo Rosa)

Rodrigo Rosa nasceu em Porto Alegre, em 11 de junho de


1972. Cartunista, ilustrador e jornalista formado pela PUC/RS, iniciou sua
carreira profissional publicando tiras de quadrinhos no jornal “Oi! Menino
Deus”, aos 14 anos. Anos mais tarde, integrou a Editora de Arte do Jornal
Zero Hora, onde passou a se dedicar mais à arte da ilustração, tendo
colaborado em obras de autores como Sérgio Caparelli (Os Meninos da
Rua da Praia), Moacir Sclyar (Uma História Farroupilha), Carlos Urbim (O
Negrinho de Pastoreio e Outras Lendas Gaúchas), Érico Veríssimo
(Aventuras do Tibicuera), entre outros. Como cartunista publicou charges
e cartuns em diversos jornais e revistas, e conquistou mais de 20 prêmios
em salões de humor no Brasil e no Exterior. Abaixo algumas mostras do
trabalho magnífico deste cartunista:

Conclusão
A pesquisa até aqui desenvolvida permite que percebamos
que as semelhanças e as diferenças entre a obra literária e sua
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transposição para a HQ são nitidamente claras, haja vista que em ambas


há o retrato da “fuga”, para uma vida melhor, com um mínimo de infra-
estrutura.
O sofrimento é determinante nas duas formas de
transposição literária, ficando caracterizado também o regionalismo, as
características territoriais e psicológicas do homem do agreste. Marca do
escritor, mas não só isso, uma vez que tanto uma obra quanto outra –
marcadas por suas linguagens distintas – caracterizam-se por chamar a
atenção para um problema que ainda assola a população que vive nas
regiões agrestes do Brasil.
Deve-se considerar, reiterando o que foi mencionado no
início desse artigo, que a transposição de Vidas Secas para os quadrinhos,
ainda que um trabalho não concluído, não pode ser encarado como um
substituto para a leitura da obra. Deve, sim, servir como apoio e elemento
de ampliação de conhecimento do leitor. Talvez, a partir dela o leitor
iniciante seja compelido à obra, ou vice-versa, mas o importante é se
perceber que tanto uma quanto outra possuem linguagens distintas bem
como objetivos também distintos.

Referências:

CARVALHAL, T. F. Literatura comparada. Série Princípios. São Paulo:


Ática, 1986.

CASTRO, Dácio Antônio. Roteiro de Leitura: Vidas Secas, de


Graciliano Ramos. São Paulo: Ática, 2002.

EISNER, Will. Narrativas gráficas. São Paulo: Devir, 2005.

____. Quadrinhos e Arte Seqüencial. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. São Paulo: Record, Martins, 1977.

ROSA, Rodrigo. Rodrigo Rosa. Disponível em:


<http://www.rodrigorosablog.blogspot.com, acesso em 27 de maio de
2009.